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Ritual do Toré: Etnia Potiguara e Ensino

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Ritual do Toré: Etnia Potiguara e Ensino

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Ensino Religioso

Henrique Herculano

Indígenas da etnia potiguara no ritual religioso do Toré, Rio Grande do Norte, Brasil.

MANUAL DO EDUCADOR
FORMAÇÃO CONTINUADA 9
Ensino Fundamental

SSE_ME_Ensino Religioso_6Aao9A_CCc.indd 4 08/03/23 14:39


Ensino Religioso
Henrique Herculano

Indígenas da etnia potiguara no ritual religioso do Toré, Rio Grande do Norte, Brasil.

MANUAL DO EDUCADOR
FORMAÇÃO CONTINUADA 9
Ensino Fundamental

SSE_ME_Ensino Religioso_6Aa9A_001a002.indd 7 14/11/2023 [Link]


O conteúdo deste livro está adequado à proposta da BNCC,
conforme a Resolução nº 2, de 22 de dezembro de 2017, do
Ministério da Educação.

Ensino Religioso Capa


9o ano do Ensino Fundamental Adriana Ribeiro
Foto: anghifoto - adobe stock. com
Henrique Herculano
Direção de arte
Editor Elto Koltz
Lécio Cordeiro
Coordenação editorial
Revisão de texto Multi Marcas Editoriais Ltda.
Departamento Editorial Rua Neto Campelo Júnior, 37
Mustardinha - Recife / PE
Projeto gráfico e CEP: 50760-330
editoração eletrônica Fone: (81) 3447.1178
Marcos Durant CNPJ: 00.726.498/0001-74
IE: 0214538-37
Ilustrações
Bruna Andrade Fizeram-se todos os esforços para localizar os detentores dos
Maria Renata direitos dos textos contidos neste livro. A editora pede desculpas
se houve alguma omissão e, em edições futuras, terá prazer em
incluir quaisquer créditos faltantes.

ISBN Aluno: 978-65-87997-36-0


ISBN Professor: 978-65-87997-77-3

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.
Impresso no Brasil.

SSE_ME_Ensino Religioso_6Aa9A_001a002.indd 8 14/11/2023 [Link]


Apresentação

Ao longo da história da educação brasileira, o Ensino Religioso assumiu diferentes perspec-


tivas teórico-metodológicas, geralmente de viés confessional ou interconfessional. A partir da
década de 1980, as transformações socioculturais que provocaram mudanças paradigmáticas no
campo educacional também impactaram no Ensino Religioso. Em função dos promulgados ideais
de democracia, inclusão social e educação integral, vários setores da sociedade civil passaram a
reivindicar a abordagem do conhecimento religioso e o reconhecimento da diversidade religiosa
no âmbito dos currículos escolares.
A Constituição Federal de 1988 (artigo 210) e a LDB nº 9.394/1996 (artigo 33, alterado pela Lei
nº 9.475/1997) estabeleceram os princípios e os fundamentos que devem alicerçar epistemologias
e pedagogias do Ensino Religioso, cuja função educacional, enquanto parte integrante da formação
básica do cidadão, é assegurar o respeito à diversidade cultural religiosa, sem proselitismos. Mais
tarde, a Resolução CNE/CEB nº 04/2010 e a Resolução CNE/CEB nº 07/2010 reconheceram
o Ensino Religioso como uma das cinco áreas de conhecimento do Ensino Fundamental de 09
(nove) anos.
[Link] | Artisticco
Ensino Religioso à luz da BNCC

Para o Ensino Religioso estabelecido como componente curricular de oferta obrigatória nas escolas
públicas de Ensino Fundamental, com matrícula facultativa, em diferentes regiões do País, foram elabo­
rados materiais didático-pedagógicos, propostas curriculares e cursos de formação inicial e continuada
que contribuíram para a construção dessa área de ensino, cujas natureza e finalidades pedagógicas são
distintas da confessionalidade.

Considerando os marcos normativos e em conformidade com as competências gerais estabelecidas


no âmbito da BNCC, o Ensino Religioso deve atender aos seguintes objetivos:

a) Proporcionar a aprendizagem dos conhecimentos religiosos, culturais e estéticos, a partir das


manifestações religiosas percebidas na realidade dos educandos.
b) Propiciar conhecimentos sobre o direito à liberdade de consciência e de crença, no constante
propósito de promoção dos direitos humanos.
c) Desenvolver competências e habilidades que contribuam para o diálogo entre perspectivas
religiosas e seculares de vida, exercitando o respeito à liberdade de concepções e o pluralismo
de ideias, de acordo com a Constituição Federal.
d) Contribuir para que os educandos construam seu sentido pessoal de vida a partir de valores,
princípios éticos e da cidadania.

[Link] | mordecio

I Manual do Educador | Fundamentação


O conhecimento religioso, objeto do Ensino Religioso, é produzido no âmbito das diferentes áreas do
conhecimento científico das Ciências Humanas e Sociais, notadamente da(s) Ciência(s) da(s) Religião(ões).
Essas Ciências investigam a manifestação dos fenômenos religiosos em diferentes culturas e sociedades
enquanto um dos bens simbólicos resultantes da busca humana por respostas aos enigmas do mundo, da
vida e da morte. De modo singular, complexo e diverso, esses fenômenos alicerçaram distintos sentidos
e significados de vida e diversas ideias de divindade(s), em torno dos quais se organizaram cosmovisões,
linguagens, saberes, crenças, mitologias, narrativas, textos, símbolos, ritos, doutrinas, tradições, movi-
mentos, práticas e princípios éticos e morais. Os fenômenos religiosos em suas múltiplas manifestações
são parte integrante do substrato cultural da humanidade.
Cabe ao Ensino Religioso tratar os conhecimentos religiosos a partir de pressupostos éticos e cien-
tíficos, sem privilégio de nenhuma crença ou convicção. Isso implica abordar esses conhecimentos com
base nas diversas culturas e tradições religiosas, sem desconsiderar a existência de filosofias seculares
de vida.
No Ensino Fundamental, o Ensino Religioso adota a pesquisa e o diálogo como princípios mediadores
e articuladores dos processos de observação, identificação, análise, apropriação e ressignificação de
saberes, visando ao desenvolvimento de competências específicas. Dessa maneira, busca problemati-
zar representações sociais preconceituosas sobre o outro, com o intuito de combater a intolerância, a
discriminação e a exclusão.
[Link] | MalikNalik

Manual do Educador | Fundamentação II


Valores Diálogo

Compreensão Respeito

Amor Paz

[Link] | shertut

Por isso, a interculturalidade e a ética da alteridade constituem fundamentos teóricos e pedagógicos


do Ensino Religioso, porque favorecem o reconhecimento e respeito às histórias, memórias, crenças,
convicções e valores de diferentes culturas, tradições religiosas e filosofias de vida.
O Ensino Religioso busca construir, por meio do estudo dos conhecimentos religiosos e das filosofias
de vida, atitudes de reconhecimento e respeito às alteridades. Trata-se de um espaço de aprendizagens,
experiências pedagógicas, intercâmbios e diálogos permanentes, que visam ao acolhimento das identida-
des culturais, religiosas ou não, na perspectiva da interculturalidade, dos direitos humanos e da cultura de
paz. Tais finalidades se articulam aos elementos da formação integral dos estudantes, na medida em que
fomentam a aprendizagem da convivência democrática e cidadã, princípio básico à vida em sociedade.
Considerando esses pressupostos, e em articulação com as competências gerais da BNCC, a área de
Ensino Religioso — e, por consequência, o componente curricular de Ensino Religioso — deve garantir
aos alunos o desenvolvimento de competências específicas.

III Manual do Educador | Fundamentação


Competências específicas de Ensino Religioso
para o Ensino Fundamental

1. Conhecer os aspectos estruturantes das diferentes tradições/movimentos reli-


giosos e filosofias de vida, a partir de pressupostos científicos, filosóficos, esté-
ticos e éticos.
2. Compreender, valorizar e respeitar as manifestações religiosas e filosofias de
vida, suas experiências e saberes, em diferentes tempos, espaços e territórios.
3. Reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza, enquanto
expressão de valor da vida.
4. Conviver com a diversidade de crenças, pensamentos, convicções, modos de
ser e viver.
5. Analisar as relações entre as tradições religiosas e os campos da cultura, da po-
lítica, da economia, da saúde, da ciência, da tecnologia e do meio ambiente.
6. Debater, problematizar e posicionar-se frente aos discursos e às práticas de
intolerância, discriminação e violência de cunho religioso, de modo a assegurar
os direitos humanos no constante exercício da cidadania e da cultura de paz.

[Link] | Monkey Business Images

Manual do Educador | Fundamentação IV


Ensino Religioso

O ser humano se constrói a partir de um conjunto de relações tecidas em deter-


minado contexto histórico-social, em um movimento ininterrupto de apropriação e
produção cultural. Nesse processo, o sujeito se constitui enquanto ser de imanência
(dimensão concreta, biológica) e de transcendência (dimensão subjetiva, simbólica).
Ambas as dimensões possibilitam que os humanos se relacionem entre si, com a
natureza e com a(s)divindade(s), percebendo-se como iguais e diferentes.
A percepção das diferenças (alteridades) possibilita a distinção entre o “eu” e o “ou-
tro”, “nós” e “eles”, cujas relações dialógicas são mediadas por referenciais simbólicos
(representações, saberes, crenças, convicções, valores) necessários à construção das
identidades.
Tais elementos embasam a unidade temática Identidades e alteridades, a ser abordada
ao longo de todo o Ensino Fundamental. Nessa unidade, pretende-se que os estudantes
reconheçam, valorizem e acolham o caráter singular e diverso do ser humano, por meio
da identificação e do respeito às semelhanças e diferenças entre o eu (subjetividade) e
os outros (alteridades), da compreensão dos símbolos e significados e da relação entre
imanência e transcendência.

[Link] | Queenmoonlite Studio

V Manual do Educador | Fundamentação


[Link] | Allistair/[Link]

A dimensão da transcendência é matriz dos fenômenos e das experiências religiosas,


uma vez que, em face da finitude, os sujeitos e as coletividades sentiram-se desafiados
a atribuir sentidos e significados à vida e à morte. Na busca de respostas, o ser humano
conferiu valor de sacralidade a objetos, animais, pessoas, forças da natureza ou seres
sobrenaturais, transcendendo a realidade concreta.
Essa dimensão transcendental é mediada por linguagens específicas, tais como
o símbolo, o mito e o rito. No símbolo, encontram-se dois sentidos distintos e com-
plementares. Por exemplo, objetivamente, uma flor é apenas uma flor. No entanto,
é possível reconhecer nela outro significado: a flor pode despertar emoções e trazer
lembranças. Assim, o símbolo é um elemento cotidiano ressignificado para representar
algo além de seu sentido primeiro. Sua função é fazer a mediação com outra realidade
e, por isso, é uma das linguagens básicas da experiência religiosa.
Tal experiência é uma construção subjetiva alimentada por diferentes práticas es-
pirituais ou ritualísticas, que incluem a realização de cerimônias, celebrações, orações,
festividades, peregrinações, entre outras. Enquanto linguagem gestual, os ritos narram,
encenam, repetem e representam histórias e acontecimentos religiosos. Dessa forma,
se o símbolo é uma coisa que significa outra, o rito é um gesto que também aponta
para outra realidade.

Manual do Educador | Fundamentação VI


Os rituais religiosos são geralmente realizados coletivamente em espaços e terri-
tórios considerados sagrados (montanhas, mares, rios, florestas, templos, santuários,
caminhos, entre outros), que se distinguem dos demais por seu caráter simbólico. Esses
espaços constituem-se em lócus de apropriação simbólico-cultural, onde os diferentes
sujeitos se relacionam, constroem, desenvolvem e vivenciam suas identidades religiosas.
Nos territórios sagrados, frequentemente atuam pessoas incumbidas da prestação
de serviços religiosos. Sacerdotes, líderes, funcionários, guias ou especialistas, entre
outras designações, desempenham funções específicas: difusão das crenças e doutrinas,
organização dos ritos, interpretação de textos e narrativas, transmissão de práticas,
princípios e valores, etc. Portanto, os líderes exercem uma função pública, e seus atos
e orientações podem repercutir sobre outras esferas sociais, tais como economia,
política, cultura, educação, saúde e meio ambiente.
Esse conjunto de elementos (símbolos, ritos, espaços, territórios e lideranças) in-
tegra a unidade temática Manifestações religiosas, em que se pretende proporcionar
o conhecimento, a valorização e o respeito às distintas experiências e manifestações
religiosas e a compreensão das relações estabelecidas entre as lideranças e denomi-
nações religiosas e as distintas esferas sociais.

[Link] | GraphicPapa

VII Manual do Educador | Fundamentação


Na unidade temática Crenças religiosas e filosofias de vida, são tratados aspectos
estruturantes das diferentes tradições/movimentos religiosos e filosofias de vida,
particularmente sobre mitos, ideia(s) de divindade(s), crenças e doutrinas religiosas,
tradições orais e escritas, ideias de imortalidade, princípios e valores éticos.
O mito é outro elemento estruturante das tradições religiosas. Ele representa a
tentativa de explicar como e por que a vida, a natureza e o cosmos foram criados.
Apresenta histórias dos deuses ou heróis divinos, relatando, por meio de uma linguagem
rica em simbolismo, acontecimentos nos quais as divindades agem ou se manifestam.
O mito é um texto que estabelece uma relação entre imanência (existência concre-
ta) e transcendência (o caráter simbólico dos eventos). Ao relatar um acontecimento,
o mito situa-se em um determinado tempo e lugar e, frequentemente, apresenta-se
como uma história verdadeira, repleta de elementos imaginários.
No enredo mítico, a criação é uma obra de divindades, seres, entes ou energias
que transcendem a materialidade do mundo. São representados de diversas maneiras,
sob distintos nomes, formas, faces e sentidos, segundo cada grupo social ou tradição
religiosa.

TRADIÇÕES
IDEIAS DE ESCRITAS
DIVINDADE
[Link] | 21PhotosARTS

PRINCÍPIOS
MOVIMENTOS VALORES
RELIGIOSOS ÉTICOS

TRADIÇÕES FILOSOFIAS
ORAIS DE VIDA

Manual do Educador | Fundamentação VIII


O mito, o rito, o símbolo e as divindades alicerçam as crenças, entendidas como um
conjunto de ideias, conceitos e representações estruturantes de determinada tradição
religiosa. As crenças fornecem respostas teológicas aos enigmas da vida e da morte, que
se manifestam nas práticas rituais e sociais sob a forma de orientações, leis e costumes.
Esse conjunto de elementos origina narrativas religiosas que, de modo mais ou
menos organizado, são preservadas e passadas de geração em geração pela oralida-
de. Desse modo, ao longo do tempo, cosmovisões, crenças, ideia(s) de divindade(s),
histórias, narrativas e mitos sagrados constituíram tradições específicas, inicialmente
orais. Em algumas culturas, o conteúdo dessa tradição foi registrado sob a forma de
textos escritos.
No processo de sistematização e transmissão dos textos sagrados, sejam eles orais,
sejam eles escritos, certos grupos sociais acabaram por definir um conjunto de princípios
e valores que configuraram doutrinas religiosas. Estas reúnem afirmações, dogmas e
verdades que procuram atribuir sentidos e finalidades à existência, bem como orientar
as formas de relacionamento com a(s) divindade(s) e com a natureza.
As doutrinas constituem a base do sistema religioso, sendo transmitidas e ensinadas
aos seus adeptos de maneira sistemática, com o intuito de assegurar uma compreensão
mais ou menos unitária e homogênea de seus conteúdos.

[Link] | annaspoka

IX Manual do Educador | Fundamentação


No conjunto das crenças e doutrinas religiosas, encontram-se ideias de imortalida-
de (ancestralidade, reencarnação, ressurreição, transmigração, entre outras), que são
norteadoras do sentido da vida dos seus seguidores. Essas informações oferecem aos
sujeitos referenciais tanto para a vida terrena quanto para o pós-morte, cuja finalidade
é direcionar condutas individuais e sociais, por meio de códigos éticos e morais. Tais
códigos, em geral, definem o que é certo ou errado, permitido ou proibido. Esses
princípios éticos e morais atuam como balizadores de comportamento, tanto nos ritos
como na vida social.
Também as filosofias de vida se ancoram em princípios cujas fontes não advêm do
universo religioso. Pessoas sem religião adotam princípios éticos e morais cuja origem
decorre de fundamentos racionais, filosóficos, científicos, entre outros. Esses princípios,
geralmente, coincidem com o conjunto de valores seculares de mundo e de bem, tais
como: o respeito à vida e à dignidade humana, o tratamento igualitário das pessoas,
a liberdade de consciência, crença e convicções e os direitos individuais e coletivos.
Cumpre destacar que os critérios de organização das habilidades na BNCC (com a
explicitação dos objetos de conhecimento aos quais se relacionam e do agrupamento
desses objetos em unidades temáticas) expressam um arranjo possível (entre outros).
Portanto, os agrupamentos propostos não devem ser tomados como modelo obriga-
tório para o desenho dos currículos.
[Link] | [Link]

Manual do Educador | Fundamentação X


A avaliação a serviço da aprendizagem

A aprendizagem e, consequente e simultaneamente, a avaliação devem ser orientadas e dirigidas pelo


currículo — como ideia global de princípios e marco conceitual de referência que concretiza em práticas
específicas a educação como projeto social e político — e pelo ensino, o qual deve inspirar-se nele.
Partindo dos pressupostos construtivistas sobre o ensino e a aprendizagem, e levando-se em conta
a teoria implícita que ilumina o currículo, devemos reconhecer que um bom ensino contribui positiva-
mente para tornar boa a aprendizagem e que uma boa atividade de ensino e de aprendizagem torna
boa a avaliação.
Do mesmo modo, devemos reconhecer que uma boa avaliação torna boa a atividade de ensino e
boa a atividade de aprendizagem. Assim, estabelece-se uma relação simétrica e equilibrada entre cada
um dos elementos que compõem o “currículo total”, considerado como meio ideal de aprendizagem e
como tempo e lugar de intercâmbio no qual são construídas, cooperativa e solidariamente, as aprendi-
zagens escolares.
O que fica claro é que, em nenhum caso, a preocupação com os exames — que podem ser, razoa-
velmente bem-utilizados, recursos aceitáveis, embora não únicos de avaliação — deve condicionar e
dirigir a aprendizagem; tampouco, evidentemente, deve condicionar o currículo e o ensino. Não pode-
mos perder de vista que os exames, qualquer que seja a forma que adotem, devem estar a serviço da
aprendizagem, do ensino e do currículo e antes, é claro, do sujeito que aprende. Do contrário, serão os
exames, e não o currículo proclamado nem o currículo praticado, os que determinarão o currículo real
e o que ele representa.

[Link] | Jacob Lund

XI Manual do Educador | Fundamentação


[Link] | Xavier Lorenzo

A partir de uma interpretação tradicional da avaliação, própria da função designada, o professor tem
desempenhado um papel decisivo, além de decisório, de um modo unidirecional. O papel destinado a
quem aprende é o de responder a quantas perguntas sejam-lhes formuladas. A mudança no enfoque e
na concepção de todo o processo deve levar, necessariamente, a uma mudança no papel que as técnicas
devem desempenhar na implementação da avaliação.
A partir de concepções alternativas, e mais de acordo com os novos enfoques curriculares, orientados
pela racionalidade prática e crítica, quem aprende tem muito o que dizer do que aprende e da forma
como o faz, sem que sobre a sua palavra gravite constantemente o peso do olho avaliador que tudo
vê e tudo julga. Por esse caminho, podemos chegar a descobrir a qualidade do aprendido e a qualidade
do modo pelo qual o aluno aprende, as dificuldades que encontra e a natureza delas, a profundidade
e a consistência do aprendizado, bem como a capacidade geradora para novas aprendizagens daquilo
que hoje damos por aprendido apenas tendo ouvido e estudado em um texto. Essa é a avaliação que
considera o valor agregado do ensino como indicador válido da qualidade da educação.

Manual do Educador | Fundamentação XII


ENSINO RELIGIOSO – 6º ANO

UNIDADE TEMÁTICA OBJETOS DE CONHECIMENTO

Tradição escrita: registro dos ensinamentos


sagrados

Crenças religiosas e filosofias de vida Ensinamentos da tradição escrita

Símbolos, ritos e mitos religiosos

ENSINO RELIGIOSO – 7º ANO

UNIDADE TEMÁTICA OBJETOS DE CONHECIMENTO

Místicas e espiritualidades

Manifestações religiosas

Lideranças religiosas

Princípios éticos e valores religiosos

Crenças religiosas e filosofias de vida

Liderança e direitos humanos

XIII Manual do Educador | Fundamentação


HABILIDADES

(EF06ER01) Reconhecer o papel da tradição escrita na preservação de memórias,


acontecimentos e ensinamentos religiosos.

(EF06ER02) Reconhecer e valorizar a diversidade de textos religiosos escritos (textos


do Budismo, Cristianismo, Espiritismo, Hinduísmo, Islamismo, Judaísmo, entre outros).

(EF06ER03) Reconhecer, em textos escritos, ensinamentos relacionados a modos


de ser e viver.

(EF06ER04) Reconhecer que os textos escritos são utilizados pelas tradições reli-
giosas de maneiras diversas.

(EF06ER05) Discutir como o estudo e a interpretação dos textos religiosos influen-


ciam os adeptos a vivenciarem os ensinamentos das tradições religiosas.

(EF06ER06) Reconhecer a importância dos mitos, ritos, símbolos e textos na estru-


turação das diferentes crenças, tradições e movimentos religiosos.

(EF06ER07) Exemplificar a relação entre mito, rito e símbolo nas práticas celebrativas
de diferentes tradições religiosas.

HABILIDADES

(EF07ER01) Reconhecer e respeitar as práticas de comunicação com as divindades


em distintas manifestações e tradições religiosas.
(EF07ER02) Identificar práticas de espiritualidade utilizadas pelas pessoas em de-
terminadas situações (acidentes, doenças, fenômenos climáticos).
(EF07ER03) Reconhecer os papéis atribuídos às lideranças de diferentes tradições
religiosas.
(EF07ER04) Exemplificar líderes religiosos que se destacaram por suas contribuições
à sociedade.
(EF07ER05) Discutir estratégias que promovam a convivência ética e respeitosa
entre as religiões.
(EF07ER06) Identificar princípios éticos em diferentes tradições religiosas e filosofias
de vida, discutindo como podem influenciar condutas pessoais e práticas sociais.

(EF07ER07) Identificar e discutir o papel das lideranças religiosas e seculares na


defesa e promoção dos direitos humanos.
(EF07ER08) Reconhecer o direito à liberdade de consciência, crença ou convicção,
questionando concepções e práticas sociais que a violam.

Manual do Educador | Fundamentação XIV


ENSINO RELIGIOSO – 8º ANO

UNIDADE TEMÁTICA OBJETOS DE CONHECIMENTO

Doutrinas religiosas

Crenças religiosas e filosofias de vida

Crenças, convicções e atitudes

Crenças, filosofias de vida e esfera pública

Tradições religiosas, mídias e tecnologias

ENSINO RELIGIOSO – 9º ANO

UNIDADE TEMÁTICA OBJETOS DE CONHECIMENTO

Imanência e transcendência

Crenças religiosas e filosofias de vida Vida e morte

Princípios e valores éticos

XV Manual do Educador | Fundamentação


HABILIDADES

(EF08ER01) Discutir como as crenças e convicções podem influenciar escolhas e


atitudes pessoais e coletivas.
(EF08ER02) Analisar filosofias de vida, manifestações e tradições religiosas desta-
cando seus princípios éticos.

(EF08ER03) Analisar doutrinas das diferentes tradições religiosas e suas concepções


de mundo, vida e morte.

(EF08ER04) Discutir como filosofias de vida, tradições e instituições religiosas podem


influenciar diferentes campos da esfera pública (política, saúde, educação, economia).
(EF08ER05) Debater sobre as possibilidades e os limites da interferência das tradi-
ções religiosas na esfera pública.
(EF08ER06) Analisar práticas, projetos e políticas públicas que contribuem para a
promoção da liberdade de pensamento, crenças e convicções.

(EF08ER07) Analisar as formas de uso das mídias e tecnologias pelas diferentes


denominações religiosas.

HABILIDADES

(EF09ER01) Analisar princípios e orientações para o cuidado da vida e nas diversas


tradições religiosas e filosofias de vida.
(EF09ER02) Discutir as diferentes expressões de valorização e de desrespeito à vida,
por meio da análise de matérias nas diferentes mídias.

(EF09ER03) Identificar sentidos do viver e do morrer em diferentes tradições reli-


giosas, através do estudo de mitos fundantes.
(EF09ER04) Identificar concepções de vida e morte em diferentes tradições religiosas
e filosofias de vida, por meio da análise de diferentes ritos fúnebres.
(EF09ER05) Analisar as diferentes ideias de imortalidade elaboradas pelas tradições
religiosas (ancestralidade, reencarnação, transmigração e ressurreição).

(EF09ER06) Reconhecer a coexistência como uma atitude ética de respeito à vida


e à dignidade humana.
(EF09ER07) Identificar princípios éticos (familiares, religiosos e culturais) que possam
alicerçar a construção de projetos de vida.
(EF09ER08) Construir projetos de vida assentados em princípios e valores éticos.

Manual do Educador | Fundamentação XVI


Sumário

1o
momento
O cuidado com a vida
Vamos dialogar.................................................................................................................6
Você foi adicionado ........................................................................................................ 6
Exercitando o que aprendemos...................................................................................12
Refletindo sobre o tema................................................................................................14
Saúde mental.................................................................................................................... 14
Trabalhando o tema........................................................................................................20
Agora é sua vez!...............................................................................................................22

2o
momento
Os muitos sentidos do viver e do morrer
Vamos dialogar.................................................................................................................24
Ritos e mitos indígenas .................................................................................................. 24
Exercitando o que aprendemos ..................................................................................27
Refletindo sobre o tema................................................................................................28
Vida e morte: uma relação indissociável.................................................................... 28
Trabalhando o tema........................................................................................................40
Agora é sua vez!...............................................................................................................42

3o
momento
O diálogo como uma atitude ética de respeito à vida e à
dignidade humana
Vamos dialogar.................................................................................................................44
Em defesa dos direitos e da dignidade humana........................................................ 44
Exercitando o que aprendemos...................................................................................46
Refletindo sobre o tema................................................................................................49
A dignidade do ser humano como uma necessidade ética.................................... 49
Trabalhando o tema........................................................................................................56
Agora é a sua vez!............................................................................................................58

4o
momento
Racismo, preconceito e intolerância: os limites da
liberdade de expressão
Vamos dialogar.................................................................................................................61
Liberdade de expressão e discurso de ódio............................................................... 61
Exercitando o que aprendemos...................................................................................69
Refletindo sobre o tema................................................................................................72
Alteridade e cultura: como combater os conflitos?.................................................. 72
Trabalhando o tema........................................................................................................75
Agora é sua vez!...............................................................................................................77
Conheça o Manual
Este Manual do Educador foi planejado para oferecer ao professor suporte didático para
suas aulas. Levando em consideração que o trabalho em sala de aula é desenvolvido,
em sua melhor forma, pela atenção dada pelo docente a detalhes que só ele conhece,
como os diferentes níveis de aprendizado e interesse dos alunos. O que trazemos neste
compêndio são sugestões bem elaboradas que esperamos ser úteis no processo de
ensino e aprendizagem.

Diálogo com o professor


Nesta seção, buscamos lembrar ao edu-
cador pontos importantes no tratamento
Abertura de capítulo dos conteúdos. Além disso, justificamos
Sumário do livro do aluno Ao lado de cada abertura do capítulo, há determinadas abordagens, argumentamos
Neste momento, você pode acompanhar o seções com os objetivos pedagógicos e em prol de determinados pontos de vista em
sumário do livro do aluno para que ele pos- com as habilidades propostas pela Base relação ao ensino, à língua e a algum tema
sa nortear o seu trabalho ao longo do ano. Nacional Comum Curricular (BNCC) que determinado, tornando o diálogo constante
Isso facilitará na busca pelos conteúdos. serão trabalhadas no capítulo. a partir de experiências e informações.

Sugestão de abordagem Leitura complementar


Aqui, oferecemos dicas de como se tra- Textos teóricos contendo endereços eletrô-
balhar determinado conteúdo de modo nicos para pesquisa compõem esta seção. Sugestão de leitura
que prenda a atenção do aluno ou seja Esperamos que tudo isso possa aprimorar Esta seção foi elaborada com o objetivo
uma forma interessante de se desenvol- o trabalho do professor, principalmente de colaborar com sua prática de ensino
ver alguma atividade. Por vezes, também por levá-lo a ampliar seu repertório com abordando os conteúdos a partir de ou-
disponibilizamos modelos de sequência vistas a um ensino-aprendizagem eficaz e tras perspectivas, baseada no conteúdo
didática. construtivo. especificado no capítulo.

Sugestão de
vídeo e filme
Em um mundo marcado pela impor-
Para refletir tância das imagens e tecnologias,
Nesta seção, existem textos criados o uso de recursos audiovisuais é
com o objetivo de levar o profes- fundamental para tratar os temas
sor a refletir com os alunos sobre abordados no livro. Dessa forma,
questões da vida cotidiana de modo há vídeos e filmes que poderão ser
geral, as quais, por vezes, negligen- visitados pelo docente por meio de
ciamos. QR Codes e de pesquisa na Internet.
BNCC – Habilidades
trabalhadas no capítulo

1o
(EF09ER01) Analisar princípios e orienta-
ções para o cuidado da vida e nas diversas O cuidado com a vida
tradições religiosas e filosofias de vida. momento

(EF09ER02) Discutir as diferentes ex-


pressões de valorização e de desres-
peito à vida, por meio da análise de
matérias nas diferentes mídias.

Você foi adicionado

Você já parou para pensar no quanto a sua família, os seus amigos,


Objetivos pedagógicos
os colegas de escola ou até as pessoas que você conheceu nas redes
sociais estão influenciando seu modo de viver?
Comprovadamente, nós, seres humanos, tendemos a ser influenciados
Ҍ Analisar os cuidados com a vida, por todas as pessoas que interagem conosco — como se fôssemos uma
a prática da religião e as filosofias esponja que absorve os líquidos que estão por perto —, mesmo que indi-
de vida. retamente. Os pesquisadores Nicholas A. Christakis e James H. Fowler, por
exemplo, comprovaram, por meio de um estudo com duração de 32 anos,
Ҍ Compreender as discussões que “O ser humano tende a
imitar outras pessoas, seja que uma pessoa que convive diretamente com outra pessoa feliz se sente
envolvem a intolerância nas mí- como criança ou como por volta de 15% mais feliz. Dessa forma, podemos afirmar que é possível
dias sociais. adulto, e isso em diversas
motivar outras pessoas a permanecerem em um estado de felicidade.
áreas da nossa vida, seja
na alegria ou na tristeza Há algum tempo, nossas relações humanas existiam única e ex-
ou então na saúde ou na clusivamente no mundo físico, e essas interações aconteciam em
doença.” locais comuns, como na escola, na praça, na igreja, etc. No entanto,
Diálogo com o professor Helio Contador
com o avanço da tecnologia, temos um outro mundo ao qual esta-
mos conectados praticamente o dia todo: o mundo virtual, no qual
Professor, seria interessante realizar dinâ- criamos comunidades, grupos e diversas interações. O ser humano
conseguiu colocar as relações, que antes eram palpáveis, em um
micas que possam promover sentimentos
ambiente imaterial.
de reciprocidade, pois os alunos passam
Atualmente, é possível compartilhar sentimentos, ideologias, pen-
a experienciar o papel e a situação do samentos e situações com todos que estiverem conectados à rede
outro, aprendendo, por essa via, o sen- mundial de computadores. As influências interpessoais, que outrora
tido da cooperação humana. Por isso, a tinham um limite físico, agora ultrapassam as barreiras geográficas,
dinâmica da reciprocidade é um convite à colocando o ser humano em uma aldeia global. Chamamos esse fe-
vivência e a experimentações que buscam nômeno de contágio social.
o enriquecimento da formação humana.
6 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 6 01/09/2023 [Link]

Sugestão de abordagem

Professor, reflita com os alunos que, às vezes, nos envolvemos tanto em nossas tarefas diárias que esque-
cemos de apreciar a beleza e a singularidade de cada momento que vivemos. Por isso, convide-os a refletir
sobre estes pontos e a cultivar uma abordagem mais consciente e significativa em relação à vida.
Ҍ Aprecie as pequenas coisas: a vida está repleta de momentos simples e belos. Aprenda a valorizar os
pequenos prazeres cotidianos, como um sorriso, um abraço ou um pôr do sol. Eles podem trazer uma
profunda sensação de gratidão e felicidade.
Continua

6 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Ҍ Busque o equilíbrio: encontre um
equilíbrio saudável entre o trabalho,
O pensamento lido, de Helio Contador, corrobora a teoria do os estudos, os relacionamentos e
contágio social. Nós somos suscetíveis ao aprendizado por contato
o tempo para si mesmo. Priorize
e, inconscientemente, reproduzimos maneiras de falar e comporta-
suas atividades de acordo com seus
mentos de pessoas que convivem conosco.
valores e necessidades, evitando o
Observe a tirinha a seguir:
esgotamento físico e mental.
Reprodução.

Ҍ Cultive a gratidão: pratique a gra-


tidão diariamente, reconhecendo
as bênçãos em sua vida. Focar no
que é positivo ajuda a cultivar uma
mentalidade otimista e a valorizar
Disponível em: [Link] Acesso em: 25/11/2019. as experiências que são oferecidas
a você.
Certamente, você já deve ter ouvido alguma vez a frase usada na
Ҍ Descubra sua paixão: explore seus
tirinha: “Diga-me com quem tu andas e eu direi quem tu és”. Em outras
interesses e encontre algo que re-
palavras, ela quer dizer que você é influenciado pelas pessoas com
quem se relaciona e compartilha seus momentos, logo você pode ser
almente o apaixone. Ao seguir sua
reconhecido como uma delas. A teoria do contágio social tem a ver paixão, você encontrará um pro-
com essa máxima. Se você anda ao lado de pessoas bem-humoradas, pósito maior na vida e sentirá uma
existe uma grande possibilidade de ser bem-humorado também; se sensação de realização pessoal.
você anda com pessoas irritadiças, tem mais chances de ser irritadiço. Ҍ Cultive a resiliência: a vida pode
A relação do mundo virtual com nossas interações humanas
apresentar desafios, mas é impor-
nos causa uma falsa sensação de proximidade, pois, por não haver
tante desenvolver a habilidade de
confinidade física entre pessoas, muitas informações essenciais se
perdem, como o olhar, o som da voz e o toque. Estes são mecanis-
se recuperar e seguir em frente. A
mos que fazem com que a comunicação humana seja vivenciada de resiliência nos ajuda a superar obs-
maneira mais completa. táculos e a crescer como indivíduos.
Do mesmo modo que ela nos coloca em contato global — juntan- Ҍ Pratique a empatia: procure en-
do-nos a pessoas que tenham a mesma base ideológica, que compar- tender e se colocar no lugar dos
tilham do mesmo posicionamento político, gostos musicais, etc. —, a outros. A empatia nos conecta
Internet nos afasta do mundo real, fazendo com que nos alienemos
uns aos outros e nos permite
e agrupemo-nos em conjuntos de pessoas fechadas e, muitas vezes,
Confinidade: Dito construir relacionamentos mais
impossibilitadas de ver o restante do mundo sob outros aspectos. das pessoas que es-
É muito importante que nos juntemos em grupos — inclusive isso é tão muito próximas
profundos e significativos.
natural à humanidade —, no entanto mais importante ainda é com- umas às outras a tal Ҍ Seja um agente de mudança po-
ponto que podem se
preendermos que existem outras correntes de pensamentos e um tocar. sitiva: contribua para o bem-es-
mundo real para ser desfrutado e vivido. tar da sociedade e do planeta.
Pequenas ações podem ter um
Religião em Diálogo – 90 ano 7 grande impacto, portanto, faça
a sua parte para tornar o mundo
Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 7 01/09/2023 [Link]
um lugar melhor.
Ҍ Cuide do seu corpo: lembre-se de que você só tem um corpo e Ҍ Busque o autoconhecimento: se-
é seu dever cuidar dele. Pratique exercícios físicos, alimente-se pare um tempo para refletir sobre
de forma saudável e durma o suficiente. Ao cuidar de si mesmo, suas próprias emoções, crenças e
você estará garantindo sua saúde e seu bem-estar. valores. Ao se conhecer melhor,
Ҍ Desenvolva relacionamentos significativos: a vida ganha sentido você poderá tomar decisões mais
quando compartilhamos momentos com pessoas que amamos. alinhadas com sua verdadeira
Cultive relacionamentos saudáveis e nutra-os com amor, com- essência e viverá de forma mais
preensão e apoio mútuo. autêntica.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 7


Sugestão de abordagem

As redes sociais tornaram-se uma Veja as consequências de nos abstermos da vida real e dedicarmos nosso tempo apenas
parte integrante de nossa vida, permitin- ao mundo virtual e às suas sombras.
do-nos conectar com pessoas ao redor
do mundo e compartilhar experiências. A pessoa viciada nas redes sociais tem a sensação de prazer quando visualiza as curtidas e os
No entanto, essa interação constante compartilhamentos das postagens e com as constantes mensagens recebidas nos aplicativos, por
exemplo no WhatsApp. Tudo isso ocorre porque, à medida que a pessoa vai utilizando esses apli-
com as redes sociais também levanta cativos, entram em ação neurotransmissores que liberam dopamina — hormônio responsável pela
questões sobre seu impacto na saúde sensação de prazer.
mental. Além disso, os algoritmos utili-
zados nessas plataformas desempenham
um papel fundamental na compreensão
de nossas preferências e personalidade.
A partir disso, professor, destaque al- Encontro com os amigos Relacionamentos

guns pontos descritos abaixo para que


os alunos fiquem atentos a alguns riscos
presentes nas redes sociais. A reunião ocorre com pessoas Os casais se distanciam, mes-
dispersas em seus aparelhos. mo dentro de casa, porque o
Ҍ Conexão e isolamento social: As celular os individualiza.

redes sociais podem ser uma fer-


ramenta poderosa para manter Elas não se falam e preferem O uso indiscriminado pode levar
contato com amigos e familiares. conversar com os amigos vir- casais a se distanciarem, geran-
No entanto, o uso excessivo e a tuais. do grandes desentendimentos,
e, por conta do pouco contato,
dependência dessas plataformas a não saberem lidar com os pro-
podem levar ao isolamento social e blemas, chegando até ao térmi-
Compartilhar o momento com
à diminuição da interação pessoal, os amigos via redes sociais
no do relacionamento.

o que pode afetar negativamente torna-se mais importante que


aproveitar o momento.
nossa saúde mental. Os momentos a dois são in-
terrompidos para curtir uma
Ҍ Comparação social e baixa autoes- publicação ou responder uma
tima: As redes sociais, muitas vezes, Pais e filhos mensagem do WhatsApp.

promovem uma cultura de compa-


ração, na qual as pessoas tendem
a exibir apenas as melhores partes A família reunida à O carinho e as horas de Nas horas de lazer, os pais
mesa para uma re- conversas e conselhos são preferem tirar fotos ou fazer
da vida delas. Isso pode levar a sen- feição não conver- trocados por momentos de vídeos dos filhos para postar
timentos de inadequação e baixa sa, porque o uso do isolamento: cada um em um no “grupo da família” no lugar
celular é mais impor- cômodo da casa mexendo em de viver o momento juntos.
autoestima, já que nos comparamos tante. suas redes sociais.
constantemente com o outro e sua
suposta vida perfeita.
8 Religião em Diálogo – 90 ano
Ҍ Dependência e ansiedade: A no-
tificação constante de novas atu- Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 8 01/09/2023 [Link]

alizações e a necessidade de estar sempre conectado podem criar uma dependência das redes sociais.
Essa dependência pode levar à ansiedade, à necessidade de validação constante e à sensação de estar
sempre perdendo algo importante.
Ҍ Disseminação de informações falsas: As redes sociais são propícias para a disseminação rápida de infor-
mações, mas nem todas são precisas. Isso pode levar à confusão, desinformação e até mesmo afetar nossa
saúde mental quando somos expostos a notícias falsas, teorias da conspiração ou informações prejudiciais.
Ҍ O papel dos algoritmos: Os algoritmos usados pelas redes sociais têm a capacidade de entender nossos

Continua

8 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


onde somos expostos apenas a
ideias e opiniões semelhantes às
Sombras: Referência às sombras que Platão, filósofo grego, menciona em seu
texto O mito da caverna, no qual ele dizia que algumas pessoas ficaram presas nossas, limitando nossa visão de
em uma caverna e só viam o mundo real por meio de sombras do que acontecia mundo.
do lado de fora, projetadas na parede, e para essas pessoas isso bastava. Por
meio dessa referência, o autor faz uma analogia entre as pessoas do texto de Ҍ Manipulação e viés de confir-
Platão e as pessoas da atualidade que se contentam com relacionamentos me-
diados pela virtualidade que a Internet proporciona, tirando delas a capacidade mação: Os algoritmos também
de serem sensíveis e conhecerem, de fato, outras pessoas. podem ser manipulados para
influenciar nossas opiniões e
comportamentos. Eles tendem a
O site de relacionamentos Facebook, criado em 2004, ajuda-nos mostrar conteúdos que se alinham
a entender como as redes de relacionamento virtual interferem em com nossas crenças existentes,
nosso comportamento individual por meio da interação com uma co- reforçando o viés de confirma-
letividade que se conecta a elas. Muitas pessoas ficam dependentes ção e limitando nossa exposição
das informações advindas delas. Desde 2008, o Facebook tornou-se a diferentes perspectivas.
o lugar de encontro de, aproximadamente, dois bilhões de usuários
(de acordo com a pesquisa da Statista, um portal on-line alemão de Ҍ Preocupações com a privacidade:
estatísticas) das mais variadas nacionalidades, falantes de diferentes O uso de algoritmos para coletar
línguas e com os mais diversos costumes. informações sobre nós também
Nós, seres humanos, tendemos a nos juntar, o que talvez explique levanta preocupações sobre a
o fenômeno das redes sociais; e esse ajuntamento tem como principal privacidade e o uso indevido de
objetivo a sobrevivência. Nos primórdios da humanidade, os grupos
nossos dados pessoais. É impor-
humanos se juntavam para se proteger dos perigos do ambiente de
tante estar ciente das políticas
forma cooperativa. Hoje em dia, grupos podem ser constituídos por
diversos motivos, como laços afetivos (família, amigos, vizinhos, etc.)
de privacidade das redes sociais
e gostos em comum (como gosto musical, gastronomia, leitura, etc.). e tomar medidas para proteger
Qualquer pessoa pode se juntar a outras nas redes sociais virtuais, nossas informações pessoais.
desde que tenha acesso à Internet. No entanto, antes de serem mais
As redes sociais e os algoritmos que
um membro adicionado à rede, as pessoas experienciam contatos Hater: em português,
quer dizer odiento, as impulsionam desempenham um pa-
reais com seus membros familiares, conhecidos do convívio escolar,
vizinhança, etc., e isso interfere radicalmente no modo como as in-
odiador. Hater é um pel complexo em nossa vida moderna.
termo usado na In-
terações virtuais acontecerão. Pessoas que aprenderam a respeitar ternet para classificar
Embora possam ser ferramentas po-
a diversidade dos colegas de sala, por exemplo, saberão respeitar a pessoas que postam derosas de conexão e comunicação,
individualidade dos demais que fazem uso das redes sociais; por outro comentários de ódio
também é importante reconhecer os
ou críticas com pouco
lado, existem aqueles que, infelizmente, não sabem respeitar a opinião ou nenhum critério. possíveis impactos negativos para
e o estilo de vida de outras pessoas, tornando-se, assim, haters. nossa saúde mental. Devemos estar
conscientes do uso das redes sociais,
Religião em Diálogo – 90 ano 9 equilibrando o tempo gasto nelas com
outras atividades significativas off-line.
Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 9 01/09/2023 [Link]
Além disso, é fundamental estarmos
padrões de comportamento, interesses e preferências com base atento às informações que consu-
em nosso histórico de interações. Eles analisam os conteúdos mimos e às maneiras pelas quais os
que compartilhamos, curtimos e comentamos, criando perfis algoritmos moldam nosso ambiente
detalhados sobre nós. on-line. Ao desenvolver um relaciona-
Ҍ Personalização do conteúdo: Os algoritmos utilizam essas in- mento saudável com as redes sociais
formações para personalizar nosso feed de notícias e mostrar e os algoritmos, podemos minimizar
conteúdos que são mais relevantes para nós. Embora isso possa os impactos negativos e aproveitar ao
ser conveniente, também pode criar uma bolha de informação, máximo essas plataformas.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 9


Leitura complementar

O mundo virtual é um reflexo daquilo que vivemos como socie-


Contágio social: somos um “bando
dade; e, assim como em um espelho, nosso modo de viver no mundo
de Maria vai com as outras”? real pode influenciar as pessoas que participam do meio virtual. Da
Uma das apresentações mais insti- mesma forma, as influências que recebemos no mundo virtual podem
interferir em nosso dia a dia.
gantes foi a do cientista comportamen-
Como dizia Guimarães Rosa, escritor e médico brasileiro:
tal holandês Kees Keizer, que examinou
as evidências por trás da teoria das ja-
nelas quebradas. Remetendo à Nova “É junto dos bão que a gente fica mió”.

York dos anos 1980, quando a cidade


enfrentava altos índices de criminali-
dade, a teoria postula que, quando se O texto a seguir foi extraído do prólogo do livro Inteligência emo-
quebra uma regra local, outras violações cional, de Daniel Goleman. O excerto conta a história, narrada pelo
tendem a ser cometidas. próprio autor, de um motorista de ônibus que usa, talvez sem saber,
Os estudos de Keizer indicam que, do contágio social para melhorar a vida das pessoas.
dependendo do contexto, realmente
um efeito em cadeia entra em cena,
O desafio de Aristóteles
estimulando-nos a repetir boas ou más
ações. “Pode soar brega, mas o fato Qualquer um pode zangar-se — isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa,
é que a atitude de uma única pessoa na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa não é fácil.

pode fazer a diferença”, diz o cientista. Aristóteles, Ética a Nicômaco

O experimento das bicicletas Era verão em Nova York, e, naquela tarde, fazia um calor sufo-
cante, insuportável. As pessoas andavam pelas ruas mal-humoradas,
O professor Kees Keizer, da Univer- em visível desconforto. Na avenida Madison, peguei um ônibus para
sidade de Groningen, na Holanda, con- voltar para o hotel. Ao entrar, fui surpreendido com a saudação que
jecturou o seguinte experimento para veio do motorista: “Oi, como vai?”. Esse homem negro de meia-idade
testar o impacto do contágio social. Em e largo sorriso repetiu a mesma saudação a todos os outros passa-
um beco onde se estacionavam bicicle- geiros que foram entrando ao longo do percurso no denso tráfego
tas, sua equipe espalhava panfletos so- do centro da cidade. Todos, como eu, surpreendiam-se, mas, porque
estavam com o humor comprometido pelas condições climáticas do
bre elas. No primeiro cenário avaliado,
dia, poucos retribuíram o cumprimento.
isso acontecia em um local com paredes
À medida que o ônibus se arrastava pelo traçado quadriculado do
limpas. No segundo, ocorria no mesmo centro da cidade, porém, uma transformação mágica foi gradativamen-
lugar, mas com as paredes pichadas. te ocorrendo. Para nosso deleite, o motorista encetou um animado
No ambiente sem grafite, 33% das comentário sobre o cenário à nossa volta: havia uma liquidação sen-
pessoas jogavam o panfleto que estava
sobre a bicicleta no chão. Quando o 10 Religião em Diálogo – 9 ano 0

espaço tinha a parede avariada, o nú-


mero de indivíduos que descartavam Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 10 01/09/2023 [Link]

o papel de forma incorreta foi de 69%.


Uma experiência parecida feita em um estacionamento de supermercado chegou a resultados similares. “A
violação de uma norma social leva a outros tipos de violação”, conclui Keizer.

Disponível em: [Link] Acesso em: 03/08/2023.


Adaptado.

10 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Diálogo com o professor

sacional naquela loja, uma exposição maravilhosa naquele museu, já souberam do novo filme
Professor, no processo da educação
que acabou de estrear ali na esquina? O prazer dele com a riqueza de possibilidades que a
emocional, a função do docente é ab-
cidade oferecia contagiou a todos. Ao descerem do ônibus, as pessoas já haviam se despido da
couraça de mau humor com que tinham entrado, e, quando o motorista lhes dirigiu o sonoro
solutamente fundamental, usando sua
“Até logo, tenha um ótimo dia!”, todas lhe deram uma resposta sorridente. sensibilidade para transpor as barrei-
Há vinte anos a lembrança desse episódio me acompanha. Quando entrei naquele ônibus ras do seu próprio conhecimento e da
da avenida Madison, eu havia acabado de me doutorar em Psicologia — mas a Psicologia da sua prática em sala de aula para abrir
época não dava muita atenção para uma alteração comportamental que ocorresse desse modo. espaço para o debate e para a educa-
A Psicologia não conhecia praticamente nada acerca dos mecanismos da emoção. Ainda hoje, ção emocional. Isso pressupõe que o
ao imaginar a possibilidade de os passageiros daquele ônibus terem propagado pela cidade profissional seja mais do que um vetor
aquele vírus de bem-estar, constato que aquele motorista era uma espécie de pacificador
de conhecimentos, passando a atuar
urbano, uma espécie de mago que tinha o poder de transmutar a soturna irritabilidade que
com a intenção de realmente preparar
fervilhava nos passageiros de seu ônibus, de amolecer e abrir corações.
[...]
os alunos a serem conscientes e res-
O noticiário cotidiano nos chega carregado desse tipo de alerta sobre a desintegração ponsáveis em sua forma de sentir, de
da civilidade e da segurança, uma onda de impulso mesquinho que corre desenfreada. Mas pensar e de agir.
o fato é que esses eventos apenas refletem, em maior escala, um arrepiante desenfreio de Reconhecendo as emoções das pes-
emoções em nossa própria vida e na das pessoas que nos cercam. Ninguém está a salvo dessa soas ao seu redor, você, professor, pode
errática maré de descontrole e de posterior arrependimento — ela invade nossas vidas de criar um meio extremamente fértil e
um jeito ou de outro.
acessível para uma interação equilibrada
A última década tem presenciado um constante bombardeio de
a partir de sentimentos como alegria,
notícias desse gênero, que retratam o aumento de inépcia emocio-
nal, desespero e inquietação na família, nas comunidades e em nossa
tristeza, medo, raiva ou até vergonha.
vida em coletividade. Esses anos têm escrito a crônica de uma raiva
Transmutar: Fazer Fazer isso potencializa a capacidade de
com que fique dife-
e desespero crescentes, seja na calma solidão das crianças trancadas rente; ir de um lugar aprendizado de conteúdos mais tra-
com a TV que lhes serve de babá, no sofrimento das crianças aban- para outro; mudar de dicionais, pois permite que cada um
uma circunstância
donadas, esquecidas ou maltratadas ou na desagradável intimidade
para outra; transfor-
entenda e desafie os limites de seus
da violência conjugal. O alastramento desse mal-estar pode ser visto mar. estudos e dos obstáculos encontrados,
através de estatísticas que demonstram um aumento mundial dos casos tanto para aprender o conteúdo quanto
de depressão e nos indicadores de uma repentina onda de agressão Soturna: Sombria,
triste. para se relacionar com a família e com
— adolescentes que vão armados para a escola, infrações de trânsito
a comunidade escolar.
na estrada que terminam em tiros, ex-empregados descontentes que Errática: Que va-
massacram antigos colegas de trabalho. gueia, erra; errante.

[...]
Inépcia: Ausência
GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Tradução: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, de aptidão; falta de
2011. p. 23-25. competência ou efi-
ciência.

Religião em Diálogo – 90 ano 11

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Anotações

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 11


Diálogo com o professor

Professor, é de grande importância


promover um debate sobre o desen-
volvimento da inteligência, pois, em 1. A tirinha a seguir foi feita pela artista brasileira Vana Campos, autora dos blogues Vai de
grande parte, é função do meio social. pijama e Porque Sim. Observe e responda às questões.
Para isso, seguem alguns tópicos para

Reprodução.
sua reflexão.
Ҍ Como alguns instrumentos de
origem social, como a linguagem,
são importantes para o desenvol-
vimento da inteligência?
Ҍ Em que medida o sistema de co- a) A artista usa de traços simples e um curto texto para nos impactar com suas mensagens
municação e os diferentes sistemas otimistas e reflexivas. De acordo com a leitura do trecho do livro de Daniel Goleman e
com a tirinha de Vana Campos, como podemos relacionar a prática do motorista do ôni-
simbólicos desenvolvidos pela cul-
bus com a da menina da tirinha?
tura auxiliam o ser humano para
o aprimoramento da inteligência? Espera-se que os alunos associem ambos os textos ao contágio social, visto que o moto-

Ҍ Como os aspectos contidos nas rista foi gentil, dessa maneira, contagiou os passageiros — atraídos por essa gentileza e
dimensões afetivas das interações sensibilidade. Possivelmente, os passageiros seguiram atraindo e emanando bom humor,
que ocorrem durante toda a vida
contagiando outras pessoas.
de uma pessoa podem contribuir
no seu desenvolvimento? b) Na tirinha, a garota atrai amor com mais amor. Em sua opinião, a palavra amor empregada
no segundo quadrinho pode ser substituída por quais palavras, de modo que não se altere
o sentido inicial?

Sugestão de resposta: Amor atrai mais carinho / Amor atrai mais simplicidade / Amor atrai
Sugestão de abordagem mais caridade. Professor, mostre aos alunos que o amor é um sentimento tão singular que

tem o poder de transformar tudo à sua volta.


Professor, a seguir, propomos su-
gestões de respostas para a questão 2. 2. Observe o trecho retirado do texto lido para responder às questões a seguir.

“[...] Ainda hoje, ao imaginar a possibilidade de os passageiros daquele ônibus terem propa-
Resposta da questão 2
gado pela cidade aquele vírus de bem-estar, constato que aquele motorista era uma espécie
a) Espera-se que os alunos entendam
de pacificador urbano, uma espécie de mago que tinha o poder de transmutar a soturna
que, quando praticamos boas ações, irritabilidade que fervilhava nos passageiros de seu ônibus, de amolecer e abrir corações. [...]”
transmitimos bons sentimentos às pes-
soas que estão à nossa volta. Assim
como o motorista que andava por toda 12 Religião em Diálogo – 90 ano
cidade espalhando sorrisos às pessoas
que andavam no coletivo, a menina na Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 12 01/09/2023 [Link]

tirinha nos mostra que, quanto mais amor


temos, mais amor atraímos.
Anotações

12 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


a) Daniel Goleman usa a expressão “vírus do bem-estar” para nomear aquilo que o moto-
rista estava espalhando pela cidade. Em sua opinião, por que o autor usou o termo em
destaque? Justifique sua resposta.

Resposta pessoal.

b) Como você interpreta o termo usado pelo autor para definir o motorista do ônibus:
pacificador urbano?

Espera-se que os alunos compreendam que, como o motorista dirige pela cidade toda e

tem o costume de dar bom dia a todo mundo e ser atencioso com os passageiros, todos

que andam no ônibus recebem uma “dose” de felicidade. E ela é espalhada pela cidade.

3. Observe a postagem a seguir para responder às questões seguintes:

a) Em sua opinião, qual a importância de es-


tarmos rodeados de pessoas que espa-
lham bons sentimentos?
Reprodução.

Resposta pessoal.

b) Para você, qual a definição de pessoas


tóxicas, expressão usada na postagem?

Espera-se que os alunos compreendam que

pessoas tóxicas são aquelas que colocam

outras para baixo, que não se alegram

com a felicidade alheia, que são arrogantes,

controladoras, mentirosas, etc.

c) Qual a relação entre o motorista de ônibus do texto Inteligência emocional, de Daniel


Goleman, e a garota que ajuda a colega a “pôr as pessoas tóxicas para fora” na ilustra-
ção da postagem?

Religião em Diálogo – 90 ano 13

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 13 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 13


Leitura complementar

Uma mente sã em um corpo são é Espera-se que os alunos compreendam que, assim como a garota que ajuda a amiga a “pôr

o que devemos procurar na vida pessoas tóxicas para fora”, o motorista de ônibus ajuda as pessoas a esquecerem, mesmo

O debate sobre saúde mental en- que momentaneamente, as notícias ruins que os jornais insistem em exibir, por exemplo.
trou na pauta das principais agendas de
eventos após a declaração da ginasta
olímpica estadunidense Simone Biles
de que precisava focar em sua saúde Os seres humanos são divididos em mente e corpo. A mente abraça todas as nossas aspirações

mental ao invés de competir no salto e nobres, como a poesia e a Filosofia, mas o corpo é que tem todo o divertimento.
Woody Allen
nas barras assimétricas nas Olimpíadas
de Tóquio de 2020.
Saúde mental
A pesquisa feita pelo instituto IPSOS,
Mens sana in corpore sano
encomendada pelo Fórum Econômico
Mundial, apontou que 53% dos brasi- Você faz sua matrícula na escola e de repente já está fazendo as provas da primeira unida-
leiros tiveram o seu bem-estar mental de. Quando percebe, está nas férias do meio do ano. Volta às aulas e já está comemorando
piorado nos últimos meses de 2020 e o Ano-Novo e pensando como será o Ensino Médio.
nos quatro primeiros meses de 2021. É sobre isso que o título fala: Mens sana in corpore sano. Essa expressão é derivada
De acordo com o Sistema Único de do latim e quer dizer uma mente sã em um corpo são. Ou seja, para que nós estejamos
totalmente saudáveis, é necessário que a nossa mente e o nosso corpo estejam em har-
Saúde (SUS), no Brasil, 86% dos bra-
monia. Uma pessoa que mantém sua mente e seu corpo em equilíbrio, ou pelo menos
sileiros sofrem de ansiedade, 45% de
tenta, está caminhando para um futuro mais saudável. Enquanto estamos jovens, não
instabilidade pós-traumático e 16% de percebemos muito os efeitos de não ter uma boa noite de sono ou de não ter uma ali-
depressão grave. mentação saudável, no entanto nosso corpo cobrará a conta dos costumes desregrados
O psicanalista Cristian Dunker, pro- mais tarde. Logo, quanto mais cedo buscarmos hábitos sadios, mais facilmente poderemos
fessor da Universidade de São Paulo usufruir de um corpo e de uma mente, de fato, sãos.
(USP), afirmou que os problemas de Um dia continua tendo 24 horas, 1 hora ainda vale 60 minutos, e um minuto ainda tem 60
saúde mental começaram a se expandir segundos. E o que está acontecendo? O que estamos fazendo para não perceber as horas,
bem antes da covid-19, em decorrência os dias e as semanas passarem? Estamos vivendo em função de quê?
Na correria do nosso dia a dia, cuidamos de muitas coisas e, por muitas vezes, não para-
de muitos outros fatores. “O isolamen-
mos para nos observar. Ultimamente, com o advento das redes sociais, estamos recebendo
to social acentuou e agravou”, disse o
muitas informações, e isso tem prejudicado nossa forma de refletir sobre as situações e os
ganhador do Prêmio Jabuti 2012, na momentos e pensar em nós enquanto pessoas. Ficamos tão sobrecarregados com as cobran-
categoria “Psicologia e Psicanálise”, e ças, os prazos, a exposição das redes sociais, etc. que não paramos para prestar atenção no
autor de vários livros sobre saúde men- que somos e no que estamos fazendo, de fato, com nossa vida.
tal e comportamento. A Secretaria de Saúde do Estado do Paraná criou um conteúdo didático respondendo à
O acadêmico diz que familiares e seguinte pergunta: “O que é ter saúde mental?”.
amigos próximos devem ficar atentos
às pequenas mudanças de compor- 14 Religião em Diálogo – 9 ano 0

tamento. O escritor orienta a pessoa


que sente desconforto a se abrir mais Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 14 01/09/2023 [Link]

e ouvir amigos e familiares de seu convívio. A busca pela ascensão social e profissional também é apontada
pelo acadêmico como gerador de mal-estar, porque requer sacrifício da pessoa.
Cristian Dunker também comentou sobre ambiente de trabalho. Para o especialista, uma administração
que propõe sofrimento nas pessoas para que elas trabalhem mais promove “ingestão de sofrimento criando
relacionamento inconveniente que visa a atingir a moralização da mente”. Para ele, isso é equívoco cultural e
atraso corporativo que carrega preconceito, principalmente contra as mulheres. O primeiro passo para com-
bater o estresse, a depressão, a ansiedade ou qualquer tipo de angústia mental é cuidar de si e de quem sofre.
É preciso repreender qualquer tipo de agressão que provoque danos à saúde mental, ressalta Dr. Cristian, que

Continua

14 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Anotações
A maior parte das pessoas, quando ouve falar em saúde mental, pensa em doença mental.
Mas saúde mental significa muito mais que a ausência de doenças mentais. Pessoas mental-
mente saudáveis compreendem que ninguém é perfeito, que todos possuem limites e que
não se pode ser tudo para todos. Elas vivenciam diariamente uma série de emoções, como
alegria, amor, satisfação, tristeza, raiva e frustração. São capazes de enfrentar os desafios e
as mudanças da vida cotidiana com equilíbrio e sabem procurar ajuda quando têm dificuldade
em lidar com conflitos, perturbações, traumas ou transições importantes nos diferentes ciclos
da vida. A saúde mental de uma pessoa está relacionada à forma como ela reage às exigên-
cias da vida e ao modo como harmoniza seus desejos, suas capacidades, suas ambições, suas
ideias e suas emoções.
Muitas vezes, carregamos pesos que não são nossos ou recebemos cobranças externas e
internas em demasia. Nem sempre nossa mente e nosso corpo suportam carregá-los. Por isso,
é necessário esvaziar-nos dos problemas e buscar resiliência para nos renovar todos os dias.
Diante de tanta negatividade nas redes sociais, problemas com o governo, catástrofes naturais,
pessoas tóxicas, falta de humanidade, etc., precisamos buscar motivos para sermos bons o
suficiente para nós mesmos. Para que, ao olharmo-nos no espelho, digamos a nós mesmos:
— Eu me amo e me aceito do jeito que sou!

Nosce te ipsum

Falamos anteriormente a respeito dos pesos que, supostamente,


carregamos e das cobranças que estão sobre nós. E, quando refletimos
sobre isso, podemos chegar à conclusão de que quem fez cobranças Erica Guilane-Nachez | [Link]

ou quem assumiu cargas maiores do que podia carregar fomos nós


mesmos. Essas cobranças podem ser das mais variadas naturezas:
cobramo-nos por uma nota não tirada, por uma mensagem não res-
pondida, por uma foto não curtida, etc., e isso tudo nos afeta a ponto
de ficarmos tristes, ansiosos ou até mesmo frustrados.
Você sabe como podemos evitar tudo isso?
O segredo está na seguinte frase:
Sacerdotisa de Delfos.
Nosce te ipsum.

De origem latina, ela quer dizer: conhece-te a ti mesmo. A autoria da frase é atribuída
a vários antigos sábios gregos. No entanto, Sócrates (470 a.C.–399 a.C.) foi quem difundiu
essa mensagem, inscrita no Templo de Delfos, na Grécia. Sócrates defendia a introspecção
elevada à consciência e sua capacidade interpretativa.

Religião em Diálogo – 90 ano 15

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 15 01/09/2023 [Link]

alerta a necessidade de a pessoa que apresenta sintomas entender a sua própria realidade e ignorar as críticas
de quem não faz parte de “seu mundo”. “A opinião do outro ´diz respeito à vida dela e não da sua’”, reafirma
o psicólogo e psicanalista.

Disponível em: [Link] Acesso em:


17/08/2023. Adaptado.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 15


Há cerca de 2.500 anos, Delfos era uma imponente cidade que
tinha um luxuoso templo dedicado ao deus Apolo. Acreditava-se que
sacerdotisas e sacerdotes recebiam informações divinas de Apolo e as
passavam aos fiéis que iam até eles à procura de respostas para as mais
variadas questões pessoais. Nesse templo, havia as sibilas, mulheres
que teriam o dom da profecia e seriam capazes de revelar o futuro.
Como falamos, a frase “Conhece-te a ti mesmo” estava bem na
frente do templo e era uma das maiores motivações que faziam as
pessoas irem ao encontro das sacerdotisas, em busca de presságios
sobre si e sobre questionamentos íntimos.
No livro A República, de Platão — um dos filósofos mais importantes
da história da humanidade ocidental —, há o relato de que, quando
Sócrates foi ao Templo de Delfos em busca de revelações, a sua vida
mudou completamente. Nessa consulta, impactado pela frase que
estava na entrada do templo, foi revelado a Sócrates que não havia
homem mais sábio que ele em toda a Grécia. Duvidando do que a
sacerdotisa dissera e, consequentemente, de sua própria sabedoria,
Sócrates começou sua incansável saga por questionar os cidadãos
gregos sobre vários temas: beleza, felicidade, tristeza, amor, etc. De
tanto ouvir respostas e posicionamentos diferentes sobre diversas
perguntas e de se questionar se aquilo que respondiam fazia sentido
para ele, Sócrates se tornou um homem muito sábio, confirmando
aquilo que o Oráculo havia profetizado.
Assim como o caminho que Sócrates seguiu para chegar ao auto-
conhecimento retratado pela frase na entrada do templo, todos nós
somos convidados a traçar nosso caminho de autorreconhecimento
e autorrealização. Apenas quando soubermos quem verdadeiramente
somos, poderemos perceber nossas qualidades e potencialidades,
não deixando, assim, abatermo-nos por qualquer coisa que digam a
nosso respeito.
Quando ficamos esperando a aceitação de alguém, podemos ser
vítimas das nossas frustrações, pois nem sempre o outro correspon-
derá às nossas expectativas. Como vimos anteriormente, vivemos em
uma sociedade complexa e a todo instante lidamos com pessoas; se
estivermos bem e felizes, poderemos espalhar isso para todos os que
cruzarem nossos caminhos, e só poderemos fazer isso começando
com a pergunta: quem, verdadeiramente, sou eu? Não aquela pessoa

16 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 16 01/09/2023 [Link]

16 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Sugestão de vídeo

sobre a qual os outros falam ou que querem que seja, mas aquela Professor, acesse o QR Code, reflita
pessoa que é quando ninguém está vendo. e aprenda mais sobre como desenvolver
Percorrendo esse caminho, podemos chegar ao estado de inte- uma inteligência emocional saudável.
ligência emocional, que nos auxiliará na resolução de problemas, no Dessa forma, você pode utilizar o seu
enfrentamento de dificuldades e na superação de novas situações aprendizado para repassá-lo aos alunos
da nossa vida.
a fim de que também aprendam sobre
Oito lições sobre a inteligência emocional
esse assunto.

7 hábitos para desenvolver a Inteligên-


A inteligência não é só racional, A inteligência emocional é deter-
também é emocional, e ambas minante para o sucesso acadêmi- cia Emocional | João Francisco
interagem para construir a nossa co graças à capacidade de geren-
vida. ciar os fracassos, por exemplo.

As emoções são poderosas, e A liderança posiva, própria da


dominar as negavas, por inteligência emocional, consiste
exemplo, faz parte da em persuadir os demais para
inteligência emocional. construir um objevo comum.

As pessoas que têm equilíbrio A inteligência emocional é


mental e habilidades emocionais primordial para ter autodomínio,
são mais propensas a terem uma e reconhecer-se a si mesmo.
boa vida.

A inteligência emocional influi A inteligência emocional é


favoravelmente na nossa vida ao fundamental para a nossa vida
saber assimilar emoções social, pois facilita as relações
perturbadoras, por exemplo. com as demais pessoas.

Muitos acreditam que o processo de conhecer a si mesmo é algo


árduo e cansativo ou, para outros, algo inatingível. Mas o que muitas
pessoas temem é o que podem encontrar ao tentarem se conhecer
por completo. O medo sempre fez parte da nossa vida. O medo de
conhecer a si mesmo faz com que muitos vivam de modo automático,
sem refletir sobre determinadas atitudes ou buscar entender a raiz
de determinado sentimento. Assim, optam por não buscar o autoco-
nhecimento e o autodomínio.
Anotações

Religião em Diálogo – 90 ano 17

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 17 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 17


Observe o infográfico a seguir e perceba o caminho do autoconhecimento na história
da humanidade, até os dias de hoje.

Nossa aventura começa com


o filósofo Sócrates, que, ao
encontrar a frase “Conhece-
te a ti mesmo” escrita na
entrada do oráculo de Delfos,
Para conhecer-se, a
inspirou-se a iniciar uma
pessoa precisa refletir
corrente filosófica voltada ao
e interpretar a si
autoconhecimento.
mesma.

Os antigos gregos acreditavam que o


autoconhecimento é uma conquista ou
realização que traz saúde e liberdade para
o indivíduo.

Posteriormente, surgiram
correntes de pensamento
de outros filósofos, como
Platão, Spinoza, Freud e
Morin.

Os autores confessionais,
Os filósofos da
que enxergavam o
Antiguidade que viam o
autoconhecimento como
autoconhecimento como
ferramenta para confissão
algo bom por si só ou por
religiosa e moral, como
fins práticos.
Santo Agostinho
e Rousseau.

Aqueles que interpretam o


Os que viam o autoconhecimento como
autoconhecimento como uma autocrítica. Tal posição
algo moralmente valioso, é encontrada no livro bíblico Apesar de a reflexão sobre o autoconhecimento ter
mas difícil de ser alcançado. Eclesiastes e também entre surgido há muito tempo, ainda hoje muitas pessoas não
Entre os defensores de tal os pensadores Spinoza, se permitem refletir sobre si e sobre sua existência no
posição está Nietzsche, por Nietzsche, Heidegger, mundo. E você, já se conhece?
exemplo. Sartre e Morin.

18 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 18 01/09/2023 [Link]

18 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Nós, ocidentais, colocamos em foco os pensadores da Grécia como início de uma construção
do que conhecemos por Filosofia. No entanto, muito antes deles, no Oriente, pensadores já
criavam e elaboravam suas teorias acerca da humanidade e de seus problemas. Com a aten-
ção ao ser humano e em suas transformações, a Filosofia oriental compreende a humanidade
como um ser integral e que só vai atingir sua forma mais próxima do que deveria ser quando
seu corpo, sua alma e sua mente estiverem em perfeito equilíbrio. Essa filosofia perpassa,
muitas vezes, questões religiosas, pois, para algumas tradições religiosas orientais, o humano e
o divino estão interligados caminhando juntos. Tradições milenares, como o confucionismo, o
Taoísmo e o Budismo chinês, construíram caminhos de ética e reflexão a respeito da evolução
do ser humano por meio da prática e da reflexão sobre o eu no mundo.
O professor de História Adriano Jagmin D’Ávila, em entrevista à Universidade do Vale do
Rio dos Sinos (Unisinos), falou sobre as manifestações religiosas orientais e sua busca pelo
equilíbrio entre a razão, a espiritualidade e a mente humana. Leia o trecho abaixo.

Disciplina, harmonia e equilíbrio: as religiões chinesas


e a construção da paz

Poderíamos colocar duas contribuições principais, que já existem na realidade. A questão


da organização de uma sociedade fazendo o indivíduo se colocar sempre no lugar do outro —
aquilo que no Cristianismo se reforça muito —, do pensar no outro, quando se vai tomar uma
atitude. Confúcio (500 a.C.) chamou a atenção das pessoas para essa responsabilidade, e é claro
que essa responsabilidade também foi envolvendo outras coisas. Como tudo que surge da alma
humana tem aspectos positivos e negativos, vão sobressair, se o indivíduo está em harmonia,
mais aspectos positivos e, se está em desarmonia, negativos. O confucionismo reforçou muito
isso e, até hoje, está presente em muitas sociedades. E por que não dizer na nossa também, já
que as coisas se permeiam à medida que o mundo vai avançando nas relações da sociedade?
Outro aspecto seria a questão do Taoísmo de fazer o ser humano ser mais observador dele
próprio e também das coisas em torno dele. Na realidade, o confucionismo também faz isso,
trazendo a responsabilidade de cada coisa que aconteça na vida da pessoa, propondo que ela
pare para pensar no porquê de isso ter acontecido.
Essas duas religiões, ou pseudorreligiões, ou, como alguns nomeiam, filosofias chinesas,
tendem a contribuir cada vez mais para que a alma humana consiga encontrar um equilíbrio
maior nas suas relações, primeiramente consigo e, consequentemente, com o outro. Existe
um ditado confucionista que diz assim: “Se você quer mudar a sociedade, comece a querer
mudar o Estado. Mas, antes de mudar o Estado, mude a cidade. Antes de mudar a cidade,
mude a aldeia. Antes de mudar a aldeia, mude a família. E, antes de mudar a família, mude o
indivíduo”. A consequência começa da menor partícula. Mudar a maior é muito mais complexo.
Isso nos traz a questão da responsabilidade de cada pessoa perante tudo que vai acontecendo.

Religião em Diálogo – 90 ano 19

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 19


Sugestão de abordagem

Toda religião oriental, independentemente de ser chinesa, procura disciplinar muito a mente
Professor, a seguir, propomos suges-
das pessoas para que elas sigam mais fielmente aquilo que é proposto por suas religiões ou
tões de respostas para as questões 1,
filosofias, mas de uma forma muito harmônica. Uma pessoa que pratica o equilíbrio mental terá
2, 4, 5 e 6. suas ações em equilíbrio também. A contribuição dessas práticas para o mundo e, especifica-
mente, para o Brasil é fazer com que a sociedade possa se perceber e se observar, reconhecer
Resposta da questão 1 uma série de valores que podem somar no benefício não só do próprio país, como também da
Espera-se que os alunos compreen- própria humanidade. Muitas vezes, não vemos isso. Infelizmente, vemos mais o ruim do que o
dam que todos os processos tecnoló- bom, mais as diferenças do que o que temos em comum. Temos muitas coisas para acrescentar
gicos iniciados na Revolução Industrial para a humanidade e muito a aprender. À medida que seguirmos esse processo, vamos aprender
agilizaram e otimizaram o modo de vida muito com ele, e haverá trocas saudáveis entre todos nós.

das pessoas. No final do século XX, com Disponível em: [Link]


-a-construcao-da-paz-entrevista-especial-com-adriano-jagmin-davila. Acesso em: 18/08/2023. Adaptado.
a revolução que a Internet trouxe con-
sigo, a noção de tempo e espaço se tor-
nou relativa. Assim, quanto mais ligados
à tecnologia estamos, mais sentimos o
tempo acelerado. 1. Em sua opinião, por qual motivo temos cada vez mais a impressão de que o tempo tem
passado mais rápido?
Resposta da questão 2 Resposta pessoal.
Espera-se que os alunos compre-
endam que muitos estudos científicos
corroboram para a ligação direta entre 2. Você concorda com o texto quando ele relaciona o estado da saúde mental com o intenso
a saúde mental e o mundo virtual. Pro- acesso às redes sociais?
fessor, instigue os alunos a refletirem
Resposta pessoal.
sobre o desligamento do mundo virtual
intenso e as práticas de vivências reais,
como conversar com os pais, ou res-
ponsáveis, praticar jogos de tabuleiro, 3. O que devemos fazer quando percebemos que estamos ansiosos demais — seja pela se-
mana de provas, seja por uma viagem que está para acontecer?
encontrar os amigos, etc.
Espera-se que os alunos compreendam que a primeira coisa a se fazer é dizer a uma
Resposta da questão 4 pessoa adulta o que se passa; após isso, procurar a ajuda de um profissional na área,
a) Espera-se que os alunos compreen-
como o psicopedagogo da escola, para que juntos descubram qual é a raiz do problema
dam que os adolescentes estão pas-
sando por diversas mudanças, tanto e encontrem a solução.
sociais quanto biológicas. Muitas vezes,
as mudanças biológicas — liberação de
hormônios, por exemplo — mudam o
20 Religião em Diálogo – 90 ano
comportamento dos jovens e a forma
como eles se percebem. Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 20 01/09/2023 [Link]

Resposta da questão 5
Espera-se que os alunos compreendam que, quando alguém, verdadeiramente, se confronta, busca saber
o que tem melhor e planeja seu futuro a partir das respostas desses confrontos, terá uma grande chance de
ser um excelente profissional e desempenhar funções de modo feliz e realizada.

Continua

20 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Anotações
4. Leia o trecho a seguir, retirado do site da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e
responda.

“Os transtornos emocionais geralmente surgem durante a adolescência. Além da de-


pressão ou da ansiedade, os adolescentes com essa condição também podem sentir
irritabilidade, frustração ou raiva excessivas. Os sintomas podem se sobrepor em
mais de um transtorno, com mudanças rápidas e inesperadas no humor e explosões
emocionais. Os adolescentes mais jovens também podem desenvolver sintomas físicos
como dor de estômago, dor de cabeça ou náusea.”

Disponível em: [Link]


-mental-dos-adolescentes&Itemid=839. Acesso em: 25/11/2019.

a) Em sua opinião, por qual motivo os adolescentes são os mais vulneráveis aos transtornos
emocionais?

Resposta pessoal.

b) O trecho lido expõe que alguns adolescentes “podem desenvolver sintomas físicos como
dor de estômago, dor de cabeça ou náusea”. Pesquise e responda: qual o nome que se dá
às doenças que se manifestam no corpo originadas de problemas emocionais?

O trecho faz referência às doenças psicossomáticas.

5. O autoconhecimento nos coloca diante de nossos limites e das nossas fortalezas, isto é,
do que temos de melhor. Quando olhamos para dentro de nós e nos observamos, pode-
mos identificar algumas limitações e, diante delas, somos convidados a elaborar caminhos
de melhoria para que nos tornemos pessoas melhores para nós mesmos, para os outros
e para o mundo. Em sua opinião, como o “conhecer-se” pode melhorar o mundo?

Resposta pessoal.

6. De acordo com o que foi estudado, como o autoconhecimento e a autorreflexão podem


nos levar a um estado de valorização da vida?

Resposta pessoal.

Religião em Diálogo – 90 ano 21

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 21 01/09/2023 [Link]

Resposta da questão 6
Espera-se que os alunos cheguem à conclusão de que, dependendo do nível de conhecimento pessoal, al-
gumas pessoas conseguem perceber quando não estão bem e entendem qual a raiz do problema, procurando
saná-lo com a ajuda de profissionais. O autoconhecimento e a autorreflexão são poderosas ferramentas para
termos uma vida mental saudável.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 21


Leitura complementar

A dimensão ético-pedagógica do
saber
Alteridade: reconhecendo o outro
Para Levinas, a esfera de sentido
chamada ontologia, pedagogia tradi- Uma palavra com muitos significados que acaba ficando na moda quando a existência dos
outros é negada de alguma maneira. Alteridade, ou outridade — que alguns autores conceituam
cional, não é a única nem a privilegiada
como a condição do que é o outro, do que é distinto de mim —, remete-nos à necessidade
para se pensar a relação humana, pois
de nos colocarmos no lugar do outro, reconhecendo nossas diferenças, de desenvolvermos
a verdadeira pedagogia como relação o sentimento de empatia pelo outro, daquele que não sou eu e que, na maioria das vezes, é
com Outrem pressupõe um laço irredu- diferente de mim.
tível ao ato representacional e compre- Exercer a alteridade nos leva, inevitavelmente, à reflexão sobre a condição humana. Quan-
ensivo. Isto é, na relação com Outrem, do agimos a partir desse princípio, somos levados a observar o outro como um ser humano,
articula-se um chamamento irredutível simultaneamente igual e diferente de mim. A experiência de se colocar no lugar do outro
a um ato intencional: “A relação com implica um esforço de perceber, a partir de seus olhos, seu mundo, que é uma construção de
suas experiências, seus hábitos, sua história e suas vivências.
Outrem, portanto, não é ontologia. Este
A filósofa Márcia Tiburi destaca, em seus textos, que estamos acostumados, e muitas ve-
vínculo com Outrem que não se reduz
zes até agarrados, a um tipo de materialidade das coisas e das mercadorias que não promove
à representação de Outrem, mas à in- a transcendência, não permitindo, por vezes, que mudemos nosso olhar sobre o mundo e
vocação, e quando a invocação não é para os outros com quem convivemos. Nesse sentido, a proposta de ações com alteridade é
precedida de compreensão, chamo-a resgatar nossa sensibilidade perdida em meio à brutalidade da vida.
religião” (LEVINAS, 1997, p. 29). Ser altero não é algo impossível. A todo momento, somos convidados ao exercício desse
Levinas utiliza o termo religião para sentimento. Podemos praticá-lo toda vez que convivemos com alguém. Praticar a alteridade
pensar em descrever a relação ético- é uma proposta ética, um estilo de vida, algo que constrói e se realiza de modo contrário à
-pedagógica como irredutível à inten- lógica que temos utilizado socialmente de enaltecer o sucesso esquecendo que nem todos
somos os melhores em todos os sentidos de nossa vida. Exige também olhar e reconhecer a
cionalidade teórica. No entanto, este
si mesmo, nossas forças e nossas necessidades de melhorias como pessoas.
encontro com Outrem (religião) não
envolve uma participação no sagrado, Disponível em: [Link] Acesso em: 18/08/2023. Adaptado.

em Deus ou no próprio ser. Vale dizer,


esta relação não se descreve median- Marco Aurélio foi um imperador romano adepto da escola

shut [Link] | Cris Foto


te o conhecimento ou a experiência do estoicismo. Os pensamentos filosóficos dessa escola foram
mística ou religiosa. Trata-se, pois, de abordados por ele em forma de manuscritos, que constituem
uma relação entre os seres humanos, a sua obra conhecida como Meditações. Um dos pensamentos
que representam sua obra, o seu modo de viver e de governar é:
que desponta como algo totalmente
“A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fizeram dela”.
irredutível ao conhecimento e à repre-
sentação, uma relação que respeita e Marco Aurélio

resguarda a alteridade do Outro en-


quanto Outro. Esta relação, descrita
a partir do termo religião, pedagogia 22 Religião em Diálogo – 90 ano
ética, questiona qualquer forma de as-
similação do Outro pelo Mesmo, isto Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 22 01/09/2023 [Link]

é, dilacera o esforço que o Eu possui de


constituir uma totalidade.
Anotações
Disponível em: [Link]/pdf/es/v33n119/
[Link]. Acesso em: 17/08/2023. Adaptado.

22 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


O texto lido é do grupo Centro de Valorização da Vida (CVV), que atua na valorização da
vida e realiza apoio emocional às pessoas por telefone (por meio do número 188), e-mail e
chat (ambos pelo site [Link] 24 horas por dia.
Esse grupo tem desempenhado um importante papel socialmente, pois tem mostrado
às pessoas que a saúde mental precisa ser discutida, principalmente entre os jovens, que
recebem uma grande carga de cobrança da sociedade, família e da escola, por exemplo. As
cobranças precisam ser feitas, mas devemos pensar em como ela são recebidas e se estamos
preparados para recebê-las.
Você tem percebido que seu colega de sala tem agido de modo diferente do comum? Será
que algumas possíveis brincadeiras de mau gosto podem estar impactando negativamente o
dia de alguém? A autorreflexão envolve essas perguntas também.
Para que coloquemos em prática o conhecimento construído, o que você acha de o divi-
dirmos com nossos colegas de outras turmas? Vamos produzir cartazes coloridos com men-
sagens relacionadas ao cuidado com a saúde mental, alertando os estudantes da escola do
grande problema que se esconde por trás das redes sociais, e com dicas sobre como usá-las
de modo saudável. Use a Internet para nortear sua produção artística e fixe o material criado
em locais visíveis da sua escola para que toda a comunidade escolar tenha acesso a ele.
Trilhamos um longo, denso e frutífero caminho até aqui, no entanto ele não terminou. É
necessário que você leve essas discussões ao longo de sua vida e sempre se questione e
reflita sobre seus sentimentos e a raiz de suas tristezas. Nunca se esqueça: assim como uma
pequenina semente tem o potencial de se tornar uma grande árvore com frutos saborosos
um dia, você também tem o seu potencial de crescimento.

Título: O poder do agora: um guia para a iluminação espiritual


Reprodução.

Autor: Eckhart Tolle


Editora: Sextante
Sinopse: Nós passamos a maior parte de nossas vidas pensando no pas-
sado e fazendo planos para o futuro. Ignoramos ou negamos o presente e
adiamos nossas conquistas para algum dia distante, quando conseguiremos
tudo o que desejamos e seremos, finalmente, felizes. Mas, se queremos
realmente mudar nossas vidas, precisamos começar neste momento. Com-
binando conceitos do Cristianismo, do Budismo, do Hinduísmo, do Taoísmo
e de outras tradições espirituais, Tolle elaborou um guia prático de grande
eficiência para a descoberta do nosso potencial interior.

Religião em Diálogo – 90 ano 23

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 23 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 23


BNCC – Habilidades
trabalhadas no capítulo

2o
(EF09ER03) Identificar os sentidos do
viver e do morrer em diferentes tradi- Os muitos sentidos do viver e do
ções religiosas, através do estudo de momento morrer
mitos fundantes.
(EF09ER04) Identificar concepções de
vida e morte em diferentes tradições
religiosas e filosofias de vida, por meio
da análise de diferentes ritos fúnebres.
(EF09ER05) Analisar as diferentes Ritos e mitos indígenas
ideias de imortalidade elaboradas
pelas tradições religiosas (ancestrali- Os mitos contam como as coisas chegaram a ser o que são. Contam
dade, reencarnação, transmigração e como as divindades, as pessoas, os animais e as plantas se diferen-
ressurreição). ciaram. Os rituais, por sua vez, fazem o caminho inverso dos mitos.
E, não por acaso, eles se dispõem muitas vezes a contar o mito, a
recriá-lo, promovendo uma espécie de incursão nesse cenário mítico
de igualdade entre divindades, seres humanos, animais e plantas, no
qual todos se comunicavam e produziam sua existência por meio
Objetivos pedagógicos dessa interação.
As populações indígenas acreditam que essa comunicação e essa
interação devem acontecer de maneira mediada e são indispensáveis
Incursão: Passagem
Ҍ Analisar como as diferentes ideias rápida por um lugar. para a produção de pessoas e da própria sociedade. Afinal, é do cosmos
de imortalidade perpassam as re- mítico que são extraídas as matérias-primas para a constituição das pes-
ligiões. soas e da sociedade. Perder de vista essa comunicação e essa interação
é entregar-se à inércia, à permanência em um mundo sem sentido.
Ҍ Identificar os sentidos de vida e Os rituais funerários, em sua maioria, consistem em separar os vivos
de morte de diferentes religiões. dos mortos, fazendo com que estes retornem ao outro mundo, dos não
humanos. Quando alguém morre, as pessoas que experienciam essa perda
são levadas a um estado de limite de si. Por isso, não é de se espantar que
os rituais funerários ou pós-funerários sejam, entre os povos indígenas,
Para refletir muitas vezes aproveitados para a realização da iniciação de jovens.
Os rituais indígenas são uma celebração das diferenças. Em primeiro
lugar, das diferenças entre os seres que habitam o cosmos. Os indí-
A morte é a única certeza que se
genas acreditam que muito do que possuem — aquilo que chamamos
pode ter na vida. No entanto, a forma
de cultura — não foi meramente “inventado” por eles mesmos, mas,
como esse mistério é encarado difere
de acordo com as crenças de cada um.
24
Há correntes religiosas que creem na Religião em Diálogo – 90 ano

ressurreição, enquanto outras dizem Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 24 01/09/2023 [Link]

que ressuscitamos ou voltamos à Terra


até mesmo na forma de algum animal.
E há ainda aqueles para quem a morte Anotações
significa, simplesmente, o fim da vida.

24 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Sugestão de abordagem

sim, aprendido, no tempo do mito, com outras espécies e mesmo com inimigos há muito não
Professor, seria interessante realizar
vistos. Os rituais indígenas são, além disso, uma celebração das diferenças entre os próprios
um debate acerca das várias perspecti-
seres humanos, diferenças sem as quais não haveria troca nem cooperação. E, para celebrá-las,
uma intensa trama de prestações — de comida e bebida, sobretudo, mas também, em certas
vas sobre a morte. Mas, para isso, sugira
ocasiões, de cantos e artefatos — é posta em movimento. uma pesquisa sobre o que falam as lide-
ranças das religiões mais praticadas e as
Disponível em: [Link] Acesso em: 18/08/2023. Adaptado.
menos conhecidas. Trace um paralelo
comparativo para auxiliar no debate.
O quarup: festa para celebrar a
memória dos mortos

O quarup é um ritual de homenagem aos mortos ilustres, cele-


brado pelos povos indígenas da região do Xingu, no Estado do Mato
Grosso. O rito é centrado na figura de Mawutzinin, o demiurgo, o
primeiro homem do mundo da sua mitologia. Quarup também é o
nome de uma madeira. Em sua origem, o quarup teria sido um rito Anotações
que objetivava trazer os mortos de volta à vida.
Os troncos feitos da madeira quarup são a representação concreta
do espírito dos mortos. Corresponderia à cerimônia de Finados, dos
Demiurgo: Em seitas
“homens brancos”. Entretanto, o quarup é uma festa alegre, na qual cristãs de inspiração
cada um coloca a sua melhor pintura na pele. platônica e no Gnos-
Na concepção indígena, os mortos não querem ver os vivos agindo ticismo, é o ser inter-
mediário de Deus na
de forma triste ou pesarosa. criação do mundo,
responsável pelo mal
que não poderia ser
O quarup do povo cuicuro
atribuído ao Criador
supremo.
Os cuicuros (região do Rio Kuluene, que corta o Estado do Mato Pesarosa: Que tem
Grosso) realizam uma cerimônia do mais profundo sentimento humano pesar; desgostosa.
todo ano, no mês de maio, sempre em uma noite de lua cheia. Os Malocas: Grandes ca-
banas rústicas, feitas
nativos desse povo convidam os povos amigos para evocarem juntos com materiais leves
as almas dos mortos ilustres. Ainda durante a noite, trazem da floresta como palha e bambu,
várias toras de madeira, conforme o número dos que morreram. Essas que servem de habi-
tação para várias fa-
toras são organizadas em linha reta, no centro da aldeia, em frente às
mílias indígenas.
malocas. Cada tora recebe a pintura das respectivas insígnias que, em Legaram: Do verbo
vida, distinguiam-se como pajés, guerreiros, caçadores ou até mesmo legar; encaminharam,
aqueles que mais descendentes legaram à comunidade. Enquanto enviaram; deixaram
como herança.
são executados esses trabalhos, alguns homens com arco e flecha
entoam hinos aos mortos.

Religião em Diálogo – 90 ano 25

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 25


Preparação do tronco

Tudo pronto, iniciam-se os louvores sagrados. Vão os homens às


Archotes: Pedaços malocas e de lá voltam acompanhados das mulheres e crianças. As
de madeira com a
mulheres, de cabelos soltos, trazem alguns frutos ou guloseimas, em
extremidade infla-
mável que, quando largas folhas de palmeira; outras, ricos cocares, plumagem de coloridos
incendiada, ilumina, vivos, braceletes e colares. Aproximam-se, em passos harmoniosos,
sinaliza. dos quarupes e, em voz baixa, como um sussurro, travam com eles um
Cadenciados: Em rit-
pequeno diálogo, que parece exprimir toda a gratidão, falando-lhes
mo lento, pausados.
Maracá: Chocalho das saudades que deixaram, oferecendo-lhes, ao mesmo tempo, os
indígena, usado em frutos e as guloseimas.
festas, cerimônias re-
Ao cair da noite, os homens trazem da floresta archotes de palha
ligiosas e guerreiras,
que consiste em uma incendiados, cuja luz faz brilhar os corpos untados de urucum em
cabaça seca e oca na reflexos metálicos que desenham toda a beleza desses corpos.
qual são colocados
pedras ou caroços.

Reprodução.
Durante o ritual do quarup, há uma luta simbólica
feita pelos guerreiros da comunidade indígena,
chamada de huka-huka.

A dança do fogo começa primeiro em passos cadenciados. Em seguida, o ritmo é acelerado


ao som do chocalhar dos maracás e das canções místicas. O pajé é o responsável pela evocação
a Tupã, implorando fazer voltar à vida os mortos ilustres que estão sendo representados pelas
toras. O momento ideal para o ritual é quando a lua cheia se encontra no máximo de sua beleza.
Terminando a evocação, os homens se dispersam pelo terreno em pequenos grupos, en-
quanto só o pajé continua a entoar as suas orações até o alvorecer. As mulheres retornam
para ouvir os cânticos que anunciam o Sol, simbolizando a volta dos mortos ilustres à vida.
Então, começa a dança da vida, que é executada pelos atletas da aldeia, cada um trazendo
Reprodução.

O quarup ocorre sempre um ano após a morte


dos parentes indígenas. Os troncos de madeira
representam cada homenageado. Eles são coloca-
dos no centro do pátio da aldeia, ornamentados,
como ponto principal de todo o ritual.

26 Religião em Diálogo – 90 ano

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26 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Sugestão de abordagem

ao ombro uma longa vara verdejante, símbolo dos últimos nascidos na comunidade. Os atletas Professor, a seguir, propomos su-
formam um grande círculo, correndo em volta dos quarupes ao mesmo tempo que os reveren- gestões de respostas para as questões
ciam. Depois, o grande círculo se divide em dois, e rapidamente vários grupos são formados,
1 e 2.
representando, cada um, um povo.

Resposta da questão 1
Espera-se que os alunos relembrem
1. Em sua opinião, por que muitas culturas e sociedades ritualizam alguns momentos da o que refletimos sobre as três perguntas
vida, como o nascer e o morrer? que inquietam vários grupos humanos:
Resposta pessoal.
De onde eu vim?; Quem sou? e Para
onde vou?. No caso dos rituais de inicia-
2. Leia o trecho retirado do texto Ritos e mitos indígenas e responda às perguntas a seguir. ção, tenta-se ritualizar o início da vida e
responder à pergunta “De onde vim?”Já
“Afinal, é do cosmos mítico que são extraídas as matérias-primas para a constituição
das pessoas e da sociedade. Perder de vista essa comunicação e essa interação é
o ritual quarup ritualiza o desligamento
entregar-se à inércia, à permanência num mundo sem sentido.” do mundo dos vivos e a passagem para
o mundo dos espíritos.
a) Uma das informações que o fragmento nos dá é a de que os mitos servem para a cons-
tituição das pessoas e da sociedade. Como você compreende essa constituição das pes- Resposta da questão 2
soas e das sociedades? a) Espera-se que os alunos compreen-
Resposta pessoal. dam que os mitos servem para construir
e moldar a identidade de determinado
b) Qual a relação entre os rituais e a construção de sentidos nas manifestações religiosas? povo. Professor, instigue-os a pensa-
Resposta pessoal.
rem o que, de fato, é uma sociedade e
mostre que os indígenas se constituem
3. “Os nativos desse povo convidam os povos amigos para evocarem juntos as almas dos como um povo organizado em suas es-
mortos ilustres.” De acordo com o texto, quem são os mortos ilustres festejados pelos tratificações sociais.
indígenas?
b) Os rituais transportam as pessoas a
Os fortes guerreiros, os pajés, os caciques, etc. um estado de pertencimento ao mundo
sagrado. No caso dos rituais indígenas,
como vimos, servem para dar um sentido
4. O quarup, como vimos, é um ritual de passagem que celebra a partida do mundo dos vivos e uma direção à vida que se leva. Levar
para o dos mortos. Em várias culturas, existem mitos que descrevem o lugar para onde os uma vida de acordo com os costumes,
espíritos vão após deixarem a vida. A partir disso, pesquise e escreva, em seu caderno, qua- além do sentimento de fazer parte de
tro mitos de diferentes culturas que simbolizam um lugar para onde os mortos vão.
uma comunidade, dá ao sujeito uma ex-
plicação do porquê viver de tal maneira.
Religião em Diálogo – 90 ano 27

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Anotações

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 27


Vida e morte: uma relação indissociável

A vida é desprovida de sentido. Você dá sentido a ela. O sentido da vida é


aquilo que você atribui a ela. Estar vivo é o sentido.
Joseph Campbell

Por que as pessoas morrem?

Essa é, talvez, a mais intrigante e curiosa de todas as perguntas.


Filósofos têm tentado achar uma resposta para ela por milênios, e
nunca conseguiram. Muitos de nós esquentamos a cabeça pensando
sobre a origem da morte e não chegamos a uma conclusão concreta. A
verdade é que cada um aceita e segue a teoria daquilo em que acredita.
Por exemplo: para o Cristianismo, a morte se dá porque Deus
baniu Adão e Eva do Jardim do Éden após desobedecerem a Ele e
comerem o fruto proibido. Já para a mitologia grega, nós morremos
por causa da abertura da caixa de Pandora. A verdade é que existem
muitas teorias sobre a origem da morte, e elas causam uma grande
curiosidade em todos nós.
Durante o percurso da nossa coleção, já nos questionamos “De
onde vim?”, mas agora iremos pensar em “Como tudo acaba?” ou “Será
que tudo acaba?”. Além de teorias religiosas, filosóficas e espiritualistas,
iremos ver como a ciência entende o conceito de morte e de vida
e como as várias manifestações religiosas compreendem esses dois
eixos importantes da existência humana. Eixos que levaram muitos
filósofos a tentarem responder a tais questionamentos.

28

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28 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


A arte de viver, segundo Sócrates
Sócrates (470 a.C.–399 a.C.) foi o grande mestre de gênios como Platão e Aristóteles,
ídolo de todos os pensadores relevantes que vieram depois dele pelos séculos afora.
Sócrates mudou a história da Filosofia. Deu a ela um inédito caráter prático, moral e
ético. Com ele, a Filosofia se transformou como que em um manual para tornar melhor
a vida de todos nós, tanto para nos ajudar a enfrentar as adversidades quanto para nos
aprimorar interiormente.
Pensador nenhum se igualou a ele, e, no entanto, Sócrates jamais escreveu um único livro.
Suas ideias e atitudes foram transmitidas à humanidade sobretudo pelas obras de Platão
(428 a.C.–348 a.C.), seu discípulo. Sócrates é o personagem principal dos textos de Platão.

Vida simples
Ele reuniu um número extraordinário de virtudes e tinha uma vida simples. “Quanto
menos desejos você tem, mais perto está dos deuses”, disse ele. Sêneca, estoico romano,
escreveu com reverência que Sócrates não se deixava perturbar pelos bens materiais:
desfrutava deles se os tinha e abstinha-se deles sem sofrimento se os perdia.
Foi corajoso na vida e na morte. Combateu em algumas guerras de Atenas, a cidade
que o fez ser o gigante que foi e depois o matou. Além disso, recebeu condecoração
por bravura. Há registros de resistência invulgar em seus dias de guerreiro: andava de
pés descalços e sem casaco sob temperaturas baixíssimas.

Exemplo para a posteridade


Sócrates foi acusado de corromper a juventude com suas ideias. Um tribunal con-
denou-o a tomar cicuta, um tipo de veneno. Seus discípulos armaram uma fuga, mas
Sócrates recusou. Se ele agisse como um covarde, então seu exemplo não teria valor
para a posteridade. Sócrates sabia que teria que pegar o copo de veneno que seu car-
rasco lhe passaria e tragar seu conteúdo com gloriosa tranquilidade.
A morte de Sócrates está registrada em um clássico da literatura universal: Fédon,
de Platão. Sócrates consolou os discípulos, devastados. Lembrou a um deles que tinha
uma dívida que devia ser paga. Pediu instruções ao homem incumbido de dar-lhe ve-
neno para evitar problemas na execução.
Pronunciou, prestes a tomar a cicuta, palavras que o jovem Platão tornaria eternas:
“Chegou a hora de partir, vocês para a vida, eu para a morte. Qual dos dois destinos é
melhor, só os deuses sabem”.

NOGUEIRA, Paulo. A arte de viver segundo Sócrates. Disponível em: [Link]


rer-segundo-socrates/. Acesso em: 21/06/2023. Adaptado.

Religião em Diálogo – 90 ano 29

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 29


Leitura complementar

A origem da vida segundo Algumas tradições religiosas asseguram que somos parte da grande
vida que se estende numa dimensão cósmica da existência além do nosso
algumas tradições religiosas
planeta, ou seja, que a vida existente no planeta Terra existe em outros
Além das várias teorias científicas planetas também. Todos nós, seres humanos, devemos ter consciência
que procuram explicar a origem da e ser responsáveis pela preservação e defesa da vida, porque dela faze-
Na imagem ao lado,
mos parte. Segundo algumas culturas, como a egípcia, todo o ciclo da
vida, existem também as inúmeras estão Nut, Geb e Shu,
vida — nascer, crescer e morrer —, de toda a criação, está interligado.
afirmações das diversas tradições re- deuses egípcios. Essa
representação faz par-
ligiosas sobre o tema. Contudo, esse te da coleção do Museu

Wikimedia
assunto continua sendo um grande Britânico desde 1910.
Os egípcios diziam que,
mistério que instiga a mente dos no início do mundo,
cientistas, filósofos, religiosos e es- nada existia além de um
enorme oceano chama-
piritualistas. Somos seres viventes, do Nun. Desse oceano,
portanto, fazemos parte integrante surgiu Atum (a forma
da totalidade da vida existente na como ele surgiu varia de
um mito para outro), que
Terra. Algumas tradições religiosas imediatamente fez Shu,
asseguram que somos parte da grande deusa do ar, e Tefnut, o
deus da umidade. Eles,
vida que se espraia em uma dimensão por sua vez, fizeram Geb,
cósmica da existência além do nosso deus da terra, e Nut, a
deusa do céu. Geb e Nut
planeta. A vida, essa força misteriosa, eram os pais de Osíris,
é que torna nossa casa planetária um Seth, Ísis e Néftis. A vida e a morte são temáticas que têm, em seus estudos, uma
lugar muito especial no Universo, ela quantidade quase que inesgotável de material. Vários outros subtemas
renova ciclicamente a natureza re- podem ser vinculados a elas: origem, defesa, preservação, valorização,
sacralidade, continuidade, sentido, finalidade, entre outras questões.
velando-nos sua beleza e perfeição.
Todos nós, seres humanos, devemos
ter consciência e sermos responsáveis Clinton Richard Dawkins A ciência explicando a vida
é um etólogo (estudio-
pela preservação e defesa da vida, so do comportamento
porque dela fazemos parte. social e individual dos A ciência propõe duas explicações para essa dúvida metafísica. A
animais em seu hábitat primeira, mais tradicional, é: o sentido (objetivo) da vida é se repro-
A vida, sem dúvida, é o que existe de natural), biólogo evolu-
duzir, ou seja, ter filhos. E isso é universal, serve para todos os seres
mais sagrado no Universo. Trata-se de tivo e escritor. Dawkins
ganhou destaque com o viventes. Pelo menos é o que diz a Tese do Gene Imortal, uma das
uma temática inesgotável, por isso há seu livro O gene egoísta, mais populares da biologia evolutiva. Ela tem sido desenvolvida desde
muito o que pensar, refletir e conhecer de 1976, que populari- os anos 1970 pelo biólogo britânico Richard Dawkins e reinterpreta
sobre este assunto: sua origem, defesa, zou a visão da evolução
a Teoria da Evolução de Darwin.
centrada nos genes e in-
preservação, valorização, sacralidade, troduziu o termo meme. Na transmissão de informação genética entre pais e filhos, podem
continuidade, sentido, finalidade, en- ocorrer mutações. Elas sempre acontecem — em média, cada humano
tre outras questões. Viver na Terra é
uma grande aventura, um inestimável 30 Religião em Diálogo – 90 ano
aprendizado. A vida é, sem dúvida, a
melhor escola, a melhor universidade Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 30 01/09/2023 [Link]

que nos ensina pela experiência.

Disponível em: [Link] Anotações


[Link]/arquivos/File/boletins_informativos_as-
sintec/informativo_assintec_23.pdf. Acesso em:
17/08/2023. Adaptado.

30 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


nasce com 60 mutações, que podem provocar síndromes e doenças. Se

Reprodução.
um indivíduo tem uma mutação que o torna mais apto que os demais
(mais resistente a doenças, por exemplo), ele tende a se reproduzir mais
e espalhar essa mutação na sociedade. Os mais aptos permanecem,
e os demais desaparecem. É a chamada seleção natural.
Na Grécia antiga, os filósofos se ocupavam em explicar a origem
da vida. Entre eles, Aristóteles. Ele afirmava que a origem da vida na
Terra era o resultado da ação de um princípio passivo, que é a matéria,
e outro ativo, que é a forma. Assim, em certas condições favoráveis,
esses dois princípios se combinavam permitindo o surgimento da vida. Aristóteles (384 a.C.– 322
O princípio ativo agindo sobre a matéria inanimada tornava-a animada. a.C.) foi um filósofo gre-
Essa teoria ficou conhecida como Teoria da Geração Espontânea. go, aluno de Platão e
professor de Alexandre,
Tal teoria vigorou por muito tempo, atravessou a Idade Média,
o Grande.
quando não faltaram pessoas que supunham ser a origem da vida um
fenômeno que ocorria a partir da matéria inanimada. Elas pensavam
que os odores dos pântanos podiam gerar rãs, que a carne podre

[Link] | Goran Bogicevic


gerava larvas de moscas e que um monte de roupa suja depois de
algum tempo podia gerar ratos.
A Teoria da Geração Espontânea começou a ser superada a partir
dos experimentos do médico e naturalista florentino Francesco Redi
(1626–1697). Redi demonstrou que só é possível surgirem larvas de
moscas em um pedaço de carne quando se deixa que aquelas pousem
sobre este.
No século XIX, Louis Pasteur (1822‒1895) refutou definitivamen-
te, por meio dos seus experimentos, a Teoria da Geração Espontâ-
nea, demonstrando que existem na natureza seres microscópicos, as
bactérias, entre outros, que não podem ser vistos a olho nu. Esses Francesco Redi, cientis-
minúsculos seres são responsáveis pela fermentação e putrefação da ta italiano, foi um dos
matéria orgânica. primeiros biogenistas a
questionar a Teoria da
Sendo reconhecido o princípio de que a vida provém sempre de
Geração Espontânea.
outras formas de vida, um importante cientista do final do século XIX
chamado William Thomson (1824‒1904), mais conhecido como Lord
Kelvin, passou a defender a Teoria da Panspermia, que sustenta que a vida poderia ter sido
“semeada” no planeta Terra vinda do espaço com os meteoros que aqui caíram. Essa teoria
explica que a vida está espalhada em todo o Universo. Os esporos de vida são elementos das
nuvens interestelares e chegam aos planetas por meio de cometas e asteroides.
Existe ainda a teoria de que, há bilhões de anos, ocorreram grandes transformações na

Religião em Diálogo – 90 ano 31

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 31 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 31


Para refletir

Origem do Universo e da vida: Terra, que era bastante diferente do que é hoje, e a vida pode ter surgido de forma natural
uma questão por vezes polêmica sobre o Planeta, por meio de uma evolução química das substâncias não vivas.
Essas transformações químicas permitiram o surgimento de moléculas que se autodupli-
No poema Via Láctea, de Olavo Bilac, cavam. Com o passar do tempo, foram surgindo as bactérias e depois outros seres simples
há o verso “Ora (direis) ouvir estrelas!”, que, a partir da água, passaram por um longo processo evolutivo, do qual resultaram todos
que nos fala do contato do humano os seres, inclusive os humanos, que povoam a Terra.
com o mistério. Ouvir estrelas e enten-
dê-las não é coisa só de poetas, mas As diversas formas de entender a morte e a vida
também dos cientistas, dos religiosos, Qual o sentido da vida?
dos místicos, dos adolescentes e dos
Talvez essa seja uma das perguntas mais repetidas pelos filósofos e pensadores que já
apaixonados. Conhecer a origem do
passaram pela Terra. Provavelmente, você possui uma visão já construída ou já pensou a res-
Universo significa “ouvir estrelas”, ou peito. Mas vamos tentar aprofundar nossa reflexão e ver como outras pessoas pensam ou
seja, tentar encontrar respostas para pensaram sobre o sentido do viver, pois assim podemos pensar também no que seria o morrer.
as nossas indagações. Respostas que, Diante de tantos pensadores e intelectuais, não é o nosso papel julgar qual deles está mais
na ciência, são conhecidas como teorias correto ou apontar erros. Poderíamos até responder a essa pergunta de uma forma simples:
científicas, e nas religiões como crenças
e mitos sagrados. Cada indivíduo é livre para atribuir sentido e significado à sua vida e ao seu
modo de viver, desde que não agrida outro ser humano.

Diante dessa assertiva, esbarramos em algo muito melindroso, pois


[Link] | Nicku

Leitura complementar cada ser humano possui suas próprias particularidades, e isso faz com
que cada um tenha aspirações e sonhos distintos.
Alguns filósofos que refletiam acerca da existência humana, como
Empédocles de Agrigento (495 Schopenhauer, diziam que, no fundo, a pergunta “Qual o sentido
a.C.–430 a.C) foi um filósofo pré-so- da vida?” mascara algumas inseguranças que todos nós temos, pois
queremos um sentido apenas para que todos os nossos sofrimentos
crático que tentou conciliar a filosofia
valham a pena. Portanto, felicidade é a única coisa que importa; temos
de Parmênides com as doutrinas cos-
que dar sentido à nossa vida para que sejamos felizes.
mológicas, as quais explicam a multipli- Arthur Schopenhauer
No entanto, podemos nos questionar de uma forma mais positiva:
(1788–1860) foi um
cidade da natureza. Ele fazia parte dos filósofo alemão do sé- como eu posso viver a minha vida de forma plena, extraindo o melhor
filósofos pluralistas, e eram chamados culo XIX. dela, obtendo a maior felicidade e causando o maior impacto positivo
assim porque buscaram na pluralidade em outras vidas?
de princípios a solução para as questões Talvez nunca consigamos descobrir o real sentido da vida, mas é mui-
da Escola Eleática. Empédocles foi o to provável que possamos encontrar algumas outras formas para viver
criador da teoria dos quatro elementos bem e melhor esse caminho de buscas, sabendo que, para encontrar
nossa felicidade, passaremos por momentos tristes e angustiosos —
— fogo, água, terra e ar. Esses elemen-
tos se manteriam unidos ou separados
graças a duas forças denominadas pelo 32 Religião em Diálogo – 9 ano 0

filósofo de amor e ódio.


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Os princípios a partir dos quais sur-
gem todas as coisas são, segundo Empédocles, o fogo, a água, o ar e a terra. Eles são chamados de quatro
raízes e permanecem inalteráveis apesar de suas interações. Elas jamais deixam de ser o que são ou perdem
a identidade. Apenas se unem ou se separam, possibilitando, assim, o surgimento e o desaparecimento de
todos os seres.
Como ser verdadeiro, as quatro raízes permanecem sempre e, desse modo, é mantida a afirmação de
Parmênides de que nada pode surgir do que não é, ou algo que é deixe de ser. Para Empédocles, essas raízes
são divinas e existem causas que levam à sua união e separação.

Continua

32 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Leitura complementar

poderemos chorar, inclusive. No entanto, o que não podemos esquecer Filosofia e felicidade
é que precisamos caminhar rumo à nossa felicidade.
A maneira mais objetiva que os an-
Etimologicamente,
A felicidade e o pensamento grego a palavra felicidade tigos tinham de entender a boa vida
provém do termo — como uma forma de atividade, e a
O debate acerca da felicidade não é atual. Apesar de hoje em dia grego eudaimonia,
que significa bom partir da incorporação de certos va-
as pessoas buscarem-na a todo custo, esse é um assunto levantado
(eu); espírito (daimon). lores — contribui para que este tema
pelos gregos e assimilado como a principal questão ética da Antigui- Eudaimonia foi um dos
dade e da Alta Idade Média. Felicidade era um tema sério naquela conceitos centrais da
também fosse mais passível de reflexão
época, que não podia ser esgotado com alguns livros. filosofia de Aristóte- e de discussão. Hoje em dia, tendemos a
les, assim como areté,
Segundo Epicuro (341 a.C.), a felicidade resulta da satisfação dos geralmente entendi-
tratar a felicidade como um fato óbvio,
desejos e de uma vida simples, ausente de ambições e preocupações. do como virtude, e concentrando-nos apenas em como ob-
Somos naturalmente propensos a procurar prazer e fugir da dor, logo phronesis, frequente- tê-la. Mas, na verdade, não existe nada
mente traduzido como
faz sentido compreender ao máximo como se aproximar daquilo que
sabedoria prática. de óbvio na maneira pela qual enten-
nos satisfaz, afastando tudo o que nos cause sofrimento.
demos a felicidade.
Podemos dizer que existem alguns tipos de desejo vivos e pulsantes
Em primeiro lugar, esta concepção
em nós. Alguns são naturais e essenciais, como a fome, o sono e a busca
por uma vida agradável. Não podemos lutar contra eles, então nos resta
é formada, em grande parte, durante
preenchê-los, a fim de obter maior prazer e significá-los. nossa infância e adolescência, quando
Já os desejos frívolos e artificiais, como a busca por riquezas, poder absorvemos de forma mais passiva as
e beleza, são criados por meio dos valores sociais e podem ser com- informações que recebemos de fora.
pletamente ignorados; no entanto, por haver uma cultura social que Isso faz com que naturalizemos aspec-
alimenta e cria um ambiente favorável a essas inclinações, aqueles que tos que são, na verdade, culturais, como
não conseguem satisfazer esses desejos são tratados com estranheza, Para entender mais
sobre o assunto, aces- o consumismo ou o hedonismo.
enquanto os que conseguem conquistá-los nunca se saciam, justa- se o QR Code a seguir. Em segundo lugar, é preciso consi-
mente por eles não serem essenciais. Tais anseios, quando buscados
Aristóteles e a vir-
derar que até mesmo estes elementos
acima de tudo e de todos, tendem a nos trazer angústia, já que não
são regidos por leis naturais.
tude (a vida boa se- culturais são construídos historicamen-
gundo os filósofos
Os estoicos, que surgiram na mesma época na Grécia, também fo- gregos) | Filosofia na
te. Nossa concepção de família, por
cavam seus pensamentos na busca pela felicidade. Para eles, a resposta Escola exemplo, centrada nos relacionamen-
era oposta à de Epicuro. Conforme acreditavam, ao seguir firmemente tos amorosos e na intimidade, data do
os nossos desejos e fugir dos nossos medos, estamos agindo como século XVIII. A dignificação do trabalho
máquinas. Não existe liberdade de escolha se a única coisa que fizermos é resultado da Reforma Protestante no
for seguir os nossos impulsos. O segredo da vida, segundo os estoicos,
século XVI. O consumismo está relacio-
está na temperança e no autocontrole, possíveis de serem alcançados
nado ao modelo capitalista fortalecido
por meio da superação das emoções pela razão. A apatia (literalmente,
sem paixão) era a chave para livrar-se dos sofrimentos. Tão importante
durante os séculos XIX e XX.
quanto a felicidade, era também a busca pelo aprimoramento pessoal.
Continua

Religião em Diálogo – 90 ano 33

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 33 01/09/2023 [Link]

Estas causas são chamadas de amor e ódio e devem ser entendidas como forças que atuam na separação
e na união das raízes. O ódio e o amor são eternos, como o fogo, a terra, a água e o ar.
Quando o amor predomina, as raízes permanecem unidas; quando predomina o ódio, separam-se. Quando
há equilíbrio entre o amor e o ódio, nasce o cosmo, embora haja predomínio do ódio sobre o amor na forma-
ção do cosmo. Com a doutrina do amor e do ódio, mais uma vez surge no pensamento grego a ideia de que o
cosmo só pode existir em função da interação de determinadas dualidades.

Disponível em: [Link] Acesso em: 17/08/2023. Adaptado.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 33


A naturalização desses fatos cultu-
rais contribui, muitas vezes, para nossa
infelicidade — por exemplo, se não te-

Reprodução.
Os estoicos distinguiam as incli-
mos muito dinheiro em uma sociedade nações humanas em três: boas,
consumista ou se não correspondemos más e indiferentes. As inclinações
boas incluem as virtudes cardeais:
ao padrão de beleza em uma cultura sabedoria, justiça, coragem e au-
hedonista. Neste sentido, a maneira todisciplina. As más incluem os
opostos dessas virtudes, ou seja,
revisionista que os antigos tinham de ignorância, injustiça, covardia e
conceber a felicidade — como algo pas- autoindulgência. As inclinações
sível de reflexão — poderia, acredito indiferentes incluem todo o resto.

eu, ter grande relevância nos dias de


hoje. Isso não significa que tenhamos de
achar que o dinheiro ou a família não im-
O dilema eterno da humanidade: a escolha entre a virtude e o vício, 1633,
portam, contudo, por meio da reflexão, de Frans Francken. Disponível em: [Link]
podemos compreender melhor porque -torna-perigosas-certas-ideias-politicas/. Acesso em: 21/06/2023.

eles importam, e qual é exatamente o


papel deles em nossa vida.
A felicidade deve ser entendida a As coisas tidas como indiferentes pelos estoicos são exatamente o que as pessoas hoje em dia julgam como
partir da incorporação, em nossa exis- boas ou más. No entanto, essas coisas indiferentes não ajudam nem prejudicam nosso desenvolvimento
humano. Elas não desempenham um papel necessário à vida feliz. A indiferença não significa frieza. Ser
tência, daquilo que tem valor para nós. indiferente às coisas é aceitá-las como são.
Ora, valores são, justamente, passíveis Nós, humanos, sempre preferimos a alegria à dor, a riqueza à pobreza e a boa saúde à doença, mas essa
de revisão. Podemos sempre nos ques- busca não pode colocar em perigo a integridade e a virtude. Em outras palavras, é melhor suportar a dor,
a pobreza ou a doença de maneira honrosa do que buscar alegria, riqueza ou saúde de forma vergonhosa.
tionar “por que isso é importante?”. Este
tipo de reflexão pode nos ajudar, assim,
a “personalizar” nossos juízos acerca Qual é o sentido da morte?
da felicidade, em vez de simplesmente
Aceitar que haverá uma conservação e continuidade da nossa vida
corrermos atrás de padrões culturais
não é apenas uma vontade humana de viver para sempre. Algumas
preestabelecidos.
expressões religiosas defendem essa teoria, e outras defendem até
Disponível em: [Link] que o ciclo de vida e morte se perpetua ininterruptamente.
fia-e-felicidade. Acesso em: 17/08/2023. Adaptado. Algumas pessoas não se sentem felizes com a vida que possuem e
acreditam que tudo deveria ser diferente. Esse efeito de infelicidade
é muito incutido, de certa forma, pelas redes sociais. Algumas redes
sociais instigam as pessoas a postarem apenas a sua boa vida, cheia
de riquezas e viagens, o que nem sempre corresponde à realidade.
No entanto, as pessoas que recebem tal conteúdo acham que essa
é a verdadeira felicidade, distante daquela que os gregos pensavam:

34 Religião em Diálogo – 90 ano

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Anotações

34 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


ser feliz é cumprir bem seu papel, seja de mãe, seja de professor, seja
de estudante ou de engenheiro. Sendo honesto no que você faz,
você é feliz.
O filósofo Friedrich Nietzsche (1844–1900), sobre tentarmos viver
sempre, e a todo custo, felizes, escreveu:

“Uma era de felicidade simplesmente não é possível porque


as pessoas querem apenas desejá-la, mas não possuí-la, e
cada indivíduo aprende durante os seus bons tempos a de
fato rezar por inquietações e desconfortos. O destino do ser
humano está projetado para momentos felizes — toda a vida
os têm —, mas não para eras felizes”.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. 1878. Adaptado.

E depois da morte, o que acontece?

Muitas religiões tentaram responder a esse questionamento ao


longo dos anos. Influenciado pela teoria dos estoicos, o Cristianismo
prega a gratificação com o Paraíso por uma vida baseada na moral,
na realização de boas ações consigo e com os demais e na crença
inabalável de que Jesus Cristo é o filho de Deus. Segundo a tradição
judaica, para alcançar a recompensa da vida após a morte, é preciso
obedecer às mitzvot (mandamentos) e ao que está escrito na Torá (os
cinco primeiros livros da Bíblia judaica). A teoria de que nossas ações
repercutirão no que acontecerá conosco depois da morte também
está presente no Hinduísmo e no Budismo por meio da ideia de
carma (ação), segundo a qual tudo que fizermos, de bom ou de ruim,
voltará para nós mesmos. Segundo essas religiões, os problemas que
enfrentamos na vida atual são consequências de más escolhas da vida
passada e de nada termos feito para nos tornarmos pessoas melhores.
Essas “dívidas” passam de uma vida para outra em inúmeras reencar-
nações. A única forma de se livrar desse sofrimento e terminar com
esse ciclo de reencarnações é meditar nos sutras ― trata-se de um
ensinamento basicamente religioso em forma de texto, originário de
algumas tradições espirituais do Oriente, particularmente do Hinduís-
mo, do Budismo e do Jainismo ― e pôr em prática seus ensinamentos.

Religião em Diálogo – 90 ano 35

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 35


Leitura complementar

Independentemente da manifestação religiosa, o ato de deixar um legado no mundo se


A liberdade religiosa como direito
torna, na maioria dos casos, o cerne de todas elas. Observe agora como algumas religiões
à transcendência celebram e compreendem o que existe depois da morte.

O tema religião é tão complexo


quanto o vocábulo que usamos para Budismo
defini-lo. “Religião” é um conceito cuja
construção cultural deve muito às so- Vida e morte são uma unidade, não se separam. Tudo, a cada instante, está nascendo
ciedades ocidentais, desde as origens e morrendo, logo não há nascimento a ser desejado nem morte a ser rejeitada. Dentro do
quadro imenso do Universo, os seres estão em movimento, e cada um carrega uma perso-
dessas sociedades na cultura latina. O
nalidade perecível.
termo romano religio, que nomeava a
O Budismo nega o eu eterno. Os seres morrem e renascem abandonando a ideia do que
precisão e escrupulosidade em relação foram. Buda dizia que o corpo morto é uma carroça quebrada e que não se deve arrastar
às práticas de culto e à memória dos uma carroça quebrada, ou seja, devemos nos desapegar dessa forma. O Budismo japonês
ancestrais, passou a ser usado para não nega nem afirma categoricamente esse processo. A vertente tibetana aceita a volta do
a caracterização de diferentes siste- espírito em outras vidas. Para os discípulos dessa corrente, depois da morte do corpo físico,
mas de crença e de interpretação do a consciência cumpre 49 etapas em 49 dias, a fim de se reorganizar.
mundo. Não nos cabe, aqui, discutir Depois, há o renascimento em algum nível de realidade, seja humano, animal ou inanima-
do, determinado pelo carma vivido. Se fatos e circunstâncias influenciaram a vida da pessoa,
a pertinência ou não desse conceito
depois da morte continuam a produzir efeitos e consequências na trajetória dela.
para cosmologias desenvolvidas fora
Os budistas criam alegorias para entender o que acontece depois desse plano — cada um
desse Ocidente, onde o termo acabou terá sua própria experiência. Portanto, cabe aqui uma única recomendação: faça o bem a
formatado. Basta-nos considerar que, todos os seres. Afinal, não há criaturas piores ou melhores. Todos somos interligados, cada
de uma forma ou de outra, a palavra espécie com sua função e necessidade no mundo.
serve para fazer referência a um fato
incontornável: em toda parte, os seres Candomblé
humanos desenvolveram formas de in- Não existe uma concepção de céu ou inferno, nem de punição eterna. As almas que estão
terpretar o mundo e de compreender na Terra devem cumprir o seu destino.
seu próprio lugar nele; em toda parte, Se o indivíduo leva uma vida imbuída de verdade, o pós-morte será uma extensão de suas
os seres humanos depositaram, nesses ações, portanto, uma passagem confortável, sem julgamentos.
sistemas de crença, de preservação da Tal passagem pode ser facilitada também pela influência dos orixás — entidades que re-
herança dos seus antepassados ou de presentam o vento, o mar, a mata e assim por diante — e que lhe servem de guias espirituais.
Acredita-se no processo evolutivo da reencarnação e na existência de reinos espirituais, para
filosofias de existência, suas convicções
onde se encaminham os mortos, dedicados a cada tradição religiosa.
mais íntimas e mais candentes. Nesse
Essas comunidades interagem, não há fronteiras entre elas. Depois da morte, o tempo é
sentido, talvez proceda a definição de relativo e o espírito pode ser resgatado ou não — tudo dependerá de como usou o livre-ar-
religião surgida em uma das vertentes bítrio. Quem realiza esse resgate nas comunidades espirituais são os espíritos de luz, como
do Cristianismo ocidental: para o lu-
terano Paul Tillich, a fé religiosa seria
aquilo que expressa a “preocupação 36 Religião em Diálogo – 9 ano 0

suprema” do ser humano, aquilo que o


move mais profundamente. Não se trata
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de encontrar uma dimensão essencial que daria forma e sentido a todas as religiões; a questão é simplesmente
reconhecer que uma ação básica dos seres humanos, a de interpretar a si mesmo e ao mundo, não poucas
vezes tem assumido formas que podemos chamar de religiosas.
Se as religiões lidam com as convicções mais profundas dos seres humanos, mobilizando o que nos é mais
caro (tradições ancestrais, heranças afetivas, expectativas para o presente e para o futuro); se elas desempe-
nham, para um grande número de pessoas, um papel fundamental na compreensão do mundo e na própria
aventura, individual, mas também comunitária, de autocompreensão, é de se crer que sua importância — e seu
caráter inalienável enquanto direito — estejam estabelecidos.
Continua

36 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Anotações
os velhos, os caboclos, os indígenas, as pombagiras, que recebem quem chega e também
transmitem ensinamentos com vistas à evolução.
Depois de sucessivas reencarnações, o espírito pode optar por servir às pessoas encar-
nadas como um ser de luz e não mais retornar à Terra. Ainda assim segue trabalhando pelo
próprio aprimoramento.

Umbanda

A Umbanda recebe influências de crenças cristãs e espírita e de cultos de origem africana,


oriental e indígena. Como não existe uma unidade ou um livro sagrado que delimite a crença,
alguns umbandistas admitem o Céu e o Inferno dos cristãos, enquanto outros falam apenas
em carma e reencarnação.
Na Umbanda, morte e nascimento são momentos sagrados, que marcam a passagem de
um estado a outro de manifestação espiritual. Morremos para um lado e nascemos para outro
lado da vida, o que nos aguarda do outro lado depende de nós mesmos.
A Umbanda explica o Universo por meio de sete linhas, regidas por orixás. Ao morrer, a
pessoa será atraída por esses mundos espirituais. A matéria é apenas um dos caminhos para
a evolução do espírito. Portanto, a morte é uma etapa do ciclo evolutivo, sendo a reencar-
nação a base da evolução. O objetivo maior do nascimento e da morte é a harmonização e a
evolução consciente do espírito. Após a morte, o ser humano leva consigo suas alegrias, sua
fé, suas crenças, suas mágoas e suas dores. E terá que lidar com elas, sempre contando com
o auxílio dos espíritos mais evoluídos que o recepcionarão no outro lado da vida e o ajudarão
na sua adaptação no mundo espiritual.
Com a morte do corpo físico, os espíritos bons podem se tornar protetores, enquanto os
maus (espíritos de pouca evolução, devido às poucas encarnações) podem vir a ser pertur-
badores. Os mortos (desencarnados) podem ser contatados, ajudados ou afastados.

Cristianismo

O fundamento da fé na ressurreição se encontra no fato de Deus ter ressuscitado seu filho,


Jesus. Morrer e ser ressuscitado significa chegar a uma ampliação plena da cognição, de tal ma-
neira que só na morte a pessoa tenha a possibilidade de conhecer, com clareza total e absoluta, o
significado e as consequências do que viveu no nível individual, socioestrutural, histórico e cósmico.
A pessoa que morreu, junto com Deus e com base nos parâmetros Dele, tem sua trajetória
julgada, considerando em que medida correspondeu ou não às diretrizes divinas. Tal processo
é conhecido como juízo final.
Na expressão religiosa, o ser humano
Deus quer que todas as pessoas alcancem a plenitude, o céu, que significa a comunhão
encontra condições para se autotrans-
plena e íntima com Ele. Dessa forma, o ser humano fica para sempre amparado no amor
cender, para ir além de si mesmo. Essa
transcendência que a religião torna pos-
Religião em Diálogo – 9 ano 37 sível não está condicionada à crença em
0

um Outro transcendente, sugerida por


diversas religiões; mesmo naquelas que
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não estão ligadas à noção de um sagrado transcendente, a possibilidade de transcendência persiste, porque
continua sendo possível que o ser humano se mova para além de si, na direção das outras pessoas. Nesse
sentido, a atitude religiosa ensina algo, mesmo àqueles que não professam qualquer religião: a identificação de
uma preocupação suprema mostra que não conseguimos viver apenas no círculo restrito de nosso self, visto
que precisamos aprender os caminhos que nos conduzem para fora de nós e facilitem nossas ligações com a
comunidade humana. A liberdade religiosa é, portanto, um direito à transcendência.

Disponível em: [Link] Acesso em:


17/08/2023. Adaptado.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 37


divino, em uma felicidade total, além de viver em comunhão com seus irmãos e suas irmãs.
No entanto, em vida, as pessoas podem usar de seu livre-arbítrio para fazer o que quiserem,
inclusive se negar a viver de acordo com seus preceitos e não aceitar viver no paraíso, so-
brando a consequência dessa negação: o inferno.

Espiritismo

De acordo com a doutrina espírita, o espírito — a essência do ser — continua vivo depois
da morte, que só atinge o corpo. O que encontramos do outro lado reflete o que realizamos
na Terra. É uma consequência justa, baseada no merecimento. Desencarnação é o processo
de libertação do espírito. No entanto, este pode ficar apegado a dores, paixões, vícios, ma-
terialismos, preocupações, etc.
O desligamento do plano material consome dias, meses ou até anos. Há, inclusive, aqueles
que não sabem que desencarnaram. Por isso, é importante ter em vida a compreensão de que
haverá continuidade e de que não será feita a travessia sozinho. O espírito é acompanhado
por amigos espirituais e familiares. Pela sintonia que estabelece por meio de pensamentos e
sentimentos, será atraído para comunidades de luz ou para o umbral, espécie de purgatório
temporário, onde terá a chance de aprender e se elevar.
Quando estiver preparado, o espírito retornará ao plano físico num novo corpo para “quitar
dívidas” e adquirir “créditos”. Alguns chegam devendo e voltam ainda mais endividados por
causa de orgulho, desequilíbrios e faltas graves. Reencarnamos quantas vezes forem neces-
sárias. Seres de luz podem ascender ao mundo superior e não mais voltar à Terra.

Islamismo

Os muçulmanos acreditam que todos nascem puros e inocentes, com uma beleza inata e
a capacidade de progredir e adquirir conhecimento. No entanto, possuímos o livre-arbítrio.
Ao mesmo tempo que temos uma tendência natural para o bem, somos livres e capazes
de crueldades e injustiças. Sendo assim, quem professa a fé islâmica será responsabilizado por
todos os seus pensamentos e ações no Dia do Juízo, quando o mundo será enrolado como
um pergaminho e todos serão julgados por Deus.
Aqueles que apresentarem bons atos serão recompensados com o paraíso, os outros irão
para o inferno — conceitos puramente metafóricos. A verdadeira natureza do céu e do inferno
só é conhecida por Deus.
A crença no Dia do Juízo significa que a morte não é o fim da vida, mas um portal para a
vida eterna. Portanto, os muçulmanos percebem o tempo como sendo contínuo, desse mundo
para o próximo; e o tempo passado aqui moldará a natureza do tempo eterno.

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38 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Em suma, a salvação — neste mundo e na vida depois da morte — está em praticar boas
obras e promover tudo o que seja nobre, justo e digno de louvor.

Hinduísmo

Na Índia, quando uma pessoa morre, seu corpo é levado pelos parentes para o Rio Ganges.
Lá ocorre a cremação, em um ritual repleto de detalhes. Para os indianos, a pessoa não é o
corpo, mas a alma, que parte para outra dimensão. Por isso, cantam e festejam. Dependendo
do mérito conquistado em vida, o espírito passará um período no loka — uma espécie de céu.
Esgotado o tempo, tem de retornar à instância física.
O espírito percorre as dimensões mentais e emocionais e vai conhecendo os desafios que
terá de enfrentar na vida nova. Nasce, portanto, imbuído da missão que vem cumprir na en-
carnação atual, resgatando uma parcela dos erros cometidos no decorrer das vidas anteriores,
e regressa a uma família alinhada a seu mérito (ou demérito) espiritual, mental e emocional.
Almas evoluídas nascem na mais alta casta, a dos brâmanes, representada por sacerdotes e
filósofos. O grupo logo abaixo nasce na casta dos xátrias, composta de militares e políticos.
As almas menos nobres vão para a casta dos comerciantes, os vaixás, e, por último, para a
casta dos trabalhadores, os sudras, conhecidos também como dalits.
Quando a alma atinge um patamar espiritual elevado e consegue finalmente se desapegar
do mundo material, mental e emocional, passa a ter um entendimento perfeito das coisas, sem
ilusões, e não precisará mais encarnar. Existe um expressivo número de indianos que aceita
essa sina plenamente, entende que está onde está por mérito e, se ascender, passando por
todas as instâncias no decorrer de sucessivas encarnações, haverá uma grande ordem social.
Do contrário, imperará a desordem.

Judaísmo

O Judaísmo prega que todos os mortos serão ressuscitados na Era Messiânica (quando
o Messias chegar à Terra). Para o Judaísmo, a alma é imortal. Antes de nascer, assinamos
uma espécie de contrato por meio do qual nos comprometemos a enfrentar determinadas
situações desafiadoras que podem trazer tristezas e dificuldades, provações que contribuem
para nosso aperfeiçoamento.

Disponível em: [Link] Acesso em: 22/06/2023.

Religião em Diálogo – 90 ano 39

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 39


Sugestão de abordagem

Professor, a seguir, propomos su-


gestões de respostas para a questão 2.
1. Segundo o texto As diversas formas de entender a morte e a vida, os seres humanos ten-
Resposta da questão 2 dem, naturalmente, a procurar o prazer e a fugir da dor. De acordo com o que foi estuda-
do, o que você compreende dessa assertiva?
b) Espera-se que os alunos compreen-
dam que, na própria letra da música, é Espera-se que os alunos compreendam que o ser humano tende a fazer apenas as coisas
dito que, para poder pulsar, é preciso que o agradam e o favorecem. No entanto, é preciso que passemos por momentos difíceis
ter amor. Compreende-se que o amor
para que aprendamos a ver novos horizontes.
é a grande máquina que move a huma-
nidade. Professor, os alunos podem dar
2. Observe o trecho a seguir, da música Tocando em frente, de Almir Sater, cantor e compo-
outras respostas. Aceite-as e leve-os a sitor brasileiro, para responder às perguntas.
refletir sobre o tema, dando significado
ao amor. Tocando em frente

c) Professor, esta questão nos traz al-


Almir Sater

Ando devagar Conhecer as manhas


gumas problemáticas complexas, mas Porque já tive pressa E as manhãs
pertinentes. No entanto, acreditamos E levo esse sorriso O sabor das massas
Porque já chorei demais E das maçãs
na maturidade dos alunos e em sua
É preciso amor
capacidade de fomentar a autocrítica. Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe Pra poder pulsar
Pense que existem muitas formas de vi- É preciso paz pra poder sorrir
Só levo a certeza
ver e de entender a vida, e isso é que dá De que muito pouco sei É preciso a chuva para florir
sentido a ela. Quando Sócrates afirma Ou nada sei [...]
que de nada sabe, ele quer dizer que o
conhecimento e a Filosofia partem da
a) O eu lírico da música deixa evidente que o motivo de poder sorrir hoje é já ter chorado
dúvida; isto é, quando me deparo com um dia. De acordo com o que estudamos até agora, como você pode relacionar esse tre-
uma situação nova, preciso me questio- cho com o pensamento estoico sobre felicidade?
nar sobre ela para, a partir dessas per-
Segundo a definição dos estoicos, só poderemos de fato ser felizes quando deixarmos
guntas e das suas possíveis respostas,
começar a construir conhecimentos. de ter a felicidade como único objetivo. A busca pelo autocontrole e pela temperança faz

com que superemos as emoções por meio da razão. Logo, é necessário termos momentos

tristes para podermos dar o real valor à felicidade.

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Anotações

40 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


b) O texto As diversas formas de entender a morte e a vida nos fala que existem dois desejos
que movem a humanidade: os desejos vivos e pulsantes e os frívolos. Em sua opinião, o
amor, citado no fragmento da música “É preciso amor pra poder pulsar”, é vivo e pulsante
ou frívolo? Por quê?

Resposta pessoal.

c) Na segunda estrofe da música analisada, o eu lírico expõe o seguinte: “[...] de que muito
pouco sei ou nada sei [...]”. Em certo momento de sua vida, Sócrates falou uma sentença
parecida: “Só sei que nada sei”. Mesmo sendo um grande expoente da Filosofia grega e
da forma crítica de se viver, Sócrates se colocava numa situação de aprendizado, ou seja,
acreditava que o que sabia ainda era pouco. De acordo com o que estudamos e com as
discussões feitas, responda: qual a importância de se colocar como um eterno aprendiz
diante da vida e como essa forma de viver pode dar sentido à vida?

Resposta pessoal.

3. Tomando Sócrates como inspiração, que, mesmo sendo considerado um dos homens mais
sábios da sua época, colocava-se na condição de aprendiz e buscava ouvir o que outras
pessoas pensavam para então elaborar suas teorias, nós iremos produzir um debate em
sala. Ouvindo com respeito e cordialidade o que nossos colegas pensam, passaremos a nos
conhecer melhor e a traçar novas perspectivas de vida. Para guiar nosso debate, podemos
usar as perguntas a seguir:

I. Qual o sentido da vida?


II. O sentido de nossa vida é diferente do sentido da vida de outros seres vivos? Por quê?
III. Você acha que todas as pessoas se preocupam com o sentido da vida? Você se preocupa?
IV. Você acha que existem boas razões para se buscar um sentido para a vida? Quais?
V. É possível dar sentido à nossa vida respeitando os demais modos de viver ?
Resposta pessoal.

4. Observe a tirinha a seguir para responder às questões.


Mamãe, é
verdade Um dia sim, filha,
que um dia mas só nele.
vamos morrer? Em todos os outros
iremos viver.

Religião em Diálogo – 90 ano 41

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 41


Sugestão de abordagem

Professor, a seguir, propomos su- a) No quadrinho, a mãe conforta a filha dizendo que, apesar de o destino comum para todos
gestões de respostas para a questão 4. os seres humanos ser um dia morrer, teremos todos os outros para viver. Com as suas
palavras, explique o que ela quis dizer.

a) Espera-se que os alunos compre- Resposta pessoal.


endam que a mãe está alertando a fi-
lha para não se preocupar quando irá
morrer, porque isso acontecerá apenas b) Epicuro, um dos filósofos citados neste momento, certa vez disse:
em um único dia. Se ela ficar pensando
muito nesse dia, deixará de viver com a “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e,
intensidade necessária todos os outros quando existe a morte, não existimos mais.”

dias que antecedem o da morte, ou seja,


deixará de viver o presente pensando O que você entendeu da afirmação de Epicuro? Como podemos relacionar a frase de
no futuro. Epicuro com a tirinha vista?
Resposta pessoal.
b) Espera-se que os alunos compre-
endam que, segundo Epicuro, não há
necessidade de gastar tempo refletindo
a respeito da morte, pois, quando ela
chegar, estaremos mortos, e, enquanto
ela não acontecer, estaremos vivos, logo
não há necessidade de se preocupar.
Qual o seu legado?
Espera-se também que os alunos
encontrem elos entre o medo da menina
Você já parou para pensar sobre o que gostaria de deixar no mundo para que as pessoas
quando descobriu que iria morrer um um dia lembrem de você?
dia e a fala de sua mãe acalmando-a Quando falamos de legado, vem logo à nossa mente fama, sucesso, riqueza, etc. Esse tipo
com uma explicação semelhante à de de legado faz parte da vida, mas como consequência, não como fim, ou seja, o dinheiro e a
Epicuro. fama devem ser as consequências de se fazer um bom trabalho e de se viver honestamente.
Não devemos viver em função da acumulação de bens. O questionamento feito sobre deixar
um legado no mundo diz respeito aos afetos que você tem construído com as pessoas ao
seu redor.
Será que você tem amado o suficiente?
Será que você tem olhado para as pessoas que moram com você?
Você tem se analisado e buscado se conhecer cada vez mais?
Será que você tem vivido de acordo com seus princípios e valores?

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Anotações

42 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Todos esses questionamentos precisam ser feitos para que não vivamos apenas de apa-
rências e deixemos de fazer de nossa vida algo que valha a pena.
Você pode se perguntar:

E o que faz a vida valer a pena?

Fernando Pessoa, poeta português, certa vez escreveu: “Tudo vale a pena quando a alma
não é pequena”, ou seja, ame. Faça-se amado. Ame muito. E disso você não irá se arrepender.
Fernando Pessoa, Mahatma Gandhi, Jesus Cristo, Confúcio, Nelson Mandela, Madre Teresa
de Calcutá... Tantos foram os homens e as mulheres que passaram pela Terra e deixaram um
grande legado que até hoje é lembrado.
E como você quer ser lembrado pelos seus entes queridos? Você já se perguntou isso?
Sendo assim, para finalizar nosso momento, produziremos agora uma carta para nós mesmos
no futuro.
Como você espera estar daqui a 10‒15 anos? Quais são seus objetivos?
Antes de produzir essa carta, faça um exercício de autorreflexão e suas projeções. Depois
de produzi-la, compartilhe essa experiência com seus colegas de sala, guarde-a em um local
seguro para que você um dia possa abri-la e verificar se aquilo que você projetou hoje se
realizou.

Título: O livro tibetano do viver e do morrer


Reprodução.

Autor: Sogyal Rinpoche


Editora: Palas Athena
Sinopse: Esta obra-prima da espiritualidade budista é considerada uma
das mais completas do gênero. O mestre tibetano Sogyal Rinpoche nos dá
um verdadeiro manual sobre a vida e a morte, ensinando princípios funda-
mentais sobre a natureza da mente, a meditação, o carma, a reencarnação,
entre muitos outros. Com raízes profundas na tradição milenar tibetana,
com especial ênfase no clássico Livro tibetano dos mortos, mas baseada
em uma investigação contemporânea, a sua obra alcança um âmbito sem
precedentes. O livro tibetano da vida e da morte equivale a uma caminhada espiritual plena de com-
paixão, de carinho e de amor ao próximo, capaz de transformar a vida de todos, independentemente
das suas convicções pessoais.

Religião em Diálogo – 90 ano 43

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 43


BNCC – Habilidade
trabalhada no capítulo

3o
(EF09ER06) Reconhecer a coexistência
como uma atitude ética de respeito à O diálogo como uma atitude ética
vida e à dignidade humana. momento de respeito à vida e à dignidade
humana

Objetivos pedagógicos

Ҍ Analisar como a ação ética con- Em defesa dos direitos e da dignidade humana
tribui para a formação humana.
Desde a formação do Cristianismo primitivo, há a reivindicação de
Ҍ Compreender a construção da respeito aos direitos humanos, exigidos pela Igreja Católica Apostó-
dignidade humana a partir de lica Romana na defesa das minorias sociais e étnicas; por exemplo, a
uma atitude religiosa a serviço pregação dos padres dos primeiros séculos, como Ambrósio, Agosti-
da humanidade. nho, Basílio, Atanásio, João Crisóstomo, entre outros, orientada pelo
Evangelho (referencial teórico e prático), que clama pelo direito do
pobre e do indigente; e, na época da colonização das Américas, a
defesa intransigente dos direitos dos indígenas, por meio da pregação
Diálogo com o professor de Bartolomeu de las Casas, Antônio de Montesinos, etc.
O papado do período da modernidade dá continuidade à defesa
dos direitos humanos: o Papa Gregório XVI (1831–1846) condenou a
Professor, seria interessante co- escravização das pessoas trazidas da África e, com a bula In supremo
nhecer a filosofia de Kant, pois é uma Para defender os indíge- apostolatus (1839) — No apostolado maior, em português —, contri-
filosofia crítica por ter um significado nas no novo continente, buiu para o fim do comércio e do tráfico de pessoas do continente
Bartolomeu de las Casas
positivo. Sua posição filosófica é cha- (1478–1566) viajou várias
africano; em 1888, o Papa Leão XIII, na bula In plurimis (Pelos muitos,
mada de idealismo transcendental. Ou vezes à Espanha, apelan- em português), dirigida aos bispos do Brasil, pediu apoio ao impera-
do aos oficiais do governo
seja, Kant pretendia garantir à razão e a todos que o quisessem
dor Dom Pedro II e à sua filha Princesa Isabel, para, definitivamente,
acabar com a escravização no Brasil; o Papa Pio XI (1922–1939) que
humana a legitimidade de considerar ouvir em favor dos indíge-
se colocou contra os totalitarismos de direita e de esquerda, por meio
certas questões para as quais não há nas. Assim que ingressou
na vida religiosa domi- das encíclicas Non abbiamo bisogno (Nós não precisamos, em português),
conhecimento possível e, ao mesmo nicana, ele se dedicou à contra o fascismo italiano, Mit brennender Sorge (Com ardente preo-
tempo, restringir o uso da razão, de causa indígena em defesa
cupação, em português), contra o nazismo alemão, e Divini Redemp-
da vida, da liberdade e da
modo que esta não se permita fazer dignidade. toris (Divino Redentor, em português), contra o comunismo soviético;
afirmações infundadas, como as que Pio XII (1939–1958) lutou incansavelmente pela dignidade das pes-
se fazem sobre a existência de Deus.
O filósofo tratou da ética como ética 44 Religião em Diálogo – 90 ano
universal. É dele a ideia do imperativo
categórico: “Age como se a máxima de Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 44 01/09/2023 [Link]

tua ação devesse tornar-se, por tua von-


tade, lei universal da natureza”.
Anotações

44 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


soas, foi o primeiro papa a elaborar e promulgar uma lista de direitos humanos, através de
sua mensagem radiofônica de Natal, no ano de 1942.
A Igreja Católica teve um papel crucial durante o período ditatorial (1964–1985), que simbo-
lizou um dos momentos mais dramáticos da história do Brasil no que se refere ao desrespeito
e à violência contra os mais elementares direitos do ser humano.
O governo de João Goulart enfrentava dias difíceis, passando por momentos que deixa-
vam a população apreensiva e ansiosa. Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara,
hoje Rio de Janeiro, espalhava boatos sobre planos que, segundo ele, eram armados pelos
comunistas e ameaçavam a ordem do País.
A situação era problemática; havia insatisfações com o governo e conflitos de interesses
que, para alguns, eram prenúncio de uma guerra civil. Antes que isso acontecesse, os militares,
apoiados por grupos da sociedade civil, deram um golpe. Tomaram o poder de forma radical,
pondo fim à democracia, empreendendo perseguições e fazendo uso de violência.
A ditadura civil-militar brasileira teve início em 31 de março de 1964, quando os militares
tomaram o poder, e permaneceu durante 21 anos, totalizando cinco presidentes militares.
Foi um período marcado por um jogo de interesse e poder, pois, embora o País estivesse
governado por militares, as ações econômicas estavam relacionadas à elite civil (banqueiros,
fazendeiros e grandes empresários), que apoiou o golpe.
Muitos acreditavam que os militares, tomando o poder, ajudariam a restabelecer a ordem
e o devolveriam aos civis. No entanto, entre os militares da Marinha, do Exército e da Aero-
náutica, muitos defendiam a permanência daquele modelo de governo por um longo período.
E foi o que aconteceu.
Devido à repressão e ao cerceamento das liberdades, na sociedade e dentro da Igreja
Católica, surgiram manifestações de repúdio à ditadura, com o envolvimento do clero com
militantes resistentes ao regime, e a própria proteção do clero aos perseguidos e torturados.
Reprodução.

Manifestação em São
Paulo durante o proces-
so eleitoral de 1974, em
que Ulysses Guimarães
saiu “anticandidato” à
Presidência da Repúbli-
ca; somente uma déca-
da depois, chegariam ao
término os 21 anos de
ditadura no País.

Religião em Diálogo – 90 ano 45

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 45


Sugestão de abordagem

Explore com seus alunos o significa-


do das palavras ética, religião e dignida-
1. Observe o tweet a seguir e responda às perguntas que seguem.
de. Pergunte, por exemplo, o que eles
consideram ser ético. Depois, comente
sobre o sentido desta última no âm-
bito religioso, considerando objetos,
doutrinas, rituais, celebrações, entre
outros. Discuta com eles as influências
e os sentidos desses elementos, bem
como sua importância para a história
e a construção da identidade religiosa
de cada povo.

Sugestão de vídeo
a) A ditadura civil-militar ocorreu no Brasil entre os anos de 1964 e 1985. Nessa época, os
militares assumiram a presidência do Brasil, depondo o então presidente interino João
Professor, acesse o QR Code a seguir Goulart, mais conhecido como Jango, eleito democraticamente vice-presidente de Jânio
e assista ao vídeo que trata do processo Quadros, que veio a renunciar. De acordo com a sua interpretação da charge e com os
histórico da ditadura militar e que des- seus conhecimentos prévios, por qual motivo o canhão de guerra está coberto por um
mistifica a ideia de que o Brasil, nesse tecido e perto dele está uma vassoura?
período, era o melhor lugar para viver. Espera-se que os alunos compreendam que o autor da charge quis representar a

expressão popular “varrer para debaixo do tapete”, fazendo uma crítica ao fato de que
“NA DITADURA MILITAR O BRASIL
ERA MELHOR” | ERA UMA VEZ NO o assunto do golpe militar ainda não foi bem resolvido.
BRASIL 1 | Politize!
b) Por que, na fala do militar da charge, a expressão intervenção militar está entre aspas?
Espera-se que os alunos compreendam que, para algumas pessoas, o que aconteceu

no Brasil entre 1964 e 1985 não foi, de fato, uma ditadura militar, mas, sim, uma inter-

venção militar. Dependendo da opção por um ou por outro termo (inter venção ou

ditadura), são agregados diferentes valores políticos e ideológicos às expressões.

46 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 46 01/09/2023 [Link]

Anotações

46 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Para refletir

2. Leia o texto abaixo para responder às perguntas que seguem: O período que se estendeu por 21
anos e ficou conhecido como ditadura
A Marcha da Família com Deus pela Liberdade civil-militar marcou profundamente a
política, a economia e a cultura no Bra-
Foi um movimento surgido em março sil. É necessário analisar o conjunto de
de 1964 e que se consistiu em uma série
acontecimentos que levaram à eclosão
de manifestações, ou marchas, organiza-
desse regime de exceção. Nesse con-
das principalmente por setores do clero e
por entidades femininas em resposta ao
texto, torna-se igualmente importante
comício realizado no Rio de Janeiro em averiguar as intenções estadunidenses
13 de março de 1964, durante o qual o que, durante o governo de Jango, orga-
presidente João Goulart anunciou seu pro- nizava uma ditadura proletária a partir
grama de reformas de base. Congregou das Reformas de Base.
segmentos da classe média, temerosos do
“perigo comunista” e favoráveis à deposição
do presidente da República.
A primeira dessas manifestações ocor- FGV/CPDOC

reu em São Paulo, no dia 19 de março, no Dia de São José, padroeiro da família. O Sugestão de abordagem
principal articulador da marcha foi o deputado Antônio Sílvio da Cunha Bueno, apoiado
pelo governador Ademar de Barros, que se fez representar no trabalho de convocação
Vários elementos surgiram nos
por sua mulher, Leonor de Barros.
Preparada com o auxílio da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), da
anos anteriores ao Golpe de 1964,
União Cívica Feminina, da Fraterna Amizade Urbana e Rural, entre outras entidades, objetivando criar um clima para que
a marcha paulista recebeu também o apoio da Federação e do Centro das Indústrias houvesse uma intervenção militar.
do Estado de São Paulo. A marcha contou com a participação de cerca de trezentas Nesse sentido, é importante abordar
mil pessoas, entre as quais Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, e Carlos a influência da ideologia comunista e o
Lacerda, governador do Estado da Guanabara. O trajeto saiu da Praça da República e receio, por parte da direita conserva-
terminou na Praça da Sé, com a celebração da missa “pela salvação da democracia”. Na dora, de que ela tomasse proporções
ocasião, foi distribuído o Manifesto ao Povo do Brasil, convocando a população a reagir
maiores. Nesse processo, faça com que
contra Goulart.
os alunos observem a ocorrência de
A iniciativa da Marcha da Família repetiu-se em outras capitais, mas já após a der-
rubada de Goulart pelos militares em 31 de março, o que as tornou conhecidas como
outros regimes ditatoriais na América
marchas da vitória. A marcha do Rio de Janeiro, articulada pela Camde, levou às ruas Latina. Solicite uma pesquisa acerca
cerca de um milhão de pessoas no dia 2 de abril de 1964. da chamada Operação Condor, criada
pelos Estados Unidos em parceria com
alguns ditadores e que se intensificou
Disponível em: [Link]
junturaRadicalizacao/A_marcha_da_familia_com_Deus. Acesso em: 22/08/2023.

a partir de 1973.
É importante trabalhar com os alu-
nos conceitos de liberdade de expressão
Religião em Diálogo – 90 ano 47
e liberdade de imprensa, e como a priva-
Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 47 01/09/2023 [Link] ção desses elementos durante o regime
militar foi nociva para a formação da
sociedade e da identidade nacional.
Anotações

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 47


a) Qual era o intuito principal da Marcha da Família com Deus pela Liberdade?

Espera-se que os alunos compreendam que a marcha visava à deposição de João Goulart,

incentivando, assim, a instauração da presidência do Brasil regida pelos militares.

b) O texto afirma que a marcha foi realizada em resposta ao pronunciamento do então pre-
sidente João Goulart, que anunciou seu programa de reformas de base. Com a ajuda da
Internet, pesquise quais foram essas reformas sugeridas pelo presidente.

João Goulart assinou dois decretos permitindo a desapropriação de terras em uma faixa de

dez quilômetros às margens de rodovias, ferrovias e barragens e transferindo para a União

o controle de cinco refinarias de petróleo que operavam no País. Além disso, prometeu

realizar as chamadas reformas de base, uma série de reformas administrativas, agrárias,

financeiras e tributárias, para garantir o que Goulart chamava de justiça social, funda-

mentada na função social da terra e de empreendimentos urbanos.

c) Quais importantes eventos mundiais estavam acontecendo durante o período ditatorial


civil-militar no Brasil?

Guerra do Vietnã, Guerra Fria, crise do petróleo, etc.

d) Com a leitura do texto, foi possível perceber o envolvimento de alguns grupos tradiciona-
listas e conservadores da Igreja Católica que apoiavam o regime civil-militar, assim como
grupos femininos e da classe média brasileira. De acordo com o que já foi estudado e com
seu conhecimento de mundo, o que justifica a seguinte frase do texto lido: “Congregou
segmentos da classe média, temerosos do ‘perigo comunista’ e favoráveis à deposição do
presidente da República”?

No contexto dos eventos mundiais, podemos nos basear na Guerra Fria e na polarização

entre os Estados Unidos e a União Soviética. As medidas tomadas por João Goulart foram

vistas como um passo em direção à implementação de uma ditadura socialista.

48 Religião em Diálogo – 90 ano

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48 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Leitura complementar

Professor, acesse o QR Code a seguir


e amplie sua visão acerca da concepção
A dignidade do ser humano como uma necessidade de ser humano a partir da perspectiva
ética do filósofo Heidegger.
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de ra-
zão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade. O PENSAMENTO DE MARTIN
Art. 1o da Declaração Universal dos Direitos Humanos
HEIDEGGER | Canal Curta!

A questão sobre a dignidade da pessoa e a concepção


de ser humano

Quando nos colocamos a debater sobre a dignidade das pessoas


e qual é a concepção de identidade humana, precisamos nos basear
na seguinte afirmação de Protágoras, filósofo grego: “O homem é a
medida de todas as coisas”.
Boa parte dos grupos — senão todos — que estudam o ser humano
e sua relação com todas as suas dimensões, ou seja, a Antropologia, a
Psicologia, a Sociologia, a Filosofia e as demais áreas do conhecimento,
reconhecem a centralidade do ser humano como o principal agente
transformador do mundo e como produtor de reflexão e conhecimento. Reprodução.

O Iluminismo foi um
movimento intelectual
e filosófico ocorrido
durante o século XVIII.
Esse período foi marcado
por uma série de ideias
centradas na razão como
a principal fonte de au-
toridade e legitimidade.
Defendia ideais como
liberdade, progresso,
tolerância, fraternidade,
governo constitucional e Detalhe da pintura No Salão da Madame Geoffrin em 1755 (1812), de Anicet
separação Igreja-Estado. Charles Gabriel Lemonnier.

Sem essa base, não é possível perceber o indispensável papel da Anotações


humanidade, tanto prático como epistemológico, na discussão sobre

Religião em Diálogo – 90 ano 49

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 49


Sugestão de abordagem

Professor, sugerimos uma atividade a ética e a dignidade humana, sendo essas discussões universais, ou

Reprodução.
que pode ser ampliada ao debate sobre a seja, produzem efeitos independentemente da nacionalidade e classe
dignidade humana e os direitos humanos. social, pois todas as pessoas são dotadas de humanidade e devem ter
a vida protegida e respeitada.
Algumas manifestações religiosas concebem o ser humano como
O que significa ser humano?
sendo criado por um ser divino, e, por isso, a sua existência é funda-
1. Escreva as palavras humano e direi- mentalmente importante. Por exemplo, para os cristãos, Deus criou o
tos no alto da lousa ou de uma cartolina. homem e a mulher à sua imagem e semelhança (dotados de vontade
e inteligência) e, por amá-los, deu-lhes a vida, portanto sua existência
Abaixo da palavra humano, desenhe um
precisa ser respeitada e mantida inviolada. Tomando ciência desses
círculo ou o esboço de um ser huma- Jesus na cruz entre dois
atributos divinos, os seres humanos conceberão a liberdade como ladrões (1619–1620), de
no. Peça aos alunos que realizem uma uma das maiores características de sua dignidade, tendo em vista Peter Paul Rubens. Para
brainstorming (tempestade de ideias, que não é porque são livres que têm dignidade, mas a sua dignidade os cristãos, Jesus Cristo
é a personificação fide-
em português) — técnica de dinâmica existe porque Deus os criou, e, assim, sua liberdade não pode ser digna de Deus.
de grupo, desenvolvida com o objetivo corrompida. Também podemos partir do pressuposto filosófico de que
de explorar a potencialidade de cria- “uma pessoa é uma substância individual de natureza racional”. Essa
ção de uma pessoa ou de um grupo —, afirmação, feita pelo filósofo Boécio (século IV), parte de uma antropologia do corpo que será
utilizando as qualidades que definem importante para o sentido da dignidade, pois sem o corpo o indivíduo não tem uma identida-
de objetivada. Esse conceito permitirá múltiplas interpretações e compreensões acerca das
o ser humano. Em seguida, escreva as
reflexões sobre a humanidade, pois sua dignidade não existe por ser humano, mas depende
palavras ou os símbolos dentro do círculo
daquilo que o Estado legitima, por meio de leis, garantindo direitos individuais e coletivos.
ou do esboço. Por exemplo: inteligência, Nessa formulação, baseada no Iluminismo, a dignidade humana é enfatizada pelo fortale-
simpatia, etc. cimento do Estado, e não existe uma mediação do transcendental. O corpo assegura a indi-
vidualidade ao ser humano, que não luta mais por liberdade ou por direitos de modo global,
2. Depois, pergunte aos alunos o mas, sim, por aqueles que se assemelham aos seus grupos restritos.
que eles consideram necessário para Diferentemente das teorias iluministas, de que o indivíduo é dignificado por meio do Estado,
proteger, aprimorar e desenvolver e distinguindo-se também do modelo teológico defendido pelo Cristianismo — como vimos, de
que o ser humano deve ser dignificado por ser criatura feita por Deus —, atualmente é possível
plenamente essas qualidades de um
perceber um caminho distinto, seguido pela sociedade contemporânea, o qual afirma que, para
ser humano. Liste as respostas fora do
se conhecer, é preciso estar com o outro em um viés relacional, pois nesse contato é possível
círculo e peça a eles que expliquem. perceber características pessoais que sozinho não é viável. Isto é, o modelo de reconhecimento
Por exemplo, educação, amizade, amor de si e do mundo está partindo de uma filosofia do encontro com o outro.
familiar (observação: guarde essa lista Os seres humanos são iguais entre si — mesmo cada um sendo diferente em suas par-
para a parte 2). ticularidades —, pois todos pertencem à mesma espécie: a humana. Todos sofrem, sentem
fome, sangram, etc. Quando nos alegramos por coisas ruins que o outro vive — mesmo que
3. Discuta: o julgamento individual considere justo —, a partir desse ponto, é possível perceber uma
Ҍ O que significa ser plenamente fragmentação de empatia com a dor do outro.

humano? Como isso é diferente


de simplesmente estar vivo ou 50 Religião em Diálogo – 90 ano

sobreviver?
Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 50 01/09/2023 [Link]

Ҍ Baseado nessa lista, o que as pes-


soas precisam para viver com dignidade?
Ҍ Os seres humanos são todos essencialmente iguais? Qual o valor das diferenças humanas?
Ҍ Nossas qualidades essencialmente humanas podem ser tiradas de nós? Por exemplo, apenas seres humanos
podem se comunicar em linguagem complexa. Caso você perca a capacidade de falar, você ainda será humano?
Ҍ O que acontece quando uma pessoa ou um governo tenta privar alguém de algo necessário à dignidade
humana?

Continua

50 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Anotações
Levando em consideração que todos são seres humanos, é possível
reconhecer sua dignidade. A verdade sobre aquilo que o outro é não
Principalidade: Algo pode ser relativizada (dependente de algo externo para existir) nem
ou alguém que é im- dogmatizada (sujeita a uma doutrina religiosa para existir), de maneira
portante, que tem
que repudiar o outro é negar toda existência humana e o seu direito ina-
primazia.
Incorruptibilidade: lienável de dignidade humana. Quem reconhece a dignidade das pessoas
Qualidade de quem universaliza a principalidade da vida e a incorruptibilidade da dignidade
não é corrupto; que
do ser humano, desde a sua concepção até seu término natural.
não sofreu alteração.

Aspectos gerais, origem e evolução do princípio


social da dignidade do ser humano

Inicialmente, na Antiguidade Clássica, a ideia de dignidade (dignitas) do


ser humano possuía uma íntima relação com a posição social conquistada
pelo indivíduo e o seu nível de notoriedade entre os demais integrantes
da comunidade, havendo, inclusive, uma gradação da dignidade, isto é,
pessoas mais dignas ou menos dignas.
Para os estoicos, a dignidade era compreendida como uma quali-
dade inata ao ser humano, e todos a tinham independentemente da
nacionalidade ou nível social, nenhum poder seria capaz de negar essa
característica ou reforçá-la.

Pirâmide social
da Grécia antiga • Homens com mais de 18 anos.
• Participavam do governo e tinham muitos direitos.
• Podiam ter propriedades e pagavam impostos.
• Não trabalhavam.

• Podiam ser livres — no entanto, algumas eram escravizadas e


Cidadãos
não tinham direitos.
• Não podiam participar da política.
• Sempre deviam obediência ao homem (pai, irmãos ou marido).
Mulheres • As ricas ficavam em casa, as pobres trabalhavam.

• Eram livres, mas não participavam da política.


Estrangeiros • Pagavam impostos e serviam ao exército.
• Não podiam ter propriedades.
• Trabalhavam no comércio.
Escravizados
• Não eram livres, eram propriedade de algum cidadão.
• Eram prisioneiros de guerra ou filhos de escravizados.
• Trabalhavam na agricultura ou no serviço doméstico.

Religião em Diálogo – 90 ano 51

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 51 01/09/2023 [Link]

Ҍ O que aconteceria se você tivesse de abrir mão de uma dessas necessidades humanas?

4. Esclareça que tudo o que está dentro do círculo se refere à dignidade humana, à sua totalidade. Tudo
que está escrito ao redor do esboço representa o que é necessário à dignidade humana. Os direitos humanos
estão assentados nessas necessidades.

Disponível em: [Link] Acesso em: 21/08/2023. Adaptado.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 51


Para refletir

As instituições religiosas têm um Durante a Idade Média (476–1453), Tomás de Aquino baseou

[Link] | Adam Jan Figel


papel fundamental na promoção do seus estudos na concepção estoica e cristã do que seria a noção
bem-estar social e na resposta a si- da dignidade e da ética; fundamentou sua filosofia e sua teologia na
percepção de que a humanidade foi criada à imagem e semelhança de
tuações de emergência. Elas são fre-
Deus, contudo existe também a competência de autodeterminação
quentemente conhecidas como pilares
que o faz ressignificar e dar novos sentidos às pessoas e às situações.
de apoio para aqueles que enfrentam Alguns anos mais tarde, o filósofo Immanuel Kant (1724–1804)
dificuldades e adversidades. compreendeu o ser humano em duas máximas essenciais: autonomia
Pintura de São Tomás de
Quando nos deparamos com pro- e dignidade. Aquino por Abraham Jansz.
blemas globais, como o fluxo de refu- Para Kant, os seres humanos são seres racionais e possuem a van Diepenbeeck (1596–
1675), museu de Belas Ar-
giados, as instituições religiosas têm particularidade da autonomia de sua vontade, tendo a capacidade de
tes de Valenciennes, França.
desempenhado um papel significativo determinar a si mesmos e seguir preceitos morais representados por Tomás de Aquino (1225–
na prestação de assistência humani- leis. Observe o trecho a seguir, retirado de sua obra Fundamentação 1274) foi um frade da Ordem
da metafísica dos costumes, que nos mostra o pensamento de Kant a dos Pregadores cujas obras
tária. Muitas vezes, elas estendem a tiveram grande influência
respeito da dignidade humana. Perceba sua afirmação de que o ser
mão aos deslocados, fornecendo-lhes na Filosofia e na Teologia
humano não tem preço e nem pode ser substituído por coisa equi- moderna.
abrigo, alimentos, roupas e apoio valente, possuindo um valor chamado dignidade.
emocional.
As instituições religiosas também Os seres cuja existência depende, não em verdade da nossa vontade, mas da natureza,
têm atuado em momentos de crise, têm, contudo, se são seres irracionais, apenas um valor relativo como meios e por isso
como os tsunamis e outros desastres se chamam coisas, ao passo que os seres racionais se chamam pessoas, porque a sua
naturais. Elas mobilizam recursos, natureza os distingue já como fins em si mesmos, quer dizer, como algo que não pode
ser empregado como simples meio e que, por conseguinte, limita nessa medida todo
voluntários e doações para ajudar a
o arbítrio (e é objeto de respeito). No reino dos fins, tudo tem ou um preço ou uma
reconstruir comunidades sobreviven-
dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode pôr-se em vez dela qualquer outra
tes e fornecer assistência imediata às como equivalente; mas, quando uma coisa está acima de todo o preço, e, portanto,
vítimas. Essa resposta rápida e solidária não permite equivalente, então tem ela dignidade.
é fundamental para a recuperação e
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes, In: Os Pensadores – Kant (II), Trad. Paulo Quintela. São Paulo:
reconstrução das áreas atingidas. Abril Cultural, 1980.

Além de sua atuação em momentos


de crise, as instituições religiosas tam- É muito importante que pensemos na influência das ideias de Kant na construção do en-
bém desempenham um papel impor- tendimento da dignidade humana, saibamos que essa expressão remonta ao período clássico
da Grécia e compreendamos que a instrumentalização das pessoas deve ser repudiada, pois,
tante na promoção da paz, da justiça
sendo o ser humano dotado de determinação e de dignidade, esses valores devem ser irre-
social e da solidariedade. Estas, mui-
vogáveis, no entanto esse termo só entrou no ordenamento jurídico recentemente.
tas vezes, são defensoras dos direitos Somente em meados do século XX foi que a expressão dignidade da pessoa humana
humanos, trabalham pela erradicação começou a aparecer nos textos jurídicos. Foi incluída na Constituição de Weimar em 1919
da pobreza e lutam contra a exclusão
social. Por meio de suas ações, elas
inspiram indivíduos e comunidades a 52 Religião em Diálogo – 90 ano

se envolverem em causas humanitárias


e trabalharem para um mundo mais
Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 52 01/09/2023 [Link]

justo e compassivo.
Anotações

52 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


(constituição do império alemão), na Constituição portuguesa em 1933 e na Constituição
irlandesa em 1937. Apenas após o fim da Segunda Guerra Mundial, tal expressão teve um
reconhecimento mundial, como consequência das atrocidades feitas contra o ser humano.
A Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1984, promulgada pela Organização
das Nações Unidas (ONU), consagrou-se ao enfatizar a preocupação de zelar pela dignidade
do ser humano em seu 1o artigo:

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dota-
dos de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de
fraternidade. [...] O reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da
família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da
liberdade, da justiça e da paz no mundo”.

Ordenamento jurídico: Todo o conjunto de leis de um Estado, que reúne constituição, leis, emendas,
decretos, resoluções, medidas provisórias, etc. No caso do Brasil, o ordenamento jurídico nacional tem
origem na tradição romano-germânica.

Atualmente, porém, ainda é possível identificar casos de intolerância para com os outros e
situações em que as pessoas não têm as condições básicas necessárias para viver uma vida digna.
E como se tem uma vida digna?
O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman (1925–2017) respondeu a essa pergunta, em seu
livro A arte da vida, dessa forma:

“Há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis para uma vida
digna, recompensadora e relativamente feliz: segurança e liberdade. Segurança sem
liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é caos. A civilização é uma troca
constante entre esses dois valores. Já vivemos uma época em que abdicamos da
nossa liberdade em prol da segurança. Agora estamos vivendo o oposto. Em nenhum
momento da história da humanidade achamos o ponto de equilíbrio entre esses dois
valores. O que temos certeza absoluta é de que nunca teremos essa resposta, e
também jamais pararemos de procurar.”

É possível corroborar com essa afirmação de Bauman observando o grande número de


refugiados no mundo. Homens, mulheres, crianças, famílias inteiras partem de sua terra natal
à procura de uma vida mais digna, seja por perseguição política, seja por fome.

Religião em Diálogo – 90 ano 53

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 53 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 53


Ajdin Kamber | [Link]
Grupo de refugiados da
Síria e do Afeganistão a
caminho da UE pela rota
dos balcãs.

Grandes líderes a favor do bem comum

Observe, a seguir, trechos de discursos de grandes personalidades que defenderam os


direitos humanos e combateram a intolerância, protegendo e garantindo as mínimas condições
para se viver dignamente.

Nelson Mandela, em Harvard: “[...] Em qualquer lugar em que se


[Link] | mark reinstein

reúnam homens e mulheres para reflexão e aprendizado, seu nome e


trabalho são conhecidos. Harvard incorpora o espírito de universalidade
que marca as grandes instituições. Juntar-se às fileiras de ex-alunos é
ser lembrado da unidade de nosso mundo globalizado.
Nelson Mandela Entretanto, nós precisamos lembrar constantemente a nós mes-
mos de que as liberdades que as democracias carregam são conchas
vazias, se não acompanhadas de melhorias reais e tangíveis para a vida material de milhões
de cidadãos comuns desses países. Homens e mulheres carregam o fardo da fome, de sofrer
por males preveníveis, enfraquecidos pela ignorância e pelo analfabetismo, abandonados sem
um abrigo digno; a conversa sobre democracia e liberdade que não reconhece tais aspectos
pode soar oca e desgastar a confiança dessas pessoas exatamente nos valores que buscamos
promover. Daí vem, portanto, a nossa obrigação universal de construir um mundo em que
haverá mais igualdade entre nações e entre cidadãos de cada país. [...]”
Disponível em: [Link] Acesso em: 27/06/2023. Adaptado.

54 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 54 01/09/2023 [Link]

54 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Santa Teresa de Calcutá, no National Prayer Breakfast, Washington,
Reprodução.

D.C.: “[...] No último dia, Jesus dirá aos que estarão à sua direita: ‘ Ve-
nham, entrem no Reino. Porque, quando tive fome, deste-me de comer;
tive sede, e deste-me de beber; estive doente, e vieste visitar-me’. E,
logo depois, Jesus dirá aos que estarão à sua esquerda: ‘Afastem-se de
mim, porque tive fome, e não me deste de comer, tive sede, e não me
deste de beber; estive doente, e não me visitaste’. Eles lhe perguntarão:
Santa Teresa de Calcutá
‘Quando é que te vimos esfomeado, ou com sede, ou doente e não te
ajudamos?’. Jesus responderá a eles: ‘O que fizerem a um destes meus pequenos é a mim que
o fazem!’.
Aqui, ao encontrarmo-nos reunidos para rezar juntos, penso no bonito que seria se come-
çássemos com uma oração que expressa muito bem o que Jesus quer que façamos pelos pe-
quenos. São Francisco de Assis compreendia muito bem as palavras de Jesus, e a sua vida ficou
bem plasmada nesta oração. Esta oração que nós (as irmãs Missionárias da Caridade) dizemos
todos os dias depois de receber a Santa Comunhão não deixa de surpreender-me, porque a
encontro muito adequada para cada um de nós. Sempre me perguntei se, há oitocentos anos,
quando viveu São Francisco, tiveram as mesmas dificuldades que enfrentamos hoje em dia”. [...]
Disponível em: [Link] Acesso em:
27/06/2023. Adaptado.

Mahatma Gandhi, em carta para líderes políticos: “A única revolução


Reprodução.

possível é dentro de nós. Não é possível libertar um povo sem antes


livrar-se da escravidão de si mesmo. Sem esta, qualquer outra será in-
significante, efêmera e ilusória, quando não um retrocesso. Cada pessoa
tem sua caminhada própria. Faça o melhor que puder. Seja o melhor que
puder. O resultado virá na mesma proporção de seu esforço. Compreenda
que, se não veio, cumpre a você (a mim e a todos) modificar suas (nossas)
Mahatma Gandhi
técnicas, visões, verdades, etc. Nossa caminhada somente termina no
túmulo. Ou até mesmo além... Segue a essência de quem teve sucesso em vencer um império”.

Disponível em: [Link] Acesso em: 27/06/2023. Adaptado.

Martin Luther King, nos degraus do Lincoln Memorial, em Washington, D.C.: “[...] Digo-lhes
hoje, meus amigos, embora nos defrontemos com as dificuldades de hoje e de amanhã, que
eu ainda tenho um sonho. E um sonho profundamente enraizado no sonho norte-americano.
Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado
de seus princípios: ‘Achamos que estas verdades são evidentes por elas mesmas, que todos
os homens são criados iguais’.

Religião em Diálogo – 90 ano 55

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 55


Sugestão de abordagem

Eu tenho um sonho de que, um dia, nas rubras colinas da Geórgia,


Professor, a seguir, propomos su-

Reprodução.
os filhos de antigos escravizados e os filhos de antigos senhores de
gestões de respostas para as questões
escravizados poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade.
1, 2 e 4. Eu tenho um sonho de que, um dia, até mesmo o estado de
Mississippi, um estado sufocado pelo calor da injustiça, será trans-
Resposta da questão 1 formado num oásis de liberdade e justiça.
Espera-se que os alunos compreen- Martin Luther King Eu tenho um sonho de que meus quatro filhinhos, um dia, viverão
dam que uma possível resposta para numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, e sim pelo
essa pergunta é a de que a pessoa hu- conteúdo de seu caráter.
Quando deixarmos soar a liberdade, quando a deixarmos soar em cada povoação e em
mana é o único ser com consciência de
cada lugarejo, em cada estado e em cada cidade, poderemos acelerar o advento daquele dia
si e se compreende como um agente
em que todos os filhos de Deus, homens negros e homens brancos, judeus e cristãos, pro-
transformador do seu meio e do mundo. testantes e católicos, poderão dar-se as mãos [...].

Resposta da questão 2
Disponível em: [Link]
-historico/. Acesso em: 27/06/2023. Adaptado.

Espera-se que os alunos compreen-


dam que uma das interpretações para
a assertiva de Gandhi é que, mesmo
preso fisicamente, não se pode apri-
sionar a mente nem a espiritualidade
de ninguém. Por outro lado, existem 1. Observe novamente a afirmação feita no texto A dignidade do ser humano como uma
aqueles que, mesmo com liberdade, necessidade ética: “A pessoa humana é medida de todas as coisas”. De acordo com seus
se prendem mentalmente e espiritual- conhecimentos e com o que foi estudado até o presente momento, qual a sua compreen-
são a respeito dessa afirmação?
mente a situações, pessoas, ambientes
e problemas. Resposta pessoal.

Resposta da questão 4
Leia a seguinte frase usada por Mahatma Gandhi e responda às perguntas 2 e 3.
Espera-se que os alunos compreen-
dam que, em alguns grupos religiosos, “A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos
o papel do líder é de “pai espiritual”, na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.”
ou seja, ele aconselha, orienta, ajuda
espiritual e emocionalmente os fiéis. 2. O que você entende por “homens presos na rua e livres na prisão”?
Assim sendo, os líderes podem auxiliar
Resposta pessoal
as pessoas a respeitarem o próximo
e agirem com prudência e deferência
para com os outros, mesmo se forem
de outras denominações religiosas.
56 Religião em Diálogo – 90 ano

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Anotações

56 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


3. A palavra consciência tem significados distintos em diferentes campos do conhecimento.
Pesquise qual o significado dela nos seguintes campos:

a) Psicologia: Nível da vida mental no qual o indivíduo tem percepção das coisas, pessoas e

situações, ao contrário do que ocorre com os processos inconscientes.

b) Filosofia: Faculdade por meio da qual o ser humano se apercebe daquilo que se passa

dentro dele ou em seu exterior.

c) Medicina: Estado do sistema nervoso central que permite a identificação precisa, o pen-

samento claro e o comportamento organizado. Estado apresentado por um indivíduo de

posse de suas faculdades, como ver, ouvir, pensar, etc.

4. Como já sabemos, os líderes religiosos têm um significativo papel dentro das instituições
religiosas e uma importante função: guiar os fiéis. Nesse contexto, em sua opinião, qual a
função dos líderes religiosos na valorização da dignidade humana e na promoção da ética
entre os seres humanos?

Resposta pessoal.

5. Leia os textos a seguir para responder à pergunta.

Texto I
“O caminho para a virtude ou para o vício no âmbito da cidade tem como ponto de partida
o interior da própria alma, a sua constituição política interna. Quanto mais a alma age em fun-
ção de um apetite, sem a orientação do logistikón (faculdade da racionalidade), sobretudo dos
apetites mais selvagens, mais se torna inviável o bem comum, a vida ético-política (como é o
caso do tirano e da tirania). Quanto mais a alma age guiada pelo desejo do melhor e da unidade
(o que implica a ação do logistikón), mais alimenta ‛o que há de sábio’ e divino em si mesma e
tanto mais viabiliza a realização, no plano maior da cidade, da virtude, da justiça.”
REIS, Maria Dulce. Virtude e vácuo: tripartição e unidade da psykhé no Timeu e nas leis de Platão. Rio de Janeiro: 7 letras, 2010.

Religião em Diálogo – 90 ano 57

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 57


Sugestão de abordagem

Resposta da questão 5 Texto II


Espera-se que os alunos compreen- Vícios e virtudes
dam que tirano é um governante injusto Charlie Brown Jr.

markara | [Link]
e cruel, que coloca sua vontade e sua [...]
autoridade acima das leis e da justi- Às vezes faço o que quero.
Às vezes faço o que tenho que fazer.
ça, o qual pratica tortura ou martiriza
Às vezes faço o que quero.
moralmente os cidadãos. Tirania são
Às vezes faço o que tenho que fazer.
as práticas de quem é tirano. Segundo [...]
a autora, quando uma pessoa age sem Logo eu, que sempre achei legal ser tão errado.
um senso ético e moral para com os Eu que nem sempre calmo, mas nunca preocu-
outros concidadãos, ela está faltando pado.
com sua faculdade racional, e isso, para [...]
ela, é ser tirano. Disponível em: [Link] Acesso em: 22/08/2023.

Na leitura do Texto I, como a autora justifica os casos “do tirano e da tirania” em uma região?
Responda no seu caderno.

Histórico da Lei Penal no Brasil e suas punições


Até 1830, o Brasil não tinha um Código Penal próprio, pois ainda
era uma colônia portuguesa. Em 1824, com a nova Constituição, o
Brasil inicia uma reforma no sistema punitivo: extingue-se as penas
de açoite, a tortura, o ferro quente e outras penas cruéis. A abolição
das penas cruéis não incluía as pessoas escravizadas.
Em 1830, cria-se o Código Criminal do Império. A pena de prisão
é introduzida no Brasil de duas maneiras: a prisão simples e a prisão
com trabalho (que podia ser perpétua). Após quase um século e com a
instauração de um novo regime no Brasil, intitulado de Estado Novo,
o então ministro Francisco Campos incumbiu o professor Alcântara
Machado de elaborar um anteprojeto do Código Penal. Em agosto,
foi publicado o Projeto de Código Criminal Brasileiro. Após algumas
Anotações alterações, foi sancionado em 1940 o atual código penal brasileiro.

58 Religião em Diálogo – 90 ano

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58 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


SISTEMA CARCERÁRIO BRASILEIRO

População brasileira Previsão de aumento


segundo o IBGE (2022) de encarcerados
O número de presos pode chegar
a quase 1,5 milhão em 2025,
População carcerária o equivalente à população de cidades
brasileira como Belém e Goiânia
Segundo o Anuário de Segurança
Pública (2023), até 2022,
havia 832.295 pessoas presas

Estados que possuem a maior população carcerária do Brasil


conforme dados do Conjur (2021)

São Paulo Minas Gerais Rio de Janeiro

O perfil dos encarcerados


segundo os dados do Anuário de Segurança Pública (2023)

negros(as)

tem entre 18 e 29 anos

Escolaridade dos encarcerados


317.542 – Não completaram o Ensino Fundamental
101.793 – Não completaram o Ensino Médio
66.866 – Completaram o Ensino Médio
18.711 – São analfabetos
4.181 – Têm Ensino Superior completo

conforme dados do Infopen (2019)

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo,


atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

Disponível em: [Link] [Link]


[Link]. Acesso em: 02/08/2023.

Religião em Diálogo – 90 ano 59

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 59


O sistema prisional brasileiro tem o objetivo de punir e ressocializar quem
vai contra as leis. Quando uma pessoa é detida, ela se torna responsabili-
dade do Estado, que isola o criminoso da sociedade, por meio da prisão, e
este é privado da sua liberdade, deixando de ser um risco para a sociedade.
De acordo com a Constituição Federal de 1988, que tem como
um de seus fundamentos a dignidade da pessoa humana, também
está assegurado o respeito à integridade física e moral dos presos.
No entanto, a realidade é outra. Com a superlotação dos presídios e
o descaso de autoridades, essa população enfrenta condições sub-
-humanas e violação de seus direitos básicos.
Então, para a nossa atividade de culminância, produziremos info-
gráficos, como os vistos anteriormente, utilizando dados do site do
Governo Federal, do Governo Estadual, da ONU, do Comitê de Di-
reitos Humanos, da Secretaria de Segurança Social, etc. Nesses sites,
recolheremos informações sobre quantidade e idade dos detentos, se
a unidade prisional está superlotada, etc. Certamente, em seu estado,
há cadeias e presídios para fazermos essa busca por informações.
Para elaborar um bom infográfico, é necessário recorrer a imagens,
textos e gráficos, todos com muitas cores, e sempre com respaldo em
uma fonte segura. Assim, além de uma pesquisa prévia dos dados,
você vai precisar de lápis de cor, réguas, canetas coloridas, cartolinas,
folhas A4 e fitas coloridas.
Ao final do nosso trabalho, colocaremos o material produzido em
locais visíveis da nossa escola para que todos tenham acesso a ele.
Assim, poderemos perceber que medidas o poder público está ado-
tando para tratar com mais dignidade aqueles que estão cumprindo
sua sentença e garantir que sejam respeitados.
Reprodução.

Título: 50 discursos que marcaram o mundo moderno


Autor: Andrew Burnet
Editora: L&PM
Sinopse: Ao longo da história, grandes discursos produziram grandes mu-
danças e deram voz a importantes transformações. Seja incitando a violên-
cia, reafirmando o controle político ou restaurando a paz e assegurando a
liberdade, nada tem um poder mais genuíno que um discurso apresentado
no momento certo, no lugar certo e para o público adequado.

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60 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


BNCC – Habilidades
trabalhadas no capítulo

4o Racismo, preconceito e
(EF09ER07) Identificar princípios éti-
cos (familiares, religiosos e culturais)
momento intolerância: os limites da que possam alicerçar a construção de
liberdade de expressão projetos de vida.
(EF09ER08) Construir projetos de vida
assentados em princípios e valores éticos.

Liberdade de expressão e discurso de ódio

A Internet e, principalmente, as redes sociais possibilitaram uma Objetivos pedagógicos


maior interação entre pessoas de diferentes partes do mundo. Afi-
nal, temos à nossa disposição atualmente inúmeras plataformas de
comunicação, como é o caso do Facebook, do Instagram, do Twitter Ҍ Compreender a educação e a ética
e do TikTok, assim como aplicativos de mensagens instantâneas, como pilares para uma sociedade
como o WhatsApp, que nos permitem fazer novas amizades e até melhor.
mesmo nos relacionar amorosamente.
No entanto, esses serviços têm sido constantemente usados para Ҍ Elaborar projeto de vida baseado em
a propagação de violência e discursos de ódio, que, em geral, ocorre alteridade dentro de uma sociedade
de maneira anônima. Mas o que faz com que pessoas comuns se plural.
comportem de maneira tão agressiva no mundo virtual? Será que
Ҍ Assimilar a compreensão de que é
elas agem da mesma maneira na vida off-line?
Estudos do Disque 100 revelam que os casos de crimes de in-
necessário construir o sentido de
tolerância religiosa ainda se mantêm contra pessoas de religião de empatia para vencer o racismo, pre-
matriz africana. Veja. conceito e intolerância, favorecendo
um debate sem exclusão.

Os números podem ser Sugestão de abordagem


ainda mais expressivos,
já que, em muitos casos,
as vítimas não realizam Professor, trabalhar a compreensão
a denúncia por medo de
dos limites da liberdade de expressão
que a violência se repita.
com os alunos é fundamental para que
eles desenvolvam uma visão crítica e
Religião em Diálogo – 9 ano 61 0
responsável sobre o tema. A seguir, estão
algumas sugestões de atividades para
Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 61
abordar essa questão em sala de aula:
01/09/2023 [Link]

Debate orientado: divida a turma em grupos e promova um debate sobre a liberdade de expressão. Peça
aos alunos que discutam situações em que a liberdade de expressão pode ser conduzida de maneira adequa-
da e respeitosa, assim como situações em que ela pode ser abusada ou prejudicial. Incentive-os a apresentar
argumentos e exemplos concretos para embasar suas opiniões.
Estudo de casos: apresente aos alunos diferentes casos em que a liberdade de expressão foi, na verdade,
discurso de ódio, disseminação de informações falsas ou bullying cibernético. Discuta, em grupo, as possíveis
consequências dessas manifestações e explore as questões éticas e legais envolvidas. Incentive os alunos a
refletir sobre como a liberdade de expressão pode ser exercida de forma responsável e respeitosa, conside-

Continua

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 61


rando o impacto que suas palavras e
ações podem ter sobre os outros.
Enquanto na vida real, longe da tela de computadores e smartphones, as pessoas têm o
Análise de textos e documentos cuidado de não expressar opiniões preconceituosas, racistas e agressivas, principalmente por
legais: leia e discuta, com os alunos, medo das consequências, no mundo virtual esses comportamentos de ódio parecem estar
textos relacionados aos direitos huma- liberados. Contudo, graças aos esforços de organizações sociais civis, isso tem mudado. Em
nos, como a Declaração Universal dos 2023, o presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, em suas atribuições legais, sancionou
Direitos Humanos ou a Constituição do a Lei no 14.532/2023, que equipara a injúria racial ao crime de racismo. A mudança aprofunda
país. Explore os trechos que abordam a ação de combate ao racismo porque cria elementos para a interpretação dos contextos e
a liberdade de expressão e discutam evidencia algumas modalidades de racismo que não eram, propriamente, evidentes.
os limites legais e éticos. Peça que alu- A agressão a atletas, juízes, torcedores e torcidas, em um ambiente de prática de esportes,
nos reflitam sobre como equilibrar o é compreendida como racismo esportivo. O deboche ou as piadas ofensivas disfarçadas de
direito à liberdade de expressão com humor caracterizam o racismo recreativo. O preconceito e a desqualificação das religiões
a necessidade de aprender os direitos afro-brasileiras é racismo religioso. Conforme a nova Lei, “injuriar alguém, ofendendo-lhe
e aprender dos outros. a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional” pode gerar
Atividades de redação ou criação de pena de reclusão (de dois a cinco anos) e multa. A pena será aumentada quando o crime for
projetos: peça que os alunos escrevam cometido por duas ou mais pessoas.
um artigo, um ensaio ou elaborem um
projeto que aborde a importância da

Alessandro Biascioli | [Link]


liberdade de expressão. Professor, ex-
plore os limites e as responsabilidades
que acompanham esse direito. Incenti-
ve-os a apresentar propostas concretas
sobre como equilibrar a liberdade de
expressão com o respeito aos direitos
e à dignidade humana.
Lembre-se de que é importante pro-
mover um ambiente seguro e respeitoso
em sala de aula, no qual todos os alu-
nos se sintam à vontade para expressar
suas opiniões. O papel do professor é
orientar o debate, incentivar o pensa-
mento crítico e fornecer informações
relevantes para ajudar os alunos a com-
O racismo constitui um aspecto depreciativo da sociedade brasileira. Foi originado no seio da escravização
preenderem os limites da liberdade de e perpetuado pela extrema diferença social existente na população brasileira. Amparado em preconceitos
expressão. e estereótipos de natureza biológica e cultural, aparece, em muitos casos, de maneira disfarçada, como na
negação de oportunidades de trabalho e estudo, de convivência social e de melhoria da qualidade de vida.
Aparece também de forma explícita, como acontece nas redes sociais, em que os agressores, não estando
fisicamente à frente do agredido, sentem-se livres para atacar e ofender as pessoas.

Sugestão de vídeo
62 Religião em Diálogo – 90 ano

Professor, acesse o QR Code ao lado Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 62 01/09/2023 [Link]

e compreenda melhor o que seria uma


educação antirracista e de como esta pode levar a uma transformação im-
portante para nossa sociedade. Neste vídeo, a historiadora e psicanalista
Marilea de Almeida revisita uma obra da pensadora negra bell hooks para
apresentar a educação como prática libertadora.

Café Filosófico | bell hooks e a educação antirracista | 28/05/2023 | Café


Filosófico CPFL

62 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Sugestão de leitura

Título: Ensinando a transgredir: a educa-


Racismo recreativo: o humor racista é um tipo ção como prática da liberdade
de discurso de ódio Autora: bell hooks
Professor Doutor em Direito Antidiscriminatório pela Universidade Harvard e co-
Ano: 2017
lunista da Editoria de Justiça da CartaCapital, Adilson Moreira chegou ao Brasil há Sinopse: A autora escreve sobre um
pouco mais de dois anos e promoveu intenso trabalho pela descolonização de práticas novo tipo de educação: a educação
racistas naturalizadas, como, por exemplo, a realização do primeiro grande curso aberto como prática da liberdade. Para hooks,
da história do País sobre o tema; a produção de manuais de direito antidiscriminatório ensinar os alunos a transgredir as fron-
para serem adotados em universidades e, ainda, de obra e consultoria sobre compliance teiras raciais, sexuais e de classe a fim
para empresas incorporarem práticas inclusivas corporativas; dentre outras iniciativas
de alcançar o dom da liberdade é o ob-
que significaram anos de intenso trabalho pelo pesquisador.
jetivo mais importante do professor.
Em entrevista à CartaCapital sobre seu mais novo título O que é racismo recreativo?,
o jurista discute o conceito de microagressões, de personagens da televisão símbolos
Ensinando a transgredir, que é repleto
de racismo recreativo, como também afirma ver como é comum humoristas que se de paixão e política, associa um conhe-
escondem por trás do argumento “é só uma piada” toda vez que são hostis com as cimento prático da sala de aula com
minorias raciais. uma conexão profunda com o mundo
CartaCapital: Muitas pessoas têm dúvidas sobre o que seria racismo recreativo. das emoções e sentimentos. É um dos
Você poderia explicar o conceito? raros livros sobre professores e alu-
Adilson Moreira: Racismo recreativo designa uma política cultural que utiliza o nos que ousa levantar questões críticas
humor para expressar hostilidade em relação a minorias raciais. O humor racista ope-
sobre Eros e a raiva, o sofrimento e a
ra como um mecanismo cultural que propaga o racismo, mas que, ao mesmo tempo,
reconciliação e o futuro do próprio en-
permite que pessoas brancas possam manter uma imagem positiva de si mesmas. Elas
conseguem então propagar a ideia de que o racismo não tem relevância social. Não
sino. Segundo bell hooks, “a educação
podemos esquecer que o humor é uma forma de discurso que expressa valores sociais como prática da liberdade é um jeito de
presentes em uma dada sociedade. ensinar que qualquer um pode apren-
der”. Este livro registra a luta de uma
CC: No livro, você traz o conceito de microagressões. O que seria isso? talentosa professora para fazer a sala
AM: Microagressões designa uma série de atos e falas que expressam desprezo ou de aula dar certo.
condescendência para com membros de grupos minoritários. Eles diferem de formas
tradicionais de discriminação baseadas na intenção aberta de ofender e marginalizar
porque podem ser conscientes ou inconscientes, podem ocorrer sem violar normas
jurídicas, podem ser produto da ausência de visibilidade de grupos minoritários. Uma
mulher branca que atravessa a rua porque vê um homem negro está praticando uma
microagressão. Microagressões podem tomar a forma até mesmo de atos que apa-
rentemente expressam polidez. Um segurança de shopping que pergunta a homens
Anotações

Religião em Diálogo – 90 ano 63

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 63


negros se eles precisam de ajuda pode estar na verdade motivado pela imagem da
periculosidade do homem negro. Uma piada sobre asiáticos pode parecer uma forma
de criar uma oportunidade de aproximação, mas ela reproduz estereótipos que afetam
a dignidade e a saúde mental dessas pessoas.

CC: É comum humoristas dizerem “É apenas uma piada” quando são confrontados
politicamente por comentários depreciativos a grupos oprimidos. Como você vê a
questão?
AM: Essa é a reação comum de todas as pessoas que contam piadas racistas. To-
das elas utilizam essa estratégia para preservar uma imagem social positiva. Todas elas
falam que têm “amigos” negros, que não tiveram a intenção de ofender ninguém, que
o humor não traz consequências negativas para as pessoas. Veja, as palavras sempre
expressam muito mais do que o sentido objetivo delas. Quando eu desejo bom dia a
alguém, eu não estou apenas desejando que ela tenha um dia agradável. Eu também
estou expressando respeito, cordialidade, civilidade. Piadas sobre a potência sexual de
homens asiáticos também expressam a noção de que eles não são assertivos, de que
não são agressivos. Consequentemente, eles não têm capacidade de comando.

CC: O humor faz muito uso de estereótipos. Você poderia explicar para o público
leitor o que seria isso?
AM: O humor tem sido estudado por especialistas desde a Antiguidade. Havia um
consenso até o início do século passado de que o humor produzia prazer nas pessoas
porque ele sempre retratava pessoas consideradas como inferiores. Há vários estudos
demonstrando que o humor tem sido utilizado ao longo do tempo como um meio de
manipulação política. Isso se torna possível em função da articulação dos estereótipos
raciais presentes nas representações de minorias. Não podemos esquecer que o racismo
recreativo tem um caráter estratégico: o uso de piadas não ocorre apenas para entreter
pessoas brancas, mas, sim, para perpetuar a ideia de que apenas membros do grupo
racial dominante podem ocupar posições de poder e prestígio. As crenças precisam
persistir para que as hierarquias raciais sejam legitimadas. Pessoas brancas vão perder
oportunidades quando vivermos em uma realidade na qual não existam estereótipos
raciais. Elas terão que justificar a presença delas nos lugares. É por isso que elas estão
tão empenhadas na degradação moral de minorias. Elas querem preservar suas vanta-
gens injustas a qualquer custo.

64 Religião em Diálogo – 90 ano

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64 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Sugestão de vídeo

Professor, acesse o QR Code a seguir


CC: É correto censurar o humor racista?
e conheça mais a respeito do discurso
AM: Eu penso que sim. O humor racista é um tipo de discurso de ódio, é um tipo
de ódio, principalmente contra as pesso-
de mensagem que comunica desprezo, que comunica condescendência para com mi-
norias raciais. Mais do que isso, ele reforça a noção de que minorias raciais não são
as negras. Neste vídeo, o professor Luiz
atores sociais competentes, o que compromete a possibilidade de elas conseguirem ter Valério Trindade afirma que os alvos
acesso a oportunidades profissionais. Não estou falando aqui apenas de um problema costumeiros do discurso de ódio nas
de sensibilidade moral. Negros ganham 50% a menos do que brancos em função dos redes sociais são as mulheres negras,
estereótipos negativos que circulam na nossa sociedade sobre os membros desse grupo. e a forma como o discurso racista apa-
rece é a da piada. A apresentação do
Disponível em: [Link]
Acesso em: 18/08/2023. Adaptado. discurso de ódio como piada “é bastan-
te desafiadora para a vítima e é muito
conveniente para o agressor, porque
O hate speech, ou discurso de ódio, como tem sido denominado esse fenômeno nos países frequentemente ele alega que tudo
de língua portuguesa, constitui um desafio para o Estado Democrático de Direito, porque não passou de uma brincadeirinha”,
testa os limites da liberdade de expressão. Trata-se de um fenômeno que não é novo, mas diz Trindade.
que, com o advento da Internet e a popularização das mídias sociais, potencializou-se e se
disseminou de tal maneira que hoje se fala que vivemos uma cultura de ódio. Antes restrita no Discurso de ódio racista usa piada
tempo e no espaço, passou a ser disseminada em altíssima velocidade e a ter alcance global, como escudo, diz sociólogo | Folha de
superdimensionando a gravidade dessas manifestações.
[Link]
Barry Barnes | [Link]

O discurso de ódio acontece nas plataformas digitais nas mais variadas apresentações. Pode estar explícito,
sem filtros éticos e morais, e em piadas que supostamente camuflam preconceito, misoginia, homofobia,
racismo e intolerância religiosa. Um dos movimentos que combate o discurso de ódio, mais especificamente
o discurso racista, é o Black Lives Matter. Um movimento antirracista, com origem na comunidade afro-ame-
ricana, que faz campanha contra a violência direcionada às pessoas negras.

Religião em Diálogo – 90 ano 65

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 65 01/09/2023 [Link]

Anotações

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 65


Leitura complementar

O discurso de ódio é, antes de tudo, um fenômeno social complexo, que remete a situações
Professor, recentemente, uma nova
diversas e heterogêneas entre si. A compreensão dessa complexidade é fundamental para
lei de combate ao racismo foi sancio-
uma adequada análise sistemática do problema, que não recaia em simplificações comumente
nada, representando um avanço signi-
geradoras de divergências artificiais entre aqueles que se debruçam sobre o tema. A expressão
ficativo na luta contra essa forma de
remete a uma multiplicidade de manifestações e condutas discursivas que se revestem das
preconceito. Essa legislação reforça a mais variadas formas e se desenvolvem em uma infinidade de contextos diferentes, o que
importância de promover a igualdade torna impossível dar um tratamento uniforme ao problema. O discurso de ódio nas redes
racial e garantir a dignidade e os direitos sociais causa engajamento — participação ativa em postagens e assuntos no momento, e,
de todas as pessoas, independentemen- por conta disso, muitas pessoas sentem-se influenciadas a produzir conteúdo de ódio como
te de sua origem étnico-racial. forma de ganhar visibilidade, como a tirinha de Armandinho, a seguir, evidencia.
Unir forças contra o racismo é es-
sencial para construir uma sociedade

Reprodução.
mais justa e inclusiva. Nesse sentido,
a escola desempenha um papel fun-
damental na formação antirracista das
novas gerações.
A seguir, estão algumas atividades
que podem ser realizadas em sala de
aula para promover essa formação. Disponível em: [Link] Acesso em: 26/06/2023.

Ҍ Estudo da história e cultura afro-


A busca de medidas ou estratégias eficazes para lidar com o discurso de ódio, sejam es-
-brasileira: explique a importân- sas medidas de ordem jurídica (civil ou criminal) ou extrajurídica, tais como o incentivo ao
cia da contribuição dos povos contradiscurso e às campanhas de combate à discriminação e ao preconceito, deve partir,
africanos na formação do Brasil e primeiramente, da compreensão de que se trata de um fenômeno multifacetado do ponto
as implicações sobre a libertação de vista sociológico, porque pode se revestir de um número virtualmente infinito de formas.
dos negros escravizados. Aborde
temas como a escravidão, a luta
pela igualdade racial e os movi- A liberdade de expressão
mentos sociais.
Expressar é o ato de revelar uma opinião, um sentimento, uma impressão sobre algo.
Ҍ Palestras e debates: promova
Expressa-se de maneira espontânea ou milimetricamente calculada, independentemente da
palestras com especialistas, in-
forma, sempre que se transmite uma mensagem.
vestigadores e representantes
A liberdade de expressão consiste na garantia de livre manifestação, na proteção jurídica
de movimentos antirracistas para
de um espaço, para que cada indivíduo possa se exprimir socialmente e no direito de se pro-
discutir o tema do racismo. Além
nunciar ou de se manifestar de qualquer outra forma.
disso, organize debates em sala
A liberdade, em geral, deve ser pensada como um direito amplo. Não existe meia liberdade.
de aula que estimulem a reflexão Ou você é livre ou não é. Eventuais excessos já encontram, no ordenamento jurídico, respaldo
crítica sobre as questões raciais.
Ҍ Campanhas de conscientização:
crie campanhas de conscientização 66 Religião em Diálogo – 9 ano 0

sobre a importância do combate


ao racismo e da valorização da Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 66 01/09/2023 [Link]

diversidade racial. Os alunos podem produzir cartazes, vídeos ou materiais educativos que promovam a
igualdade racial, desconstruam estereótipos e disseminem mensagens de respeito e tolerância.
Ҍ Projetos de pesquisa: incentive os alunos a realizarem pesquisas sobre personalidades negras que se des-
tacam em diversas áreas, como arte, ciência, esportes e política. Esses projetos podem ser apresentados
em forma de trabalhos escritos, exposições ou apresentações para a comunidade escolar.
Ҍ Círculos de diálogo: organize círculos de diálogo, nos quais os alunos possam compartilhar experiências,
reflexões e dúvidas sobre o racismo. Esses espaços de escuta ativa e respeitosa permitem que todos se

Continua

66 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Sugestão de leitura

para serem punidos. E, ainda nesses casos, podemos considerar que a pessoa foi livre e, ao Título: O pacto da branquitude
exercer sua liberdade, cometeu um crime ou um dano pelos quais terá que responder. O gran- Autora: Cida Bento
de ponto de equilíbrio na discussão acerca da liberdade de expressão é o respeito ao pensar Ano: 2022
diferente. Uma das grandes riquezas da convivência em sociedade é a troca de pontos de vista Sinopse: Diante de dezenas de recu-
e a construção de algo novo a partir de um ponto em comum. Podemos não concordar, em sas em processos seletivos, Cida Bento
parte ou totalmente, com algo que nos foi dito, mas é necessário respeitar tal pensamento. identificou um padrão: por mais quali-
ficada que fosse, ela nunca era a esco-
lhida para as vagas. O mesmo ocorria
com seus irmãos, que, como ela, tam-
bém tinham ensino superior completo.
Por outro lado, pessoas brancas com
currículos equivalentes ― quando não
inferiores ― eram contratadas. Em suas
pesquisas de mestrado e doutorado, a
alexdndz | [Link]

autora se dedicou a investigar esse mo-


delo, que se repetia nas mais diversas
esferas corporativas, e a desmistificar a
falácia do discurso meritocrático. O que
Uma pessoa pode se expressar livremente, e o ideal é que o faça. Não no sentido da de- encontrou foi um acordo não verbali-
sordem ou da falta de bom senso, mas no sentido do direito de um ser se expressar como zado de autopreservação, que atende
lhe é próprio. a interesses de determinados grupos e
Afinal, se as pessoas não se manifestam conforme pensam, vão fazê-lo a partir do que perpetua o poder de pessoas brancas. A
outras pessoas julgam que elas deveriam fazer? Não seria justo censurar o comportamento esse fenômeno, Cida Bento deu o nome
de ninguém. Qual é, então, o limite da liberdade de expressão? de “pacto narcísico da branquitude”.

O limite é a fronteira com um outro direito.

Por exemplo: eu tenho a liberdade de expressar minha opinião sobre alguém. Mas, se o
fizer de forma difamatória, terei infringido o direito à honra dessa pessoa. Qual será a minha
punição? Responder ao crime de difamação, previsto no capítulo de crimes contra a honra
do Código Penal Brasileiro. lize atividades conjuntas, como
Outro caso: através de minhas palavras ou atitudes, faço apologia ao crime organizado ou palestras, workshops ou eventos
incito a violência. Então, o meu excesso na liberdade de expressão deve ser combatido através culturais, que merecem a troca
de conhecimentos, vivências e
Religião em Diálogo – 90 ano 67
experiências entre os alunos e
membros dessas organizações.
Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 67 01/09/2023 [Link]
É importante ressaltar que essas ativi-
expressem livremente, favorecendo a empatia, a compreensão dades devem ser contínuas e integradas
mútua e a construção de vínculos mais solidários. à rotina escolar para que a formação
antirracista seja uma prática constante.
Ҍ Ações afirmativas: promova a discussão sobre a importância das
Além disso, é fundamental que a escola
ações afirmativas, como as cotas raciais, no combate às desigual-
seja um espaço seguro e acolhedor para
dades históricas.
todos os alunos, promovendo o respeito,
Ҍ Parcerias com a comunidade: estabeleça parcerias com organi- a garantia e a valorização da diversidade
zações e comunidades locais que lutam contra o racismo. Rea- em todas as suas dimensões.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 67


Leitura complementar

da legislação criminal, que de fato prevê tais atitudes como crime.


A noção de diferença em um
Fora da esfera penal, pode ser também que minha atitude gere
paradigma pós-identitário danos a alguém, e, caso seja constatada a minha conduta culposa e Nexo de causalida-
com nexo de causalidade em relação ao dano, serei condenado a de: É o vínculo fáti-
Atualmente, nas sociedades oci- co que liga o efeito
indenizar essa vítima.
dentais ou ocidentalizadas modernas, à causa, ou seja, é a
Nesse sentido, o limite da liberdade de expressão seria, na verdade,
a noção de diferença assumiu muitas comprovação de que
a responsabilização por eventuais condutas ensejadoras de dano na houve dano efetivo,
vezes a nomenclatura de “diversidade” motivado por ação
esfera cível ou criminal. Não há que se falar em um limite prévio, uma
e passou a ser celebrada, muitas vezes proibição da abstenção de alguma conduta, um limite propriamente
voluntária, negligên-
cia ou imprudência
de modo oportunista e superficial. Essa dito à possibilidade de se expressar. daquele que causou
forma de ver a diferença como algo bom Eu condenar você a uma indenização por ter me causado um dano o dano.
pode ser observada na mudança de moral é diferente de eu impedir que você me xingue em público, por
avaliação da miscigenação étnico-racial exemplo.
no Brasil. Em um certo momento histó- Em outras linhas: deve existir liberdade. Caso venhamos a cometer,
rico, teorias europeias pretensamente dentro dessa esfera de liberdade, alguma conduta antijurídica (cível
científicas avaliaram negativamente a ou penalmente), vamos responder por isso. Para entender mais
censura, sobre o assunto,
mistura racial; contudo, há uns 70 anos Caso contrário, estaremos diante de uma que é um ato
acesse o QR Code a
pelo menos, a miscigenação começou intencional que visa limitar o direito à liberdade de expressão de forma seguir.
impositiva e autoritária. A censura é uma barreira artificial à liberdade
a ser representada como positiva para
de expressão. Principais aspectos
a formação da cultura e do povo bra- jurídicos da liber-
Compreender a diversidade, bem como conhecer e aceitar opiniões
sileiro, ainda que em uma narrativa dade de expressão
diferentes, pode ser um verdadeiro desafio para algumas pessoas. | Aurum
idealizada e romântica, que apagava a Quando a gente leva isso para os ambientes escolares de trabalho
violência dessa miscigenação forçada ou para o convívio familiar, nem sempre é tão fácil quanto parece. O
pelos europeus brancos aqui advindos. ponto-chave da questão é o respeito que todos devemos ter quanto
Em um certo sentido, recuperando al- à diversidade de ideias.
guns temas do nacionalismo romântico. Precisamos ter a consciência de que não somos donos da verdade
O caso mais conhecido são as ideias e que, por mais que não concordemos com determinado ponto de
de Gilberto Freyre em Casa Grande e vista, devemos, acima de tudo, respeitá-lo. Pode até parecer difícil
Senzala. Tanto naquela época quanto compreender a diversidade de ideias, pois algumas podem parecer
hoje, muitas vezes, as noções de diver- completamente sem sentido para você. Mas que tal se colocar no
sidade e pluralidade (como avatares da lugar do outro e tentar compreender o ponto de vista dele?
Essa é uma ótima forma de respeitar as diferenças entre pensamentos e não criticar.
noção de diferença) estão presentes
Lembre-se de que toda e qualquer crítica deve partir da análise. Depois de analisar a situação
em discursos e práticas que preten-
como um todo, você pode perceber que determinada ideia até pode fazer mais sentido.
dem minimizar os impactos seculares de
O respeito mútuo à diversidade de ideias, evitando as críticas a respeito das opiniões
uma formação histórica marcada pelo alheias, pode deixar a complexa convivência humana um pouco mais fácil.
genocídio indígena, pela escravização
dos africanos para cá trazidos, pela ex-
ploração das terras dos povos nativos, 68 Religião em Diálogo – 9 ano 0

pela exploração dos africanos e seus


descendentes e por todas as formas Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 68 01/09/2023 [Link]

de violência simbólica e física.


Assim, a representação cultural da nossa diferença — neste caso, nossa miscigenação —, que até aproxi-
madamente a década de 1930 era vista como um problema brasileiro, muda de sinal e passa a ser admitida,
assumida e celebrada. Pensamos em um arco temporal no qual tínhamos um pensamento abertamente racista
para aquele mais antropológico, que festeja a diversidade étnico-racial, cujo momento mais emblemático,
talvez, tenha se dado com a reavaliação positiva do samba como símbolo da cultura brasileira. Mas, para além
dessa ambiguidade, dessa oscilação entre polos negativo e positivo da avaliação da diferença, acreditamos na
existência de outra, mais associada às lutas políticas e ideológicas em torno da diferença e da alteridade, que

Continua

68 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Anotações

1. Leia o trecho a seguir.

“Racismo institucional é a negação coletiva de uma organização em prestar


serviços adequados para pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem
étnica. Pode estar associado a formas de preconceito inconsciente, desconsi-
deração e reforço de estereótipos que colocam algumas pessoas em situações
de desvantagem.”
GIDDENS, A. Sociologia. Porto Alegre: Penso, 2012.

Como vimos nas discussões anteriores, o Brasil é um país com racismo muito presente e
em processo de desconstrução. A seguir, cite algumas alternativas, em sua opinião, para
que consigamos instaurar uma sociedade antirracista.
Resposta pessoal. Professor, oriente o aluno a pensar que o poder público tem grande

força e importância nesse enfrentamento. Apenas com políticas públicas voltadas para a

problemática do racismo será possível vivermos em um país antirracista.

2. O trecho a seguir foi retirado de um livro da filósofa Djamila Ribeiro. Leia-o.

“Em escala, o negro é o negro retinto, o mulato já é o pardo e, como tal, meio
branco, e, se a pele é um pouco mais clara, já passa a incorporar a comunidade
branca. A forma desse racismo no Brasil decorre de uma situação em que a
mestiçagem não é punida, mas louvada. Com efeito, as uniões inter-raciais, aqui,
nunca foram tidas como crime ou pecado. Nós surgimos, efetivamente, do cru-
zamento de uns poucos brancos com multidões de mulheres indígenas e negras.”
RIBEIRO, D. O povo brasileiro: formação e sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Considerando o argumento apresentado pela autora e o que foi discutido ao longo do


capítulo, qual é a principal origem da discriminação racial no Brasil?
Espera-se que o aluno responda que o racismo no Brasil foi originado no período da es-

cravização, durante o processo de colonização, subjugando negros advindo do continente

africano e indígenas pertencentes ao território brasileiro.

Religião em Diálogo – 90 ano 69

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 69 01/09/2023 [Link]

sempre foram marcadas por uma ambiguidade angustiante entre o pertencer à coletividade e o participar de
todos os direitos dela e, ao mesmo tempo, afirmar que não se é como todos os outros. Tal ambivalência trouxe
e traz problemas para a inclusão de pautas afirmativas e pode até mesmo ser usada por aqueles que querem
negar a discriminação e violência econômica, física e simbólica contra grupos considerados minoritários.
[...]

Disponível em: [Link]


Acesso em: 22/08/2023.

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 69


3. O trecho a seguir foi retirado de um estudo chamado Cartografia social de terreiros no Rio
de Janeiro. Leia-o.

“A maior parte das agressões e manifestações discriminatórias contra as religiões


de matrizes africanas ocorrem em locais públicos (57%). É na rua, na via pública,
que tiveram lugar mais de 2/3 das agressões, geralmente em locais próximos às
casas de culto dessas religiões. O transporte público também é apontado como
um local em que os adeptos das religiões de matrizes africanas são discriminados,
geralmente quando se encontram paramentados por conta dos preceitos religiosos.”
REGO, L. F.; FONSECA, D. P. R.; GIACOMINI, S. M. Cartografia social de terreiros no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
PUC-Rio, 2014.

Segundo a Constituição brasileira, o Estado é laico e as pessoas têm livre direito de exercer
sua manifestação religiosa. Contudo, o trecho do estudo lido nos aponta o contrário. Pes-
soas de religião de matriz africana sofrem agressões quando expressam sua espiritualidade
publicamente. Em sua opinião, o que pode ser feito para permitir às pessoas de religião
de matriz africana realizarem seus cultos de modo livre?
Esses tipos de ações, como anuncia o texto, são exemplos claros de restringimento de

liberdade de credo e desse modo, infringem diretamente a Constituição, que permite o livre

credo e isenta o Estado de professar alguma fé em particular ou de impô-la. Professor, é

muito importante direcionar as respostas dos alunos de modo que eles consigam com-

preender que, apenas quando leis são feitas de modo a punir vigorosamente crimes e

violações, há mudança de postura diante de algum problema social.

4. Leia o trecho a seguir.

“A luta contra o racismo no Brasil tomou um rumo contrário ao imaginário na-


cional e ao consenso científico, formado a partir dos anos 1930. Por um lado,
o Movimento Negro Unificado, assim como as demais organizações negras,
priorizou em sua luta a desmistificação do credo da democracia racial, negando
o caráter cordial das relações raciais e afirmando que, no país, o racismo está
entranhado nas relações sociais. O movimento aprofundou, por outro lado, sua
política de construção de identidade racial, chamando de negros todos aqueles
com alguma ascendência africana, e não apenas os pretos.”
GUIMARÃES, A. S. A. Classes, raças e democracia. São Paulo: Editora 34, 2012.

70 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 70 01/09/2023 [Link]

70 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Em dupla, pesquisem o tema O mito da democracia racial e, em seus cadernos, escrevam o
que de mais interessante foi encontrado. Procurem sobre a origem desse mito e como as
pessoas estão rompendo com ele. Durante o processo dessa atividade, também é possí-
vel vocês encontrarem muitas celebridades que foram e estão sendo importantes para a
desconstrução desse mito, lembrem-se de citá-las.

5. Veja a publicação a seguir.

Reprodução.

Como vimos no começo do capítulo, injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o de-


coro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional pode gerar pena de reclusão (de
dois a cinco anos) e multa. A pena será aumentada quando o crime for cometido por duas ou
mais pessoas. Ou seja, o Estado, em suas atribuições legais, usa de mecanismos para punir
pessoas que ofendem, agridem ou discriminam outras por características raciais, sexuais, de
gênero ou religião. Usando o site Canva, faça um fôlder com os conhecimentos construídos
ao longo do capítulo, e publique-o em suas redes sociais, de modo a fomentar a discussão
acerca do tema, fazendo com que mais pessoas tenham conhecimento do que foi aprendido
e ajudando a diminuir o discurso de ódio nas redes sociais.

Religião em Diálogo – 90 ano 71

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 71 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 71


Devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe
conflito e inspirar esperança onde há desespero.
Nelson Mandela

Alteridade e cultura: como combater os conflitos?


Diferenças que, de perto, são igualdades

Que diferenças enxergamos, no cotidiano, entre nós mesmos e as


pessoas que nos cercam? De que maneiras aprendemos a reconhecer
semelhanças? O que são empatia e alteridade e como construímos
nossa própria identidade com base em marcas sociais, regionais ou
culturais? Com essas perguntas iniciais, vamos propor um mergulho
pessoal na história individual e na história da nossa família. A partir
desse mergulho, observe as imagens que seguem.

O Candomblé e a Umbanda são religiões populares 1.

ericatarina | [Link]
de matriz africana praticadas por brasileiros — sem
contar os frequentadores de outras religiões ou sem
religião que eventualmente participam dos trabalhos
em terreiros. As vestes, como em qualquer religião,
têm um sentido simbólico e fazem parte tanto das
práticas religiosas e do patrimônio cultural quanto do
cotidiano dos praticantes. O branco é uma das cores
utilizadas em terreiros. Na imagem, o Terreiro llê Axé
Ala Obatalandê, em Lauro de Freitas (BA).

Cristina
As mulheres mulçumanas utilizam diferentes tipos de 2.
vestimenta e cobertura tanto para a cabeça quanto
para outras partes do corpo. Na imagem, mulheres
celebram o Eid Al Adha, um dos feriados mais impor-
tantes da religião muçulmana, na região de Tamale,
em Gana. Elas utilizam como cobertura um dos tipos
de hijab, comuns em certas regiões.

72 Religião em Diálogo – 90 ano

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72 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


3.

kmit | [Link]
É muito comum freiras católicas usarem hábitos —
roupas predeterminadas por uma congregação ou
ordem religiosa. Geralmente, esses hábitos têm sim-
bologias, seja pela cor, pelo broche ou pelo tamanho
do véu que cobre a cabeça.

gajendra | [Link]
O sári (saree) é o traje tradicional das mulheres india- 4.
nas. É constituído por uma longa peça de pano, com
mais de seis metros, servindo como uma saia; depois,
fica com pregas na frente; e o restante do tecido fica
pousado no ombro. Por conta dos extremos de tem-
peratura no subcontinente indiano, o sári tem tanto
um papel prático quanto decorativo. Não apenas é
quente no inverno e fresco no verão, como também
permite uma maior liberdade de movimentos que as
atividades diárias precisam. O sári é considerado um
ícone cultural na Índia moderna.

Sabrina | [Link]
Pela fotografia, você conseguiria saber se essas mu- 5.
lheres pertencem a alguma religião? Nem sempre a
religião está expressa nas vestes e nos acessórios.
Contudo, desde a forma de arrumar o cabelo até
a roupa e o local em que a fotografia foi tirada ex-
pressam informações sobre a pessoa e sobre seu
pertencimento cultural. O que você consegue afirmar
sobre essas mulheres a partir da imagem?

As imagens mostram um dos tipos mais comuns de expressão cultural: as vestes tradicio-
nais religiosas (ou não religiosas). Em muitos contextos, não existe uma obrigação de que um
praticante de determinada religião se vista de certa forma ou use certos adereços, marcas ou
objetos religiosos — apenas os sacerdotes e as sacerdotisas, de modo a diferir-se dos demais.
Porém, é comum que as pessoas procurem voluntariamente se apropriar de vestimentas e
acessórios como forma de se expressar por sua crença.

Religião em Diálogo – 90 ano 73

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 73 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 73


A religião funciona, muitas vezes, como parte da identidade. Você tem alguma religião?
Se sim, ela faz parte de sua identidade? Você tem vontade de expressar que pertence a esse
sistema de crenças por meio de vestimentas e acessórios? Que outras marcas e expressões
de identidade você é capaz de identificar em si e nos outros, para além das de caráter reli-
gioso? Partindo do pressuposto de que o âmbito religioso é um espaço pessoal sagrado, é
sempre importante respeitar o posicionamento e a profissão de fé daqueles que professam
diferente de nós.

Gerenciar, resolver e combater conflitos: uma necessidade social

Atualmente, é possível perceber um grande aumento de conflitos sociais, seja no âmbito


cultural, no âmbito político ou no âmbito familiar. Infelizmente, o fato de as redes sociais
aproximarem as pessoas e introduzirem na sociedade uma vasta gama de informação fez com
que, ao contrário do que se esperava, houvesse uma polarização de ideias, e não um encontro
plural para a geração de novas informações. A Internet, com o uso das redes sociais, se tornou
um instrumento poderoso usado para a polarização de ideias e a divisão entre pessoas que
pensam diferente. Em contrapartida, usada de modo consciente e inteligente, é possível criar
várias pontes e construir novas ideias.
Observando como as pessoas se manifestam publicamente nas redes sociais, é possível
perceber que existe uma grande necessidade de as pessoas sempre terem opinião sobre
tudo — mesmo quando não há formação ou informação prévia sobre o assunto. Às vezes, o
fato de silenciarmo-nos e ouvirmos o outro nos faz compreender muito mais de nós mesmos.
Veja a tirinha a seguir.

Reprodução.

74 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 74 01/09/2023 [Link]

74 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Sugestão de vídeo

Como vimos durante a discussão no começo do capítulo, estamos vivendo tempos de muito
Professor, acesse o QR Code a seguir
discurso de ódio nas redes. O poder público tem atuado para fazer com que os criminosos
e saiba mais sobre a formação brasilei-
sejam punidos e que haja uma cultura de paz entre os mais vitimados. A população negra é
a mais violentada, principalmente quando falamos das pessoas que professam a fé provinda
ra e como é constituída a identidade
de alguma denominação de matriz africana. É necessário acabar com o preconceito e imple- nacional.
mentar ações antirracistas em nossa sociedade. Seja cobrando o poder público na tomada
de decisões que favoreçam o povo negro, seja desconstruindo, em nossos meios sociais, O que é ser brasileiro? | Mario Medeiros
preconceitos que são estruturados em nossa sociedade, família e escola. | Café Filosófico CPFL

Leia o fragmento a seguir de um texto de Darcy Ribeiro para responder às questões.

“Todos nós brasileiros somos carne da carne daqueles pretos e indígenas supli-
ciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou.
A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer
de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que
também somos. Descendentes de escravizados e de senhores de escravizados,
seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo
sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais quanto pelo
exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças conver-
tidas em pasto de nossa fúria. A mais terrível de nossas heranças é esta: levar
sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir
na brutalidade racista e classista.”
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

1. O trecho acima aborda a mistura étnica na formação da identidade brasileira. De acordo


com a sua compreensão, no que resultou a formação identitária brasileira?

Professor, oriente seus alunos a refletirem sobre a riqueza na pluralidade de culturas que

coexistem no Brasil. Contudo, infelizmente, devido a culturas hegemônicas, há alguns

povos que foram demonizados no início do Brasil colonial, e, hoje, toda a sua descendência

sofre com discriminação e ódio.


Anotações

Religião em Diálogo – 90 ano 75

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 75


2. O trecho de Darcy Ribeiro faz uma forte crítica à cultura racista no Brasil. Durante muito
tempo foi pregado que no Brasil existia uma democracia racial, dizia-se que não existia
racismo no país. Você já presenciou alguma cena de racismo em sua escola? Em dupla,
dialoguem sobre essa cena presenciada e construam possíveis ações de enfrentamento
contra o racismo em sua escola.

Resposta pessoal.

3. Leia o fragmento a seguir.

“Pessoas de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões


desencontradas das coisas. Por exemplo, a Floresta Amazônica não passa para
o antropólogo — desprovido de um razoável conhecimento de botânica — de
um amontoado confuso de árvores e arbustos dos mais diversos tamanhos e
com uma imensa variedade de tonalidades verdes. A visão que um indígena tupi
tem desse mesmo cenário é totalmente diversa: cada um desses vegetais tem
um significado qualitativo e uma referência espacial. Ao invés de dizer como
nós: ‛Encontro-lhe na esquina junto ao edifício X’, eles frequentemente usam
determinadas árvores como ponto de referência. Assim, ao contrário da visão
de um mundo vegetal amorfo, a floresta é vista como um conjunto ordenado,
constituído de formas vegetais bem definidas.”
LARAIA, R. de B. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

Relacionando o trecho de Laraia com o que estudamos, como classificar essa diferença
de visão entre pessoas acerca de um mesmo objeto?
Professor, espera-se que os alunos compreendam que as culturas e crenças de outros

povos têm um caráter singular de cada cultura, sem fazer julgamentos (como dizer que é

feio, atrasado ou inferior). Assim, evitam-se comparações que hierarquizam os costumes,

práticas e crenças de povos distintos.

76 Religião em Diálogo – 90 ano

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 76 01/09/2023 [Link]

76 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


4. Leia com atenção o excerto a seguir.

“Os xamãs yanomamis não trabalham por dinheiro, como os médicos dos brancos.
Trabalham unicamente para o céu ficar no lugar, para podermos caçar, plantar
nossas roças e viver com saúde. Nossos maiores não conheciam o dinheiro.
[...] O dinheiro não nos protege, não enche o estômago, não faz nossa alegria.
Para os brancos, é diferente. Eles não sabem sonhar com os espíritos como
nós. Preferem não saber que o trabalho dos xamãs é proteger a terra, tanto
para nós e nossos filhos como para eles e os seus.”

KOPENAWA, D. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

As diferenças culturais existentes entre brancos e indígenas são notórias. Sobre isso, é
correto afirmar:
a) A religião indígena é monoteísta, tendo a floresta como ser superior.
b) A organização social dos indígenas é muito similar à dos brancos, sendo hierárquica e
individual.
c) Os brancos e os indígenas possuem uma relação harmônica e compartilham saberes me-
dicinais e religiosos.
d) Os xamãs, também chamados de pajés, representam os líderes espirituais e curandeiros
dos indígenas.
e) Na cultura indígena, o dinheiro é somente utilizado para pagar os processos de cura rea-
lizados pelo xamã.

Religiões afro-brasileiras derivam de


crenças de mais de 4 séculos

A origem das religiões de matrizes africanas em território brasileiro aconteceu a partir


da diáspora africana, um processo sociocultural de mudança forçada de ambiente. Há 400
anos, africanos de diferentes regiões foram trazidos para o Brasil, transportados em navios
negreiros. Com essa vinda, por conta das diversas etnias, chegaram também os costumes
e as culturas. De forma omissa, as religiões de matrizes africanas foram integradas ao País.

Religião em Diálogo – 90 ano 77

Religiao_em_dialogos_9A_001a080_Back.indd 77 01/09/2023 [Link]

Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 77


Isabelle Alves
O Brasil foi um dos últi-
mos países a abolirem a
escravização. Isso ocor-
reu somente em 1888,
com muita pressão in-
ternacional e de aboli-
cionistas. Documentos
mostram que, antes da
abolição, escravizados
tentavam comprar sua
alforria com acordos
feitos com seus proprie-
tários.

Os países que tiveram mais tráfico de pessoas para serem es-


cravizadas no Brasil foram Angola, República do Congo e República
Democrática do Congo. Os escravizados eram mantidos aprisionados
em senzalas e proibidos de preservar suas culturas e religiões. Eles
eram obrigados pelos senhores de engenho a seguirem a religião
predominante, trazida pelos europeus, o Cristianismo. Começava,
então, um processo chamado sincretismo religioso.
Isabelle Alves

O preto-velho é uma das linhas de trabalho da Umbanda. São espíritos que re-
presentam generosidade, amor e humildade e se apresentam sob a imagem de
idosos africanos que foram escravizados e morreram de velhice. São divindades
puras, sábias e pacientes. Pela idade avançada, tiveram a oportunidade de vi-
ver por longos anos através da sabedoria, suportando as amarguras da vida. O
preto-velho é uma entidade conhecida nacionalmente, principalmente pela sua
imagem estar relacionada sempre à utilização do cachimbo.

78 Religião em Diálogo – 90 ano

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78 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


O sincretismo religioso mescla doutrinas distintas em elementos que as tornam semelhan-
tes. Com a imposição da religião cristã, houve um processo de influência da Igreja Católica
sobre essas religiões de matrizes africanas, principalmente o Candomblé e a Umbanda. Elas
tentavam esconder os cultos aos orixás usando as imagens dos santos da Igreja Católica.
Veja a seguir uma tabela com a explicação de algumas inverdades contadas a respeito das
religiões de matrizes africanas.

Verdades sobre as religiões afro-brasileiras

EXU NÃO É DEMÔNIO CANDOMBLÉ E UMBANDA SACRIFÍCIO DE ANIMAIS

Nas religiões de matriz afri- Candomblé é uma religião Em algumas casas de terrei-
cana, o demônio, como as africana que cultua os orixás ro, o sacrifício de animal é
religiões cristãs reconhe- de alguns países da África. feito em louvor à divindade.
cem, não existe. Exu repre- Já a Umbanda é uma reli- O animal sacrificado é con-
senta a evolução espiritual, gião brasileira que nasceu sumido nas festas pelos pró-
aquele que leva as orações da mistura de algumas re- prios fiéis. Já a Umbanda, por
e as preces à divindade. Exu ligiões existentes no Brasil, exemplo, não tem sacrifício
é o orixá do movimento, di- como a cristã europeia, a do de animal.
vindade do Candomblé e da Candomblé africano e a das
Umbanda. tradições indígenas.

RELIGIÕES DE MATRIZES
SEM POSSESSÕES MACUMBA
AFRICANAS

Além do Candomblé e da O termo correto é incor- A macumba é um instru-


Umbanda, existem outras poração. Na incorporação, mento africano semelhan-
religiões, como: Batuque, a entidade não tem total te ao reco-reco. Quem o
Quimbanda, Jurema, Xangô, poder sobre o corpo de toca é chamado de ma-
entre outras, no Brasil. quem a recebe. Diferen- cumbeiro.
temente da possessão, na
qual o corpo humano é
prejudicado física e men-
talmente.

Disponível em: [Link] Acesso em: 26/06/2023.

Religião em Diálogo – 90 ano 79

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Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano 79


Depois de termos lido sobre vários preconceitos que foram sendo repetidos ao longo dos
séculos por falta de informação, vamos apresentar nossos conhecimentos para que outros
alunos da nossa escola os vejam? Usando cartolinas, lápis de cor, imagens e recortes, monte
painéis desmistificando as características das religiões de matriz africana. Fazendo campanhas
de conscientização, teremos cada vez mais pessoas informadas dessas religiões. Sabemos que
você não precisa professar uma fé para respeitá-la. O respeito é um sentimento natural de
quem vive em sociedade. Com as cartolinas, faça também uma exposição sobre a conscien-
tização de atitudes antirracistas na escola, fazendo apologia à boa convivência, ao respeito
mútuo e à paz social.
Fafá | [Link]

Título: Discurso de ódio nas redes sociais


Reprodução.

Autor: Luiz Valério Trindade


Editora: Jandaíra
Sinopse: Luiz Valério Trindade evidencia o crescimento das redes sociais e
analisa o quanto elas cooperam para o aumento dos discursos de ódio ao
mesmo tempo que lucram com essas ações. Por meio de conhecimento
qualificado e embasado, o autor revisita momentos importantes da his-
tória do Brasil pós-abolição para sedimentar conceitos fundamentais, que
permitem compreender a dinâmica racial nos tempos atuais, evidenciando o quanto o processo
de construção da identidade nacional baseou-se na ideologia do branqueamento. A partir de
evidências de que as mulheres negras são as principais vítimas dos discursos que ridicularizam e
inferiorizam sua existência, Luiz Valério Trindade analisa textos postados em redes sociais e mos-
tra o quanto o racismo intersecciona-se com sexismo e questões de classe. Dessa forma, a obra
contribui para conscientizar a sociedade e enriquecer o debate público em busca de soluções,
com alternativas práticas para o enfrentamento desse problema.

80 Religião em Diálogo – 90 ano

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80 Manual do Educador | Religião em Diálogo – 90 ano


Ensino Religioso
Henrique Herculano

Indígenas da etnia potiguara no ritual religioso do Toré, Rio Grande do Norte, Brasil.

MANUAL DO EDUCADOR
FORMAÇÃO CONTINUADA 9
Ensino Fundamental

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