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Dignidade Humana na Doutrina da Igreja

O documento discute o princípio da dignidade da pessoa humana na Doutrina Social da Igreja Católica, analisando sua origem e importância para orientar ações sociais e políticas da Igreja. O princípio afirma que todo ser humano possui valor intrínseco independentemente de características, e é central para a compreensão da moralidade social.

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Dignidade Humana na Doutrina da Igreja

O documento discute o princípio da dignidade da pessoa humana na Doutrina Social da Igreja Católica, analisando sua origem e importância para orientar ações sociais e políticas da Igreja. O princípio afirma que todo ser humano possui valor intrínseco independentemente de características, e é central para a compreensão da moralidade social.

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Introdução:

O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana é um conceito fundamental na Doutrina


Social da Igreja Católica. Este princípio afirma que todo ser humano possui um valor
intrínseco e inalienável simplesmente por ser humano, independentemente de sua origem,
raça, sexo, religião, condição sócio económica ou qualquer outra característica. Este trabalho
de pesquisa tem como objectivo explorar e analisar este princípio à luz dos ensinamentos da
Igreja, com base em fontes bibliográficas e documentos oficiais

A dignidade da pessoa humana é um princípio fundamental que permeia diversos


sistemas éticos e filosóficos. Na Doutrina Social da Igreja, este princípio é central e serve
como base para a compreensão da moralidade social. Este trabalho explora a visão da Igreja
Católica sobre a dignidade humana, sua relação com a Doutrina Social da Igreja e sua
relevância nos desafios contemporâneos.

Objetivo Geral:

 Analisar o princípio da dignidade da pessoa humana sob a ótica da Doutrina Social da


Igreja, destacando sua importância e aplicabilidade em questões sociais atuais.

Objetivos Específicos:

 Investigar a origem e o desenvolvimento do princípio da dignidade da pessoa humana


na Doutrina Social da Igreja.

 Examinar como a dignidade humana orienta as ações sociais e políticas da Igreja


Católica.

 Discutir a relevância e os desafios da aplicação do princípio da dignidade humana em


contextos contemporâneos.

Metodologia:

Este trabalho utilizará uma abordagem metodológica interdisciplinar, combinando


pesquisa bibliográfica, análise doutrinária e reflexão filosófica. Será realizada uma revisão
sistemática da literatura relevante, incluindo encíclicas papais, documentos do Magistério da
Igreja e textos de teólogos e filósofos católicos. Serão identificados conceitos-chave
relacionados à dignidade humana e à Doutrina Social da Igreja, e será realizada uma análise
crítica para elucidar seu significado e aplicação prática.
A perspectiva dos documentos sociais da Igreja para uma conceituação da dignidade da
pessoa humana

Talvez a Encíclica Pacem in Terri, de 1963, do Papa João XXIII, apresente uma
fundamentação mais extensa do que as demais a respeito desse tema; entretanto, quando se
trata de apontar as consequências transformadas em princípios indicativos 8 ou até mesmo
normativos todas o fazem com o foco principal na pessoa humana, quer seja na conceituação
de que a sua dignidade está na sua própria natureza, quer seja quando sublinha essa dignidade
no fato de que a pessoa humana transcende o próprio sentido ontológico. A transcendência do
conceito de pessoa humana será analisada mais adiante.

Na Encíclica Pacem in Terris, o conceito de dignidade da pessoa humana tem como


base a natureza e como operacionalidade dessa natureza a inteligência e a vontade livre.
Assim se manifesta o documento:

Em uma convivência humana bem constituída e eficiente, é fundamental o princípio


de que cada ser humano é pessoa; isto é, natureza dotada de inteligência e vontade livre. Por
essa razão, possui, em si mesmo, direitos e deveres que emanam, direta e simultaneamente, de
sua própria natureza. Trata-se, por conseguinte, de direitos e deveres universais, invioláveis e
inalienáveis. (JOÃO XXIII, 1963, Pacem in Terris, n. 9).

Para confirmar que a dignidade da pessoa humana tem sua raiz ontológica na natureza
humana e não em leis produzidas para garanti-la, conclui: “ mas a verdade é que, sendo leis de
gênero diferente, devem-se buscar apenas onde as inscreveu o Criador de todas as coisas, a
saber, na natureza humana”. (JOÃO XXIII, 1963, n. 6). Essa dignidade é, portanto, o alicerce
maior para todas as leis porque ela é anterior até mesmo ao próprio ser humano, pois
“imprimiu o Criador do universo no íntimo do ser humano uma ordem, que a consciência
deste manifesta e obriga peremptoriamente a observar: ‘mostram a obra da lei gravada em
seus corações”. (JOÃO XXIII, 1963, P5).

A Encíclica Laborem Exercens reconhece que o trabalho é digno e importante, porém


a dignidade ainda maior do que ele é a dignidade do ser humano: “Ao passo que o homem,
como sujeito do trabalho, independente do trabalho que faz, o homem, e só ele, é uma
pessoa.” (JOÃO PAULO II, 1981, n. 12). Em outras palavras: o trabalho só é digno porque o
ser humano é digno. É a dignidade humana que concretiza a dignidade do trabalho.
Considerando as ações humanas como consequências inerentes à sua natureza
(natureza humana) a Encíclica Rerum Novarum prescreve que “a verdadeira dignidade do
homem e a sua excelência residem nos seus costumes [...]” (LEÃO XIII, 1981, n. 13) e ainda:
"[...] todos os seres humanos são iguais entre si por dignidade de natureza”. (JOÃO XXIII,
1963, n. 44).

Já que a dignidade humana tem sua fundamentação na natureza humana, nem o


próprio ser humano tem autoridade para negá-la: “A ninguém é lícito violar impunemente a
dignidade do homem [...], pois, nem ainda por eleição livre, o ser humano pode renunciar a
ser tratado segundo a sua natureza [...]” (LEÃO XIII, 1891, n. 23). Isso confirma a dignidade
de cada pessoa humana: “Desta maneira fica salvaguardada também a dignidade pessoal dos
cidadãos”. (JOÃO XXIII, 1963, n. 50).

São estes alguns dos princípios norteadores para a Igreja e para a sociedade civil que
vêm reafirmado o princípio da dignidade humana ontologicamente ligado à sua própria
natureza, à lei natural. O estudo a seguir tem, por escopo, demonstrar isso.

Afirmação da pessoa humana como sujeito de direitos

A igualdade entre os seres humanos nada mais é do que a consequência da dignidade


da pessoa humana radicada na lei natural. É por isso que "[...] todos os seres humanos são
iguais entre si por dignidade de natureza”. (JOÃO XXIII, 1963, n. 44).

A dignidade humana não é uma conclusão ou uma concessão advinda de alguma lei ou
de algum princípio promulgado pela sociedade. Mesmo quando essa dignidade humana fica
reconhecida para concretizar direitos da sociedade, nada terá significado se não houver,
primeiramente, a afirmação da ontológica dignidade da pessoa humana fundada na lei natural.
É nestes termos que consta na Encíclica Pacem in Terris:
Pois visto ter o bem comum relação essencial com a natureza humana, não poderá ser
concebido na sua integridade, a não ser que, além de considerações sobre a sua natureza
íntima e sua realização histórica, sempre se tenha em conta a pessoa humana. (JOÃO XXIII,
1963, n. 55).

É por isso que, segundo a Encíclica Pacem in Terris,“os governantes, agindo em nome
da sua comunidade e procurando o bem desta, não podem renunciar à sua dignidade natural e,
portanto, de modo algum, lhes é lícito eximir-se à lei da própria natureza, que é a lei moral.”
(JOÃO XXIII, 1963, n. 81).

Decorre, pois, dessa consideração, que os direitos da pessoa são consequências da


realidade de sua dignidade. Nesse sentido, a mesma encíclica traz que “todo o ser humano tem
direito natural ao respeito de sua dignidade e à boa fama [...], direito à liberdade na pesquisa da
verdade [...]. Tem direito também à informação verídica sobre os acontecimentos públicos.
(JOÃO XXIII, 1961, n. 12). Tudo isso porque, segundo a Rerum Novarum, “esses direitos, que
são inatos a cada homem considerado isoladamente, apresentam-se mais rigorosos ainda quando
se consideram, nas suas relações e na sua conexão, com os deveres da vida doméstica. (LEÃO
XIII,2009. 2012, n. 6).

Só se pode falar em direitos e deveres, em liberdade e responsabilidade se houver o


reconhecimento de que a dignidade humana é fundada na lei natural e, por isso, ela produz
direitos naturais que tornam a pessoa humana sujeito jurídico de direitos. Por conseguinte:
“Aos direitos naturais acima considerados vinculam-se, no mesmo sujeito jurídico que é a
pessoa humana, os respectivos deveres.” (JOÃO XXIII, 1963, n. 28). Seguindo o mesmo
raciocínio, na Encíclica Rerum Novarum está consignado: “Exige ademais a dignidade da
pessoa humana um agir responsável e livre.” (JOÃO XXIII, 1963, n. 34).

A dignidade humana e o direito a organizar-se e a associar-se

A organização da sociedade é uma realidade necessária já que ela se torna instrumento


para realização da pessoa humana, respeitando a sua dignidade. Por isso, na
Encíclica Centesimus Annus ficou consignado:
Associações e organizações, constituíram como que um grande movimento
empenhado na defesa da pessoa humana e na tutela da sua dignidade, o que tem contribuído
para construir, nas diversas vicissitudes da história, uma sociedade mais justa, ou pelo menos
a colocar barreiras e limites à injustiça. (JOÃO PAULO II, 1991, n. 3).

Seguindo o mesmo raciocínio, depreende-se desse fato a sua importância e as suas


vantagens. É neste sentido que a Encíclica Mater et Magistra deixou registrado que: “É claro
que a socialização assim entendida tem numerosas vantagens: torna possível satisfazer muitos
direitos da pessoa humana, especialmente os chamados econômicos e sociais.” (JOÃO XXIII,
1961, n. 61).
O direito de organizar-se e associar-se está presente na maioria das constituições dos
Estados Democráticos de Direito. Após a segunda guerra mundial foi fundamental para que
esse direito pudesse fazer parte dos documentos pontifícios e estar presente nos textos
normativos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos já o trouxe no seu artigo XX,
inciso 1. Na Alemanha há a previsão no artigo 9º da Constituição Alemã. Com isso, são nulos
de pleno direito, todos os acordos e atos que visem a impedir o direito de associação para
manutenção e avanço das condições de trabalho. No Brasil, o artigo 5º, inciso XVII consigna
de forma límpida que “é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter
paramilitar”.

O direito de organização e de associação pressupõe a participação igual dos cidadãos,


um princípio democrático que se entrelaça com os direitos subjetivos de participação e
associação que se tornam, assim, fundamentos funcionais de uma democracia.

Enfim, a alma da vivência humana está na sociabilidade e as encíclicas social


ressaltam com clareza esta dimensão da vida humana.
O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana à Luz da Doutrina Social da Igreja

Origens e Fundamentação Bíblica

A dignidade da pessoa humana encontra suas raízes nas Sagradas Escrituras, que
ensinam que cada ser humano é criado à imagem de Deus. Em Gênesis 1:27, lemos: "Criou
Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou",
destacando assim a singularidade e o valor inerente de cada indivíduo. Essa concepção bíblica
serve de fundamento para a compreensão da dignidade humana na Doutrina Social da Igreja.

Desenvolvimento na Doutrina Social da Igreja

A Doutrina Social da Igreja se desenvolveu ao longo dos séculos, respondendo aos


desafios sociais, políticos e econômicos de cada época. Documentos papais, encíclicas e
ensinamentos dos Concílios têm contribuído para a elaboração e aprofundamento desse
princípio. Por exemplo:

 A encíclica "Rerum Novarum" (1891), de Papa Leão XIII, foi pioneira ao abordar
questões de justiça social e dignidade dos trabalhadores diante das mudanças sociais
decorrentes da Revolução Industrial.

 Documentos mais recentes, como a "Caritas in Veritate" (2009) de Bento XVI e a


"Laudato Si'" (2015) de Papa Francisco, expandem a compreensão da dignidade
humana para incluir questões ambientais, desenvolvimento sustentável e solidariedade
global.
Consideracoes finais

O Princípio da Dignidade da Pessoa Humana é um pilar fundamental da Doutrina


Social da Igreja Católica, inspirado nas Sagradas Escrituras e desenvolvido ao longo da
história da Igreja. Este princípio informa as posições da Igreja sobre uma ampla gama de
questões sociais, económicas e políticas, e orienta os fiéis católicos na promoção do bem
comum e da justiça social. Ao continuar a estudar e aplicar este princípio, os católicos podem
contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, solidária e compassiva.

Através da análise da Doutrina Social da Igreja, fica claro que o princípio da dignidade
da pessoa humana não é apenas uma ideia abstrata, mas sim um imperativo moral que orienta
a ação da Igreja e de seus fiéis na promoção do bem comum e da justiça social. Em um
mundo marcado por desigualdades, conflitos e injustiças, a mensagem da dignidade humana
ressoa como um chamado à solidariedade, à compaixão e ao respeito mútuo. Portanto, é
fundamental que indivíduos e instituições reconheçam e promovam a dignidade de cada ser
humano, construindo uma sociedade mais justa e fraterna.
Referências Bibliográficas:

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Jorge; DA SILVA, M. A. Marques (coords.). Tratado luso-brasileiro da dignidade humana.
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COMPÊNDIO. Vaticano II. Constituições, Decretos e Declarações. 29. ed. Petrópolis:


Vozes, 2000.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. São Paulo: Saraiva, 2005

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