Português - Os Contos
O conto é um gênero narrativo que se distingue pela brevidade e pela concentração
de tempo e espaço.
Enquanto uma narrativa curta, caracteriza-se pela unidade da ação, que se centra
numa intriga linear e sem ações secundárias, protagonizada por um número
reduzido de personagens.
“George” - Maria Judite Carvalho
O conto “George” retrata a complexidade da natureza humana a partir da
personagem George, a qual se desdobra na jovem Gi e na velha Georgina.
Tal ocorre através do diálogo entre a realidade [George], a memória [Gi] e a
imaginação [Georgina].
De regresso à sua cidade natal, vinte anos após ter partido, George recorda o que foi
na sua juventude [Gi], reflete sobre o que é [George], e antecipa o que será no futuro
[Georgina].
Neste percurso psicológico, expõem-se as metamorfoses interiores e exteriores da
figura feminina (como as mudanças na cor do cabelo) e aborda-se a complexidade da
natureza humana.
Análise do conto
1º Parágrafo
▪ George caminha numa “larga rua”, num dia de muito calor, rua essa que já há vinte
anos percorrera. Ela, uma mulher de 45 anos, regressa à sua terra natal, mais de 20
anos após a sua partida, relembrando e caminhando ao lado de Gi, isto é, de quem
outrora foi.
▪ A dupla comparação («Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta
sem forças contra o vento, ou como quem caminha, [...], na pesada e espessa e dura
água do mar.») traduz a lentidão da aproximação das duas personagens e, mais
ainda, a dificuldade, o esforço para prosseguir aquele caminho.
Por outro lado, sugere o quão difícil é caminhar contra elementos adversos e prepara a
atmosfera pesada da vivência para qual se encaminha a personagem.
▪ O ambiente que se faz sentir «na longa rua» é marcado pelo calor e por uma aragem
de «forno aberto», o que antecipa o seu caráter incómodo e asfixiante.
▪ A convocação de Gi cumpre um objetivo claro: George evoca o seu passado,
materializado na figura de “Gi”, representante da sua fase jovem, e perspetiva o seu
futuro, criando uma imagem mental de si na velhice, “Georgina”.
▪ A metáfora da bússola (« [...] perdeu a bússola não sabe onde nem quando, perdeu
tanta coisa sem ser a bússola.»), evidência a desorientação sentida por George que
acredita ter perdido o rumo, o sentido orientador da sua vida, bem como muitas
outras coisas, o que sugere que a personagem se sente perdida.
▪ A oração coordenada disjuntiva e interrogação presente no primeiro parágrafo
(“Perdeu ou largou?”) é bastante significativa e reveladora.
De facto, se a personagem «perdeu», poderá ter sofrido e lamentar a sua sorte ou o
seu excesso de sonhos e esperança.
Se, por outro lado, «largou», então fê-lo voluntariamente, algo que pode revelar-se
ainda mais doloroso e frustrante por depender, não do acaso, mas da sua própria
vontade e capacidade de decisão.
George aprecia a liberdade, por isso evita criar vínculos com objetos e lugares, o que
acentua a possibilidade de as perdas serem deliberadas. Contudo a sua apreciação pela
liberdade pode se traduzir num futuro solitário e, por isto, de algum
arrependimento.
▪ Por outro lado, o recurso à conjunção coordenada disjuntiva traduz a incerteza e a
ambiguidade do narrador no que à descrição que faz e ao seu discurso diz respeito.
2.º parágrafo
▪ O uso do plural (“caminham”) indica a existência de duas personagens: George e
“a outra”.
▪ As duas personagens vestem vestidos brancos e caminham em sentido contrário, o
que significa que se irão encontrar como num espelho. É esta característica física
que aproxima o retrato de ambas.
▪ George confessa caminhar com aquela que já quis, e quase conseguiu, esquecer, ou
seja, o seu passado.
3.º parágrafo
▪ Retrato da personagem [Gi] : jovem, rosto vago e sem contornos.
Feições incertas e pálidas (comparação com os mortos).
De facto, as feições de Gi começam por ser pouco nítidas e esfumadas, mas a sua
voz «é muito real e viva», que nem todas as perturbações que marcaram a vida de
George foram capazes de alterar.
▪ O encontro com Gi ocorre no espaço interior da memória, tornando difícil o
aparecimento da figura enquanto visão, e levando a que esta se vá desmaterializando,
permanecendo apenas como voz que possibilita o estabelecimento de um diálogo, à
medida que este contacto interior se prolonga.
▪ A narração do encontro alterna com outros pensamentos de George acerca do seu
passado, o que demonstra que o encontro se dá também em pensamento, por isso de
forma fragmentada, como é característico da memória.
▪ A referência à “fotografia que tem corrido mundo numa mala qualquer, que tem
morado no fundo de muitas gavetas” revela que a personagem é muito viajada.
4.º parágrafo
▪ Retrato da personagem:
À medida que as duas personagens se aproximam, “Gi” torna-se mais nítida:
Retrato físico: olhos largos, semicerrados; boca fina; cabelos escuros e lisos; pescoço
alto de Modigliani;
Características socioeconómicas: pobre, origens humildes.
▪ Pais de Gi / George: gente do campo, pobre e inculta, com pouca instrução;
Encaravam o interesse da filha pela cultura e pela arte com um misto de
superioridade característica dos adultos perante as crianças e de indignação ou
vergonha por aquilo que, pensavam eles, não era trabalho e seria, por parte de outros,
alvo de chacota.
“[...] os pais tinham sido condenados pelas instâncias supremas à quase ignorância [...]
sorriam um pouco com a superioridade dessa mesma ignorância se a ouviam falar de
um livro, de um filme [...]” - ninguém lhes proporcionou a oportunidade de ser
mais do que são. São ignorantes e, fruto dessa ignorância, acreditam e
percepcionam o estudo e a arte enquanto uma perda de tempo.
▪ Intencionalidade crítica do parágrafo: a pouca instrução dos pais da personagem
está associada ao interesse do poder político em manter o povo na ignorância e
afastado do conhecimento de outras realidades para além das que correspondiam
ao seu espaço social, à sua mundividência.
Desta forma, não desenvolviam o seu espírito crítico, o seu poder de reivindicação,
algo que constituía um perigo para o regime de ditadura.
5.º parágrafo
▪ George partiu da vida “à descoberta da cidade grande”, ainda que, naquela época,
não fosse aceitável uma mulher sozinha fazê-lo, uma vez que a cidade era
considerada um local de perdição.
▪ George pertencia a uma família sem grande cultura e vivia numa pequena vila do
interior, com as perspectivas próprias de tal contexto: casar, ter uma casa e
família/filhos, ser uma esposa e uma mãe exemplares (“[…] que hei de um dia ser
uma boa senhora da vila, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita […]”).
Contudo, encarnar o papel tradicional reservado às mulheres significaria o
sacrifício do seu gosto pela pintura e desenho que há muito manifestara e que a
família desde sempre desvalorizara.
Daqui surge a sua decisão de partir, deixando para trás os pais, o noivo, as
perspetivas de casamento e a própria vila, indo para longe e desligando-se de tudo.
▪ Que razões existem para a partida de George?
A protagonista partiu na procura da descoberta de novas realidades, novas
experiências e de uma nova vida na qual, em suma, possuísse liberdade de escolha.
A sua partida da vila foi motivada, portanto, pela vontade de romper com a vida
convencional que lhe estava destinada, mas que ela não desejava.
▪ A diversidade de dados biográficos da personagem que surgem concentrados em
poucas linhas, evidenciam que os factos não têm, atualmente, grande ou nenhum
significado para a protagonista.
Como muitas outras pessoas, George procurou mudar, teve várias experiências
amorosas (umas grandes, outras casuais/superficiais), casou-se, divorciou-se e viajou
muito, aquém e além-mar.
▪ Essa mudança espacial repercute-se na sua imagem física, nomeadamente no seu
cabelo, cuja cor se encontra em constante mudança.
▪ George procurou distanciar-se da sua juventude, da vida com os pais, do seu
primeiro namorado [Carlos], isto é, de tudo o que a ligava à sua antiga terra, daí
ter partido à descoberta da cidade grande «por além terra, por além mar».
▪ A vida de George acaba por se tornar vertiginosa, o que fica bem visível na
sucessão de verbos (“casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a
chegar”), que nos dá a ideia de movimento constante, de procura também
constante e de instabilidade emocional.
▪ Atualmente, vive em Amesterdão.
6.º parágrafo
▪ O sexto parágrafo introduz a temática da habitação.
Nos primeiros tempos após a sua partida da vila, George passou por dificuldades,
tendo vivido em “quartos alugados mais ou menos modestos, depois em casas
mobiladas mais ou menos agradáveis”.
▪ A protagonista esconde da mãe estas questões. Com ela comunica através de
cartas, escassas, pois não gostava de escrever, e pouco minuciosas.
▪ As duas últimas notas biográficas do parágrafo são dedicadas à morte dos pais.
7.º- 10.º parágrafo
▪ Estes parágrafos continuam a focar-se na temática habitacional, focalizando o facto
de George só habitar casas mobiladas, como já havia sido referido no parágrafo
anterior.
Nesta passagem do conto, destaca-se a necessidade ou o desejo de a personagem não
criar ligações, afetos, não estar presa a nada emocionalmente. Considerando se apenas
assim possível viver completamente livre, “senhora de si”.
▪ No entanto, este modo de vida causa à personagem algum sofrimento e dor (“fazes
isso, enfim, toda essa desertificação, com esforço, com sofrimento”), que, ainda assim,
escolhe sentir, uma vez que considera que é destas decisões e desapego que provém a
sua liberdade.
No fundo, encontramos-nos perante um estilo de vida que ainda que proporcione
liberdade à personagem, simultaneamente propicia o vazio, a solidão, o desencanto
e, eventualmente, algum arrependimento (“os amigos que julga sinceros, sê-lo-ão?”).
▪ O desejo de ser livre subordina tudo o restante: “Queria estar sempre pronta para
partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-se
mais um dia que fosse. Disponível, pensava. Senhora de si. Para partir, para chegar.”.
▪ A nível psicológico, George caracteriza-se pelo desapego («viveu sempre em
quartos alugados» ou «em casas mobiladas»), pela instabilidade afetiva («Teve
muitos amores […], casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar,
quantas vezes?»), e pelo desejo intenso de liberdade («Queria estar sempre pronta
para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-
se mais um dia que fosse.»).
▪ As constantes viagens representam o espírito de liberdade de George.
A sua permanente itinerância relaciona-se com o desprendimento das coisas, visto
que procura estar sempre pronta para partir sem estar presa a nada nem a ninguém.
É esta filosofia de vida que a leva a viver em quartos e casas mobiladas em que não
conserva quase nada de seu, exceto alguns livros e poucos amigos.
▪ Este desapego das coisas é o mesmo que justifica o abandono da família e a
manutenção com ela através de contactos superficiais (as escassas cartas escritas à
mãe) e que a leva a vender a casa dos pais, mesmo que Gi «talvez ainda [lá] more»,
isto é, mesmo que a própria George ainda mantenha ligações afetivas com ela e a
venda comporte algum sofrimento.
▪ Em suma, a personagem (Gi) deseja ser livre, por isso evita criar vínculos com
objetos e lugares, o que nos permite concluir que as perdas na sua vida serão
deliberadas.
11.º parágrafo
▪ Os pais, de outro tempo e com outra mentalidade, não compreendiam o desejo de
liberdade sentido pela filha.
▪ A referência às malas mostra a mudança do estatuto social da protagonista.
De origens humildes, partiu de casa “com uma velha mala de cabedal riscado”,
alcançou um bem-estar económico que lhe permite adquirir artigos mais caros e
sofisticados (“E as suas malas agora são caras, leves, malas de voar e com
rodinhas.”).
12.º parágrafo
▪ As duas personagens encontram-se, finalmente, cara a cara, depois de caminharem
devagar uma em direção à outra.
▪ No início, a personagem com quem George depara é envolta em grande mistério.
O seu rosto é uma memória esbatida conservada numa fotografia (3.º parágrafo) e
vai ganhando nitidez de traços – olhos, boca, cabelos, pescoço (4.º parágrafo).
Quando, agora, se encontram, o rosto está novamente esfumado, até o rosto do
presente – George – encontrar o rosto do passado, a jovem Gi, uma “rapariguinha
frágil, um vime, que ela tem levado a vida inteira a pintar”.
▪ O diálogo que se segue é, na verdade, um encontro de George com a jovem que foi
naquela vila, por isso recorda detalhes como o do alfinete de ouro, e na despedida
“não se tocam”, nem tal seria possível, e começam a mover-se ao mesmo tempo,
lentamente, como quem anda na água ou contra o vento. A cada instante vão-se
distanciando cada vez mais. E nenhuma delas olha para trás. “O esquecimento
desceu sobre ambas.”.
▪ Gi é George e mora na sua memória.
15.º parágrafo
▪ Este parágrafo marca a mudança (a evolução) operada de Gi para George: a
juventude, a fragilidade física, as dificuldades económicas e a pobreza
(simbolizadas pelo pregador de oiro que penhorou em Lisboa) de Gi → a pintura à
maneira de Modigliani > a criação de um estilo próprio, a fama e o sucesso
enquanto pintora, de George.
16.º parágrafo e seguintes – o diálogo entre Gi e George
▪ Motivo do regresso de George: vender a casa dos pais.
▪ Simbolismo da venda da casa: a rutura definitiva com o passado.
▪ Retrato de Gi:
- muito jovem;
- quieta;
- olhar esquecido e vazio;
- não espantada com a venda da casa;
▪ Projetos futuros de Gi:
1.º. Partir da vila, mesmo sabendo que não terá o apoio e a aprovação da família;
sozinha, pois o namorado tem outros projetos, comprar uma terra e construir uma
casa, que não envolvem sair da região.
2.º. Continuar simplesmente a pintar.
▪ A revelação dos projetos é feita através da memória de George, que, face à imagem
de si mesma enquanto jovem, relembra os projetos que então tinha: deixar tudo,
partir e pintar.
▪ Também os «outros» fazem projetos para Gi: ser “uma boa senhora da vila”, uma
esposa exemplar, uma mãe perfeita, uma boa dona de casa, “com muito jeito para o
desenho”, que será como que tolerado, podendo até “fazer retratos das crianças
quando tiver tempo”. Espera-se, em suma, que case (a mãe já lhe está a fazer o
enxoval), tenha filhos e cuide da casa.
▪ George tem pressa (tem de apanhar o comboio para regressar; no dia seguinte
seguirá para Amesterdão, onde tem um ateliê).
▪ A despedida entre ambas é extremamente significativa: dão um beijo rápido, no ar,
sem se tocarem; começam a mover-se ao mesmo tempo, devagar. Afastam-se, sem
nenhuma delas olhar para trás.
▪ Simbolismo da despedida: como a nota “ambas dão um beijo rápido, breve, no ar,
não se tocam, nem tal seria possível” deixa entender, este encontro é, na realidade, o
encontro de George consigo mesma, com a recordação de um passado que não
deixou saudades, ao qual não quer voltar, mas onde havia uma jovem, Gi, que nunca
deixou de a acompanhar, isto é, que nunca se apagou da sua memória.
Por se tratar de uma mera memória, a despedida não causa dor, visto que Gi
permanecerá no passado, sempre jovem e sempre presente na memória de
George.
Por se tratar de uma mera memória, “não seria possível”, de facto, que as duas se
tocassem: uma era apenas memória.
▪ A aproximação e o afastamento destas duas personagens revestem-se de mistério, de
estranheza e ambiguidade. Alguns elementos fantásticos determinam estes efeitos: as
feições incertas do rosto de Gi comparadas ao que acontece com o rosto das pessoas
mortas, o rosto esfumado de Gi quando chega perto de George, a estranheza de Gi
continuar jovem cerca de 23 anos depois, o beijo dado por Gi e George em que «não
se tocam, nem tal seria possível».
▪ Em suma, Gi representa a imagem de George quando tinha 18 anos que esta
imagina encontrar no seu regresso à terra onde nasceu e se criou.
38.º parágrafo
▪ No comboio, George tem consciência de que o passado ficou definitivamente para
trás. Ao vender a casa dos pais, não lhe resta qualquer motivo para regressar.
Nem ela o quer.
▪ No entanto, sente uma certa nostalgia pelo seu passado, por tudo o que ficou para
trás na sua vida, (“Uma lágrima que não tem nada a ver com isto mas com o que se
passou antes - [...] - uma simples lágrima no olho direito, [...]”)
▪ Não obstante, uma parte de si mantém-se distante, livre de emoções: “[...], o
outro, que esquisito, sempre se recusa a chorar. É como se se negasse a compartilhar
os seus problemas, não e não.”.
▪ As lágrimas simbolizam precisamente essa fragmentação de George: a lágrima
nostálgica do olho direito e a recusa dessa nostalgia através do olho esquerdo, que
recusa a emoção.
39.º- 40.º parágrafos
▪ A partir do 39.º parágrafo dá-se o encontro de George com Georgina.
▪ Este segundo encontro é semelhante ao primeiro: gradual, pouco nítido, visto que
ambas surgem com contornos indefinidos e difusos que, gradualmente, se tornam
mais nítidos.
▪ George resiste ao aparecimento de Georgina, fechando os olhos e procurando
dormir. Parece até encará-la com alguma hostilidade, visível nas expressões «velha»
e «atirar à cara», bem como na forma como decide terminar o encontro, aludindo a
uma dor de cabeça.
▪ Retrato da figura misteriosa (Georgina):
- senhora de idade (eufemismo), uma mulher velha;
- mãos enrugadas;
- uma carteira preta, cara, italiana – sinal exterior de riqueza
- sorri, um sorriso diferente do de Gi - (“[...] são como o dia e a noite.”)
- cabelo pintado de acaju
- rosto pintado de vários tons de rosa, discretamente mas sem grande perfeição
- boca esborratada
▪ A interrogação “porque havia de ter?” aponta para a metamorfose da figura
feminina, salientando a sua evolução e transformação: o sorriso de uma mulher
velha não é igual ao seu enquanto jovem.
41.º parágrafo e seguintes – diálogo entre George e Georgina
▪ Retrato de Georgina:
- quase 70 anos;
- só;
- vive de recordações;
- sabe que George vive numa casa mobilada;
- adivinha o que George sente;
▪ Caracterização de George:
- 45 anos;
- sente-se velha por vezes;
- está a chorar;
- gosta do seu trabalho;
- irritada, não quer assumir a tristeza que, involuntariamente, sente;
▪ Simbologia de Georgina e do encontro com George:
1.º- Georgina é fruto da imaginação de George.
Aparece do nada e, quando George abre os olhos, já lá não está, “desapareceu”. Fala
sem ter voz, mas George consegue ouvi-la.
Estes dados permitem concluir que Georgina não existe, é imaginada por George,
pelo que corresponde ao que ela supõe que poderá ser no futuro, daí a cerca de
vinte e cinco anos.
2.º - Georgina, enquanto projeção da personagem, sabe tudo sobre George:
(a) que só vive em casas mobiladas;
(b) que esta se sente triste;
(c) mas no dia seguinte terá esquecido o encontro com o passado;
(d) que um dia será velha e sentir-se-á só;
(e) que sentirá a falta de ligação à família e aos amigos;
(f) que irá sentir a falta do afeto de que fugiu durante toda a vida, como simples
fotografias, por exemplo.
3.º - Georgina simboliza a voz da experiência, o saber empírico que alerta George
para os problemas que as suas escolhas e o estilo de vida que leva lhe
proporcionarão no futuro, quando for velha.
Dado que é um produto da imaginação de George, podemos considerar que a figura de
Georgina representa o medo inconsciente do futuro por parte da protagonista do
conto.
4.º - Georgina lembra a George que, embora as pessoas novas não pensem no assunto,
a velhice chegará inevitavelmente e com ela os sentimentos de perda, solidão e
abandono.
É então, nesse momento, que se valoriza a família, os amigos e tudo aquilo que se
perdeu ou abandonou. Daí que Georgina tenha tentado obter as fotografias que
George nunca guardou.
▪ Na fase final do diálogo entre ambas, George queixa-se de uma dor de cabeça: «Dói-
me simplesmente a cabeça.».
A causa desta dor é o facto de a protagonista estar a pensar no futuro, pois ela prevê
que poderá ficar só, visto que não cultivou laços de amor ou de amizade.
Por outro lado, essa situação poderá acarretar um grande vazio na sua vida perante a
falta de raízes no que a rodeia.
Esta dor de cabeça poderá constituir também uma espécie de desculpa de que George
se socorre para dar por indo o encontro com a sua imagem da velhice.
● Penúltimo parágrafo
▪ George fecha os olhos e procura pensamentos mais agradáveis para fugir a essa
dor: uma nova exposição, o quadro vendido que lhe rendeu muito dinheiro, a próxima
viagem.
▪ George crê que a fuga a essa dor, a essa preocupação com o futuro, a esse vazio que
tanto teme, reside no dinheiro e no êxito enquanto pintora, que lhe trará mais
dinheiro. Para ela, quem tem dinheiro nunca está só.
▪ George tenta convencer Georgina, o seu «eu» futuro dessa verdade, porém ela já lá
não está. Esfumou-se.
▪ Só nesta parte do conto se fica a conhecer o nome de George com quase 70 anos:
Georgina. Desta forma, o narrador clarifica a dinâmica do conto, entre a realidade da
personagem, a sua memória e a sua imaginação.
Último parágrafo
▪ A sensação de asfixia desaparece: «O calor de há pouco foi desaparecendo e agora
não há vestígios daquela aragem de forno aberto.».
▪ George sente-se agora «tranquilizada». Depois das suas viagens ao passado e ao
futuro, a protagonista sente-se tranquila, pois vai voltar a casa e, por outro lado,
convence-se de que, graças ao seu dinheiro, na velhice, não será uma pessoa só,
ao contrário do que Georgina prognosticara.
▪ Além disso, em breve estará de novo em casa, em Amesterdão, onde «vai morar com
o último dos seus amores. No entanto, fica sempre no ar a dúvida, a incerteza:
«durante quanto tempo?».
▪ O comboio constitui a representação real da viagem do passado para o futuro.
▪ Findo o conto, pode concluir-se que George desvalorizou a mensagem de
Georgina, traduzindo isto, talvez, a incompreensão da velhice por parte dos mais
novos, «pois esta idade só é verdadeiramente compreendida e sentida por quem a
atinge e vive as limitações e o sofrimento que ela implica.».