UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA
CENTRO DE TECNOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
O USO DE BIODIGESTORES EM PEQUENAS E
MÉDIAS PROPRIEDADES RURAIS COM ÊNFASE NA
AGREGAÇÃO DE VALOR: UM ESTUDO DE CASO DA
REGIÃO NOROESTE DO RIO GRANDE DO SUL
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
Rodrigo Barichello
Santa Maria, RS, Brasil
2010
O USO DE BIODIGESTORES EM PEQUENAS E MÉDIAS
PROPRIEDADES RURAIS COM ÊNFASE NA AGREGAÇÃO
DE VALOR: UM ESTUDO DE CASO DA REGIÃO NOROESTE
DO RIO GRANDE DO SUL
por
Rodrigo Barichello
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do Programa de Pós-
Graduação em Engenharia de Produção, Área de Concentração em
Qualidade e Produtividade, da Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM, RS), como requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em Engenharia de Produção.
Orientador: Prof. Dr. Ronaldo Hoffmann
Santa Maria, RS, Brasil
2010
Universidade Federal de Santa Maria
Centro De Tecnologia
Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção
A Comissão Examinadora, abaixo assinada,
aprova a Dissertação de Mestrado
O USO DE BIODIGESTORES EM PEQUENAS E MÉDIAS
PROPRIEDADES RURAIS COM ÊNFASE NA AGREGAÇÃO DE
VALOR: UM ESTUDO DE CASO DA REGIÃO NOROESTE DO RIO
GRANDE DO SUL
elaborada por
Rodrigo Barichello
como requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em Engenharia de Produção
COMISSÃO EXAMINADORA:
Ronaldo Hoffmann, Dr (UFSM)
(Presidente/Orientador)
Djalma Dias da Silveira, Dr (UFSM)
João Helvio Righi de Oliveira, Dr (UFSM)
Santa Maria, 27 de agosto de 2010.
DEDICATÓRIA
Dedico esta dissertação, em primeiro lugar, a Deus, pela graça concedida de poder
alcançar tantos marcos importantes e felizes em minha vida.
À minha namorada Suzane, pelo amor, companhia e apoio incondicional, pela
paciência em me ouvir falar tanto das agruras e alegrias da construção desta pesquisa.
Finalmente, mas não menos importante, meu reconhecimento e gratidão aos queridos
Elton e Vivani, amados pais e à minha irmã, Ângela que, com tanto amor, souberam entender
a minha ausência nos muitos momentos, desde que ingressei no mestrado até a conclusão
desta dissertação.
AGRADECIMENTOS
Ao meu orientador, Prof. Dr. Ronaldo Hoffman, pela disposição constante, apoio,
confiança e incentivos concedidos e, principalmente, pela sua excelente orientação, que
aperfeiçoaram meu desempenho como pesquisador e docente universitário.
À Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por acreditar no meu
profissionalismo.
Ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção e seus professores, que
acrescentaram muito em meu conhecimento cientifico e humano.
A CAPES, pela concessão da bolsa, recurso fundamental de apoio econômico durante
a realização do mestrado.
À minha família, pelo carinho, compreensão e incentivo na busca de conhecimento e
crescimento.
À minha namorada, por todo amor, paciência e dedicação, não apenas durante a
realização desta dissertação, mas durante toda nossa trajetória conjunta.
Ao meu padrinho Milton que, por muitas vezes, se fez presente, auxiliando com as
pesquisas de campo para a elaboração desta dissertação.
A todos os Produtores Rurais que, com boa vontade, me receberam e permitiram a
realização desta pesquisa.
Ao colega José Carlos Brondani, pela troca de conhecimento e conversas a respeito do
tema.
Àqueles que, embora não citados, estiveram presentes, ou de forma casual, ou
esporadicamente, muito obrigado.
“Dizem que sou um cara de sorte... Só sei que,
quanto mais me esforço, mais sorte tenho!”
Jack Niklaus
RESUMO
Dissertação de Mestrado
Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção
Universidade Federal de Santa Maria
O USO DE BIODIGESTORES EM PEQUENAS E MÉDIAS
PROPRIEDADES RURAIS COM ÊNFASE NA AGREGAÇÃO DE
VALOR: UM ESTUDO DE CASO DA REGIÃO NOROESTE DO RIO
GRANDE DO SUL
Autor: Rodrigo Barichello
Orientador: Dr. Ronaldo Hoffmann
Santa Maria, 27 de agosto de 2010.
A partir da vigência do Protocolo de Kyoto, houve um interesse renovado pela
tecnologia dos biodigestores. Como eles permitem uma redução na emissão de gases do efeito
estufa, em relação a outros métodos de tratamento de dejetos, a sua implantação pode permitir
a comercialização de créditos de carbono, resultando em valores monetários. O presente
trabalho tem como objetivo analisar o processo de disseminação desta tecnologia na
microrregião de Santa Rosa, situada na mesorregião do Noroeste Riograndense, impulsionada,
especialmente, por empresas privadas. Estudou-se o perfil das propriedades que possuem
estes equipamentos instalados, além de uma análise das possíveis dificuldades encontradas
pelos proprietários rurais, no sentido de implantação e utilização dessa tecnologia,
verificando-se a contribuição dos biodigestores, referente à questão energética e minimização
da poluição do meio ambiente nessas áreas. Através da revisão da literatura existente e
aplicação de questionários, foram levantadas diversas informações acerca da instalação de
biodigestores, observando se contribuem como alternativa de agregação de valor às
propriedades criadoras e como alternativa viável para a solução dos problemas ambientais
envolvidos no processo. O presente estudo revelou que 33,33% dos equipamentos instalados
encontram-se desativados. O trabalho também apresenta um caso prático de geração de
energia elétrica isolada, utilizando biogás como combustível em um motor à combustão
interna do Ciclo Otto, em conjunto com projeto de MDL, instalado em uma propriedade de
médio porte, para criação de suínos. A planta de geração consiste de um motor estacionário de
Ciclo Otto, adaptado para operar com biogás, acoplado a um gerador elétrico trifásico de 30
kVA nominal. Através do estudo da análise de viabilidade econômico-financeira, concluiu-se
que a aplicação para a geração de energia elétrica é viável e a eficiência global do sistema é
satisfatória. Numa outra visão, apresenta-se um segundo caso prático, na inserção de uma
propriedade em um projeto de mecanismo de desenvolvimento Limpo (MDL) na
suinocultura.
Palavras-chave: Biodigestores aplicado a Suinocultura – Biogás na geração de Energia Elétrica –
MDL e suinocultura.
ABSTRACT
Mastership Dissertation
Post-graduation Program in Production Engineering
Santa Maria Federal University
THE USE OF BIO-DIGESTERS IN SMALL AND
MEDIUM RURAL PROPERTIES WITH EMPHASIS ON
VALUE ADDING: A CASE STUDY FROM
NORTHWESTERN REGION OF RIO GRANDE DO
SUL STATE
Author: Rodrigo Barichello
Adviser: Ronaldo Hoffmann, Dr.
Santa Maria, 27th August, 2010.
From the duration of the Kyoto Protocol, there has been a renewed interest in
technology of bio-digesters. As they allow a reduction in the emission of greenhouse gases
compared to other waste treatment methods, their deployment can permit the marketing of
carbon credits, resulting in money. The present study aims to analyze the process of
dissemination of this technology in Santa Rosa, situated in the northwestern of Rio Grande do
Sul state, especially powered by private companies. The profile properties that have these
installed equipment, in addition to an examination of possible difficulties encountered by land
owners, towards the deployment and use of this technology, with the contribution of bio-
digesters, on the energy issue and mitigation of environmental pollution in these areas.
Through a revision of the existing literature and application of questionnaires some
information about the installation of bio-digesters were taken, noticing if they contribute as
alternatives in order to add value to the breeding properties and as viable alternative to the
solution of environmental problems involved in the process. This study revealed that 33.33%
of installed equipment is disabled. The work also presents a case study of isolated electric
power generation using biogas as a fuel in an internal combustion engine of Otto cycle, in
conjunction with CDM project, installed in a midsize property of pig breeding. The
generation plant consists of a stationary Otto cycle engine, adapted to operate with biogas,
coupled to an electric generator nominal 30 kVA three-phase. Through the study of the
economic and financial feasibility, it was concluded that the application for generating
electricity is viable and the overall efficiency of the system is satisfactory. Through another
point of view, it presents a second case study, on the insertion of a property in a project of
clean development mechanism (CDM) in pig production.
Key words: Digesters applied to swine – Biogas generation Electricity – CDM and swine.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Modelo indiano de biodigestor .................................................................... 28
Figura 2 – Modelo chinês de biodigestor ...................................................................... 28
Figura 3 – Modelo canadense de biodigestor ................................................................ 29
Figura 4 – Digestão anaeróbica do material orgânico ................................................... 31
Figura 5 – Problemas acarretados pelos dejetos suínos ................................................. 35
Figura 6 – Sustentabilidade na suinocultura .................................................................. 41
Figura 7 – Desafios da sustentabilidade na suinocultura ............................................... 41
Figura 8 - Mapa do RS (Microrregião de Santa Rosa) .................................................. 48
Figura 9 - Mapa do RS (Messorregiões do RS) ............................................................ 49
Figura 10 – Fluxograma do Programa 3S ...................................................................... 51
Figura 11 - Biodigestor - modelo canadense ................................................................ 59
Figura 12 – Biodigestor desativado A ............................................................................ 62
Figura 13 – Biodigestor desativado B............................................................................. 63
Figura 14 – Biodigestor desativado C ........................................................................... 63
Figura 15 - Tubulação coletora de dejeto ...................................................................... 75
Figura 16 - Biodigestor ................................................................................................ 75
Figura 17 - Balão de armazenamento ............................................................................ 76
Figura 18 - Biodigestor e balão de armazenamento ...................................................... 76
Figura 10 - Conjunto motor-gerador ............................................................................. 77
Figura 20 – Biodigestor .................................................................................................. 81
Figura 21 – Equipamento usado para queima do Biogás (flare) .................................... 82
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 – Percentual de Biodigestores instalados por município ........................... 53
Gráfico 2 – Tipo de sistema de produção utilizado pelas propriedades .................... 54
Gráfico 3 – Percentual da participação das agroindústrias na produção de suínos .... 55
Gráfico 4 – Tipo de produção de suínos pelas propriedades ..................................... 57
Gráfico 5 – Tamanho das Propriedades ..................................................................... 58
Gráfico 6 – Número de Biodigestores Instalados nas propriedades ........................... 59
Gráfico 7 – Período de tempo que os biodigestores foram instalados ........................ 60
Gráfico 8 – Obtenção de recursos financeiros para instalação dos biodigestores ....... 61
Gráfico 9 – Estado de conservação dos equipamentos (biodigestores) ..................... 62
Gráfico 10 – Conhecimento técnico sobre os subprodutos da biodigestão .................. 64
Gráfico 11 – Nível de escolaridade das pessoas que manejam o biodigestor ............... 65
Gráfico 12 – Treinamento para o manuseio do biodigestor .......................................... 66
Gráfico 13 – Obtenção de informação a respeito dos Biodigestores ............................ 66
Gráfico 14 – Tempo disponível para o manejo do biodigestor ..................................... 67
Gráfico 15 – Propriedades que possuem assistência técnica periódica ........................ 68
Gráfico 16 – Número de visitas técnicas às propriedades ............................................ 69
Gráfico 17 – Distância das propriedades da estrada principal ...................................... 70
Gráfico 18 - Distância das propriedades de habitações e terrenos vizinhos ................. 71
Gráfico 19 - Distância das propriedades de núcleo populacional ................................ 71
Gráfico 20 – Percentual de Propriedades com cada empresa parceira em Projetos
de MDL ........................................................................................................................ 73
Gráfico 21 – Percentual de propriedades que já receberam algum valor monetário
referente aos créditos de carbono ................................................................................. 74
LISTA DE TABELAS E QUADROS
Tabela 1 – Composição média do biogás ................................................................ 31
Tabela 2 – Comparação entre o biogás e outros combustíveis ................................ 33
Tabela 3 – equivalência entre o biogás e outros combustíveis ................................ 33
Tabela 4 – Componentes do Biofertilizante oriundo do dejeto suíno ..................... 34
Quadro 1 – Distâncias preconizadas pelo Código Florestal .................................... 72
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
BM&F - Bolsa de Mercadorias e Futuros
DO – Demanda de Oxigênio
EMBRAPA - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
GEEs – Gases do Efeito Estufa
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IPCC - Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas
MDIC - Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
MDL – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
OMM - Organização Meteorológica Mundial
ONGs - Organizações Não-governamentais
PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
RCEs - Reduções Certificadas de Emissões
RS – Rio Grande do Sul
UNFCCC - Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima
UPL – Unidade de Produção de Leitões
LISTA DE ANEXOS
ANEXO A
FEPAM – CRITÉRIOS TÉCNICOS PARA O LICENCIAMENTO DE NOVOS
EMPREENDIMENTOS DESTINADOS À SUINOCULTURA ......................... 96
ANEXO B
CROQUI EXEMPLIFICATIVO PARA O LICENCIAMENTO
AMBIENTAL DE INSTALAÇÕES PARA SUINOCULTURA PARA O
ESTADO DO RIO GRANDE DO SULDO SUL .................................................. 107
ANEXO C
RELATÓRIO DE VALIDAÇÃO .......................................................................... 109
LISTA DE APÊNDICES
APÊNDICE A
QUESTIONÁRIO ................................................................................................ 131
APÊNDICE B
CÁLCULO DO GRUPO MOTOR/GERADOR ................................................ 132
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 16
1.1 Contextualização do Tema ............................................................................. 16
1.2 Justificativa e relevância ................................................................................ 18
1.3 O problema de pesquisa ................................................................................. 20
1.4 Objetivo geral e objetivos específicos ........................................................... 20
1.4.1 Objetivo geral ................................................................................................ 20
1.4.2 Objetivos específicos ..................................................................................... 21
1.5 Estrutura do trabalho ..................................................................................... 21
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA .................................................................... 22
2.1 Suinocultura ..................................................................................................... 22
2.2 Contextos históricos dos biodigestores ........................................................... 23
2.2.1 Biodigestor ....................................................................................................... 25
2.2.2 Funcionamento de um biodigestor .................................................................. 26
2.2.3 Modelos de biodigestores ................................................................................. 27
2.3 Biomassa ............................................................................................................ 29
2.4 Biogás ................................................................................................................. 30
2.4.1 Biogás e sua utilização nas propriedades suinocultoras .................................. 32
2.5 Biofertilizante ................................................................................................... 33
2.6 Poluição do meio ambiente versus dejetos suínos ........................................ 34
2.7 Legislação ambiental ...................................................................................... 36
2.8 Mecanismo de desenvolvimento limpo e a suinocultura ............................. 38
2.9 Sustentabilidade na suinocultura .................................................................. 40
3 FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS ......................................................... 43
3.1 Tipo de pesquisa ............................................................................................... 43
3.2 Campo de ação ................................................................................................. 44
3.3 População e amostra ......................................................................................... 44
3.4 Instrumentos de pesquisa .................................................................................. 45
3.5 Procedimentos para a coleta de dados .............................................................. 45
3.6 Técnicas de análise dos dados ........................................................................... 46
3.7 Aspectos éticos ..................................................................................................... 47
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ............................................... 48
4.1 Microrregião do Grande Santa Rosa – RS ....................................................... 48
4.2 Investimento na tecnologia dos biodigestores na microrregião de Santa
Rosa ............................................................................................................................. 49
4.2.1 Empresa Sadia e os biodigestores ....................................................................... 49
4.2.2 A empresa AgCert e os biodigestores ................................................................ 52
4.3 Resultados da Pesquisa ....................................................................................... 52
4.3.1 Municípios onde se encontram os biodigestores ................................................ 52
4.3.2 Características das propriedades ........................................................................ 53
4.3.3 Biodigestores instalados nas propriedades ......................................................... 58
4.3.4 Estado de conservação dos biodigestores ........................................................... 61
4.3.5 Indicadores referentes ao manejo dos biodigestores ........................................... 64
4.3.6 Assistência técnica .............................................................................................. 68
4.3.7 Aspectos ambientais ............................................................................................ 69
4.3.8 Mecanismo de Desenvolvimento Limpo ............................................................. 73
4.3.9 Casos práticos ...................................................................................................... 74
5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES ............................................................. 83
5.1 Conclusões .............................................................................................................. 83
5.2 Recomendações ...................................................................................................... 88
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 90
ANEXOS ....................................................................................................................... 95
APÊNDICES ................................................................................................................. 128
1 INTRODUÇÃO
1.1 Contextualização do Tema
A preocupação com o meio ambiente se tornou, nos últimos anos, um assunto muito
discutido por pesquisadores, cientistas, refletindo-se consideravelmente no funcionamento das
organizações, alterando formas de gestão e condução das empresas, de qualquer tamanho, tipo
e localização. A discussão acerca da necessidade de preservação do meio ambiente, não só no
Brasil, mas no planeta todo, não é nova.
Neste contexto, verifica-se que a exploração da atividade da suinocultura encontra-se
em situação preocupante no que tange a questões ambientais, devido à grande quantidade e
alta carga orgânica de dejetos produzidos na criação dos animais.
As atividades relacionadas à suinocultura ocupam lugar de destaque na matriz
produtiva do agronegócio brasileiro, destacando-a como uma atividade de importância no
âmbito econômico e social, em especial na geração de emprego, pois sua produção ocorre,
principalmente, em pequenas e médias propriedades rurais, nas quais a mão-de-obra familiar é
totalmente empregada.
A atividade da suinocultura vem apresentando significativo crescimento, o que traz
consigo uma grande preocupação quanto à degradação ambiental e, consequentemente,
prejuízos à qualidade de vida das pessoas. Diante disso, com o aumento da produção de
suínos, cresce a geração de dejetos. Em relação a este fato, a atividade da suinocultura, devido
aos excrementos gerados e associado ao aumento dos animais (dejetos), é considerada pelos
órgãos ambientais uma "atividade potencialmente causadora de degradação ambiental”.
No que se refere ao campo da suinocultura, a produção de dejetos, até meados da
década de 70, não era fator preocupante para o meio ambiente, pelo fato de haver pouca
concentração de animais, sendo os resíduos facilmente absorvidos pelas próprias propriedades
suinocultoras como adubo orgânico.
Com a crescente produção e o surgimento de regiões com alta concentração de
animais, percebe-se que a poluição de determinados mananciais de água brasileiros aumentou
de forma drástica. As águas atingidas por estes resíduos, em pouquíssimo tempo, perdem a
capacidade de manutenção da vida, prejudicando não somente o solo e a água como também
os seres vivos (organismos) expostos a ele, pois esses resíduos possuem, em sua composição,
17
grande quantidade de elementos químicos, mormente orgânicos, que têm alta demanda de
oxigênio (DO).
Levantamentos realizados pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique
Luís Roesseler (FEPAM, 2004) mostraram que apenas 10 a 20% das suinoculturas localizadas
em regiões de alta concentração de animais possuem sistemas de tratamento dos dejetos,
enquanto 85% das fontes de águas próximas às regiões produtoras estão contaminadas por
coliformes fecais, oriundos dos mesmos.
Assim, a tecnificação para o tratamento dos dejetos suínos constitui o grande desafio
para essas regiões com alta concentração de animais. É necessário evitar que um volume tão
grande de dejetos continue a ser lançado no meio ambiente, poluindo mananciais, solo, ar e
água, pois comprometem não somente a qualidade de vida das populações rurais e urbanas
como também a sobrevivência da fauna e da flora nessas regiões.
Existem muitos estudos em suinocultura para a redução da emissão de dejetos que vão
desde a melhoria da alimentação dos animais. Com uma alimentação adequada (concentração
de nutrientes), poderia ser reduzida a produção de resíduos pelos animais ou até mesmo a
usual utilização dos dejetos como adubo orgânico, passando por diversas opções de
tecnologias, que incluem a biodigestão.
Embora todas essas medidas possam auxiliar na diminuição da contaminação, elas
acabam se chocando com fatores restritivos importantes, visto que a racionalização da
alimentação poderia tornar-se inviável para o produtor, pois envolveria a contratação de
nutricionista que formulasse as quantidades necessárias de nutrientes, conforme o biótipo do
plantel. O uso de fertilizantes orgânicos, por sua vez, poderia causar uma contaminação do
solo, uma vez que este pode não estar sendo bioestabilizado.
Dessa percepção, surgiu a possibilidade de uso de uma tecnologia para o controle da
poluição – o uso dos biodigestores nas propriedades rurais- equipamento no qual a
fermentação da matéria orgânica (biomassa) ocorre de modo controlado, proporcionando a
redução do impacto ambiental e concomitantemente a geração de combustível gasoso de
baixo poder calorífico. A fermentação dos resíduos ocorre através da ação de organismos
microscópicos chamados de bactérias. O processo de decomposição da matéria orgânica
resulta na produção de biogás (inflamável) e restos digeridos sem cheiro (biofertilizante).
Como descrito acima, o processo de biodigestão resulta na produção de um gás
inflamável que, na atualidade, com as crescentes pesquisas em tecnologia e a preocupação
com o meio ambiente, fez surgirem diversas tecnologias para efetuar a conversão energética
do biogás. Entende-se por conversão energética o processo que transforma um tipo de energia
18
em outro. Neste sentido, o biodigestor apresenta-se com fonte alternativa de produção e
geração de energia. Sem dúvida, o potencial energético é bem menor do que das hidrelétricas,
por exemplo, fato este ligado especialmente ao porte de cada uma. Porém, em compensação,
na produção de energia, utilizando-se biodigestores, os impactos ambientais e sociais
aproximam-se do zero. Além de ser uma produção de energia barata, evita-se que os dejetos
suínos sejam lançados diretamente ao meio ambiente.
Frente a isso, as agroindústrias que recebem a matéria-prima (suíno) e outras empresas
privadas interessadas nas questões ambientais e suas oportunidades, também começaram a
discutir o assunto, oferecendo aos produtores rurais o acesso à tecnologia de biodigestores.
1.2 Justificativa e relevância
A mesorregião do Noroeste Riograndense é uma das sete mesorregiões do Estado
brasileiro do Rio Grande do Sul. É formada pela união de 216 municípios agrupados em treze
microrregiões. A mesma ocupa lugar de destaque na produção de suínos, com o segundo lugar
no Estado do RS, tendo produzido, no ano de 2009, 813.857 suínos, o que representa 17,56%
da produção gaúcha.
O presente estudo estará focado na microrregião de Santa Rosa, pertencente à
mesorregião do Noroeste Riograndense, onde a suinocultura tem uma história de sucesso. No
passado, esta chegou a ser uma das maiores produtoras de suínos do Rio Grande do Sul e,
atualmente, vem retomando lugar de dianteira. Os suinocultores de hoje dispõem de boa
infraestrutura e mantêm criações integradas, atuam como produtores de leitões ou como
terminadores (engorda de animais). Fornecendo a frigoríficos e indústrias, conseguem bom
retorno. Estima-se que o número de animais, segundo o IBGE (2009), é de aproximadamente
600 000 animais, números condizentes com uma atividade que recupera espaço e se torna uma
alternativa viável e rentável no campo.
O aumento da concentração e produção de suínos, nesta região, foi muito significativo,
mas a rapidez destes acontecimentos não permitiu que as administrações municipais e
estaduais pudessem se preparar com todas as mudanças que precisavam ser planejadas.
A oportunidade de se instalar novas granjas apresentou pontos positivos como, por
exemplo, a ocupação da mão-de-obra e o aumento da arrecadação local. No entanto, o destino
do grande volume de dejetos produzidos não foi uma preocupação, pelo menos num primeiro
momento.
19
Anos atrás, o impacto ambiental da suinocultura que recebia maiores números de
reclamações referia-se à poluição dos cursos de água. Hoje, este ponto ainda é muito sensível,
mas outros tipos de reclamações referentes a esta atividade começaram a aparecer como, por
exemplo, reclamações pelo cheiro oriundo das criações e, principalmente, pelo cheiro
decorrente do transporte e aplicação dos dejetos nas lavouras.
Os atuais sistemas integrados de produção suína resultam na grande concentração
espacial da produção em torno das agroindústrias. Neste sistema, os criatórios confinados
constituíram-se na base da expansão suinícola e induziram à adoção do manejo dos dejetos na
forma líquida, prática que exige maior investimento em infraestrutura (PERDOMO, 2002).
Para Casagrande (2003), a intensificação da criação de suínos em escala industrial
trouxe sérias consequências ambientais devido à intensa produção de dejetos. Esses resíduos
orgânicos são altamente poluentes, tendo um potencial poluidor 4,2 vezes superiores ao
esgoto doméstico. A situação se agrava em função de produtores brasileiros não possuírem
sistemas de tratamento ou aproveitamento destes. Além disso, a reduzida área agricultável ao
redor das suinocultoras impede todo o aproveitamento dos dejetos como fertilizantes, em
muitos casos.
Com a vigência do Protocolo de Kyoto, houve um interesse renovado pelos
biodigestores. Como eles permitem uma redução na emissão de gases do efeito estufa, em
relação a outros métodos de tratamento de dejetos, a sua implantação pode permitir a
comercialização de créditos de carbono, ou seja, com os dejetos virando dinheiro. O interesse
é tanto que, em diversas propriedades no Brasil, a instalação dos biodigestores está sendo
financiada (a custo zero) por empresas internacionais e agroindústrias interessadas nos
créditos. O produtor compromete-se em fornecer os dejetos e as informações necessárias ao
cálculo dos créditos e recebe parte do lucro de sua comercialização, tornando-se proprietário
definitivamente do biodigestor após sua utilização por 10 anos, em regime de comodato.
Nesta perspectiva, no caso da região em estudo, a microrregião de Santa Rosa recebeu
um alto investimento na tecnologia de biodigestores. A Agroindústria Sadia, que possui um
grande número de suinocultores vinculados, criou o Programa de Suinocultura Sustentável
Sadia, popularmente chamado de Programa 3S. A meta, ambiciosa, consiste em levar
pequenos e médios criadores ao sofisticado mercado de créditos de carbono e garantir uma
importante fonte de receita para os suinocultores. Neste programa, o suinocultor recebeu os
aparelhos em regime de comodato e abaterá o investimento com seus créditos de carbono, que
serão negociados pelo Instituto. O próprio modelo de biodigestor foi encomendado pela Sadia
20
a fornecedores nacionais, como forma de ter custo acessível até para os menores produtores,
aqueles que têm plantéis de até 300 animais nas granjas.
Além da iniciativa desta agroindústria, uma empresa de capital aberto, com ações na
Bolsa de Valores de Londres, especializada na produção e venda de reduções de emissões de
gases do efeito estufa, derivados de atividades agrícolas, que desenvolve Mecanismos de
Desenvolvimento Limpo para gerar reduções de emissões de gases do efeito estufa de
fazendas de pecuária e diminuir os impactos adversos desses gases na atmosfera, fator
causador do aquecimento global e das mudanças climáticas, realizou parcerias com alguns
suinocultores desta região. A empresa é responsável por todo o investimento na construção e
manutenção da infraestrutura dos biodigestores, que custam entre R$ 100 mil e R$ 400 mil.
Além de ajudar nas documentações, a mesma cuida da manutenção dos biodigestores por 10
anos. Nesse período, a companhia fica com 90% dos créditos gerados e 10% ficam com a
propriedade que instala o biodigestor.
Dessa percepção, originaram-se as questões propostas e a própria relevância científica
desse trabalho.
1.3 O problema de pesquisa
Frente a esta discussão sobre o potencial altamente poluidor apresentado pela
atividade da suinocultura, surgem as perguntas: os biodigestores contribuem
significativamente para a diminuição da contaminação ambiental? Qual a sua contribuição no
que se refere às questões energéticas? Quais a possibilidades de uso desta tecnologia a fim de
agregar valor às propriedades rurais?
1.4 Objetivo geral e objetivos específicos
1.4.1 Objetivo geral
O objetivo principal deste trabalho consiste em verificar e analisar a implantação e
utilização do biodigestor em propriedades suinocultoras na microrregião de Santa Rosa,
situada na Mesorregião Noroeste Riograndense, como alternativa de agregação de valor às
propriedades criadoras e como alternativa viável para a solução dos problemas ambientais do
processo.
21
1.4.2 Objetivos específicos
Os objetivos específicos deste trabalho são:
- identificar e analisar o perfil das propriedades que possuem biodigestores.
- diagnosticar e analisar as dificuldades encontradas pelos proprietários rurais na
implantação e utilização dessa tecnologia;
- verificar a contribuição dos biodigestores, referente à questão energética e
minimização da poluição do meio ambiente naquelas áreas.
- apresentar casos práticos de aplicação da tecnologia identificada como a mais
promissora no cenário.
1.5 Estrutura do trabalho
O Capítulo 1 contextualiza o tema da pesquisa, apresenta a parte introdutória na qual
se faz a apresentação da relevância do estudo em questão, do problema de pesquisa, dos
objetivos (geral e específico).
O Capítulo 2 apresenta a fundamentação teórica, referindo-se à realização de revisão
bibliográfica sobre conceitos relacionados aos temas abordados no estudo, para uma
compreensão do que se trata o estudo.
O Capítulo 3 apresenta os procedimentos teóricos, a metodologia utilizada na
realização deste estudo e de que forma esta contribuiu para a realização dos objetivos
anteriormente estabelecidos.
No Capítulo 4 os resultados da pesquisa são expostos e analisados.
O Capítulo 5 apresenta as considerações finais da pesquisa, os resultados obtidos e
conclusões a respeito do problema de pesquisa. Também contempla sugestões para pesquisas
futuras.
No Capítulo 6 são especificadas as referências bibliográficas utilizadas nesta
dissertação.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Suinocultura
A suinocultura se destaca como uma importante fixadora de mão-de-obra no campo e
geradora de renda. Além da importância nutritiva, o suíno desempenha um relevante papel
social em países em desenvolvimento como o Brasil, principalmente na geração de emprego,
pois é produzido, principalmente, em pequenas propriedades rurais, em que a mão-de-obra
familiar é totalmente empregada.
De acordo com Roppa (2002), as atividades relacionadas à suinocultura ocupam lugar
de destaque na matriz produtiva do agronegócio brasileiro, destacando-a como uma atividade
de importância no âmbito econômico e social. Segundo estimativas, mais de 730 mil pessoas
dependem diretamente da suinocultura, sendo essa atividade responsável pela renda de mais
de 2,7 milhões de pessoas.
Descreve Seixas (1981, p. 25):
A atividade da suinocultura no Brasil tem apresentado um significativo crescimento,
havendo a concentração do lançamento dos resíduos em determinadas regiões, o que
traz grande preocupação quanto à degradação ambiental e os consequentes prejuízos
à qualidade de vida das pessoas. No ano de 2004, o plantel brasileiro era de 34
milhões de cabeças, presente em todas as regiões brasileiras, sendo que a maior
concentração de animais está na região Sul (34,21%), seguido da região Nordeste
(23,03%), Sudeste (18,95%), Centro-Oeste (16,18%) e Norte (7,63%).
Os suínos são animais cosmopolitas, sendo encontrados em todas a partes do mundo.
Apenas não é criado e consumido pelos árabes e judeus por motivos religiosos. O rebanho
mundial tem crescido em torno de 6% ao ano e este fato deve-se ao ciclo biológico do suíno
ser muito rápido.
A suinocultura passou por grandes transformações nas últimas décadas, tecnificando e
concentrando-se em algumas regiões do Brasil, especialmente no Sul e expandindo-se para o
Centro-Oeste.
Segundo a EMBRAPA (1995), a suinocultura é uma atividade extremamente
competitiva e exige dos que a ela se dedicam constantes aperfeiçoamentos tecnológicos, que
possibilitem o incremento da produtividade e rentabilidade.
Deste modo, verifica-se que a suinocultura é uma atividade com grande cunho social
(grande geradora de emprego) e de extrema importância para o desenvolvimento econômico e
sustentável da atividade agrícola.
23
2.2 Contextos históricos dos biodigestores
O Brasil é dono de uma das biomassas mais exuberantes e de um dos maiores rebanhos de
suínos do mundo. O país somente despertou para os biodigestores, com vistas à produção de
biogás, após a eclosão dos primeiros “choque de petróleo”.
Segundo Al Seadi e Moller (2003), o renovado interesse pela tecnologia de digestão
anaeróbica é explicado pelo seu potencial de estabilizar a matéria orgânica, reduzindo o odor
e patógenos, controlando contaminantes físicos e químicos e promovendo produtos finais
recicláveis: biogás e biofertilizante.
A produção de gás combustível e biofertilizante a partir de resíduos orgânicos não é
um processo novo. Os biodigestores são conhecidos há muito tempo, embora a primeira
instalação operacional destinada a produzir gás combustível só tenha surgido na segunda
metade do século XIX.
Em 1776, o pesquisador italiano Alessandro Volta descobriu que o gás metano já
existia. O mesmo estava incorporado ao chamado "gás dos pântanos", como resultado da
decomposição de restos vegetais em ambientes confinados.
Nogueira (1986) descreve que, em 1806, na Inglaterra, Humphrey Davy identificou
um gás rico em carbono e dióxido de carbono, resultante da decomposição de dejetos animais
em lugares úmidos. Ao que parece, apenas em 1857, em Bombaim, Índia, foi construída a
primeira instalação operacional destinada a produzir gás combustível para um hospital de
hansenianos. Nessa mesma época, pesquisadores como Fisher e Schrader, na Alemanha e
Grayon, na França, entre outros, estabeleceram as bases teóricas e experimentais da
biodigestão anaeróbia. Posteriormente, em 1890, Donald Cameron projetou uma fossa séptica
para a cidade de Exeter, Inglaterra, sendo o gás produzido utilizado para iluminação pública.
Uma importante contribuição para o tratamento anaeróbio de esgotos residenciais foi feita por
Karl Imhoff, na Alemanha, que, por volta de 1920, desenvolveu um tanque biodigestor, o
tanque Imhoff, bastante difundido na época.
Outro autor também identifica Bombaim na Índia, como o local onde o primeiro
biodigestor foi colocado em funcionamento.
Pela literatura existente, o primeiro biodigestor posto em funcionamento regular na
Índia foi no início deste século em Bombaim. Em 1950, Patel instalou, ainda na
Índia, o primeiro biodigestor de sistema contínuo. Na década de 60, Fry, um
fazendeiro, desenvolveu pesquisas com biodigestores da África do Sul
(SGANZERLA, 1983, p. 8).
24
Segundo Nogueira (1986), inegavelmente a pesquisa e desenvolvimento de
biodigestores teve seu início e desenvolveu-se muito na Índia, onde, em 1939, o Instituto
Indiano de Pesquisa Agrícola, em Kanpur, desenvolveu a primeira usina de gás de esterco. O
sucesso obtido animou os indianos a continuar as pesquisas, formando o Gobar Gás Institute
(em 1950), comandado por Ram Bux Singh, desenvolvendo-se o modelo indiano de
biodigestor, sofisticado e técnico para um maior aproveitamento na produção de biogás. Tais
pesquisas resultaram em grande difusão da metodologia de biodigestores como forma de
tratar os dejetos animais, obter biogás e ainda conservar o efeito fertilizante do produto final
(biofertilizante).
A disseminação dos biodigestores na Índia, como fonte de energia, motivou a China a
adotar a tecnologia a partir de 1958. Até 1972, neste país, já haviam sido instalados 7,2
milhões de biodigestores na região do Rio Amarelo. O interesse da China pelo uso de
biodigestores deveu-se, originalmente, a questões militares, como relata o pesquisador
Barrera.
Há pelo menos meio século, para os chineses, a implantação de biodigestores
transformou-se em questão vital, incrustada em lógicas de política internacional. Um
país continental, com excesso de população, a China buscou, durante os anos 50 e
60, no auge da Guerra Fria, por uma alternativa de descentralização energética.
Baseavam-se em uma lógica simples. No caso de uma guerra que poderia significar
a destruição quase total da civilização como a conhecemos ¾ o ataque às centrais
energéticas, como poderosas usinas hidroelétricas, representaria o fim de toda
atividade econômica. Isso porque a energia deixaria de ser disponível nos grandes
centros, mas naqueles pequenos centros, a pequenas unidades de biodigestão
conseguiriam passar incólumes ao poder inimigo. A descentralização, portanto,
implica em criar unidades suficientes nas pequenas vilas, vilarejos e regiões mais
longínquas. Desnecessário dizer a razão pela qual os biodigestores fizeram parte da
estratégia (BARRERA, 1993, p. 17).
A China, na mesma linha de pensamento, desenvolveu seu próprio modelo de
biodigestor – modelo chinês – mais simples e econômico, focado para um maior
aproveitamento do biofertilizante.
Atualmente, o programa de biodigestores é bem mais simples e urgente nesses países.
A China, por exemplo, possui milhões de pessoas, grande parte delas residentes em áreas
rurais. Desta maneira, é inviável mecanizar a atividade agrícola em grande escala, o que
resultaria em uma enorme massa de desempregados – um perigo social e político. O governo
chinês optou pelo aperfeiçoamento de rudimentares técnicas de cultivo do solo, nos quais os
biodigestores desempenham papel de destaque. Já na Índia, a fome e a falta de combustíveis
fósseis é que motivaram o desenvolvimento da tecnologia dos biodigestores.
25
Portanto, pode-se observar que a China buscou, através desta tecnologia, o
biofertilizante necessário para a produção dos alimentos necessários ao excedente de sua
população, pois a energia do biogás não conta muito frente à autossuficiência em petróleo. Na
Índia, ao contrário, necessita-se dos biodigestores para cobrir o imenso déficit de energia.
Segundo Coelho et al. (2000), os biodigestores rurais tiveram maior desenvolvimento
na década de 80, quando contaram com grande apoio dos Ministérios da Agricultura e de
Minas e Energia. Cerca de 8 000 unidades, principalmente os modelos chinês e indiano, além
de alguns de plástico, tinham sido construídos até 1988, dos quais 75% estavam funcionando
adequadamente. Porém, a ausência de subsídios para construção de biodigestores, o corte das
verbas que dariam continuidade ao programa e a oferta de energia elétrica rural subsidiada
foram os principais fatores que contribuíram para a pouca propagação desta tecnologia e até
mesmo pelo desaparecimento dos equipamentos.
Nos dias atuais, com o investimento nestas tecnologias por empresas privadas e os
crescentes estudos nessa área por parte de Órgãos Públicos, os chamados projetos de
Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, está se retomando o desenvolvimento da tecnologia
de biodigestores.
No decorrer desta pesquisa poderá ser visualizado este movimento de reestruturação
da tecnologia bem como os modelos existentes de biodigestores.
2.2.1 Biodigestor
O biodigestor é um equipamento no qual a fermentação da matéria orgânica ocorre de
modo controlado, proporcionando a redução do impacto ambiental e a geração de combustível
de baixo custo.
A fermentação dos resíduos ocorre através da ação de organismos microscópicos
chamados bactérias. O processo de decomposição da matéria orgânica resulta na produção de
biogás e restos digeridos sem cheiro (biofertilizante) (INSTITUTO SADIA DE
SUSTENTABILIDADE, 2006).
Um biodigestor é composto por uma câmara fechada, na qual, no seu interior,
encontra-se a biomassa (matéria orgânica), que é fermentada anaerobicamente, isto é, sem a
presença de ar. O processo de decomposição da matéria orgânica resulta na produção de
biogás inflamável e restos digeridos sem cheiro (biofertilizante).
Para Barrera (1993, p.11), o biodigestor, como toda grande ideia, é genial por sua
simplicidade.
26
O tratamento de dejetos suínos por digestão anaeróbica (biodigestor), segundo
Sanchez et al. (2005) possui muitas vantagens, tais como: capacidade de estabilizar grandes
volumes de dejeto orgânicos diluídos a um baixo custo, produção de baixa biomassa e,
conseqüentemente, menor volume de dejetos e menor custo, destruição de organismos
patogênicos e parasitas, além do metano que pode ser usado como fonte de energia.
O biodigestor representa um recurso eficiente para tratar os excrementos e melhorar
a higiene e o padrão sanitário do meio rural. O lançamento de dejetos humanos e
animais num digestor de biogás soluciona o problema de dar fins aos ovos dos
esquistossomos e ancilóstomos, bem como de bactérias, bacilos desintéricos e
paratíficos e de outros parasitas. O número de ovos de parasitas encontrados no
efluente diminui em 99%, após a fermentação. (USP, 2010).
O biodigestor é uma espécie de maquina viva, que precisa de acompanhamento
contínuo, para uma maximização do processo.
2.2.2 Funcionamento de um biodigestor
O dejeto produzido na produção de suínos é enviado para dentro do biodigestor. Neste
estágio, o dejeto encontrará uma grande quantidade de microorganismos que irão processar a
matéria orgânica (fermentar) presente nos resíduos orgânicos. Como todos os seres vivos
gostam de trabalhar nas melhores condições possíveis, é importante que a temperatura seja
mantida mais ou menos constante, a cerca de 35ºC. Se a temperatura baixar ou oscilar
demasiado, a produção de gás diminuirá drasticamente.
Para o Instituto Sadia de Sustentabilidade (2006, p. 9) existem nos biodigestores dois
grupos de microorganismos que, em conjunto, fazem à fermentação do dejeto: “O primeiro
grupo consome a matéria orgânica e a transforma em partículas menores, e o segundo grupo
transforma estas partículas menores em biogás”.
De modo extensivo, Seixas (1981, p. 5) salienta que:
As bactérias precisam de tempo para decompor os restos orgânicos, sendo a
temperatura uma importante condição; quanto mais elevado for o ciclo menor
poderá ser o digestor, embora a quantidade total de gás seja máxima entre 35 e 45°
C. Em geral, o período de digestão para os dispositivos oscila entre 30 e 60 dias.
Para que ocorra a fermentação da matéria orgânica, essas bactérias precisam de um
ambiente favorável para seu crescimento e desenvolvimento:
- ausência de compostos químicos tóxicos (sabão, detergente);
27
- temperatura adequada (entre 30 e 45°C);
- presença de matéria orgânica (dejetos);
- ausência de ar.
Assim, se houver alguma interferência desses indicadores, esta poderá ocasionar uma
redução na produção de biogás.
Portanto, a matéria orgânica presente nos dejetos é, quase totalmente, convertida em
biogás. O restante constitui um material digerido sem cheiro (biofertilizante), que é composto
de água, com pouca matéria orgânica, fósforo e nitrogênio, com boas propriedades de
adubação.
2.2.3 Modelos de biodigestores
Dentre os biodigestores mais conhecidos no Brasil destacam-se três modelos: indiano,
chinês e canadense.
O biodigestor indiano (Figura 1) tem sua cúpula geralmente feita de ferro ou fibra.
Nesse tipo de biodigestor, o processo de fermentação acontece mais rápido, pois aproveita a
temperatura do solo que é pouco variável, favorecendo a ação das bactérias. Ocupa ainda
pouco espaço e a construção, por ser subterrânea, dispensa o uso de reforços, tais como cintas
de concreto.
De acordo com Sganzerla (1983), quando construído, apresenta o formato de um poço,
que é o local onde ocorre a digestão da biomassa, coberto por uma tampa cônica, isto é, pela
campânula flutuante que controla a pressão do gás metano e permite a regulagem da emissão
do mesmo.
Ainda o mesmo autor salienta que uma das vantagens do modelo indiano é a sua
campânula flutuante, que permite manter a pressão de escape de biogás estável, não sendo
necessário regular constantemente os aparelhos que utilizam o metano. Por outro lado, há uma
desvantagem, razoavelmente significativa, que é o preço da construção da campânula,
normalmente moldada em ferro.
28
Figura 1 – Modelo indiano de biodigestor
Fonte: Arquivo do Autor
Já o biodigestor modelo Chinês (Figura 2) foi desenvolvido de forma a ser voltado
para as pequenas propriedades rurais. É um modelo de peça única, construído em alvenaria e
enterrado no solo, para ocupar menos espaço. Este modelo possui um custo mais barato em
relação aos outros, pois sua cúpula é feita em alvenaria.
O modelo chinês é mais rústico. Funciona, normalmente, com alta pressão, a qual
varia em função da produção e consumo do biogás; não há possibilidade de contar com uma
câmara de regulagem, a qual lhe permitiria trabalhar com baixa pressão.
Figura 2 – Modelo chinês de biodigestor
Fonte: Eco-Village (2010)
Outro modelo de equipamento atualmente muito difundido é o biodigestor modelo
canadense (Figura 3). É um modelo tipo horizontal, apresentando uma caixa de carga em
alvenaria e com a largura maior que a profundidade, possuindo, portanto, uma área maior de
29
exposição ao sol, o que possibilita uma grande produção de biogás, evitando-se o entupimento
(EMBRAPA,1995). Durante a produção de gás, a cúpula do biodigestor infla porque é feita de
material plástico maleável (PVC), podendo ser retirada.
Figura 3 – Modelo canadense de biodigestor
Fonte: Arquivo do Autor
O maior empecilho deste equipamento é o alto custo da cúpula.
2.3 Biomassa
Biomassa é qualquer material passível de ser decomposto por causas biológicas, isto é,
que através de ações de diferentes tipos de bactérias se decompõe.
São chamados de Biomassa todos o material orgânico que pode ser aproveitado como
fonte de energia: lenha e carvão vegetal, alguns óleos vegetais (amendoim, soja, dendê), a
cana-de-açúcar e a beterraba (dos quais se extrai álcool), o biogás (produzido pela
biodegradação anaeróbica existente no lixo e dejetos orgânicos) etc. (CARIOCA & ARORA,
1984).
Segundo Staiss & Pereira (2001), a biomassa pode ser transformada, pelas diferentes
tecnologias de conversão, em biocombustíveis sólidos, líquidos ou gasosos e, finalmente, nos
produtos finais: energia térmica, mecânica e elétrica. Se a biomassa for queimada de modo
eficiente, há produção de dióxido de carbono e água. Portanto, o processo é cíclico e por este
motivo a biomassa é considerada um recurso renovável.
No presente trabalho, o objeto de estudo são os biodigestores, que transformam o
dejeto suíno em biogás e biofertilizante. Sendo assim, os dejetos suínos são considerados
como matéria-prima, ou seja, a biomassa.
30
2.4 Biogás
A digestão anaeróbia é um processo de tratamento de materiais orgânicos que se
desenvolve na ausência de oxigênio e, simultaneamente, uma opção energética, com
reconhecida vantagem ambiental. Um dos benefícios do processo, que logo contribuiu para
um crescente interesse por esta tecnologia, reside na conversão da maior parte da carga
poluente do efluente em uma fonte de energia: o biogás.
O biogás proveniente da atividade dos microorganismos é composto por uma mistura
de diversos gases, entre eles o metano, o dióxido de carbono, o hidrogênio e o dióxido de
enxofre. O biogás é inflamável devido ao metano, gás mais leve que o ar, sem cor e odor.
O que causa o odor no biogás é o dióxido de enxofre que, mesmo em quantidades
pequenas, é perceptível pelo olfato e bastante corrosivo (INSTITUTO SADIA DE
SUSTENTABILIDADE, 2006).
Conforme descreve Bavaresco (1998), a formação do biogás compreende três fases
distintas:
- 1ª fase - hidrólise: nesta fase, as bactérias liberam enzimas extracelulares que são
responsáveis por quebrar as moléculas maiores e transformá-las em moléculas menores.
- 2ª fase - ácida: as bactérias produtoras de ácidos transformam moléculas de proteína,
gordura e carboidratos em ácidos orgânicos. Estas bactérias podem ser anaeróbias ou
facultativas (aquelas que podem trabalhar tanto na presença como na ausência de oxigênio).
- 3ª fase - metanogênica: as bactérias metanogênicas atuam sobre ácidos orgânicos
simples, transformando-os em metano. Nesta fase, as bactérias são anaeróbicas.
Os microrganismos que atuam na ausência de oxigênio atacam a estrutura de materiais
orgânicos complexos, produzindo compostos simples como o metano (CH4) e o dióxido de
carbono (CO2) (SANCHEZ et al., 2005). A Figura 4 descreve a decomposição anaeróbia de
compostos orgânicos, levada a cabo pelos microrganismos. É apresentada como um processo
de sete passos.
31
Figura 4 – Digestão anaeróbica do material orgânico
Fonte: EMBRAPA (1995)
A composição típica do biogás é cerca de 60% de metano, 35% de dióxido de carbono
e 5% de uma mistura de hidrogênio, nitrogênio, amônia, ácido sulfídrico, monóxido de
carbono, aminas voláteis e oxigênio (WEREKO-BROBBY & HAGEN, 2000).
Sganzerla (1983) também contribui na descrição da composição média do biogás
conforme a Tabela 1.
Tabela 1 – Composição média do biogás
Tipo de gás Composição do biogás (em %)
Metano (CH4) 60 a 70
Gás Carbônico (CO2) 30 a 40
Nitrogênio (N) Traços
Hidrogênio (H) Traços
Gás Sulfídrico (H2S) Traços
Fonte: Sganzerla (1983, p. 10).
Para que ocorra a fermentação da matéria orgânica, essas bactérias precisam de um
ambiente favorável para seu crescimento e desenvolvimento: ausência de compostos químicos
32
tóxicos (sabão, detergente); temperatura adequada (entre 30 e 45°C); presença de matéria
orgânica (dejetos); ausência de ar. Assim, se houver alguma interferência nesses fatores
poderá ocasionar uma redução na produção de biogás (SEIXAS & MARCHETTI, 1981).
Os microrganismos produtores de metano são sensíveis à variação de temperatura,
sendo recomendado assegurar-se a sua estabilidade, seja através do aquecimento interno ou
pelo melhor isolamento térmico da câmara de digestão durante os meses de inverno. Este
ponto é bastante crítico, pois nos meses de inverno é que se apresenta uma maior demanda por
energia térmica e uma tendência dos biodigestores em produzir volumes menores de biogás
causados pelas baixas temperaturas.
Estudos realizados pela Embrapa Suínos e Aves indicam que, em média, para cada 76
litros de dejetos líquidos de suíno, tem-se a formação de 1m³ de biogás.
2.4.1 Biogás e sua utilização nas propriedades suinocultoras
A possibilidade de utilização do biogás nas propriedades suinocultoras é muito grande.
Como a composição típica do biogás possui cerca de 60% de metano, um gás inflamável, o
mesmo pode ser utilizado para a geração de energia térmica (calor), usado em fogões,
cogeração de energia elétrica e a queima do biogás podem ser convertida em créditos de
carbono, caso haja um suporte para tal.
Na atualidade, com as crescentes pesquisas em tecnologia e a preocupação com o meio
ambiente, surgiram diversas tecnologias para efetuar a conversão energética do biogás.
Entende-se por conversão energética o processo que transforma um tipo de energia em outro.
O metano, principal componente do biogás, não tem cheiro, cor ou sabor, mas outros
gases presentes conferem-lhe um ligeiro odor de vinagre ou de ovo podre. Para o seu uso
como combustível, deve-se estabelecer uma relação entre o biogás e o ar, para permitir uma
queima eficiente. O biogás, por ser extremamente inflamável, pode ser simplesmente
queimado para reduzir o efeito estufa (o metano é 21 vezes mais agressivo à atmosfera no
caso do efeito estufa, do que o CO2) ou aproveitado para uso doméstico, em motores de
combustão interna, sistemas de geração de energia elétrica ou térmica (OLIVEIRA, 2003).
Neste sentido, o biodigestor apresenta-se com fonte alternativa de produção e geração
de energia. Pode-se verificar a importância do biogás nas Tabelas 2 e 3, quando comparado
aos outros combustíveis. Apesar dos dados das tabelas apresentarem pequenas divergências,
causadas, possivelmente, por diferenças na produção do biogás, devido à utilização de
33
biodigestores adaptados a diferentes regiões do Brasil, fica claro, tanto em uma como em
outra tabela, a capacidade calorífica do biogás.
Tabela 2 – Comparação entre o biogás e outros combustíveis
Combustíveis 1m³ de biogás equivale a
Gasolina 0,613 litros
Querosene 0,579 litros
Óleo diesel 0,553 litros
Gás de cozinha (GLP) 0,454 litros
Lenha 1,536 Kg
Álcool hidratado 0,790 litros
Eletricidade 1,428 kw
Fonte: Barrera (1993, p. 10).
Tabela 3 – equivalência entre o biogás e outros combustíveis
Combustíveis 1m³ de biogás equivale a
Gasolina 0,321 litros
Querosene 0,342 litros
Óleo diesel O,358 litros
Gás de cozinha (GLP) 0,396 kg
Lenha 1,450 kg
Fonte: Barrera (1993, p. 10).
Portanto, sua potencialidade energética é capaz de produzir duas formas de energia
limpa: elétrica e térmica. Pode ser utilizado como gás encanado, gás de cozinha, aquecedor de
chocadeiras, secador de grãos, resfriamento, energia elétrica e pode ser usado como
combustível em motores de combustão interna. Oferece muitos benefícios aos produtores
rurais.
2.5 Biofertilizante
Depois de todo o processo de produção do biogás, a biomassa fermentada deixa o
interior do biodigestor em forma líquida, com grande quantidade de material orgânico,
excelente para a fertilização do solo. Com a aplicação deste biofertilizante no solo, melhora-se
as qualidades biológicas, químicas e físicas do mesmo, superando qualquer adubo químico.
Sganzerla (1983) salienta que, devido ao processo que ocorre na biodigestão, a matéria
orgânica (biomassa), perde exclusivamente carbono, sob a forma do gás metano (CH4) e gás
Carbônico (CO2), além de, aumentar o teor de nitrogênio e outros nutrientes. Desta forma, o
biofertilizante funciona como corretor de acidez do solo. O biofertilizante, ao contrário dos
adubos químicos, melhora a qualidade do solo, deixando-o mais fácil de ser trabalhado e
34
proporcionando uma melhor penetração de raízes. Além disso, faz com que o solo absorva
melhor a umidade do subsolo, resistindo facilmente a longos períodos de estiagem.
Sganzerla (1983, p.25) descreve ainda:
O biofertilizante possui coloidais carregados negativamente, o que faz trocar por
carga iônica, absorção superficial e coagulação. Seu poder de fixação dos sais é
maior que das argilas, sendo responsável direto pela maior parte da nutrição das
plantas, com até 58% da capacidade total de troca de bases do solo. Estabiliza os
agregados de modo que resistam à ação desagregadora da água, absorvendo as
chuvas mais rapidamente, evitando a erosão e conservando a terra por mais tempo.
O biofertilizante proporciona a multiplicação das bactérias, gerando mais vida e saúde
ao solo e ocasionando aumento significativo na produtividade das lavouras. O autor ressalta
que os dejetos neste estágio (biofertilizante) encontram-se praticamente “curados” (na
expressão do campo), pois não há possibilidade de nova fermentação; assim, não apresenta
nenhum odor e nem é poluente e, com isso, não atrai nenhum tipo de inseto.
A composição do biofertilizante pode variar de acordo com o tipo de biomassa
utilizada no biodigestor. No caso de os dejetos de suínos. Foram compiladas varias análises
conforme a Tabela 4.
Tabela 4 - Componentes do biofertilizante oriundo do dejeto suíno
Composição Quantidade
pH 7,5
Matéria Orgânica 85%
Nitrogênio 1,8
Fósforo 1,6
Potássio 1,0
Fonte: Sganzerla (1983, p.26)
Dessa forma, o biofertilizante é um subproduto originado no processo de biodigestão,
que proporciona ao máximo a utilização dos dejetos suínos, otimizando o processo de
agregação de valor à propriedade rural.
2.6 Poluição do meio ambiente versus dejetos suínos
Os principais problemas acarretados ao meio ambiente pelos dejetos suínos são quatro:
a poluição do solo e a contaminação dos mananciais de água nas regiões produtoras, a
poluição do ar e a biodiversidade (ver Figura 5).
35
O dejeto suíno é considerado altamente poluente, acarretando ao meio ambiente sérios
problemas. Os dejetos possuem grande quantidade de elementos químicos que prejudicam não
somente o solo e a água como também os seres vivos (organismos) expostos a ele.
Figura 5 – Problemas acarretados pelos dejetos suínos
Fonte: Instituto Sadia de Sustentabilidade
Nota-se que os suinocultores estão usando artifícios incorretos no processo de
utilização do dejeto como adubo orgânico, pois o uso descontrolado do dejeto não garante ao
produtor uma excelente adubação. Utilizar o dejeto dos animais na forma “pura”,
infelizmente, não proporciona qualidade na adubação e nem está erradicando a contaminação
do meio ambiente (degradação).
Por outro lado, se os dejetos suínos forem corretamente utilizados na sua aplicação no
solo, o mesmo é um excelente adubo.
Bley Jr. (2003, p. 6) salienta que:
A preservação do meio ambiente não se opõe à produção de suínos que, com manejo
adequado, sobretudo com técnicas que incorporem ao solo toda a rica matéria para
adubação contida nos dejetos dos suínos, as terras se enriquecem, melhoram
significativamente sua cobertura vegetal, sendo os dejetos, como é de conhecimento
comum, um importante componente para produção de grãos, destacadamente à
produção de milho.
Outro tipo de preocupação em relação aos dejetos suínos, tanto ou mais grave, é a
atividade altamente poluidora de mananciais e fontes de água por parte da prática da
suinocultura intensiva, presente de forma maciça no Sul do Brasil.
Poluição das águas é qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e
biológicas que possa importar em prejuízo à saúde, à segurança e ao bem-estar das
populações e ainda comprometer a sua atividade para fins agrícolas, industriais,
36
comerciais, recreativos e principalmente a existência normal da fauna aquática. Os
padrões de qualidade da água estão estabelecidos na Resolução Conama n. 20/86.
Nela, as águas são classificadas em doces, salinas e salobras e segundo o seu uso
predominante. A divisão de classes considera, ainda, o tratamento recebido pela
água. Ultrapassando os padrões estabelecidos, ocorrerá a poluição (DIAS, 1999, p.
104).
Uma das razões para que esta atividade seja tão poluidora está na forma de
acondicionamento do dejeto suíno pelo produtor em sua propriedade. Este, muitas vezes, é
depositado em lagoas a céu aberto, revestido por lonas plásticas resistentes, exalando assim
odores dos gases do efeito estufa, havendo também a proliferação de ratos e moscas. Além
disso, devido ao tempo de uso dessas lonas, há o vazamento do dejeto suíno diretamente no
solo e até mesmo pelo manejo, deixando essas lagoas extravasarem.
Bavaresco (1998) alerta também que, como na produção de suínos há a prevalência de
minifúndio, neste tipo de propriedade as benfeitorias foram implantadas sem planejamento,
sendo que muitas pocilgas foram construídas muito próximas a fontes de água.
Mesmo quando a suinocultura é desenvolvida de forma integrada com outra atividade
rural que tem por objetivo receber os dejetos dos suínos, ela ainda consiste em uma atividade
potencialmente poluidora de mananciais de água vizinhos à propriedade.
A criação de suínos também acarreta a produção de mau cheiro, responsável por atrair
grande número de insetos, muitos dos quais danosos à saúde e ao bem-estar da população
rural e até mesmo acarretando problemas nos animais como, por exemplo, a mosca do chifre.
Desta forma, necessita-se que o produtor compreenda que o ônus da produção sem
degradação do meio ambiente é de sua responsabilidade, cabendo a ele dar destinação
adequada aos efluentes produzidos nos limites de sua propriedade.
2.7 Legislação ambiental
A atividade da suinocultura, devido aos excrementos gerado pelos suínos (dejetos), é
considerada pelos órgãos ambientais uma "atividade potencialmente causadora de degradação
ambiental”. Essa é uma das principais razões pelas quais essa atividade rural está sujeita ao
controle ambiental, através do licenciamento ambiental, cuja aplicação encontra-se prevista
no art. 60 da Lei Federal n. 9.605/95.
A falta de informação e de fiscalização foram comuns desde o princípio da
colonização brasileira. Nos estados do Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul)
acarretou uma exploração inadequada das terras. A desinformação fez com que pocilgas
37
fossem construídas próximas aos cursos d'águas. Essa mesma desinformação, passada na
maioria das vezes, como "herança" ao longo das gerações, tornou difícil convencer o
agricultor ou o pecuarista de que o tratamento e destino final dos efluentes produzidos dentro
de sua propriedade são de sua exclusiva responsabilidade.
Perante este fato, medidas mais drásticas passaram a ser tomadas para regularizar a
produção e tratamento dos resíduos das diversas formas de criação de animais. No caso
específico da suinocultura, o problema é muito grave, devido ao grande potencial poluidor
dessa atividade.
Ambientalistas advertem, há muitos anos, sobre o perigo do desabastecimento de água
potável nas próximas décadas. Tal escassez não será resultado de um volume
extraordinariamente pequeno de água doce no planeta, mas sim devido ao uso errado e
indiscriminado da água e ao processo cada vez mais intenso de poluição desta, como resultado
das ações poluidoras da espécie humana.
Na década de 60, a lei de proteção da fauna (Lei n. 5.197/67), modificada
posteriormente pela Lei n. 7.653/88, previa, em seu artigo 27, segundo parágrafo, a pena de
reclusão de 2 a 5 anos a quem causasse "pelo uso direto ou indireto de agrotóxicos ou de
qualquer outra substância química, o perecimento de espécimes da fauna ictiológica existente
em rios, lagos, açudes, lagoas, baías ou mar territorial brasileiro." A Constituição Federal de
1988 atacou mais fortemente o problema, ao englobar as práticas poluidoras como "atentado
ao meio ambiente". Assim a CF de 88 dispõe, em seu art. 225, que "todos têm direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Resumindo, a legislação que fundamenta o licenciamento de suinocultura é
basicamente a Lei Federal 6938/81, no seu artigo 10º. Além desta Lei, há a Resolução do
Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) 237/97, nos artigos 1º, 2º, 5º, 10º, 11º, 12º,
14º, 15º, 16º, 18º, 19º e o Anexo I - Atividades Agropecuárias. Também se registra a Lei
Estadual 11520/00, nos artigos 55 a 85 e a Resolução do Consema (Conselho Estadual do
Meio Ambiente) 05/98 com o Anexo I - Atividades Agropecuárias. Também a Resolução
Consema 04/00 é usada. Além disto, se considera: o Código Florestal (4771/65), no tocante a
questões de localização em Áreas de Preservação Permanente (APPs); a Lei Federal 9985/00
e o Decreto Estadual 34 256/92, no tocante à proximidade de áreas de conservação. Outros
textos legal a que o setor da suinocultura está relacionado são a Lei dos Crimes Ambientais
(9605/98) e o Decreto 3179/99.
38
2.8 Mecanismo de desenvolvimento limpo e a suinocultura
A partir de meados de 1980,diversos atores sociais passaram a proferir um discurso
acerca da existência do problema das mudanças climáticas. Pesquisas e simulações
amplamente divulgadas comprovaram um aumento considerável da temperatura da Terra em
relação ao período pré-industrial, apontando como causa principal a crescente emissão de gás
carbônico (CO2) na atmosfera, resultado da queima de combustíveis fósseis, que intensifica a
ação do efeito estufa.
Assim, em 1988 foi constituído o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas
(IPCC), órgão intergovernamental formado por países-membros do Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM),
estabelecendo como objetivo reunir informações científicas, técnicas e socioeconômicas
relevantes para o entendimento das mudanças climáticas.
O IPCC divulgou, até o momento, quatro grandes relatórios (1990, 1995, 2001 e
2007), nos quais afirma que as atividades humanas ligadas à industrialização aumentaram
consideravelmente a presença dos gases do efeito estufa na atmosfera, especialmente do gás
carbônico (BRASIL, 2000, p. 19).
Desta maneira, os meios de comunicação exerceram papel fundamental para
consolidar o aquecimento global enquanto problema ambiental na agenda política
internacional, além de diversas ONGs que colaboraram para a popularização do problema
ambiental.
Começou-se a realizar reuniões mundiais para o debate acerca do assunto, sendo que o
marco de toda a discussão foi que o ano de 1997, quando foi assinado o Protocolo de Quioto.
O Protocolo de Quioto objetivou, num primeiro momento, que os países incluídos no
Anexo 1 da Convenção-Quadro reduzam a emissão dos gases do efeito estufa. Os países do
Anexo 1 são: Alemanha, Áustria, Bélgica, Croácia, Dinamarca, Eslovênia, Espanha,
Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Islândia, Itália, Liechtenstein, Luxemburgo, Mônaco,
Noruega, Países Baixos, Portugal, Reino Unido, Suíça, Suécia, Bulgária, Eslováquia,
Hungria, Polônia, República Checa, Romênia, Rússia, Ucrânia, Estônia, Letônia, Lituânia,
Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão.
O Protocolo entrou em vigor em 16 de fevereiro de 2005, noventa dias após a
ratificação de 141 Partes contratantes da Convenção, dentre elas 37 Partes do Anexo 1, que
39
juntas contabilizam 61,6% do total de emissões de gás carbônico (art. 25 do Protocolo). Até o
momento, 178 países ratificaram o tratado. O Decreto n.º 5.445, de maio de 2005, aprovou o
texto do Protocolo de Quioto no Brasil.
O Protocolo de Quioto prevê mecanismos de flexibilização das obrigações e metas de
redução. São eles: implementação conjunta (Joint Implementation), mecanismo de
desenvolvimento limpo (Clean Development Mechanism) e comércio de emissões (Emission
Trade).
O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo está regulamentado através do Artigo 12.2
e 12.3 do Protocolo de Quioto à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do
Clima (UNFCCC), que diz:
Artigo 12.2
1. Fica definido um mecanismo de desenvolvimento limpo.
2. O objetivo do mecanismo de desenvolvimento limpo deve ser assistir às Partes
não incluídas no Anexo I para que atinjam o desenvolvimento sustentável e
contribuam para o objetivo final da Convenção, e assistir às Partes incluídas no
Anexo I para que cumpram seus compromissos quantificados de limitação e redução
de emissões, assumidos no Artigo 12.3.
3. Sob o mecanismo de desenvolvimento limpo:
(a) As Partes não incluídas no Anexo I beneficiar-se-ão de atividades de projetos
que resultem em reduções certificadas de emissões; e
(b) As Partes incluídas no Anexo I podem utilizar as reduções certificadas de
emissões, resultantes de tais atividades de projetos, para contribuir com o
cumprimento de parte de seus compromissos quantificados de limitação e redução
de emissões, assumidos no Artigo 3, como determinado pela Conferência das Partes
na qualidade de reunião das Partes deste Protocolo.
O mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL) permite que um país desenvolvido
possa receber as unidades de redução de emissão, isso é, permissão para poluir mais, caso
elabore, financie ou ajude a implementar políticas de desenvolvimento sustentável em países
que não sejam parte do Anexo 1 (art. 12). Tais projetos, com a finalidade de obter reduções
certificadas de emissão (Certified Emission Reductions), poderão ter a participação de
entidades públicas e privadas, desde que observadas às orientações do Protocolo, da
Secretaria e das Conferências das Partes.
Os certificados poderão ser usados no momento da avaliação dos Relatórios das Partes
apresentado à COP como essas reduções certificadas como sendo uma “prestação de contas”
dos países que precisam reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. . Além disso, tais
certificados poderão ser comercializados quando, por exemplo, um país que já tenha
alcançado suas metas de redução possuir mais certificados do que precisa, podendo vendê-los
a outros países que não tenham atingido a meta estabelecida.
40
O Brasil é um dos poucos países em desenvolvimento que possui legislação doméstica
regulamentando o Mercado de Carbono, com órgãos reguladores como a Bolsa de
Mercadorias e Futuros (BM&F) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior (MDIC) e outros atores como bancos, corretoras e organizações não-governamentais
(ONGs), que oferecem transparência e confiabilidade para as negociações, padronizando os
contratos, diminuindo os riscos e, consequentemente, atraindo mais investidores, o que
influencia diretamente nos valores negociados. Desde o começo das negociações, em 2005,
quando o mercado de carbono foi implantado, através do Protocolo de Quioto, os valores
sofreram uma alta significativa.
Estima-se que o mercado de carbono mundial irá movimentar, aproximadamente, 4
435 bilhões de t CO2 eq transformadas em Reduções Certificadas de Emissões (RCEs), no
primeiro período de obtenção de créditos, que podem ser de no máximo 10 anos. para projetos
de período fixo ou de 7 anos para projetos de período renovável (os projetos são renováveis
por no máximo três períodos de 7 anos, dando um total de 21 anos), segundo o Ministério da
Ciência e Tecnologia (2008), em dados apurados até o dia 06 de março deste ano, o que torna
o MDL uma alternativa considerável para o desenvolvimento sustentável, ou seja, além da
adicionalidade do projeto em redução ou sequestro de carbono, deverão ser observados quais
os impactos socioambientais nos países hospedeiros, características estas consideradas
essenciais para a aprovação do MDL.
Visualizando o objeto de estudo, a suinocultura pode render créditos no mercado do
seqüestro de carbono, esta possibilidade busca preservação ambiental e a redução da emissão
de gases que produzem o efeito estufa. A suinocultura é de grande participação na redução do
gás metano, que é produzido a partir da decomposição da matéria orgânica dos dejetos de
suínos.
2.9 Sustentabilidade na suinocultura
O conceito de sustentabilidade é uma nova abordagem que integra os princípios
econômicos (maior retorno do capital para o investidor e o empreendedor, aumento dos lucros
no longo prazo), ambientais (preservação de recursos naturais, eco-eficiência, energia
renovável) e sociais (cidadania, geração de emprego) (Figura 6).
41
Figura 6 – Sustentabilidade na suinocultura
Fonte Instituto Sadia de Sustentabilidade
Dessa maneira, os três fatores (social – Ambiental – Econômico), em equilíbrio,
como num triângulo compondo cada um dos três lados, formam o ideal de sustentabilidade,
manifestando preocupação tanto com questões ambientais como econômicas e sociais.
Como a atividade da suinocultura ocupa lugar de destaque na matriz produtiva do
agronegócio brasileiro, como uma atividade de importância no âmbito econômico e social,
principalmente na geração de empregos, pois é produzido principalmente em pequenas e
médias propriedades rurais, em que a mão-de-obra familiar é totalmente empregada e
constata-se que esta atividade vem apresentando significativo crescimento, o que traz consigo
uma grande preocupação quanto à degradação ambiental e, consequentemente, prejuízos à
qualidade de vida das pessoas, a busca pela sustentabilidade dessa atividade é fundamental.
Deste modo, é de grande importância que as inovações nos diferentes níveis da
sociedade e das organizações atendam não apenas a fatores econômicos e utilitários, mas
também a fatores sociais e ambientais (Figura 7).
Figura 7 – Desafios da sustentabilidade na suinocultura
Fonte: Instituto Sadia de Sustentabilidade
42
Desta forma, pode-se dizer que um empreendimento sustentável é aquele devolve ao
meio ambiente todo ou parte dos recursos que processou e garante uma boa qualidade de vida
da população que nele atuam ou que vivam nas imediações ou na área afetada pela atividade
da suinocultura, garantindo, assim, uma longa vitalidade e um baixo impacto naquela região
durante gerações.
Nesse sentido, para as organizações agropecuárias que trabalham com suinocultura, o
desafio é grande para a busca da sustentabilidade, tendo em vista as exigências do mercado, a
sua importância para a agricultura familiar e a seu alto potencial poluidor.
3 FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS
A metodologia consiste na explicação minuciosa, detalhada, rigorosa e exata de toda
ação desenvolvida no método (caminho) do trabalho de pesquisa. É a explicação do tipo de
pesquisa, do instrumental utilizado (questionário, entrevista, entre outros), das formas de
tabulação e tratamento dos dados; enfim, de tudo aquilo que se utilizou no trabalho de
pesquisa, de como se originou e ganhou forma o trabalho.
3.1 Tipo de pesquisa
Segundo Calegare (2007), “a realização de uma pesquisa é uma atividade básica e
essencial para o desenvolvimento do conhecimento”, pois através dele buscam-se novas
informações, novas propostas e novas ações para o desenvolvimento socioeconômico-
ambiental.
A natureza deste trabalho, de acordo com o tema e os objetivos estabelecidos,
caracteriza-se como uma pesquisa tipo exploratória e utiliza o método quantitativo e
qualitativo de abordagem para a coleta e a análise dos dados junto às propriedades rurais.
Segundo Mattar (2001), a pesquisa exploratória visa prover o pesquisador de maior
conhecimento sobre o tema ou problema de pesquisa. Por isso, é apropriada para os primeiros
estágios da investigação quando a familiaridade, o conhecimento e a compreensão do
fenômeno, por parte do pesquisador, são, geralmente, pouco ou inexistentes.
Este tipo de pesquisa é particularmente útil quando se tem uma noção muito vaga do
problema de pesquisa. Será preciso conhecer de maneira mais profunda o assunto para se
estabelecer melhor o problema de pesquisa, através da elaboração de questões de pesquisa e
do desenvolvimento ou criação de hipóteses explicativas para os fatos e fenômenos a serem
estudados.
Contribuem com esta constatação Silva e Menezes (2001) que afirmam: “diz-se que é
exploratória porque possibilita conhecer mais detalhadamente o problema a ser investigado,
por meio de pesquisas bibliográficas e do estudo de caso”. Assim, a pesquisa exploratória
objetiva a busca de maiores informações sobre determinado assunto que se pretende realizar o
aprimoramento de idéias.
Richardson (1999) descreve que o método quantitativo representa, em principio, a
intenção de garantir a precisão dos resultados, evitando distorções de analise e interpretação,
44
possibilitando, consequentemente, uma margem de segurança quanto às inferências. É
frequentemente aplicado nos estudos descritivos, que procuram descobrir e classificar a
relação de causalidade entre fenômenos. Assim, o método quantitativo proporcionará a
pesquisa precisão nos resultados, evitando distorções em análises.
Na análise qualitativa, o pesquisador está preocupado com o processo e não somente
com o produto e resultados que este gerará. Deslandes (1994) descreve que analisar
qualitativamente possibilita envolver “percepções, significados, aspirações, crenças, valores,
atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos
fenômenos impossibilitados de serem reduzidos à operacionalização das variáveis”.
A técnica trabalhada nessa pesquisa é o estudo de caso, pois se investigou um
fenômeno dentro do seu contexto real, no qual as condições contextuais referem-se ao objeto
que está sendo estudado. Yng (2005) comenta que a escolha da metodologia de estudo de caso
deve-se ao fato de ser uma técnica de investigação de comportamentos que não podem ser
manipulados isoladamente e devem ser analisados em conjunto.
Segundo Bruyne (1997, p. 224), “o estudo de caso reúne informações tão numerosas e
tão detalhadas quanto possível, com vistas a apreender a totalidade da situação”.
Observando as técnicas expostas acima, o trabalho utiliza procedimentos
sistemáticos para a descrição, determinação e explicação dos fatos e ocorrências no processo
de disseminação e utilização dos biodigestores na referida região de estudo.
3.2 Campo de ação
O campo de açao desta pesquisa é a microrregião de Santa Rosa, uma das
microrregiões do Estado do Rio Grande do Sul, pertencente à mesorregião Noroeste
Riograndense. A mesma é dividida em treze munícipios e a suinocultura tem uma história de
sucesso nesta microrregião. No passado, chegou a ser uma das maiores produtoras de suínos
do Rio Grande do Sul. Atualmente, vem retomando lugar de dianteira. Recentemente, teve um
alto investimento na tecnologia de biodigestores, objeto de estudo deste trabalho.
3.3 População e amostra
A composição populacional disponível para a aplicação das entrevistas é composta por
todas as propriedades que possuem biodigestores instalados em suas dependências. Na
45
microrregião de Santa Rosa, a composição populacional disponível para a realização dessa
pesquisa é de 30 propriedades com esses equipamentos instalados.
Sendo assim, para que uma pesquisa seja confiável, necessita possuir uma
fidedignidade de escala. Desta forma, para não haver distorção de resultados, foi pesquisado
100% do objeto de estudo, ou seja, todas as propriedades participaram da pesquisa.
3.4 Instrumentos de pesquisa
Conforme Vergara (2000), existem duas fontes de coletas de dados: as fontes
primárias, que seriam as entrevistas, questionários e observações; e as secundárias, que são
constituídas pelas análises documentais.
De acordo com Oliveira (2002, p. 182), “a coleta de dados é uma tarefa cansativa e
ocupa, quase sempre, mais tempo do que se espera. Exige do pesquisador paciência,
perseverança e esforço pessoal, além do cuidadoso registro dos dados e de um bom preparo
anterior”.
Os instrumentos utilizados na coleta dos dados foram: pesquisa bibliográfica - Vergara
(2000) descreve a pesquisa bibliográfica como sendo o estudo sistematizado desenvolvido
com base em material publicado em livros, revistas, jornais e redes eletrônicas; isto é, material
acessível para o publico em geral. A pesquisa bibliográfica fornece instrumental analítico para
qualquer outro tipo de pesquisa, mas também pode esgotar-se em si mesma; aplicação de um
questionário (Apêndice A), composto por perguntas fechadas; observação do ambiente
estudado; levantamento fotográfico; abordagem de dois casos existentes na utilização dos
biodigestores, considerados exemplares na agregação de valores as propriedades.
O questionário para obter informações sobre a utilização dos biodigestores na
suinocultura foi elaborado com base em documentos atuais e avançados que tratam sobre o
assunto estudado.
3.5 Procedimentos para a coleta de dados
A coleta de dados no ambiente estudado foi realizada através de visitas às
propriedades rurais, previamente autorizadas pelos proprietários das mesmas. No transcorrer
dessas visitas, foram aplicadas as ferramentas desenvolvidas para obtenção dos dados. Os
questionários para a obtenção dos dados foram respondidos diretamente pelos proprietários.
46
Durante a coleta de dados foram realizadas observações no ambiente da pesquisa, bem
como realizados vários levantamentos fotográficos em todas as propriedades envolvidas no
estudo.
Informações complementares foram solicitadas e consequentemente fornecidas,
quando existentes.
3.6 Técnicas de análise dos dados
A técnica, análise e interpretação de dados possuem o objetivo de mostrar as respostas
do problema de pesquisa. Sob essa ótica, Gil (1988) esclarece que, após a coleta de dados, a
fase seguinte da pesquisa é a de analise e interpretação. A análise tem como objetivo
organizar e sumariar os dados de forma tal que possibilitem o fornecimento de respostas ao
problema proposto para investigação. A interpretação tem como objetivo a procura do sentido
mais amplo das respostas, o que é feito mediante sua ligação a outros conhecimentos
anteriormente obtidos.
Ainda Gil (1988) ressalta que o rigoroso controle na aplicação dos instrumentos de
pesquisas é fator fundamental para evitar erros e defeitos, resultantes de entrevistadores
inexperientes ou de informantes tendenciosos.
Para Vergara (2000, p. 59), o “tratamento dos dados refere-se àquela seção na qual se
explicita para o leitor como se pretende tratar os dados a coletar, justificando por que tal
tratamento é adequado aos propósitos do projeto”. Objetivos são alcançados com a coleta, o
tratamento e, posteriormente, com a interpretação dos dados; portanto, não se deve esquecer
de fazer a correlação entre os objetivos e as formas de atingi-los.
De acordo com Oliveira (2002, p.184), “uma vez manipulados os dados e obtidos os
resultados, o passo seguinte é a análise e interpretação destes, constituindo-se ambas no
núcleo central da pesquisa”.
Os dados foram analisados e interpretados através de gráficos, cálculos financeiros
(utilização de planilha eletrônica Microsoft Excel 2000) e utilização do software Sphinx, que
é um software completo que permite realizar qualquer tipo de tabulação de dados e todos os
processos de uma atividade de pesquisa: concepção do questionário, digitação ou importação
das respostas e posterior análise dos dados, tanto quantitativos quanto qualitativos.
Assim, depois de coletados os dados através dos instrumentos citados acima para a
realização da pesquisa, os mesmos serão analisados e interpretados para que os objetivos da
pesquisa sejam alcançados.
47
3.7 Aspectos éticos
A identidade dos participantes será preservada, ou seja, não será feita menção de
nomes dos proprietários referente às informações fornecidas, salvo nomes devidamente
autorizados ou mencionados a sua fonte de pesquisa. As empresas envolvidas no presente
estudo foram devidamente contatadas e informadas sobre o presente trabalho de pesquisa.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Para a elaboração deste estudo, foi realizado um processo investigatório sobre a
utilização dos biodigestores na microrregião de Santa Rosa. Nesse contexto, este capítulo
apresenta os resultados alcançados pela pesquisa, conforme exposto no capítulo referente aos
procedimentos metodológicos utilizados.
4.1 Microrregião do Grande Santa Rosa – RS
A microrregião de Santa Rosa é uma das microrregiões do Estado do Rio Grande do
Sul (Figura 8), pertencente à mesorregião Noroeste Riograndense, correspondente ao número
5 (cinco) (Figura 9) e está dividida em treze munícipios. Possui uma área total de 3.451,575
km2.
Figura 8 - Mapa do RS (Microrregião de Santa Rosa)
Fonte: Pieper (2006)
49
Figura 9 - Mapa do RS (Messorregiões do RS)
Fonte Pieper 2006
Os múnicipios que fazem parte da microrregião de Santa Rosa são: Alecrim, Candido
Godói, Independência, Novo Machado, Porto Lucena, Porto Mauá, Porto Vera Cruz, Santa
Rosa, Santo Cristo, São José do Inhacorá, Três de Maio, Tucunduva e Tuparendi.
4.2 Investimento na tecnologia dos biodigestores na microrregião de Santa Rosa
Na microrregião de Santa Rosa, a difusão da tecnologia de biodigestores se
desenvolveu basicamente através de duas empresas, Sadia SA e Agcert, ambas preocupadas e
interessadas nas oportunidades de combate ao efeito estufa e à possibilidade de obtenção
financeira. Estas desenvolveram parcerias com produtores de suínos com o propósito de
difusão de tecnologia. Para uma melhor compreensão, analisou-se a inserção dessas empresas
e os produtores envolvidos nos projetos de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo na
suinocultura.
4.2.1 Empresa Sadia e os biodigestores
A Sadia, uma das maiores indústrias de alimentos do mundo, há anos se engajou na
cruzada contra o efeito estufa. Mais recentemente, em 2004, com o apoio da
PricenwaterhouseCoopers – Brasil, a empresa criou o Programa de Suinocultura Sustentável
50
Sadia, ou Programa 3S. A meta, ambiciosa, consiste em levar a pequenos e médios criadores
ao sofisticado mercado de créditos de carbono e garantir uma importante fonte de receita para
os suinocultores.
Tudo começou com a possibilidade de gerar créditos de carbono com as florestas de
eucalipto da empresa, plantadas para abastecer de biomassa o processo industrial de geração
de vapor. Isto levou a Sadia a iniciar, em 2003, estudos de Mecanismos de Desenvolvimento
Limpo (MDL).
Segundo a Sadia (2006), a conclusão foi de que o projeto mais promissor era na
suinocultura, pois a carga orgânica poluidora dos dejetos suínos é 25 vezes maior do que a do
ser humano. Nas regiões com alta concentração de suínos, parte desses dejetos é lançada no
solo e em cursos d´água, sem tratamento adequado. Para se ter uma idéia, uma granja de 300
matrizes pode gerar poluição equivalente a uma cidade de 75 mil habitantes.
A Sadia elaborou, então, um Project Design Document (PDD), o primeiro documento
exigido para se chegar ao Certificado de Redução de Emissões, os CRES, no qual a empresa,
entre outros pontos, faz a estimativa das reduções de emissão de gases estufa.
Este primeiro PDD previu a instalação de biodigestores em três objetivos bem mais
amplos: estender a iniciativa a todos os suinocultores integrados da Sadia; assim, foi criado o
Programa de Suinocultura Sustentável Sadia, ou Programa 3S, com consultoria da
PricewaterhouseCoopers. Como são produtores de portes pequeno e médio, esses produtores
dificilmente teriam acesso ao mercado de crédito de carbono se não fosse a iniciativa da
empresa.
Para a execução do 3S, também foi criado o Instituto Sadia de Sustentabilidade, em
dezembro de 2004., que desenvolveria projetos de preservação ambiental, alimentar, cultural e
esportiva. O Instituto passou a promover ações como a captação de recursos para a instalação
de biodigestores.
O programa estabelece que o suinocultor recebe os aparelhos em regime de comodato
e abaterá o investimento com seus créditos de carbono, que serão negociados pelo Instituto
(Figura 10 – Fluxograma do Programa 3S). Os dejetos são tratados em tanques cobertos,
impedindo-se a emissão de metano e a liberação de gases causadores do efeito estufa. O
próprio modelo de biodigestor foi encomendado pela Sadia a fornecedores nacionais, de
forma a ter um custo acessível até para os menores produtores, aqueles que têm plantéis de até
300 animais nas granjas.
51
Figura 10 – Fluxograma do Programa 3S
Fonte: Instituto Sadia de Sustentabilidade
Ao longo de 2005, a Sadia promoveu um amplo levantamento,através de uma folha de
dados apresentada a cada produtor. Era um checklist a partir do qual foi possível uma
estimativa do potencial de redução de emissões. A adesão era voluntária.
O investimento dos produtores foi mínimo e de acordo com a viabilidade econômica
de cada um. Da parte da Sadia, obteve-se R$ 60 milhões de um financiamento aprovado pelo
BNDES. Além disso, deve-se acrescentar o valor intangível do tempo dos funcionários da
Sadia, pois o Instituto é gerido pelos altos executivos da empresa e tem grande parte de suas
atividades executadas por colaboradores de todos os graus da hierarquia da organização. Além
de assessorar a instalação dos biodigestores, o Instituto promove auditorias periódicas com os
participantes para assegurar o bom andamento do 3S.
Aponta-se como outros benefícios do 3S, além do acesso ao mercado de créditos de
carbono, a implementação de novas tecnologias, a eliminação do impacto ao meio ambiente e
a educação ambiental.
O Programa 3S – que em 2005 recebeu o Prêmio Brasil Ambiental, da Câmara de
Comércio Americana do Rio de Janeiro, na categoria Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
– inclui mais outros 5 PDDs, com uma redução de emissões estimadas em 12 milhões de
toneladas CE CO2 em dez anos. Isto considera a adesão total ou da maioria dos 3 500
integrados. Só o PDD da Sadia equivale a 1 milhão de toneladas.
A expectativa é de que esses créditos sejam negociados na faixa de 10 euros a
tonelada. Uma boa remuneração, levando-se em conta os patamares do mercado internacional.
O projeto tem um diferencial muito grande, pois o foco não é comercial. Trata-se de um
projeto de sustentabilidade que visa a melhorar a qualidade da propriedade do produtor em
todos os aspectos: social, econômico e ambiental.
52
A sustentabilidade é um pré-requisito de toda a cadeia do agribusiness. Neste sentido,
o programa é uma experiência única no Brasil.
4.2.2 A empresa AgCert e os biodigestores
A AgCert International (AGC) ([Link]), empresa de capital aberto com
ações na Bolsa de Valores de Londres, é especializada na produção e venda de reduções de
emissões de gases do efeito estufa derivados de atividades agrícolas. Com sede em Dublin,
Irlanda, e escritório brasileiro instalado em São Paulo (SP), a AgCert desenvolve Mecanismos
de Desenvolvimento Limpo para gerar reduções de emissões de gases do efeito estufa de
fazendas de pecuária e diminuir os impactos adversos desses gases na atmosfera, fator
causador do aquecimento global e das mudanças climáticas. A AgCert também desenvolve
atividades no México, Chile, Argentina, Canadá e Estados Unidos.
Na parceria com os suinocultores, a AgCert fica responsável por todo o investimento
na construção e manutenção da infraestrutura dos biodigestores, além de ajudar nas
documentações. Desde que chegou ao Brasil, em 2003, a AgCert construiu cerca de 300
biodigestores capazes de gerar aproximadamente 15 milhões de créditos de carbono em 10
anos. No mundo, atualmente, a empresa possui 500 equipamentos em operação que devem
gerar mais de 20 milhões de Reduções Certificadas de Emissões (RCEs) em 10 anos.
A AgCert banca todos os investimentos e cuida da manutenção dos biodigestores por
10 anos, sendo que cada biodigestor custa entre R$ 100 mil e R$ 400 mil. Nesse período, a
companhia fica com 90% dos créditos gerados e 10% ficam com a propriedade que instala o
biodigestor.
4.3 Resultados da Pesquisa
4.3.1 Municípios onde se encontram os biodigestores
A pesquisa em campo revelou que a maior concentração de biodigestores instalados se
encontra no município de Santo Cristo, com um percentual de 26,67% do todo. Este
percentual deve-se ao fato do município ser, atualmente, um dos maiores produtores de suínos
do Rio Grande do Sul, além de abranger o maior número de projetos nesta área do estado.
53
No gráfico abaixo pode-se identificar o percentual de biodigestores instalados em cada
município que integra a Microrregião do Grande Santa Rosa. Cabe salientar que este
percentual é calculado sobre o total de propriedades com biodigestores instalados.
10,00%
16,67% Horizontina
Dr. Mauricio Cardoso
Independência
13,33% Novo Machado
3,33%
Porto Lucena
3,33% Porto Vera Cruz
Santa Rosa
Santo Cristo
São José do Inhacorá
Três de Maio
Tucunduva
Tuparendi
10,00% 10,00%
6,67%
26,67%
Gráfico 1 – Percentual de Biodigestores instalados por município.
Fonte: Pesquisa
Após identificar-se que o município de Santo Cristo apresenta o maior percentual
(26,67%) de biodigestores instalados, verifica-se que ocupa a segunda posição o município de
Horizontina (16,67%), seguido de Três de Maio (13,33%) e, após, os municípios de Novo
Machado, Tucunduva e São José do Inhacorá (10%), Santa Rosa (6,67%), Dr. Maurício
Cardoso e Independência (3,33%).
4.3.2 Características das propriedades
Para uma melhor compreensão do estudo, foi questionado junto aos proprietários das
suinoculturas em qual sistema de produção de suínos essas granjas se encontravam, se
estavam sob o regime de comodato ou se as mesmas eram de um sistema independente de
produção.
Para entender o objetivo desta pergunta, Bonett e Monticelli (1998) explicam que a
granja de suínos é a propriedade onde se pratica a produção de suínos. Sistema de produção
de suínos é o conjunto interrelacionado e organizado de processos para cumprir o objetivo
básico que é a produção de suínos.
O gráfico abaixo expressa os resultados obtidos:
54
6,67%
Própria (independente)
Regime de Comodato (Sistema de Parceria)
93,33%
Gráfico 2 – Tipo de sistema de produção utilizado pelas propriedades
Fonte: pesquisa
Observa-se que 93,33% das propriedades encontram-se num regime de Comodato
(Sistema de Parceria). Bonett e Monticelli (1998) descrevem que o Sistema de Parceria é
formalizado através de contratos que apresentam exigências quanto à origem da genética e da
ração, especificações, técnicas de manejo e retirada de medicamentos e o provimento de
assistência técnica e transporte. Os contratos apresentam garantias formais de compra e venda
às agroindústrias vinculadas e especificações de volume e prazos, exigência de exclusividade,
definição de um preço de referência e de critérios de remuneração em função do desempenho
e uniformidade.
As outras propriedades pesquisadas (6,67%) trabalham em um sistema de produção
independente e não possui contratos formalizados. Estão livres de exigências quanto à origem
da genética e da ração e as vendas da produção são feitas aos frigoríficos de pequeno e médio
porte da mesma região que não possuem uma política de parceria definidas.
A pesquisa demonstrou que essas propriedades de produção independente,
anteriormente estavam sob algum regime de comodato (sistema de parceria), sendo estes
abandonado devido às exigências de técnicas de manejo que acabavam gerando muitos
investimentos e, consequentemente, eliminando a possibilidade de renda/lucro com a
atividade.
Para um maior conhecimento do objeto de estudo, incluiu-se no instrumento de coleta
de dados uma pergunta sobre a qual empresa agroindustrial as propriedades estavam
vinculadas, seja em regime de comodato (sistema de parceria) ou de produção independente.
O resultado pode ser observado no gráfico abaixo:
55
3,33%
16,67% Não resposta
Sadia
Perdigão
Alibem
Avipal
Diplomata
80,00%
Gráfico 3 – Percentual da Participação das Agroindústrias na produção de Suínos
Fonte: pesquisa
Os dados demonstraram a predominância de duas empresas do setor agroindustrial,
Agroindústria SADIA (unidade de Três de Passos), com 80% das propriedades e o Frigorífico
Alibem sediado na cidade de Santa Rosa, com 16,67%.
A predominância da empresa Sadia deve-se, como citado acima, ao seu programa 3S –
Suinocultura Sustentável, que foi fundamental para a disseminação de biodigestores na
Microrregião de Santa Rosa. Nota-se que o frigorífico Alibem possui uma considerável
participação, devido à migração de propriedades vinculadas a Sadia e também pela política
adotada, uma vez que,trabalha com sistema de parceria e também efetua compras diretamente
com produtores independentes.
Outra pergunta realizada para conhecer o perfil das propriedades em estudos foi
referente ao tipo de produção utilizado em cada granja, isto é, como se caracteriza o sistema
de criação de suínos na granja. De acordo com bibliografias especializadas sobre o assunto
define-se cada sistema:
- UPL 8 kg: Unidade de Produção de Leitões até 8kg: As UPLs são aquela criação que
envolve basicamente as fases de reprodução e tem como o produto final a produção de leitões
com peso médio de 06 a 08 kg e com apenas em média de 20 dias de idade. Após o desmame,
são encaminhados a outro estabelecimento para a fase de creche.
- UPL 23 kg: Unidade de Produção de Leitões até 23 kg: As UPLs são aquela criação
que envolve basicamente as fases de reprodução e tem como o produto final a produção de
leitões com peso médio de 18 a 23 kg e 50 a 60 dias de idade. Essa criação, além dos
56
reprodutores, tem a fase de creche na qual os leitões permanecem do desmame até a
comercialização.
- Terminação (Engorda): envolve somente a fase crescimento e terminação dos
suínos, portanto tem como produto final o suíno terminado (115 kg); è também uma criação
especializada e usualmente recebe os leitões com 23 kg de peso, com a ração, medicamentos e
assistência técnica das agroindústrias e ou das cooperativas. O produtor entra com as
instalações para o alojamento dos suínos, deposito de ração, sistema de tratamento de dejetos
e a mão-de-obra para a produção dos mesmos. Este produtor é remunerado em função do
desempenho do lotes dos suínos (relação de consumo de ração e produção de carne).
- Ciclo completo: no qual o mesmo estabelecimento desenvolve todas as etapas de
produção dos animais do nascimento ao abate, isto é, acasalamento ou inseminação,
nascimento, desmame, creche, crescimento e terminação, bem como a produção da ração na
propriedade. O número de produtores que estão utilizando este sistemas de produção de
suínos é pequeno e tende a desaparecer, principalmente em função dos custos de produção da
implantação de programas de qualidade (rasteabilidade).
- Creche (50 dias): após o desmame dos leitões, os mesmos são encaminhados ao
local chamado unidade de crescimento inicial ou creches, conforme comumente são
denominados. O período de utilização desta instalação, normalmente, vai da desmama até 65
a 70 dias de idade dos leitões, quando estes atingem em torno de 25 kg de peso vivo por
leitão. Após, seguem para a terminação (engorda)
- Central de Inseminação: é o estabelecimento onde ocorre o recolhimento de sêmen
de melhores animais (suínos machos) para, posteriormente, serem comercializados para serem
utilizados nas inseminações artificiais, que é uma técnica de reprodução animal que consiste
em introduzir o sêmen do macho, por meios instrumentais, no local mais apropriado do
sistema genital da fêmea, possibilitando a ocorrência da fertilização.
Com a pesquisa obteve-se os seguintes dados:
57
3,33% 6,67%
UPL - Unidade de Produção de Leitões (Até 8 Kg)
UPL - Unidade de Produção de Leitões (Até 23 Kg)
TERMINAÇÃO - Engorda
20,00% CICLO COMPLETO
Creche (50 dias)
Central de Inseminação
70,00%
Gráfico 4 – Tipo de produção de suínos pelas propriedades
Fonte: pesquisa
A pesquisa observou que grande parte das propriedades que possuem biodigestores
instalados é de terminação-engorda (70%), seguido pelo sistema de UPL – Unidade de
Produção de Leitões até 23 kg (20%), após de UPL – Unidade de Produção de Leitões até 8
kg (6,67%) e Ciclo completo (3,33%).
Também foi pesquisado o porte de cada propriedade, isto é, o tamanho das mesmas.
Nas bibliografias sobre o assunto, existem diversas formas de definição. Devido a este fato,
optou-se por utilizar a medida definida pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental
Henrique Luis Roesseler - FEPAM (instituição responsável pelo licenciamento ambiental no
Rio Grande do Sul, vinculada à Secretaria Estadual do Meio Ambiente – SEMA).
Segundo a FEPAM (2004), é considerada de determinado porte uma propriedade de
criação de suínos a partir da quantidade de animais que possui, sendo assim:
- Pequeno Porte: até 500 animais.
- Médio Porte: De 501 a 600 animais.
- Grande Porte: De 601 a mais animais.
Veja no gráfico abaixo como estão caracterizadas as propriedades neste quesito:
58
3,33%
Pequeno Porte ( Até 500 animais)*
Médio Porte ( de 500 a 600 animais)*
Grande Porte ( de 600 a mais animais)*
30,00%
66,67%
Gráfico 5 – Tamanho das Propriedades
Fonte: pesquisa
O estudo relata que 66,67% do total das propriedades são consideradas de grande
porte, 30% são consideradas propriedades de médio porte e apenas 3,33% de pequeno porte.
Observando os dados, pode-se verificar que as propriedades de grande porte e médio porte, ou
seja, com mais de 500 animais, têm predominância na instalação de biodigestores, pois
representam 96,67% do total de propriedades.
Percebe-se que a disseminação da tecnologia de biodigestores também ocorreu em
propriedades de médio e pequeno porte, com um percentual de 33,33%. É um fato positivo
para o combate a poluição dessa atividade, uma vez que propriedades deste porte não
possuem recursos financeiros disponíveis para um adequado manejo de dejetos.
4.3.3 Biodigestores instalados nas propriedades
Após analisar o perfil das propriedades, o estudo focou-se em obter informações
referentes aos biodigestores instalados nas referidas propriedades.
A questão foi elaborada para identificar qual o(s) tipo(s) de biodigestores que estão
sendo utilizados nas propriedades. As bibliografias sobre o assunto apontam basicamente três
tipos de biodigestores, sendo eles: modelo chinês, modelo indiano e modelo canadense.
Na Microrregião de Santa Rosa, em 100% das propriedades é utilizado o modelo
canadense (Figura 10), que é um modelo tipo horizontal, apresentando uma caixa de carga em
alvenaria e com a largura maior que a profundidade, possuindo, portanto, uma área maior de
exposição ao sol, o que possibilita uma grande produção de biogás. Durante a produção de
59
gás, a cúpula do biodigestor infla porque é feita de material plástico maleável (PVC), podendo
ser retirada.
Figura 11- Biodigestor - modelo canadense
Fonte: pesquisa
Além de identificar o modelo de biodigestor instalado, observou-se a quantidade de
biodigestores instalados nas propriedades, obtendo-se os seguintes dados, conforme expressos
no gráfico:
6,67%
Um
6,67%
Dois
Três
6,67% Quatro
Cinco
80,00%
Gráfico 6 – Número de Biodigestores Instalados nas propriedades
Fonte: pesquisa
60
Em 80% das propriedades, há a predominância de 1 (um) biodigestor. Observou-se
que em muitas propriedades foram construídos apenas um biodigestor simplesmente para um
maior aproveitamento do terreno disponível; porém, toda a produção de dejetos na
propriedade é absorvida pela capacidade do biodigestor.
O restante das propriedades possui os seguintes números de biodigestores instalados,
6,67% com dois equipamentos, 6,67% com três equipamentos e 6,67% com quatro
equipamentos instalados.
Também se estudou o período de tempo que estão instalados estes equipamentos nas
granjas, com base de referência o ano de 2010, obtendo-se os seguintes dados:
3,33%
menos de 1 ano
1 ano
26,67%
2 anos
3 anos
4 anos
5 anos a mais
70,00%
Gráfico 7 – Período de tempo que os biodigestores foram instalados
Fonte: pesquisa
Os dados obtidos revelam que 70% dos biodigestores instalados possuem três anos de
utilização, seguido de 26,67% com dois anos em uso e 3,33% com quatro anos de utilização.
Quando foi abordado o tema de obtenção de recursos financeiros, observou-se que a
construção da maioria dos biodigestores se deu através da iniciativa de empresa agroindustrial
e empresa privada. Veja o gráfico:
61
3,33%
Próprios
Sistema de Comodato/Parceria
Financiado por Instituições Financeiras
Financiado por empresas estrangeiras
96,67%
Gráfico 9 – Obtenção de recursos financeiros para instalação dos biodigestores
Fonte: pesquisa
Os equipamentos instalados com recursos provindos da agroindústria e/ou empresa
investidora, num sistema de Comodato/Parceria, apresentam um percentual de 96,67% das
propriedades e os equipamentos instalados com recursos dos próprios proprietários
constituem apenas 3,33% do total, o que no presente estudo representa apenas uma
propriedade.
4.3.4 Estado de conservação dos biodigestores
Após apresentar um perfil das propriedades que possuem biodigestores instalados, o
estudo passou a analisar como está o funcionamento destes equipamentos, observando qual o
estado de conservação dos mesmos, a fim de diagnosticar e analisar a implantação e utilização
dessa tecnologia pelos produtores.
Para começar a diagnosticar a situação do uso desta tecnologia, foi elaborada a
seguinte pergunta as propriedades: O(s) biodigestor(es) encontra(m)-se em qual estado de
conservação? As possibilidades de resposta eram duas: se os biodigestores estavam
funcionando em plenas condições (biogás e biofertilizante) ou se os mesmos encontravam-se
desativados, ou seja, servindo apenas como depósito para os dejetos, não havendo processo de
digestão anaeróbica dos resíduos.
O estudo revelou os seguintes dados:
62
Funcionando em plenas condições
Encontra-se desativado(s)
33,33%
66,67%
Gráfico 9 – Estado de conservação dos equipamentos (biodigestores)
Fonte: pesquisa
Os biodigestores que estão funcionando em plenas condições, ou seja, produzindo
biofertilizante e biogás, representam 66,67% das propriedades estudadas. Os outros 33,33%
encontram-se desativados, servindo apenas como uma lagoa de depósito e, em alguns casos,
abandonados, como pode-se observar nas Figuras 11, 12 e 13.
Figura 12 – Biodigestor desativado A
Fonte: arquivo do autor
63
Figura 13 – Biodigestor desativado B
Fonte: arquivo do autor
Figura 14 – Biodigestor desativado C
Fonte: arquivo do autor
Diante deste fato, no decorrer da pesquisa, será possível identificar e analisar os
possíveis motivos para tal situação encontrada.
64
4.3.5 Indicadores referentes ao manejo dos biodigestores
A pesquisa procurou levantar dados referentes ao manejo com os biodigestores para
verificar o nível de conhecimento dos produtores com a tecnologia e também como forma de
identificar os problemas enfrentados pelos mesmos.
Primeiramente, os produtores foram indagados em relação aos subprodutos oriundos
do processo de biodigestão (biofertilizante e biogás), verificando se possuíam conhecimentos
técnicos ou como poderiam utilizá-los estes subprodutos. A pesquisa revelou os seguintes
dados:
Sim
Não
50,00% 50,00%
Gráfico 10 – Conhecimento técnico sobre os subprodutos da biodigestão
Fonte: pesquisa
Apenas 50% dos produtores tinham conhecimentos técnicos e tiveram contato com
alguma informação mais detalhada referente ao uso dos subprodutos da tecnologia de
Biodigestores. Verificou-se que há um percentual muito elevado de propriedades que tinham
um mínimo ou nenhum conhecimento sobre as possibilidades de uso.
Na pesquisa de campo, pode-se observar que os produtores detinham o conhecimento
de usar o biofertilizante como adubação nas outras atividades da propriedade, principalmente
na adubação da lavoura, pastagens ou até mesmo na venda para outras propriedades vizinhas.
Esta diversificação de atividades é um fator importante para o recebimento desta tecnologia.
Porém, observa-se que este conhecimento não é tão amplo e o produtor não tem a noção da
quantidade de biofertilizante que deve ser aplicada no solo, existindo uma superdosagem na
utilização.
65
Outro fator importante verificado é que, considerando que a tecnologia de biodigestão
envolve conhecimentos como a microbiologia, física e química e que estas não são abordadas
no ciclo escolar até a quinta série, o reduzido nível de escolaridade pode ser considerado
como uma desvantagem para esses produtores ao utilizar esta tecnologia (PALHARES,
MASSOTTI, SOUZA, 2003).
Partindo deste princípio, perguntou-se aos produtores qual era o nível de escolaridade
da pessoa que maneja o biodigestor, obtendo-se os seguintes dados, conforme gráfico abaixo:
13,33%
Ensino Fundamental Incompleto
Ensino Fundamental completo
Ensino Médio Incompleto
Ensino Médio completo
36,67%
Ensino Superior Incompleto
Ensino Superior completo
50,00%
Gráfico 11 – Nível de escolaridade das pessoas que manejam o biodigestor
Fonte: pesquisa
A pesquisa revelou que 50% dos entrevistados possuem o ensino médio incompleto,
seguido de 36,67% com o ensino médio concluído e 13,33% com apenas o ensino
fundamental completo. Considerando que 100% das pessoas possuem o ensino fundamental
completo ou mais, os mesmos, entende-se que os mesmos possuem conhecimentos básicos
que envolvem a tecnologia de biodigestão.
Quando perguntados se tiveram algum treinamento para o manuseio do equipamento,
obtiveram-se os seguintes dados:
66
Sim
Não
30,00%
70,00%
Gráfico 12 – Treinamento para o manuseio do biodigestor
Fonte: pesquisa
Das 100% das propriedades que possuíam biodigestores instalados, 70% dos seus
proprietários responderam que receberam treinamento para o manuseio dos equipamentos, e
30% responderam que não receberam treinamento algum.
Para obter uma informação mais aprofundada sobre o tema, perguntou-se aos
produtores que tiveram algum tipo de treinamento com quem haviam obtido informações
sobre o assunto, obtendo-se os seguintes dados:
Não resposta
Emater
26,67%
Fepam
Própria empresa de comodato
Empresa que instalou o biodigestor
Instituições de Ensino
50,00%
3,33%
20,00%
Gráfico 13 – Obtenção de informação a respeito dos Biodigestores
Fonte: pesquisa
No contato com os produtores, verificou-se que 50% deles obtiveram treinamento com
a empresa contratada para a implantação do sistema na propriedade. Este treinamento se
desenvolveu através de conversas no momento de instalação. Portanto, não foi um
67
treinamento e apenas um tira dúvidas, o que comprova os dados obtidos anteriormente, de que
50% dos produtores não detinham conhecimento de como poderiam utilizar os subprodutos
oriundos do processo de biodigestão. Outros 20% relataram que obtiveram treinamento com a
própria empresa de comodato (conforme explicado no decorrer desta pesquisa) 3,33%
responderam que foi através da FEPAM e 26,67% não sabiam responder.
Ainda referente ao processo de obtenção de informação e treinamento da tecnologia da
informação, os produtores foram questionados se, em algum momento antes ou após da
aquisição do biodigestor, fizeram algum curso específico, no qual alguns profissionais que
consideravam altamente capacitados estiveram em contato direto, ministrando alguma
palestra, fazendo alguma demonstração técnica. 100% dos entrevistados responderam que não
tiveram nenhum curso específico para o manuseio da tecnologia, o que se considera um fator
muito preocupante.
Um indicador importante relacionado ao conhecimento do processo de biodigestão e
equipamentos utilizados é a disponibilidade de mão-de-obra para o manejo do biodigestor. A
leitura específica recomenda que, para o manejo diário de biodigestores modelo canadense
(100% utilizado nas propriedades em questão), o ideal seria o manejo diariamente de
aproximadamente 20 a 30 minutos. Quando perguntados qual era o tempo de mão-de-obra
disponível para o manejo do biodigestor na propriedade, 50% dos produtores responderam
que semanalmente (1 a 4 vezes por semana) é realizado o manejo nos equipamentos. 36,67%
realizam o manejo mensalmente (1 vez por mês), 10% realizam o manejo uma vez por
semestre e 3,33% responderam que realizam o manejo quando acreditam ser necessário.
10,00% 3,33%
1 hora
30 minutos
20 minutos
Não há manejo diariamente
semanal
mensal
semestral
36,67% 50,00%
Gráfico 14 – Tempo disponível para o manejo do biodigestor
Fonte: pesquisa
68
Com esta constatação, é possível concluir que os mesmos tiveram pouco acesso à
informação, o que demonstra o por que do percentual de 33,33% do total dos biodigestores
estarem desativados.
4.3.6 Assistência técnica
Uma maneira de manter o processo de biodigestão em pleno funcionamento, nas
propriedades rurais, consiste no oferecimento de uma assistência técnica periódica a estes
produtores.
A pesquisa revelou, conforme gráfico abaixo, que 86,67% das propriedades não
possuem uma assistência técnica periódica ,contra apenas 13,33% que relatam possuir uma
assistência técnica ao dispor.
13,33% Sim
Não
86,67%
Gráfico 15 – Propriedades que possuem assistência técnica periódica
Fonte: pesquisa
Quando abordados sobre o número de visitas técnicas à propriedade por técnicos de
programas de expansão rural bem como extensionistas de empresas privadas, obtiveram-se os
seguintes dados, conforme pode-se visualizar no gráfico abaixo. Do total de propriedades,
66,67% respondeu que possuem uma assistência técnica semestral, isto é, uma vez a cada seis
meses, quando um técnico visita a propriedade especificamente para tratar do processo de
biodigestão; 16,67% tem à disposição uma visita a cada mês; 6,67% relataram que nunca
tiveram assistência técnica e 10% responderam que não há assistência técnica.
69
10,00%
16,67% Visita semanal
Visita mensal
6,67%
Visita semestral
Não houveram visitas
Não há visitas técnicas
66,67%
Gráfico 16 – Número de visitas técnicas às propriedades
Fonte: pesquisa
No confronto de informações, identificou-se que a maioria dos produtores considera
como assistência técnica periódica uma visita técnica semestral. Este fato demonstra a
importância em insistir em uma cooperação maior entre produtores de suínos e técnicos dos
programas de expansão rural, tanto do governo como de empresas privadas, para que a
implantação dos biodigestores obedeça a determinadas regras que padronizem sua utilização,
evitando a frustração dos criadores de suínos, levando os mesmos a abandonar esta importante
tecnologia alternativa. É de fundamental importância que haja uma maior conscientização dos
diversos segmentos relacionados à cadeia produtiva do suíno como um todo, para alcançar
resultados melhores.
4.3.7 Aspectos ambientais0
Com as propriedades envolvidas na pesquisa foram realizadas perguntas que dizem
respeito aos aspectos ambientais envolvidos com a produção de suínos, especificamente
relacionado com os equipamentos de biodigestão.
Conforme as legislações vigentes no Estado do Rio Grande do Sul, referente às
distâncias mínimas permitidas em relação a mananciais de água, núcleos populacionais, entre
outras exigências, conforme material contido no Anexo A (Critérios Técnicos para o
Licenciamento Ambiental de Novos Empreendimentos destinados a Suinocultura) e Anexo B
(Croqui da Legislação Vigente no Estado do RS), os produtores foram questionados sobre
70
distância do biodigestor e possíveis lagoas de depósito da estrada principal (ligação
município-interior, intermunicipais), obtendo-se os seguintes dados:
3,33%
0 a 50 metros
51 metros a mais
96,67%
Gráfico 17 – Distância das propriedades da estrada principal
Fonte: pesquisa
Nas propriedades pesquisadas, 96,67% dos biodigestores e das lagoas de depósito
estão localizados a mais de 51 metros de estradas, isto é, estão de acordo com a legislação
vigente. Em apenas 3,33% das propriedades (uma propriedade do total) o biodigestor está
localizado entre 0 a 50 metros da estrada, em desacordo com a legislação.
No que se refere à distância do biodigestor e possíveis lagoas de depósito de
habitações e terrenos vizinhos, a legislação prevê para propriedades de Pequeno Porte
(mínimo de 200 metros), Médio Porte (mínimo de 300 metros) e Grande Porte (mínimo de
400 metros).
71
3,33%
6,67%
0 a 100 metros
101 a 200 metros
201 a 300 metros
301 a 400 metros
401 metros a mais
43,33%
46,67%
Gráfico 18 - Distância das propriedades de habitações e terrenos vizinhos
Fonte: pesquisa
Conforme visualizado anteriormente, em relação às características das propriedades
estudadas, o estudo relata que 96,67% do total das propriedades são consideradas de grande e
de médio porte e apenas 3,33% de pequeno porte. Diante deste fato, verifica-se que 10% das
propriedades não respeitam as distâncias vigente em leis, pois seus biodigestores e lagoas de
depósito estão de 0 a 200 metros distantes de habitações e terrenos vizinhos, sendo que, para
uma propriedade considerada de Pequeno Porte, a legislação prevê um mínimo de 200 metros.
O restante, 90% delas, estão a mais de 301 metros, em conformidade com a Lei. Nesta
observação, a pesquisa de campo foi fundamental para visualização da situação real.
Outra questão abordada foi a que distância o biodigestor e possíveis lagoas de depósito
ficam de núcleo populacional, obtendo-se os seguintes dados conforme gráfico abaixo.
3,33%
6,67%
0 a 300 metros
301 a 600 metros
601 a 900 metros
901 a 1200 metros
1200 metros a mais
23,33%
66,67%
Gráfico 19 - Distância das propriedades de núcleo populacional
Fonte: pesquisa
72
No que se refere à distância a qual o biodigestor e possíveis lagoas de depósito ficam
de algum núcleo populacional, a legislação prevê uma distância de 300 a 1000 metros, sendo
definida a distância conforme a predominância do vento.
Como a distância é definida conforme aspectos climáticos, estabeleceu-se como forma
de análise a distancia mínima prevista (300 metros). Neste caso, apenas 3,33% das
propriedades, isto é, uma única propriedade encontra-se em desacordo com a legislação, pois
o restante (96,67%) está a uma distância maior de 600 metros.
Os produtores também foram questionados sobre a proximidade do biodigestor e das
lagoas de depósito com águas superficiais (rios, sangas, açudes). De acordo com a legislação
vigente, propriedades de pequeno porte devem respeitar o limite de 25 metros, mais código
florestal; as de médio porte devem atender ao limite de 150 metros, mais código florestal; e as
de grande porte devem respeitar o limite de 250 metros, mais código florestal (Conforme
Anexo B).
O código florestal determina as seguintes distâncias, conforme quadro:
LARGURA DO RIO FAIXA MARGINAL
Até 10 metros 30 metros
10 à 50 metros 50 metros
50 à 200 metros 100 metros
200 à 600 metros 200 metros
Acima de 600 metros 500 metros
Quadro 1 – Distâncias preconizadas pelo Código Florestal
Fonte: Adaptado – FEPAM/RS
Como na região da pesquisa as propriedades não se encontram em proximidade de rios
maiores de 10 metros, a legislação prevê as distancias mínimas estipuladas mais o código
florestal, o que representa uma distância acrescida de 30 metros caso venha a existir.
A observação no campo da pesquisa demonstrou que todas as propriedades que
possuem biodigestores implantados encontram-se dentro da área mínima permitida, distantes
das lagoas de depósito com águas superficiais (rios, sangas, açudes). Este resultado deve-se ao
fato das exigências serem cumpridas pelas empresas envolvidas na produção (agroindústria),
além de estarem participando de projetos que visam a minimização do impacto ambiental
nessas áreas.
73
Ainda referente aos aspectos ambientais, foi questionado se, do ponto de vista do
produtor, o biodigestor atendia e solucionava as exigências ambientais legais. Os produtores
não souberam responder, devido ao fato de não terem um conhecimento sobre a legislação.
Apenas tinham informação do que era repassado pelas agroindústrias no momento de
construção das instalações, no inicio da atividade.
4.3.8 Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
Conforme relatado, os biodigestores foram instalados com o objetivo de geração de
crédito de carbono, os chamados projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. No
ambiente de pesquisa, foi realizado o levantamento de quais empresas estão trabalhando neste
aspecto (veja o gráfico abaixo).
6,67%
Não possui
Sadia
Agcert
93,33%
Gráfico 20 – Percentual de Propriedades com cada empresa parceira em Projetos de MDL
Fonte: pesquisa
Do total, 93,33% constituem projetos vinculados à agroindústria Sadia e 6,67% à
empresa Agcert.
Quando perguntados se até o momento haviam recebido algum valor referente ao
crédito de carbono, obtiveram os seguintes resultados, conforme pode-se visualizar no gráfico
abaixo.
74
3,33%
Sim
Não
96,67%
Gráfico 21 – Percentual de propriedades que já receberam algum valor monetário referente aos créditos de
carbono
Fonte: pesquisa
96,67% das propriedades, até o presente momento, não obtiveram nenhum recurso ou
não foram informados que seus equipamentos estão sendo custeados pelo valor proveniente
dos créditos de carbono. Apenas 3,33% do total, isto é, uma propriedade, está recebendo
valores monetários referente aos projetos de MDL.
4.3.9 Casos práticos
Para compreender a situação real da utilização dos biodigestores na Microrregião de
Santa Rosa, são apresentados dois casos práticos.
Caso 1 – Conjunto gerador de eletricidade: Granja Barichello
A Granja Barichello está localizada na linha Campininha Tucunduva, no município de
Tucunduva, no Estado do Rio Grande do Sul. Esta propriedade é uma Unidade Produtora de
Leitões – UPL, com um plantel de 400 matrizes e um volume diário de dejetos estimado em
17 metros cúbicos.
O terreno onde a Granja Barichello está localizada possibilitou a instalação do
biodigestor e a implantação de unidades coletoras de dejetos de modo mais racional,
facilitando as condições de manejo. O terreno está em certo grau de declive, possibilitando
que os dejetos gerados na unidade produtiva sejam conduzidos em tubos de 150 mm (PVC),
sem a necessidade de bombeamento, para uma caixa de homogeneização de vazão (Figura
75
14). Todo o dejeto produzido na propriedade é destinado para dentro do biodigestor, onde o
mesmo passa por um tempo de residência hidráulica estimado em 30 dias.
Figura 15 - Tubulação coletora de dejeto
Fonte: Arquivo do Autor
O biodigestor construído na propriedade é do modelo canadense (Figura 15), de
operação contínua. Sua produção estimada de biogás corresponde a 160 m3 por dia,
considerando-se uma vazão média de esgoto de 17 m3 de dejetos por dia. Pelos dados
observados na prática, têm-se um volume de 0,4 metros cúbicos por dia de biogás por animal.
Figura 16 - Biodigestor
Fonte: Arquivo do autor
76
Além do biodigestor, a propriedade possui um sistema de armazenamento de biogás.
Após o processo de biodigestão, o biogás é enviado para o balão de armazenamento, através
de tubulação rígida de PVC com 50 mm de diâmetro (Figuras 16 e 17), para posteriormente
ser usado como combustível para no conjunto motor-gerador.
Figura 17 - Balão de armazenamento
Fonte: Arquivo do Autor
Figura 18 - Biodigestor e balão de armazenamento
Fonte: Arquivo do Autor
77
O conjunto gerador consiste em um motor de combustão interna Ciclo Otto (diesel),
adaptado para o uso do biogás como combustível, acoplado a um gerador de eletricidade,
gerando energia dentro da propriedade com um sistema de distribuição interno e isolado, no
qual existe uma caixa de comando. Nesta caixa de comando, encontra-se a energia gerada
pelo grupo gerador a biogás e a provinda da concessionária local. Através do acionamento de
uma chave central, o proprietário criador escolhe qual energia utilizar.
O biogás armazenado é transportado por meio de tubulação rígida de PVC com 50 mm
de diâmetro. Nesta tubulação, existem um ou mais pontos de purga d’água. Também foi
instalado, na rede de distribuição do biogás para o conjunto gerador, um sistema de filtro, com
limalha de ferro no seu interior, visando à remoção de H2S.
Na granja foi instalado um conjunto motor-gerador de eletricidade trifásico (conforme
Figura 18) com as seguintes especificações: Modelo GGB 30 kVA BIOGÀS com Potência 30
kVA Stand BY / 25 kVA Contínuo, Controle de Rotação Eletrônico por sensor
eletromagnético, Chassi com perfil U dobrado, Dimensões Altura /Largura/Comprimento
1200mm X 1000mm X 2000mm, Peso 1.000 kg. GERADOR Marca WEG com Acoplamento
Tipo rígido com flange, Grau de proteção IP-21, Numero de pólos 4, Rotação 1800 RPM,
Freqüência 60 Hz, tensão 380 V, MOTOR Marca Ford 4.9.
Figura 19 - Conjunto motor-gerador
Fonte: Arquivo do Autor
O conjunto motor-gerador instalado requer alguns cuidados, conforme recomendações
para manutenção do sistema, como: troca de óleo e filtro a cada 250 horas; deve-se usar óleo
78
número 40 (um óleo monoviscoso). No total, são 6 litros com a troca do filtro, pois é
necessária sempre a troca deste; troca das velas a cada 500 horas, sendo que a cada 250 horas
elas devem ser limpas. Necessita-se verificar a tensão da correia do alternador semanalmente.
A água do sistema de arrefecimento e o nível de óleo devem ser verificados diariamente.
Este conjunto motor-gerador foi instalado, na referida granja, no mês de abril de 2010,
período em que inicia o inverno climático na região Sul. No presente momento, o conjunto
motor-gerador está funcionando por um período de 10 a 12 horas/dia, uma vez que ocorre
uma diminuição na produção de biogás com a queda da temperatura.
O consumo de biogás observado varia entre 10 e 15 metros cúbicos/hora no conjunto
motor-gerador, dependendo da potência elétrica gerada. Para viabilizar o investimento, a
propriedade precisa encontrar formas de utilizar o excesso de energia produzida.
O monitoramento da geração de energia elétrica para avaliação técnica do sistema
demonstrou que a eletricidade gerada alimenta a rede de distribuição em baixa tensão 220/380
VAC e que no ponto mais distante do sistema (200 metros) a queda de tensão verificada não
ultrapassou a 1,2%.
Outro fator importante, vinculado à localização da propriedade, é a ocorrência de
grandes números de eventos ambientais (chuvas com ventos fortes), o que acarreta muitas
interrupções da transmissão de energia por parte da concessionária local, sendo que o
conjunto motor-gerador é estratégico para poder minimizar os efeitos desta falta de energia,
tornando-se também um gerador de emergência.
A granja Barichello participa do programa 3S – Suinocultura Sustentável Sadia. Desta
forma, para que a propriedade continuasse participando do projeto de obtenção de créditos de
carbono, o grupo Motor/Gerador instalado é devidamente homologado pelo Instituto Sadia de
Sustentabilidade.
Para tal, a empresa que forneceu o Grupo Motor/gerador teve que atender a critérios
básicos de fornecimento de sistemas de aproveitamento energético de biogás para a geração
de energia elétrica, estabelecidos através de um memorial do Centro de Inovação e Excelência
– Sadia. A adequação do Grupo motor/gerador deve estar dentro dos requisitos da
metodologia ONU para a redução de emissões, além de outras especificações obrigatórias
fornecida pela Sadia, a fim de que o sistema de geração de energia seja aprovado e integrado
ao sistema biodigestor/queimador do programa 3S.
No memorial, constam as características da aplicação do sistema, características
técnicas do conjunto motor/gerador, as características das instalações e os passos para a
79
homologação Sadia, sempre em conformidade com os requisitos da metodologia ONU para
redução de emissões.
Portanto, a iniciativa da agroindústria Sadia, através do instituto Sadia de
Sustentabilidade, em disseminar a tecnologia de biodigestores a esses produtores e ainda
oportunizar que os mesmos agreguem valor através da utilização dos subprodutos oriundos da
biodigestão é de fundamental importância, tanto para a minimização dos impactos ambientais
causados por esta atividade quanto para o aumento da renda desses suinocultores, através de
uma suinocultura sustentável.
O estudo de viabilidade econômico-financeira apresenta resultados animadores na
utilização desta tecnologia, uma vez que se trata de uma Unidade de Produção de Leitões, que
demanda grande consumo de energia para o aquecimento dos animais recém-nascidos, sendo
a propriedade possuí uma pequena fabrica de ração. Como a utilização deste conjunto motor-
gerador está em fase inicial, realizou-se um estudo de viabilidade econômico-financeira em
um cenário considerado não favorável ao processo de biodigestão (inverno), quando a
produção de biogás é reduzida e, consequentemente, a fonte de energia para a combustão
sofre considerável diminuição devido ao frio (bactérias em menor grau de atividade no
processo de biodigestão).
A pesquisa demonstra que um sistema de biodigestores somente é viável
economicamente se todos os produtos processados no biodigestor sejam aproveitados de
forma integral, no caso demanda energética e biofertilizante; caso contrário, o dispêndio de
capital torna-se ineficiente e sem o retorno esperado ao longo do horizonte do projeto. Desta
forma, na Granja Barichello estes produtos originados no processo de biodigestão são
totalmente utilizados: a energia elétrica gerada é distribuída para a propriedade e o
biofertilizante é comercializado para os produtores rurais interessados em alocar em suas
lavouras um excelente adubo e/ou utilizado na própria propriedade em estudo, reduzindo o
gasto com adubo químico.
Para a realização dos cálculos, utilizou-se o software Microsoft Excel 2007, conforme
os cálculos apresentados no Apêndice B. O cálculo considerou-se as seguintes informações:
- produção de energia elétrica e produção de biofertilizante, sendo comercializados da
seguinte forma: energia elétrica conforme preço praticado pela concessionária e biofertilizante
ao valor de R$ 1,00 cada metro cúbico, conforme praticado atualmente na propriedade;
- referente à produção de Energia Elétrica, considerou-se o Motor/Gerador trabalhando
10 horas/dia, gerando, em média, 77 Kw/h de energia elétrica/dia. (dados atuais de produção);
80
- o custo de mão-de-obra foi considerado parcialmente, pois a atividade de
manutenção do biodigestor e equipamento faz parte do processo produtivo. Além disso, a
mão-de-obra empregada nesta propriedade é totalmente familiar.
Destes princípios, analisou-se que o custo para a instalação de um sistema
motor/gerador para a produção de energia elétrica é de R$ 33.758,00 (trinta e três mil,
setecentos e cinquenta e oito reais).
Verificou-se que, nestas condições de produção, consideradas no pior dos cenários,
com baixa produção de biogás e muito consumo de energia elétrica, o retorno do investimento
será de 2 anos e 11 meses. Ressalta-se que, nos meses de verão, aumenta a geração de biogás,
o que certamente irá diminuir o período de retorno do investimento.
Portanto, é um investimento que agrega valor à propriedade e que demonstra a
oportunidade de obter melhores resultados financeiros. O que se verifica é há necessidade de
uma maior informação desses proprietários que possuem estes equipamentos, para garantir
uma melhor renda e contribuir com a sustentabilidade ambiental.
Caso 2 – Propriedade com venda de créditos de carbono
Uma das propriedades estudadas foi a Granja Ipê, localizada no município de Santa
Rosa, que possui cerca de 7 000 suínos, sob um regime de ciclo completo – no qual o mesmo
estabelecimento desenvolve todas as etapas de produção dos animais ,do nascimento ao abate,
isto é, acasalamento ou inseminação, nascimento, desmame, creche, crescimento e
terminação. A propriedade não possui sistema de parceria, ou seja, não possui acordo de
exclusividade com alguma empresa agroindustrial.
Na referida propriedade, existem dois biodigestores de modelo canadense. Os
equipamentos foram financiados por uma empresa que atua na comercialização de créditos de
carbono, sendo que esta empresa fica responsável por todo o investimento na construção e
manutenção da infraestrutura dos biodigestores, além de ajudar nas documentações (conforme
Anexo C).
O sistema de financiamento desses equipamentos funciona da seguinte forma: A
empresa investidora em créditos de carbono instala e se responsabiliza pela manutenção dos
biodigestores por um período de 10 anos. Nesse período, a companhia fica com 90% dos
créditos gerados e 10% ficam com a propriedade que alocou o biodigestor.
81
Para a compreensão de como ocorre a queima do biogás para a obtenção de crédito de
carbono, apresenta-se a seguir o fluxograma de como ocorre o processo:
- a produção de biogás no interior do biodigestor se dá continuamente. Do biodigestor
existe uma tubulação em cano de PVC que faz o transporte do biogás até o equipamento
chamado Flare (queimador);
- da tubulação biodigestor/queimador, existem outros equipamentos para controlar a
queima e realizar o processo de maneira segura, além de registrar a quantidade de metros
cúbicos de biogás produzidos pelo biodigestor (Veja figura 19);
Figura 20 - Biodigestor
Fonte: arquivo do autor
- do biodigestor ao queimador (flare), existe um controlador de pressão do biogás e um
compressor para que o biogás seja transportado de maneira continua, de forma que, sempre
que o queimador for acionado, exista biogás para a queima. Assim, quando o transmissor de
pressão indicar que a pressão de gás (dentro do biodigestor) atingir o valor de 10 mmCA, o
compressor entrará em funcionamento, permitindo o fluxo do biogás e, automaticamente, terá
inicio a queima do biogás (na Flare);
- após o acendimento da Flare (Figura 20), um sensor de temperatura passa a
monitorar a temperatura da chama. Conforme previsto em projeto, a queima do biogás tem
82
que eliminar 98% do metano existente e a temperatura mínima de queima deve ser de 800
graus centigrados;
- quando o transmissor de pressão indicar que a pressão de gás atingiu o valor de 6
mmCA, o sistema será desativado, evitando assim o consumo excessivo de biogás,
proporcionando que a pressão interna do biodigestor não se reduza ao ponto de ocasionar que
a lona que cobre o biodigestor fique “murcha”, acarretando riscos de cortes.
Figura 21 – Equipamento usado para queima do Biogás (flare)
Fonte: arquivo do autor
Além da criação de suínos e, consequentemente, da participação no projeto de MDL, a
propriedade em questão possui 550 hectares de área agrícola, onde são cultivadas culturas de
inverno e verão. Grande parte da produção é utilizada para a fabricação da ração usada na
própria suinocultura. Dessa maneira, além da geração de créditos de carbono através do
biogás, outro subproduto oriundo da digestão anaeróbica é utilizado – o biofertilizante.
Através de planilhas fornecidas pelo proprietário, antes do uso do biofertilizante a granja
utilizava aproximadamente 600 Kg de adubo químico por hectare/ano (considerando o cultivo
de duas culturas/ano). Após a utilização do biofertilizante, houve uma redução de
aproximadamente 40% do uso do adubo químico, o que reflete em lucro para a propriedade,
uma vez que reduz a compra de fertilizante e ainda dá um destino adequado aos dejetos
produzidos pela criação de suínos.
5 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
No capitulo anterior, foram apresentados, e discutidos, dados reunidos na pesquisa de
campo e dois casos práticos na utilização de biodigestores na suinocultura. Ficou evidenciado
que a tecnologia de biodigestores apresenta condições de auxiliar na solução de problemas
relacionados à pratica dessa atividade. Dessa forma, neste capítulo são apresentadas as
conclusões do estudo, respondendo se a implantação e utilização do biodigestor aplicado as
propriedades suinocultoras na microrregião de Santa Rosa, situada na Mesorregião Noroeste
RioGrandense, pode se tornar uma alternativa de agregação de valor às propriedades criadoras
e se é uma alternativa viável para a solução dos problemas ambientais envolvidos no
processo. São apresentadas, também, recomendações sobre a oportunidade de prosseguimento
de pesquisas sobre o tema abordado neste estudo.
5.1 Conclusões
Com base na análise dos dados obtidos pela pesquisa de campo, confrontando-os com
as informações obtidas através da pesquisa bibliográfica e com os objetivos propostos para
este estudo, foi possível elaborar conclusões acerca do tema abordado, sendo as mesmas
expostas a seguir.
Objetivo específico 1 – identificar e analisar o perfil das propriedades que
possuem biodigestores.
Na Microrregião de Santa Rosa observa-se que o perfil das propriedades que possuem
biodigestores instalados se dá basicamente por duas formas de sistema de produção: a maioria
das propriedades (93,33%) encontra-se num regime de Comodato (Sistema de Parceria),
formalizado através de contratos que apresentam exigências quanto à origem da genética e da
ração, especificações, técnicas de manejo, retirada de medicamentos e o provimento de
assistência técnica e transporte. Os contratos apresentam garantias formais de compra e venda
às agroindústrias vinculadas e especificações de volume e prazos, exigência de exclusividade,
definição de um preço de referência e de critérios de remuneração em função do desempenho
e uniformidade.
Por outro lado, uma minoria (6,67%) trabalha em um sistema de produção
independente e não possui contratos formalizados. Estão livres de exigências quanto à origem
84
da genética e da ração e as vendas da produção são feitas aos frigoríficos de pequeno e médio
porte da mesma região, que não possuem políticas de parceria definidas. A pesquisa
demonstrou que essas propriedades de produção independente anteriormente estavam sob
algum regime de comodato (sistema de parceria), abandonando-os devido às exigências de
técnicas de manejo, que acabavam gerando muitos investimentos e, consequentemente,
eliminando a possibilidade de renda/lucro com a atividade.
Outro fator relevante na pesquisa é a constatação de que a de difusão da tecnologia de
biodigestores se deu através de duas empresas, Sadia SA e Agcert, ambas preocupadas e
interessadas nas oportunidades de combate ao efeito da poluição e a possibilidade de obtenção
financeira, desenvolveram parcerias com produtores de suínos com o proposito de difusão de
tecnologia. Apenas uma propriedade começou seus investimentos por conta própria; porém,
atualmente encontra-se vinculada a uma destas empresas, para conseguir continuar com esta
tecnologia.
Verificou-se que 80% das propriedades atualmente são integradas à empresa Sadia,
com a qual comercilizam sua produção. Das 30 propriedades estudadas, 28 delas possuem
biodigestores viabilizados pelo Programa 3S da agroindústria Sadia, através de seu Instituto
(Instituto Sadia de Sustentabilidade), que visa promover ações para o desenvolvimento
sustentável no sistema de integração de suinocultura da empresa. Estas ações serão realizadas
através do desenvolvimento de projetos com a geração de créditos de carbono, a partir da
implantação de biodigestores nas granjas para tratamento dos dejetos gerados pelos suínos,
bem como através da implementação de projetos ambientais e sociais. Portanto, o contrato de
implantação dos biodigestores foi firmado entre produtor (pessoa física) e Instituto Sadia de
Sustentabilidade. Dessa forma, mesmo que o produtor não tenha mais vinculado sua produção
à agroindústria, ainda assim possui vinculos de contrato com o Instituto Sadia em relação aos
biodigestores implantados.
Objetivo específico 2 - Diagnosticar e analisar as dificuldades encontradas pelos
proprietários rurais, na implantação e utilização dessa tecnologia.
Com base no presente estudo, percebe-se que a grande dificuldade encontrada pela
disseminação dos biodigestores para se firmar definitivamente, na Microrregião de Santa
Rosa, parece ser a conscientização dos suinocultores de que a responsabilidade pelo manejo e
destinação final de tais resíduos recai sobre eles e que, portanto, precisam usar alguma forma
de tratamento eficiente destes resíduos, pois a não observância das leis a este respeito pode
85
resultar na própria cassação do direito de exercer a suinocultura. A preocupação com as
agressões ao meio ambiente está levando os órgãos governamentais e legislativos a criar
punições cada vez mais pesadas contra os faltosos.
Além disso, a falta de informação, por outro lado, faz com que o produtor sofra com a
perda de aparelhos valiosos (biodigestores), devido ao manejo inadequado, ocasionando a
interrupção do funcionamento do biodigestor. Nessa linha, deve-se insistir em uma
cooperação maior entre associações/cooperativas de suinocultores e técnicos dos programas
de extensão rural, para que a implantação dos biodigestores obedeça a determinadas regras
que padronizem sua utilização, evitando a frustração das expectativas dos criadores de suínos,
levando-os a abandonar esta importante alternativa tecnológica.
Com base nos resultados obtidos estudo, verifica-se que 33,33% dos biodigestores
instalados na Microrregião de Santa Rosa encontram-se desativados, ocasionados basicamente
por desconhecimento de todos os processos que envolvem a biodigestão, dessa forma, a falta
de informação ocasiona um fator de desestímulo no uso dos biodigestores, uma vez que, pode
ocorrer a falta de um aproveitamento sustentado dos produtos da biodigestão (biogás e
biofertilizante) e também por uma dificuldade de condução do projeto por parte das empresas
investidoras na tecnologia, uma vez que, o estudo revela que os produtores não tiveram
nenhum curso, palestra, visitas técnicas a outros empreendimentos, para a obtenção de
informação a respeito da tecnologia de biodigestão, fato que se comprova que do total de
propriedades com os biodigestores instalados, 66,67% responderam que possuem uma
assistência técnica semestral, quando um técnico da empresa investidora visita a propriedade
para conversar sobre o processo de biodigestão, tempo insuficiente para tratar de um processo
que precisa de cuidados diários para um bom desempenho.
Outro fator importantíssimo para a disseminação dos biodigestores e,
consequentemente, aproveitamento do biogás para produção de energia elétrica, seria que os
bancos desempenhassem seu papel, importante nesses projetos, disponibilizando linhas
especiais de crédito via BNDES ou Banco do Brasil, por exemplo, com prazos diferenciados,
que pudessem oportunizar a viabilização de implantação da tecnologia e sua maior divulgação
entre os suinocultores. Também, a possibilidade de os suinocultores poderem agregar à
planilha de receitas da suinocultura a possibilidade de beneficiar-se dos custos ambientais,
isto é, incentivos fiscais ou ambientais para quem venha a utilizar a tecnologia poderiam ser
motivos alegados para a oferta de crédito. Afinal, se muitas indústrias recebem incentivos e
isenções quando instalam filtros especiais em suas máquinas, com o intuito de diminuir a
poluição do solo e das águas, por que tais benefícios não poderiam ser estendidos aos
86
suinocultores que demonstrarem preocupação com o manejo adequado e ecológico dos
dejetos produzidos? Se o cuidado com o meio ambiente reverter em vantagens especiais para
o suinocultor, os criadores se sentiriam mais propensos a continuar com o uso da tecnologia,
mesmo com todos os inconvenientes que esta apresenta em relação a outras tecnologias de
tratamento de dejetos (esterqueiras, bioesterqueiras, lagoas de decantação e alto custo de
implantação, no caso de biosistemas integrados).
Atualmente, a difusão da tecnologia dos biodigestores no Brasil enfrenta dificuldades
decorrentes de escassez de recursos financeiros, custos relativamente elevados dos
biodigestores, falta de mentalidade relacionada com a importância de um programa de
formação de recursos humanos para dar apoio à sua implantação e manutenção e
desenvolvimento de tecnologia alternativa quanto ao projeto e materiais de construção a
serem utilizados. Os biodigestores rurais possuem uma má fama devido ao descrédito
decorrente de erros de projeto, execução, operação e manutenção.
Palhares (2008) descreve que a biodigestão no Brasil ainda caminha a passos lentos.
Mesmo possuindo um dos maiores rebanhos de suínos e aves do mundo, o Brasil não possui
mais do que alguns milhares de biodigestores, sendo que a maioria dos biodigestores foi
desativada devido à falta de suporte técnico e de tecnologias eficientes. Tendo como base a
China, que possui 7,1 milhões de biodigestores, o Brasil está muito atrasado. As causas
principais para isso são a falta de mão-de-obra especializada para orientar o produtor rural,
falta de apoio financeiro e falta de tecnologias mais acessíveis. Com o aumento do preço do
petróleo, a biodigestão voltou a ser uma fonte de energia alternativa economicamente viável
em propriedades rurais. Além disso, com o protocolo de Kyoto, a utilização de biodigestores
pode gerar créditos de carbono que podem ser comercializados em bolsas de valores.
No ano de 2001, devido à crise no sistema brasileiro de fornecimento de energia
elétrica (fenômeno dos "apagões"), foi quando os biodigestores passaram a ser cogitados
novamente como fonte alternativa de energia. Entretanto, bastou que o reservatório das
hidrelétricas alcançasse um volume d'água adequado e o perigo do racionamento de energia
elétrica passar (temporariamente), para que os projetos de implantação de biodigestores
fossem esquecidos e os que estavam em andamento abandonados.
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Objetivo específico 3 - Verificar a contribuição dos biodigestores, referente à
questão energética e minimização da poluição do meio ambiente naquelas áreas.
A tecnologia de biodigestores apresenta muitas vantagens aos produtores rurais, uma
delas, por exemplo, a utilização da sobra dos dejetos após a passagem pelo biodigestor – o
biofertilizante. Este resíduo pode ser utilizado como fertilizante para agricultura
(normalmente, após uma etapa adicional de tratamento e tomando-se alguns cuidados),
possuindo teores consideráveis de nitrogênio e fósforo, mas com uma probabilidade de
disseminação de doenças reduzida.
Com a implantação em larga escala dos biodigestores e com o devido apoio técnico e
cuidados na aplicação de biofertilizante, pode-se ter uma solução que favoreça a todos: o
produtor se livra de um problema sério relacionado ao meio ambiente e ainda obtêm ganhos
com isto (energia sob várias formas, fertilizante); o meio ambiente local, com uma poluição
reduzida; e o ambiente global, com uma redução de emissões de gases.
O produtor também pode reduzir custos ao economizar gás e/ou energia elétrica.
Assim, além de evitar a poluição dos rios, o uso do biogás pode reduzir a demanda por gás de
cozinha ou por energia elétrica. Claro que o efeito isolado sob o ponto de vista energético e de
aquecimento global é pequeno, mas se um percentual grande de propriedades passar a adotar
este esquema, ele pode representar algo mais significativo.
Objetivo específico 4 - Apresentar casos práticos de aplicação da tecnologia
identificada como a mais promissora no cenário.
A apresentação de casos práticos desenvolvidos em propriedades na Microrregião de
Santa Rosa teve como objetivo demonstrar as possibilidades de utilização dos biodigestores
como alternativa de agregação de valor às propriedades criadoras e como alternativa viável
para a solução dos problemas ambientais envolvidos no processo. Além disso, demonstrou as
dificuldades encontradas pelos proprietários para a realização dos projetos.
Referente ao caso prático 1, de geração de energia elétrica através de biogás,
demonstrou-se a possibilidade de utilização do biogás para a geração de energia elétrica em
granja de produção de suínos, sendo possível a autossuficiência de produção de energia
elétrica pela propriedade nos períodos em que o Motor/Gerador está trabalhando e, ainda, a
participação da mesma na obtenção de créditos de carbono, que financiarão o custo do
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investimento dos equipamentos da biodigestão (biodigestor). Essa é uma oportunidade para o
incremento na rentabilidade das propriedades através de uma produção sustentável.
Além disso, a propriedade obteve bons resultados econômicos na construção deste
biodigestor. Nota-se que houve um melhor padrão de vida das pessoas que vivem nas
redondezas da Granja, pois após a fermentação anaeróbica dos dejetos os mesmos não
possuem mais cheiro, evitando proliferação de insetos e, com a queima dos gases poluentes,
contribui-se para um planeta mais saudável.
Uma dificuldade encontrada, como evidenciada anteriormente, é o fato de que a
produção de biogás depende de vários fatores, sendo um deles a temperatura, uma vez que os
microorganismos produtores de metano são muito sensíveis a variações da mesma. Desta
maneira, no sul do Brasil, onde se encontra a propriedade em estudo, no inverno, as
temperaturas variam e dificultam a produção de metano, sendo nesse período onde ocorre
uma maior demanda por energia.
Referente ao caso prático 2, demonstra-se as grandes dificuldades financeiras e
administrativas para a implantação de um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. A
propriedade que foi objeto de estudo é de grande porte, o que gera grandes quantidades de
biogás, proporcionando maior lucro ao produtor.
Verifica-se que, caso não houvesse a participação da Empresa Investidora em créditos
de carbono, na qual a mesma fornecesse a implantação de todo o sistema físico e o
desenvolvesse todo o processo para a aprovação do projeto de MDL, a propriedade em
questão teria um longo e custoso processo, o que provavelmente inviabilizaria o projeto.
Portanto, a utilização de biodigestores nas granjas de suínos possibilita agregar valores
como o crédito de carbono, proporciona o tratamento dos dejetos e concomitantemente o uso
do biogás para a geração de energia térmica e elétrica e o biofertilizante para o uso na lavoura,
possibilitando uma visão ampla do ponto de vista ambiental e sustentável da suinocultura
brasileira.
5.2 Recomendações
Neste item são apresentadas recomendações derivadas das conclusões anteriormente
expostas.
Recomenda-se, para a realização de novas pesquisas sobre a utilização dos
biodigestores para a minimização do problema da poluição do meio ambiente por dejetos
outros, que não os dos suínos. Uma vez que os dejetos gerados na criação de aves (que cresce
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em ritmo acelerado no Brasil), de bovinos e outros animais em criação de confinamento
produzem, diariamente, grandes quantidades de dejetos que ameaçam igualmente o meio
ambiente. Estudos sobre a possibilidade de utilizar a tecnologia dos biodigestores para o
tratamento de tais resíduos animais será mais do que oportuno, pois será um passo
importantíssimo na preservação do meio ambiente e sustentabilidade da produção.
Outra possibilidade de estudo é a criação de uma proposta para a concessão de
isenções ou reduções fiscais e tarifárias aos suinocultores que demonstrarem preocupação em
conservar o meio ambiente como, por exemplo, na utilização de biodigestores, sendo que
nessas áreas, conforme demonstrado reduz-se significativamente a poluição do solo e das
águas onde os mesmos estão instalados.
A legislação brasileira de distribuição de energia elétrica é restrita a grandes
concessionárias, inibindo a possível geração de energia elétrica através do biogás e, posterior
venda da energia, caso não haja possibilidade/demanda de consumo na granja, possa ser
direcionada para as linhas de distribuição. Porém, a propriedade não obtém vantagem alguma,
pois não há remuneração por isso, além de ter que investir em equipamentos de elevados
custos para o monitoramento dessa energia, que estaria sendo encaminhada para as linhas
públicas de transmissão. Desta maneira, estudos nesta perspectiva de mudança de cenário
seriam bem vindos.
Outra sugestão de estudo, como abordado neste estudo, verificou-se viabilidade
econômica e de tecnologia para utilização do biogás para gerar energia elétrica por meio de
um conjunto motor/gerador, como apresentado no caso prático 1. Qual seria a possibilidade de
geração de energia através da utilização de turbinas, quais seriam os custos envolvidos no
processo, os custos de manutenção? Qual a viabilidade de implantação desta tecnologia.
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ANEXOS
ANEXO A
FEPAM – CRITÉRIOS TÉCNICOS PARA O LICENCIAMENTO DE
NOVOS EMPREENDIMENTOS DESTINADOS À SUINOCULTURA
98
99
100
101
102
103
104
105
106
ANEXO B
CROQUI EXEMPLIFICATIVO PARA O LICENCIAMENTO AMBIENTAL DE
INSTALAÇÕES PARA SUINOCULTURA PARA O ESTADO DO RIO GRANDE DO
SUL
ANEXO C
RELATÓRIO DE VALIDAÇÃO
111
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127
APÊNDICES
APÊNDICE A
QUESTIONÁRIO
131
APÊNDICE B
CÁLCULO DO GRUPO MOTOR/GERADOR
ESTUDO DE VIABILIDADE DE IMPLANTAÇÃO DE UM
MOTOR/GERADOR PARA GERAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA E
COMERCIALIZAÇÃO DE BIOFERTILIZANTE - GRANJA
BARICHELLO
(Resultados arredondados através de planilha eletrônica)
134
135
136
137
138