PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 3ª REGIÃO
VARA DO TRABALHO DE SANTA LUZIA
ATOrd 0010222-24.2023.5.03.0095
AUTOR: NATALIA MARQUES XAVIER
RÉU: SENIOR VILLAGE SERVICO EIRELI
SENTENÇA
I- Relatório
NATALIA MARQUES XAVIER ajuizou ação trabalhista em face de
SENIOR VILLAGE SERVICO EIRELI, ambos qualificados, pleiteando, em síntese, o
reconhecimento de vínculo de emprego e pagamento de parcelas dele decorrentes,
dentre outros pedidos constantes do rol da petição inicial. Atribuiu à causa o valor de
R$244.251,51. Juntou documentos, declaração de hipossuficiência e procuração.
A ré apresentou defesa escrita, suscitando preliminar e
pugnando pela improcedência dos pedidos.
A reclamante apresentou réplica.
Na audiência do dia 07/02/2024, foi colhido o depoimento
pessoal da autora e foram ouvidas duas testemunhas, encerrando-se o procedimento
instrutório.
Rejeitada a derradeira proposta conciliatória.
Razões finais orais e remissivas.
É, em síntese, o relatório.
Decido.
II- Fundamentação
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
-Impugnação ao Pedido de Justiça Gratuita
Trata-se de pleito pertinente ao mérito e nele será
oportunamente analisado. Rejeito.
-Impugnação a Documentos
As impugnações de documentos apresentadas nos autos são
irrelevantes, uma vez que não cuidaram as partes de demonstrar qualquer vício real na
documentação carreada ao feito, como lhes competia.
Por conseguinte, se os documentos são aplicáveis ou não e se
são hábeis ou não à prova será questão de análise específica no momento oportuno,
guardada a compatibilidade com a matéria sob exame.
-Vínculo de Emprego e Verbas Rescisórias
Sustenta a autora que foi contratada pela reclamada em 23/01
/2021, para exercer a função de ajudante de cozinha, mediante remuneração de
R$70,00 por dia. Afirma que teve o salário reduzido na semana seguinte para R$50,00
diários. Acrescenta que, a partir de 01/02/2021, passou a exercer a função de
repositora de restaurante, recebendo o salário de R$1.155,60 por mês. Narra que, no
dia 20/03/2021, teve seu contrato de trabalho suspenso em razão da pandemia, mas
não recebeu o benefício previsto na Lei nº 14.020/20. Aduz, ainda, que retornou às
atividades no dia 22/04/2021, para exercer a função de garçonete, contudo, não
recebia as comissões quitadas aos demais empregados. Afirma, por fim, que foi
dispensada em 01/12/2022, sem ter o contrato de trabalho anotado em CTPS,
tampouco ter recebido as verbas rescisórias. Pleiteia pelo reconhecimento de vínculo
de emprego e verbas decorrentes.
A reclamada, por sua vez, alega que a autora prestou serviço
como autônoma, entre os meses de janeiro e maio de 2021, recebendo por diárias.
Pois bem.
Para a configuração do contrato de emprego é indispensável a
cumulação dos requisitos insertos nos artigos 2º e 3º da Consolidação, quais sejam:
trabalho não eventual, prestado intuitu personae (pessoalidade) por pessoa física, em
situação de subordinação e com onerosidade.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Assim, deve o empregado ser pessoa natural (pessoa física),
bem como prestar os serviços com pessoalidade. A pessoalidade deve ser em grau
absoluto, quer dizer, o empregado presta suas energias para o empregador com
fidúcia especial. Em outras palavras, existe um caráter infungível e personalíssimo na
relação de emprego, que significa a impossibilidade do empregado fazer-se substituir
intermitentemente por outro trabalhador ao longo da concretização dos serviços
pactuados. Notadamente, há exceções para o requisito da pessoalidade, basicamente
quando houver previsão legal ou em situações esporádicas com a anuência do
empregador.
Já o conceito de trabalho eventual é de difícil caracterização pela
doutrina, havendo espaço para diversas teorias; seja a teoria do evento, que tem como
suporte a ocorrência de um evento esporádico e, por isso, não haveria lastro para a
fixação do contrato de emprego; seja a teoria dos fins do empreendimento ou da
empresa, que determina que será empregado o indivíduo inserido nas atividades
ordinárias (cotidianas) da empresa; seja a teoria da fixação jurídica ao tomador do
serviço, que postula a existência da relação de emprego, tendo em vista que o
empregado despende energia em favor do empregador.
Com efeito, o trabalho não eventual é aquele não realizado num
único evento, laborando de forma repetida e com previsão de repetição futura, porque
está inserido dentro das atividades normais da empresa (atividade-fim e atividade-
meio), sempre com fixação jurídica em relação ao tomador.
A subordinação se refere a disponibilizar o empregado a sua
energia de trabalho para que o tomador dos serviços possa comandá-la, manipulá-la e
dirigi-la. A subordinação jurídica pode ser descrita, como a situação em que o
empregado tem limitada a sua autonomia de vontade por força do contrato de
emprego, transferindo ao empregador o poder de direção sobre a atividade a
desempenhar. Expressa-se pela intensidade de ordens fundada no poder diretivo, de
um lado, e pela dependência hierárquica quanto ao modo de prestar serviço, de outro.
O requisito onerosidade como elemento fático-jurídico
componente da relação de emprego, não deve ser enfocado sob a ótica do trabalho
realizado ou mesmo sob a ótica do tomador de serviços. É que considerado sob
qualquer dessas duas perspectivas, o elemento fático-jurídico da onerosidade estaria
sempre presente, desde que houvesse prestação de trabalho por alguém a outrem.
Afinal, todo trabalho é passível de mensuração econômica no contemporâneo sistema
de mercado.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Assim, deve a onerosidade ser enfocada sob a ótica do
prestador de serviços, pois apenas nessa perspectiva é que ela constitui elemento
fático-jurídico da relação de emprego.
Desse modo, a onerosidade no plano objetivo, manifesta-se pelo
pagamento de parcelas dirigidas a remunerar o empregado em função do contrato de
emprego pactuado, justamente o salário. Porém, a onerosidade também pode ser
analisada no plano subjetivo, em virtude de algumas situações raras, em que a
pesquisa da dimensão subjetiva será a única via hábil a permitir aferir a existência ou
não desse elemento fático-jurídico. No plano subjetivo, a onerosidade se manifesta
pela intenção contraprestativa, pela intenção econômica conferida pelas partes, em
especial pelo prestador de serviços em virtude do trabalho ofertado.
In casu, a parte reclamada não nega a prestação de serviços,
mas afirma que esta se deu de forma autônoma e eventual, estando ausentes os
requisitos do vínculo de emprego, nos termos da lei. Nesse sentido, admitido pela ré
que a reclamante prestou serviços de forma diversa daquela estabelecida nos artigos
2º e 3º, ambos da CLT, a ela incumbia o ônus de comprovar, com a robustez necessária,
a real natureza jurídica da relação havida entre as partes, nos termos dos artigos 373,
II, do CPC e 818, II, da CLT e de acordo com a inteligência da Súmula 212/TST, encargo
do qual não se desincumbiu a contento.
No particular, o documento trazido à colação com a própria
defesa no ID. 735ff8e já é suficiente para rechaçar a tese defensiva de que a autora
prestou serviços na condição de autônoma.
Nesse sentido, aliás, cumpre ressaltar a contradição da defesa
apresentada pela ré, que, a despeito de sustentar que não possuía uma relação de
emprego com a autora, narra, posteriormente, que o vínculo fora declarado através do
sobredito documento assinado pela obreira e requer a concessão de prazo para
realizar a anotação da CTPS (vide ID. 1fe6803 – Pág. 5).
Não bastasse, diferentemente do alegado pela ré, o extrato
bancário anexado no ID. 7e51647 demonstra que o pagamento ocorria com frequência
mensal, tanto que, em 05/03/2021, houve uma transferência para a conta bancária da
autora no valor de R$1.155,60.
Na verdade, é possível extrair dos elementos de provas
produzidos nos autos que autora apenas iniciou a prestação de serviços na condição
de diarista (conforme se depreende das conversas de aplicativo acostadas no ID.
df82f80 e da própria narrativa exordial), a qual foi transformada posteriormente em
uma típica relação de emprego.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Diante do exposto, reconheço a existência do vínculo de
emprego entre a reclamante e a reclamada, nos moldes dos artigos 2º e 3º da CLT, cujo
contrato de trabalho considera-se iniciado em 01/02/2021 e extinto em 01/12/2022,
com projeção do aviso prévio para 03/01/2023, detendo a autora a função de ajudante
de cozinha e o salário mensal de R$1.155,60.
Relativamente ao período de início de vigência do contrato de
trabalho, conforme decorre da própria narrativa inicial e nos termos já consignados
alhures, a autora iniciou a prestação de serviços na condição de diarista, tendo
recebido a contraprestação pactuada pelos dias efetivamente laborados, razão pelo
qual nada mais há que ser decidido no aspecto. Consequentemente, rejeito, desde
logo, o pedido de diferença salarial em razão da alegada intangibilidade salarial,
inclusive eventual diferença pretendida a título de repouso semanal remunerado, pois
indevidos no caso de trabalhador mensalista.
No que concerne às parcelas decorrentes do contrato de
trabalho, a ré anexou o recibo de quitação de ID. 735ff8e, bem como o comprovante de
depósito de ID. 5bcc63d, o que à época, correspondeu a R$5.191,40.
Insta salientar que em sua réplica a autora deixou de apresentar
diferenças de verbas rescisórias devidas a seu favor, ônus que lhe competia, na forma
do art. 818, I, da CLT.
Diante disso, indefiro o pagamento das aludidas parcelas
rescisórias, não fazendo jus a obreira a novo pagamento a tais títulos, o que
configuraria evidente bis in idem e enriquecimento sem causa.
Por outro lado, à mingua de comprovação, ônus que competia à
parte ré, defiro à autora o pagamento do FGTS sobre todo o período contratual e sobre
verbas rescisórias, acrescido da multa de 40%, observada a OJ 42 da SDI1 do TST.
Julgo procedente, ainda, o pagamento das diferenças salariais
decorrente da alegada redução salarial nos meses de abril e maio de 2021 (inteligência
do art. 464 da CLT), considerando os valores efetivamente depositados (extrato de ID.
7e51647) e salário mensal de R$1.155,60.
Finalmente, quanto à alegação autoral de que não recebeu
comissões pelas vendas realizadas, sobreleva destacar que a própria testemunha
ouvida a rogo da ré declarou que os garçons auferiam comissão no percentual de 10%,
conforme 19min08s do depoimento videogravado.
Assim, considerando o curto período em que a autora exerceu a
função de garçonete (a partir de 22/04/2021, consoante informou a petição inicial) e
diante do acidente sofrido em 14/05/2021 (fato incontroverso), fixo como sendo devido
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
o valor de R$300,00 a título de comissões, com reflexos apenas em FGTS mais 40%, em
vista da falta de habitualidade.
Deverá a ré proceder à anotação da CTPS da obreira, para dela
fazer constar como data de admissão 01/02/2021 e data de saída 03/01/2023
(considerando a projeção do aviso prévio), função de ajudante de cozinha e salário
mensal de R$1.155,60, bem como entregar as guias TRCT e CD/SD, devidamente
preenchidas, no prazo de dez dias, contados do trânsito em julgado e de sua intimação
para tal, sob pena de estipulação de multa diária.
-Acidente de Trabalho. Indenizações.
Afirma a reclamante que, no dia 14/05/2021, no período
noturno, recebeu ordem de seu superior hierárquico para movimentar uma mesa com
peso aproximado de 300 kg. Sustenta que ao tentar realizar manobra para movimentar
a mesa, com a ajuda de mais dois colegas de trabalho, a parte superior caiu em sua
perna direita, dilacerando parte do tecido próximo ao seu pé direito. Acrescenta que
realizou cirurgia corretiva, além de cirurgia plástica de enxerto para tentar minimizar as
sequelas causadas pelo acidente. Assevera, ainda, que realizou tratamento
fisioterápico, permanecendo, contudo, limitação do movimento do membro inferior.
Postula a condenação da reclamada ao pagamento de indenização por danos materiais
(pensão mensal vitalícia na proporção da redução de sua capacidade laborativa, a ser
quitada em parcela única), morais e estéticos.
A ré, por seu turno, não nega a ocorrência do acidente, mas
aduz que este ocorreu por culpa exclusiva da vítima. Argumenta que a autora, sem
qualquer ordem, orientação ou pedido de superior, realizou atividade que não lhe
competia.
Pois bem.
É incontroverso nos autos que a autora prestava serviço em prol
da ré quando o acidente ocorreu.
Nesse diapasão, é válido ressaltar, apenas por conjectura (já que
o vínculo de emprego restou reconhecido no tópico anterior), que a condição de
trabalhadora autônoma não afasta a incidência dos princípios fundamentais da
dignidade humana e do valor social do trabalho consagrados na Constituição da
República (incisos III e IV do artigo 1º).
O caráter autônomo dos serviços, por si só, não elide a
responsabilidade civil do contratante, quando comprovado o nexo causal entre sua
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
conduta culposa e o evento danoso. Tampouco fica a empresa alforriada de sua
obrigação de adotar medidas de segurança mínimas capazes de assegurar a
integridade física dos trabalhadores. Do contrário, é plenamente possível a
responsabilização do tomador dos serviços pelo acidente de trabalho sofrido pelo
prestador, o que ensejará o pagamento de indenização, na forma dos artigos 186 e 927
do Código Civil.
Ultrapassadas tais questões, resta aferir se estão presentes os
requisitos para a configuração do dever de indenizar.
A responsabilidade civil impõe ao causador do dano o dever de
reparar a vítima, consoante os artigos 5º, X da CF, 186, 187 e 927 do CC.
O ordenamento pátrio prevê como regra a responsabilidade
subjetiva, que resta configurada quando presentes os seguintes elementos: conduta
(ação ou omissão), dano, nexo causal e culpa ou dolo do agente. Contudo, ainda que
presentes tais elementos, o dever de indenizar pode ser afastado em razão da
existência de alguma das hipóteses de exclusão do nexo causal, quais sejam: culpa
exclusiva da vítima, fato de terceiro, caso fortuito ou força maior.
Outrossim, o art. 927, p. único do CC, ao adotar a Teoria do
Risco Criado, consagra a responsabilidade objetiva, que prescinde de dolo ou culpa,
sendo aplicada nos casos especificados pela lei ou quando a atividade normalmente
desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco aos direitos de
outrem. Neste caso, para o surgimento do dever de indenizar, basta a ocorrência do
dano e o nexo causal.
A caracterização de uma atividade de risco, nos termos do art.
927, p. único do CC, pode ser compreendida nos termos do Enunciado 38, da I Jornada
de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal, que assim dispõe:
" A responsabilidade fundada no risco da
atividade, como prevista na segunda parte do parágrafo único do art.
927 do novo Código Civil, configura-se quando a atividade normalmente
desenvolvida pelo autor do dano causar a pessoa determinada um ônus
maior do que aos demais membros da coletividade".
Acerca do tema, o eminente Desembargador Federal do
Trabalho, Sebastião Geraldo de Oliveira, esclarece que:
"[...] No entanto, acima desse risco genérico que
afeta indistintamente toda coletividade, de certa forma inerente à vida
atual, outros riscos específicos ocorrem pelo exercício de determinadas
atividades, dentro da concepção do 'risco criado'. Se o risco a que se
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
expõe o trabalhador estiver acima do risco médio da coletividade em
geral, caberá o deferimento da indenização, tão-somente pelo exercício
desta atividade". (OLIVEIRA, Sebastião Geraldo de. Indenizações
por acidente do trabalho ou doença ocupacional. 2. ed. rev. ampl. atual.
- São Paulo: LTr, 2006, p. 108)
No caso dos autos, entendo como não sendo de risco a
atividade desenvolvida pela trabalhadora. Verifico que a hipótese não se adequa ao
quanto exposto no parágrafo único do artigo 927 do Código Civil, já que a atividade
desenvolvida pela empregada não a expõe a um risco superior ao risco médio da
coletividade em geral, pelo que afasto a aplicação da responsabilidade objetiva.
Quanto ao nexo de causalidade, a ré não nega a ocorrência do
acidente durante o horário de trabalho e no exercício de atribuições profissionais. Sua
tese consiste, em suma, na alegação de fato exclusivo da trabalhadora, o que romperia,
destarte, com o nexo causal.
No entanto, não se trata da hipótese dos autos, pois, apesar de
alegar que a autora agiu com imprudência e violação de regras internas, não houve
produção de provas neste sentido. Vale pontuar que a testemunha ouvida a rogo da
reclamada sequer estava presente no momento da ocorrência do acidente, sabendo
dos fatos apenas por ouvir dizer.
Destaco que nos acidentes causados por condição insegura, a
responsabilidade é subjetiva, porém do tipo contratual, com culpa presumida, devendo
o empregador, para se eximir da responsabilidade civil, comprovar que cumpriu
fielmente as obrigações contratuais no que diz respeito às normas de segurança do
trabalho.
Com efeito, no caso de acidente do trabalho, existe uma relação
jurídica entre o empregador e a vítima, ligados por um contrato de trabalho, seja
escrito ou verbal, no bojo do qual deve haver cláusulas explícitas de preservação pelo
empregador da incolumidade física do trabalhador. Ressalto que, mesmo sem a
presença de cláusulas explícitas nos contratos de trabalho, a obrigação de zelar pela
saúde do empregado está implícita em qualquer relação de trabalho, haja vista o
conteúdo, por exemplo, das normas previstas no artigo 7°, caput e inciso XXII, da CF/88,
e artigo 157, da CLT, as quais devem integrar todos os contratos de trabalho, sejam
escritos, sejam orais, como direitos fundamentais dos trabalhadores. Constitui
obrigação do empregador a observância das normas de saúde, segurança e higiene no
trabalho, de forma a proporcionar a seus empregados um meio ambiente hígido e sem
riscos (art. 7º, inciso XXII, da CRFB/1988), evitando ou minorando a ocorrência de
infortúnios laborais.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Inexiste nos autos prova robusta no sentido de que a ré tenha
se mostrado diligente ou zelosa adotando os procedimentos necessários para evitar
acidentes. Prosseguindo, além da infração da norma (que cria a presunção de culpa)
existe, ainda, um dever geral de cautela que restou inobservado pela empregadora
quando deixou de fiscalizar diligentemente o trabalho. Do exposto, forçoso reconhecer
que a reclamada não se preocupou efetivamente com o modus operandi da força de
trabalho, olvidando-se das medidas de segurança indispensáveis. Por conseguinte,
entendo que a reclamada contribuiu para a ocorrência do acidente, devendo ser
reconhecida, in casu, a responsabilidade subjetiva do empregador.
Assim, a responsabilização da ré é imperiosa, pelo que passo à
análise dos danos e suas reparações.
Na situação em análise, o dano resta cabalmente demonstrado,
o que se depreende do teor do laudo da perícia médica produzido por perito de
confiança do juízo (ID. 688eb95), sendo integralmente acolhido o laudo por este juízo.
Com efeito, conforme esclarece o expert:
“DO EXPOSTO, CONCLUI-SE QUE, DE ACORDO
COM OS DADOS TÉCNICOS DISPONÍVEIS, A RECLAMANTE:
• ALEGOU TER INGRESSADO NA RECLAMADA
COMO AJUDANTE DE COZINHA EM 23/01/2021, SEM REGISTRO NA CTPS;
• SOFREU ACIDENTE, PRESTANDO SERVIÇOS À
RECLAMADA, EM 31/05/2021 COM LESÃO DE PARTES MOLES DO
TORNOZELO DIREITO, COM TRATAMENTO CIRÚRGICO E FISIOTERÁPICO;
• APRESENTOU INCAPACIDADE LABORATIVA
TOTAL ATÉ 26/04/2022 (APROXIMADAMENTE);
• APRESENTA, COMO SEQUELAS ACIDENTÁRIAS
DEFINITIVAS, CICATRIZES NO MEMBRO INFERIOR DIREITO QUE
CARACTERIZAM LEVE DANO ESTÉTICO E DISFUNÇÃO LEVE DO
TORNOZELO DIREITO QUE CARACTERIZA INVALIDEZ PARCIAL DE 5%
(TABELA DA SUSEP);
• MALGRADO AS SEQUELAS, ESTÁ CLINICAMENTE
APTA PARA O SEU TRABALHO E PARA AS ATIVIDADES DA VIDA DIÁRIA,
MAS CUMPRIRÁ SUAS TAREFAS, QUE DEPENDAM DO ORTOSTATISMO,
COM MAIS DIFICULDADE;
• NÃO TEM INDICAÇÃO DE REABILITAÇÃO
PROFISSIONAL”.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
No tocante ao dano moral decorrente da comprovada lesão
sofrida pela reclamante (disfunção leve do tornozelo direito) que possui nexo de
causalidade com o labor, a jurisprudência e a doutrina convergem no entendimento de
que se exige para a concessão da indenização correspondente apenas a prova do fato,
na forma do art. 818 da Consolidação c/c art. 333, I, do CPC, posto tratar-se de dano
in re ipsa.
Assim, com base nos artigos 186, 187 e 927, todos do Código
Civil, como também com esteio no artigo 5º, incisos V e X, da Constituição Federal,
atentando-se para a duração do contrato de trabalho, para o caráter pedagógico da
condenação, bem como considerando os princípios da proporcionalidade,
razoabilidade e a extensão do dano, arbitro a indenização por danos morais no
importe de R$15.000,00 (quinze mil reais).
Quanto ao dano estético, também cabe reparação no âmbito da
responsabilidade civil, sendo certo que os institutos (dano moral e dano estético) não
se confundem, pois o dano moral tem o condão de reparar a dor e o sofrimento do
empregado em razão de evento danoso suportado e o dano estético tem o objetivo
reparar a perda efetiva da harmonia física e estética da pessoa.
No presente caso, extraio do laudo médico que a autora suporta
um dano estético em grau leve, com sequelas acidentárias definitivas. Assim,
considerando o baixo grau informado pelo perito, mas sem perder de vista que há um
dano a ser suportado, o que pode ser também verificado pelas fotos acostadas no
laudo, condeno a reclamada no pagamento de indenização por dano estético no
importe de R$15.000,00 (quinze mil reais).
Com relação ao pedido de indenização por danos materiais
consistente no pagamento de pensão mensal vitalícia, como é de conhecimento, tal
indenização visa reparar a perda parcial ou total da capacidade do trabalho (art.950, do
Código Civil).
No caso dos autos, o laudo pericial concluiu que a reclamante
apresenta, como sequelas acidentárias definitivas, disfunção leve do tornozelo direito
que caracteriza invalidez parcial de 5% (tabela da susep).
Conforme fundamentado no tópico anterior, foi reconhecido
que as partes pactuaram o salário mensal de R$1.155,60.
A reclamante nasceu em 12/08/1986 (ID. ccb97f8) e, portanto,
possuía 34,9 anos à época do acidente (14/05/2021) extraindo-se uma expectativa de
vida de 76,5 anos (conforme Tábua de Mortalidade publicada pelo IBGE para o sexo
feminino).
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Nesse sentido, na data do acidente, a reclamante possuía uma
expectativa de vida de mais 41,6, o que equivale a 539 meses, já incluindo o 13º salário.
Multiplicando-se o salário base (R$1.155,60) por 5% (percentual incapacitante), chega-
se ao valor de R$57,78 mensais. Multiplicando-se pela projeção de vida (R$57,78 x 539
meses), tem-se o valor de R$31.143,42.
Considerando o pagamento em parcela única - como requerido
na inicial - possibilita investimentos que o recebimento mensal da pensão não
permitiria, entendo razoável reduzir o parâmetro supra em 30%, o que resulta em
R$21.800,39.
Registro que este percentual de redutor é consagrado na
jurisprudência como um dos mais razoáveis a ser aplicado em caso de antecipação do
valor da pensão por redução da capacidade para o trabalho.
Diante de todo o acima exposto, arbitro a indenização por dano
material, em razão da redução parcial e definitiva da capacidade laborativa, no valor de
R$21.800,39, a ser pago em parcela única.
Com relação ao pagamento da pensão mensal de uma única vez
e da aplicação do redutor do valor, cita-se a seguinte ementa de julgado:
“AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE
REVISTA DO RECLAMANTE. DANO MATERIAL. REDUTOR. PAGAMENTO
EM PARCELA ÚNICA. A aplicação de um redutor na hipótese de
pagamento do pensionamento em parcela única não ofende a
literalidade do art. 950 do Código Civil. Isso porque não se está
deixando de observar o valor correspondente à importância do trabalho
para o qual se inabilitou o ex-empregado, mas levando-se em
consideração os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade,
uma vez que estão sendo antecipados valores que seriam pagos ao
longo de anos, beneficiando o credor em detrimento do devedor que
terá que disponibilizar de uma só vez valores que pagaria mês a mês.
Logo, a quitação antecipada, por certo, deve produzir um abatimento
proporcional, o que de fato ocorreu. Agravo de Instrumento conhecido
e não provido. RECURSO DE REVISTA DA RECLAMADA. DANO MORAL.
VALOR DA CONDENAÇÃO. Caracterizada a ocorrência de dano moral em
face do acidente sofrido pelo Autor durante a sua jornada de trabalho, o
valor da indenização mantido pelo Regional não ofende o princípio da
razoabilidade ou da proporcionalidade, uma vez que foram
consideradas a extensão do dano e a culpa da Reclamada de forma
adequada, garantindo uma compensação razoável pelos danos sofridos,
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
razão pela qual revela-se razoável o valor atribuído à indenização.”
Recurso de Revista não conhecido. (Processo: ARR 11908620115040030.
Relator(a): Maria de Assis Calsing. Julgamento: 27/05/2015. Órgão
Julgador: 4ª Turma. Publicação: DEJT 29/05/2015).
Quanto ao pleito de danos materiais na forma de lucros
cessantes, a despeito da incapacidade laborativa total temporária e da ausência de
cobertura previdenciária, certo é que a reclamada juntou aos autos comprovantes de
depósitos de salários relativos a diversos meses. Assim, tenho que caberia à autora
apontar, ainda que por amostragem, diferenças devidas a seu favor (arts. 818, I da CLT
e 373 I, do CPC), o que não foi feito. Destarte, julgo improcedente o pedido de
indenização por danos materiais na forma de lucros cessantes.
Igualmente, indefiro o pedido de custeio com despesas médicas
(tratamento fisioterápicos, academia e medicamentos), tendo em vista que a autora
não comprovou quaisquer gastos que tenha realizado para tratamento das sequelas
físicas e emocionais decorrentes do acidente de trabalho (inteligência dos artigos 818, I,
da CLT e 373, I, do CPC).
Por fim, indefiro a pretensão de condenação da reclamada em
afixar em suas dependências um pedido formal de desculpas, especialmente porque
não houve mácula à imagem da reclamante apta a justificar o desagravo público. Na
verdade, a petição inicial sequer narrou uma possível imputação desabonadora
praticada pela ré em desfavor da obreira, não havendo sequer fundamento legal para
o pleito em questão.
-Estabilidade Provisória. Indenização Substitutiva.
Consoante já decidido no tópico pretérito, não há qualquer
controvérsia entre as partes que no dia 14/05/2021 a autora sofreu típico acidente de
trabalho.
Remanesce controvertida, todavia, a data de retorno às
atividades laborais, já que a autora afirma ter retornado em 23/09/2022, enquanto a
reclamada sustenta que a volta ao exercício das atividades ocorreu em outubro de
2021.
Pois bem.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Ressalto, de plano, que o próprio documento juntado com a
defesa no ID. 735ff8e esvazia a narrativa de que o retorno às atividades se deu em
outubro de 2021, já que nele consta que a autora não teria laborado no período de 14
/05/2021 a 18/10/2022.
Não bastasse, segundo concluiu a perícia médica, a reclamante
apresentou incapacidade laborativa total até 26/04/2022 (aproximadamente).
Diante disso, tenho por mais razoável a data noticiada na
petição inicial e reputo que a autora retornou às atividades no dia 23/09/2022.
Fixadas essas premissas, passo ao exame do mérito.
Nos termos do art. 118 da Lei 8.213/91, o segurado que sofreu
acidente do trabalho tem garantida, pelo prazo mínimo de doze meses, a manutenção
do seu contrato de trabalho na empresa, após a cessação do auxílio-doença
acidentário, independentemente de percepção de auxílio-acidente.
A Súmula nº 378, item II, do TST cuida de explicitar o alcance
dessa garantia legal, para considerar também abrangidos por ela os segurados que
não tenham recebido o benefício de origem acidentária, mas com relação aos quais
venha a ser constatado, mediante prova médico pericial, que a patologia que
determinou o afastamento por mais de quinze dias teve origem ocupacional.
Não resta dúvida de que o caso da reclamante subsume-se na
hipótese contemplada pela norma de garantia de emprego, pois ficou comprovada a
origem ocupacional da doença que levou ao afastamento temporário superior a 15
dias, decorrente de acidente.
Portanto, cumpre reconhecer-lhe o direito à estabilidade em
razão do acidente de trabalho.
Tendo em vista já transcorrido o período estabilitário, defiro à
autora a indenização substitutiva do período compreendido entre a dispensa imotivada
e o fim do período estabilitário, qual seja, de 02/12/2022 a 22/09/2023 (limites do
pedido).
Registro que não houve pedido de reflexos no rol petitório,
razão pela qual nada a que ser deferido nesse sentido.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Esclareço, por fim, que deverá ser considerado para fins de
cálculo do valor devido a título da indenização da estabilidade acidentária o salário-
mínimo vigente no período, haja vista a ausência de comprovação de reajustes
convencionais e diante da vedação de recebimento de salário inferior ao mínimo legal.
-Jornada de Trabalho
Aduz a autora que sua jornada contratual não era respeitada e
realizava horas extras sem o devido pagamento e/ou compensação. Assevera, ainda,
que não recebeu o adicional noturno e a hora ficta noturna, além de não usufruir da
integralidade do intervalo intrajornada.
A reclamada, em defesa, argumenta que a autora exercia sua
atividade no horário de 07h00 às 15h00, com uma hora de intervalo. Acrescenta que,
após a recuperação do acidente, a reclamante passou a ter horário reduzido, com
jornada de 06 horas diárias e intervalo correspondente.
Pois bem.
Não havendo prova de que o empregador possua mais de vinte
empregados (conforme nova redação do art. 74, § 2º, da CLT, dada pela Lei nº 13.874
\19), cabia à autora comprovar o labor em sobrejornada, ônus do qual não se
desincumbiu a contento.
Destaco, no aspecto, que o depoimento da testemunha ouvida a
rogo da reclamante em nada convenceu este Juízo, isso porque prestou declarações
contraditórias e em dissonâncias com a própria narrativa exordial. Veja, por exemplo,
que a testemunha disse que começou a laborar na reclamada em dezembro de 2021 e
que a autora foi admitida posteriormente (03min12s do depoimento videogravado).
Nesse ponto, convém ressaltar o princípio da imediatidade na
colheita de provas, prestigiando a avaliação e valoração feita por esta magistrada,
condutora da instrução processual. Tendo contato direto com as partes e testemunhas
há melhores condições de avaliar os depoimentos e comportamentos, através da
análise das expressões, segurança e reações, bem como o estado de espírito dos
declarantes.
Assim, à mingua de prova quanto ao labor em sobrejornada e
quanto à supressão o intervalo intrajornada, julgo improcedentes os pedidos e seus
consectários.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
De igual modo, improcede o pedido de pagamento de
diferenças de adicional noturno, ante a ausência de comprovação de que a autora
trabalhou em horário noturno, ônus que lhe incumbia, já que fato constitutivo do seu
direito.
-Dedução
Fica autorizada a dedução de valores porventura pagos sob
idênticas rubricas, competência e fundamentos, conforme
-Justiça Gratuita
Não há, nos autos, elementos que afastem a presunção de
veracidade do fundamento do pedido de prestação jurisdicional gratuita, notadamente,
a não percepção atual superior a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime
Geral de Previdência Social (art. 790, § 3º, CLT). Defiro o pedido.
-Honorários Advocatícios
Condeno a parte reclamada ao pagamento de honorários
advocatícios de sucumbência, no importe de 5% em favor dos patronos da parte
reclamante, calculados sobre o valor que resultar da liquidação de sentença; condeno a
parte reclamante ao pagamento de honorários advocatícios de sucumbência, no
importe de 5% em favor dos patronos da reclamada, calculados sobre o valor dos
pedidos que foram julgados improcedentes, haja vista os critérios do artigo 791-A e seu
§ 2º, da CLT.
Os honorários sucumbenciais devidos pela parte autora
remanescem em condição suspensiva de exigibilidade, considerando tratar-se de parte
beneficiária de justiça gratuita e o recente entendimento do Supremo Tribunal Federal
acerca da inconstitucionalidade do parágrafo 4º do art. 791-A da CLT na ADI 5766.
Independentemente da data de publicação do acórdão em
referida ADI, curvo-me ao entendimento do Pretório Excelso, realizando neste feito
controle de constitucionalidade.
Em relação à suspensão da exigibilidade dos honorários
advocatícios, foi o voto do Min. Edson Fachin na ADI 5766:
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
“ Importante ressaltar que não há
inconstitucionalidade no caput do artigo 790-B da CLT, com a redação
da Lei 13.467/2017, quando admite a possibilidade de imputação de
responsabilidade ao trabalhador sucumbente, pois admitir a imputação
é ato distinto de tornar imediatamente exigível tal obrigação do
beneficiário da justiça gratuita. Se cessadas as condições que deu ao
trabalhador o direito ao benefício da gratuidade da justiça, admite-se a
cobrança das custas e despesas processuais.(…)
Ora, as normas impugnadas que impõem o
pagamento de despesas processuais, independentemente da
declaração oficial da perda da condição de hipossuficiência econômica,
afrontam o próprio direito à gratuidade da Justiça e,
consequentemente, o próprio direito ao acesso à Justiça.(…)
Da mesma forma, importante afirmar que o
benefício da gratuidade da Justiça não constitui isenção absoluta de
custas e outras despesas processuais, mas, sim, desobrigação de pagá-
las enquanto perdurar o estado de hipossuficiência econômica
propulsor do reconhecimento e concessão das prerrogativas inerentes
a este direito fundamental (art. 5º, LXXIV, da CRFB).”
Assim, declaro suspensa a exigibilidade das verbas de
sucumbência devidas pela parte reclamante.
-Honorários Periciais
A reclamada foi sucumbente na pretensão objeto da perícia
realizada. Assim, condeno a ré no pagamento dos honorários do perito oficial nomeada
nestes autos, ora fixados em R$2.000,00 (dois mil reais).
-Correção Monetária e Juros de Mora
A correção monetária deve incidir a partir do primeiro dia útil do
mês subsequente ao da prestação de serviços, na forma da Súmula 381/TST.
Quanto ao índice a ser utilizado, o Supremo Tribunal Federal,
recentemente, julgou parcialmente procedentes as ações diretas de
inconstitucionalidade e as ações declaratórias de constitucionalidade (ADI 5.867/DF,
ADI 6.021/DF, ADC 58/DF, ADC 59/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. 18.12.2020), “para
conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 879, §7º, e ao art. 899, §4º, da
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
CLT, na redação dada pela Lei 13.467, de 2017. Nesse sentido, há de se considerar que
à atualização dos créditos decorrentes de condenação judicial e à correção dos
depósitos recursais em contas judiciais na Justiça do Trabalho deverão ser aplicados,
até que sobrevenha solução legislativa, os mesmos índices de correção monetária e de
juros vigentes para as hipóteses de condenações cíveis em geral, quais sejam a
incidência do IPCA-E na fase pré-judicial e, a partir da citação, a incidência da taxa SELIC
(art. 406 do Código Civil).”
Ainda no referido julgamento, ao serem modulados os efeitos
da decisão, fixou-se o entendimento de que “(ii) os processos em curso que estejam
sobrestados na fase de conhecimento (independentemente de estarem com ou sem
sentença, inclusive na fase recursal) devem ter aplicação, de forma retroativa, da taxa
Selic (juros e correção monetária), sob pena de alegação futura de inexigibilidade de
título judicial fundado em interpretação contrária ao posicionamento do STF (art. 525,
§§ 12 e 14, ou art. 535, §§ 5º e 7º, do CPC)” (g.n.).
Referida decisão, afastou, portanto, a aplicabilidade dos índices
TR e IPCA-E, limitando esse último à fase pré-judicial e para a correção dos débitos
judicializados, estabeleceu a SELIC como fator de atualização, a qual, nos termos da Lei
9250/95, engloba juros e correção monetária.
Por outro lado, a citação no Processo do Trabalho é automática,
realizada pela Secretaria da Vara, decorrente da distribuição da ação, não dependente
de qualquer ato da parte ou do Juiz, conforme artigo 841/CLT. Além disso, em relação à
parte autora, nos termos do parágrafo segundo do referido dispositivo, a notificação se
dá no “ato da apresentação da reclamação”, razão pela qual para a referida parte a fase
judicial do processo se inicia a partir de então. Por fim, o artigo 883 da CLT determina
que os juros de mora, em qualquer caso, são devidos a partir da data em que for
ajuizada a reclamação inicial.
Assim, fazendo a interpretação da referida decisão de forma
sistêmica às normas do processo trabalhista e considerando a eficácia erga omnes e o
efeito da decisão proferida, determina-se a aplicação do IPCA-e para a correção das
parcelas para a fase pré-judicial, e a adoção da SELIC, a partir da data da distribuição
desta demanda.
Quanto à indenização por danos morais, aplica-se a Súmula 439
do TST.
-Contribuições Previdenciárias e Imposto de Renda
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Para os efeitos do artigo 832, § 3º, da CLT, as contribuições
previdenciárias recaem sobre as parcelas deferidas na presente sentença, com exceção
daquelas descritas no § 9º do artigo 214 do Decreto nº 3.048/99.
As contribuições sociais deverão ser recolhidas pelo
empregador (Súmula n. 368, II, do TST), na forma prevista no artigo 276, § 4º, do
Decreto n. 3.048, de 6 de maio de 1999.
O imposto de renda deverá ser retido pelo empregador e
apurado pelo regime progressivo mês a mês, conforme artigo 12-A, da Lei n. 7.713, de
22 de dezembro de 1988.
Excluem-se da base de cálculo do imposto de renda os juros de
mora (Orientação Jurisprudencial n. 400, da SBDI-1, do TST).
-Limitação aos Valores dos Pedidos
A parte reclamante ao apontar o valor pretendido (pedido certo
quanto ao valor - líquido), limitou o valor da pretensão, ficando este juízo
impossibilitado de condenar a reclamada em quantidade superior ao pleiteado. Desta
forma, elaborada a conta de liquidação, o valor líquido do principal (sem dedução fiscal
e previdenciária) deverá ficar limitada ao valor da pretensão deduzida no rol dos
pedidos da inicial, nos pleitos em que se estipulou valores, excluindo, no entanto, deste
montante, os acréscimos referentes aos juros e correção monetária. Nesse sentido,
recente julgado sobre o tema:
"I - AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE
REVISTA DA RECLAMADA. JULGAMENTO ULTRA PETITA. PETIÇÃO INICIAL.
PEDIDO LÍQUIDO E CERTO. LIMITAÇÃO DA CONDENAÇÃO. AÇÃO
AJUIZADA NA VIGÊNCIA DA LEI 13.467/2017. NOVA REDAÇÃO DO §1º DO
ART. 840 DA CLT. Demonstrada possível violação dos artigos 141 e 492
do CPC/2015, impõe-se o provimento do agravo de instrumento para
determinar o processamento do recurso de revista. Agravo de
instrumento conhecido e provido. II - RECURSO DE REVISTA DA
RECLAMADA. JULGAMENTO ULTRA PETITA. PETIÇÃO INICIAL. PEDIDO
LÍQUIDO E CERTO. LIMITAÇÃO DA CONDENAÇÃO. AÇÃO AJUIZADA NA
VIGÊNCIA DA LEI 13.467/2017. NOVA REDAÇÃO DO §1º DO ART. 840 DA
CLT. 1 - O Tribunal Regional entendeu que os valores postos na inicial
correspondem a uma simples estimativa, para fins de fixação do rito,
não havendo que se falar, assim, em limitação da condenação a eles. 2 -
No entanto, nos termos dos arts. 141 e 492 do CPC/2015, o juiz está
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
adstrito aos limites da lide para proferir decisão, sendo-lhe vedado
proferir sentença de natureza diversa da pedida pelo autor, bem como
condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que
lhe foi demandado. Assim, tendo a parte autora estabelecido na inicial
pedidos líquidos, indicando o valor que pretendia em relação a cada
uma das verbas, com base no §1º do art. 840 da CLT, deve o juiz ater-se
a tais valores, sobre pena de proferir julgamento ultra petita. Recurso
de revista conhecido e provido" (RR-1130-87.2018.5.09.0658, 8ª Turma,
Relatora Ministra Delaide Alves Miranda Arantes, DEJT 22/10/2021).
-Amplitude da Cognição
Expostos os fundamentos pelos quais decididos os pedidos,
restam atendidas as exigências da Consolidação das Leis do Trabalho, art. 832, caput, e
da Constituição Federal, art. 93, inciso IX, sendo desnecessário e não-exigível o
pronunciamento explícito acerca de todas as argumentações das partes, até porque o
recurso não exige prequestionamento, permitindo ampla devolutividade ao Tribunal
(art. 769, da Consolidação das Leis do Trabalho c/c art. 1.013, §1º, do Código de
Processo Civil e Súmula 393, do c. Tribunal Superior do Trabalho).
Além disso, ressalto que esta magistrada levou em consideração
todos os argumentos lançados na inicial e na defesa, à luz do artigo 489, §1º do CPC
/2015, sendo prescindível constá-los expressamente nesta decisão, notadamente por
não serem juridicamente relevantes ao caso ou capazes de infirmar a conclusão
adotada.
III-Dispositivo
Pelo exposto, nos autos da Ação Trabalhista que NATALIA
MARQUES XAVIER move em face de SENIOR VILLAGE SERVICO EIRELI, nos termos da
fundamentação, rejeito as preliminares e julgo PARCIALMENTE PROCEDENTES os
pedidos formulados para condenar a reclamada a pagar à reclamante as seguintes
parcelas:
-FGTS sobre todo o período contratual e sobre verbas
rescisórias, acrescido da multa de 40%;
-diferenças salariais dos meses de abril e maio de 2021;
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
-comissões no valor de R$300,00, com reflexos apenas em FGTS
mais 40%;
-indenização por danos morais no importe de R$15.000,00
(quinze mil reais);
-indenização por danos estéticos no importe de R$15.000,00
(quinze mil reais);
-indenização por dano material na forma de pensão a ser paga
em parcela única, em razão da redução parcial e definitiva da capacidade laborativa, no
valor de R$21.800,39 (vinte e um mil e oitocentos reais e trinta e nove centavos).
-indenização substitutiva do período compreendido entre a
dispensa imotivada e o fim do período estabilitário, qual seja, de 02/12/2022 a 22/09
/2023 (limites do pedido).
Deverá a ré proceder à anotação da CTPS da obreira, para dela
fazer constar como data de admissão 01/02/2021 e data de saída 03/01/2023
(considerando a projeção do aviso prévio), função de ajudante de cozinha e salário
mensal de R$1.155,60, bem como entregar as guias TRCT e CD/SD, devidamente
preenchidas, no prazo de dez dias, contados do trânsito em julgado e de sua intimação
para tal, sob pena de estipulação de multa diária.
Defiro à parte autora os benefícios da justiça gratuita.
Honorários advocatícios e periciais na forma da fundamentação
específica.
Estão autorizados os descontos previdenciários e de imposto de
renda. Para fins do art. 832, § 3º, CLT, as parcelas cuja natureza jurídica não foi indicada
na fundamentação seguem as prescrições do art. 28, da Lei 8.212/91. Imposto de
Renda nos termos do art. 12-A, da Lei 7713/88.
Os valores de condenação serão apurados segundo liquidação
por simples cálculos, observadas as determinações dos Provimentos n. 03/1991 e 04
/2000, do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região.
Quanto à intimação da União, em atenção ao art. 832, § 5º, da
CLT, observe-se o teor da Portaria Normativa PGF/AGU nº 47, de 07 de julho de 2023.
Custas pela ré, no importe de R$1.100,00, calculadas sobre
R$55.000,00, valor provisoriamente arbitrado à condenação.
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
Ficam cientes as partes de que a interposição de Embargos de
Declaração com caráter meramente protelatório ensejará a cominação imediata de
multa sobre o valor da causa, o que se determina com amparo no artigo 1.026, § 2º, do
CPC, aplicável subsidiariamente ao Processo do Trabalho, por força do artigo 769 da
CLT. Saliento que os embargos de declaração não são destinados a rever fatos e provas
produzidas e que foram apreciadas no julgamento, muito menos para rever decisão
desfavorável à parte embargante, devendo esta interpor o recurso próprio para tanto
(Recurso Ordinário).
Intimem-se as partes.
Nada mais.
SANTA LUZIA/MG, 20 de fevereiro de 2024.
ANGELA MARIA LOBATO GARIOS
Juíza do Trabalho Substituta
Assinado eletronicamente por: ANGELA MARIA LOBATO GARIOS - Juntado em: 20/02/2024 19:58:15 - b00d8b4
https://pje.trt3.jus.br/pjekz/validacao/24022019571319600000186063852?instancia=1
Número do processo: 0010222-24.2023.5.03.0095
Número do documento: 24022019571319600000186063852