ARTES VISUAIS, HISTÓRIA E
SOCIEDADE
AULA 5
Profª Danielly Dias Sandy
CONVERSA INICIAL
Nesta aula, vamos aprender sobre alguns dos movimentos artísticos do
início do século XX até a sua primeira metade, ou seja, temos também aqui um
recorte temporal com destaque em alguns movimentos e seus respectivos
artistas mais atuantes ou reconhecidos na história da arte. Isso mostra o quanto
a arte é realmente ampla e sua história precisa ser estudada para que venha a
ser compreendida.
Vale destacar que no início do século XX havia outros movimentos como
o expressionismo, o fauvismo, o cubismo, os quais foram abordados em outra
ocasião, portanto, poderão eventualmente serem mencionados, mas não serão
tratados aqui. Assim, recomendamos que, para além da presente aula, o leitor
ainda se aprofunde mais nos assuntos que aqui são abordados ou mesmo
sugeridos. Da mesma forma, indicamos que a leitura e pesquisa permaneçam
sempre em dia com o intuito de conhecer também outros tópicos que não se
apresentarem nesse recorte proposto. Dessa forma, seguimos a seguinte
sequência nos assuntos:
• Futurismo;
• Abstracionismo;
• Dadaísmo e Surrealismo;
• Pop Art; e
• Op Art.
CONTEXTUALIZANDO
Movimentos artísticos do início do século XX
No início do século XX havia vários movimentos artísticos e tendências
estéticas que acompanhavam as mudanças e principais eventos que marcaram
toda a estrutura das sociedades e, consequentemente, a história da arte. Dentre
esses eventos, destacamos as Grandes Guerras Mundiais, juntamente com as
suas dolorosas consequências que influenciaram a arte do século XX.
Realmente, as vanguardas europeias marcaram fortemente a primeira
metade do século XX ao propor novas tendências estéticas a partir de
questionamentos que buscavam colocar a arte, produzida até então, em xeque.
Da mesma forma, a sociedade era questionada e criticada por esses artistas que
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trabalhavam muitas vezes com ideias anticonvencionais e conceitos novos. Tudo
isso trouxe seus desdobramentos e contribuições para a arte na
contemporaneidade tal como a conhecemos.
Vale destacar que, além dos movimentos que aqui serão tratados, a
história da arte ainda foi contemplada com muitos outros, como o Sincronismo,
Orfismo, Suprematismo, Construtivismo, Pintura metafísica, Art decó, Arte
concreta, Realismo social, Realismo socialista, Arte bruta, Arte cinética,
Minimalismo, Arte conceitual, Body art, Arte povera etc. Assim, fica a proposta
de que a pesquisa sobre a arte do século XX, tanto no início do século como em
seu decorrer, seja uma constante para maior aprofundamento e compreensão
das diferentes propostas e novas linguagens que respaldam as bases da arte
contemporânea.
TEMA 1 – O FUTURISMO
O Futurismo, também conhecido como a estética da guerra, é
considerado uma das primeiras tendências estéticas da arte moderna e teve
origem na Itália, no início do século XX, sendo um movimento fundado por Filippo
Tommaso Marinetti. No discurso dos artistas futuristas podemos perceber
determinada ênfase na modernidade e tecnologia, sendo o início do século um
momento repleto de novas possibilidades e, consequentemente, de muita
excitação. É comentado por Marjorie Perloff (1993, p. 80) que “o momento
futurista foi uma breve fase utópica do modernismo inicial, quando os artistas
sentiram-se às vésperas de uma nova era; mais excitante, promissora e mais
inspiradora do que qualquer outra precedente”.
O Futurismo apresenta o seu Manifesto, escrito por Filippo Tommaso
Marinetti e publicado no jornal francês Le Figaro, em 20 de fevereiro de 1909. O
Manifesto Futurista fragilmente intencionava romper com o passado
apresentando ideias pouco convencionais e visando à identificação do homem
com uma máquina para o seu desenvolvimento futuro. Assim, o mencionado
manifesto apresenta 11 tópicos, os quais podemos ler a seguir.
1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da
temeridade.
2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da
nossa poesia.
3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase
e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insónia febril,
a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.
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4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma
beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado
de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um
automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo
que a Vitória de Samotrácia.
5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal
atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua
própria órbita.
6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a
fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um
carácter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser
concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para
obrigá-las a prostrar-se ante o homem.
8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que
haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas
portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem.
Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade
omnipresente.
9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o
militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as
belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher.
10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de
todo o tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza
oportunista e utilitária.
11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo
prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica
das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor
nocturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas
eléctricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes
fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios
de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que
transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os
navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas
de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes
cavalos de aço refreados por tubos e o voo deslizante dos aviões,
cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir
como uma multidão entusiasta. (Martin, 2005, p. 7).
O futurismo, bem como outros movimentos artísticos, esteve presente em
diferentes campos como na literatura, no cinema, na arquitetura, e é necessário
pontuar que havia interesse político na propagação de suas ideias que serviam
muito bem ao fascismo da época. Os artistas futuristas apresentavam uma
ligação com o fascismo, mas se mostravam teoricamente mais revolucionários
do que na arte na qual tentavam insistentemente representar o movimento e
velocidade das coisas também por meio da sobreposição de imagens.
No entanto, tais ideias não foram muito adiante, pois puderam observar
na prática os horrores de uma guerra reconhecendo erros em seu discurso, pois
“a Primeira Guerra Mundial marca evidentemente o debandar do grupo futurista
original” (Martin, 2005, p. 21). Em relação a isso, de acordo com Lynton (1991,
p. 76):
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A guerra de 1914-1918 precipitou o fim do futurismo. A “única higiene
do mundo” eliminou Sant’Elia e Boccioni em 1916. Os restantes artistas
futuristas transferiram-se para estilos e atitudes mais tradicionais.
Marinetti satisfez seus ideais políticos ajudando o Fascismo a
conquistar o poder na Itália. Alguns adeptos mais jovens do
movimento, como Prampolini, lograram levar alguns aspectos do
futurismo até à década de 1930, mas várias tentativas de reavivar o
futurismo depois de 1918 tiveram pouco impacto.
Mas, como pontua Wataghin (2003, p. 86):
a idolatria pela velocidade, o caos emocional, a sensação imediata, a
mudança contínua, são, todavia obrigadas a lidar com um presente
angustiante, com um passado que volta, daí surge como solução a
dissolução da memória através da guerra”. Dentre as características
futuristas se encontram ideias antitradicionais, contra elementos
convencionais e considerados burgueses, a exaltação da tecnologia e
velocidade como futuro da humanidade, a exaltação de máquinas
como carros, aviões e motocicletas e a exaltação da violência e da
guerra como “higiene do mundo.
Dos artistas futuristas, mencionamos Umberto Boccioni (1882-1916),
sendo a escultura intitulada Formas únicas na continuidade do espaço uma
das obras mais conhecidas do Futurismo. A partir da mencionada obra de
Umberto Boccioni, o historiador e crítico Argan (2006, p. 441) pondera:
Boccioni quer estudar os efeitos físicos da velocidade sobre a forma do
corpo humano, mas quer também erguer o monumento ao Homem
Veloz da civilização dinâmica. O fator psicológico é importante; com
esta estátua, Boccioni inventou a forma aerodinâmica, que se tornará
uma das formas típicas da morfologia e da iconografia de nossa época.
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Figura 1 – Escultura Formas únicas na continuidade do espaço, 1913, 1,10 de
altura
Crédito: Everett Collection / Shutterstock.
Boccioni se tornou uma das figuras-chave do movimento futurista ao lado
de Marinetti, mudando-se para Milão em 1907 com o intuito de melhor
acompanhar os avanços desse movimento. Além de Boccioni, há muitos outros
artistas futuristas dos quais citamos Luigi Russolo (1885-1947), Carlo Carrá
(1881-1966), Giacomo Balla (1871-1958), Ardengo Soffici (1879-1964), Gino
Severini (1883-1966), Anton Giulio Bragaglia (1890-1960), Fortunato Depero
(1892-1960).
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Figura 2 – Selo com reprodução de pintura futurista de Giacomo Balla
Crédito: Francesco Messuri / Shutterstock.
TEMA 2 – O ABSTRACIONISMO
A arte abstrata não possui relação imediata com a realidade, ou seja, não
apresenta uma relação representativa da realidade. Dessa forma, apresenta
maior liberdade na expressão de sentimentos e sensações do mundo externo,
contribuindo para impulsos visuais a partir da apresentação de formas arbitrárias
e o mesmo na disposição das cores sobre o plano. No entanto, conforme aponta
Gombrich (1999, p. 570), “tem sido frequentemente observado que a palavra
“abstrata” não foi uma escolha muito feliz, sugerindo-se a sua substituição por
‘não-objetiva’ ou ‘não-figurativa’. Mas a maioria dos rótulos em curso na história
da arte é fortuita. O que importa é a obra de arte, e não a sua etiqueta”.
A arte abstrata apresenta determinada influência da arte cubista, embora
o cubismo claramente não tenha intencionado abstrair as formas representadas
a ponto de lhes tirar a identificação. Isso porque o intuito era sintetizar as formas
buscando estudá-las em diferentes aspectos e ângulos. Dentre os principais
artistas abstracionistas citamos Wassily Kandinsky (1866-1944), Piet Mondrian
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(1872-1944), Kazimir Malevich (1878-1935), Paul Klee (1879-1940), Georgia
O'Keeffe (1887-1986), Jackson Pollock (1912-1956).
Figura 3 – Jardins do sol, pintura de aquarela sobre papel de Paul Klee, 1913
Crédito: Everett Collection / Shutterstock.
Destacamos então que o pintor russo Kandisnky foi o criador da arte
abstrata sendo o primeiro a deixar de referenciar a realidade em suas obras a
partir de particular experiência, no ano de 1910, em seu atelier:
Fui subitamente confrontado com um quadro de indescritível e
incandescente beleza. Intrigado, parei para olhar. O quadro não tinha
tema algum, não representava qualquer objeto identificável e era
totalmente composto de manchas coloridas. Por fim, aproximei-me e,
somente então, reconheci o que era – meu próprio quadro, virado de
lado no cavalete (Kandisnky, 1910 citado por Strickland, 1999, p. 143).
A partir de então, Kandinsky passa a defender a pintura abstrata, ou
representação não figurativa, como uma maneira muito mais ampla para a
expressão da síntese da natureza e das coisas. Enquanto a pintura figurativa se
limita à interpretação de apenas uma pequena parcela da natureza, a pintura
abstrata pode reunir diversos aspectos da natureza inteira, como um todo. Essa
natureza inteira, a que Kandinsky referencia, engloba tanto as relações da
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natureza externa como as relações da natureza interna do homem (Barros, 2006,
p. 161). Sendo assim, reconhecemos no abstracionismo relações com a
sinestesia, pois as experiências diante de uma tela abstrata podem ser múltiplas
e simultâneas. De acordo com Argan (2006, p. 446):
Kandisnky se propôs reproduzir experimentalmente o primeiro contato
do ser humano com um mundo do qual não se sabe nada, nem sequer
se é habitável. É apenas algo diferente de si: uma extensão ilimitada,
ainda não organizada como espaço cheia de coisas que ainda não têm
lugar, forma ou nome.
Kandisnky estudou Direito e Economia na Universidade de Moscou e em
1896 recusou o convite para se tornar professor da Universidade de Dorpat, pois
intencionava se dedicar à pintura. E isso ocorreu porque havia se deparado com
experiências ímpares após visitar uma exposição de artistas impressionistas em
Moscou e uma Ópera de Richard Wagner, o que inclusive lhe instigou a se mudar
para Munique (Barros, 2011).
Em 1922, Kandisnky foi convidado para lecionar na Bauhaus, sendo que
“seu conceito de síntese e suas convicções críticas, a respeito dos elementos
fundamentais da criação, vieram ao encontro dos ideiais de Walter Gropius”
(Barros, 2011, p. 155). Na Bauhaus, pôde se desenvolver com intensidade
intelectual, mas precisou se mudar para Paris anos depois, em decorrência da
forte pressão nazista que sofreu pelo fechamento dessa escola e por sua arte
moderna abstrata.
A Bauhaus surgiu na Alemanha no início do século XX, a partir da junção
da Academia de Belas Artes de Weimar e uma escola de artes e ofícios. Foi
fundada por Walter Gropius, mais precisamente em 1919, e permaneceu até
1933 quando teve que ser fechada mediante cobrança do governo nazista que
considerava a arte moderna uma expressão doente e degenerada, bem como
seus artistas e simpatizantes. A Bauhaus buscou unir diferentes gêneros
artísticos em uma mesma linguagem sem fronteiras, pois tinha uma ideia
bastante democrática sobre a arte, procurando vencer as barreiras que separam
uma arte considerada vulgar de uma arte considerada elevada, e propondo uma
parceria entre arte e indústria (Barros, 2011).
Não obstante, as ideias de Kandinsky também possuem relação com as
ideias do movimento expressionista alemão e muitas de suas obras mostram
bem a relação do expressionismo com sua pintura. Kandisnky desenvolveu sua
própria teoria da cor e desenvolveu sua arte a partir de impressões,
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improvisações e composições fazendo relação de sua pintura com a música. Seu
abstracionismo é repleto de linhas e formas orgânicas, por isso é considerado
um abstracionismo informal ou lírico, devido ao seu resultado biomórfico e
subjetividade. Para Gombrich (1999), Kandinsky foi praticamente um “místico”
ao destacar seu livro Do Espiritual na Arte (1912), a partir do qual:
Ele destacou os efeitos psicológicos da cor pura, o modo como um
vermelho brilhante pode afertar-nos como o toque de um clarim. A sua
convicção de que era possível e necessário gerar desse modo uma
comunhão de espírito a espírito estimulou-o a expor essas primeiras
tentativas de música cromática, que inauguraram efetivamente o que
passou a ser conhecido como “arte abstrata” (Gombrich, 1999, p. 570).
Figura 4 – Improvisação 27, 1912, Pintura abstrata de Kandisnky
Crédito: Everett Collection / Shutterstock.
O próximo artista a quem aqui daremos destaque será mais pelo resultado
pictórico abstrato de suas obras e não necessariamente por seu estilo
considerando algumas especificidades de seu trabalho que se encaixariam, de
acordo com Janson e Janson (1996), no expressionismo abstrato e que se
desenvolveram como uma nova abordagem na arte a partir do movimento
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surrealista. Trata-se do pintor norte americano Jackson Pollock, o qual
desenvolveu a técnica do gotejamento chamada da action painting, ou pintura
de ação, a partir do gestualismo na pintura.
Pollock fora cativado pelo Surrealismo, mas descartou gradualmente
as imagens fantásticas que tinham obcecado suas telas, optando pelos
exercícios de arte abstrata. Impacientando-se com os métodos
convencionais, colocou suas telas no chão e pingou, derramou ou
arremessou suas tintas, acabando por obter configurações
surpreendentes (Gombrich, 1999, p. 602).
A action painting implica técnica de dripping, que significa gotejar ou
esborrifar a tinta, e isso é feito sobre uma superfície plana, uma tela, disposta no
chão no qual o gestual do artista permitirá que a pintura se forme (Argan, 1992).
Ainda, segundo Argan (1992, p. 532), a action painting pode ser comparada com
o jazz com toda a sua liberdade por ser uma música “sem projeto”, pois “rompe
todos os esquemas espaciais da pintura tradicional” e, “num quadro de Pollock,
cada cor desenvolve seu ritmo”.
Figura 5 – Grupo de crianças visitando a pintura de Pollock no Museu de Arte
Moderna de Nova York
Crédito: TLF Images / Shutterstock.
Outro artista que abordaremos é o holandês Piet Mondrian, o qual deu a
sua contribuição no que se refere ao abstracionismo geométrico com apenas
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linhas retas e cores puras. A objetividade é elemento presente nessa modalidade
de abstração que conta com formas geométricas em sua composição passando
a descartar as linhas orgânicas e biomórficas. Mondrian, para o historiador Argan
(2006, p. 412):
O postulado moral de Mondrian é “eliminar o trágico da vida”; e é
trágico tudo o que provém do inconsciente, dos complexos de culpa ou
de poder, de inferioridade ou superioridade. É trágico o que Mondrian
chama, com acrimônia, de “barroco moderno”: o Expressionismo, o
Surrealismo, mas também a eterna alegria de viver de Matisse, as
explosivas deformações de Picasso, o riso entre lágrimas de Chagall.
Assim, o abstracionismo geométrico se apresenta como o oposto do
abstracionismo informal ou lírico, tendo a racionalização e intelectualização da
composição como caminho. Da mesma forma, a aplicação das cores é realizada
de maneira racional e equilibrada em oposição à subjetividade encontrada em
outras propostas de abstracionismo. Ainda de acordo com Argan (2006, p. 412),
sobre os valores de cor, Mondrian considerava que “não devem existir relações
de força, e sim relações métricas proporcionais”.
Figura 6 – Pintura abstrata geométrica do artista Piet Mondrian, propondo uma
composição apenas com linhas retas e cores puras
Crédito: Mark Rademaker / Shutterstock.
TEMA 3 – O DADAÍSMO E O SURREALISMO
O Dadaísmo é um movimento de vanguarda que se apresenta na primeira
metade do século XX, primeiramente em Zurique e depois nos Estados Unidos,
a partir de 1913. Os artistas dadaístas fazem da arte um meio para mostrar as
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suas contestações, também usando objetos de uso comum, escolhidos ao
acaso, para se tornarem obras de arte ao serem inseridos em um contexto
propício promovendo questionamentos e reflexões.
Inclusive o nome dadá também foi escolhido ao acaso quando, ao
procurarem um título para o movimento em questão, os artistas procuraram
aleatoriamente em um dicionário. Assim, a palavra francesa dadá significa
cavalinho de pau, daqueles que as crianças usam para brincar como se
estivessem montadas em um cavalo de verdade.
Além de tamanha ironia, outro sentimento que paira sobre os artistas
dadaístas é o pessimismo em relação ao mundo e seus desdobramentos. De
acordo com Janson e Janson (1996, p. 381):
O Dadaísmo não era totalmente negativo. Em sua irracionalidade
calculada havia também a liberação, uma viagem às regiões
desconhecidas da mente criativa. A única lei respeitada pelos
dadaístas era a do acaso; e a única realidade, a de sua própria
imaginação. Essa era a mensagem dos ready-mades de Duchamp,
que o artista criou simplesmente deslocando seu contexto utilitário para
o estético.
Para a arte dadá, tudo pode ser usado como meio de criação, incluindo
jornais, poesias, sons etc., além de objetos tirados do uso cotidiano para se
tornarem o que chamam de ready-made (já pronto). Isso permite aos artistas
ressignificar objetos, tornando-os obras de arte, porém muito mais pelo seu
conceito e possibilidades para se fazer pensar. Assim, percebemos não apenas
uma forte relação dessa arte com o acaso, mas também com a irreverência ao
propor críticas severas ao sistema econômico capitalista, à arte
institucionalizada, consumismo, guerra e mais, a partir da apresentação de
objetos já prontos. O conceito de nonsense (absurdo) pairava nas ideias
dadaístas e, conforme aponta Argan (1992, p. 356):
A reação psicológica e moral à guerra leva a polêmica contra a
sociedade da época aos seus extremos. A guerra era um
acontecimento em contradição com o racionalismo sobre o qual se
pretendia baseado o progresso social; os intelectuais que não queriam
compartilhar da responsabilidade das classes dirigentes que
desejaram a guerra teriam de assumir uma posição, e havia apenas
duas posições possíveis. Primeiro: considerar a guerra como um passo
em falso, um desvio da razão através de uma ação mais ou menos
enérgica (reforma ou revolução) [...]. Segundo: considerar falsa a
direção tomada pela civilização, e encarar a guerra como
consequência lógica do progresso científico e tecnológico [...].
Ou seja, a Primeira Guerra Mundial, realizada entre os anos de 1914 e
1918, foi um evento de grande impacto para o cerne pessimista e irracional da
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lógica nonsense do dadaísmo. Sendo assim, recapitulamos as principais
características da arte dadá como o caráter revolucionário e de vanguarda, a
constante da improvisação e acaso, presença de pessimismo, caos, ironia,
radicalismo, desordem, anarquia e agressividade e forte crítica ao sistema
capitalista juntamente com rejeição à guerra e ao modo de vida da burguesia.
Os dadaístas “acreditavam que a única esperança para a sociedade era destruir
aqueles sistemas baseados na razão e na lógica, substituindo-os por valores
ancorados na anarquia, no primitivo e no irracional” (Dempsey, 2003, p. 115).
Dentre os artistas do movimento Dadá citamos Hugo Ball, (1886-
1927), Marcel Duchamp (1887-1968), Hans Arp (1886-1966), Raoul
Hausmann (1886-1971), Francis Picabia (1879-1953), Man Ray (1890-1976).
Um dos maiores expoentes do dadaísmo e influenciados da arte
contemporânea foi o artista francês Marcel Duchamp que negava as técnicas
artísticas como operações programadas, atingindo seu ponto máximo na arte
com a criação dos ready mades (Argan, 1992). Duchamp é realmente um
artista provocativo que, como enxadrista que era, jogava com a arte e suas
possibilidades de maneira irônica e jocosa. Uma de suas obras implicou
colocar bigodes em uma reprodução da obra Mona Lisa de Leonardo da Vinci
com a intenção de contestar a veneração do público pela arte do passado.
Mas a obra mais conhecida de Marcel Duchamp foi o ready made
intitulado A fonte. Essa obra foi criada em 1917 e se trata de um urinol
assinado R. Mutt e “levou o mundo da arte a se posicionar sobre sua tão
propalada largueza de visão, ao mesmo tempo em que fazia um comentário
instigante sobre o peso que uma assinatura tem na avaliação de uma obra
de arte” (Dempsey, 2003, p. 115).
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Figura 7 – A fonte, famoso ready-made de Marcel Duchamp
Crédito: robson.miguel / Shutterstock.
Já a arte surrealista teve início no ano de 1924, com o poeta francês André
Breton (1896-1966) ao lançar seu primeiro manifesto surrealista, inspirado nas
teorias da psicanálise e filosofias ocultistas. Em oposição ao dadaísmo, o
surrealismo apresentava ideias mais otimistas a partir de seus conceitos e base
filosófica. Dessa forma, podemos compreender que:
Os surrealistas pretendiam nada mais, nada menos do que a total
transformação do modo de pensar das pessoas. Ao derrubar as
barreiras entre seus mundos interiores e exteriores, ao modificar o
modo como elas percebiam a realidade, o surrealismo libertaria o
inconsciente, reconciliando-o com o consciente, e também livraria a
humanidade dos grilhões da lógica e da razão, que até então haviam
conduzido unicamente à guerra e à dominação (Dempsey, 2003, p.
153).
Com a forte influência da psicanálise nas cenas e temas propostos como
característica central do surrealismo, observamos todo o tipo de representação
que vai além da realidade passando a juntá-la com o mundo dos sonhos ou
inconsciente. Mas observamos nas cenas para além do real que as pinturas
rompem com a realidade, no entanto, mantêm os traços figurativos pela
presença do automatismo subconsciente para a criação. Outro aspecto presente
na arte surrealista é a presença de símbolos e imagens oníricas, além da
ausência de uma lógica ou linearidade de ideias nos temas apresentados.
Conforme aponta Argan (2006, p. 360) sobre o surrealismo:
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O inconsciente não é apenas uma dimensão psíquica explorada com
maior facilidade pela arte, devido à sua familiaridade com a imagem,
as é a dimensão da existência estética e, portanto, a própria dimensão
da arte. Se a consciência é a região do distinto, o inconsciente é a
região do indistinto: onde o ser humano não objetiva a realidade, mas
a constitui uma unidade com ela. A arte, pois, não é representação, e
sim comunicação vital, biopsíquica, do indivíduo por meio de símbolos.
Dos principais artistas surrealistas destacamos Salvador Dalí (1904-
1989), Francis Picabia (1879-1953), Max Ernst (1881-1976), René Magritte
(1898-1969), André Masson (1896-1987), Paul Delvaux (1897-1994), Joan Miró
(1893-1983), Paul Klee (1879-1940) e Frida Kahlo (1907-1954).
Figura 8 – A persistência da memória, óleo sobre tela, Salvador Dalí
Crédito: kumachenkova / Shutterstock.
O artista espanhol Salvador Dalí se tornou um dos nomes mais
conhecidos do surrealismo trabalhando com uma técnica pictórica bastante
precisa e associações inusitadas. Sobre Miró, podemos evidenciar que o seu
estilo, embora possa parecer um tanto quanto abstracionista e inclusive fora
chamado de abstração biomórfica devido às formas que se organizavam no
espaço bidimensional pelo uso deliberado de linhas orgânicas, enquadra-se no
surrealismo. Assim, reconhecemos também em Miró determinado hibridismo
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entre estilos e movimentos, o que naturalmente ocorre com muitos outros
artistas.
TEMA 4 – A POP ART
A Pop Art surgiu nos anos de 1950, na Inglaterra, mas desde o início tem
influência da mídia norte-americana. Nas discussões propostas pela pop art,
vinham à tona questões relacionadas à “crescente cultura de massa que se
manifestava no cinema, na propaganda, na ficção científica, no consumismo, na
mídia e nas comunicações, no design de produtos e nas novas tecnologias que
se originaram nos Estados Unidos mas que então se espalhavam por todo o
Ocidente” (Dempsey, 2003, p. 217). Vale destacar a constante inspiração que
Roy Lichtenstein (1923-1997) encontrava nas histórias em quadrinhos e sua
reprodutibilidade em tamanhos superiores para exposição:
O que fascina Lichtenstein nas histórias em quadrinhos – e o que ele
nos faz ver pela primeira vez – são as rígidas convenções de seu estilo,
tão firmemente estabelecidas e tão distantes da vida quanto as regras
da arte bizantina. Como um ícone, sua pintura espelha dessa forma os
ideais e esperanças de nossa cultura, e o faz de uma forma que todos
saber “ler” (Janson; Janson, 1996, p. 396).
Figura 9 – Obras de Lichtenstein expostas no Museu de Arte Moderna de Viena
Crédito: Radu Bercan / Shutterstock.
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Dentre as características mais marcantes da Pop art destacamos o
trabalho com imagens e personalidades da cultura pop, ou cultura de massa,
possui influência do Dadaísmo, trabalha deliberadamente com a
reprodutibilidade das obras, faz uso de cores vibrantes. E, “ao contrário do
Dadaísmo, a Pop Art não é motivada pelo desespero ou animosidade contra a
civilização atual; considera a cultura comercial sua matéria-prima, uma fonte
inesgotável de material pictórico, mais do que um mal a ser combatido” (Janson;
Janson, 1996, p. 395).
Também podemos citar outros artistas pop como Andy Warhol (1928-
1987), Jasper Johns (1930), Richard Hamilton (1922-2011).
Figura 10 – A bandeira, obra de Jasper Johns
Crédito: Ms Y Bailey / Shutterstock.
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Figura 11 – Reprodução de retratos de Marilyn Monroe em serigrafia, obra de
Andy Warhol
TEMA 5 – OPTICAL ART
A Optical Art, também conhecida como Op Art, é uma tendência estética
que propõe uma arte óptica cujo movimento culminou na década de 1960, nos
Estados Unidos. A proposta da Op Art é trabalhar com recursos e elementos
visuais que promovam a ilusão de ótica em detrimento da expressão de algum
sentimento ou reprodução naturalista de alguma cena ou objeto. No ano de 1965,
foi realizada, no Museu de Arte Moderna de Nova York, a primeira exposição do
movimento Op Art, intitulada O olho que responde.
Apesar de ter ganhado força na metade da década de 1950, a Op Art
passou por um desenvolvimento relativamente lento. A op Art não tem
o ímpeto atual e o apelo emocional da Pop Art; em comparação, parece
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excessivamente cerebral e sistemática, mais próxima das ciências do
que das humanidades. Por outro lado, suas possibilidades parecem ser
tão ilimitadas quanto as da ciência e da tecnologia (Janson; Janson,
1996, p. 392-393).
O artista precursor do mencionado movimento foi Victor Vasarely (1908-
1997), ainda na década de 1930 como resultado de seus estudos
abstracionistas. Dentre outros artistas temos Alexander Calder (1898-1976), Luiz
Sacilotto (1924-2003), Adolph Frederick Reinhardt (1913-1967), Jesús-Raphael
Soto (1923-2005), Kenneth Noland (1924-2010), Richard Allen (1933-1999).
Figura 12 – Exposição com obras de Victor Vasarely
Crédito: Dedo Luka / Shutterstock.
Como principais características da Op Art, podemos evidenciar o uso
deliberado de efeitos de cor e perspectiva para a obtenção de resultados visuais
ópticos diversos, aplicação de cores diversas e formas geométricas e efeitos de
ilusão de ótica. Tais efeitos de ilusão de ótica podem inclusive mudar conforme
o ângulo de observação, por isso é necessário o estudo de física sobre a parte
de óptica para a obtenção de resultados diretamente na retina do observador.
Outro artista de destaque da Op art foi Josef Albers que primeiramente
frequentou a Bauhaus como aluno, entre os anos de 1920 e 1923, para,
posteriormente, tornar-se professor dessa mesma instituição. Albers
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desenvolveu a sua própria técnica de estudo e metodologia didática voltada à
experimentação e ensino das cores.
A preocupação de Albers é, portanto, enxergar o que acontece entre
as cores, ou seja, entender a interação cromática. Seu objetivo é
conscientizar os alunos, antes de tudo, de que as cores se apresentam
num fluxo contínuo, instável, em constante interação com as cores
vizinhas e suscetíveis às alterações da luz (Barros, 2011, p. 224).
Tais ideias “motivam o aluno a ‘descobrir’ os efeitos e as leis dos
contrastes simultâneo e sucessivo, ao mesmo tempo que condicionam neles a
necessidade cromática figura-fundo, ou seja, estabelecendo sempre uma inter-
relação entre as cores” (Barros, 2011, p. 217).
NA PRÁTICA
Com base no que aprendemos nesta aula:
• vamos escolher um artista de cada um dos tópicos de nossa aula e
realizar uma breve pesquisa sobre a sua produção artística;
• em seguida, vamos refletir sobre a poética e os temas mais trabalhados
por esses artistas para escolhermos apenas um, conforme nossa
afinidade;
• agora, vamos pensar em um objeto de nosso meio que possa ser usado
como inspiração para a criação de uma obra de arte;
• esse objeto pode ser transformado em ready-made ou mesmo
reproduzido bidimensional ou tridimensionalmente conforme a sua
escolha; e
• por fim, escreva um texto crítico filosófico que o contextualize no momento
de sua criação considerando também a sua região e fatores culturais –
lembre-se de informar sobre todo o seu processo criativo.
FINALIZANDO
Nesta aula, aprendemos sobre o Futurismo na arte com suas principais
características como o antitradicionalismo e exaltação da velocidade, tecnologia
e violência. Assim, apresentamos o manifesto futurista e passamos pelo
abstracionismo destacando a sua libertação das formas reconhecíveis e
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representativas rumo à subjetividade nas formas, mostrando também o
abstracionismo geométrico com a obra do artista Piet Mondrian.
Os movimentos estéticos seguintes foram o surrealismo e o dadaísmo
com seus respectivos ideais e principais artistas. Após isso, demos destaque na
Pop Art. Por fim, tratamos sobre a Optical Art que foi o movimento estético com
início na década de 1950 com estudos da física no campo da óptica trazendo
dois artistas surpreendentemente significativos para esse movimento: Victor
Vasarely e Josef Albers.
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REFERÊNCIAS
ARGAN, G. C. Arte moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
BARROS, L. R. M. A cor no processo criativo: um estudo sobre a Bauhaus e
a teoria de Goethe. 4. ed. São Paulo: Editora Senac, 2011.
DEMPSEY, A. Estilos, escolas e movimentos. São Paulo: Cosac e Naify, 2003.
GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1999.
JANSON, H. W.; JANSON, A. F. Iniciação à história da arte. São Paulo: Martins
Fontes, 1996.
LYNTON, Norbert. Futurismo. In. STANGOS, N. (Org.). Conceitos de arte
moderna. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
MARTIN, S. Futurismo. Colônia: Taschen, 2005.
PERLOFF, M. O momento futurista: avant-garde, avant-guerre e a linguagem
da ruptura. Tradução de Sebastião Uchoa Leite. São Paulo: Ed. USP, 1993.
WATAGHIN, L. (Org.). Brasil & Itália: Vanguardas. São Paulo: Ateliê Editorial.
2003.
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