RESENHA DO LIVRO “SABER VER A ARQUITETURA”
HISTÓRIA DA ARQUITETURA MODERNA
EDUARDO CORREA E MILENA MINIKEL
CAU - UFSM - 2022/01
1.1 As leis e as medidas do espaço do séc. XV
Muito se discute sobre a continuidade da passagem do gótico para o
renascimento durante o século XV. Nesse período muitos eventos marcaram a vida
em sociedade e a transformação de conceitos antes pré estabelecidos, tais como
descobertas territoriais, o uso da perspectiva, da imprensa, entre outros. Apesar
disso, o tópico defende que a arquitetura da Renascença e a atitude humanística
manifestam-se antes do século VX.
No geral, havia uma divisão do pensamento popular acerca da Renascença,
uma vez que havia a ideia de que o período seria de cunho totalmente inovador e
nunca antes visto, mas também vertentes que a introduziram como um
reaproveitamento da arquitetura romana, retirando seu caráter criador. Sendo assim,
para que essa imagem fosse corrigida, a crítica contemporânea reforçou o aspecto
da originalidade renascentista, bem como a sua importância para a continuidade
histórica da cultura.
Nessa perspectiva, é importante ressaltar que características como a ordem,
a lei e a oposição à infinitude dos espaços góticos se fizeram muito presentes como
novos elementos aplicados dentro do Renascimento. Pode-se ver isso como
exemplo nas igrejas de San Lorenzo e Santo Spirito, projetadas por Brunelleschi,
que apresentam uma métrica espacial muito baseada em relações matemáticas,
retirando a exaltação assídua dos preceitos religiosos, e raciocinando com métodos
humanos. Do mesmo modo, Brunelleschi expressou a consciência de que não é o
edifício e suas diretrizes que devem conduzir o homem, mas que este, a partir do
conhecimento sobre a lei do espaço, possua o segredo do edifício.
Além disso, está presente uma certa planimetria nos espaços, juntamente
com o predomínio de plantas de plantas centrais e da valorização dos eixos, para
que assim houvesse um maior controle intelectual do homem sobre o espaço. Sob o
mesmo ponto de vista, no Renascimento também verificou-se certa contestação
acerca das grandes decorações dispersivas antes utilizadas, tendo em vista que
não se tinha mais o desejo de desfocar os panoramas, mas sim o desejo de definir
leis e medidas até mesmo para as superfícies.
Percebe-se ainda que, quando se fala da planimetria, Alberti surge como um
exemplo muito visível, no Palazzo Rucellai, ao dividir e medir a superfície
volumétrica com pilares, e colocando ritmo com módulos simples, ao mesmo passo
que Brunelleschi performou o mesmo, porém em espaços internos.
Por fim, é relevante ressaltar que, apesar do que se pode pensar, a lógica e
as métricas matemáticas não engessaram a produção arquitetônica, muito menos a
transformaram em um processo mecânico. Esse novo jeito de pensar fundou na
realidade uma base capaz de estimular as expressões individuais que surgiram
naquele momento.
2.2 Volumetria e Plástica do século XVI
Toda a arquitetura produzida no séc. XV, que tentou trazer nas formas as
melhores possibilidades de expressar o belo ideal e suas culturas, agora começam
a fazer parte da parte ideológica dos arquitetos e artistas do séc. XVI. Entretanto,
ainda havia os que tomavam a liberdade de ignorar todo esse valor histórico e
tentavam se apropriar com certa hipocrisia de suas elevações que nada tinham a
ver com o séc. XV, fato que é injustificável pois, os mesmos, ainda se diziam
contempladores de todo o legado.
Como o edifício que abre o séc. XVI, Tempietto, de Bramante nos relembra o
antigo Partenon, que de semelhanças não vão além do aspecto volumétrico, pois
agora a arquitetura passou a abranger os ambientes internos. Esse é um belo
exemplo do permanecimento de elementos do período anterior na continuação do
fazer arquitetônico.
Do gótico à primeira renascença, a transformação dos espaços e arquitetura,
antes sem delimitação rígida, não ocorreu drasticamente, mas trouxe a
racionalidade na busca de volumes mais definidos. Essa é a marca que distingue os
dois períodos, enquanto as formas geradas do século XV seguiam um caráter
rebuscado e sem um padrão formal, as suas sucessoras já visavam tecer um
padrão entre si através de planos, dando solidez as cidades, o que de certa forma
proporcionou um melhor conforto visual.