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POVOS RENASCIDOS
SUBSIDIOS DIDATICOS
CAPA: Criangas Guarani (Vila Juti — MS) SOBRE A QUESTAO INDIGENA
Foto: Railda Herrero SERIE B —VOL.1
CIMI — CNBB
1986
‘® Este livreto ¢ ecompanhado do mapa “Povos
Indfgenas @ Presenca Missiondria'’ — Cimi/85INDICE
Introducao . . 5
Capitulo | — A diversidade lingiifstica ............... 6
Capitulo Il — Classificagdo cultural dos povos indigenas
G0 Brasil’: cose seenees ewaeeees
Capitulo II] — Sou Indio 6... 6. cece eee c ee ee eee es 22
ok 26
PMOKO Pisses oe ecw ace ose enna ne MINI HaTATIMeLee mee 28
INTRODUCAO
Hé vérios anos, o Consetho Indigenista Missiondrio (Cimi)
esté tentando desenvolver um trabalho sistemdtico junto aos pro-
fessores e alunos, visando apresentar uma nova imagem dos povos
indigenas, mais verdadeira e mais auténtica,
Durante muito tempo o fndio foi visto como algo do passado
(e de um passado escrito pelo dominador), ficando ou na galeria
dos “homens ilustres” (aqueles que colaboravam com os portugue-
ses, 6 claro) ou na categoria dos selvagens e antropéfagos, os cha-
mados “{ndios brabos”, conceito até hoje encontrado nos livros
didéticos e em muitos lugares no Brasil.
De outro lado, encontramos o inofensivo indio folclorico,
cujas festas e tradigGes foram corrompidas e profanadas pelo indi-
genismo oficial e também pelos missiondrios, que destru(ram o
que de mais auténtico havia sobrado — a alma destes povos.
Muitos resistiram e n&o se dobraram ante a invaséo branca.
E, para que as nac6es indigenas encontrem seu espaco na sociedade
nacional, como povos e nacdes diferentes, com um passado e com
culturas préprias, o Cimi esté langando vérios subsidios que muito
ajudaraéo na descoberta de nossas ra/zes culturais.
Neste 12 volume da Série B, damos uma apresentagdo dos va-
rios grupos lingii(sticos e das respectivas éreas culturais. Em volu-
mes posteriores, outros aspectos seréo enfocados, como as festas,
os rituais, os mitos, a educag&o etc,
Gostariamos que todos os que utilizassem este material fizes-
sem uma apreciagéo do trabalho e que nos escrevessem dando su-
gestGes. Aguardamas sua colaboragao.
-5-CAPITULO |
FOTO: Paulo Sues
L (deres de vériot povos ind/genas, reunides em Brasilia
A DIVERSIDADE LINGUISTICA
Ndo é raro encontrar pessoas que acreditam que todos os
{ndios do Brasil falam lingua tupi. Essa idéia se deve a uma super-
valorizagdo da lingua e dos indios Tupi diante dos demais ind{ge-
nas do Brasil. Mas a crenga de que o tupi é a Gnica ou mais impor-
tante lingua dos {ndios no Brasil tem uma explicacao. E que os
conquistadores portugueses encontraram todo o litoral brasileiro
ocupado por {ndios entre os quais predominava uma lingua tupi.
Esta foi a primeira lingua nativa que os missiondrios aprenderam.
A ela se afeigoaram e adotaram uma atitude de desdém para com
as outras Ifnguas, que ndo compreendiam, chamando os povos que
as falavam de povos de ‘lingua travada’’.
A lingua tupi foi ndo somente aprendida, mas também modi-
ficada pelos missiondrios, que Ihe impuseram uma gramatica nos
moldes do latim, sendo divulgada por eles, de modo que popula-
g6es ind(genas de outras tradi¢6es lingi(sticas chegaram a aprender
© tupi. Assim, por exemplo, os missiondrios espanhdis impuseram o
guarani (a variante meridional do tupi) aos (ndios que habitavam o
Paraguai e que no o falavam, e até hoje o guarani é falado nesse
pafs, ao lado do espanhol. Dentro mesmo do Brasil, na regiao do
tio Negro, afluente do Amazonas, os sertanejos falam a ‘‘I{ngua ge-
ral’’, resultado da evolucéo do antigo tupi disciplinado pelos mis-
siondrios. E os indios da regido, que falam diferentes linguas ndo-
tupi, tém sido levados a aprender a “‘Ifngua geral”’ para poderem
comunicar-se com os sertanejos e entre si. A I{ngua geral, na 4rea,
é uma heranga do tempo colonial quando era falada em toda a
Amazonia. O portugués porém, foi substituindo-a paulatinamente,
ficando ela restrita 4 bacia do rio Negro. Os (ndios Tupi contaram
ainda com um grande numero de cronistas que deixaram informa-
g6es sobre seus costumes, 0 que nfo aconteceu com outros grupos
tribais.!
Dada a falta de informagées sobre os indios ndo-Tupi, as gran-
des figuras da literatura brasileira, em seus trabalhos indigenistas,
focalizaram predominantemente o {ndio Tupi, chegando mesmo
a atribuir costumes dos Tupi a povos indfgenas n§o-Tupi, como 0
faz Gongalves Dias em seus poemas. Tudo isso levou a uma super-
valorizagao do tupi.
A primeira classificag&o das Iinguas indfgenas do Brasil foi
aquela que as distribufa em Iinguas tupi e |inguas tapuya. Tal clas-
1 Entre os cronistas do séc. XVI podemos citar: Jean de Léry, Claude d’Abbeville, Hans
Staden e José de Anchieta.
==sificagdo se deve aos primeiros colonizadores e missiondrios, que
adotam preconceitos dos (ndios Tupi contra os demais. Assim,
enquanto as I{nguas classificadas como tupi se relacionavam entre
si, as classificadas como tapuya eram as mais diversas, completa-
mente diferentes umas das outras, e que aos missiondrios nao inte-
ressavam conhecer. Essa classifica¢o vigorou por muito tempo até
que Von Martius, no século passado, demonstrou que as Ifnguas
tapuya nado formavam um todo homogéneo. Assim, ele destacou
da confusado das Iinguas tapuya a fam/flia jé. Desse modo, se foi
pouco a pouco chegando 4 to conhecida classificagado das I{nguas
dos ‘ndios no Brasi! em tupi, jé, karib e aruak, sempre presente nos
livros diddticos de Histéria do Brasil. E o termo tapuya perdeu
cada vez mais sua razdo de ser. Além desses grandes conjuntos de
Ifngua, os pesquisadores conseguiram também distinguir conjuntos
menores, como pano, tukano, guaikuru, maku € outros.
Ha varias maneiras de se fazer uma classificagdo das |inguas,
mas os lingiistas atuais consideram como mais desejavel a classi-
ficagdo do tipo genético, sé recorrendo a outras quando nao ha
dados suficientes para realizd-la. A classificagao de tipe genético
consiste em reunir numa s6 classe as linguas que tenham tido
origem comum numa lingua anterior. Esta lingua anterior é re-
constituida de tal maneira pelos lingiiistas, que de seus vocabulos
se possam fazer derivar, através de leis fonéticas, os vocdbulos das
I{nguas atuais que constituem a referida classe. Da mesma maneira
que os fildlogos, através de leis fonéticas, deduzem do latim vulgar
as Iinguas neolatinas (portugués, francés, italiano, espanhol etc.),
assim também os lingilistas tentam fazer com as |inguas indfgenas
do Brasil, mostrando como se derivam de | inguas j desaparecidas,
que eles tentam reconstruir. Desse modo, as Iinguas que ttm uma
origem comum sao todas reunidas numa familia. As familias, que
apresentam certas afinidades, s4o agrupadas num bloco. Com base
nesse critério, os lingilistas se esfor¢am para conseguir incluir as
linguas ainda nao classificadas numa familia, as familias isoladas
num bloco, e assim por diante. Tal trabalho exige, no entanto, que
0 conhecimento das linguas a serem classificadas va mais além do
que uma lista de palavras, devendo haver também um conhecimen-
to profundo da gramatica dessas | {nguas. ({ndios do Brasil, de Julio
Cezar Melatti).
A seguir, apresentamos a classificagéo lingdistica dos povos
indigenas no Brasil, elaborada pelo Prof. Aryon Rodrigues.
==
TRONCO
TuPI
FAMILIA
TUPI-GUARAN|
ARIKEM
JURUNA
MONDE
MUNDURUKU.
RAMARAMA
TUPARI
LIncua DIALETO
ANAMBE
APIAKA
ARAWETE
GUAJA
KAYOVA
GUARANI NHANDEVA
MBYA
KAMAYURA
KAMBEBA (= OMAGUA!
PARINTINTIM
HAHOL
D
KAWAHIB TENHARIM
JUMA
KAYABI
KOKAMA
PARAKANA
TAPIRAPE
GUAJAJARA
TENETEHARA é TEMBE
URUEWAWAU (= URU-EU-UAU-UAU)
URUBU-KAAPOR
ASURINI DO TOCANTINS
|= Al a)
ASURINI DO XINGU
l= Awaeté)
SURUI/PARA
(= Mudjetire)
OYAMPI
KARIPUNA/AMAPA
KARITIANA
JURUNA.
CINTA-LARGA
GAVIAO/RONDONIA (= DIGUT)
SALAMAI (= SANAMAYKA)
SURUITRONDONIA
ZORO
MUNDURUKU
KURUAYA
AWETI
ARARA/RONDONIA
ITOGAPUK
TUPARI
MAKURAP
WAYORO (= AJURU)
AVA-CANOEIRO
-9-TRONCO FAMILIA
MACRO-
JE
JE
BORA
BORORO
BOTUCUDO
KARIRI
MAXAKALI
LINGUA DIALETO
XAVANTE
AKEWEN XERENTE
XAKRIABA (ndo mais falade)
KAINGANG
KAINGANG XOKLENG
GOROTIRE
KARARAO,
XIKRIM
KREEN-AKARORE
KAYAPO KOKRAIMORO
KUBENKRANGNOT!
KUBENKRANKEGN
MENTUKTIRE (=Txukshemée)
TAPAYUNA (=Beico de Pau)
suyA
TAPUIA?
APINAYE
CANELA APANIEKRA
CANELA KAMKOKAMEKRA
GAVIAO/MA (=Pukoby‘
TIMBIRA GAVIAO/PA (=Parakste)
KRAHO
KREYE
KRIKATI
MIRANHA
BORORO (=BOE)
UMUTINA
FULNI-O
KRENAK indo meis felada)
KIRIRI (nfo mais falada)
MAXAKALI
PATAXO (no mais faleda)
JAVAE
KARAJA KARAJA
XAMBIOA
GUATO
OFAYE
RIKBAKTSA
a
TRONCO FAMILIA
ARUAK
ARAWA
Lingua DIALETO
ARARA/AMAZONAS
BANIWA
BARE
KAMPA
KURIPAKO
MANDAWAKA
MANITENER!
MAREKENA
MAXINERI
PALIKUR
PARES!
PATO-TAPUIA
SALUMA (= ENAWENE-NAWE)
TARIANA (= TALIASERI)
TERENA
WAPIXANA
YABAANA.
MEHINAKU
_—_— WAURA
YAWALAPITI
et < APURINA (=POPENGARE)
KAXARAR!
[Link]
DENI
KANAMATI
KULINA (= MADIHA)
PAUMARI
MAMORI
YAMAMADI
==TRONCO
FAMILIA
GUAIKURU
KARIB
KATUKINA
MAKU
MURA
NAMBIKWARA
LINGUA DIALETO
KADIWEU
APALAL
BAKAIRI (= KURA)
GALIBI
INGARIKO
MAYONGONG (= MAKIRITARE, YEKUANA)
TAULIPANG
TIRYO
WARIKYANA
WAYANA
KALAPALO
KUIKURO.
ne NAHUKWA (= NAFUKWA)
MATIPU
-. ARARA/PARA
— TXIKAO
HIXKARIANA
-—-—— KAXUYANA
WAIWAI
KATUKINA DO JUTAT (= PIDA-DJAPA)
KANAMARI
KATAWIXI
TXUNHUA-DJAPA
MAKU-BARA
MAKU-GUARIBA
MAKU-HUPDA
MAKU-KAMA
MAKU-NADEB
MAKU-YAHUP
PIRAHA (= MURA-PIRAHA)
NAMBIKWARA
LATUNDE
SABANE
-12-—
TRONCO FAMILIA
Linauas
CLASSI.
FICADAS:
—M
‘TRONCO
PANO
TUKANO
TXAPAKURA
YANOMAMI
{
Linaua
AMAWAKA.
KARIPUNA/RONDONIA
KATUKINA DO JURUA
KAXARARI
KAXINAWA,
KULINA
MARUBO
MATIS (= MATSES)
MAYA
MAYOQRUNA
NUKUINI
POYANAWA
YAMINAWA
YAWANAWA
DIALETO
ARAPASO (= KONEA)
BARASANA
DESANA
JURITI (= YURITI-TAPUIA)
KARAPANA
KOBEWA (= PAMIWA)
MIRITI
PIRA-TAPUYA (= WAIKAHARA, WAIKANA)
SARIRA (= SURYANA)
TARIANA
TUKANO
TUYUKA
WANANA
YEBAMASA
PAKAANOVA (= ORO-WAR!)
ToRA
uURUPA
SANUMA
NINAM (= YANAM)
YAINOMA (= YANOMAM)
YANOMAMI
-13-LINGUAS ISOLADAS OU NAO CLASSIFICADAS EM FAMILIAS
AIKANA KANOE
ARARA/ACRE KORUBO
ARIKAPU KUYUBI
AWAKE MARAJONA
AWET! MASAKA
HIMARIMA MOREREB!
NUMBIAT (= ORELHA DE PAU)
IRANTXE PAPAVO
= MYNKY TIKUNA
TRUMAI
JABUTI wITOTO
KAMBA ZURUAHA (= INDIOS D0 COXODOA)
GRUPOS QUE NAO FALAM MAIS LINGUAS INDIGENAS
ATIKUM. PATAXO. TUXA
KAIMBE PATAXO HA-HA-HAE XAKRIABA
KAMBIWA POTIGUARA xOKO
KAPINAWA TAPEBA XOKO-KARIRI
KIRIAL TINGUI {= TINGUI-BOTO) = XUKURU
KRENAK TREMEMBE XUKURU-KARIRI
PANKARARE TRUKA WASU
PANKARARU TUPINIKIM
SUGESTOES PARA O TRABALHO COM OS ALUNOS
Num primeiro momento, fazer com que o grupo comece a
perceber a diversidade étnica nas nagGes indigenas e ver a defor-
magao que a historiografia oficial provocou, criando o conceito
que se tem hoje dos povos ind igenas no Brasil. Por isso, sugerimos
os exercicios e os debates que se seguem.
1— Propor aos alunos uma pesquisa, para reconstituir o mundo
cultural de varios grupos indigenas, na época da invaséo
portuguesa. Consultar os cronistas da época.!
2 — Nos séculos XVII e XVIII, os jesuitas agruparam os Guarani
em aldeias chamadas redugdes. Apresentar, em trabalhos de
grupos, os aspectos positivos e negativos desta experiéncia.”
3— Os bandeirantes paulistas, também chamados cacgadores de
indios, foram os grandes responsdveis pelos massacres e es-
| Ver referéncia bibliografica n°* 4, 7 6 16,
Vern 9e 11.
-4-
cravizagdes em massa dos Guarani, Fazer um debate entre
dois grupos, sendo uns a favor e outros contra esta pratica
colonial.?
4— Fazer um levantamento sobre a situacdo atual dos Guarani,
no litoral paulista e no Mato Grosso do Sul.4
5— Localizar no mapa “‘Povos Indigenas’ do Cimi, os varios
troncos linglfsticos e fazer, como o da fig. 1, um mapa para
as Ifnguas dos tronco Macro-Jé, Aruak e das familias Karib,
Pano e Tukano.
6 — Fazer uma pesquisa, procurando levantar as diferengas
culturais existentes entre um grupo do tronco tupi (Urubu-
Kaapor) e um grupo do tronco Macro-Jé (Xavante).>
7 — Baseados nos artigos do Prof. Aryon D. Rodrigues, publica-
dos no PORANTIM (1982, 83 e 84), levantar algumas carac-
ter{sticas dos grupos nao classificados em troncos lingiifsti-
cos, como os de I{ngua Karib, Maku, Yanomami etc.°
8 — Pesquisar algumas caracteristicas culturais dos Mynky, que
apresentam | {ngua isolada.”
9 — Procure descobrir quantos grupos lingl(sticos existem no
Parque Nacional do Xingu, quantos povos l4 vivem e por
que e quando foram para ld transferidos.*
BIBLIOGRAFIA
1— AMARANTE, Elizabeth A. As Bem-Aventurangas do Povo Myky, Vores, Petrd-
Polis, 1983.
2— COMISSAO PRO-INDIO-SP. indios no Estado de Séo Paulo: Resisténcia e Trans-
figuragfo, Yankatu Edit. So Paulo, 1984,
3— CIMI. Mapa Povos indigenas no Brasil@ Presanca Missionaria, Brasilia, 1985.
4— D'ABBEVILLE, Cloude. Historia da Missio dos Padres Capuchinhos na Itha do
Maranhéo, Itatiaia Edit., Belo Horizonte, 1975.
5— GIACCARIA, B. Xavante, Povo Auténtico, Editorial Dom Bosco, S80 Paulo, 1972.
6— HERRERO, R. Morte « Ressurroigio do Povo Guarani, PORANTIM, n° 64, Bra:
silia, 1984, pg. 304,
2 Vern 90 17.
* Vern 3e 15.
5 Ver n> 5e 14.
& Ver n? 18.
T Ver n51 8,
5 Ver n?$ Se 19.
-15—7= LERY, J. Viagem & Terrado Brasil, Biblioteca do Exército Edit., Rio, 1961
8 — LISBOA, Thomaz A, Entre os Indios Manki, Loyola, $40 Poulo, 1979.
9— LUGON. A Repdblice Comunista—Cristé dos Guerani, Paz ¢ Terra, Rio, 1977,
10 MELATTI, J.C. Indios do Brasil, Hucitec, So Paulo, 1983.
11— MELIA, B. O Guerani Reduzido, in “Das reduces Latino-americanas ds lutas in
digenas atuais'!, Paulinas, S50 Paulo, 1983.
12 MELIA, B. O Indio no Rio Grande do Sul, Coorden. Pastoral Indig. Rio Grande
do Sul, 1984,
19 ~ PORANTIM, Consetho Indigenista Missiondrio, Brasilia, anos 1979, 80, 81, 82,
83, 84 e BS.
14 RIBEIRO, Darcy. Uid Sei @ Procura de Deus, Paz e Terra, Rio, 1974
16 = SIQUEIRA, Priscila, Genoeldio dos Caigaras, Massao Ohno Edit., 1984
16 ~ STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil, |tativia Edit., Belo Horizonte, 1974
17 ~ DAVIDOFF, Carlos. Bandeirantismo:Verso @ Reverso, Col. Tudo ¢ Historia n° 47
Ed. Brasiliense, So Paulo, 1982,
18 RODRIGUES, Aryon D. Linguas Indigenas do Brasil, PORANTIM, °° 40/41, 42,
43, 44, 46, 69/60, 61 64, 65 ¢ 68.
19 — DAVIS, Shelton, Vitimas do Milagre, Zahar Editores, Rio, 1978,
i
g
t
al
8
CAPITULO II
India Araweté, de aldela de Rio Ipixune —PA
CLASSIFICAGAO CULTURAL DOS
POVOS INDIGENAS DO BRASIL
Para se ordenar dentro de um sistema compreensivel os inu-
meros povos que viviam e ainda sobrevivem em nosso Pafs, pode-
se usar pelo menos trés critérios.
Um deles seria 0 tipo fisico do indio, isto 6, seus caracteres
raciais. Desse ponto de vista, os antigos habitantes das Américas
so definidos como mongoldides. Ou seja, pertencem a mesma
origem dos chineses, japoneses e outros povos orientais.
Outro critério de classificagio do (ndio 6 o lingiifstico. (Ver
cap/ftulo anterior).
O terceiro critério de classificagdo 6 0 das diferencas cultu-
rais. Ao contrério do que pode parecer, o indio na América, em
geral, e no Brasil,em particular, nio tem um modo de vida uni-
-17-forme. Mesmo os povos que pertencem & mesma familia lingiifs-
tica, diferenciam-se em inGmeros aspectos culturais. Por outro
lado, povos que falam I{nguas e dialetos distintos, aproximam-se
mais, em usos e costumes, por viver em regido contigua. Daf a
nog&o de drea cultural, introduzida na antropologia para significar
unidades geogréficas de cultura, ou seja, regides ecologicamente
homogéneas, onde vivem povos que participam de certos tragos
sécio-culturais comuns. O conceito de 4rea cultural coloca énfase
no papel da difusio como veiculo de cultura, embora nao seja
tinico.
Devemos a Eduardo Galvio a classificagao, em areas culturais,
dos povos remanescentes no Brasil do século XX. Elaborada em
1959, essa tipologia leva em conta o fator acultura¢do, tanto inter-
tribal, como interétnico, isto é, com relag%o a sociedade nacional,
como acelerador predominante no processo de mudanga. Nesse
sentido, a classificag¢fo de Galvéo considera a dinamica social, o
tempo e 0 espaco presentes.
Galvao discrimina onze d4reas geogrficas. Dentro de algumas
delas distingue subdreas, tidas como intrusdes ou enclaves caracte-
tizados por sistemas ecoldgico-culturais divergentes. Sdo as se-
guintes.
1 — Norte-amazénica
2 — Jurué-Purus
3 — Guaporé
4 — Tapajés-Madeira
5 — Alto Xingu
6 — Tocantins-Xingu
7 — Pindaré-Gurupi
8 — Paraguai (Chaco)
9 — Parané
10 — Tieté-Uruguai
11 —Nordeste.
Finalmente, cabe mencionar a tipologia desenvolvida por
Darcy Ribeiro, em 1957, pautada na situag8o de contato com a so-
ciedade nacional dos povosque sobreviveram até nossos dias. Desse
ponto de vista, isto é, do grau de integracdo na sociedade neobrasi-
leira, Ribeiro distingue as seguintes situacdes.
1 — Grupos isolados — Compreende os grupos arredios ou
hostis, cujo territério no foi alcancado pelas frentes de expansdo,
2 — Grupos em contato intermitente — Inclui os povos que
vivem em regides de baixa densidade demografica, como a Amaz6-
nia e o Centro-Oeste, Embora jé atingidos pelas frentes pioneiras,
-18—
encontram-se a salvo de incursdes, devido & atuac&o protecionista
oficial.
3 — Grupos em contato permanente — Nesta situac3o, encon-
tram-se os que, embora conservem certos elementos da tradiclo
ancestral, como a lingua, a cultura material e outros, dependem do
fornecimento de bens da civiliza¢do, aos quais se habituaram e de
que n3o mais podem prescindir.
4 — Grupos integrados — Nesta categoria sdo reunidos os gru-
pos que, tendo transitado pelos estdgios anteriores, ou passado di-
retamente do primeiro a este Ultimo, perderam a lingua e outras
caracter isticas tribais e raciais, mantendo, contudo, forte ligacdo e
lealdade & sua identidade indigena. Dependem economicamente da
sociedade em meio 4 qual esto ilhados, e lutam para preservar as
terras que Ihes restam e sua condic&o de indios.
Com essa tipologia, Darcy Ribeiro formula um “conceito
operativo de Indio”, que pode incluir esses varios contingentes. Ou
seja, todos aqueles que se consideram (ndios ndo obstante a perda
ou descaracterizagio de seus tracgos raciais ou culturais. Assim
sendo,
“indio é todo individuo reconhecido como membro de uma
comunidade de origem pré-colombiana, que se identifica
como etnicamente diversa da nacional e 6 considerado indige-
na pela populacgéo brasileira com que esté em contato.””
(Berta Ribeiro — O Indio na Histéria do Brasil)
O Consetho Indigenista Missiondrio, em 1982, baseado na
diviso de Eduardo Galv3o, apresentou no jornal PORANTIM uma
Nova proposta de 4reas culturais, que daremos a seguir, ilustrada
pelo mapa da fig. 2.
1 — Norte-amaz6nica
Guiana brasileira
Yanomami
Rio Negro
2 — Solimées-Jurué-Purus
3 — Guaporé
4 — TapajésMadeira
5 — Alto Xingu
6 — Tocantins-Xingu
7 = — Pindaré-Gurupi
8 — Leste-Nordeste
9 — Paraguai-Parané
10 — Tieté-Uruguai
—19—Fig. 2 — Areas culturais dos povos ind/genss no Brasil.
SUGESTOES PARA O TRABALHO COM OS ALUNOS
No capitulo anterior, procuramos mostrar a diversidade
lingiifstica, que traz elementos culturais muito marcantes. Neste
capitulo os alunos deverao trabalhar dois conceitos: o de regiao.
cultural e o de grau de contato com a civilizagao ocidental. Ao
invés de dar uma descri¢o de cada drea, propomos que o aluno
mesmo faca um levantamento das caracter/sticas culturais de cada
regio, para que descubra este universo, tao rico e tao pouco
conhecido, das nagdes indfgenas.
1—Dividir a classe em grupos, pedindo que cada equipe apre-
sente os seguintes dados de cada regido cultural: grupos indf-
genas, Ifnguas faladas, com suas respectivas familias e tron-
cos, populacao e tradigdes culturais e religiosas.
2 —Baseado nas denuncias publicadas na imprensa e nos jornais
especializados (PORANTIM), levantar os principais proble-
mas destas regides culturais.
—~20—
3—De acordo com as caracter(sticas apresentadas por Darcy
Ribeiro, fazer uma pesquisa, tentando classificar 0 maior
numero possfvel de grupos ind{genas, segundo o grau de
contato (isolados, integrados etc,).
4 —Dividir a classe em dois grupos (prés e contras e fazer um
debate sobre este tema: “os grupos ind{genas devem ou n&o
ser integrados a sociedade nacional?”
5 —Em sua cidade, fazer uma pesquisa para descobrir as pessoas
que se dizem descendentes de nacdes indfgenas e ver o que
guardaram da cultura de seus antepassados.
6 —Fazer uma pesquisa sobre a situagfo atual dos grupos que sdo
considerados integrados. O que eles ganham e o que eles per-
dem com a integragdo 4 sociedade nacional?
7 —Fazer um levantamento, da Histéria do passado e do Brasil de
hoje, e ver quantas personagens importantes se dizem {ndios
ou descendentes de (ndios.
BIBLIOGRAFIA
1 — CEDI. Povos Indigenss no Brasil/83, Aconteceu especial 14 Codi, Si Paulo,
1984,
2 — CEDI, Povos indigenes no Brasil/1964, Aconteceu especial 15 Cedi, SBo Paulo,
1985,
3 — CEDI. Povos Indigenas no Brasil, vol. 3 (Amapé @ Norte do Part) Cedi, S80 Paulo,
1983.
4 — CEDI. Povos Indigenss no Brasil, vol. § (Javeri), Cedi, So Paulo, 1981.
5—MELATTI, J. C, (ver referéncia anterior)
6 — CIMI. Mapa Povos Indigenas (ver referéncia anterior).
7 — RIBEIRO, Berta O {ndio na Historia do Brasil, Global Editora, So Paulo, 1983.
8 — RIBEIRO, Darcy. Os fndlos «a Clvilizagfo, Civilizaco Brasileira, Rio, 1970
9— SIQUEIRA, Priscila (ver referéncie anterior)
10 — COMISSAO PRO-INDIO-SP — (ver referncia anterior)
11 — PORANTIM (ver referéncia anterior)
12 — SCHADEN, Egon. Leituras de Etnologia Brasileira, Comp. Editors Nacional, Sé0
Paulo, 1976.
13 — LISBOA, Thomaz A. Os Enauent-Naud, PrimeirosContetos, Loyola, So Paulo,
1985,
14 — LISBOA, Thomaz A. Entre os (ndios Mankd (ver ref. anterior)
15 — GIACCARIA, B, Xavante, Povo Autintico, Editorial Dom Bosco, S80 Paulo, 1972,
-21-CAPITULO III
Deniel Cabixi discursando no Ato contra a emancipagso di
SOU INDIO
Vi muitas pessoas postarem diante de mim, um indio, e, ficar
horas a olhar-me. Além de me langarem uma série de perguntas,
entre elas, se néo existe mais indio “brabo”.
FOTO: Keiju Kobayashi
je terras indigenes
Penso comigo: o que estardo eles pensando? Esforgo-me para
penetrar em seus pensamentos. Afinal, um descendente de (ndios
selvagens, descendentes de seres mitolégicos, indios, esté postado
diante deles, de calgas, camisa e sapatos. Neste momento, a imagi-
nagao desse povo simples voa pelo mundo da fantasia.
Como seré que vivem? O que comem? Seré descendente de
comedores de gente? Terd ele provado alguma carne humana? Tem
ele algum sentimento humano de amor e compaixdo?
a
Enfim, percebo que as interpretagdes e comparacdes que nos
fazem néo passam da categoria de animais exdticos que habitam a
selva. Tenho vontade de fazé-los compreender meu mundo, assim
como cheguei a compreender 0 mundo deles.
Gostaria de dizer-lhes que fago parte de uma sociedade que
possui normas de vivéncia harmOnica entre os homens e a natu-
reza, Gostaria de dizer-lhes que possuimos nossos valores sociais,
politicos, econdmicos, culturais e religiosos, que adquirimos
através dos tempos, de geragado em geracao.
Gostaria de dizer-Ihes que formamos um mundo equilibrado e
justo de relagdes humanas, Dizer que como humanos, somos sujei-
tos a falhas e erros. Dizer que nossos sentimentos mais fntimos séo
exteriorizados através da arte, da lingua, da nossa religiéo, das
festas acompanhadas de ritos e ceriménias.
Dizer que conseguimos nossa experiéncia diante da vida e do
Universo, Dizer que conseguimos chegar num equilibrado mundo
prenhe de valores que transmitimos a nossos filhos, 0 que, em
outras palavras mais compreensiveis, 6 sin6nimo de educacao.
Gostaria de dizer-lhes também que tudo isso vem sendo
deturpado, desrespeitado e destru/do. Dizer que estamos desper-
tando para uma nova realidade. Estamos percebendo que todas as
tentativas esto sendo feitas para acabar com nossos principios j4
constitu/dos.
Dizer que um dos nossos objetivos fundamentais é levar as
nossas comunidades o conhecimento dessa realidade nova que nos
rodeia. Do interesse em perpetuar nossos valores morais e culturais,
Dizer que estamos prontos para receber o que de util a socie-
dade deles nos oferece e rechacar o que de ruim ela nos apresenta.
Mas a cegueira etnocéntrica no permite esse didlogo franco e sin-
cero.
Daniel Matenho Cobixi — lndio Paresi
SUGESTOES PARA O TRABALHO COM OS ALUNOS
Apés 0 estudo de varios grupos e culturas ind(genas, achamos
importante deixar o (ndio falar e dizer como ele se sente como {n-
dio, como vé seu mundo e o mundo dos brancos. O autor do
-23-texto, Daniel Matenho Cabixi, indio da nac&o Paresi, j4 participou
de muitos Encontros Indigenas nacionais e internacionais e tem
um livro publicado — A Questo Indfgena, que a todos recomen-
damos.
1 —Debater sobre a seguinte questo: 0 que vocé pensou quando,
pela primeira vez, viu um [ndio? O que temos de comum com
ele e o que temos de diferente?
2 —Propor aos alunos que fagam uma pesquisa na cidade, pergun-
tando o que cada um pensa sobre o indio. Fazer um debate
depois.
3 —De improviso, pedir aos alunos para desenharem um indio ou
uma cena de aldeia, de caga ou de pesca. Debater, em seguida,
sobre os desenhos feitos e tentar ver as idéias que foram ex-
Pressas nos mesmos.
4 —Fazer uma redacao sobre uma festa indigena, procurando cada
aluno enfocar as tradigSes de uma nacSo diferente (Guarani,
Xavante, Terena, Karajé, Kayap6, Kulina, Tapirapé, Fulni-6,
Pankararu etc.).
5 —Pedir que os alunos prestem atencdo nos filmes da televisio,
onde aparece o indio. Fazer uma anilise critica, abordando a
caracteriza¢ao fisica, o relacionamento humano, os sentimen-
tos, a visdo politica do diretor e a mensagem de cada filme
(quando ha mensagem). Verificar as diferencas existentes
entre uma reportagem atual sobre a questdo indigena e os
filmes americanos de '‘far-west”’.
6 —Debater sobre o papel do indio na politica brasileira: o que os
alunos pensam do Deputado Xavante Mario Juruna? Foi posi-
tiva ou negativa sua presenca no Congresso Nacional? Vocé
votaria, se pudesse, num deputado indio?
7 —Vocé conhece alguma organizacdo ind{gena a nivel local, re-
gional, nacional ou internacional? Pesquise no PORANTIM as
organizagoes ja existentes no Brasil e nas Américas.
8 —O que vocé ja fez ou pensa fazer para defender os povos ind/-
genas? Escreva para o jornal PORANTIM, dizendo as iniciati-
vas realizadas por vocé ou por seu grupo,
4
10 — RIBEIRO, Berta,
11 — RIBEIRO, Darcy. Matra, Civilizacdo Brasileira, Rio, 1976,
BIBLIOGRAFIA
1 — CABIX|, Daniel. A Questéo Indigena, CDTI, Cuiabs, 1984.
2 — FARIA, Ana Lucie G. Ideologia no Livro Didatico, Colec&s Polémicas do Nosso
Tempo n9 7, Cortez Editora, Séo Paulo, 1984,
3 — HOHLFELOT, Antonio e Outros. O Gravador do Jurune, Série Depoimentos n° 2,
Mercado Aberto, Porto Alegre, 1982.
4 — LUYTEN, Sénie B. Histories em Quadrinhos, Edi¢des Paulinas, Sdo Paulo, 1984.
5 — MARTINS, Edilson. Nostas Indios, Nossos Mortos, Editors Codecri, Rio, 1978.
6 — NOSELLA, M.C.D. As Belas Mentiras, Cortez & Moraes, S20 Paulo, 1979,
7 —PORANTIM. O Retrato Cabtico do Indio no Brasil, n° 54, pag. 16, 1983,
——. Coitado do Indio no Livro Didstico!, n° 65, pag. 16, 1983.
——, Ugh! A Imagem do Indio no Gibi, n° 56, pig. 8, 9 e 16, 1983.
itrio do Xingu, Paz e Terra, Rio, 1979,
—25—ANEXO!
Irmos sensatos, escutai com fé o que vou dizer e sabei como
somos felizes por néo conhecer a angustia e o pavor dos brancos.
Podeis todos testemunhar 0 que o missiondrio diz: Deus é amor;
um cristéo de verdade faz bem se tiver sempre diante de si a ima-
gem do amor; sé assim é que vale para o grande Deus a adoracdo
do branco. Ele nos enganou, nos mentiu, os brancos corromperam
os missiondrios para que eles nos enganassem com as palavras do
Grande Espirito. Pois 0 metal redondo e o papel pesado, que eles
chamam dinheiro, é que s3o a verdadeira divindade dos brancos.
Fale a um europeu do Deus do amor: ele torce o rosto, sorri.
Sorri da simplicidade com que pensas. Estenda-lhe, no entanto, um
pedaco redondo, brilhante, de metal, ou um papel grande, pesado:
sem tardar, seus olhos brilham, muita saliva Ihe vem aos labios. O
dinheiro 6 0 objeto do seu amor, é a sua divindade. Todos os bran-
cos pensam nele, até dormindo. Muitos hd cujas mao de tanto
querer agarrar o metal e o papel ficararn tortas e parecidas com as
pernas da grande formiga do bosque. Hé muitos cujos olhos
cegaram de tanto contar dinheiro. Muitos que renunciaram a ale-
gria pelo dinheiro; ao riso, 4 honra, 4 consciéncia, a felicidade, até
a mulher e aos filhos. E quase todos renunciam 4 satde pelo di-
nheiro, pelo metal redondo e pelo papel pesado. Carregam-no em
suas tangas, dentro de peles duras dobradas. A noite colocam-no
debaixo do rolo onde pousam a cabeca para que ninguém o tire.
Pensam todos os dias, todas as horas, em todos os momentos no
dinheiro. Todos, todos! Até as criangas tém de pensar nele, devem
nele pensar! E o que aprendem com a mie, é o que véem o pai
fazer.
E necessdrio dizer que nao é possivel, na terra dos brancos,
ficar sem dinheiro, em momento algum, desde que o sol se levanta
até que se deita. Se estas inteiramente sem dinheiro, ndo acalmas a
fome nem a sede, nao encontras esteira para dormir. Te mandardo
para o falé pui pui*, falardo de ti nos muitos papéis**, se nao tive-
res dinheiro. Tens de pagar, quer dizer, tens de dar dinheiro pelo
chéo em que andas, pelo lugar em que ergues tua cabana, pela
esteira em que passas a noite, pela luz que aclara tua cabana. Tens
de pagar se quiseres atirar num pombo, se quiseres banhar teu
corpo no rio. Se quiseres ir aos lugares em que as pessoas se ale-
7 io
#* Jomais
—26—
gram, em que cantam ou dancam, se quiseres pedir conselho ao teu
irm&o, tens de dar muito metal redondo, muito papel pesado.
Tens de pagar por tudo. Onde quer que var hds de ver teu irmao
com a mao estendida, pronto a desprezar-te, a enfurecer-se contigo
se nela nada puseres. Nem servird de nada a humildade do teu
sorriso, a simpatia do teu olhar para abrandar-lhe o coracdo. Ele
abriré a goela e berrard: ‘’Miserdvel! Vagabundo! Ladrdo!” Tudo
isso quer dizer a mesma coisa: a maior vergonha que se pode inflin-
gir a um homem. Até para nascer tens de pagar; e quando mor-
reres, a tua aiga* * * tem de pagar por ti, por teres morrido e tam-
bém para o teu corpo baixar a terra; e pela pedra que rolarem
sobre a sepultura em tua memoria.
So vi uma coisa pela qual, na Europa, ainda nao se exige
dinheiro, da qual todos podem participar quanto queiram: a respi-
ta¢do do ar. Mas acho que apenas se esqueceram disso; e ndo hesito
em declarar que, se ouvissem o que digo na Europa, imediatamente
também exigiriam pelo ar que se respira 0 metal redondo e o papel
pesado. Pois todos os europeus est3o sempre a procura de novos
motivos para exigir dinheiro.
(0 Papalagui, comenthrios de Tuiévii, chefe da tribo
Tiavéa, nos mares do sul — Ed. Marco Zero, Rio).
*¢Famnia
-27-ANEXO II
DIARIO DO XINGU
— Numa aldeia Kayabi —
Domingo, 21/8/77
Hoje 6 domingo. Normalmente iria a praia, se fizesse sol. Os
(ndios no tém dia certo para descansar, nem hora certa para co-
mer. Descansam quando estfio cansados, comem quando est&o com
fome. A noite gostam de ficar conversando, cada casal na sua rede
e néo como os xinguanos com a rede da mulher abaixo da do ma-
rido para avivar 0 fogo. Assim que comega a anoitecer, vao juntan-
do lenha perto das redes, enquanto as velhas cozinham, as jovens
ajudam ou embalam os nenés, os homens conversam e as criangas
brincam.
No dia em que cheguei, 4 tardinha, dei uma volta para encon-
trar um esconderijo que servisse de banheiro. Os meninos logo des-
confiaram e foram atrés de mim. Fiquei indignada e disse: “onde 6
que vocés pensam que vao?"' “Vamos mostrar a vocé onde é que
6", responderam rindo, sem malicia.
Maria me convidava sempre para ir ao banho. Entdo a meni-
nada toda nos acompanhava. Mas, a tarde, Uaratu, Mairdn e Txira-
vé? esperavam a gente voltar para irem banhar-se e assim deixar-me
mais a vontade.
Hoje é o segundo dia em que vou a roca com Di-katu para co-
Iher algodao. Ela apontou as nuvens e, embora falando em kayabi,
entendi que o perfodo da seca estava chegando ao fim e ela tinha
que colher todo 0 algoddo que havia plantado, do contrdrio, caso
chovesse, 0 perderia. O algoddo é arbéreo e da flocos muito gran-
des, alguns com quatro caro¢os. O trabalho mais exaustivo, que é
cortar os galhos e as trepadeiras de feijao com um machete, foi fei-
ta por ela. A mim e a Maria coube recolher os flocos em grandes
urupem? ndo pintados,
A tarde, as mulheres ndo socaram as bolas de mandioca, todas
se recolheram as suas redes para descansar. MenosDi-katu que é
1 Jovens Kayabi de al
2 Peneira em forma de meia calota, usada para coar ou guardar coisas.
—~28-
uma formiguinha e trabalha o tempo todo. Ora faz um boneco de
linha para a neta, Tuap, ou um anel de tucum. Agora esté tecendo
a rede. E de algoddo grosso e feita sem tear, ao que parece. Enro-
lam os fios do comprimento que deverd ter a rede depois de pron-
ta, passando-os por duas cordas que servirao para pendurd-la. Mais
da metade da rede j4 esté pronta. Di-katu, sentada na parte tecida
vai passando a trama entre os fios da urdidura para entretecer 0
restante. Usa algoddo branco e cor de caramelo, para realgar os de-
senhos. Mairopan acaba de completar o quadrado central do meu
cesto. O desenho estd perfeitamente visivel, mesmo sem avivd-lo
com a tinta, devido a disposigao das talas, As da parte interna, que
nao reterd a tinta, sao lisas e brilhantes. As da face interna, rugosa
@ esverdeada, fazem o contraste que permite ao cesteiro saber a
quantas anda. Amanha Mairopan comegard a trangar os quatros
“panos” com “‘casa de abelha’’, ou como eles dizem, panaku-kupé
— 0 padr&o de trangado que aparece nas costas do panaku, o jama-
xim usado antigamente para carregar a rede.
Numa lenda que Txiravé me contou, 0 personagem principal
é um papagaio que dé de comer mandioca com veneno a dona das
ongas. Mata-a e besunta de sangue as penas das asas para provar a
faganha. Tixiravé tem um papagaio velho que fala kayabi e que, se-
gundo seu dono, anda muito doente, com dor de cabeca. Ao me-
Nos se queixa 0 tempo todo de dor de cabega, disse-me tristonho,
um dia, Txiravé.
(Extra{(do do livro Didrio do Xingu, de Berta Ribeiro.
Trechos das paginas 149 a 154.)
—29-LIVROS RECOMENDADOS
A Questdo Indigena, Daniel Cabixi, indio Paresi — CDTI.
As Bem-Aventurangasdo Povo Myky, Elizabeth R. Amarante —
Cimi/Vozes.
Confederagéo dos Tamoios, Eunice de Paula e Outros — Cimi/Vo-
zes.
Entre os Indios Miinki, Thomaz A. Lisboa — Loyola.
Historia dos Povos Indigenas, Eunice de Paula e Outros — Cimi/
Vozes.
Manual Popular de Satide, M. Versiani e R. Nascimento, Loyola,
1985,
Maxakali na Luta pela Vida, Cimi-Leste e outros.
Os Enauené-Naué, Thomaz Lisboa, Loyola, 1984.
O Indio no Rio Grande do Sul, B artomeu Melia.
Precisamos um Chiao, Elizabeth R. Amarante e V. Nizzoli — Lo
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das quais duas especiais.
FAGA AINDA HOJE SEU PEDIDO
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Sua assinatura é uma forma de comprometimento com a luta dos
povos indigenas!ORACAO DOS INCAS EM BUSCA DE DEUS
Ouca-me,
do mar de cima onde permaneces,
do mar de baixo onde estas.
Criador do mundo,
alfareiro do homem,
Senhor dos Senhores,
ati,
com meus olhos que se desesperam por ver-te,
pois ao ver-te,
ao conhecer-te,
ao considerar-te,
ao compreender-te,
tu me verds e me conheceras.
O sol, a lua,
0 dia, a noite,
© verdo, 0 inverno,
n&o em vao caminham,
ordenados,
ao lugar designado
@ a bom termo chegam.
Por todas as partes levas contigo
teu cetro de rei.
Ouca-me, escuta-me,
Para que eu nao me canse
emorra.
“El culto de Tonape”