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Fo CX 01 14 1989

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POVOS RENASCIDOS SUBSIDIOS DIDATICOS CAPA: Criangas Guarani (Vila Juti — MS) SOBRE A QUESTAO INDIGENA Foto: Railda Herrero SERIE B —VOL.1 CIMI — CNBB 1986 ‘® Este livreto ¢ ecompanhado do mapa “Povos Indfgenas @ Presenca Missiondria'’ — Cimi/85 INDICE Introducao . . 5 Capitulo | — A diversidade lingiifstica ............... 6 Capitulo Il — Classificagdo cultural dos povos indigenas G0 Brasil’: cose seenees ewaeeees Capitulo II] — Sou Indio 6... 6. cece eee c ee ee eee es 22 ok 26 PMOKO Pisses oe ecw ace ose enna ne MINI HaTATIMeLee mee 28 INTRODUCAO Hé vérios anos, o Consetho Indigenista Missiondrio (Cimi) esté tentando desenvolver um trabalho sistemdtico junto aos pro- fessores e alunos, visando apresentar uma nova imagem dos povos indigenas, mais verdadeira e mais auténtica, Durante muito tempo o fndio foi visto como algo do passado (e de um passado escrito pelo dominador), ficando ou na galeria dos “homens ilustres” (aqueles que colaboravam com os portugue- ses, 6 claro) ou na categoria dos selvagens e antropéfagos, os cha- mados “{ndios brabos”, conceito até hoje encontrado nos livros didéticos e em muitos lugares no Brasil. De outro lado, encontramos o inofensivo indio folclorico, cujas festas e tradigGes foram corrompidas e profanadas pelo indi- genismo oficial e também pelos missiondrios, que destru(ram o que de mais auténtico havia sobrado — a alma destes povos. Muitos resistiram e n&o se dobraram ante a invaséo branca. E, para que as nac6es indigenas encontrem seu espaco na sociedade nacional, como povos e nacdes diferentes, com um passado e com culturas préprias, o Cimi esté langando vérios subsidios que muito ajudaraéo na descoberta de nossas ra/zes culturais. Neste 12 volume da Série B, damos uma apresentagdo dos va- rios grupos lingii(sticos e das respectivas éreas culturais. Em volu- mes posteriores, outros aspectos seréo enfocados, como as festas, os rituais, os mitos, a educag&o etc, Gostariamos que todos os que utilizassem este material fizes- sem uma apreciagéo do trabalho e que nos escrevessem dando su- gestGes. Aguardamas sua colaboragao. -5- CAPITULO | FOTO: Paulo Sues L (deres de vériot povos ind/genas, reunides em Brasilia A DIVERSIDADE LINGUISTICA Ndo é raro encontrar pessoas que acreditam que todos os {ndios do Brasil falam lingua tupi. Essa idéia se deve a uma super- valorizagdo da lingua e dos indios Tupi diante dos demais ind{ge- nas do Brasil. Mas a crenga de que o tupi é a Gnica ou mais impor- tante lingua dos {ndios no Brasil tem uma explicacao. E que os conquistadores portugueses encontraram todo o litoral brasileiro ocupado por {ndios entre os quais predominava uma lingua tupi. Esta foi a primeira lingua nativa que os missiondrios aprenderam. A ela se afeigoaram e adotaram uma atitude de desdém para com as outras Ifnguas, que ndo compreendiam, chamando os povos que as falavam de povos de ‘lingua travada’’. A lingua tupi foi ndo somente aprendida, mas também modi- ficada pelos missiondrios, que Ihe impuseram uma gramatica nos moldes do latim, sendo divulgada por eles, de modo que popula- g6es ind(genas de outras tradi¢6es lingi(sticas chegaram a aprender © tupi. Assim, por exemplo, os missiondrios espanhdis impuseram o guarani (a variante meridional do tupi) aos (ndios que habitavam o Paraguai e que no o falavam, e até hoje o guarani é falado nesse pafs, ao lado do espanhol. Dentro mesmo do Brasil, na regiao do tio Negro, afluente do Amazonas, os sertanejos falam a ‘‘I{ngua ge- ral’’, resultado da evolucéo do antigo tupi disciplinado pelos mis- siondrios. E os indios da regido, que falam diferentes linguas ndo- tupi, tém sido levados a aprender a “‘Ifngua geral”’ para poderem comunicar-se com os sertanejos e entre si. A I{ngua geral, na 4rea, é uma heranga do tempo colonial quando era falada em toda a Amazonia. O portugués porém, foi substituindo-a paulatinamente, ficando ela restrita 4 bacia do rio Negro. Os (ndios Tupi contaram ainda com um grande numero de cronistas que deixaram informa- g6es sobre seus costumes, 0 que nfo aconteceu com outros grupos tribais.! Dada a falta de informagées sobre os indios ndo-Tupi, as gran- des figuras da literatura brasileira, em seus trabalhos indigenistas, focalizaram predominantemente o {ndio Tupi, chegando mesmo a atribuir costumes dos Tupi a povos indfgenas n§o-Tupi, como 0 faz Gongalves Dias em seus poemas. Tudo isso levou a uma super- valorizagao do tupi. A primeira classificag&o das Iinguas indfgenas do Brasil foi aquela que as distribufa em Iinguas tupi e |inguas tapuya. Tal clas- 1 Entre os cronistas do séc. XVI podemos citar: Jean de Léry, Claude d’Abbeville, Hans Staden e José de Anchieta. == sificagdo se deve aos primeiros colonizadores e missiondrios, que adotam preconceitos dos (ndios Tupi contra os demais. Assim, enquanto as I{nguas classificadas como tupi se relacionavam entre si, as classificadas como tapuya eram as mais diversas, completa- mente diferentes umas das outras, e que aos missiondrios nao inte- ressavam conhecer. Essa classifica¢o vigorou por muito tempo até que Von Martius, no século passado, demonstrou que as Ifnguas tapuya nado formavam um todo homogéneo. Assim, ele destacou da confusado das Iinguas tapuya a fam/flia jé. Desse modo, se foi pouco a pouco chegando 4 to conhecida classificagado das I{nguas dos ‘ndios no Brasi! em tupi, jé, karib e aruak, sempre presente nos livros diddticos de Histéria do Brasil. E o termo tapuya perdeu cada vez mais sua razdo de ser. Além desses grandes conjuntos de Ifngua, os pesquisadores conseguiram também distinguir conjuntos menores, como pano, tukano, guaikuru, maku € outros. Ha varias maneiras de se fazer uma classificagdo das |inguas, mas os lingiistas atuais consideram como mais desejavel a classi- ficagdo do tipo genético, sé recorrendo a outras quando nao ha dados suficientes para realizd-la. A classificagao de tipe genético consiste em reunir numa s6 classe as linguas que tenham tido origem comum numa lingua anterior. Esta lingua anterior é re- constituida de tal maneira pelos lingiiistas, que de seus vocabulos se possam fazer derivar, através de leis fonéticas, os vocdbulos das I{nguas atuais que constituem a referida classe. Da mesma maneira que os fildlogos, através de leis fonéticas, deduzem do latim vulgar as Iinguas neolatinas (portugués, francés, italiano, espanhol etc.), assim também os lingilistas tentam fazer com as |inguas indfgenas do Brasil, mostrando como se derivam de | inguas j desaparecidas, que eles tentam reconstruir. Desse modo, as Iinguas que ttm uma origem comum sao todas reunidas numa familia. As familias, que apresentam certas afinidades, s4o agrupadas num bloco. Com base nesse critério, os lingilistas se esfor¢am para conseguir incluir as linguas ainda nao classificadas numa familia, as familias isoladas num bloco, e assim por diante. Tal trabalho exige, no entanto, que 0 conhecimento das linguas a serem classificadas va mais além do que uma lista de palavras, devendo haver também um conhecimen- to profundo da gramatica dessas | {nguas. ({ndios do Brasil, de Julio Cezar Melatti). A seguir, apresentamos a classificagéo lingdistica dos povos indigenas no Brasil, elaborada pelo Prof. Aryon Rodrigues. == TRONCO TuPI FAMILIA TUPI-GUARAN| ARIKEM JURUNA MONDE MUNDURUKU. RAMARAMA TUPARI LIncua DIALETO ANAMBE APIAKA ARAWETE GUAJA KAYOVA GUARANI NHANDEVA MBYA KAMAYURA KAMBEBA (= OMAGUA! PARINTINTIM HAHOL D KAWAHIB TENHARIM JUMA KAYABI KOKAMA PARAKANA TAPIRAPE GUAJAJARA TENETEHARA é TEMBE URUEWAWAU (= URU-EU-UAU-UAU) URUBU-KAAPOR ASURINI DO TOCANTINS |= Al a) ASURINI DO XINGU l= Awaeté) SURUI/PARA (= Mudjetire) OYAMPI KARIPUNA/AMAPA KARITIANA JURUNA. CINTA-LARGA GAVIAO/RONDONIA (= DIGUT) SALAMAI (= SANAMAYKA) SURUITRONDONIA ZORO MUNDURUKU KURUAYA AWETI ARARA/RONDONIA ITOGAPUK TUPARI MAKURAP WAYORO (= AJURU) AVA-CANOEIRO -9- TRONCO FAMILIA MACRO- JE JE BORA BORORO BOTUCUDO KARIRI MAXAKALI LINGUA DIALETO XAVANTE AKEWEN XERENTE XAKRIABA (ndo mais falade) KAINGANG KAINGANG XOKLENG GOROTIRE KARARAO, XIKRIM KREEN-AKARORE KAYAPO KOKRAIMORO KUBENKRANGNOT! KUBENKRANKEGN MENTUKTIRE (=Txukshemée) TAPAYUNA (=Beico de Pau) suyA TAPUIA? APINAYE CANELA APANIEKRA CANELA KAMKOKAMEKRA GAVIAO/MA (=Pukoby‘ TIMBIRA GAVIAO/PA (=Parakste) KRAHO KREYE KRIKATI MIRANHA BORORO (=BOE) UMUTINA FULNI-O KRENAK indo meis felada) KIRIRI (nfo mais falada) MAXAKALI PATAXO (no mais faleda) JAVAE KARAJA KARAJA XAMBIOA GUATO OFAYE RIKBAKTSA a TRONCO FAMILIA ARUAK ARAWA Lingua DIALETO ARARA/AMAZONAS BANIWA BARE KAMPA KURIPAKO MANDAWAKA MANITENER! MAREKENA MAXINERI PALIKUR PARES! PATO-TAPUIA SALUMA (= ENAWENE-NAWE) TARIANA (= TALIASERI) TERENA WAPIXANA YABAANA. MEHINAKU _—_— WAURA YAWALAPITI et < APURINA (=POPENGARE) KAXARAR! [Link] DENI KANAMATI KULINA (= MADIHA) PAUMARI MAMORI YAMAMADI == TRONCO FAMILIA GUAIKURU KARIB KATUKINA MAKU MURA NAMBIKWARA LINGUA DIALETO KADIWEU APALAL BAKAIRI (= KURA) GALIBI INGARIKO MAYONGONG (= MAKIRITARE, YEKUANA) TAULIPANG TIRYO WARIKYANA WAYANA KALAPALO KUIKURO. ne NAHUKWA (= NAFUKWA) MATIPU -. ARARA/PARA — TXIKAO HIXKARIANA -—-—— KAXUYANA WAIWAI KATUKINA DO JUTAT (= PIDA-DJAPA) KANAMARI KATAWIXI TXUNHUA-DJAPA MAKU-BARA MAKU-GUARIBA MAKU-HUPDA MAKU-KAMA MAKU-NADEB MAKU-YAHUP PIRAHA (= MURA-PIRAHA) NAMBIKWARA LATUNDE SABANE -12-— TRONCO FAMILIA Linauas CLASSI. FICADAS: —M ‘TRONCO PANO TUKANO TXAPAKURA YANOMAMI { Linaua AMAWAKA. KARIPUNA/RONDONIA KATUKINA DO JURUA KAXARARI KAXINAWA, KULINA MARUBO MATIS (= MATSES) MAYA MAYOQRUNA NUKUINI POYANAWA YAMINAWA YAWANAWA DIALETO ARAPASO (= KONEA) BARASANA DESANA JURITI (= YURITI-TAPUIA) KARAPANA KOBEWA (= PAMIWA) MIRITI PIRA-TAPUYA (= WAIKAHARA, WAIKANA) SARIRA (= SURYANA) TARIANA TUKANO TUYUKA WANANA YEBAMASA PAKAANOVA (= ORO-WAR!) ToRA uURUPA SANUMA NINAM (= YANAM) YAINOMA (= YANOMAM) YANOMAMI -13- LINGUAS ISOLADAS OU NAO CLASSIFICADAS EM FAMILIAS AIKANA KANOE ARARA/ACRE KORUBO ARIKAPU KUYUBI AWAKE MARAJONA AWET! MASAKA HIMARIMA MOREREB! NUMBIAT (= ORELHA DE PAU) IRANTXE PAPAVO = MYNKY TIKUNA TRUMAI JABUTI wITOTO KAMBA ZURUAHA (= INDIOS D0 COXODOA) GRUPOS QUE NAO FALAM MAIS LINGUAS INDIGENAS ATIKUM. PATAXO. TUXA KAIMBE PATAXO HA-HA-HAE XAKRIABA KAMBIWA POTIGUARA xOKO KAPINAWA TAPEBA XOKO-KARIRI KIRIAL TINGUI {= TINGUI-BOTO) = XUKURU KRENAK TREMEMBE XUKURU-KARIRI PANKARARE TRUKA WASU PANKARARU TUPINIKIM SUGESTOES PARA O TRABALHO COM OS ALUNOS Num primeiro momento, fazer com que o grupo comece a perceber a diversidade étnica nas nagGes indigenas e ver a defor- magao que a historiografia oficial provocou, criando o conceito que se tem hoje dos povos ind igenas no Brasil. Por isso, sugerimos os exercicios e os debates que se seguem. 1— Propor aos alunos uma pesquisa, para reconstituir o mundo cultural de varios grupos indigenas, na época da invaséo portuguesa. Consultar os cronistas da época.! 2 — Nos séculos XVII e XVIII, os jesuitas agruparam os Guarani em aldeias chamadas redugdes. Apresentar, em trabalhos de grupos, os aspectos positivos e negativos desta experiéncia.” 3— Os bandeirantes paulistas, também chamados cacgadores de indios, foram os grandes responsdveis pelos massacres e es- | Ver referéncia bibliografica n°* 4, 7 6 16, Vern 9e 11. -4- cravizagdes em massa dos Guarani, Fazer um debate entre dois grupos, sendo uns a favor e outros contra esta pratica colonial.? 4— Fazer um levantamento sobre a situacdo atual dos Guarani, no litoral paulista e no Mato Grosso do Sul.4 5— Localizar no mapa “‘Povos Indigenas’ do Cimi, os varios troncos linglfsticos e fazer, como o da fig. 1, um mapa para as Ifnguas dos tronco Macro-Jé, Aruak e das familias Karib, Pano e Tukano. 6 — Fazer uma pesquisa, procurando levantar as diferengas culturais existentes entre um grupo do tronco tupi (Urubu- Kaapor) e um grupo do tronco Macro-Jé (Xavante).> 7 — Baseados nos artigos do Prof. Aryon D. Rodrigues, publica- dos no PORANTIM (1982, 83 e 84), levantar algumas carac- ter{sticas dos grupos nao classificados em troncos lingiifsti- cos, como os de I{ngua Karib, Maku, Yanomami etc.° 8 — Pesquisar algumas caracteristicas culturais dos Mynky, que apresentam | {ngua isolada.” 9 — Procure descobrir quantos grupos lingl(sticos existem no Parque Nacional do Xingu, quantos povos l4 vivem e por que e quando foram para ld transferidos.* BIBLIOGRAFIA 1— AMARANTE, Elizabeth A. As Bem-Aventurangas do Povo Myky, Vores, Petrd- Polis, 1983. 2— COMISSAO PRO-INDIO-SP. indios no Estado de Séo Paulo: Resisténcia e Trans- figuragfo, Yankatu Edit. So Paulo, 1984, 3— CIMI. Mapa Povos indigenas no Brasil@ Presanca Missionaria, Brasilia, 1985. 4— D'ABBEVILLE, Cloude. Historia da Missio dos Padres Capuchinhos na Itha do Maranhéo, Itatiaia Edit., Belo Horizonte, 1975. 5— GIACCARIA, B. Xavante, Povo Auténtico, Editorial Dom Bosco, S80 Paulo, 1972. 6— HERRERO, R. Morte « Ressurroigio do Povo Guarani, PORANTIM, n° 64, Bra: silia, 1984, pg. 304, 2 Vern 90 17. * Vern 3e 15. 5 Ver n> 5e 14. & Ver n? 18. T Ver n51 8, 5 Ver n?$ Se 19. -15— 7= LERY, J. Viagem & Terrado Brasil, Biblioteca do Exército Edit., Rio, 1961 8 — LISBOA, Thomaz A, Entre os Indios Manki, Loyola, $40 Poulo, 1979. 9— LUGON. A Repdblice Comunista—Cristé dos Guerani, Paz ¢ Terra, Rio, 1977, 10 MELATTI, J.C. Indios do Brasil, Hucitec, So Paulo, 1983. 11— MELIA, B. O Guerani Reduzido, in “Das reduces Latino-americanas ds lutas in digenas atuais'!, Paulinas, S50 Paulo, 1983. 12 MELIA, B. O Indio no Rio Grande do Sul, Coorden. Pastoral Indig. Rio Grande do Sul, 1984, 19 ~ PORANTIM, Consetho Indigenista Missiondrio, Brasilia, anos 1979, 80, 81, 82, 83, 84 e BS. 14 RIBEIRO, Darcy. Uid Sei @ Procura de Deus, Paz e Terra, Rio, 1974 16 = SIQUEIRA, Priscila, Genoeldio dos Caigaras, Massao Ohno Edit., 1984 16 ~ STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil, |tativia Edit., Belo Horizonte, 1974 17 ~ DAVIDOFF, Carlos. Bandeirantismo:Verso @ Reverso, Col. Tudo ¢ Historia n° 47 Ed. Brasiliense, So Paulo, 1982, 18 RODRIGUES, Aryon D. Linguas Indigenas do Brasil, PORANTIM, °° 40/41, 42, 43, 44, 46, 69/60, 61 64, 65 ¢ 68. 19 — DAVIS, Shelton, Vitimas do Milagre, Zahar Editores, Rio, 1978, i g t al 8 CAPITULO II India Araweté, de aldela de Rio Ipixune —PA CLASSIFICAGAO CULTURAL DOS POVOS INDIGENAS DO BRASIL Para se ordenar dentro de um sistema compreensivel os inu- meros povos que viviam e ainda sobrevivem em nosso Pafs, pode- se usar pelo menos trés critérios. Um deles seria 0 tipo fisico do indio, isto 6, seus caracteres raciais. Desse ponto de vista, os antigos habitantes das Américas so definidos como mongoldides. Ou seja, pertencem a mesma origem dos chineses, japoneses e outros povos orientais. Outro critério de classificagio do (ndio 6 o lingiifstico. (Ver cap/ftulo anterior). O terceiro critério de classificagdo 6 0 das diferencas cultu- rais. Ao contrério do que pode parecer, o indio na América, em geral, e no Brasil,em particular, nio tem um modo de vida uni- -17- forme. Mesmo os povos que pertencem & mesma familia lingiifs- tica, diferenciam-se em inGmeros aspectos culturais. Por outro lado, povos que falam I{nguas e dialetos distintos, aproximam-se mais, em usos e costumes, por viver em regido contigua. Daf a nog&o de drea cultural, introduzida na antropologia para significar unidades geogréficas de cultura, ou seja, regides ecologicamente homogéneas, onde vivem povos que participam de certos tragos sécio-culturais comuns. O conceito de 4rea cultural coloca énfase no papel da difusio como veiculo de cultura, embora nao seja tinico. Devemos a Eduardo Galvio a classificagao, em areas culturais, dos povos remanescentes no Brasil do século XX. Elaborada em 1959, essa tipologia leva em conta o fator acultura¢do, tanto inter- tribal, como interétnico, isto é, com relag%o a sociedade nacional, como acelerador predominante no processo de mudanga. Nesse sentido, a classificag¢fo de Galvéo considera a dinamica social, o tempo e 0 espaco presentes. Galvao discrimina onze d4reas geogrficas. Dentro de algumas delas distingue subdreas, tidas como intrusdes ou enclaves caracte- tizados por sistemas ecoldgico-culturais divergentes. Sdo as se- guintes. 1 — Norte-amazénica 2 — Jurué-Purus 3 — Guaporé 4 — Tapajés-Madeira 5 — Alto Xingu 6 — Tocantins-Xingu 7 — Pindaré-Gurupi 8 — Paraguai (Chaco) 9 — Parané 10 — Tieté-Uruguai 11 —Nordeste. Finalmente, cabe mencionar a tipologia desenvolvida por Darcy Ribeiro, em 1957, pautada na situag8o de contato com a so- ciedade nacional dos povosque sobreviveram até nossos dias. Desse ponto de vista, isto é, do grau de integracdo na sociedade neobrasi- leira, Ribeiro distingue as seguintes situacdes. 1 — Grupos isolados — Compreende os grupos arredios ou hostis, cujo territério no foi alcancado pelas frentes de expansdo, 2 — Grupos em contato intermitente — Inclui os povos que vivem em regides de baixa densidade demografica, como a Amaz6- nia e o Centro-Oeste, Embora jé atingidos pelas frentes pioneiras, -18— encontram-se a salvo de incursdes, devido & atuac&o protecionista oficial. 3 — Grupos em contato permanente — Nesta situac3o, encon- tram-se os que, embora conservem certos elementos da tradiclo ancestral, como a lingua, a cultura material e outros, dependem do fornecimento de bens da civiliza¢do, aos quais se habituaram e de que n3o mais podem prescindir. 4 — Grupos integrados — Nesta categoria sdo reunidos os gru- pos que, tendo transitado pelos estdgios anteriores, ou passado di- retamente do primeiro a este Ultimo, perderam a lingua e outras caracter isticas tribais e raciais, mantendo, contudo, forte ligacdo e lealdade & sua identidade indigena. Dependem economicamente da sociedade em meio 4 qual esto ilhados, e lutam para preservar as terras que Ihes restam e sua condic&o de indios. Com essa tipologia, Darcy Ribeiro formula um “conceito operativo de Indio”, que pode incluir esses varios contingentes. Ou seja, todos aqueles que se consideram (ndios ndo obstante a perda ou descaracterizagio de seus tracgos raciais ou culturais. Assim sendo, “indio é todo individuo reconhecido como membro de uma comunidade de origem pré-colombiana, que se identifica como etnicamente diversa da nacional e 6 considerado indige- na pela populacgéo brasileira com que esté em contato.”” (Berta Ribeiro — O Indio na Histéria do Brasil) O Consetho Indigenista Missiondrio, em 1982, baseado na diviso de Eduardo Galv3o, apresentou no jornal PORANTIM uma Nova proposta de 4reas culturais, que daremos a seguir, ilustrada pelo mapa da fig. 2. 1 — Norte-amaz6nica Guiana brasileira Yanomami Rio Negro 2 — Solimées-Jurué-Purus 3 — Guaporé 4 — TapajésMadeira 5 — Alto Xingu 6 — Tocantins-Xingu 7 = — Pindaré-Gurupi 8 — Leste-Nordeste 9 — Paraguai-Parané 10 — Tieté-Uruguai —19— Fig. 2 — Areas culturais dos povos ind/genss no Brasil. SUGESTOES PARA O TRABALHO COM OS ALUNOS No capitulo anterior, procuramos mostrar a diversidade lingiifstica, que traz elementos culturais muito marcantes. Neste capitulo os alunos deverao trabalhar dois conceitos: o de regiao. cultural e o de grau de contato com a civilizagao ocidental. Ao invés de dar uma descri¢o de cada drea, propomos que o aluno mesmo faca um levantamento das caracter/sticas culturais de cada regio, para que descubra este universo, tao rico e tao pouco conhecido, das nagdes indfgenas. 1—Dividir a classe em grupos, pedindo que cada equipe apre- sente os seguintes dados de cada regido cultural: grupos indf- genas, Ifnguas faladas, com suas respectivas familias e tron- cos, populacao e tradigdes culturais e religiosas. 2 —Baseado nas denuncias publicadas na imprensa e nos jornais especializados (PORANTIM), levantar os principais proble- mas destas regides culturais. —~20— 3—De acordo com as caracter(sticas apresentadas por Darcy Ribeiro, fazer uma pesquisa, tentando classificar 0 maior numero possfvel de grupos ind{genas, segundo o grau de contato (isolados, integrados etc,). 4 —Dividir a classe em dois grupos (prés e contras e fazer um debate sobre este tema: “os grupos ind{genas devem ou n&o ser integrados a sociedade nacional?” 5 —Em sua cidade, fazer uma pesquisa para descobrir as pessoas que se dizem descendentes de nacdes indfgenas e ver o que guardaram da cultura de seus antepassados. 6 —Fazer uma pesquisa sobre a situagfo atual dos grupos que sdo considerados integrados. O que eles ganham e o que eles per- dem com a integragdo 4 sociedade nacional? 7 —Fazer um levantamento, da Histéria do passado e do Brasil de hoje, e ver quantas personagens importantes se dizem {ndios ou descendentes de (ndios. BIBLIOGRAFIA 1 — CEDI. Povos Indigenss no Brasil/83, Aconteceu especial 14 Codi, Si Paulo, 1984, 2 — CEDI, Povos indigenes no Brasil/1964, Aconteceu especial 15 Cedi, SBo Paulo, 1985, 3 — CEDI. Povos Indigenas no Brasil, vol. 3 (Amapé @ Norte do Part) Cedi, S80 Paulo, 1983. 4 — CEDI. Povos Indigenss no Brasil, vol. § (Javeri), Cedi, So Paulo, 1981. 5—MELATTI, J. C, (ver referéncia anterior) 6 — CIMI. Mapa Povos Indigenas (ver referéncia anterior). 7 — RIBEIRO, Berta O {ndio na Historia do Brasil, Global Editora, So Paulo, 1983. 8 — RIBEIRO, Darcy. Os fndlos «a Clvilizagfo, Civilizaco Brasileira, Rio, 1970 9— SIQUEIRA, Priscila (ver referéncie anterior) 10 — COMISSAO PRO-INDIO-SP — (ver referncia anterior) 11 — PORANTIM (ver referéncia anterior) 12 — SCHADEN, Egon. Leituras de Etnologia Brasileira, Comp. Editors Nacional, Sé0 Paulo, 1976. 13 — LISBOA, Thomaz A. Os Enauent-Naud, PrimeirosContetos, Loyola, So Paulo, 1985, 14 — LISBOA, Thomaz A. Entre os (ndios Mankd (ver ref. anterior) 15 — GIACCARIA, B, Xavante, Povo Autintico, Editorial Dom Bosco, S80 Paulo, 1972, -21- CAPITULO III Deniel Cabixi discursando no Ato contra a emancipagso di SOU INDIO Vi muitas pessoas postarem diante de mim, um indio, e, ficar horas a olhar-me. Além de me langarem uma série de perguntas, entre elas, se néo existe mais indio “brabo”. FOTO: Keiju Kobayashi je terras indigenes Penso comigo: o que estardo eles pensando? Esforgo-me para penetrar em seus pensamentos. Afinal, um descendente de (ndios selvagens, descendentes de seres mitolégicos, indios, esté postado diante deles, de calgas, camisa e sapatos. Neste momento, a imagi- nagao desse povo simples voa pelo mundo da fantasia. Como seré que vivem? O que comem? Seré descendente de comedores de gente? Terd ele provado alguma carne humana? Tem ele algum sentimento humano de amor e compaixdo? a Enfim, percebo que as interpretagdes e comparacdes que nos fazem néo passam da categoria de animais exdticos que habitam a selva. Tenho vontade de fazé-los compreender meu mundo, assim como cheguei a compreender 0 mundo deles. Gostaria de dizer-lhes que fago parte de uma sociedade que possui normas de vivéncia harmOnica entre os homens e a natu- reza, Gostaria de dizer-lhes que possuimos nossos valores sociais, politicos, econdmicos, culturais e religiosos, que adquirimos através dos tempos, de geragado em geracao. Gostaria de dizer-Ihes que formamos um mundo equilibrado e justo de relagdes humanas, Dizer que como humanos, somos sujei- tos a falhas e erros. Dizer que nossos sentimentos mais fntimos séo exteriorizados através da arte, da lingua, da nossa religiéo, das festas acompanhadas de ritos e ceriménias. Dizer que conseguimos nossa experiéncia diante da vida e do Universo, Dizer que conseguimos chegar num equilibrado mundo prenhe de valores que transmitimos a nossos filhos, 0 que, em outras palavras mais compreensiveis, 6 sin6nimo de educacao. Gostaria de dizer-lhes também que tudo isso vem sendo deturpado, desrespeitado e destru/do. Dizer que estamos desper- tando para uma nova realidade. Estamos percebendo que todas as tentativas esto sendo feitas para acabar com nossos principios j4 constitu/dos. Dizer que um dos nossos objetivos fundamentais é levar as nossas comunidades o conhecimento dessa realidade nova que nos rodeia. Do interesse em perpetuar nossos valores morais e culturais, Dizer que estamos prontos para receber o que de util a socie- dade deles nos oferece e rechacar o que de ruim ela nos apresenta. Mas a cegueira etnocéntrica no permite esse didlogo franco e sin- cero. Daniel Matenho Cobixi — lndio Paresi SUGESTOES PARA O TRABALHO COM OS ALUNOS Apés 0 estudo de varios grupos e culturas ind(genas, achamos importante deixar o (ndio falar e dizer como ele se sente como {n- dio, como vé seu mundo e o mundo dos brancos. O autor do -23- texto, Daniel Matenho Cabixi, indio da nac&o Paresi, j4 participou de muitos Encontros Indigenas nacionais e internacionais e tem um livro publicado — A Questo Indfgena, que a todos recomen- damos. 1 —Debater sobre a seguinte questo: 0 que vocé pensou quando, pela primeira vez, viu um [ndio? O que temos de comum com ele e o que temos de diferente? 2 —Propor aos alunos que fagam uma pesquisa na cidade, pergun- tando o que cada um pensa sobre o indio. Fazer um debate depois. 3 —De improviso, pedir aos alunos para desenharem um indio ou uma cena de aldeia, de caga ou de pesca. Debater, em seguida, sobre os desenhos feitos e tentar ver as idéias que foram ex- Pressas nos mesmos. 4 —Fazer uma redacao sobre uma festa indigena, procurando cada aluno enfocar as tradigSes de uma nacSo diferente (Guarani, Xavante, Terena, Karajé, Kayap6, Kulina, Tapirapé, Fulni-6, Pankararu etc.). 5 —Pedir que os alunos prestem atencdo nos filmes da televisio, onde aparece o indio. Fazer uma anilise critica, abordando a caracteriza¢ao fisica, o relacionamento humano, os sentimen- tos, a visdo politica do diretor e a mensagem de cada filme (quando ha mensagem). Verificar as diferencas existentes entre uma reportagem atual sobre a questdo indigena e os filmes americanos de '‘far-west”’. 6 —Debater sobre o papel do indio na politica brasileira: o que os alunos pensam do Deputado Xavante Mario Juruna? Foi posi- tiva ou negativa sua presenca no Congresso Nacional? Vocé votaria, se pudesse, num deputado indio? 7 —Vocé conhece alguma organizacdo ind{gena a nivel local, re- gional, nacional ou internacional? Pesquise no PORANTIM as organizagoes ja existentes no Brasil e nas Américas. 8 —O que vocé ja fez ou pensa fazer para defender os povos ind/- genas? Escreva para o jornal PORANTIM, dizendo as iniciati- vas realizadas por vocé ou por seu grupo, 4 10 — RIBEIRO, Berta, 11 — RIBEIRO, Darcy. Matra, Civilizacdo Brasileira, Rio, 1976, BIBLIOGRAFIA 1 — CABIX|, Daniel. A Questéo Indigena, CDTI, Cuiabs, 1984. 2 — FARIA, Ana Lucie G. Ideologia no Livro Didatico, Colec&s Polémicas do Nosso Tempo n9 7, Cortez Editora, Séo Paulo, 1984, 3 — HOHLFELOT, Antonio e Outros. O Gravador do Jurune, Série Depoimentos n° 2, Mercado Aberto, Porto Alegre, 1982. 4 — LUYTEN, Sénie B. Histories em Quadrinhos, Edi¢des Paulinas, Sdo Paulo, 1984. 5 — MARTINS, Edilson. Nostas Indios, Nossos Mortos, Editors Codecri, Rio, 1978. 6 — NOSELLA, M.C.D. As Belas Mentiras, Cortez & Moraes, S20 Paulo, 1979, 7 —PORANTIM. O Retrato Cabtico do Indio no Brasil, n° 54, pag. 16, 1983, ——. Coitado do Indio no Livro Didstico!, n° 65, pag. 16, 1983. ——, Ugh! A Imagem do Indio no Gibi, n° 56, pig. 8, 9 e 16, 1983. itrio do Xingu, Paz e Terra, Rio, 1979, —25— ANEXO! Irmos sensatos, escutai com fé o que vou dizer e sabei como somos felizes por néo conhecer a angustia e o pavor dos brancos. Podeis todos testemunhar 0 que o missiondrio diz: Deus é amor; um cristéo de verdade faz bem se tiver sempre diante de si a ima- gem do amor; sé assim é que vale para o grande Deus a adoracdo do branco. Ele nos enganou, nos mentiu, os brancos corromperam os missiondrios para que eles nos enganassem com as palavras do Grande Espirito. Pois 0 metal redondo e o papel pesado, que eles chamam dinheiro, é que s3o a verdadeira divindade dos brancos. Fale a um europeu do Deus do amor: ele torce o rosto, sorri. Sorri da simplicidade com que pensas. Estenda-lhe, no entanto, um pedaco redondo, brilhante, de metal, ou um papel grande, pesado: sem tardar, seus olhos brilham, muita saliva Ihe vem aos labios. O dinheiro 6 0 objeto do seu amor, é a sua divindade. Todos os bran- cos pensam nele, até dormindo. Muitos hd cujas mao de tanto querer agarrar o metal e o papel ficararn tortas e parecidas com as pernas da grande formiga do bosque. Hé muitos cujos olhos cegaram de tanto contar dinheiro. Muitos que renunciaram a ale- gria pelo dinheiro; ao riso, 4 honra, 4 consciéncia, a felicidade, até a mulher e aos filhos. E quase todos renunciam 4 satde pelo di- nheiro, pelo metal redondo e pelo papel pesado. Carregam-no em suas tangas, dentro de peles duras dobradas. A noite colocam-no debaixo do rolo onde pousam a cabeca para que ninguém o tire. Pensam todos os dias, todas as horas, em todos os momentos no dinheiro. Todos, todos! Até as criangas tém de pensar nele, devem nele pensar! E o que aprendem com a mie, é o que véem o pai fazer. E necessdrio dizer que nao é possivel, na terra dos brancos, ficar sem dinheiro, em momento algum, desde que o sol se levanta até que se deita. Se estas inteiramente sem dinheiro, ndo acalmas a fome nem a sede, nao encontras esteira para dormir. Te mandardo para o falé pui pui*, falardo de ti nos muitos papéis**, se nao tive- res dinheiro. Tens de pagar, quer dizer, tens de dar dinheiro pelo chéo em que andas, pelo lugar em que ergues tua cabana, pela esteira em que passas a noite, pela luz que aclara tua cabana. Tens de pagar se quiseres atirar num pombo, se quiseres banhar teu corpo no rio. Se quiseres ir aos lugares em que as pessoas se ale- 7 io #* Jomais —26— gram, em que cantam ou dancam, se quiseres pedir conselho ao teu irm&o, tens de dar muito metal redondo, muito papel pesado. Tens de pagar por tudo. Onde quer que var hds de ver teu irmao com a mao estendida, pronto a desprezar-te, a enfurecer-se contigo se nela nada puseres. Nem servird de nada a humildade do teu sorriso, a simpatia do teu olhar para abrandar-lhe o coracdo. Ele abriré a goela e berrard: ‘’Miserdvel! Vagabundo! Ladrdo!” Tudo isso quer dizer a mesma coisa: a maior vergonha que se pode inflin- gir a um homem. Até para nascer tens de pagar; e quando mor- reres, a tua aiga* * * tem de pagar por ti, por teres morrido e tam- bém para o teu corpo baixar a terra; e pela pedra que rolarem sobre a sepultura em tua memoria. So vi uma coisa pela qual, na Europa, ainda nao se exige dinheiro, da qual todos podem participar quanto queiram: a respi- ta¢do do ar. Mas acho que apenas se esqueceram disso; e ndo hesito em declarar que, se ouvissem o que digo na Europa, imediatamente também exigiriam pelo ar que se respira 0 metal redondo e o papel pesado. Pois todos os europeus est3o sempre a procura de novos motivos para exigir dinheiro. (0 Papalagui, comenthrios de Tuiévii, chefe da tribo Tiavéa, nos mares do sul — Ed. Marco Zero, Rio). *¢Famnia -27- ANEXO II DIARIO DO XINGU — Numa aldeia Kayabi — Domingo, 21/8/77 Hoje 6 domingo. Normalmente iria a praia, se fizesse sol. Os (ndios no tém dia certo para descansar, nem hora certa para co- mer. Descansam quando estfio cansados, comem quando est&o com fome. A noite gostam de ficar conversando, cada casal na sua rede e néo como os xinguanos com a rede da mulher abaixo da do ma- rido para avivar 0 fogo. Assim que comega a anoitecer, vao juntan- do lenha perto das redes, enquanto as velhas cozinham, as jovens ajudam ou embalam os nenés, os homens conversam e as criangas brincam. No dia em que cheguei, 4 tardinha, dei uma volta para encon- trar um esconderijo que servisse de banheiro. Os meninos logo des- confiaram e foram atrés de mim. Fiquei indignada e disse: “onde 6 que vocés pensam que vao?"' “Vamos mostrar a vocé onde é que 6", responderam rindo, sem malicia. Maria me convidava sempre para ir ao banho. Entdo a meni- nada toda nos acompanhava. Mas, a tarde, Uaratu, Mairdn e Txira- vé? esperavam a gente voltar para irem banhar-se e assim deixar-me mais a vontade. Hoje é o segundo dia em que vou a roca com Di-katu para co- Iher algodao. Ela apontou as nuvens e, embora falando em kayabi, entendi que o perfodo da seca estava chegando ao fim e ela tinha que colher todo 0 algoddo que havia plantado, do contrdrio, caso chovesse, 0 perderia. O algoddo é arbéreo e da flocos muito gran- des, alguns com quatro caro¢os. O trabalho mais exaustivo, que é cortar os galhos e as trepadeiras de feijao com um machete, foi fei- ta por ela. A mim e a Maria coube recolher os flocos em grandes urupem? ndo pintados, A tarde, as mulheres ndo socaram as bolas de mandioca, todas se recolheram as suas redes para descansar. MenosDi-katu que é 1 Jovens Kayabi de al 2 Peneira em forma de meia calota, usada para coar ou guardar coisas. —~28- uma formiguinha e trabalha o tempo todo. Ora faz um boneco de linha para a neta, Tuap, ou um anel de tucum. Agora esté tecendo a rede. E de algoddo grosso e feita sem tear, ao que parece. Enro- lam os fios do comprimento que deverd ter a rede depois de pron- ta, passando-os por duas cordas que servirao para pendurd-la. Mais da metade da rede j4 esté pronta. Di-katu, sentada na parte tecida vai passando a trama entre os fios da urdidura para entretecer 0 restante. Usa algoddo branco e cor de caramelo, para realgar os de- senhos. Mairopan acaba de completar o quadrado central do meu cesto. O desenho estd perfeitamente visivel, mesmo sem avivd-lo com a tinta, devido a disposigao das talas, As da parte interna, que nao reterd a tinta, sao lisas e brilhantes. As da face interna, rugosa @ esverdeada, fazem o contraste que permite ao cesteiro saber a quantas anda. Amanha Mairopan comegard a trangar os quatros “panos” com “‘casa de abelha’’, ou como eles dizem, panaku-kupé — 0 padr&o de trangado que aparece nas costas do panaku, o jama- xim usado antigamente para carregar a rede. Numa lenda que Txiravé me contou, 0 personagem principal é um papagaio que dé de comer mandioca com veneno a dona das ongas. Mata-a e besunta de sangue as penas das asas para provar a faganha. Tixiravé tem um papagaio velho que fala kayabi e que, se- gundo seu dono, anda muito doente, com dor de cabeca. Ao me- Nos se queixa 0 tempo todo de dor de cabega, disse-me tristonho, um dia, Txiravé. (Extra{(do do livro Didrio do Xingu, de Berta Ribeiro. Trechos das paginas 149 a 154.) —29- LIVROS RECOMENDADOS A Questdo Indigena, Daniel Cabixi, indio Paresi — CDTI. As Bem-Aventurangasdo Povo Myky, Elizabeth R. Amarante — Cimi/Vozes. Confederagéo dos Tamoios, Eunice de Paula e Outros — Cimi/Vo- zes. Entre os Indios Miinki, Thomaz A. Lisboa — Loyola. Historia dos Povos Indigenas, Eunice de Paula e Outros — Cimi/ Vozes. Manual Popular de Satide, M. Versiani e R. Nascimento, Loyola, 1985, Maxakali na Luta pela Vida, Cimi-Leste e outros. Os Enauené-Naué, Thomaz Lisboa, Loyola, 1984. O Indio no Rio Grande do Sul, B artomeu Melia. Precisamos um Chiao, Elizabeth R. Amarante e V. Nizzoli — Lo yola, Pedidos por Reembolso Postal Conselho Indigenista Missionario Caixa Postal 11-1159 70.084 — BRASILIA — DF — Tel. (061) 225-9457 Atengéo: Pedido com mais de 5 exemplares tera desconto de 10%. 30 = FACA 3 ASSINATURAS E GANHE UMA OUTRA GRATIS = g = = 8 & E a ai EM DEFESA DA CAUSA INDIGENA| PORANTIM é uma publicagao do Conselho Indigenista Missionario (Cimi), Significa, em sateré-maué, remo, arma, memoria. Sao dez ediges por ano, das quais duas especiais. FAGA AINDA HOJE SEU PEDIDO CIMI-PORANTIM Caixa Postal 11-1159 70.084 — BRASILIA — DF Sua assinatura é uma forma de comprometimento com a luta dos povos indigenas! ORACAO DOS INCAS EM BUSCA DE DEUS Ouca-me, do mar de cima onde permaneces, do mar de baixo onde estas. Criador do mundo, alfareiro do homem, Senhor dos Senhores, ati, com meus olhos que se desesperam por ver-te, pois ao ver-te, ao conhecer-te, ao considerar-te, ao compreender-te, tu me verds e me conheceras. O sol, a lua, 0 dia, a noite, © verdo, 0 inverno, n&o em vao caminham, ordenados, ao lugar designado @ a bom termo chegam. Por todas as partes levas contigo teu cetro de rei. Ouca-me, escuta-me, Para que eu nao me canse emorra. “El culto de Tonape”

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