Memória e Tempo na Filosofia de Ricoeur e Kundera
Memória e Tempo na Filosofia de Ricoeur e Kundera
ISSN: 2178-1036
griotrevista@[Link]
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
Brasil
DOI: [Link]
RESUMO:
Trata-se de um estudo comparativo entre as ideias do filósofo Paul Ricoeur (1913 – 2005) e do romancista Milan
Kundera (1929-) sobre as experiências do tempo e da memória. Parte-se de uma comparação inicial das ideias de
ambos os pensadores acerca dos temas da ipseidade, da História e da experiência do tempo. Em um segundo
momento, o pensamento de ambos os autores é colocado em confrontação crítica, em especial no que concerne aos
seus respectivos entendimentos sobre a natureza da experiência humana do tempo e os limites da memória. Em
seguida, passa-se ao exame das ideias e hipóteses de Kundera sob a luz da hermenêutica filosófica de Ricoeur, com o
intento de mostrar que essa é onde essa hermenêutica é mais intensamente desafiada que melhor mostra suas
valências filosóficas. Em um último momento, pretende-se mostrar que dessa confrontação crítica resultam
interessantes convergências por meio das quais ambos os pensadores oferecem perspectivas similares e
complementares para fins do cultivo de uma memória feliz e de uma experiência viva do tempo.
1 Doutor(a) em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria – RS, Brasil.
COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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Griot : Revista de Filosofia, Amargosa - BA, v.23, n.1, p.1-27, fevereiro, 2023 ISSN 2178-1036
Considerações preliminares
A despeito de sua imensa extensão, Tempo e narrativa não é o que se poderia dizer, com
Pierre Bourdieu, uma obra que atesta o intento indisfarçado de se inserir na tradição das grandes
sumas nas quais se expõem filosofias sistemáticas e totalizantes2. Pelo contrário: ainda que
explore questões secundárias e seus desdobramentos, a reflexão de Ricoeur nessa obra é
comandada por uma grande e específica preocupação: apresentar a prática da narração como
modo de tornar produtivas as aporias filosóficas do tempo. Dessa imensa reflexão nascem, como
conclusões, três novas aporias, relativas aos limites da narração diante de três novos problemas:
2Penso aqui especialmente no comentário de Bourdieu sobre O ser e o nada, de Jean-Paul Sartre, apresentado em As regras da arte
(1996, p. 240).
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tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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3A rigor, no caso específico de Heidegger, Ricoeur enfatiza as incontornáveis dificuldades de que sua concepção de historicidade
produz em termos de estabelecimento de uma epistemologia da história. Vale ressaltar que também no campo da teoria da história
essa dificuldade é reconhecida: Reinhart Koselleck (1923 – 2006) considera a historicidade heideggeriana estreita e insuficiente
para uma teoria da história capaz de elucidar as condições de possibilidade das historias possíveis. (cf. RICOEUR, 2007, p. 364ss;
KOSELLECK, 2014, 278ss).
4 A tradução de Ana Helena Barbosa Bezerra de Souza do texto de Beckett para o português faz a opção de traduzir o célebre
adágio beckettiano da seguinte maneira: “Nunca tentado. Nunca falhado. Não importa. Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar
melhor” (BECKETT, 2012, p. 65). A própria autora, porém, admite que a opção foi feita por razões de sonoridade (SOUZA, 2014,
p. 98). Mantenho aqui a versão que circula publicamente de maneira mais conhecida.
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esteira de Hume e Nietzsche, que esse sujeito idêntico não passa de uma ilusão substancialista”
(p. 418). O dilema desaparece, todavia, “se a identidade entendida no sentido de um mesmo (idem)
for substituída pela identidade entendida no sentido de um si-mesmo (ipse)” pois “a diferença
entre idem e ipse não é outra senão a diferença entre uma identidade substancial ou formal e a
identidade narrativa” (p. 419). É com a convicção de que só a narração revela o duplo estrato de
ipseidade e mesmidade da identidade pessoal que Ricoeur inicia O si-mesmo como outro, obra na
qual a aporia da identidade narrativa será nada menos do que o núcleo de uma reflexão
apresentada como uma hermenêutica do si-mesmo. A pessoa que é leitora e escritora de sua
própria vida nas páginas finais de Tempo e narrativa reaparece, em O si-mesmo como outro, como
um si “que fala, age e é personagem narrador da própria história” (2014, p. 340), em um horizonte
antropológico no qual “as histórias vividas por uns estão intricadas nas histórias dos outros” (p.
171) e no qual a elaboração da compreensão em narrativa se articula com “previsões e projetos”
desde os quais se estabelece “a seleção dos acontecimentos narrados e as previsões” (p. 172). A
narrativa, portanto, torna humana e pessoal uma lista qualquer de qualidades que constitui um
caráter e revela a história contraída “no duplo sentido da palavra ‘contração’: abreviação e
afetação” (p. 123). Por meio da narração de uma história é possível inscrever na trama de uma
identidade não só os projetos perseguidos de maneira mais ou menos solitária mas também um
tipo de ato de fala que, por assim dizer, é o próprio paradigma da ipseidade, a saber, a promessa
que “expressa uma manutenção de si que não se deixa inscrever, como o caráter, na dimensão do
algo em geral, mas unicamente na do quem?” (p. 124). A possibilidade de uma unidade narrativa
da vida – exortada por Alasdair MacIntyre (1929-), em Depois da virtude, como condição não só
da inteligibilidade mas da dignidade e do valor da vida humana (2001, p. 343-378) – aparece em
tintas menos radicais no horizonte da hermenêutica do si. Ricoeur poderia concordar com
MacIntyre quando este alega que “as histórias são vividas antes de ser contadas” (2001, p. 356).
Todavia, para Ricoeur (2014), há um “caráter evasivo da vida real” que torna “revisável e
provisória toda e qualquer figura de enredo” (p. 173). A narração identitária é, portanto, uma
trama e a tarefa de tecê-la na medida que, como já afirmava em Tempo e narrativa, é uma
identidade que “não cessa de se fazer e de se desfazer” (2010c, p. 422). A abertura para a
reelaboração da narrativa identitária, como a aporia da inescrutabilidade do tempo, revela os
limites da narratividade diante da vida.
Finalmente, há a aporia da totalização da história. Em grande medida, ela é o resultado do
percurso de Ricoeur pela ideia de renunciar a Hegel na direção de uma hermenêutica da
consciência histórica, conforme os títulos das duas últimas seções de Tempo e narrativa. Para
Ricoeur, “o desmoronamento incrivelmente rápido do hegelianismo é um fato da ordem dos
tremores de terra” do qual é impossível dizer “se ele marca uma catástrofe que ainda nos fere ou
uma libertação cuja glória não ousamos expressar” (2010c, p. 344). O filósofo francês entende que
a perda de prestígio e credibilidade do idealismo alemão e da ideia de uma razão dialética capaz
de sincronizar e mediar de forma total a experiência da história é, ela própria, essa perda, “um
evento no campo das ideias”, um evento que “é inclusive um fenômeno hermenêutico” e que
“inscreve-se na hermenêutica da consciência histórica” (p. 350). Essa hermenêutica, apresentada
nas cinquenta últimas páginas que encerram Tempo e narrativa e depois das quais só restam as
conclusões aporéticas, é inspirada no pensamento de três autores: Reinhart Koselleck (1923 –
2006), o Hans-Georg Gadamer (1900 – 2002) e Friedrich Nietzsche (1844 – 1900). Em Koselleck,
Ricoeur busca o conceito de horizonte de expectativas, desde o qual considera possível “incluir a
esperança e o temor, o desejar e o querer, a preocupação, o cálculo racional, a curiosidade, em
suma, todas as manifestações privadas ou comuns que visam o futuro” (p. 354). Na medida que o
conceito de Koselleck forma par com um outro designado espaço de experiência, Ricoeur encontra
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Embora não seja um filósofo obcecado com questões teóricas, Kundera pode ser visto como
um pensador que persegue questões existenciais por uma via estética. Seu enquadramento
enquanto pesador se torna possível desde sua própria concepção da arte do romance. Inspirado
em Robert Musil, Kundera frequentemente confessa, em seus ensaios e romances, seu desejo de
“escrever sem fabricar um suspense, sem construir uma história e simular sua verossimilhança”
em uma perspectiva que compreende o romancista como alguém que não precisa “afastar-se,
mesmo que por uma única linha, daquilo que conta para ele, daquilo que o fascina” (2017, p. 168).
Como observa em A imortalidade, Kundera lamenta a hegemonia da tensão dramática na tradição
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romanesca na medida em que esta “transforma tudo, mesmo as mais belas páginas” em uma
“simples etapa que leva ao desfecho”, terminando por operar como uma chama que devora a
leitura e na qual “o romance se consome como um monte de palha” (1998, p. 234). Essa visão
sobre a arte que pratica faz com que Kundera seja frequentemente visto como um praticante de
romance filosófico, embora o próprio autor repudie essa designação e prefira se filiar não a filósofos
que escreveram narrativas de ficção mas a romancistas que escreveram romances meditativos5.
Assumindo os topoi da hermenêutica narrativista da consciência histórica como espaços de
investigação filosófica privilegiada, vejamos agora como elas aparecem concebidas ao longo da
obra de Milan Kundera. Segundo Michel Dion (2009, p. 79, tradução minha), também em
Kundera os topoi do tempo, da história e da identidade pessoal aparecem trançados e “não
podemos entender a essência do self sem considerar a natureza do tempo e da mudança histórica”
nem “apreender a natureza do tempo sem olhar para a essência do eu e da mudança histórica ou
tampouco “refletir a essência da mudança histórica sem considerar a natureza do eu e a do tempo”
porque nos romances de Kundera, “esses três conceitos filosóficos estão interligados”.
Se Ricoeur confia aos poderes da narrativa a humanização do tempo, ironicamente, o
romancista confia menos na narração do que o filósofo. Segundo Kundera, “a narrativa é uma
lembrança, portanto um resumo, simplificação, abstração” e “o verdadeiro rosto da vida, da prosa
da vida, só se encontra no presente” (2006, p. 20). Embora não desenvolva uma teoria do tempo,
Kundera oferece, em seus romances e ensaios, reflexões sobre a existência e a arte romanesca desde
as quais é possível deduzir uma pequena teoria do tempo. Nos convidando a tentar lembrar do
conteúdo exato de um diálogo, Kundera sugere que as falas dos envolvidos na conversa são
irrecuperavelmente esquecidas e “o que sobra delas é seu sentido abstrato [...], eventualmente um
ou dois detalhes” enquanto “o concreto acústico-visual da situação em toda sua continuidade fica
perdido” (2017, p. 134). Há, para Kundera, um gap insuperável entre experiência e lembrança,
um gap desde o qual se mostra a verdadeira natureza da experiência do presente. Para o
romancista, “o momento presente não se parece com sua lembrança”, que não é “a negação do
esquecimento” mas precisamente “uma forma de esquecimento” (p. 135). No limite, para
Kundera, o gap entre experiência e memória faz do presente um planeta desconhecido. Diz o
romancista:
Se Kundera é sombrio ao conceber o tempo presente cercado por desfiladeiros nos quais a
experiência escoa para o esquecimento, não encontramos opiniões mais luminosas quando o
assunto é o topoi da identidade pessoal. É sob a rúbrica de ser “uma das mais belas ilusões
europeias” que Kundera se refere a ideia de “unicidade insubstituível do indivíduo” (1988, p. 14).
Por meio de exercícios matemáticos de pensamento, Kundera não cessa de enfatizar a falta de
5Em diversos momentos de suas obras Kundera faz referências laudatórias a Robert Musil e Hermann Broch como romancistas
que souberam usar a meditação sem fazer do romance uma vulgata do pensamento filosófico. Kundera parece ter especial antipatia
pelo romance existencialista de Sartre e Camus, preferindo trata-los como escritores e não romancistas – chegando a dizer que A
peste de Camus resume tudo o que ele não gosta em um romance. A concepção que Kundera tem de romance é bastante restritiva
e nela não há espaço nem para biografia romanceada, nem para a filosofia romanceada ou para o panfleto político romanceado,
como é, para ele, o caso do 1984 de George Orwell.
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tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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singularidade dos indivíduos. “Matematicamente, é impensável”, diz Kundera, que “se nosso
planeta viu passar oitenta bilhões de seres humanos [...] cada um deles tenha seu próprio
repertório de gestos” (1998, p. 13). Segundo Kundera, essa também é a ideia “tão cômica quanto
genial” de Witold Gombrowicz, para quem “o peso de nosso eu [...] depende da quantidade de
população no planeta”, o que faz com que “do ponto de vista dessa aritmética, o peso do infinito
proustiano, o peso de um eu, da vida interior de um eu, torna-se cada vez mais leve” (1988, p. 31).
E o crescimento da população do planeta não é a única ameaça sobre a unicidade de uma
identidade pessoal. Segundo Kundera, o deleitoso devaneio com outras vidas possíveis nos leva
ao erro de conceber “a situação de nossa vida como um simples cenário, uma circunstância
contingente e mutável pela qual passa o ‘eu’ independente e constante” (2006, p. 62). A identidade
pessoal é integralmente perpassada de contingência e mesmo a história de uma vida aparece muito
menos como uma narrativa com começo, meio e fim do que como “um itinerário; um caminho
sinuoso; uma viagem cujas fases sucessivas não são apenas diferentes, mas muitas vezes
representam a negação total das fases anteriores” (2017, p. 222). No limite, mesmo o enraizamento
terrestre na corporeidade não se sustenta sozinho, segundo Kundera, sem uma teimosa paixão
sem a qual a identificação com o próprio corpo se esvai. É graças à essa paixão, diz o romancista,
“que não aparecemos a nossos próprios olhos como uma simples variante do protótipo humano,
mas como seres dotados de uma essência própria e intransferível” (1998, p. 18). A própria
categoria de insustentável leveza que estampa o título de seu mais famoso romance reaparecerá,
em A imortalidade, reformulado na reflexão da protagonista que percebe que “o que é
insustentável na vida não é ser, mas sim ser seu eu” (1998, p. 253). Há em Kundera, portanto,
uma insustentável leveza da ipseidade.
Assim como não é um filósofo, Kundera também não é historiador. Assim, se a Grande
Marcha da história moderna é um elemento quase ubíquo em seus romances e ensaios, porém,
segundo Kundera, “o romancista não é um valete dos historiadores” e “se a história o fascina, é
porque ela é como um projetor que gira em torno da existência humana e lança uma luz sobre ela,
sobre suas possibilidades inesperadas que, em tempos tranquilos, quando a história fica imóvel,
não se realizam, permanecendo invisíveis e desconhecidas” (2006, p. 67). Mesmo assim, é uma
categoria com valência histórica que organiza a atmosfera dos cenários kunderianos, como
observado por Maria Veralice Barroso (2013), a saber, a categoria de paradoxos terminais.
Assemelhada a ideia de encolhimento do espaço de experiência do historiador Reinhart
Koselleck6, a noção de paradoxos terminais dos tempos modernos designa o modo como as
possibilidades existenciais passam por um processo de inversão de sinal do início da modernidade
até o século XX. Categorias como aventura, futuro, crime, cômico, público, privado e solidão
aparecem, nos romances de Musil, Broch e Kafka com sinais invertidos relativamente ao modo
como apareciam nas obras de Rabelais e Cervantes, uma inversão de sinal que “somente um
romance pode descobrir” (1988, p. 16). Entre as descobertas romanescas se inclui, por exemplo, a
consciência de que, nó século XIX, “algo de essencial mudou então, e de forma duradoura: a
história tornou-se a experiência de cada um e de todos; o homem começou a compreender que não
6 A ideia, já mencionada em razão de sua apropriação por parte de Ricoeur, é introduzida por Koselleck (2006, p. 305ss). De modo
sucinto, a experiência histórica propriamente histórica coincide com a modernidade que se inicia, para o historiador, no final do
século XVIII. O espaço de experiência moderno encolhe porque, durante a modernidade, a fonte de inspiração dos projetos
humanos deixa de ser o reservatório de narrativas do passado e da tradição e passa a ser as imagens de um futuro totalmente novo,
construído sobre a convicção do progresso histórico. Orientando suas expectativas para o futuro cada vez mais distante, índivíduos
e grupos experimentaram o crescente encolhimento do espaço de experiência, isto é, do passado presente no presente. Brincando
com o título de um romance de Kundera (1991) – A vida está em outro lugar – a experiência histórica moderna foi perpassada pela
consciência de que a verdadeira vida também estava em outro lugar, no futuro. Essa reorientação da ênfase do passado para a
ênfase no futuro é narrada de modo mais detalhado por Koselleck (1999) em Crítica e crise.
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morreria no mesmo mundo em que nascera” (2006, p. 21). Se “a gigantesca vassoura invisível que
transforma, desfigura, apaga as paisagens está trabalhando há milênios”, todavia, no período da
consciência histórica – que também é o da arte do romance –, segundo Kundera, “seus
movimentos, outrora lentos, apenas perceptíveis, aceleraram-se” (2002, p. 47). A própria
categoria de mudança histórica foi, para Kundera, no período dos paradoxos terminais,
irrecuperavelmente transformada: a mudança mudou e “não significa mais uma nova fase numa
evolução contínua [...] mas o deslocamento de um lado para outro, do lado esquerdo para o lado
direito, do lado direito para trás, de trás para o lado esquerdo (no sentido dos grandes costureiros
inventando o corte da próxima estação)” (1998, p. 118). Nem mesmo as grandes ideologias,
conforme o romancista tcheco, permaneceram à salvo e cederam lugar à imagologia, isto é, uma
administração de gestos e performances vazias que “organiza por si mesma a alternância pacífica
de seus sistemas no ritmo alegre das estações” (1998, p. 117). Para o romancista “o reino da
imagologia começa ali, onde a História termina” (p. 118) e onde vigora aquilo que podemos
chamar, com o mestre de Kundera, de “kitsch que une os povos” (MUSIL, 1989, p. 739).
De modo muito sumário e orientado pela topografia ricoeuriana, tentei apresentar
elementos de uma Weltanschauung romanesca específica de um romancista em particular.
Entendo, todavia, que a escolha deste romancista se justifica na medida que esta Weltanschauung
emerge de um projeto estético no qual diversos temas e questões da reflexão filosófica ricoeuriana
encontram tratamento. Embora nunca tenha existido um diálogo entre os dois pensadores, Jean
Greisch (2013) encontra em Kundera uma fórmula que, segundo ele, sumariza o legado filosófico
de Ricoeur, a saber, a ideia de uma sabedoria da incerteza. Sem pretender ir tão longe quanto
Greisch – embora, também, sem discordar de sua perspectiva – pretendo, agora, inverter a ordem
da exploração dos autores e mostrar como essa Weltanschauung kunderiana pode apresentar
tensões produtivas para a hermenêutica ricoeuriana. Essas tensões serão estabelecidas nos marcos
da exploração, por parte dos autores, dos temas da memória e do esquecimento.
O riso e o esquecimento
No final dos anos 70, Kundera publicou um complexo romance intitulado O livro do riso e
do esquecimento. Segundo confissão do próprio romancista, na coletânea de ensaios intitulada Os
testamentos traídos, o referido romance foi escrito depois que o romancista já considerara
encerrada sua carreira em razão da ocupação russa da República Tcheca e, logo depois, já revira
sua consideração depois de emigrar para a França. Segundo Kundera (2017, p. 176), o que antes
parecia uma nova coletânea de contos como fora Risíveis amores se lhe revelava, agora, como
“um romance em sete partes independentes, porém a tal pondo unidas, que cada uma delas, lida
isoladamente, perderia grande parte de seu sentido”, um romance em sete partes cujo “único laço
que as mantém juntas, que faz delas um romance, é a unidade dos mesmos temas”. Duas coisas
me interessam sobremaneira nas palavras de Kundera sobre seu romance: primeiro, que a unidade
de um romance não precisa ser a unidade do enredo, mas do tema; segundo, que é possível
enquadrar toda a obra romanesca de Kundera sob a diretriz da unidade temática. Essa percepção
também parece perpassar o documentário recentemente realizado sobre Kundera e intitulado
From the joke to insignificance, por meio do qual se unem os temas que intitulam tanto seu
primeiro romance, A brincadeira, quanto seu mais recente (e talvez último), A festa da
insignificância. Seja “o riso e esquecimento” ou “a brincadeira e a insignificância”, a obra de
Kundera parece perfeitamente emoldurada na aguda consciência de que a existência humana,
com seus dramas existenciais, é perpassada pela atmosfera das incontornáveis efemeridade e
frivolidade que se transformam em seus temas centrais. É nessa moldura que o tema da memória,
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perpassado pela permanente ameaça do esquecimento, comparece como um dos temas mais
privilegiados para a confrontação com o pensamento de Ricoeur. Para vivificar esse encontro,
passo a uma recapitulação de algumas considerações importantes do filósofo sobre o assunto.
Em A memória, a história, o esquecimento, já no primeiro parágrafo da obra, Ricoeur (2007,
p. 17) admite que o tema da memória comparece como lacuna “na problemática de Tempo e
narrativa e em Si mesmo como um outro, em que a experiência temporal e a operação narrativa
se enfrentam diretamente”, não sem que esse enfrentamento direto seja feito “ao preço de um
impase sobre a memória e, pior ainda, sobre o esquecimento, esses níveis intermediários entre
tempo e narrativa”. Na última página da obra (p. 513), concluída em versos, vemos o que pode
ser uma hierarquia entre as categorias articuladas ao longo da obra, quando o filósofo diz “Sob a
história, a memória e o esquecimento / Sob a memória e o esquecimento, a vida / Mas escrever a
vida é outra história. / Inacabamento.”. Há portanto, sob o nível das histórias que se narram,
uma tarefa de articulação de memória e esquecimento. Sob o nível em que se dá essa articulação,
a vida que comparece não só como substantivo mas como adjetivo frequentemente ligado à noção
ricoeuriana de experiência, experiência viva, “a experiência pré-verbal” e “que traduz o Erlebnis
da fenomenologia husserliana” e que se articula com “o trabalho de linguagem que põe
inelutavelmente a fenomenologia no caminho da interpretação e, portanto, da hermenêutica” (p.
43). O nível mais profundo é o próprio lugar do pensamento, o nível da hermenêutica filosófica
que, se segundo Gadamer (2012, p. 343), é o nível onde se deve sempre “deixar algo permanecer
incerto”, é também o nível do inacabamento característico do pensamento pós-hegeliano, pós-
metafísico, pós-dogmático e que, reitero, segundo Jean Greisch (2013), se deixa apreender por
meio da fórmula que sumarizaria o legado filosófico de Ricoeur: a sabedoria da incerteza. Tendo
tudo isso em mente, o pensamento de Ricoeur sobre a memória 1) se dá no ambiente hermenêutico
de uma sabedoria da incerteza e do inacabamento; 2) assume a dificuldade excelsa de, no presente
da experiência viva, articular vida e(m) linguagem; 3) admite não desviar do incontornável
obstáculo de articular memória e esquecimento e 4) situa esse desafio no plano histórico, no qual
a história de alguém se enreda nas histórias de outros indivíduos, grupos, sociedades e, no limite,
de uma ideia de humanidade. Entendo que é nesse enquadramento que se deve compreender a
alegação do filósofo quando este confessa, no final de A memória, a história, o esquecimento, que
“a estrela norteadora” de toda sua “fenomenologia da memória foi a ideia de memória feliz”, do
reconhecimento como “pequeno milagre da memória” que “se produz, sob os dedos que folheiam
um álbum de fotos, ou quando do encontro inesperado de uma pessoa conhecida, ou quando da
evocação silenciosa de um ser ausente ou desaparecido para sempre, escapa o grito: ‘É ela! É ele!’”
(p. 502). Segundo Ricoeur,
A identidade frágil de uma vida singular, portanto, está completamente fundada sobre a
eventual felicidade de uma memória que comparece, ora quando solicitada, ora quando um
biscoito mergulhado no chá possa revelar um tesouro de vivências esquecidas e que esperavam
pela recordação. Tendo estabelecido isso, o confronto com a perspectiva kunderiana está
minimamente preparado. Veja-se o que diz o romancista em uma digressão de A ignorância:
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Imagino a emoção de dois seres que se reencontram depois de muitos anos. Outrora se
frequentavam e portanto pensavam que estavam ligados pela mesma experiência, pelas
mesmas lembranças. As mesmas lembranças? É aqui que começa o mal-entendido: eles
não têm as mesmas recordações; ambos retêm do passado duas ou três pequenas situações,
mas cada um retêm as suas; suas lembranças não se parecem; não se encontram; e, mesmo
quantitativamente, não são comparáveis: um se lembra do outro mais do que este se
lembra dele; primeiro porque a capacidade da memória de cada um difere de um indivíduo
para o outro (o que ainda seria uma explicação aceitável para cada um deles), e também
(e é mais penoso admitir isso) porque eles não têm, um para o outro, a mesma importância.
(KUNDERA, 2002, p. 102)
Se o problema da memória era uma lacuna nas obras de Ricoeur em que este coloca ou
explora a ideia de identidade narrativa no horizonte de uma antropologia do homem capaz 7,
Kundera mostra não só que a capacidade de lembrar difere de pessoa para pessoa como, também,
que a distinta importância de uma pessoa na história da outra indica a diferença da história de
cada um. Ou seja, ainda que Ricoeur (2014, p. 171) esteja correto ao observar que “as histórias
vividas por uns estão intricadas nas histórias dos outros”, isto é, que “pedaços inteiros de minha
vida” façam parte “da história da vida dos outros, de meus pais, meus amigos, meus companheiros
de trabalho e lazer”, todavia, o desencontro das memórias é, conforme nos mostra Kundera,
ocasião de uma triste descoberta da memória feliz, a saber, seu caráter eventualmente solitário.
Todavia, não é apenas em digressões especulativas que Kundera explora os dissabores da memória
feliz. Em O livro do riso e do esquecimento, conhecemos Tamina, uma viúva que se dedica a
legítimos exercícios espirituais no intento de não deixar evanescerem as lembranças de seu falecido
marido. O resultado desses exercícios, todavia, não poderia ser mais funesto. Lê-se, no romance:
Todo dia ela se dedicava diante dessa fotografia a uma espécie de exercício espiritual:
esforçava-se em imaginar o marido e perfil, depois de meio perfil, depois de três quartos.
Fazia reviver a linha de seu nariz, de seu queixo, e constatava todo dia com espanto que
o esboço imaginário apresentava novos pontos discutíveis em que a memória que
desenhava tinha dúvidas.
Durante esses exercícios, ela esforçava-se em evocar a pele e sua cor, e todas as pequenas
alterações da epiderme, as verrugas, as protuberâncias, as sardas, as pequenas veias. Era
difícil, quase impossível. As cores de que se servia sua memória eram irreais, e com essas
cores não havia meio de imitar a pele humana. Ela inventara portanto uma técnica
pessoal de rememorar. Quando estava sentada em frente a um homem, servia-se de sua
cabeça como um material a esculpir: olhava-a fixamente e refazia em pensamento as
formas do rosto, dava-lhe uma cor mais escura, colocava nele as sardas e as verrugas,
diminuía as orelhas, coloria os olhos de azul.
Mas todos esses esforços só faziam demonstrar que a imagem do marido lhe fugia
irrevogavelmente. No começo da ligação dos dois ele lhe pedira (ele era dez anos mais
velho do que ela e já tinha formado uma certa ideia da precariedade da memória humana)
para ter um diário e nele anotar para os dois o desenrolar de suas vidas. Ela tinha se
rebelado, afirmando que era fazer pouco do amor deles. Ela o amava demais para poder
admitir que aquilo que qualificava e inesquecível pudesse ser esquecido. Evidentemente,
7Tomo de empréstimo a expressão do professor Tomás Moratalla, para quem a obra de Ricoeur se constitui como um capítulo na
história das antropologias filosóficas. Vale mencionar que a ideia de antropologia como filosofia primeira vem sendo fomentada,
nas últimas décadas, por autores como Ernst Tugendhat (2006) e Ernildo Stein (2018). É de se pensar que se Ricoeur, conforme
alega nas primeiras páginas de O si-mesmo como outro, vê a si próprio como alguém que opera em um estrato de filosofia segunda,
talvez seja o caso de supor que desde a queda do idealismo alemão estamos, conforme observado por Stein (1996), libertos das
ontologias. O constrangimento de Ricoeur (2014) ao se perguntar, no último estudo de O si-mesmo como um outro, sobre a
legitimidade do pensamento ontológico em pleno fin de siècle parece sugerir, afinal, que a única filosofia primeira ainda digna de
crédito é, afinal, uma filosofia segunda.
10
COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
Griot : Revista de Filosofia, Amargosa - BA, v.23, n.1, p.1-27, fevereiro, 2023 ISSN 2178-1036
acabara obedecendo, mas sem entusiasmo. Os diários tinham se ressentido disso; muitas
páginas estavam vazias e as anotações, fragmentadas. (KUNDERA, 1987, p. 98-9)
Índice da insignificância, o esquecimento é qualquer coisa como uma força constante8 contra
a qual a memória parece fracassar de modo ainda mais especial quando se coloca contra ele em
decidido enfrentamento. Tudo se passa como se o esforço de conter o alagamento do esquecimento,
que apaga imagens e palavras, fizesse da memória, na melhor das hipóteses, conforme uma
expressão cara a Ricoeur (2007, p. 25), “uma província da imaginação”.
Um outro drama possível e observável nos romances de Kundera é o do personagem Rubens,
de A imortalidade. Somos apresentados ao personagem Rubens na sexta parte do romance e ao
longo dessa parte descobrimos que ele era um coadjuvante inominado da história de Agnes,
protagonista do romance. Descobrimos, também, que Rubens, muito cedo em sua vida,
interpretou uma coincidência qualquer como sinal do destino e escolheu acreditar que o centro de
gravidade de sua vida era, conforme Kundera (1998, p. 276) “não na vida pública, mas na vida
particular, não na procura de uma carreira, mas no sucesso com as mulheres”. Em determinado
momento de sua aventura, porém, Rubens “sentou diante de uma folha de papel e tentou escrever
numa coluna o nome de suas amantes” (p. 305). Percebeu o quanto havia de esquecimento em
suas lembranças, nas quais se perdiam frequentemente não só os nomes mas o próprio conteúdo
dos episódios eróticos e “pensou em Casanova com inveja”, não de suas proezas eróticas, mas de
“sua incomparável memória”, tão diferente da do próprio Rubens que constatará que será para
sempre, pelo resto de sua vida, “assombrado por farrapos de lembranças” (p. 306). Rubens
percebeu que “a memória não filma, fotografa”, que “sua memória erótica oferecia-lhe um
pequeno álbum de fotografias pornográficas”, não mais do que “sete ou oito fotos””, uma
quantidade “melancolicamente pequena” de “sete ou oito frações de segundos” de uma vida para
a qual se dedicara com “todas as suas forças e talento” (p. 206-7). Depois da morte de Agnes,
Rubens não conseguiu mais parar de pensar nela. Enfim, depois de um fracasso sexual com uma
amante e assombrado pela imagem de Agnes, Rubens concluiu:
De tudo que vivi, só me ficou uma fotografia. Talvez ela revele o que há de mais íntimo,
de mais profundamente escondido na minha vida erótica, aquilo que contém sua própria
essência. Talvez só tenha feito amor, nestes últimos tempos, para permitir que essa foto
reviva. (KUNDERA, 1998, p. 321)
Nas páginas de A memória, a história, o esquecimento, lemos Ricoeur (2007, p. 450) dizendo
que “ninguém pode fazer com que o que não é mais não tenha sido”. Porém, Kundera parece
enfatizar dramaticamente os casos em que tudo se passa como se nada jamais tivesse se passado,
exibindo uma fileira de casos fictícios nos quais o esquecimento não só assombra como corrói o
domínio da memória. Emigrado, o romancista apresenta em sua ficção um rol de personagens
exilados (A ignorância é, nesse sentido, um romance exemplar e mais centrado nessa temática do
que qualquer outro) por meio dos quais somos levados a aprender que se a memória é uma
capacidade, todavia, ela precisa ser transformada em um hábito:
8 Penso aqui especialmente na definição psicanalítica do conceito de pulsão, concebido como uma força constante que volta a
pressionar a consciência tão logo suas exigências sejam satisfeitas pelo sujeito. Da mesma forma, o esquecimento atuaria com força
constante sobre a memória, voltando ao seu trabalho tão logo a intencionalidade que lembra se modulasse em outra atitude
intencional. Conforme tentarei mostrar, é o que o romance de Kundera apresenta ao sugerir que a memória tem um efeito
transformador sobre si mesma e que a nostalgia não se confunde com a memória, se constituindo na verdade em suas antípodas,
como uma força autônoma que se compraz em si mesma e cuja intencionalidade parece incompatível com o que Ricoeur considera
uma memória feliz.
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COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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A memória, para que possa funcionar bem, tem necessidade de um treino incessante: se
as lembranças não forem evocadas, continuamente, em conversas com amigos, elas
desaparecem. Os exilados, reunidos em colônias de compatriotas, contem entre si até a
exaustão a mesmas histórias, que, desse modo, se tornam inesquecíveis. Mas aqueles que
não frequentam seus compatriotas [...] são inevitavelmente atingidos pela amnésia.
Quanto mais forte é a sua nostalgia, mais ela se esvazia de lembranças. [...] Pois a
nostalgia não intensifica a atividade da memória, não estimula as lembranças, ela basta
a si mesma, à sua própria emoção, tão totalmente absorvida por seu próprio sofrimento.
(KUNDERA, 2002, p. 31)
Essa passagem de Kundera nos coloca nas cercanias daquilo que diz Ricoeur (2007, p. 141)
quando fala da nossa “relação com os próximos […], essas pessoas que contam para nós e para as
quais contamos”. Esses próximos, que para Ricoeur (p. 142) eventualmente “desaprovam minhas
ações, mas não minha existência”, dos quais só espero, no mínimo, “que aprovem o que atesto:
que posso falar, agir, narrar imputar a mim mesmo a responsabilidade de minhas ações” são
“aqueles que me aprovam por existir e cuja existência aprovo na reciprocidade e na igualdade da
estima”. As pessoas que vivem no exílio, destituídas das suas próximas, conforme Kundera,
descobrem algo que se soma ao próprio esquecimento no front contra a memória feliz, a saber, a
nostalgia que, como uma força viva, ocupa o espaço da memória na relação com o próprio passado.
A força da nostalgia aparece também em A identidade, nas cartas que Jean-Marc, anonimamente,
escreve na tentativa de fazer sua esposa se sentir ainda bonita e desejada. Sob o disfarce do
admirador anônimo, Jean-Marc apresenta a metáfora da árvore das possibilidades e diz que “é só
por um período curto que se vê a vida assim” já que, depois, “ela aparece como uma estrada
imposta de uma vez por todas, como um túnel do qual não se pode sair. No entanto, a antiga
imagem da árvore permanece em nós sob a forma de uma indelével nostalgia” (KUNDERA, 2009,
p. 55).
Se em sua última grande obra, Percurso do reconhecimento, Ricoeur (2006, p. 126)
apresenta o “poder lembrar-se” e o “poder prometer” como duas capacidades antropológicas que
sustentam as duas formas da permanência humana no tempo, Kundera também vincula, nas
páginas de A ignorância, a capacidade de lembrar com a própria constituição da condição
humana. Sua ênfase é, como de praxe, nos limites da memória humana: se fôssemos capazes de
reter a totalidade da experiência vivida, seríamos algo muito diferente do humano como o
conhecêmos. Nas palavras do romancista:
Se fôssemos como o memorioso Funes de Borges, portanto, nossa relação com o perdão seria
diferente, bem como nossa capacidade de reconhecermos a nós mesmos. Em A cortina, Kundera
(2006, p. 138) observa que “quando alguém cita alguma coisa que dissemos numa conversa, nunca
nos reconhecemos; nossas afirmações são, na melhor hipótese brutalmente simplificadas, algumas
vezes pervertidas (quando se leva a sério a nossa ironia) e muitas vezes” diz o romancista, “não
correspondem a nada que já tenhamos dito ou pensado”, com o que “não devemos nos espantar
nem indignar”, pois esta é “a evidência das evidências: o homem é separado do seu passado
(mesmo do passado de alguns segundos atrás) por tuas forças que entram em ação imediatamente
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COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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e cooperam entre si: a força do esquecimento (que apaga) e a força da memória (que transforma)”.
Limitada, a província da imaginação que é a memória é também um lugar de transformação da
vivência em outra coisa, diferente do que foi. Além disso, em Kundera, o esquecimento se vincula
com outros elementos e temas como, por exemplo, com o da repetição que evidencia a falta de
unicidade de indivíduos que, no cortejo da história de uma vida, repetem os mesmos gestos. Na
coletânea de ensaios intitulada Um encontro, Kundera (2013) afirma que “o escândalo da
repetição é sempre caridosamente apagado pelo escândalo do esquecimento” (p. 42). Novamente
em A ignorância, é em uma reflexão sobre o destino de uma jovem que está conhecendo o amor
que Kundera oferece uma das melhores imagens da força da repetição. Diz o romancista, sobre
uma jovem ainda inexperiente no amor:
Quando ficar mais velha, ela verá nessas semelhanças uma lastimável uniformidade dos
indivíduos (que, para se beijarem, param todos no mesmo lugar, têm o mesmo gosto para
se vestir, elogiam a mulher com a mesma metáfora) e uma desanimadora monotonia dos
acontecimentos (que são apenas uma eterna repetição do mesmo fato); mas na sua
adolescência, ela acolhe essas coincidências como um milagre, ávida por decifrar seus
significados. (KUNDERA, 2002, p. 67)
Nesse mundo kunderiano em que tudo se repete, todavia, nada retorna. Isso se evidencia de
maneira notória nas célebres páginas iniciais de A insustentável leveza do ser, por meio da
interpretação que Kundera (1995) faz do mito do eterno retorno de Nietzsche. Em tais páginas se
evidencia a insignificância, que aparecerá no título de seu último romance, e o esquecimento que
dissipa o vivido, fazendo com que este pareça que – ou seja como se – jamais tivesse sido. A
repetição, em Kundera, é diferente daquela que Ricoeur (2007, p. 82ss) enfrenta por meio de seu
recurso ao pensamento de Freud, por meio da comparação entre os ensaios Recordar, repetir,
elaborar e Luto e melancolia, nos quais Ricoeur vê uma similitude entre o trabalho de elaboração,
por meio do qual se supera a compulsão ao esquecido modo de lembrar que é a repetição, e o
trabalho de luto, por meio do qual se supera a paralisante “complacência em relação à tristeza”
(p. 91) típica da melancolia. Na obra do romancista, a repetição tem o que chamarei de um
estatuto quase-ontológico ou, para pensar mais próximo de Ricoeur, poético. Nas páginas de A
imortalidade se lê:
A vida é assim: não se parece com o romance picaresco onde o herói, de capítulo em
capítulo, é surpreendido por acontecimentos sempre novos, sem nenhum denominador
comum; é parecida com essa composição que os músicos chamam tema com variações.
[...] Você não escapará ao seu destino! [...] Você não escapará ao tema de sua vida! Isso
quer dizer que será uma quimera tentar implantar no meio de sua vida uma “vida nova”,
sem nenhum relacionamento com sua vida precedente, partindo do zero, como se diz. Sua
vida será sempre construída com os mesmos materiais, os mesmos tijolos, os mesmos
problemas, e o que você poderia considerar no princípio como uma “vida nova” logo
aparecerá como uma simples variação do já vivido. [...] Em sua juventude, o homem não
está em condições de perceber o tempo como um círculo, mas apenas como um caminho
que o conduz direto para horizontes sempre diversos; não percebe ainda que sua vida
contém apenas um tema; perceberá isso mais tarde, quando a vida compuser suas
primeiras variações. (KUNDERA, 1998, p. 268-9)
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COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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Sob a pluralidade das histórias de amor, a mesma biomecânica do coito9. Sob a pluralidade
das temporadas existenciais10 de uma existência, uma sequência de variações sobre temas
repetitivos. Não é surpreendente que, no mundo de Kundera, o mesmo esquecimento que tudo
dissolve na insignificância seja, eventualmente, uma instância libertadora. Em A ignorância, o
personagem Josef é agraciado com esse esquecimento libertador. Segundo Kundera (2002), Josef
percebe que “à medida que os painéis de sua vida se dissolvem no esquecimento, o homem se
desfaz do que não gosta e se sente mais leve, mais livre” (p. 64). Não é por acaso que esse estranho
dom conferido pelo esquecimento seja percebido por um personagem que encontrou um amor tão
satisfatório que se tornou imune aos assaltos da nostalgia ao constatar que “o amor é a exaltação
do tempo presente” (p. 65). Estamos certamente nos reencontrando com o Ricoeur que vê valor
no esquecimento em cenários de excessos de memória. Mas também não estamos nos
reencontrando com Ricoeur ao acompanhar Kundera na ideia de que o amor é a exaltação do
presente? Todavia, o presente não é, conforme vimos, um planeta desconhecido? É possível
habitar um planeta desconhecido? É possível amar em um planeta desconhecido?
Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação.
Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem
nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria
vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo
“esboço” não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a
preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de
nada, é um esboço sem quadro. (KUNDERA, 1995, p. 14)
Essa é uma célebre passagem de A insustentável leveza do ser, romance que Kundera (1988),
em sua coletânea de ensaios intitulada A arte do romance, confessa que considerou intitular O
planeta da inexperiência. Absolutamente literal, o título designaria esses fatos estruturais da
condição humana, a saber, o de que “sai-se da infância sem saber o que é a juventude, casa-se sem
saber o que é ser casado” e mesmo “quando entramos na velhice, não sabemos para onde vamos”,
o que faz dos velhos “crianças inocentes de sua velhice”, em um mundo no qual se nasce “uma vez
por todas” sem que jamais seja possível “recomeçar uma outra vida com as experiências da vida
precedente” (p. 118). Uma variação dessa ideia aparece em A imortalidade (1998) quando Agnes,
9 Por mais que só se encontrem em determinados domínios da investigação historiográfica e romanesca, as ideias de Koselleck e
Kundera frequentemente parecem intercambiáveis. Essa assimetria entre o caráter plural e virtualmente imensurável das histórias
de amor e o estreito conjunto de possibilidades biomecânicas do coito é levantada por Koselleck (2021, p. 55ss) em um dos ensaios
publicados sob o título de Uma latente filosofia do tempo. Adiante será possível notar como essa repetitiva biomecânica sexual será
posta a serviço do que Kundera chamará de beleza de uma súbita densidade da vida. Aproveito para comentar que o estilo ensaístico,
digressivo e francamente teórico do historiador e do romancista faz com que ambos sejam considerados filósofos, título que ambos
recusam resolutamente. Admitindo que o romance tem uma missão ontológica – e que “não é mau” (1988, p. 34) o adjetivo
“fenomenológico” para seu estilo –, todavia, Kundera se pretende integralmente romancista. No caso de Koselleck, embora o
volume organizado por Thamara Rodrigues e Hans Gumbrecht pretenda ser uma seleção de textos da qual se depreende uma
latente filosofia do tempo, há um conhecido – e publicado em dois capítulos de Estratos do tempo – debate de Koselleck (2014) com
seu mestre, Gadamer, sobre a autonomia da teoria da história diante da pretensão englobante da hermenêutica filosófica.
10Tomo de emprestiimo a expressão de Sandro Sena (2019, p. 28), utilizada em seu artigo intitulado Nostalgia como
Grundbefindlichkeit: para um estudo heideggeriano sobre a existencialidade da velhice. Admitindo que a ideia de algo como
temporadas existenciais permitiria um enquadramento propriamente fenomenológico-hermenêutico e ontológico-existencial do que
se chama comumente de “fases da vida”, entendo também a pertinência de uma articulação entre a ideia de temporadas
existenciais com a noção ricoeuriana de identidade narrativa. Aproveito a ocasião para saudar o professor Sena, com quem tive a
felicidade de me encontrar pessoalmente no XVII Colóquio Heidegger, realizado na Unversidade do Estado do Rio de Janeiro em
novembro de 2022.
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COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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Sobre o futuro todo mundo se engana. O homem só pode ter certeza do momento presente.
Mas será realmente verdade? Ele pode conhecer verdadeiramente o presente? Será capaz
de julgá-lo? Claro que não. Pois como é que aquele que não conhece o futuro pode
compreender o sentido do presente? Se não conhecermos o futuro a que o presente nos
conduz, como poderemos dizer que esse presente é bom ou mau, que merece nossa adesão,
nossa desconfiança ou nossa raiva? (KUNDERA, 2002, p. 115)
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COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
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No mesmo romance, em uma reflexão que ilustra perfeitamente o que Koselleck chama de
horizonte de expectativa, Kundera (2002) conta que o poeta Jan Skácel padecia de uma tristeza
infinita em razão da invasão do seu país pelos russos. Skacel queria ir para longe com sua tristeza,
erguer uma casa e trancar-se nela por trezentos anos. “Skacel escreveu esses versos nos anos 70 e
morreu em 1989, em outubro, portanto, um mês antes que os trezentos anos de tristeza que vira
diante de si se dissipassem em poucos dias” (p. 15), diz o romancista tcheco. O que é o futuro,
então, se no horizonte de expectativas só parece haver miragens? Segundo Kundera (1995, p. 167),
o futuro é um refúgio, pois “muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento”,
muitas vezes “imaginamos uma linha na pista do tempo, e pensamos que a partir dessa linha o
sofrimento presente deixará de existir”. Uma vez mais, se constata a assombrosa semelhança do
olhar kunderiano com o pensamento de Koselleck (2006, p. 311), quando este diz que “a
possibilidade de se descobrir o futuro, apesar de os prognósticos serem possível, se depara com um
limite absoluto, pois ela não pode ser experimentada”, o que seria ilustrado, segundo o historiador,
com a seguinte piada política citada por ele próprio:
(2010d, p. 272), “o possível eclipsa tanto o real que ‘o homem sem qualidades’ – em um mundo de
qualidades sem homens, diz o autor – se torna, em última instância, inidentificável”.
Se Musil constrange Ricoeur, em A imortalidade, Kundera (1998, p. 53) confessa, em tom
autobiográfico, que toma o próprio pulso antes de levantar halteres por medo de “morrer com um
halteres na mão, como meu querido autor”, pois isso faria dele “um imitador tão inacreditável,
tão frenético, tão fanático” que a “imortalidade risível” estaria a ele garantida. Se o próprio
Kundera admite ser um imitador de Musil, não preciso ter melindres em afirmar que A
imortalidade é um grande exercício de imitação de – ou, para ser mais preciso, de variação sobre
– O homem sem qualidades e Agnes, sua protagonista, é uma variação do Ulrich de Musil. Como
em Ulrich, também em Agnes prevalece um agudo senso de possibilidades. Isso se atesta nas
incontáveis passagens do romance em que Kundera mostra Agnes entregue ao devaneio. Sendo
impraticável a reconstrução e o comentário de cada passagem do romance em que isso ocorre –
sendo uma delas a já mencionada fantasia de Agnes com um visitante de outro planeta – passo ao
exame da primeira cena de devaneio, na qual é introduzida a imagem da flor que intitula o
presente artigo, a saber, a cena em que Agnes imaginou que seria chamada de a doida do miosótis.
Agnes concluiu que seria chamada de doida do miosótis um dia em que, enquanto procurava
um lugar para almoçar, foi literalmente atropelada por uma avalanche de feiúra, que lhe atingira
por todos os lados. Pessoas comendo hambúrgueres com a boca aberta, na qual a carne se mistura
ao refrigerante, calçadas formigando de gente, pessoas horrorosamente vestidas e que se vestiam
como se tentassem exibir ao máximo a própria feiúra, algazarra de música vinda das lojas se
misturando ao barulho dos carros, dos ônibus, das motocicletas que eram aceleradas com o próprio
intuito de fazer ainda mais barulho, transeuntes hostis que esbarram o tempo todo, enfim, uma
apoteose de feiúra que fez Agnes se imaginar caminhando pelas ruas de “um mundo que ela deixou
de amar” carregando um solitário raminho de miosótis, “segurando-o em frente ao rosto, o olhar
fixado nele a fim de nada ver, a não ser esse belo ponto azul” (KUNDERA, 1998, p. 26).
Embora o devaneio de Agnes com sua futura condição de doida do miosótis vislumbre um
cenário aparentemente futuro, penso que seja necessário enfatizar minimamente que esse
devaneio não guarda nenhuma semelhança com os futuros imaginários que orientam
expectativas, projetos e propósitos. Evidentemente, Agnes não deseja se tornar a doida do
miosótis. Essa possibilidade não está além da linha imaginária que se coloca diante dela, no
horizonte de expectativas. Penso que esse tipo de devaneio é precisamente algo como uma visada
lateral ao seu espaço de experiências. Trata-se de um cenário paralelo, no qual ela poderia estar
ou chegar, não um cenário que ela quer realizar para poder habitar. A rigor, o drama de estar em
um mundo em que não se pode habitar é o próprio drama de Agnes, e o único refúgio que parece
difusamente lhe motivar é o de um exílio libertador, no qual ela estaria livre e longe de seus laços
e vínculos. Agnes só toma consciência desse propósito depois de uma tarde derradeira, na qual,
deitada na relva, ao lado de um rio, em uma legítima experiência mística, Agnes experimenta o
peso insustentável de ser um eu. Nas palavras de Kundera:
[Agnes] lembrou-se de um estranho momento [...] quando fora passear pelo campo pela
última vez. Chegando perto de um rio, se estendeu na relva. Ficou muito tempo assim,
imaginando sentir as águas do rio atravessando-a, levando todo seu sofrimento e toda
sujeira: seu eu. Momento estranho, inesquecível: ela havia esquecido seu eu, havia perdido
seu eu; e nisso residia a felicidade.
Essa lembrança fez nascer nela um pensamento vago, fugaz, e no entanto tão importante
(talvez o mais importante de todos) que Agnes tentou apreendê-lo com palavras:
O que é insustentável na vida não é ser, mas sim ser seu eu. Graças a seu computador, o
Criador fez entrar no mundo bilhões de eus, e suas vidas. Mas ao lado de todas essas vidas
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podemos imaginar um ser mais elementar que existia antes que o Criador começasse a
criar, um ser sobre quem ele não exerceu, nem exerce nenhuma influência. Estendida na
relva, coberta pelo canto monótono do riacho que levava seu eu, a sujeira do seu eu, Agnes
participava desse ser elementar que se manifesta na voz do tempo que corre e no azul do
céu; agora sabia que não há nada mais belo.
[...]
Viver, não existe nisso nenhuma felicidade. Viver: carregar pelo mundo seu eu doloroso.
Mas ser, ser é felicidade. Ser: transformar-se em fonte, bacia de pedra na qual o universo
cai como uma chuva morna. (KUNDERA, 1998, p. 253)
Dada ao devaneio, Agnes encarna o desejo pela leveza, pela destituição subjetiva de traços
identitários, pelo rompimento de laços e vínculos11. Deitada ao lado da relva, Agnes experimenta
a doce leveza12 de sua pura ipseidade ou, para usar uma palavra que aparece na última página de
A insustentável leveza do ser, o alívio de experimentar a própria liberdade. Como uma
descendente distante do Ulrich de Musil, Agnes experimenta a ausência de anseios vorazes, não é
domináda por propósitos, não persegue ou deseja nada com obstinação. Pelo contrário: lemos
(1998, p. 43) que Agnes era cada vez mais frequentemente invadida por “uma estranha e forte
sensação”, a saber, a de que ela não tinha “nada em comum com essas criaturas de duas pernas,
a cabeça acima do pescoço, a boca no rosto”. Diferentemente de Ulrich, que flutuava pelos salões
trocando de opinião como quem trocava de roupas, Agnes era evasiva nas saunas, desinteressada
dos comentários de suas colegas sobre seus maridos ou sobre os programas de televisão que
assistiam. Eventualmente, Agnes era literalmente desconcertante. Esperando seu marido para
jantar, Agnes folheou uma revista e constatou que “quando você coloca lado a lado a foto de dois
rostos diferentes, fica espantado com tudo que os diferencia” mas que “quanto tem diante de si
duzentos e vinte e três rostos”, como havia nas páginas da revista, “compreende, de repente, que
não vê senão numerosas variantes de um só rosto, e que nenhum indivíduo jamais existiu”
(KUNDERA, 1998, p. 36). A constatação é verbalizada para Paulo, que chegara em casa e,
ouvindo a esposa, tentava fazer a manutenção do sentido ordinário da unicidade, da singularidade
da esposa amada, cujo rosto jamais se confundiria com qualquer outro.
“Imagine que você tenha vivido num mundo em que não existissem espelhos”, sugere Agnes
para Paulo, em cujos traços distinguia os da própria sogra, em uma reflexão que se conclui com a
constatação de que a primeira vez que alguém se visse em um espelho nesse mundo, esse alguém
11É relativamente consensual, na fortuna crítica dos comentários sobre a obra do romancista tcheco, que não só A imortalidade é
o romance no qual Kundera realiza de forma mais bem sucedida seu projeto estético como, além disso, Agnes é a personagem mais
importante. Em O livro da imitação e do desejo, Trevor Merrill (2016) faz uma varredura exaustiva da obra de Kundera, orientado
pela hipótese de que a obra, assim como as análisadas por René Girard (2009) em Mentira romântica e verdade romanesca, exibe
exemplarmente o funcionamento do desejo mimético tal como concebido e apresentado nesta obra. Nessa direção, Agnes é a
personagem que encarna a vitória sobre esse desejo imitativo e cujo funcionamento, segundo Girard, estruturaria as subjetividades
e as relações sociais. Ainda mais impressionante é que essa cena de Agnes em A imortalidade tenha sido considerada o centro
gravitacional de toda a obra de Kundera, conforme a hipótese de François Ricard (2003), em Le dernier après-midi d'Agnès.
12 Se Agnes experimenta o peso insustentável de ser seu eu, em A insustentável leveza do ser, Kundera (1995, p. 36) fala da doce leveza
experimentada por Tomas, que “vivera acorrentado a Tereza durante sete anos”, a companheira que “havia seguido com o olhar
todos os seus passos”. No final do romance, já reconciliado com Tereza mas, dessa vez, vivendo como camponês no interior, longe
da vida urbana e de sua profissão de médico, diante de um assalto de sentimento de culpa de Tereza – que se considerava culpada
por Tomas ter abandonado sua missão de médico e ter descido “tão baixo” (p. 313) – responderá que missão “é uma palavra
idiota”, que “é um alívio imenso perceber que somos livres, que não temos missão” (p. 314). Não quero nem posso, por razões de
espaço, desenvolver (mais) esse tema aqui, mas Agnes e Tomas parecem, nos desfechos das narrativas, representar uma vitória da
ipseidade sobre a mesmidade se considerarmos que sob esta cai aquilo que, em Percurso do reconhecimento, Ricoeur (2006, p. 141)
chamara de “traço desagradável de obstinação”. Conforme Ricoeur (p. 145), há uma distância entre a manutenção de si e a
“‘constância’ de uma vontade obstinada”. Merrill (2016) observa a recorrência do tema dos exílios libertadores nos romances de
Kundera. Com Agnes e Tomas, tudo se passa como se seus percursos de reconhecimento de si próprios os levassem a constatar,
com cansaço, a futilidade dos projetos, promessas e vínculos pelos quais, por muito tempo, definiram e compreenderam a si
mesmos.
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COSTA, Vítor Hugo dos Reis. A jardinagem das memórias e o miosótis de um planeta desconhecido: memória e experiência do
tempo na hermenêutica narrativista. Griot : Revista de Filosofia, Amargosa – BA, v.23 n.1, p.1-27, fevereiro, 2023.
Griot : Revista de Filosofia, Amargosa - BA, v.23, n.1, p.1-27, fevereiro, 2023 ISSN 2178-1036
constataria que não era o próprio rosto. Assim como alguém não é o próprio nome. Passo a palavra
para a própria Agnes e transcrevo o que ela disse ao marido:
– Nosso nome, também, vem por acaso […] sem que saibamos quando apareceu no
mundo, nem como um nosso desconhecido antepassado o conseguiu. Não compreendemos
absolutamente esse nome, não conhecemos sua história, e mesmo assim o usamos com
grande fidelidade, nos confundimos com ele, gostamos dele, somos ridiculamente
orgulhosos dele, como se o tivéssemos inventado num lance genial de inspiração. Quanto
ao rosto, é a mesma coisa. Lembro-me, isso deve ter acontecido no fim de minha infância:
de tanto me olhar no espelho, acabei chegado à conclusão de que o que eu via era eu.
Tenho uma vaga lembrança dessa época, mas sei que descobrir meu eu deve ter sido
inebriante. Mais tarde, porém, chega o momento em que nos olhamos no espelho e
dizemos: será que sou eu mesmo? E por quê? Por que devo ser solidário com isso aí? Que
me importa esse rosto? E a partir daí tudo começa a desmontar. Tudo começa a
desmontar. (KUNDERA, 1998, p. 37)
Agnes desejava, portanto, uma existência longe do lugar no qual as histórias vividas por
uns estão intricadas nas histórias dos outros, no qual pedaços inteiros de sua vida fazem parte da
história da vida dos outros. Seu pendor para o devaneio, indicador de um forte senso de
possibilidades, era também sinal de um desacordo no qual tende a viver uma pura ipseidade
instalada em um mundo de qualidades sem pessoas. Nesse mundo, para Agnes, a única maneira
de se refugiar no presente lhe pareceu, um dia, em um devaneio, se transformar na doida do
miosótis, errando pelas ruas com a atenção fixada em um pequeno ponto azul de beleza.
Evidentemente, o desejo de existir longe do lugar no qual as histórias vividas por uns estão
enredadas nas histórias dos outros não é nem o único nem o mais comum desejo humano. Nesse
horizonte menos místico e mais ordinário, tanto Ricoeur quanto Kundera nos oferecem pistas
acerca do que seriam experiências privilegiadas do presente. Tendo em mente que o desconhecido
planeta do presente não é um instante pontual, tendo a extensão de uma intencionalidade prática
que não só integra os instantes cronológicos em segmentos de tempo vivido como também o faz
sempre sob a luz de propósitos, desejos, interesses e intenções, entendo que uma forma de tentar
assegurar a possibilidade da memória feliz envolve precisamente uma modulação dessa
intencionalidade prática. É de Jacques Lacan (1998, p. 439) que tomo emprestada a fórmula por
meio da qual penso que seja possível designar com precisão essa intencionalidade. Trata-se de
tentar assegurar permanentemente “a história de uma vida vivida como história”. Trata-se de
cultivar, portanto, no horizonte de uma antropologia do homem capaz, as condições do poder
lembrar. Penso que tais condições passam pela formação de um hábito narrativo por meio do qual
possa se tornar óbvia uma compreensão da existência humana que Alasdair MacIntyre (2001, p.
356) lamenta que não seja tão comum e disseminada quanto poderia ser, a saber, a de que “é
porque todos vivenciamos narrativas nas nossas vidas e porque entendemos nossa própria vida
nos termos das narrativas que vivenciamos, que a forma de narrativa é adequada para se entender
os atos de outras pessoas” ou, em síntese, a compreensão de que “as histórias são vividas antes de
serem contadas”. Também David Carr (2016) permite a ampliação do papel da narrativa na
experiência prefigurativa, tal como concebida por Ricoeur, por meio de sua ideia de uma
continuidade entre vida e narrativa.
O hábito narrativo de experimentar o cotidiano ordinário por meio da permanente
elaboração e reelaboração de arcos de enredo necessita, penso, do suporte de um forte senso de
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Surgiu a Boêmia libertina de minha juventude: meus amigos proclamavam que não havia
experiência mais bela do que ter sucessivamente três mulheres ao longo de um mesmo dia.
Não como o resultado mecânico de uma orgia, mas como a aventura individual de
aproveitar uma série inesperada de oportunidades, surpresas, súbitas seduções. Esse “dia
de três mulheres”, extremamente raro, beirando o sonho, tinha um encanto inebriante
que, vejo hoje, não consistia em nenhuma performance sexual esportiva, mas na beleza
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épica de uma sequência rápida de encontros, em que, comparada àquela que a havia
precedido, cada mulher parecia ainda mais única, e os três corpos pareciam três longas
notas tocadas cada uma num instrumento diferente, unidas num só acorde. Era uma
beleza toda especial, a beleza de uma súbita densidade da vida. (KUNDERA, 2006, p. 25)
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sua missão ontológica, que nenhuma outra arte senão ele mesmo pode assumir inteiramente”. Em
um tom quase existencialista, Kundera (2006, p. 17) diz algo que muito bem poderia ter sido dito
por um hermeneuta: “a vida humana como tal é uma derrota. A única coisa que nos resta diante
dessa inelutável derrota que chamamos vida é tentar compreendê-la. Eis a razão de ser da arte do
romance”. Comprometida com a compreensão da prosa da vida, a arte do romance – ou, para usar
as palavras do próprio autor, a narrativa de ficção – é, conforme afirmado em várias ocasiões e
distintas direções por Ricoeur (2014, p. 114, 155, 169; 2010a, p. 105) um “laboratório” de
experiências morais e intelectuais. Evidentemente, não pretendo aqui insinuar que a
narrativização da experiência, condição do cultivo dos jardins da memória, exija que alguém se
torne escritor de textos de ficção. Todavia, seja na leitura de ficção, no devaneio, na expectativa
ou na lembrança, há um jogo livre com as possibilidades no ou além do círculo de horizontes que
separam, por uma linha circular imaginária, o planeta desconhecido de nosso presente dos mundos
imaginários que o circundam. A narrativização da experiência é condição para que esta seja já-
sempre significativa o suficiente para transformar o acaso em súbita beleza de uma densidade,
seja esta experimentada no encontro erótico ou no encontro com a eternidade, como ocorre com
Santo Agostinho.
Se em Tempo e narrativa Ricoeur (2010a, p. 9) apresenta uma obra que, reitero, cerca de
modo hermenêutico a tese de que “o tempo se torna humano na medida em que está articulado
de maneira narrativa”, a interpretação ricoeuriana de Agostinho é a interpretação que transforma
um pensamento “que, ao tratar do tempo, já não se refere à eternidade a não ser para marcar mais
fortemente a deficiência ontológica característica do tempo humano” em uma legítima exortação
da possibilidade da “intensificação da experiência do tempo” (p. 14). Se o planeta desconhecido
do presente é o espaço de um tríplice presente que drena para si a densidade ontológica do futuro
e do passado – e, se estou correto, planifica o futuro adiante de nós e o passado atrás de nós com
os mundos imaginários que correm em paralelo ao nosso, acessíveis pelo devaneio e pela ficção –
a eternidade, conforme ensina Agostinho, também é uma variação do presente. Em uma nota A
memória, a história, o esquecimento, Ricoeur (2007, p. 365), enfatiza o traço do “neoplatonismo
cristão”, do “cristianismo platonizante” no qual se situa Agostinho, traço que resulta na
percepção de que “nosso presente sofre por não ser o eterno presente”. Esse planeta desconhecido,
cercado por uma atmosfera de baixíssima densidade ontológica, todavia, é o lugar, constituído
por e constituinte da experiẽncia viva, da Erlebnis e da distentio animi que constituem o tempo
e se constituem ao constituí-lo. Sem um enquadramento metafísico ou teológico, a fenomenologia
do tempo aborda a eternidade enquanto experiência, mais precisamente enquanto intensificação
da experiência do tempo. Conforme observa Ricoeur (2010c, p. 448), nas páginas do último tópico
da conclusão de Tempo e narrativa, sobre A aporia da inescrutabilidade do tempo e os limites da
narrativa, “pensar um presente sem futuro nem passado” é “pensar o próprio tempo em falta para
com essa plenitude, em suma, como rodeado de nada”, experimentando no tempo “a tristeza do
finito” enfrentada com o “ímpeto de esperança” que mostra que “a eternidade pode trabalhar de
dentro da experiência temporal, para hierarquizá-la em níveis, em vez de abolí-la”. Mais adiante
no mesmo texto (p. 460), a humildade filosófica da hermenêutica ricoeuriana diante desse planeta
desconhecido admite que “o tempo envolve todas as coisas – inclusive a narrativa que tenta
ordená-lo”. Na última página de Tempo e narrativa, Ricoeur (p. 463) dirá que “o mistério do
tempo não equivale a um interdito que pesa sobre a linguagem”, mas, pelo contrário, “suscita,
antes, a exigência de pensar mais e de dizer de outra forma”. A narrativização da experiência,
portanto, pode se deparar com circunstâncias em que o tempo se apresente como o próprio
mistério em que se constitui. Em determinadas circunstâncias, portanto, a experiência viva pode
se tornar tão vertical quando incandescente. Vertical: a errância dispersa da intencionalidade em
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seus horizontes é chamada de sua dispersão por uma ipseidade que se sabe em um lugar de tempo
vivo, iluminado pelo alto como um palco. Incandescente: a experiência viva do tríplice presente é
ainda mais viva, ainda mais intensa, acompanhada de um realce dos contornos da experiência de
ser si-mesmo, experiência de enredo nas malhas de temporalidade da qual é constituído um mundo
habitável. Em A metáfora viva, Ricoeur (2000, p. 350) se pergunta se não é função da poesia,
afinal, “fazer nascer outro mundo”, “um mundo outro que corresponda a outras possibilidades de
existir, a possibilidades que sejam os nossos mais próprios possíveis”, um “mundo virtual no qual
seria possível habitar”. Penso que o que vale para a poesia, na passagem, também vale para a
ficção, para a expectativa e, mais especialmente, no âmbito da presente reflexão, para o devaneio
que enriquece a experiência da existência como história e para a memória feliz que, penso, se
depreende desse cultivo do jardim das vivências e lembranças. Também penso que iluminados
pela noção de intensificação da experiência do tempo, os exemplos de Kundera – uma ocasião de
beleza da súbita densidade de uma vida, a experiência de alívio do peso de ser eu “eu” – me
parecem exemplos precisos de tipos de experiência do tempo escalonadas por uma hierarquização
cuja métrica é o inefável que, verticalmente dirigida pela alto, desafia nossa capacidade de
narração, de verbalização, de expressão linguística. Nos picos de significação oportunizados pelas
experiências privilegiadas pavimentadas sobre a história de uma vida vivida como história, somos
levados às fronteiras da linguagem nas quais o que perdemos em precisão, ganhamos em
amplitude, tendo de nos servir de palavras densas de sentido, como amor e ser, mas também como
presente, que a felicidade de nossa língua permite que designe simultaneamente o lugar de tempo
que é o perpétuo agora e o misterioso dom, recebido do mesmo âmbito insondável no qual a
linguagem que oportuniza o dizer deve eventualmente também, com humildade, aprender a
silenciar.
Considerações finais
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Autor(a) para correspondência / Corresponding author: Vítor Hugo dos Reis Costa. costavhr@[Link]
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