Consumo Consciente e Preocupação Ambiental
Consumo Consciente e Preocupação Ambiental
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Ceres Grehs Beck
Recebido: 15/08/2012 2
Rita de Cássia de Faria Pereira
Aprovado: 02/10/2012
RESUMO
Respeitar os limites da natureza é um desafio que emerge na sociedade contemporânea. Neste sentido, este artigo
buscou identificar os valores e interesses que dominam o processo de decisão e caracterizam a preocupação
ambiental dos consumidores. A condução de 33 entrevistas em profundidade aliadas à técnica projetiva permitiu
relacionar se a preocupação está ligada à preservação do meio ambiente global (nossos interesses) e ao bem-estar
da coletividade (seus interesses) ou à satisfação de desejos egoístas (meus interesses). A análise qualitativa de
conteúdo orientada por Bardin (1977) revelou alta preocupação ambiental, todavia percebe-se que prevalecem os
valores ligados ao individualismo, à passividade, ao imediatismo e um forte egoísmo predomina nos
comportamentos dos respondentes.
1
Mestre em Administração (PPGA/UFPB), Brasil
Professora de Administração e Marketing - Unidade Gestão e Negócios - Instituto Federal da Paraíba (IFPB)
E-mail: [email protected]
2
Doutora em Administração no PPGA/UFRGS, Brasil
Professora do Mestrado e doutorado PPGA/UFPB.
E-mail: [email protected]
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Preocupação Ambiental e Consumo
Consciente: Os meus, os Seus e os Nossos Interesses
ABSTRACT
Respect the limits of the nature is a challenge that fulfill selfish desires (my interests). The qualitative
emerges in contemporary society. In this sense, this content analysis guided by Bardin (1977) showed
paper aimed to identify the values and interests that high environmental concern, however it is clear that
dominate the decision process and that characterize prevails values linked to individualism, passivity,
the environmental concerns of consumers. The immediate benefits and a strong selfishness
application of 33 in-depth interviews associated predominates in the behaviors of the respondents.
with the projective technique allowed identify if the
concerns are related to the preservation of the Keywords: Consumer Behavior. Environmental
global environment (our interests) and to the Concern. Anthropocentrism.
welfare of the community (your interests) or to
RESUMEN
Respetar los límites de la naturaleza es un reto que intereses). El análisis de contenido cualitativo
surge en la sociedad contemporánea. En este guiado por Bardin (1977) reveló una alta
sentido, el objetivo fue identificar los valores e preocupación ambiental, sin embargo, está claro
intereses que dominan el proceso de decisión y que los valores dominantes vinculados al
caracterizar las preocupaciones ambientales de los individualismo, la pasividad, la inmediatez y un
consumidores. La realización de 33 entrevistas en fuerte egoísmo predominan en los comportamientos
profundidad aliadas a técnica proyectiva permite de los encuestados.
identificar si el problema está relacionado con la
preservación del medio ambiente mundial (nuestros Palabras clave: Comportamiento del Consumidor.
intereses) y para el bienestar de la comunidad (sus Preocupación Ambiental. Antropocentrismo.
intereses) o para satisfacer deseos egoístas (mis
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1. INTRODUÇÃO
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os comportamentos dos consumidores: (1) valores egoístas, (2) altruístas ou (3) biosféricos
(De Groot & Steg, 2008; Hansla et al., 2008, Schultz, 2000, 2001; Schultz et al., 2005;
Snelgar, 2006; Stern & Dietz, 1994; Stern, 2000).
Considerando tais pressupostos, este artigo buscou identificar os valores que dominam
no processo de decisão de compra, consumo e descarte, bem como caracterizar a preocupação
ambiental dos consumidores. A abordagem qualitativa das entrevistas procurou analisar se os
comportamentos dos consumidores estão relacionados à preocupação ambiental para a
preservação do meio ambiente como um todo (nossos interesses), ao bem-estar da
coletividade (seus interesses), ou a satisfação de desejos pessoais (meus interesses).
2. SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL
Após quase quatro séculos de uso intenso dos recursos naturais, notadamente a partir
da Revolução Industrial, somente a partir dos anos 1970 se inicia um processo de
conscientização em nível mundial em torno dos impactos negativos da evolução humana no
meio ambiente. A proteção ambiental só recentemente se tornou um assunto importante nos
processos de tomada de decisão (Stern, 2000), e, mesmo após mais de trinta anos de
iniciativas em prol do ambiente, não se percebem mudanças na direção da sustentabilidade
(Peattie & Peattie, 2009). Segundo Prothero, McDonagh e Dobscha (2010), a partir dos anos
1990, o foco dos debates se volta ao consumo e a forma como o progresso vem sendo atingido
nas sociedades ocidentais, já que vigora uma relação de soberania do homem frente à
natureza.
O Desenvolvimento Sustentável prevê que a evolução do homem e o progresso
devem ser pautados no equilíbrio ecológico, de forma socialmente justa e economicamente
viável (WCED, 1987). Embora este conceito esteja amplamente difundido, apresenta-se um
tanto dúbio em relação à aplicação prática, o que reporta a uma situação de insustentabilidade
explicada pelo Paradigma Social Dominante (PSD) que é, na sua essência, anti-natureza e
anti-sustentabilidade.
A partir do exposto, considera-se que manter o desenvolvimento de modo sustentável
representa um paradoxo: o progresso impacta diretamente no uso e degradação dos recursos
naturais globais, ao passo que a preservação ambiental está baseada na intocabilidade destes
recursos. Para atingir a sustentabilidade, as empresas devem promover mudanças substantivas
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no modo como os negócios são feitos na sociedade neoliberal ocidental (Kilbourne, 2010),
bem como mudanças transformativas na forma como pensamos sobre os problemas e soluções
(Varey, 2010). A partir destas assertivas, tem-se que as soluções efetivas para os atuais
problemas ambientais somente serão alcançadas quando a humanidade se libertar dos
interesses econômicos e egoístas, utilizando suas capacidades tecnológicas para consolidar
sistemas sustentáveis de produção e consumo.
Para Stern (2000), o desenvolvimento econômico sempre atribuiu um significado
secundário ao comportamento humano frente ao ambiente, na visão antropocêntrica e
individualista de que o homem poderia enfrentar e dominar a natureza. Para Egri e Pinfield
(2007), perdura uma inquietação crescente já que não existe equilíbrio nas relações de trocas
entre a sociedade e o meio ambiente, o que tem afetado a qualidade de vida, comprometendo,
inclusive, o futuro do homem no planeta. Assim, repensar as formas de produção e consumo
não representa somente uma opção, mas sim, uma condição para a manutenção da vida
humana.
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Consciente: Os meus, os Seus e os Nossos Interesses
Consumo Preservação
atingir seus interesses pessoais (Nordlund & a degradação ambiental está relacionadas
Garvill, 2002); às consequências adversas de suas
atitudes (Stern, 2000; Hansla et al., 2008);
satisfazer seus desejos (Lipovetsky, 2007;
Campbell, 2006); as ameaças ao planeta e a degradação dos
recursos naturais acabam retornando de
extrair do consumo o seu objetivo de vida forma negativa para si mesmos (Nordlund
(Campbell, 2006); & Garvill, 2002);
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6. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
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agrupamentos, redução dos textos, adaptação das pré-categorias sugeridas no roteiro, bem
como a geração das variáveis de acordo com os temas pré-definidos. A interpretação do
resultado das técnicas projetivas foi efetuada com os textos das entrevistas, já que, segundo
Donoghue (2010), não difere dos demais procedimentos de análise utilizados nas pesquisas
qualitativas em geral.
As transcrições foram organizadas em um quadro comparativo e a lógica para a
categorização baseou-se em agrupar sentenças ou unidades textuais em razão da afinidade
destes elementos. Esta técnica é chamada de Análise Temática e se insere no conjunto das
técnicas de AC, tendo como propósito evidenciar os itens de maior significação a partir das
unidades de codificação ou categorias recortadas do conteúdo das entrevistas.
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(a) (b)
Soberania do Preocupações
homem egoístas
dos problemas
Fonte: Elaborado pelas autoras
As constatações que emergiram da interpretação das falas foram contrastadas à luz das
referências teóricas e exemplificadas com os relatos significantes das entrevistas.
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O ponto para a intervenção humana é até que os homens consigam reverter os seus próprios
impactos. (E4, M, 20 anos)
O homem tem conhecimento para isso (intervir na natureza), mas está tão fora do controle,
que ele acha que pode dominar e manter a natureza dominada. Mas não é assim que
acontece, porque lá na frente, a natureza vai dar o troco. (E1, M, 57 anos)
Os homens não têm direito de mexer na natureza, mas fazem. (E9, F, 62 anos)
O homem não tem nenhum direito (...). O homem é natureza. (E10, F, 64 anos)
Direito, direito, o homem não tem (de intervir na natureza), mas ele faz e não vai deixar de
fazer. (E1, F, 49 anos)
É o homem modificando a natureza para seu próprio interesse (...). (E7, F, 42 anos)
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2001; Snelgar, 2006), tem-se que os valores altruístas e os biosféricos estão relacionados,
respectivamente, aos outros ou ao planeta.
A maioria dos entrevistados concorda que a natureza e o homem vivem em
desarmonia e a preocupação com o futuro foi bastante citada, em especial pelos entrevistados
dos Grupos 2 e 3, que declaram que possuem filhos e netos e, por conseguinte, demonstram
receio quanto ao futuro de seus descendentes, conforme os exemplos seguintes.
As coisas que os homens geralmente fazem eles fazem de maneira egoísta e não pensam nas
consequências para o futuro. (...) deveríamos começar a pensar nas pessoas que virão depois
de nós. (E6, M, 33 anos)
A natureza não vai suportar isso não. A gente vê que o planeta não vai muito longe não (...),
já rezo pelos meus descendentes. (E3, F, 66 anos)
A mim não preocupa, mas aos meus netos acredito que sim, a minha preocupação é com as
gerações futuras porque eu estou vendo que (...), não sei se vai sobrar nada para eles. (E9, F,
40 anos)
Preocupação ambiental é quando você pensa o que vai ser no futuro dos seus descendentes,
do seu vizinho. (E2, M, 30 anos)
Preocupação ambiental é deixar um mundo melhor para meus netos. (E1, M, 57 anos)
Tenho medo de não deixar nada para as gerações futuras. (E5, M, 54 anos)
Estas constatações demonstram que pessoas com filhos trazem mais para si a
responsabilidade com o futuro do que os jovens do Grupo 1, que só se preocupam consigo
mesmos e com a preservação do seu espaço com visão de curto prazo.
Quem tem filhos deve ter mais preocupação. Se eu tivesse filhos, teria que tomar uma atitude
desde agora. (E2, M, 30 anos)
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egoístas em relação à forma como declaram suas atitudes. Pelos relatos, percebe-se que
existem receios, pois sabem que seus futuros filhos poderão vir a sofrer, mas isso parece ainda
uma realidade distante.
As gerações futuras vão sofrer mais os efeitos da poluição e da degradação do meio ambiente
do que eu. (E10, M, 26 anos)
Penso que meus filhos não terão as mesmas benesses que eu tenho. (E8, M, 23 anos)
Vai ter uma hora que tudo vai acabar realmente. Eu não vou pegar isso, mas as próximas
gerações irão. (E5, F, 20 anos)
Os homens que mexem (na natureza) só visam o lucro imediato, e só vêem a si próprios, não
pensam nos outros, nem nos seus conterrâneos e nem nos que virão pra frente. (E9, F, 40
anos)
Infelizmente parece que o homem não tem a capacidade de raciocinar a longo prazo, somente
a curto prazo, só atendendo as suas próprias necessidades, sem pensar nas gerações futuras
ou até nele mesmo. (E12, F, 27 anos)
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(acima de 50 anos), o que confirma que o consumidor adulto tem uma noção mais clara do
impacto das atividades humanas na natureza e pensa mais antes de tomar decisões.
Eu acho que o homem tem o direito sim (de explorar a natureza), porque, para quem ele tem
que pedir permissão para alterar a natureza? (E10, M, 26 anos)
Como animal dominante, tem todo o direito de modificar e intervir na natureza para seu
proveito. Mas isso (a degradação) me preocupa pouco. A natureza resolve tudo, desde que
tenha tempo para isso. (E4, M, 39 anos)
Nós temos o direito sim, porque quando Deus criou o mundo e criou as plantas e os animais,
ele falou para o homem “dominai a natureza”, então nós temos que dominar, nós temos que
intervir (...). (E8, F, 42 anos)
Eu acho que o homem pode modificar a natureza até que não prejudique o próprio homem
(...). (E3, F, 66 anos)
A Soberania do Homem sobre a natureza foi bastante mencionada pelos três grupos.
Embora alguns entrevistados relatem que a exploração deve ser seguida de uma compensação
de forma racional para não prejudicar a vida dos demais seres, não mencionam com clareza o
que cada um faz para evitar que os problemas aconteçam.
O homem pode intervir na natureza, mas usando de forma mais racional. (E6, F, 19 anos)
O homem tem o direito de mexer na natureza. Mas contanto que ele faça algo para amenizar
(...), tipo, tirou uma árvore, planta duas para suprir. (E7, M, 22 anos)
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Os homens têm direito de modificar na questão de melhorar a vida de outro ser humano, mas
sem prejudicar a natureza e nem colocar em risco a vida de outros. (E9, F, 40 anos)
As declarações a seguir demonstram a crença dos respondentes que o ser humano, por
meio da ciência e da tecnologia, encontrará saídas para os problemas ambientais, ratificando a
posição de superioridade do homem sobre a natureza, pois justificam que as intervenções na
natureza visam ao seu próprio proveito.
O homem, por ser um animal inteligente, racional e que tem esta capacidade de fazer
pequenas ou médias modificações na natureza para tomar qualquer tipo de proveito disto,
seja aumentar sua qualidade de vida, isto faz parte do próprio bem-estar do ser humano. (...)
Agora, deve fazer isso de uma maneira consciente. (E10, M, 26 anos)
Mas eu creio que o homem se adapta, claro que acaba deixando de fazer umas coisas (...). A
natureza se adapta, os animais vão se extinguindo, é a seleção natural, faz parte da natureza,
sobrevive o que mais se adapta, mas quem sofre é o homem mesmo. (E10, F, 36 anos)
A partir destes relatos, percebe-se que a visão antropocêntrica vigora e tem como base
motivacional o interesse dos seres humanos em manter a sua qualidade de vida, seu bem-estar
e sua saúde utilizando, para tanto, os recursos naturais existentes.
A variável (b) Preocupações Egoístas reflete-se nos discursos dos três grupos, que
expressam uma preocupação com o meio ambiente associada aos riscos percebidos e às
consequências adversas da poluição e da degradação para si mesmos. Indivíduos com
orientação de valores antropocêntricos acreditam que o meio ambiente deva ser protegido tão
somente para que seja mantida ou melhorada sua própria qualidade de vida (Thompson &
Barton, 1994), sua saúde e a existência humana (Coelho, Gouveia & Milfont, 2006). Neste
sentido, os entrevistados mais jovens (Grupo 1) demonstraram mais valores egoístas ao
relatarem suas preocupações.
Eu me preocupo quando eu estou sendo afetado, quando sinto mais calor, devido ao
aquecimento. (E10, M, 26 anos)
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Tenho medo de não ter energia ou água, de passar a viver pré-historicamente. (E7, M, 22
anos)
Tenho medo de não ter um clima bom, que possa prejudicar minha saúde. (E4, M, 65 anos)
Tenho medo de uma catástrofe geral, acabar com tudo. (E3, F, 66 anos)
Foi citado também o receio de “ser tolhido nas ações da minha vida, excesso de
regulamentos e falta de consumo” (E4, M, 39 anos). Mas, foi no Grupo 3 (consumidores
acima de 50 anos) que as preocupações com os desequilíbrios do meio ambiente foram mais
latentes. No entanto, estes receios não denotam uma vontade de preservar a natureza por si só,
mas, sim, devido às consequências adversas que a degradação provoca à própria saúde.
Eu já deixei de escolher muita coisa do meu cardápio porque eram coisas que fazia mal a
saúde, agora por causa do meio ambiente, não (não deixo de comprar). (E2, M, 55 anos)
Estou preocupada porque sei que esse desequilíbrio que está havendo no planeta,
futuramente vai trazer muitas doenças que até hoje nós não conhecemos. (E11, F, 51 anos)
Ao comprar) eu olho muito o que é mais natural, não compro enlatados, compro leite de soja,
o que é mais saudável.(...) Eu pago mais caro por estes produtos, pois fazem bem para a
minha saúde. (E10, F, 64 anos)
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Quando vou comprar algo penso na utilidade para mim. (E7, M, 22 anos)
Pela falta de tempo, as pessoas procuram as coisas mais fáceis e já não produzem mais
coisas em casa, artesanais, compram tudo pronto, cheio de embalagens. (...) ninguém mais
quer passar necessidade, ter trabalho e aí gera todo este lixo que vemos hoje. (E5, M, 40
anos)
Proteger o meio ambiente é importante para nossa própria sobrevivência. (E8, M, 23 anos e
E6, M, 33 anos)
Eu não penso que o que eu estou fazendo vai trazer um prejuízo para mim hoje, mas sim para
meus descendentes. (E2, M, 30 anos)
Eu me preocupo comigo e com minha família. Meus netos vão ter que se adaptar. (E9, F, 62
anos)
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As gerações futuras vão sofrer mais (...) do que eu. (E10, M, 26 anos)
(...) com a sociedade capitalista, as pessoas estão preocupadas com a satisfação pessoal, o
bem-estar imediato. (E9, F, 26 anos)
Todos hoje querem facilidade, viver bem e isso é progresso. Me preocupo porque eu moro no
mundo hoje e eu vou ser afetado diretamente e eu quero qualidade de vida. (E7, M, 50 anos)
Com o avanço da tecnologia, do poder, o homem foi ficando mais ambicioso, só pensa na sua
qualidade de vida e consumir mais e mais e isso é uma das causas destes desastres
ecológicos. (E10, F, 64 anos)
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Eu estou naquele grupo de pessoas que na hora de consumir não estão contribuindo para que
a degradação ambiental diminua (...), ou seja, se eu estou neste grupo é porque existem
pessoas que também estão. Então, este parece ser um grupo muito grande. (E4, M, 20 anos)
No meu caso, acho que tem muito a questão da comodidade, aqui no Brasil a gente só
começa a se dar conta das coisas, quando a ‘água começa a pegar no nosso pé’. (E11, M, 27
anos)
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Eu sei como fazer (a coleta seletiva), mas o problema é sair do sedentarismo. Acho que o
homem por natureza tem a tendência de se acomodar. (E2, M, 30 anos)
Eu ainda não estou fazendo corretamente como deveria a coleta seletiva. (E6, F, 53 anos)
Não faço coleta seletiva. (...) Eu não acho certo eu ter que fazer um trabalho extra para que
empresas de reciclagem tenham lucro. (E4, M, 39 anos)
A falta de engajamento pode ser claramente percebida também pelo descaso com as
ações pós-consumo e descarte. Alguns respondentes do Grupo 1 declaram não se
preocuparem com questões relacionadas à coleta seletiva ou ao destino do lixo.
Eu mesmo sei que é preciso fazer a coleta seletiva, mas nunca fiz e nem sei como se faz. O
lixo é a questão mais deixada de lado na minha casa, vai tudo pro lixo, no mesmo saquinho e
vai para o lixo do condomínio e depois para o caminhão do lixo e ninguém sabe o que
acontece. (E11, M, 27 anos)
Em casa o lixo é todo misturado e vai para a sacola direto para a coleta na rua. (E2, M, 30
anos)
Eu sinceramente, não sei o que é feito do lixo. Coleta seletiva lá em casa não faz, (...) o
lixeiro vem e recolhe. Ou seja, assim, isso pode ser que seja depois seletivo, mas não na
minha casa. (E4, M, 20 anos)
“Na visão de muitas pessoas, os resíduos vão para algum lugar etéreo, distante, um
lugar que os olhos não alcançam, um lugar de onde não provêm reclamações, nem se analisam
consequências” (Akatu, 2009, p. 36), ou seja, isso ocorre longe do olhar de todos, conforme
pode ser percebido nas falas a seguir, em que poucos assumem sua corresponsabilidade com o
descarte responsável, além de não fazerem a coleta de forma seletiva dos resíduos que geram.
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Nós não fazemos coleta seletiva. O lixo é colocado na lixeira, depois na lixeira grande por
andar e é coletado pelo condomínio. (E10, M, 26 anos)
O lixo é todo recolhido pelo condomínio; em casa a gente não separa não (...), mas eu
acredito que no condomínio separa. (E2, F, 19 anos)
Coleta seletiva não faço. Mas pilha, vidro, bateria essas coisas eu não jogo no lixo. (E2, M,
55 anos)
A variável (b) Negação dos Problemas Ambientais é uma tentativa de explicar porque
os entrevistados “negam” que os problemas ambientais existam. Indivíduos com orientação de
valores egoístas demonstram resistência ou oposição ativa à proteção ambiental (Snelgar,
2006). Os relatos de entrevistados do Grupo 2 evidenciam estas constatações.
Sei lá, (a natureza deve agüentar) um milhão de anos. Eu não acho que vai ser tão imediato,
neste século ainda não. (...) a gente ouve muitas coisas e não sabe se é real, de onde vêm
estas informações catastróficas. (E3, F, 31 anos)
(...) não acredito que possam estar havendo tantas catástrofes como a mídia aponta. Estas
afirmações não são verdadeiras. (E4, M, 39 anos)
Preocupo-me sim, mas não acho que seja assim tão grave, a gente ouve falar da poluição, do
aquecimento, a gente até já sente um pouco os efeitos, mas a gente vai se acostumando. (...)
isso não afeta a gente diretamente. (E1, F, 49 anos)
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Eu sei que está errado, sei que tenho que mudar, mas se cada um também não fizer a sua
parte, também não adianta. (...) talvez seja por isso que eu não faço, pois sei que sou egoísta,
sei que tem que começar por mim, mas quando penso que vou começar sozinho, desanimo.
(E2, M, 30 anos)
As pessoas sempre acham que tem outras pessoas que vão fazer isso por elas, ou seja,
pensam que isso é coisa para os ambientalistas fazerem. (E9, F, 26 anos)
A gente vê que ninguém faz, não toma uma atitude neste sentido. (E12, F, 27 anos)
As constatações indicam uma tendência mais egoísta do que altruísta nas atitudes e a
acomodação e apatia dos respondentes são ressaltadas pela seguinte assertiva “um espera do
outro e ninguém faz nada” (E11, M, 27 anos).
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
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