0% acharam este documento útil (0 voto)
325 visualizações12 páginas

Trabalho e Sociabilidade

O documento discute as relações de trabalho e desigualdades sociais no sistema capitalista contemporâneo, analisando como as mudanças no mundo do trabalho afetam negativamente os trabalhadores, especialmente os mais velhos e jovens.

Enviado por

Poliana Teles
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
325 visualizações12 páginas

Trabalho e Sociabilidade

O documento discute as relações de trabalho e desigualdades sociais no sistema capitalista contemporâneo, analisando como as mudanças no mundo do trabalho afetam negativamente os trabalhadores, especialmente os mais velhos e jovens.

Enviado por

Poliana Teles
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

TRABALHO E

SOCIABILIDADE

Anderson Barbosa Scheifler


Trabalho e relações sociais na
sociedade contemporânea
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Identificar as relações contraditórias de trabalho na sociedade


contemporânea.
 Analisar a dinâmica das relações sociais de trabalho e as suas conse-
quências na qualidade de vida e saúde do trabalhador.
 Refletir sobre as relações estabelecidas no modelo capitalista: relações
de poder, desigualdades e a retração do Estado frente a direitos e
políticas sociais.

Introdução
Conhecer o contexto socioeconômico no qual estamos inseridos é con-
dição essencial para a sua análise e para o estabelecimento de estratégias
de superação das condições de vida e sobrevivência por ele impostas.
Por isso, neste capítulo, você vai estudar alguns conceitos básicos que
remetem às condições de trabalho existentes na contemporaneidade e às
consequências do sistema neoliberal na vida do trabalhador. Você também
vai analisar como as relações de poder, próprias do sistema capitalista,
ampliam as desigualdades sociais e de que forma os profissionais de
Serviço Social são impactados pelo movimento de retração do Estado
em relação à garantia de direitos e políticas sociais.

As relações de trabalho e desigualdades socias


no sistema capitalista
Para que possamos compreender melhor as relações de trabalho na socie-
dade contemporânea, faz-se necessário caracterizar a forma de ser da classe
trabalhadora nos tempos atuais. Antunes (2000) denomina esta como sendo

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 73 03/09/2018 [Link]


74 Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea

a classe que vive do trabalho. Essa expressão tem por finalidade dar con-
temporaneidade a todos os seres sociais que efetivamente formam a classe
trabalhadora de uma determinada sociedade.
Atualmente, a classe trabalhadora engloba a totalidade dos indivíduos
que vendem a sua força de trabalho. No entanto, segundo Antunes (2000),
essa força não se restringe ao trabalho manual direto, mas engloba também
outras formas de trabalho produtivo que tenham como finalidade a reprodução
da mais-valia, não sendo, necessariamente, relacionadas com o conceito de
trabalho manual na sua forma tradicional. A classe trabalhadora na contem-
poraneidade abrange também os trabalhadores que prestam serviços tanto
para o setor público quanto para a iniciativa privada. Nesses casos, segundo
Marx, o trabalho desses indivíduos é consumido como valor de uso, não
como elemento criador de valor de troca. São exemplos de prestadores de
serviços: os funcionários do setor bancário, do comércio, do turismo, de
serviços públicos e, até mesmo, os trabalhadores das fábricas que atuam
em funções indiretas àquelas responsáveis pela criação do valor de um
determinado produto.
Considerando a ideia de classe trabalhadora na contemporaneidade, faz-se
necessário incluir todos os indivíduos que vendem a sua força de trabalho em
troca de um determinado salário, desde o tradicional proletariado industrial,
passando pelos prestadores de serviço, até o proletariado rural. Todos vendem
a sua força de trabalho para o capital. Segundo Antunes (2000, p. 103):

Essa noção incorpora o proletariado precarizado, o subprecarizado moderno,


part time, o novo proletariado do Mc Donald’s, os trabalhadores hifenizados
de que falou Beynon, os trabalhadores terceirizados e precarizados das em-
presas liofilizadas de que falou Juan Castillo, os trabalhadores assalariados
da chamada economia informal, que muitas vezes são indiretamente su-
bordinados ao capital, além dos trabalhadores desempregados, expulsos do
processo produtivo e do mercado de trabalho pela reestruturação do capital
e que hipertrofiam o exército industrial de reserva, na fase de expansão do
desemprego estrutural.

Ainda conforme Antunes (2000), não fazem parte da classe trabalhadora os


gestores do capital (funcionários ocupantes de altos cargos, detentores do papel
de controle e com elevada remuneração), os que vivem da especulação e dos
juros e, também, os pequenos empresários, a pequena burguesia urbana e rural.

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 74 03/09/2018 [Link]


Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea 75

Relações sociais no trabalho e as suas


consequências na vida do trabalhador
Sobre outras tendências que vêm caracterizando o mundo do trabalho na
contemporaneidade, cabe destacar o crescimento do número de assalariados
médios e de serviços ocorrido nas últimas décadas. Esse aumento é oriundo
da expansão do processo de reestruturação produtiva e, em especial, da
desindustrialização crescente ocorrida em países como Estados Unidos,
França e Alemanha. Mudanças organizacionais, de gestão e tecnológicas
também vêm afetando de forma efetiva o setor de serviços, que cada vez
mais se submete aos trâmites do capital em vista da acumulação de rique-
zas. A informatização dos serviços bancários, a privatização dos serviços
públicos e a terceirização irrestrita são expressões dessa nova estruturação
do trabalho na sociedade e têm contribuído para o aumento dos índices
de desemprego.
Conforme leciona Antunes (2000), nos países centrais e naqueles países
em processo de industrialização, ocorre um fenômeno de exclusão de de-
terminadas camadas populacionais, como os jovens e aqueles considerados
velhos pelas empresas. Dessa forma, alguns jovens, sem perspectivas, acabam
por ingressar em movimentos neonazistas, diante de uma sociedade marcada
pelo desemprego estrutural, conforme sugere Antunes. Os considerados
velhos, acima de 40 anos, quando excluídos do mercado formal, dificilmente
obtêm o reingresso neste; como forma de subsistência, ingressam no mer-
cado informal e ampliam ainda mais o exército industrial de reserva. Esse
cenário é também um fator que se relaciona com o processo de expansão
dos movimentos religiosos, segundo o autor. A religião oferece abrigo e
conforto para o trabalhador que não consegue mais se inserir nos ambientes
tradicionais de trabalho.
Ainda na visão de Antunes (2000), o mundo do trabalho na moderni-
dade é hostil a esses indivíduos. Em muitos casos, esses trabalhadores de
mais idade são oriundos de uma cultura fordista de trabalho, que tem
por característica a especialização do trabalhador em determinada função.
Porém, essa cultura já foi em grande parte ultrapassada ou é insuficiente
para suprir as demandas do mercado, que busca um trabalhador multifun-
cional, adaptado às necessidades do modo de produção toyotista, conforme
leciona Antunes (2000).

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 75 03/09/2018 [Link]


76 Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea

O fordismo é um sistema de organização do trabalho que foi desenvolvido pelo


norte-americano Henry Ford em 1908, sendo uma evolução do taylorismo, defendido
por Frederick Taylor. No fordismo, o mecanismo de produção e a organização da
gerência, característicos do sistema anterior, foram mantidos, mas foi adicionada a
esteira rolante, ditando um novo ritmo de trabalho. Essa filosofia de fabricação tinha
como base a produção industrial em massa e visava alcançar uma maior produtividade,
padronizando a produção e dividindo o trabalho em tarefas menores, sendo cada
funcionário responsável por uma etapa. A utilização das esteiras rolantes — um dos
pontos mais marcantes do fordismo — acarretava a minimização dos custos e o
aumento da produtividade; assim, os preços diminuíam. Porém, esse método acabava
por desqualificar os funcionários. Apesar disso, no fordismo, houve uma limitação da
carga horária dos funcionários para 8 horas diárias e o pagamento de melhores salários.
São características de produção no fordismo:
 a padronização dos produtos;
 a produção em grande escala;
 o uso de linhas de montagem; e
 a divisão do trabalho em pequenas tarefas.
Já o toyotismo é um sistema de organização do trabalho desenvolvido em 1962
pelo japonês Taiichi Ohno, que segue dois princípios:
 o princípio just in time (JIT), que consiste em minimizar estoques, produzindo de
acordo com a demanda;
 o princípio dos cinco zeros — zero de atraso, zero defeitos, zero de estoque, zero
panes e zero papéis.
O trabalho em equipe é um fator importante no toyotismo: os grupos organizam e
controlam seu próprio trabalho, assumindo uma organização de trabalho horizontal,
com o objetivo de obter o melhor acabamento dos produtos. Dessa forma, o toyotismo
é visto como um modelo ideal em termos de produtividade. No entanto, a sua imple-
mentação é difícil, e as empresas que tentaram aplicar falharam. São características
de produção no toyotismo:
 a produção diversificada;
 a eliminação de desperdícios;
 a autonomia;
 os trabalhadores com múltiplas tarefas.
Fonte: Taylorismo... (2018).

As relações estabelecidas no modelo capitalista


Podemos perceber uma crescente expansão do mercado de trabalho no
terceiro setor, em especial nos países capitalistas avançados e emergentes. A
atuação em empresas com características mais comunitárias tem se constituído

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 76 03/09/2018 [Link]


Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea 77

como uma forma alternativa de trabalho, sob o espectro do trabalho volun-


tário nas mais diversas áreas, principalmente naquelas com viés assistencial,
teoricamente sem fins lucrativos. Assinalamos o “teoricamente” em vista
das inúmeras experiências em que ocorre o indevido uso da classificação de
empresas como terceiro setor para a obtenção de determinados benefícios
fiscais e facilitações burocráticas. Outro fator responsável pela expansão
desse segmento diz respeito ao processo de retração do trabalho industrial e
do setor de serviços, em consequência do aumento do desemprego estrutural
e da lógica de reestruturação produtiva, que vêm ampliando a substituição do
chamado trabalho vivo pelo trabalho morto.
Há de se ressaltar que as atividades que se relacionam com a economia
solidária e o terceiro setor se materializam como um mecanismo de incorpo-
ração desses indivíduos no mercado de trabalho. Esses indivíduos, no entanto,
são produto de um sistema social de exclusão, isto é, um sistema que não
possui preocupação pública ou social com a população carente. Antunes (2000)
explica que, após a extinção do Welfare State (Estado de Bem-Estar Social)
no escasso número de países em que ele existiu, os segmentos de trabalho
relacionados ao terceiro setor passaram a preencher algumas lacunas ocasio-
nadas pelo processo de crise do capital. No entanto, é importante destacar que
não se pode atribuir a esses segmentos a missão de, expandindo-se, ocasionar
alguma alteração substancial no sistema global. O terceiro setor pode, até certo
ponto, ser considerado como um mecanismo minimizador das consequências
ocasionadas pelo crescente desemprego estrutural da sociedade contempo-
rânea. Porém, mais a fundo, em uma análise mais efetiva de alternativas de
transformação social, esses segmentos da economia solidária acabam por
atuar como mecanismos palatáveis, parciais e, de certa forma, assimiláveis
pelo capital. Em suma, acabam por ser instrumentos trabalhando em favor
da ordem social vigente, evitando quaisquer formas de transformação social
e de eliminação do capital.
Outro fator de destaque para a análise das relações do trabalho e as suas
transformações na sociedade contemporânea diz respeito ao processo de
transnacionalização do capital e, consequentemente, do mundo do trabalho.
O capitalismo atual, em sua configuração local, regional e nacional, se expande
em uma cadeia produtiva cada vez mais internacionalizada. Antunes (2000,
p. 115) relata:

Assim como o capital é um sistema global, o mundo do trabalho e seus desafios


são também cada vez mais transnacionais, embora a internacionalização da
cadeia produtiva não tenha, até o presente, gerado uma resposta internacional

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 77 03/09/2018 [Link]


78 Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea

por parte da classe trabalhadora, que ainda se mantém predominantemente


em sua estrutura nacional, o que é um limite enorme para a ação dos trabalha-
dores. Com a reconfiguração, tanto do espaço quanto do tempo de produção,
dada pelo sistema global de capital, há um processo de reterritorialização e
também de desterritorialização. Novas regiões industriais emergem e muitas
desaparecem, além de cada vez mais as fábricas serem mundializadas, como
a indústria automotiva, onde os carros mundiais praticamente substituem o
carro nacional.

Dessa forma, a luta de classes se dá em um cenário cada vez mais interna-


cionalizado. Se uma determinada indústria que possui fábricas em diversos
países, todas interligados em uma cadeia de produção de um certo produto,
interrompe a produção em uma de suas unidades por motivo de greve ou outro,
as demais fábricas têm seus processos de produção imediatamente afetados.
Assim como as empresas se utilizam de mecanismos globalizados para am-
pliarem a reprodução do capital, os trabalhadores também devem configurar
sua organização de forma internacionalizada. No entanto, o que se percebe
é a superioridade da mobilização da classe do capital, muito à frente da ação
organizada dos trabalhadores.
Barroco (2006) leciona que, para Marx, o trabalho é tido como o fundamento
ontológico-social do ser social, sendo este o elemento que permite distinguir
o ser humano em face de outros seres da natureza. O trabalho não é obra de
um indivíduo, mas de um conjunto de ações cooperadas entre homens com
objetivos sociais em comum, respondendo a necessidades sócio-históricas
e produzindo a interação humana e a cultura das sociedades. O trabalho,
portanto, implica em sentimentos de universalidade e sociabilidade entre os
homens e em um processo de interação com a natureza para a obtenção dos
objetos necessários ao seu desenvolvimento. Para transformar a natureza, o
homem atua com determinado nível de conhecimento para apurar as formas
necessárias para executar essa intervenção, obtendo desta o produto, que se
torna um valor da atividade humana.
Iamamoto (2000) constata uma variação das diversas formas de trabalho,
que agora interagem entre si, dentre as quais cita as formas de trabalho as-
salariado, autônomo, doméstico, clandestino e as mais variadas expressões
precarizadas, que se manifestam em consequência da onda neoliberal que
ameaça as conquistas trabalhistas das últimas décadas. Com o avanço do
capital financeiro como problema central no mundo contemporâneo, crescem
os níveis de desemprego e inflam-se os contingentes de trabalhadores que
não conseguem acessar ou retornar ao mercado de trabalho. A redução dos
níveis de emprego, aliada ao processo de desresponsabilização do Estado,

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 78 03/09/2018 [Link]


Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea 79

ocasionam um aumento dos níveis de pobreza e miséria, acarretando o com-


prometimento dos direitos mais básicos de sustentação da vida humana. A
população, possuidora apenas da sua força de trabalho enquanto possibilidade
de subsistência, é dependente do mercado de trabalho, que, por sua vez, é
controlado pelos detentores da propriedade e do capital.
Ocorre, nesse momento, o estímulo à figura do trabalhador polivalente,
capacitado para realizar múltiplas funções no mesmo período em que outros
não o fazem, pela menor remuneração possível. Isso causa um sentimento de
estranhamento do trabalhador ao próprio trabalho que executa, não permitindo
a especialização desse indivíduo, capacitando um grande contingente para a
execução das mais diversas funções e resultando em uma elevada rotatividade
desses profissionais. O trabalhador produz para si tão somente o próprio salário,
como argumenta Iamamoto (2000). A mesma autora cita as seguintes palavras
de Marx (1974, apud IAMAMOTO, 2000, p. 90):

A indiferença em relação ao gênero de trabalho determinado pressupõe uma


totalidade muito desenvolvida de gêneros e de trabalhos efetivos, nenhum
dos quais, domina os demais. Tampouco se produzem abstrações mais gerais
senão onde existe o desenvolvimento concreto mais rico, onde aparece como
comum a muitos, comum a todos. Então já não pode ser pensado somente sob
uma forma particular. Por outro lado, essa abstração do trabalho em geral
não é apenas o resultado intelectual de uma totalidade concreta de trabalhos.
A indiferença em relação ao trabalho determinado corresponde a uma for-
ma de sociedade na qual os indivíduos podem passar com facilidade de um
trabalho a outro, e no qual o gênero de trabalho é fortuito, e portanto lhes é
indiferente. Neste caso o trabalho se converteu não só como categoria, mas
na efetividade em um meio de produzir riqueza em geral, deixando, como
determinação de se confundir com o indivíduo na sua particularidade. Esse
estado de coisas que se encontra mais desenvolvido na forma de existência
mais moderna da sociedade burguesa — nos Estados Unidos. Aí, pois, a
abstração da categoria “trabalho”, “trabalho em geral”, trabalho sans phrase
(sem rodeios) ponto de partida da economia moderna, torna-se pela primeira
vez praticamente verdadeira.

Em meio a esse processo de abstração do trabalho, acentua-se o mo-


vimento de retração do Estado diante das suas funções de garantia de
direitos e políticas sociais. Essas atribuições passam, cada vez mais, a
ser transferidas para a sociedade civil, que, por meio de organizações de
sociedade civil, não governamentais e outras, passa a atuar na formula-
ção, na execução e na avaliação de projetos nas mais diversas áreas de
interesse social. Essa terceirização do papel do Estado tem por objetivo,
dentre outros, reduzir o investimento público em mão de obra funcional.

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 79 03/09/2018 [Link]


80 Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea

A contratação dessas organizações, ou a cedência do campo de atuação do


Estado para estas, deflagra um processo de precarização do trabalho para
esses profissionais, visto que acabam sendo submetidos, muitas vezes, a
contratos temporários que restringem os seus direitos sociais e trabalhistas.
Os assistentes sociais são um exemplo desse cenário de precarização do
trabalho em meio a um processo de redução da atuação do Estado, espe-
cificamente no campo social.
Iamamoto (2000) observa a expansão da chamada filantropia empre-
sarial, movimento que no Brasil tomou força a partir dos anos 1990 e criou
a concepção de “empresa cidadã” ou “empresa solidária”. Essas empresas
destinam parte dos seus lucros para investimento em projetos sociais que
consideram de interesse público. Esse investimento visa proporcionar uma
melhoria na imagem dessas instituições, ocasionando um impacto positivo
no mercado junto à sua clientela, além de garantir incentivos fiscais para a
execução dessas ações. No entanto, o espírito social de alguns dirigentes
não pode ser confundido com uma possível generosidade humanitária;
em alguns casos, trata-se de uma estratégia de marketing, tendência em
meio a instituições privadas de médio e grande porte. Conforme Iamamoto
(2000, p. 129),

[...] o “mote” da solidariedade humana, da preservação da natureza para o


desenvolvimento autossustentado, do compromisso com a redução da pobreza
e exclusão passam a ser utilizados como meios de atribuir respeitabilidade
e legitimidade social ao empreendimento, estimulando a elevação de seus
índices de rentabilidade.

É importante ressaltar, porém, que as ações da filantropia empresarial


têm causado um impacto direto no espaço ocupacional dos profissionais
de Serviço Social. Esses profissionais têm sido contratados por essas
empresas para atuarem em programas e projetos diversos relacionados à
gestão de recursos humanos, a programas de saúde e qualidade de vida
do trabalhador, à prevenção e redução de riscos sociais, ao acesso e à
permanência em programas sociais, ao gerenciamento de projetos so-
ciais, entre outros. Os assistentes sociais também são recrutados para
trabalhar em programas de treinamento e reciclagem de pessoal, atuando
no desenvolvimento de programas voltados à saúde, à escolarização, ao

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 80 03/09/2018 [Link]


Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea 81

acompanhamento de pacientes, ao trabalho interdisciplinar, etc., conforme


leciona Iamamoto (2000).
Assim, o atual quadro de desresponsabilização acentuada do Estado gera
a necessidade de reflexão sobre o papel do projeto político-profissional do
Serviço Social, que deve pautar-se na busca pela manutenção e ampliação
dos programas e projetos sociais voltados para o combate das expressões da
questão social. Cabe, ainda, ao profissional assistente social, vigiar e mobilizar
a categoria em busca da ampliação e da preservação dos postos de trabalho,
em contraponto ao processo de desmonte assumido pelos governantes, em
especial aqueles representantes do grande capital, executores do neoliberalismo
que ameaça as poucas conquistas das últimas décadas.

A década de 1990 evidenciou o processo de diminuição da participação do Estado


brasileiro na economia, inspirado pelos governos conservadores da Inglaterra,
com Margaret Thatcher (1979), e dos Estados Unidos, com Ronald Reagan (1980),
que, com a chegada da crise do modelo econômico do pós-guerra, viram avançar
uma longa e profunda recessão, minando as conquistas alcançadas nos trinta anos
gloriosos do capitalismo. A receita para tal crise era, no receituário neoliberal,
manter um Estado forte para fazer frente ao poder dos sindicatos e, ao mesmo
tempo, diminuir os gastos sociais e as intervenções econômicas, em busca da
estabilização monetária.

Acesse o link a seguir e assista a um vídeo sobre a desigualdade de gêneros e a inserção


das mulheres no mercado de trabalho.

[Link]

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 81 03/09/2018 [Link]


82 Trabalho e relações sociais na sociedade contemporânea

ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaios sobre a afirmação e a negação do trabalho.


3. ed. São Paulo: Boitempo, 2000.
BAROCO, M. L. S. Ética e serviço social: fundamentos ontológicos. 4. ed. São Paulo:
Cortez, 2006.
IAMAMOTO, M. V. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profis-
sional. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2000.
TAYLORISMO, fordismo e toyotismo. Diferença, 2018. Disponível em: <[Link]
[Link]/taylorismo-fordismo-e-toyotismo>. Acesso em: 17 ago. 2018.

Leituras recomendadas
BRASIL. Código de Ética do Assistente Social. Lei nº. 8.662/93 de regulamentação da
profissão. Conselho Federal de Serviço Social, 10. ed., Brasília, 2012. Disponível em: <http://
[Link]/arquivos/CEP_CFESS-[Link]>. Acesso em: 17 ago. 2018
BRASIL. Lei Federal nº. 8.742, de 7 de setembro de 1993. Dispõe sobre a organização
da Assistência Social e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 8 dez.
1993. Disponível em: < [Link]
htm>. Acesso em: 17 ago. 2018.
BRASIL. Resolução nº. 130, de 15 de julho de 2005. Norma Operacional Básica NOB/
SUAS: construindo as bases para a implantação do sistema único de assistência social.
Conselho Nacional de Assistência Social, Brasília, jul. 2005. Disponível em: <[Link]
[Link]/sala-de-imprensa/arquivos/[Link]>. Acesso em:
17 ago. 2018.

Trabalho e Sociabilidade_BOOK.indb 82 03/09/2018 [Link]

Você também pode gostar