Infectologia
filis
CID 10 – A51
Relato de caso
“Cancro de Rollet - a reemergência da sífilis e sua associação com outras IST”
Paciente masculino, 25 anos, previamente hígido, atendido no ambulatório de infectologia do HEM, encaminhado
pela equipe de AP, apresentando úlcera em pênis com 10 dias de evolução. Refere relação sexual desprotegida com
mulher três dias antes do sintoma. Ao exame apresentava lesão ulcerada, única em sulco bálano prepucial às nove
horas de 1,5 x 1,0 cm, com borda bem definida e irregular, rasa, fundo granulomatoso e pouca secreção purulenta
contornada por halo eritematoso, com linfadenomegalia inguinal ipsilateral de 1,5 cm em seu maior comprimento, de
consistência elástica, indolor e não aderida. Foram solicitados pesquisa direta de Haemophylus ducreyi pela coloração
de Gram e pesquisa de Treponema pallidum em campo escuro, além de exames sorológicos de rastreio para IST. Em
decorrência do tempo de incubação, pensou-se em cancro mole e herpes genital, sendo realizado o tratamento
empírico com doxiciclina e aciclovir, por sete dias. Foi estabelecida boa relação-médico paciente e agendado
retorno. O paciente retornou, referindo melhora dos sintomas, mas mantendo úlcera única e de fundo limpo. A
bacterioscopia por Gram evidenciou bacilos Gram negativos, sorologia para HIV foi não reatora, VDRL quantitativo de
1:8 e teste treponêmico não reator. Não foram realizados a pesquisa de treponema em campo escuro e sorologia
para hepatite B por indisponibilidade no serviço. O paciente recebeu diagnóstico sindrômico de sífilis primária, sendo
tratado com penicilina G benzatina intramuscular, 2.400.000 UI, dose única, orientado sobre IST, encaminhado para
vacinação de Hepatite B e reforçado que as parcerias sexuais deveriam comparecer à Unidade Básica de Saúde
(UBS).
Ramos et al, 2016.
Definição
“Doença infectocontagiosa, com manifestações
cutâneas e sistêmicas, evolução crônica e
predominantemente sexual. A transmissão congênita
ocorre por via transplacentária ou hematogênica e, com
menos frequência, através de transfusões sanguíneas ou
inoculação acidental. O homem é o único reservatório
conhecido.”
“ A grande imitadora”
Talhari, Sardinha e Cortez ( 2015)
Sífilis — Taxas de Casos Notificados por Estágio de Epidemiologia
Infecção, Estados Unidos, 2010-2019
A doença ocorreu 13,3 vezes mais em
mulheres negras, quando comparadas
a brancas.
Talhari, Sardinha e Cortez ( 2015); Ramos et al, 2016; CDC (2021).
Casos de sífilis e comportamento sexual,
Estados Unidos 2007-2014.
No
. período de 2009 e 2013, houve
aumento dos casos novos da doença
entre hispânicos e brancos, diminuindo
entre os homens negros.
Brasil
Notificação Compulsória
Congênita (portaria nº542, de 22 de dezembro de 1986)
Em gestante (portaria nº 33, de 14 de julho de 2005)
Adquirida (portaria nº 2.472, de 31 de agosto de 2010)
Em 2019, foram notificados no Sinan 152.915 casos de
sífilis adquirida (72,8/100.000 hab; 61.127 em gestantes
(20,8/1.000 nasc. vivos); 24.130 congênita (8,2/1.000 nasc.
vivos); 173 óbitos por sífilis congênita ( mortalidade de
5,9/ 100.000 nasc. Vivos
Talhari, Sardinha e Cortez ( 2015)
Mais frequentes em adultos sexualmente ativos;
Não tem predileção racial ou de gênero;
Associada a fatores socioeconômicos, condições
higiênicas precárias, e principalmente,
comportamento sexual de risco.
Mídia
“ Sou psicanalista, solteiro, tenho 62 anos e vida sexual ativa. Novembro do ano passado
comecei a perceber erupções e manchas estranhas na pele. Procurei um dermatologista. Ele me
receitou um antialérgico. Tomei durante 5 dias, não resolveu. Procurei outro. Saí do consultório
com a receita de uma pomada poderosa. Outra frustação! Preocupado, já começando a ficar
impaciente, parti para o terceiro especialista. Nova receita. Nova medicação. Dessa vez com
cortisona. Tive uma melhora, mas depois de alguns dias as lesões voltaram com força total. Já
estava bem pessimista quando cheguei ao quarto médico. Neste finalmente, antes de mais
nada, pediu um exame de sangue específico. Quando saiu o resultado, quase caí. O diagnóstico
não deixava dúvidas. Eu estava com sífilis.”
News, 2017
Treponema pallidum
Patogênese e Etiologia
Penetra através das mucosas ou
da pele (solução de continuidade)
Via sexual
Transfusão sanguínea
Verticalmente
UFRGS, 2020
Maior transmissibilidade nos
estágios iniciais
Talhari, Sardinha e Cortez ( 2015)
Google imagens, 2021.
Patogênese e Etiologia
“Não existe sinal ou sintoma específico
de sífilis. Portanto, seu diagnóstico deve
ser fundamentado em história e
achados clínicos sugestivos, e
confirmado com exames laboratoriais.”
UFRGS, 2020
Sífilis Primária
Período de Incubação – 10 a 90 dias
Cancro duro – úlcera de característica
endurecida, normalmente indolor, com
bordas regulares e fundo liso, sem
secreção.
Talhari, Sardinha e Cortez ( 2015)
Pode ocorrer no local de entrada do
treponema – geralmente genital
Regressão espontânea em 2 a 6
semanas.
Pode estar acompanhado de
linfonodomegalia.
UFRGS, 2020
Sífilis Secundária
6 semanas a 6m após a cicatrização
do cancro duro.
Lesões de pele não-pruriginosas.
Lesões eritemato-escamosas palmo-
plantares. Máculas, pápulas, placas
e manchas em mucosas.
Sintomas sistêmicos/ constitucionais.
Raros: Uveíte, comprometimento
hepático ou meníngeo.
UFRGS, 2020
Período de Latência e Sífilis Terciária
Não há manifestações clínicas 30% dos pacientes não tratados
Até 1 ano – latente recente 1 a 40 anos após a infecção
Após 1 ano – latente tardia Inflamação e destruição tecidual
25% dos casos não tratados Acometimento cardiovascular
intercalam lesões de
scundarismo com os períodos Acometimento Ósseo
de latência, principalmente no
primeiro ano de infecção.
Acometimento Neurológico
UFRGS, 2020
Diagnóstico Lab.
Exames diretos – Microscopia em campo
escuro e pesquisa direta com material corado
Detecção do treponema em amostra coletada
diretamente da lesão primária ou secundária.
Fonte: Biomedicina Total
Testes imunológicos (treponêmicos e não
treponêmicos)
Pesquisa de anticorpo anti-T. pallidum em
amostra de sangue total, soro ou plasma. A
Fonte: Labtest partir de 10 dias do aparecimento da lesão
primária (cancro duro).
UFRGS, 2020
Diagnóstico Lab.
Testes Não
Testes Treponêmicos
Treponêmicos
Tornam-se positivos em Demora aproximadamente
aproximadamente 1 a 3 4 a 5 semanas após o
semanas após o contágio. contágio para positivar.
Fonte das imagens: Telelab, 2021
- Teste rápido - VDRL
- TPHA ou TTPA - RPR
- FTA-ABs O resultado dos testes é
- ELISA apresentado em títulos
(1:2, 1:4, 1:8, 1:16, 1:32,
1:64, 1:128, 1:256, 1:512,
1:1024, etc.).
UFRGS, 2020
Diagnóstico Lab.
Após o primeiro ano, os títulos vão baixando, podendo ser indetectáveis em indivíduos não
tratados que possuam sífilis latente tardia ou terciária em até 25% dos casos.
UFRGS, 2020
Sífilis Adquirida
Diagnóstico é confirmado com um teste
Tratamento Imediato treponêmico positivo + um teste não
treponêmico positivo. O MS recomenda
iniciar com o TP.
• em gestantes;
• vítimas de violência sexual; - Indivíduo sintomático para sífilis com
• pessoas com chance de perda um teste reagente (treponêmico e/ou
de acompanhamento no serviço; não treponêmico), com qualquer
• pessoas com sinais/sintomas de titulação.
sífilis primária ou secundária;
• pessoas sem diagnóstico prévio - Indivíduo assintomático com um teste
de
• sífilis. treponêmico reagente e um teste não
treponêmico reagente (independente
da titulação) e sem registro de
tratamento prévio.
UFRGS, 2020
Neurossífilis
Suspeitar em pacientes com sintomas O diagnóstico deve ser feito pela combinação
neurológicos, psiquiátricos, otológicos entre a reatividade de teste treponêmico para
ou oculares e que tenham um teste sífilis, aumento de leucócitos e proteínas no líquido
treponêmico reagente. cefalorraquidiano e resultado do VDRL no líquor.
Classificação
Assintomática : precoce e tardia;
Meníngea: meningite sifilítica aguda,
meningovascular, cerebral, espinal;
Parenquimatosa: paralisia geral, tabes
dorsalis, paresia tabética (mista),
atrofia óptica;
PEIXOTO et al, 2019
Gomatosa: cerebral e espinal.
Ressonância magnética cerebral - cortes coronais nas
ponderações T1 (A) e T2 (B) de um doente com neurossífilis. As setas
indicam áreas de enfarte lacunar.
UFRGS, 2020
Sífilis na Gestação
Pode ocasionar abortamento, prematuridade,
natimortalidade e malformações congênitas. Ceftriaxona 1 g, via 25 intramuscular, 1
vez ao dia, por 10 a 14 dias.
Rastreamento: mulheres com intenção de
engravidar. O uso de Doxiciclina é contraindicado
na gestação.
1ª consulta de pré-natal (1º trimestre) e início
do 3º trimestre (28ª semana)
Teste treponêmicos ou não treponêmicos e
testes rápidos.
Tratamento adequado: até 30 dias antes do
parto.
Fonte: souemfermagem.com.br
UFRGS, 2020
Sífilis Congênita
Via transplacentária ou durante o parto.
Pode resultar em parto prematuro, morte
intrauterina, morte neonatal.
Precoce: dois primeiros anos de vida.
Tardia: depois dos dois anos de idade.
Prematuridade e baixo peso ao nascimento
Hepatoesplenomegalia, icterícia
Envolvimento ósseo
UFRGS, 2020
Surdez, por lesão do VIII par craniano
Neurossífilis
Talhari, Sardinha e Cortez ( 2015)
Tratamento
Penicilina G Primária, secundária
benzatina 2,4 milhões UI
e latente recente
Latente tardia,
latente com 2,4 milhões UI. Por 3
duração ignorada e semanas (7,2 milhões
terciária de UI)
Fonte: sicfarma
Alternativo
Intramuscular (IM)
Primária, secundária Doxiciclina 100 mg, VO,
Atenção Primária e latente recente 12/12h, por 15 dias.
UFRGS, 2020
à Saúde (APS)
Latente tardia,
Reação latente com Doxiciclina 100 mg, VO,
anafilática: duração ignorada e 12/12h, por 30 dias.
0,002% terciária
Acompanhamento
VDRL ou RPR
Excluir a recontaminação e/ou
reativação
Solicitados a cada três meses, por 1
ano (3, 6 e 12 meses
Paciente é liberado de novas
coletas após 1 ano de seguimento
após o tratamento. AA redução de duas ou mais diluições do teste
não treponêmico (por exemplo, de 1:32 para
UFRGS, 2020
1:8), em até 6 meses para sífilis recente ou até
12 meses para sífilis tardia, ou a negativação do
Cicatriz sorológica teste não treponêmico demonstra a cura da
infecção.
Resumo
UFRGS, 2020
Referências
Centers for Diseases Control and Prevention. Atlanta: Department of Health &Human Services. [citado em 2021 mai.
21]. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/statistics/2019/overview.htm#Syphilis
NEWS, Globo. Sífilis volta a ser uma epidemia no Brasil, apesar do tratamento rápido. Disponível em:
http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2017/04/sifilis-volta-ser-uma-epidemia-no-brasil-apesar-do-tratamento-
rapido.html. Acesso em: 22 maio 2021.
PEIXOTO, Yan Ker Marrara et al. NEUROSSÍFILIS: UMA REVISÃO DA LITERATURA EVIDENCIANDO A CLÍNICA. In: V
SEMINÁRIO CIENTÍFICO DO UNIFACIG, 5., 2019, Manhuaçu. Artigo de Revisão. Manhuaçu: Unifacig, 2019. p. 1-6.
RAMOS, Lucinéia Maria de Queiroz Carvalhais et al. Cancro de Rollet – a reemergência da sífilis e sua associação com
outras IST. Rev Med Minas Gerais, Minas Gerais, v. 26, n. 6, p. 145-148, jan. 2016.
SAÚDE, Secretaria de Vigilância em Saúde - Ministério da. Boletim Epidemiológico: Sífilis. Brasil: Secretaria de Vigilância
em Saúde, 2020. Edição especial.
TALHARI, Sinésio; SARDINHA, José Carlos Gomes; CORTEZ, Carolina Chrusciak Talhari. Sífilis. In: FOCACCIA, Roberto
(ed.). Tratado de Infectologia. 5. ed. São Paulo: Atheneu, 2015. Cap. 75. p. 1543-1550.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL. Faculdade de Medicina. Programa de PósGraduação em
Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). TeleCondutas: Sífilis: versão digital 2020. Porto Alegre:
TelessaúdeRS-UFRGS, 10 mar. 2020 [atual. 15 dez. 2020]. Disponível em:
https://www.ufrgs.br/telessauders/teleconsultoria/0800-644-6543/#telecondutas-0800. Acesso em: 21 de maio de 2021.