Sobre Arnaldo Antunes
Sobre Arnaldo Antunes
NATAL – RN
2010
JORGE NORMANDO DOS SANTOS FILGUEIRA
Área de concentração:
Literatura Comparada.
Orientador:
Prof. Dr. Márcio Venício Barbosa
NATAL- RN
2010
FOLHA DE APROVAÇÃO
Resultado: Aprovado
BANCA EXAMINADORA
152 f. : il.-
aos meus pais, José Filgueira Filho e Francisca dos Santos Filgueira, por todo empenho,
aos meus irmãos, Péricles e Franklin por sempre estarem presentes na minha vida, mantendo
vivo em mim a noção de família, muito importante para a minha formação como pessoa;
à Isabelle, por todo o incentivo, apoio, amor e carinho que me ajudou não só a realizar este
e ao meu pequeno sobrinho Leon, simplesmente por existir e por ter escolhido, sabiamente,
Ao Prof. Dr. Andrey Pereira de Oliveira pela leitura e relevantes sugestões feitas por
Ao Prof. Dr. Luciano Justino Barbosa, por ter aceitado participar da minha banca de
A todos os meus amigos, sem exceção, especialmente aos que estiveram ao meu lado
À Prof ª. Drª. Ilza Matias de Sousa, pela valiosa ajuda acadêmica e pela quase
orientação desta dissertação, que mudou de rumo por desígnios do destino no momento da
entrevista.
Ao Prof. Dr. Márcio Venício Barbosa, por ter surgido inesperadamente no meu
percurso acadêmico e mesmo assim ter acreditado no meu potencial. Suas orientações me
proporcionaram uma abertura em meus horizontes como pesquisador. Sempre preciso em suas
Esta dissertação pretende analisar um corpus contendo seis textos híbridos, os quais
denominamos poema-canção/poema-cantado devido a dupla presença em dois sistemas
semióticos diferentes. Um deles, a literatura ou, mais especificamente, a poesia, tem como
suporte o livro As coisas, de Arnaldo Antunes, e o outro, a canção, está nos discos de carreira
do mesmo autor. Nosso trabalho lança um olhar sobre esse corpus, tentando observar um
aspecto recorrente tanto no nosso recorte escolhido, quanto no livro e quiçá na obra literária e
musical de Arnaldo Antunes, que é a presença da primeiridade, categoria teórica
desenvolvida por Charles Sanders Peirce. Além da observação desse aspecto semiótico,
faremos uma discussão sobre a canção popular, suas raízes e sua relação com a poesia e, por
consequência, com a Literatura. A teoria semiótica será ancorada em duas frentes: no que diz
respeito ao estudo da primeiridade, trabalharemos com as teorias do próprio Peirce, mas
buscando apoio em teóricos como Lúcia Santaella, Winfried Nöth, Júlio Plaza e Décio
Pignatari; pelo outro caminho, quando partirmos para a análise das canções, utilizaremos a
teoria de Luiz Tatit, que foi baseada na semiótica de Algirdas Julien Greimas. Tatit traça um
método de análise, por meio do qual é possível analisar uma canção explorando os recursos
tanto do texto quanto da melodia, possibilitando uma compreensão maior para os estudos dos
poemas-canções e suas variações. Como suporte para a discussão sobre música utilizaremos
como auxílio as teorias de José Miguel Wisnik, Claude Lévi-Strauss, Roland Barthes e Jean
Fisette.
Ce travail a pour but d’analyser un corpus de six textes hybrides, que nous classons
comme des poèmes-chansons/ poèmes-chantés à cause de leur double présence dans deux
systèmes sémiotiques différents. Le premier, la littérature, ou plus spécifiquement la poésie, a
comme support le livre As Coisas [Les Choses], d’Arnaldo Antunes et l’autre, la chanson, est
enregistré dans les disques du même auteur. Notre travail lance un regard sur ce corpus, en
essayant de vérifier un aspect recourrent dans l’oeuvre d’Arnaldo Antunes qui est la présence
da priméité, catégorie theórique développée par Charles Sanders Peirce. Au-delà de
l’observation de cet aspect sémiothique, nous ferons une discussion sur la chanson populaire,
et ses rapports avec la poésie et par conséquent avec la Litterature. La théorie sémiothique
s’appuyera sur deux piliers : En ce qui concerne l’étude de la priméité, nous travaillerons avec
les théories de Peirce, mais en nous servant aussi des ouvrages de Lúcia Santaella, Winfried
Nöth, Júlio Plaza et Décio Pignatari ; Dans l’autre voie, pour ce qui concerne l’analyse des
chansons, nous utiliserons la théorie de Luiz Tatit, fondée sur la sémiothique de Algirdas
Julien Greimas. Tatit trace une méthode d’analyse, où il est possible d’analyser une chanson
en exploitant et le texte et la mélodie, ce qui permet une meilleure compréhension de l’étude
des poèmes-chansons et ses variations. Comme support pour la discussion sur la musique,
nous nous servirons des théories de José Miguel Wisnik, Claude Lévi-Strauss, Roland Barthes
et Jean Fisette.
DIAGRAMA 10 – O CAMPO................................................................................................116
INTRODUÇÃO......................................................................................................................11
CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................................145
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS..................................................................................148
ANEXOS................................................................................................................................151
11
INTRODUÇÃO
No presente trabalho pretendemos propor uma discussão sobre a presença de uma das
Arnaldo Antunes. Nosso estudo consiste em analisar, a partir de um corpus retirado do livro
a música.
A poesia faz parte do tema por ser um livro de poemas o ponto de partida do nosso
trabalho. No caso da música, a sua inserção no corpus escolhido ocorre pela existência de seis
canções que também são parte do livro As coisas, na forma de poemas, nos levando para uma
Essa relação entre poesia e música é mais antiga que a escrita. Nos séculos X, XI e
XII, as manifestações poéticas estavam sempre ligadas à oralidade. Pode-se dizer que a forma
de se fazer poesia é anterior à escrita, pois os poemas, assim como as narrativas, eram
transmitidos pela tradição oral, conforme o estudo desenvolvido por Walter Benjamin no
texto O Narrador (1985). Junto a essa oralidade na transmissão da poesia, estava a música
palavra, que só aparecia para figurar nas partituras e dar os créditos aos seus criadores.
Quando música e poesia se encontram novamente, com o passar dos tempos, temos o
que conhecemos por canção, ou seja, a união entre texto e melodia em uma forma
harmoniosa. Segundo Luiz Tatit (2008, p. 41), “o canto sempre foi uma dimensão
nossas revoltas.
interpretação sobre determinada obra, além de adicionar a essa interpretação análises que não
podem deixar de tomar por base o corpo e os estados emocionais do intérprete do canto,
“gerando aquilo que depreendemos como relações de compatibilidade entre melodia e letra”
(TATIT, 2008, p. 41). Essa relação, aqui abordada por Luiz Tatit para definir as relações do
corpo do intérprete com a música, pode também servir para uma conceituação da canção, pois
ela também não deixa de ser uma compatibilidade entre melodia e letra:
Nessa relação dúbia entre o que é poema e o que é canção, conceitos delimitados por
uma fronteira muitas vezes tênue, conforme veremos no capítulo 3, inúmeros são os exemplos
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de hibridismo nos dois sentidos, tanto do poema que ganha uma melodia, quanto da música
que recebe versos. Entre esses exemplos está uma parte da obra de Arnaldo Antunes, que
mescla sua forma de produção entre o musical e o literário. A partir do que foi dito, em quais
caminhos poderemos abordar a sua obra, visto que ele transita por estes dois lugares, poema e
canção, e assume estas duas posições, poeta e compositor? Sob formas distintas não seria algo
difícil de observar, mas como analisar textos que flutuam nesses dois universos? Este é um
dos focos desta pesquisa, analisar essa relação tão distinta e ao mesmo tempo tão híbrida,
adiante.
Por ser algo tão próximo, estudaremos, neste trabalho, o poema e a canção de Arnaldo
Faremos este estudo a partir da proposta de Luiz Tatit, utilizando o texto como ponto de
de observação, porém não nos restringimos somente a ela, pois no livro as coisas além da
tipografia textual há também uma linguagem não verbal desencadeada por um compósito de
desenhos que pertencem a um contexto global junto aos poemas. Analisamos também os
recursos musicais presentes nas canções que fazem parte do nosso recorte, que será
Arnaldo Augusto Nora Antunes Filho nasceu em São Paulo, em 1960. Ingressou na
Faculdade de Letras da USP em 1978, onde seguiria o curso de Linguística, mas o sucesso
obtido junto aos Titãs lhe tomou todo o tempo entre shows, gravações, ensaios, turnês e
entrevistas. Após dez anos integrando o grupo, desligou-se da banda por causa de seu
redirecionamento artístico e passou a construir uma carreira solo. Atuou como ensaísta na
Folha de São Paulo, onde deixou evidentes seus conhecimentos teóricos que aparecem de
Nome (1993): Primeiro disco da carreira solo o qual faz parte de um projeto maior,
contendo um livro de poemas e um vídeo. Desse modo, cria-se em seu primeiro trabalho um
projeto multimidiático envolvendo três áreas: som, palavra e imagem. Encontram-se no disco
três canções objetos de análise entre tais relações híbridas. São elas: “O campo”, “Cultura” e
Ninguém (1995): Nesse segundo disco, Antunes traz uma variação no repertório que
vai da singeleza da canção “O seu olhar” até o rock pesado na regravação de Lupicínio
Rodrigues em “Judiaria”. Esse disco traz também a transformação em canção feita por
Antunes de um poema de Augusto dos Anjos chamado “Budismo Moderno” (que está
presente no livro Eu, todos os sonetos e outras poesias) em ritmo de bossa nova com
iniciado em Recife-PE, Chico Science. Também nesse disco, temos duas alusões ao tema
Um Som (1998): O quarto disco traz uma parceria com Alice Ruiz na música
“Socorro”, uma canção sobre música chamada “Música para ouvir”, que explica o título do
cd, além das músicas “As árvores” e “O dinheiro”, ambas em parceria com Jorge Ben Jor,
e em sua forma de execução. As músicas possuem uma proximidade maior em seus arranjos e
Antunes começa a utilizar com mais ênfase a sua região vocal mais grave. Em destaque nesse
disco, temos a canção que dá nome ao álbum, em parceria com Marisa Monte e uma
Saiba (2004): Igualmente ao disco anterior, o sexto disco mantém a mesma forma de
linearidade no repertório e as execuções vocais na região grave. “Saiba”, canção que dá nome
ao disco trata sobre as impressões primeiras de uma pessoa, remetendo-nos a uma temática
2006.
Em 2009, ela repetiu a dose com a gravação da música “A massa” presente no disco
anterior de Antunes, Paradeiro, mantendo esse mesmo pensamento de canção com temática
infantil, na continuação do primeiro álbum chamado de Partimpim 2. Saiba ainda traz duas
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canções singelas, uma gravada com sua parceira sempre presente Marisa Monte, “Grão de
Qualquer (2006): Nesse disco Arnaldo Antunes nos revela de vez a sua inclinação
pelos tons graves que vinham aparecendo nos discos passados. Neste, basicamente, todas as
músicas flutuam nessa tessitura vocal. Em destaque neste disco temos a regravação da música
“Acabou chorare”, do grupo Os Novos Baianos, e da canção “As coisas”, musicada por
Gilberto Gil para o disco Tropicália 2 (1993), que faz parte do grupo das seis estudadas por
este trabalho.
compêndio de suas maiores preferências dentre os sete discos anteriores, de suas músicas
junto ao Titãs e das músicas gravadas por outros artistas. Podemos destacar a regravação da
música “Qualquer coisa” de Caetano Veloso, e as participações de Nando Reis, ex-titãs como
Antunes, na música “Não vou me adaptar”, regravação do disco Televisão dos Titãs de 1985;
Branco Melo, ainda integrante dos Titãs, na música “Eu não sou da sua rua”, do disco anterior
musical e estética que relembra bastante os ritmos e instrumentos usados por Roberto Carlos e
sua turma no início da jovem guarda. Luiz Tatit (2008) diz que
O aspecto relevante dessas informações está inserido nesta migração dos grupos de
rock para esse modelo sugestivo, no caso a fórmula musical da jovem guarda. Tatit (2008,
pág. 61) diz que uma das bandas de rock importantes surgidas nesse cenário da década de
oitenta, Os Titãs, grupo no qual Antunes começou sua carreira e se manteve até 1993,
contato com uma gravadora, passando a ser chamar apenas Os Titãs. Antunes faz em seu
disco de 2009 uma incursão no tempo relembrando preceitos que estavam presentes no início
de sua carreira, trazendo de volta esse modelo sugestivo, visto de uma forma diferente na
Iê Iê Iê possui o mesmo clima do disco dos Titãs, Televisão, de 1985, que mistura o
gênero rock ao estilo jovem guarda de fazer música, confirmando a ideia trazida por Luiz
Tatit de que os grupos seguiram um determinado modelo para serem absorvidos pelas FM’S.
Para uma constatação mais realista do que está sendo dito, sugiro a audição em sequência dos
discos Televisão dos Titãs e Iê Iê Iê de Arnaldo Antunes, o que permite observar essa singular
coincidência trazida até nós através de Antunes por causa da rememoração do termo que dá
nome ao álbum.
Esse disco traz as mesmas características dos anteriores no que se diz respeito à
tessitura vocal na região grave, e os temas do repertório são recorrentes aos assuntos sobre
“Vem cá”.
O Corpo (1999): Trilha para o balé do Grupo Corpo. As faixas do disco são divididas
em oito momentos.
Tribalistas (2002): Álbum feito com Marisa Monte e Carlinhos Brown, cujas
temáticas trazem à tona coisas do humano, mas de um ponto de vista otimista na forma de
Pequeno Cidadão (2009): Disco produzido com Edgar Escandurra, Taciana Barros,
Antônio Pinto e seus respectivos filhos, no mesmo ano de produção do seu último trabalho, o
que dá nome ao álbum apareceu para o grande público em uma publicidade automotiva,
interpretada pelas crianças que fizeram parte do vídeo publicitário. Além dessa música,
temos: “Futezinho na escola”, que é um tema que remete à infância de várias gerações, e
“Tchau chupeta”, que aborda esse processo presente na infância de todo mundo que tem seu
tempo de mamar, como diz a canção. O disco não é destinado apenas ao público infantil
propriamente dito, mas a todos que passaram por essa fase, ou seja, o disco é atemporal e sem
classificação etária.
Ou/e (poemas visuais, edição do autor, 1983): Neste primeiro livro de Arnaldo
características dos poemas de Antunes nos demais livros receberão as marcas visuais como
Psia (Expressão, 1986 e Iluminuras, 1991): Neste livro, existe um exercício que leva a
mesclam, ainda sem uma constituição totalmente independente, como aconteceria mais tarde,
reconciliação com cada coisa do mundo versus a relação de cada coisa com o tempo e o
espaço.
As coisas (Iluminuras, 1991): Obra em destaque neste trabalho, temos, aqui, uma
retomada, proveniente do livro anterior, das relações entre as coisas, como signos, e os
Nome (CD/ livro/vídeo, BMG Brasil, 1993, relançado em DVD em 2006): No quinto
livro, a produção da obra Nome, por esta natureza (livro/VHS/CD), possui uma poética de
simultaneidade de sentido, marcada por movimentos entre cores e sons, tragando o todo e
40 Escritos (Iluminuras, 2000): Há uma coleção de textos reunidos neste livro que
Antunes escreveu para revistas e jornais, dentre os quais podemos citar a folha de São Paulo,
Doble Duplo (Zona de Obras/Taugará, 2000): Esta antologia de poemas foi lançada na
Espanha e teve tradução e organização de Iván Larraguibel, com prefácios de David Byrne e
Arto Lindsay.
20
Outro (Fundação Cultural de Curitiba, 2001): Reúne trabalhos visuais da artista Maria
Angela Biscaia sobre um poema conjunto de Arnaldo Antunes e Josely Vianna Baptista.
síntese, a concentração e o gosto pelo lúdico dão o tom de seu discurso. Suas páginas foram
desenhadas por ele como se fossem cartazes, que podem ser lidos em várias direções.
Et Eu Tu (Cosac & Naify, 2003), com fotos de Marcia Xavier, Antologia (ed. Quasi,
Portugal, 2006): Livro e poemas mais verbais, que, agregados às imagens da fotógrafa Marcia
Bienal de Havana. Xavier propôs a Antunes fazerem algo juntos e a partir daí começaram a
trocar e-mails. Ela mandava fotos e ele, a partir delas, fazia os poemas. O objetivo de Xavier,
ao propor esse trabalho ao poeta, era o de explorar a relação entre palavra e imagem.
Como É que Chama o Nome Disso – Antologia (Publifolha, 2006): Esse livro reúne os
melhores poemas, ensaios, letras de música e caligrafias, selecionados pelo próprio Arnaldo
Antunes, acrescidos de um livro inédito de poemas (Nada de DNA) e de uma longa entrevista
(com Arthur Nestrovski, Francisco Bosco e José Miguel Wisnik), além de um ensaio
Antologia (Vila Nova de Famalicão, Portugal: Quasi, 2006): Nesse livro, organizado
por Arnaldo Antunes, exclusivamente para uma edição portuguesa, ele faz uma panorâmica
de seus livros editados no Brasil e inclui vários trabalhos inéditos e até letras de canções.
Frases do Tomé aos três anos (Alegoria, 2006): Antunes selecionou, transcreveu,
ilustrou e diagramou frases de seu filho Tomé, quando este tinha apenas três anos de idade.
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N.D.A (2010): Neste livro, Antunes junta novamente palavra e imagem. Através de
fotos, ele cria novas formas de ver pequenas coisas, retiradas das cidades por onde ele passou
Entre os trabalhos mais recentes sobre Arnaldo Antunes, merece destaque o estudo de
Wittgenstein.
representa uma visada do mundo como que pela abertura de uma objetiva, que não filtra os
objetos, mas os capta em segundos. Somente a foto pronta permite operações como
simbólico da significação, de acordo com a teoria peirciana, não quer, entretanto, apenas fazer
uso desse processo. Quer também questionar esse processo, daí o recurso à simultaneidade
discursiva, e que não é apenas discursiva, mas também intersemiótica, já que opera em
sistemas distintos como a escrita poética e o desenho, sem falar na música, sistema para o
escritura em Arnaldo Antunes (2007), fez um trabalho que se destina ao estudo dos
linguagem poético-musical. O trabalho foi dividido em quatro etapas: análise dos textos de
Antunes com base na noção de devir-criança, concebida por Gilles Deleuze; apresentação
teórica do conceito de suporte, a partir de Roger Chartier, e sua aplicabilidade para a leitura
Antunes; por último, ele trata das questões de autoria e escritura, que, de alguma maneira,
poética de Antunes.
Plana de Souza Lopes, elabora uma reflexão sobre a poética de Arnaldo Antunes, inscrita nos
uma poética contemporânea. A seleção dos poemas discute o contraponto entre a voz e o
silêncio, a simetria das linguagens na busca da outridade, a coisa como material concreto e
fundamentação teórica que orienta este trabalho apoia-se em estudos de autores como
Campos. Entre outras conclusões, apreende-se uma poética constantemente em trânsito; uma
poesia que se apropria da hibridização cultural e das interartes, contribuindo para solidificar
palavra (2009) analisa os caminhos traçados por Arnaldo Antunes no exercício de exploração
canção popular enquanto cristalização dos recursos entoativos da fala, questão que é levantada
à luz dos escritos de Rousseau e Luiz Tatit; chegando a discussão sobre o aproveitamento de
fato de Antônio Fernandes Júnior destacar, pelo conceito deleuzeano, a expressão da infância
em Arnaldo Antunes, que aqui abordaremos pelo prisma da primeiridade de Peirce; de Márcia
Plana de Souza Lopes trabalhar com questões intersemióticas, que também abordaremos aqui
uma economia nas questões pelas quais passaremos obrigatoriamente ao falar da obra de
Antunes, possibilitando um tratamento mais específico e mais aprofundado nas questões que,
1.3 AS COISAS
Nosso trabalho tem como corpus seis poemas musicados presentes no livro As Coisas,
que serviram de base para o estudo da relação semiótica que envolve poema e canção. Esses
poemas figuram também sob a forma de canção em discos de Arnaldo Antunes e de outros
artistas. Analisamos a partir do livro esses seis textos por possuírem esse hibridismo, de ser ao
mesmo tempo poema e canção. É justamente dessa conjunção aparente que surgiram
questões, ao nosso ver, merecedoras de serem investigadas mais atentamente, a saber: que
relação intersemiótica existe entre o poema e a canção de Arnaldo Antunes? O que difere um
sensações do ser humano, em seu primeiro contato com as coisas, a partir do conceito
peirciano de primeiridade. Desse modo, fizemos uma abordagem nos textos híbridos, levando
em consideração os dois tipos de análise: a literária e a musical. Pelo viés da teoria literária,
Tempo da Poesia (2000); e, pelo viés da música, nos aspectos da semiótica desenvolvida por
Luiz Tatit, com seu método de análise musical presentes em O Cancionista: Composição de
canções no Brasil (2002), Musicando a semiótica: ensaios (1997), Análise semiótica Através
das Letras (2001), Três Canções de Jobim (2004), O Século da Canção (2008). A esses
autores juntar-se-ão outros, de acordo com o diálogo que pretendemos estabelecer entre as
primeiridade. Desse modo, ao levantarmos elementos sobre um campo ainda pouco explorado
conteúdos e as características nele presentes. Para alcançar esse objetivo, foi necessário
discutir outras questões que lhe servem de base, como a possível intersecção entre poema e
canção e sua relação com a literatura; as relações semióticas presentes nas ilustrações e na
música, em Arnaldo Antunes, bem como na tríade desenho/ poema/ música; o movimento
criativo que existe na poesia que recebe música e na música que recebe letra; os
procedimentos referentes a poetas que fazem músicas a partir de seus próprios poemas.
Arnaldo Antunes nos traz uma indagação sobre um universo do mundo concreto, ou
incompreendido, em As Coisas (1991), seu quarto livro, ganhador do Prêmio Jabuti de poesia
em 1992. O livro é uma coleção de textos de Arnaldo Antunes e desenhos de Rosa Moreau
Antunes, sua filha, que, em comum, trazem uma mistura semiótica entre a visão
um elemento em nossa análise: aos resultados criativos configurados como poema e canção
vêm juntar-se os desenhos, que, mais que meras ilustrações que remetem a um universo
infantil, são traduções intersemióticas construídas a partir de um ponto de vista infantil, que se
alinharia à abordagem das coisas pelo prisma da primeiridade. Estamos, então, diante de três
livro Tradução Intersemiótica (1987); sobre a questão do desenho de Rosa Antunes com
Lúcia Santaella e Winfried Nöth, no livro Imagem (2008), e Martine Joly, no livro Introdução
Antunes trabalha o conceito de “coisa” através de uma visão particular. Um olhar que
é questionador, mas que, ao mesmo tempo, tenta se aproximar da ingenuidade de uma criança
quando se depara pela primeira vez com algo novo e desconhecido. Segundo Leyla Perrone-
Móises (1988, p. 345), “o trabalho do poeta não consiste em reproduzir o que o seu olhar
captou no real, mas em produzir uma visão mais intensa”. Antunes lançou o seu olhar (de
adulto) sobre o mundo, para, no livro (teoricamente infantil), criar uma unidade poética e
ressaltar temáticas bem reflexivas no que concerne a algumas questões relacionadas aos
subsequentes.
27
particularidades que há entre canções que são produto do trabalho de mais de um artista,
compositor e poeta, não importando se primeiro veio a música ou a letra, e canções que são
produto de um único artista, que é, ao mesmo tempo, compositor e poeta, como Arnaldo
Antunes. Analisamos este projeto musical e literário da obra de Arnaldo Antunes a partir do
explanados por nós nos métodos utilizados durante o processo de feitura dissertativa. Vimos
que as relações híbridas estão mais presentes em nosso cotidiano do que podíamos imaginar.
referentes à fusão entre os poemas e as canções que ainda não existiam nos meios acadêmicos
(sobre o que denominamos por poema-canção, poema-cantado e canção-letrada) era algo que
CAPÍTULO I
proveniente do elo existente entre poesia e música, bem como do diálogo de ambas com a
Assim sendo, podemos dizer que poesia e música são coisas que estão ligadas por um
fio muito próximo. Como já foi mencionado na introdução, houve entre elas uma cisão,
durante a época do Renascimento (MÓISES, 2000, pág. 282), mas trataremos sobre essa
relação voltando para um lugar anterior a essa cisão, onde o discurso poético e a música
ocupavam o mesmo lugar, em um campo de discussão teórica. Mas como podemos explicar
No decorrer dos séculos, a Literatura dialogou com diversas áreas, dentre elas as
outras artes, de forma bastante próxima. Nesse diálogo há uma espécie de revezamento das
linguagens utilizadas para a produção artística: ora os artistas bebiam da fonte da Literatura,
relação à Literatura, no que diz respeito à ideia de Platão sobre a imitação ou mimese:
belas-artes, criando uma fissura no meio da intersecção, decorrente dessa tentativa de mimese:
de conhecimentos ao longo dos séculos, das diversas atividades e formas sociais existentes,
sejam elas artísticas, políticas ou religiosas. A Literatura, através de seus veículos, dos quais
faz parte a poesia, tenta representar ou até mesmo reproduzir de forma similar os
poeta vê o mundo se volta para si mesmo, ou seja, ele procura externar as sensações que vêm
adiante através da oralidade. As poesias não eram apenas recitadas, elas eram entoadas por
um canto, junto a um instrumento musical que sempre as acompanhavam. No século XII, foi
com os trovadores que se promoveu “uma aliança medular entre a letra do poema e o som”,
(MÓISES, 2000, p. 282). As produções dos trovadores portugueses, por exemplo, feitas em
31
Luís Vaz de Camões um dos primeiros representantes da poesia feita no papel, originando a
Arcadismo. Vitor Manuel Aguiar e Silva, nos explica melhor o que ocorreu com essa
periodização literária, nos transmitindo seu ponto de vista sobre o processo citado:
De feito, o largo espaço de três séculos que se estende desde o Renascimento até ao
romantismo era apresentado nos manuais de história da literatura de há meio século
– e noutros posteriores que repetem o mesmo esquema – como uma época
“clássica”, embora admitindo modulações várias neste bloco. A determinação de um
estilo e de um período barrocos nas diversas literaturas europeias, sucedendo-se ao
Renascimento e distinguindo-se claramente deste, veio romper de vez a pretensa
homogeneidade relativa daquela época “clássica”, e este fato, bem como a
reformulação do conceito de classicismo e a introdução de novas unidades
periodológicas – o maneirismo, o rococó e o pré-romantismo – permitiram traçar
com mais exatidão a história dos estilos e dos períodos literários desde o século XVI
até ao século XIX (AGUIAR E SILVA, 1996, p. 438).
O que fica desse fragmento do crítico português Aguiar e Silva é que, apesar da
poesia, que apesar dos recursos tecnológicos que surgiram no meio do século passado,
continuou presente, ocupando um lugar conquistado durante o passar dos séculos. Para que
1
O termo canzone é utilizado por Massaud Móises, que toma como referência o lirismo trovadoresco, de maior
difusão na península Ibérica, Inglaterra, Itália e no norte da França. Para ele, canzone é uma canção provençal
adaptada ao clima literário da Itália, servindo como matriz para a canção erudita que seria produzida no futuro.
32
possamos entender melhor os efeitos da cisão entre poesia e música, vejamos como a música
pois diferentemente da Literatura, a música não tinha referentes no que se dizia respeito a uma
história da Música antiga. Em poesia, os poetas podiam beber da fonte dos textos da
antiguidade clássica,
mas, em música, o termo “classicismo” deve querer significar algo muito diferente
do seu emprego em literatura, pela simples razão de que, à exceção de alguns
fragmentos, não se conhecia a verdadeira música antiga,que, portanto, não podia dar
forma à evolução da música, ao passo que a literatura foi realmente enformada pelos
preceitos e pelas práticas da antiguidade clássica (WELLEK e WARREN, 1965, p.
157).
Mesmo não tendo uma referência sobre as bases fundadoras do que realmente era a
música antiga, a música teve, na formação do seu sistema tonal, um guia para a estruturação
do funcionamento e para a sua formação enquanto arte durante os séculos passados até chegar
ao atual. José Miguel Wisnik (1989) define de forma bastante clara como se deu a transição
do sistema modal, utilizado durante a Idade Média, para o sistema tonal, que passou a ser
Como já foi dito, essa modalidade criativa suscita diversas interpretações e o seu processo de
feitura também gera discussões. A partir disso, discute-se sobre as diferenças e semelhanças
que há entre um poeta e um compositor. É muito comum vermos casos de músicas que foram
feitas, de certa maneira, com o intuito de se enquadrar na métrica da poesia e poemas que,
apesar de não terem sido feitos para serem cantados serem dotados de uma musicalidade
Têm-se escrito poemas, é claro, de propósito para serem musicados, por exemplo
muitas árias isabelinas e todos os libretos das óperas. Em casos raros, poeta e
compositor foram uma e única pessoa: mas parece difícil provar que a composição
da música e dos versos tenha alguma vez sido um processo simultâneo. Até Wagner,
por vezes, escrevia os seus “dramas” anos antes de serem postos em música; e não se
ignora que muitos versos têm sido escritos para adaptar as melodias já existentes
(WELLEK e WARREN, 1965, p. 156).
meio da canção, reaproximando os poetas dos compositores de música, produzindo o que era
muito raro no século do compositor Wagner: poeta e compositor encarnarem a mesma pessoa.
relação aos assuntos relacionados aos poetas e compositores, podemos situar essa nova
2
Canção é todo tema melódico que se associa a uma letra, tendo sua execução feita pela voz humana e por
instrumentos musicais.
34
diversos recursos poéticos, mesmo que improvisados ou de forma inconsciente, para compor
suas músicas. A modalidade canção foi bastante utilizada por eles, que explicitaram formas de
ver o mundo ou, mais especificamente, a sociedade brasileira através de um eu lírico que
ficava oculto, por trás das vozes dos intérpretes, transmitindo essa forma de ver as coisas por
3
“Entendemos por música popular a que passou a ser veiculada e consumida no início do século XX, na cidade
do Rio de Janeiro, com a introdução da indústria fonográfica (1902) e das transmissões radiofônicas (1923)”
(ALVES, 2007, p. 23). Cabe também ressaltar o fato de o chorinho ser uma forma musical muito forte nesse
período, tendo como seus representantes Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Jacob do Bandolim, além da forte
presença de Carmem Miranda no cenário musical brasileiro da época.
35
análises sobre o tema, visando encontrar novas formas de interpretações teóricas acerca do
assunto, pois a nossa abordagem não privilegia o conceito de polifonia. Retomando a noção
sobre a inspiração que é algo recorrente à Literatura e à música, tanto nos poetas, que
coisa (quando ele também é um letrista) acrescida da questão do improviso, vemos que as
experiências vividas por eles vão nortear os processos de composição, tanto dos poemas
poema, uma letra ou uma melodia para uma canção. Assim como os poetas, os cancionistas,
no decorrer dos anos, não passam por uma formação específica para a feitura de suas obras.
Assim como há uma formação para a crítica literária acadêmica e não há uma formação para o
escritor ou poeta, há uma formação para o músico e não há uma formação para o cancionista.
Essa atividade, assim como a do poeta, é, muitas vezes paralela, como ocorreu na vida de
poetas como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes.
Ninguém vai a uma faculdade para aprender a ser poeta ou cancionista. Assim, as canções
costumam ser produzidas de uma forma mais intuitiva do que técnica, como podemos
sempre soube fazer tudo isso. Se despendeu horas de exercícios e dedicação foi em
função de um trabalho que não deu trabalho. Foi o tempo de exteriorizar o que já
estava pronto (TATIT, 2002, p. 17).
A partir dessas breves noções sobre canção e poema, entraremos agora nessa
artística. Muitas vezes, encontra-se o respaldo dos estudos formais para se definir um gênero
formal às vezes pode falhar nesse aspecto, dada a existência, na música, por exemplo, para
mesma dificuldade ocorre quando não há apenas uma mistura de gêneros, mas uma mistura de
sistemas. É o que verificamos no caso do livro que constitui nosso objeto de estudo neste
trabalho. É possível ler As coisas como apenas um livro de poemas. É possível, também (e
Sertanejo, Samba, Pagode, Forró, Axé, Funk, dentre outros, inclusive os estilos híbridos. Para
facilitar ainda mais as coisas, criou-se uma rotulação que enquadra toda e qualquer música de
boa qualidade4, oriunda principalmente das décadas passadas e que se mantém até hoje no
cenário musical de MPB, sigla para Música Popular Brasileira. Nancy Aparecida Alves, em
sua dissertação, afirma que, segundo Carlos Moby (1994, p. 146), essa sigla surgiu durante a
ditadura militar e foi inspirada no partido político MDB, Movimento Democrático Brasileiro,
4
Essa rotulação faz parte do senso comum presente nas camadas populares, que chama de MPB toda música
considerada boa pela maior parte das pessoas com uma base intelectual, não sendo, pois, um uso fiel da sigla
como ela foi concebida.
37
que se opunha a ditadura. A MPB passou a designar a partir da década de 70, um tipo de
música urbana, engajada politicamente e com origens alicerçadas nos universitários da época,
rotular expressões artísticas, como analisar duas expressões distintas, mas que são ao mesmo
tempo tão próximas, caso específico do que denominamos “poema-canção”, cuja presença se
Arnaldo Antunes, como já foi dito no início deste trabalho, possui, em parte de sua
“poema-canção” será adotado neste trabalho como uma forma de conceituar todos aqueles
textos que se fazem presentes em dois suportes distintos, ou seja, presentes na forma de
utilizarmos esse termo, será nesse sentido, quando o produto “poema-canção” tiver sido feito
Para os outros casos¸ preferimos falar em “melodia que recebeu uma letra” ou “poema
musicado”, este último representado por dois dos poemas desse livro, musicados por Benjor e
Gil.
resumo, que serve apenas para delimitar a terminologia que empregaremos em nossa
dissertação:
38
As árvores
Poema musicado por outro
Poema-cantado As coisas
compositor
O dinheiro
* Não há exemplos para essa categoria nesta obra de Arnaldo Antunes, mas temos exemplos antológicos na
MPB, como o Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa-Lobos, que se tornou uma “canção-letrada” com a
intervenção de Ferreira Gullar.
Arnaldo Antunes, representante do movimento do Rock Brasileiro dos anos 80, traz
em suas canções temas sobre a existência humana, a sua relação com o mundo e coisas
cotidianas que ganham conotações diferentes a partir de seu ponto de vista. Nesse sentido, em
nosso estudo de As coisas, destacamos uma busca de expressão ainda não contaminada, e que
tem o seu valor por ser o que é: uma busca. É nesse livro que estão presentes os seis poemas
que deram origem à escolha do corpus desta dissertação. São eles : “O campo”, “Cultura” e
“Se não se”, “poemas-canções” que estão no disco Nome (1993); “O dinheiro” e “As
árvores”, “poemas-cantados” feitos em parceria com Jorge Benjor especialmente para o disco
Um som (1998); e “As coisas”, “poema-cantado” que faz parte do disco Qualquer (2006),
gravada primeiramente em 1993, por Caetano Veloso e Gilberto Gil, no disco Tropicália 2. A
partir desse processo de descoberta de criação e de fazer poético, analisaremos estes seis
Por causa desse trânsito de Arnaldo Antunes entre o musical e o literário, podemos
descobrir uma nova relação entre os espaços que as coisas devem ocupar. Seria esse
hibridismo um novo gênero? Aconteceu esse fenômeno com outros? Por hora, podemos dizer
39
hibridismo existente entre música e poesia é algo antigo, pois os gregos já utilizavam essa
prática:
Antônio Cícero, além dos casos dos gregos, apesar de um número reduzido, esse fenômeno
Para dizer a verdade, o que nos intriga hoje é que haja tantos grandes poemas entre
as letras gregas e provençais e tão poucos entre as modernas. Entretanto, a leitura do
livro “Letra Só”, de Caetano Veloso – que contém tantos grandes poemas que são
também letras de canções – fez-me pensar melhor sobre essa questão. Para o
punhado de poemas de Safo, por exemplo, que nos chegaram, dentre os quais meia
dúzia de obras-primas, quanto milhares de letras de canções não tiveram que ser
escritos e esquecidos na Grécia antiga? (CÍCERO, 2007, p. 2).
Além de Arnaldo Antunes e Caetano Veloso, outros artistas flutuam por esses espaços
em que suas letras de canção são comparadas a poemas. Dentre os quais podemos citar os
casos de Belchior, Chico Buarque e Gilberto Gil. Arnaldo Antunes transita em quase todos os
lugares em que uma expressão artística é produzida. Apesar de ele ter produzido ensaios,
quadros e até vídeos, nos deteremos apenas em duas dessas manifestações: a de poeta e a de
compositor de música.
40
A pergunta “poesia é para se ler e música para se ouvir?”, quando nos referimos a
Arnaldo Antunes, torna-se ainda mais polêmica, pois os seus textos estão presentes em dois
ocorre porque, no Brasil, letra de música não é ainda um gênero textual muito difundido entre
os estudos acadêmicos e por isso encontra dificuldades de aceitação até que se estabeleça um
devido espaço para esse gênero na crítica literária brasileira. Sobre essa discussão, Antônio
Na verdade, essa dissociação entre poema e letra de música ocorre pelo mesmo motivo
citado no tópico anterior: a necessidade de se colocar cada coisa em seu lugar. Quando ocorre
de nos depararmos com algo híbrido, tendemos a dissociar rapidamente os temas, com o
intuito de não nos aprofundarmos em algo que não conhecemos, é este mesmo fenômeno que
nos leva a rotular a música de Arnaldo Antunes como Rock, por causa de seu início junto aos
Titãs, quando, na verdade, seu repertório transita por diversos gêneros, que vão da bossa-nova
ao samba.
Seria muito arriscado afirmar que as letras de música produzidas por Antunes são
demasiadamente diferentes dos poemas feitos por ele. O que se percebe, é que no caso
específico de Antunes, os dois ofícios estão entrelaçados por uma teia difícil de desemaranhar
artística no ato da criação, associando ela a um suporte específico, é fato que quando vemos
os resultados finais percebemos os mesmos traços presentes em qualquer que seja o suporte.
semelhante: um texto escrito que provocará uma emoção estética. A oralidade é um fator
primordial nesse embate entre poema e letra. O poema situa-se num ambiente físico, no papel
de um livro com uma tipografia específica. A sua interpretação pode ser feita de inúmeras
formas, dependendo bastante da maneira como o leitor executará a leitura, ou seja, um único
texto, pode ter milhares de interpretações e gerar outras milhares de sensações num número
imensurável de pessoas, mas sua recepção será sempre individual, na forma da leitura, e
mesmo se ela for coletiva, cada ouvinte terá uma interpretação particular sobre o poema que
foi lido.
Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem seu fim em si próprio. Quando o
julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que,
além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. O poema se realiza quando é
lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural (CÍCERO, 2007, p. 1).
No caso da letra de música, para sua interpretação se dar de forma completa ela
precisará estar associada a instrumentos musicais e a uma orquestração que será feita em
função dela. A diferença ocorre no resultado final, uma letra somente será ouvida por uma
pessoa através de um canal, que é a voz. Uma letra de música por mais que esteja presente
fisicamente em um encarte de um disco, terá sua execução completa quando o ouvinte ouvir o
Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si próprio.
Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra
lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção
servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode
ser ilegível porque, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas, ela depende da
melodia, da harmonia, do ritmo, do tom da música à qual se encontra associada. Mas
isso em última análise, ainda não é tudo. A letra se realiza na canção, mas a canção
só se realiza plenamente quando interpretada, isto é, quando cantada e escutada
(CÍCERO, 2007, p. 1-2).
42
Por causa dessa diferença entre poema e letra de música talvez surja a pergunta: a letra
de música pode ser vista como um texto literário de menor valor? Sobre isso Amador Ribeiro
Neto questiona:
Em tempo: uma pergunta: por que é que quando escrevemos um texto não musicado
nós o chamamos de poesia e quando este texto é musicado vira letra? Ao fazermos
esta distinção, estabelecemos uma gradação de sentido. Letra de música é uma coisa
e poesia é outra. Poesia é sempre algo a mais. Aquele algo que depura a palavra e
lhe permite ser uma figura singular e autossuficiente. Letra é um pedaço de algo. De
uma música, no caso. É isto mesmo? Sabemos que não era assim, por exemplo, na
Grécia Antiga ou na Provença. Música e poesia conviveram sem distinções e sem
discriminações até o Renascimento (RIBEIRO NETO, 2007, p.1).
Esse embate sobre o valor que existe entre letra de canção e poema é algo bastante
amplo, pois, como disse Antônio Cícero, é impossível não se estabelecer um juízo de valor e
talvez seja esse juízo de valor o que impede o avanço dos estudos sobre canção popular e letra
de música no âmbito acadêmico, no que diz respeito à crítica literária. Essa distinção ou
discriminação entre música e poesia ocorreu após o Renascimento, pois, como afirmou
Como houve a dissociação, passou-se a discutir não mais as relações entre a poesia e a
música e sim sobre a diferença entre um poema e uma letra de canção, criando-se o juízo de
valor sobre estes dois “gêneros” de texto. Caberia aqui fazer algumas perguntas, ainda que
elas permaneçam sem resposta diante desse embate constante: a questão do “valor” não se
aplica também à poesia? Não estaríamos, ao trazer essa questão para as letras de música,
apenas repetindo, na comparação entre os supostos dois gêneros distintos, uma prática interna
à poesia e a toda a Literatura? O que define o bom poema? Apenas para concluir esses
questionamentos que, ao que parece, não receberão tão cedo uma resposta, fica uma
constatação que, no mínimo, colocaria em xeque essa questão comparativa pelo valor: há
muitos maus poemas que não atingem o menor grau de qualidade diante de muitas boas letras
de música. Isso mostra, pelo menos, que a questão do valor, ainda que permaneça interna a
43
cada gênero, não deveria ser utilizada como elemento de comparação entre os dois gêneros
supostamente distintos.
Um exemplo oposto a esse processo ocorre no início do século XX, com o interesse de
afastados da produção de letras de músicas apesar das tentativas dos que foram citados acima.
Com isso letristas como Catulo da Paixão Cearense adentraram nesse universo cancional, por
causa dessa lacuna. Esse ofício de letrista tornou-se tão importante que, em alguns casos,
A partir disso, podemos dizer que o posicionamento de Arnaldo Antunes, no que diz
respeito a dicotomia poeta/compositor, define-se quando o próprio autor decide em qual lugar
irá publicar a sua nova criação, ou seja, se o texto for para um livro de poemas ele será um
poeta, e se for para um disco de música na forma de letra, ele será um compositor,
confirmando a ideia inicial desse tópico sobre a questão do enquadramento artístico, que
define os papéis que os artistas devem assumir diante de cada criação artística.
mencionado, que talvez ela só não seja considerada por muitos, ainda, como Literatura, pelo
44
fato de grande parte dos críticos acharem que o lugar onde ela é divulgada tem um valor
menor que um livro impresso, não levando em conta o conteúdo do que está sendo dito e sim
o lugar físico em que ela foi publicada. Retomando nossos questionamentos sobre o “valor”
aplicado à comparação entre poema e letra, apoiamo-nos em Antonio Cícero, para quem
baixo valor literário como letras de canções insípidas, usando o termo de Antônio Cícero, mas
isso não é razão para negarmos a existência desse modelo literário que se apresenta para nós
em outro suporte. Pensando nos poemas e nas letras de música somente a partir do suporte em
que foram lançados, nunca poderíamos chamar Chico Buarque de poeta, visto que ele não
publicou suas letras em um livro de poemas, ou então dizer que não há literariedade nos
grupos de rock dos anos 80, o “Barão Vermelho com o canto-falado de Cazuza, Os Titãs, com
motes lançados em formas de palavras de ordem e Legião Urbana, com extensas narrativas
ou narrativas, não teriam valor literário, só por não virem de uma elite intelectual que vê na
produção de um disco para que um grupo ou artista tenha reconhecimento pelo trabalho que
mercado, modificou e modificará muito mais os conceitos sobre arte, sua forma de veiculação
e o juízo de valor que acaba por legitimá-la ou não. Da mesma forma, a suposta “barreira” do
suporte já foi vencida também pela Literatura e, especialmente, pela poesia. É comum
45
executadas por eles mesmos, sem falar nos espetáculos performáticos de poesia, nos quais,
como num espetáculo de música, o corpo e a voz do intérprete é o grande suporte. Também
para a poesia, como para a música, a internet tem se mostrado um “palco” disponível e
amplamente utilizado.
A partir do que foi dito sobre as mudanças ocasionadas pelas novas tecnologias, no
repertório musical de Arnaldo Antunes temos uma obra bastante diversificada. O disco Nome,
anunciando o modelo híbrido que temos na produção das obras no século XXI.
Luiz Tatit (2001) diz que o processo denominado por nós tematização adota um
encaminhamento horizontal, ou seja, possui pouca tendência de querer explorar outras regiões
de tessitura, logo, numa configuração “vertical das inflexões melódicas”. A variação sonora
das rotas definidas pelos graves e agudos, está em busca de uma identidade, segundo ele, e a
trajetória das melodias lentas decorre de um sentimento de falta. Ele também fala que as
canções temáticas “estão sempre associadas a conteúdos de satisfação com a vida” (TATIT,
2001, p. 60).
Arnaldo Antunes é dono de uma voz excepcionalmente grave, mas que não era muito
explorada no início de sua carreira. Ele utilizava uma região vocal mais aguda, mas em seus
trabalhos mais recentes passou a usar a região mais grave de sua voz. A utilização da voz em
uma tessitura mais aguda faz com que a mensagem que quer ser passada se torne mais tensa,
objetivo oposto à utilização da tessitura na região grave. Barthes nos apresenta, em seu livro
46
O óbvio e obtuso (1990), os conceitos estudados por Júlia Kristeva de Feno-canto, que abarca
todos os fenômenos e traços que dependem da estrutura da língua cantada, ou tudo aquilo que
239).
A música de Arnaldo Antunes traz em sua essência características dessas teorias, pois
o seu trabalho musical possui marcas recorrentes, que atribuem a ele uma expressividade
singular. Quando analisamos o texto presente nas canções vemos que ele se apropria das
amplas possibilidades comunicacionais que a palavra possui, quando, por exemplo, ele inverte
citado por Barthes. Já quando ele trabalha apenas com a respiração no “segundo momento” do
na maioria das canções em que a tessitura vocal está na região do grave, percebe-se que o
compositor tenta trabalhar uma temática mais mórbida, triste ou densa. Quando a tessitura se
inverte e vai para o lado da região aguda, ocorre o oposto, geralmente a canção passa a
expressar alegria, leveza e sublimação. Obviamente, isto não é uma regra, embora seja
facilmente observável.
Produzir obras físicas como um disco ou um livro não é mais condição para o sucesso
ou para o reconhecimento. O conteúdo das produções passa a ter um valor muito maior do que
a mística de se possuir o produto em mãos, uma vez que elas podem ter, atualmente, uma
esclarecido os motivos pelos quais ainda se suscitam essas dúvidas sobre a literariedade das
letras. Obviamente que existem e existirão letras de valor literário duvidoso, como pode
ocorrer também com poemas, contos e romances. O ideal seria que esses critérios de
avaliação da crítica cultural e literária fossem revistos. Porém, como uma revisão implica em
consegue separar o que continua falando ao público daquilo que foi um gosto efêmero da
moda.
48
CAPÍTULO II
qual temos acesso pelo domínio da linguagem, cujos signos, segundo Saussure (1995), se
revestem do caráter da arbitrariedade, o que faz com que assimilemos alguns significantes
cujos significados nem sabemos ainda. A noção de significação para pensarmos por que
certos objetos possuem certos nomes, só vem com o tempo. A nomeação limita muito, pois
nem sempre a palavra define com precisão certos objetos. Assim, as crianças tendem a utilizar
alguns significantes-coringas e chamam, por exemplo, de coisas tudo aquilo cujo significado
não são capazes de entender, isto é, elas apreendem a noção de rótulos em seu processo de
linguístico”.
A palavra arbitrário requer também uma observação. Não deve dar a ideia de que o
significado dependa da livre escolha do que fala (ver-se-á, mais adiante, que não está
ao alcance do indivíduo trocar coisa alguma no signo, uma vez esteja ele
estabelecido num grupo linguístico); queremos dizer que o significante é imotivado,
isto é, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem nenhum laço natural
na realidade (SAUSSURE, 1995, p.83).
Para se evitar esses rótulos, colados aos conceitos pelo uso ininterrupto dos signos na
cultura, as coisas são abordadas a partir de uma primeira sensação, distanciando-se do quase
infantil de ver o mundo. Isso se faz através de um processo de nomeação e conceituação das
coisas citadas no livro escolhido por nós para a realização desta dissertação.
Inicialmente, antes do primeiro contato de uma criança com as palavras, em sua forma
escrita, ela se depara com o universo da visualidade, ou seja, o mundo será apreendido por ela
através das associações feitas pelas imagens que visualiza. Quando é chegada a hora de a
criança representar aquilo que ela conseguiu depurar das coisas do mundo, é por meio do
O signo linguístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma
imagem acústica. Esta não é o som material, coisa puramente física, mas a
impressão (empreinte) psíquica desse som, a representação que dele nos dá o
testemunho de nossos sentidos; tal imagem é sensorial e , se chegamos a chamá-la
“material”, é somente neste sentido, e por oposição ao outro termo da associação, o
conceito, geralmente mais abstrato (SAUSSURE, 1995, p.80).
forma de ver o mundo, sem refletir muito sobre o que está fazendo, sempre pondo em
primeiro lugar os seus sentimentos e abordando uma primeira impressão sobre aquilo que ela
primeiro, isto é, a primeira impressão e apreensão das coisas, no que diz respeito à relação
existente entre nós e os fenômenos do mundo do qual fazemos parte. A explicação desse e de
desenhos associados a poemas. Os desenhos foram feitos por Rosa Moreau Antunes, filha de
O livro acaba nos sugerindo que os poemas surgem em função desses desenhos, e
as relações conjuntas existentes entre os poemas e as ilustrações, (relações estas que são a
base do projeto do livro, pois há claramente uma relação ente os poemas e os desenhos),
IMAGEM 01 IMAGEM 02
Desenho de Rosa Moreau Antunes, que acompanha no livro As coisas o poema acima.
Título: Tudo
Fonte: Antunes (2002, p. 24-25)
usa gravata, isso se não atentamos para a linha que divide a folha em duas, separando uma
suposta cabeça de um suposto corpo, representado metonimicamente pelo que vemos como
“gravata”. Também a cabeça estaria metonimicamente representada, nesse caso, pelos olhos e
pelo nariz, órgãos de dois sentidos primordiais e quase involuntários, a visão e o olfato.
Talvez mais que os outros sentidos, juntamente com a audição, esses dois participam
ativamente da nossa construção individual do mundo, o que explicaria não haver uma
delimitação, no desenho, para o contorno da cabeça. Mas também não há uma delimitação
para o contorno do corpo, o que nos leva a pensar que o desenho representa, então, uma
grande abertura para o mundo, uma abertura para o “tudo”, de que trata o poema que o
Percebe-se que há claramente, no poema, uma reflexão sobre o conceito de ideia, que
coisas que podem ser expressas por ela, às vezes em um texto escrito ou até mesmo falado
não conseguimos abarcar todas as coisas do mundo, como afirma Antunes, limitando a nossa
52
noção do sentido. Esse fenômeno, não ocorre com a palavra tudo, pois tem em si, uma
completo.
Nesse poema, Antunes serve-se do uso das palavras para discutir acerca do conceito de
ideia e de palavra. Como ele brinca com esse conceito, podemos entender que se ‘ideia’ é
uma palavra como ‘tudo’ também o é, o poema se contradiz, pois ‘tudo’ também seria uma
‘ideia’, logo não poderia confirmar a proposição de Antunes. Nesta contradição está a
complexidade do poema, pois, ao comparar ‘ideia’ a ‘tudo’, ele cria uma metáfora, que, de
acordo com Décio Pignatari, “é um curioso fenômeno de analogia por contiguidade. Ou seja,
ela é um curioso caso de contradição. Trata-se de um ícone degenerado; por isso, a gente pode
definir a metáfora como sendo um hipoícone por contiguidade.” (PIGNATARI, 2004, p. 16)
Ainda segundo Pignatari, as coisas se organizam ou se associam por dois processos: por
Esse conceito de metáfora foi proposto por Jakobson com a denominação de figura de
teoria Semiótica de Charles Peirce, que passaremos a ver agora, juntamente com o conceito
Além dessa conhecida tipologia dos signos, Peirce apresenta todo um pensamento
edificado sobre uma base triádica, infinitamente reproduzida por novas categorias e níveis de
significação. Essa base faz diferir a semiótica peirciana dos estudos semiológicos
podemos pensar em uma “divisão” por três, que, de forma simplificada, associamos aos
estado puro que se apresenta à consciência, e vemos nisso a justificativa para tais associações.
O presente imediato, nós podemos aproveitá-lo, não teria nenhum caráter, mas a sua
primeiridade. Não que eu queira dizer que a consciência imediata (Uma pura ficção,
por sinal), seja primeiridade, mas a qualidade do que estamos imediatamente
conscientes de que não é ficção, é Primeiridade (PEIRCE: CP 1.343, p.132, tradução
nossa).5
os fenômenos, ou seja, o que Peirce denominou primeridade (firstness). Existem outras duas
5
The immediate present, could we seize it, would have no character but its Firstness. Not that I mean to say that
immediate consciousness (a pure fiction, by the way), would be Firstness, but that the quality of what we are
immediately conscious of, which is no fiction, is Firstness.
54
dessas novas terminologias se deu pelo fato de elas serem livres de outras associações,
estabelecendo assim as categorias que nos auxiliam no entendimento dos signos. Sobre isso
Para funcionar como signo, algo tem de estar materializado numa existência
singular, que tem um lugar no mundo (real ou fictício) e reage em relação a outros
existentes de seu universo. Assim também, não há existente que não tenha um
aspecto puramente qualitativo, sua talidade que o faz ser aquilo que é, tal como é.
Essas três gradações, baseadas nas categorias de qualidade (primeiridade), reação
(secundidade) e mediação (terceiridade), são onipresentes. Desse modo, nossa
percepção delas depende, de um lado, do ponto de vista que assumimos no ato da
recepção dos signos, de outro, depende também do aspecto que prepondera no signo:
sua qualidade, sua existência concreta (ou seja, seu aspecto de “coisa”) ou seu
caráter de lei (ou seja, sua dimensão mais propriamente sígnica). Essa, aliás, é a base
para a classificação fundamental dos signos em ícone, índice e símbolo [...]
(SANTAELLA, 1992, p. 77).
forma:
Como não temos por objetivo aprofundar o estudo sobre as outras categorias
a partir do estudo sobre a obra peirciana feito por Eufrásio Prates, no texto Semiótica: uma
iniciaremos explicando o quali-signo, que diz respeito à pura qualidade na relação consigo
mesmo. Quando esta qualidade se relacionar com seu objeto, ele será um ícone. Se um objeto
demonstra uma mera qualidade de impressão, ou uma hipótese, temos um rema. Quando os
objetos são representados por semelhança, eles são chamados de hipoícones. Eles se
segundo nível; e metáforas, hipoícone de terceiro nível. Sobre os ícones Peirce disse que
No estudo sobre a imagem feito por Winfried Nöth e Lúcia Santaella (2008), eles
2008, p.61). Ícone atual que “refere-se às diferentes funções que o ícone adquire nos
processos de percepção” (SANTAELLA; NÖTH, 2008, p.61). Sendo que este se divide em
dois subníveis, o passivo e o ativo. Não abordaremos as especificidades desses dois subníveis
56
agora. Faremos isso à medida que formos apresentando os desenhos de Rosa Antunes e
fazendo as análises. Por hora, vale salientar a importância desses subníveis para a relação que
estamos estabelecendo:
A relação entre a iconicidade e os poemas como diz a citação acima nos ajuda no
presença marcante da iconicidade nesses poemas, nos levará à comprovação de que ele
motivado ou não pelos desenhos de sua filha. Para entendermos melhor o que é a
de uma maneira mais específica, no que diz respeito à imagem, por Lúcia Santaella e
Winfried Nöth, o que nos interessa muito por estarmos analisando desenhos. Retomando o
que foi dito anteriormente, os hipoícones se dividem em imagem, diagrama e metáforas. Para
Peirce
o conceito de imagem, Santaella e Winfried Nöth (2008), ratificando o que disse Peirce no
Por não considerarmos os poemas de Antunes como legendas dos desenhos, e sim uma
nova criação feita a partir deles, segundo o que diz Peirce nesse trecho acima, podemos
afirmar que todos os desenhos do livro são hipoícones, trazendo para nós em uma parte da
Continuando nossa explanação sobre as noções dos hipoícones, ainda baseado nesses
A partir dessas breves noções sobre primeiridade e como ela funciona na sua relação
com a imagem, traçaremos mais adiante este mesmo caminho com a música, para que
possamos dialogar a relação intersemiótica que estas duas áreas possuem na composição da
O trecho do poema citado no título deste tópico deixa transparecer que o projeto do
livro de poemas As coisas de Arnaldo Antunes, é criar um universo infantil, ou, como
preferimos chamar, um universo baseado em primeiridade, que brota a partir dos desenhos da
filha, deixando claro que o fato de o desenho estar junto ao poema é porque ele faz parte do
conjunto, ou seja, os poemas nesse livro são compostos por um desenho que os acompanha.
O livro traz ao leitor diversos pensamentos que, para um adulto, têm um aspecto
aparentemente banal, mas que, para uma criança, faz parte de um universo lúdico de
descoberta e aprendizagem.
O eu lírico se posiciona com um olhar infantil diante das coisas do mundo, como se
elas fossem vistas pela primeira vez. Em as coisas, as relações entre as coisas,
enquanto signos, e os seus conceitos de representação, colocam o eu lírico aprendiz
frente a um estado de linguagem, que antecede aos pré-conceitos. As coisas do
mundo são revistas e reacendidas, por procedimentos de decomposição das coisas
referenciais em coisas poéticas, retomando a essência de cada coisa do mundo
(BERCHIOR, 2004, p. 4).
Este comentário nos esclarece a relação que Arnaldo Antunes tenta estabelecer entre o
olhar infantil e o não distanciamento de marcas que revelam a noção sobre o conceito de
representação das coisas, que uma criança ainda não é capaz de formular de modo crítico,
como ele deixa transparecer em alguns poemas do livro. A lógica de Arnaldo Antunes
(partindo do projeto do livro As coisas) era escrever textos que versassem sobre coisas
subjetividade presentes apenas em um adulto não passam despercebidas por olhares mais
atentos.
6
Trecho retirado do poema tudos que não faz parte do nosso corpus, mas está inserido no projeto do livro As
coisas de Arnaldo Antunes.
59
Antunes, por terem sido feitos por uma criança, que ainda não possui as noções globais das
coisas do mundo, produziu cada desenho de maneira espontânea, deixando transparecer suas
Por se tratar de produções em primeiridade, o ícone passa a ser a figura teórica que se
faz presente nas três produções da tríade desenho/poema/música. A partir disso, observemos o
Pound (1970) insistia na afirmação que a poesia está mais próxima da visualidade e
da música do que a linguagem verbal. D. Pignatari (1974) também chamou o poeta
de designer da linguagem e defendeu a tese de que o poema é um ícone. De fato, é
na poesia que os interstícios da palavra e da imagem visual e sonora sempre foram
levados a níveis de engenhosidade surpreendentes (SANTAELLA E NÖTH, 2008,
p. 69).
Tratando o poema pelo ponto de vista do ícone, a música como um exemplo de ícone,
temos no desenho também essa função, comprovando a nossa hipótese de que o nosso objeto
de estudo foi produzido baseado em primeiridade, tendo, como eixo norteador, o ícone,
desenho e busca produzir o poema de uma forma icônica, criando um texto que se
assemelhasse ao desenho, mas que tivesse originalidade no processo criativo, isto é, que fosse
representâmens que não fazem inicialmente referência aos poemas e os poemas que tomam os
60
desenhos como referência, mas esvaziam-se deles na tentativa de criar um ícone puro. Não se
pode deixar de dizer, embora este não seja nosso interesse central, que os desenhos funcionam
como referentes para os poemas que, mesmo apresentando o aspecto icônico de que fala
Pignatari, não deixa de estar estruturado no código da língua escrita e, portanto, num nível
que estuda a “ingenuidade da linguagem”, observada nos textos de caráter infantil, como
o campo, as portas, o corpo, a luz, os avós, os peitos, a mosca, as árvores, a ponte, os óculos, a
chuva, a cultura, o céu, o tempo, as palavras, a boca; o fogo, o elefante, a água, o passarinho,
a montanha, a luz negra, a vista, o dinheiro, as folhas, o sol, os insetos, os lugares e as coisas
são alguns signos representativos das “coisas do mundo” que vão ser reconstruídos por
Antunes, dentro do que José Paulo Paes (1998) considera infância da linguagem. Tal visão
deve-se ao fato de escrevermos, nessa fase, de maneira espontânea, com a graça dos
poética:
Freud lembra que as crianças tendem a tratar as palavras como “coisas”. (...)
(...) Palavras, imagens, metáforas, não são, para a criança, símbolos abstratos, mas
duplos das coisas, tanto assim que a nomeação basta para fazerem as coisas
existirem. Daí ela aceitar, sem se importar em discutir-lhe a verossimilhança, tudo
quanto um poema diga.” (PAES, 1998, p 5-6)
No que diz respeito à linguagem poética, Arnaldo Antunes tenta transportar o seus
poemas para um ambiente em que se tenta instaurar novos conceitos para signos já
conceituados, como estamos lidando com linguagem poética, esta nova “conceituação” de
nomes já conhecidos basta, para fazer as coisas tomarem sentidos. Vendo palavras como
objeto, e tudo é visto de uma forma dúbia) as crianças aceitam uma dupla significação como
Apresentaremos os seis desenhos que fazem parte dos poemas selecionados no nosso
recorte, tentando explicá-los baseados nos títulos dados por Arnaldo Antunes aos poemas,
mas entendendo que eles são independentes um do outro pelo modo como foram produzidos,
os desenhos, por terem sido dotados de uma primeiridade natural e os poemas, por terem
Desenho de Rosa Moreau Antunes, que acompanha no livro As coisas o poema As árvores.
Título: As árvores
Fonte: Antunes (2002, p. 34)
63
O desenho que acompanha o poema “As árvores” traz em si o subnível do ícone atual,
dentro do aspecto ativo, pois se este desenho for mesmo uma representação de uma árvore,
Antunes absorve em seu poema a ideia de um imagem criada por similaridade, porque ela “é
adotada como uma regra geral que pode ser coletivamente aceita” (SANTAELLA E NÖTH,
2008, p.61). Por isso, acreditamos que Rosa possa ter sido incentivada pelo pai a desenhar
uma árvore, e feito o desenho através de uma imagem por semelhança, dentro daquilo que ela,
com apenas três anos, acreditava ser a forma de uma árvore. Segundo Martine Joly, “um
projeto de imagem é primeiro verbalizado, antes de ser realizado visualmente” (JOLY, 1996,
p. 73). A partir disso, podemos dizer que os pontos pretos que estão no meio do círculo,
podem representar folhas ou até mesmo frutos, termos estes que aparecem no poema de
Como todo desenho é, por excelência, uma tentativa de representação do real, mesmo
que seja um real próprio ao artista, sem parâmetros no que chamamos de “realidade”,
podemos dizer que nele sempre há interferências das noções apreendidas pelas coisas do
mundo. Mas quando esse desenho é feito por uma criança, que, de certo modo, não
racionaliza de forma mais profunda como cada coisa do mundo funciona, sempre que ela tenta
criar algo por semelhança, ela é desprovida de referentes e faz aquilo a partir de uma noção
cognitiva que beira o primitivismo, ou seja, o desenho de uma criança são os mais legítimos
Vê-se portanto que a teoria semiótica, que propõe considerar a imagem como ícone,
isto é, como signo analógico, está em harmonia perfeita com seu emprego e pode
nos permitir compreendê-lo melhor. Se a imagem é, sem sombra de dúvida,
percebida como signo, como representação analógica, já é possível observar uma
64
Uma outra leitura pode ser feita para o desenho, visto que a circunferência pode
representar uma cabeça e os traços pernas e braços, tomando como exemplo coisas ditas no
poema, talvez na tentativa de humanizar a figura das árvores. Há no poema um trecho que diz
que: “as árvores crescem para cima como as pessoas”, levando em consideração o que
observamos no livro, vimos que a maioria dos desenhos de Rosa presentes no livro, referem-
As leituras dos desenhas feitas por nós, apenas observam aquilo que o próprio desenho
nos transmite, fazendo as relações com o seu referido poema e com outros referentes do
mundo, pois “desde muito pequenos, aprendemos a ler imagens ao mesmo tempo em que
aprendemos a falar. Muitas vezes as próprias imagens servem de suporte para o aprendizado
coisas do mundo mediante a visualização de imagens que são feitas por associação, seja ela
por meio de formas ou de cores, embora existam “muitas diferenças entre as imagens e a
realidade que ela supostamente deveria representar” (Joly, 1996, p. 43), é a partir desta
No caso deste primeiro desenho de Rosa Moreau Antunes, a assimilação feita por ela
se faz presente no senso comum de uma criança, naquilo que Santaella chama de primeiras
primeiridades, a criança apenas criou o desenho a partir da intuição, baseado na imagem real
2.4.2 As coisas
Desenho de Rosa Moreau Antunes, que acompanha no livro As coisas o poema As coisas.
Título: As coisas
Fonte: Antunes (2002, p. 90)
66
Poema que dá nome ao livro, “as coisas” tem no desenho uma tentativa de representar
que Rosa desenhou, possivelmente, bastantes seres animados, tendo em vista que os traços
Tomando como referência o fato de toda criança denominar de coisa, aquilo que não
sabe definir, se realmente for um corpo de um ser animado, Rosa pode ter atribuído o termo
coisa ao seu desenho e Antunes ter trabalhado o poema de uma forma inanimada, meio que
A representação sígnica nunca foi uma tentativa de apreender o real como um todo,
pois isso está além da capacidade humana, quer dizer do próprio signo. Recordemos
o que diz Peirce: “... O objeto real, ou antes dinâmico, pela natureza das coisas, o
signo não consegue expressar, podendo apenas indicar, cabendo ao intérprete
descobri-lo por experiência colateral”. Antes de se referir a alguma coisa que está
fora dele (o objeto dinâmico), cada código ou meio referencia-se a um outro código
que está embutido nele de forma virtual. Enquanto a linguagem visual figurativa, por
exemplo, antes de referir-se ao real, referencia-se com códigos de representação, a
linguagem verbal escrita, por seu lado, referencia-se com o próprio código visual e,
fundamentalmente, com o código oral do qual é tradução (PLAZA, 1987, p. 47).
As formas arredondadas do desenho podem ter servido de base para Arnaldo Antunes
prosopopeia em seu poema. Ele se utiliza da linguagem visual para criar o texto escrito,
criando com isso, como diz Júlio Plaza, uma tradução intersemiótica entre o código visual e o
2.4.3 O campo
IMAGEM 05: DESENHO O CAMPO
Desenho de Rosa Moreau Antunes, que acompanha no livro As coisas o poema O campo.
Título: O campo
Fonte: Antunes (2002, p. 18)
68
Esse estímulo exterior, veio do senso comum, pois, no caso da criança, essa relação se
dá de uma forma singular, porque a forma como ela apreende as coisas na mente ainda não é
racional e sim emocional, talvez por isso, os traços representativos na associação do desenho
a um campo, uma plantação, onde os pontos pretos podem ser sementes ou até mesmo árvores
No caso do desenho de Rosa, podemos dizer que, se não foi feito exclusivamente para
o seu pai Antunes, passou a ter essa função no momento em que ele decidiu produzir um livro
de poemas baseado em suas ilustrações. Baseado no que disse Joly, concordamos que toda
imagem sempre constitui uma mensagem para outro, mas quando essa imagem é um desenho,
ainda mais feito por uma criança, essa mensagem não é algo intencional.
A partir disso, a nossa ideia sobre uma obra produzida a partir das noções de uma
primeiridade Peirciana vai ganhando força, pois não apenas no desenho O Campo, mas em
todos os outros, talvez tenhamos essa recorrência da não consciência do que está sendo feito e
para quem está sendo feito. Quem vai ter essa consciência em seu estado pleno é Arnaldo
Antunes, mas como já foi dito, acreditamos que, ao produzir os poemas, ele tentou se des-
69
referencializar dessa consciência, na tentativa de atingir também essa primeiridade. Isso será
2.4.4 Cultura
Desenho de Rosa Moreau Antunes, que acompanha no livro As coisas o poema Cultura
Título: Cultura
Fonte: Antunes (2002, p.50)
71
desenho que acompanha o poema “Cultura”, temos três seres, possivelmente representando
animais, que suscitaram a criação de Antunes para o poema acerca da forma que os animais
aparentam ter, parecendo ser outras coisas. Aqui, pelo viés da teoria, temos um caso igual ao
máximo uma lógica textual infantil, no que se diz respeito à linguagem. “O girino é peixinho
expressões são tipicamente produzidas dentro de uma maneira de pensar de uma criança e
diz Décio Pignatari, “A primeiridade é o modo ou modalidade de ser daquilo que é tal como é,
Como sabemos, o poema feito para esse desenho foi posto em outras mídias, no
Mesmo sendo primitivo, o desenho cultura foi feito por analogia por similaridade,
como já ocorreu, por exemplo, nos exemplos anteriores. O primeiro animal, no nosso
entender, é uma tentativa de reproduzir uma galinha, visto que os traços das patas são bastante
animal, apesar de ter sido desenhado de forma um pouco grande, aparenta um papagaio, pois
72
papagaio. Além disso, os pés e a cauda alongada acabam confirmando a essa impressão.
um leitão, por causa da orelhas que se assemelham às de um porco e um dos pontos pretos no
meio do desenho, que parece ser um nariz suíno. Quaisquer que sejam os animais
representados, porém, o importante é que essa representação existe e constitui-se como base
para a construção do poema que se refere ao desenho. Visivelmente, os animais ali sugeridos
representa, sem falar na polissemia presente no título, que traria também o questionamento
sobre a própria noção de cultura: haveria cultura sob outros pontos de vista, como o dos
bichos, por exemplo? Obviamente, tudo depende da interpretação que daremos ao conjunto
2.4.5 O dinheiro
Desenho de Rosa Moreau Antunes, que acompanha no livro As coisas o poema O dinheiro
Título: O Dinheiro
Fonte: Antunes (2002, p.76)
74
Primeiro desenho de nossa análise que aparentemente, não faz alusão a um ser
de uma analogia por similaridade, sendo também um ícone atual, dentro do subnível do
aspecto ativo. O formato retangular do desenho acaba sugerindo que há ali uma tentativa de
tese características inerentes a uma cédula monetária. Para poder entender melhor essa
associação, utilizaremos a teoria de Martine Joly sobre o que é uma representação mental, que
segundo ela “é elaborada de maneira quase alucinatória, e parece tomar emprestadas suas
Como os desenhos foram produzidos antes da implementação do plano real, por volta
do ano de 1991/1992, o desenho pode ter sido feito na tentativa de se assemelhar as cédulas
da época, o cruzeiro, que traziam rostos de figuras importantes dentro de um círculo no meio
da nota, bem parecido com o círculo feito por Rosa, feitas a partir de uma imagem mental,
produzida por ela, mesmo de forma inconsciente na tentativa de representar uma cédula no
A partir dessas noções sobre a formação de uma imagem mental para a produção de
um desenho, vemos que, mesmo sendo uma forma bastante reflexiva, a criança não consegue
ser fiel à imagem que ela tomou emprestada, usando as palavras de Joly. Para a criança, o
processo associativo não é estritamente reflexivo e sim cognitivo, por mais que ela tenha
criado uma imagem mental de um objeto, ela vai reproduzi-lo de uma forma não contaminada
75
e é por esse motivo que desenhos como os de Rosa, neste exemplo da imitação de uma cédula
de dinheiro, não vão atingir um elevado grau de similaridade e sim um leve grau. Isso ocorre
pelo mesmo motivo que uma criança representa um ser humano através de duas bolas e quatro
traços. A associação mental da criança vai se basear em traços visuais mínimos, como diz Joly
no trecho acima. Talvez por isso dois pequenos pontos, confirmem a ideia de uma tentativa de
representar dois olhos e por conseguinte um rosto. Os traços em volta do círculo podem
representar as outras partes que compunham a cédula. Embora saibamos que houve uma
representação mental, por tudo que já foi dito, quando esse assunto se refere a uma criança,
esse processo vai ser muito mais cognitivo do que reflexivo, pois a criança está mais ligada à
conceitos de C. S. Peirce.
76
2.4.6 Se não se
Desenho de Rosa Moreau Antunes, que acompanha no livro As coisas o poema Se não se
Título: Se não se
Fonte: Antunes (2002, p.78)
77
Neste último desenho, temos a figura de um círculo, que pode representar diversas
coisas. Talvez seja esta a figura mais difícil de se associar ao poema de Antunes. Rosa pode
ter desenhado o vazio, um círculo, um ovo, uma cabeça e o que achamos ser uma bola. Nesse
Por se tratar, mais uma vez, de um desenho de criança, não podemos refletir muito e,
às vezes, quando ela desenha uma coisa, sua intenção é puramente icônica, ou seja, a coisa vai
ser aquilo mesmo, por ainda não estar contaminada com referenciais do mundo: se ela diz que
o círculo é uma bola é porque é mesmo uma bola na sua concepção do desenho.
Junto a isso, temos a ideia de que o círculo possa representar o mito do Ouroborós que
é uma serpente ou um dragão que morde a própria cauda, dando-nos uma ideia de infinitude.
A sociedade utiliza como símbolo do amor eterno um círculo, ao qual damos o nome
de aliança. A aliança representa a ideia de amor infinito, pois não se pode dizer onde começa
78
e onde termina o amor. O poema feito para esse desenho também nos confirma teoria. Ele se
Essa proposição ideológica já tinha sido feita por Antunes no livro Psia (1986) com o
texto “O que”. A disposição gráfica do poema é absolutamente idêntica ao desenho feito por
(ANTUNES,1998)
possamos afirmar qual é o início e qual é o fim, sem saber que instrumento foi utilizado para
imprimir o traço no papel. Há, entretanto, uma diferença de espessura na linha que provoca a
associação ao Ouroborós a que nos referimos acima e que pode ter despertado o “eterno
No trecho do poema Tudos, As músicas dos índios fazem cair a chuva, do livro As
coisas temos uma breve reflexão sobre o lugar que a música ocupa em todas as culturas. Os
índios entoam melodias por vários objetivos, sem se preocuparem com o porquê de estarem
executando aquela música. A essa falta de preocupação deles, atribuímos uma atividade
cognitiva que não faz muita reflexão, que apenas reproduz uma tradição que acredita que
quando eles cantam aquela música, chove. É o mesmo motivo que nos faz, como Proust,
comer um biscoito e nos lembrarmos da nossa infância: podemos dizer que sentimos o gosto
dela. Essa experiência sem referências é um caso de primeiridade, caso este, que acreditamos
nos estudos sobre a obra de C. S. Peirce, publicou um artigo entre o inverno de 1998 e 1999,
partir dos traços visuais, partindo da etimologia da própria palavra, que é oriunda do grego,
deveria tornar a exemplificação dele mais fácil, porém a relação entre o ícone e o visual cria
Primeiramente, a palavra ícone: todos sabemos os sentidos que essa palavra assume
nos domínios ligados à história da arte e às semióticas visuais. E sabemos que, ao
optar pelo termo “ícone”, Peirce fazia um empréstimo da palavra grega eikwon
(eikône), que significa, simplesmente, “imagem” (equivalente à palavra latina
“imago”). Em seguida, na família da palavra grega, encontramos, por exemplo, o
verbo eikw (eikô), que significa “assemelhar, parecer”. Em suma, teríamos todas as
razões para desconfiar de que a dificuldade de imaginar o ícone não é estranha a essa
remissão dominante à modalidade do visível, na qual a noção de semelhança é
central (FISETTE, 1999, p.6).
Ele ainda acrescenta que Peirce escreveu nos Collected Papers, que os signos visuais
O ícone é anterior a representação; ele é mais primário, pois não pressupõe nada
além de si mesmo; e ele é também, logicamente, anterior à figuração. Essas mesmas
razões explicam também – e isso é significativo – que as semióticas visuais tenham
podido desenvolver, a partir do momento em que se apresentaram como objeto de
análise, imagens, desenhos, telas etc. que não estavam submissos à figuração ou que
não respondiam a uma função dominante de representação (FISETTE, 1999, p.7).
A partir dessas reflexões sobre o ícone perante aos signos visuais, Fisette afirma que o
não em compreensão)”. Mas no caso do signo musical o ícone seria mais fácil de ser
exemplificado:
Retorno, então, aos traços mantidos para definir o ícone e descubro, com espanto,
que se a representação visual me traz dificuldades maiores (que não são, entretanto,
essenciais), por outro lado, o representâmen musical parece vir exemplificar, senão
dar corpo, ao conjunto desses traços, e ele o faz, poder-se-ia dizer, como que como
uma espécie de evidência. Por uma razão bem elementar: é que por detrás do signo
musical, não pressentimos de forma alguma a ameaça de um objeto exterior que
viesse didatizar ou referencializar o signo. (FISETTE, 1999, p.7)
A discussão sobre a diferença entre os signos visuais e musicais ocorre por causa da
representação não são essenciais ao signo, por isso é que na música esquecemos os
referenciais e nos ligamos a um elemento cognitivo mais próximo de uma primeira sensação,
que faz com que a emoção faça parte dessa assimilação ao ouvirmos uma música. Acerca
desse assunto Claude Lévi-Strauss, em seu livro O Cru e o Cozido (2004), que estuda a
Para Jean Fisette o signo musical é “um ícone de uma concepção logicamente coerente
A música também faz parte de uma primeiridade por ser desprovida de representação,
levando o ouvinte ao impulso que o transporta para um outro lugar, um lugar virtual onde ele
A música não tem referente; seus atos sonoros também não estão ligados a um
significado que seria uma classe fixa de referentes; mas ao contrário, o ato musical
traz consigo uma imensa reserva de efeitos de sentido possíveis que são não
limitados e não limitáveis; e, na medida em que esses efeitos de sentido transbordam
o controle da razão, eles asseguram um lugar privilegiado para o despertar de
emoções, igualmente variáveis, que serão relativas ao sujeito, ao lugar e até mesmo
à hora do dia. Aliás, se não fosse assim, por que razão escutaríamos novamente uma
mesma música? Por isso, seria mais justo imaginar é que essa música que escutamos
e reescutamos assemelha-se ao rio, do qual falava Heráclito, no qual não nos
banhamos nunca duas vezes (FISETTE, 1999, p.10-11).
Essa percepção transporta o ouvinte e o signo musical para um lugar virtual a partir da
ideia de ação, pois segundo a epígrafe de Fisette, a música é emocionante porque se move,
Fisette de ver “o signo como ação”. A esse movimento sem referencialização, acreditamos
que pode haver uma leitura de um signo musical através da primeiridade de Peirce:
caso específico do nosso objeto de análise, tanto nos desenhos quanto na música, visto que a
exemplificação da primeiridade nos poemas é algo mais fácil de se fazer, por se tratarem de
análise conjunta a partir da teoria semiótica de Algirdas Julien Greimas que é a base da teoria
criada por Luiz Tatit para a feitura de suas análises musicais. Embora sigam por caminhos
diferentes, tentaremos estabelecer o diálogo entre a teoria semiótica proposta por C. S. Peirce
e a teoria de Greimas, pois acreditamos que o nosso corpus permite um leitura uniforme,
2.6 MELODIA
Neste tópico, explicaremos como Luiz Tatit fundamentou a sua teoria sobre a análise
de textos, com a ajuda da melodia. A partir do esquema Actancial podemos entender como ela
funciona. A teoria é baseada na narratividade dos fatos, e Tatit utilizou-se dela para criar um
esquema que pudesse ser aplicado na análise de letras de músicas não apenas ancorada no
Greimasiana. Sobre a forma como desempenhar a leitura de textos poéticos, Greimas diz que:
A partir do que foi dito, entendamos então, como funciona o esquema actancial dentro
de A. J. Greimas, temos:
D1
S
D2
│
│
A
O OP
Adjuvante Objeto Oponente
Um destinador ou uma força (D1) quer algo. Levado por sua ação o sujeito (S) busca
um objeto (O) em proveito de um ser, concreto ou abstrato (D2). Nessa busca, o sujeito tem
O adjuvante é o actante que dará auxílio, operando ora no sentido do desejo, ora
facilitando a comunicação. A função dos adjuvantes consiste em servir a
manifestações hiponímicas, a exteriorizações, em forma de objetos ou seres. Por sua
vez, a função de Oponente consiste em criar obstáculos, opondo-se à realização do
desejo, ou a comunicação do Objeto (GREIMAS, 1979, p. 99).
84
Para entendermos melhor essa teoria, vejamos o que disse Luiz Tatit sobre a relação
Acontece, porém, que o sujeito não se define apenas pelo objeto, seu termo
complementar do ponto de vista sintático. A esfera de ação do sujeito está
delimitada pelas ações de outros sujeitos e, em especial, pela ação do anti-sujeito
que lhe impõe resistências, muitas vezes comprometendo o êxito do seu percurso
narrativo. Temos, assim, de um lado, a atração que o objeto exerce sobre o sujeito,
orientando sua atividade para um fim preciso e, de outro, a resistência antagonista
que ao impedir a conquista imediata do objeto, valoriza a ação propriamente dita e
instaura o sentido de progresso gradativo como algo necessário a própria noção de
narratividade (TATIT, 2001, p. 31-32).
A partir desses conceitos, Luiz Tatit denomina o estudo da melodia a partir de três
níveis: A tematização, primeiro dos níveis, que é uma repetição dos temas melódicos
presentes na canção, ou seja, que possuem um mesmo desenho melódico; o segundo nível é a
ênfase nas durações das notas; o último nível é a figurativização, e traz uma representação de
uma simulação da fala. O primeiro nível provoca no ouvinte um tom de celebração com uma
por ele ser também composto por seis canções, oriundos dos poemas fazendo a relação entre
melódicos nos dizem, a partir das teorias mencionadas. No próximo capítulo, voltaremos a
tratar da relação entre a poesia e a música, dando continuidade ao nosso objeto de estudo.
85
CAPÍTULO III
binômio: poemas musicados e músicas que receberam texto. Junto a isso, faremos a análise
propriamente dita do nosso corpus escolhido. Para efeito de uma organização teórica, faremos
outro lado teórico, traçaremos o percurso narrativo das canções, baseados nas teorias de Luiz
Tatit. Mesmo organizando as análises desta forma, não temos por objetivo supervalorizar uma
teoria em detrimento da outra, acreditamos que as duas leituras podem ser feitas de forma
harmoniosa.
Como já fora dito, a híbrida relação entre poema e canção dentro do nosso recorte, nos
modalidades que circulam por diversos suportes sem uma terminologia específica. Retomando
o conceito, para nós, poema-canção é quando temos um poema musicado pelo mesmo autor;
quando temos o caso de uma melodia ser “letrada” por outro compositor ou poeta.
Arnaldo Antunes não foi o primeiro a unir esses dois gêneros, o poema e a canção,
antes dele, vários outros traçaram o mesmo percurso. A partir disso, podemos observar esse
processo como uma tentativa de manipular os signos com um objetivo claro, a descoberta de
novas formas de uso dos significantes e seus significados. Adicionando ao tema melódico
sentimentos e uma mensagem que passa a ter uma significação poética. A canção pode ser
interpretada em várias línguas, tendo a sua significação compreendida melhor pelos falantes
A questão que propomos nesta oportunidade pode ser assim resumida: como criar
parâmetros semióticos para abordar esse lugar híbrido de manifestação das canções?
Tais parâmetros deverão ainda fornecer critérios homogêneos para uma análise
integrada da letra e da melodia. em termos pouco mais abstratos, esse trabalho
corresponde a uma busca de equivalência entre sintaxe e ritmo, condição necessária
para se depreender as compatibilidades entre as duas faces da canção (TATIT, 1997,
p.87).
Dentro do mesmo assunto, sobre a relação entre letra e melodia, citada por Tatit,
Roland Barthes lança um questionamento sobre a forma como a língua é usada: “Como
procede, então, a língua, quando deve interpretar a música?” (BARTHES, 1990, p. 237)
Segundo ele, muito mal, pois os críticos musicais avaliarão a obra (ou a sua execução) pela
categoria da linguística mais pobre: o adjetivo. É fato que quando tomamos a arte como tema,
segundo Barthes, tem-se que “atribuir-lhe um predicado”. Mediante essa ideia de predicado,
ele criou um conceito sobre a voz. Ele denominou de “o grão da voz” para designar quando a
voz tiver uma postura dupla: de língua e de música. Para ele “o grão seria: a materialidade do
corpo falando sua língua materna: talvez a letra” (BARTHES, 1990, p. 239).
Na música, segundo Roland Barthes, a voz grave de um baixo russo não é individual e
nem possui “personalidade”, mas é um corpo separado, e “esta voz transporta diretamente a
Passa-se a ser utilizados recursos comunicativos para expressar diversas formas de expressão,
desde as mensagens políticas até às amorosas, que ganhou bastante espaço dentro do universo
cancional.
Para não haver um hiato temporal imenso, vejamos o que ocorreu com as melodias
O século XX foi um período bastante fértil para a canção brasileira, veja o que diz
Tatit (2008):
a ser uma forma bastante utilizada pelos músicos brasileiros. Comecemos então, discutindo
sobre esse assunto citando exemplos de músicas7 que receberam ao longo dos anos uma letra,
tendo como consequência disso a sua transição para a canção. O primeiro compositor de
música a ser abordado nessa dicotomia música/letra é Pixinguinha. Tatit afirma que:
Desse célebre compositor de temas melódicos, temos como exemplo três músicas que
receberam letras: Rosa, Carinhoso e Lamento. Rosa, uma de suas primeiras músicas gravadas
recebeu letra, segundo Tatit (2008), de Cândido das Neves, herdeiro da poesia romântica. No
caso das outras duas, Carinhoso esperou 20 anos pela letra de João de Barro e Lamento, 30
São famosos os casos de “Carinhoso”, que esperou 20 anos para ganhar letra de João
de Barro, e de “Lamento” que, só depois de 30 anos, recebeu versos de Vinicius de
Moraes. Era como se as próprias melodias hesitassem entre permanecer como obras
musicais ou converter-se em canções. Nesse sentido, representavam bem a atuação
de seu autor no panorama sonoro da década de vinte: Pixinguinha cuidava do lado
7
Música é posta aqui no sentido de tema melódico, aquela em que não há a presença de letra, isto é, como ela é
chamada atualmente de música instrumental.
90
Ernesto Nazareth, que recebeu letra de Vinicius Moraes depois de alguns anos. Outro grande
instrumentista que recebeu letras para suas músicas foi o maestro Heitor Villa-Lobos. A
belíssima música O Trenzinho do Caipira recebeu letra do poeta Ferreira Gullar e a não
menos bela Melodia Sentimental foi letrada por Dora Vasconcelos. Sivuca, sanfoneiro de
recebeu, na música João e Maria, uma letra de Chico Buarque de Holanda, que, de tão
singela, faz aparentar que melodia e letra foram feitas ao mesmo tempo.
91
podemos citar também poemas que receberam melodias. Caetano Veloso, compositor baiano
poeta Inglês John Donne, que está presente no disco Cinema Transcendental (1979); o poema
“O amor”, do russo Vladimir Maiakovisk, gravado por Gal Costa no disco Fantasia (1981),
por Cida Moreira, em Abolerado Blues (1982) e por Renato Braz, no disco História Antiga
(1998); e, por último, o poema “O pulsar”, de Haroldo de Campos, que faz parte do disco
Velô (1984). Chico Buarque musicou o longo poema Morte e Vida Severina, de João Cabral
de Melo Neto, e o próprio Arnaldo Antunes musicou um poema de Augusto dos Anjos,
chamado “Budismo Moderno”, e teve poemas seus musicados por Jorge Ben Jor, como “As
árvores”, e “As coisas”, por Gilberto Gil, presente no disco Tropicália 2 (1993), ambos são
Diante de todos esses exemplos, podemos constatar que muitos puseram letras em
poema e canção serem feitos pela mesma pessoa. A esse fato não costuma ser abordado com
grande relevância nos estudos sobre a canção, principalmente quando o compositor já era
reconhecido como poeta, o que é o caso, por exemplo, de Vinícius de Moraes, cujas canções
são bastante difundidas. No caso de Arnaldo Antunes, o processo é diferente, uma vez que ele
se destacou como compositor e apenas posteriormente sua atividade poética ganhou o público.
Arnaldo Antunes colocou melodia em alguns de seus próprios poemas, como também
transformou em poema uma letra de uma canção sua como no caso de “O quê?”, que está
presente no disco Cabeça Dinossauro (1986) dos Titãs e também no livro Psia (1986), que já
A partir dessas informações, passaremos a analisar inicialmente dois dos textos que
fazem parte do recorte escolhido para a feitura dessa dissertação que exemplificam bem o
caso dos poemas que foram musicados, mas não pelo próprio autor, e sim por outras pessoas.
Vale lembrar que, a partir de agora tentaremos juntar as análises, como foi explicado
inicialmente. Cada texto será vista pelo viés da semiótica Peirciana como também pela análise
baseada na noção de narratividade actancial de Greimas, junto a um estudo musical que foi
próprio poeta, além de criar o texto, ser o compositor da música que resulta numa canção.
Além de Arnaldo Antunes, podemos citar o caso de Paulo Leminski que também criou e
musicou alguns de seus poemas, como, por exemplo, a canção “Verdura”, gravada por
Os textos foram organizados na mesma ordem das análises que fizemos com os
desenhos. A ordem foi escolhida primeiramente pelos três poemas-cantados que foram
musicados por outros compositores; e os outros três, musicados pelo próprio Arnaldo
Antunes, seguem a ordem estabelecida por ele no livro As coisas. O primeiro poema-cantado
a ser analisado chama-se As árvores, e foi musicado por Jorge Ben Jor.
93
3.4 AS ÁRVORES
IMAGEM 11
Título: As árvores
Fonte: Antunes (2002, p. 35)
94
dos versos e das rimas, ele organizou o poema como um bloco, em texto cursivo. A presença
O poema não traz um eu lírico explícito. Ao contrário, mais parece ter um narrador em
terceira pessoa explicando a existência das árvores, como elas vivem, para que servem, dentre
como o estudo do ritmo, da métrica e da rima. Explicaremos aqui estes três conceitos e
faremos as análises de forma conjunta. A explicação servirá como base para os seis poemas,
visto que procederemos a mesma análise neles todos, no que concerne ao assunto poesia.
Iniciaremos explicando o ritmo. Para Décio Pignatari “Ritmo é um ícone que resulta
No último caso, ele diz que a rima é a “semelhança de sons que se acoplavam
verticalmente no final dos versos. Pela estatística da língua, informam menos os sons mais
previsíveis (rimas em ar, ão, eira, osa, etc.)” (PIGNATARI, 2004, p. 37).
Para a análise ficar mais clara, apesar de o poeta não ter feito dessa forma,
poéticas compostas das seguintes formas: 4 versos de quatro sílabas, 5 versos de cinco sílabas,
1 verso de seis sílabas, 4 versos de sete sílabas, 4 versos de oito sílabas, dois decassílabos, e
dois versos alexandrinos. No que tange ao estudo do ritmo do poema, percebe-se que as
sílabas tônicas coincidem sempre nos mesmos lugares, fazendo com o que poema mantenha
Apesar da estruturação clássica do poema feita por nós nesse trabalho, vale salientar
presente no livro O ser e o tempo da poesia (2000), quando ele diz que apesar de podermos
sempre refazermos o esquema métrico de um poema, o seu contexto é sempre mutável. Ele
diz que
primeiridade. Iremos mostrar como é bastante recorrente o caráter icônico dentre deste poema
e do restante de nossas análises. Antunes inicia o poema afirmando que “as árvores são fáceis
de achar” e explica que o motivo é porque elas “ficam plantadas no chão”. Nesta expressão,
plantadas, observa-se uma analogia, para tentar explicar a visão de mundo tentando se
aproximar ao máximo a um universo que tenta se igualar à forma de pensar de uma criança,
pois essa forma de pensar, ligada a uma não racionalização, ocorre principalmente quando nós
não refletimos sobre aquilo que estamos dizendo, exatamente quando deixamos o nosso
Se fosse possível parar, para examinar, num determinado instante, de que consiste o
todo de uma consciência, qualquer consciência, a minha ou a sua, isto é, de que
consistisse esse labiríntico “lago sem fundo”, num instante qualquer em que é o que
é, porque é tudo ao mesmo tempo, repito, se fosse possível parar essa consciência no
instante presente, ela não seria senão presentidade como está presente. Trata-se,
pois, de uma consciência imediata tal qual é. Nenhuma outra coisa senão pura
qualidade de sentir. A qualidade da consciência imediata é uma impressão
(sentimento) in totum, indivisível, não analisável, inocente e frágil (SANTAELLA,
1983, p. 43).
97
É a partir dessa ideia de que a primeiridade é uma impressão inocente e frágil que
associamos a produção dos poemas de Arnaldo Antunes como uma tentativa de se igualar a
Sobre isso que afirma José Paulo Paes, podemos afirmar que Antunes tentou se
aproximar desse ser com características psicológicas próprias para a produção do seu livro as
coisas e por conseguinte do nosso objeto de análise escolhido. Assim sendo, tentaremos
analisar os poemas selecionados com o máximo de atenção para vermos onde e como ele
consegue atingir esse grau de infantilidade e de primeiridade nos seus poemas feitos a partir
língua portuguesa, plantado compartilha o mesmo sema com parado ou imóvel. A analogia
do primeiro par de versos é baseada numa lógica infantil, mas o resultado dessa construção,
serem fáceis de achar, transformando o ícone em índice, mas lembrando que nós estamos
analisando o signo com o seu objeto, por isso a primeiridade não se faz presente. No signo em
planta possui de receber a luz do sol para praticar a fotossíntese. A partir dessa analogia da
árvore com um ser humano, ou melhor, com uma criança pequena, que necessita de cuidados,
como a fotossíntese, numa linguagem infantil. “Cantam no vento e recebem a chuva de galhos
abertos” demonstra que, como um ser humano, elas se divertem e têm gratidão pelas coisas
que lhes fazem bem. Galhos ocupam metaforicamente o lugar de braços, pois como sabemos
a expressão braços abertos indica que o ser humano está receptivo a algo ou alguém,
No verso seguinte, “há as que dão fruta e as que dão fruto”, vemos uma alusão à
maternidade animal, que é capaz de gerar seres do sexo masculino e feminino, mostrando que
as árvores assim como nós, também têm essa capacidade. Evidentemente, essa é também uma
simplificação em linguagem “infantil”, uma vez que, a questão do gênero, presente também
nos vegetais, não se determina da mesma forma como ocorre no reino animal. Além disso,
como sabemos, fruta e fruto não são palavras que representam dois gêneros distintos, sendo a
forma feminina apenas uma designação popular, no português, para os frutos adocicados que
consumimos in natura.
Neste trecho: “As de copa larga e as que habitam esquilos.” “As que chovem depois da
chuva, as cabeludas.” “As mais jovens; mudas” vemos uma tentativa de explicar que, como
nós, as árvores são de diferentes tamanhos, abrigam outros seres junto de si, têm diferentes
idades e sentimentos, não apenas alegrias, chover depois da chuva significaria talvez um
choro ou tristeza, ou simplesmente o fato de, depois de terminada a chuva, algumas árvores
continuarem pingando as gotículas da chuva. Essa impressão talvez se dê por causa da leve
impressão de que as gotas sejam lágrimas, pois como não há mais chuva, parece que é a
“Crescem para cima como as pessoas.” “Mas nunca se deitam.” “O céu aceitam.”
Estes versos confirmam a ideia que Antunes tenta situar a existência das árvores comparando-
o com o desenvolvimento humano. Quando diz que elas nunca se deitam, cria no poema uma
dúvida acerca da existência, pois “se deitar” para um humano pode caracterizar morte, e que
elas aceitariam melhor essa condição de morte, se tomarmos a ideia de aceitar o céu como
aceitar a morte.
Nesta passagem esta ideia ganha corpo: “Crescem como as pessoas, mas não são soltas
nos passos.” “São maiores mas ocupam menos espaço.” As árvores são como os seres
humanos, nascem, se alimentam, se nutrem da terra como nós, mas não possuem o direito de
ir e vir, ou o livre arbítrio para fazerem o que quiserem e, mesmo sendo maiores que os
homens, ocupam menos espaço, pois elas não devastam a raça humana para ocupar o seu
Em relação à forma como foi musicada, percebemos que Jorge Ben Jor, tentou
exprimir no poema “As árvores” uma musicalidade linear, para caracterizar uma melancolia,
quer expressar uma impressão acerca de algo presente na natureza e para isso utiliza-se da
figura das árvores (Sujeito). O seu objetivo é falar da própria Natureza (Objeto), para atingir,
conseguir isso, “As árvores” têm como aliados os elementos da natureza (Ajudantes) e no fato
análise do texto a melodia, observando o que ela pode nos acrescentar como objeto
Inicialmente, podemos dizer que música foi feita em tom menor, tonalidade que é
utilizada “geralmente” pelos compositores para a expressão de temas mais tristes e densos.
Não que tons menores não abordem também temas alegres, mas uma nota em tom maior
possui uma melodia aberta e limpa. Já o acorde menor quando diminui em um semitom uma
das notas da tríade, provoca uma tensão sonora, que dá um caráter mais pesado ao acorde,
Essa canção é baseada naquilo que Luiz Tatit denominou de tematização, pois os
temas melódicos se repetem e são dotados do mesmo desenho melódico. Voltamos a tratar do
assunto aqui, por ser algo que ocorrerá com bastante recorrência em nossa dissertação. Por
isso explicaremos melhor o que é tematização, a partir das palavras do criador desta teoria,
Luiz Tatit:
narrativo para o nível do discurso. Essa é a explicação de Tatit para o termo “atorializado”,
101
fi ta no e la
há e
de pa
Notamos que Jorge Ben Jor economizou nos elementos melódicos, pois em “As
árvores” a ocorrência dos temas melódicos é bastante repetitiva, tornando-se clara a presença
da tematização.
Os picos das notas agudas se repetem, ou seja, são raros os casos em que a mesma
altura de uma nota não seja repetida por uma logo em seguida, mantendo assim a estrutura de
8
Cada espaço entre as linhas corresponde a um semitom, portanto a totalidade dos espaços representa o campo
de tessitura disponível para o canto no âmbito de uma obra determinada. Esse modelo foi criado por Luiz Tatit e
é iniciado pela nota Mi contando o primeiro espaço de cima para baixo em uma sequência descendente, ou seja,
das notas agudas para as mais graves.
102
As
com a natureza, mas no fim da terceira sequência começa a ser estabelecida a relação entre o
sujeito e o anti-sujeito, que no caso dessa canção é o fato das árvores não possuírem uma
mobilidade. O poeta começa a mudar o percurso narrativo de uma mera explanação sobre as
Quando a canção chega à parte que diz que “as árvores ficam paradas”, percebemos a
mudança no tom discursivo do poeta. Ele passa claramente de uma estrutura tematizada para
uma passionalização, abstraindo o fato de as árvores serem imóveis e não terem outra opção,
Esta parte da canção não permite uma interpretação baseada em uma visão alegre, pois
mesmo tendo sido composta em um livro de poemas infantil para tentar explicar o
funcionamento das coisas do mundo, tanto o poema quanto a melodia têm um tom reflexivo.
103
Nota-se, que as melodias mais densas e que possuem um caráter mais triste tendem a
manter várias palavras em uma mesma nota, causando com isso um efeito de linearidade
reflexiva proposital, para representar o caráter imutável de algumas situações que ocorrem na
vida.
na céu
la nun se a
Mas
Como dissemos, é a partir do fim da terceira sequência, continuando nesta, que temos
a mudança para um estado passional. A partir da comparação das árvores com os seres
humanos o poeta cai em si quanto a questão do falta de mobilidade que uma árvore possui,
diferentemente de nós, humanos, o único lugar para onde elas podem ir é para cima, não tendo
outra opção a não ser aceitar o céu, crescer como as pessoas, mas sem poder ir para lugar
o pam
Mas
104
Essa frase sintetiza tudo o que estamos dizendo sobre o compadecimento do poeta:
apesar de crescerem, terem vida igualmente aos seres humanos, elas “não são soltas nos
passos”, e ele termina dizendo que, apesar de serem maiores que nós, elas não ocupam tanto
espaço assim. Na parte adicionada à canção, Antunes pede perdão as árvores, de maneira
metafórica por todo o mal que o homem lhes causou, comprovando a passionalização no
poema-cantado.
dão co que eu se a
pelo ra em cê no
vo com o me do
Per
Ao pedir perdão, o poeta ratifica tudo o que dissemos no decorrer das análises dos
movimentos melódicos. Ele absorve o sofrimento e passionaliza uma canção que tem por
constantes sem alterações bruscas, fazendo um movimento linear que permeia todo o poema-
cantado.
105
3.5 AS COISAS
IMAGEM 12
Título: As coisas
Fonte: Antunes (2002, p. 91)
106
Tema que dá nome ao livro, “As coisas” é um conjunto de ideias num poema que
trabalha com diversas formas de significação. Assim como o poema anterior, “As coisas”
metodológicos que serão utilizados na análise do poema, partindo diretamente para a análise
Antunes.
cheiro,valor, (D) 4
função,aparência, (G)
O poema foi feito baseado em versos livres, embora a partir da nossa organização
profundidade). Quanto à metrificação temos: um verso de três sílabas, quatro versos de quatro
Quanto ao ritmo, percebe-se que as sílabas tônicas mantêm uma constância que permite ao
leitor sentir o movimento das analogias feitas por Antunes. Sobre isso Bosi diz que
A forma do poema, quando vista nas suas constantes (nomes concretos, figuras,
recorrências de som...), talvez seja uma sobrevivência de esquemas corporais
antiquíssimos. O que já exerceu uma função coesiva nas comunidades arcaicas
reproduz-se com funções análogas, no produto poético individual. Os cantos
sagrados eram emissões da voz e do corpo inteiro em que se repetiam e alternavam
expressões de encantamento, fusão afetiva com a comunidade, aleluia ou
esconjuro. A comunidade era possuída pela voz e pelo gesto com que impetrava as
forças divinas espalhadas pela Natureza. Na poesia, esse movimento sobrevive na
dinâmica da forma que realiza exercícios de analogia entre os seres ( pela
metáfora) ou de contiguidade (pela metonímia). E a dança em círculo cumpre-se
no eterno retorno do ritmo (BOSI, 2000, p. 143).
Por causa das analogias utilizadas por Antunes e explicitadas por Bosi, observa-se que
a primeiridade se faz presente no poema “As coisas”, pois a reflexão sobre o assunto é feita
de uma forma primária, ligada a uma noção primeira sobre o termo. Podemos dizer que ele
vai buscar na enumeração dos conceitos um pré-conceito para o termo, ou uma explicação
bastante ligada a uma cognição ligada a um sentimento puro. Para nós, o poema como um
todo representa uma personificação, ou até mesmo uma humanização dos objetos
diversos objetos e seres do mundo. Quando Arnaldo Antunes começa a descrever tudo aquilo
que as coisas possuem, ele transporta o leitor para uma ideia material, associando “As coisas”
a objetos, mas na verdade ele nos mostra em alguns trechos do poema uma tentativa de
personificação.
108
Ao afirmar que “as coisas não tem paz”, Antunes busca uma aproximação com a
realidade humana, pois ele sabe que os objetos possuem várias características, que também
A afirmação de Umberto Eco nos mostra que a nomeação das coisas só se tornará
carregada de sentido depois que um conceito do signo for formado. “A função da enunciação
enquanto ato é constituir a manifestação do discurso em forma de texto, isto é, sob a forma de
Baseado no desenho feito por Rosa Antunes, acreditamos que, como no poema
tivemos a impressão de visualizar um humano de cabeça para baixo. A partir disso, após todas
as descrições de forma primitiva, feitas por Antunes, ele finaliza com a expressão “as coisas
não têm paz”, ainda que carregada da profundidade que sugere o significante “paz”.
Dentro dessa lógica, sendo as coisas, objetos que possuíam todas aquelas
características, partindo da analogia que é a forma como a criança pensa sem interferências,
dizer a frase desse modo é como se ele tivesse dito, coitados! , meio que se compadecendo da
dor do outro, ou seja, se houve esse compadecimento, não houve reflexão sobre o que estava
sendo dito, prestou-se atenção somente na analogia, logo, o pensamento não foi racionalizado,
que nós estamos analisando os poemas baseados apenas no que eles nos dizem, na tentativa de
tentar encontrar a recorrência da hipótese do nosso estudo, que nos propusemos a analisar.
109
A canção feita para este poema traz uma musicalidade bem constante e acordes
descendentes. Este poema foi musicado por Gilberto Gil, e teve a gravação da canção
compondo o disco Tropicália II, trabalho de 1993, em parceria com Caetano Veloso.
(Destinador) expressando sua impressão sobre os várias formas que os objetos (Objeto)
presentes no mundo possuem, representados na figura das coisas (Sujeito), a reflexão tem
bastante do modo de pensar das crianças. “As coisas” não possui aliados (Ajudantes) e tem na
“falta de paz” (Oponentes), o seu anti-sujeito. O Esquema Greimasiano desse poema seria:
traz no seu arranjo inicialmente um violão de nylon servindo de base, junto a um solo de
guitarra ligada a um pedal de efeito. Ao longo da canção, são adicionados um piano e uma
volume ração
pois o compadecimento presente no final do texto não é suficiente para transformá-lo numa
Con tência
sis
Profun
tempera ção
dida tu
de contorno ra fun
Podemos perceber como a melodia continua levando a letra para uma escala
descendente, causando inquietação ao ouvinte, em entender por que uma canção que não tem
grandes variações tende tanto para a altura do grave. Os desenhos melódicos vão se repetindo,
111
mudando apenas o que é dito. Talvez isso tenha sido feito propositalmente por Gilberto Gil,
Esse texto, assim como o livro As coisas, busca um diálogo com os leitores,
demonstrando certa ingenuidade, mas, na verdade, tenta dialogar com as coisas do mundo,
nossa noção sobre o conceito real que as coisas possuem. Segundo Alfredo Bosi (2000, p.38)
responsável pelo peso da matéria que dão ao poema as metáforas e as demais figuras”. Pelo
que se pode perceber, a canção só esboça um caráter passional no último verso, confirmando a
ideia de personificação de que “as coisas não têm paz”, assim como nós humanos, mas em
a rência sen
pa ti
pa pa
do não têm az. não têm az.
preço
As coisas As coisas
desti
no idade
possuir ajudantes, “As coisas” nos passa uma imagem de imutabilidade, de coisas estanques,
que não mudam, apenas sofrem por causa do destino que tiveram, pois mesmo tendo todas as
características dos seres humanos eles sempre continuarão coisas e, como diz o poema-
3.6 UM CAMPO
IMAGEM 13
Título: O campo
Fonte: Antunes (2002, p. 19)
113
novamente uma estrutura prosaica no que tange ao aspecto visual ou tipográfico do poema.
Como estamos utilizando sempre os mesmos parâmetros, vamos direto à análise dos recursos
desse poema.
De acordo com a nossa organização dos versos, vimos que as rimas são emparelhadas
(A,A), nos dois primeiros versos, e, nos três últimos, apresentam uma rima intercalada (B, C,
B), sendo AA rimas soantes e BB rimas bastante simples. O poema possui sílabas poéticas
Neste poema-canção há duas palavras que carregam uma carga semântica duplicada,
que são “campo” e “terra”. Essas palavras possuem sentidos de similitudes e oposição dentro
a semiótica de hoje considera que qualquer momento da cadeia discursiva pode ser
enfocado como um ponto tensivo em que colidem forças antagônicas representadas
pelas categorias (ou valências) intensidade /vs/ extensidade.” (TATIT, 2004, p. 121)
A partir da metade do poema, terra e campo ganham novos significados: terra vira
sinônimo de chão e campo deixa de ser vasta área territorial, para significar área delimitada
pelo alcance da vista. Este jogo semântico provoca uma reflexão no que diz respeito às
palavras, haja vista que o livro trabalha com uma temática infantil de descoberta das coisas do
114
mundo, apresentando “as coisas” dentro de um prisma privilegiado de quem conhece a língua,
Partindo do princípio de que é com a palavra que se começa a compreender tudo que
nos rodeia, temos no livro uma proposição lúdica sobre a ideia de reconstruir o sentido das
palavras, buscando dialogar com o universo de compreensão de uma criança, sobre a sua
A obviedade da expressão um campo tem terra nos permite dizer que a construção
desse poema é toda baseada na primeiridade, pois dizer esse verso dessa forma não tem
reflexão, e sim uma demonstração de que o poema foi criado baseado em primeiras
impressões , que são características do discurso infantil, cujo domínio da linguagem ainda não
existe.
Os versos seguintes confirmam o que acabamos de dizer, pois mesmo sendo visto de
uma forma indicial, quando nos referimos ao objeto, no caso o poema, no momento de sua
produção, ele foi fito de forma icônica, ou apresenta apenas uma qualidade de sentimento, ou
que conhecemos por quali-signo, um signo dotado apenas de qualidade de sentimento, sem
reflexão.
estão plantadas nele (Objeto); o tema quer alcançar os leitores e os ouvintes (Destinatário). “O
campo” não possui aliados (Ajudantes) e tem na dupla semântica das palavras campo e terra
Temos aqui uma outra narrativa que compara uma coisa a um ser humano. O objeto
que são as coisas que foram plantadas na terra, por não ter ajudantes, tem apenas o dilema
entre as mudanças de sentidos das palavras campo e terra. Temos na figura da personagem
uma comparação semântica com uma qualidade inerente a um ser vivo que é a visão. No que
diz respeito ao resultado melódico que a canção proporciona, nesse poema-canção, temos o
permite-nos afirmar que ocorreu uma figurativização nesse trecho. Sobre essa teoria Tatit diz
que:
Ele trabalha no diagrama abaixo, com a sua tessitura aguda, porém passeia também
que cada pulsação da música se assemelha ao movimento de uma pessoa subindo e descendo
canção.
Diagrama 10 – O Campo
coi cam
Um te E sas ta A te de É se se o po
de
visão.
As notas agudas servem para dar ênfase ao elemento coisas, que é a palavra chave do
livro, e campo, que é o elemento chave do poema. Na região média, estão as palavras
palavra campo quando esta assume um novo sentido em oposição a campo, presente na região
aguda, mostrando assim que houve uma mudança de sentido na palavra. A instrumentação foi
feita apenas com um violão de nylon sendo executado de forma ininterrupta, dando um pouco
de ênfase aos bordões do violão. A execução é feita de tal forma que, em alguns momentos,
3.7 CULTURA
IMAGEM 14
Título: A cultura
Fonte: Antunes (2002, p. 51)
118
monádicas ou simples, em que os elementos são de tal natureza que poderiam ser o que são
sem inconsistência, ainda que nada mais houvesse na experiência” (PIGNATARI, 1979, p.
22). Assim como os demais, a sua estruturação é prosaica, embora dentro de uma organização
Vejamos:
Podemos observar que este é o primeiro poema do nosso estudo que estabelece uma
relação quase perfeita no que se diz respeito a presença da estrutura de rimas, ritmo e métrica.
Quanto à rima, todas as sequências têm versos com rimas emparelhadas (A,A; B,B; ... J,J),
com dois casos de rimas soantes: porco (E), que é um anagrama de corpo (E) e que mantém a
mesma posição e a mesma sonoridade das vogais; e seiva (G), que não chega a formar uma
rima soante perfeita com zebra (G), devido ao ditongo /ei/. Afora esses dois casos, todas as
outras rimas são consoantes, sendo esta a tônica do esquema rímico do poema.
A metrificação foi toda composta por versos decassílabos, sendo todas as palavras
finais dos versos paroxítonas, o que faz sempre restar uma sílaba átona, que ganha um relevo
importante no ritmo do poema. O ritmo pode ser considerado como ternário ascendente. Com
isso, o poema “Cultura” nos mostra que foi construído de forma bastante precisa, no que se
refere aos recursos técnicos que compõem a feitura e elaboração de um poema, pois as
acentuações fortes foram marcadas em todos os versos nas terceira, sétima e décima sílabas
poéticas. Destaca-se, ainda, no último verso, a necessidade de se contar a letra muda “c” como
Nesse texto, fica evidenciada a tentativa de buscar ao máximo uma lógica textual
infantil, pois, no que diz respeito à linguagem, as expressões são claramente produzidas
delineando novos conceitos para coisas banais, ou seja, ele joga ao vento as proposições na
primeiridade nesse poema, pois ele nos leva mais a um estado reflexivo do que cognitivo de
primeiras impressões? A resposta está no próprio poema. Ele não é nada mais do que um jogo
estamos pensando baseado em primeiridade, mas Antunes, durante a produção, fez uso dessa
Somos nós, os leitores, ao buscar os termos da comparação, que damos o caráter reflexivo
para ele. Sozinho, o poema é um conjunto de proposições feitas a partir de metáforas que mal
escondem as comparações claras que trazem, bem próximo ao que foi feito por Rosa Antunes
nos desenhos do livro. Apesar de ser o poema que mais se aproxima do conceito de
primeiridade, podemos afirmar que ele só faz apresentar um exemplo do funcionamento desse
conceito, uma vez que a comparação que sustenta cada um dos versos já é um passo largo
rumo à terceiridade. Mesmo porque, ainda que na lógica infantil, ao comparar “girino” e
cadeia (sapo), que é o detentor do ponto de vista no verso, a suposta criança que poderia ser
linguagem.
A nova definição criada por Antunes faz com que se reflita sobre a maneira de ver as
coisas do nosso redor pela primeira vez, na tentativa de exercitar, através desses exemplos, a
nossa capacidade de sempre querer encontrar um por que para tudo que está a nossa volta.
leitão é um porquinho mais novo percebemos o quão ingênuas parecem estas proposições,
mas sabemos que seu criador de ingênuo não tem nada e que ele nos faz aceitar como discurso
infantil uma exemplificação do que poderia ser uma “linguagem da primeiridade” que não faz
apresentado por Saussure. O poema “Cultura”, segundo Antônio Fernandes Júnior, também
121
circunstâncias de lugar e verbos de estado ou de percepção, como ser, ter, ver’” (BORDINI,
proposições. Como disse Frigeri Berchior, citado na parte em que analisamos os desenhos,
temos no poema “Cultura”, um jogo lúdico do qual o leitor também faz parte. Sobre isso,
Esse jogo lúdico que foi proposto no poema é baseado em primeiridade e essa busca
pela primeiridade é algo extremamente difícil de se fazer para nós adultos, e para Arnaldo
Antunes não foi diferente. Em entrevista anexada ao final da Antologia Como é que se chama
o nome disso (2006), Antunes fala desse projeto do livro As coisas e os motivos que o
As Coisas , na verdade, eu comecei ele muito inspirado por essa coisa do olhar
infantil; acho que a convivência com minha filha Rosa, que era pequena nessa
época, foi trazendo isso, que aparece de forma mais rarefeita, na minha poesia de
uma maneira geral, nas letras de música, nas coisas que eu produzo (...) Tem um
livro do Foucault, As Palavras e as Coisas, onde, na introdução, ele cita um texto do
Borges em que se vê esse êxtase infantil com as analogias; uma classificação de
animais em que ele separa os que pertencem ao imperador, os domesticados, os
fabulosos, as sereias, os embalsamados etc. Esse texto tem muito a ver com a
maneira com que eu faço associações inusitadas, no As Coisas (ANTUNES, 2006, p.
372/373).
Antunes afirma que foi no texto de Borges que buscou inspiração para a criação dessas
associações inusitadas. Daí o fato de as ilustrações representando animais, feitas por sua
filha, combinarem bastante bem com os textos criados, pois elas correspondem a essa lógica,
122
aparentemente ilógica, inspirada pela lista fantástica de Borges. E, talvez, também daí tenha
surgido a noção de Cultura criada por Antunes nesse poema, prefigurando conceitos sobre
outras funções relativas à vida dos animais. Sobre cultura, Foucault diz que:
A partir dessa citação, extraída de um texto que o próprio Antunes diz conhecer,
podemos observar que o nome do poema não foi escolhido por acaso, e a presença de
analogias com animais ocorreu por causa do texto de Borges, com isso, a produção do poema
foi baseada em um êxtase infantil como disse o próprio Arnaldo Antunes, confirmando a
nossa ideia de que existe primeiridade no processo de criação dos poemas, não só neste, mas
Antunes, dentro de um campo sêmico dos animais. Não há portanto neste texto, a presença de
ajudantes ou anti-sujeitos. O que podemos perceber é que Antunes cria uma sequência
Neste texto o leitor é levado a entrar no jogo sem opções, pois o texto flui com uma
naturalidade que envolve tanto o leitor quanto quem ouve a canção. Na primeira parte da
comparações que resultam em constatações, das quais a figura dos animais é posta em
situações extremamente inerentes ao humano, criando com isso uma humanização dos seres
xi do me do O ca do ra
rino é o pei nho sapo. lêncio é o co ço papo. valo é pasto car pato.
do
O O
melódicos vão se repetir por todo o poema-canção. Assim, com base na teoria de Tatit, vemos
um novo processo de tematização, que, pelo que nos começa a parecer, é algo recorrente nas
que diz respeito ao nosso corpus: todos têm como característica principal, quando falamos de
melodia, a tematização.
novo.
124
Antunes que estão sendo analisadas por nós, em “Cultura” observa-se que, apesar de os
também da figurativização, pois em vários trechos da parte cantada, assim como ocorreu no
A ga qui do
ovo.
oralidade na interpretação feita por Arnaldo Antunes. Quem traz o caráter musical e
tematizado a ela é a cantora Marisa Monte, que participa da gravação, cantando junto a
de uma sereia, dentro da visão trazida a nós pela cultura cinematográfica e por outras
interpretações dessa cantora. Dessa forma, com esse auxílio, Antunes mais parece um
Quando ouvimos a execução da música, que está no disco Nome (1993), essa ideia se
confirma, mas se ouvirmos a versão gravada no disco Canções curiosas (2002), que faz parte
do projeto Palavra Cantada, organizados por Paulo Tatit e Sandra Peres, essa noção de
125
oralidade fica mais difícil de se observar, pois nesta versão temos um grupo de crianças que
imprimem muito mais melodia nas proposições. Embora estabeleça essa diferença na
interpretação, a canção, mesmo em outra versão, continua expressando, ainda que em menor
Como, em teoria, o projeto do livro As coisas foi focado no público infantil, talvez a
intencionalidade de fazer a música de uma forma quase que oral tenha se dado pelo fato de
crianças prestarem mais atenção em histórias quando elas se assemelham a narrativas. E qual
a representação maior de uma narrativa quando nos referimos às crianças? É justamente a das
histórias que lhes são contadas antes de elas dormirem. Se uma canção consegue ganhar esse
status, ela vai ter um objetivo: que tudo o que foi dito não se perca na cabeça do ouvinte como
simples lembrança melódica, mas que junto a essa lembrança, também permaneça o que está
sendo dito:
Nada facilita mais a memorização das narrativas que aquela sóbria concisão que as
salva da análise psicológica. Quanto maior a naturalidade que o narrador renuncia às
sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte,
mais completamente ela se assimilará à sua própria experiência e mais
irresistivelmente ele cederá à inclinação de recontá-la um dia. Esse processo de
assimilação se dá em camadas muito profundas e exige um estado de distensão que
se torna cada vez mais raro. Se o sono é o ponto mais alto da distensão física, o tédio
é o ponto mais alto da distensão psíquica. O tédio é o pássaro do sonho que choca os
ovos da experiência (BENJAMIN, 1985, 204).
É óbvio, que com os recursos tecnológicos existentes no planeta atualmente, para que
uma criança fique com tédio não é muito fácil, entretanto é apenas a partir dele que nós,
humanos, começamos a refletir sobre o mundo e as coisas que nos rodeiam. Como contar
histórias para dormir é algo inerente aos muito pequenos, pois ao completar certa idade muitas
crianças querem logo adentrar no universo adulto, para que uma história guarde seu caráter de
prosa, mesmo em forma de poema ou de canção, atingindo esse público, ela deverá atraí-los e
é por esse motivo que Arnaldo Antunes progrediu do livro As coisas para o projeto
Multimídia do Nome. Nele todos os recursos táteis, audíveis e visuais foram utilizados de
126
uma maneira única, tentando atingir, com a mesma ideia, pessoas que se interessassem pelas
mais diversas formas de veiculação da arte. Como disse Benjamim, o tédio não existe mais
Como a arte faz parte da cultura, a tentativa de Arnaldo Antunes, retomando o texto de
Jorge Luís Borges e tentando permanecer na memória das pessoas a partir de uma nova
maneira de assimilação de mensagens, vê-se que ele não se valeu apenas da ideia de Walter
Benjamin, segundo a qual a transmissão das ideias só poderia se efetuar mediante a oralidade
sobre as coisas.
O poema-canção “Cultura” não é apenas um simples texto criado para ser ingênuo.
Ele foi feito baseado nas noções semióticas de Peirce, que envolvem a primeiridade e a
primeira impressão das coisas, mas o conjunto da obra que continua no livro/disco/DVD
Nome, faz com que possamos refletir sobre essa imutabilidade das coisas.
Um poema pode ter características narrativas, assim como a prosa pode ter poesia. Por
isso, Antunes nos mostra que as coisas do mundo, se vistas de uma forma crítica, podem ser
muito mais do que aparentam ser, trazendo, no seu íntimo, aspectos que às vezes nem
sonhamos ou cogitamos que elas possam representar, sendo para nós, uma descoberta sobre
me do re do
sejo é o co ço corpo. dar é a ta fa porco. manso.
do
Dá para se ver que o desenho melódico do diagrama acima é igual ao diagrama 11. Já
o desenho do diagrama abaixo espelha-se aos desenhos melódicos dos diagramas 12 e 13. No
diagrama abaixo percebe-se que o texto mantém-se na mesma nota e é justo nesta parte que
sede. rede.
da me Bac
trinho é o be égua. talha é o co ço téria num meio é
zerro da cul
nia
trégua. tura.
O A
presença do terceiro modelo de construção dentro da tipologia criada por Tatit, pois A cultura,
como fora observado, traz em sua interpretação características que se aproximam da fala,
Sobre aquilo que foi dito anteriormente, sobre a diferença de interpretação que houve
um belo exercício de reflexão, trouxe-nos uma abertura sobre as várias leituras que podemos
ter sobre qualquer coisa, surpreendendo-nos com as diversas implicações teóricas que se
escondem e que vão florescendo à medida que deixamos que o texto nos guie e, como as
bactérias do texto de Antunes, nós também fazemos parte da cultura e precisamos começar a
3.8 O DINHEIRO
IMAGEM 15
Título: O Dinheiro
Fonte: Antunes (2002, p. 77)
131
associação geral de ideias. Implica ideia geral e o objeto ao qual se refere deve igualmente
implicar ideia geral. A palavra é o símbolo por excelência” (PIGNATARI, 1979, p. 30).
A palavra como representante do símbolo, pode ser vista de uma forma diferente,
mesmo ela simbolizando uma ideia ou um pensamento. Sendo o dinheiro um símbolo dentro
da perspectiva peirciana, ele irá se opor ao ícone. Vendo a palavra dinheiro como um objeto,
trazendo para nós a ideia que Pignatari conceituou anteriormente de ícones degenerados,
quando eles fazem associações por contiguidade e não por similaridade. Para chegarmos a
O poema apresenta uma estrutura de versos livres, com diferentes tamanhos e ritmo
alternado. Quanto à sua metrificação temos: 1 verso de quatro sílabas, 1 versos de cinco
14 sílabas poéticas.
acerca do dinheiro (sujeito) que é o tema de sua estrutura narrativa. Continuando temos a
valoração (ajudante), isto é, quando ele tem alguma serventia. Em oposição a tudo isso há
“Dinheiro é um pedaço de papel” é a frase que sustenta o poema. Antunes toma essa
afirmação para nos mostrar o quão insignificante e frágil é o dinheiro. Primeiro ele compara o
céu físico apreendido por uma foto ao dinheiro, mostrando que, na forma de fotografia, ele
pega fogo facilmente e que tanto o dinheiro quanto a foto voltarão para o céu como fumaça.
Outra comparação é com a possibilidade de rasgá-lo como uma carta antiga ou uma foto
Antunes continua afirmando que o dinheiro é tão frágil quanto o papel, que pode ser
remendado, mas não será aceito por todos. Talvez ele queira transmitir para nós que rasuras
ou mancadas não são perdoadas por todos, como o dinheiro remendado também não é aceito.
Ele continua dizendo no poema que não se deve adquirir aquilo que não se quer, nem muito
menos guardar o que não nos serve. Vejamos como isso funciona, observando também os
céu
é um peda de pel.
de
ro é um pedaço papel. um. céu um. ço pa
nhei de O é
Di Di ro é um pedaço papel. O
Como ocorreu nos outros textos, aqui também se faz presente a figura da tematização,
pois os desenhos melódicos são bem estruturados e se repetem como tema, mostrando uma
Assim como os poemas, que possuem uma metrificação e ritimização bem linear e
regular, ao se transformar em canção, essa linearidade não se perde, pelo contrário, é algo que
A música tem batida forte de Rock, foi composta em tom maior e como já podemos
perceber, enquadra-se dentro de uma mesma estrutura linear, sem muitas alterações
134
melódicas, traço este característico do compositor Arnaldo Antunes, que privilegia bastante o
din
Pe ma
De Tam
du não ta.
mas
Aí mais.
A instrumentação tem como característica peculiar o som do violão que serve como
base em toda a canção. Junto a ele, alguns elementos percussivos, além de uma guitarra que
aparece de vez em quando com floreios de distorção. Temos, nesse texto, uma forma mais
crítica de lidar com um determinado conceito sobre coisas simbólicas do mundo, ou que
agregam mais valor em si mesmo do que a sua relação entre a noção de coisa (primeiridade) e
símbolo (terceiridade). A ideia metafísica de que o dinheiro não vai junto com o ser humano
135
para o céu, abre uma exceção nos textos ligados à primeiridade, aqui o aspecto reflexivo é
algo muito marcante para ter sido feito a partir de uma experiência cognitiva ligada apenas às
pareça ser a única figura presente na análise da melodia, percebemos que isso ocorre apenas
no aspecto estrutural na organização da melodia. Se formos nos debruçar sobre o que a letra
da canção nos diz, veremos que há, no processo narrativo, a transposição do humano quase
como uma personificação. A canção tem um tom dramático, pois o ouvinte se põe no lugar do
objeto citado, em um processo de reificação, e isto é algo que está inserido, talvez
De todas as fases por que tem passado a música brasileira em sua evolução, a mais
empolgante é sem dúvida esta contemporânea. Todas as outras foram mais ou menos
inconscientes, movidas por forças desumanas e fatais da vida, ao passo que a atual,
embora também necessária por ser um degrau evolutivo de cultura, tem a sua
necessidade dirigida e torcida pela vontade, pelo raciocínio e pelas decisões
humanas. Ela vem por isso acrescida de um interesse mais dramático, derivada da
luta do homem contra as suas próprias tradições eruditas, hábitos adquiridos, e dos
esforços angustiosos que faz para não se afogar nas condições econômico-sociais do
país, sempre na esperança generosa de conformar a sua inspiração e as
manifestações cultas da nacionalidade numa criação mais funcionalmente racional
(ANDRADE, 1991, p.25)
traz à tona um processo criativo que sai dos aspectos ligados apenas a intuição e inspiração
para um processo, como disse Andrade, em algo mais funcionalmente racional. Ainda
refletindo sobre como a inspiração funciona nos compositores, Mário de Andrade resume em
um parágrafo as suas impressões acerca do assunto trabalhado por nós nesta dissertação, que é
Em geral os nossos compositores não compõem canções pelo processo mais lógico
de as compor. Não apenas, mais raramente, eles são enganados por um efeito ou um
problema estético que o texto lhes desperta, como frequentemente se percebe que
são vítimas de uma frase melódica que o texto fez nascer neles. E é a frase melódica
surgida, que os decide compor. Não adquiriram o conhecimento íntimo do texto, não
se apropriaram dele totalmente, e já estão compondo. O resultado é necessariamente
desastroso para o desenvolvimento da canção, de cujo conceito e prática se
depreende que o texto e melodia são igualmente importantes. Se a melodia fosse
meramente instrumental, não havia mal nenhum que o compositor se decidisse a
136
dinheiro”, podemos dizer a partir das palavras ditas no trecho acima, que a noção de que a
questão.
“O dinheiro” é um texto que foge aos conceitos tratados por nós até agora, quando nos
referimos à primeiridade. Há sim uma presença icônica na produção da música, pois como
disse Andrade, sendo a composição de um tema musical algo ligado a uma associação de
primeiridade é algo que pode ser observado. Fato esse que pode ser percebido também nas
outras composições feitas por Arnaldo Antunes, até em obras que estão fora do nosso corpus.
me
gar do guar em
137
demonstrando de fato a presença da tematização observada por nós. Mas ao olharmos bem
para o texto, vemos um movimento reflexivo que leva o leitor-ouvinte para fora do que está
sendo dito, ou seja, há a necessidade de conhecimentos externos ao que está sendo dito para
presente no texto não se refere apenas ao dinheiro e sim a um conjunto de coisas à quais se
agrega valor, por isso aparecem no texto expressões como “o que não se quer mais melhor
jogar fora do que se guardar em casa”, ao falar isso Antunes nos leva a refletir sobre a noção
valorativa que está dentro de nós. Existem casos de pessoas que são tão apegadas às coisas
materiais que guardam os objetos mais inesperados, hábito que pode chegar ao extremo da
Em relação às etapas narrativas que o dinheiro (sujeito) teve que atravessar para
mostrar que o dinheiro é apenas um pedaço de papel (objeto), temos uma conclusão na
138
passagem do próximo diagrama, onde Antunes fecha o seu pensamento, até meio que
ironizando as pessoas que tem esse apego tão forte às coisas materiais. Observe:
quando se gasta. pa
pe é um pedaço de pel. ro
se va
Di Um Din não le pa
ra o
céu.
noção de valor. A ironia fica clara no verso Dinheiro não se leva para o céu, pois é a
conclusão do pensamento que foi proposto no poema-cantado. A noção de céu foi muito
eixo central da proposição feita por Antunes e sim o ser humano. Como foi dito, o dinheiro
dinheiro, na verdade, no nosso ponto de vista é apenas uma representação dos valores e
fragilidades do homem.
139
3.9 SE NÃO SE
IMAGEM 16
Título: Se não se
Fonte: Antunes (2002, p. 79)
140
lugar do “se” condicional, para que a análise seja mais bem percebida. Observe a relação entre
elas:
Pede-se.
condicionalidade expressa e que é inerente ao universo da criança, quando esta se depara com
a noção de conceitos que, de certa forma, são elementos de oposição. Mesmo tentando
estabelecer uma ideia subordinativa, Antunes mostra que ideias opostas, dentro da perspectiva
indeterminação do sujeito está em itálico. Comecemos nossa análise pela parte estrutural:
se pede. (D) 2
Quanto ao ritmo o poema possui uma constância peculiar, tem-se a impressão de uma
infinitude no seu andamento, é como se o poema fosse cíclico e não pudéssemos dizer onde
ele se inicia e onde termina. Quanto à sua estrutura métrica o poema apresenta rimas feitas
com as mesmas palavras, como A (Ganha, ganha, ganha), B (acha, acha) e C (segura, segura).
Temos, também nesse poema, signos que estabelecem relação de oposição como, por
exemplo: perder vs. ganhar, que traz à tona o sentido de “disputa”, para as palavras como
sinônimo de derrota e vitória, respectivamente; pedir vs. ganhar diferencia agora o sentido de
ganhar a ideia de vitória, pois como se antepõe a pedir e não a perder, ganhar é associado a ser
favorecido, como símbolo representativo de poder, ou seja, pedir possui o sentido contrário do
segundo sentido de ganhar, pode associar o fato à falta de dinheiro ou até mesmo a um
simples jogo de crianças em que o suposto “dono da bola” a pede quando ele não ganha ou
não participa da “pelada de rua”; perder vs. achar, temos nesta relação uma terceira
significação para perder, agora sendo sinônimo de estar perdido, ou ter perdido algo em
oposição a saber onde está ou achar algo; procurar vs. achar, neste caso temos um significado
de busca para a palavra procurar e de não encontrado para achar; perder vs. segurar, agora
perder volta a ter o sentido de perder algo, só que com uma materialidade maior, pois segurar
Partindo para a narrativa, a única conclusão que nos parece possível é a ideia de um
sujeito que está envolto numa cadeia sequencial ligada à noção de infinito, onde nada começa
e nada termina, onde não se sabe a hora de começar nem de parar, nem por onde começar nem
142
por onde terminar. Algumas dessas noções foram apresentadas na análise do desenho do
referido poema.
teoria proposta por Kristeva, de Feno e Geno-Canto, pois além do texto, mesmo não sendo
longo, possibilitar uma intenção comunicativa muito perspicaz (Feno-Canto), ele também
trabalha com a repetição de sons, preocupando-se com a intensidade sonora e a dicção destas
sequência:
Se perde se pede se perde não acha se não acha perde não segura
se se
velocidade com que uma palavra alcança a outra transforma o que está sendo dito numa ideia
de infinito, as ideias voltam na mesma velocidade em que se vão, mostrando que a troca das
posições dos conceitos propostos no poema é algo possível, imaginável e cíclico, como a
gangorra da vida.
A organização melódica que se refere a uma gangorra pelo movimento de sobe e desce
“A cultura”, pareça-nos que aqui há também a presença da figurativização, pois a forma como
ela é cantada remete um pouco aos recursos entoativos que estão na fala. Observe a segunda
parte:
se se
Vê-se, nesse diagrama, que a colocação dos acentos linguísticos, não só nesse poema-
canção como no restante dos poemas escolhidos, encaixa-se bem nas tensões melódicas.
Por ter sido por alguns anos estudante de linguística, percebemos em Arnaldo Antunes
um tratamento especial na relação quando estão juntas a palavra e a música. Talvez por isso
seja algo difícil de se observar em suas criações, pois essa relação é sempre muito bem
O texto traz proposições que não fazem nenhuma alusão externa e a harmonização da
música também não tem referentes. Os instrumentos se misturam num emaranhado de sons,
gerou esse poema-canção em que a repetição dos temas melódicos se confunde com a
velocidade do vai e vem da fala, dando-nos uma ideia de que a música e a fala unidas podem
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo de Arnaldo Antunes é algo bastante recente nos meios acadêmicos. Desse
poemas, no livro As coisas, mediante uma constituição de seu projeto literário/musical sob o
Por ser assim, acabamos nos debruçando sobre um caminho inóspito e desconhecido,
que é o estudo de um de seus livros de poesia, mais especificamente As coisas, pelo viés da
semiótica fundado por Charles Sanders Peirce e nos utilizamos também do projeto
configurar todo o potencial multifacetário de sua escritura literária e musical. Essa variação é
estabelecida através de uma linguagem híbrida a qual nos arremessa numa outra
sentimento de uma instância primeira das “coisas”, se podemos dizer assim, em aquilo que
Charles Peirce conceituou de primeiridade. Por isso, a dissertação que, inicialmente, pretendia
relações semióticas que haviam entre texto e imagem, sofreu um grande recorte que resultou
na análise de apenas seis poemas, mas em contrapartida nos abriu os horizontes para
não apenas neste livro mas em boa parte da obra de Antunes. A partir daí operamos uma
mudança em nosso projeto, assumindo esse conceito peirciano como chave para a leitura do
nosso corpus.
146
Tendo este eixo teórico como norteador, observamos também que seis destes textos
sobre a forma de canção. Ao procurarmos sobre esse fenômeno híbrido, vimos que essa
relevante descoberta não havia recebido um tratamento acadêmico para a sua existência, daí
sobre as raízes fundadoras e os elos existentes entre poesia e música e constatamos que essa
poesia, o poeta, o compositor de música e o cancionista, termo criado por Luiz Tatit. Nesses
estudos, descobrimos que, para o surgimento da canção, além da composição musical feita
juntamente com a construção de uma letra, houve dois movimentos: o de poemas que
ou DVDs), ratificou os conceitos que denominamos poema-canção, o poema que recebe uma
melodia pelas mãos do próprio poeta, que também é compositor; e poema-cantado, aquele
tradicional de canção apenas para as composições em que a letra, por mais “poética” que seja,
foi elaborada especificamente para acompanhar a melodia, sem ter tido uma circulação como
Após as demonstrações sobre as origens das canções e dessa fusão, dividimos o nosso
corpus em dois tipos de análises: primeiro estudamos os seis desenhos presentes no livro
147
junto a cada um dos poemas escolhidos e, em seguida, fizemos o estudo dos seis poemas,
Esperamos então, ter atingindo os objetivos que foram propostos por esta dissertação,
sabendo que inúmeras outras leituras poderiam e ainda podem ser feitas sobre o recorte
escolhido, mas acreditando ter dado uma contribuição sobre alguns aspectos tratados por nós,
tanto no que diz respeito a Arnaldo Antunes, quanto aos estudos feitos sobre as relações
híbridas que se fizeram presentes no nosso trabalho entre música, poesia e literatura.
148
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ANEXOS