Revestres47 Web 1
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POR ANDRÉ GONÇALVES com sua música-hino, Pra não dizer que não falei
das flores, marcou a MPB e gerou controvérsias
e mistérios. Resgatamos histórias e segredos da
TODO FIM música que há meio século faz parte da memória
nacional.
RECOMEÇO
capacidade de reinvenção tão necessária nesses
e Editoração Ltda
Quimera – Eventos, Cultura
Uma publicação da:
P
arece quase inacreditável. Mas, pelo menos com os meninos da banda O Fundo de Quintal
no calendário, esse interminável ano de (não, não é aquela do samba): garotos do interior
2020 chegou ao fim. Um ano que nos do Maranhão que também estão usando as redes
encheu de medos, inseguranças, tristezas, dores. sociais para mostrar sua alegria, ironia e esponta-
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a vida seguir em frente, em respeito e até mesmo E tem muito mais nessa edição que fecha 2020.
em homenagem aos que não estarão conosco. Por Uma edição que homenageia uma pessoa conhe-
essas pessoas, precisamos acreditar que há um cida no Piauí como guerreira: Francisca Trindade,
futuro. E que ele pode ser vivido, criado, alterado mulher, negra e feminista, e que fez história traba-
por nós e pelos nossos sonhos. lhando incansavelmente pelas causas sociais mais
Para Revestrés, como para todas as pessoas do urgentes e necessárias.
mundo, não foi fácil. Mas aqui estamos, e fizemos Essa edição #47 traz as “deixas” para o ano
essa edição, mais uma vez, como quem respira. que está chegando: não podemos deixar de lutar,
Aos poucos. Sem desistir. Buscando o máximo de de acreditar e de sonhar. Fazendo arte, literatura,
Maurício Pokemon
EDITOR DE FOTOGRAFIA
Adriano Leite
ADMINISTRATIVO
Área de Criação
DIREÇÃO DE ARTE
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SUMÁRIO
08 ENTREVISTA 19 ENSAIO
Nair Benedicto: “Ser presa e torturada é uma Nair Benedicto: 80 anos e contando
coisa que você vai guardar pro resto da vida!” a história em imagens.
36 HOMENAGEM 38 REPORTAGEM
Guerreiríssima Trindade: movimento social, Caminhando e cantando: pra não dizer
moradia, mulheres e contra o racismo. que não falamos de Vandré.
78 UM OUTRO OLHAR
Por Rita Santana
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ARMANDINHO
POR ALEXANDRE BECK
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SER PRESA
E TORTURADA
É UMA COISA
QUE VOCÊ
VAI GUARDAR
PRO RESTO
DA VIDA!
Do martírio na ditadura militar brasileira a fotografias em
exposições de museus e revistas internacionais. Aos 80 anos
e na ativa, Nair Benedicto aponta suas lentes para o mundo.
ENTREVISTA EVESTRÉS
N
air acabava de chegar à USP (Universidade de São
NAIR BENEDICTO
Paulo), onde era estudante de Comunicação. Logo
percebeu uma tensão no ar. Os amigos estavam
deixando o campus e a aconselharam a ir para casa. A uni-
versidade estava repleta de policiais militares circulando.
Antes daquele dia terminar, Nair estaria presa, pendurada
por três horas e 45 minutos num pau de arara. Fez xixi e
cocô naquelas condições e viu seus algozes se masturbarem
enquanto ouvia ruídos do filho pequeno, na sala ao lado. Era
dezembro de 1969.
O Brasil vivia a ditadura militar, iniciada em 1º de abril
de 1964 e tornada mais dura desde o AI-5 (Ato Institucional
número 5), de 1968, que radicalizou o regime: cassou man-
datos políticos, fechou o Congresso Nacional, confiscou bens
A ESPERANÇA
EQUILIBRISTA
EDIÇÃO SAMÁRIA ANDRADE privados, expulsou pessoas do país e deu carta branca para a
FOTOS ARQUIVO PESSOAL perseguição, prisão e morte dos seus opositores. O presidente
era o general Artur da Costa e Silva, que assumiu o comando
do país em 1967, sendo o segundo presidente militar, em
substituição ao Marechal Castello Branco.
Naqueles que ficaram conhecidos como os anos de
chumbo da ditadura militar, qualquer comportamento
poderia ser criminoso. Em documentário recente, Narciso em
Férias (2020), Caetano Veloso lê o depoimento que prestou
quando esteve preso (entre o final de 1968 e início de 1969)
e revela: a acusação que pesava contra ele foi por ter, num
QUEM PARTICIPOU DESTA ENTREVISTA:
show, parodiado de forma “desrespeitosa” o Hino Nacional.
André Gonçalves Além de insignificante, a denúncia era infundada. Mas valeu
Publicitário, escritor, fotógrafo a Caetano e a Gilberto Gil 54 dias de prisão sem que lhes
dissessem o motivo e, depois, a “recomendação” de que dei-
Maurício Pokemon xassem o país ou poderiam ser presos novamente.
fotógrafo
Levando isso em conta, o crime da estudante Nair era
Samária Andrade muito mais grave. Ela tinha 29 anos, três filhos pequenos
Jornalista, professora da Uespi - Ariane, Danielle e Frederic, de 6 anos, 3 anos e um ano e
meio - e era então casada com Jacques Breyton, francês, quase
Wellington Soares 20 anos mais velho, que tinha filhos do primeiro casamento.
Professor e escritor
“Tua casa é uma putaria” – gritavam os que prenderam Nair.
Jacqueline Dourado O casal apoiava os movimentos de oposição à ditadura
Convidada Revestrés brasileira. Breyton foi militante da Resistência Francesa na
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É LAMENTÁVEL QUE ESSA JUVENTUDE
NÃO TENHA UM DOCUMENTO ONDE ENTENDER
O QUE É DITADURA, PAU DE ARARA, TORTURA
PSICOLÓGICA, ARRANCAR DENTE, CHOQUE ELÉTRICO.
Segunda Guerra Mundial, combateu a invasão nazista em em Montluc, prisão administrada por Klaus Barbie, oficial
seu país e foi torturado pela Gestapo (polícia da Alemanha nazista conhecido como "Carniceiro de Lyon" e um dos
nazista) antes de ser libertado por tropas norte-america- responsáveis pelo Holocausto.
nas, receber medalhas como herói e vir morar no Brasil, O processo que poderia ter destruído Nair viu nascer
nos anos 1950. Aqui montou uma empresa de luminárias. uma outra mulher. Com as marcas desse tempo – “Ser
Depois, uma de iluminação, tornando-se empresário bem- presa e torturada é uma coisa que você vai guardar pro
-sucedido e, bem mais tarde, colaborando na criação do resto da vida!” – e comprometida a fazer mais: “Saí da pri-
Partido dos Trabalhadores (PT). são com uma responsabilidade enorme, precisando fazer
Nos anos 1960, ao lado de Breyton, Nair apoiava a alguma coisa!”. Ela voltou para a universidade e, em 1972,
ALN (Ação Libertadora Nacional), hospedando Carlos se formou em Rádio e Televisão pela USP. Sonhava em tra-
Marighella, emprestando a casa para reuniões e ofere- balhar com TV, mas as empresas, fortemente censuradas,
cendo suporte material ao grupo. “Eu era apoio logístico, não deram emprego à ex-presidiária da ditadura. Foi para
nunca peguei em arma”, diz Nair a Revestrés. No livro a fotografia quase por falta de opção e revelou-se uma das
Marighella, de Mário Magalhães, o casal aparece com fun- maiores fotógrafas brasileiras, com imagens em acervos de
ções como a de hospedar os que se dispunham a lutar de vários museus do mundo, como o MoMa, de Nova York,
fato. Por ter mais idade, o francês terminava despertando livros publicados e prêmios recebidos, além de colaborar
desconfiança dos dois lados. Magalhães conta: “Breyton com revistas nacionais e internacionais como Veja, IstoÉ,
surgiu nos fóruns estudantis de 1968 junto com a mulher, Marie Claire, Paris Match, Newsweek e Time.
Nair Benedicto, aluna da USP. De cabelos brancos, o coroa Nair dedicou grande parte de seu trabalho a denúncias
de 47 anos despertou a suspeita de que fosse ‘tira’". sociais, fotografando movimentos operários, trabalhadores
Presos no DOPS (Departamento de Ordem Política e sem-terra, indígenas, mulheres e travestis. Fundou a agên-
Social), órgão que comandava a repressão e chefiado pelo cia F/4 de Fotojornalismo, com Juca Martins (seu segundo
delegado Sérgio Paranhos Fleury, Breyton e Nair foram marido), Delfim Martins e Ricardo Malta. A agência teve
separados e não tiveram acesso a advogados. Passaram dois papel fundamental em discussões como direito autoral,
meses incomunicáveis, sem saber do que exatamente eram crédito obrigatório e a instituição de uma tabela de preços
acusados. Como em O processo, de Kafka, fazia parte da mínimos. Depois fundou a N-Imagens e participou do
punição os prisioneiros não saberem seu suposto "crime" coletivo NAFoto, realizando eventos de fotografia.
nem quando serão interrogados e julgados. Por um tempo, evitava falar sobre sua prisão. Hoje,
Do DOPS foram transferidos para o presídio Tiraden- quando grupos radicais pedem a volta da ditadura militar,
tes, também em São Paulo, completando, ao todo, nove ela considera que é preciso romper silêncios e espantar
meses de prisão e torturas, entre o final de 1969 e meados de vez esse passado trágico. Nessa entrevista a Revestrés,
de 1970. “Como pode ter três filhos e não ter barriga?” – Nair Benedicto, aos 80 anos e com voz amigável, fala sem
os policiais inquiriram Nair. Diziam que seria a prova de pudor de alguns dramas, suspira e faz pausas em certos
que ela fazia treinamentos de guerrilha. Mais tarde, em momentos, sorri em outros. “Eu não sou pessimista”, diz a
entrevista, Breyton contou que sofreu mais nas mãos dos mulher que, entre o muito que faz, ministra um workshop
agentes do DOPS brasileiro do que quando esteve preso chamado “Eu não desisto de mim”.
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que é o próprio modelo de anistia e
abertura política no Brasil, quando
torturadores não foram punidos,
EU PEGUEI TRÊS HORAS enquanto na Argentina e Chile mili-
E 45 MINUTOS NO PAU DE ARARA!
tares responsáveis por comandos de
tortura foram presos.
OS CARAS GOZAVAM ENQUANTO NB Quando tivemos a oportunidade
EU ESTAVA FAZENDO XIXI, COCÔ. da Comissão da Verdade logo surgiu
o lema “revanchismo, não”, trazendo
uma significação dúbia para a coisa (a
Comissão Nacional da Verdade foi um
órgão temporário criado para investi-
SAMÁRIA Podemos começar essa entrevista com um tema gar crimes da ditadura militar, a exemplo de outros países.
incontornável: o período da ditadura militar no Brasil, No Brasil o regime militar durou de 1964 a 1985. A
quando você foi presa e torturada. Hoje há um retorno a Comissão da Verdade foi criada quase 30 anos depois,
esse tema de diversas formas, seja em manifestações que em 2011, e extinta em 2014, ambos no governo Dilma
pedem a volta da ditadura, seja em produções de cinema Rousseff, presa e torturada pela ditadura). A gente não dá
que recuperam os dramas do período, como nos filmes importância à ambivalência das palavras e vai formatando
Narciso em Férias (Renato Terra e Ricardo Calil), onde um país com permissividade para o mal. A Comissão da
Caetano Veloso se debruça sobre seus 54 dias de prisão, Verdade foi propositadamente mal-entendida pela elite.
ou em Fico te Devendo uma Carta sobre o Brasil (Carol “Revanchismo” foi uma palavra que ficou ardendo na
Benjamin), sobre as marcas da ditadura numa história minha orelha. Porque parece que você, que é a vítima,
familiar (César Benjamin, pai da diretora, foi preso ilegal- está com ódio, querendo vingança, e o objetivo é outro:
mente aos 17 anos e permaneceu por três anos e meio em botar tudo em pratos limpos. Quando a gente não quer
cela solitária, além de mais dois anos em prisão comum. que aconteça de novo tem que ir fundo no que aconteceu.
Iramaya, mãe de César, se tornou militante pela anistia). Discutir tudo era uma necessidade! Os militares estavam
O fato do tema da ditadura militar brasileira ressurgir envolvidos? Estavam. Os Estados Unidos estavam envol-
de modos tão contrastantes significa que ainda não o vidos? Estavam. Teve dinheiro estrangeiro? Teve. A gente
discutimos suficientemente? precisa mexer nisso sem pruridos, entendeu? No Brasil
não houve punição e a Comissão da Verdade foi brecada
NAIR BENEDICTO Eu acho lamentável que essa juventude
sem terminar seu serviço. Eu acho que a gente precisa
que está vindo aí, cheia de ideias, não tenha um docu-
começar tudo de novo... (faz uma pausa, suspirando, e
mento onde entender o que é uma ditadura, o que é pau
retoma com fôlego). No Brasil as tentativas absolutamente
de arara, o que é tortura psicológica, o que é você arrancar
válidas de mudar coisas, as motivações das populações
dente, dar choque elétrico. É muito importante a gente
não ficam conhecidas, mas os golpes a gente conhece. A
saber dessas coisas. Quase não falar sobre isso foi uma
gente é um país de golpes, tudo que aconteceu nesse país
falha de todos nós, pessoas progressistas. Na hora em que
foi através de golpe. O tempo inteiro a gente está nas
se começou a homenagear torturador com transmissão
mãos de uma elite que não quer perder nada e que tudo
ao vivo pela TV, a gente tinha que ter tido uma posição
interpreta como perda.
firme (refere-se ao voto do então deputado federal Jair
Bolsonaro pelo impeachment da então presidenta Dilma WELLINGTON O que levou de fato à sua prisão na época da
Rousseff, fazendo homenagem ao coronel Brilhante Ustra, ditadura militar? E o que você guarda em sua lembrança,
reconhecido torturador da ditadura militar). Um país dessa época?
que homenageia torturador não vai ser nunca uma nação, NB Olha, ser presa e torturada é uma coisa que você vai
não vai ser nunca (repete com ênfase e arrasta a palavra guardar pro resto da vida! (faz pausa). Não tem jeito, não
“nunca”). Quando a gente deixou que isso acontecesse, tem jeito. Ou você se mata ou, se vive, vai levar aquilo
estávamos enfiando o pé na lama em que estamos hoje. ao longo dos anos. O teu encontro com quem te prende
WELLINGTON Tem algo ainda anterior a esse momento já começa errado, porque não importa quem você é – ele
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vai abominar. Comigo foi isso: eu estava na USP, fazendo independência que são necessárias -, e tudo isso me foi
Comunicação, era jovem, tinha três filhos. Meu compa- jogado na cara: “Que raio de mãe você é? Você não serve
nheiro era francês (Jacques Breyton), mais velho que eu, pra nada!” Eles falavam isso pra me deixar abatida, pra
e o filho dele morava conosco. Então eles falavam: “Tua dizer que conheciam nossa rotina, mas também porque
casa é uma putaria”. Nesse dia eu tinha ido pra USP e o acreditavam nisso. Eu apanhei porque tinha três filhos
clima estava estranho: ninguém em aula, todo mundo e não tinha barriga! (fala com ênfase). Eles diziam que
indo pra casa, muitos militares circulando. Eu fui pra não ter barriga era a prova de que eu fazia treinamento de
casa, esperei as crianças voltarem da escola e eles não guerrilha! O que eu quero dizer pra vocês é: o encontro
voltavam. Minha mãe, uma moça que ajudava a gente e de nossa vida com essas pessoas que nos prendiam já
meu filho menor, que ainda não estudava, foram buscar dava merda desde o início. É uma mente doentia, que
as crianças e ninguém voltava. Daí eu liguei pro Jacques não admite o outro, que se o outro não for cópia dele,
e falei "tô aflitíssima". Eles (militares) haviam pegado o tá errado.
carro com minha mãe, a babá e meu filho pequeno e
SAMÁRIA De tudo o que você passou nesse período, o
tinham levado pro DOPS. As meninas, de seis e três anos,
que considera que foi a pior tortura?
tinham ficado largadas na porta do Liceu e a professora
terminou acolhendo elas. Quando levaram eu e Jacques, NB Quando chegamos no DOPS, eles logo me separaram
minha mãe, a babá e nosso pequenininho de um ano e do Jacques e puseram nosso filho pequeno numa sala ao
meio já estavam lá. Eu era apoio logístico de uma orga- lado da minha, eu ouvindo os barulhinhos dele. Eles me
nização que lutava contra a ditadura, nunca peguei em diziam: “A gente pôs sua mãe no pau de arara e ela passou
armas. Eu ensinava meus filhos a amarrar sapato, trocar mal, tá no hospital militar. Se você não falar, a gente
de roupa, bater leite no liquidificador – essas coisas de vai pôr teu filho no pau de arara”. Isso foi um horror!
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A COMIDA QUE ELES ENTREGAVAM CHEGAVA EM
BALDES, COM GORDURA NADANDO EM CIMA. NO
TERCEIRO DIA A GENTE TAVA COM TANTA FOME
QUE COMEU COM GORDURA E TUDO.
Ficamos o dia inteiro no DOPS, de aquela mulher seria, um dia, presi- na política–não sei se ela pensava
uma hora da tarde até meia noite. Eu denta do Brasil? que chegaria a presidenta da repú-
não sabia do Jacques, ele não sabia de blica (risos), mas ela tinha os olhos
NB Fiquei pouco tempo com Dilma.
mim, não se podia chamar advogado, voltados para a política. Tinha uma
Quando ela entrou eu já estava lá
eles dizendo que a gente tinha que capacidade de síntese e de entendi-
há muito tempo. O filme mistura
falar. Mas eu pensei “vou ficar calma” mento muito maior que a nossa. Ela
mulheres de períodos diferentes e
(repete três vezes, como um mantra), lia, interpretava e devolvia o que a
eu acho isso uma pena. O filme é
e comecei a desenvolver um raciocí- gente lia. Era algo fantástico!
importante, tem mulheres ali que já
nio que era o oposto do desespero.
morreram, mas é uma pena não ter WELLINGTON O Brasil aprendeu a ser
Pensei: se minha mãe foi no pau de
aproveitado depoimentos mais con- um país melhor com essa experiência
arara e passou mal, não posso contar
sistentes. Todas as mulheres as que sofrida da ditadura militar?
com ela, tenho que contar comigo
passaram por aquele presídio tiveram NB O Brasil é um país com tantas
mesma pra resolver essa questão.
aprendizagens, todas conseguiram condições de ser maravilhoso e onde
Então fui me fortalecendo e tirei da
ir rompendo as armadilhas daquela não se aproveitou nenhuma. A gente
cabeça a ideia de falar qualquer coisa
estrutura. No início não deixavam tem uma mistura de raças, de preto,
que eles perguntassem. Pensei: se
entrar livros, nada, e a gente come- índio, japonês, italiano, francês. A
você começa a falar, não tem limites.
çou a dar aulas umas pras outras. gente tem muita coisa boa nesse ser
Eu peguei três horas e 45 minutos no
Eu dava aula de francês, outra dava humano que se denomina “brasi-
pau de arara! Você começa a olhar leiro”. Mas tudo o que acontece de
aula de biologia, outra de inglês. A
aquelas pessoas… Os caras gozavam bom a gente expulsa do país. Paulo
gente formava grupos pra tudo: fazer
enquanto eu estava no pau de arara Freire, Glauber Rocha? Ovacionados
comida, limpar o espaço, organizar
fazendo xixi, cocô. Eles gozam, se no mundo inteiro; e aqui? Expulsos.
as aulas. A comida que eles entrega-
masturbam, entendeu? E você fica: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Oscar
vam chegava em baldes horrorosos,
“Meu Deus, quem é essa pessoa, o que Niemeyer, Darcy Ribeiro? Todos
com gordura nadando em cima. No
fizeram ela ser isso que eu tô vendo?” expulsos! Junto com essas pessoas, se
começo a gente ficou sem comer,
(nova pausa). expulsa o lado bom delas. Mas não
como donzelas (risos). No terceiro
SAMÁRIA O filme Torre das donzelas dia a gente tava com tanta fome que sou uma pessoa pessimista. Acho que
(2018) mostra como viviam mulheres comeu com gordura e tudo. A gente nós temos uma coisa de solidariedade,
presas pela ditadura militar brasileira criou uns processos: a comida che- de alegria, que querem abafar. Mas
no presídio Tiradentes (demolido em gava, a gente lavava e escoava toda a alegria é coisa básica, nós precisa-
1972). Entre essas mulheres estavam gordura. Quando Dilma chegou já mos, é como o ar, ela encontra um
você e a ex-presidenta Dilma Rou- entravam livros e a gente fazia grupos caminho.
sseff. Como foi a convivência entre de leitura e discussão. Dilma é uma ANDRÉ No período da ditadura
essas várias mulheres e seus conta- pessoa brilhante! Ela estava determi- militar a fotografia cumpriu papel
tos com Dilma? Você imaginou que nada, decidida, o futuro dela ia ser de denúncia, de documento de uma
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época, por meio do trabalho de gran-
des fotógrafos. Hoje, quando todo
mundo tem a possibilidade do regis-
tro de imagem nas mãos, vamos con-
tinuar tendo o trabalho de grandes
fotógrafos documentando momentos
contemporâneos ou esses registros
vão vir das pessoas comuns?
NB O que faz a fotografia não é o
aparelho, é a pessoa que está segu-
rando o aparelho (risos). Então a
gente vai ter uma quantidade de
fotografias enorme, impensável, vai
ter fotos documentais, com todo o
conhecimento que a pessoa tem; vai
ter fotos que foi o acaso que fez; e
vai ter fotos que são simples registros
de situações. Na quantidade enorme
de imagens, vai se perder mais coisas
e vai se achar mais coisas. E a foto-
grafia vai continuar: os Evandros
(Teixeiras), os (Josef) Koudelkas, as
Claudias Andujares vão continuar
acontecendo.
MAURÍCIO Entendendo essa pro-
liferação de possibilidades de cap-
tar imagens, qual seria o papel do
fotojornalista de jornal hoje, qual a
necessidade real de termos esses pro-
fissionais nas redações?
NB Hoje todo o jornal está em ques-
tão e não só o fotojornalista, né? A
gente está falando de um momento
de comunicação muito cheio de ruí-
dos e de performances. Imagem de
celular, pra mim, é outra linguagem.
Mas, você gostando ou não, toda
essa tecnologia que está aí veio pra DILMA É UMA PESSOA BRILHANTE!
ficar. O problema de aceitá-la não TINHA UMA CAPACIDADE
tem mais que ser discutido. Então as
soluções têm que ser buscadas den- DE SÍNTESE E ENTENDIMENTO
MAIOR QUE A NOSSA. ELA LIA,
tro da própria tecnologia. Pensando
no total, como diz Riobaldo, perso-
nagem de Guimarães Rosa (Grande INTERPRETAVA E DEVOLVIA
Sertão: Veredas), acho que nosso
drama é outro: é essa quantidade de O QUE A GENTE LIA.
fake news e a falta de controle sobre
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nossos dados, que estão indo pra todo
lugar, sem que a gente saiba exata-
mente o que fazem com eles.
JACQUELINE O fotojornalismo, histo-
ricamente, foi e continua sendo uma
profissão muito masculina. Você, no
entanto, conseguiu se destacar em
uma época muito difícil e chamando
atenção para a condição da mulher.
Você considera que a mulher traz um
olhar ou uma percepção diferentes ao
fotografar?
NB Acho que, antes do olhar, a vida
da mulher é diferente. Eu fiz muita
matéria com mulheres, documentei
passeatas feministas desde que elas
apareceram no Brasil. Vi muitos
depoimentos: de adolescentes grá-
vidas, de mães que percebiam que
seus maridos estavam molestando as
meninas, do irmão que percebe um
vizinho... Mas ninguém faz nada, é a
mulher que tem que resolver isso por
conta dela! E um elemento masculino
dentro de uma família acha que pode
tudo. O homem já nasce com uma
permissão que a mulher não tem. Eu
não acho que os homens são piores
ou melhores, acho que a sociedade
é masculina e dá aos homens, desde
o nascimento, uma carta de alforria
que a mulher não tem. Então isso
tudo vai formatando pessoas diferen-
tes. Além das desigualdades sociais,
A GENTE DEVERIA MOSTRAR
temos a desigualdade de gênero para
resolver.
AQUELAS FOTOS NAS ESCOLAS ANDRÉ Quero falar de uma fotografia
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ela tá absolutamente envolvida, tá de prazer. Hoje no Brasil isso é um velhos indo até o ABC , querendo
bom pra ela e pra ele, né? (risos). Mas problema, esses personagens do fazer a cabeça de Lula. Naquela
o que me motivou na pesquisa que governo atual lidam tão mal com a época ele já demonstrava que sabia
resultou naquela foto é que eu estava alegria, com o sensual. onde queria chegar. Vi o surgimento
surpresa e incomodada ao ouvir de uma pessoa que teve muita impor-
WELLINGTON Outra vertente do seu
declarações preconceituosas sobre tância mais tarde: o Ricardo Kotscho,
trabalho foi a cobertura de movi-
nordestinos. Elas vinham de pes- que foi meu colega na faculdade e
mentos sociais e operários. Como
soas próximas, que circulavam num cuidava da comunicação das gre-
você descobriu o que mais gosta de
ambiente de cultura. Na minha inge- ves. Quando hoje me falam “o que
fotografar?
nuidade, eu achava que, pelo fato de você espera que vá acontecer”, eu
serem pessoas intelectualizadas, isso NB O caminho se faz ao caminhar. tenho uma crença absoluta de uma
não ocorreria. Daí eu falei: vou saber Mas tudo o que acontece ao ser virada nesses tempos e acho que ela
o que incomoda tanto a essa gente. E humano me mobiliza. As tristezas, as vai vir pelas mulheres, porque elas
comecei a conversar com nordestinos alegrias. Pra mim é difícil fazer fotos entendem rápido e transformam as
que trabalhavam em São Paulo. Des- sem pessoas. Hoje há toda uma dis- coisas. Na primeira greve do ABC
cobri que naquela época, sem internet, cussão de direito de imagem e as pes- as mulheres ameaçavam os maridos
muitos iam buscar correspondência soas também têm mais medo, antes dizendo “volta a trabalhar, vai faltar
na Praça da Árvore, trazida por ami- eram mais receptivas. Pra mim o ser leite pras crianças''. Na segunda greve
gos que tinham viajado ao Nordeste humano é espelho: tá acontecendo elas já ameaçavam: “se não entrar em
(a praça fica no bairro Saúde, locali- com ele, tá acontecendo comigo. Eu greve, não entra em casa''. Quando
zada junto a uma estação de metrô). não sou fixada num assunto só, corro saí da prisão, estava com uma respon-
Frequentei esse local e perguntei o entre os assuntos. Também penso sabilidade enorme, precisando fazer
que faziam para se divertir. Disseram assim: não tô preocupada em fazer alguma coisa. Então fomos fazer um
“a gente vai no forró do Mário Zan” “a” foto. Sempre acho que vai acon- jornal de bairro que ficava na divisa
(que foi considerado um dos maio- tecer, com calma, não gosto de atro- entre São Paulo e São Bernardo do
res sanfoneiros do país). Passei a ir pelar, gosto que as coisas aconteçam. Campo. Quando começaram as gre-
e fiquei encantada. E ia não só pra Nessa quarentena também voltei a ves, todos os jornais – Estadão, Folha
fotografar, mas pra dançar, eu adoro estudar e pensei: “gente, eu não sei – diziam “Os operários estão há tan-
dançar! Eu gostava tanto que não nada!” Começa a dar um pouco de tos dias em greve e não obtiveram
tive problema em fazer as fotos, eles desespero (risos). aumento nem nada”. Ora, como se
ficavam à vontade, mesmo quando o período que você tivesse passando
SAMÁRIA Você fez fotos de greves dos
eu usava flash. Hoje essa é uma foto nas greves não deixasse nada. Então
metalúrgicos no ABC paulista entre
que gosto, respeito, foi minha pri- a gente cobria de um modo diferente,
o final dos anos 70 e início dos anos
meira imagem comprada pelo MoMa ouvindo grevistas, fazendo avaliações.
80 (1978-1981). O que lhe marcou
(Museu de Arte Moderna, em Nova Lula sempre estava lá, abraçando,
desse período?
York). John Szarkowski, curador do sempre acreditando. A gente (jorna-
MoMa, esteve no Brasil e pediu pra NB Essas greves aconteceram depois listas) ia pra porta das fábricas às 5
ver uma exposição diferente dessas de anos e anos de ditadura e um horas da manhã – era quando Lula
de museu. Levaram ele no Forró do silêncio enorme. Nunca me conside- e outros companheiros dele faziam
Mário Zan e eu tinha montado uma rei fotojornalista, porque o fotojorna- as assembleias. A gente tomava café
exposição lá. Ele comprou algumas lismo é em cima do acontecimento com ele, com Marisa, era uma coisa
fotos. O MoMa tem uma política de e eu sempre trabalhei mais o antes muito afetiva. O Lula ficava pedindo
periodicamente reexibir as imagens e o depois. Na hora que explode, se pros trabalhadores não entrarem na
e as pessoas até hoje me telefonam: eu estou, estou; se não estou, não fábrica antes da assembleia terminar.
“Acabei de ver uma foto sua!”. Tá lá choro. Mas tenho uma documenta- Nós ficamos mais de 20 anos sem nos
há 50 anos (risos). Acho que fiz essa ção grande sobre as greves do ABC e ver e nos reencontramos um pouco
foto porque gosto de ver as pessoas muita coisa me marcou. Eu vi o sur- depois que ele saiu da prisão (refere-
felizes, tendo uma sensação gostosa, gimento de Lula, vi os políticos mais -se à prisão decorrente do processo
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olhar. A gente se baseou na Magnum
(cooperativa de fotógrafos surgida na
França, em 1947) e na Gamma (tam-
TEM GENTE QUE VAI NA FAVELA bém surgida na França, em 1979).
UM DIA E JÁ QUER FAZER Essa necessidade sempre surge em
momentos periclitantes. A Magnum
UMA EXPOSIÇÃO. VAI NUMA surgiu logo após a Segunda Guerra
Mundial e a Gamma ainda sob as
MANIFESTAÇÃO FEMINISTA influências do final dos anos 1960.
UMA VEZ E JÁ QUER FAZER Na F/4 a gente queria ter liberdade
de pautar e não se preocupar “ah,
UM “TRABALHO SOBRE não vão querer publicar”. Isso não
A MULHER”. NÃO DÁ, NÉ?
importava, a gente ia fazer a foto que
quisesse! Outra necessidade era ter a
posse do original e começar a acostu-
mar os clientes a pagar pela reutiliza-
ção. Era um processo educativo, por-
na Lava Jato) e pensei: tô de cabelo pobre. Entre as fotos das queimadas que o Brasil tem sempre uma postura
branco, mais velha, tenho que expli- no Pantanal, eu destacaria a do Lalo de colonizado. Quando as grandes
car pra ele quem sou… E quando ele de Almeida, com o corpo carboni- agências estrangeiras vieram pra cá,
bateu o olho em mim: “Naiiiiir!”. Foi zado de um macaco, que parece um foram saudadas com páginas na Veja,
uma coisa deliciosa. homem tentando se erguer. Desse Istoé, jornais. Quando a F/4 surgiu,
período há também fotos interessan- pau nela! Joga pedra na Geni–a gente
JACQUELINE A fotografia é um texto
tes de Bolsonaro, Maia, sem máscara, era a Geni. Diziam que estávamos
extremamente político, como mos-
mas me recuso a citar qualquer foto- tirando emprego de fotógrafos ao
tram suas fotos do ABC e outros
grafia com a imagem desses caras, cobrar pela reutilização de fotos. É
registros. As imagens contam muito
acho que eles não merecem. A gente tudo muito careta, atrasado.
sobre um tempo histórico. Que foto-
tá nessa quarentena e sem perspectiva,
grafias poderiam representar o Brasil SAMÁRIA Nesse momento, como
a gente tá numa guerra, entendeu?
de hoje? você está lidando com o distancia-
Estamos num momento difícil, dá
NB Nessa quarentena houve uma
mento social e o modelo remoto?
um desânimo, estou quase me moti-
produção enorme de fotos, mas vando mais por texto que por fotos. NB Fiz algumas lives pro Museu de
tem algumas que eu não consigo Eu sinto muita falta de interlocução Belas Artes do Rio de Janeiro e outros
me livrar. Uma é a foto da morte de (faz pausa e dá um suspiro). espaços, mas depois comecei a refle-
George Floyd, com o policial branco tir: as pessoas querem ocupar espaço
MAURÍCIO No seu percurso você agiu
sufocando até matar o homem negro. de qualquer forma. Ocupar por ocu-
muitas vezes motivada pela necessi-
Aquilo é de uma violência que você par é bobagem, é melhor ficar em
dade de mostrar algo que considerou
se pergunta: em que mundo estamos? casa dormindo ou vendo um filme.
que precisava ser discutido. Em 1979
Outra é uma imagem mais suave na Antes de ocupar espaço para fora, é
você lançou a Agência F/4 (primeira
aparência, mas tão dura quanto no preciso que você ocupe o espaço para
cooperativa de fotógrafos do Bra-
conteúdo. São fotos de quando a elite dentro de si: sobre o que você quer
sil, que fotografou grandes movi-
paulistana resolveu ir à rua, com seus falar? Você tem condições de falar
mentos políticos e sociais dos anos
carros chiquérrimos, implorando sobre isso? E também só me inte-
1970, como as greves do ABC). Para
para os pobres voltarem a trabalhar. ressa se eu puder falar daquilo que tá
vocês, que necessidade havia, naquele
A gente deveria mostrar aquelas fotos me preocupando, tá movimentando
período, de uma agência de fotojor-
nas escolas, explicando que pra eco- a minha cabeça. Que a pessoa dis-
nalismo no Brasil?
nomia deslanchar a elite precisa corde ou concorde mas, de qualquer
desesperadamente do sacrifício do NB Fazer nossas pautas com o nosso forma, eu lanço uma preocupação de
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alguém que tem uma experiência de
vida. Esse monte de live, eu não vi
um centésimo. Às vezes eu começo
e falo: “nossa, eu não aguento ir até
o fim com isso!”. Nesse momento
me interessa discutir esses políticos
que estão no poder no Brasil, saber
como vamos sair dessa. Eu vejo uma
noticiazinha de quatro centímetros
no jornal e, se tem o nome do Bolso-
naro, já cheira mal.
JACQUELINE O que você diria para os
jovens que desejam trabalhar com a
fotografia hoje?
NB Seja na fotografia, no fotojorna-
lismo, no texto, na sua relação amo-
rosa, com sua família, sem criativi-
dade você tá lascado. E tem que se
esforçar. Na minha experiência, nada
me caiu de mão beijada. Aquela pes-
soa do MoMa que comprou minha
foto fez isso porque, antes, eu fui
várias vezes ao forró, fiz uma expo-
sição lá dentro. Acho que a gente
deve confiar que, com um trabalho
bom, uma hora você ganha com ele.
O problema é que tem gente que vai
na favela um dia e já quer fazer uma
exposição. Vai numa manifestação
feminista uma vez e já quer fazer
um “trabalho sobre a mulher”. Não
dá, né? Pode até aparecer os gênios
que consigam, mas acho que tudo
depende de trabalho, obstinação, de
você acreditar no que faz e acreditar
que aquilo é importante.
ANDRÉ Supondo que a pandemia de
Covid-19 acabe amanhã, que foto
você teria vontade de fazer?
NB A foto eu não sei, mas eu vou que-
rer beijar e abraçar todo mundo, de
cara! Quero sair pela rua dançando,
dar aquele abraço apertado, sentir
que “tamo junto”, entendeu? É isso
que eu quero. Agora, “pra amanhã”
você está sendo muito otimista, né?
(risos).
ENSAIO
POR NAIR BENEDICTO
80 ANOS
E CONTANDO
A HISTÓRIA
EM IMAGENS
A
s imagens de Nair Benedicto se fixaram no
nosso imaginário desde o momento em que
se inicia alguma pesquisa na fotografia brasi-
leira. Com tanta história, foi necessário extrapolar as
páginas da entrevista para o ensaio fotográfico da edi-
ção.
Aqui, trazemos uma mostra da produção dessa gran-
de mulher. Pensamos em um recorte que nos desse a
forma de ensaio, um pouco mais fechado. Mas nesse
formato não coube o trabalho de Nair, que sempre
transborda.
Partimos então para oito páginas que passeiam um
pouco por temas caros a Nair, históricos e contunden-
tes no país. Aos 80 anos, Nair Benedicto segue com
muita lucidez sobre o Brasil, e com uma prática contí-
nua muito bem alinhada ao seu discurso.
Louvação a Iemanjá
Praia Grande - SP, 1978 - Série Noivas
Pagadora de Promessas
Aparecida do Norte - SP, 1980 - Série Noivas
Procópia dos Santos Rosa, líder quilombola no quilombo Kalunga do Riachão - Monte Alegre - GO, 2005
Projeto Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, com a indicação coletiva de 1000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz de 2005.
OPINIÃO
POR PATRÍCIA
CUNEGUNDES
GUIMARÃES
DESVELAR SILÊNCIOS
HISTÓRICOS E FAMILIARES
D
e que são feitos os álbuns de família? (1994), a fotografia, não apenas a de famí-
De momentos felizes, claro. Não que- lia, é muito mais que um trampolim para a
remos guardar as dores, as ausências, imaginação. É o arranjo dos vários elementos
as brigas. A fotografia de família pertence a da imagem – sombra e luz, desfoque, nitidez,
um universo singular, pois está menos preocu- profundidade de campo, perspectiva, ponto
pada, em geral, com questões ligadas às evolu- de vista – que desperta a memória sensorial.
ções da linguagem fotográfica do que com o As pessoas das fotos se tornam personagens
registro de acontecimentos importantes para a de uma narrativa que também é oral e polifô-
vida familiar. O que aconteceu pode estar ali, nica, pois há vários narradores: cada um conta,
registrado. Quando se organizam fotografias comenta e interpreta as imagens a seu modo.
em um álbum, o objetivo é conservar algo caro Os álbuns de família são, então, esse conjunto
àquele grupo, o que foi vivido e o que já foi de fotografias que contam uma história, mas
visto. No entanto, cada vez que um álbum é ocultam outras.
aberto, exposto e discutido, os aniversários, os E o que acontece quando as fotografias de
jantares de Natal, as viagens, os batizados, os família e seus silêncios são tiradas do âmbito
almoços de domingo acontecem de novo e, a privado para serem confrontadas com a memó-
partir das nossas experiências, as memórias são ria social em documentários sobre períodos his-
atualizadas e nossas lembranças podem surgir. tóricos que ainda nos doem, como as ditaduras
Como nos diz o filósofo francês Georges civis-militares na América Latina? A cineasta
Didi-Huberman, se há desejo, há memó- paraguaia Paz Encina, em seu segundo longa,
ria. Manusear ou tornar público um álbum “Ejercícios de memoria” (2016), recorre, entre
de fotos familiares é a materialização de um outros elementos narrativos, aos álbuns de
desejo, de ver, por exemplo, que nossos mortos família para contar a história de Agustín Goi-
estão vivos novamente, encarando a câmera e burú (1930-1977), um médico opositor da
o fotógrafo. Para Anne-Marie Garat, autora do ditadura de Alfredo Stroessner, sequestrado
livro Photos de familles: Un roman de l'album quando estava exilado no interior da Argentina,
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durante a Operação Condor, cujo corpo nunca mas sem que possamos distinguir o que está
apareceu. nas imagens, com a narração em off: “Me fala-
No início do filme, a câmera, em primeira ram das risadas, dos abraços, da família”. Justa-
pessoa, nos leva do quintal para dentro da casa, mente o que esperamos que um álbum de foto-
onde a mesa de café da manhã ainda está posta. grafias de família guarde, os bons momentos;
A luz suave da manhã banha a mesa e a sala, assim como também é o lugar seguro em que
trazendo uma sensação de aconchego, embora a identidade do grupo familiar está protegida.
não haja pessoas em cena. O som é familiar As fotografias de família cumprem aqui, com
para quem tem relação com o campo: mosqui- a casa, o papel de guardião do que é sólido, do
tos, animais “de roça”, cachorros latindo. A voz que resiste, quando fugir faz parte da rotina.
em off de uma mulher chama por alguém (som Agora, não é mais a voz em off que narra o que
típico da mãe que “grita” os filhos que estão ouviu/recebeu da família Goiburú, mas, sim, a
brincando fora de casa). Ainda no tempo de reprodução de um discurso possivelmente vei-
existir, pontuado pelos sons de um relógio e culado em uma rádio. Enquanto vemos a foto
da vida que pulsa – o quintal, a mãe, o vento, na parede de uma mulher com uma criança, a
os animais –, caminhamos pela casa, exami- voz que vem do aparelho diz: “Aqui, se perdeu
nando seus detalhes e sua intimidade. até mesmo o direito de respirar”.
Paz Encina conduz a filmagem como se Ao trazer elementos subjetivos para a his-
estivesse “tateando” o ambiente em busca tória, atualizando as memórias individuais,
de lembranças, resgatando o passado para na medida em que o passado passa a ser não
o tempo presente, com um olhar curioso. A apenas lembrado, mas analisado a partir da
casa está vazia, mas a vida está presente nos memória coletiva, e dando nome, rosto, dor,
detalhes da mesa posta, nos sons do quintal. medo, angústia, afeto aos fatos históricos, o
No entanto, não sabemos se se trata também filme se converte em lugar de memória histó-
de fantasmas do passado e nada é feito para rica e também em documento. Com as fotogra-
tirar o espectador da incerteza dessa percepção. fias de família, o passado tangencia o presente
Acordamos do “sonho”, ainda à mesa e ainda continuamente. Acredito que, ao mergulhar
ouvindo o som do tempo, com a narração em em uma foto do passado, estamos suspensos
off de uma mulher: “Uma mulher no trem, em vários tempos: no “aconteceu”, no “poderia
fugindo com crianças. Uma ditadura, 35 anos. ter acontecido”, no “vai acontecer”. Esse cris-
O controle e o exílio. Estas foram as primeiras tal do tempo cria um fluxo entre as memórias
imagens que me entregaram”. individuais e coletivas em que uma compõe
Saímos da mesa de café da manhã e apare- a outra, emprestando elementos para que as
cem as primeiras fotografias de família, presas lembranças pessoais sejam atualizadas e com-
no espelho que reflete a máquina de costura. preendidas, e para que a história seja revisada
A câmera mostra a capa de um álbum, com do ponto de vista de quem reivindica o direito
algumas fotos em preto e branco aparecendo, à memória, à verdade e à justiça.
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OPINIÃO
PEDRO HENRIQUE
SANTOS QUEIROZ
UM ENCONTRO
SEM GRANDES
CONSEQUÊNCIAS
E
stamos em alguma sala do uma camisa listrada de mangas com- Logo após essa breve recepção
Congresso Nacional, em pridas. Atrás de Lula, semiencoberto presenciada por repórteres de vários
Brasília. O ano é 1978. O por sua sombra, há um homem de veículos de imprensa, Lula, Petrô-
dia, 16 de fevereiro, uma quinta-feira. terno. Trata-se de Maurício Soares nio e Maurício seguiram para uma
O presidente do Senado, Petrônio de Almeida, advogado do Sindicato, reunião a portas fechadas que durou
Portella, recebe o líder metalúrgico a quem Lula havia trazido consigo 95 minutos. O encontro se dava no
Luís Inácio da Silva, o Lula. Vemos por motivos de “não quero ter depois contexto de uma série de reuniões
a ambos de perfil: o senador arenista a minha palavra contra a dele [Petrô- que Petrônio vinha tendo com repre-
do Piauí e o presidente do Sindicato nio]. Prefiro conversar a três”. Atrás sentantes da sociedade civil desde
dos Metalúrgicos de São Bernardo de Maurício, ao fundo, um homem setembro de 1977 com o intuito de
do Campo e Diadema estão frente a alto, de barba e óculos escuros, cuja retomar o rumo de “distensão” do
frente. Petrônio faz um gesto largo, identidade desconhecemos (algum regime, pretendido pelo governo do
com o braço estendido para trás e a repórter, talvez? Um funcionário de general Ernesto Geisel. Desde então,
mão direita aberta, como quem diz gabinete?). A composição do cenário Petrônio já havia recebido, para citar
“entre, fique à vontade”. A postura é dada pelas mesas de escritório que apenas alguns nomes, Dom Aluísio
corporal de Lula, no entanto, não estão em segundo plano cobertas por Lorscheider, presidente da Confede-
é a de alguém que esteja à vontade: papéis, pastas, aparelhos telefônicos ração Nacional dos Bispos do Brasil
seus olhos miram para baixo e o e fios. (CNBB), Raimundo Faoro, presi-
paletó de brim cinza que segura com A imagem é do fotógrafo Luís dente da Ordem dos Advogados do
a mão esquerda mantida à altura do Humberto e foi publicada pela pri- Brasil (OAB) e Domício Veloso, pre-
peito como um cabide parece servir meira vez em matéria da revista Veja sidente da Confederação Nacional da
como anteparo de defesa visando em sua edição de 22 de fevereiro de Indústria (CNI). Dois dias antes do
manter o interlocutor a uma certa 1978. A mesma fotografia seria reu- encontro com Lula, Petrônio rece-
distância. Petrônio veste um terno tilizada por Veja na edição de 16 de bera uma comitiva formada por 26
azul-marinho descrito com o adje- janeiro de 1980 em matéria retros- sindicalistas paulistas liderados pelo
tivo “irrepreensível” por um repór- pectiva sobre a carreira de Petrônio arenista Jorge Maluly Netto, secre-
ter da revista IstoÉ que presenciou Portella, por ocasião de sua morte no tário do trabalho do Estado de São
o encontro. Lula, por sua vez, veste dia 6 daquele mês e ano. Paulo. Que Lula tenha sido recebido
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sozinho era, portanto, um sinal de desabrochara como o orador capaz mau uso dos recursos do fundo em
prestígio. de fascinar multidões e negociador investimentos que não atendiam às
Lula e Petrônio estavam em habilidoso que teria seu “batismo de prioridades da classe trabalhadora).
momentos muito distintos de suas fogo” no ciclo de grandes greves que Ambos saíram contentes do
trajetórias. Petrônio tinha 53 anos e estourariam no ABC paulista a partir encontro. Em conversa com repór-
era um político experiente no auge de maio daquele ano de 1978. teres, Petrônio destacou aquela
de sua carreira. Representante de um Durante o encontro com Petrô- como mais uma demonstração
dos Estados mais pobres da federação nio, Lula restringiu sua fala ao script de que o governo estaria aberto
e opositor do golpe de 1964 num pri- dos três pontos de um documento ao diálogo com todos os setores.
meiro momento, chegara sete anos previamente elaborado e distri- Enquanto Lula se deu por satisfeito
depois da instauração do regime à buído naquela ocasião à imprensa: com o compromisso assumido por
presidência do Senado, tendo sido 1: autonomia e liberdade sindical (o Petrônio de levar adiante suas rei-
também líder da bancada do governo programa de abertura política fica- vindicações ao conhecimento do
e presidente do partido oficialista ria incompleto se não acabasse com presidente Geisel.
(ARENA). Lula, por sua vez, tinha os mecanismos de controle dos sin- A reunião entre Petrônio e Lula
então 33 anos e, embora já chamasse dicatos pelo governo); 2: contratos não produziu nenhuma repercus-
a atenção por algumas iniciativas coletivos de trabalho (necessidade de são importante que alterasse signi-
inovadoras levadas a cabo pelo sin- livre negociação entre empregados ficativamente os rumos da abertura
dicato que dirigia (mobilização efe- e patrões, sem o decreto unilateral política. O que ficou dessa tarde de
tiva das bases, denúncia da política pelo governo dos índices de reajuste fevereiro 1978 em Brasília foi ape-
de arrocho salarial e propostas de salarial); e 3: fundo de garantia nas esse registro do encontro insólito
revisão radical do modelo burocrá- (reclamação quanto ao aumento da entre dois grandes vultos da história
tico de representação), ainda não rotatividade de mão de obra e ao política recente.
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CRÔNICA
POR ROGÉRIO NEWTON
N
o final da década de 1980, estava namorando uma moça que
cantava no Coral N. S. do Amparo, em Teresina. Uma noite,
fui buscá-la no ensaio. Como chegara cedo, fiquei esperando.
O grupo se reunia numa casa da Rua Coelho Rodrigues, onde funcionou,
por anos, um órgão de cultura. Mas logo saiu de lá. A casa hoje é sede
de uma imobiliária.
Como era noite, a rua estava silenciosa, não havia funcionários e o
coral reinava sozinho. Sentei numa cadeira e fiquei ouvindo. Vindas da
sala contígua, as vozes chegavam nítidas até mim, pois a porta estava
aberta. Foi algo totalmente imprevisto: as ondas sonoras vinham e era
como se me abraçassem, indo e voltando, num fluxo, interrompido
aqui acolá pelas correções e ajustes que o regente fazia.
As intervenções pontuais do maestro não pareciam desarmônicas,
mas parte do todo. Posso dizer: foi um alumbramento. Depois daquele
dia, não faltei mais aos ensaios e passei a fazer parte do grupo de
cantores e cantoras.
ALEGORIA AZUL
O regente era Reginaldo Carvalho. Os ensaios, verdadeiras aulas.
Ele tinha bagagem cultural e vivia intensamente a música. O repertório
em si mesmo dava um panorama da música ocidental, pois era constituído
de peças da Renascença à época contemporânea, abrangendo largo período
histórico. Além disso, sabia histórias sobre composições, compositores,
celebridades, parte dos quais havia conhecido ou tido convivência.
Lembro muito bem dele, pressionando os pedais do harmônio, correndo
as mãos no teclado um tanto quanto amarelecido pelo tempo. Não faltavam
arranjos feitos por ele mesmo, de composições suas ou de outros. Às vezes,
fazia um arranjo à tarde e trazia quentinho para o ensaio à noite. Havia uma
canção que me cativou, porque eu amava o autor de Irene no Céu, poema
de Manuel Bandeira, que Reginaldo musicou com um belíssimo coro
a capella, sua predileção como criador.
Naira Villar, sua filha, me falou há poucos dias que Reginaldo tinha
amizade com Manuel Bandeira, com quem se encontrava frequentemente
para conversar, numa banca de jornais. Posso imaginar os dois em um
dos períodos culturalmente mais fecundos no Rio de Janeiro dos anos 1
950 a 1964.
O discipulado direto de Heitor Villa-Lobos, de quem foi aluno e
amigo no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, transformado,
após a morte do mestre, em Instituto Villa-Lobos, do qual foi primeiro
diretor; a produção de música para cinema, teatro e televisão; a partici-
pação n’O Tablado, onde fez as trilhas sonoras de muitas peças de Maria
Clara Machado, são apenas a ponta do iceberg da intensa participação de
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Reginaldo Carvalho na vida cultural do Rio seu pai. Mas não será necessário: ela adquiriu o
de Janeiro. mesmo volume num sebo.
Quando ele chegou para trabalhar em Tere- Quem está há 20 anos fazendo trabalho de
sina, no início da década de 1970, não exibia pesquisa sobre a vasta obra de Reginaldo Car-
seu currículo na testa, não propalava os feitos valho é o professor Vladimir Silva, da Universi-
que o fizeram receber convites para cinco países. dade Federal de Campina Grande. É possível ter
Preferiu fixar-se no Piauí por mais de 30 anos. acesso a uma parte do acervo, através do Youtube.
Quando cheguei, por sincronia do destino, Foi onde vi – e me emocionei – a montagem
ao Coral N. S. do Amparo, nada sabia sobre recente d’O Cavalinho Azul, pelo Tablado, e o
sua biografia. E ali demorei pouco, pois eu disco vinil com as composições que Reginaldo
também precisava trabalhar e fui para Floriano fez para a peça.
e, logo depois, Oeiras, cidade na qual formei Penso que O Cavalinho Azul é uma alegoria
com amigos um grupo de teatro. da jornada do herói. Vicente sai pelo mundo em
Naquela época, eu havia me casado com busca do animal vendido pelo pai. Os adultos o
Cidinha, a moça que ia buscar nos ensaios, chamavam pangaré, mas o menino o via, impo-
com quem estou até hoje. Sendo ela de Cam- nente, de rabo branco, com beleza e lirismo,
pina Grande, era natural que me levasse a necessários no mundo cinza de hoje.
conhecer a cidade, onde participamos do Festi-
val de Inverno de um ano que não sei precisar,
mas era final da década de 1980. Assistimos a
praticamente todas as peças e aos debates que se
lhe seguiam. E participamos das oficinas, entre
as quais a ministrada por Luiz Carlos Vascon-
celos, que na época estudava ou havia chegado
da Europa e era muito interessado na prepara-
ção científica do ator.
Ao voltarmos para Oeiras, tínhamos novi-
dades para mostrar ao pessoal do grupo, dentre
elas, um dos volumes da coleção de teatro da
Livraria Agir, dedicada a Maria Clara Machado.
Para minha surpresa, quem assinava as músicas
das peças era Reginaldo Carvalho. De longe, o
melhor texto para mim era O Cavalinho Azul.
Eu alimentava o sonho de montar com o grupo,
mas isso não ocorreu. A título de consolo,
informo aos senhores e senhoras que O Cava-
linho Azul, dirigida por Murilo Eckart, foi
encenada em Teresina, na década de 1970.
Eu não estava lá, mas Naira Villar me disse,
confirmada pelo poeta e pesquisador Paulo
Machado.
Os anos passaram, e eu me lembrei de ter
prometido a Naira Villar entregar-lhe o livro
com as partituras, porque ela havia me falado
que estava tentando organizar as produções de
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HOMENAGEM DA EDIÇÃO
GUERREIRÍSSIMA
F
tura mais votada na capital e na quinta colocação
rancisca das Chagas da Trindade nasceu em no estado. Com sua postura aguerrida, presidiu
26 de março de 1966, em Teresina. Foi pro- a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia
fessora nos ensinos médio e fundamental, Legislativa. Em 2002 obteve mais de 165 mil votos
após se formar em Teologia na Universidade Fede- e tornou-se, até então, a parlamentar com a maior
ral do Piauí, onde também cursou Filosofia, curso votação na história do estado ao conquistar uma
que não chegou a concluir. vaga na Câmara Federal.
Trindade exerceu intenso ativismo social, represen- A guerreira Trindade, como era chamada por sua
tando o Piauí na Central Nacional de Movimentos incisiva atuação nos movimentos sociais nas mais
Populares, além de uma das mais ativas organi- diversas áreas, como a favor dos sem-teto, pelas
zadoras da Articulação Nacional do Solo Urbano. mulheres e contra o racismo, foi uma das funda-
Como militante política, filiou-se ao Partido dos doras de um dos maiores assentamentos urbanos
Trabalhadores, disputando em 1992 o cargo de ve- da América Latina, a Vila Irmã Dulce, na capital
readora em Teresina. Não obteve votos suficientes piauiense.
para ser eleita, mas ficou na suplência. Em 1995 as- Considerada favorita nas eleições para a prefeitura
sumiu o mandato após a saída do então vereador de Teresina em 2004, não teve tempo de realizar
Wellington Dias, mas, em nova tentativa nas elei- mais essa conquista e o sonho de alterar os rumos
ções do ano seguinte, chegou à Câmara Municipal da história: faleceu prematuramente aos 36 anos,
como vereadora eleita. deixando sua marca na política e no sentimento
Começa então uma das mais promissoras carreiras popular do Piauí.
da política regional. Já em 1998, em rápida ascen-
REPORTAGEM
38 www.revistarevestres.com.br
Proibida de tocar no Brasil, o compositor negue até hoje essa intenção. “Como ele
a canção que não ganhou mesmo falou, em 1968, em entrevista: Caminhando não
é uma canção de guerra”, diz Vitor Nuzzi, jornalista e
o festival de 1968 segue biógrafo do cantor. “O verso sobre os soldados não se
na memória nacional refere apenas a militares, mas, segundo ele, ‘é um modo
por mais de meio século. de se exprimir para explicar todo tipo de profissão que
restringe as pessoas a um certo modo de vida’ ”.
O biógrafo - que lançou “Geraldo Vandré - Uma
POR LUANA SENA, canção interrompida” em 2015, mesmo a contragosto
do cantor, considera que a canção foi tida erroneamente
DIREÇÃO DE ARTE ALCIDES JR
como um hino contra os militares. “Acho que Vandré
captou o que as pessoas queriam dizer naquele momento”,
diz por e-mail à Revestrés. “Um chamado à contestação,
R
io de Janeiro, Maracanãzinho, 29 de setembro à não aceitação, que de certa forma manteve a atualidade,
de 1968. Mais de 20 mil pessoas lotavam o apesar de às vezes a música ser usada de forma indevida,
estádio para assistir a final nacional da terceira inclusive por conservadores”.
edição do FIC - o Festival Internacional da Canção. O Mais tarde, para a imprensa, Vandré definiria sua
júri acabara de anunciar o segundo colocado - o parai- canção como uma “crônica da realidade”. Mas muita
bano Geraldo Vandré, - e coube a ele mesmo a função água já tinha rolado pelos “campos e grandes plantações”
de acalmar a plateia que vaiava e gritava enfurecida. para que ele assim analisasse sua própria composição em
“Gente, gente, por favor…”, pedia o cantor, inutilmente, retrocesso. Vandré deu muitos depoimentos a jornalistas
no microfone. “É marmelada, é marmelada!”, respondia e pesquisadores em 2008 para falar dos 40 anos da can-
a multidão em coro. “Olha, tem uma coisa só: a vida não ção e, na maioria deles, definia Caminhando como um
se resume em festivais”. As vaias só diminuíram quando “desnudamento”: “Um dizer-se tudo quando era proibido
finalmente o cantor pegou o violão e entoou os dois úni- dizer-se quase tudo”.
cos acordes da canção que defendera: “Laiá-ra-ia-lá…”. E dizer quase tudo teve um preço. Na semana em que
Os presentes nem sabiam mas assistiam, ali, a uma das aconteceu o festival, Vandré era o brasileiro que mais
poucas apresentações, em público, daquela que entraria fazia sucesso nas festas com as delegações estrangeiras
para a história como o maior hino dos protestos contra formadas por artistas e representantes que vieram para
a ditadura militar no Brasil. “Pra não dizer que não falei a final brasileira - era mais aplaudido e aclamado que a
das flores”, ou “Caminhando”, como ficou conhecida, foi dupla Tom Jobim e Chico Buarque, autores da música
a canção corajosamente defendida por Vandré no festival, “Sabiá”, vencedora do III FIC. Iniciou contratos, nego-
no cerne de uma radicalização. Poucos meses antes, o estu- ciou gravações de suas músicas na Europa enquanto, nos
dante Edson Luís havia sido morto durante uma manifesta- bastidores, corria o boato de que seria preso, acusado de
ção do Rio de Janeiro, a cidade vivia o impacto da Passeata promover agitações.
dos 100 Mil e o cerco da censura se fechava cada vez mais Para entender o impacto atemporal de “Pra não dizer
para aqueles que se apresentavam contra o regime. É nesse que não falei das flores”, basta dizer que você, leitor, pro-
contexto que o refrão-convite (“Vem, vamos embora / que vavelmente vai ter que recorrer ao Google para lembrar
esperar não é saber / quem sabe faz a hora / não espera os versos da música Sabiá, a campeã por três votos a
acontecer) parecia mesmo um chamado à revolução. mais (há controvérsia quanto a isso, siga lendo para
É claro que a repercussão foi imediata - não precisa entender) enquanto certamente completa mentalmente
ser muito gênio para entender a mensagem clara e direta a frase “Caminhando e cantando e seguindo a canção…”.
do autor contra qualquer tipo de autoritarismo. Mas, Algumas músicas têm o poder de resumir um momento
num contexto em que as Forças Armadas controlavam histórico. Junto a mitos e lendas sobre seu compositor,
os poderes da república no Brasil, não parecia muito a falta de consenso sobre fatos da época dá um quê de
conveniente apresentar ao vivo, em um festival transmi- mistério à canção de protesto brasileira mais aclamada
tido pela televisão, uma crítica contundente ao exército de que se tem notícia até hoje. As razões para isso é o que
brasileiro em forma de música popular - muito embora tentamos desvendar nas linhas que se seguem.
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dizer que não falei das flores” tinha sido defendida
meses antes na final paulista, quando Vandré se apre-
sentou no TUCA - Teatro da Universidade Católica de
São Paulo - dispensando acompanhamento da orques-
tra. Somente com voz e violão e seu canto agressivo, o
compositor e intérprete foi delirantemente aplaudido - e
a recepção efusiva se repetiria também na final carioca.
As vaias a Chico e Tom, militares, Há uma versão da história que diz que a organização
TV Globo e previsões furadas. do festival teria sido aconselhada a “dar um jeitinho”
para impedir a vitória da canção, considerada pelos
O
compacto com a música apresentada naquela militares “altamente subversiva”. A fofoca surgiu de Telé
noite no FIC vendia como pão quando a polícia Cardim, torcedora-símbolo dos festivais, e está expli-
do estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro) cada em detalhes no livro “A era dos festivais: uma pará-
resolveu apreender os discos que ainda restavam nas bola”, escrito por Zuza Homem de Mello. Enquanto
lojas. Após o decreto do AI-5 - o ato institucional mais esperava por um ingresso no escritório da produção do
rigoroso do período, que censurava imprensa, artistas e evento em São Paulo, ela ouviu uma conversa telefô-
manifestações populares - Geraldo Vandré passou a ser nica: “Os militares não querem que a música de Vandré
procurado pelos setores mais radicais da repressão mili- ganhe o festival. Temos que falar com a organização
tar - eles consideravam a música um desafio à ordem porque, se ele ganhar, vão tomar uma atitude de sérias
pública além, é claro, de interpretá-la como uma ofensa consequências”.
àqueles que prestavam serviço militar. Mas a raiva dos O diretor da TV Globo que estava à frente da trans-
generais, ao que se sabe, era anterior a tudo isso. missão do festival, Walter Clarck, nega que houve
Antes mesmo de ser apresentada no Rio, “Pra não interferência da censura no resultado do festival: os
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votos do júri, contabilizados que são exemplos de declarada sub- Costa publicou no Jornal do Bra-
manualmente, teriam dado a versão”. Os assessores do ministério, sil um artigo elogiando a música e
vitória a Sabiá, com 109 pon- no entanto, desmentiam que a can- pedindo a prisão de Vandré”.
tos - Caminhando ficou com ção tivesse sido proibida. Quem também usou o jornal
106. Não nega, no entanto, o A Marinha, por sua vez, decidiu para se manifestar foi o general Aspi-
alívio que sentiu. Esta versão responder a Vandré duas semanas rante Bastos - logo no dia seguinte
da história foi recentemente depois da apresentação, com uma à execução da música no FIC ele
confirmada pelo jornalista manifestação de protesto. Em 23 enviou uma “Carta a Geraldo Van-
Tárik de Souza em entrevista de outubro daquele ano, cedendo dré”, publicada no Última Hora, na
ao programa Conversa com Bial. “É às pressões, a música de Vandré foi qual questionava o compositor: “O
importante dizer que as pessoas não proibida pelo governo de ser execu- que entende você de pátria, para
vaiaram porque era Chico e Tom tada em rádios e locais públicos em dizer que nos quartéis se vive sem
Jobim”, disse. “As pessoas vaia- todo o território nacional - o que razão? Que mais você fez nesta vida
ram porque queriam Caminhando os censores não davam conta era de sem ser em troca de lucro?”, e com-
campeã”. impedir que ela fosse cantada nas pletava: “Será uma vida sem razão
Sendo a hipótese da interferên- festinhas e reuniões particulares. a dos homens que neste momento,
cia militar no resultado do festival É curioso pensar que mesmo como eu, em terras longínquas ensi-
confirmada ou não, não há como sob tanta aclamação, Caminhando nam a cor da bandeira brasileira?”.
negar que esta história explica o não chegou a ser uma unanimidade O tom ia se exaltando numa
delírio coletivo da plateia aos gri- - nem para aqueles que se conside- mistura de ofensa e revolta: “Cante
tos de “marmelada” e muitas vaias. ravam de esquerda, nem tampouco o que quiser, mas não coloque nada
O clima era de injustiça, protesto e na direita. Valnice Nogueira Gal- de pátria no meio”, dizia o general.
tensão. O secretário de segurança da vão, ensaísta renomada e Luiz “Você não sabe o que é isso. A sua
Guanabara à época, general Luís de Carlos Maciel, jornalista e um pátria deve ser um copo de cerveja”.
França Oliveira, considerou a can- dos fundadores do Pasquim, che- Por fim, o general fez aquela que
ção “atentatória à soberania do país, garam a escrever contra Vandré. já pode ser considerada a previsão
um achincalhe às Forças Armadas, “Eles diziam que a música era uma mais furada de toda a história da
que não deveria nem mesmo ser catarse desmobilizadora - ou seja, o música brasileira: “Você passará,
inscrita”. A declaração advertia, por camarada cantava a música e não Vandré. O povo esquece depressa.
tabela, os organizadores dos festi- queria saber mais da revolução”, Sua música causou sensação, mas
vais que, a seu ver, “não deveriam disse Tárik na entrevista a Bial. “E, logo será esquecida”.
aceitar composições dessa natureza, ao mesmo tempo, o coronel Otávio
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Em 2008, 40 anos depois do lançamento da canção,
o cantor Zeca Baleiro também relembrou o mistério
em torno do compositor na canção Geraldo Vandré, que
compõe o disco O coração do homem bomba - vol 1. Em
sua música, Baleiro convida Vandré para tomar um café
e sentencia: “Os jornalistas querem saber / o que houve
com você”.
Esta é a pergunta que nunca se calou ao longo dos
anos. Desde a apresentação no Maracanãzinho e toda
O percurso de Vandré a polêmica gerada em torno da não-premiação de sua
música, ninguém soube mais ao certo o destino do com-
no exílio e a tentativa positor. Houve boatos de que ele teria sido preso e estava
Revestrés de entrevistá-lo. incomunicável em alguma guarnição do Exército - os
mais trágicos diziam que ele tinha sido torturado e até
E
m 1974, Benito di Paula avistou Geraldo Vandré executado pelo Esquadrão da Morte.
“dizendo um poema para um poste”. Ele estava O livro de Zuza Homem de Mello refaz os passos de
com 38 anos, mais gordo e grisalho, vagando Vandré na tentativa de se manter em segurança e pouco
sozinho pelas ruas de São Paulo. Tinha poucos ami- antes de deixar o país: primeiro abrigou-se na fazenda
gos, recusava-se a fazer shows ou dar entrevistas: “Nada da viúva do escritor Guimarães Rosa, no Rio de Janeiro.
do que eu possa dizer, fazer ou pensar dá no mesmo Logo mais, sempre com a ajuda de amigos, embarcaria
ser publicado ou não, porque não tem nenhum valor”, para Santiago, no Chile - foi lá que o jornal O Globo o
dizia quando tinha oportunidade. Afirmava também não localizou, elucidando parte do mistério sobre o seu para-
ver televisão, nem ouvir rádio ou ler jornal. Parecia um deiro. “Estou bem vivo. Escrevendo e fazendo da saudade
homem exilado de si mesmo e confirmava a impressão o que posso fazer”, disse à reportagem, em junho de 1969.
que reverberou - e ainda reverbera - por anos sobre o
cantor: Vandré nunca mais foi o mesmo.
O aspecto impressionou tanto o compositor que
Benito di Paula escreveu a canção Tributo a um rei
esquecido, naquele mesmo ano. É uma espécie de
homenagem a Vandré: “Eu quis gritar seu nome / não
pude”, reclama na canção, em referência ao fato de
a simples pronúncia do nome de Geraldo Vandré ser
objeto de censura na época. “E eu continuo querendo
saber: cadê ele? Já deram anistia pra ele? O que foi
que fizeram com ele?”. Para driblar a censura, Benito
chama o compositor de rei, em alusão à letra de Dis-
parada, também de Vandré: “Na boiada já fui boi /
boiadeiro já fui rei…”.
Vandré foi simplesmente banido e apagado do Brasil.
Por ter sido proibida por quase 20 anos, Caminhando
teve uma trajetória em disco relativamente restrita se
comparada à importância que adquiriu como um verda-
deiro hino da oposição à ditadura militar. Além da versão
ao vivo, gravada naquela noite no Maracanãzinho, só há
outra versão em estúdio, com dois violões, uma levada
guarânia paraguaia. Há ainda uma versão de Luiz Gon-
zaga, num compacto também recolhido pela censura, e
outra da cantora Simone, anos mais tarde.
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No mês seguinte, sem visto, trazê-lo de volta ao Brasil. Mas tão na verdade, nunca estive vinculado
Vandré foi obrigado a deixar o misteriosa quanto a sua saída foi ou comprometido em toda minha
país. Seguiu para a Argélia e depois também a sua volta ao país. vida com qualquer grupo político”,
Europa: Alemanha, Áustria, Itália. O retorno de Geraldo Vandré ao esclarece, com voz trêmula e cabis-
Vandré percorreu povoados do inte- Brasil teria acontecido sob a condi- baixo. “Daqui pra frente só vou fazer
rior da Grécia, Bulgária e Iuogoslá- ção de que ele fizesse uma retrata- canções de amor e paz”.
via. “Ele certamente passou por um ção ou confissão pública através do O depoimento não casava em
sofrimento profundo ao ser obrigado Jornal Nacional. Seu desembarque nada com a figura de Vandré que
a deixar seu país, escondido, e ficar real no país teria sido 33 dias antes todos tinham em mente, defendendo
mais de quatro anos fora, muito mais do desembarque fictício, totalmente de forma agressiva e forte sua canção
do que qualquer outro artista”, diz ensaiado e encenado para ser trans- naquele festival. Para completar, o
Vitor Nuzzi. “Como artista apegado mitido na TV Globo, em 21 de Jornal do Brasil furou a proibição
à terra, Vandré sofreu com a distân- agosto de 1973. A câmera focaliza de falar sobre o retorno do compo-
cia. E duplamente, porque não era a escada de um avião da Varig no sitor e, na edição de 18 de julho de
um ‘exilado político típico’, não era aeroporto de Brasília, fechando mais 1973, publicou a nota: “O cantor e
militante, ficava um pouco à parte ainda no rosto de Geraldo Vandré, compositor Geraldo Vandré foi preso,
dos grupos de exilados”, completa. barbado e com expressão cansada, ontem, no aeroporto do Galeão, ao
“Isso acentuou sua solidão”. aparecendo na tela. A locução desembarcar de um avião. O artista
Na reta final do exílio forçado, o informa: “O cantor e compositor foi levado para uma unidade militar,
cantor chegou a ficar doente. Viciou- Geraldo Vandré acaba de voltar ao onde se encontra incomunicável”. É
-se em remédios para dormir, passou Brasil”. Ele desce a escada e caminha graças a este registro que sabemos,
por internações. Seus pais chegaram pela pista do aeroporto. Em seguida hoje, que a chegada transmitida pela
a ir visitá-lo e foi a partir daí que faz aquele que seria seu primeiro pro- Globo foi encenada.
começaram as negociações para nunciamento desde 1968: queixa-se O que não sabemos com certeza,
de que sua música foi apropriada por entretanto, é o que aconteceu neste
grupos políticos contra a sua vontade. espaço de tempo - entre a chegada
Diz que espera cantar uma nova rea- de Vandré em 17 de julho de 1973
lidade do Brasil: “Vocês sabem, a arte e a apresentada pela Globo mais de
às vezes é usada por um grupo deter- um mês depois - para que o com-
minado com interesses políticos e positor mudasse tão radicalmente de
isso transcende a vontade do próprio
autor. Eu, o que tenho a dizer é que,
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expressão e posição. Torturas físicas?
Lavagem cerebral? “Essa é uma das
lendas que cresceram em torno do
personagem”, diz o biógrafo quando
perguntado sobre esta questão cen-
tral na história de Vandré. Teria
mesmo o artista cedido às exigên-
cias dos militares para ter o direito
de retornar ao seu país? “É difícil
responder essa questão”, responde
Nuzzi. “Vandré sempre foi uma pes-
soa de convicções, posições firmes.
Lembro que em algum momento ele
disse que, na entrevista à Globo, não
falou nada de que discordasse. Penso Arte engajada, música mobilizadores da juventude naquele
que se por um lado ele teve de ceder
popular e a canção que período, os festivais de música, que
para voltar ao país, e isso teve um o jornalista Tárik de Souza defi-
preço, por outro preservou sua obra”. pede para ser cantada. niu como “vitrine e laboratório de
A lenda em torno desta história canções”.
M
crescia ainda mais à medida em que illôr Fernandes tratou-a Alguns fatores são responsáveis
jornalistas tentavam fazer a pergunta como a “Marselhesa” bra- por tornar a canção um marco nas
ao próprio Vandré. “A curiosidade sileira. Pra não dizer que lutas em favor do restabelecimento da
sobre isso é uma paranoia, uma não falei das flores era cantada nas democracia e dos anseios por liberda-
doença”, disse certa vez ao Jornal do cerimônias, reuniões e protestos, apre- des. “Sua força discursiva, a melodia
Brasil. “Não me sinto responsável ciada pelos intelectuais e eruditas da penetrante e de fácil apreensão, o
em elucidar isso”. A Maria do Rosá- época. Mas o que é, de fato, que faz momento histórico no qual foi lan-
rio Caetano, do jornal O Estado de essa canção ser lembrada até hoje com çada, o ambiente cultural expressado
São Paulo, respondeu que nunca foi sentimentos profundos e também naquele momento”, aponta Feliciano.
torturado. “E me nego a continuar contraditórios? “Tudo isso fizeram-na manifesto de
falando sobre esse assunto”, encer- Para Feliciano Bezerra, doutor em uma geração, de um verdadeiro hino
rou. Um jovem repórter do jornal O Comunicação e Semiótica pela PUC- adotado por setores da cultura e de
Globo teve menos sorte ao pergunta- -SP e professor de Letras da Univer- interesses políticos libertários”.
-lhe se ele se considerava uma vítima sidade Federal do Piauí, trata-se de O pesquisador observa ainda que
do regime militar. “Vítima é você! uma canção emblemática da chamada alguns de seus versos, notadamente
Vítima é você!”, esbravejou nervoso. “arte engajada” do período - era como o refrão, foram construídos de forma
Aos 85 anos, Vandré continua definiam um tipo de arte comprome- a não se limitarem a pontualidades
procurado por repórteres curiosos tida com proposições emancipatórias, referenciais de espaço e tempo. “Isso
– e, por que não, corajosos – como no campo ideológico, cultural e polí- resultou em presunções universa-
nós, da Revestrés, para responder tico, acontecendo também em outros lizantes da condição existencial do
algo cuja pergunta passou mais da campos como o teatro, o cinema e a sujeito lírico, do indivíduo que está
metade da vida lhe incomodando. literatura. no mundo e que precisa compreender
Enviamos e-mail e conseguimos Mas, por ter mais visibilidade e que ‘esperar não é saber’ e que ‘quem
um retorno de seu produtor, garan- força de difusão, a canção de Vandré sabe faz a hora, não espera aconte-
tido que faria a pergunta chegar até acabou circulando com maior inten- cer’”. Além disso, Pra não dizer que
ele. Seguimos com o seu silêncio e sidade e ganhando mais presença e não falei das flores tem um aspecto de
a eterna dúvida – o que torna tudo, adesão - e contou, é claro, com um “metacanção”, nas palavras do profes-
convenhamos, ainda mais fascinante. dos fenômenos mais influentes e sor: “antes de tudo, antes de qualquer
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efeito enunciativo, ela nos convida a
segui-la em seu caminho. A canção
pede passagem e quer ser cantada”.
Somada às suas estratégias enun-
ciativas, a estrutura musical é muito
simples - o que é diferente de sim-
plista. Descendo do modo menor para
o maior, um tom abaixo, e subindo
novamente em constante repetição, cantar o amor”, explica. “E aí vem
o movimento de ida e vinda pode se O racha musical o Vandré com essa provocação”.
assemelhar à caminhada cuja letra político e por que Para Feliciano Bezerra, o título
convida: se uma passeata pudesse ser choras, Bossa Nova? da canção flagra um embate cultu-
traduzida em som, talvez tivesse essa ral/estético próprio da época. “As
melodia. A toada obedecia à conduta correntes musicais mais ligadas à
E
do compositor, segundo o próprio mbora Caminhando seja jovem guarda e à bossa nova, con-
Vandré, em depoimento dias antes da uma música com três feccionadas pela linha do lirismo
defesa no festival: “Em canção popu- nomes - o menos conhecido passional, ficavam de um lado, e as
lar a música deve ser uma funcionária é “Sexta coluna”, que ficou como um expressões cancionistas mais volta-
despudorada do texto”. subtítulo esquecido - quase todo das para o engajamento político, do
Para o músico e compositor Ale- mundo se confunde na hora de cha- outro”, comenta. “Então, Vandré des-
xandre Rabello, com quem conver- má-la pelo seu nome principal: é “Pra locou o campo semântico de ‘flores’,
samos sobre o assunto, o violão meio não dizer que não falei DE flores” ou próprio da passionalidade temática
“guarânia” faz dessa canção um por- “DAS flores”? do mar/amor/sorriso/barquinho/flor/
tal que leva o ouvinte direto para a Na recente entrevista para Pedro beijinho… e trouxe-o, ironicamente,
atmosfera dos anos de chumbo: “Ela é Bial, o jornalista e pesquisador para uma arena de especulações his-
como se fosse uma fotografia daquele Tárik de Souza traz argumentos que tóricas e dialéticas do real confronto
momento”, observa. “Eu acho que o defendem o uso da contração da ideológico, questionando quem ainda
mais complexo dessa música é enten- preposição de + o artigo a, no plural. acreditaria na possibilidade romanti-
der a emoção que ela exige para ser “A música que cindiu a bossa nova zada de uma flor vencer um canhão”.
tocada”, observa ele, que se refere a dizia que falar de flor não era alie- Curiosamente, Vitor Nuzzi nos
Vandré como um dos grandes “can- nar uma canção”, diz o jornalista. informa que Vandré diz que o título
tantes” latino-americanos. “Esses dois “Havia um racha entre os músicos da da música é “DE flores” - muito
acordes, simples, com essa letra tão esquerda e da direita, sendo a direita embora em todos os discos em que
certeira, têm uma carga emocional representada pela ‘a arte pela arte’, foi lançada a grafia tenha saído “Pra
gigante - tocar essa música sem emo- que ficou conhecida pelo ‘o amor, o não dizer que não falei DAS flores”.
ção é passar por ela e não perceber a sorriso e a flor’ (referência a disco de Seria uma tentativa de desviar, magis-
riqueza que há por trás desses senti- João Gilberto, de 1960), que queria tralmente, a intenção provocativa da
mentos”, diz. cantar músicas mais leves, queria música? Nunca saberemos.
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INFORME PUBLICITÁRIO
EMPRESAS INVESTEM EM
CAPACITAÇÃO DE JOVENS
DE ESCOLAS PÚBLICAS
EM TERESINA E TIMON
I
nvestir na capacitação de jovens
também é um compromisso do grupo
Aegea Saneamento, que opera no
Nordeste através da Águas de Teresina e
Águas de Timon, cidades do Piauí e Mara-
nhão, respectivamente. As concessioná-
rias realizam o projeto Pioneiros, que visa
aprofundar o conhecimento dos jovens
sobre o mercado de trabalho e a atuação
em diferentes profissões.
Ao todo, 31 alunos de escolas públicas de
Timon e Teresina participam do Pioneiros.
Por meio do projeto, eles têm a oportuni-
dade de aprender sobre a infraestrutura
de saneamento e a dinâmica nas diversas
áreas das empresas, estimulando o pen-
samento crítico e reflexivo, o senso de res-
ponsabilidade, a criatividade e a inovação.
"Essa é a segunda edição do projeto e
temos um carinho muito grande por ele,
porque sabemos que ele molda escolhas
e define futuros. É muito gratificante
fazermos parte da construção de um
profissional e é isso que desejamos aos
alunos do Pioneiros: que eles sejam cada
vez mais capacitados e tenham grandes
oportunidades no mercado de trabalho",
acrescenta o gerente de sustentabilidade
das concessionárias, Pedro Alves.
Neste ano, a iniciativa está sendo realizada
em plataforma online, em razão das medi-
das de distanciamento social. Para viabili-
zar as atividades, as empresas realizaram a
entrega de tablets aos estudantes.
São doze encontros online com gestores, com Teresina, que participou da primeira edição do
carga horária total de 48 horas. Pioneiros. Seu trabalho foi destaque em concurso
nacional realizado pela Aegea, que aconteceu no
Os estudantes são divididos em duplas e viven-
final do ano passado, em São Paulo. "Por conta da
ciam todos os setores da empresa, por meio de
oportunidade de conhecer cada setor da empresa,
workshops, palestras, visitas técnicas e outras
eu pude me encontrar, e escolher qual profissão
atividades. Com o auxílio de um tutor, eles devem
quero seguir. Entrei no projeto querendo ser
elaborar projetos sobre o saneamento com os
engenheira mecânica e, hoje, pretendo ser pu-
mais variados temas, como tratamento e distribui-
blicitária. E isso só foi possível pela experiência e
ção de água, esgotamento sanitário, drenagem
conhecimento que adquiri durante o projeto. Com
urbana e manejo de resíduos sólidos.
certeza são conhecimentos que levarei pelo resto
Para Gustavo Silva, estudante do Centro De da vida", afirma.
Ensino Maria Conceição Teófilo Silva, em Timon,
Para o diretor presidente das concessionárias,
essa experiência está ajudando a decidir o seu
Cleyson Jacomini, o Pioneiros é um projeto muito
futuro. "Depois que eu comecei a participar do
importante porque também atua na qualificação
projeto Pioneiros, eu passei a entender mais como
dos alunos dos municípios e oferece oportuni-
funciona uma empresa grande e me identifiquei
dades de emprego. "Parte dos estudantes que
bastante. Hoje eu quero me tornar um engenhei-
estiveram conosco no Pioneiros do ano passado
ro", declara.
ingressou como jovem aprendiz na empresa.
Quem também decidiu sua profissão após o Então, creio que eles saem daqui mais confiantes
projeto foi a estudante Ruama Saraiva, da Unidade de que são capazes de conquistar seu espaço no
Escolar Professora Auristela Soares Lima, em mercado de trabalho", finaliza.
MÚSICA
RELAXAR
BEATS
PARA
POR OHANA LUIZE de 1970 e 1980, ou mesmo antes desse Mesmo”. O gênero parece alinhado
período. ao estilo de vida contemporâneo.
O jornalista e pesquisador da “A música tem a capacidade de
música Lo-fi, André Santa Rosa, 21, mexer com o ser humano e o Lo-fi
V
á até o YouTube e digite explica que “nos anos 1950 já vemos é produzido exclusivamente pen-
Lo-fi. Você encontrará uma esse tipo de produção, muito ligado ao sando nisso. Hoje temos produções
infinidade de músicas, trans- rock de garagem. Tem uma concep- focadas a ajudar quem tem déficit de
missões ao vivo com duração de horas ção mais política, até, de desprendi- atenção, outras em quem tem insô-
(até dias) e um clima de relaxamento, mento dos padrões estabelecidos pelo nia, ansiedade, depressão e, em sua
reforçado por imagens de pessoas topo da indústria”. O termo Lo-fi vem grande maioria, produções focadas
lendo e escrevendo, usando fones do literal low fidelity – baixa fidelidade. em aumentar a produtividade”, conta
de ouvido, em ambiente caseiro ou Na música, registros indicam que o o DJ Rodrigo Lagoa, 33, destacando
mesmo cenas que remetem a paisa- estilo surge em meio à ascensão da que ouvia uma playlist Lo-fi enquanto
gens urbanas de grandes cidades do contracultura e pelo aumento nas pro- escrevia para Revestrés. Ele reside em
mundo. Com todas as circunstân- duções de baixo custo, independentes Goiânia, tem formação na área de
cias de distanciamento provocadas de grandes gravadoras e que foram produção de música eletrônica e é
pela pandemia de Covid-19 em 2020, impulsionadas por DJs na década de DJ desde 2013, tendo iniciado os tra-
o gênero musical conquistou um 1980. A música Lo-fi então une em balhos com Lo-fi em 2020. Rodrigo
público cada vez maior e predomi- sua proposta experimentação, simpli- afirma que há diferenças entre o que
nantemente jovem. Mas há registros cidade e a ideia de DIY – outro termo ele produz e o que toca, carregando
desse movimento ainda entre os anos em inglês que significa “Faça Você experiências vivenciadas no Brasil e
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ao consumo de Lo-fi está relacionado algumas marcam mais de 3 milhões
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MÚSICA
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oportunidade para crescimento, con-
quista de público e rentabilidade. “O
Lo-fi realmente ajuda a dar uma levan-
tada no ânimo, no foco e a relaxar.
Além disso, como é um tipo musical
de baixo (ou nenhum) custo na pro-
dução e mais acessível, acredito que
o número de pessoas criando novas
playlists só vai crescer também. Aposto
que num futuro (não muito distante)
alguma banda ou cantor(a) famoso(a)
vai lançar alguma música ou clipe
com referências do Lo-fi, justamente
visando a viralização nas redes sociais”.
O Lo-fi tem servido como “um
remédio com doses diárias”, na opi-
nião do DJ Rodrigo Lagoa. A metáfora
ajuda a explicar os motivos para essas
músicas ampliarem a audiência na pro-
moção de alguns momentos tranquilos
diante de um mundo acelerado.
EU TAMBÉM ACREDITO
QUE AS IMAGENS
TRAZEM O SENTIMENTO
DE NOSTALGIA.
NOSTALGIA DE UM
SENTIMENTO QUE A
GENTE NEM SABE DEFINIR.
MIYUKI KUZUOKA
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TIPOS
UM SHOW
DE PISEIRO,
VOADORAS
E DIVERSÃO
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POR VALÉRIA SOARES
FOTOS THEO CORREIA
M
ais de um milhão de pessoas acompanham
a criatividade e ousadia de oito jovens do
interior do Maranhão, através do YouTube
e Instagram, pelas performances com batidas de lata,
coreografias inusitadas e muito piseiro - ritmo musical
da região nordeste. Eles integram a banda O Fundo de
Quintal (OFC), formada em setembro de 2019 durante
as brincadeiras nos quintais do povoado Centro dos
Rodrigues, na cidade de Santo Antônio dos Lopes, a
300 km de São Luís.
Bateria feita de lata amarrada com arames; chinelo ou
galho seco como microfone; barranco com areia e lama
como locações. Esses são os instrumentos e o cenário das
apresentações do OFC, gravadas com celular, semanal-
mente, por Riquelme Santos (14), vocalista; Victor San-
tos (18), percussão; Rhuan Miranda (17), percussão; João
Vitor Paiva (16), cinegrafista; e os dançarinos Denilson
de Araújo (18), Eulisses Nascimento (12), Jhaymerson
Santos (18), Matusalém Santos (25).
Como boa parte dos virais da internet, a ideia a prin-
cípio era só fazer vídeos para brincar e divulgar entre os
amigos. “De início, gravamos e postamos. No segundo
vídeo achamos que faltava alguma coisa, chamamos o
Eulisses (dançarino). E depois ele aqui (Riquelme, can-
tor)”, diz Jhaymerson. “E hoje é esse sucesso que você
está vendo aí”, acrescenta Victor, satisfeito pelo grupo ser
reconhecido por mais pessoas que a população da região
de Santo Antônio dos Lopes, 14 mil habitantes segundo
o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A tarde de brincadeira de vizinhos com uma caixa de
som e microfone hoje rende vídeos no canal do YouTube,
com mais de um milhão de inscritos, viagem a São Paulo
para conhecer produtoras e gravar clipes em parcerias
com outros artistas. “Quem diria o cara gravando assim
Com mais de um milhão na lama, aquela poeira toda, levar a gente para São Paulo,
de inscritos no Youtube, é muito gratificante, ‘tédoido’”, conta Jhaymerson admi-
banda de garotos do rado pelo feito, ao lado dos outros garotos, sentados na
porta de casa, em conversa com a Revestrés pelo Zoom.
Maranhão levanta poeira Nos vídeos do OFC, a cada nova música a dramati-
e conquista a internet zação conta com voadoras (golpe de perna com chute no
com criatividade e humor. pescoço), chutes e cambalhotas pelo chão. A proposta
dos integrantes leva humor e criatividade sem limites.
“É porque o vídeo em que saiu uma voadora a galera
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TIPOS
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Sempre humildes e com pé no chão milhão de inscritos no Youtube e foguetes no povoado. “ A gente sur-
e fazendo sempre o que sabemos: postaram nos stories do Instagram: tou, foi uma felicidade muito grande.
humor, música e alegria”, comenta “Só via os outros ganhando, hoje é Foi foguete demais”, conta Victor,
Jhaymerson, sobre ter o reconheci- nós”, disse Denilson emocionado, satisfeito.
mento de artistas e do público. enquanto limpava a placa. Shows, lives e empresário já
Entre os projetos já idealizados Uma das inspirações dos garotos fazem parte da rotina da banda que
pelo grupo foi realizado o CD Res- é o piauiense Whindersson Nunes, nasceu no interior do Maranhão e
peite o Desmantelo, com 10 faixas, um dos maiores youtubers brasilei- conquistou o Brasil. Mas são enfá-
disponível no site Sua Música e ros. Também são fãs do trabalho ticos em dizer que se o dinheiro
YouTube. O material, que a princí- do Tirulipa, humorista cearense, e aparecer é lucro. “ Nós queremos
pio teria um financiador, teve que da banda de rock cômico Mamo- é fazer um trabalho bem feito com
ser bancado pelos integrantes para nas Assassinas, sucesso no país na vídeos engraçados, para contribuir
ser lançado. “Suamos as canelas para década de 1990 pelas apresentações com a alegria dos fãs e mostrar a
pagar, mas tá aí. Mais de 500 mil criativas e engraçadas. O grupo brincadeira raiz de interior”, finaliza
'visu' no YouTube”, fala Jhaymer- relata que os dois humoristas estão Jhaymerson, seguido da confirmação
son, sendo complementado com bem próximos da realidade em que de todos.
mais números pelos outros. Em São vivem, por serem conhecedores da
Paulo, gravaram quatro clipes e fize- vida no interior. Recordam que em
ram uma entrevista exclusiva com o um mesmo dia Tirulipa notou o Acesse o canal
Kondzilla, maior canal do YouTube trabalho do grupo e eles atingiram do OFC
no Brasil. Durante a produção dessa um milhão de seguidores no Insta- no Youtube
matéria, receberam a placa de um gram. O OFC comemorou soltando
ARTE
Autorretrato Lucílio de
Albuquerque: reprodução
fotográfica desconhecida
MESTRE
DAS
TINTAS
E TELAS
Premiado internacionalmente,
o piauiense Lucílio de Albuquerque
foi um dos artistas plásticos mais
influentes do século XX no Brasil.
"N
POR VALÉRIA SOARES ada mais nos aproxima os povos do que a
IMAGENS ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL Arte. Pode-ser-ia mesmo afirmar, sem exa-
gero, que onde a arte termina, começa a
desarmonia”, afirmou um dos maiores pintores brasi-
leiros do século XX, Lucílio de Albuquerque, em evento
de missão de intercâmbio artístico, na cidade de Bue-
nos Aires, em 1921. Eclético e curioso, foi um mestre
das pinceladas que transitou por várias categorias de
técnicas e estilos da pintura, introduzindo no país os
conceitos de movimentos artísticos como o Simbolismo
e Expressionismo.
Nascido em Barras, cidade ao norte do Piauí, ele
ganhou o mundo com as tintas, telas, desenhos e vitrais.
Filho do desembargador Alcebíades Dracon de Albu-
querque Lima e dona Filomena Albuquerque residiu
de 1877 até os sete anos de idade em terras piauien-
ses. Depois de viver no Pernambuco na adolescência,
foi para São Paulo, onde estudou Direito, profissão
que abandonou para persistir na vocação de artista
na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro,
em 1896.
Os escritos sobre a vida do pintor relatam que
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Paisagem de Petrópolis:
Reprodução Fotográfica
Romulo Fialdini
O despertar de Ícaro:
Reprodução fotográfica
Antonio Caetano
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ARTE
O Guarani:
Reprodução fotográfica
Elenilce Mourão
Jornal O Estado de São Paulo, o poeta e escritor Mário em vida, mas o tem na memória como um homem que
de Andrade escreveu que a obra O retrato de Georgina batalhou pela cultura brasileira. “Ir ao Piauí foi uma
(1920) captava a segurança e sensibilidade no desenho e experiência interessante. Fiquei muito emocionado”,
de cor que dava ao artista um lugar histórico da plástica relatou sobre o contato que fez com as origens dos seus
nacional. Monteiro Lobato, em 1926, no mesmo jornal, familiares.
afirmou: “a pintura de Lucílio tem a solidez técnica dos O legado de Lucílio no Piauí é representado em
mestres e a honestidade artística que torna cada tela um grandes trabalhos do artista no Museu Odilon Nunes,
documento exaltado à altura da lição”. material doado por Georgina de Albuquerque, quando
Lucílio foi casado com Georgina de Albuquerque, o museu ainda era uma seção do arquivo Público de
que também dedicou a vida às expressões artísticas Teresina. O Guarani (sem data), Flamboyant (1928),
e foi a grande responsável pela construção de seu Paraíso Restituído (1911), O grande circo (1933) são
acervo póstumo no Rio de Janeiro, hoje pertencente alguns deles.
ao estado. Das mais de 400 telas em exposição pelo país, de
uma não se sabe o paradeiro. A tela Marinha, roubada
MEMÓRIA DE da prefeitura de Barras em meados de 2011, deixou
LUCÍLIO DE ALBUQUERQUE uma lacuna na história da cidade que busca ser preen-
NO PIAUÍ chida por admiradores. Como é o caso do médico
O neto João Lucílio de Albuquerque recorda que, em Gisleno Feitosa, que, ao procurar saber quem era o
visita ao Piauí em 2010, teve a satisfação de ser recebido homenageado da praça da qual residia próximo, soube
com banda de música, presenteado com bandeira do da importância de Albuquerque para o mundo das artes
estado em Barras e palestrar para professores e estu- plásticas. Uma figura notável que ele lamenta não ser
diosos em Teresina sobre o avô, que ele não conheceu de grande visibilidade no estado.
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O retrato de Georgina:
Reprodução Fotográfica
Romulo Fialdini
UM EXÍMIO CONFERENCISTA
EM DEFESA DA ARTE
E DE DIVULGAÇÃO
DA ARTE BRASILEIRA.
ELENICE MOURÃO, ARTISTA PLÁSTICA
A partir de pesquisas que fez, passou a ser um con- Quanto às tendências simbolistas foram reconhecidas
tador da história do artista. O médico menciona que a na representação das cenas subjetivas com o predomí-
afeição pelas obras do pintor o fez gostar de arte e asso- nio da emoção, do onírico e da imaginação nos temas
ciá-la à sua área de atuação de forma mais humanizada. mitológicos”, descreve a artista plástica Elenilce Santos
“A pintura de Lucílio de Albuquerque me transporta As ruas, praças e instituições públicas na cidade
para um ambiente de reflexão e fascínio, criando uma de Barras e Teresina, como a Pinacoteca Lucílio de
atmosfera de paz, sobriedade, harmonia, naturalidade Albuquerque no Palácio da Cultura da capital, são as
e encanto”, comenta. memórias do artista no estado. A neta, Beatriz de Albu-
No livro A História da Arte e da Arquitetura do Piauí, querque, comenta que o contato que ela e seus irmãos
de 2005, as autoras Elenilce Santos Oliveira, Fernanda tiveram com o avô foi como muito dos apreciadores das
Pearce de Carvalho e Maria Isalina de Moura Cortez obras, através dos quadros, discos e leituras. “Meu pai
registram um capítulo sobre as obras O Guarani (sem falava muito deles e tínhamos quadros de meus avós em
data), Despertar de Ícaro (1910) e Paraíso Restituído casa. Gostava muito de ouvir um disco que conta a vida
(1911). O trabalho analisa, além da estrutura com- deles”, diz. Mesmo diante do esquecimento da valo-
posicional das pinturas, como foram as influências rosa obra do artista na sociedade piauiense, familiares,
impressionistas e simbolistas das obras. “Do Impres- pesquisadores e admiradores preservam e divulgam as
sionismo, Lucílio captou a atmosfera luminosa, rom- contribuições de Lucílio de Albuquerque para as artes
pimento dos contornos na justaposição de áreas de plásticas, como forma de valorizar a cultura brasileira
cor, tornando a composição com aspecto de esboço. e a história da Arte no Piauí.
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INSPIRAÇÃO
NO VÃO
DO
ONÍRICO
No trabalho artístico de Isadora
Machado, consultas às cartas de tarot
se unem à intuição e criatividade.
U
m sopro de ventos que vem do norte anuncia: Portugal, Isadora participou da Feira da Alegria, no
esse é um mergulho para dentro de si. Através Porto. Na ocasião, produziu sua primeira experiência
de seu trabalho artístico, Isadora Machado oracular de criação de cartas. Onze cartas acompa-
percorre um caminho por entre universos cósmicos e nhadas de mensagens escritas com o intuito de trazer
nos transporta para um diálogo entre o sentir e o ser pensamentos e troca de reflexões para o público. O
que desemboca em desenhos e pinturas carregados trabalho foi recebido de forma curiosa por quem tirava
de simbologia. as cartas e se encorajava no processo de imersão por
“A melhor forma que consigo descrever o meu tra- entre os signos dispostos.
balho é a intuição. Fico bastante atraída por universos As cores e formas que compõem as suas criações
misteriosos, pelos sonhos e o surrealismo porque tudo fluem de maneira sutil e conduzem para múltiplos
isso permite a invenção das coisas, a exploração de significados. Nesse processo, o fazer artístico recebe
sensações e de outros sentidos”, explica Isadora, 30 mais uma camada de sentido por meio da consulta
anos. às cartas. Esse componente surge por volta de 2015,
Autodidata, se dedica à produção artística mul- quando a artista começa a utilizar o tarot dentro de
tidisciplinar com foco em desenho e pintura, explo- seu processo de autoconhecimento e as leituras e tira-
rando símbolos, intuição e mistérios cósmicos desde gens, se expandem para a prática artística e os dese-
2017. Natural do Rio de Janeiro, a artista já morou nhos autorais feitos sob encomenda. “Eu tinha von-
em algumas cidades como São Paulo, Belo Horizonte tade de oferecer a leitura e o tarot para ajudar outras
e Florianópolis e mudou-se há dois anos para Porto, pessoas na autocompreensão. Daí comecei a estudar
Portugal. De lá para cá, já apresentou trabalho ceno- as possibilidades de expressão com essa parte mais
gráfico em equipe na Quadrienal de Praga. Participa mística e uma coisa acaba interferindo na outra. Ao
de feiras de exposições em Portugal e ilustra artigos de fazer um desenho, dialogo com os oráculos. E quando
publicações feitas em espaços como o Jornal Rascunho faço tiragem de tarot e consulta de outros oráculos
e a plataforma multimídia Shado. como o pêndulo, a camada criativa complementa a
Em setembro, com a flexibilização da pandemia em leitura dos símbolos”, explica.
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Em um ponto de convergência, o fazer criativo se
une com o oracular e dá origem aos desenhos da sorte.
“Comecei a perceber que certos desenhos acabavam
sendo meio proféticos, em que eles faziam sentido de
uma coisa que desejava ou que queria trabalhar em
mim”, explica a artista. “O desenho da sorte é quase
que um ancoramento de intenções. É algo em que
tento sistematizar o processo de criação, já que eles são
meio caóticos e não percebo muito bem como aconte-
cem. Agora, estou tentando me afastar um pouco do
caos para tentar entender como funciona”.
O desenho da sorte é sentimento de entrega em
formato de imagem. Uma ponte que liga os desejos
para presentear alguém especial e o mergulho nessa
sensação. Ao entrar em contato com a artista para
encomendar o trabalho, deve ser feito um texto curto
explicando a ideia do que se quer oferecer através do
desenho. A partir disso, a artista faz meditação e con-
sulta os oráculos para criar e materializar, no papel,
as intenções daquilo que a pessoa deseja presentear a
ela mesma ou a alguém. O trabalho finalizado acom-
panha uma explicação de como o processo intuitivo
acontece. “Também sugiro que a pessoa que vai pre-
sentear fazer uma dedicatória, porque acho que as
dedicatórias em geral são meio mágicas e potentes,
né?”, complementa.
“Teve um desenho da sorte que fiz que era de uma
amiga oferecendo para uma outra amiga e ela falou
alguma coisa sobre casa. Na hora da criação, me veio
uma imagem muito forte de uma concha. E, a partir
disso, me deixei explorar essa imagem e fiz o desenho.
Quando ela viu, ficou um pouco chocada porque já
tinha dado uma concha para essa amiga deixar na casa
dela”, exemplifica Isadora.
É preciso se desconectar do campo da linguagem e
do racional para sentir o que transborda pelas telas de
Isadora Machado. No fim, tudo é mistério e sensações
subjetivas. “Procuro deixar livre para que as outras
pessoas ponham as suas camadas de sentido porque o
importante é que faça sentido para quem recebe meus
desenhos porque isso também vai dando esse toque e
qualidade mágica”, finaliza.
ONDE ENCONTRAR
@pppaperplanes
[email protected]
isadoram.com
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BRASIL
LAERTE,
DIRETA
E INTENSA
Laerte Coutinho mantém a precisão
para comentar e ilustrar o Brasil.
N
a reportagem da edição #45 de Revestrés, Laerte
Coutinho comentou que a relação com o público
nas redes sociais surpreendia pela rapidez nas res-
postas se comparadas com a lentidão das seções de cartas
em revistas. Essas mudanças são acompanhadas por Laerte
ao longo de sua trajetória como cartunista, chargista, ilus-
tradora, quadrinista e roteirista. Aos 69 anos, o caminho da
artista está lado a lado com a trajetória pessoal e o intenso No Instagram seu perfil pessoal @laerteminotaura tem
ativismo político percebido nas obras inteligentes e provo- mais de 92 mil seguidores e outro, o @laertegenial, ali-
cadoras – e mais outra infinidade de atributos. mentado por fãs, tem mais de 600 mil. No twitter, Laerte
Uma das ilustradoras mais premiadas do Brasil, já foi compartilha trabalhos, opiniões e uma mensagem diária
reconhecida em diversas edições do Troféu HQ Mix – que questiona: “…quem matou e quem mandou matar
importante prêmio dos quadrinhos nacionais, e também Marielle? - queremos saber”.
no Prêmio Angelo Agostini da Associação dos Quadrinis- Laerte influencia dentro e fora das redes. Como uma
tas e Cartunistas do Estado de São Paulo. Laerte venceu das fundadoras da Associação Brasileira de Transgêneros
mais um em 2020 no 42º Prêmio Vladimir Herzog de (Abrat), dedica-se a compromissos em defesa da identi-
Anistia e Direitos Humanos, como melhor arte pela charge dade e dos direitos de pessoas transgênero. Protagonizou
com título Infernópolis – em que retrata um cerco policial o primeiro documentário original produzido pela Netflix
e massacre ocorrido em Paraisópolis, bairro de São Paulo, no Brasil (Laerte-se – 2017) e A Cidade dos Piratas, filme
em 2019, que terminou com a morte de nove jovens. de Otto Guerra, levou o humor das histórias dos Piratas
No currículo, estão participações como no histórico O do Tietê para o cinema.
Pasquim, a criação de personagens famosos como Piratas Nossa conversa com Laerte foi mais uma vez por e-mail,
do Tietê, passando por alguns dos maiores veículos de por onde responde rapidamente. Comentou sobre política,
imprensa do país e, atualmente, publicando na Folha de mídia e Brasil. E prefere dizer a respeito de si mesma de
São Paulo, além de manter o blog Manual do Minotauro. forma direta: “Eu me vejo e me sinto uma mulher trans”.
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REVESTRÉS Discutir gênero parece ainda assustador na nossa sociedade. REVESTRÉS E como é sua relação de artista com
A que isso se deve? Estamos avançando? as redes sociais? No seu perfil no Instagram tem
a frase “não sei lidar com mensagens por aqui”.
LAERTE Estamos avançando, isso é visível - mas ainda vamos percorrer
esse terreno de tensão. O tema, afinal, é mais complexo do que as LAERTE Especialmente o Instagram é um pro-
visões simplistas consideravam, e as soluções têm que passar neces- blema pra mim. Nunca me senti em casa ali,
sariamente por uma revisão de valores bem arraigados na sociedade. ao contrário do Twitter e do Facebook. Tenho
Pense em quanto ainda se discute se mulheres devem ou não mudar achado o Facebook meio longínquo.
o sobrenome quando se casam. É só um detalhe. REVESTRÉS A esquerda brasileira demorou a per-
ceber a relevância das redes sociais para a política?
REVESTRÉS Os discursos autoritários e de ódio ganharam espaço nos
últimos anos. Qual o peso das charges e cartuns no combate a esses LAERTE Pode ser. Acho que a campanha do Bou-
discursos? los (PSOL), para a prefeitura de São Paulo, mos-
trou um uso competente – e ético – das redes
LAERTE A palavra “peso” me faz pensar mais na parte que quer proibir,
sociais.
que quer censurar e reconstruir estruturas fascistas no país. Charges
querem (ou deviam querer) detonar esse peso. Mas há muitas formas REVESTRÉS Como é hoje sua relação com os
de se fazer charge e muitas cabeças de pessoas que fazem charge. Não movimentos sociais organizados e partidos políti-
dá para esperar uma ordem unida. cos? De que maneira você posiciona seu ativismo
político?
LAERTE Procuro participar segundo percebo
ações com que me sinta em sintonia. Não quero
entrar em partidos políticos, por ora.
REVESTRÉS Em entrevista para o jornal do Sin-
dicato dos Jornalistas Profissionais do Estado
de São Paulo, em 2018, você declarou: “a mídia
para mim deixou de ser uma coisa confiável
de um modo geral”. Você continua com esse
pensamento?
LAERTE Às vezes falo coisas precipitadas, às vezes
falo bobagens, às vezes mudo de ideia. Não sei
se diria isso hoje. Parte da mídia não é lá muito
confiável, mesmo - mas parte me interessa. Aliás,
eu faço parte da mídia.
REVESTRÉS Como você avalia a travessia do Brasil
por esse momento de pandemia?
LAERTE O Brasil tem trunfos poderosos, como
a existência do SUS e uma experiência positiva
em crises de saúde; mas, ao mesmo tempo, tem
a infelicidade de ter no governo um bando de
irresponsáveis que tem custado muitíssimo e cujo
estrago vai demandar anos para ser reparado.
REVESTRÉS Você também já declarou que sua tra-
jetória de trabalho não está completa, pois está
viva. O que ainda podemos aguardar?
LAERTE Ah, não faço ideia!
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GASTRONOMIA
A
s invenções de asiáticos e ameri-
canos no mundo gastronômico
não contavam com a expertise do
piauiense quando criaram pastel, hambúr-
guer e cachorro quente. Um século depois, o
que era internacional se tornou regional. Só
no Piauí você encontra pastel de panelada,
hambúrguer de creme de galinha e cachorro
quente de carne de sol. Criações de apai-
xonados pela gastronomia local, feitos com
temperos que o mundo precisa provar e os
chefs adoram utilizar como inovação.
Os autores dos experimentos gastronô-
micos encontraram na própria terra os insu-
mos para recriar pratos de diferentes lugares
do mundo. Elton Fábio, autor do pastel de
panelada, apostou em um prato com bucho
e tripas de boi. “Eu precisava fazer algo
novo, porque com a chegada da pandemia
começamos a trabalhar com o delivery e pre-
cisava chamar atenção dos clientes. Então,
veio a ideia do pastel de panelada, já que no
restaurante já trabalhamos com a venda da
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Foto: Jonas Andrade
panelada”, conta.
O perna mbuc a no, re sidente
em Teresina desde 1991, disse que
a proposta foi bem desbravadora.
“Eu consegui equilibrar, não é uma
panelada raiz, mas a panelada que
não tem excesso de gordura e cheiro
forte. Com a massa adocicada, deu
uma harmonia muito boa. A massa
sequinha por fora do pastel e dentro
o buchuzinho cortado em pequenos
pedaços, bem suculento com leve
toque de pimenta”, revela a receita.
Também foi durante a pandemia
que o gastrônomo Danilo Pierote
criou o hambúrguer de creme de
galinha, com a técnica Fusion Food
– adaptação de um procedimento
do exterior com uso de ingredientes
locais. “O creme de galinha é uma
coisa muito presente aqui no Piauí.
É a comida de infância, eu acho que
de todo mundo”, comenta. A mistura
de métodos que ele utilizou envolveu
o empanamento do creme sem massa.
“Eu sempre busco adaptar a minha
realidade aos insumos que tenho”,
acrescenta sobre gostar de inovar na
cozinha, principalmente em hambúr-
gueres, que são sua especialidade.
Em Campo Maior, terra mais
conhecida pela carne de sol, o chef
Leonardo de Sousa usou da principal
delícia gastronômica da região para
elaborar um prato diferente: subs-
tituiu a tradicional carne moída do
cachorro quente pela carne de sol. O
prato que leva pão, salsicha, carne O GRANDE LANCE DA
de sol salteada na manteiga da terra,
chips de macaxeira, queijo mussarela, GASTRONOMIA É A INOVAÇÃO.
picles de maxixe e maionese à base de
abóbora é um dos mais vendidos. A CRIATIVIDADE VEM DE
Com os insumos locais, os chefs APROVEITAR O LOCAL E FAZER
têm apresentado novidades que têm
dado certo na cozinha. “O nosso DA MELHOR FORMA. DANILO PIEROTE
grande lance da gastronomia é essa
inovação. A criatividade vem muito
disso de aproveitar o local e fazer
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GASTRONOMIA
Foto: Léo Seabra
66 www.revistarevestres.com.br
TRABALHOS Sou muito raiz. Gosto de utilizar
RECONHECIDOS produtos locais, a manteiga da terra
Com todo amor que sentem pela não pode faltar no meu estabeleci-
comida piauiense, os chefs são des- mento”, diz Leonardo.
taques em eventos gastronômicos Ser regional também está na
ONDE ENCONTRAR
no estado. Em 2015, Leonardo foi moda, e é aproveitando o momento
premiado na 5ª edição do Sabor do piauiense gostar e se identificar Pastel de panelada
Maior, em sua cidade. Ele, que teve com o que é feito na região que os Restaurante Pernambuco
receio em participar por na época chefs buscam usar cada vez mais a Dream bar
se achar inexperiente, recebeu com criatividade para incrementar ou Avenida Miguel Rosa, 1610,
surpresa a premiação. O chef Elton criar novos pratos. “O toque regio- Teresina/PI
Fábio, que cresceu dentro do res- nal é o nosso cartão postal”, afirma Hambúrguer de
taurante da família e dedica a vida o chef Fábio. creme de galinha
para produzir os pratos que apren- “A culinária reflete muito o que Toturgo
deu com o pai, também celebrou nós somos. No Piauí temos essa Avenida Nossa Senhora de Fátima,
um prêmio no Festival Maria Isa- cultura de acolhimento, de sempre 1870, Teresina/PI
bel, em 2017. cabe mais um, de mesa farta. Eu
Cachorro quente
Eles são enfáticos em dizer que gosto de culinária nordestina e bra-
de carne de sol
têm afetividade e carinho pelo que é sileira no geral, mas a piauiense tem
Larica
da terra. “Eu sou muito apaixonado esse significado especial”, finaliza
Avenida Santo Antônio, 477,
pela minha cultura, pela minha Danilo. Quem é do Piauí aprova, e Campo Maior/PI
cidade. Valorizo o que é daqui. quem não é tem que provar.
U
PEIXE VORAZ
POR LEO GALVÃO fa! Acabamos o ano que acabou com a gente. Promessas, vacina, vergo-
nha, lives, eleições, zoom, estupro, racismo, ódio. Na nossa última coluna
@galvaoleo
de 2020, tem mulher que é Deus, tem tendências de futuro, tem um guia
para você entender seu privilégio e tem um convite à reflexão sobre tudo isso
para todes nós. Respira, reza e agradece. Vem, 2021, mas vem de máscara.
F
cada vez mais distante. De repente,
ilha de lavradores, nascida na Edite descobre uma oficina de artes
roça e quebradora de coco para a terceira idade ministrada
babaçu desde os sete anos pela atriz piauiense Carmem Carva-
para ajudar os pais no sustento da lho, mas Edite tinha apenas 31 anos.
casa. Esse poderia ser o começo, da roça. Suntuosas, belíssimas e Persistente, pediu, implorou, relutou,
meio e fim da história de qualquer glamourosas, isso era combustível insistiu até que conseguiu entrar. E
menina do paupérrimo sertão de para sonhar e querer um dia figurar desde então, como o nome artís-
Barras, no Piauí, mas esse não era o naquelas páginas. tico Edite Rosa, nunca mais parou.
enredo do roteiro da vida de Edite
Chegou a hora do casal dos mamu- Com 59 anos e 28 anos de carreira,
Maria Rosa (@editerosa_).
lengos partir e ganhar estrada e, a menina sonhadora acumula 18
O cenário é uma casa que ficava à junto com isso, veio a ousada pro- peças de teatro no currículo, mais de
beira de uma estrada que liga os posta de levar Edite para bem longe cinco filmes com exibição em circuito
municipios de Esperantina e Luzi- com a dupla. “Mesmo morando no nacional e seis prêmios de melhor
lândia. Caminhoneiros, viajantes e interior, nunca fui tímida, sempre atriz, sendo três vezes consecutivas
transeuntes paravam por ali para fui dada para as pessoas. Topei ir no Melhores do Teatro Piauiense.
um banho ou uma dormida, todos embora com eles e não existia um Pergunto a Edite qual o seu maior
recebidos por seu hospitaleiro pai. sentimento de medo ou tristeza”. sonho e ela entrega: “Há dois anos
Entre idas e vindas, um simples e Madrugada adentro, na hora da meu maior sonho era ser atriz reco-
simpático casal para nas redondezas fuga, Edite dorme um pouco a mais nhecida nacionalmente e interna-
e monta o seu teatro de fantoches e perde a carona. “Acordei atônita cionalmente, hoje eu já não tenho
(mais conhecido como mamulengos), procurando por eles, mas já era mais. Meu sonho atual é um mundo
e toda noite era um espetáculo que tarde demais, coisa de Deus, que sem violência, barbaridade e cruel-
reunia os vizinhos e, pela primeira não permitiu que isso acontecesse”, dade. Que as pessoas pensem mais
vez, o sentimento daquele universo profetiza Edite. em Deus, a volta do filho de Deus
inunda o coração de Edite.
Desde então a vontade só aumen- está perto!”
Mais tarde, também por ali, algumas tou. Aos 12 anos, Edite começa a Edite Rosa finalizou recentemente
mulheres do interior que trabalha- suplicar aos pais para ir à capital em as gravações da série “Sementi-
vam como domésticas na capital busca de oportunidade para sua nha”, de Moisés Bittencourt, no
Teresina, retornavam ao interior tão sonhada carreira. Pedia para Rio de Janeiro. Teve as gravações
munidas de revistas antigas de cele- falar com conhecidos fazendeiros e de “Babaçu Love”, de Cícero Filho e
bridades. A menina se encanta pelo donos de terra, “meu pai não admi- Hortelã, de Thiago Furtado adiadas
universe das divas da TV e do cinema tia que eu fosse curica da casa de e “Casa de Penhores”, texto de Isis
e o que mais chamava atenção era a branco, mas consegui convencer e Baião e direção de Arimatan Mar-
diferente aparência dessas mulhe- cheguei em Teresina”. Sozinha, sem tins, interrompida. Deus é mulher.
res, em comparação às mulheres conhecer ninguém e sem saber por E é uma mulher atriz.
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TODXS
MUNDXS
L
uiz Arruda (@luizarruda), pes-
quisador de tendências e
diretor da consultoria WGSN
Mindset LATAM, fala sobre futuro, relações, o modelo de trabalho, à muita gente que não se aventurava,
privilégio e como você pode ser nossa rotina. Então existem algu- por insegurança ou medo, agora
um agente transformador na rea- mas transformações importantes é adepta. Não voltaremos a esses
lidade em que você vive. que devem ser olhadas sob uma mesmos hábitos de antes. E esse
lente mais individual que coletiva, universo vai além de consumo,
Diante da sua experiência como
já que nem todo mundo responde atinge a maneira de como a gente
pesquisador e sua sensibilidade
igual, nem vive o mesmo contexto, trabalha, como educamos nossos
como ser humano, o que esperar
quem aceitou esse convite está filhos, como cuidamos da nossa
do futuro?
reconhecendo isso. saúde e como operamos a nossa
LA – Precisamos deixar claro desde vida a partir de agora.
agora que estamos falando de futu- Existem três aceleradores que
são mudanças importantes para o O terceiro e o último acelerador é
ros, não apenas de um só futuro.
futuro. Percebemos um aumento o isolamento emocional. As con-
Dentro do Brasil, da nossa reali-
gigantesco de ansiedade e medo sequências de não socializar, prin-
dade, cabem muitas realidades,
– eis aqui o primeiro acelerador. cipalmente para a nossa saúde
são muitos presentes, não existe
De acordo com a Organização mental. No começo da quaren-
todo mundo, existem todos mun-
Mundial de Saúde (OMS), o Brasil tena a gente tinha a ideia de over
dos, não podemos fechar o olho
já é o país mais ansioso do mundo pro-atividade: leia um livro, faça
para isso. Quando mapeamos
e, nesse momento de tanta insta- mais exercícios, cuide das plantas,
futuro é uma premissa importante
bilidade e insegurança, aumen- aprenda novos hobbies e a gente
da gente perceber.
tou uma ansiedade que antes era entendeu que não dá pra fazer tudo
Precisamos entender alguns pon- no momento que se está isolado.
em único aspecto da nossa vida,
tos. Sabe aquele pensamento que
e agora passa a ser transversal: Qual é o futuro dos sonhos do
alguns tinham que a quarentena ia
saúde, trabalho, futuro financeiro, Luiz?
ser aquele momento transcenden-
entre outros. E é neste aspecto que
tal, transformacional e que íamos LA - O que enxerga mais futuros.
eu faço uma provocação para as
mudar como seres humanos? Que Que eu consiga me informar mais,
marcas: vocês serão agentes dessa
faríamos uma revisão do capita- fure a minha bolha, entenda outras
ansiedade ou vão trabalhar para
lismo como modo de produção, realidades. Que eu seja agente de
aplaca-la? Vai impor ao seu con-
as regras do jogo vigente? Infe- transformação, use o meu trabalho
sumidor mais tarefas e mensagens
lizmente não vai ser desta vez. As e o que eu tenho de melhor a favor
ou vai investir em relacionamento
mudanças estruturais levam tempo de outros presentes, outros pon-
e diálogo?
para acontecer. Não vejo mudan- tos de vista. Que eu reconheça o
ças para todos, esse é o primeiro O segundo acelerador é econo- meu privilégio e busque um futuro
ponto, mas vejo, sim, fazendo um mia digital. O consumidor quaren- que faça sentido para além de mim,
recorte privilegiado, que algumas tenado privilegiado entrou de vez mas para o outro também.
informações importantes podem nos aplicativos, sites e plataformas
HERBERT LOUREIRO É O CONVIDADO
impactar o futuro. Enxergo um de produtos e serviços na internet. QUE ILUSTRA ESSA EDIÇÃO - @HERBBBBIE
convite à reflexão em relação ao São ferramentas que diminuem a CONHEÇA, DIVULGUE E INCENTIVE
nosso consumo, à manutenção das exposição ao risco de contágio e O TRABALHO DO ARTISTA.
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TRABALHOS NO SUBSOLO
POR MANOEL RICARDO DE LIMA
JOAQUIM CARDOZO,
10 ANOS DEPOIS
N
uma carta do poeta João Cabral de Melo Neto próprio Cardozo não sabe de nada, nem da estrutura que
para Clarice Lispector, datada de 08.12.1948, ele dei ao livro (um tanto especial) nem do próprio livro. A
lhe pede que ceda seu Coro de Anjos para uma ver se lhe agradará.”
pequena edição na Livro Inconsútil (pequenos livros que O desejo de João Cabral em editar a poesia e todo o
João Cabral fazia porque um médico lhe receitara, como trabalho do também pernambucano Joaquim Cardozo
tratamento fisioterapêutico, que dedicasse um tempo a tem a ver, diretamente, primeiro com a importância que
trabalhos manuais, assim decide imprimir livros numa lhe atribuía como uma primeira referência à sua poesia e,
prensa manual). Depois, avisa a Clarice que vai lhe enviar depois, com pauta do pensamento sofisticado e silencioso
a “Pequena antologia Pernambucana”, o livrinho que fez desse engenheiro calculista, poeta, dramaturgo, crítico de
com poemas de Joaquim Cardozo. E anota: “Conhece V. arte, de poesia e de arquitetura. Pensamento marcado por
a poesia de Cardozo? Soube que publicaram há pouco, uma linha de variantes intensa que pode fazer o caráter
no Rio, suas poesias completas, arrancadas do autor, que pedagógico, institucionalizado e hierárquico das leituras já
nunca publicara livro, e baseadas em textos ‘fixados e cumpridas do modernismo brasileiro se mover para outro
estabelecidos’ pelo poeta e por mim, quando estava no lugar [modernismo muitas vezes meramente localizado
Rio (o poeta não tinha cópia de nenhum poema; e assim, em São Paulo por circunstâncias econômicas, logo cul-
meu trabalho foi: pedir aos amigos as versões que pos- turalmente centralizadas numa única ideia de civilização
suíam e submetê-las à memória do poeta que as corrigisse). anulando outros móbiles, como os que aconteceram no
Pois desses textos, num momento de añoranza da luz Ceará e como o que acontecia em Recife, Belo Horizonte,
recifense, escolhi os mais diretamente pernambucanos e Porto Alegre etc.]. Imaginar modernismos mais díspares,
organizei-os numa antologia que estou imprimindo. O mais pantanosos, mais próximos da alucinação do cálculo
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matemático, de uma memória fabulosa ou de problemá- adjetivo mortificante, “completa”, expressão que retira
ticas mais plurais. a modulação que engendra um pensamento de trabalho,
Num desvio de propósito, uma espécie de baixa com um trabalho, mas que é ainda muito usual ou, mais
sedução e um dispêndio, seguindo aqui as proposições de severamente, num contraponto, muitas vezes num modo
Georges Bataille, Joaquim Cardozo ajustava sua postura preguiçoso, a organização de antologias que funcionam
política a um gesto radical entre modesto e lúcido, como como mapa, ou seja, controle e poder, em torno da com-
disse dele o arquiteto Oscar Niemeyer na revista Módulo, posição delicada e forte da composição de uma vida com
em 1961: “... o trato ameno e simples do homem inteli- um trabalho.
gente – Cardozo é o brasileiro mais culto que conheço O que fica, desse conjunto reunido, agora, 10 anos
– incapaz de impor uma opinião com a intransigência depois, é que o pensamento silencioso de Joaquim Car-
das coisas irrefutáveis, apresentando-as sempre como dozo é um móbil incessante que nos lança sem parar
sugestões pessoais, que julga justas e convenientes.” E, diante desse momento em que estamos, um “tempo de
mais adiante, acrescenta: “o homem simples que se situa, alarme”. Ele mesmo disse: “Ninguém se lembrou que
modesto e lúcido, diante do mundo transitório em que o silêncio pode ser uma energia ainda desconhecida e
vivemos (...).” João Cabral, ciente de tudo isso, manteve que sua concentração pode, ou se abafar inteiramente,
o desejo de publicar uma espécie de obra errante, porque ou explodir; (...). Ou mesmo, quem sabe, fora a própria
sempre incompleta, de Cardozo, até bem perto de morrer. materialização do silêncio. Se não a explosão, a implosão
Duas referências a esse apontamento: 1] Maria da Paz do silêncio.” É com esse propósito à política que se pode
Ribeiro Dantas, certamente uma das pesquisadoras mais imaginar a circunvolução de um pensamento que tende à
pertinentes do trabalho e do pensamento de Joaquim Car- vulnerabilidade, aquilo que nunca está pronto ou acabado,
dozo, autora de 3 livros sobre o trabalho dele como poeta logo, nunca está “completo”, e que se constitui por um
e um pensador para o futuro, exatamente por causa da estado danificado, destruído em si: uma construção osci-
relação tensa que arma entre o poema e a matemática, a lante, sem nome, território ou língua, para a destruição
cultura e a física, a astronomia e a alegria etc. E 2] Eve- da destruição, tal como imaginara Walter Benjamin em
rardo Norões, poeta de dimensão erudita e alucinatória, seu Caráter destrutivo. Isto converge, primeiramente, à
que concentrou imensos esforços para a organização do expressão forma-formante, que é um conceito essencial no
volume tão sonhado por João Cabral. A edição saiu em pensamento de Joaquim Cardozo: esta ambivalência osci-
2009, equivocadíssima, pelas editoras Nova Aguilar, do lante da forma que se abre e se expande por meio do esforço,
Rio de Janeiro, e Massangana, de Recife, com o apoio quando esforço é aquilo que vem num engendramento
da Fundação Joaquim Nabuco: sem o nome de Everardo [imaginar, engenhar, inventar] da teoria da deformação,
Norões, o organizador, e outras várias questões, como a porque no cálculo estrutural tudo é feito para que não se
ausência das seis peças de teatro, bumbas, que Joaquim deforme nem deforme o real daquilo que constrói; Joa-
escrevera também num desenho vertiginoso a partir das quim entende que esforço é um “estágio da experimentação
assombrações míticas do sertão nordestino e do cálculo em que o corpo se deformando começa a deformar, por
matemático. À época, escrevi um longo texto para o sua vez, o corpo deformador.”
caderno Ideias, do Jornal do Brasil, quando o editor do Platão, no Timeu, comenta que o céu é esférico, que
mesmo era Rodrigo de Almeida, cobrando um melhor todos os pontos extremos do universo teriam uma mesma
tratamento ao trabalho de operário com o pensamento distância para um suposto centro que, por sua vez, man-
que Everardo fizera, até como uma formulação respeitosa teria também uma distância e uma mesma medida com
a Maria da Paz, que veio a falecer em seguida. Assim, a todas essas extremidades. O cosmo, para Platão, como
edição foi recolhida e em 2010 publicou-se uma reedição uma imagem móvel da eternidade, está constituído assim
do livro apresentando algumas correções, como o nome numa dimensão de extremos, e qualquer tentativa de
do organizador, agora indicado, mas ainda sem o teatro mensurá-lo se apresenta como descabida, inadequada. O
e com o título de Poesia completa e Prosa. universo não tem centro, e isto é político e interessa muito
Em que pese o falseamento absoluto promovido pelas a Joaquim Cardozo, uma geodésica do mundo da qual o
estratégias de mercado, logo, do capital, em torno da tempo faz parte: uma linha que cobre uma superfície, uma
ideia de “obra completa”, um contrassenso, tanto pelo curva cuja normal principal coincide, em cada ponto, com
substantivo monopolizador, o de “obra”, quando pelo a normal a essa mesma superfície.
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EU QUE FIZ
POR EDNARDO
PAVÃO MYSTERIOZO
Ednardo
O
ano era 1974, eu em uma torre inacessível Tudo é mistério nesse teu voar
estava em São aos brasileiros. Ai se eu corresse assim
Paulo preparando
músicas para o disco
Ao mesmo tempo veio Tantos céus assim
a ideia de fazer o disco
que gravaria este ano em Muita história eu tinha pra contar
como se fosse um cordel
outra gravadora, já tinha
urbano, contando a saga
Pavão mysteriozo
algumas prontas, era meu
artística e vivencial de Pássaro formoso
primeiro disco solo e foi
quando veio a lembrança
uma pessoa saindo de sua No escuro dessa noite
terra de origem, inven- Me ajuda a cantar
de um cordel que li quan-
do era adolescente. tando seus mecanismos
de voos para sobrepor as
Derrama essas faíscas
"Eu vou contar a história de dificuldades até vencê-las. Despeja esse trovão
um pavão misterioso, que
E veio vindo a letra da Desmancha isso tudo
levantou voo na Grécia
com um rapaz corajoso, música junto com a mú- Que não é certo não
raptando uma condessa, sica inteira em ritmo de Pavão mysteriozo, Pássaro formoso
filha de um conde orgu- maracatu, que é um ritmo
Um conde raivoso
lhoso"..., de repente bateu fascinante e hipnótico que
Não tarda a chegar
aquele estalo de traçar um escutei desde quando era
paralelo entre a situação criança pelos carnavais de Não temas minha donzela
política brasileira na época Fortaleza. E assim nasceu Nossa sorte nessa guerra
da ditadura que retinha a "Pavão Mysteriozo" que
Eles são muitos
liberdade enclausurada, deu titulo ao meu primei-
como a donzela do cordel ro disco solo. Mas não podem voar
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O Natal
SUCESSO
é a gente quem faz!
Uau!
CERTIFICADO DE AUTORIZAÇÃO SECAP/ME N. ° 06.009976/2020
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SUCESSO
essencial
Enfeite o Natal com o mais importante de todos os brilhantes,
o seu amor.
natal!
ainda não alcançou aguarde paciente com toda a esperança.
4. UM LIVRO
5. UM LUGAR
6. UM CLIP
7. UM INSTRUMENTO
8. COMPOSIÇÃO É...
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EVESDICAS
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UM OUTRO OLHAR
POR RITA SANTANA
SOU TUA
E SENHORA
Sou tua e Senhora
Partilho somente contigo [quando a ti amo]
Veemência e êxtase.
Apenas contigo penetro à santidade
E faço-me a Escolhida.
A Tua. A do teu Tempo.
Aquela que em segundos ínfimos
É o espelho e a combustão.
Não há paradoxo em te querer:
Quero-te, liberto-me!
Eis o desafio de declamar para rochas:
Existir, apesar da força das correntezas
E dos mugidos dos ventos.
Apartar-me de ti para sobreviver ao Amor
E à desilusão de cada pacto rompido.
É meia-noite e trinta e sete minutos!
Lá fora, cavalos relincham.
A lua partida ao meio ameaça fulgor e quietude.
A realidade é uma invenção fantástica!
MARINHA
Todos os dias,
Afundo as mãos em Oceanos,
Mergulho em enseadas e rios,
Em busca do Silêncio.
Entre juncos, musgos e algas,
Encontro-me com a Solidão.
Embarcações rubras dançam
Valsinhas à beira do cais.
Engano-me com a pacatez das ostras
Deitadas sobre o esquecimento.
Murmúrios sustam a letargia das Horas.
As Deusas prevaricam informações,
Demoram-se sobre os corais que cobrem os barcos.
Busco, acintosamente, entre todos, a Ti!
Busco-te em meio aos operários de Tarsila.
Busco-te no arsenal de Rivera,
Enquanto distribuo armas aos rebeldes,
Enquanto, adrede, apaixono-me.
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Viver nossa brasilidade é contemplar o que existe
de mais belo em nosso povo, nossas paisagens e
nossa cultura. É respirar a essência de saber que
somos grandes, somos fortes.