AYAHUASCA – PRINCÍPIOS BÁSICOS E CIENTÍFICOS
Ayahuasca é uma bebida com ação psicoativa preparada pela combinação de plantas
específicas. É considerada um enteógeno (neologismo de origem grega; en- =
dentro/interno, -theo- = deus/divindade, -genos = gerador) que pode ser traduzido por
"manifestação interior do divino" ou "gerador da divindade interna". Os termos
“enteógeno” e “psicoativo” se mostram mais adequados para se referir à Ayahuasca,
pois são mais precisos para definir seu uso dentro de um caráter sagrado e espiritual,
referindo-se aos estados não ordinários de consciência, aos transes ou estados místicos
e transcendentais.
Estudiosos dizem que a Ayahuasca chegou aos povos indígenas da Amazônia através dos
Incas, que a utilizavam há pelo menos três mil anos, contudo sua origem ainda é incerta.
A humanidade tem uma longa convivência com uso de substâncias psicoativas e há
milênios são empregadas para diversas finalidades, pode-se dizer que essa prática existe
desde que a humanidade existe.
O nome Ayahuasca, de origem Quéchua, Aya quer dizer “alma, espírito, pessoa morta,
ancestral” e huasca ou waska significa “corda, liana, cipó ou vinho”. Assim a tradução,
para o português, seria algo como “Corda dos Mortos” ou “Vinho dos Mortos, “Vinho
do Espírito” ou “Vinho das Almas”. No Peru também é chamada de “Soga de Los
Muertos” e “La Pequeña Muerte”, porque causa gradualmente “mortes” de “falsos eus”
construídos para lidar com as regras e as situações do sistema social em que se vive, os
quais muitas vezes nos afasta do nosso “Eu Real”.
Existem mais de 40 nomes dados a Ayahuasca, por diferentes tribos, entre eles: “Yagé”
pelos Siona, “Caapi” pelos Baniwa, “Kamarampi” entre os Ashaninka, “Kamalãpi” junto
aos Manchineri, “Nixi Pae (cipó forte)” no meio Kaxinawa, “Uni” entre o povo
Yawanawá. Também é chamada de Madrecita, Maestra, Natema, Pindé, Kahi, Mihi,
Dápa, Bejuco de Oro, Wine of Gold, Wine of the Spirits, Wine of the Souls e Hoasca, que
é um termo específico para o uso da planta em sacramentos religiosos. Também é
conhecida no Brasil como Vegetal (utilizado pelos adeptos da União do Vegetal – UDV)
e Chá do Santo Daime ou Daime (corruptela de “Dai-me”), expressão utilizada com o
sentido de pedir, como “Dai-me amor”, “Dai-me fé”, “Dai-me cura”, etc.
A Ayahuasca é preparada por ebulição ou imersão do cipó Banisteriopsis caapi, também
chamado de “Mariri” ou “Jagube”, juntamente com as folhas da Psychotria viridis,
também chamada de “Chacrona” ou “Rainha”.
Há também várias possibilidades de outras plantas que podem ser utilizadas junto ao
cipó. Apesar das variações nas plantas utilizadas como ingredientes da Ayahuasca,
farmacologicamente elas são similares. Como exemplo, as folhas da Diploptherys
cabrerana que podem substituir as folhas da Chacrona no preparo da bebida. Em geral,
a Psychotria viridis é encontrada no Brasil, Peru e Equador e a Diploptherys cabrerana
no Equador e Colômbia.
Outras plantas utilizadas junto ao cipó para a elaboração da Ayahuasca são vários
gêneros Solanaceous, inclusive o tabaco (Nicotiona sp.), Brugmansia sp., Brunfelsia sp.
Esses gêneros Solanaceous são conhecidos por conterem alcaloides como nicotina,
escapolamina e atropina.
Porém, sua fórmula mais conhecida, impreterivelmente utilizada hoje no âmbito das
religiões ayahuasqueiras é a cocção do “Mariri” em conjunto com as folhas da
“Chacrona”. O curioso é que, se ingeridos separadamente, os dois compostos que
formam a bebida surtem pouco ou nenhum efeito.
O efeito psicoativo produzido pela Ayahuasca decorre especialmente da substância N,N-
dimetiltriptamina, mais conhecida como DMT (também chamada de “Molécula do
Espírito”), presente nas folhas da Psychotria viridis. A ampliação da consciência
produzida pela ingestão da Ayahuasca, no entanto, só acontece pela associação da DMT
com os alcaloides harmina, harmalina e tetrahidroharmina, presentes no cipó
Banisteriopsis caapi.
Isso porque a enzima monoamina oxidase (MAO) presente no corpo humano decompõe
a DMT existente na folha, ou seja, impede a DMT de chegar ao cérebro na forma ativa.
Já os alcaloides beta-carbolínicos que são encontrados no cipó são inibidores da MAO,
o que facilita a absorção da DMT e dá passagem para que a Ayahuasca produza seus
efeitos de ordem psicoativa. Em outras palavras, do ponto de vista científico, o princípio
ativo presente na Ayahuasca atua sobre o sistema nervoso central causando estados
ampliados de consciência.
Porém, apesar dos estudos, a ciência ainda não consegue explicar exatamente como
essa substância atua na mente humana, principalmente pelos relatos que descrevem
uma experiência transcendental.
A DMT é também um neurotransmissor que se encontra em todos os seres humanos, e
tem um papel fundamental em todos os casos de estados de percepção incomuns. Este
neurotransmissor encontra-se no cérebro, no sangue, nos pulmões e noutras partes do
corpo humano. Estudos apontam para a glândula pineal, localizada no centro do
cérebro, como sendo a principal fonte do DMT humano.
Além de endógeno ao corpo humano a DMT está presente em mamíferos, numa
variedade de plantas e em diversas outras formas vivas.
Nosso corpo produz DMT em grandes quantidades nos momentos críticos da vida, como
no nascimento, stress profundo, meditação, experiências de quase-morte e a própria
morte. Nas crianças a DMT também é produzida em maior quantidade, porém, após o
período mais imaginativo da infância a glândula pineal reduz seu funcionamento,
chegando quase à uma calcificação, por volta dos nove anos. Como informação
científica, vemos que existe uma conformidade com as narrativas metafísicas que dizem
que as crianças estão mais conectadas com a espiritualidade, especialmente até os 6
anos de idade.
O DMT pode contribuir para tratamento de doenças psiquiátricas e neurodegenerativas,
pois, promove não apenas a formação de novos neurônios, mas, também a de outras
células neurais, como astrócitos e oligodendrócitos, que têm importantes funções no
funcionamento do sistema nervoso.
Estudos sobre a abordagem da farmacologia da Ayahuasca e seus efeitos cognitivos,
afetivos e emocionais são relevantes para o uso ritual da Ayahuasca e para estudos
sobre seus potenciais terapêuticos, incluindo o tratamento da depressão, ansiedade,
transtorno de estresse pós-traumático e dependência de drogas. No entanto, utilizar a
Ayahuasca sem orientação ou responsabilidade pode causar riscos e até mesmo danos
sérios à integridade do corpo e da mente.
Do ponto de vista farmacológico, a Ayahuasca não produz dependência fisiológica, nem
induz mudanças corporais crônicas capazes de desencadear tolerância. No entanto,
a Ayahuasca pode produzir forte fascinação em algumas pessoas que tiveram
experiências poderosas com a bebida, algo semelhante ao fascínio desenvolvido por
alguns indivíduos com a música, questões intelectualmente interessantes ou com uma
paixão por outra pessoa e, em todos esses casos, se a fascinação é positiva ou negativa,
uma benção ou um vício, é responsabilidade de cada indivíduo julgá-la dentro do
contexto de sua própria vida.
O conhecimento mais aprofundado da farmacologia da Ayahuasca também permite
prevenir eventuais riscos associados a esse consumo. De acordo com as pesquisas
realizadas até o presente momento, é contraindicado o uso da Ayahuasca para pessoas
com diagnóstico de transtornos de personalidade, portadores de esquizofrenia,
transtorno bipolar, Borderline, TOC, níveis altos de ansiedade (síndrome do pânico) ou
históricos de surtos psicóticos, pessoas com histórico de pensamentos obsessivos e
compulsivos, personalidades pré-psicóticas/neuróticas com instabilidade de identidade,
usuários de drogas/álcool e usuários de medicamentos psicoativos.
AYAHUASCA – INTERAÇÃO COM ALIMENTOS E MEDICAMENTOS
Alguns alimentos e medicamentos devem ser evitados antes e após uma cerimônia com
a Ayahuasca para melhorar o desempenho pessoal e alcançar os resultados desejados.
Essa sugestão vem do fato de que os componentes químicos da Ayahuasca interagem
com os componentes químicos naturais de alguns alimentos e podem levar a uma
exacerbação de alguns sintomas colaterais indesejáveis.
A Ayahuasca atua nos inibidores de monoamina oxidase (iMAOs). A função da
monoamina oxidase é degradar monoaminas para que elas não acumulem no corpo ou
que gerem efeitos indesejáveis.
Quando a monoamina oxidase é inibida, acumula-se mais monoaminas no corpo. As
monoaminas endógenas são os neurotransmissores e/ou hormônios dopamina,
serotonina, noradrenalina e adrenalina. As monoaminas são naturalmente encontradas
em vários alimentos na forma de tiramina (amina vasotensora), que em grandes
quantidades desencadearia aumento da liberação de noradrenalina, resultando em
crises de hipertensão, entre outros sintomas como dor de cabeça intensa, náuseas,
vômitos, sudorese, aumento da frequência cardíaca, dilatação das pupilas e, muito
raramente, hemorragia cerebral e morte.
Os iMAOs presentes na Ayahuasca são de curta duração, reversíveis e desaparecem do
corpo muito rapidamente. Portanto, quando se toma Ayahuasca é menos provável que
os níveis de tiramina vão acumular perigosamente, porém é mais seguro evitar o
consumo de alimentos com elevadas concentrações de tiramina.
É importante observar que fatores metabólicos e bioquímicos são muito diferentes
entre pessoas e podem produzir diferentes interações na toxicologia com o uso
da Ayahuasca.
A quantidade de Ayahuasca, a qualidade, a frequência e a duração do ritual também
influenciam na vivência e na possibilidade de gerarem efeitos indesejáveis.
ALIMENTOS QUE DEVEM SER EVITADOS
O afastamento da dieta simples e da conexão natural com a terra, aliado ao estilo de
vida frequentemente ocupado e estressante, nos afeta de maneira negativa em todos
os sentidos.
O consumo excessivo de alimentos industrializados e/ou altamente processados
contribuem para a degeneração da saúde. Certos alimentos podem ser excessivamente
estimulantes ou agravantes para o sistema físico e mental.
Nas tradições xamãs observa-se uma dieta especial ou jejum nos dias ou horas antes da
ingestão da Ayahuasca, podendo ser de até uma ou mais semanas.
É aconselhável ingerir somente alimentos mais naturais na semana antecedente à
cerimônia e não estar com o estômago muito cheio.
Cada organismo reage de uma forma, mas, em geral é benéfico evitar esses alimentos
durante pelo menos três à cinco dias antes e após se tomar Ayahuasca:
• Queijos envelhecidos e processados: Por serem fermentados e, muitas vezes,
consumidos após muito tempo depois de sua fabricação, os queijos são um dos
alimentos que mais concentram tiramina: cheddar, queijo azul, pastas de queijo,
suíço, gouda, gorgonzola, parmesão, romano, feta e brie; (queijo ricota e queijo
cottage são mais seguros).
• Frutas: casca de banana e banana muito madura, frutas secas, frutas cristalizadas
e frutas muito maduras; abacate (incluindo guacamole), cranberries,
framboesas, ameixa vermelha, figo, abacaxi, côco e óleo de côco (em grandes
quantidades).
• Condimentos e Temperos: industrializados em geral, principalmente os ricos em
glutamato monossódico, com alta concentração de sódio e/ou açúcar, noz-
moscada, pimentas, gengibre, alecrim, curry, aspartame.
• Suplementos: em geral, suplementos com extratos proteicos (proteína líquida
ou em pó), suplemento com claras de ovos.
• Vegetais: feijões em gera, fava, soja, repolho, lentilha, chucrute, vagem chinesa,
espinafre. Assim como as frutas, as quantidades da monoamina aumentam
conforme as folhas amadurecem.
• Carnes: carnes envelhecidas, carne seca ou curada, carne enlatada, peixe seco,
qualquer peixe que não é fresco, curado ou em molho de pickles, ovas de peixe,
patês de carne pasta de camarão, fígado, extratos de carne, salame, salsicha,
bolonha, bacon, peperoni, presunto, defumados e embutidos no geral. As carnes
frescas possuem normalmente um pouco de tiramina. Entretanto, ainda que
sejam mantidas refrigeradas, quanto maior for o tempo de estocagem maior
será a quantidade da monoamina nestes alimentos devido à ruptura das
proteínas – que as carnes tem em grandes quantidades.
• Bebidas: alcóolicas em geral, especialmente cerveja, vinho tinto, vinho branco,
xerez, vinho do Porto, licor e vermute. Cafeína em grandes quantidades (nota:
em alguns poucos indivíduos, pode haver uma interação grave mesmo com
pequenas quantidades de cafeína), chás, refrigerantes à base de cola, leite de
soja.
• Pães: feitos com extratos de fermento ou com queijos e carnes envelhecidos, e
pães caseiros ou ricos em fermento.
• Outros laticínios: que estão próximos da data de vencimento (iogurte fresco é
mais seguro), produtos lácteos não pasteurizados, chocolate.
• Produtos da culinária oriental: molho de soja (shoyu), tofu fermentado, queijo
de soja fermentado, pasta de soja fermentada, sopa de missô (pasta de soja
fermentada), molho teriyaki, algas secas.
• Outros: levedura de cerveja, extratos de levedura, caldos com fermento, molhos
industrializados, sopas enlatadas ou sopas feitas com extratos proteicos ou
bouillon, bolachas com queijo, pastas de fermento, extratos de fermento,
conservas em geral (azeitonas, palmito, milho, pepino, picles, alcaparras, etc),
amendoins (em grandes quantidades). Farinha desengordurada de amendoim.
Castanha do Brasil (em grandes quantidades).
• Sobras de refeições: Uma vez que todos os alimentos, conforme envelhecem,
aumentam sua concentração de tiramina, acontece o mesmo com as sobras das
refeições. Se necessário, recomenda-se congelá-las por no máximo três dias, mas
o ideal seria preparar os alimentos e comê-los frescos.
• Frituras e alimentos com alto teor de gorduras.
Evitar esses alimentos faz com que o corpo esteja inclusive num melhor estado
energético para a experiência mais bela e transformadora que a Ayahuasca pode
proporcionar.
MEDICAMENTOS CONTRA-INDICADOS
De um modo geral, todos os medicamentos antidepressivos são contraindicados, pois,
podem resultar em uma crise serotoninérgica devido à inibição da MAO, juntamente
com a inibição da recaptação de serotonina, logo, inibição dos dois sistemas.
Essa crise serotoninérgica poderia ser produzida também pelo consumo da Ayahuasca
com substâncias pró-serotonina em geral, como diversos antidepressivos, o aminoácido
triptofano e o MDMA (3,4-metilenedioxi-N-metamfetamina) ou “ecstasy”.
Apesar dos avanços na formulação de medicamentos, muitos antidepressivos contendo
iMAOs são ainda prescritos para tratamento de depressão refratária, de depressão
atípica (com presença de hipersonia, hiperfagia e anergia), de fobia social, dentre
outros. Seus principais efeitos colaterais são hipotensão ortostática, insônia e ganho de
peso. Esses antidepressivos são de maior duração e tem efeitos irreversíveis.
Até o presente momento, os principais medicamentos contraindicados são:
• Tranilcipromina (Parnate®, Stelapar), inibidor irreversível e não seletivo;
Moclobemida (Aurorix®), inibidor irreversível e seletivo da MAO-A; Fenelzina
(Nardil®) e Selegina, inibidor irreversível da MAO-B (mais utilizada para
tratamento da doença de Parkinson).
• Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação da serotonina como:
Fluoxetina (Prozac, Daforin, Eufor, Verotina); Citalopram (Cipramil, Denyl);
Paroxetina (Aropax, Ce-brilin, Pondera); Sertralina (Novativ, Sercerin); triptofano
• Antidepressivos tricíclicos como: Imipramina (Tofranil); Desipramina (Norpra-
mina); Clomipramina (Anafranil).
• Antidepressivos de efeito complexo como: Venlafaxina (Efexor), Cloridrato de
Duloxetina.
• Substância de mecanismo de ação não muito bem estabelecido como: Lítio
(Carboclim, Litiocar, Neurolithium).
• Medicamentos para emagrecer em geral.
• Ritalina, por conta dos seus efeitos hipertensivos e psico estimulante.
• Clonazepam (Rivotril®); fitoterápico erva de são joão, incluindo a forma de chá.
• Outros antidepressivos, como lítio (indicado para transtornos bipolares),
triptanos (usado para enxaquecas), linezolida, opioides, dextrometorfano
(presente em antigripais), carbamazepina e oxcarbamazepina, metoclopramida,
levodopa, fentermina, pseudoefedrina, metadona; podem também aumentar os
efeitos serotoninérgicos.
• Contraindicados pelo risco de crise hipertensiva: as anfetaminas, antigripais com
efedrina, pseudoefedrina, fenilefrina e outros vasoconstrictores, além de
simpatomiméticos, como noradrenalina, levodopa.
• Medicações para asma brônquica.
Assim como acontece com a alimentação, cada indivíduo reage de uma forma em
relação aos medicamentos, portanto, a mesma recomendação é válida para garantir que
a experiência e os benefícios que a Ayahuasca proporciona sejam alcançados em sua
plenitude. Bom senso, responsabilidade, suspensão da medicação quinze dias antes de
se tomar a Ayahuasca (desde que haja liberação médica, no caso de medicamentos de
uso controlado e/ou de uso contínuo) e a quantidade de Ayahuasca ingerida são
fundamentais para o seu uso de forma segura.
LIMPEZAS E PURIFICAÇÕES ESPIRITUAIS
Reações físicas e emocionais, quando acontecem de forma espontânea e natural, são
normais durante o uso da Ayahuasca. Cada pessoa pode ter uma reação diferente, assim
como a sua frequência e duração. Muitas pessoas podem ter essas reações até mesmo
antes de se tomar a Ayahuasca e/ou depois, podendo se manter por alguns dias.
Essas reações atuam como instrumento de purificação e limpeza das impurezas físicas,
emocionais, mentais e espirituais presentes no organismo. As reações mais comuns são
o vômito e a diarreia, mas, outras reações também podem ocorrer, como tosse, espirros,
sudorese, bocejos, náuseas, formação de gases, vontade de urinar com maior
frequência, além do choro que faz parte da limpeza emocional.
Não é de maneira nenhuma vergonhoso passar por essa situação. Isso é tão comum que
no Peru e em outras regiões da América do Sul um dos nomes para a Ayahuasca é “La
Purga”.
O vômito também é uma forma de proteção do corpo para remover o excesso da
Ayahuasca, caso tenha consumido uma quantidade maior que sua capacidade de
absorção. Desde que utilizada da forma correta e com bom senso, a Ayahuasca não é
prejudicial à saúde digestiva.
Pessoas com grande acúmulo de toxinas em seu corpo, seja por drogas recreativas ou
medicamentosas, tendem a ter passar mais intensamente pelos processos de limpeza.
A poluição que as emoções negativas produzem na energia do campo áurico também
intensificam o processo, assim como os estados mentais.
É quase impossível prever quando e quantas vezes as limpezas podem ocorrer, dentro
de uma mesma cerimônia ou em cerimônias frequentes. A beleza da expansão da
consciência que a Ayahuasca proporciona, é que permite a cada um saber o que se está
limpando de forma lúcida, no qual a pessoa abre sua mente e tem a oportunidade de
enfrentar seus problemas com maior clareza.
Quando essa compreensão não é tão clara, a melhor coisa a se fazer é olhar ainda mais
para o interior e buscar a sabedoria na própria Ayahuasca, pois, ela é tão sábia, que
nunca põe para fora algo que seja bom, apenas os excessos, a poluição, as toxinas, tudo
o que estiver em desarmonia com a consciência mais elevada.
É fato que, a cada limpeza realizada, seja ela física ou apenas na mente, o aprendizado
adquirido pela experiência e devidamente integrado na consciência, passa a ser mais
significativo no dia a dia, resultando em maior responsabilidade e respeito por si mesmo,
pela natureza, pela humanidade e pela vida como um todo.
VISÕES
As visões, também chamadas de mirações ou "miração", é um termo que foi cunhado
na tradição do Santo Daime pelo Mestre Irineu e que une contemplação (no sentido de
mirar, observar do alto) mais ação (mira+ação) para designar o estado visionário que a
Ayahuasca produz.
Geralmente são observadas de olhos fechados, porém, há vários relatos de visões com
os olhos físicos, assim como o aumento perceptivo das outras faculdades sensoriais e
extra-sensoriais. A chamada "força", é o termo utilizado para descrever o momento em
que os efeitos da Ayahuasca são mais profundamente sentidos, e as visões são como os
pontos altos da força. A força nem sempre é acompanhada por visões, muitas vezes, a
expansão da consciência traz entendimentos que "não necessitam" de visões. A força
dentro do contexto espiritual é o aspecto imaterial e incognoscível que faz da Ayahuasca
mais do que uma substância psicoativa, é a conexão com o sagrado presente em tudo e
em todos.
As visões variam para cada pessoa, desde, cores, luzes, formas geométricas, símbolos,
visões de animais, insetos, florestas, paisagens, jardins, cidades, templos, palácios,
civilizações antigas, divindades, entidades, guias espirituais, deuses, seres celestiais,
seres de outros mundos e de outras dimensões, seres demoníacos, seres mitológicos,
pessoas já falecidas, pessoas que ainda estão para reencarnar, artes, objetos sagrados,
aspectos do cotidiano e do meio sócio cultural onde se vive, podem revelar fatos do
presente, do passado e do futuro, aspectos do inconsciente, etc.
Durante esse tempo sagrado em que as visões ocorrem, o nível de consciência atingido
quase sempre vem acompanhado de uma voz interior que guia, acompanha ou dirige o
processo. O canal com o nosso Ori se torna mais nítido. Podemos dialogar com ele e
também receber muitas instruções úteis sobre aspectos práticos da nossa vida.
O mais importante é o aprendizado que as visões proporcionam. A tradução e a
interpretação são muitas vezes subjetivas e dizem respeito ao que cada um carrega
dentro de si, do seu destino e do caminho evolutivo na sua vida.
A Arte Visionária, pode ser entendida de forma bem sucinta, como uma representação
visual que tem como propósito transcender o mundo físico, retratar visões que muitas
vezes incluem temas espirituais e místicos. É a tentativa de capturar o que se vê,
alicerçado nas experiências advindas de estados não ordinários de consciência. Não é
um termo novo no campo das artes, os primeiros registros encontrados são quase tão
antigos quanto a humanidade. Artistas como Pablo Amaringo, Alex Grey, Paulo Jales,
Alexandre Segrégio e Laurence Caruana, através das suas obras fantásticas são fontes
de inspiração para novos talentos.
A ampliação da consciência mediante uma força maior é uma experiência incrível,
indescritível, profundamente curadora e transformadora. Seja qual for o meio, é uma
oportunidade para alcançarmos a plenitude do nosso ser e viver de forma realmente
humana o nosso espírito. Só nos cabe agradecer por todos os que mantém vivas as
tradições, que preservam o aspecto sagrado das plantas e das medicinas da floresta e
principalmente ao poder misterioso que sustenta toda essa fonte de sabedoria suprema.