Pregação e Lectio Continua: Responsabilidades
Pregação e Lectio Continua: Responsabilidades
ANDREW JUMPER
São Paulo
2022
CENTRO PRESBITERIANO DE PÓS-GRADUAÇÃO
ANDREW JUMPER
São Paulo
2022
Elaborado pelo Sistema de Geração Automática de Ficha Catalográfica da Mackenzie
com os dados fornecidos pelo(a) autor(a)
M669m Miola, Altieres Fernando.
O método Lectio Continua de pregação: : o anuncio de todo o
conselho de Deus e as responsabilidades do pregador. / Altieres
Fernando Miola.
600 KB ;
Aprovação 25 / 11 / 2022
Orientador: Professor: Dr. Dario de Araújo Cardoso
Folha de Identificação da Agência de Financiamento
Aos professores do Andrew Jumper. Excelentes em tudo o que fazem e que muito
me ensinaram e continuam ensinando.
A Igreja Presbiteriana em Santo Anastácio, que me acolhe, ensina e que tem sido
uma grande bênção para mim e a minha família.
RESUMO 08
INTRODUÇÃO 09
1 AS RESPONSABILIDADES DO PASTOR 10
2 A RESPONSABILIDADE DA PREGAÇÃO 11
3 UMA AFIRMAÇÃO:
O COMPROMISSO COM A PREGAÇÃO EXPOSITIVA 25
4 UMA ANÁLISE:
TODAS AS FORMAS DE PREGAÇÃO SÃO EXPOSITIVAS? 28
5 UMA DISCUSSÃO:
A EFICÁCIA E A EFICIÊNCIA DA LECTIO CONTINUA 35
CONCLUSÃO 43
REFERÊNCIAS 44
8
RESUMO: Muitas são as formas de se preparar um sermão. Seja qual for a pretendida,
preferida ou escolhida, esta deve ter compromisso fiel para com toda a Palavra de Deus
revelada e registrada na Bíblia. O pastor, aquele incumbido dessa responsabilidade, deve
anunciar todo o conselho de Deus e servir alimento sólido e completo para a comunidade
de crentes. Além disso, é sabido que o pastor é envolvido por uma grande demanda de
atividades em seu campo de trabalho. Por isso, deve saber conciliar todo o tempo sem
negligenciar uma responsabilidade em detrimento da outra. Assim, após analisar as
responsabilidades do ministro do Evangelho, o zelo para com o anuncio de toda a
Escritura e as formas de pregação existentes, será avaliada a forma de pregação expositiva
lectio continua se, como a maneira mais eficiente de pregação de toda a Bíblia, coopera
com o pastor em suas muitas laborações.
1
Altieres Fernando Miola é bacharel em Administração pela Universidade do Oeste Paulista (Presidente
Prudente/SP), bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul (SPS – Campinas/SP) e mestrando
em Estudos Pastorais, MDiv, pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (São Paulo/SP). Pastor
Presbiteriano, atualmente em Santo Anastácio – SP. Endereço eletrônico: altieresfernando@[Link].
9
INTRODUÇÃO
1. AS RESPONSABILIDADES DO PASTOR
Algumas das frases que mais ouvi quando anunciei para os meus familiares,
amigos e até mesmo crentes da minha igreja que iria para o seminário estudar e me
preparar para ser pastor foi: “Se puder escolher outra profissão, faça isso”, “Olha, lidar
com pessoas não é uma tarefa fácil”, “Tem certeza de que é isso mesmo que Deus quer
para a sua vida”? Alguns, um pouco mais céticos, ou cínicos, ainda não sei definir, foram
mais longe, quando diziam: “Os 3 P´s que causam mais desconfiança no povo são
políticos, policiais e pastores”.
De fato, o ministério pastoral não é uma tarefa fácil, exatamente como qualquer
outra função ou trabalho conhecido. Porém, como bem define Derek Prime e Alistair
Begg no livro Ser Pastor, “O ministério dos pastores e mestres não é simplesmente um
trabalho. É, antes, uma vocação, a resposta a um chamado específico de Deus. É a mais
alta no serviço cristão” 2.
Entendemos que o serviço religioso não é mais importante que qualquer outra
função. Se assim fosse, debateríamos o que já foi amplamente discutido na tradição
cristã: serviço sagrado x serviço profano, profissão santa x profissão secular. Não é essa
a nossa intenção. Mas, é preciso saber que o ministério pastoral não é a escolha de uma
profissão, cujos justos propósito sejam subir de carreira, ganhos elevados por
produtividade e reconhecimento a curto, médio ou longo prazo. O ministério pastoral
se trata de entrega total e irrestrita para o chamado de Deus e para o serviço exclusivo
do seu Reino. Ser pastor não é um trabalho com os fins comuns, como dito, mas é saber
viver o paradoxo de ganhar é perder, de diminuir para que Ele cresça, de plantar e nem
sempre ver crescer ou colher e de correr e não se consagrar o vencedor.
Para John MacArthur Jr,
2
PRIME, Derek, BEGG, Alistair. Ser pastor. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 15.
3
MACARTHUR, Jr. John et al. Redescobrindo o ministério pastoral. Rio de Janeiro: Casa Publicadora
das Assembleias de Deus, 1998, p. 38.
11
Sem dúvidas, o alvo do pastor é cuidar do rebanho que o Senhor lhe confiou. É
dar o devido alimento para que cresçam, amadureçam e sejam direcionados para o alvo,
que é Cristo. Como o apóstolo Paulo deixa claro em Colossenses 1.24-29, tornou-se
ministro da parte de Deus para cumprir às suas ordenanças, sofrer com a igreja as aflições
de Cristo, anunciar o mistério que estivera oculto e que agora é manifestado aos santos e,
anunciar, advertir e ensinar a todos a sabedoria, com o propósito de torna-los perfeitos
em Cristo.
O Manual Presbiteriano, no capítulo IV, Seção 2ª, Art. 30 e Art. 32, afirma:
2. A RESPONSABILIDADE DA PREGAÇÃO
4
MANUAL PRESBITERIANO/IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. São Paulo: Cultura Cristã,
2019. p. 41, 42, 46.
12
John Stott, em seu livro O perfil do pregador, procura mostrar o que o pregador
cristão não é. E como isso é valioso. A distorção no entendimento desse ofício sagrado
tem sigo grotesca. Muitos, ao se intitularem pastores, ministros, bispos, apóstolos,
sacerdotes ou qualquer outro título que acham melhor ou conveniente, erram ao assumir
para si prerrogativas que não lhes pertencem. Assim, blindados pelo estereótipo de
homem de Deus, intocável e ungido do Senhor, cometem todo tipo de atrocidade.
Portanto, o pregador cristão NÃO É UM PROFETA, ou seja, “ele não recebe
sua mensagem de Deus como revelação original e direta”. 7 Na verdade, a sua tarefa é
expor com zelo, temor e fidelidade tudo o que foi dado de maneira definitiva como um
despenseiro, a quem foi confiada as Escrituras Sagradas.
O pregador cristão NÃO É UM APÓSTOLO. 8 A igreja é apostólica, pois é
fundada sobre a doutrina dos apóstolos e enviada ao mundo. Porém, os enviados hoje
5
PATRICK, D. O plantador de igreja. São Paulo: Vida Nova, 2013. p. 30.
6
LOPES, Hernandes D.; CASIMIRO, Arival D. Revitalizando a igreja: na busca por uma igreja viva,
santa e operosa. São Paulo: Hagnos, 2012. p. 61-63.
7
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 11-13.
8
Ibidem, p. 13-14.
13
não são apóstolos, já que esse título foi conferido, única e irrevogavelmente, aos 12
discípulos nomeados por Jesus. O apostolado se limitou a primeira geração e não se
tornou um cargo eclesiástico.
O pregador cristão NÃO É UM FALSO PROFETA OU FALSO APÓSTOLO.
Stott entende que ambas funções não existem mais hoje em nossos dias, mas é certo que
haja falsos profetas e falsos apóstolos que, vestidos da tradição de começar seus sermões
com a leitura da Bíblia, o que falam não tem qualquer conexão com a sua real mensagem
ou seu contexto. “Gente que fala as próprias palavras e não a Palavra de Deus. A
mensagem vem de suas mentes. Gente que gosta de ventilar suas opiniões sobre religião,
ética, teologia e política”.9
O pregador cristão NÃO É UM TAGARELA. Os filósofos atenienses nomearam
Paulo dessa forma, em Atos 17, menosprezando a sua mensagem, já que,
pejorativamente, a expressão tinha a função de dizer que “o ‘tagarela’ repassa ideias
como mercadoria de segunda mão, colhendo fragmentos e detalhes onde os encontra.
Seus sermões são uma verdadeira colcha de retalhos”. 10 Em outras palavras, o tagarela
é aquele que não é capaz de pensar por si mesmo, pois sempre se encontra dependente
das ideias de outros, sem o trabalho de avaliar, julgar o que é certo e se apropriar dela.
Por fim, no Catecismo Maior de Westminster encontramos uma bela, profunda
e abrangente definição do que consiste o trabalho do pastor na pregação do Evangelho.
Assim, escrevem:
Pergunta 159. Como deve ser pregada a Palavra de Deus por aqueles que
para isso são chamados? Aqueles que são chamados a trabalhar no
ministério da Palavra devem pregar a sã doutrina, diligentemente, em tempo
e fora de tempo, claramente, não em palavras persuasivas de humana
sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder; fielmente, tornando
conhecido todo o conselho de Deus; sabiamente, adaptando-se às
necessidades e às capacidades dos ouvintes; zelosamente, com amor
fervoroso para com Deus e para com as almas de seu povo; sinceramente,
tendo por alvo a glória de Deus, e procurando converter, edificar e salvar
almas.11
9
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 15.
10
Ibidem, p. 15-16.
11
O CATECISMO MAIOR/ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, p.
225.
14
E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que
me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei
na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações
que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos
anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também
de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento
para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo]. E, agora, constrangido
em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá,
senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me
esperam cadeias e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para
mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que
recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.
Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis
mais o meu rosto. Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo
do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de
Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos
constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com
o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós
penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós
mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os
discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos,
noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. Agora, pois,
encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos
edificar e dar herança entre todos os que são santificados. De ninguém
cobicei prata, nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos
serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo.
Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os
necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-
aventurado é dar que receber. Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou
com todos eles. Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando
afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra
que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao
navio. (Atos 20.18-38)
Diante do texto exposto, ressalto duas importantes falas do apóstolo Paulo aos
presbíteros da igreja de Éfeso, que considero de suma importância para que entendamos
o motivo pelo qual a cidade foi tão profundamente impactada, ao ponto de Paulo não
poder mais pisar em suas ruas sem que corresse qualquer dano a sua vida e dos demais
cristãos: a. “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa”; b. “porque
jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus”. O que Paulo quis exprimir ao
lembrar a liderança da igreja sobre o seu compromisso com a pregação do Evangelho
de Jesus?
A uma primeira vista, podemos compreender que a sua consciência diante de
Deus descansa em paz por saber que não deixou de compartilhar, para quem quer que
15
fosse, tudo o que a Palavra de Deus exige para a salvação. Não se ocupou com seus
pensamentos pessoais, suas ideologias, suas filosofias, seus negócios ou interesses. Pelo
contrário, tudo o que pregou foi a mensagem de Jesus, suficiente para salvar o perdido
pecador. Além disso, mesmo sendo alvo de grandes conspirações, de passar por aflições
e lágrimas, jamais deixou de falar ousadamente sobre todas as coisas referentes a Cristo
e o seu Reino. Em outras palavras, sua exposição pública ou privada, tinha como único
objetivo anunciar Jesus Cristo por completo.
De acordo com Robert L. Deffinbaugh 12, da Community Bible Chapel, numa
série de Estudos sobre o Livro de Atos, entende que, apesar de o ministério de Paulo ter
sido fortemente combatido por judeus incrédulos, o que resultou em fortes e profundas
provações, não considerou se abster de proclamar qualquer coisa que fosse útil. Em suas
próprias palavras, salienta que:
12
Robert L. (Bob) Deffinbaugh é pastor/professor e presbítero na Community Bible Chapel em
Richardson, Texas. Seu estudo em Atos dos Apóstolos 20.1-38, intitulado Paul’s Parting Words, faz parte
de uma série sobre Atos dos Apóstolos e se encontra disponível em <[Link]
parting-words-acts-201-38#google_vignette>. Acesso em 14 de fevereiro de 2022, às 10h20.
13
DEFFINBAUGH, Robert L. Paul´s parting words. Disponível em <[Link]
pauls-parting-words-acts-201-38#google_vignette>. Acesso em 14 fev. 2022, às 10h20.
16
requererei. No entanto, se tu avisares o justo, para que não peque, e ele não
pecar, certamente, viverá, porque foi avisado; e tu salvaste a tua alma.
(Ezequiel 3:16-21)
Werner de Boor, considera que todas as aflições e lutas que o apóstolo Paulo
experimentou, não lhe fizeram “omitir nada do que vos seja salutar, de vos anunciar e
ensiná-lo”.16 Nisso, ele coloca em prática dois importantes serviços cristãos: anunciar a
mensagem e ensinar tudo para o alimento da fé, da vida e da comunhão. Esse trabalho
leva em consideração a responsabilidade que todo mensageiro de Jesus deve ter em não
ficar sujo do sangue de todos. Deus é quem desperta para a fé, porém, o pregador pode
se tornar culpado pelo sangue da perdição daqueles que o ouvem. “Amabilidade falsa,
agradar a pessoas, indecisão, lerdeza, temor diante do espírito da época e outras coisas
mais podem enleá-lo em culpa desse tipo”.17 Diante disso, Paulo se sente limpo do sangue
de todos. Se, porventura, aqueles que o ouviram se perderem, a culpa lhes será própria,
pois não deixou de anunciar nada. Por isso, pode se despedir em paz.
Quanto a anunciar todo o conselho de Deus, Boor entende que o apóstolo esteja
se precavendo daquilo que estava por vir, com o objetivo de abalar a igreja: a gnose.
Paulo, com o olhar no futuro próximo, destaca:
Ele “anunciou todo o desígnio de Deus”. Talvez isso tenha sido formulado
enfaticamente por Paulo porque via chegar aquele grande movimento que mais
tarde abalou profunda e especialmente as igrejas da Ásia Menor: a “gnose”. Ela
pretendia conhecer mistérios divinos que os pregadores teriam “deixado de
14
UTLEY, Bob. Lucas, o historiador – Atos. Série guia de estudos e comentário do Novo Testamento,
vol. 3B. Lições Bíblicas Internacional, Marshal, Texas, 2010. p. 242.
15
Ibidem, p. 243.
16
BOOR, Werner de. Atos dos Apóstolos. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2003. p. 175.
17
Ibidem, p. 176.
17
Paulo prova sua própria fidelidade com esta declaração: Porque nunca deixei
de vos anunciar todo o conselho de Deus (v. 27). (1) Ele anunciara aos efésios
nada mais que o conselho de Deus (v. 27), sem acrescentar nenhuma invenção
própria. “Era o evangelho puro e nada mais, a vontade de Deus concernente à
vossa salvação.” O evangelho é o conselho de Deus. Ele foi admiravelmente
projetado por sua sabedoria, inalteravelmente determinado por sua vontade e
amavelmente delineado por sua graça para nossa glória (1 Co 2.7). Este
conselho de Deus é o assunto que os ministros têm a declarar conforme foi
revelado, e não outro assunto ou algo a mais. (2) Ele anunciara aos efésios
todo o conselho de Deus (v. 27). Como lhes anunciara todo o conselho de Deus,
como lhes proclamara o evangelho puro, assim ele o fizera por inteiro.
Revisara o corpo de doutrinas com eles para que, tendo-lhes exposto as
verdades do evangelho sistematicamente, da primeira à última e cada uma em
sua ordem, melhor as entendessem, vendo-as em suas várias ligações. (3) Ele
não se esquivara de anunciar aos efésios todo o conselho de Deus (v. 27), nem
deixara de mencionar, por teimosia ou má intenção, qualquer parte do conselho
de Deus. Para poupar algum sofrimento, não se recusara a pregar as partes mais
difíceis do evangelho, da mesma forma que não se recusara, para salvar sua
reputação, a pregar as partes mais claras e fáceis. Ele não se furtava de anunciar
as doutrinas que sabia provocarem os atentos inimigos do cristianismo ou que
desagradariam os seus indiferentes mestres; mas, fielmente, fez seu trabalho,
quer ouvissem quer deixassem de ouvir. E foi assim que se manteve limpo do
sangue de todos os homens. 21
18
BOOR, Werner de. Atos dos Apóstolos. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2003. p. 176.
19
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento: Atos a Apocalipse. Edição Completa. Rio de
Janeiro, CPAD. p. 222.
20
Ibidem, p. 222.
21
Ibidem, p. 225.
18
ordena para a salvação. É a responsabilidade de ser um transmissor que vai abrir a boca
com autoridade do seu Senhor e anunciar cada detalhe da sua Palavra, sem deixar de
mencionar qualquer aspecto que seja, qualquer texto que seja ou qualquer doutrina que
seja por receio de sua própria vida, reputação e nome. É estar ciente de que suas mãos,
ao deixar de anunciar toda a verdade de Deus, podem estar ensanguentadas com o
sangue daqueles que podiam ouvir, mas foram negligenciados.
R. C. Sproul faz uma importante declaração pessoal sobre essa tão grande
responsabilidade:
Entendido que a Palavra de Deus não pode ser desprezada em nenhuma de suas
partes, que é dever de todo pregador anunciar todo o conselho de Deus, comprometido
com a grande verdade bíblica que afirma que toda a Escritura é inspirada e, portanto é útil
para o ensino, a repreensão, a correção e a educação na justiça (2 Timóteo 3.16), e dadas
as devidas qualificações destes que assumirão tamanho compromisso fiel e obediente,
adentramos em nosso grande objetivo, que é a mensagem que deve ser proclamada.
Boice, ao narrar o retorno de João Calvino para a Genebra em 13 de setembro de
1541, afirma:
Calvino não tinha outra arma a não ser a Bíblia. Desde o princípio, sua ênfase
tinha sido no ensino da Bíblia, e retornava a ela agora, continuando
precisamente onde havia parado três anos e meio atrás. Calvino pregou
biblicamente todos os dias, e sob o poder daquela pregação a cidade começou
a ser transformada. Como as pessoas de Genebra adquiriram conhecimento da
22
SPROUL, R.C. Estudos Bíblicos expositivos em Atos. São Paulo: Cultura Cristã, 2017. p.
19
Palavra de Deus e foram mudadas por ela, a cidade se tornou, como John Knox
chamou mais tarde, uma Nova Jerusalém de onde o evangelho se difundiu para
o resto da Europa, Inglaterra e o Novo Mundo.23
23
BOICE, James M. O Evangelho da graça. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 81.
24
LAWSON, Steven J. Paixão e poder na pregação apostólica. In: MACARTHUR, John. O pastor como
pregador. Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016. p. 127.
25
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 190-191.
26
Ibidem, p. 191.
20
27
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 191-199.
28
MACARTHUR, John. Prega a Palavra. In: MACARTHUR., John. et. al. O pastor como pregador.
Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016. p. 10.
29
LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2017. p. 34.
21
com paixão e com fogo, dia após dia, domingo após domingo, semana após semana. Que
nossos púlpitos sejam incendiados por pregadores que entendem a responsabilidade de
abrir a Bíblia e anunciar com zelo e temor o que o Senhor da igreja deseja falar com o seu
povo.
30
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 192.
31
Ibidem, p. 193-194.
22
à sua família”.32 Porém, tão pior quanto subtrair, infelizes são todos aqueles que
acrescentam às Escrituras e se opõem ao que está escrito na Palavra de Deus.
32
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 22.
33
LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2017. p. 48.
34
BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus: uma introdução a fé reformada. São José dos Campos:
Fiel, 2016. p. 265-266.
35
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 27.
36
Ibidem, p. 27.
23
Assim, o desafio é aproximar o texto bíblico à vida da igreja, de tal maneira que
possa agir em transformação e cumprir os seus propósitos redentivos. Chamado de
religião vital pelos reformadores, consiste em mostrar ao pecador sua falta de retidão, sua
carência de Cristo e sua urgente necessidade de salvação, como a presença de Cristo lhe
dá alegria e prazer na obediência, como sua vida consiste em luta contra o pecado e contra
a apostasia e, por fim, a vitória final por intermédio de Cristo.39
37
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 195-196.
38
REEDER III, Harry L. A revitalização da sua igreja segundo Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.
75-76.
39
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 197.
24
40
LLOYD-JONES, Martyn. Pregação e pregadores. São José dos Campos: Editora Fiel, 1998. p. 79.
41
Ibidem, p. 80.
42
CHESTER Tim; HONEYSETT, Marcus. Pregação centrada no Evangelho. São Paulo: Cultura Cristã,
2017. p. 57.
25
43
CHESTER Tim; HONEYSETT, Marcus. Pregação centrada no Evangelho. São Paulo: Cultura Cristã,
2017. p. 57-58.
44
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 161.
45
LLOYD-JONES, Martyn. Pregação e pregadores. São José dos Campos: Editora Fiel, 1998. p. 52.
46
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 18.
26
47
LACHLER, Karl. Prega a Palavra: passos para a exposição bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.
52.
48
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 22-23.
49
Ibidem, p. 24.
27
Diante de tudo isso, não é nosso objetivo discutir a pregação expositiva, senão
considerar que seja relevante afirmar o nosso compromisso com ela como o método mais
assertivo, coerente e bíblico de pregação. Mas, acima de qualquer coisa,
independentemente da forma escolhida ou preferida de cada pregador, nenhum invalida
a dependência do Espírito Santo em trazer iluminação e poder para o preparo do sermão.
Pelo contrário, toda forma ou método estão totalmente sob o controle do Espírito Santo
para alcançar os corações e causar toda a transformação necessária. Como bem escreve
Tom Pennington,
Por fim, é preciso esclarecer que existe uma tensão, pois, apesar de defendermos
a pregação expositiva, é sabido que uma grande confusão tem existido na sua definição.
Como bem escreve o Dr. Dario de Araújo Cardoso, “não são poucos os que tomam a
pregação expositiva e sermão expositivo como sinônimos”.52 Por causa dessa falta de uma
definição clara e definitiva, muitos se opõe a qualquer outra forma de pregação que não
seja o verso a verso, já que expositivo se tornou sinônimo de lectio continua.
Em seu artigo, Dr. Cardoso, após recorrer ao teólogo americano Hughes Oliphant
Old, quando este analisa as séries sequenciais de Agostinho no Evangelho de João, chega
à conclusão que:
50
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 24.
51
PENNINGTON, Tom. Pregando no poder do Espírito. In: MACARTHUR, John. O pastor como
pregador. Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016. p. 159-160.
52
CARDOSO, Dario de A. A forma da pregação expositiva. Fides Reformata, São Paulo, vol. XXIII, Nº
2 p. 26, 2018.
28
Assim, não é difícil observar que não se pode estabelecer uma correlação rígida
entre a pregação expositiva e o sermão expositivo, qualquer que seja a sua
definição. Não se trata de se insurgir contra o sermão expositivo. Ele tem
qualidades e benefícios sobejamente demonstrados. Trata-se de perceber que
a pregação expositiva também deve ser a característica de outras formas de
sermão, bem como pode permear nossas aulas bíblicas, encontros de
discipulado, etc. Nas palavras de Busenitz, “assim como a pregação verso-a-
verso não é necessariamente expositiva, pregação que não é verso-a-verso não
é necessariamente não-expositiva”.53
Por que considerar essa distinção? Para que justiça seja feita para todas as formas
de pregação que não sejam a lectio continua, porém, que sejam expositivas, bíblicas e que
comuniquem com fidelidade a verdade de Deus registrada. Hernandes Dias Lopes
escreve:
O que quero dizer com pregação expositiva? Ha outros estilos de pregação, tais
como tópica e textual. Todavia, quer seja tópica, textual, ou lectio continua,
ela pode ter caráter expositivo porque a pregação expositiva tem o
compromisso de explicar o texto da Escritura segundo o seu significado
histórico, contextual e interpretativo, transmitindo aos ouvintes
contemporâneos a clara mensagem da Palavra de Deus com aplicação
pertinente. Seria perfeitamente possível classificar a pregação expositiva como
pregação expositiva textual, pregação expositiva tópica e pregação expositiva
lectio continua.54
53
CARDOSO, Dario de A. A forma da pregação expositiva. Fides Reformata, São Paulo, vol. XXIII, Nº
2 p. 28, 2018.
54
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 18.
29
55
LANE, William. Como decidir o que pregar. InfoPastor. Disponível em:
<[Link] Acesso em 01 set. 2022, às 09h05.
56
LANE, William. Como decidir o que pregar. InfoPastor. Disponível em:
<[Link] Acesso em 01 set. 2022, às 09h05.
30
57
LACHLER, Karl. Prega a Palavra: passos para a exposição bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.
68.
58
PIETERSE, Hendrik J. C. Sermon Forms. Journal of Theology for Southern Africa, África do Sul, vol.
36, n. ?, p. 10-17, setembro 1981.
59
PIETERSE, Hendrik J. C. Sermon Forms. Journal of Theology for Southern Africa, África do Sul, vol.
36, n. ?, p. 10-17, setembro 1981.
60
Ibidem, p. 14.
31
61
PIETERSE, Hendrik J. C. Sermon Forms. Journal of Theology for Southern Africa, África do Sul, vol.
36, n. ?, p. 10-17, setembro 1981.
62
Ibidem, p. 17.
32
Haddon Robinson afirma que, vez ou outra, os pregadores deverão pregar sobre
tópicos, abordando os grandes temas festivos da Páscoa e do Natal, por exemplo, que
exigem tratamento especial. Não apenas isso, assuntos teológicos devem ser explorados,
“[...]tais como a Trindade, a reconciliação, a inspiração e autoridade das Escrituras.
Dirigirá a palavra a questões pessoais tais como a culpa, a aflição, a solidão, os ciúmes,
o casamento e o divórcio”.64
Apesar disso, Robinson bem expressa que, inúmeras vezes, após a escolha da
passagem que fora escolhida para o tema sugerido, o pregador vai notar que ela não vai
dizer o que se era esperado. Diante disso,
De fato, há uma infinidade de temas que precisam ser abordados pelo pregador.
Mas, ao se optar por uma exposição tópica, o risco de impor ao texto bíblico os ideais
pretendidos é muito grande. Em defesa do tema, escraviza-se a intenção do autor bíblico,
o contexto em que fora escrito, a devida gramática das palavras, sentenças e outras
infinidades de critérios que não podem ser deixados de lado. Por isso, apesar de ser uma
possibilidade de se estruturar um sermão e o pregar expositivamente, é urgente muito
cuidado para não dizer o que o texto não diz e, como se afirmam, um texto fora do seu
contexto vira pretexto.
Mathewson, pastor, professor e escritor, trata sobre o sermão textual. Para ele, o
sermão textual é a combinação de um sermão temático e um sermão expositivo.66 Já que
o sermão expositivo se concentra no texto bíblico que está pronto, “um sermão textual
63
KELLER, Timothy. Pregação: comunicando a fé na era do ceticismo. São Paulo: Vida Nova, 2017, p.
37.
64
ROBINSON, Haddon W. A pregação bíblica. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983. p. 40.
65
Ibidem, p. 40.
66
MATHEWSON, Steven D. O que torna a pregação textual realmente singular? In: ROBINSON,
Haddon W., LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd,
2009. p. 511.
33
toma suas ideias condutoras do texto, mas então olha em algum outro lugar nas Escrituras
para mais de seu desenvolvimento”.67
Procurando ser claro, Mathewson recorre a homilética de John Broadus:
67
MATHEWSON, Steven D. O que torna a pregação textual realmente singular? In: ROBINSON,
Haddon W., LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd,
2009. p. 510-511.
68
Ibidem, p. 510.
69
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 138.
70
WARREN, Timothy S. A pregação temática também pode ser expositiva? In: ROBINSON, Haddon W.,
LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd, 2009. p.
517.
34
71
WARREN, Timothy S. A pregação temática também pode ser expositiva? In: ROBINSON, Haddon W.,
LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd, 2009. p.
516.
72
LARSEN, David L. Anatomia da pregação - identificando os aspectos relevantes para a pregação de
hoje. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 29.
35
David Larsen é taxativo ao afirmar que textos aleatórios e tópicos estão fadados a
monotonia. A pregação moderna tem abandonado a pregação sistemática de todo o
conselho de Deus, para oferecer a igreja uma dieta desbalanceada, recheada com
trivialidades. Exatamente como temos afirmado, se a grande pergunta semanal do
pregador for ‘o que vou pregar?’, é certo que sua inclinação natural será para os
“caminhos previsíveis e conhecidos”.74
Com o intuito de evitar essa fadiga por parte dos pregadores, o curso natural para
os atalhos e trajetos mais fáceis e manter a fidelidade para com todo o desígnio de Deus,
a lectio continua tem se mostrado como a forma que atende ambos os critérios. A sua
estrutura, basicamente, consiste na pregação metódica dos livros da Bíblia. Como bem
afirma o Dr. Jon D. Payne, pastor da Grace Presbyterian Church, em Douglasville, e
professor de teologia prática em Atlanta, “o método Lectio Continua de ler e pregar as
73
LARSEN, David L. Anatomia da pregação - identificando os aspectos relevantes para a pregação de
hoje. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 29-31.
74
Ibidem, p. 82.
36
75
PAYNE, Jon D. The Lectio Continua method. Kevin Fiske. Disponível em:
<[Link]
Acesso em 25 ago. 2022, às 8h35.
76
CARTER, Joe. 9 Things You Should Know About Ulrich Zwingli. The Gospel Coalition. Disponível em:
<[Link] Acesso em 02 set. 2022, às
10h40.
77
OLD, Hughes O. The Reading and Preaching of the Scriptures in the Worship of the Christian Church,
Volume 4: The Age of the Reformation. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. p. 46.
78
GORDON, Bruce. The Swiss Reformation. Manchester: Manchester University Press, 2002. p. 51
37
Escrituras, sem deixar nenhuma passagem de lado, compreendeu também que toda a
Escritura é a voz do Senhor falando com o seu povo. O compromisso de todo
pastor/pregador é com aquilo que Deus quer comunicar. Se temos acesso a Bíblia, se
confiamos em cada uma de suas páginas, se cremos na inspiração divina, na inerrância e
na infalibilidade da Palavra de Deus, concordamos que pregar toda a Bíblia é a forma
mais adequada de anunciar todo o conselho de Deus.
Da mesma forma que Zwinglio, Lee Palmer Wandel, professora da Universidade
de Wisconsin, informa-nos que João Calvino, o reformador de Genebra, também seguiu
a disciplina da lectio continua em suas preleções. Semana após semana se valia de um
livro da Bíblia e nele permanecia longo tempo. Como era seu costume, lia, em média, de
um a doze versos das Escrituras, explicava a passagem, os termos, o sentido e,
ocasionalmente, aplicava aos eventos atuais.79 Lawson entende que a lectio continua se
tornou o método de pregação de Calvino: “pregar sistematicamente sobre os livros
inteiros da Bíblia”80, pois,
E por que Calvino decidiu pregar por meio da lectio continua, se assim
pudéssemos adentrar sua mente? Porque é muito fácil negligenciar os textos mais
complexos, que exigem muita energia, muito estudo e inúmeras horas de dedicação.
Compreender a intenção do autor, buscar saber o momento vivencial e traduzir as palavras
é um grande e exaustivo exercício. Assim, é muito mais fácil se ancorar nos textos
prediletos da Bíblia, que são claros, diretos e autoexplicativos. São igualmente
importantes e necessários, mas focar apenas neles é desconsiderar toda a revelação
especial. Por isso, quando grandes pregadores, como Ulrich Zwinglio e João Calvino, por
exemplo, optam trilhar por toda a Escritura, inegociavelmente, vemos um zeloso e fiel
compromisso com “Assim diz o Senhor”.
79
WANDEL, Lee P. Switzerland. In: TAYLOR, Larissa (Ed). Preachers and people in the reformations
and early modern period. Boston: Brill, 2001. p. 243-244.
80
LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2017. p. 40.
81
Ibidem, p. 41.
38
...ou exposição em série das Escrituras. Versículo por versículo, capítulo por
capítulo, livro por livro, as Escrituras eram abertas, explicadas e aplicadas.
Esse método é tão antigo quanto Ulrico Zuinglio e João Calvino, e tem como
precedente a pregação nas sinagogas, onde ela era associada à leitura
sistemática da Lei e dos Profetas (Lc 4.16-21).82
O Rev. Hernandes Dias Lopes, citando o Dr. David Jussely, afirma que,
inegociavelmente, a pregação expositiva só apresenta vantagens. Se os pregadores se
valerem do método lectio continua, os benefícios serão ainda melhores, já que o
ministério pastoral envolve inúmeras atividades, o que pode sacrificar o estudo diligente
das Escrituras, o devido preparo de sermões e, consequentemente, a exposição à igreja.
Ele afirma:
82
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 192-193.
83
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 61-62.
39
O Dr. Jon Payne, mais uma vez, em seu apreço pela pregação lectio continua,
também considera os seus benefícios para o pastor, bem como para a igreja:
84
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 140.
85
SoapBox, traduzido como caixa de sabão, eram caixas usadas para se comercializarem sabão. Vazias,
serviam para assento ou um tipo de palanque quando alguém desejava se elevar para falar frente a uma
multidão. Dessa feita, atualmente, significa fazer um discurso.
86
PAYNE, Jon D. The Lectio Continua method. Kevin Fiske. Disponível em:
<[Link]
Acesso em 25 ago. 2022, às 8h35.
87
Como tratado anteriormente, ainda há muitas controvérsias sobre a devida definição do que é a pregação
expositiva. D. A. Carson, nesse contexto, dá-nos a entender que, ao se referir a lectio continua, chama-a de
pregação expositiva, já que a coloca na contramão da pregação temática, textual e demais.
40
88
CARSON, D. A. Ensinando a Bíblia Toda: seis razões para usar a pregação expositiva? In:
ROBINSON, Haddon W., LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo:
Publicações Shedd, 2009. p. 500.
41
No método da lectio continua, é fácil gastar um ano ou mais num mesmo livro
da Bíblia. No entanto, se uma família ficar em sua igreja por dois anos, você
vai mesmo querer que elas estudem apenas 1Samuel? Ou mesmo somente o
Evangelho de João, sem tempo algum para o Antigo Testamento? Um dos
pontos fortes da exposição, como vimos, é que ela disponibiliza à igreja uma
série completa de ensinamentos e temas bíblicos. Contudo, uma abordagem
que siga estritamente um só livro da Bíblia, pregando-o na sua totalidade com
os capítulos sendo expostos de forma consecutiva, vai impedir que a maior
parte do seu público seja efetivamente exposta a uma variedade maior do texto
bíblico.89
Ele deu ensinamento ético direto, como no Sermão da Montanha. Ilustrou seu
ensino por ocorrências diárias que capturaram a atenção dos ouvintes. Mas
também usou histórias ou parábolas, e às vezes tomou eventos recentes - como
o colapso de uma torre ou a matança de pessoas inocentes – para ensinar uma
lição. A pregação expositiva não significa falta de variedade; ao contrário, deve
trazer variedade infinita! Um perigo da pregação expositiva - especialmente
quando começamos - é a tendência de se demorar demasiadamente em um livro
ou assunto. Expositiva não precisa ser sinônimo de exaustiva e desgastante!90
Seria uma grande tolice afirmarmos que o método lectio continua é livre de
quaisquer equívocos. Os tempos mudam, as pessoas mudam e as formas precisam se
tornar adaptáveis. A essência, o Evangelho, é sempre o mesmo, mas a abordagem pode
89
KELLER, Timothy. Pregação: comunicando a fé na era do ceticismo. São Paulo: Vida Nova, 2017, p.
46-47.
90
PRIME, Derek, BEGG, Alistair. Ser pastor. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 109.
42
ser repensada e reestilizada. Por isso, Old, um grande defensor da lectio continua, quando
questionado se o método é razoável para a moderna geração, tão exigente e tão acelerada,
considera que, de fato, tende a ser tedioso para o público atual ouvir duzentos sermões
sobre Deuteronômio, como fez João Calvino em Genebra. Ciente disso, adaptou a prática
para abordar temas sensíveis de nosso tempo, como a Páscoa, o Natal, Pentecostes e
demais assuntos.91
Natal, Páscoa e Pentecostes são polos em torno dos quais organizo minha
pregação. Como a tradição reformada enfatiza as festas cristãs em vez dos
tempos litúrgicos, muitas vezes faço uma série curta de lectio continua para
essas festas. Por exemplo, fiz quatro sermões sobre a narrativa da natividade
em Mateus no Natal e uma série de seis sermões sobre as canções de servo de
Isaías na Páscoa. O uso da abordagem da lectio continua, então, não significa
que se deva negligenciar as festas evangélicas. No decorrer de um ano, tento
tratar muitos tipos diferentes de literatura bíblica. Eu sempre tento fazer uma
série importante sobre um evangelho, uma série importante sobre outro livro
do Novo Testamento e uma série importante sobre um livro do Antigo
Testamento.92
Old diz que Calvino pregou dezessete sermões no profeta Miqueias. Por sua vez,
abordou todo o livro em seis exposições, selecionando no livro as passagens mais
significativas para o contexto de sua congregação. Quanto ao sermão da Montanha, Old
declara ter pregado vinte e cinco sermões, pois a temática da vida cristã prática a partir
do ensino de Jesus era o que a sua igreja precisava para o momento.93 Ainda,
91
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
92
OLD, Hughes O. Preaching by the book: using the Lectio Continua approach in sermon planning.
Reformed Worship. Disponível em <[Link]
using-lectio-continua-approach-sermon-planning>. Acesso em 26 ago. 2022, às 16h50.
93
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
94
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
43
Diante disso, é evidente que a lectio continua não é uma forma engessada e rígida,
onde só faz sentido pregar o livro todo, cada detalhe, cada capítulo ou cada verso por
meses e anos, restringido a igreja a uma dieta extremamente restrita. É injusto com o
método limitá-lo. Por isso, é preciso que o pastor esteja sensível ao seu público,
adequando e adaptando o método a característica de sua comunidade, ao seu tempo, ao
seu contexto e às necessidades.
Dessa feita, a lectio continua ainda continua sendo a forma de pregação
extremamente comprometida com todo o conselho de Deus, que prepara a igreja para o
que está por vir, que aborda todos os assuntos sem isenção e que não abre precedentes
para que o pastor/pregador fuja do contexto do texto.
Como bem resume Old,
Em meu próprio ministério, a ênfase tem sido pregar para a congregação cristã
quando ela é reunida para adoração no Dia do Senhor. Entendo que este seja o
contexto natural ou lugar habitual da pregação da lectio continua. É quando a
Igreja se reúne regularmente para adorar a Deus que as Escrituras devem ser
pregadas de maneira sistemática. Existem outros lugares onde outros tipos de
pregação são apropriados e até necessários. A pregação evangelística ocupa
um lugar importante na história da pregação, mas raramente é encontrada no
contexto da adoração. Aquele não é o seu lugar apropriado. O sermão de Paulo
no Areópago foi pregado ao ar livre para aqueles que não eram cristãos. Ele
não pregou sobre um texto das Escrituras. Os monges celtas que evangelizaram
o norte da Europa e os pregadores franciscanos e dominicanos da Idade Média
eram grandes pregadores e, no entanto, sua pregação não era geralmente no
contexto da celebração da missa. John Wesley e George Whitfield pregavam
nos campos e nas esquinas das ruas. do que no serviço ordinário de adoração.
A pregação evangelística por sua própria natureza está fora da liturgia. Tem
um contexto diferente. A pregação da Lectio continua, por outro lado, é a
pregação litúrgica. É um ministério particular do povo de Deus que consiste na
escuta atenta e sistemática da Palavra de Deus. [...]É para esse tipo de pessoa
que a pregação da lectio continua tem um apelo especial. Ele oferece uma
oportunidade para uma audição sistemática e acadêmica da mensagem das
Escrituras. A pregação da lectio continua possibilita ao ministro sustentar um
estudo disciplinado das Escrituras, e torna possível que a congregação entre e
siga essa disciplina.95
CONCLUSÃO
Ser pastor e anunciar a Palavra de Deus é uma bênção. Porém, pregar é um grande
desafio, pois não consiste, apenas, em habilidade oratória, mas em um compromisso sério
com a verdade do Evangelho e com toda a Bíblia. Ser pastor atuante em uma comunidade
95
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
44
é desafio em dose dupla, pois envolve muito tempo de dedicação ao povo e administração
da igreja e seus recursos.
Uma responsabilidade não pode negar a outra. Um privilégio não deve sobressair
sobre o outro. Então, falamos de conciliação. Por isso, a pregação expositiva lectio
continua é eficiente nesse papel, já que a sua forma é clara, indutiva e totalmente
comprometida com a Palavra de Deus. Testada e avaliada por grandes pregadores e
estudiosos, sua eficácia é comprovada em anunciar todo o conselho de Deus, sem
negociar quaisquer partes da Bíblia. Além disso, é excelente para o ministério pastoral,
pois permite ao pastor administrar todas as suas demandas, sem comprometer o zelo para
com a pregação.
Sem dúvidas, reconhecemos que as demais formas de pregação são boas, usadas
por gente competente e atendem o propósito de pregar a Bíblia, se feito com cautela e
cuidado. É necessário extremo cuidado para não nos ocuparmos, somente, com os temas
que consideramos mais fáceis ou mais preferidos, ou oferecermos a igreja aquilo que
querem ouvir, que lhes seja palatável, com o intuito de angariar números. Além do mais,
ficar restrito aos temas do momento ou a assuntos diversos exige um grande esforço do
pastor, não bastando as suas muitas atividades.
Sem quaisquer dúvidas, o assunto é muito extenso e complexo. Seria necessário
mais aprofundamento, maiores pesquisas e centenas de páginas para tratar o tema com
todo o critério exigido. Porém, esse é o primeiro passo.
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