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Pregação e Lectio Continua: Responsabilidades

Este documento discute as responsabilidades do pastor, com foco na pregação do Evangelho. Analisa a despedida de Paulo em Éfeso como exemplo de fidelidade em anunciar todo o conselho de Deus. Avalia o método de pregação expositiva "lectio continua" como potencialmente a forma mais eficiente para cumprir a tarefa de pregar a Bíblia por completo, considerando as múltiplas demandas do ministério pastoral.

Enviado por

Marcony Jahel
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Pregação e Lectio Continua: Responsabilidades

Este documento discute as responsabilidades do pastor, com foco na pregação do Evangelho. Analisa a despedida de Paulo em Éfeso como exemplo de fidelidade em anunciar todo o conselho de Deus. Avalia o método de pregação expositiva "lectio continua" como potencialmente a forma mais eficiente para cumprir a tarefa de pregar a Bíblia por completo, considerando as múltiplas demandas do ministério pastoral.

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CENTRO PRESBITERIANO DE PÓS-GRADUAÇÃO

ANDREW JUMPER

Altieres Fernando Miola

O MÉTODO LECTIO CONTÍNUA DE PREGAÇÃO: O ANUNCIO DE TODO O


CONSELHO DE DEUS E AS RESPONSABILIDADES DO PREGADOR

São Paulo
2022
CENTRO PRESBITERIANO DE PÓS-GRADUAÇÃO
ANDREW JUMPER

Altieres Fernando Miola

O MÉTODO LECTIO CONTÍNUA DE PREGAÇÃO: O ANUNCIO DE TODO O


CONSELHO DE DEUS E AS RESPONSABILIDADES DO PREGADOR

Monografia apresentada ao Centro


Presbiteriano de Pós-graduação Andrew
Jumper – CPAJ, como requisito parcial para
obtenção do título de Magister Divinitatis,
MDiv, na área de Estudos Pastorais.
Orientador Professor Dr. Dario de Araújo
Cardoso.

São Paulo
2022
Elaborado pelo Sistema de Geração Automática de Ficha Catalográfica da Mackenzie
com os dados fornecidos pelo(a) autor(a)
M669m Miola, Altieres Fernando.
O método Lectio Continua de pregação: : o anuncio de todo o
conselho de Deus e as responsabilidades do pregador. / Altieres
Fernando Miola.
600 KB ;

Monografia (Magister Divinitatis) - Universidade Presbiteriana


Mackenzie, São Paulo, 2023.
Orientador(a): Prof(a). Dr(a). Dario de Araújo Cardoso.
Referências Bibliográficas: f. 44-47.

1. Pregação. 2. Lectio Continua. 3. Expositiva. 4. Pastoral. 5.


Ministério. I. Cardoso, Dario de Araújo, orientador(a). II. Título.

Bibliotecário(a) Responsável: Eliezer Lírio Dos Santos - CRB 8/6779


Altieres Fernando Miola

O MÉTODO LECTIO CONTÍNUA DE PREGAÇÃO: O ANUNCIO DE TODO O


CONSELHO DE DEUS E AS RESPONSABILIDADES DO PREGADOR

Monografia apresentada ao Centro


Presbiteriano de Pós-graduação Andrew
Jumper – CPAJ, como requisito parcial para
obtenção do título de Magister Divinitatis,
(MDiv) na área de Estudos Pastorais.
Orientador Professor Dr. Dario de Araújo
Cardoso.

Aprovação 25 / 11 / 2022
Orientador: Professor: Dr. Dario de Araújo Cardoso
Folha de Identificação da Agência de Financiamento

Autor: Altieres Fernando Miola

Programa: MDiv – Estudos Pastorais – Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew


Jumper

Título do Trabalho: O MÉTODO LECTIO CONTÍNUA DE PREGAÇÃO: O


ANUNCIO DE TODO O CONSELHO DE DEUS E AS RESPONSABILIDADES
DO PREGADOR

O presente trabalho foi realizado com o apoio de:

☒ Instituto Presbiteriano Mackenzie / Isenção Integral das Mensalidades

☐ Instituto Presbiteriano Mackenzie / Isenção Parcial das Mensalidades


Dedico este trabalho ao meu Deus, que me chamou e me deu a grande
responsabilidade de ser um pregador do Evangelho.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a minha esposa, Priscila. Ela, pacientemente, apoiou-me em todo esse


processo, sempre acreditou e caminhou muitas milhas a mais.

Agradeço as minhas filhas, Giovana e Bianca. Em meio a correria, elas são o


refrigério e o cuidado de Deus.

Ao Rev. Dario por me instruir e acompanhar nesse processo final do mestrado.

Aos professores do Andrew Jumper. Excelentes em tudo o que fazem e que muito
me ensinaram e continuam ensinando.

A Igreja Presbiteriana em Santo Anastácio, que me acolhe, ensina e que tem sido
uma grande bênção para mim e a minha família.

A Deus toda a glória, honra e louvor!


SUMÁRIO

RESUMO 08

INTRODUÇÃO 09

1 AS RESPONSABILIDADES DO PASTOR 10

2 A RESPONSABILIDADE DA PREGAÇÃO 11

2.1 A despedida de Paulo de Éfeso 13

2.2 A fidelidade do pastor para com todo o Conselho de Deus 18

3 UMA AFIRMAÇÃO:
O COMPROMISSO COM A PREGAÇÃO EXPOSITIVA 25

4 UMA ANÁLISE:
TODAS AS FORMAS DE PREGAÇÃO SÃO EXPOSITIVAS? 28

5 UMA DISCUSSÃO:
A EFICÁCIA E A EFICIÊNCIA DA LECTIO CONTINUA 35

CONCLUSÃO 43

REFERÊNCIAS 44
8

O MÉTODO LECTIO CONTÍNUA DE PREGAÇÃO: O ANUNCIO DE TODO O


CONSELHO DE DEUS E AS RESPONSABILIDADES DO PREGADOR

Altieres Fernando Miola1

RESUMO: Muitas são as formas de se preparar um sermão. Seja qual for a pretendida,
preferida ou escolhida, esta deve ter compromisso fiel para com toda a Palavra de Deus
revelada e registrada na Bíblia. O pastor, aquele incumbido dessa responsabilidade, deve
anunciar todo o conselho de Deus e servir alimento sólido e completo para a comunidade
de crentes. Além disso, é sabido que o pastor é envolvido por uma grande demanda de
atividades em seu campo de trabalho. Por isso, deve saber conciliar todo o tempo sem
negligenciar uma responsabilidade em detrimento da outra. Assim, após analisar as
responsabilidades do ministro do Evangelho, o zelo para com o anuncio de toda a
Escritura e as formas de pregação existentes, será avaliada a forma de pregação expositiva
lectio continua se, como a maneira mais eficiente de pregação de toda a Bíblia, coopera
com o pastor em suas muitas laborações.

Palavras-chave: Pregação; Expositiva; Lectio continua.

1
Altieres Fernando Miola é bacharel em Administração pela Universidade do Oeste Paulista (Presidente
Prudente/SP), bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul (SPS – Campinas/SP) e mestrando
em Estudos Pastorais, MDiv, pelo Centro de Pós-Graduação Andrew Jumper (São Paulo/SP). Pastor
Presbiteriano, atualmente em Santo Anastácio – SP. Endereço eletrônico: altieresfernando@[Link].
9

INTRODUÇÃO

Uma das grandes responsabilidades do ministro é a pregação do Evangelho. Seja


na Escola Bíblica Dominical, no culto de domingo à noite, em um estudo bíblico, em uma
conversa informal ou em uma visita, o pastor está em constante contato com a
proclamação das verdades de Cristo.
Diante desse grande compromisso e das muitas demandas do ministério, por
vezes, o pastor/pregador se vê diante do dilema: o que pregar? Não que lhe falte assunto
ou conteúdo, obviamente, mas é a angústia do preparo, da organização, da conciliação de
suas atividades e do compromisso zeloso em expor com dedicação e destreza as
Escrituras.
Aquele que entende o seu chamado sabe que deve estar preparado e comprometido
em expor toda a Palavra Deus e todo o conteúdo das Escrituras. Não é um engajamento
com aquilo que goste mais da Bíblia ou que tenha mais familiaridade e facilidade.
Envolve não negociar nada para agradar o seu público, encher a igreja ou evitar esforços.
Diz respeito a não negligenciar porções da Escritura, por mais pesado e duro que possa
ser o seu estudo e compreensão. Refere-se a não abdicar os crentes de alguma doutrina,
por mais que ela seja passível de discussão ou discriminação. É não dispensar qualquer
livro da Bíblia, por mais difícil que seja digerir o seu conteúdo.
Dessa feita, diante das formas existentes de pregação do Evangelho, analisaremos
a lectio continua, com o objetivo de descobrirmos se ela é a mais eficiente metodologia
na exposição de todo o conselho de Deus e que contribui para tirar dos ombros dos
pastores o peso de ter que escolher, semana após semana, o que pregar. A sua estrutura
de estudar livro a livro, capítulo a capítulo e verso a verso, além de minimizar tempo e
esforços, faz jus aquilo que aprendemos de Paulo, quando reúne os presbíteros de Éfeso:
“...jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa; [...]” e “...porque jamais
deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (Atos 20.20, 27).
Baseados nessa premissa, discutiremos as responsabilidades do pastor,
enfatizando a pregação do Evangelho, o seu compromisso com todo o conselho de Deus,
a exemplo de Paulo em Éfeso, e, a partir de uma análise, avaliar algumas das formas de
pregação expositivas, focando, na sequência, na lectio continua como a maneira mais
eficiente para o cumprimento de anunciar toda a vontade de Deus revelada em sua Santa
Palavra.
10

1. AS RESPONSABILIDADES DO PASTOR

Algumas das frases que mais ouvi quando anunciei para os meus familiares,
amigos e até mesmo crentes da minha igreja que iria para o seminário estudar e me
preparar para ser pastor foi: “Se puder escolher outra profissão, faça isso”, “Olha, lidar
com pessoas não é uma tarefa fácil”, “Tem certeza de que é isso mesmo que Deus quer
para a sua vida”? Alguns, um pouco mais céticos, ou cínicos, ainda não sei definir, foram
mais longe, quando diziam: “Os 3 P´s que causam mais desconfiança no povo são
políticos, policiais e pastores”.
De fato, o ministério pastoral não é uma tarefa fácil, exatamente como qualquer
outra função ou trabalho conhecido. Porém, como bem define Derek Prime e Alistair
Begg no livro Ser Pastor, “O ministério dos pastores e mestres não é simplesmente um
trabalho. É, antes, uma vocação, a resposta a um chamado específico de Deus. É a mais
alta no serviço cristão” 2.
Entendemos que o serviço religioso não é mais importante que qualquer outra
função. Se assim fosse, debateríamos o que já foi amplamente discutido na tradição
cristã: serviço sagrado x serviço profano, profissão santa x profissão secular. Não é essa
a nossa intenção. Mas, é preciso saber que o ministério pastoral não é a escolha de uma
profissão, cujos justos propósito sejam subir de carreira, ganhos elevados por
produtividade e reconhecimento a curto, médio ou longo prazo. O ministério pastoral
se trata de entrega total e irrestrita para o chamado de Deus e para o serviço exclusivo
do seu Reino. Ser pastor não é um trabalho com os fins comuns, como dito, mas é saber
viver o paradoxo de ganhar é perder, de diminuir para que Ele cresça, de plantar e nem
sempre ver crescer ou colher e de correr e não se consagrar o vencedor.
Para John MacArthur Jr,

[...] O objetivo primário no pastoreio do rebanho de Deus é alimentá-lo.


Além disso, o pastor deve supervisionar o rebanho e lhes oferecer uma vida
exemplar, para que possam se orientar por ela. Ele não pode fazer o trabalho
com o espírito contrariado, nem pode fazê-lo para obter lucros financeiros.
Acima de tudo, deve obedecer aos mandamentos das Escrituras, sendo fiel à
verdade bíblica, firme na exposição e na refutação dos erros, exemplar na
bondade, diligente no ministério e disposto a sofrer em seu serviço.3

2
PRIME, Derek, BEGG, Alistair. Ser pastor. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 15.
3
MACARTHUR, Jr. John et al. Redescobrindo o ministério pastoral. Rio de Janeiro: Casa Publicadora
das Assembleias de Deus, 1998, p. 38.
11

Sem dúvidas, o alvo do pastor é cuidar do rebanho que o Senhor lhe confiou. É
dar o devido alimento para que cresçam, amadureçam e sejam direcionados para o alvo,
que é Cristo. Como o apóstolo Paulo deixa claro em Colossenses 1.24-29, tornou-se
ministro da parte de Deus para cumprir às suas ordenanças, sofrer com a igreja as aflições
de Cristo, anunciar o mistério que estivera oculto e que agora é manifestado aos santos e,
anunciar, advertir e ensinar a todos a sabedoria, com o propósito de torna-los perfeitos
em Cristo.
O Manual Presbiteriano, no capítulo IV, Seção 2ª, Art. 30 e Art. 32, afirma:

O Ministro do Evangelho é o oficial consagrado pela igreja, representada no


Presbitério, para dedicar-se especialmente à pregação da Palavra de Deus,
administrar os sacramentos, edificar os crentes e participar, com os presbíteros
regentes, do governo e disciplina da comunidade. [...] O ministro, cujo cargo e
exercício são os primeiros na igreja, deve conhecer a Bíblia e sua teologia; ter
cultura geral; ser apto para ensinar e são na fé; irrepreensível na vida; eficiente
e zeloso no cumprimento dos seus deveres; ter vida piedosa e gozar de bom
conceito, dentro e fora da igreja.4

Assim, em linhas gerais, as responsabilidades do pastor são a pregação e o ensino


da Palavra de Deus, o aconselhamento e o discipulado dos novos convertidos e dos mais
experimentados crentes e a liderança e gestão da igreja.

2. A RESPONSABILIDADE DA PREGAÇÃO

Entendidas as responsabilidades do pastor, nosso objetivo é nos concentrarmos na


pregação.
É sabido que o nosso tempo é tomado pelo pragmatismo. Este tem dado a palavra
de ordem em nossos dias e isso chegou as igrejas, principalmente nos seus púlpitos. A
proposta dessa nova ordem é colocar em prática aquilo que funciona, ou seja, que tenha
sido testado favoravelmente, que seus métodos e práticas estejam vigorando,
funcionando e apresentando bons resultados. Se isso está acontecendo, esse deve ser o
caminho para o sucesso e para o crescimento da igreja.
Darrin Patrick, pastor fundador da Journey Church em St. Louis, ao avaliar o
cenário das igrejas em relação ao ministério pastoral, percebeu que foram tomadas pelo
modelo de negócios de crescimento a qualquer custo, sem se importar de encontrar
alguém que esteja à frente do povo como sendo alguém realmente chamado por Deus.

4
MANUAL PRESBITERIANO/IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. São Paulo: Cultura Cristã,
2019. p. 41, 42, 46.
12

Após inúmeras consultorias a várias denominações, tradicionais ou não, a principal


pergunta que dá tom ao processo de escolha de uma liderança não é ‘Este homem é
cristão?’, mas ‘Este homem pode fazer a igreja crescer?’5
Da mesma forma, o Rev. Hernandes Dias Lopes, avaliando o Movimento de
Crescimento de Igreja de 1930, por meio de Donald McGravan, entendeu que o seu
começo foi de grande reconhecimento e influência nas igrejas do século 20. Porém,
entregue ao pragmatismo, perdeu de vista a pregação como o grande propulsor para que
uma igreja cresça saudável e consistente. Ao avaliarem as dissertações, teses e
monografias dos alunos do Movimento, percebeu-se que a mentalidade era fazer o que
funciona, sem se preocupar se tem aliança com a verdade.
Assim, seu diagnóstico a esse mal é:

Muitas igrejas contemporâneas estão buscando novas técnicas e novos


modelos para levar a igreja ao crescimento. Mas, se queremos o crescimento
saudável da igreja, precisamos voltar ao primeiro livro da história da igreja,
o livro de Atos, para entendermos os princípios de Deus. Lá encontraremos
que a pregação associada à oração foram os grandes instrumentos usados por
Deus para levar sua igreja ao crescimento, seja numérico seja espiritual. Não
temos que inventar novidades, precisamos voltar às origens. Não temos que
seguir modelos pragmáticos, temos que anunciar a Palavra com fidelidade,
no poder do Espírito Santo. Então Deus nos dará os resultados! 6

John Stott, em seu livro O perfil do pregador, procura mostrar o que o pregador
cristão não é. E como isso é valioso. A distorção no entendimento desse ofício sagrado
tem sigo grotesca. Muitos, ao se intitularem pastores, ministros, bispos, apóstolos,
sacerdotes ou qualquer outro título que acham melhor ou conveniente, erram ao assumir
para si prerrogativas que não lhes pertencem. Assim, blindados pelo estereótipo de
homem de Deus, intocável e ungido do Senhor, cometem todo tipo de atrocidade.
Portanto, o pregador cristão NÃO É UM PROFETA, ou seja, “ele não recebe
sua mensagem de Deus como revelação original e direta”. 7 Na verdade, a sua tarefa é
expor com zelo, temor e fidelidade tudo o que foi dado de maneira definitiva como um
despenseiro, a quem foi confiada as Escrituras Sagradas.
O pregador cristão NÃO É UM APÓSTOLO. 8 A igreja é apostólica, pois é
fundada sobre a doutrina dos apóstolos e enviada ao mundo. Porém, os enviados hoje

5
PATRICK, D. O plantador de igreja. São Paulo: Vida Nova, 2013. p. 30.
6
LOPES, Hernandes D.; CASIMIRO, Arival D. Revitalizando a igreja: na busca por uma igreja viva,
santa e operosa. São Paulo: Hagnos, 2012. p. 61-63.
7
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 11-13.
8
Ibidem, p. 13-14.
13

não são apóstolos, já que esse título foi conferido, única e irrevogavelmente, aos 12
discípulos nomeados por Jesus. O apostolado se limitou a primeira geração e não se
tornou um cargo eclesiástico.
O pregador cristão NÃO É UM FALSO PROFETA OU FALSO APÓSTOLO.
Stott entende que ambas funções não existem mais hoje em nossos dias, mas é certo que
haja falsos profetas e falsos apóstolos que, vestidos da tradição de começar seus sermões
com a leitura da Bíblia, o que falam não tem qualquer conexão com a sua real mensagem
ou seu contexto. “Gente que fala as próprias palavras e não a Palavra de Deus. A
mensagem vem de suas mentes. Gente que gosta de ventilar suas opiniões sobre religião,
ética, teologia e política”.9
O pregador cristão NÃO É UM TAGARELA. Os filósofos atenienses nomearam
Paulo dessa forma, em Atos 17, menosprezando a sua mensagem, já que,
pejorativamente, a expressão tinha a função de dizer que “o ‘tagarela’ repassa ideias
como mercadoria de segunda mão, colhendo fragmentos e detalhes onde os encontra.
Seus sermões são uma verdadeira colcha de retalhos”. 10 Em outras palavras, o tagarela
é aquele que não é capaz de pensar por si mesmo, pois sempre se encontra dependente
das ideias de outros, sem o trabalho de avaliar, julgar o que é certo e se apropriar dela.
Por fim, no Catecismo Maior de Westminster encontramos uma bela, profunda
e abrangente definição do que consiste o trabalho do pastor na pregação do Evangelho.
Assim, escrevem:

Pergunta 159. Como deve ser pregada a Palavra de Deus por aqueles que
para isso são chamados? Aqueles que são chamados a trabalhar no
ministério da Palavra devem pregar a sã doutrina, diligentemente, em tempo
e fora de tempo, claramente, não em palavras persuasivas de humana
sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder; fielmente, tornando
conhecido todo o conselho de Deus; sabiamente, adaptando-se às
necessidades e às capacidades dos ouvintes; zelosamente, com amor
fervoroso para com Deus e para com as almas de seu povo; sinceramente,
tendo por alvo a glória de Deus, e procurando converter, edificar e salvar
almas.11

2.1 A despedida de Paulo de Éfeso

9
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 15.
10
Ibidem, p. 15-16.
11
O CATECISMO MAIOR/ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2005, p.
225.
14

O capítulo 20 de Atos dos Apóstolos se inicia com Paulo se despedindo dos


discípulos e partindo em direção a Macedônia. Decidido não ir até Éfeso, pois o seu desejo
era seguir viagem para Jerusalém, manda chamar os presbitérios da igreja. Dessa feita,
lemos:

E, quando se encontraram com ele, disse-lhes: Vós bem sabeis como foi que
me conduzi entre vós em todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei
na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações
que, pelas ciladas dos judeus, me sobrevieram, jamais deixando de vos
anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la ensinar publicamente e também
de casa em casa, testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento
para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo]. E, agora, constrangido
em meu espírito, vou para Jerusalém, não sabendo o que ali me acontecerá,
senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me
esperam cadeias e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para
mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que
recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus.
Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não vereis
mais o meu rosto. Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou limpo
do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de
Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos
constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com
o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha partida, entre vós
penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós
mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os
discípulos atrás deles. Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos,
noite e dia, não cessei de admoestar, com lágrimas, a cada um. Agora, pois,
encomendo-vos ao Senhor e à palavra da sua graça, que tem poder para vos
edificar e dar herança entre todos os que são santificados. De ninguém
cobicei prata, nem ouro, nem vestes; vós mesmos sabeis que estas mãos
serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo.
Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os
necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-
aventurado é dar que receber. Tendo dito estas coisas, ajoelhando-se, orou
com todos eles. Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando
afetuosamente a Paulo, o beijavam, entristecidos especialmente pela palavra
que ele dissera: que não mais veriam o seu rosto. E acompanharam-no até ao
navio. (Atos 20.18-38)

Diante do texto exposto, ressalto duas importantes falas do apóstolo Paulo aos
presbíteros da igreja de Éfeso, que considero de suma importância para que entendamos
o motivo pelo qual a cidade foi tão profundamente impactada, ao ponto de Paulo não
poder mais pisar em suas ruas sem que corresse qualquer dano a sua vida e dos demais
cristãos: a. “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa”; b. “porque
jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus”. O que Paulo quis exprimir ao
lembrar a liderança da igreja sobre o seu compromisso com a pregação do Evangelho
de Jesus?
A uma primeira vista, podemos compreender que a sua consciência diante de
Deus descansa em paz por saber que não deixou de compartilhar, para quem quer que
15

fosse, tudo o que a Palavra de Deus exige para a salvação. Não se ocupou com seus
pensamentos pessoais, suas ideologias, suas filosofias, seus negócios ou interesses. Pelo
contrário, tudo o que pregou foi a mensagem de Jesus, suficiente para salvar o perdido
pecador. Além disso, mesmo sendo alvo de grandes conspirações, de passar por aflições
e lágrimas, jamais deixou de falar ousadamente sobre todas as coisas referentes a Cristo
e o seu Reino. Em outras palavras, sua exposição pública ou privada, tinha como único
objetivo anunciar Jesus Cristo por completo.
De acordo com Robert L. Deffinbaugh 12, da Community Bible Chapel, numa
série de Estudos sobre o Livro de Atos, entende que, apesar de o ministério de Paulo ter
sido fortemente combatido por judeus incrédulos, o que resultou em fortes e profundas
provações, não considerou se abster de proclamar qualquer coisa que fosse útil. Em suas
próprias palavras, salienta que:

Há muitos pregadores hoje que se orgulham do fato de ensinarem


seletivamente. Sabemos que eles deixarão de fora tópicos desagradáveis
como pecado, justiça e julgamento, embora essas sejam as realidades das
quais o Espírito Santo dá testemunho. O inferno é um assunto que nunca será
abordado em suas pregações, mas a saúde e a riqueza serão um tema
constante. O ensino de Paulo centrava-se no “arrependimento para com Deus
e fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 20:21). Em outras palavras, o
evangelho era o cerne do ensino de Paulo. 13

Ainda, Deffinbaugh compreende que, sendo o apóstolo Paulo um exímio


conhecedor das Escrituras do Antigo Testamento, quando diz aos presbíteros de Éfeso
que está limpo do sangue de todos, pois jamais deixou de anunciar todo o conselho de
Deus, na sua mente vem a mensagem do Senhor ao profeta Ezequiel, que diz:

Findos os sete dias, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Filho do


homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a
palavra e os avisarás da minha parte. Quando eu disser ao perverso:
Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o advertir do
seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua
iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei. Mas, se avisares o
perverso, e ele não se converter da sua maldade e do seu caminho perverso,
ele morrerá na sua iniquidade, mas tu salvaste a tua alma. Também quando
o justo se desviar da sua justiça e fizer maldade, e eu puser diante dele um
tropeço, ele morrerá; visto que não o avisaste, no seu pecado morrerá, e suas
justiças que praticara não serão lembradas, mas o seu sangue da tua mão o

12
Robert L. (Bob) Deffinbaugh é pastor/professor e presbítero na Community Bible Chapel em
Richardson, Texas. Seu estudo em Atos dos Apóstolos 20.1-38, intitulado Paul’s Parting Words, faz parte
de uma série sobre Atos dos Apóstolos e se encontra disponível em <[Link]
parting-words-acts-201-38#google_vignette>. Acesso em 14 de fevereiro de 2022, às 10h20.
13
DEFFINBAUGH, Robert L. Paul´s parting words. Disponível em <[Link]
pauls-parting-words-acts-201-38#google_vignette>. Acesso em 14 fev. 2022, às 10h20.
16

requererei. No entanto, se tu avisares o justo, para que não peque, e ele não
pecar, certamente, viverá, porque foi avisado; e tu salvaste a tua alma.
(Ezequiel 3:16-21)

Bob Utley, em seu comentário de Atos dos Apóstolos, compreende nessas


passagens que Paulo não se eximiu de ensinar tudo o que fosse relacionado ao
Evangelho, ou seja “como recebê-lo, como vivê-lo, como defendê-lo, como promovê-
lo”. 14 Além disso, quando o apóstolo afirma que não omitiu falar de todo o conselho de
Deus, carrega consigo uma ideia marítima, ou seja, não recolheu as velas, mesmo ciente
da aproximação das docas. Portanto, o que Paulo está afirmando categoricamente é que:

Devemos proclamar sempre a mensagem completa de Deus, não apenas nossa


parte favorita! Isto pode ser uma alusão aos Judaizantes que alegavam que
Paulo deixava parte da mensagem de fora (a Lei Mosaica - Judaísmo) ou os
carismáticos de II Cor. 12 que pensavam que Paulo fosse desprovido de
experiências espirituais. O propósito de Deus é que os homens sejam
restaurados à plena comunhão com Ele, que era o propósito da criação. 15

Werner de Boor, considera que todas as aflições e lutas que o apóstolo Paulo
experimentou, não lhe fizeram “omitir nada do que vos seja salutar, de vos anunciar e
ensiná-lo”.16 Nisso, ele coloca em prática dois importantes serviços cristãos: anunciar a
mensagem e ensinar tudo para o alimento da fé, da vida e da comunhão. Esse trabalho
leva em consideração a responsabilidade que todo mensageiro de Jesus deve ter em não
ficar sujo do sangue de todos. Deus é quem desperta para a fé, porém, o pregador pode
se tornar culpado pelo sangue da perdição daqueles que o ouvem. “Amabilidade falsa,
agradar a pessoas, indecisão, lerdeza, temor diante do espírito da época e outras coisas
mais podem enleá-lo em culpa desse tipo”.17 Diante disso, Paulo se sente limpo do sangue
de todos. Se, porventura, aqueles que o ouviram se perderem, a culpa lhes será própria,
pois não deixou de anunciar nada. Por isso, pode se despedir em paz.
Quanto a anunciar todo o conselho de Deus, Boor entende que o apóstolo esteja
se precavendo daquilo que estava por vir, com o objetivo de abalar a igreja: a gnose.
Paulo, com o olhar no futuro próximo, destaca:

Ele “anunciou todo o desígnio de Deus”. Talvez isso tenha sido formulado
enfaticamente por Paulo porque via chegar aquele grande movimento que mais
tarde abalou profunda e especialmente as igrejas da Ásia Menor: a “gnose”. Ela
pretendia conhecer mistérios divinos que os pregadores teriam “deixado de

14
UTLEY, Bob. Lucas, o historiador – Atos. Série guia de estudos e comentário do Novo Testamento,
vol. 3B. Lições Bíblicas Internacional, Marshal, Texas, 2010. p. 242.
15
Ibidem, p. 243.
16
BOOR, Werner de. Atos dos Apóstolos. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2003. p. 175.
17
Ibidem, p. 176.
17

anunciar” ou “ocultado”. Em Corinto os fiéis também já haviam ficado


insatisfeitos com Paulo, procurando por mestres com maior “sabedoria”. Não,
diz Paulo com vistas a tais pensamentos, o que precisa ser dito sobre Deus e sua
obra abrangente e gloriosa de salvação, desde a criação até a consumação, tudo
isso eu preguei. Por isso também nós podemos saber: na proclamação de alguém
como Paulo encontramos tudo o que é necessário para a salvação e não
precisamos de outros conhecimentos, independente de quem os oferece. 18

Matthew Henry vê o apóstolo Paulo como um pregador autêntico. Sua ida a


Éfeso foi para pregar o Evangelho de Cristo e isso fez com toda fidelidade. Assim,
quando declara que nunca deixou de anunciar e ensinar o que era útil, deixa claro que
“ele não divertiu os efésios com especulações sutis, nem os levou para depois abandoná-
los nas nuvens de alta teorias e sublimes expressões”. 19
Pelo contrário, anunciou de
maneira clara o Evangelho, de tal forma que “[...] tendesse a torna-los sábios e bons,
mais sábios e melhores, que documentasse seus julgamentos e corrigisse seus corações
e vidas”.20
Ainda mais,

Paulo prova sua própria fidelidade com esta declaração: Porque nunca deixei
de vos anunciar todo o conselho de Deus (v. 27). (1) Ele anunciara aos efésios
nada mais que o conselho de Deus (v. 27), sem acrescentar nenhuma invenção
própria. “Era o evangelho puro e nada mais, a vontade de Deus concernente à
vossa salvação.” O evangelho é o conselho de Deus. Ele foi admiravelmente
projetado por sua sabedoria, inalteravelmente determinado por sua vontade e
amavelmente delineado por sua graça para nossa glória (1 Co 2.7). Este
conselho de Deus é o assunto que os ministros têm a declarar conforme foi
revelado, e não outro assunto ou algo a mais. (2) Ele anunciara aos efésios
todo o conselho de Deus (v. 27). Como lhes anunciara todo o conselho de Deus,
como lhes proclamara o evangelho puro, assim ele o fizera por inteiro.
Revisara o corpo de doutrinas com eles para que, tendo-lhes exposto as
verdades do evangelho sistematicamente, da primeira à última e cada uma em
sua ordem, melhor as entendessem, vendo-as em suas várias ligações. (3) Ele
não se esquivara de anunciar aos efésios todo o conselho de Deus (v. 27), nem
deixara de mencionar, por teimosia ou má intenção, qualquer parte do conselho
de Deus. Para poupar algum sofrimento, não se recusara a pregar as partes mais
difíceis do evangelho, da mesma forma que não se recusara, para salvar sua
reputação, a pregar as partes mais claras e fáceis. Ele não se furtava de anunciar
as doutrinas que sabia provocarem os atentos inimigos do cristianismo ou que
desagradariam os seus indiferentes mestres; mas, fielmente, fez seu trabalho,
quer ouvissem quer deixassem de ouvir. E foi assim que se manteve limpo do
sangue de todos os homens. 21

Assim sendo, podemos concluir que o grande desafio do ministério de pregação


é anunciar com fidelidade, sem medos ou temores dos homens, tudo o que a Bíblia

18
BOOR, Werner de. Atos dos Apóstolos. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2003. p. 176.
19
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento: Atos a Apocalipse. Edição Completa. Rio de
Janeiro, CPAD. p. 222.
20
Ibidem, p. 222.
21
Ibidem, p. 225.
18

ordena para a salvação. É a responsabilidade de ser um transmissor que vai abrir a boca
com autoridade do seu Senhor e anunciar cada detalhe da sua Palavra, sem deixar de
mencionar qualquer aspecto que seja, qualquer texto que seja ou qualquer doutrina que
seja por receio de sua própria vida, reputação e nome. É estar ciente de que suas mãos,
ao deixar de anunciar toda a verdade de Deus, podem estar ensanguentadas com o
sangue daqueles que podiam ouvir, mas foram negligenciados.
R. C. Sproul faz uma importante declaração pessoal sobre essa tão grande
responsabilidade:

Jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa e de vo-la


ensinar publicamente e também de casa em casa, testificando tanto a
judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso
Senhor Jesus [Cristo]” (v.20-21), e alguns momentos mais tarde disse,
“porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus” (v. 27).
Receio que quando eu estiver diante de Cristo no seu trono de julgamento, ele
possa dizer, “R.C, o que você deixou de dizer? Qual assunto você teve medo
de pregar? Quanto do meu conselho você declarou às pessoas sob seu cuidado?
Era sua a tarefa quando eu o consagrei de não deixar nada para trás, e proclamar
todo o conselho de Deus”. Tento me certificar de não omitir nada usando a
pregação expositiva, na apresentação do texto da Escritura. A pregação
expositiva inibe o pastor de pregar sobre seus temas prediletos, e tem sua
fundamentação na pregação apostólica. Paulo pregou sobre tudo. Ele não
pregou somente o amor de Deus. Ele pregou também a misericórdia de Deus,
graça e ira. Ele conclamou as pessoas ao arrependimento.22

2.2 A fidelidade do pastor para com todo o Conselho de Deus

Entendido que a Palavra de Deus não pode ser desprezada em nenhuma de suas
partes, que é dever de todo pregador anunciar todo o conselho de Deus, comprometido
com a grande verdade bíblica que afirma que toda a Escritura é inspirada e, portanto é útil
para o ensino, a repreensão, a correção e a educação na justiça (2 Timóteo 3.16), e dadas
as devidas qualificações destes que assumirão tamanho compromisso fiel e obediente,
adentramos em nosso grande objetivo, que é a mensagem que deve ser proclamada.
Boice, ao narrar o retorno de João Calvino para a Genebra em 13 de setembro de
1541, afirma:

Calvino não tinha outra arma a não ser a Bíblia. Desde o princípio, sua ênfase
tinha sido no ensino da Bíblia, e retornava a ela agora, continuando
precisamente onde havia parado três anos e meio atrás. Calvino pregou
biblicamente todos os dias, e sob o poder daquela pregação a cidade começou
a ser transformada. Como as pessoas de Genebra adquiriram conhecimento da

22
SPROUL, R.C. Estudos Bíblicos expositivos em Atos. São Paulo: Cultura Cristã, 2017. p.
19

Palavra de Deus e foram mudadas por ela, a cidade se tornou, como John Knox
chamou mais tarde, uma Nova Jerusalém de onde o evangelho se difundiu para
o resto da Europa, Inglaterra e o Novo Mundo.23

Da mesma forma que o Evangelho causou um grande alvoroço na cidade de Éfeso,


por intermédio de Paulo, assim o fez em Genebra, nos tempos de Calvino, e assim
continua fazendo quando o zelo pela Palavra de Deus permanece sendo o que arde no
coração dos pregadores. Se não vemos grandes reações acontecendo, o problema não está
no Evangelho, pois já sabemos que ele é o poder de Deus para a salvação (Romanos 1.16),
mas no descomprometimento com a sua inteireza, com a sua pureza e a sua beleza.
Nas palavras de Steven Lawson, para que esses momentos áureos na vida da igreja
voltem a ser experimentados, faz-se necessário um retorno a explosão que os apóstolos
tinham quando abriam suas bocas para exporem a Palavra de Deus. Não eram tomados
pela timidez e por docilidade, mas por coragem, ousadia e pregavam todo o conselho de
Deus.24
Nesse mesmo entendimento, Beeke e Lanning reconhecem que a Palavra de Deus
é extremamente poderosa para mudar a vida de um povo e é dada, por indicação do
próprio Deus, como a primeira marca de uma igreja verdadeira e o meio fundamental da
sua graça que transforma vidas. No entanto, “se aceitamos que a Bíblia é um livro
miraculoso, poderoso, vivificante, inerrante e autorizado, sendo o próprio sopro de Jeová,
por que não há maior evidência de seu poder transformador em nossas congregações”?25
De imediato, a resposta mais comumente dada e aceita para essa realidade em
nossas comunidades, seria a falta de empenho do povo na leitura da Bíblia e no ouvir e
colocar em prática a Palavra de Deus. Ainda, as incansáveis investidas de Satanás contra
a igreja, as tentações do mundo e o próprio coração pecador, inclinado aos seus desejos e
prazeres. Porém, deixando a simplicidade imediatista para responder uma pergunta tão
séria, Beeke e Lanning vão além, concordando que o problema não está, apenas, nos
bancos da igreja, mas em seus ministros, “[...] quando falhamos em responder à Palavra
‘em obediência a Deus com inteligência, fé e reverência’, e consequentemente, falta de
poder da Palavra e do Espírito em nossa pregação”.26

23
BOICE, James M. O Evangelho da graça. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 81.
24
LAWSON, Steven J. Paixão e poder na pregação apostólica. In: MACARTHUR, John. O pastor como
pregador. Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016. p. 127.
25
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 190-191.
26
Ibidem, p. 191.
20

Com isso, acreditam que, em primeiro lugar, inegociavelmente, encontra-se a ação


poderosa do Espírito Santo na transformação de vidas em nossas igrejas. Se o Espírito de
Deus não atuar, não existe possibilidade de salvação acontecer. No entanto, conforme a
própria história cristã delineia, a pregação deve conter certas marcas que são essenciais e
devem ser objeto de análise, estudo e compreensão: a. A Palavra de Deus está sendo,
verdadeiramente, pregada? b. Todo o conselho de Deus está sendo proclamado? c. A
Palavra está sendo comunicada com clareza e ardor? d. A Palavra de Deus está sendo
pregada experiencialmente e doutrinariamente? e. O estilo de pregação e o ministério
confirmam a mensagem que proclamamos? 27

a. A Palavra de Deus está sendo pregada?


Paulo escreve ao jovem Timóteo algo que considera crucial para o ministério:
“Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda
a longanimidade e doutrina” (2 Timóteo 4.2). A ordem é que a pregação da palavra de
Deus seja a grande ênfase do ministério pastoral. Dentre todas as responsabilidades de
um pastor, anunciar as verdades de Deus contidas na Bíblia deve ser o alvo de toda
habilidade e competência. Não é uma opção, mas um dever que não escolhe tempo, hora
ou lugar, como o apóstolo bem escreve.
MacArthur, ao analisar esse tempo adequado para pregar a palavra – “quer seja
oportuno, quer não” - longe de fazer uma exegese ou um aprofundado estudo das palavras
e suas nuances, simplesmente afirma que “[...] se eu puder leva-lo a uma simples
conclusão, as únicas possibilidades seriam a tempo e fora de tempo; portanto, devemos
pregar sempre, em todo tempo”. 28
Calvino tinha em mais alta e elevada estima a Bíblia aberta nos púlpitos da igreja,
pois cria que quando ela “[...] era aberta e explicada de forma correta, a soberania de Deus
era manifestada para a congregação imediatamente. Por isso, ele defendia que o principal
encargo do ministro era pregar a Palavra de Deus”29
Portanto, se é podido desejar sucesso em nossas igrejas, que elas cresçam e se
tornem fortes e vigorosas, missionárias e demasiadamente atuantes onde foram plantadas,
que seja por causa da verdade da Palavra de Deus exposta com entusiasmo, com verdade,

27
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 191-199.
28
MACARTHUR, John. Prega a Palavra. In: MACARTHUR., John. et. al. O pastor como pregador.
Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016. p. 10.
29
LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2017. p. 34.
21

com paixão e com fogo, dia após dia, domingo após domingo, semana após semana. Que
nossos púlpitos sejam incendiados por pregadores que entendem a responsabilidade de
abrir a Bíblia e anunciar com zelo e temor o que o Senhor da igreja deseja falar com o seu
povo.

b. Todo o conselho de Deus está sendo proclamado?


Beeke e Lanning asseveram que o pregador tem duas grandes responsabilidades
como expositor da Palavra de Deus: a) responsabilidade pessoal pelo bem-estar eterno de
seus ouvintes; b) em tempo oportuno, deverá apresentar uma prestação de contas de sua
administração no ofício de pregador da Palavra.30
Sendo assim, não é permitido nem autorizado que o pregador escolha os textos
que mais lhe agradam, como se usasse uma caixinha de promessas para determinar o que
será pregado no próximo domingo ou culto de doutrina, ou textos que sejam mais
palatáveis ao “gosto do freguês”, ou uma porção de texto que lhe confira mais prestígio
diante de um público sedento por suas próprias vontades e desejos. Pelo contrário, pregar
todo o conselho de Deus é

[...] pregar impassivelmente, sem sombra de dúvida, a análise devastadora da


condição humana que a Escritura apresenta (Gn 6.5; Ef 2.1). Ele precisa pregar
a graça divina e soberana como totalmente suficiente, como resposta vitoriosa
à condição do homem (Ef 2.5; Rm 9.16). Ele precisa envolver o pecador nessa
graça, chamando-o à fé e ao arrependimento, e oferecendo esperança
exclusivamente em Jesus Cristo para a “sabedoria, e justiça, e santificação, e
redenção” (1Co 1.30). Ele precisa pregar que o cristão deve apresentar-se por
“sacrifício vivo, santo e agradável” (Rm 12.1). Ele precisa impulsionar as
orientações imutáveis da Escritura e as amplas exigências para cada esfera da
vida, em lugar de seguir o programa caleidoscópio dos homens. Como disse
Lutero, em lugar de pregar contra espantalhos, o pregador fiel apresenta a
Palavra de Deus para testemunhar cada verdade específica que ele conhece e
nas quais sua congregação (com suas tentações peculiares) precisa ser
doutrinada.31

John Stott chama os pregadores a responsabilidade de pregar a Palavra de Deus


em toda a sua abrangência. Como ele afirma, nossa tendência natural é escolhermos os
textos a serem pregados a dedo, optando por nossas doutrinas favoritas e descartando as
que não gostamos ou achamos difíceis demais. Diante disso, “[...] nos tornamos culpados
de sonegar algumas das provisões que o divino Pai, em sua riqueza e sabedoria, destinou

30
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 192.
31
Ibidem, p. 193-194.
22

à sua família”.32 Porém, tão pior quanto subtrair, infelizes são todos aqueles que
acrescentam às Escrituras e se opõem ao que está escrito na Palavra de Deus.

c. A Palavra está sendo proclamada com clareza e ardor?


Enganam-se todos aqueles que acreditam que a exposição da Palavra de Deus seja
desconectada de amor, de fogo e de paixão. Se assim for, o pregador é um mero
trabalhador, incumbido de realizar excelente exegese do texto e de expor, com total
eloquência, os resultados obtidos de seu extenso estudo.
Ao contrário disso, o pregador deve ser alguém que tenha fome por Deus, o que
tornará a sua pregação cheia de poder do céu para alcançar o coração dos seus ouvintes,
mas que também seja um extremo estudioso, o que vai provocar o desejo da igreja por
mais conhecimento e entendimento do Senhor.
Lawson afirma que na empreitada pastoral de João Calvino, não tratava o estudo
da Palavra como uma mera função do seu ministério. Pelo contrário, “Calvino acreditava
não só que a mente precisa ser cheia da verdade da Palavra, mas também que o coração
deve ser devotado à piedade.” 33 Robert Oliver, ao escrever sobre as raízes da pregação
reformada, reconhece João Calvino como um extremo conhecedor das línguas originais,
e as usava para fortalecer suas preleções e serem base para os seus comentários. Não
apenas isso, Calvino escreveu seus comentários em latim, com o propósito de os tornar
disponíveis aos eruditos da Europa.34
John Stott afirma que “[...] quando mais o pregador, ele mesmo, “treme” diante
da Palavra de Deus (Ed 9.4, 10.3, Is 66.2,5), sentindo a autoridade da Palavra sobre sua
consciência e sua vida, mais ele será capaz de pregá-la com autoridade aos outros”. 35
Ainda mais:

Não devemos pensar no pregador como um mordomo arrogante, ou como um


escriba judeu, que oferece interpretações intelectuais e áridas de passagens
difíceis. A verdadeira pregação nunca fica estagnada, monótona ou é puro
exercício acadêmico, mas é sempre viva e penetrante, com a autoridade de
Deus. Mas as Escrituras tornam-se vivas para a igreja somente se antes tiverem
se tornado vivas para o pregador. Somente quando Deus houver falado
pessoalmente com ele através da Palavra que ele prega, os outros poderão ouvir
a voz de Deus nos seus lábios. 36

32
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 22.
33
LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2017. p. 48.
34
BEEKE, Joel R. Vivendo para a glória de Deus: uma introdução a fé reformada. São José dos Campos:
Fiel, 2016. p. 265-266.
35
STOTT, John. O perfil do pregador. São Paulo: Vida Nova, 2011. p. 27.
36
Ibidem, p. 27.
23

d. A Palavra de Deus está sendo pregada experiencialmente e


doutrinariamente?
Como define Beeke e Lanning, o caráter da pregação experiencial consiste em
aplicar toda a verdade da Palavra de Deus ao contexto de vida e experiências práticas e
reais dos ouvintes. Não deve ser desconectada do cotidiano, mas vivida e exercida na
rotina da vida. Ainda, “[...]visa aplicar a verdade divina a toda a extensão da experiência
do crente, tanto como indivíduo, quanto em todos os seus relacionamentos na família, na
igreja e no mundo em volta dele”.37
A Palavra de Deus é transformadora. É poder de Deus para a salvação. Quando as
pessoas conseguem “tocar o que estão ouvindo”, são desafiadas, confrontadas,
estimuladas, desarmadas de si mesmas, consoladas e rendidas ao poder da cruz. Reeder
III, tendo em mente a passagem de 2 Timóteo 3.16 – a Palavra é útil para o ensino, para
a repreensão, para a correção, para a educação na justiça – faz importantes destaques:

A ordem da lista nesse versículo, segundo creio, é importante. Não se pode


fazer uma aplicação à vida das pessoas até que se tenha ensinado a elas o que
a Escritura diz e o que ela quer dizer com o que diz. Mas também não é
suficiente simplesmente explicar a passagem – também é preciso aplica-la. E
essa aplicação começa com repreensão – as pessoas precisam saber onde
erram. Todos nós somos pecadores por natureza e só podemos mudar quando
reconhecemos nossos pecados e percebemos que precisamos mudar. Mas
depois disso a aplicação deve continuar com a “correção”. Este é o lado
positivo da repreensão – como podemos fazer certo o que estávamos fazendo
errado. E, finalmente, nenhuma aplicação é completa sem “educação na
justiça”. Sua pregação e seu ensino devem ajudar as pessoas a entender como
praticar o que estão aprendendo – não apenas num momento de
arrependimento, mas também na vida diária.38

Assim, o desafio é aproximar o texto bíblico à vida da igreja, de tal maneira que
possa agir em transformação e cumprir os seus propósitos redentivos. Chamado de
religião vital pelos reformadores, consiste em mostrar ao pecador sua falta de retidão, sua
carência de Cristo e sua urgente necessidade de salvação, como a presença de Cristo lhe
dá alegria e prazer na obediência, como sua vida consiste em luta contra o pecado e contra
a apostasia e, por fim, a vitória final por intermédio de Cristo.39

e. O estilo de minha pregação e todo o meu ministério confirmam a


mensagem que proclamo?

37
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 195-196.
38
REEDER III, Harry L. A revitalização da sua igreja segundo Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p.
75-76.
39
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 197.
24

É de grande valia considerarmos que o caráter do pregador influencia, e muito,


na propagação da mensagem. Não é possível dissociar uma coisa da outra, como se
fossem distintas. Pelo contrário, é mister que tracemos o perfil do pregador, que não se
venderá ao espírito do tempo moderno, mas se manterá firme e imaculado à Palavra de
Deus, cativo à soberana responsabilidade de pastorear o rebanho que foi comprado pelo
poderoso sangue de Jesus e que não negociará a Noiva do Salvador pelo prato de
lentilhas oferecido pelo mundo, a saber, suas facilidades de fama e sucesso e
comodidades de caminhar com o Senhor sem carregar a sua cruz.
Como expressa Lloyd-Jones, o que se deve esperar de alguém que é confrontado
pelo chamado ao ministério pastoral e de pregação do Evangelho? Sua resposta imediata
é: “O pregador, pois, deve ser homem que se caracteriza por uma espiritualidade de
elevado nível, homem que já atingiu um seguro e firme conhecimento e compreensão
da Verdade, e que sente que é capaz de pregá-la a outros”.40 Porém, diz mais:

O que mais se deseja? Passamos agora a considerar o que comumente se


chama caráter. Caráter significa ser caracterizado por uma vida piedosa.
[...]O pregador deve ser um homem piedoso. Mas também deve ser sábio. E
não somente isso, mas também deve ter paciência e tolerância. Isso é
importantíssimo em um pregador. O apóstolo expressa a questão nestes
termos: “Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e,
sim, deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente" (II Timóteo
2.24). Essas são qualificações básicas. Um homem pode ser um bom cristão,
e pode ser muitas outras coisas; entretanto, se lhe faltam essas qualidades,
jamais poderá ser um pregador. Outrossim, ele deve ser homem que
compreenda as pessoas e a natureza humana. Essas são qualidades e
características gerais que deveríamos procurar e sobre as quais devemos
insistir.41

Tim Chester e Marcus Honeysett, em Pregação Centrada no Evangelho,


entendem que o método de Deus para que a sua palavra chegue aos ouvidos e corações
é por meio do uso de pessoas falíveis para a comunicação da sua palavra infalível.
Assim, sempre que o pregador se dirige ao púlpito, é impossível desvincular o seu perfil,
seu jeito característico ou sua personalidade da mensagem que será exposta.
“Naturalmente, existe o perigo de a personalidade obscurecer a verdade e de a pregação
se tornar tudo a respeito do pregador. Mas o seu estilo característico, a sua experiência
e o seu caráter são usados por Deus para dar um colorido e textura à mensagem”.42

40
LLOYD-JONES, Martyn. Pregação e pregadores. São José dos Campos: Editora Fiel, 1998. p. 79.
41
Ibidem, p. 80.
42
CHESTER Tim; HONEYSETT, Marcus. Pregação centrada no Evangelho. São Paulo: Cultura Cristã,
2017. p. 57.
25

Exatamente por sabermos que a figura do pregador é tão importante no processo


de transmissão da mensagem como um todo, a sua personalidade pessoal e particular
não pode ser desfigurada ou descartada, como exercendo função secundária ou sem
valor. “A Palavra de Deus tem poder por ser a Palavra de Deus inspirada pelo Espírito
de Deus. Todavia, sua pregação terá maior impacto sobre os seus ouvintes na medida
em que houver coerência entre a sua pregação e a sua vida”. 43
Para o Rev. Hernandes, por melhor que um sermão seja elaborado,
teologicamente recheado e exegeticamente explorado, é preciso que a sua comunicação
seja feita por um homem santo no púlpito, pois “a vida do pregador fala mais alto que
os seus sermões.”44

3. UMA AFIRMAÇÃO: O COMPROMISSO COM A PREGAÇÃO


EXPOSITIVA

Anunciar o evangelho é um grande privilégio, mas também uma grande


responsabilidade. Como anunciar, em nosso tempo, tudo o que é necessário para a
salvação, que seja proveitoso para os ouvintes e que abranja todo o plano de Deus? O
ministério pastoral conta com o desafio de saber comunicar bem a Palavra de Deus ao seu
público, como o próprio Paulo diz para Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado,
como obreiro que não tem de que se envergonhar, que MANEJA BEM A PALAVRA DA
VERDADE” (2 Timóteo 2.15).
Martyn Lloyd-Jones, em Pregação e Pregadores, afirma “que um sermão sempre
deve ser expositivo”.45 O Rev. Hernandes Dias Lopes explica que o sermão expositivo
está comprometido em “[...] explicar o texto da Escritura segundo o seu significado
histórico, contextual e interpretativo, transmitindo aos ouvintes contemporâneos a clara
mensagem da Palavra de Deus com aplicação pertinente”.46 Assim, a pregação expositiva
dos textos bíblicos é a maneira mais eficiente de cumprirmos o nosso trabalho de
proclamadores da Palavra de Deus, mantendo-nos fiel ao texto inspirado, comunicando a
verdade do Evangelho e anunciando todo o conselho de Deus.

43
CHESTER Tim; HONEYSETT, Marcus. Pregação centrada no Evangelho. São Paulo: Cultura Cristã,
2017. p. 57-58.
44
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 161.
45
LLOYD-JONES, Martyn. Pregação e pregadores. São José dos Campos: Editora Fiel, 1998. p. 52.
46
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 18.
26

Karl Lachler, em Pregue a Palavra, define a pregação expositiva da seguinte


maneira:

O sermão expositivo vernacular: um discurso bíblico derivado de um texto


vernacular independente, a partir do qual o tema é revelado, analisado e
explicado, através de seu contexto, sua gramática e sua estrutura literária, cujo
tema é infundido pelo Espírito Santo na vida do pregador e do ouvinte. O
sermão expositivo é maior do que esta definição limitada, pois deriva sua
essência e forma da íntima relação com a Palavra eterna de Deus. A Bíblia é o
sangue vital do sermão expositivo, e a explanação, explicação e exposição são
as partes conceptuais básicas e dinâmicas. O caráter do pregador é a caixa de
ressonância da verdade pregada.47

Bryan Chapell enfatiza o poder que a pregação tem no processo de salvação.


Independente do pregador, sem dúvidas não desmerecendo o fato de que um caráter
ilibado é essencial, a força da Palavra de Deus é quem assume o total controle. Por isso,
faz três importantes considerações sobre a pregação expositiva:

a. A pregação expositiva apresenta o poder da Palavra.

Considerando que os corações são transformados quando as pessoas deparam


com a Palavra de Deus, os pregadores expositivos ficam comprometidos a
dizer o que Deus diz”. Não estamos interessados em propagar nossas opiniões,
filosofias alheias ou reflexões especulativas. O interesse do pregador
expositivo deve ser a verdade de Deus proclamada de tal maneira que as
pessoas possam ver que os conceitos emanam da Escritura e aplicam-se à vida
pessoal de cada um.48

b. A pregação expositiva apresenta a autoridade da Palavra.

Apenas pregadores comprometidos em proclamar o que Deus diz têm o


imprimatur da Bíblia sobre sua pregação. Desse modo, a pregação expositiva
se empenha em descobrir e propagar o significado preciso da Palavra. A
Escritura exerce domínio sobre o que os expositores pregam, pois eles
esclarecem o que ela diz. O significado da passagem é a mensagem do sermão.
O texto governa o pregador. Pregadores expositivos não esperam que outros
reverenciem suas opiniões. Tais ministros aderem às verdades da Escritura e
esperam que seus ouvintes tenham o mesmo cuidado.49

c. A pregação expositiva apresenta a operação do Espírito Santo.

As expectativas dos pregadores expositivos estão, elas mesmas, baseadas nas


verdades da Bíblia. Se nenhuma soma de eloquência e oratória pode ser levada
em conta com respeito à transformação espiritual, quem, unicamente, pode
mudar corações? Os Reformadores responderam: "O Espírito Santo que, pela
Palavra e com a Palavra, testifica em nossos corações." A Palavra de Deus é a
espada do Espírito (Ef 6.17; cf. At 10.44; Ef 1.13). O meio extraordinário,

47
LACHLER, Karl. Prega a Palavra: passos para a exposição bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.
52.
48
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 22-23.
49
Ibidem, p. 24.
27

porém, normal, por cujo intermédio Deus transforma vidas, é a participação


conjunta de sua Palavra com o poder regenerativo e persuasivo do seu
Espírito.50

Diante de tudo isso, não é nosso objetivo discutir a pregação expositiva, senão
considerar que seja relevante afirmar o nosso compromisso com ela como o método mais
assertivo, coerente e bíblico de pregação. Mas, acima de qualquer coisa,
independentemente da forma escolhida ou preferida de cada pregador, nenhum invalida
a dependência do Espírito Santo em trazer iluminação e poder para o preparo do sermão.
Pelo contrário, toda forma ou método estão totalmente sob o controle do Espírito Santo
para alcançar os corações e causar toda a transformação necessária. Como bem escreve
Tom Pennington,

Precisamos examinar nossos corações e nos perguntar, “Em que métodos ou


técnicas humanas estamos sendo tentados a confiar? Segundo nosso
entendimento, o que realmente persuade as pessoas quando pregamos?” Talvez
nossa confiança esteja no estilo ou na oratória. Talvez, pensamos, se
empregássemos um pouco mais de energia, se alterássemos o volume da voz,
empapássemos lenços de suor, empregássemos frases de efeito, e
encerrássemos a liturgia com uma história emocionante, persuadiríamos as
pessoas. [...] Outros há que são tentados a confiarem nos recursos visuais, na
dramatização, na iluminação adequada, ou qualquer outra abordagem visual
experimental. [...] Embora seja verdade que a exegese cuidadosa e a preparação
diligente do sermão sejam essenciais, se nossa confiança em persuadir as
pessoas estiver em qualquer outra coisa que não seja o poder do Espírito,
jamais conheceremos esse poder em nossa pregação, pois ele não dividirá sua
glória conosco.51

Por fim, é preciso esclarecer que existe uma tensão, pois, apesar de defendermos
a pregação expositiva, é sabido que uma grande confusão tem existido na sua definição.
Como bem escreve o Dr. Dario de Araújo Cardoso, “não são poucos os que tomam a
pregação expositiva e sermão expositivo como sinônimos”.52 Por causa dessa falta de uma
definição clara e definitiva, muitos se opõe a qualquer outra forma de pregação que não
seja o verso a verso, já que expositivo se tornou sinônimo de lectio continua.
Em seu artigo, Dr. Cardoso, após recorrer ao teólogo americano Hughes Oliphant
Old, quando este analisa as séries sequenciais de Agostinho no Evangelho de João, chega
à conclusão que:

50
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 24.
51
PENNINGTON, Tom. Pregando no poder do Espírito. In: MACARTHUR, John. O pastor como
pregador. Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016. p. 159-160.
52
CARDOSO, Dario de A. A forma da pregação expositiva. Fides Reformata, São Paulo, vol. XXIII, Nº
2 p. 26, 2018.
28

Assim, não é difícil observar que não se pode estabelecer uma correlação rígida
entre a pregação expositiva e o sermão expositivo, qualquer que seja a sua
definição. Não se trata de se insurgir contra o sermão expositivo. Ele tem
qualidades e benefícios sobejamente demonstrados. Trata-se de perceber que
a pregação expositiva também deve ser a característica de outras formas de
sermão, bem como pode permear nossas aulas bíblicas, encontros de
discipulado, etc. Nas palavras de Busenitz, “assim como a pregação verso-a-
verso não é necessariamente expositiva, pregação que não é verso-a-verso não
é necessariamente não-expositiva”.53

Por que considerar essa distinção? Para que justiça seja feita para todas as formas
de pregação que não sejam a lectio continua, porém, que sejam expositivas, bíblicas e que
comuniquem com fidelidade a verdade de Deus registrada. Hernandes Dias Lopes
escreve:

O que quero dizer com pregação expositiva? Ha outros estilos de pregação, tais
como tópica e textual. Todavia, quer seja tópica, textual, ou lectio continua,
ela pode ter caráter expositivo porque a pregação expositiva tem o
compromisso de explicar o texto da Escritura segundo o seu significado
histórico, contextual e interpretativo, transmitindo aos ouvintes
contemporâneos a clara mensagem da Palavra de Deus com aplicação
pertinente. Seria perfeitamente possível classificar a pregação expositiva como
pregação expositiva textual, pregação expositiva tópica e pregação expositiva
lectio continua.54

4. UMA ANÁLISE: TODAS AS FORMAS DE PREGAÇÃO SÃO


EXPOSITIVAS?

Já entendemos que pregar é um grande desafio. Exige dedicação, oração, instrução


do Espírito Santo, muito estudo e sensibilidade para transmitir a verdade de Deus para a
comunidade de crentes. Na correria do dia a dia, o pastor/pregador deve, além de se
atentar para todas as demandas descritas acima, emprega-las em duas importantes
decisões: o que pregar e como pregar. Isso quer dizer que deverá escolher um texto das
Escrituras, entender o seu contexto, fazer o estudo exegético, buscar a devida
compreensão da intenção do autor, optar pela melhor forma de estruturar a porção da
Bíblia escolhida e aplicar para os ouvintes.
O professor Willian Lane, pastor, professor e doutor em Antigo Testamento,
escreveu um brevíssimo artigo, afirmando que, quando não existe um plano de pregação,

53
CARDOSO, Dario de A. A forma da pregação expositiva. Fides Reformata, São Paulo, vol. XXIII, Nº
2 p. 28, 2018.
54
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 18.
29

o pregador se sentirá facilmente esgotado, pois, a busca por assuntos aleatórios e


espontâneos semanalmente é exaustivo. A fim de evitar toda a frustração, muitos buscam
organizar suas pregações em planos anuais, semestrais e até bimestrais, evitando a fadiga
de ter que conciliar todas as demandas do ministério com a preocupação de escolher um
texto bíblico isolado para cada atividade da igreja. Assim, afirma:

Não é difícil montar um plano de pregação. Se você é o único pastor da igreja,


portanto tem de pregar todo domingo, pode fazer um plano anual ou semestral
geral e a cada mês revisar o plano para os 2 ou 3 meses seguintes. Imagine o
seguinte: o ano tem 52 domingos. Você pode distribuí-los inicialmente como
entre os seguintes enfoques: – Páscoa, Pentecostes, Ascensão, 4 domingos do
Advento e Natal: 8 domingos. – Datas comemorativas da igreja (mês de
aniversário): 4 domingos. – Datas denominacionais: 3 domingos. – Datas
civis: Dia das mães, dos pais, das crianças, da Pátria: 4 domingos. Sobram 21
domingos. Se você tira férias de um mês, são menos 4 domingos. Com os 17
restantes, você pode reservar 3 para tratar de algum assunto específico que a
igreja está enfrentando. Depois pode planejar 4 séries de 3 ou 4 mensagens
sobre algum assunto específico ou exposição de um texto bíblico.55

De certa forma, Lane quer afirmar que um programa de pregação é necessário,


pois todas as atividades ministeriais são importantes e carecem de plena atenção. Assim,
oferece algumas possibilidades aos que desejam iniciar essa jornada: o uso do calendário
litúrgico, pregações a partir de um livro bíblico, sermões temáticos, pregações que
acompanham o planejamento estratégico da igreja e pregação a partir da experiência com
Deus.56
Lachler entende que é preciso tempo para o estudo e preparo da mensagem que
será exposta a igreja. No entanto, com a dinâmica acelerada da vida ministerial, é muito
natural os pastores negligenciarem tempo de qualidade para se debruçarem sobre os textos
e o tratarem da forma como é necessário. Por isso, também defende o uso de um plano de
pregação, evitando uma busca frenética de temas para o domingo. Mesmo que muitos
possam considerar uma atitude carnal, já que esperam uma ação sobrenatural do Espírito
Santo para tal tarefa profética, Lachler discorre:

O planejamento dos sermões torna-se mais fácil quando o pregador decide,


pela orientação do Espírito, pregar sermões expositivos que abranjam um livro
da Bíblia. Este caminho não é fácil. O servo do Senhor ainda tem o trabalho de
pesquisar quais são os temas no livro da Bíblia escolhido. Entretanto,
felizmente ele não tem de gastar energia para criar temas que frequentemente

55
LANE, William. Como decidir o que pregar. InfoPastor. Disponível em:
<[Link] Acesso em 01 set. 2022, às 09h05.
56
LANE, William. Como decidir o que pregar. InfoPastor. Disponível em:
<[Link] Acesso em 01 set. 2022, às 09h05.
30

refletem ideias pré-concebidas do pastor, em vez da vontade de Deus. A


exposição coerente de livros da Bíblia tem em si uma reserva inerente e
inesgotável de temas soberanamente inspirados. Este tipo de plano “natural”
de pregação dá ao povo e ao pastor um sentido de direção. O objetivo claro a
ser atingido no livro da Bíblia tende a criar um espírito de expectativa dentro
da igreja como corpo. É este espírito de expectativa que leva o pastor e a igreja
ao estudo ativo das Escrituras.57

Todas as possibilidades, obviamente, têm prós e contras. Por exemplo, ao pregar


um livro inteiro da Bíblia vai fazer a comunidade se aprofundar no texto e seu contexto,
porém, pode se tornar maçante se não souber administrar o tempo em que vai permanecer
no livro (o que veremos mais a frente). Os sermões temáticos, por sua vez, são atualizados
a partir das necessidades da igreja, do tempo e das demandas que estejam vivendo, mas é
preciso cuidado para não usar o tema para atingir pessoas ou problemas diretamente do
púlpito, nem se prender aos temas preferidos e mais fáceis. Já a pregação oriunda da
experiência do pregador pode a tornar mais vívida, já que é fruto de íntima e profunda
reflexão, mas pode se tornar refém dos altos e baixos da caminhada cristã do expositor.
Hendrik J. C. Pieterse, professor de Teologia Prática na Universidade da África
do Sul, no artigo intitulado Sermon Forms58, entende que o texto a ser pregado, seja qual
for a forma pretendida, deve ser adequadamente comunicado seguindo o seu gênero
literário, ou seja, a estrutura intrínseca exposta pelo texto, a obra do Espírito Santo, a
presença do Cristo ressuscitado e a hermenêutica na condução de um texto bem
estruturado e redigido. Assim, sob esses pilares, sugere três formas de sermão que
atendem esses critérios: a homilia, o sermão temático e o sermão narrativo
A homilia é um “um sermão voltado para o diálogo direto, enfatizará o ensino
e terá como objetivo a comunicação, a obtenção de uma visão adequada do texto e o
convencimento do ouvinte”.59 O sermão temático, por sua vez, é argumentativo. Para isso,
vale-se de um tema, introdução e divisões que se destinam a consolidar a temática
proposta. “Como na retórica clássica, o apelo é à mente, à vontade e às emoções, usando
uma variedade de artifícios retóricos - ilustrações, imagens, metáforas, perguntas
retóricas, etc. - para transportar e convencer o ouvinte”.60 Por fim, o sermão narrativo é
excelente para inculcar a verdade e compartilhar experiências, já que é capaz de chamar

57
LACHLER, Karl. Prega a Palavra: passos para a exposição bíblica. São Paulo: Vida Nova, 1995, p.
68.
58
PIETERSE, Hendrik J. C. Sermon Forms. Journal of Theology for Southern Africa, África do Sul, vol.
36, n. ?, p. 10-17, setembro 1981.
59
PIETERSE, Hendrik J. C. Sermon Forms. Journal of Theology for Southern Africa, África do Sul, vol.
36, n. ?, p. 10-17, setembro 1981.
60
Ibidem, p. 14.
31

a atenção e apresentar a verdade de forma marcante. “É uma forma de comunicação que


não deve ser negligenciada em nossa pregação, principalmente para a exposição de textos
narrativos”. 61
Em suma,

Para comunicar o texto de acordo com a mensagem e o propósito inerente da


mensagem, o autor bíblico escolheu uma certa forma. Parece legítimo
argumentar que nós, para atingir o mesmo propósito com um texto, devemos
ser criteriosos ao selecionar uma forma de sermão que corresponda tanto
quanto possível à forma literária (gênero literário) do texto. O texto
desempenhará um papel mais contundente no sermão se tanto sua forma quanto
seu conteúdo forem honrados, e a forma do sermão promoverá o processo de
comunicação de maneira revigorante.62

Portanto, para toda forma de sermão, entendemos que respeitar o gênero


literário é uma premissa que deve nortear o estudo e o preparo. Assim, é possível deduzir,
a partir de Pieterse, que é preciso pregar Salmos, Evangelhos, Profetas, Lei ou
Apocalipse, por exemplo, a partir do devido entendimento do estilo que o autor, inspirado
pelo Espírito Santo, deixou registrado.
Timothy Keller, em Pregação – comunicando a fé na era do ceticismo – dedica
um capítulo para fazer menção de duas maneiras para se pregar: pregação expositiva e
tópica. Estudando também Hughes Oliphant Old, percebeu que, em seus estudos,
entendeu que ao longo dos séculos cinco tipos básicos de sermões foram usados:
expositivos, evangelísticos, catequéticos, festivos e proféticos.

Ele define a pregação expositiva como “explanação sistemática da Escritura


feita semanalmente […] durante as reuniões regulares da igreja”. Os outros
quatro tipos de pregação talvez pareçam, à primeira vista, muito diferentes uns
dos outros; contudo, em um aspecto, eles são o mesmo tipo. Diferentemente
da exposição, essas outras quatro formas de pregação não são necessariamente
organizadas em torno de uma única passagem da Escritura. Isso porque o
principal objetivo de cada uma não é revelar ideias no âmbito de um único
texto bíblico, e sim comunicar uma ideia bíblica a partir de vários textos. Old
chama essa estratégia mais ampla de pregação “temática” ou “tópica”. O
sermão tópico pode ter vários propósitos. Pode querer comunicar a verdade aos
não crentes (pregação evangelística) ou instruir os crentes em um aspecto
específico da confissão e teologia de sua igreja (pregação catequética). A
pregação festiva ajuda o ouvinte a celebrar as festividades do calendário da
igreja, como Natal, Páscoa ou Pentecostes, ao passo que a pregação profética
se refere a um momento histórico ou cultural específico. Há, portanto, no fim
das contas, duas formas básicas de pregação: expositiva e tópica. Ao longo dos

61
PIETERSE, Hendrik J. C. Sermon Forms. Journal of Theology for Southern Africa, África do Sul, vol.
36, n. ?, p. 10-17, setembro 1981.
62
Ibidem, p. 17.
32

séculos, ambas foram amplamente usadas e, conforme Old mostra, ambas


devem ser usadas.63

Haddon Robinson afirma que, vez ou outra, os pregadores deverão pregar sobre
tópicos, abordando os grandes temas festivos da Páscoa e do Natal, por exemplo, que
exigem tratamento especial. Não apenas isso, assuntos teológicos devem ser explorados,
“[...]tais como a Trindade, a reconciliação, a inspiração e autoridade das Escrituras.
Dirigirá a palavra a questões pessoais tais como a culpa, a aflição, a solidão, os ciúmes,
o casamento e o divórcio”.64
Apesar disso, Robinson bem expressa que, inúmeras vezes, após a escolha da
passagem que fora escolhida para o tema sugerido, o pregador vai notar que ela não vai
dizer o que se era esperado. Diante disso,

A exposição tópica enfrenta o perigo especial de que o pregador atribuirá


alguma coisa a mais ao relato bíblico a fim de extrair dele um significado que
não está ali. Pode ter recurso a "textos de prova" para doutrinas prediletas,
mediante o desprezo total do contexto em que uma passagem se acha. Pode ser
tentado a transformar um autor bíblico em psicólogo moderno ao insistir que
diga no sermão aquilo que nunca disse na Bíblia. A exposição tópica difere do
sermão tópico, portanto, em que o pensamento da Escritura deve moldar tudo
quanto se diz ao definir e desenvolver o tópico.65

De fato, há uma infinidade de temas que precisam ser abordados pelo pregador.
Mas, ao se optar por uma exposição tópica, o risco de impor ao texto bíblico os ideais
pretendidos é muito grande. Em defesa do tema, escraviza-se a intenção do autor bíblico,
o contexto em que fora escrito, a devida gramática das palavras, sentenças e outras
infinidades de critérios que não podem ser deixados de lado. Por isso, apesar de ser uma
possibilidade de se estruturar um sermão e o pregar expositivamente, é urgente muito
cuidado para não dizer o que o texto não diz e, como se afirmam, um texto fora do seu
contexto vira pretexto.
Mathewson, pastor, professor e escritor, trata sobre o sermão textual. Para ele, o
sermão textual é a combinação de um sermão temático e um sermão expositivo.66 Já que
o sermão expositivo se concentra no texto bíblico que está pronto, “um sermão textual

63
KELLER, Timothy. Pregação: comunicando a fé na era do ceticismo. São Paulo: Vida Nova, 2017, p.
37.
64
ROBINSON, Haddon W. A pregação bíblica. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983. p. 40.
65
Ibidem, p. 40.
66
MATHEWSON, Steven D. O que torna a pregação textual realmente singular? In: ROBINSON,
Haddon W., LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd,
2009. p. 511.
33

toma suas ideias condutoras do texto, mas então olha em algum outro lugar nas Escrituras
para mais de seu desenvolvimento”.67
Procurando ser claro, Mathewson recorre a homilética de John Broadus:

De acordo com Broadus, um sermão com temas e subtemas — ou temático —


é estruturado de acordo com a natureza do tema e não do texto (ou textos) em
que é baseado. Ele observa que a Bíblia "não apresenta a verdade em uma
sucessão de proposições lógicas", então quando o pregador precisa apresentar
uma doutrina ou um assunto moral, a forma temática funciona bem. Enquanto
o sermão precisa logicamente ser fiel às Escrituras, sua estrutura não toma
como o exemplo a estrutura do texto bíblico no qual é baseado. Tanto em
sermões textuais como em sermões expositivos, a estrutura do sermão segue o
exemplo do texto bíblico. O pregador desenha o "tópico e as categorias" —
isto é, o tema e suas divisões — da passagem. Qual é, então, a diferença entre
um sermão textual e um sermão expositivo? Broadus vê uma graduação do
sermão textual para os sermões expositivos A diferença não está tanto na
extensão do texto do sermão quanto nos detalhes. Ele explica: "Se nós
simplesmente tomarmos o tópico e as categorias que a passagem carrega e
procedermos para discuti-los do nosso próprio jeito, isso não é um sermão
expositivo, mas um sermão-texto"68

Bryan Chapell, sobre a mensagem textual, afirma que o tema e os principais


pontos do sermão advém do texto. “A mensagem textual reflete alguns detalhes do texto
na declaração de suas ideias principais, porém o desenvolvimento dessas ideias procede
de fontes externas ao texto imediato”.69
Timothy S. Warren, em defesa da pregação temática também ser expositiva,
afirma que ela é um “[...]subconjunto, um entre vários estilos, da pregação expositiva”.70
Assim, sugere três razões para pregar tematicamente:

(1) As pessoas gostam da pregação temática. A relevância os engaja. A


maioria dos ouvintes gosta de ouvir sobre coisas que dizem respeito a eles. (2)
Às vezes surgem certas questões que demandam uma resposta bíblica. Esperar
que aquele assunto venha à tona em uma exposição versículo por versículo
pela Bíblia poderia levar anos. Quer seja uma introdução à disciplina da igreja
quer seja uma resposta a um furacão mortal, a pregação temática se dirige ao
assunto do momento. (3) A pregação temática segue o exemplo das Escrituras.
Não me lembro de nenhum outro pregador, a não ser Esdras, em Neemias 8,
ou Jesus, em Lucas 4, que começou com um texto. Os livros individuais da
Bíblia e os sermões presentes nela abrangem questões temáticas, em vez de
explanar os textos. Sem dúvida, os textos eram geralmente explicados ao longo
do caminho, mas um texto não era com frequência o ponto de partida. E, assim

67
MATHEWSON, Steven D. O que torna a pregação textual realmente singular? In: ROBINSON,
Haddon W., LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd,
2009. p. 510-511.
68
Ibidem, p. 510.
69
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 138.
70
WARREN, Timothy S. A pregação temática também pode ser expositiva? In: ROBINSON, Haddon W.,
LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd, 2009. p.
517.
34

como o sermão temático de Pedro, em Atos 2, ou de Paulo, em Atos 13, textos


múltiplos sobre o tópico principal eram combinados em uma única
exposição.71

David Larsen, pastor e professor emérito na Trinity Evangelical Divinity School,


em Illinois, EUA, adverte que é imprescindível que a pregação seja rica no aspecto bíblico
e sempre fiel aos intentos dos seus autores.72 Há muitas formas de pregar e todos podem
ser bíblicos, como também antibíblico. Assim, vejamos a sua profunda análise sobre as
formas de sermão mais comumente aceitas e usadas por pastores:

A homilia é uma breve série de observações e exortações baseadas em uma


passagem curta das Escrituras. É comumente usada em funerais, casamentos e
outras ocasiões especiais em que uma mensagem mais longa ou mais
cuidadosamente elaborada não seria adequada. O sermão tópico reúne tudo o
que as Escrituras ensinam sobre um determinado assunto. A pregação tópica
tem um lugar de destaque na história dessa arte. Sua legitimidade se vê na
eficácia da teologia bíblica e sistemática. Embora essa não deva ser a primeira
opção do pastor-mestre, todo pastor pregará um sermão tópico em determinada
ocasião. Pregar sobre aborto, divórcio e novo casamento, o papel da mulher no
ministério ou sobre o que a Bíblia ensina acerca da cura do corpo muito
provavelmente se dará de maneira tópica. Pelo fato de poder ser mais
inflexivelmente unitário, é fácil perceber que qualquer lista dos dez sermões
mais importantes e que mais influenciaram a cultura do mundo e da sociedade
consiste principalmente, se não totalmente, em sermões tópicos. O sermão
tópico-textual ancora-se num texto bíblico de uma brevidade tal que o
desenvolvimento do raciocínio é semelhante ao do sermão tópico. Podemos
pregar uma série sobre os dez mandamentos, sobre as bem-aventuranças, sobre
o "fruto do Espírito" ou sobre os componentes de "toda a armadura de Deus".
Se eu for pregar sobre o primeiro mandamento — "Não terás outros deuses
além de mim" -—, não há material suficiente no texto em si para determinar a
forma do sermão. Barnhouse e D. Martyn Lloyd-Jones muitas vezes tomaram
um pequeno pedaço de texto e, num tipo de pirâmide invertida, extraíram
muito do ensino sistemático das Escrituras relativo àquele pequeno texto. Essa
abordagem pode ser biblicamente rica, como foi com esses mestres da
pregação, ou totalmente trivial e desconexa. O sermão textual consiste em um
versículo ou dois no qual o desenvolvimento dos pontos principais segue
exatamente a ordem das palavras do texto. É muito prazeroso para o pregador
quando o próprio texto dita a configuração do sermão. Spurgeon pregou de
forma textual em algumas ocasiões, embora a parte preponderante de sua
pregação tenha sido textual-tópica. Um exame mais microscópico de uma
pequena porção de texto pode provocar uma bem-vinda alteração de rumo.
Independentemente da porção ser longa ou curta, é preciso tomar muito
cuidado para considerá-la dentro de seu contexto. Esse deve continuar sendo
nosso desafio mesmo quando o texto é um capítulo inteiro. O sermão
expositivo deve ser a forma preferida do pastor-mestre desejoso de alimentar
o rebanho de maneira sistemática. Lectio selectia ou escolher, culto a culto,
que texto pregar, é correr um grande risco de desequilíbrio ou de pregar apenas
os textos de predileção pessoal, ao contrário do que se faz no lectio continua,
a pregação sistemática através dos livros da Bíblia ou de acordo com um

71
WARREN, Timothy S. A pregação temática também pode ser expositiva? In: ROBINSON, Haddon W.,
LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo: Publicações Shedd, 2009. p.
516.
72
LARSEN, David L. Anatomia da pregação - identificando os aspectos relevantes para a pregação de
hoje. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 29.
35

lecionário de textos que acompanham o ano eclesiástico.


[...]Independentemente da forma que a pregação pode assumir, nossa
responsabilidade e desafio é pregar biblicamente por causa do que acreditamos
com relação à Bíblia. As várias culturas valorizam diferentes formas de
discurso, como, por exemplo, na igreja africana ou nas igrejas negras dos
Estados Unidos. Em todos os casos, somos chamados a ministrar sermões
bíblicos em nossa pregação.73

Enfim, as possibilidades de estruturar um sermão são muitas. Há uma grande


variedade de formas de se organizar uma pregação bíblica e que comunique com
franqueza verdades eternas. É notório que a pregação expositiva é vasta (e não seremos
capazes de abranger tudo o que ainda seria possível). Seja a homília, a tópica, a textual, a
partir de lecionários ou séries, não se pode negar que todas podem alimentar a igreja,
serem pautadas pela Bíblia e atuais. Porém, serão elas capazes de auxiliar o
pastor/pregador nas suas muitas responsabilidades? Além disso, serão capazes de
anunciar todo o conselho de Deus? Para responder essas questões, faz-se necessário
entender a lectio continua, suas vantagens e desvantagens e, somente depois, concluir
com certeza.

5. UMA DISCUSSÃO: A EFICÁCIA E A EFICIÊNCIA DA LECTIO


CONTINUA

David Larsen é taxativo ao afirmar que textos aleatórios e tópicos estão fadados a
monotonia. A pregação moderna tem abandonado a pregação sistemática de todo o
conselho de Deus, para oferecer a igreja uma dieta desbalanceada, recheada com
trivialidades. Exatamente como temos afirmado, se a grande pergunta semanal do
pregador for ‘o que vou pregar?’, é certo que sua inclinação natural será para os
“caminhos previsíveis e conhecidos”.74
Com o intuito de evitar essa fadiga por parte dos pregadores, o curso natural para
os atalhos e trajetos mais fáceis e manter a fidelidade para com todo o desígnio de Deus,
a lectio continua tem se mostrado como a forma que atende ambos os critérios. A sua
estrutura, basicamente, consiste na pregação metódica dos livros da Bíblia. Como bem
afirma o Dr. Jon D. Payne, pastor da Grace Presbyterian Church, em Douglasville, e
professor de teologia prática em Atlanta, “o método Lectio Continua de ler e pregar as

73
LARSEN, David L. Anatomia da pregação - identificando os aspectos relevantes para a pregação de
hoje. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 29-31.
74
Ibidem, p. 82.
36

Escrituras é a exposição regular, consecutiva, sistemática, versículo por versículo da


Palavra de Deus”.75
Historicamente, credita-se a Ulrich Zwinglio o início do uso da lectio continua
como forma de exposição bíblica. Antes de eclodir a Reforma Protestante do século XVI,
por intermédio de Martinho Lutero, Zwinglio estava em plena atividade na Suíça. Como
escreve o pastor Joe Carter ao site The Gospel Coalition,

Uma marca da Reforma foi a recuperação da pregação bíblica. A contribuição


única de Zwinglio foi a abordagem revolucionária da pregação através dos
livros bíblicos . Em 1519 ele começou a pregar através do Evangelho de
Mateus, um método conhecido como lectio continua. Zwinglio
então continuou a pregar sermões expositivos através de Atos, Timóteo,
Gálatas, 1 e 2 Pedro, Hebreus, o Evangelho de João e as outras cartas paulinas
antes de se voltar para o Antigo Testamento, começando com os Salmos,
depois o Pentateuco e os livros históricos.76

Old, lindamente descreve a prática da pregação de Zwinglio, afirmando seus


sermões em Mateus, Atos dos Apóstolos, 1 Timóteo, epístolas de Pedro e Hebreus. No
ano de 1524, já havia realizado a exposição de João e, em seguida, as demais cartas de
Paulo. Em um espaço de sete anos, a maior parte do Novo Testamento já tinha sido
pregada. Não menosprezando o Antigo Testamento, Zwinglio começou com os Salmos,
o Pentateuco, os Livros Históricos, Isaías e os Profetas.77
Bruce Gordon, professor de História Moderna na Universidade de St. Andrews,
escreve que, após chegar em Zurique, Zwinglio afirmou que não se delongaria nas
pregações usando perícopes ou a leitura de lecionários, mas que iniciaria com a exposição
do Capítulo 1 de Mateus e trabalharia o texto todo. Seus esforços seriam para com toda a
Escritura e não partes selecionadas, pois cada palavra que há na Escritura saiu da boca de
Deus.78
Diante disso, é possível afirmar categoricamente que a lectio continua se tornou a
maneira predileta de Zwinglio, acima de quaisquer outras que existiam, pois, além de
entender que a comunidade de crentes precisava estar exposta a todo o conteúdo das

75
PAYNE, Jon D. The Lectio Continua method. Kevin Fiske. Disponível em:
<[Link]
Acesso em 25 ago. 2022, às 8h35.
76
CARTER, Joe. 9 Things You Should Know About Ulrich Zwingli. The Gospel Coalition. Disponível em:
<[Link] Acesso em 02 set. 2022, às
10h40.
77
OLD, Hughes O. The Reading and Preaching of the Scriptures in the Worship of the Christian Church,
Volume 4: The Age of the Reformation. Grand Rapids: Eerdmans, 1998. p. 46.
78
GORDON, Bruce. The Swiss Reformation. Manchester: Manchester University Press, 2002. p. 51
37

Escrituras, sem deixar nenhuma passagem de lado, compreendeu também que toda a
Escritura é a voz do Senhor falando com o seu povo. O compromisso de todo
pastor/pregador é com aquilo que Deus quer comunicar. Se temos acesso a Bíblia, se
confiamos em cada uma de suas páginas, se cremos na inspiração divina, na inerrância e
na infalibilidade da Palavra de Deus, concordamos que pregar toda a Bíblia é a forma
mais adequada de anunciar todo o conselho de Deus.
Da mesma forma que Zwinglio, Lee Palmer Wandel, professora da Universidade
de Wisconsin, informa-nos que João Calvino, o reformador de Genebra, também seguiu
a disciplina da lectio continua em suas preleções. Semana após semana se valia de um
livro da Bíblia e nele permanecia longo tempo. Como era seu costume, lia, em média, de
um a doze versos das Escrituras, explicava a passagem, os termos, o sentido e,
ocasionalmente, aplicava aos eventos atuais.79 Lawson entende que a lectio continua se
tornou o método de pregação de Calvino: “pregar sistematicamente sobre os livros
inteiros da Bíblia”80, pois,

O estilo verso-a-verso – lectio continua, ou seja, o das exposições consecutivas


– garantia que Calvino pregasse todo o conselho de Deus. Assuntos difíceis e
controversos não podiam ser evitados. Palavras duras não podiam ser omitidas.
Doutrinas complicadas não podiam ser negligenciadas. Todo o conselho de
Deus pôde ser ouvido.81

E por que Calvino decidiu pregar por meio da lectio continua, se assim
pudéssemos adentrar sua mente? Porque é muito fácil negligenciar os textos mais
complexos, que exigem muita energia, muito estudo e inúmeras horas de dedicação.
Compreender a intenção do autor, buscar saber o momento vivencial e traduzir as palavras
é um grande e exaustivo exercício. Assim, é muito mais fácil se ancorar nos textos
prediletos da Bíblia, que são claros, diretos e autoexplicativos. São igualmente
importantes e necessários, mas focar apenas neles é desconsiderar toda a revelação
especial. Por isso, quando grandes pregadores, como Ulrich Zwinglio e João Calvino, por
exemplo, optam trilhar por toda a Escritura, inegociavelmente, vemos um zeloso e fiel
compromisso com “Assim diz o Senhor”.

79
WANDEL, Lee P. Switzerland. In: TAYLOR, Larissa (Ed). Preachers and people in the reformations
and early modern period. Boston: Brill, 2001. p. 243-244.
80
LAWSON, Steven J. A arte expositiva de João Calvino. São José dos Campos: Fiel, 2017. p. 40.
81
Ibidem, p. 41.
38

Joel Beeke e Ray Lanning, compreendem que a tarefa de um pregador é focar, de


fato, na pregação, exatamente como aconteceu na Reforma, apresentando doutrina bíblica
completa, equilibrada e aplicada para as necessidades. Por meio da lectio continua,

...ou exposição em série das Escrituras. Versículo por versículo, capítulo por
capítulo, livro por livro, as Escrituras eram abertas, explicadas e aplicadas.
Esse método é tão antigo quanto Ulrico Zuinglio e João Calvino, e tem como
precedente a pregação nas sinagogas, onde ela era associada à leitura
sistemática da Lei e dos Profetas (Lc 4.16-21).82

Bryan Chapell considera que, tradicionalmente, as igrejas reformadas adotam a


lectio continua, pois, baseadas na doutrina do Sola Scriptura, não há razões para o uso de
recursos intermediários para a pregação de todo o conselho de Deus. Não apenas isso,
considera um grande perigo deixar a mercê do pregador a escolha do que pregar, dia após
dia, já que as suas preferências ou gostos pessoais podem ditar os rumos da pregação e,
até mesmo, da igreja. Por isso,

Diferentes tradições da igreja têm empregado meios para alternar a ênfase da


pregação num local estabelecido. As igrejas Católica Romana, Ortodoxa,
Luterana e o ramo principal das igrejas nos Estados Unidos frequentemente
usam um lecionário junto com o calendário litúrgico, que orienta os ministros
a abrangerem a variedade de textos pré-selecionados para cada ano. As igrejas
Reformadas resistem particularmente ao uso do lecionário, por várias razões:
o princípio de sola Scriptura defende que somente a Escritura pode ditar o que
deve ser pregado; a prática da lectio continua oposta à lectio selecta, ou seja,
a apresentação sequencial de textos (por ex., pregação em série de um livro
também conhecida como "pregação consecutiva") em vez de escolher diversas
seleções semana a semana, que se admite induzir a ênfases humanas; a tradição
de não se considerar nenhum dia como superior a outro, em reação à
observância dos dias santos da Católica Romana, que eram vistos como
perfeitos ao sacramentalismo; e a atenção dada à autonomia do púlpito local,
na suposição de que o Espírito Santo dispensará ao pregador a unção e o
discernimento para o cumprimento da tarefa à mão.83

O Rev. Hernandes Dias Lopes, citando o Dr. David Jussely, afirma que,
inegociavelmente, a pregação expositiva só apresenta vantagens. Se os pregadores se
valerem do método lectio continua, os benefícios serão ainda melhores, já que o
ministério pastoral envolve inúmeras atividades, o que pode sacrificar o estudo diligente
das Escrituras, o devido preparo de sermões e, consequentemente, a exposição à igreja.
Ele afirma:

Primeiro, tempo valioso poupado. A sequência do estudo e exposição será


sempre descoberta na seção ou versículo seguinte do texto. Segundo, o

82
BEEKE, Joel R.; LANNING, Ray B. Sola Scriptura. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 192-193.
83
CHAPELL, Bryan. Pregação Cristocêntrica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 61-62.
39

pregador tratará de uma variedade mais ampla de questões ao seguir o método


lectio continua de seleção de textos de sermões. Quando os pregadores tratam
dos mesmos temas repetidamente, as congregações se cansam e podem julgar
que o pregador está sendo motivado por uma agenda estreita. Terceiro, a
exposição lectio continua promove a erudição na pregação. Este método de
exposição bíblica pode impedir o expositor de interpretar erradamente os
textos bíblicos ou usá-los fora do contexto. Quarto, o método lectio continua
de pregação pode poupar tempo de pesquisa valioso para o pregador. Quinto,
o método lectio continua de exposição permite ao pregador oportunidades para
tratar de assuntos delicados numa situação congregacional sem dar a aparência
de estar apontando o dedo às pessoas ou problemas na igreja.84

O Dr. Jon Payne, mais uma vez, em seu apreço pela pregação lectio continua,
também considera os seus benefícios para o pastor, bem como para a igreja:

1. Todo o conselho de Deus é anunciado (Atos 20:27; Mateus 28:20).


2. Os textos difíceis e espinhosos não são ignorados (II Timóteo 3:16-17).
3. O povo de Deus aprende a estudar a Bíblia enquanto seus ministros
pregam através dos livros do AT e NT.
4. A fé é criada e nutrida nos eleitos de Deus através da Palavra de Cristo
(Romanos 10:17).
5. As boas novas de Cristo crucificado, ressuscitado e exaltado são
pregadas em toda a Escritura, ressaltando assim a natureza Cristocêntrica da
Bíblia (2 Coríntios 2:1-2).
6. Os indicativos e os imperativos são corajosamente proclamados.
7. O ministro pode não apenas escolher textos de “caixa de sabão” 85 para
pregar.
8. Com o tempo, a congregação ouvirá toda a Bíblia pregada e lida no
culto do Dia do Senhor pela manhã e à noite (NOTA: Nos últimos nove anos,
nossa igreja leu e pregou mais da metade da Bíblia no culto público). Veja I
Timóteo 4:13.
9. Os ministros são maravilhosamente livres para pregar com ousadia e
autoridade, visto que é a Palavra de DEUS que eles estão pregando, não as
ideias do homem.
10. Por meio de cuidadosa exegese e preparação, os ministros crescem na
graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo (Atos 6:4). Acho que a
taxa de esgotamento e o aumento da imoralidade entre os ministros se devem,
em grande parte, à falta de tempo no estudo. Ministros que confiam em
charme, carisma, estilo (aham... ouso dizer, moda) e dons intelectuais, e não
no Espírito e na Palavra de Deus, são presas fáceis para o Diabo.86

D. A. Carson, na mesma linha, afirma que a pregação expositiva87 é fiel a toda a


Escritura. Dessa feita,

84
LOPES, Hernandes D. A importância da pregação expositiva para o crescimento da igreja. São Paulo:
Editora Candeia, 2004. p. 140.
85
SoapBox, traduzido como caixa de sabão, eram caixas usadas para se comercializarem sabão. Vazias,
serviam para assento ou um tipo de palanque quando alguém desejava se elevar para falar frente a uma
multidão. Dessa feita, atualmente, significa fazer um discurso.
86
PAYNE, Jon D. The Lectio Continua method. Kevin Fiske. Disponível em:
<[Link]
Acesso em 25 ago. 2022, às 8h35.
87
Como tratado anteriormente, ainda há muitas controvérsias sobre a devida definição do que é a pregação
expositiva. D. A. Carson, nesse contexto, dá-nos a entender que, ao se referir a lectio continua, chama-a de
pregação expositiva, já que a coloca na contramão da pregação temática, textual e demais.
40

1. E o método com menos probabilidade de desvio das Escrituras. Se você está


pregando sobre o que a Bíblia diz sobre a auto-estima, por exemplo, sem
dúvida você conseguirá encontrar alguns critérios muito úteis. Mas mesmo
quando você diz coisas completamente verdadeiras, provavelmente as extrairá
da linha histórica central da Bíblia. 2. Ela ensina as pessoas como ler as suas
Bíblias. Principalmente se você está pregando uma passagem comprida, a
pregação expositiva ensina as pessoas como processar uma passagem, como
entender e aplicar a palavra de Deus à sua vida. 3. Ela confere confiança ao
pregador e dá autoridade ao sermão. Se for fiel ao texto, você está certo que
sua mensagem é a mensagem de Deus. Mesmo sem saber o que está
acontecendo na igreja — se ela está crescendo ou se as pessoas gostam de você
— você sabe que está proclamando a verdade de Deus. Isso é
maravilhosamente libertador. 4. Ela vai ao encontro da necessidade por
relevância sem deixar o clamor por relevância ditar a mensagem. Toda a
pregação verdadeira é propriamente aplicada. Isso é de extrema importância
para a nossa geração. Mas a pregação expositiva mantém os eternos princípios
básicos em discussão. 5. Ela força o pregador a saber lidar com as perguntas
difíceis. Você começa a trabalhar texto após texto e logo chega a passagens
sobre o divórcio, sobre o homossexualismo, sobre mulheres no ministério e
você terá que lidar com o texto. 6. Ela capacita o pregador a expor
sistematicamente todo o desígnio de Deus. Nos seus últimos quinze anos de
vida, João Calvino explanou Gênesis, Deuteronômio, Juízes, Jó, alguns
Salmos, 1 e 2Samuel, IReis, os profetas maiores e os profetas menores, os
evangelhos em harmonia, Atos, 1 e 2Coríntios, Gálatas, Efésios, 1 e
2Tessalonicenses e as epístolas pastorais. Não estou sugerindo que nos
organizemos exatamente do mesmo jeito. Mas se queremos pregar todo o
desígnio de Deus, precisamos ensinar toda a Bíblia. Outras estruturas de
pregação possuem seus méritos, mas nenhuma oferece mais à sua congregação,
semana após semana, do que a interpretação cuidadosa e fiel da Palavra de
Deus.88

Ora, se arduamente temos afirmado que o ministério pastoral é cheio de


atividades, que as demandas são grandes e que, por causa da agenda superlotada dos
ministros, a exposição da Palavra de Deus pode ser prejudicada, já que haverá escassez
de tempo hábil para aprofundamento adequado na porção do texto bíblico escolhido, na
preparação das séries ou na dúvida de qual tema escolher, não é equivocado concordar
que, além de a lectio continua ser um método fielmente comprometido com toda a Bíblia,
é também uma ferramenta eficiente no preparo semanal do pastor, aliviando sua agenda
e lhe dando suporte para os seus estudos.
No entanto, apesar de considerarmos a lectio continua como eficiente, é preciso
saber que o seu mau uso pode gerar problemas. Timothy Keller entende que essa forma
de pregação não considera a mobilidade de nossa sociedade, pois, diferente de séculos
passados, onde as pessoas criavam raízes em suas cidades de nascença e ali permaneciam

88
CARSON, D. A. Ensinando a Bíblia Toda: seis razões para usar a pregação expositiva? In:
ROBINSON, Haddon W., LARSON, Craig B. (Org). A arte e o ofício da pregação bíblica. São Paulo:
Publicações Shedd, 2009. p. 500.
41

estabelecidos, hoje há um grande êxodo e é muito difícil contar com um público


permanente nas comunidades. Como bem escreve,

No método da lectio continua, é fácil gastar um ano ou mais num mesmo livro
da Bíblia. No entanto, se uma família ficar em sua igreja por dois anos, você
vai mesmo querer que elas estudem apenas 1Samuel? Ou mesmo somente o
Evangelho de João, sem tempo algum para o Antigo Testamento? Um dos
pontos fortes da exposição, como vimos, é que ela disponibiliza à igreja uma
série completa de ensinamentos e temas bíblicos. Contudo, uma abordagem
que siga estritamente um só livro da Bíblia, pregando-o na sua totalidade com
os capítulos sendo expostos de forma consecutiva, vai impedir que a maior
parte do seu público seja efetivamente exposta a uma variedade maior do texto
bíblico.89

Por mais entusiastas que possamos parecer na defesa da lectio continua, é


necessário entendermos que é uma forma que pode ficar prejudicada, caso não seja tratada
como passível de equívocos. Os tempos mudam, bem como as pessoas. Vivemos diante
da geração dos urgentes, do corre-corre, dos que fazem inúmeras coisas ao mesmo tempo
e que estão sob constante ataque de informações, digerindo um monte de coisas ao mesmo
tempo.
Por isso, na mesma mão que Keller, Derek Prime acredita na eficácia da pregação
sistemática de livros da Bíblia, porém, a demora demasiada no livro ou no assunto pode
se tornar cansativo para a igreja. Da mesma forma, seguir sempre o mesmo método pode
ser monótono. Para isso, vale-se da variedade de formas que o Senhor Jesus usou para
aplicar verdades eternas aos seus ouvintes:

Ele deu ensinamento ético direto, como no Sermão da Montanha. Ilustrou seu
ensino por ocorrências diárias que capturaram a atenção dos ouvintes. Mas
também usou histórias ou parábolas, e às vezes tomou eventos recentes - como
o colapso de uma torre ou a matança de pessoas inocentes – para ensinar uma
lição. A pregação expositiva não significa falta de variedade; ao contrário, deve
trazer variedade infinita! Um perigo da pregação expositiva - especialmente
quando começamos - é a tendência de se demorar demasiadamente em um livro
ou assunto. Expositiva não precisa ser sinônimo de exaustiva e desgastante!90

Seria uma grande tolice afirmarmos que o método lectio continua é livre de
quaisquer equívocos. Os tempos mudam, as pessoas mudam e as formas precisam se
tornar adaptáveis. A essência, o Evangelho, é sempre o mesmo, mas a abordagem pode

89
KELLER, Timothy. Pregação: comunicando a fé na era do ceticismo. São Paulo: Vida Nova, 2017, p.
46-47.
90
PRIME, Derek, BEGG, Alistair. Ser pastor. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 109.
42

ser repensada e reestilizada. Por isso, Old, um grande defensor da lectio continua, quando
questionado se o método é razoável para a moderna geração, tão exigente e tão acelerada,
considera que, de fato, tende a ser tedioso para o público atual ouvir duzentos sermões
sobre Deuteronômio, como fez João Calvino em Genebra. Ciente disso, adaptou a prática
para abordar temas sensíveis de nosso tempo, como a Páscoa, o Natal, Pentecostes e
demais assuntos.91

Natal, Páscoa e Pentecostes são polos em torno dos quais organizo minha
pregação. Como a tradição reformada enfatiza as festas cristãs em vez dos
tempos litúrgicos, muitas vezes faço uma série curta de lectio continua para
essas festas. Por exemplo, fiz quatro sermões sobre a narrativa da natividade
em Mateus no Natal e uma série de seis sermões sobre as canções de servo de
Isaías na Páscoa. O uso da abordagem da lectio continua, então, não significa
que se deva negligenciar as festas evangélicas. No decorrer de um ano, tento
tratar muitos tipos diferentes de literatura bíblica. Eu sempre tento fazer uma
série importante sobre um evangelho, uma série importante sobre outro livro
do Novo Testamento e uma série importante sobre um livro do Antigo
Testamento.92

Old diz que Calvino pregou dezessete sermões no profeta Miqueias. Por sua vez,
abordou todo o livro em seis exposições, selecionando no livro as passagens mais
significativas para o contexto de sua congregação. Quanto ao sermão da Montanha, Old
declara ter pregado vinte e cinco sermões, pois a temática da vida cristã prática a partir
do ensino de Jesus era o que a sua igreja precisava para o momento.93 Ainda,

Na maioria das vezes, limito-me a cerca de uma dúzia de sermões sobre um


único livro de cada vez. Ao pregar através de Romanos, por exemplo, dividi o
livro em três partes. Os primeiros seis capítulos eu preguei no início da
primavera, organizando-os de forma que eu estivesse pregando no capítulo seis
na Páscoa. Então, no outono seguinte, retomei o capítulo sete pregando até o
final do capítulo onze, pouco antes do Dia de Ação de Graças. Mais uma vez,
interrompi a série por vários meses e depois continuei com os capítulos doze
até o final do livro durante o verão seguinte. Aqui novamente, como no Sermão
da Montanha, parecia que a pregação de Romanos merecia tanta atenção
porque é o rico corte central do Evangelho. Dar-lhe tanta atenção em um ponto
específico da vida de uma congregação foi uma importante decisão pastoral. 94

91
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
92
OLD, Hughes O. Preaching by the book: using the Lectio Continua approach in sermon planning.
Reformed Worship. Disponível em <[Link]
using-lectio-continua-approach-sermon-planning>. Acesso em 26 ago. 2022, às 16h50.
93
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
94
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
43

Diante disso, é evidente que a lectio continua não é uma forma engessada e rígida,
onde só faz sentido pregar o livro todo, cada detalhe, cada capítulo ou cada verso por
meses e anos, restringido a igreja a uma dieta extremamente restrita. É injusto com o
método limitá-lo. Por isso, é preciso que o pastor esteja sensível ao seu público,
adequando e adaptando o método a característica de sua comunidade, ao seu tempo, ao
seu contexto e às necessidades.
Dessa feita, a lectio continua ainda continua sendo a forma de pregação
extremamente comprometida com todo o conselho de Deus, que prepara a igreja para o
que está por vir, que aborda todos os assuntos sem isenção e que não abre precedentes
para que o pastor/pregador fuja do contexto do texto.
Como bem resume Old,

Em meu próprio ministério, a ênfase tem sido pregar para a congregação cristã
quando ela é reunida para adoração no Dia do Senhor. Entendo que este seja o
contexto natural ou lugar habitual da pregação da lectio continua. É quando a
Igreja se reúne regularmente para adorar a Deus que as Escrituras devem ser
pregadas de maneira sistemática. Existem outros lugares onde outros tipos de
pregação são apropriados e até necessários. A pregação evangelística ocupa
um lugar importante na história da pregação, mas raramente é encontrada no
contexto da adoração. Aquele não é o seu lugar apropriado. O sermão de Paulo
no Areópago foi pregado ao ar livre para aqueles que não eram cristãos. Ele
não pregou sobre um texto das Escrituras. Os monges celtas que evangelizaram
o norte da Europa e os pregadores franciscanos e dominicanos da Idade Média
eram grandes pregadores e, no entanto, sua pregação não era geralmente no
contexto da celebração da missa. John Wesley e George Whitfield pregavam
nos campos e nas esquinas das ruas. do que no serviço ordinário de adoração.
A pregação evangelística por sua própria natureza está fora da liturgia. Tem
um contexto diferente. A pregação da Lectio continua, por outro lado, é a
pregação litúrgica. É um ministério particular do povo de Deus que consiste na
escuta atenta e sistemática da Palavra de Deus. [...]É para esse tipo de pessoa
que a pregação da lectio continua tem um apelo especial. Ele oferece uma
oportunidade para uma audição sistemática e acadêmica da mensagem das
Escrituras. A pregação da lectio continua possibilita ao ministro sustentar um
estudo disciplinado das Escrituras, e torna possível que a congregação entre e
siga essa disciplina.95

CONCLUSÃO

Ser pastor e anunciar a Palavra de Deus é uma bênção. Porém, pregar é um grande
desafio, pois não consiste, apenas, em habilidade oratória, mas em um compromisso sério
com a verdade do Evangelho e com toda a Bíblia. Ser pastor atuante em uma comunidade

95
OLD, Hughes O. Preaching according to the Lectio Continua: practical questions & considerations.
Theology Matters, Greenwood-CS, vol. 25, n. 3, p. 1-17, Summer 2019.
44

é desafio em dose dupla, pois envolve muito tempo de dedicação ao povo e administração
da igreja e seus recursos.
Uma responsabilidade não pode negar a outra. Um privilégio não deve sobressair
sobre o outro. Então, falamos de conciliação. Por isso, a pregação expositiva lectio
continua é eficiente nesse papel, já que a sua forma é clara, indutiva e totalmente
comprometida com a Palavra de Deus. Testada e avaliada por grandes pregadores e
estudiosos, sua eficácia é comprovada em anunciar todo o conselho de Deus, sem
negociar quaisquer partes da Bíblia. Além disso, é excelente para o ministério pastoral,
pois permite ao pastor administrar todas as suas demandas, sem comprometer o zelo para
com a pregação.
Sem dúvidas, reconhecemos que as demais formas de pregação são boas, usadas
por gente competente e atendem o propósito de pregar a Bíblia, se feito com cautela e
cuidado. É necessário extremo cuidado para não nos ocuparmos, somente, com os temas
que consideramos mais fáceis ou mais preferidos, ou oferecermos a igreja aquilo que
querem ouvir, que lhes seja palatável, com o intuito de angariar números. Além do mais,
ficar restrito aos temas do momento ou a assuntos diversos exige um grande esforço do
pastor, não bastando as suas muitas atividades.
Sem quaisquer dúvidas, o assunto é muito extenso e complexo. Seria necessário
mais aprofundamento, maiores pesquisas e centenas de páginas para tratar o tema com
todo o critério exigido. Porém, esse é o primeiro passo.

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