Chapter 3
Números Complexos
3.1 O plano complexo
Os números reais não são su…cientes para se obter as raízes de toda equação
algébrica xn + a1 xn 1 + ::: + an = 0, onde ai 2 R (i = 1; :::; n). Por exemplo,
a equação x2 + 1 = 0 não tem raízes em R, senão teríamos um número real x
tal que x2 = 1 < 0; mas, x2 = x x = ( x) ( x) > 0. Para corrigir essa
de…ciência, é necessário um novo corpo K, ampliando o corpo R, contendo as
raízes de x2 + 1 = 0. É surpreendente o fato que o corpo K, construído para
conter as raízes desse polinômio particular, contém também todas as raízes de
qualquer polinômio não constante com coe…cientes em K. Um corpo com essa
propriedade é dito algebricamente fechado.
Para ver como seria esse novo corpo, suponhamos que K já está construído.
Usaremos os mesmos símbolos, + e , para indicar as operações de adição e
a multiplicação de K estendendo as operações respectivas em R. Assim, em
particular, podemos tomar uma raiz x = i 2 K da equação x2 + 1 = 0. Con-
sideremos então o subconjunto de K, de…nido por C = fa + bi 2 K : a; b 2 Rg
o qual é fechado com respeito à adição e à multiplicação: (a + bi) + (c + di) =
(a+c)+(b+d)i. Quanto ao produto, notemos que i2 = 1; daí, (a+bi)(c+di) =
ac + adi + bci + bdi2 = (ac bd) + (ad + bc)i. É evidente que os números reais
0 e 1 são, respectivamente, o zero e a identidade de C. Tomando ( a) + ( b)i,
vemos que (a + bi) 2 C. Como i 2 = R, temos: a + bi = 0 , a = b = 0, quando
a e b são números reais. Se a + bi 6= 0, temos (a + bi)[a + ( b)i] = a2 + b2 > 0;
a b
daí, (a + bi)( 2 + 2 i) = (a + bi)[a + ( b)i](a2 + b2 ) 1 = 1. Logo,
a + b2 a + b2
em C cada z 6= 0 tem um inverso multiplicativo. Como estamos trabalhando
dentro do corpo K, temos gratuitamente as leis comutativas, associativas e a
distributividade. Assim, C é um corpo contendo R, e cujas operações estendem
as correspondentes operações de R. Isso se expressa na linguagem da álgebra
abstrata, dizendo-se que R é um subcorpo de C ou que C é uma extensão de R.
Agora, podemos construir um corpo seguindo as características de C. Em
primeiro lugar, notemos que, existindo K, temos uma bijeção ' : R R ! C :
1
2 CHAPTER 3. NÚMEROS COMPLEXOS
(a; b) 7! a + bi. Agora, a partir desta bijeção, podemos de…nir (a; b) + (c; d) =
(a + c; b + d) e (a; b)(c; d) = (ac bd; ad + bc). Veri…ca-se que, com essas
operações, R R é um corpo, denotado por C. Identi…cando cada número real
a com o par ordenado (a; 0) e denotando i = (0; 1), temos (a; b) = a + bi.
Notemos que, como conjunto, C = R R, onde (a; 0) = a, mas (0; b) = bi 6= b,
para todos a 2 R e b 2 R . De…ne-se número complexo como cada elemento
de C. Assim, um número complexo se escreve, de modo único, como a + bi
e pode ser interpretado geometricamente como um ponto do plano cartesiano,
referido como o plano complexo. Podemos ainda considerar o número complexo
z = a + bi; onde a; b 2 R, como o vetor com orígem em (0; 0) e extremidade em
(a; b).
i=(0,1)
b z= a+bi=(a,b)
O 1=(1,0)
a x
Todos os resultados já conhecidos sobre vetores do plano são transferidos
automaticamente para números complexos. Por exemplo, o vetor z com orígem
em (1; 2) e extremidade em (3; 7) é igual ao número complexo (2; 5) = 2 + 5i. De
fato, z e 2 + 5i estão sobre retas paralelas, têm o mesmo sentido (apontam para
o mesmo semiplano) e possuem o mesmo tamanho (módulo). Já conhecemos da
geometria analíticapvárias propriedades do módulo ou valor absoluto de z = a +
bi, dado por jzj = a2 + b2 , inclusive sua interpretação como a distância entre 0
e z. Conforme a de…nição de adição em C, a soma z1 +z2 dos números complexos
zj = aj + ibj ; j = 1; 2; é dado pela diagonal do paralelogramo determinado por
z1 e z2 , com orígem 0 e extremidade no vértice do paralelogramo oposto à orígem
. Já z1 z2 é representado pelo vetor com orígem em z2 e extremidade em z1 :
O vetor (a + bi) é o simétrico de a + bi em relação à orígem.
Essa interpretação geométrica da adição e subtração de números complexos
3.1. O PLANO COMPLEXO 3
é conhecida como a regra do paralelogramo.
y y
z1+z2 z1-z2 z1
z2
b2 z2 -z2
z1
b1
a1 a2 x
O O x
z
Como em R, podemos considerar frações de números complexos: = zw 1 ,
w
se w 6= 0. As propriedades de corpo de C são ilustradas no seguinte exemplo.
(12i)(2 + i) (4 3i) + (3 + 6i) 7 + 3i
Example 1 + 3i = = =
2 i 2 i 2 i
1
(7 + 3i)(2 i) . Para determinar o inverso de 2 i, observemos que (2 i)(2 +
i) = 22 i2 = 4+1 = 5 , (2 i)(2+i)=5 = 1. Assim, (2 i) 1 = 5=2+i=5. Logo,
(1 2i)(2 + i)
+ 3i = (7 + 3i)(2 i) 1 = (7 + 3i)[2=5 + (1=5)i] = 11=5 + (12=5)i.
2 i
Pela comutatividade, podemos escrever, z = a + bi = a + ib = bi + a = ib + a.
3.1.1 Conjugação e módulo de um número complexo
Dado um número complexo z = a + bi, a; b 2 R, denota-se z = a bi, chamado
o conjugado de z:
y z
O x
z
Chama-se parte real (resp. parte imaginária) de z = a + bi ao número real
dado por <(z) = a (resp. =(z) = b). Logo, temos as seguintes propriedades:
2
(1) Se z 6= 0; então z 1 = z = jzj
2
(2) jzj = a2 + b2 = <(z)2 + =(z)2
(3) z + z = a + bi + a bi = 2a = 2<(z) e z z = a + bi (a bi) = 2bi = 2=(z)i
(4) Para zj = aj + bj i, (j = 1; 2), tem-se
z1 + z2 = (a1 + b1 i) + (a2 + b2 i) = (a1 + a2 ) + (b1 + b2 )i =
a1 + a2 = z1 + z2 ,
z1 z2 = (a1 + b1 i)(a2 + b2 i) = (a1 a2 b1 b2 ) + (a1 b2 + a2 b1 )i =
(a1 a2 b1 b2 ) (a1 b2 + a2 b1 )i = (a1 b1 i)(a2 b2 i) = z1 z2
(5) Para z 6= 0, tem-se z z 1 = z z 1 = 1 = 1.
4 CHAPTER 3. NÚMEROS COMPLEXOS
Logo, z 1 = (z) 1
z1 z1
(6) ( ) = z1 z2 1 = z1 z2 1 = z1 (z2 ) 1 = , se z2 6= 0
z2 z2
(7) z = (ap bi) = a +pbi = z
(8) jzj = a2 +q b2 = zz. Mais geralmente,
(9) jz1 z2 j = (z1 z2 ) (z1 z2 ) = j(a1 a2 ) + (b1 b2 )ij =
p
(a1 a2 )2 + (b1 b2 )2 , que pode ser pensado como a distância entre os
pontos z1 = a1 + b1 i
e z2 = a2 + b2 i:
Proposition 2 Para todos z; z1 ; z2 2 C, tem-se:
(a) jzj = j zj = jzj
(b) jzj = 0 , z = 0
(c) jz1 + z2 j jz1 j + jz2 j
(d) jz1 z2 j jjz1 j jz2 jj
(e) jz1 z2 j = jz1 j jz2 j
(f) jz1 = z2 j = jz1 j = jz2 j, se z2 6= 0:
Proof. p (a):Tomando p z = a + bi, temos p z = a bi e z = a bi. Logo,
jzj = a2 + b2 = ( a)2 + ( b)2 = a2 + ( b)2 = j zj = jzj.
2
(b): z = a + bi = 0 , a = 0 e b = 0 , jzj = a2 + b2 = 0 , jzj = 0.
(c): Façamos zj = aj + ibjp , j = 1; 2: p p
j jz1 + z2 j jz1 j + jz2 j , (a1 + a2 )2 + (b1 + b2 )2 a21 + b21 + a22 + b22 ,
2 2 2 2 2 2
ap1 + a2 + 2a p1 a2 + b1 + b2 + 2b1 b2 = (a1 + a2 ) + (b1 + b2 ) a21 + b21 + a22 + b22 +
2
2 a1 + b1 ap 2 2 2
2 + b2 p ,
a1 a2 +b1 b2 p a21 + p b21 a22 + b22 . Temos a1 a2 +b1 b2 ja1 a2 + b1 b2 j ja1 j ja2 j+
jb1 j jb2 j a21 + b21 a22 + b22 . A última desigualdade equivale a (ja1 j ja2 j +
jb1 j jb2 j)2 (a21 + b21 )(a22 + b22 ) = a21 a22 + a21 b22 + b21 a22 + b21 b22 , 2 ja1 j jb2 j jb1 j ja2 j
(ja1 jjb2 j)2 + (ja2 j jb1 j)2 , (ja1 j jb2 j + ja2 j jb1 j)2 0, o que é verdade.
(d): Temos jz1 j = jz1 z2 + z2 j j z1 z2 j + jz2 j, e, portanto, jz1 z2 j jz1 j
jz2 j. Mas, por (a), jz1 z2 j = jz2 z1 j jz2 j jz1 j = (jz1 j jz2 j). Portanto,
jz1 z2 j max fjz1 j jz2 j ; (jz1 j jz2 j)g = jjz1 j jz2 jj.
p p p p
(e): jz1 z2 j = z1 z2 z1 z2 = z1 z2 z1 z2 = z1 z1 z2 z2 = jz1 j jz2 j.
(f): Se z2 6= 0, tem-se: (z1 = z2 )z2 = z1 : O resultado segue-se de (e).
Deixamos como exercício mostrar, por indução, a desigualdade tringular
P
n Pn
generalizada: zi jzi j, para todo n 2 N.
j=1 j=1
3.1. O PLANO COMPLEXO 5
3.1.2 Representação polar
Cada número complexo não nulo z = a + bi pode ser representado em coorde-
nadas polares (r; ). Lembramos que r = jzj e é o ângulo orientado no sentido
anti-horário, partindo do semi-eixo positivo dos xx e chegando ao semi-eixo de-
terminado por z. Essa representação de z é chamada sua forma polar, enquanto
a + bi é dita sua forma cartesiana.
bi = irsenθ z
r
θ
O a = rcosθ x
O ângulo é chamado o argumento de z. Notemos que, …xado 0 2 R (em radi-
anos), existe um único valor de no intervalo 0 < 0 + 2 , correspondente
a z. Ao chegar e transpor o valor 2 , os argumentos voltam a de…nir os mesmos
números complexos. De fato, como cos e sen são periódicas módulo 2 , temos
uma ini…nidade de representações de z 6= 0 com argumento + 2k , k 2 Z.
Usaremos a notação = arg z para o argumento de z: Assim, a correspondência
z 7! arg z não é funcional, i e. a um mesmo número complexo correspondem
mais de um valor para arg z (na verdade, uma in…nidade de valores): O valor
de arg z no intervalo 0 < 2 é chamado o valor principal do argumento de
z, denotado por Arg z. Temos então: Arg z1 = Arg z2 , arg z1 arg z2 = 2k ,
k 2 Z. ângulos (ou arcos) que diferem entre si por um múltiplo inteiro de 2
são ditos congruentes mod 2 . Usaremos então a notação arg z1 arg z2 .
p p
2 2
Example 3 (a) z = i = cos(7 =4) + i sen(7 =4) = cos( =4) +
2 2
i sen( =4). Neste exemplo, Arg z = 7 =4 (radianos) e temos também arg z =
=4 ou 45o . Temos então z = (1; 7 =4) = (1; =4).
p o 1
(b) z = 1 + i 3 se encontra no 2. quadrante, r = 2 e cos = e sen =
p 2
3 2
; i. e. Arg z = . Neste caso temos z = (2; 2 =3 + 2k ), k 2 Z.
2 3
De…ne-se a função exponencial complexa para z = a + bi, exp z = ea (cos b +
i sen b), onde ea é o valor em a da função exponencial real.
Proposition 4 A função exponencial complexa generaliza a função real ex ; x 2
R, e dados z1 ; z2 2 C, vale a relação fundamental exp z1 exp z2 = exp(z1 + z2 ).
Proof. Se x 2 R, temos exp x = ex+0i = ex . Para z = a + bi; w = c + di,
onde a; b; c; d 2 R, temos exp z exp w = ea (cos b + i sen b)ec (cos d + i sen d) =
ea+c [cos(b + d) + i sen(b + d)] = exp(z + w).
6 CHAPTER 3. NÚMEROS COMPLEXOS
exp z
Notemos que exp w exp(z w) = exp z: Logo, = exp(z w). Em
exp w
1 exp 0
particular, = = exp(0 w) = exp( w): Também, exp(z + 2 i) =
exp w exp w
exp z, pela periodicidade das funções cos x e sen x, x 2 R. Segue-se da de…nição
que exp z = exp z:
Usa-se também a notação exp z = ez . Assim, a forma polar de z = r(cos +
i sen ) 6= 0 pode ser escrita como z = rei . Essa maneira de representar z é
chamada a representação ou forma polar de z.
3.2 Produto, quociente e radiciação
Sejam zj = rj ei j , representações polares de zj 2 C, j = 1; 2. Então, temos:
z1 z2 = r1 r2 ei 1 ei 2 = r1 r2 (cos 1 + i sen 1 )(cos 2 + i sen 2 ) = (cos 1 cos 2
sen 1 sen 2 ) + i(cos 1 sen 2 + sen 1 cos 2 ) = cos( 1 + 2 ) + i sen( 1 + 2 ) =
r1 r2 ei( 1 + 2 ) . Portanto, geometricamente, obtém-se jz1 z2 j = r1 r2 , enquanto
arg z1 z2 = 1 + 2 . Por indução, para j = 1; 2; :::; m (m 1), tem-se z1 z2 zm =
r1 r2 rm ei( 1 + 2 +:::+ m ) : Em particular, se z1 = ::: = zm = z = rei ; z m =
rm eim .
z1z2
y
θ1 z2
θ2 z1
θ1
O x
Example 5 Para cada 0 6= z = rei ; tem-se iz = ei 2 rei = rei( + 2 ) . Assim,
geometricamente, multiplicar um número complexo z por i consiste em aplicar
a z a rotação (…xando a orígem O) de radianos no sentido anti-horário.
2
3.2.1 A fórmula de De Moivre
Se 0 6= z = rei , então z 1 = (1=r)z i e z n = rn ein , para cada n 2 N e
z n = (z 1 )n = (1=r)n (e i )n = r n ei( n) . Conveciona-se z 0 = 1. Assim,
para 0 6= z = rei , temos z n = rn ein , para todo n 2 Z. Por razões de
continuidade não se de…ne 00 : Obtemos, imediatamente, o seguinte
Theorem 6 (Fórmula de De Moivre) Dados números reais r; com r > 0;
tem-se: [r(cos + i sen )]n = rn (cos n + i sen n ):
Notemos que, pelo desenvolvimento do binômio de Newton, e comparando
as partes real e imaginária na fórmula de De moivre, encontramos as expressões
para cos n e sen n . Por exemplo, de cos2 sen2 + (2 cos sen )i = (cos +
3.2. PRODUTO, QUOCIENTE E RADICIAÇÃO 7
i sen )2 = cos 2 + i sen 2 , tiramos as conhecidas fórmula do cosseno e do seno
do arco duplo: cos 2 = cos2 sen2 e sen 2 = 2 sen cos .
Se zj = rj (cos j + i sen j ), j = 1; 2, onde rj ; j 2 R, z2 6= 0, temos para
z1 r1
o quociente = r1 (cos 1 + i sen 1 )r2 1 (cos 2 + i sen 2 ) 1 = [cos( 1
z2 r2
2 ) + i sen( 1 2 )].
Proposition 7 ez+2 i
= ez , para cada z 2 C.
Proof. Seja z = a + bi, onde a; b 2 R. Tem-se ez+2 i = ea+(b+2 )i = ea [cos(b +
2 ) + i sen(b + 2 )] = ea (cos b + i sen b) = ez :
A proposição traduz-se dizendo-se que a função exponencial complexa é per-
iódica com período 2 i.
3.2.2 Radiciação
Sejam z 2 C e n 2 N. Queremos encontrar z0 2 C tal que z0n = z. Como
os números complexos formam um corpo, z0n = 0 ) z0 = 0. Para z 6= 0,
podemos usar a forma polar z = rei , para r > 0, para determinar os números
complexos z0 = r0 ei tais que z0n = z, chamados raízes n-ésimas de z. O
processo de determinação dos números reais r0 e 0 é chamado radiciação ou
extração das raízes n-ésimas z 1=n de z. Pela fórmula de De Moivre, temos
p + 2k
r0n ei 0 = rei , i.e. r0n = r; n 0 = +2k . Portanto„i.e. r0 = n r e 0 = ,
n
k 2 Z. Pelo algoritmo da divisão, existem inteiros q; r tais que k = nq + r, onde
+ 2(nq + r) + 2r
0 r n 1. Assim, 0 = = + 2q . Logo, existem no
n n
+ 2 + 2(n 1)
máximo n valores para z 1=n , a saber: ; ; :::; . Por outro
n 0 n n
lado, sabemos que dois números reais e argumentos de um mesmo número
complexo se e somente se 0 = + 2l , l 2 Z. Portanto, supondo 0 r r0
0
n 1, e e( +2r )i = e( +2r )i , então [( +2r0 ) ( + 2r )] = 2l ; i.e.n j (r:0 r),
o que é impossível. Logo, temos
p +2k
z 1=n = n
rei( n )
(k = 0; 1; :::; n 1) (*)
5 3
Example 8pi1=3 = (1e( =2)i )1=3 = e 6 i ; e 6 i ; e 2 i . Temos
p e 6 i = cos =6 +
3 1 5 3 1 3
i sen =6 = + i, e 6 i = cos =6 + i sen =6 = + i e e 2 i = i.
2 2 2 2
3.2.3 Raízes complexas da unidade
Tomando z = 1 = ei0 , obtemos as chamadas raízes n-ésimas da unidade, para
cada n 2 N:
2
wn = eki n (k = 0; 1; :::; n 1)
8 CHAPTER 3. NÚMEROS COMPLEXOS
É geometricamente evidente que n é o menor dos inteiros positivos k tais
que wnk = 1. Seja Un = f1; wn ; :::; wnn 1 g o conjunto das raízes n-ésimas. Então
temos jUn j = n, i.e. wnj 6= wnk , para todos j 6= k em f0; :::; n 1g. Se z0 é uma
das n raizes n-ésimas
p de z, então (z0 wnk )n = z; em particular, se z = r 2 R,
1=n k
então z = rwn , k = 0; :::; n 1. É claro que,
n
p
Assim, ao contrário da de…nição de r1=n = n r para números reais, o símbolo
z 1=n ; para o número complexo z = rei ; r > 0; 0 < 2 , é ambíguo, e é enten-
dido como qualquer um dos elementos do conjunto r1=n wnk : k = 0; 1; :::; n 1 :
Geometricamente, as raízes n-ésimas da unidade são os vértices de um polígono
regular com n lados inscrito no círculo unitário.
Na …gura abaixo, vemos as raízes cúbicas (3-ésimas) da unidade.
y
w2
O 1 x
w2 2
Proposition 9 Fixado n 2 N, tem-se
(a) Para todo k 2 Z; wnk = 1 , njk
(b) Para todos k; l 2 Z, wnk = wnl , nj(k l).
Proof. (a): Pelo algoritmo da divisão, temos k = nq + r, onde q; r 2 Z e
r 2 f0; 1; :::; n 1g. Se kjn, é claro que wnk = 1. Reciprocamente, se 1 = wnk =
wnnq+r = (wnn )q wnr = wnr , então, como n é o menor inteiro h > 0 tal que wnh = 1,
segue-se r = 0.
(b): Temos wnk = wnl , wnk l = 1 , nj(k l).
Fixado n 2, façamos w = wn . Se u é uma das raízes n-ésimas de z,
é claro que u; uw; uw2 ; :::; uwn 1 são todas as raízes de z. Notemos uwk é o
2k
número complexo obtido incrementando-se radianos ao argumento de u,
n
k = 0; 1; :::;p
0. Assim, dados inteiros m;
p n 1, primos entre si, tem-se:
m 1 m
(z m )n = n rm e n i wj , (z n )m = ( n r)m e n i wkm , com j; k 2 f0; 1; :::; n
1 1
1g. Veri…quemos que os conjuntos de valores para (z m ) n e (z n )m coinci-
dem. Em primeiro lugar, se k; l 2 f0; 1; :::; n 1g, temos wkm = wlm ,
w(k l)mn = 1 , nj(k l)m , nj(ko l) , wk = wl , k = l: Segue-
n o
p m p m
se que n
rm e n i wj : 0 j n 1 = ( n r)m e n i wkm : 0 k n 1 e
m
podemos, de…nir a potência racional z n como os n números complexos nesse
conjunto. Assim,
3.2. PRODUTO, QUOCIENTE E RADICIAÇÃO 9
m p
n
(m=n)( +2k )
zn = rm e n , onde k = 0; 1; :::; n 1.
Então, teremos z r1 +r2 = z r1 z r2 , para todos ri 2 Q, i = 1; 2. Resulta que
1
z r = r , para z 6= 0 e r 2 Q: Em particular, se z 6= 0, tem-se z 0 = z 1 1 =
z
z=z = 1: Notemos que, preservando a lei dos expoentes em geral, 00 = 0=0 é uma
indeterminação. Por isso, na de…nição de z u ; …ca excluído o caso z = u = 0:
3.2.4 Raízes quadradas
Seja 0 6= z = a + bi, onde a; b 2 R. Queremos encontrar as soluções da equação
w2 = z, i. e. queremos determinar x; y 2 R tais que (x + yi)2 = a + bi.
Desenvolvendo o quadrado, e comparando as partes real e imaginária, temos,
equivalentemente:
x2 y2 = a
2xy = b
p p
Se b = 0, i. e. se z é um número real, então w = a, se a 0; w = i jaj, se
b b2
a < 0: Supondo b 6= 0, tem-se x 6= 0, y 6= 0 e y = . Portanto, x2 =a,
2x 4x2
2 2 2 2 2
(2x ) 2a(2x
p ) b = 0. Resolvendo
p a equação quadrática em 2x , obtemos
2a 4a 2 + 4b2 a a 2 + b2 p
x2 = = . Notemos que a2 + b2 > jaj. Assim,
4 2
temos dois casos:
1.o ) a r 0
p q
a + a2 + b2 1 p 1 pp 2
x= = p jaj + a2 + b2 ou x = i a + b2 a.
2 p 2 p 2
2.o ) a < 0 ) jaj = a < a2 + b2 ) a + a2 + b2 > 0
1 p p 1 pp 2
)x= p a + a2 + b2 ou x = p i a + b2 a
2 2
y 2 x2 = a
Repetindo a mesma dedução para y no sistema , obtemos
2xy = b
1 p p 1 pp 2
y= p a + a2 + b2 ou y = p i a + b2 + a. Temos então que es-
2 2
colher entre 4 pares (x; y) de soluções possíveis, somente aquelas que satisfazem
b
à condição xy = . Assim, para b > 0, devemos ter:
2
1 p p 1 p p
(x = p a + a2 + b2 e y = p a + a2 + b2 ) ou
2 2
1 p p
2 2
1 p p
(x = p a+ a +b e y = p a + a2 + b2 ).
2 2
Para b < 0, obtemos
10 CHAPTER 3. NÚMEROS COMPLEXOS
1 p p 1 p p
(x = p a + a2 + b2 e y = p a + a2 + b2 ) ou
2 2
1 p p
2 2
1 p p
(x = p a+ a +b e y = p a + a2 + b2 ).
2 2
Assim, as raízes quadradas de 0 6= z = a + bi são dadas por
8 p p p p
>
> a + a2 + b2 + i a + a2 + b2
>
> p , para b > 0
>
> 2p
>
< p p p
1
z2 = a + a2 + b2 i a + a2 + b2
> p , para b < 0
>
> p 2
>
> a, para b = 0 e a > 0
>
> p
:
i jaj, para b = 0 e a < 0
1 1
Example 10 Determinemos ( 7 24i) 2 e ( 8) 2 : Usaremos as fórmulas
p acima. p
p p
1 7 + 625 i 7 + 625
Temos a = 7, b = 24. Logo, b < 0 e, portanto, ( 7 24i) 2 = p =
p p p p 2
18 i 32 3 2 4i 2 1
p = p = (3 4i): Tomando a = 8; b = 0, ( 8) 2 =
p 2 p 2
i 8 = i2 2.
3.3 Exercícios
1. Expresse na forma a + bi, onde a; b 2 R, os seguintes números complexos:
(a) (2 + 3i)( 5i) + 7 23i
(b) 31 2i + ( 2i 30)
1+i p p
(c) + ( 3 + 2i)(3 i 2) + 1
3 4i
1 1
(d) (1 i)( + i)
2 3
(e) (1 + i) + (1 + 2i) + ::: + (1 + ni); n 2 N
(f) (1 + i) + (1 + i)2 + ::: + (1 + i)n ; n 2 N
i
(g) 1p7i
5
p 4 1
(h) (i 23) + ( ) 5
i
(i) (a + bi)(b + ai), onde a e b são números reais
(j) i2k , para k par e k ímpar.
2. Dados números reais a e b, prove que
(a) 2a(1 + bi) + [(a bi)]2 = (a + 1)2 (1 + b2 )
3.3. EXERCÍCIOS 11
(b) (1 + i)3 = 2(1 i)
2
(c) (a + bi) (a bi) = (a2 + b2 )2
2
(d) (a + bi)2 (a bi)2 = 2(a + bi)
(e) Para cada n 2 N, tem-se: (a + bi)n (a bi)n = (a2 + b2 )n :
(f) (a + bi) + (a bi) + ::: + (a + bi) + (a bi) = 2na; onde n é o número
de parcelas repetidas.
3. Use a regra do paralelogramo para representar z+w e z w, para z = 1 5i;
1
w= + 3i.
2
4. Mostre que
(a) <[ i(2 3 3i)3 ] =
p
2+i 2+ 3
(b) =( p )=
3 i 4
5. Prove que um número complexo z é real se e somente se z = z.
6. Seja z 2 C uma raiz da equação algébrica com coe…cientes reais xn +
a1 xn 1 + ::: + an = 0; n 1 ( ) : Mostre que z 2 C é raiz de ( ).
1
7. Mostre que se z e w são dois números complexos distintos, então (z + w)
2
é o ponto médio do segmento de reta ligando z e w.
8. Usando a regra do paralelogramo, prove geometricamente a desigualdade
triangular: jz + wj jzj + jwj, para todos z; w 2 C.
2 2 2 2
9. Prove que jz + wj + jw zj = 2(jzj + jwj ):
10. Se jw1 j =
6 jw2 j, então, para cada z 2 C, vale :
z jzj
j j
w1 + w2 jjw1 jj jw2 j
p
11. Determine o argumento principal de z = ( 3 i)6 .
12. Seja o argumento principal de z: Determine o argumento principal de z.
p p
13. Use a forma polar para mostrar que (1 + i 3) 10 = 2 11 ( 1 + i 3).
14. Se z = ei , prove que eiz = e r sen .
15. Escreva os seguintes números complexos na forma cartesiana a + bi, onde
a; b 2 R.
(a) 2ei
3
(b) ei 2
i4
(c) 5e
12 CHAPTER 3. NÚMEROS COMPLEXOS
2
(d) (1=3)ei 3
3
(e) ei .
16. Escreva os seguintes números complexos na forma polar
(a) 3 + 3i
p
(b) 1+i 3
p
(c) 3+i
i 3
(d) ( )
1 i
4
(e) p
3 i
17. Desenvolva (cos + i sen )n pelo binômio de Newton e pela fórmula de
Moivre, para encontrar expressões para cosn e senn , para n = 3; 4.
Generalize para n par, e n ímpar.
18. Mostre que
p p
(a) 3 + i (1 3i) = 2 10
p
2 i 3 p
(b) = 7=5.
2+i
19. Estabeleça a identidade de Euler : ei = 1.
20. Estabeleça as fórmulas de Euler :
ei + e i
(a) cos =
2
i i
e e
(b) sen =
2i
21. Sejam z; w 2 C : Use a representação polar para provar que <(zw) =
jzj jwj se e somente se arg w arg z é um múltiplo inteiro de 2 .
22. Use o resultado do exercício 17 para provar que jz + wj = jzj + jwj se e
somente se arg w arg z é um múltiplo inteiro de 2 .
1 z n+1
23. Mostre que 1 + z + z 2 + ::: + z n = (z 6= 1).
1 z
24. Seja w 2 C uma raiz n-ésima da unidade não real. Prove que 1 + w + w2 +
::: + wn 1 = 0.
25. Determine as raízes primitivas décimas da unidade em C.
26. Represente gra…camente as raízes oitavas da unidade, destacando as raízes
primitivas.
3.3. EXERCÍCIOS 13
27. Encontre todos os valores para as seguintes raízes n-ésimas
(a) (3i)1=2
(b) ( 1)1=4
(c) 81=3
(d) ( i)1=5 :
28. Determine as seguintes raízes quadradas
(a) (1 3i)1=2
(b) ( 2 + i)1=2
(c) ( + 7i)1=2
(d) i1=2 :
29. Desenhe os seguintes subconjuntos do plano complexo
n o
(a) A = z 2 C : jzj 3 e arg z
3 2
(b) B = fz 2 C : 1 < jz 2ij 2g
(c) C = fz 2 C : =(z) < 1g :
30. Sejam ; 2 C tais que j j = j j e > 0. Prove = .