0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 45 visualizações14 páginasCap 3 o Cará Ter Educativo Dos Movimentos Populares
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MOVIMENTOS SOCIAIS EEDUCAGAO 0
os movimentos sociais — final dos anos 1970. Quando a
produgao sobre os movimentos sociais cresce, ocorre o in-
verso com a educacao popular — ela declina.
4) No exame dos principios e métodos da educagaio
popular encontramos varias manifestagdes que se fazem
presentes, concretamente, nos movimentos sociais popula-
res dos anos 1980.
Vamos examinar mais detalhadamente os quatro itens
assinalados, pois eles so basicos para fundamentar a seguin-
te hip6tese: os movimentos sociais populares sao formas
renovadas de educagao popular. Eles nao ocorrem através de
um programa previamente estabelecido, mas através dos
princfpios que fundamentaram programas de educagaio po-
pular, formulados por agentes institucionais determinados,
tais como grupos de assessorias articulados a Igrejas, a par-
tidos politicos, a universidades, a instituigdes governamentais
nacionais e internacionais, a sindicatos etc. As metodologias
de operacionalizagao daqueles programas foram formuladas
pelos agentes assessores dos movimentos. A aplicacao e di-
fusdo da metodologia desenvolveu-se a partir do trabalho das
liderangas da parcela da populagio organizada.
1.0 desenvolvimento auténomo da literatura sobre
educacao popular e movimento social popular urbano
Varias resenhas e teses ja foram feitas sobre a literatu-
ra acerca da educagao popular. Uma das mais importantes
foi a de C. R. Brandao: Da educagdo fundamental ao funda-
mental da educagao.'
1.€.R Brandio: “Da Educaco Fundamental ao Fundamental da Educacio’
Cadernos Cedes, Sa0 Paulo, Corte?, n. 1, 1980. & importante registrar que, embora= [MARIA DA GLORIA GON
O autor demarca duas grandes fases nas praticas histo-
ricas que marcaram estilos e concep¢ées de programas de
educacao popular. A fase primitiva e a fase atual, apos a dé-
cada de 1960 (ainda que possamos encontrar varios exemplos
da fase primitiva em programas oficiais governamentais).
‘A fase atual teria também, segundo Brandao, varios
momentos, todos articulados a educagao fundamental: 1) a
instauracio na América Latina, a partir de programas da
Inglaterra e da Dinamarca, difundidos pela Unesco; 2) a
educacao fundamental no desenvolvimento comunitario —
significando o transporte para um plano comunitario do que
antes era previsto para 0 individuo. Preconiza-se a mudanca
do proprio mundo dos educandos através da atualizagao da
aquisigao de novos conhecimentos e novas habilidades pro-
fissionais, assim como das atitudes pessoais, de forma que
se tornassem agentes efetivos de desenvolvimento social; 3)
a educacdo fundamental passa a ser pensada no contexto do
desenvolvimento socioecondmico, buscava-se promover
“modificagdes de atitudes sobre bases mais econdmicas do
que ‘sociais’, e mais politicas do que comunitarias’ (Brandao,
1980, p. 16); 4) a educago popular propriamente dita. Aqui
se inverte a correlagdio — da educacao fundamental para 0
fundamental da educagéo. O MEB — Movimento de Educagao
de Base — e os programas do Sistema Paulo Freire sao citados
como exemplos tipicos desta fase. Posteriormente retomare-
mos os principios desta fase pois eles sfio 0 elo de transigao
entre a producao sobre a educacao popular e a pratica efeti-
va de varios movimentos sociais.
‘autor no considere seu texto uma resenha sobre o assunto, de fato ele cumprit'
papel de resenha, nao no sentido tradicional de listar e analisar autores e corren-
tes, mas num sentido novo: de classificar correntes hist le ‘ipios fil
8 correntes historicas de principios filo-
soficos e de aco sociopolitica[MOVIMENTOS SOCIAIS EEDUCAGAO st
2. A producao das ciéncias sociais no Brasil no periodo
dos programas sobre a educacao popular
Sabemos que durante a chamada fase primitiva dos
programas de educacao popular no Brasil, as ciéncias sociais
engatinhavam nos textos de Fernando Azevedo, Gilberto
Freire, Caio Prado ¢ tantos outros que tratavam da identi-
dade nacional e das fases do desenvolvimento brasileiro. A
década de 1950 trouxe grande quantidade de estudos em-
basados no nacional desenvolvimentismo, onde os estudos
sobre raga, cultura, costumes, idioma etc. ganharam desta-
que. Os estudos criticos de Florestan Fernandes sobre o
negro; de Octavio Ianni sobre os processos de acultura¢ao;
de Maria Isaura Pereira de Queirés sobre as populacoes
rurais; de Antonio Candido sobre os caipiras do interior ete.
sao exemplos desse periodo. Ao lado deles, estudos mais
empiricos, de base fundamental funcionalista, como os de
Donald Pierson, Emilio Willens e tantos outros a “brasilia-
nistas” da época, preocupados com os estudos de desenvol-
vimento de comunidade, contribuiram para a “descoberta”
de nossa realidade, através de descrigdes pormenorizadas.
A década de 1960 sofreu grande influéncia da sociolo-
gia francesa, particularmente de R. Aron, A. Touraine, G.
Gurvitch, J. Lambert, além de outros pensadores como
Sartre, Marcuse etc. Foi o inicio de uma safra de estudos
brilhantes a desvendar a realidade brasileira: Florestan
Fernandes e a sociologia brasileira; Fernando Henrique
Cardoso e seu trabalho sobre os empresarios; Luis Pereira
© a classe operaria; Leoncio Martins Rodrigues e Albertino
Rodrigues sobre os sindicatos; Octavio Ianni sobre o impe-
rialismo na América Latina; Paul Singer e os primeiros
estudos sobre a urbanizagao das principais capitais brasilei-82 [MARIA DA GLORIA GOHN
ras; Celso Furtado apresentava um projeto para 0 Brasil ete.
Vivia-se também 0 auge da teoria da modernizacao social,
com os estudos de Gino Germani, Jorge Graciarena, Aldo
Solari e outros, estimulados pelos estudos de Cepal. A cri-
tica a esta ultima corrente, particularmente a realizada por
Enzo Faletto e F. H. Cardoso, constr6i as bases para a teoria
de dependéncia. Criticaram-se as bases da teoria de moder-
niza¢ao e seus fundamentos baseados nas escalas de estra-
tificagdo social, nos dualismos, na busca das semelhancas
e diferencas entre 0s modelos. A produgao se empenhou
na reflexao sobre a especificidade da América Latina.
Entretanto, a fase da teoria da modernizacao ocorreu
paralelamente aos programas de educagao popular. Isto por-
que a educagdo era um dos pilares fundamentais daquela
teoria, na transicao da sociedade arcaica para a moderna. A
educacao era um instrumento apresentado como uma técni-
ca, mas que na realidade tinha caracteristicas politicas. Varias
vertentes da teoria da modernizagéo desemborcaram nas
teorias da marginalidade social, téo bem criticada por Lucio
Kowarick em seu estudo sobre capitalismo e marginalidade.
A sistematizagao e a critica dos programas e métodos de
educacao popular ocorreram na década de 1970 com os es-
tudos de Rui Beiseguel, Vanilda Paiva, Silvia Manfredi, C. R.
Brandao, L. E. Wanderley, Aida Bezerra, entre outros, para
ficarmos apenas na literatura brasileira. Mas a conjuntura
politica daqueles anos era de busca de alternativas para a
saida do regime militar autoritario. Tudo o que estimulasse
as energias da sociedade civil, o saber dos oprimidos, a fala
do povo etc. era bem-visto e aceito como a alternativa politi-
ca possivel. A educagao popular entrou na moda nos palcos
de discussdes. Paralelamente, grupos de intelectuais come-
caram a se engajar em assessorias a movimentos populares[MOVIMENTOS SOCIAIS EEDUCAGAO 3S
embrionarios, de reivindicagdes por melhorias urbanas.
Neste momento ocorreu, a nosso ver, uma ruptura entre a
forma como a educagao popular era concebida até entdo —
como um programa previamente definido — com uma forma
nova de pratica social. Grupos de assessorias deixam de levar
material ja pronto para trabalharem com os grupos populares
e passam a estimular a produgdo daqueles materiais, em
conjunto com os proprios interessados. Oficinas de trabalho
se estruturam, no sentido de Freinet (1969), para produzirem
cartilhas sobre as demandas populares sobre o papel do sa-
neamento basico na vida das pessoas; da importancia da
educagao da mulher, do carater educacional que o equipa-
mento creche deve ter etc. E as demandas encontram um
alvo privilegiado: 0 poder ptiblico local.
A partir deste momento o quadro, tanto da pratica
social como da produgao te6rica, se reestrutura. Na area da
educacao, os programas “alternativos’ da educacao popular
se transformam em trabalhos coletivos de equipes junto a
populagdes pobres de areas especificas: os Sem Terra da
zona Leste, os Filhos da Terra da zona Norte, os Favelados
do Ipiranga etc. etc. Assume-se 0 carater politico dos traba-
Ihos e desassume-se seu carater de educagao para alfabeti-
zacao e/ou escolarizagao entrecortado pela politizagao. A
politizacdo nao passa mais, necessariamente, pela aquisigao
dos rudimentos da educagao formal. Ao lado deste cendrio
proliferam-se programas oficiais de educagao formal dada
de modo informal: os projetos Mobral, Minerva, Saci, e
outros, todos fracassados em suas principais metas. Novos
programas de desenvolvimento de comunidade sao reedi-
tados, agora com o slogan de “direito social”. Entra-se, ja nos
anos 1980, em nova era da politica de bem-estar social, de
contetido neoliberal, recuperando praticas do capitalismoa [MARIA DA GLORIA GOHN,
em suas fases mais selvagens, como a distribuigao de tickets
de leite, passes gratuitos, vale refeig6es etc. Ou seja, ao
aumento da miséria responde-se com assistencialismo.
Os principio que embasavam os programas tidos como
progressistas na area da educagao popular, particularmente
0 Sistema Paulo Freire, pressupunham que “as populagoes
mais marginalizadas ¢ mais pobres se apropriem de um
novo saber-instrumento; um saber que pode ser usado di-
retamente na realizacao dos objetivos sociais destas cama-
das’ (Brando, 1980, p. 29). Os objetivos sociais dessas ca-
madas, particularmente as do setor urbano, passaram a ser
vistos como 0 resgate de sua cidadania, definida como a
obtengdo de patamares condignos de subsisténcia, direito
a satide, a educagao, ao lazer, 4 moradia etc. Nao se tratava
mais de obter apenas padrées novos de sociabilidade ou
habilitagdes novas para 0 convivio no meio urbano-indus-
trial. Tratava-se de resgatar a dignidade do ser humano,
perdida sob as condigées indignas de sobrevivéncia no meio
urbano do capitalismo selvagem brasileiro.
O principio basico adotado da educacao popular foi 0
do desenvolvimento de uma agao pedagégica conscientiza-
dora, que deveria atuar sobre 0 nivel cultural das camadas
populares, em termos explicitos dos interesses delas. O
ponto de partida deveria ser uma andlise dos “determinan-
tes do estado atual da cultura do povo"? e da formulacao de
projetos populares de “atualizaciio social’.
Ap6s mais de uma década de praticas concretas dos
movimentos populares, observamos que o trabalho sobre 0s
determinantes da cultura do povo foi plenamente realizado.
2. Of. J, Barreiro. Op. cit. in C, R. Brandao, p. 29.MOVIMENTOS SOCIAIS EEDUCAGAO ‘6
Atuou-se sobre as dimensdes socioeconémicas e politicas do
cotidiano popular. Mas nao se formularam projetos realmen-
te populares, a partir da manifestacdo das bases. Formula-
ram-se projetos vistos como de interesse social, a partir do
trabalho das assessorias. Varios movimentos entraram em
crise quando as assessorias desassumiram o movimento por
algum motivo. E a produgio teérica a respeito? Na area de
educacao popular ela estagnou. Limitou-se ao registro de ex-
periéncias em andamento. A critica aos programas oficiais
€ ao escopo teérico de varios analistas sobre a educacao
popular, levou a um refluxo da producao. Alguns analistas
passaram a estudar a cultura — a se dedicarem a antropolo-
gia, grande vedete da producao intelectual nos anos 1980
—e praticamente abandonaram a educagio popular.
Nas ciéncias sociais, a critica a teoria da marginalidade
foi substituida por outro objeto privilegiado de investigacaio
— os movimentos sociais — de variadas matizes: mulheres,
negros, populares de periferia, pacifistas, politico-partida-
rios, sindicais, religiosos etc. Dentre estes, destacam-se os
estudos sobre os movimentos sociais populares urbanos que
so, a nosso ver, uma continuidade da produgao sobre a
educagao popular, com uma diferenga basica: nao se trata
mais de analisar programas mas sim de manifestages con-
cretas produzidas por grupos organizados,
A partir de que elementos pode-se estabelecer a cone-
xdo entre os programas de educagao popular e os movimen-
tos sociais organizados? A partir do trabalho das assessorias.
Para nés, nao existe movimento social puro, isolado, forma-
do apenas de participantes populares, da base. Sempre ha
3. A este respeito vide M. G. Gohn, Movimentos sociais: balangos e perspecti-
vas, Sio Paulo: ANSUR. Ed. F.G., 1990.my [MARIA DA GLORIA GOHN
a presenga de elementos externos ao grupo demandatario.
Externos no sentido de pertencerem a outra categoria social,
mas existe uma base de coesio ideolégica comum que cria
lagos de afinidades e objetivos tinicos.
Os grupos organizados de assessorias, particularmente
0s vinculados a ala progressista da Igreja Catélica, passaram,
nos anos 1980, a militar junto as populagées periféricas no
sentido de organizé-las para pressionarem os poderes pui-
blicos. Esta linha de atuag4o funcionou bem até a metade
da década de 1980. A partir dai, as assessorias entraram em
crise porque as ctipulas religiosas passaram a pressionar €
a punir este tipo de atuacdo. Alguns movimentos sociais
também entraram em crise. Outros se transfiguraram em
agéncias do novo poder local constituido a partir das admi-
nistragdes populares eleitas pelo voto popular.
3. O carater educativo dos movimentos populares
propriamente ditos
Se 0s movimentos populares sdo uma extensdo das
praticas educativas desenvolvidas pelos programas de edu-
cagdo popular progressistas, como podemos demarcar 0
processo educativo existente? Num programa esta tarefa €
relativamente facil. Ha metas, objetivos, contetdos a serem
trabalhados, formas de atuagao etc. Nos movimentos sociais
a educagao é autoconstruida no processo e 0 educativo
surge de diferentes fontes, a saber:
1) Da aprendizagem gerada com a experiéncia de con-
tato com fontes de exercicio do poder.
2) Da aprendizagem gerada pelo exercicio repetido de
agGes rotineiras que a burocracia estatal impoe.[MOVIMENTOS SOCIAIS EEDUCAGAO e
3) Da aprendizagem das diferengas existentes na rea-
lidade social a partir da percepcdo das distingdes nos trata-
mentos que os diferentes grupos sociais recebem de suas
demandas.
4) Da aprendizagem gerada pelo contato com as asses-
sorias contratadas ou que apoiam o movimento.
5) Da aprendizagem da desmistificacao da autoridade
como sinénimo de competéncia, a qual seria sinonimo de
conhecimento. O desconhecimento de grande parte dos
“doutores de gabinete” de questées elementares do exercicio
cotidiano do poder revela os fundamentos desse poder: a
defesa de interesses de grupos ¢ camadas.
Essas fontes e formas de saber, no caso dos movimentos,
constituem um instrumento poderoso das classes populares,
no sentido de atingirem seus objetivos. Este saber gera mo-
bilizagdes e inquietagdes que poem em risco o poder cons-
tituido, ainda que seja um poder exercido por uma adminis-
tragao dita popular. E as contradiges aparecem de forma
inevitavel: a desqualificagao do saber como anarquico e a
necessidade de uma racionalidade baseada na eficiéncia.
saber popular politizado, condensado em praticas
politicas participativas, torna-se uma ameaga Aas classes
dominantes a medida que ele reivindica espacos nos apa-
relhos estatais, através de conselhos etc. com carter deli-
berativo, Isto porque o saber popular estaria invadindo o
campo de construgao da teia de dominagao das redes de
relagées sociais e da vida social. Nestes casos observa-se a
tentativa frequente de delimitar aquele poder ao aspecto
consultivo porque, desta forma, legitimam-se os processos
de dominagao, sem colocar em risco sua estrutura e orga-
nizagdo. Sendo apenas consultivos, os conselhos continua-= MARIA DA GLORIA GOH
Ho com seus problemas estruturais de base (instabilidade
¢ isolamento) em contraposigao a dindmica da maquina
estatal (lentidao, rigidez, burocratizacao).
4, As formas de manifestacao do carater educativo quea
pratica nos movimentos populares gera
© ponto fundamental de alteragao que a pratica coti-
diana dos movimentos populares opera é na natureza das
relagées sociais. Nao se trata de um processo apenas de
aprendizagem individual, que resulta num proceso de po-
litizagao dos seus participantes. Esta é uma de suas faces
mais visiveis. Trata-se do desenvolvimento da consciéncia
individual. Entretanto, o resultado mais importante é dado
no plano coletivo. As praticas reivindicatorias servem nao
apenas como indicadores das demandas e necessidades de
mudancas, reorientando as politicas e os governantes em
busca de legitimidade. As praticas reivindicatorias dos mo-
vimentos passam por processos de transformagao, na es-
trutura das maquinas burocraticas estatais e nos proprios
movimentos sociais. A pressao e a resisténcia tém como
efeitos demarcarem alteragoes
envolvidos. Neste sentido, o carater educativo é duplo: para
0 demandatario e para o agente governamental, controla-
dor/gestor do bem demandado.
nas relagGes entre os agentes
No Brasil dos anos 1980, os movimentos sociais, patti-
cularmente os de carater popular, foram 0 lume que orien-
vill
tou os ténues avangos democriticos que a sociedade
obteve. Eles reorientaram as relagées sociais tecnocraticas
© autoritérias para formas menos coercitivas. Fizeram-se
Teconhecer na arena politica como interlocutores validosMOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAGAO s
necessarios, particularmente na transigao operada através
de processos constitucionais.
Cumpre destacar, porém, que a qualidade ¢ o sentido
das relagGes sociais transformadas nos processos de inte-
ragdo movimento-poder governamental, sio miltiplos.
Isto porque o processo é permeado por lutas constantes,
divergéncias de grupos com interesses conflitantes. Assim
sendo, os efeitos educativos nas massas e nos dirigentes
defensores das classes dominantes so também diversos.
O efeito educativo para estes traduziu-se num conheci-
mento dos sentimentos e das aspiragoes populares, conhe-
cimento este que serviu de base para a rearticulagao da
hegemonia das classes dominantes, em crise desde o final
dos anos 1970.
O projeto Collor é a expresso maxima desta rear-
ticulacao, de forma que possibilitou a retomada do poder
central do pais pelos interesses conservadores. Observa-se
a partir de entao uma grande dificuldade, por parte dos
movimentos populares, em terem a mesma desenvoltura
de antes. Entre eles ¢ a base demandataria se estabeleceu
uma ruptura, que sido as promessas € as politicas assisten-
cialistas do novo governo. De tal forma que, para continuar
a ter 0 mesmo peso nas relagdes sociais em andamento,
nas questdes que dizem respeito as demandas sociais po-
pulares, os movimentos populares necessitam elaborar
novas politicas e novas estratégias, que certamente redun-
dardio em novas fontes educativas, gerando caminhos de
alteragdes nas relagées sociais vigentes. E, para nos, este
caminho é dado por uma volta, um retorno a sociedade
civil, um recuo estratégico para reorganizar a contra-he-
gemonia popular.MARIA DA GLORIA GOHN
5, O retorno necessario
Os anos 1960 foram de sonhos ¢ utopias, em torno de
propostas de uma sociedade mais justa, igualitaria e solida-
tia. Os anos 1970 foram de lutas e resisténcias coletivas, em
pusca do resgate de direitos da cidadania cassada e contra
co autoritarismo vigente. Os anos 1980 foram de negociagées,
aliancas, pactos; construgao de estratégias num longo pro-
cesso de transicao, que esperavamos que fosse na direcao
das ideias dos anos 1960, sufocados e arduamente defendi-
dos nos anos 1970. Doce ilusao. O que temos pela frente
para os anos 1990? Nada animador. Os mitos, as referéncias,
os sonhos € as ilusdes parecem se desmoronar como icones
de areia na beira da praia. Tantas falas, tantas lutas, tanta
energia gasta! E as ligdes parecem ter sido aprendidas pelos
atores errados. As bandeiras reivindicatérias coletivas de
grupos progressistas foram apropriadas pelos conservadores.
A forca do coletivo se esvaziou. A solidariedade foi se tor-
nando uma cangdo distante. A luta imediata é pela sobre-
vivéncia fisica: 0 emprego, a fuga aos efeitos da recessio; 0
medo da volta ao autoritarismo etc. Companheiros que lu-
taram juntos durante décadas hoje competem entre si, em
richas e querelas secundarias, na defesa de seus redutos €
Propostas politico-eleitorais, deslumbrados e ofuscados pelo
poder local. Que fazer? Velha questio, nova indagagao.
Lembro-me de antigos ensinamentos: “a questdo nao é
lutar pelo poder estatal mas construir uma nova sociedade,
baseada em novas relagées sociais". No passado, ignoramos
estes ensinamentos pois achavamos que a nova sociedade,
Para ser construida, deveria passar por uma transforma¢a0
do poder do Estado. Alias, elegemos como meta atingitMOVIMENTOS SOCIAIS E EDUCAGAO i
este poder do Estado. Doce ilusdo! As franjas, as rebarbas
deste poder foram ocupadas por grupos que estdo, em mui-
tos casos, reproduzindo em novas versdes o que tanto
repudiavamos no passado. E agora... Que fazer?
Bater em retirada. Reorganizar a sociedade civil de uma
forma diferente. Nao mais em cima da utopia de um cole-
tivo abstrato, organizado pelas palavras de ordem de mino-
rias com sede de poder, ainda que um poder mais democra-
tico. Organizar a resisténcia a partir dos individuos, de suas
singularidades, de seus desejos e aspiracdes. Da felicidade
reconstruir a utopia. O que importa é ser feliz numa socie-
dade mais justa. Novos projetos precisam ser construidos,
novas esperangas gestadas. A partir destes pressupostos é
que deveremos construir novas praticas coletivas.
O que significa tudo isto? Reacionarismo, dirao alguns,
reformismo, outros. Despolitizacdo, equivocos, e tantos
outros adjetivos ja devem estar correndo solto na mente do
leitor, pretensamente cénscio de verdades que ele acredita
existirem.
A perplexidade assusta num primeiro momento, e
orienta a eclosdo de ideias num segundo. Temos incertezas
quanto aos caminhos a percorrer na construgdo da nova
utopia. Mas temos a certeza de que ela deve ser de carater
novo, dadas a articulagdo de desejos e aspiragdes racionais
€ no racionais dos individuos, com a ldgica objetiva das
agées coletivas que autodeterminam tarefas € caminhos a
percorrer, Sendo assim, a tarefa da sociedade civil € dar
meia-volta-volver, para que se reencontre. E chegada a hora
dos movimentos e da educacaio popular se reconciliarem.