PROCESSO CIVIL
LIVRO I
NOÇÕES GERAIS
Ao Estado foi dado o poder-dever de solucionar os conflitos. O Estado é
incumbido de zelar pela paz social.
Conceito
Processo Civil é o ramo do direito que contém as regras e os princípios
que tratam da jurisdição civil, da aplicação das leis aos casos concretos, para a
solução dos conflitos de interesses pelo Estado-juiz.
Direito Constitucional Processual: conjuntos de princípios e normas de
natureza processual civil que se encontram na Constituição.
Direito Processual Constitucional: conjunto de normas que regulam a
aplicação da jurisdição constitucional (ADI, ADPF)
A LEI PROCESSUAL CIVIL
Norma jurídica: princípio da supremacia da lei.
Principais características:
● Generalidade: aplica-se a todas as pessoas indistintamente;
● Imperatividade: impõe uma obrigação;
● Autorizamento: possibilidade de o lesado pela violação à norma
exigir-lhe o cumprimento, que não é o caso das normas religiosas e
morais;
● Permanência: norma vigora e prevalece até sua revogação;
● Emanação da autoridade competente.
Categorias de normas
● Cogente: de ordem pública, não pode ser derrogada pela vontade do
particular. É para resguardar os interesses da sociedade.
● Não cogente: dispositiva: imperatividade relativa.
Permissiva: quando autoriza o interessado derrogá-la.
Supletiva: aplicável na falta de disposição em contrário das
partes.
Podem as partes - com a fiscalização e supervisão do juiz - convencionar
alterações nos procedimentos, para adaptá-los às especificidades da causa
(negócio processual).
Fonte do direito
Expressão é equívoca: (pode significar) poder de criar normas jurídicas e a
maneira pela qual o direito se manifesta.
A fonte formal por excelência é a lei (fonte formal primária).
● Compete à União legislar sobre o direito processual.
● Competência concorrente à União e aos Estados para legislar sobre
“procedimento em matéria processual”, neste caso a União edita
normas gerais. Na ausência, a competência estadual é plena.
Interpretação da lei
O juiz deve partir do texto legal, mas não deve ficar restrito a ele. Deve
compreendê-lo à luz do sistema jurídico, buscando a finalidade com que a norma
foi editada.
Hermenêutica Jurídica
Métodos de interpretação
Quanto às fontes:
● Autêntica: norma editada pelo legislador para aclarar o sentido de
outra;
● Jurisprudencial: julgamento reiterado de casos julgados;
● Doutrinária: dada pelos estudiosos.
Quanto aos meios:
● Gramatical ou literal: o texto da lei. É o primeiro passo do processo
interpretativo.
● Sistemática: é aquela que examina a norma em sua relação com as
demais normas que integram o diploma em que ela está inserida e
com as demais que compõem o sistema.
● Teleológica ou finalística: buscar a finalidade para a qual a norma foi
criada.
● Histórica: interpretar de acordo com a evolução histórica. Inclui o
processo legislativo e as discussões que a precederam.
Quanto aos resultados:
● Extensiva: norma disse menos do que deveria; o intérprete estende a
sua aplicação para outras situações, que não aquelas originariamente
previstas.
● Restritiva: atribui alcance menor.
● Declarativa: nem estende, nem reduz.
Lei Processual Civil no Tempo
● A vigência estende-se até que seja revogada por lei posterior, que
expressamente o declare ou quando com ela seja incompatível ou
regule inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior.
● A regra é que as normas de processo tenham incidência imediata,
atingindo os processos em curso.
○ A lei nova deve respeitar os atos processuais já realizados e
consumados. O processo deve ser considerado um
encadeamento de atos isolados.
Em resumo:
● A lei processual atinge os processos em andamento.
● Vige o princípio do isolamento dos atos processuais: a lei nova
preserva os já realizados e aplica-se àqueles que estão por se realizar.
○ A lei nova não pode retroagir para prejudicar direitos
processuais adquiridos.
Lei nova que altera competência
Caso das novas normas que modificam competência: a competência é
apurada na data do registro ou da distribuição da petição inicial; são irrelevantes as
alterações de fato ou de direito supervenientes. É a perpetuatio jurisdictionis: lei
processual nova, que altera competência, não se aplica aos processos em
andamento.
● Exceções, em que a lei nova de competência alcança os
processos em curso: quando suprimir o órgão
judiciário ou alterar a competência absoluta.
PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO PROCESSO CIVIL
Não se confundem com os princípios informativos (ou formativos). São
regras técnicas, de conteúdo extrajurídico, para orientação e aplicação do direito:
● Lógico: a sequência dos atos processuais é lógica - os
supervenientes derivam dos precedentes;
● Econômico: obter o melhor resultado possível com o menor dispêndio
de recursos;
● Jurídico: respeitar as regras previamente estabelecidas no
ordenamento jurídico;
● Político: buscar o fim último, a pacificação social.
Princípios Gerais na CF/88
1. Princípio do devido processo legal: princípio da legalidade
Devido processo legal substancial e formal:
Formal - respeito às garantias e ao regramento legal;
Substancial: autolimitação ao poder estatal, que não pode editar normas que
ofendam a razoabilidade e afrontem as bases do regime democrático.
2. Princípio do acesso à justiça
Princípio da inafastabilidade da jurisdição.
É o direito de ação em sentido amplo, o direito de obter do Poder Judiciário
uma resposta aos requerimentos a ele dirigidos.
É amplo e incondicional: o Judiciário não pode se recusar a
examinar e a responder os pedidos que lhe foram formulados.
3. Princípio do contraditório
Dar ciência aos réus, executados e interessados, da existência do
processo, e aos litigantes de tudo o que nele se passa; e de permitir-lhes que se
manifestem, que apresentem suas razões.
CPC art. 10, veda-se a decisão-surpresa. Exemplo: o juiz não reconhecerá
a carência da ação antes de dar às partes a oportunidade de se manifestar. O
descumprimento aos arts. 9º e 10º implicará a nulidade da decisão, por ofensa ao
princípio do contraditório.
O contraditório é a concessão às partes de oportunidade de resistir à
pretensão formulada pelo adversário.
O réu se defende se desejar, tanto nos processos sobre interesses
disponíveis quanto indisponíveis.
Quantos os disponíveis, se o réu não se defender, o juiz
presumirá verdadeiros os fatos narrados na petição inicial, e
dispensa a produção de provas, e promove o julgamento
antecipado da lide.
Já naqueles indisponíveis, a falta de defesa não gera
a presunção de veracidade.
Há casos em que se justifica o contraditório
diferido, realizado a posteriori, nos casos em
que há risco iminente de prejuízo irreparável.
Prova emprestada: o princípio do contraditório exige que as partes tenham
oportunidade de participar da produção das provas.
Quando uma das partes traz prova produzida em outro processo, para
usá-la contra o seu adversário, o juiz só poderá admiti-la se esse
adversário tiver participado da produção dessa prova, no processo
anterior.
A prova emprestada não será admitida:
● caso a outra parte não tenha participado de sua produção
● se esta discordar, porque ele não participou do processo no
qual foi produzida, portanto não teve a oportunidade de
participar do contraditório, formulando quesitos e indicando
assistentes.
○ Pode a prova ser admitida se a outra parte concordar.
4. Princípio da duração razoável do processo
Princípio da isonomia: revela-se pela necessidade de dar às partes tratamento
igualitário em relação ao exercício de direitos e faculdades processuais, aos meios
de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais.
Isonomia real: uma lei criará situações reais mais justas quando, constatado o
desequilíbrio entre pessoas, favorecer as mais fracas, buscando aplainar as
diferenças.
O juiz, em determinadas situações, verificando que há grande desproporção
econômica ou social entre os litigantes, pode tomar determinadas providências, não
para favorecer uma das partes, mas para equilibrar o processo.
A isonomia e a ordem cronológica: a ordem cronológica preferencial para que
juízes e tribunais profiram sentenças ou acórdãos.
O juiz poderá deixar de observar a ordem cronológica não apenas nas hipóteses
previamente estabelecidas pelo §2º do art. 12, mas em outras em que, por qualquer
razão, ele entender que isso é justificável.
Não há necessidade de observar, preferencialmente, a ordem cronológica em todos
os pronunciamentos judiciais. Art. 12 refere-se a sentenças e acórdãos; não se
aplica aos despachos e decisões interlocutórias. Não haverá necessidade de
observar-se a ordem cronológica preferencial ainda que sejam proferidas decisões
interlocutórias de mérito.
Exceções:
1 As sentenças proferidas em audiência, homologatórias de acordo ou de
improcedência liminar do pedido;
2 O julgamento de processos em bloco para aplicação de tese jurídica firmada em
julgamento de casos repetitivos;
3 Julgamento de recursos repetitivos ou de incidente de resolução de demandas
repetitivas;
4 As decisões proferidas com base nos arts. 485 e 932: extinção sem resolução de
mérito; e as monocráticas prolatadas pelo relator;
5 O julgamento de embargos de declaração;
6 O julgamento de agravo interno;
7 As preferências legais e as metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de
Justiça;
8 Os processos criminais, nos órgãos jurisdicionais que tenham competência penal;
9 A causa que exija urgência no julgamento, assim reconhecida por decisão
fundamentada.
Princípio da imparcialidade do juiz (juiz natural)
Ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente.
Não haverá juízo ou tribunal de exceção.
O juiz natural é aquele cuja competência é apurada de acordo com regras
previamente existentes no ordenamento jurídico, e que não pode ser modificada a
posteriori.
O juiz natural não é apurável aleatoriamente, mas por regras prévias.
Exemplos de aplicação imediata de lei superveniente que não ofendem o princípio
do juiz natural.
1 Ações relacionadas a União Estável: eram julgadas pelas Varas Cíveis comuns,
depois atribuiu-se às Varas de Família, por status de entidade familiar; essas ações,
se não haviam sido julgadas, tiveram remessas para as varas de família.
Competência em razão da matéria é absoluta.
2 Ações de indenização fundadas em acidente de trabalho ajuizadas em face do
patrão - eram julgadas pela justiça comum; pela EC45/2004 tornou-se da justiça do
trabalho. Competência em razão da matéria. Remessa dos processos não
sentenciados.
3 Crimes contra a vida praticados por militares no exercício de sua função -
deixaram de ser competência da justiça especial militar e passaram à competência
do júri.
Promotor natural
Promotor com atribuições previamente conhecidas e fixadas para acompanhar
determinado caso e indicadas em regras anteriormente estabelecidas.
O papel deste princípio é limitar os poderes dos chefes da instituição
(procuradores-gerais) de designar promotores para, em caráter especial, funcionar
em determinados casos.
Princípio do duplo grau de jurisdição
Não há nenhum dispositivo que consagre, de maneira expressa, o duplo grau de
jurisdição em todos os processos.
Princípio da publicidade dos atos processuais
A publicidade é mecanismo de controle das decisões judiciais. A sociedade tem o
direito de conhecê-las, para poder fiscalizar os seus juízes e tribunais.
Princípio da motivação das decisões processuais
A fundamentação é indispensável para a fiscalização da atividade judiciária. Apenas
os despachos dispensam fundamentação.
PRINCÍPIOS INFRACONSTITUCIONAIS DO PROCESSO
1 Princípio dispositivo
1.1 A disponibilidade do direito material:
Se o direito discutido no processo é disponível, as partes estão autorizadas a
transigir.
1.2 O princípio dispositivo e a propositura da demanda
Cabe à parte interessada decidir se ingressa ou não em juízo, cabendo-lhe ainda
verificar qual o momento oportuno para tanto. O titular do direito pode, se o preferir,
não ingressar com ação nenhuma e sofrer as consequências de sua inércia.
1.3 O princípio dispositivo e os limites do conhecimento do juiz
Cabe ao autor indicar na PI os fundamentos de fato em que baseia o pedido. Juiz
não pode se afastar do pedido, nem dos fatos descritos na inicial, sob pena de a sua
sentença ser tida por extra petita, portanto, nula.
A cognição do juiz é limitada pelos fundamentos da inicial (causa de pedir).
A iniciativa tanto de propor a ação como de indicar o pedido e os fundamentos
fáticos em que ele se embasa é estritamente do autor.
Princípio dispositivo: a parte decide se e quando vai propor a ação, bem como qual
o pedido e os fundamentos que vai apresentar, o que circunscrever os limites da
cognição judicial. Vale para disponíveis e indisponíveis.
1.4 O princípio dispositivo e a produção de provas
O juiz tem poderes para investigar os fatos narrados, determinando as provas que
sejam necessárias para a formação do seu convencimento. A condução do
processo é de ofício pelo juiz.
1.5 O princípio dispositivo e as regras do ônus da prova
Há casos que, depois de encerrada a instrução o juiz não consegue apurar os fatos,
a verdade não aflora. A lei formula algumas normas técnicas de julgamento: são as
regras do ônus da prova, dirigidas pelo juiz, que as deve aplicar quando os fatos
não puderem ser esclarecidos. Qual dos litigantes deve sofrer a consequência
negativa decorrente da não apuração dos fatos.
As regras do ônus da prova devem ser utilizadas somente em último caso.
Princípio da oralidade: o que resta da oralidade é a necessidade de o julgador
aproximar-se o quanto possível da instrução e das provas realizadas ao longo do
processo.
Subprincípio da imediação: compete ao juiz do processo colher diretamente a prova
oral, sem intermediários.
Subprincípio da identidade física do juiz: art. 132 CPC 1973 - o juiz, titular ou
substituto, que concluir a audiência julgará a lide, salvo se estiver convocado,
licenciado, afastado por qualquer motivo, promovido ou aposentado, caso em que
passará os autos ao seu sucessor.
CPC de 2015 não consta este princípio. Tese: o princípio da identidade física do juiz
permanece no sistema atual, se não como lei expressa, ao menos como regra
principiológica. Não se justifica que, acolhido recentemente pelo Processo Penal, o
princípio seja eliminado do Processo Civil, sendo manifestamente benéficas as
consequências de sua adoção e sendo possível deduzi-lo do sistema geral de
oralidade acolhido pelo atual CPC.
Subprincípio da da concentração: a audiência de instrução deve ser una e
concentrada. Pode ocorrer em duas datas, a segunda continuação da primeira,
sendo apenas uma audiência.
Subprincípio da irrecorribilidade em separado das interlocutórias: apenas um
número restrito de decisões interlocutórias desafiará a interposição de recurso em
separado, as do rol do art. 1015: tais são recorríveis por agravo de instrumento, a
ser interposto no prazo de 15 dias úteis, sob pena de preclusão. As demais
interlocutórias que não integram o rol do art. 1015 não são recorríveis em separado,
pois contra elas não cabe agravo de instrumento, elas são irrecorríveis em
separado. Nos termos do art. 1009, §1º, não cabendo agravo de instrumento contra
elas, também não haverá preclusão, mas nas razões ou contrarrazões a ser
interposta contra a sentença, a parte prejudicada poderá postular ao órgão ad quem
que reexamine a decisão interlocutória, contra a qual não cabia agravo de
instrumento. A decisão poderá ser revista, mas não é recorrível em separado, mas
em conjunto com a sentença, devendo ser suscitada nas razões ou contrarrazões
de apelação.
Princípio da persuasão racional (ou livre convencimento motivado)
Sistemas gerais de avaliação da prova:
1 Sistema da prova legal: a lei predetermina qual o valor que o juiz deve dar a cada
prova; Há como que uma hierarquia legal de provas. Resquício, art. 406 CPC: lei
exige instrumento público como substância do ato, nenhuma outra prova pode
suprir-lhe a falta.
2 Sistema do livre convencimento puro, ou da consciência do juiz: autoriza o
magistrado a julgar conforme a sua convicção, sem necessidade de se fundar em
provas colhidas nos autos.
Sistema adotado no Brasil, o da persuasão racional ou livre convencimento
motivado. Cumpre o juiz forma o seu convencimento livremente, examinando as
provas produzidas. Mas essa convicção tem de estar embasada e fundamentada
nos elementos que constam dos autos.
Princípio da boa-fé
O Art. 80 CPC enumera as hipóteses em que haverá litigância de má-fé.
Todos aqueles que participam do processo devem proceder com lealdade e boa-fé.
A boa-fé é objetiva, que deve ser verificada pelo comportamento daqueles que
atuam no processo.
Princípio da cooperação
Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em
tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva: art. 6º CPC.
Melhor seria dizer: obter um provimento jurisdicional justo e efetivo.
LIVRO II
INSTITUTOS FUNDAMENTAIS DO PROCESSO CIVIL
São quatro: a jurisdição, a ação, a defesa (ou exceção) e o processo.
2 JURISDIÇÃO CIVIL
Jurisdição: função do Estado, pela qual ele, no intuito de solucionar os conflitos de
interesses em caráter coativo, aplica a lei geral e abstrata aos casos concretos que
lhe são submetidos.
Características essenciais da jurisdição
Substitutividade: o Estado substitui as partes na resolução dos litígios para
corresponder à exigência da imparcialidade.
Definitividade: somente as decisões judiciais adquirem, após certo momento, caráter
definitivo, não podendo ser modificadas.
Imperatividade: as decisões judiciais têm força coativa e obrigam os litigantes.
Inafastabilidade: o juiz não se escusa de julgar invocando lacuna.
Indelegabilidade: a função jurisdicional só pode ser exercida pelo Poder Judiciário.
Inércia: ela não se mobiliza senão mediante provocação do interessado.
Investidura: só exerce jurisdição quem ocupa o cargo de juiz.
ESPÉCIES DE JURISDIÇÃO
Jurisdição contenciosa e voluntária
Contenciosa: a parte busca obter uma determinação judicial que obrigue a parte
contrária.
Voluntária: a parte busca uma situação que valha para ela mesma. É possível que a
sentença beneficie ambas as partes. Serve para que o juiz tome determinadas
providências que são necessárias para a proteção de um ou ambos os sujeitos da
relação processual. Há corrente que diz que se trata de administração pública de
interesses privados.
Competência: é a medida da jurisdição. Ela quantificará a parcela de exercício da
jurisdição atribuída a determinado órgão.
3 DA COMPETÊNCIA
Homologação de sentença estrangeira
Originariamente cabia ao Supremo Tribunal Federal, agora é o STJ. Sem a
homologação a decisão estrangeira é absolutamente ineficaz.
Os arts. 21 e 22 do CPC enumeram as ações que a lei atribui à justiça brasileira
sem afastar eventual jurisdição concorrente da justiça estrangeira. São ações que,
se propostas no Brasil, podem ser conhecidas e julgadas.
O art. 23 enumera as hipóteses de jurisdição exclusiva da justiça brasileira.
Casos que não serão examinados pela justiça brasileira são apurados por exclusão.
Os arts. 21 a 23: caráter taxativo, as causas de jurisdição brasileira, o que não se
incluir em tais dispositivos não pode ser aqui processado e examinado. Proposta a
ação deste tipo, o processo haverá de ser extinto sem resolução de mérito.
COMPETÊNCIA INTERNA
A competência das justiças especiais é apurada de acordo com a matéria discutida
(ratione materiae). A das justiças comuns é supletiva: abrange todas as causas que
não forem de competência das especiais.
Conceito de foro e juízo
Foro indica a base territorial sobre a qual determinado órgão judiciário exerce a sua
competência. Perante a Justiça Estadual, foro é designação utilizada como sinônimo
de comarca.
Cuidado: frequentemente a palavra “foro” é utilizada por leis de organização
judiciária sem sentido diverso daquele do CPC, o que a torna equívoca. Em SP, por
exemplo, foro se refere às unidades jurídico-administrativas de competência, dentro
de uma mesma comarca.
Juízos são unidades judiciárias integradas pelo juiz e seus auxiliares. Na justiça
comum estadual o conceito de juízo coincide com o das varas. Uma comarca pode
ter numerosas varas, isto é, diversos juízos.
Apurar onde determinada demanda deve ocorrer: 1 CF; 2 Lei Federal (CPC); 3 Lei
Estadual de Organização Judiciária.
Competência absoluta e relativa
Competência relativa: sujeitas à modificação das partes. Entre as principais causas
de modificação são a prorrogação, a derrogação pela eleição de foro, a conexão e a
continência.
Somente a incompetência absoluta pode ser reconhecida pelo juiz de ofício. Não
sujeita a preclusão. Só não se pode mais alegá-la em recurso especial ou
extraordinário, não propriamente porque tenha havido preclusão, mas por força da
exigência específica de tais recursos, que pressupõem o prequestionamento.
Mesmo que transite em julgado, a incompetência absoluta ensejará o ajuizamento
de ação rescisória.
A incompetência absoluta pode ser arguida como preliminar de contestação sob
pena de preclusão.
A perpetuação de competência
É também perpetuatio jurisdictionis. Art. 43 CPC: a competência é determinada
no momento do registro ou distribuição da petição inicial.
Critérios para a fixação de competência: Giuseppe Chiovenda
O critério objetivo
Quando a competência for determinada pelo valor atribuído à causa ou pela matéria
que será discutida no processo. CPC não tem essas regras. Apenas as Leis de
Organização Judiciárias as tem. Pela CF há, para apurar se é trabalhista, militar ou
eleitoral.
O critério funcional
Abrange a competência hierárquica.
Competência territorial
Leva em conta a localização territorial, seja do domicílio dos litigantes, seja da
situação do imóvel que é disputado por eles.
Crítica à divisão tripartida de critérios de competência
Não inclui, por exemplo, o critério fundado na qualidade das pessoas que participam
do processo. Se um dos participantes é a União, a competência é da Justiça
Federal.
Às vezes podem ser relevantes os fundamentos em que se embasa o pedido.
Exemplo: ação de indenização, se tem fundamento em acidente de trânsito.
Como identificar se uma regra de competência é absoluta ou relativa?
1 As regras de competência fixadas pela Constituição são sempre absolutas;
2 Todas as normas do CPC que usam o critério funcional são de competência
absoluta;
3 Quando o CPC se vale do critério territorial, a regra é que a competência seja
relativa;
4 As regras do CPC fundadas no domicílio dos litigantes, do autor da herança, no
local de exercício da atividade principal, no local do ato, do dano ou do acidente são
de competência relativa;
5 Em relação às regras de competência definidas nas LOJ não há consenso de
opinião. Quando se valem do critério de matéria ou pessoa é incontroverso que a
competência do juízo é absoluta. Há controvérsia quando se vale do critério
territorial e do valor da causa: Cândido Dinamarco ensina que os critérios da LOJ
atendem o interesse geral da administração da Justiça, entende o professor que a
competência do juízo será absoluta quando fundada na matéria ou na pessoa, mas
relativa quando fundada no valor da causa. Tem prevalecido, no entanto, de que a
competência de juízo é sempre absoluta, seja quando a norma está fundada no
critério matéria ou na pessoa, seja ainda quando fundada no valor da causa ou no
território. É assim para melhor racionalização da atividade judiciária em um dado
local.
Regras gerais para a apuração de competência
1 se a ação pode ou não ser proposta perante a justiça brasileira;
2 Se é de competência originária do STF ou STJ;
3 Se a competência é de alguma das justiças especiais, arts. 114, 121 e 124 da CF;
4 Se é justiça comum federal ou estadual;
5 Qual o foro competente;
6 Qual o juízo competente: LEOJ.
Exame dos elementos da ação
Deve se conhecer os elementos da ação, indicados na petição inicial, considerados
in status assertionis. Para o exame da competência o juiz não deve examinar quais
deveriam, em tese, ser os elementos da ação, mas sim quais são, tais como fixados
pelo autor na inicial, sem examinar se eles foram escolhidos acertadamente ou não.
Competência da Justiça Federal
Art. 109 CF: as hipóteses estão fundadas na qualidade das pessoas que participam
do processo ou na matéria nele discutida, razão pela qual é sempre absoluta. São
da competência da Justiça Federal (inciso I) as causas em que a União, entidade
autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de autoras,
rés, assistentes ou oponentes (fundações públicas federais incluem-se no rol). As
causas das sociedades de economia mista são de competência da justiça estadual.
Exceções: as causas que são de competência das justiças especiais; e as que
versem sobre acidente de trabalho e falência.
Ações envolvendo acidente de trabalho são ajuizadas pela vítima em face do INSS
para postular benefícios a que faz jus. Ações indenizatórias ajuizadas pela vítima
em face do patrão são de competência da justiça do trabalho.
INSS é autarquia federal, em tese as ações em face do INSS seriam ajuizadas na
Justiça Federal. Não é o caso das ações que têm por fundamento um acidente de
trabalho, as acidentárias, que devem ser processadas perante a justiça comum
estadual. Mas as demais ações, que não as acidentárias, envolvendo o INSS são de
competência da Justiça Federal.
A quem compete decidir se há ou não interesse da União e entidades federais
Se um processo corre na Justiça Estadual, e é admitida a intervenção de um desses
entes (União, Autarquia, FP e EP), os autos terão de ser remetidos à Justiça
Federal.
STJ tem entendido que o juiz estadual pode indeferir o ingresso da União se o seu
pedido não vier acompanhado de uma fundamentação juridicamente razoável.
Foro comum
Art. 46 CPC: as ações pessoais, assim como as reais sobre bens móveis, devem
ser ajuizadas, em regra, no foro de domicílio do réu. Vale para o processo de
conhecimento e de execução.
As ações pessoais abrangem todas aquelas que versem sobre contratos,
obrigações em geral, responsabilidade civil e boa parte das ações envolvendo
direito de família e sucessões.
Se o bem for imóvel, e ação real, a competência será do foro da situação da coisa.
A definição de domicílio é dada pelo Código Civil.
Art. 46 CPC, critério territorial, com base no domicílio, portanto competência relativa.
Foros especiais
Foro de situação dos imóveis para as ações reais imobiliárias
Para fins de competência, as ações possessórias são consideradas reais
imobiliárias, e a competência para julgá-las é do foro da situação da coisa.
Sempre que houver cumulação de pedidos e um deles estiver fundado em direito
real sobre bem imóvel, deve prevalecer a competência absoluta do foro da situação
da coisa.
Foro competente para as ações de divórcio, separação, anulação de
casamento e reconhecimento ou dissolução de união estável
1 O CPC não manteve o foro privilegiado da mulher;
2 Foro é o do domicílio do guardião do filho incapaz;
3 Caso não haja filho incapaz, a competência é do foro do último domicílio do casal;
4 Se não residir nenhum na casa, será o foro do domicílio do réu;
5 Violência doméstica ou familiar: foro do domicílio da vítima;
Todas as hipóteses são de critério territorial, portanto são relativas.
Foro privilegiado do credor de alimentos e do idoso
A competência para as ações de alimentos é do domicílio ou residência do
alimentando. Critério territorial, relativa.
CPC, foro privilegiado do idoso, apenas para as ações que versem sobre direito
previsto no estatuto - foro de residência do idoso - idoso idade igual ou superior a 60
anos. Critério territorial, relativa.
Foro do lugar do cumprimento da obrigação
CPC: competente é o foro do lugar onde a obrigação deve ser satisfeita, nas ações
em que se lhe exigir o cumprimento.
Foro do lugar do ato ou fato
1 A das ações de reparação de dano em geral
2 A das ações em que for réu o administrador ou gestor de negócios alheios
As ações de indenização provenientes de acidente de veículo ou de fato tido por lei
como infração criminal, há alternativa: lugar do fato, ou no seu domicílio (autor).
Competência para as ações em que a União é parte
União é autora: foro de domicílio do réu. Se ré: na seção judiciária em que for
domiciliado o autor, naquela onde houver ocorrido o ato ou fato que deu origem à
demanda ou onde esteja situada a coisa, ou ainda, no Distrito Federal.
Estados Federados
Se autor, regra geral, art. 46, domicílio do réu. Se o Estado ou DF é réu, poderá ser
no domicílio do autor, no de ocorrência do ato ou fato, no de situação da coisa ou na
capital do ente.
Competência funcional
Sempre absoluta. Ocorre quando determinada demanda guarda vínculo com outra
anteriormente ajuizada, devendo ser processada onde corre a primeira. Exemplos:
oposição de embargos de terceiros; ação acessória perante o juiz da principal.
Competência de juízo: considerações
Estão formuladas nas leis de organizações judiciárias, se utilizam dos critérios: valor
da causa, matéria, territorial e funcional. É sempre competência absoluta.
No caso de eleição de foro, permite-se a escolha da comarca (foro) mas não o juízo.
A competência de juízo é sempre absoluta, não importa qual seja o critério.
A competência nos Juizados Especiais Civis
Saber se determinada demanda deve ou não ser proposta perante JEC não é tema
de competência, mas de procedimento. A lei 9099/95 criou um novo tipo de
procedimento. Critérios JEC: valor da causa (até 40 salários mínimos nos JEC
estaduais, e 60 nos federais) e a matéria. Não podem ações propostas por pessoas
jurídicas.
O procedimento do JEC é opcional. Porém, Juizado Especial Federal e o da
Fazenda Pública são obrigatórios.
A competência no juizado, ainda que territorial, é absoluta e pode ser declinada de
ofício, não haverá remessa dos autos, o juiz vai extinguir o processo sem
julgamento de mérito.
A MODIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIA
Só pode haver modificação de competência de foro nos casos em que for relativa;
nunca de juízo, pois esta é sempre absoluta.
Prorrogação de competência
Incompetência relativa: cumpre ao réu alegá-la como preliminar de contestação, sob
pena de haver preclusão.
Derrogação
Quando há eleição de foro; por contrato as partes escolhem qual será o foro
competente para processar e julgar futuras demandas. Só cabe eleição de foro em
ações oriundas de direitos e obrigações fundadas no direito das obrigações, art. 63
CPC. Diz o §1º que a cláusula deve constar de contrato escrito e aludir
expressamente a determinado negócio jurídico.
Não se permite eleição de foro nos casos de competência absoluta. As regras de
eleição de foro não prevalecem sobre as da conexão.
Eleição de foro em contrato de adesão?
A cláusula poderá valer, ou não, a depender do caso concreto, desde que não
prejudique o direito de acesso à justiça do aderente. Se, por exemplo, for relação de
direito do Consumidor, a cláusula só valerá se não for abusiva, não prejudicar os
direitos do consumidor, nem restringir o seu direito de defesa.
Antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada
ineficaz de ofício pelo juiz. É regra geral que a ineficácia de cláusula de eleição de
foro pode ser conhecida de ofício. Eis, portanto, um caso único em que a
incompetência relativa poderá ser reconhecida de ofício pelo juiz: quando ela
provier do reconhecimento de ineficácia do foro de eleição, antes da citação
do réu.
Conexão
É um mecanismo processual que permite a reunião de duas ou mais ações em
andamento, para que tenham um julgamento conjunto. A principal razão é que não
haja decisões conflitantes. A reunião ainda se justifica por razões de economia
processual.
O critério para definir a existência de conexão é o dos elementos da ação, são três:
as partes, a causa de pedir e o pedido.
Art. 55 CPC diz que são conexas duas ações quando lhes for comum o pedido ou a
causa de pedir (ou um ou outro). Desde que tenham elemento objetivo comum. Não
basta a coincidência das partes. Tem caráter finalístico, para evitar decisões
conflitantes, e favorecer a economia processual.
Não se justifica a reunião de ações se inexiste qualquer risco de sentenças
conflitantes, ou se a reunião não trouxer nenhum proveito em termos de economia
processual. Se há risco de resultados conflitantes, há de ser sempre reconhecida a
existência da conexão. A reunião é para que haja o julgamento conjunto.
Há conexão entre execuções? A lei atual determina a reunião dos processos de
ações conexas de execução de título extrajudicial e da ação de conhecimento
relativa ao mesmo ao jurídico, bem como dos processos de execuções fundadas no
mesmo título executivo.
Se reunião houver, vai ser preciso identificar qual dos juízos está prevento: critério
do registro ou a distribuição da petição inicial torna prevento o juízo.
Se duas ações conexas, vinculadas aos seus foros, por regras de competência
absoluta, não será possível reuni-las. Se, neste caso, há risco de decisões
conflitantes, será possível a suspensão de uma delas.
Diante dos termos peremptórios da lei a reunião das ações será determinada de
ofício pelo juiz. A conexão é matéria de ordem pública, a ser reconhecida de ofício a
qualquer tempo. Há interesse público na reunião. Cabe ao réu alegá-la como
preliminar de contestação.
A reunião de processos, para Cássio Scarpinella Bueno, é hipótese de dever e não
de mera possibilidade ou faculdade de atuação do juiz. Porém, ao juiz deve ser
dado uma margem de avaliação se, naquele caso concreto, será economicamente
proveitosa a reunião. Avaliar a intensidade da conexão, e a gravidade resultante da
contradição de julgados.
Continência
Também é forma de modificação de competência. Art. 56 CPC: é uma relação entre
duas ou mais ações quando houver identidade de partes e de causa de pedir, sendo
que o objeto de uma, por ser mais amplo, abrange o das outras. Enseja a reunião
de ações para evitar decisões conflitantes. Exige dois elementos comuns (partes e
causa de pedir) e relação entre os pedidos. Mas a reunião só se dará se a ação
continente, a mais ampla, for proposta posteriormente à ação contida. Do contrário
haverá extinção sem resolução de mérito. Todas as regra que valem para a conexão
são aplicáveis à continência.
PREVENÇÃO
Nos casos em que há mais de um juízo competente. A prevenção será fundamental
para fixar a competência de determinado juízo, quando houver mais de um
competente para determinada causa; e para identificar qual dos juízos atrairá outras
ações, como em casos de conexão ou continência.
A prevenção, art. 59 CPC, é dada sempre pelo registro ou distribuição da petição
inicial. Havendo uma das duas, a distribuição se dará por dependência.
No casos em que for extinto o primeiro processo, sem resolução de mérito, e houver
reiteração do pedido, será distribuída por dependência ao juízo no qual tramitou a
antiga.
Haverá também prevenção em segunda instância, prevento o relator.
Conflito de competência
Dois ou mais juízes ou tribunais se dão por competentes para a mesma causa; ou
se dão por incompetentes, o conflito negativo.
O conflito poderá ser suscitado pelas partes, pelo MP ou pelo juiz.
O réu que tiver arguido incompetência relativa não poderá suscitar o conflito.
O conflito de competência só cabe se ainda não existir sentença transitada em
julgado proferida por um dos juízes conflitantes.
4 DA AÇÃO
Antigamente, a ação era nada mais do que o direito material em movimento. O
direito de ação não era autônomo. Não havia o direito de ir a juízo postular uma
resposta do Poder Judiciário a uma pretensão.
Aos poucos foi se percebendo que uma coisa é do direito material, que a lei nos
assegura; outra, o direito de ir a juízo.
Quando se vai a juízo, forma-se uma nova relação, diferente daquela de direito
material, porque terá três sujeitos: o autor, o juiz e o réu.
DIREITO DE AÇÃO
A ação surge como um mecanismo pelo qual se provoca o Judiciário a dara uma
resposta, chamada de provimento ou tutela jurisdicional.
O direito de ação é sempre uma faculdade daquele que se sente prejudicado. O
Estado tem o poder-dever de se pronunciar sobre aquela pretensão.
A doutrina conceitua ação como um direito subjetivo público, exercido contra o
Estado. É contra o Estado porque a ação põe em movimento a máquina judiciária.
A exceção é o direito que tem o réu de se contrapor à prestação formulada pelo
autor, é o direito de defesa.
A ação tem duas acepções diferentes.
A primeira é a ação como direito de acesso à justiça - ação em sentido amplo. Neste
caso, ação é o direito subjetivo de acesso à justiça, o direito de obter do Poder
Judiciário uma resposta, qualquer que seja ela, a todas as pretensões que lhe forem
dirigidas. É direito incondicionado. Mesmo não havendo o preenchimento das
condições da ação o postulante tem o direito a uma resposta do Judiciário. Por mais
absurda que seja a pretensão, por mais impossível, descabida, ela será examinada
pelo juiz, que deverá dar uma decisão fundamentada.
Ação em sentido estrito, a segunda acepção. Há teorias.
Teoria concretista
Não consegue distinguir a ação do direito material a ela subjacente. Condicionam a
existência do direito de ação à do próprio direito material. Entre as condições da
ação estava a de que o autor tivesse razão. Só tinha ação quem, ao final, tivesse
razão.
Teorias abstratistas puras
Há ação em sentido estrito independentemente do tipo de resposta dada pelo
Judiciário, fosse a sentença de procedência, improcedência ou extinção sem
resolução de mérito; não havia diferença entre ação em sentido amplo e estrito.
Teoria abstratista eclética
É preciso antes compreender o “mérito”. É a pretensão inicial, daquilo que o autor
pede, postula. Se há extinção do processo sem resolução de mérito, quer-se dizer
que o juiz não examinou o pedido. Para esta teoria, o direito de ação, estrito, é o
direito de obter uma resposta de mérito. No processo de conhecimento, são as
sentenças de procedência ou improcedência.
A execução é ação? Para a teoria abstratista eclética, para haver ação, exige-se
que haja direito a uma resposta de mérito, e não que haja, necessariamente, o
direito a uma sentença de mérito. Resposta é mais abrangente que sentença. No
processo de execução o pedido é que haja a prática de atos concretos tendentes à
satisfação do credor. Tais atos constituem uma forma de resposta àquilo que foi
pedido, e, portanto, uma forma de resposta de mérito.
O direito de ação é condicionado
O direito de acesso à justiça é incondicionado, mas nem sempre haverá o direito a
uma resposta de mérito. É preciso preencher determinadas condições; quem não as
preencher não terá o direito de ação em sentido estrito, somente em sentido amplo.
Há situações em que o juiz terá que encerrar o processo sem responder à
pretensão posta em juízo, sem dar uma resposta ao pedido do autor (de mérito). É
quando o autor é carecedor: a ação em sentido estrito aparece como um direito
condicionado. Na falta das condições o juiz extinguirá o processo sem resolução de
mérito.
Questão de nomenclatura: a ação existe ou o autor é dela carecedor. Se tiver o
direito de ação - não for carecedor - o juiz julgará o pedido, jamais a ação. O correto
é ajuizar a demanda, sinônima de pretensão veiculada pela petição inicial.
As condições constituem matéria de ordem pública, a ser examinada de ofício pelo
juiz, se ele verificar a falta de qualquer das ações, extinguirá o processo sem
resolução de mérito.
As duas condições da ação
A possibilidade jurídica do pedido (antigamente condição) foi absorvida como
interesse de agir.
Legitimidade ad causam
Art. 18 CPC: ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando
autorizado pelo ordenamento jurídico.
Parte é postular e defender direitos que alegam ser próprios e não alheios.
Exceções: lei autoriza que alguém, em nome próprio, possa ir a juízo para postular
ou defender direito alheio. A legitimidade extraordinária, a substituição processual.
Não se pode confundir legitimidade extraordinária com representação. Exemplo:
num processo, o incapaz está em nome próprio (ele é o autor) defendendo direito
próprio, vem representado pela mãe ou por quem tenha a sua guarda.
Legitimidade extraordinária: aquele que figura como parte, sem ser o titular do
direito, será chamado substituto, substituto processual. O titular do direito é o
substituído processual.
No campo da legitimidade ordinária, a coisa julgada atingirá tão somente as partes.
No campo da legitimidade extraordinária atingirá não somente aqueles que figuram
como partes no processo, o autor e réu, mas também o substituído processual, que
não foi parte. É dele o direito alegado, discutido em juízo. Ele pode auxiliar no
processo como assistente litisconsorcial.
Condomínio tradicional
Duas ou mais pessoas proprietárias de um mesmo bem. Cada qual dos condôminos
é titular de uma fração ideal. Se esse imóvel é invadido, restará saber quem são os
legitimados para propor a ação reivindicatória ou possessória. Código Civil: cada
condômino pode reivindicá-la de terceiro e defender a sua posse. Cada um
isoladamente, tem legitimidade para defender integralmente a coisa comum. Cada
condômino, se ajuizar ação, será legitimado ordinário concernente à sua parte, mas
será extraordinário em relação às frações ideais dos outros. Se ação é ajuizada
somente por um, os outros são substituídos processuais, mas podem ingressar
como assistentes litisconsorciais.
Alienação de coisa litigiosa
Pressupõe a disputa judicial entre duas ou mais pessoas a respeito de um bem. A
partir do momento em que o réu for citado, a coisa torna-se litigiosa. A alienação da
coisa litigiosa não altera a legitimidade entre as partes. Se o réu vender a coisa, o
processo continua entre as partes originárias; pode haver substituição processual,
do adquirente em lugar do cessionário, desde que haja consentimento da parte
contrária. Não havendo consentimento, a demanda segue contra o réu originário. Os
efeitos do processo estendem-se ao adquirente, neste caso.
Haverá legitimidade extraordinária, na qual o réu originário ficará como substituto
processual do adquirente que não é parte, mas o atual interessado na defesa da
coisa.
Parece-nos que a legitimidade, nas ações coletivas, aproxima-se mais da
extraordinária, porque não há coincidência entre a titularidade do interesse e a sua
defesa judicial.
Interesse de agir
Interesse de agir exige o preenchimento do binômio: necessidade e adequação. É
preciso que a pretensão só possa ser alcançada por meio do aforamento da
demanda e que esta seja adequada para a postulação formulada. A utilidade é
absorvida pela necessidade, pois se é necessário é porque é útil.
O autor carecerá da ação quando não puder obter, por meio da ação proposta, o
resultado por ele almejado.
Para que haja interesse de agir é preciso que a pretensão formulada em juízo não
afronte o ordenamento jurídico.
Se o juiz entendeu que o pedido é juridicamente impossível, ele examinou o pedido,
portanto fez julgamento de mérito.
A verificação se as condições da ação estão preenchidas deve ser por in status
assertionis. A petição inicial contém a versão dos fatos, mas o juiz não tem condição
de avaliar se é verdadeira ou não. Se considerarmos as afirmações apresentadas,
se presumirmos que tudo o que está dito na petição inicial é verdadeiro,
verificaremos se as condições estão preenchidas.
O exame das condições da ação deve ser feito em abstrato (teoria da asserção)
pela versão dos fatos trazida na petição inicial, in status assertionis.
Contra a teoria da asserção, há os que acreditam que as condições da ação devem
ser examinadas em concreto.
Elementos da ação
São para identificar a ação, funcionam como uma carteira de identidade. São:
partes, causa de pedir e pedido.
Partes
Parte é quem pede a tutela jurisdicional e em face de quem é ela postulada. O autor
e o réu.
Pedido
Pedido imediato é o provimento jurisdicional que se postula em juízo. Se escolher a
tutela inadequada, será carecedor da ação, porque não terá interesse de agir. O
pedido mediato é o bem da vida.
Art. 322 e 324 CPC: o pedido deve ser certo e determinado. Certo é o que identifica
o seu objeto, que pode ser individualizado. O determinado é o pedido líquido, que o
autor indica a quantidade. É possível o pedido genérico.
Causa de pedir
São os fatos e os fundamentos jurídicos do pedido. Os fundamentos jurídicos são o
direito que o autor quer que seja aplicado ao caso, é a norma geral abstrata. Não se
confunde com fundamento legal. Basta que exponha o direito. O réu não se defende
dos fatos narrados.
A descrição dos fatos será determinante e vinculará o juiz ao final. Os fatos têm de
estar bem descritos, com clareza e precisão, na petição inicial. Não deve o juiz
recebê-la se os fatos não estiverem indicados de forma inteligível.
Apenas os fatos vinculam o juiz no julgamento. É a teoria da substanciação.
Não haverá litispendência ou coisa julgada, se duas ações, ainda que entre as
mesmas partes e com o mesmo pedido, estiverem fundadas em fatos diferentes.
Uma ação é identificada pela sua causa de pedir.
Tipo de tutela cognitiva: condenatória, constitutiva e declaratória
Dentre as ações de conhecimento, há três tipos: condenatória, constitutiva e
declaratória. É sempre uma sentença. Declaratória: o juiz se limita a declarar a
existência ou inexistência de uma relação jurídica. Pretende-se obter uma certeza
jurídica. Não constitui título executivo.
A tutela constitutiva tem finalidade de modificar, constituindo ou desconstituindo,
uma relação jurídica. Não visam formação de título executivo. A sentença
constitutiva é a criação de um estado jurídico distinto do anterior.
A ação condenatória visa a formação de um título executivo judicial; tem a finalidade
de compelir alguém ao cumprimento de uma obrigação inadimplida.
São espécies das ações condenatórias, a tutela mandamental e a executiva lato
sensu. A mandamental é quando o juiz emite uma ordem, um comando, para
medidas concretas e efetivas, para a satisfação do direito do vencedor. Ex:
mandado de segurança: obrigação de fazer ou não fazer. As executivas lato sensu,
por exemplo, são as de despejo e as possessórias; o juiz expede um mandado para
fazer cumprir a decisão. O Estado a cumprirá no lugar do réu, não havendo
cumprimento espontâneo.
6 O PROCESSO
Desde o momento em que é proposta a demanda, haverá a formação de um
processo, que é o instrumento da jurisdição. Dois aspectos do processo: atos e
relação. Processo é instrumento abstrato.
PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS
O processo deve preencher requisitos, para que possa ter um desenvolvimento
regular e válido. Os pressupostos processuais são os requisitos para que haja um
processo válido e regular.
O exame do processo deve seguir uma ordem. Em primeiro lugar, examina-se os
pressupostos processuais. Somente se preenchidos os pressupostos processuais e
as condições da ação é que o juiz finalmente poderá examinar o mérito.
Os pressupostos processuais constituem matéria de ordem pública, que deve ser
examinada pelo juiz de ofício.
Alguns requisitos do processo são tão importantes, que não observados, implicam
ineficácia, outras implicam a nulidade.
A teoria das invalidades do processo e dos atos processuais difere daquela dos atos
materiais. Assim, não se aplica aos atos materiais e processuais a mesma teoria
das invalidades.
Todas as nulidades processuais, em princípio, podem ser sanadas. As nulidades
absolutas são as que decorrem de vícios relacionados com a estrutura do processo
e da relação processual.
As nulidades absolutas podem ser conhecidas de ofício e não precluem para as
partes. Mas há um limite para que as nulidades absolutas sejam arguidas. Por ação
rescisória, prazo decadencial de dois anos do trânsito em julgado. Ultrapassado
este prazo, até as nulidades absolutas terão sido sanadas, nada mais restando
a fazer.
Criou-se nova categoria de vícios - a da ineficácia - para englobar aqueles que, por
sua importância e gravidade, não precluem nem mesmo após o prazo da ação
rescisória.
O ato processual ineficaz é aquele que contém vício insanável.
Se o vício for o de ineficácia, a medida processual mais adequada será a ação
declaratória de ineficácia (querela nullitatis insanabilis).
Pressupostos processuais de eficácia: são aqueles cuja ausência gera o vício de
ineficácia.
1 A existência da jurisdição;
2 Existência da demanda: é ineficaz a sentença extrapetita e ultra petita;
3 Capacidade postulatória: há expressa previsão de ineficácia;
4 Citação do réu;
Pressupostos processuais de validade: são indispensáveis para que o processo
seja válido.
1 Petição inicial apta;
2 Juízo competente e juiz imparcial;
3 Capacidade: de ser parte e a processual (para estar em juízo);
4 Pressupostos processuais negativos: litispendência, a coisa julgada, a perempção
e o compromisso arbitral.
Capacidade
Capacidade de ser parte
É a aptidão de ser parte em um processo, de figurar na condição de autor ou réu.
Todos os titulares de direitos na ordem civil terão capacidade de ser parte.
Capacidade processual ou para estar em juízo
É a aptidão para figurar como parte, sem precisar ser representado nem assistido.
Não se trata de advogado, mas de representante legal (não precisa). O incapaz não
tem capacidade processual, mas passará a ter por intermédio das figuras da
representação e da assistência.
Capacidade postulatória
Não diz respeito às partes. Deriva da necessidade de uma aptidão especial para
formular requerimentos ao Poder Judiciário. Normalmente são os advogados,
membros do MP. A falta de capacidade postulatória gera ineficácia.
Capacidade e legitimidade
Legitimidade é requisito para que o litigante tenha o direito de ação, ao passo que a
capacidade é indispensável para que o processo tenha regular seguimento.
A capacidade processual é atributo da pessoa, independentemente da demanda
ajuizada. A legitimidade diz respeito à pertinência entre aqueles que figuram em
juizo e a relação de direito material que nele se discute.
LIVRO III
OS SUJEITOS DO PROCESSO
1 DAS PARTES E SEUS PROCURADORES
Capacidade de ser parte
Todas as pessoas, sem exceção, têm capacidade de ser parte, porque são titulares
de direitos e obrigações na ordem civil.
A União será representada pela Advocacia Geral da União. Os Estados e DF por
seus procuradores e o Município pelo Prefeito ou por seu procurador. As pessoas
jurídicas de direito privado são representadas por quem os seus estatutos
designarem. A lei estende a capacidade de ser parte a alguns entes
despersonalizados:
1 massa falida: pelo administrador judicial;
2 espólio: a sua existência prolonga-se da data da morte até o trânsito em julgado
da sentença que julga a partilha. Não havendo inventariante, será representado pelo
administrador provisório. A parte será o próprio espólio.
3 herança jacente e vacante: faleceu sem herdeiros conhecidos. Juiz nomeia
curador.
4 condomínio: síndico ou pelo administrador.
5 Sociedade sem personalidade jurídica: a quem caiba a administração.
6 Nascituro: ele mesmo.
CAPACIDADE PROCESSUAL
Nem todas as pessoas terão capacidade processual, a aptidão para estar em juízo
pessoalmente. Na Código Civil são aquelas que têm capacidade de fato ou
exercício.
Representação e assistência
Os incapazes, no processo, serão representados ou assistidos por pais, tutores ou
curadores, na forma da lei civil. Se há incapacidade absoluta, é representação; se
relativa, é assistência. O tutor serve apenas ao incapaz por menoridade.
Se a incapacidade provém de outras causas (embriaguez habitual, uso de tóxicos,
etc) haverá interdição e nomeação de um curador, que passará a assistir o incapaz.
CURADOR ESPECIAL
Curador especial dos incapazes
Acontece de o incapaz ficar privado de representante legal, e não houve tempo hábil
para a nomeação de outro, se necessitar o incapaz de participar de processo, lhe
será dado curador especial. Ele (curador especial) não se tornará o representante
definitivo do incapaz, uma vez que sua atuação se restringirá ao processo em que
foi nomeado; que o representará no processo até que haja a nomeação do tutor ou
curador.
Haverá também necessidade de nomeação quando o incapaz tiver representante
legal, mas houver de figurar em processo em que os seus interesses colidam com
os daquele.
Curador especial do réu preso
Não será seu representante legal. É como forma de assegurar a plenitude do
contraditório, cuja função é defender o réu. Só será nomeado curador especial ao
réu preso revel.
Curador especial do réu citado fictamente
Em favor do réu revel citado fictamente por edital ou com hora certa. Sua função é
assegurar-lhe o direito de defesa, uma vez que, sendo ficta a citação, não se tem
certeza se a revelia do réu decorre de ele não querer se defender, ou de não ter
tomado conhecimento do processo. Curador Especial para o revel, que tenha
deixado transcorrer in albis o prazo de resposta. Pode haver contestação por
negativa geral, que obriga o autor a provar os fatos, ou seja, ela afasta a presunção
de veracidade, decorrente da revelia.
Curador especial em favor do idoso
Idoso: maior de 60 anos. Função é fiscalizar se os interesses do idoso estão sendo
adequadamente protegidos e defendidos. É necessária a nomeação de curador
especial somente se o idoso estiver em situação de risco.
Poderes do Curador Especial
Não será possível ajuizar reconvenção. Não poderá provocar intervenção de
terceiros. Quando o curador especial funciona em lugar do representante, atuará
com os poderes deste. Em outros casos, apenas como defensor do réu. O CE
poderá requerer todas as provas e apresentar os recursos cabíveis.
Curador especial em execução
Súmula 196 do STJ: ao executado que, citado por edital ou por hora certa,
permanecer revel, será nomeado curador especial, com legitimidade para
apresentação de embargos.
A curadoria especial é função institucional da Defensoria Pública.
A falta de nomeação de curador especial nos casos em que ela é exigida implicará
ausência de um dos pressupostos processuais de validade, a capacidade
processual. Advirá nulidade do processo, cabível ação rescisória.
OUTORGA UXÓRIA
Refere-se apenas às ações reais sobre bens imóveis. É requisito para que a pessoa
casada tenha plena capacidade processual. Não haverá necessidade da outorga se
o cônjuge que propôs a demanda for casado no da separação absoluta de bens.
Se o bem imóvel pertence a ambos os cônjuges, ou seja, se os dois forem
proprietários, a ação proposta deverá ser por litisconsórcio necessário.
No caso de união estável, para ser exigida a outorga uxória, é preciso que a união
possa ser comprovada nos autos.
Sendo caso de litisconsórcio necessário por ambos os companheiros da união
estável, é necessário que tal seja comprovada na fase postulatória. Deve, portanto,
haver prova pré-constituída da união, a ser apresentada pelo autor na inicial, ou
pelo réu na contestação.
A outorga é mero consentimento. Necessário que seja por escrito.
O consentimento pode ser suprido judicialmente quando for negado por um dos
cônjuges sem justo motivo. O pedido deve ser feito em processo autônomo.
Trata-se de procedimento de jurisdição voluntária. A recusa ao consentimento
supre-se apenas se se verificar que a recusa é inaceitável.
DOS DEVERES DAS PARTES E SEUS PROCURADORES
Dos deveres
A ideia do legislador é vedar a utilização de expedientes desonestos, desleais, que
sejam meramente protelatórios. Os casos de litigância de má-fé, art. 80 CPC: rol
exemplificativo. Só haverá litigância de má-fé se o autor agir de forma intencional,
dolosa, com a consciência do ato que está perpetrando.
Ler o art. 77: deveres.
Litigância de má-fé: serão duas as sanções impostas ao ofensor: a de reparar os
danos, incluindo honorários e despesas da parte contrária e a de pagar multa. Tanto
a condenação em perdas e danos quanto a multa reverterão em proveito da parte
contrária, prejudicada pela conduta violadora.
Ato atentatório à dignidade da justiça
O juiz, de ofício ou a requerimento da parte, aplicará multa de até 20% do valor da
causa.
Dos deveres das partes quanto às despesas processuais
Regra geral do art. 82 CPC: as despesas serão antecipadas por quem requereu as
provas (ou o ato); se a prova for requerida por ambas as partes, ou determinadas de
ofício pelo juiz, ou a requerimento do Ministério Público como fiscal da ordem
jurídica, caberá ao autor a antecipação das despesas. Já em relação à prova
pericial, a antecipação será feita por quem requereu; se por ambas as partes, as
despesas serão rateadas. O sucumbente ressarce ao final. Se a parte sucumbente
for beneficiária da justiça gratuita, o juiz a condenará ao pagamento das despesas,
mas a execução não poderá ser feita, a menos que o adversário que o sucumbente
já adquiriu condições de suportá-las, sem prejuízo de seu sustento.
Honorários advocatícios
CPC, arts 85 a 87, regula a condenação em honorários advocatícios decorrentes da
sucumbência no processo. Os honorários fixados no processo pertencem ao
advogado e não à parte. O juiz condenará o vencido ao pagamento de honorários
advocatícios.
O Art. 98 CPC atribui o direito à gratuidade da justiça, a toda pessoa natural ou
jurídica, brasileira ou estrangeira, com insuficiência de recursos para pagar as
custas, as despesas processuais e os honorários advocatícios. Pessoas naturais: há
uma presunção de veracidade da alegação de insuficiência de recursos. Pessoas
jurídicas: não há essa presunção, cumpre provar a insuficiência econômica.
A gratuidade da justiça não afasta a responsabilidade do beneficiário pelo
pagamento das multas impostas no curso do processo, como aquelas relativas à
litigância de má-fé, ato atentatório à dignidade da justiça e às multas cominatórias
(astreintes).
Se o beneficiário da justiça gratuita for sucumbente, o juiz o condenará ao
pagamento das custas, despesas e honorários advocatícios. Mas a condenação não
poderá ser executada e ficará sob condição suspensiva durante o prazo de cinco
anos. Quando tiver condições de pagar, o juiz determinará a execução. Extingue-se
a obrigação de pagar em cinco anos.
DOS PROCURADORES
Sem procuração, o advogado só será admitido para, em nome da parte, intentar
ação a fim de evitar a preclusão, decadência ou prescrição, praticar atos urgentes, e
terá o prazo de 15 dias para exibir mandato em juízo. A falta de procuração
implicará ineficácia. A procuração deve indicar quais os poderes que o outorgante
concede ao procurador.
DA SUCESSÃO DAS PARTES E SEUS PROCURADORES
Desde o momento em que ocorre a citação válida, a coisa, ou o direito disputado
pelos litigantes, passa a ser litigioso, até o trânsito em julgado.
Alienação de coisa ou direito litigioso: a legitimidade das partes não se altera. O
processo continua com as partes originárias. Se houver anuência da parte contrária,
poderá haver a sucessão do alienante ou cedente, pelo adquirente ou cessionário.
Do contrário, postular em nome próprio, mas em defesa de um direito alheio. O
substituído poderá ingressar como assistente litisconsorcial, e sofrerá os efeitos da
sentença. Se o alienante for derrotado, a alienação da coisa litigiosa será
considerada fraude à execução.
A sucessão em caso de morte
As partes, em caso de falecimento, serão sucedidas pelo espólio ou pelos herdeiros.
Pelo espólio, ação de cunho patrimonial. Pelos herdeiros, cunho pessoal. Pode
ocorrer que a morte implique a extinção do processo, sem resolução de mérito, é o
caso das ações de caráter personalíssimas - separação e divórcio. A partir da morte
o processo ficará suspenso, até a sucessão processual.
Sucessão de procuradores
Pode haver renúncia de advogado, mas incumbe a ele provar que cientificou o
mandante; o advogado continua, nos dez dias seguintes, a representar o mandante,
se necessário para evitar prejuízo.
2 DO LITISCONSÓRCIO
O litisconsórcio é a pluralidade de partes. São duas as razões: a economia
processual e a harmonização dos julgados.
Verificando o juiz que o número de partes é tal que ultrapassa o razoável, poderá
limitar o número dos litigantes, por meio do desmembramento do processo.
São dois os requisitos para o desmembramento: que o litisconsórcio seja facultativo
e não necessário. E uma das três situações seguintes há de estar presente: que o
número seja tal que comprometa a rápida solução do litígio; que dificulte a defesa
ou ainda que dificulte o cumprimento de sentença.
Caberá ao juiz, no caso concreto, decidir por um número tal que não comprometa a
rapidez, nem prejudique a defesa. Todos os processos resultantes permanecerão no
mesmo juízo. O desmembramento pode ser requerido pelo réu ou determinado de
ofício pelo juízo.
Qualquer dos réus pode postular o desmembramento do processo. O prazo para tal
requerimento é o da resposta (não é contestação, justamente porque vai
argumentar que está prejudicado em sua defesa). O requerimento interrompe o
prazo de resposta.
Contra a decisão judicial que aprecia o pedido de desmembramento, o recurso
cabível é o agravo de instrumento.
CLASSIFICAÇÃO DO LITISCONSÓRCIO
Litisconsórcio necessário
É aquele cuja formação é obrigatória. São duas as razões: 1 é a existência de lei
impondo a sua formação. A 2 quando, no processo, discute-se uma relação jurídica
de direito material que seja unitária - isto é, única e incindível - que tenha mais de
um titular. O matrimônio é uma relação única e incindível. Por incindível, deve-se
entender a relação que não pode ser desconstituída para um, sem que o seja para o
outro, como ocorre no casamento. Um contrato também é relação incindível.
Quando o litisconsórcio for necessário por força da natureza da relação jurídica,
quando ela for una e indivisível, será também unitário: a sentença terá de ser a
mesma para os litisconsortes.
Quando o litisconsórcio é necessário por força de lei, poderá ser simples ou unitário.
Litisconsórcio facultativo
É aquele cuja formação é opcional.
Como regra quase absoluta, pode-se concluir que quando há unitariedade de lide, o
litisconsórcio será também necessário.
Mas em uma única situação será possível que o litisconsórcio, apesar de unitário,
seja facultativo. No campo da legitimidade extraordinária - a coisa ou direito que tem
vários titulares pode ser defendida por apenas um, por alguns, ou por todos.
Exemplo: nas ações possessórias ou reivindicatórias de bens em condomínio.
Na imensa maioria dos casos o facultativo é simples, ou seja, não apenas a
formação será opcional, mas a sentença poderá ser diferente para os litisconsortes.
Comunhão de direitos e obrigações relativamente à lide
Comunhão: existe uma relação jurídica que pertence a mais de um titular. A
comunhão é, portanto, a cotitularidade.
Há casos em que a comunhão de direitos e obrigações sobre coisas ou direitos que
não são incindíveis. Por exemplo, o fenômeno da solidariedade: duas ou mais
pessoas são codevedoras solidárias da mesma dívida, que pode ser integralmente
cobrada de qualquer um.
Há caso de litisconsórcio quando os litigantes estejam em situações parecidas,
próximas, que guardam alguma similitude. Caberá ao juiz examinar, em cada caso
concreto. Dá-se o nome de litisconsórcio “impróprio”.
Litisconsórcio unitário
É aquela em que a sentença forçosamente há de ser a mesma para todos os
litisconsortes, sendo juridicamente impossível que venha a ser diferente.
Litisconsórcio simples
É aquele em que existe a possibilidade de a sentença ser diferente para os
litisconsortes. É necessário que, no processo, não se discutam relações unas e
incindíveis, porque são essas que geram a unitariedade.
MOMENTO DE FORMAÇÃO DO LITISCONSÓRCIO
Quando o litisconsórcio é facultativo, a sua formação depende da vontade do autor
ou autores. Se, depois da citação do réu, o autor quiser incluir algum litisconsorte
facultativo que até então não participava, será necessária a anuência do citado, mas
desde que o processo ainda não tenha sido saneado.
Quando o litisconsórcio é necessário, o autor deve incluir todos no polo ativo ou
passivo.
Verificando o juiz que há um litisconsorte necessário ausente, mandará incluí-lo. Se
o processo estiver em fase avançada, tal determinação implicará a nulidade de
todos os atos processuais até então praticados, sem a participação do litisconsorte
necessário.
Se unitário, a falta de um implicará a nulidade da decisão para todos, já que não
pode haver desfechos diferentes para eles, pois a lide é única. Se o litisconsórcio
necessário era simples, a sentença será ineficaz para os que não foram citados,
mas válida para os que foram citados no processo.
A formação do litisconsórcio necessário: cumpre ao autor, ao propor a demanda,
incluir, no polo ativo ou no passivo, todos os litisconsortes necessários.
No polo passivo, as dificuldades serão pequenas: se o autor se esquecer de algum
deles, o juiz, a quem compete fiscalizar a regularidade do processo, determinará a
emenda da inicial, para a inclusão do faltante, sob pena de indeferimento da inicial.
Sendo o litisconsórcio necessário, o juiz só pode receber a petição inicial se todos
estiverem integrando o polo ativo.
Surgem divergências doutrinárias: 1 a dos que entendem que, como ninguém é
obrigado a demandar contra a vontade, não existe mecanismo para forçar o que não
deseja ir a juízo. Essa corrente prestigia o princípio da liberdade de demandar. 2 a
dos que entendem que se deve prestigiar o direito de acesso à justiça, ainda que
em detrimento da liberdade de demandar. Para essa corrente, é possível compelir o
autor a participar da demanda, ainda que contra a vontade. Como obrigar aquele
que não quer ingressar em juízo contra a sua vontade? Uma solução há: solicitar ao
juiz que determine a citação do litisconsorte ativo renitente. Os defensores dessa
corrente entendem que, citado, o litisconsorte ativo poderá optar entre figurar no
polo ativo, partilhando dos interesses dos demais litisconsortes, ou no polo passivo,
quando não estiver de acordo com o postulado por eles. Basta a citação do ausente,
não sendo indispensável que ele efetivamente compareça. O ausente sofrerá os
efeitos da sentença, e não responderá pelas verbas de sucumbência, já que não
participou.
O REGIME DO LITISCONSÓRCIO
Litisconsórcio simples: o resultado pode ser diferente para os litisconsortes, e, em
princípio, os atos praticados por um não afetam os outros. A regra é a da
independência. Os litisconsortes necessários estão vinculados entre si, por um
regime de interdependência.
Regime no litisconsórcio simples: o regime é o da autonomia, e os atos de cada
litisconsorte não favorecem nem prejudicam os demais. Se o litisconsórcio é
simples, é indispensável verificar o que está sendo alegado: se for tema comum, o
ato praticado por um dos litisconsortes acabará beneficiando os demais; se for
específico, apenas aquele que o praticou.
Litisconsórcio unitário: os atos praticados por um têm de beneficiar a todos. Há atos
benéficos e vantajosos: a contestação ou recurso. Há os que são praticados em
detrimento dos próprios interesses: a confissão, a renúncia, o reconhecimento
jurídico do pedido.
Se o ato praticado por um litisconsorte unitário é vantajoso, todos os litisconsortes
serão beneficiados. Mas se o ato praticado pelo litisconsorte não for dessa natureza,
mas desfavorável aos seus interesses, não é possível que os demais sejam
prejudicados. O ato desvantajoso que não seja praticado por todos será
absolutamente ineficaz, e deverá ser desconsiderado pelo juiz, na decisão.
3 DA INTERVENÇÃO DE TERCEIROS
São terceiros aqueles que não configuram como parte.
Seja como for, a intervenção implicará que aquele que não figurava até então no
processo passe a figurar.
Só se justifica a intervenção de terceiro que possa ter sua esfera jurídica atingida
pela decisão judicial. Não se admite ingresso de um terceiro absolutamente alheio
ao processo.
INTERVENÇÃO DE TERCEIROS VOLUNTÁRIA E PROVOCADA: Se voluntária ou
provocada, depende da iniciativa do ingresso do terceiro no processo. Há situações
em que ela cabe ao próprio terceiro. São os casos de intervenção voluntária. Há a
hipótese de que a iniciativa não vem do terceiro, mas de uma das partes, que pede
ao juiz que convoque o terceiro - a intervenção é provocada.
A INTERVENÇÃO DE TERCEIROS NÃO CRIA UM NOVO PROCESSO: só há
intervenção de terceiros se o terceiro ingressa em processo em andamento.
TIPOS DE PROCESSO QUE ADMITEM INTERVENÇÃO DE TERCEIROS: o art.
134 autoriza o incidente de desconsideração da personalidade jurídica em todas as
fases do processo de conhecimento, no cumprimento de sentença e na execução
por título extrajudicial. O 119 permite a assistência em qualquer procedimento.
DAS DIVERSAS FORMAS DE INTERVENÇÃO
ASSISTÊNCIA: a assistência é a forma típica de intervenção de terceiros porque
pressupõe o ingresso no processo de alguém que até então não figurava.
É sempre voluntária, a iniciativa de ingresso há de partir sempre do próprio terceiro.
Não se admite que o juízo mande intimar, a pedido da parte, o terceiro, para que
assuma a condição de assistente. A assistência não amplia os limites objetivos da
lide, porque o assistente não formula novos pedidos ao juiz, apenas auxilia uma das
partes na obtenção de resultado favorável.
Assistência simples: é o mecanismo pelo qual se admite que um terceiro, que
tenha interesse jurídico em que a sentença seja favorável a uma das partes, possa
requerer o seu ingresso, para auxiliar aquele a quem deseja que vença.
O requisito indispensável é que o terceiro tenha interesse jurídico na vitória de um
dos litigantes.
Interesse jurídico: terá interesse jurídico aquele que tiver uma relação jurídica com
uma das partes, diferente daquela sobre a qual versa o processo, mas que poderá
ser afetada pelo resultado.
Há no ordenamento relações jurídicas que são interligadas, por isso, guardam
relação de prejudicialidade. Ex: contratos de locação e sublocação - se o de locação
for prejudicado, o de sublocação também o será. Quem pode ingressar como
assistente simples é o terceiro que, não sendo o titular da relação jurídica que está
sendo discutida em juízo, é titular de uma relação com ela interligada.
Sempre haverá possibilidade de ingresso de um terceiro como assistente simples -
se o assistido for derrotado, terá direito de regresso contra ele, o assistente.
Seguradora: a ela que interessa a vitória do segurado exatamente para que não se
constitua o direito ao regresso, pode ingressar como assistente simples do
segurado.
O interesse jurídico depende de três circunstâncias:
a) que o terceiro tenha relação jurídica com uma das partes;
b) que essa relação seja diferente da que está sendo discutida no processo,
pois se for a mesma ele deveria figurar como litisconsorte, e não como
assistente;
c) que essa relação jurídica possa ser afetada reflexamente pelo resultado do
processo.
O interesse jurídico não se confunde com o meramente econômico: neste
caso, é o que impede de ingressar como assistente simples.
Assistência litisconsorcial: trata-se da forma de intervenção atribuída ao titular ou
cotitular da relação jurídica que está sendo discutida em juízo. Só existe no âmbito
da legitimidade extraordinária. É para permitir que o substituído, que em tese será
atingido pela coisa julgada, possa ingressar no processo.
Exemplos de assistência litisconsorcial: quem pode ingressar como assistente é
o substituído processual. No condomínio e na alienação de coisa litigiosa, por
exemplo.
O assistente litisconsorcial, em havendo legitimidade extraordinária concorrente,
nada mais é do que litisconsorte facultativo unitário ulterior.
Poderes do assistente simples no processo: o assistente simples não é o
potencial titular da relação jurídica que está sendo discutida em juízo, mas de uma
relação jurídica com uma das partes, que mantém com a primeira uma relação de
prejudicialidade. O assistente pode praticar todos os atos processuais que não
contrariem a vontade do assistido. Para que possa praticar atos, não é preciso
autorização expressa da parte. No silêncio, ele pode realizá-los. Mas a parte
principal tem o poder de vedar ao assistente a prática dos atos que não queria que
realize.
Sempre que o assistido for revel ou omisso, o assistente será considerado substituto
processual. O assistente pratica o ato no lugar do assistido, fazendo as vezes dele,
mas sem que haja verdadeira legitimidade extraordinária ou substituição processual.
O assistente simples não pode:
a) praticar qualquer ato de disposição de direito;
b) arguir incompetência relativa ou suspeição;
c) reconvir.
Poderes do assistente litisconsorcial: ele tem os mesmos poderes que o
litisconsorte unitário, com a ressalva de que, tendo ingressado com o processo já
em curso, passará a atuar no estado em que o processo se encontra.
A sua participação não é subordinada ao assistido. Aplica-se o regime da
unitariedade.
O assistente litisconsorcial e o assistido passarão a ter prazos em dobro, caso os
procuradores sejam diferentes e não se trate de processo eletrônico.
O assistente litisconsorcial e a coisa julgada material: haverá coisa julgada não
apenas para as partes, mas também para o assistente litisconsorcial.
Aquele que pode ingressar como assistente litisconsorcial sofrerá os efeitos da
coisa julgada material, intervindo ou não.
O assistente simples e a justiça da decisão: a coisa julgada material não pode se
estender ao assistente simples, porque ele não é titular da relação de direito
material discutida em juízo, mas de outra, que com ela tem relação de
interdependência. O dispositivo (123 CPC) faz referência à justiça da decisão. É o
que o assistente simples suportará, e não a coisa julgada material.
Justiça da decisão? na imutabilidade da sua fundamentação, que não poderá ser
rediscutida pelo assistente simples, em nenhum outro processo.
A coisa julgada material é a imunização dos efeitos da sentença, a impossibilidade
de rediscutir em outro processo o que foi decidido naquele. A coisa julgada impede
que as mesmas partes rediscutam o mesmo objeto, o mesmo pedido fundado nos
mesmos fatos.
Ao assistente simples: não poderá mais discutir os fundamentos da sentença
proferida no processo em que ele participou. Enquanto para as partes fica imutável
o que foi decidido no dispositivo, para o assistente simples, não pode mais ser
discutida a fundamentação.
Casos em que a justiça da decisão não se tornará imutável para o assistente
simples: para que ele sofra a justiça da decisão, é preciso que ele efetivamente
tenha sido admitido nessa condição no processo. Possar ter tido a oportunidade de
influir no resultado.
O ingresso do assistente: o assistente simples e o litisconsorcial podem ingressar
a qualquer tempo no processo, enquanto ainda não tiver havido o trânsito em
julgado da sentença. Não podem simplesmente as partes recusarem o ingresso,
indispensável que o juiz verifique o cabimento da assistência. Havendo impugnação
fundamentada, fundada na existência de interesse jurídico do terceiro.
DENUNCIAÇÃO DA LIDE
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