TRANSTORNOS
Transtornos e Dificuldades de Aprendizagem
E DIFICULDADES DE
APRENDIZAGEMPriscila Chupil
Priscila Chupil
Código Logístico
ISBN 978-65-5821-111-2
I0 0 0 4 8 5 9 786558 211112
Transtornos e
dificuldades de
aprendizagem
Priscila Chupil
IESDE BRASIL
2022
© 2022 – IESDE BRASIL S/A.
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CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
C487t
Chupil, Priscila
Transtornos e dificuldades de aprendizagem / Priscila Chupil. - 1. ed. -
Curitiba [PR] : IESDE, 2022.
94 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-5821-111-2
1. Crianças - Desenvolvimento. 2. Crianças com distúrbios da aprendi-
zagem. 3. Distúrbios da aprendizagem - Diagnóstico. 4. Resposta à interven-
ção (Crianças com distúrbios da aprendizagem). I. Título.
CDD: 618.9285889
22-75595
CDU: 616.89-053.2
Todos os direitos reservados.
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Batel – Curitiba – PR
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Priscila Chupil Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade
Católica do Paraná (PUC-PR). Graduada em
Pedagogia pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Especialista em Psicopedagogia pelo Centro
Universitário Internacional (UNINTER). Especialista
em Análise do Comportamento Aplicada ao TEA
(CENSUPEG). Professora no ensino superior, atua
também como psicopedagoga clínica e institucional.
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SUMÁRIO
1 Processos de aprendizagem 9
1.1 Definição de aprendizagem 10
1.2 O cérebro e a aprendizagem 13
1.3 Estímulos para a aprendizagem 17
1.4 Afetividade e aprendizagem 20
1.5 Estilos de aprendizagem 22
2 Dificuldades de aprendizagem 26
2.1 Dificuldades de aprendizagem: causas e tipos 26
2.2 Dislexia 30
2.3 Disgrafia 33
2.4 Disortografia 36
2.5 Discalculia 38
3 Transtornos de aprendizagem 43
3.1 Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) 43
3.2 Transtorno do espectro autista (TEA) 48
3.3 Síndrome de Asperger 51
3.4 Transtorno obsessivo compulsivo (TOC) 54
3.5 Transtorno desafiador opositor (TOD) 56
4 Fatores que interferem na aprendizagem 62
4.1 Fatores externos e internos que interferem na aprendizagem 62
4.2 Fatores afetivos 64
4.3 Fatores sociais 68
4.4 Fatores biológicos 71
5 Prevenção, diagnóstico e intervenção 75
5.1 Desenvolvimento das funções executivas 75
5.2 Prevenção às dificuldades de aprendizagem 79
5.3 Diagnóstico das dificuldades de aprendizagem 81
5.4 Intervenção aos problemas de aprendizagem 84
Resolução das atividades 90
Vídeo
APRESENTAÇÃO
Nesta obra buscamos discutir como ocorre e quais são as
principais dificuldades de aprendizagem, a origem e as possíveis
intervenções para cada uma. Conhecer as causas dos insucessos
no processo de aprendizagem propicia a reflexão sobre as
práticas realizadas nas escolas e possibilita rever e superar as
práticas que não contribuem para o sucesso dos alunos, pois
cada um aprende de uma maneira e em tempos diferentes.
Nesse viés, no primeiro capítulo, trataremos sobre os
processos de aprendizagem, ou seja, refletiremos sobre o ato
de aprender de maneira geral, compreendendo inicialmente
a definição de aprendizagem. É essencial, nesse momento,
também saber a relação entre o cérebro e a aprendizagem e, com
isso, reconhecer os estímulos necessários para que esta ocorra.
Ainda no primeiro capítulo, refletiremos sobre a importância da
afetividade e os diferentes estilos para que o ato de aprender
aconteça.
No segundo capítulo, trataremos das principais dificuldades
de aprendizagem, isto é, daquelas mais frequentes em sala
de aula e que se tornam um desafio para o professor, como a
dislexia, a disgrafia, a disortografia e a discalculia.
O terceiro capítulo propõe reflexões mais amplas, pois
devemos ter o entendimento de que alguns transtornos e
distúrbios também geram dificuldades de aprendizagem. Por
isso, são relacionadas as causas e características do transtorno
do deficit de atenção e hiperatividade (TDAH), do transtorno do
espectro autista (TEA), da síndrome de Asperger, do transtorno
obsessivo compulsivo (TOC) e do transtorno desafiador opositor
(TOD).
Diante da amplitude de obstáculos frente à aprendizagem,
e das características específicas de cada uma, é necessário,
no quarto capítulo, analisar quais fatores contribuem para as
dificuldades de aprendizagem e, dessa forma, refletir sobre
fatores externos e internos que interferem na aprendizagem,
bem como sobre os fatores afetivos, sociais e biológicos que
estão relacionados a esse processo.
No quinto e último capítulo, analisaremos como prevenir, diagnosticar e
intervir nos casos de transtornos e dificuldades de aprendizagem por meio
do entendimento sobre a importância do desenvolvimento das funções
executivas como base para todo o aprender. Consequentemente, a partir
desse entendimento, veremos como agir de maneira preventiva com relação
às dificuldades. Visto que essas questões precisam ser vistas e analisadas
de modo responsável e por profissionais específicos, compreenderemos
também como são feitos o diagnóstico e a intervenção adequados a cada um
dos transtornos e dificuldades de aprendizagem.
Com base nessas análises, o entendimento sobre como o ser humano
aprende, a forma única de cada um ser e existir e os obstáculos que podem
acontecer nesse caminho certamente será um grande diferencial para a
atuação de todos aqueles que trabalham com a educação.
Bons estudos!
8 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
1
Processos de aprendizagem
Você já parou para pensar como acontece a aprendizagem? Quais são
os processos que a envolve? O que faz o ser humano realmente aprender
e praticar seu conhecimento?
Parece algo automático, mas não é. Aprender é um processo comple-
xo que envolve diferentes fatores, e eles podem contribuir ou não para
que a aprendizagem aconteça.
Todos os fatores ligados à aprendizagem estão relacionados inicial-
mente ao desenvolvimento do cérebro. É esse órgão que rege todas
nossas funções e comanda nossa forma de pensar e agir. Conhecer seu
funcionamento e compreender a importância da memória nos traz um
grande diferencial diante do trabalho e da interação para favorecer a
aprendizagem.
No processo de aprender, tanto os estímulos do ambiente quanto o
vínculo afetivo são fundamentais para proporcionar ao cérebro diferentes
vivências. São esses fatores que possibilitam torná-lo ainda mais capaz de
assimilar conhecimento e de vivenciá-lo em forma de ações no dia a dia.
Durante o processo de assimilação do conhecimento, devemos ainda
ter a certeza de que ele não ocorre da mesma maneira para todas as pes-
soas. Cada ser humano, a partir de seu desenvolvimento, seus estímulos
e suas experiências vividas, possui seu próprio estilo de aprendizagem.
Por isso, neste primeiro capítulo vamos compreender a aprendiza-
gem e como ela acontece, relacionando-a com o desenvolvimento ce-
rebral e os diferentes estímulos necessários para a progressão do ato
de aprender. Em seguida, vamos refletir sobre como a afetividade faz
parte do processo de aprendizagem e influencia sua forma de acon-
tecer. Por fim, vamos conhecer os diferentes estilos de aprendizagem
que fazem com que nos tornemos tão únicos e especiais, cada um a
seu modo, na forma de ser, agir, pensar e aprender.
Processos de aprendizagem 9
1.1 Definição de aprendizagem
Vídeo A aprendizagem é um processo muito especial. Ela pode ser vista
e analisada por diferentes perspectivas, além de ser influenciada por
diferentes situações e ambientes vivenciados durante o processo de
desenvolvimento.
O ato de aprender estabelece uma relação do ser humano com o
Objetivo de aprendizagem mundo, a fim de compreendê-lo e transformá-lo ao longo de sua vida.
Compreender a definição Dessa forma, a cada nova aprendizagem o ser humano se modifica e é
de aprendizagem humana. capaz de modificar também seu meio.
Mas como podemos definir a aprendizagem?
Para compreendermos e analisarmos a aprendizagem, podemos
interpretá-la por meio de dois conceitos principais, de diferentes teóri-
cos, que a estudam com com base em linhas distintas de pensamentos.
O primeiro conceito é o da visão comportamental, ou behaviorista.
Essa abordagem considera a função de modelar e controlar as ações
das pessoas como uma função dos estímulos do meio ambiente. De
acordo com Portilho (2011), para os pesquisadores dessa corrente, o
mais importante é o estudo daquilo que se pode constatar empirica-
mente, isto é, a consistência da pesquisa está na conduta observável e
em suas consequências. Nessa corrente, podemos ter como referência
Ivan Pavlov (1849-1936) e Burrhus F. Skinner (1904-1990).
Na perspectiva comportamental, devemos considerar que todos
os fatores ambientais, como a interação social e as experiências
práticas, podem constituir e modificar o comportamento huma-
no. São esses os elementos responsáveis pelas experiências
das transformações de nosso modo de ser e agir.
A outra concepção é a cognitivista, para
a qual é atribuída a conduta dos seres
humanos, não mais os aspectos ambien-
tais externos, mas sim certas estruturas
Liderina/Shu
10 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
tterstock
mentais complexas e determinados mecanismos de caráter interno
(PORTILHO, 2011).
Para os teóricos dessa corrente, o ser humano se desenvolve “de
dentro para fora”; é seu desenvolvimento neurológico e biológico que
possibilita as interações e a aprendizagem. Nessa concepção, podemos
considerar autores como Lev Vygotsky (1896-1934), Jean Piaget (1896-
1980), entre outros.
Nos caminhos percorridos para o processo de aprender, muitas
são as influências que o compõem, sendo elas internas ou externas.
Nesse percurso, um fator importante é a contribuição da psicologia
para a pedagogia. Ao pensarmos na aprendizagem escolar, essa contri-
buição veio para que houvesse uma modificação no ensino tradicional,
uma vez que trouxe a ideia do aluno como agente de sua aprendiza-
gem, deixando, assim, de ser considerado como um ser passivo ao en-
sino do professor, modificando a fórmula: aluno aprende, professor
ensina; com base na qual a educação se desenvolveu por muito tempo.
Seja em uma concepção comportamentalista, cognitivista ou, então,
voltada para a contribuição da psicologia, podemos entender a apren-
dizagem como um processo complexo e repleto de possibilidades.
E quando a aprendizagem começa a acontecer?
Desde o desenvolvimento intrauterino, bilhões de células chamadas
neurônios se desenvolvem e formam o sistema nervoso, o que torna
possível todo o restante do desenvolvimento humano. Após o nasci-
mento, a criança começa a descobrir o mundo e, partindo disso, sur-
gem as primeiras representações de aprendizagem.
Das contribuições e dos autores citados, aquilo que mais nos dire-
ciona para a compreensão desse processo evolutivo são as fases do
desenvolvimento apresentadas por Piaget (1999). Porém, devemos
compreender que Piaget tratou de maneira distinta a aprendizagem e
o desenvolvimento, pois são conceitos diferentes.
O desenvolvimento é algo mais complexo, não se trata somente
de desenvolvimento físico, mas também do amadurecimento do sis-
Processos de aprendizagem 11
tema nervoso e das funções mentais. Ao contrário da aprendizagem,
que acontece por meio de uma mediação, o professor exerce a fun-
ção do mediador, o que amplia as possibilidades de aprendizagem
desse ser humano.
Dessa forma, compreender as fases do desenvolvimento apre-
sentadas por Piaget nos leva a pensar sobre quais são as influências
positivas que podem ser disponibilizadas em cada fase para que a
aprendizagem ocorra. Cada uma delas representa um avanço, fazen-
do com que a criança desenvolva novas habilidades e possibilitando
que ela evolua e aprenda mais.
Vamos conhecer, então, cada uma dessas fases? Estas são chama-
das também de estágio do desenvolvimento, segundo Piaget (1999), e
possuem uma idade aproximada para que o desenvolvimento ocor-
ra. Temos, portanto, os seguintes estágios:
• Sensório-motor: do nascimento aos 18 meses de idade.
• Pré-operatório: dos 18 meses aos 6 anos de idade.
• Das operações concretas: dos 6 aos 12 anos de idade.
• Das operações formais: a partir dos 12 anos de idade.
O estágio sensório-motor refere-se ao momento que a criança
mais necessita de contatos sensoriais que a apresentem ao mundo
e proporcionem seu desenvolvimento motor. Nessa fase, inicia-se a
capacidade de imitação, tão importante para os processos de apren-
der, uma vez que gera novos conhecimentos ao apresentar formas
diferentes de agir e interagir.
No estágio pré-operatório a criança, agora em fase de educa-
ção infantil, tem a capacidade de reconhecer símbolos (base inicial
para o processo de alfabetização) e interagir com eles. A representa-
ção da realidade e a aprendizagem são externalizadas por meio das
brincadeiras de faz de conta e jogos realísticos. Começa nessa fase,
também, a regulação das emoções.
O estágio das operações concretas é um marco nas questões
da ampliação no processo de compreensão de regras e estratégias,
que, em forma de brincadeiras, contribuem para sua estrutura de
pensamento, que agora está cada vez menos egocêntrica e mais vol-
12 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
tada para as interações sociais. A criança tem uma lógica indutiva Livro
que consegue relacionar sua experiência com outros fatores apren-
didos, por isso, nesse estágio, ocorre um grande amadurecimento
no que se refere às estratégias para desenvolver a memória. Com o
desenvolvimento desse estágio, a criança já possui base e condições
para compreender e interagir com situações-problema e trabalhar
com lógica. A maturidade do pensamento abre diversas possibilida-
des para a aprendizagem e para ingressar em um mundo adolescen-
Para complementar as
te, com novos desafios. ideias apresentadas nesta
seção, recomendamos a
Já o estágio das operações formais, corresponde ao momento em leitura do livro Como se
que todas essas fases já foram superadas e o sujeito possui condições aprende? Estratégias, estilos
e metacognição, de Evelise
de aprender e interagir com essa aprendizagem de diferentes formas Portilho. O livro tem como
na sua vida prática foco diferentes noções do
entendimento do conceito
Cada um desses estágios representa um marco no desenvolvi- de aprendizagem e suas
diferentes possibilidades.
mento humano em ampliação de capacidades motoras, cognitivas e
afetivas. Por isso, requer atenção especial nos momentos de estímu- PORTILHO, E. 2. ed. Rio de Janeiro:
los a serem trabalhados, para levar a criança à evolução das fases. Wak Editora, 2011.
Mas e quando esse desenvolvimento não ocorre dentro do espe-
rado? E quando aparecem lacunas ou dificuldades? Essas são ques-
tões que abordamos na sequência, buscando compreender esses
obstáculos e saber como agir diante deles.
1.2 O cérebro e a aprendizagem
Vídeo Já sabemos que ao pensarmos em aprendizagem podemos imagi-
nar todos os fatores que estão envolvidos nesse processo. Esses fato-
res podem ser sociais, escolares, emocionais e de estímulos do meio.
No entanto, para compreender como a aprendizagem ocorre, é neces-
sário discutirmos sobre o cérebro e o sistema nervoso central (SNC).
Objetivo de aprendizagem Podemos, inicialmente, relacionar a aprendizagem à memória, que
Relacionar a aprendiza- é uma das principais habilidades proporcionadas pelo SNC. A partir do
gem com o desenvolvi-
mento cerebral.
momento que o que foi vivenciado se torna parte da nossa memória,
é possível considerarmos que ocorreu a aprendizagem. O aprender se
torna significativo no momento em que se modificam os mecanismos
do sistema nervoso central.
Processos de aprendizagem 13
MattLphotography/Shutterstock
Porém, a aprendizagem é determinada também pelo número
de neurônios disponíveis. Todos somos capazes de aprender, e, no
caso dos seres humanos, esse número é suficiente para permitir
a formação de novas conexões que possibilitam a aprendizagem.
A essas novas conexões damos o nome de sinapses. Desde o nasci-
mento e durante o processo de desenvolvimento humano muitas
sinapses acontecem a favor da aprendizagem, principalmente nos
primeiros anos de vida, quando a produção de neurônios é rápida
e crescente.
Do nascimento aos 2 anos de idade é o momento em que mais
ocorre a produção de neurônios. Em outros termos, esse é o momento
de maior facilidade para assimilação de novas experiências.
Esse desenvolvimento transcorre gradativamen-
te, e por volta dos 6 anos de idade o cérebro
atinge seu tamanho final. A partir daí seu de-
senvolvimento vai ocorrendo de maneira
mais lenta.
É por essa razão que é importante
estimular a criança até essa faixa etária,
por ser mais fácil de o cérebro se mo-
dificar. Sendo o SNC responsável pelo
funcionamento cognitivo, os estímulos
serão reflexos do desenvolvimento para
a vida toda.
k
stoc
tter
u
/Sh
low
eF
ag
Im
14 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Por isso, é importante sabermos também que o funcionamento
cognitivo se desenvolve no córtex, o qual possui zonas específicas,
denominadas lobos, em cada um dos dois hemisférios cerebrais (Fi-
gura 1).
Figura 1
Desenvolvimento dos neurônios do nascimento até os 2 anos
Lobo
frontal
Lobo
parietal
Lobo
occipital
BigMouse/Shuttestock
Lobo
temporal
Alex Swim/Shutterstok
Frontal: responsável pelo pensamento, planejamento, decisão, juízo,
criatividade, resolução de problemas, comportamento, valores, hábitos.
Parietal: responsável pela informação sensorial (tato, dor, gustação,
pressão, temperatura).
Temporal: responsável pela audição, linguagem, memória e emoção.
Occipital: responsável pela informação visual.
Fonte: Elaborada pela autora.
O desenvolvimento dessas habilidades será por meio das experiên-
cias vividas e dos estímulos proporcionados para a criança ao longo de
seu crescimento.
Processos de aprendizagem 15
A modificação na função cerebral depende das experiências vividas e
dos estímulos investidos na primeira infância. A atenção ao desenvolvi-
mento nesse momento é essencial para o amadurecimento do cérebro.
Se o cérebro determina a maneira e a qualidade da capacidade de
aprendizagem de uma criança, ter o conhecimento de como essa apren-
dizagem pode ser otimizada, por meio de estratégias neuroeducativas,
é uma ideia desejável (MAIA, 2011). Essa ideia justifica a aproximação
da neurociência com a educação, a qual pode ser considerada algo re-
cente e que vem trazendo ótimas experiências para aqueles que traba-
lham com a aprendizagem.
De que se tratam essas estratégias neuroeducativas?
Inicialmente, trata-se de conhecermos as áreas de nosso cérebro
responsáveis pela aprendizagem. Algumas delas são citadas por Levine
(2003):
1 • Controle da atenção: capacitar para a concentração de recursos
A palavra arquivos nesse mentais.
contexto, se refere a
todas as informações que • Controle da recepção: capacitar para retardar a recompensa e
o indivíduo vivenciou e
se tornar processador ativo da informação.
guarda em sua memória.
Um arquivo de suas recor- • Controle da expressão: capacitar para pensar sobre alternativas.
dações e aprendizagens.
• Ordenação sequencial: capacitar para agir passo a passo.
• Orientação espacial: capacitar para se engajar no pensamento
Vídeo não verbal produtivo.
• Memória: capacitar para usar seus arquivos de modo consciente.
1
Para ampliar e sistema-
tizar os conhecimentos
desta seção, recomenda- • Linguagem: capacitar para se tornar comunicador verbal
mos o vídeo Neurociência eficiente.
na aprendizagem escolar,
do canal Gabriel Sathler, • Motricidade: capacitar para um nível satisfatório de eficiência
com a fala da Professora
motora.
Marta Relvas.
• Pensamento social: capacitar para compreender as habilidades
Disponível em: https://
interpessoais.
www.youtube.com/
watch?v=M5F2S5D5CDE. Acesso • Pensamento superior: capacitar para se tornar analista concei-
em: 21 set. 2021.
tual, criativo, sistêmico e crítico.
16 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Conhecer essas competências
cognitivas e saber estimulá-las fará
toda a diferença para a aprendi-
zagem; essa, vale ressaltar, é uma
preocupação daqueles que tra-
balham com a aprendizagem. As
competências cognitivas podem ser
desenvolvidas por meio de estímu-
los que constituem o desenvolvi-
mento humano, conforme veremos
no tópico a seguir.
Jacob Lund/Shutterstock
1.3 Estímulos para a aprendizagem
Vídeo Já sabemos da importância e da necessidade de desenvolver
atenção, recepção, expressão, ordenação espacial e sequencial,
memória, linguagem, motricidade e pensamento social e superior
para que a aprendizagem aconteça.
Para isso, podemos entender os estímulos como um fator que
Objetivo de aprendizagem
impulsiona e incentiva o ser humano a aprender. Esses estímulos
Reconhecer os diferentes
estímulos de base para a estão presentes no meio em que vivemos e podem ser experien-
aprendizagem. ciados por meio de brincadeiras, jogos, trocas de afeto, conversas
e outras situações que motivem a criança em todas as fases do de-
senvolvimento. Esses estímulos precisam estar presentes em todos
os ambientes de convívio da criança, ou seja, tanto em casa, com a
família, quanto na escola.
Situações educativas por meio desses momentos vão fazendo
parte de um ambiente motivador e estimulante, que leve a criança
a aprender de maneira tranquila, espontânea e contínua, e tam-
bém a armazenar e transformar o que vivenciou em seus momen-
tos de aprendizagem.
Por meio dos estímulos, desde o primeiro ano de vida, a criança
passa a se identificar como ser ativo no ambiente e a identificar
o outro. “É por meio dos primeiros cuidados que a criança per-
cebe seu próprio corpo como separado do outro, organiza suas
emoções e amplia seus conhecimentos sobre o mundo” (BRASIL,
1998, p. 15).
Processos de aprendizagem 17
Sabemos que esses primeiros cuidados podem ser trata-
dos como estímulos e que eles afetam diretamente a formação
da personalidade da criança, bem como abre portas para sua
predisposição ao aprender.
Nossas funções cerebrais estão abertas a esses estímulos, prin-
cipalmente na infância, fase em que os neurônios estão aguar-
dando por novas experiências e novos estímulos que os façam
aprender e se desenvolver.
Porém, devemos ter ciência de que a quantidade de estímulos é
adequada e dosada conforme o crescimento e o desenvolvimento
da criança. O indicador da faixa etária traz diferentes possibilidades
de trabalho; um exemplo é a fase até os 6 meses de idade, em que
o toque é de grande importância. Uma possibilidade é trabalhar
com brincadeiras que envolvam o corpo, como massagens suaves
nos braços e pernas, e trabalhar estímulos auditivos por meio de
chocalhos e outros brinquedos que proporcionem diferentes sons.
Aproximadamente a partir dos 6 meses a 1 ano de idade, a crian-
ça já pode ser estimulada a segurar objetos e sentir diferen-
tes texturas, sentar, engatinhar, andar com apoio, montar
e desmontar cubos.
Do primeiro até aproximadamente o segundo ano
de idade, a criança já começa a correr, subir e descer
escadas, empilhar blocos, montar e desmontar. Per-
cebe-se até aqui que a aquisição de habilidades por
meio dos estímulos é gradativa e depende da finalização
da fase anterior para que a próxima venha a acontecer. O
Zalena Photo/Shutterstock
desenvolvimento motor se torna cada vez mais visível.
Dos 2 aos 3 anos de idade a criança já pedala, dança, rabisca linhas
horizontais e tem capacidade de participar da organização de brinque-
dos. Esses estímulos são essenciais para a elaboração prévia de uma
organização mental, que mais tarde refletirá em seus costumes na or-
ganização dos estudos e do planejamento de seu dia a dia.
Já dos 3 aos 4 anos de idade, a criança deve ser estimulada a pu-
lar com desenvoltura, desenhar pessoas (ainda incompletas) e come-
çar a copiar e se interessar por letras. O faz de conta de escrever traz
a primeira expectativa em transformar suas mensagens em escrita.
Nessa faixa etária, a criança também monta e desmonta pequenos
quebra-cabeças.
18 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Do quarto ao sexto ano de idade, a criança tem a habilidade e pode
ser estimulada a permanecer em um pé só, além de já desenhar pessoas
completas, escrever letras e reconhecer diferentes pesos e tamanhos.
Essas simples habilidades, ao serem estimuladas na fase certa, trazem
um grande diferencial para a concretização das bases para a aprendi-
zagem. No entanto, devemos ter a ciência de que esses estímulos são
apenas alguns exemplos do que cada criança é capaz de desenvolver
em cada fase, se estimulada. O ser humano é formado por elementos
mais complexos, que necessitam de estímulos diferenciados para se
desenvolver.
Filme
Nessa perspectiva podemos considerar os seguintes estímulos:
s tock
ter
ut
Estímulos afetivos
Puckung/Sh
São aqueles relacionados ao desenvolvimento emocional da
criança, a maneira como se sente e lida com as emoções durante
sua interação, seus sentimentos, seus desejos e suas ansieda-
des. Os estímulos afetivos são importantes e necessários, uma
vez que a criança precisa aprender a lidar com cada um deles.
s tock
ter
ut
Estímulos físicos
h
Cube29/S
Com o filme Ao mestre,
Coordenação motora, lateralidade e o psicomotor, estão voltados com carinho, você conhe-
cerá a história de Mark
aos movimentos. Além de aprimorar o conhecimento do próprio
Thackeray, um engenheiro
corpo e o ritmo dele, auxilia na socialização e são pré-requisitos desempregado que resol-
importantes para o desenvolvimento da escrita. ve dar aulas em Londres,
s tock para alunos brancos, em
ter
ut uma escola no bairro
Estímulos cognitivos
h
aPolina/S
operário de East End. Os
alunos são indisciplina-
Compreendem a base para a aprendizagem: a atenção, a memó-
Alin
dos, desordeiros e estão
ria, a criatividade, a curiosidade, a linguagem, os pensamentos, determinados a destruir
a observação, a leitura e o raciocínio. O desenvolvimento desses suas aulas. Porém,
fatores dá suporte para as ações de pensar, refletir, desenvolvi- Thackeray enfrenta o
mento do senso crítico e enriquecimento de ideias. desafio e, ao receber um
s tock
ter convite para voltar a atuar
ut
Estímulos sensoriais
h
como engenheiro, precisa
owoodo/S
decidir se pretende seguir
Trata-se do desenvolvimento dos sentidos auditivo, visual, olfati-
Sud
como mestre ou voltar ao
vo, tátil e gustativo. Esses estímulos aprimoram a leitura de mun- antigo cargo. Podemos
do da criança, são base para a aprendizagem por contribuirem relacioná-lo com a habi-
lidade do professor de
para a construção do conhecimento e da personalidade.
focar o estilo de cada um
aprender a se desenvol-
Percebemos, assim, o quanto os estímulos são necessários e es- ver e mudar suas formas
de pensar e agir.
senciais para desenvolver diferentes habilidades na criança, e que
esse trabalho em cada fase cria uma base que sustentará toda a Direção: James Clavell. Inglaterra:
Columbia British Productions, 1967.
aprendizagem humana.
Processos de aprendizagem 19
E quando os estímulos são empregados de maneira inadequada? Ou,
então, esses estímulos não ocorrem?
A falta de estímulo, seja por qualquer motivo, pode causar pre-
juízos para o desenvolvimento infantil, pois leva à perda de expe-
riências necessárias para cada idade. Por exemplo, a criança que em
casa brinca pouco terá mais dificuldade para interagir com diferen-
tes objetos, socializar e até mesmo explorar diferentes formas de
brincar na escola.
É por essa razão que ações voltadas aos estímulos afetivos, cogni-
tivos, físicos e sensoriais devem ser trabalhadas de modo integrado
e contínuo ao longo do desenvolvimento da criança. Isso deve con-
tribuir para a formação de sua personalidade, para a construção do
conhecimento e para torná-la mais ativa, motivada a realizar tarefas
com autonomia e confiança em si. O desenvolvimento de apenas um
estímulo e a defasagem de outros não garante a aprendizagem e o
desenvolvimento de maneira efetiva.
1.4 Afetividade e aprendizagem
Vídeo Os bons relacionamentos, a troca de ideias positivas, sentir-se aco-
lhido e parte de um meio social são sentimentos que fazem bem ao ser
humano. Todas essas ações envolvem e podem ser representadas por
uma palavra: afeto.
Objetivo de aprendizagem
Compreender a importân-
cia da afetividade para a Você já parou para pensar qual o verdadeiro sentido da palavra afeto? E por que
aprendizagem. a afetividade está relacionada à aprendizagem?
Para Antunes (2008), o ser humano nasce extremamente imaturo
o que afeta suas chances de sobrevivência, dessa forma, necessita da
presença do outro, e essa necessidade chamamos de amor. O instinto
de sobrevivência e a percepção da necessidade de proteção despertam
esse sentimento na mãe e no pai, gerando a reciprocidade desse amor,
e isso denominamos de afetividade. Esse sentimento implica viver em
grupo, expandindo a afetividade de um para o outro.
20 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Nesse sentido, podemos relacionar a palavra afeto ao ato de cuidar,
afetar a ponto de interferir em seu processo de aprender e interagir. Es-
ses momentos, em que o ato de afetar se apresenta ao indivíduo, podem
causar também sensações, as quais será necessário afetar a fim de ensi-
nar a lidar, por exemplo, ao se frustrar, contrariar para, então, consequen-
temente aprender a lidar com sentimentos negativos também. Dessa
forma, a afetividade pode ser considerada uma dinâmica relacional, que
proporciona crescimento e aprendizagem de diferentes situações.
A afetividade é algo extremamente relevante na vida das pessoas Filme
desde o nascimento, e deve ser considerada como fator importante na
construção da autoestima, pois é por meio dela que adquirimos con-
fiança no modo de pensar e agir, na forma como resolvemos e enfren-
tamos problemas. A autoimagem bem construída leva à confiança de
se relacionar e de aprender.
Assim, a escola constitui-se como um importante ambiente de tro-
cas e construção de afetividade. Sabemos que o professor, desde mui-
to cedo, representa uma referência para a criança e que uma relação O livro Afetividade e
positiva entre eles traz ao aluno a sensação de maior valor, confiança aprendizagem: contri-
buições de Henri Wallon
e aprovação para o que executa. Além disso, proporciona liberdade de discute a afetividade
interação, alegria e entusiasmo para buscar conhecimento. Esse é o no cotidiano escolar,
apresentando pesquisas
verdadeiro sentido do ato de afetar. A afetividade está relacionada à que se apoiaram na teoria
preocupação com o próximo, com sua aprendizagem e bem-estar, além de desenvolvimento de
Henri Wallon. Segundo
de tornar próximo e acessível esse momento de desenvolvimento. os estudos destacados,
em todos os níveis de
De acordo com Antunes (2008), o professor muitas vezes é quem ensino – do fundamental
melhor pode ajudar o aluno a desenvolver e descobrir suas qualidades ao superior –, alunos e
professores se expressam
e seus talentos, surpreender-se com a responsabilidade, a disciplina e por inteiro com cognições,
a felicidade. O papel da escola é fundamental no desenvolvimento so- sentimentos e movimen-
tos. Assim, o processo de
cioafetivo da criança, ela auxilia no estabelecimento da relação com o ensino-aprendizagem se
outro para o desenvolvimento da aprendizagem. enriquece à medida que
considera a integração
Nossa vida afetiva, desenvolvida em diferentes ambientes inclusive cognitiva-afetiva-motora.
no escolar, faz-nos também assimilar valores ao longo da vida. Para
ALMEIDA, L. R. A.; MAHONEY, A. A.
Wallon (1978) – um dos principais estudiosos sobre a afetividade –, é São Paulo: Loyola, 2007.
partindo de suas próprias experiências que a criança se torna capaz de
distinguir e reconhecer aquilo que está ou não de acordo com suas ex-
pectativas e necessidades, levando, consequentemente, ao aprendizado.
Wallon (1978) ressalta a importância das experiências para a apren-
dizagem. Lidar com elas é uma construção que envolve afetividade,
pois esta impulsiona a ação e leva à concepção da inteligência, além de
Processos de aprendizagem 21
possibilitar ao ser humano como identificar os desejos e sentimentos
que o levarão ao sucesso diante de suas ações e decisões.
O sentimento de insucesso e reprovação de suas capacidades com-
promete o desempenho ao aprender, impossibilitando a espontanei-
dade e a forma de se desenvolver. Valorizar o desempenho da criança
torna-se, assim, o papel principal do professor e de outros profissionais
que a acompanham e da família, lembrando que cada um aprende e se
desenvolve à sua maneira.
1.5 Estilos de aprendizagem
Vídeo Cada ser humano é único em sua forma de ser, pensar, agir e aprender.
Você já parou para pensar qual é seu estilo de aprender? Como e por qual cami-
nho assimila melhor os conhecimentos?
Objetivo de aprendizagem
Identificar os diferentes
estilos de aprendizagem. Essas individualidades são percebidas desde a infância e se des-
tacam ainda mais à medida que o ser humano vai se desenvolvendo
e passando por diferentes experiências que o aproximam das for-
mas que para ele são as mais fáceis de aprender, pois as diferenças
pessoais se acentuam com o passar do tempo, sendo mais evidentes
na vida adulta.
Essas diferenças são caracterizadas devido aos estímulos e ao desen-
volvimento pelo qual essa pessoa passou. Entendemos o termo estilos
de aprendizagem – que ainda se apresenta como algo amplo – como um
objeto de pesquisas e novas possibilidades a cada investigação.
De acordo com algumas teorias, existem pessoas que respondem
melhor a alguns estímulos, ou seja, a maneira como elas compreen-
dem algo quando é ensinado se difere uma da outra.
Ao longo da vida, as pessoas estão em constante processo de
aprendizagem. Para alguns, esse processo é mais fácil de ser assimi-
lado, para outros, nem tanto, ou pelo menos não encontraram sua
forma específica de aprender.
22 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Considerando que a aprendizagem é um processo individual (cada
ser humano aprende à sua maneira), por mais que ocorra com influên-
cia da coletividade, estabelece, com ela, conexões de maneira única e
de acordo com seu próprio desenvolvimento.
Para compreendermos melhor esses estilos de aprendizagem, par-
tiremos dos conceitos originais dos estudos de Neil Fleming e Charles
Bonwell (apud PORTILHO, 2011). Os estilos são divididos em quatro gru-
pos: visual, auditivo, leitura e escrita e cinestésico, descritos a seguir.
1. Visual: maior facilidade para aprender com estímulos visuais, por
meio de gráficos, tabelas, mapas mentais, listas, que possibilitem
a visualização e a assimilação da informação. Geralmente também
expressam melhor o que sabem por meio de resoluções visuais.
2. Auditivo: ouvir vai de encontro a esse perfil. Como a leitura nem
sempre pode ser suficiente, realizá-la em voz alta para estimular
a sensibilidade auditiva para conseguir memorizar, contar sobre
o que aprendeu e discutir sobre esses temas também são boas
estratégias de aprendizagem.
3. Leitura e escrita: a escrita aparece como um fator em destaque.
Esse estilo consegue representar com facilidade suas ideias na
forma escrita, com textos e redações, por exemplo. Também
conseguem assimilar com mais facilidade por meio de anotações
escritas no momento de aprender.
4. Cinestésico: esse perfil precisa aprender na prática, com
estímulos externos para compreender novas aprendizagens.
As experiências concretas estão relacionadas a simulações,
demonstrações e dinâmicas.
É importante ressaltarmos que essa teoria também considera que
existem pessoas multimodais, ou seja, pessoas que, no momento da
aprendizagem, se adaptam a qualquer um dos estilos que a elas pos-
sam ser oferecidos.
Outra teoria, também dividida em quatro grupos, é a de David Kolb
(1984). Para o autor, esses estilos se dividem em adaptadores ou aco-
modadores, assimiladores, divergentes e convergentes; que podem ser
representados por meio da Figura 3.
Processos de aprendizagem 23
Figura 2
Formas de conheci-
mento dos estilos de Conhecimento Experiência Conhecimento
aprendizagem concreta
adaptativo divergente
Apreensão
Extensão
Intenção
Experimentação Observação
ativa reflexiva
Compreensão
Conhecimento Conhecimento
convergente Conceitualização assimilador
abstrata
Fonte: Adaptada de Kolb, 1984.
Vídeo Vamos compreendê-los de modo mais detalhado:
Como momento de
aprofundamento desta • Adaptadores ou acomodadores: são pessoas que aprendem
seção, convidamos você a por meio de experiências de tentativa e erro. Utilizam mais a in-
analisar as características
de sua forma de aprender
tuição do que a lógica.
assistindo ao vídeo Tipos • Assimiladores: preferem trabalhar com as teorias e não tanto
de aprendizagem: que tipo
de aluno você é?, do canal com a prática. Possuem habilidades com ideias abstratas e núme-
Professor Ricardo Alencar ros. São menos sociáveis e preferem analisar e refletir sozinhos.
Matemática.
• Divergentes: têm criatividade e imaginação, elaboram diferentes
Disponível em: https:// teorias com base em uma mesma situação. Trabalham bem em
www.youtube.com/
watch?v=pIyMc2yz1CM. Acesso grupo e gostam de diferentes sensações e observações.
em: 21 set. 2021.
• Convergentes: maior facilidade para praticar suas ideias, tomar
decisões e resolver problemas.
Dentro desses diferentes estilos, tratados em diferentes teorias,
cabe ressaltarmos que o trabalho com eles é sempre uma tarefa desa-
fiadora, uma vez que adaptações precisam ser realizadas para alcançar
cada forma diferente de aprender.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vimos neste capítulo o quanto o processo de aprender é complexo
e, ao mesmo tempo, tão especial. Ao envolvermos diferentes possi-
bilidades de aprendizagem, podemos relacioná-la com o desenvolvi-
24 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
mento do sistema nervoso central e a importância dos estímulos que
tornam esse processo mais ativo, além da afetividade, a qual torna o
indivíduo mais confiante e disposto a aprender. Devemos considerar
o fato de lidar com os obstáculos que possam surgir e, com isso, tam-
bém conhecemos os estilos de aprendizagem, o quais nos tornam
tão únicos e especiais ao seu modo de desenvolver a aprendizagem.
Compreender todos esses caminhos que levam à aprendizagem nos
traz uma base para seguirmos em busca da compreensão dos fatores
que apresentam as dificuldades e os obstáculos durante esse processo.
ATIVIDADES
Atividade 1
Discutimos, no início do capítulo, que existem duas concepções
de aprendizagem: a comportamentalista e a cognitivista, que
nos levaram a refletir sobre como acontece a aprendizagem.
Vimos, ainda, que a psicologia trouxe grande contribuição para
a aprendizagem escolar. Relate qual foi essa contribuição e
exponha sua opinião sobre essa modificação.
Atividade 2
Conhecemos e analisamos as diferentes formas de estímulos
necessárias para que o desenvolvimento humano e a aprendiza-
gem aconteçam. Escreva quais são essas formas de estímulos.
Destaque e comente aquela que, pessoalmente, torna-se a mais
relevante para o desenvolvimento da criança.
Atividade 3
Pudemos conhecer e refletir sobre a importância da afetividade para
a aprendizagem. Dentre os aspectos que a compõem, conhecemos
Wallon, um dos maiores estudiosos do tema. Conceitue o que é a
afetividade para Wallon e relate uma experiência afetiva que marcou
seu processo de aprendizagem ao longo de seu desenvolvimento.
REFERÊNCIAS
ANTUNES, C. Como ensinar com afetividade. São Paulo: Ática, 2008.
BRASIL. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: formação pessoal e social.
Brasília, DF: MEC; SEF, 1998. v. 2. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/
pdf/volume2.pdf. Acesso em: 15 set. 2021.
KOLB, D. Experiential learning. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1984.
LEVINE, M. Educação Individualizada. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
MAIA, H. Funções cognitivas e aprendizagem escolar. In: MAIA, H. (org). Neurociência e
desenvolvimento cognitivo. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011
PORTILHO, E. Como se aprende? Estratégias, Estilos e Metacognição. Rio de Janeiro: Wak
Editora, 2011.
WALLON, H. Do ato ao pensamento. Lisboa: Moraes, 1978.
Processos de aprendizagem 25
2
Dificuldades de aprendizagem
O processo de aprendizado leva tempo para ocorrer, mas e quando
ele não acontece como esperado? Neste capítulo refletiremos sobre esses
momentos de desenvolvimento.
Cada ser humano é único em sua forma de ser, agir, pensar e aprender.
Essas diferenças são produtivas para a ampliação de conhecimento e socia-
lização. No entanto, algumas vezes, surgem no processo de aprendizagem
em forma de obstáculos que precisam ser diagnosticados, vistos e orien-
tados de modo correto e significativo para a criança, fazendo com que ela
aprenda e desenvolva-se normalmente.
As dificuldades ou os transtornos de aprendizagem, como dislexia,
discalculia, entre outros, surgem por fatores pedagógicos, sociais e cul-
turais. Ainda podem ser genéticos e neurológicos, ou seja, acompanham
a pessoa desde o nascimento. É preciso que, independentemente de
sua ordem, esses fatores sejam compreendidos por todos os envolvi-
dos com o trabalho na escola e fora dela. Em todas as situações que
envolvam dificuldades é crucial contar com profissionais de apoio que
auxiliem no convívio social, em adequações no ambiente e, em alguns
casos, no mercado de trabalho.
Conheceremos a definição e os principais elementos que caracterizam
a dislexia, a disortografia, a disgrafia e a discalculia e, dessa forma, busca-
remos, durante o estudo, fazer conexões com fatos ocorridos em sala de
aula, de modo a auxiliar o trabalho do professor.
Analisaremos as principais dificuldades de aprendizagem, a fim de
que você consiga ampliar o seu olhar para as pessoas que apresentam
essas dificuldades.
2.1 Dificuldades de aprendizagem: causas e tipos
Vídeo
É de extrema importância que compreendamos a nomenclatura do
que estamos estudando ao nos referirmos a dificuldades, transtornos
ou distúrbios de aprendizagem.
As dificuldades de aprendizagem, tema deste capítulo, são
aquelas que apresentam barreiras e defasagens para o desenvolvi-
26 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Objetivo de aprendizagem mento da aprendizagem. Surgem no percurso, devido ao fato de que
Reconhecer as causas e algo ficou para trás na automatização e aquisição da aprendizagem.
os tipos de dificuldades
de aprendizagem. Porém, segundo Fonseca (1995), a criança com dificuldade de
aprendizagem não deve ser vista como deficiente, mas sim como uma
criança como qualquer outra, que apresenta um ritmo diferente, uma
defasagem ou algo diferenciado na forma de aprender.
Questões sociais, culturais, afetivas, de vínculo escolar e
de adaptação a metodologias podem ter influência nas
dificuldades e nos problemas ao aprender a ler, escre-
ver, calcular, falar, se organizar e até mesmo socializar.
Kamelia Ilieva/Shutterstock
Já os transtornos de aprendizagem ou distúr-
bios de aprendizagem têm origem genética ou
neurológica, acompanhando o indivíduo por
toda a vida.
Ao longo do desenvolvimento, característi-
cas consideradas diferentes, ou seja, que nem sempre estão de acordo
com a faixa etária da criança, vão sendo percebidas, e a falta de manejo
1 1
desses distúrbios gera dificuldades de aprendizagem.
A falta de manejo
refere-se às diferentes Vamos usar como exemplo uma criança disléxica. Na escola ela
estratégias que podem é obrigada a escrever muitas vezes as mesmas informações para
ser utilizadas na escola, as
quais buscam uma solu- superar seus erros. Ocorre que se a escola não possui o diagnósti-
ção equivocada para pro- co e não traça formas de trabalho adequadas, a criança irá escrever
blemas de aprendizagem.
incessantemente, sem ter de fato alguma mudança em sua apren-
dizagem. Essa atitude, na verdade, causa cansaço e frustração, e a
criança continuará cometendo erros, pois precisa de outro tipo de
abordagem. Isso acaba gerando um constrangimento que, aliado aos
demais sentimentos, não agrega à aprendizagem. É necessário co-
nhecer as características do sujeito disléxico e desenvolver práticas
que realmente o auxiliem em sua caminhada escolar.
Billion Photos/Shutterstock
Dificuldades de aprendizagem 27
Por isso, o diagnóstico e a intervenção precoces são o melhor ca-
minho para proporcionar um bom desenvolvimento a essas crianças.
Para o diagnóstico, é necessária a avaliação psicopedagógica, que será
o ponto de partida para a compreensão das características cogniti-
vas da criança. Assim que ocorre o diagnóstico, professores e famílias
podem ser orientados para trabalhar adequadamente e proporcio-
nar, com base nas dificuldades desses alunos, o desenvolvimento e a
aprendizagem. Uma criança com problemas atencionais, por exemplo,
tem dificuldade em manter o foco por muito tempo em uma mesma
tarefa, desse modo, a estratégia deve proporcionar atividades de curta
duração para aproveitar melhor seu tempo de concentração.
De acordo com Morais (2006, p. 23), “deve ficar claro que a aprendi-
zagem da leitura e escrita é um processo complexo, que envolve vários
sistemas e habilidades (linguísticas, perceptuais, motoras, cognitivas), e
não se pode esperar, portanto, que um determinado fator seja o único
responsável pela dificuldade de aprender”.
Nesse sentido, a criança com dislexia não deve ser vista apenas
como aquela que possui um fator de desordem no seu desenvolvimen-
to, e sim como alguém que tem uma série de habilidades que apenas
estão desalinhadas e devem ser acompanhadas e estimuladas para o
processo de aprendizagem.
Por isso, após diagnosticados e identificados quais fatores sus-
tentam o desenvolvimento e quais estão impedindo a aprendizagem
(motor, linguístico, afetivo, cognitivo ou perceptual), todo o trabalho di-
recionado a essa criança passa por uma reestruturação. Esse processo
se dá na adequação escolar do currículo e de metodologias que otimi-
zem o desenvolvimento da aprendizagem e socialização.
Existem muitas dificuldades e transtornos que podem nascer com a
criança ou surgir ao longo do seu desenvolvimento, como a dislexia, a
discalculia, a disgrafia e a disortografia.
Além disso, a ausência de estímulos de habilidades básicas an-
tes do período de alfabetização pode ocasionar dificuldades para
aprender, pois deixa de trazer bases importantes para que esse
aprendizado aconteça. No quadro a seguir podemos verificar essas
habilidades básicas.
28 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Quadro 1
Habilidades básicas
Habilidade Definição Exemplo
Consciência do próprio corpo e sua Relacionada à sua identificação do espaço (consigo
Imagem corporal interação com o mundo pular? É alto para mim?).
Distinção de sua posição no espaço A organização dos próprios materiais e do local
Orientação espacial e relações espaciais que ocupa que ocupa tem relação com essa habilidade.
Reflete na organização com relação ao tempo (se
Orientação temporal Duração e sucessão consegue fazer as coisas no prazo de uma aula,
por exemplo).
O ritmo de sons trabalhado desde os primeiros
Ritmo Duração sonora anos escolares auxilia mais tarde no ritmo de leitu-
ra e no reconhecimento dos sons das letras.
Olhar e reter a informação auxilia no reconheci-
Reter com exatidão a curto ou longo
Memória visual prazo o que foi visualizado
mento da escrita das palavras (se é com s ou z,
por exemplo).
A criança movimenta a cabeça para olhar para o
Coordenação Visão e movimentos do corpo
quadro e copiar uma informação ao mesmo tem-
visomotora integrados
po sem perder a informação que leu.
Movimentos motores necessários Auxilia o engajamento da criança no manuseio de
Memória cinestésica para a escrita objetos menores, como o lápis na escrita.
Condução das informações gráficas Essa habilidade reflete a compreensão sonora das
Habilidades auditivas até o cérebro letras e auxilia na boa escrita ortográfica.
Etapa anterior à linguagem escrita; Falar com clareza e corretamente para conse-
Linguagem oral desenvolvimento da fala quentemente escrever bem.
Fonte: Elaborado pela autora.
Livro
Um exemplo da utilização prática dessas habilidades é o que a
criança precisa adquirir antes de aprender a ler e escrever. A falta de
um desses elementos pode gerar problemas de aprendizagem. Para ler
e escrever, a criança precisa:
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Aprender a falar
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seus conhecimentos
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sobre as dificuldades de
Diferenciar tamanhos
aprendizagem. As autoras
apresentam de maneira
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didática cada dificuldade,
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Criar interesse pelo sua origem e possibilidades
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mundo letrado de adequação de trabalho
para cada uma delas.
Porto Alegre: Artmed, 2012.
Dificuldades de aprendizagem 29
Esses prerrequisitos são temas abordados na Educação Infantil e
estendem-se por boa parte do Ensino Fundamental, por serem parte
de um processo de desenvolvimento. São extremamente necessários
para que outras aprendizagens ocorram e funcionam como base de
sustentação para o ato de aprender.
Portanto, conhecer as diferentes dificuldades de aprendizagem e
saber como lidar com cada uma delas é um desafio constante para o
profissional que trabalha com a educação.
2.2 Dislexia
Vídeo A dislexia é uma das dificuldades mais conhecidas, e somente no sé-
culo XX passou a ser vista com a abrangência que possui. Vinda do grego
dislexia – dis (dificuldade) e lexia (linguagem) – significa falta de habilidade
na linguagem, que se reflete na leitura e na escrita.
Desse modo, a dislexia não é considerada uma doença, e sim uma for-
Objetivo de aprendizagem ma diferente de o cérebro funcionar e compreender a linguagem. Trata-se
Conhecer as característi- de uma questão neurológica, visto que atualmente exames de diagnóstico
cas da dislexia.
de imagem do cérebro mostram o processamento de informação dos dis-
léxicos de uma maneira distinta, tornando possível sua forma de aprender
diferente por meio de suas próprias habilidades.
Figura 1 Por isso, a dislexia é classificada
Sintomas da dislexia infantil Problemas para como um distúrbio neurológico que
VLADGRIN/Shutterstock
ler e escrever
Dificuldades de
não prejudica o potencial cognitivo
alfabetização
da criança, apenas torna diferen-
te seu caminho de aprender a ler,
escrever e decodificar a leitura e a
escrita.
Por ser neurológica, a dislexia
demonstra alguns sintomas (Fi-
gura 1) mesmo antes da fase de
alfabetização, os quais devem ser
Problemas observados pela família e escola.
de orientação
espacial
Se uma dificuldade está direta-
Lentidão acima do
normal durante
Dificuldade na mente ligada à leitura, à escrita e
o processo de
coordenação
alfabetização
motora fina
30 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
à sua compreensão e se ela se manifesta em outras áreas da aprendi-
zagem essenciais para o desenvolvimento da criança, a dislexia passa a
ser alvo de interesse de professores e todos os profissionais que traba-
lham e intervêm nessa área.
De acordo com Morais (2006, p. 41), “a dislexia é um termo que se
refere às crianças que apresentam sérias dificuldades de leitura e, con-
sequentemente, de escrita, apesar do seu nível de inteligência ser nor-
mal, ou estar acima da média”.
Assim, em sala de aula ou em outros momentos de realização de
leitura e escrita, o interesse dos profissionais justifica-se. Ao surgirem
obstáculos, as atividades de leitura e escrita não devem ser entendi-
das como algo que o aluno não quer fazer, ou não se esforça, ou qual-
quer outro estereótipo que não contribui para o seu desenvolvimento.
Por outro lado, nem todas as dificuldades de leitura, escrita e
interpretação devem ser entendidas como dislexia. A busca de um
diagnóstico seguro, por meio de uma avaliação psicopedagógica, faz
com que seja detectada a real origem dessa dificuldade e, conse-
quentemente, leva à maneira correta de intervir e orientar em sala
de aula, realizando as adaptações necessárias, sejam curriculares,
sejam metodológicas. 2
Diagnosticada por meio de uma avaliação psicopedagógica, a Entendemos por
consciência fonológica
criança deve passar por um apoio externo ao ambiente escolar, com
a capacidade de refletir
psicopedagogos, fonoaudiólogos e psicólogos, à medida que forem re- sobre a estrutura de pala-
vras, sílabas e seus sons,
comendados no seu diagnóstico.
conhecidos como fonemas,
No ambiente escolar esses profissionais, em trabalho conjunto e compreendê-la.
com os professores, deverão traçar as melhores formas de avaliar
a criança e intervir em sua aprendizagem. Com o diagnóstico feito
(e as devidas adaptações realizadas), inicia-se o processo de com-
preensão e aprendizagem da leitura e escrita e adaptações dos alu-
nos com dislexia.
Compreender o mundo das letras, o som
de cada uma delas e suas variações, bem
2
como a consciência fonológica , a jun-
wavebreakmedia/Shutterstock
ção de sílabas, frases e textos e, assim,
sua interpretação, é um caminho a ser
trilhado e orientado a cada passo.
Dificuldades de aprendizagem 31
Esse caminho de compreensão se inicia na fase da alfabetização, e
existe a necessidade de que o trabalho com a consciência fonológica
seja intenso, pois a falta de seu reconhecimento é um dos principais
fatores presentes na pessoa com dislexia.
Segundo Seabra e Capovilla (2004), a consciência fonológica envol-
ve a capacidade de identificar, isolar, manipular, combinar e segmen-
tar mentalmente e de modo deliberado os segmentos fonológicos da
língua. Essa manipulação das palavras faz parte da alfabetização, que
nem sempre é tão óbvia. Para as crianças que conseguem compreen-
der bem esse processo, geralmente ocorre um bom desenvolvimento
da alfabetização no contato com a leitura, escrita e interpretação.
Figura 2
Reconhecimento dos sons das letras
Carla Francesca Castagno/Shutterstock
No entanto, quando ocorre o contrário, desde o início esse cami-
nho é difícil demais para a criança. É o momento de observar seu de-
sempenho e buscar recursos que possam a auxiliar ou a diagnosticar
caso seja disléxica.
Dentro dos inúmeros fatores que contribuem, ou não, para o de-
senvolvimento da leitura e escrita, segundo Torres e Fernández (2002),
podemos destacar alguns tipos de dislexia:
• Dislexia visual: dificuldade na percepção visual e coordenação
visomotora, não conseguindo visualizar o fonema com clareza.
• Dislexia auditiva: dificuldade na percepção e memória auditiva,
não conseguindo ouvir com clareza o fonema.
• Dislexia disfonética: troca de sons diferentes, alterações na or-
dem das letras e sílabas, omissões e acréscimos e maior dificul-
dade na escrita do que na leitura.
32 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
• Dislexia diseidética: dificuldade na leitura silábica, não conse-
guindo realizar a síntese das palavras, e maior dificuldade para a
leitura do que para a escrita.
• Dislexia mista: combinação de mais de um tipo de dislexia.
• Dislexia fonológica: forma leve de dislexia, confusão na realiza-
ção da leitura, que apresenta pacientes que podem ler palavras
muito bem mesmo sendo disléxicos.
Com base no diagnóstico, uma boa estratégia é buscar o que de
melhor o disléxico apresenta para que, com base em suas habilidades,
outras sejam aperfeiçoadas, levando, então, ao seu desenvolvimento.
De acordo com Gonçalves (2005 apud OLIVEIRA, 2011):
grande parte da intervenção psicopedagógica estará em buscar
talentos do disléxico, afinal os fracassos, sem dúvida, ele já os co-
nhece bem. Outra tarefa da clínica psicopedagógica é ajudar essa
Vídeo
pessoa a descobrir modos compensatórios de aprender. Jogos,
leituras compartilhadas, atividades específicas para desenvolver Como complemento de
nossas ideias, assista ao
a escrita e habilidades de memória e atenção fazem parte do
vídeo Mentes em pauta
processo de intervenção. À medida que o disléxico se percebe – dislexia, do canal Ana
capaz de produzir poderá avançar no seu processo de aprendi- Beatriz Barbosa, sobre as
características da dislexia.
zagem e iniciar o resgate de sua autoestima.
Disponível em: https://
Sabendo que para o disléxico a recuperação da autoestima é um fa- www.youtube.com/
watch?v=qvuSXtQtqv4. Acesso
tor importante, em sala de aula, o professor deve buscar compreendê-lo,
em: 1 dez. 2021.
ouvi-lo e dar o suporte necessário para seu desenvolvimento.
2.3 Disgrafia
Vídeo Já sabemos que a dislexia traz dificuldades específicas para a leitu-
ra, escrita e sua decodificação, além dos percalços causados por ela.
Veremos agora outra dificuldade, a disgrafia, que é importante para a
compreensão das dificuldades de aprendizagem.
A disgrafia abrange questões que também estão ligadas à escri-
ta, porém agora relacionadas ao traçado e à legibilidade. A criança
Objetivo de aprendizagem
que apresenta disgrafia produz uma escrita quase que ilegível, tanto
Identificar o que é disgrafia. para ela própria quanto para quem lê. No texto com disgrafia perce-
bemos que o traçado das letras possui irregularidades na sua forma
e organização do espaço.
Dificuldades de aprendizagem 33
Lembrete Morais (2006) defende que a disgrafia é uma deficiência na qualidade
A coordenação motora do traçado gráfico, entretanto, não deve causar um déficit intelectual
fina dá-se por meio de
músculos pequenos, e/ou neurológico. Sabendo que não se trata disso, ao analisarmos suas
como os das mãos e dos causas, podemos pensar em algumas especificidades voltadas aos pri-
pés. Ela é utilizada para
desenhar, pintar ou ma- meiros anos de vida, por exemplo, o desenvolvimento da motricidade.
nusear pequenos objetos,
realizando movimentos
Partindo da ideia de que o desenvolvimento motor é necessário
mais precisos e delicados. para que a criança desenvolva sua coordenação motora fina, é possível
relacionar a disgrafia a problemas perceptivo-motores.
Para Pereira (2009), a disgrafia envolve:
MayoCreative/Shutterstock
Coordenação geral: capacidade motora de usar
o corpo de maneira eficiente.
1
Coordenação motora: capacidade de dominar o 2
corpo e o espaço e controlar seus movimentos.
Motricidade ampla: compreende andar, saltar e
mexer-se em diferentes direções.
3
Motricidade fina: maneira que usamos os braços, as mãos
e os dedos, manipulando objetos de modo preciso.
4
Integração visomotora: coordenação entre a
coordenação motora e a percepção visual. 5
Planejamento motor: capacidade de organizar, planejar
e executar ações, como desenhar e pedalar.
6
Percepção visual: capacidade do cérebro de
compreender, organizar e interpretar estímulos visuais.
7
Atenção sustentada: capacidade de concentrar-se em uma
8
tarefa por determinado tempo sem se distrair.
Consciência sensorial dos dedos: habilidade consciente de
uso e manuseio das mãos.
9
34 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Sabendo que essas bases são fundamentais para o bom traçado e
desenvolvimento da escrita, é fundamental que o professor compreen-
da que a letra “feia” pode não estar relacionada ao desinteresse, mas
sim à dificuldade ou inabilidade em algumas dessas áreas.
Dessa forma, na fase da alfabetização, quando é perceptível a difi-
culdade da criança em escrever, o professor precisa estar atento para
realizar um trabalho direcionado, buscando melhorar essa questão.
É importante lembrar que o desenvolvimento da escrita não se trata
de um processo linear. Pelo contrário, na maioria das escolas, a criança
inicia o processo de alfabetização com a letra caixa-alta, também conhe-
cida como letra de forma, e faz a transição no ano seguinte para a letra
cursiva. Essa mudança, após o amadurecimento dos primeiros contatos
com as letras, deve ser gradativa e repleta de estímulos que
direcionem a criança para o escrever correto e legí-
vel. Nesse momento, as dificuldades ou facilidades
Africa Studio/Shutterstock
tornam-se muito pessoais entre os sujeitos, que
devem ser orientados e auxiliados de acordo com
a demanda que cada um apresenta.
Alguns fatores ainda podem contribuir forte-
mente para que a disgrafia ocorra ou se agrave,
como: Livro
• Falta de organização da página: ligada à orientação espacial,
apresenta margens malfeitas ou inexistentes e espaços inade-
quados entre as palavras.
• Letras mal organizadas: a criança não consegue se adaptar a
nenhum sistema caligráfico (pode ser no formato de letra de im-
prensa ou letra cursiva) e o traçado apresenta-se fora do padrão.
• Erro de formas e proporções: quando a letra tem um formato
grande ou pequeno demais. O livro Dificuldades específi-
cas de aprendizagem: ideias
Assim como as demais dificuldades e transtornos de aprendizagem, práticas para trabalhar
com: dislexia, discalculia,
os fatores afetivo e emocional devem ser considerados. Essas crianças disgrafia, dispraxia, TDAH,
já sentem o peso de fazerem diferente dos demais e, muitas vezes, não TEA, Síndrome de Asperger
e TOC, de Diana Hudson,
alcançam o êxito, por isso, apoiar, acolher e orientar são necessidades trata de todas as dificul-
constantes. Ser diferente em sala de aula é algo difícil para a criança, dades e, em especial, traz
um capítulo com um ótimo
pois ela passa por comparações, sentindo-se atrasada em relação aos embasamento comple-
demais, e os fatores emocionais podem interromper a aprendizagem e mentar sobre a disgrafia.
a evolução desse indivíduo. Petrópolis: Vozes, 2019.
Dificuldades de aprendizagem 35
2.4 Disortografia
Vídeo Além da dislexia e da disgrafia, outra dificuldade que pode surgir
durante o desenvolvimento da leitura e escrita é a disortografia.
Caracterizada como uma dificuldade que afeta o domínio da
escrita em questões tanto ortográficas quanto textuais, a disor-
tografia apresenta uma escrita que foge às regras ortográficas
Objetivo de aprendizagem (PEREIRA, 2009).
Reconhecer as caracterís- De acordo com Pereira (2009, p. 9), a disortografia está relacio-
ticas da disortografia.
nada a uma “perturbação que afeta as aptidões da escrita e que se
traduz por dificuldades persistentes e recorrentes na capacidade da
criança produzir textos”. Já para Barbeiro (2007, p. 118), “a disorto-
grafia é a dificuldade de escrita que compromete a aprendizagem
e a automatização dos processos responsáveis pela representação
ortográfica apropriada”.
No início do processo de alfabetização, as trocas ortográficas es-
tão presentes pelo fato de a criança estar passando pelo reconheci-
mento do traçado e da sonoridade das letras e palavras, mas devem
ser superadas com a prática e a apropriação do sistema ortográfico.
Essas trocas vão se amenizando à medida que a prática da escrita
acontece. Quando elas persistem por muito tempo e mostram ca-
racterísticas específicas, podem revelar um quadro de disortografia.
Alguns exemplos de trocas são:
• f/v: faca/vaca;
• ch/j: chato/jato;
• t/d: conte/conde;
• p/b: pompa/pomba.
Podem ocorrer ainda na disortografia omissões de letras, inver-
sões e confusões entre sílabas. Torres e Fernández (2002) destacam
sete tipos de disortografia:
36 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
MayoCreative/Shutterstock
Temporal: incapacidade de ter uma visão clara
dos aspectos fonéticos da fala. 1
Perceptivo-cinestésica: incapacidade para
repetir os sons, verificando as substituições no 2
modo de articular os fonemas.
Cinética: deficiência de ordenação e
sequenciação dos elementos gráficos, gerando
3
erros de união e separação.
Visuoespacial: alteração perceptiva da imagem dos
grafemas.
4
Dinâmica: alteração na expressão escrita das
ideias e na estrutura sintática das proposições. 5
6
Semântica: a análise é indispensável para o
estabelecimento dos limites das palavras.
Cultural: dificuldade na aprendizagem da ortografia
convencional.
7
Já caracterizados esses diferentes tipos de disortografia, pode-
mos ainda a dividir em três grupos: das trocas auditivas, das trocas
visuais e das trocas mistas.
Quanto às trocas auditivas, caracterizam-se pela troca dos sons
próximos, como f/v, t/d e c/g. Ao ouvir as palavras com essas le-
tras, são facilmente confundidas, como vaca e faca. Esse grupo
caracteriza-se também pela dificuldade de guardar palavras ditadas
ou elaboradas mentalmente, logo, ao escrever, surgem também as
inversões.
Dificuldades de aprendizagem 37
As trocas visuais são aquelas que têm relação com a orientação
espacial, como p, b, d, q, ou semelhança de detalhes, como t, f. Nas
trocas visuais ocorrem também erros relacionados à sequência vi-
sual, como trem/temr ou moeda/muda. Aqui se justifica que, como
prerrequisito à aprendizagem, a criança desenvolva a noção espacial
e de lateralidade. Esses elementos, trabalhados ainda na Educação
Infantil, fazem toda a diferença para a visualização e o posicionamen-
to correto das letras quando se inicia o processo de alfabetização.
Vídeo
Como complemento, Já as trocas mistas englobam as características do tipo visual e
assista ao vídeo auditivo. Mesmo sendo mais raras, são casos considerados de longo
Disortografia, do canal
Nadia Bossa, que aborda prazo para que ocorra a reeducação.
as características da
disortografia.
Assim, a disortografia pode prejudicar o processo de escrita e
Disponível em: https://
compreensão da criança, por isso deve ser vista por meio de um
www.youtube.com/ trabalho atento do professor. Ao surgirem indícios dessa dificul-
watch?v=pS5l1C2li3k. Acesso em:
17 dez. 2021.
dade, é necessário realizar o encaminhamento para um profissio-
nal responsável, o psicopedagogo, para que realize uma avaliação
psicopedagógica.
2.5 Discalculia
Vídeo Conhecemos até aqui as principais dificuldades de aprendiza-
gem presentes no desenvolvimento da leitura e escrita e de sua
decodificação.
No entanto, o raciocínio lógico-matemático também pode apre-
sentar obstáculos significativos durante a aprendizagem.
Objetivo de aprendizagem De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtor-
1
Compreender as caracte- nos Mentais – DSM -5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2014
rísticas da discalculia. apud PIMENTEL; LARA, 2017, p. 5), a discalculia “envolve o senso nu-
mérico, memorização de fatos aritméticos, precisão ou fluência de
1
cálculo e precisão no raciocínio matemático”. Além disso, esse é “um
Manual de Diagnóstico e
termo alternativo usado em referência a um padrão de dificuldades
Estatístico de Transtornos
Mentais 5.ª edição, ou caracterizado por problemas no processamento de informações nu-
DSM-5, é um manual
méricas, aprendizagem de fatos aritméticos e realização de cálculos
diagnóstico elaborado
pela Associação Ameri- precisos ou fluente”.
cana de Psiquiatria para
definir como é feito o Ainda, de acordo com Morais (2006), a discalculia pode ser classi-
diagnóstico de transtor-
ficada em seis tipos:
nos mentais.
38 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
MayoCreative/Shutterstock
Practognóstica: dificuldades para enumerar,
comparar e manipular objetos reais ou em imagens.
1
Ideognóstica: dificuldades em fazer operações
mentais e compreender conceitos matemáticos.
2
Verbal: dificuldades em nomear quantidades
matemáticas, números, termos e símbolos.
3
Léxica: dificuldades na leitura de símbolos
matemáticos. 4
Operacional: dificuldades na execução de
operações e cálculos numéricos. 5
Gráfica: dificuldades na escrita de símbolos
matemáticos. 6
Muitas vezes, a discalculia vem de bases não estimuladas e não de-
senvolvidas, como as habilidades linguísticas, perceptivas, de atenção e
matemáticas, as funções executivas prejudicadas e a baixa capacidade
de atenção. Esses fatores resultam em déficits no senso numérico.
Conhecida como a dislexia dos números, o termo discalculia vem do
grego dis, que significa dificuldade, e do latim calculia, que significa con-
tar, por isso a dificuldade para contar.
Carla Francesca Castagno/Shutterstock
Figura 3
Forma do pensa-
mento matemático
do discalcúlico
A organização espacial interfere no
sucesso da aprendizagem matemática.
Dificuldades de aprendizagem 39
Com relação à compreensão dos números, a criança discalcúlica
pode apresentar:
• Falta de compreensão intuitiva dos números, como não saber
qual é o maior ou menor.
• Dificuldade de arredondar números.
• Dificuldade de fazer estimativa.
• Uso dos dedos constantemente para contar.
• Confusão com números parecidos e inversões, por exemplo, 240
por 204.
• Extrema dificuldade de aprender tabuada.
• Incapacidade de realizar cálculos mentais.
• Dificuldade de lembrar de informações numéricas.
• Incapacidade de realizar a reversibilidade, por exemplo, 2 + 3 é
também 3 + 2.
• Dificuldade em assimilar porcentagem, fração e casas decimais.
Além dessas questões, a criança apresenta com frequência dificul-
dades na memória a curto prazo, ou seja, lembrar de números durante
os cálculos, de sequência numérica, de números de telefone ou de da-
dos bancários e pontuações de competições esportivas. Isso também é
refletido na representação gráfica ou na compreensão e interpretação
de gráficos e escalas em papel (a leitura é imprecisa).
Ainda questões de ordem pessoal costumam aparecer, como a di-
ficuldade com a pontualidade, uma vez que não saber ler as horas em
um relógio se torna um problema. Esses episódios trazem constran-
gimento para a criança que ainda não assimilou essa aprendizagem.
Consequentemente, sua organização diária pode sofrer prejuízos.
Sabendo dessas questões e que toda dificuldade para aprender
remete a prejuízo na autoconfiança e autoestima, vale lembrar de
algumas atitudes essenciais e necessárias para atender aos alunos
com discalculia:
• Tornar o ambiente seguro, no sentido de que o aluno pode pedir
ajuda e obter suporte diante de suas dificuldades.
• Manter esses alunos sentados próximos aos demais, para evitar
constrangimento se não quiserem se expor diante de dúvidas.
40 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
• Trabalhar com exemplos concretos, escritos, de modo que a
criança possa visualizar o que está sendo falado.
• Verificar se o aluno compreende o que é para ser feito e o ritmo
em que ele está realizando determinada tarefa.
• Disponibilizar tempo suficiente para que as atividades sejam Vídeo
concluídas. Como complemen-
to, assista ao vídeo
Outro aspecto de cuidado é o da linguagem matemática. É necessá- Discalculia, do canal Nadia
Bossa, que demonstra na
rio verificar se todos os termos necessariamente usados nas explica- prática as dificuldades da
ções são de fácil acesso ao entendimento do aluno, pois o que muitas criança discalcúlica.
vezes é óbvio para quem fala não é para quem ouve. Disponível em: https://
www.youtube.com/
Partindo do princípio de que o óbvio também precisa ser dito, as watch?v=mfHXkM1ctD0. Acesso
em: 17 dez. 2021.
orientações adequadas ao discalcúlico são sempre necessárias.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conhecer as dificuldades e os transtornos de aprendizagem nos tor-
na profissionais diferenciados diante da individualidade do ser humano.
O universo do aprender já é amplo, e quando esse caminho apresenta
obstáculos, torna-se ainda maior, passando a ser um desafio constante.
Atualmente, e felizmente, é possível o diagnóstico precoce, o que faci-
lita e direciona o trabalho em sala de aula. A vantagem de conhecermos
e identificarmos como trabalhar a dislexia (dificuldade ao ler, escrever
e interpretar), a disortografia (dificuldades ortográficas), a disgrafia (di-
ficuldade no traçado das letras) e a discalculia (dificuldade no raciocí-
nio lógico-matemático), nos torna pessoas capazes de compreender e
adaptar novas formas de aprendizagem.
ATIVIDADES
Atividade 1
Sobre as dificuldades de aprendizagem estudadas, escolha qua-
tro delas e descreva suas principais características. Em seguida,
responda: como você avalia seu processo de aprendizagem com
relação à leitura, à escrita, à interpretação, ao traçado, à ortogra-
fia e à matemática?
Dificuldades de aprendizagem 41
Atividade 2
Conhecer as características da dislexia e encaminhar a criança
para uma avaliação psicopedagógica, bem como saber intervir
nesses casos, é de extrema importância para o profissional da
educação. Com base nessa premissa, cite as principais característi-
cas da criança disléxica.
Atividade 3
Dos tipos de discalculia estudados, escolha o que para você parece
ser o mais comum e justifique sua resposta.
REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos
mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BARBEIRO, L. Aprendizagem da ortografia. Porto: Edições Asa, 2007.
FONSECA, V. da. Dificuldades de aprendizagem. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
GONÇALVES, A. M. S. A criança disléxica e a clínica psicopedagógica. Disponível em: http://
www.profala.com/artdislexia1.htm. Acesso em: 17 dez. 2021.
MORAIS. A. M. P. Distúrbios da aprendizagem: uma abordagem psicopedagógica. São
Paulo: Edicon, 2006.
PEREIRA, R. S. Dislexia e disortografia: programa de intervenção e reeducação. Montijo:
Humanity’s Friends Books, 2009.
SEABRA, A. G.; CAPOVILLA, F. C. Alfabetização: método fônico. 3. ed. São Paulo: Memnon, 2004.
TORRES, R. M. R.; FERNÁNDEZ, P. F. Dislexia, disortografia y disgrafia. Lisboa: McGraw Hill
de Portugal, 2002.
42 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
3
Transtornos de aprendizagem
Conhecer as dificuldades que acometem a aprendizagem é algo bastante
profundo, pois nos leva a conhecer também transtornos do desenvolvimento
que interferem tanto na aprendizagem quanto em questões interpessoais.
Estudaremos neste capítulo sobre o transtorno do espectro autista
(TEA), o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), a síndro-
me de Asperger, o transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e o transtorno
opositor desafiador (TOD).
Esses transtornos se manifestam na infância e acompanham as fases
do desenvolvimento humano. Compreender as características de cada
um e intervir de maneira correta e no tempo certo faz parte do trabalho
de todos aqueles envolvidos com a educação. Neste capítulo vamos co-
nhecer, analisar e refletir sobre cada um desses transtornos.
3.1 Transtorno do déficit de atenção
Vídeo e hiperatividade (TDAH)
Para compreendermos o TDAH devemos conhecer isoladamente os
conceitos de atenção e hiperatividade.
A atenção é uma função essencial para a vida humana, uma vez
que muitas de nossas ações dependem dela, por exemplo, atravessar a
Objetivo de aprendizagem
rua, cozinhar, compreender uma aula e aprender algo novo. Podemos
entender a atenção também como um processo do desenvolvimento
Reconhecer o transtorno
do déficit de atenção e cognitivo em que, por meio de um estímulo externo, conseguimos dar
hiperatividade e suas uma resposta a ele. A atenção se desenvolve por meio de vivências co-
características.
tidianas, como as brincadeiras na infância, as interações sociais e as
atividades escolares rotineiras.
Nessas vivências a atenção pode ser aprimorada ou desenvolvida
por meio de intervenções cognitivas, sendo assim, deve ser estimulada.
Inicialmente, deve ocorrer mediante atividades direcionadas, que são
aquelas proporcionadas pela escola, iniciando na Educação Infantil e se
estendendo por todos os anos escolares.
Transtornos de aprendizagem 43
Assim, como em todo o processo de desenvolvimento humano, a
atenção é algo que difere em cada pessoa, seja no tempo, na forma
de agir, de pensar e nas experiências já adquiridas, por isso podemos
considerar alguns tipos de atenção a ser desenvolvida pelo ser huma-
no. Esses tipos de atenção (Quadro 1), quando trabalhados simultanea-
mente, facilitam o desenvolvimento e a aprendizagem.
Quadro 1
Tipos de atenção
Habilidade para se centrar em um estímulo ou atividade
na presença de outros estímulos que desviam a aten-
Atenção seletiva ção, por exemplo, fazer uma tarefa em sala de aula com
pessoas conversando ao redor.
Habilidade para alterar a atenção focada entre dois estí-
Atenção alternada mulos, em que se está atento, mas, por algum motivo rea-
liza outra atividade e depois volta ao foco em que estava.
Habilidade em centrar ou prestar atenção a diferentes
Atenção dividida estímulos ao mesmo tempo.
Habilidade para focar a atenção em um estímulo, sem
Atenção focada dispersar com estímulos externos.
Habilidade para se centrar em um estímulo ou atividade
Atenção constante durante um longo período.
Fonte: Elaborado pela autora com base em Atenção, 2021.
Dessa maneira, podemos depreender a complexidade da atenção,
e os modos como ela se estrutura e faz a diferença nas nossas rotinas.
Agora que apreendemos a respeito da atenção e as maneiras que
ela pode se manifestar em cada indivíduo, devemos, antes de estudar-
mos o TDAH, entender do que se trata a hiperatividade.
A hiperatividade é um distúrbio do neurodesenvolvimento que
na grande maioria das vezes se manifesta durante a infância. Trata-
-se de uma condição neurológica que provoca prejuízos voltados ao
desenvolvimento.
Esses prejuízos acarretam consequências, como inquietação corpo-
ral, ansiedade, dificuldade de esperar ou manter-se calmo diante de
situações diversas, irritabilidade, agressividade, impulsividade e falta
de atenção. Em função disso, tais atitudes afetam também a aprendi-
zagem, pois a dificuldade de autocontrole prejudica sua capacidade de
44 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
interagir, socializar e realizar atividades até o fim, o tempo de concen-
tração acaba sendo reduzido.
As características da hiperatividade precisam ser verificadas e ana-
lisadas desde muito cedo para não serem confundidas com questões
voltadas simplesmente a falta de limites ou falta de orientação fami-
liar. Por isso, o diagnóstico precoce é sempre o melhor caminho para
verificar a forma de intervir e auxiliar. De modo geral, é a família ou o
professor que inicialmente percebem os comportamentos constantes
de inquietação e dispersão. Depois dessa percepção, a criança deve
ser encaminhada para uma avaliação com neurologista, psicólogo e
psicopedagogo.
Após o diagnóstico, o tratamento também envolve diferentes profis-
sionais, como psicopedagogo, psicólogo, neurologista, fonoaudiólogo e
terapeuta ocupacional. O encaminhamento é direcionado para os pro-
fissionais que forem necessários de acordo com o grau de intensidade
de cada caso.
Compreendido o significado de atenção e de hiperatividade, vere-
mos agora o que chamamos de transtorno do déficit de atenção e hipe-
ratividade (TDAH), que é o que ocorre quando elas estão associadas.
Para entender como essa defasagem ocorre neurologicamente,
podemos considerar que as pessoas com TDAH possuem diferenças
cerebrais anatômicas, apresentando uma maturidade cerebral tardia,
pois o desenvolvimento do autocontrole e da atenção demoram mais Figura 1
Impactos na aprendizagem
a acontecer.
As causas desse transtorno podem ocorrer
desde um desenvolvimento intrauterino ina-
dequado, até o consumo de álcool e drogas na
decade3d - anatomy online/Shutterstock
gestação ou, ainda, a partir de lesões geradas
na cabeça (por exemplo, doenças no cérebro e
traumatismos que possam prejudicar alguma
área responsável pela aprendizagem, como o
lobo frontal).
Fortes traumas na parte frontal do cérebro podem causar
prejuízos no que se refere à elaboração do pensamento
e planejamento, além da programação de necessidades
individuais e emoções.
45 Transtornos e dificuldades de aprendizagem Transtornos de aprendizagem 45
O TDAH é desenvolvido em virtude de uma questão genética ou neu-
rológica que precisa ser vista e atendida, pois acompanhará a criança
para sempre. No entanto, em paralelo a esse transtorno e devido a ele,
surgem também dificuldades e problemas para aprender, ocasionados
pela forma diferente do processo de aprendizagem, de ter atenção e de
desenvolver a memória do sujeito com TDAH.
O TDAH é caracterizado como a falta de capacidade de focar, de ter
atenção e de controlar seu comportamento no geral, apresentando os
sintomas que vimos anteriormente. De acordo com Döpfner, Frölich e
Metternich (2016), o TDAH pode ser reconhecido por diferentes tipos:
• TDAH com comportamentos combinados de desatenção e hipe-
ratividade-impulsividade (TDAH combinado);
• TDAH assinalado principalmente pela deficiência de atenção, e
menos pela hiperatividade-impulsividade (tipo predominante
desatento);
• TDAH reconhecido principalmente pela hiperatividade-impulsivi-
dade, e menos pela dificuldade de atenção (tipo com predomínio
hiperativo/compulsivo).
Essas diferenças também podem ser explicadas pelos graus em que
o TDAH se apresenta, sendo analisados e distintos em grau leve, mo-
derado e grave.
Conhecendo as principais características do TDAH, devemos ter de
modo evidente que esses sintomas, isolados ou não, podem ser decor-
rentes de outros transtornos, ou ainda de situações cotidianas que, em
um breve espaço de tempo, modificam o comportamento da criança.
Mais um motivo para buscar o diagnóstico para que o entendimento da
conduta dessa criança seja compreendido.
Algumas outras dificuldades que podem vir acompanhadas do
TDAH são:
• Deficiência intelectual: crianças com déficit cognitivo ou difi-
culdade para aprender. Geralmente apresentam dificuldade em
manter a atenção e dificuldade em não se agitar, pois esses com-
portamentos podem ser um mecanismo de defesa e fuga do que
no momento está sendo difícil ou incompreensível de ser feito.
Por isso, ao ser diagnosticado o TDAH, faz-se necessário também
verificar as condições cognitivas dessas crianças para direcionar
o tratamento adequado.
46 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
• Exigências escolares acima do adequado: ocorre quando a
criança é colocada à prova diante daquilo que sua capacidade
cognitiva no momento o impede de realizar, por isso, antes de
cogitar TDAH, é necessário verificar se a carga que está sendo
colocada nas rotinas diárias e as exigências escolares são cabíveis
a sua idade cronológica. Geralmente a criança cansada tende a
reagir de maneira agitada e dispersa.
• Exigências escolares baixas: da mesma forma que muitos estí-
mulos podem prejudicar o desenvolvimento, a falta deles pode
ser um problema, pois podem ser a causa de sintomas de TDAH,
como no caso de crianças com altas habilidades que podem se
deparar com falta de estímulos, o que modifica seu comporta-
mento ou interesse ao realizar o que é proposto.
• Sintomas de TDAH provocados por medicamentos: alguns me-
dicamentos podem desencadear alteração de comportamento e
atenção. Nesse caso, se a criança faz uso de medicamentos con-
tínuos ou por curto prazo, ao surgirem alterações de humor, o
pediatra ou neurologista devem ser consultados.
• Condutas de oposição: crianças com transtorno de conduta, po-
dem ter sintomas parecidos com TDAH, pois têm dificuldade em
seguir regras e são impulsivos.
• Agitação e problemas de concentração relacionados ao medo:
ao ser colocado diante de situações de medo, o comportamento
da criança pode ser alterado. Esse medo pode estar relacionado Vídeo
a uma apresentação de trabalho, uma prova, ou qualquer coisa Para aprofundar os
que a coloque em situações que não são confortáveis para ela. conhecimentos sobre o
tema, assista ao vídeo
• Agitação e problemas de concentração devido a estresses Transtorno do déficit de
atenção com hiperatividade
emocionais: tais questões podem afetar diretamente a capaci-
| Nuno Lobo Antunes, do
dade de atenção e foco da criança, bem como mudar seu com- canal Drauzio Varella. O
portamento para uma forma apática e desinteressada. vídeo é uma entrevista
com o neuropediatra
Nuno Lobo Antunes sobre
Com isso, podemos entender o que pode ser uma criança com
o transtorno do déficit de
TDAH, e o que também pode não ser. atenção e hiperatividade
(TDAH).
A sensibilidade do professor e do profissional da saúde que acom-
Disponível em: https://
panham essa criança deve ser minuciosa, no sentido de se ter cuidado www.youtube.com/
ao encaminhá-la a um tratamento e ao diagnosticá-la. É necessário o watch?v=uSv7KSQTgJI. Acesso em:
22 dez. 2021.
diagnóstico real diante de cada situação para que a intervenção seja
também a mais apropriada.
Transtornos de aprendizagem 47
3.2 Transtorno do espectro autista (TEA)
Vídeo Vamos conhecer agora o transtorno do espectro autista (TEA). O TEA
é considerado um distúrbio do neurodesenvolvimento, em que o de-
senvolvimento da criança se torna atípico por meio do comportamen-
to, dos contatos, das interações sociais e da comunicação.
De acordo com Lowenthal (2021), existem três condições semelhan-
tes do TEA:
Objetivo de aprendizagem
• transtorno autista;
Identificar as causas e ca-
racterísticas do transtorno • síndrome de Asperger;
do espectro autista.
• transtorno invasivo do desenvolvimento sem outras especificações.
A diferença entre essas nomenclaturas é por tornarem o diagnósti-
co mais específico e, assim, sua gravidade ser definida de acordo com
as características particulares da criança, bem como direcionar a me-
lhor forma de tratamento. Dessa forma, a criança pode ser diagnosti-
cada como grave inicialmente, e com o tratamento adequado melhorar
e amenizar as condições.
Segundo o DSM-5 (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2015), a
classificação do TEA se dá em três níveis:
• nível 1 – leve;
• nível 2 – moderado;
• nível 3 – severo.
A gravidade é definida de acordo com a funcionalidade da pessoa e
o quanto de apoio ela necessita para exercer suas funções diárias.
Lowenthal (2021) representa essa classificação, , quanto à interação
e à comunicação social (Quadro 2) e quanto ao comportamento restri-
tivo/repetitivo (Quadro 3), da seguinte forma:
Quadro 2
Necessidade de suporte quanto à interação e à comunicação social
Prejuízo notado sem suporte; dificuldade em iniciar interações sociais; res-
postas atípicas ou não sucedidas para o social; interesse diminuído nas in-
Nível 1 Necessita de suporte terações sociais; dificuldade para manter uma conversa; tentativas de fazer
amigos de maneira estranha e malsucedida.
Necessita de suporte Déficits marcados na conversação; prejuízos aparentes mesmo com suporte;
Nível 2
substancial dificuldade nas interações sociais; resposta anormal.
Necessita de suporte Prejuízos graves do funcionamento; interações sociais muito limitadas; res-
Nível 3
muito substancial postas reduzidas às interações sociais.
Fonte: Adaptado de Lowenthal, 2021.
48 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Quadro 3
Necessidade de suporte quanto ao comportamento restritivo/repetitivo
Comportamento interfere significativamente na função; dificuldade para tro-
Nível 1 Necessita de suporte car de atividades; independência limitada por problemas com organização e
planejamento.
Comportamentos suficientemente frequentes, sendo óbvios para observado-
Necessita de suporte res que não conhecem tanto a questão do TEA; comportamento interfere
Nível 2
substancial na função em grande variedade de ambientes; aflição e/ou dificuldade para
mudar o foco na ação.
Comportamento interfere marcadamente na função em todas as esferas; difi-
Necessita de suporte
Nível 3 culdade externa ao lidar com mudanças; grande aflição/dificuldade de mudar
muito substancial o foco e a ação.
Fonte: Adaptado de Lowenthal, 2021.
Além das informações apresentadas nos quadros, é possível des-
tacar ainda que alguns casos demonstram comportamento com mo-
vimentos repetitivos e, muitas vezes, com preferências a temas ou
atividades específicas.
Tais sintomas ou sinais do desenvolvimento podem ser percebidos
desde muito cedo. Assim, como em outros transtornos ou dificuldades,
cabe destacar que quanto mais cedo se tiver o diagnóstico, por meio de
um profissional capacitado – sendo este um neuropediatra, psicólogo
ou psicopedagogo –, mais cedo as possibilidades de intervenção serão
possíveis para contribuir com um melhor desenvolvimento da criança
com o espectro.
A avaliação deve ter um caráter multiprofissional, ou seja, com o
parecer do psicopedagogo, da fonoaudióloga, do neuropediatra e do
psicólogo, que juntos afirmarão, pelos conhecimentos de suas áreas,
se a criança é portadora do espectro ou não, e o grau em que ela se
encontra: leve, mediano ou severo.
Portanto, o diagnóstico é essencialmente clínico. Esses profissionais
realizam observações da criança, entrevistas com os pais e aplicação de
testes e instrumentos específicos de cada área.
As causas do TEA ainda são um desafio a ser investigado, no entan-
to, estudos apontam que fatores genéticos ou ambientais (exposição a
agentes químicos, deficiência de vitamina D, idade parental avançada,
prematuridade, baixo peso ao nascer) podem ser a causa desse trans-
torno, sendo de maior predominância os fatores genéticos.
Transtornos de aprendizagem 49
Ao ter conhecimento do diagnóstico fechado, é necessário que os
profissionais que trabalharão com essa criança, assim como a famí-
lia, tenham uma linha de ação comum a todos, traçando objetivos e
determinando as áreas a serem estimuladas, assim como os obstá-
culos a serem superados, um de cada vez, de acordo com a comple-
xidade de cada caso.
Essa individualidade na forma de tratar cada criança portadora
do transtorno do espectro autista, e em perceber com um olhar sen-
sível suas particularidades, vem com a justificativa de compreender-
mos algumas questões, como:
• Muitos autistas pensam visualmente, ou seja, aprendem me-
lhor com informações, desenhos e códigos visuais.
• As expressões faladas precisam ser mostradas, por exemplo:
ao passar a informação de um trem andando no trilho, mostrar
a imagem do que se trata. Esse pode ser um caminho também
para a aprendizagem de conteúdos escolares.
• A comunicação com autistas deve ser objetiva, evitando frases
longas e com mais de um comando de uma só vez. Lembrando
que investimento na clareza das infor-
mações possibilita à criança conseguir
aprender e executar o que é proposto,
EvgeniiAnd/Shutterstock
o que consequentemente a levará a de-
senvolver autonomia.
A partir do momento que diferentes
habilidades vão sendo desenvolvidas na
criança com autismo, elas refletirão em
todos os seus saberes, sendo eles esco-
lares ou sociais.
Essas habilidades precisam ser esti-
muladas e desenvolvidas, pois a criança
com TEA pode apresentar também:
• Dificuldade motora: a criança conse-
gue se alfabetizar, mas a escrita é um
desafio, pois seu traçado nem sempre
é legível.
50 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
• Ecolalia: a criança possui o hábito de repetir palavras ou sílabas,
demorando mais para estruturar sozinha uma frase.
• Sensibilidade a sons e luzes: sons altos ou com sonoridades
específicas, assim como luz forte demais ou falta de luz, podem
gerar incômodo na criança.
• Comportamento hiperativo: o comportamento agitado, ou
ainda a inquietação, deve ser observado a fim de analisar qual o
motivo dessa reação, buscando compreender a necessidade do
momento e evitar que essas crises ocorram.
Conhecendo as características apresentadas da criança com TEA, é
necessário também relacioná-las com a permanência desse aluno na
escola para saber quais os desafios a serem superados frente a esse
trabalho.
Nesse aspecto, por meio dessa análise, podemos ver que uma das
principais questões é reconhecer a individualidade de cada caso, ter
contato com os profissionais que atuam com essa criança e traçar li-
nhas exclusivas de métodos para cada um.
3.3 Síndrome de Asperger
Vídeo
Similar ao TEA, a síndrome de Asperger também é um transtorno
neurobiológico. De acordo com o DSM-5, trata-se de um transtorno do
neurodesenvolvimento e é parte do transtorno do espectro autista, po-
rém essa síndrome possui algumas particularidades que a fazem ser
vista com características diferenciadas dentro do espectro autista.
Objetivo de aprendizagem
Uma das principais similaridades com o autismo são os prejuízos
Compreender as
na capacidade de socialização, de se comunicar com as pessoas e de
características da síndro-
me de Asperger. interpretar o mundo, porém apresenta uma melhor adaptação social
do que as crianças com autismo. Diz respeito a uma forma diferente de
ver e interagir com o mundo.
Sabemos que com relação aos prejuízos na interação social, a sín-
drome de Asperger é similar ao autismo, também no que se refere ao
interesse voltado a determinados temas. A diferença está na aquisição
Transtornos de aprendizagem 51
da linguagem e comunicação, nas quais não são verificadas dificulda-
des, assim como nas habilidades cognitivas.
Outro fator relevante é o das características físicas das pessoas com
Asperger, pois geralmente são visíveis, como obstáculos na expressão
motora, tendo muitas vezes movimentos considerados desajeitados.
No que se refere à capacidade cognitiva, as pessoas com síndrome
de Asperger podem apresentar inteligência média ou acima da média,
geralmente não expressando dificuldades de aprendizagem. Essas
crianças possuem menos problemas na fala que os autistas, mesmo
que ela não seja compreendida por eles com clareza logo.
Segundo Mello, Miranda e Muszak (2005, p. 53)
a síndrome de Asperger pode ser caracterizada por coeficiente
de inteligência (QI) de normal até as faixas mais altas, com habili-
dades especiais. Na escola, apesar da inteligência normal, podem
apresentar dificuldades em compreender conceitos abstratos,
como os usados em metáforas e alegorias, dificultando o apren-
dizado acadêmico.
Assim como no autismo, as crianças com síndrome de Asperger
precisam de apoio de profissionais como psicólogos, psicopedagogos,
fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais, os quais devem ser indica-
dos a partir do momento em que o diagnóstico por um profissional
habilitado for feito, sendo este um neurologista, um psicólogo e um
psicopedagogo, que juntos, por meio de seus instrumentos de avalia-
ção, determinarão um diagnóstico seguro.
Os sintomas da síndrome de Asperger variam muito de pessoa para
pessoa. Os primeiros sinais devem ser observados e, se
persistirem, a criança deve ser encaminhada
para avaliação junto a um profissional.
Alguns desses sinais podem ser visíveis,
como:
• Dificuldades persistentes com comu-
nicação social.
Sergey Novikov/Shutterstock
• Dificuldade na interação social.
• Padrões restritos e repetitivos de
comportamentos.
• Os mesmos interesses em atividades
desde a primeira infância.
52 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Photographee.eu/Shutterstock
• Dificuldade em interpretar linguagem
verbal e não verbal, como gestos ou
tom de voz.
• Compreensão literal da linguagem; não
conseguem compreender quando as
pessoas utilizam uma palavra com du-
plo sentido.
Esses padrões podem ser considerados
danosos, pois limitam ou prejudicam a ro-
tina. Se estes estão causando prejuízo ao
desenvolvimento da criança, uma avaliação
com especialistas deve ser realizada.
As pessoas com síndrome de Asperger geralmente têm boas habilida-
des linguísticas, porém acham difícil entender as expectativas dos outros
dentro de conversas. Por isso, é importante falar de modo claro e consis-
tente e dar tempo às pessoas para processar o que lhes foi dito.
Por apresentar essas características, o trabalho escolar com crian-
ças com essa síndrome requer alguns cuidados específicos e que po-
dem facilitar o trabalho e a comunicação no dia a dia:
• Mediar as interações sociais, orientando e intervindo quando
necessário.
• Destacar as principais habilidades escolares na criança para
encorajá-la. Vídeo
• Conhecer os interesses da criança e poder trabalhar por meio deles. A fim de ampliar os
conhecimentos sobre o
• Trabalhar com rotinas diárias.
tema, assista ao vídeo Co-
• Orientar a turma quanto ao respeito mútuo pelas diferenças. nheça a menina Laura, que
tem síndrome de Asperger
• Não subestimar o desenvolvimento da criança e sempre incenti- « Programa Especial, do
canal TV Brasil, que mos-
vá-la a atingir um comportamento melhor.
tra um caso real de uma
menina com síndrome de
Tais sugestões demonstram que o melhor meio de acompanha-
Asperger e um pouco do
mento e de aprendizagem é a sensibilização quanto a reconhecer as seu dia a dia.
características únicas dessas crianças, que as fazem pensar e agir de Disponível em: https://www.
um modo diferente do habitual, mas que em nenhum momento as im- youtube.com/watch?v=gGXoEyd_
OPU. Acesso em: 22 dez. 2021.
pede de aprender.
Transtornos de aprendizagem 53
3.4 Transtorno obsessivo compulsivo (TOC)
Vídeo Todos nós possuímos hábitos ou mantemos com frequência roti-
nas que nos fazem bem e organizam nossas vidas. Mas e quando esse
tipo de atitude passa dos limites e se transforma em dependência ou
sofrimento? Nesse caso, podemos associar essa situação ao transtorno
obsessivo compulsivo (TOC).
Objetivo de aprendizagem O TOC está associado à ansiedade, pois em muitos casos apresenta
Identificar as caracte- crises de obsessão e compulsão diante de determinadas situações. Mas
rísticas do transtorno
obsessivo compulsivo o que entendemos como obsessão?
(TOC).
A obsessão pode se manifestar em diferentes meios, como nos pen-
samentos, ideias e imagens que invadem a mente da pessoa insistente-
mente, de modo que ela não pode controlar. Esses pensamentos levam
o indivíduo a criar uma rotina, regida por regras e etapas que ele mesmo
se auto estabelece e precisa cumpri-las diariamente.
Essas rotinas são tão sérias para o portador de TOC que chegam a
acreditar que algo ruim pode acontecer se não as cumprirem como o
habitual. Tais práticas podem ser danosas às pessoas, uma vez que se,
por exemplo, ocorre uma obsessão por verificar várias vezes uma porta
para saber se está realmente trancada, essa atitude pode causar atrasos
para o trabalho, escola ou outras situações.
Essas obsessões geralmente vêm acompanhadas de um sentimen-
to de medo e culpa, por serem inapropriadas, pois a pessoa possui
consciência de seus atos, mas não consegue deixar de praticá-los. Os
tipos mais comuns de obsessões estão relacionadas a:
• Limpeza e higiene realizadas muitas vezes ao dia.
• Simetria com objetos, não podendo ver quadros tortos, por
exemplo.
• Autoimagem, buscando a perfeição.
• Acumulação, guardando coisas incessantemente, mesmo sem
utilidade.
• Lavar as mãos várias vezes em um curto período.
• Repetir rituais de andar na rua, por exemplo, evitando pisar em
rachaduras ou andando sempre do mesmo lado.
• Checar muitas vezes se a porta está trancada antes de sair de casa.
54 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
O TOC, de acordo com Bruna (2021), pode ser classificado em dois
tipos:
• Transtorno obsessivo-compulsivo subclínico: as obsessões e ri-
tuais se repetem com frequência, mas não atrapalham a vida da
pessoa, podendo conviver com ela ou até mesmo se autocorrigir.
• Transtorno obsessivo-compulsivo propriamente dito: as
obsessões persistem até o exercício da compulsão que alivia a an-
siedade. Nesse tipo, a pessoa pode deixar de realizar coisas ou se
atrasar para um compromisso, por exemplo, apenas para voltar e
verificar se a porta está realmente trancada.
Para ser considerado TOC, os casos devem ser recorrentes, atrapalhar
a vida diária e, principalmente, ser diagnosticado por um especialista.
Até o momento, as causas conhecidas do TOC referem-se a diferen-
tes fatores que podem causar essa desordem. Alguns estudos destacam a
existência de alterações na comunicação entre determinadas zonas cere-
2
brais que utilizam a serotonina (conhecida como o hormônio da felicida- 2
de) – entre suas funções estão a regulagem do ritmo cardíaco, do sono, do É a substância química
que faz com que os
apetite, do humor, da memória. Fatores psicológicos e histórico familiar neurônios passem sinais
também estão entre as possíveis causas desse distúrbio de ansiedade. entre si.
Ao analisarmos nossa rotina diária, em diferentes situações, pode-
mos manifestar rituais compulsivos, mas que não caracterizam o TOC.
Tais rituais podem causar ansiedade e outros prejuízos à saúde, como no
caso de evoluir para um quadro depressivo. De maneira geral, o TOC é
diagnosticado na fase adulta, na qual realmente se consolidam essas roti-
nas que interferem no dia a dia.
Na infância o distúrbio é mais frequente nos meninos, contudo, no
final da adolescência, podemos dizer que o número de casos é igual nos
dois sexos.
O tratamento de TOC pode ocorrer por meio de medicamentos ou
não. Se medicado, o indivíduo fará um tratamento com medicamentos
similares a antidepressivos e remédios que baixem a ansiedade.
O indicado é que juntamente à medicação seja feito um acompanha-
mento terapêutico, que auxiliará o indivíduo a lidar com suas obsessões
e compulsões. Uma das linhas de terapia indicada é a terapia cognitivo
comportamental (TCC), que apresenta ótimo resultados para esses casos.
Transtornos de aprendizagem 55
Quando manifestada na infância, cabe ressaltar que em sala de aula
essas compulsões podem prejudicar a aprendizagem e a rotina escolar,
por isso o professor e a escola devem estar a par do diagnóstico e do
tratamento a que a criança está sendo submetida.
Para interagir no trabalho escolar com crianças que apresentam esse
transtorno, é sempre importante ter claro alguns conceitos, para desen-
volver um trabalho em conjunto com a família. De acordo com Bruna
(2021):
• Na escola as rotinas fazem parte das aulas, por isso as crianças
podem obedecer a certos rituais, o que é absolutamente normal.
No entanto, o que deve chamar a atenção dos pais é a intensida-
de e a frequência desses episódios, e qual a flexibilidade com que
se consegue lidar com eles. O limite entre normalidade e TOC é
muito tênue.
• A escola e os pais não devem colaborar com as manias e os rituais
das crianças quando estes são descabidos ao momento, mas sim
ajudá-las a enfrentar os pensamentos obsessivos e a lidar com a
compulsão que alivia a ansiedade.
Vídeo
• A tolerância aos rituais do portador de TOC pode interferir na di-
Assista ao vídeo TOC
(Transtorno obsessivo-com- nâmica da família e das aulas. Logo, é importante estabelecer o
pulsivo), do canal Drauzio diagnóstico de certeza e encaminhar a pessoa para tratamento.
Varella, para aprofundar
os conhecimentos sobre • Não se deve esconder os sintomas por vergonha ou insegurança.
esse transtorno. Quanto mais se adia o tratamento, mais grave fica a doença.
Disponível em: https://
www.youtube.com/ Analisado cada ponto específico do que se trata os sintomas do TOC,
watch?v=fBAgNhXEFfo. Acesso em: vale a pena reafirmar que todos nós em algum momento nos pegamos
22 dez. 2021.
repetindo hábitos ou manias, e que estes não devem ser considerados
TOC sem que seja realizado um diagnóstico preciso.
3.5 Transtorno desafiador opositor (TOD)
Vídeo Outro transtorno muito frequente é o transtorno desafiador opositor
(TOD). O TOD é um transtorno infantil caracterizado por comportamento
desafiador e desobediente a figuras de autoridade ou regras.
Ao tratarmos de comportamentos opositivos podemos considerar
que eles se manifestam de diversas formas, podendo ser, de acordo com
Caballo e Simón (2015):
56 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
• Passivos: quando uma criança não responde a um dado estímulo, Objetivo de aprendizagem
permanecendo inativa e acomodada. Reconhecer as caracterís-
ticas do transtorno desa-
• Desafiadores: com verbalizações negativas, comportamentos hos- fiador opositor (TOD).
tis e resistência física que incidiriam junto com a desobediência.
A causa do transtorno desafiador opositor é desconhecida, mas
assim como os demais transtornos, esta pode envolver uma combinação
de fatores genéticos e ambientais.
Os sintomas, na grande maioria, começam antes de a criança com-
pletar oito anos de idade, apresentando humor irritável, comportamen-
to argumentativo e desafiador, agressividade e característica vingativa.
Quando esses comportamentos duram mais de 6 meses e causam pro-
blemas significativos em casa ou na escola, a criança deve ser enca-
minhada para a avaliação e o acompanhamento com um especialista,
sendo este um neurologista, psicólogo e psicopedagogo.
No geral, o comportamento dessas crianças é extremamente desa-
fiador, apresentam crises de teimosia ou são respondonas. É necessário
não confundir essas características a condutas de personalidade, para
que o tratamento adequado ocorra quando o diagnóstico for fechado.
Como o TOD levanta muitas dúvidas e preocupações sobre o com-
portamento das crianças, abala o funcionamento familiar e escolar, é
fundamental buscar ajuda de especialistas para não se tirar conclusões
diferentes do que o momento realmente representa, e a criança possa
ser auxiliada a lidar com suas emoções e impulsos de maneira mais
controlada.
Por meio do diagnóstico, a criança passa a não ser considerada uma
versão menos intensa do transtorno de conduta, pois existem diferen-
ças entre TOD e o transtorno de conduta. Os portadores de transtorno
de conduta não têm consciência do que fizeram, e não sentem empatia
pelo próximo.
Ao contrário, as crianças com TOD são conscientes de seus atos, sen-
tem remorso, reagem com emoção, choram, se irritam e fazem birra
facilmente quando são contrariadas. Tais condutas inevitavelmente in-
terferem nas relações sociais, na vida escolar e familiar e no seu desem-
penho acadêmico.
Transtornos de aprendizagem 57
Dentre algumas questões apresentadas no ambiente escolar, está a
de que, por conta desse comportamento explosivo, essas crianças po-
dem sofrer bullying com mais frequência, pois são discriminadas por seu
jeito de ser, perdem oportunidades de aprendizagem em sala e de con-
vívio social e não conseguem manter amizades.
A criança portadora de TOD tem dificuldades para compreender re-
gras e opiniões de terceiros, não lida bem com a frustração e expressa
o seu desconforto de modo agressivo. É evidente a ausência de controle
emocional. Outras características do TOD são:
• discutir com adultos;
• perder a calma com facilidade;
• desafiar regras e instruções;
• importunar outras pessoas;
• provocar adultos e outras crianças;
• reagir a repreensões ou regras com agressividade ou manha
exagerada;
• não saber expressar emoções intensas sem gritar;
• responder à frustração com choro, birra ou agressividade;
• transferir a culpa de seus atos para terceiros;
• brigar com colegas na escola;
• ficar ressentido com facilidade;
• ser cruel ou vingativo ocasionalmente;
• sentir-se culpado e chorar após ter uma atitude ruim. (PIMENTA,
2021)
Diante da análise das condutas dessas crianças, notamos que elas
advêm de diferentes ambientes e situações, e que a qualidade do am-
biente familiar possui grande influência no comportamento das crianças
com transtorno desafiador opositor.
As causas da origem do TOD ainda são desconhecidas, porém possuem
a particularidade de aparecer em lares em que a predominância é de com-
portamento agressivo. Por isso, o tratamento envolve não somente a te-
rapia individual como também a familiar, em que os conflitos devem ser
resolvidos com base na comunicação positiva, saudável, na compreensão
dos sentimentos, no acolhimento e na resolução de conflitos.
Para ser diagnosticado, o transtorno precisa ser observado e analisado
por volta de 6 meses, período em que tais comportamento se repetem.
Essa análise pode ser realizada pelo psicopedagogo, psicólogo ou médico,
que investigará a conduta da criança à procura de sintomas de depres-
58 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
são, ansiedade ou TDAH, pois possuem uma similaridade com o TOD, por
exemplo, a irritabilidade é muito presente em crianças opositoras.
O tratamento do TOD é feito de modo multidisciplinar, incluindo tera-
pia comportamental, medicamentos e suporte escolar, além do trabalho
em conjunto com a família, que é de extrema importância, pois é lá onde
a criança deve perceber que sua mudança de conduta também deve
acontecer. De dentre de casa para fora.
Entre as intervenções recomendadas para a criança com TOD,
assim como no TOC e TDAH, está a terapia cognitivo comportamen-
tal (TCC), que é centrada em mudanças de comportamento, logo é a
mais eficiente para modificar como a criança administra e expressa
as suas emoções.
Nesse contexto, o ideal é que a criança passe a frequentar terapias
comportamentais que promovam o autocontrole, o planejamento de
suas ações e o controle das emoções, além de reforçar as condutas
desejadas para cada situação social, até que esse comportamento se
transforme em um novo hábito. Desse modo, normalmente os pais são
instruídos nessas técnicas de reforço, para que em todos os ambientes
que cercam a criança a linguagem seja a mesma, pois sabe-se que a for-
ma com que a criança é tratada, ou como agem com ela, influencia em
suas reações e comportamento.
Os medicamentos psiquiátricos são recomendados, porém é
essencial analisar o grau de intensidade em que o transtorno se mani-
festa, verificando sempre a real necessidade, pois em muitos casos o
tratamento terapêutico, a mudança de atitudes na família e na escola,
contribuem para uma evolução na forma de ser e agir da criança.
No ambiente escolar, a criança que apresenta todas essas questões
deve passar por uma adequação da equipe pedagógica, agindo em con-
junto com os profissionais que a acompanham, para que assim suas vi-
vências no ambiente escolar não sejam afetadas.
Durante o tratamento, a reinserção da criança nos ambientes em
que frequenta é essencial para que ela aprenda novas formas de pensar,
controlar impulsos e ser aceita pelo grupo. Se o TOD tiver ligação com o
TDAH, os pais devem buscar orientação de um psicopedagogo. Ele rein-
tegra a relação dos pacientes com a aprendizagem e trata os sintomas
por meio de ferramentas e testes específicos.
Transtornos de aprendizagem 59
Considerando o auxílio da reabilitação da criança em conduzi-la a
mudança de conduta, alguns procedimentos são essenciais para o su-
cesso dessa fase:
Livro
• Diálogo: é uma das táticas que podem ser utilizadas para ensinar
a criança a ter uma conduta adequada, sempre de maneira tran-
quila, olhando para a criança e criando um momento especial para
essas conversas.
• Estímulos positivos: comportamentos adequados devem ser elo-
giados de maneira expressiva para que a criança compreenda que
tipo de comportamento é adequado e que ela consegue atenção e
sucesso por meio deles.
Para aprofundar os
conhecimentos sobre o • Controle de emoções: identificar o sentimento, respirar fundo e
TOD, leia o livro Crianças
saber lidar com esses sentimentos são orientações constantes que
Desafiadoras, do Dr.
Clay Brites e Luciana auxiliam nesse processo. Podem ser utilizadas técnicas de respira-
Brites. Além de conceitos
teóricos, esse livro traz ção ou ainda perguntar para a criança de que forma ela se sente
exemplos práticos e até bem e mais calma. Nos momentos de crise, utilizar essa técnica e
mesmo técnicas para lidar
com crianças com TOD orientá-la para que isso aconteça.
no dia a dia. É uma leitura
objetiva e dinâmica, com Dessa maneira, podemos entender que o acolhimento leva a um pro-
informações diretas e
claras. gresso do comportamento e bem-estar da criança com TOD, pois essas
São Paulo: Gente, 2019. ações contribuem para seu autoconhecimento e, consequentemente,
para que tenha uma vida mais tranquila e integrada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento humano é cercado de delicadas etapas e grandes
desafios. Conhecer cada fase, cada obstáculo, enriquece a forma com que
tratamos o outro e percebemos os processos de aprendizagem.
Quando se trata dos transtornos estudados, percebemos o quanto a
conduta social pode interferir na aprendizagem e no ambiente escolar.
Por isso, a melhor maneira é sempre termos a sensibilidade de olhar
para a criança individualmente e saber o momento correto de, em parceria
com a família, encaminhar para uma avaliação em busca de um diagnóstico.
O diagnóstico e a intervenção precoce são sempre o melhor caminho
para conduzir a criança a estabilidade e a saber lidar com seus desafios,
sendo na escola ou no âmbito social.
60 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
ATIVIDADES
Atividade 1
Vimos em nossos estudos que a atenção pode ser aprimorada ou
desenvolvida por meio de intervenções cognitivas, e que é algo
que difere em cada pessoa. Por isso, podemos considerar alguns
tipos de atenção. Escolha um dos tipos de atenção estudados,
escreva sua definição, e comente sua importância para o processo
de aprendizagem.
Atividade 2
Vimos que a síndrome de Asperger é um transtorno neurobio-
lógico, dentro do DSM-5 caracterizado como um transtorno do
neurodesenvolvimento, parte do transtorno do espectro autista.
Escreva quais as características que são similares entre o TEA e o
Asperger.
Atividade 3
Sabemos que o TOC (transtorno obsessivo compulsivo) pode se
manifestar já na infância, trazendo prejuízos ao desenvolvimento.
Descreva os dois tipos de TOC estudados e quais prejuízos você
acredita que cada um pode trazer?
REFERÊNCIAS
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos
mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegra: Artmed, 2015.
ATENÇÃO. Cognifit, 2021. Disponível em: https://www.cognifit.com/br/atencao. Acesso em:
23 dez. 2021.
BRUNA, M. H. V. Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Drauzio, 2021. Disponível em:
https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/transtorno-obsessivo-compulsivo-
toc/. Acesso em: 22 dez. 2021.
CABALLO, V. E.; SIMÓN, M. Á. Manual de psicologia clínica infantil e do adolescente:
transtornos específicos. 1. ed. São Paulo: Santos, 2015.
DÖPFNER, M. FRÖLICH, J. METTERNICH, T. W. Como lidar com o TDAH? São Paulo: Hogrefe.
2016.
LOWENTHAL, R. Como lidar com autismo. São Paulo: Hogrefe, 2021.
MELLO, C. B.; MIRANDA, M. C.; MUSZKAT, M. Neuropsicologia do desenvolvimento: conceitos
e abordagens. São Paulo: Memnon, 2005.
PIMENTA, T. TOD: entenda o que é o transtorno opositivo-desafiador. Vittude, 15 mar. 2021.
Disponível em: https://www.vittude.com/blog/tod-transtorno-desafiador-de-oposicao/.
Acesso em: 22 dez. 2021.
Transtornos de aprendizagem 61
4
Fatores que interferem
na aprendizagem
Sabemos que o desenvolvimento humano passa por várias fases, a
infância, a pré-adolescência, a adolescência, a fase adulta e a terceira ida-
de, bem como que cada fase e cada experiência vivida moldam a forma de
ser e de agir de todos nós.
Da mesma maneira que essa construção é gradativa e acrescenta no-
vos conhecimentos para a formação humana, ela também contribui para
o modo como iremos lidar ou assimilar a aprendizagem – ou seja, interfe-
re na nossa cognição.
Por isso, devemos conhecer os fatores que contribuem positiva e ne-
gativamente no processo de aprender do ser humano, analisando cada
um deles e considerando os aspectos emocionais, ambientais, econômi-
cos, sociais, psicológicos, afetivos e familiares.
4.1 Fatores externos e internos que
Vídeo interferem na aprendizagem
Ao pensarmos no desenvolvimento humano e no desenvolvimento
da aprendizagem, muitas questões, durante todo esse processo, de-
vem ser consideradas, afinal são eles que refletirão na forma de ser e
de aprender de cada indivíduo.
Objetivo de aprendizagem O modo como a gestação é vivenciada, por exemplo, refletirá no
Identificar fatores desenvolvimento humano, com relação a fatores emocionais e biológi-
que podem interferir
nas dificuldades de cos e à aprendizagem. Dessa forma, os fatores internos fazem parte
aprendizagem. da constituição do indivíduo e devem ser considerados no decorrer
do processo de aprendizagem. Esses fatores são aqueles que fazem
parte do plano emocional, psicológico, afetivo e neurológico e que,
em algum momento do desenvolvimento e da aprendizagem, podem
causar obstáculos.
62 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Evg
en
As emoções acarretam consequências durante o ato de aprender, ou yA
ta
ma
seja, o estado emocional da criança interfere diretamente no seu
ne
nko
nível de atenção, motivação e predisposição para a realização
/Sh
utter
de atividades em sala de aula. Por isso, estar atento à oscilação
stock
de humor da criança e se dispor a auxiliá-la faz parte de um
olhar sensível que o professor deve ter diante dessas situações.
Além de fatores emocionais e psicológicos, as questões de
ordem neurológica também são consideradas um fator
interno. Elas afetam o funcionamento do indivíduo e a
sua forma de aprender, como no caso dos distúrbios
ou transtornos.
Já os fatores externos são aqueles relacionados ao
ambiente em que a criança está inserida, podendo este ser
o familiar, o escolar ou o social.
Ferreira e Barreira (2010, p. 2) colocam que “de acordo com
Martini (1995, apud Marturano, 1998), as crianças melhoram o desempe-
nho quando os adultos em casa são mais unidos, cooperativos e cordiais”.
O ambiente familiar possui um peso indiscutível no desenvolvimento
da aprendizagem infantil; a família é a base inicial que motiva, valoriza
e incentiva as conquistas da criança. Já o ambiente escolar apresenta
diferentes fatores que podem influenciar a aprendizagem, como:
• A relação entre professor e aluno: a afetividade é uma das
grandes bases para aprender. Tratando-se de crianças, esse
vínculo é ainda mais forte, pois a criança inicialmente aprende
para ver o reflexo de suas conquistas nos adultos que a cercam,
isto é, os pais ou os professores. Por isso, o professor deve
investir em momentos em que o aluno realmente se sinta afe-
tado por ele, no sentido de que se sinta acolhido, seguro e livre
para expressar suas dificuldades e suas facilidades.
• A metodologia da escola: nem toda metodologia é adequada
para todas as crianças – isso relacionado ao projeto institucional,
ou seja, à filosofia da escola, como também aos métodos utili-
zados em sala de aula. Para cada dificuldade ou característica,
podem ser recomendadas diferentes estratégias. Nesse sentido,
a variação com metodologias que abranjam as diferentes formas
de aprender é o mais recomendado.
Fatores que interferem na aprendizagem 63
Rawpixel.com/Shutterstock
Livro
Como complemento a Cabe ressaltar que, de acordo com Taylor e Vlastos (1983), a escola:
essa discussão, faça a
se constitui em uma vibrante interação entre aluno, professor,
leitura do livro Educação,
recursos, cotidiano escolar currículo, ambiente, família e comunidade. Ela pode ser vista
e pesquisa: processos e como um microcosmo do universo: o espaço físico delimita
aprendizagem. Ele apre- o mundo; o sistema escolar e sua organização revelam a so-
senta, de modo amplo, a
reflexão sobre os fatores
ciedade; as pessoas envolvidas na experiência de aprendizado
que contribuem para a formam a população.
aprendizagem.
Dessa forma, considerando os fatores internos e externos, para
MACHADO, A. de B. Curitiba:
Bagai, 2021. ampliar e aprofundar esta discussão, dividiremos esses fatores em três
etapas de análise: os fatores afetivos, os fatores sociais e os fatores
biológicos que interferem na aprendizagem.
4.2
Vídeo
Fatores afetivos
Ao iniciar as reflexões sobre os fatores afetivos que influenciam a
aprendizagem, devemos ter claro, inicialmente, que a aprendizagem
e a afetividade são questões indissociáveis, ou seja, caminham juntas,
pois não existe aprendizagem sem afetividade.
A afetividade é o sentimento mais profundo de que o ser humano
pode participar, pois ela é a mistura de outros sentimentos, como:
• amor;
• motivação;
64 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
• ciúme; Objetivo de aprendizagem
• raiva. Reconhecer os fatores
afetivos e a sua influência
Aprender a cuidar adequadamente de todos esses sentimentos, na aprendizagem.
sabendo como interpretá-los, de modo que eles resultem em emo-
ções positivas, é o que vai proporcionar ao sujeito uma vida emocional
plena e equilibrada.
O indivíduo nasce com recursos biológicos que lhe dão a capacidade
de se desenvolver, no entanto, é no meio em que vive que as potenciali-
dades orgânicas se desenvolverão.
Por isso, devemos compreender do que se trata a palavra afetividade. Na
psicologia, o afeto representa um agente modificador do comportamento.
Ou seja, considerando que a afetividade e, consequentemente, o vínculo
que se estabelece com as pessoas e os lugares modificam o comporta-
mento do indivíduo, e que, por sua vez, a aprendizagem é um processo
de modificação do comportamento, entende-se que eles se encontram.
Quem já observou aquele aluno que não tinha um bom vínculo com
o professor em um ano escolar e se saía mal nas matérias, mas que no
ano seguinte possuía ótimo vínculo com o docente e a sua aprendiza-
gem se desenvolvia melhor?
O processo de educação significa a constituição de um sujeito, isto
é, a criança, em qualquer que seja seu ambiente, em casa ou na escola,
está se construindo como ser humano, por meio de suas experiências
com o outro, naquele lugar e naquele momento. A construção do real
acontece pela interação com o mundo, mas o aspecto afetivo nessa
construção contínua sempre permanece muito presente.
No processo de ensino-aprendizagem, o professor, como agente
fundamental na construção da afetividade, deve passar aos alunos
metas claras e realistas, levando estes a perceberem as vantagens de
realizar atividades, de modo a motivá-los. Portanto, os alunos precisam
sentir vontade de aprender, e o docente é quem pode despertar essa
vontade neles.
Por esse motivo, a afetividade constitui um importante campo
de conhecimento que deve ser explorado pelos professores, uma
vez que, por meio dela, é possível compreender a razão de alguns
comportamentos, pois a afetividade e a aprendizagem são elementos
que caminham juntos.
Fatores que interferem na aprendizagem 65
É inegável que para aprendermos precisamos ser afetados, no
sentido de afetar positiva ou negativamente o aluno. Se o professor afe-
ta o estudante positivamente e o ambiente o acolhe positivamente, o
emocional fica em ordem e a aprendizagem acontece. Para nós adultos
essa máxima também é verdadeira. Você não se identifica mais com as
matérias nas quais o professor demonstra empatia e motivação?
Para Oliveira e Rego (2003), Vygotsky, em sua teoria, elaborou uma
nova concepção na relação entre mente e corpo e entre cognição e
afeto. Ele enfatiza, em suas obras, a necessidade de superar essa vi-
são que fragmenta esses dois aspectos e, dessa forma, busca reuni-los,
para compreender o ser psicológico completo. Isso porque esse ser psi-
cológico completo precisa de todos os aparatos necessários para que a
aprendizagem ocorra, e o afeto é um desses elementos principais – ele
não é o único, mas é um dos mais importantes.
Segundo Souza (2003), Piaget também rompe com a forma iso-
lada de se pensar em inteligência e afetividade e apresenta o de-
senvolvimento psicológico nas dimensões afetiva e cognitiva. Piaget
defende, também, a relação entre as construções cognitivas e afe-
tivas ao longo do desenvolvimento humano. Para ele, a inteligência
e a afetividade são dimensões indissociáveis e integradas, portanto
não é possível a sua separação. Sem afeto, não existe interesse nem
necessidade e motivação.
Ainda, para Souza (2003), as considerações sobre as relações entre
afetividade e cognição no desenvolvimento da criança partem dos se-
guintes pressupostos:
• a inteligência e a afetividade, por mais que sejam de naturezas
distintas, são indissociáveis na conduta da criança;
• a afetividade interfere constantemente no funcionamento da inte-
ligência, estimulando ou perturbando, acelerando ou retardando;
• a afetividade é o elemento energético das condutas.
Outro autor que colabora de maneira bastante significativa no papel
da afetividade na aprendizagem é Wallon. Para Nunes e Silveira (2009),
Wallon relata que a escola tem de cuidar das emoções dos alunos,
ensinando-os a lidar com as situações de frustração e ansiedade e não
os estimulando negativamente, porque isso pode prejudicar o funciona-
mento cognitivo da criança durante o processo de aprendizagem.
66 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Ainda, para Wallon, a afetividade é expressa de três formas:
• Emoção: é considerada a primeira expressão da afetividade e,
normalmente, não é controlada pela razão. É quando temos o
impulso de pensar em bater em alguém que nos ofende, mesmo
sabendo não ser a melhor atitude.
• Sentimento: é a forma de expressão que já tem ligação com o
cognitivo, ou seja, o indivíduo consegue aprender com aquilo
que o afeta.
• Paixão: tem como principal característica o autocontrole. Nela,
em vez de bater em alguém que o ofende, o indivíduo consegue
se controlar.
Assim, o professor precisa ter cuidado, também, com suas próprias
reações emocionais e com a forma como ele as demonstra para o alu-
no. O docente, como exemplo de atitudes, deve compreender que o
desenvolvimento humano passa por momentos conflituosos de altera-
ções emocionais e, portanto, deve agir sem se deixar ser influenciado
por essas situações conflituosas, buscando sempre manter o equilíbrio
e utilizar a razão, pois a boa relação entre professor e aluno é um fator
imprescindível para a aprendizagem.
Assim, deve-se ter um ambiente em que professor e aluno se sintam
bem e lidem com suas emoções de maneira coerente; isso faz com que
esse local se torne um ambiente acolhedor, que proporcionará ótimos
momentos de produtividade e conhecimento.
ck
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Ro
Fatores que interferem na aprendizagem 67
Vídeo
Como complemento às Outro fator que envolve as questões emocionais é a motivação. Mo-
nossas discussões, assista
tivar significa dispor o indivíduo a um comportamento desejado para
ao vídeo Aprendizagem X
afetividade, do canal Sala aquele momento, de modo que ele esteja disposto a realizar algo. O alu-
dos Professores, em que
no motivado pelo professor, pelo ambiente e pelo processo de aprender,
a professora Izabel Paro-
lin fala sobre afetividade de resolver problemas e de se entregar terá melhores resultados e será
e aprendizagem.
cada vez mais impulsionado a novas descobertas e possibilidades.
Disponível em: https://
www.youtube.com/ Dessa forma, uma vez que o fator emocional contribui para a
watch?v=T8XaWEDWURQ. Acesso aprendizagem, a motivação deve estar entre as preocupações do pro-
em: 23 dez. 2021.
fessor em sala de aula.
4.3 Fatores sociais
Vídeo Ao tratarmos de condições sociais que interferem na aprendizagem,
devemos ter em mente todas aquelas que envolvem condições econômi-
cas e culturais, as quais geram má alimentação, vestimenta, qualidade de
vida, de saúde, escolar e lazer e outras questões que, de alguma forma,
interferem na dinâmica de desenvolvimento e aprendizagem da criança.
Objetivo de aprendizagem Entre essas condições está, também, a organização familiar, que
Conhecer fatores sociais possui grande destaque, no que se refere ao seu modo de exercer roti-
que devem ser conside-
nas, de acompanhar as dificuldades que as crianças enfrentam e até
rados nas dificuldades de
aprendizagem. mesmo de promover um tempo de qualidade juntos – fator relevante
para o desenvolvimento infantil.
O meio no qual a criança está inserida contribui para o seu rendi-
mento. Além disso, é nele que, muitas vezes, a criança irá presenciar
aspectos voltados à violência – por exemplo, a violência doméstica –
e, inclusive, comportamentos inadequados (utilização de drogas) por
parte dos adultos com quem convive.
fizkes/Shutterstock
A violência doméstica deixa muitas
marcas em suas vítimas, no entanto, nem
sempre essas marcas são visíveis a um
primeiro olhar. A criança e o adolescente
que sofrem a violência doméstica deixam
transparecer alguns sinais que servem de
alerta. Azevedo e Guerra (2000, p. 5) apre-
sentam alguns deles:
• desconfiança exagerada, medo e cho-
68 Transtornos e dificuldades de aprendizagem ro excessivo;
• mudanças abruptas e frequentes de humor;
• comportamento agressivo, destrutivo, passivo ou submisso;
• problemas de relacionamento com colegas;
• tentativa de suicídio, depressão, pesadelos e sono perturbado;
• mau desempenho escolar e dificuldades de aprendizagem não
Freedomz/Shutterstock
atribuída a problemas físicos.
Sendo assim, a maneira como a criança é tratada e a forma
como ela se vê e se sente irão influir em muito no que ela faz
durante seu processo de aprendizagem (POPPOVIC, 1980).
Outro fator social é o desemprego, que gera, várias vezes,
a impossibilidade de estudar, pois questões financeiras po-
dem gerar evasão, reprovação e desistência dos estudos, até
porque muitas dessas crianças acabam indo trabalhar para
ajudar no orçamento familiar.
O gráfico a seguir demonstra alguns desses fatores que
ocasionam a saída da criança e do adolescente da escola.
Figura 1
Questões sociais que ocasionam a saída do jovem da escola
Por que jovens de 15 a 17 anos não estudam – em %
Meninos Meninas
45
39,73
36
27 24,75 24,02 25,5
18
9 8,36
5,93 6,03 7,24 6,9 7,28
5,67
3,95
0 0,3 -
Falta de escola/ Falta de Cuidados Problema Gravidez ou Trabalha Não tem
vaga/distância dinheiro domésticos de saúde ou cuidar de ou procura interesse
para pagar deficiência criança emprego
despesas
escolares
Fonte: Azevedo; Guerra, 1994.
Fatores que interferem na aprendizagem 69
Os fatores sociais apresentados no gráfico da Figura 1 podem ser de
ordem familiar e econômica. Porém, podemos considerar, ainda, o am-
biente escolar como o responsável pelo sucesso ou não da aprendizagem.
Sendo a família o primeiro contato da criança com o mundo em
sociedade, a escola passa a ser esse segundo meio de convívio, onde
o indivíduo irá adquirir experiências e vivências que contribuem para a
sua aprendizagem. É importante que a organização dos espaços dentro
da escola favoreça o acolhimento, a socialização e o desenvolvimento
das habilidades da criança.
Vídeo Dessa forma, podemos considerar alguns aspectos que favorecem
Para ampliar nossa essa estrutura escolar:
reflexão sobre os fatores
sociais que interferem • ter uma estrutura física apropriada, com mobiliários adequados
na aprendizagem, assista para a faixa etária;
ao vídeo Verbete de “Desi-
gualdade Educacional”, do • estabelecer quando, como e onde cada espaço da escola é orga-
canal Observatório das
nizado para favorecer a aprendizagem e a socialização;
desigualdades UFRN. O
vídeo mostra pesquisas • promover um espaço que favoreça o contato e as relações so-
feitas no Brasil sobre a
realidade das crianças e
ciais, pois elas contribuem para a aprendizagem e aproximam
a sua aprendizagem em professores e alunos.
diferentes classes sociais.
Disponível em: https://
Importante compreendermos que o meio social, sendo ele familiar
www.youtube.com/ ou escolar, influencia o desenvolvimento e a aprendizagem infantil.
watch?v=Rh3m8CGV14s&t=146s.
Acesso em: 23 dez. 2021.
Tudo o que somos vem de uma história de vida, das nossas expe-
riências positivas e negativas que nos constituem como pessoa.
FamVeld/Shutterstock
70 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Sabendo disso, proporcionar às crianças uma boa base de desen-
volvimento, em um ambiente social adequado, faz parte de todos que
trabalham pela educação e por um desenvolvimento integral, onde o so-
cial, o afetivo e o biológico possam se desenvolver de maneira saudável.
4.4
Vídeo
Fatores biológicos
Os fatores biológicos que interferem na aprendizagem são aqueles
que nascem com a criança ou são adquiridos ao longo da vida, como no
caso de uma lesão cerebral.
Ao pensarmos no período de gestação, devemos saber que o siste-
ma nervoso do bebê se desenvolve por etapas, e esse desenvolvimento
continua após o seu nascimento. Durante esse processo, quando, por
Objetivo de aprendizagem
alguma razão, esse desenvolvimento é alterado, pode-se gerar uma di-
Reconhecer fatores bioló-
gicos que interferem na ficuldade de aprendizagem.
aprendizagem.
A falta de equilíbrio químico pode, ainda, causar dificuldades de
aprendizagem, pois os neurotransmissores fazem a comunicação entre
as células cerebrais. As alterações químicas podem fazer com que
essa comunicação não ocorra da forma adequada e, assim, contribuir
para dificuldades de aprendizagem ou para transtornos de atenção
e hiperatividade.
Outro fator pode ter a sua causa hereditária: a hereditariedade
pode determinar o desenvolvimento de dificuldade de aprendiza-
gem, como a hiperatividade, que leva à falta de concentração, à difi-
culdade para seguir instruções, à imaturidade social, à inflexibilidade,
à dificuldade com habilidades organizacionais, à distração, à falta de
destreza e ao controle inibitório. A dislexia e o autismo também são
exemplos de dificuldades que podem ter a sua causa na hereditariedade.
Sabe-se que memória, linguagem e atenção são as funções execu-
tivas de base para a aprendizagem. Elas são desenvolvidas no nosso
encéfalo e ampliadas a cada ano de existência. Além disso, são fato-
res que partem de um desenvolvimento biológico e cerebral, mas,
para que se ampliem, contam os estímulos do cotidiano. Se algo não se
desenvolveu nessas áreas, podem surgir problemas de aprendizagem.
O cérebro é o órgão da aprendizagem; ele é composto de bilhões
de neurônios. Esses neurônios são as células nervosas, que interagem
entre si e com outras células, formando redes neurais. Por meio dessas
redes neurais, podemos aprender.
Fatores que interferem na aprendizagem 71
MattLphotography/Shutterstock
Os neurônios são células estimuláveis que se comunicam entre si
ou com outras células. O nosso comportamento depende do número
de neurônios envolvido nessa rede de comunicação neural e dos seus
Livro neurotransmissores. Os neurotransmissores são substâncias químicas
que modulam a atividade celular, estimulando ou não a comunicação
entre os neurônios. Nesse sentido, o nosso desenvolvimento e a nossa
aprendizagem dependem do bom funcionamento dessas células.
Essas células, quando em equilíbrio e trabalhando juntas, favorecem o
bom funcionamento das cinco partes do nosso cérebro chamadas lobos:
• o lobo frontal é responsável pela tomada de decisão, pelo julga-
mento, pela memória recente, pela crítica e pelo raciocínio;
Como complemento e
aprofundamento das
• o lobo parietal está relacionado às sensações, à interpretação das
nossas discussões sobre sensações e ao senso de localização do corpo e do meio ambiente;
os fatores biológicos que
interferem na aprendiza- • o lobo occipital se ocupa basicamente com a visão;
gem, sugerimos a leitura
• o lobo temporal se ocupa basicamente com a audição;
do livro Neurociência
e educação: como o • o lobo insular está relacionado a processos emocionais forte-
cérebro aprende. O livro
mostra como ocorre mente influenciados pelos órgãos dos sentidos.
o funcionamento do
cérebro, para que a Ao saber como cada uma das áreas do nosso cérebro funciona
aprendizagem ocorra, e e como elas devem ser estimuladas, espera-se, então, que a escola,
nos leva a compreender
melhor cada um dos frente à sua contribuição a esse desenvolvimento biológico, possa mol-
aspectos que interferem dar e modificar cada área.
de maneira orgânica na
aprendizagem. As metodologias utilizadas por professores são estímulos que produ-
COSENZA, R. M.; GUERRA, L. B. Porto zem a reorganização desse sistema nervoso em desenvolvimento, o que
Alegre: Artmed, 2014.
resulta, consequentemente, em mudanças comportamentais e cognitivas.
72 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Esse processo ocorre devido à neuroplasticidade cerebral, que é a
capacidade de se reorganizar frente a novos estímulos, sejam eles po-
sitivos ou negativos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento humano é muito mais complexo do que parece.
Devemos considerar todos os fatores que englobam a evolução da criança,
levando em conta cada uma de suas fases, para então compreender como
a aprendizagem acontece e assim poder agir de maneira adequada a cada
caso.
Sendo os fatores afetivos, sociais ou biológicos os principais a serem
considerados para a aprendizagem, eles devem ser vistos pela escola,
pelo professor e por todos os envolvidos na aprendizagem da criança.
Dessa forma, podem ocorrer melhores resultados tanto para a socializa-
ção da criança quanto para o seu aprendizado.
ATIVIDADES
Atividade 1
Escreva como Piaget entende a relação entre afetividade e apren-
dizagem e apresente um exemplo prático sobre isso.
Atividade 2
Cite quais são as questões voltadas ao ambiente escolar que
podem interferir no desempenho escolar do aluno.
Atividade 3
Com relação aos fatores biológicos que interferem na aprendiza-
gem, descreva o processo que acontece no encéfalo para que a
aprendizagem ocorra.
Fatores que interferem na aprendizagem 73
REFERÊNCIAS
FERREIRA, S. H. de A.; BARRERA, S. D. Ambiente familiar e aprendizagem escolar em
alunos da educação infantil. Core, 2021. Disponível em: https://core.ac.uk/download/
pdf/25529929.pdf. Acesso em: 13 dez. 2021.
MARTURANO, E. M. Ambiente familiar e aprendizagem escolar. In: FUNAYAMA, C. A. R.
(org.). Problemas de aprendizagem: enfoque multidisciplinar. Ribeirão Preto: Legis Summa,
1998.
NUNES, A. I. B. L.; SILVEIRA, R. do. N. Psicologia da aprendizagem: processos, teorias e
contextos. Brasília: Líber Livro, 2009.
OLIVEIRA, M. K.; REGO, T. C. Vygotsky e as complexas relações entre cognição e afeto.
In: ARANTES, V. A. (org.) Afetividade na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo:
Summus, 2003.
POPPOVIC, A. M. (coord.). Pensamento e linguagem: programa de aperfeiçoamento para
professores da 1ª série. São Paulo: Fundação Carlos Chagas, 1980.
SOUZA, M. T. C. C. de. O desenvolvimento afetivo segundo Piaget. In: ARANTES, V. A. (org.).
Afetividade na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 2003.
TAYLOR, A. P.; VLASTOS, G. School zone: learning environments for children. Novo México:
School Zone, 1983.
74 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
5
Prevenção, diagnóstico
e intervenção
As dificuldades e os transtornos de aprendizagem são fatores que po-
dem ocorrer durante o desenvolvimento humano por diferentes aspectos
e motivos, sendo eles: o biológico, quando relacionado a fatores de ordem
genética; o afetivo, relativo às questões emocionais e motivacionais; o so-
cial, que diz respeito às condições culturais e econômicas; ou o cognitivo,
que se refere à forma com que se assimila a aprendizagem.
Essas dificuldades e transtornos devem ser diagnosticados precoce-
mente para que seja dado à criança e à família todo o amparo durante
seu desenvolvimento, ou até mesmo para que algumas ações possam ser
realizadas de maneira preventiva a fim de que a dificuldade em si seja
minimizada. Após a realização desse diagnóstico, a intervenção – ou seja,
o caminho a ser seguido no auxílio para a criança – deve ser trilhada em
conjunto com os terapeutas responsáveis, a família e a escola.
Porém, o caminho que antecede tudo isso é a prevenção. É importante
sabermos que existem formas de prevenir esses transtornos e dificulda-
des e, por isso, conhecê-los também é parte do trabalho do professor.
5.1 Desenvolvimento das funções executivas
Vídeo Os estímulos ao desenvolvimento das funções executivas podem ser
um primeiro caminho de prevenção às dificuldades de aprendizagem,
pois é por meio deles que toda a cognição e a interação com o mundo
ocorrem. No entanto, do que se trata o termo funções executivas?
Objetivo de aprendizagem Podemos compreender as funções executivas como aquelas que
Conhecer as funções exe- realizam a execução, ou seja, que fazem com que tudo aconteça no
cutivas como base para a nosso corpo com relação à aprendizagem, ao conhecimento e à intera-
aprendizagem.
ção com o mundo.
As funções executivas não possuem um consenso sobre a sua con-
ceituação, sendo geralmente definidas, de acordo com Garon, Bryson e
Smith (2008) e Lezak (1995), como o conjunto de habilidades e capaci-
Prevenção, diagnóstico e intervenção 75
dades que nos permitem executar as ações necessárias para atingir um
objetivo. Elas trabalham de modo integrado para que isso ocorra, au-
torregulando o comportamento humano.
As funções executivas permitem o planejamento de ações cotidia-
Illia R/Shutterstock
nas, bem como a sua manutenção e continuidade. Para Fonseca
(2014), elas são as habilidades cognitivas necessárias para re-
gular nossos pensamentos, emoções e ações, e que, portanto,
possuem um papel e um impacto na vida social, afetiva e inte-
Erta/Shutterstock
lectual por toda a nossa existência, exercendo grande influência
desde a infância.
Vejamos, no quadro a seguir, o que podemos considerar como fun-
ções executivas.
Quadro 1
Funções executivas
É a capacidade de sustentação, foco, fixação, seleção de dados
Atenção relevantes e irrelevantes, de saber lidar com momentos de
distração que acabam desviando a atenção.
É a capacidade de perceber e receber os estímulos vindos do
Percepção ambiente por meio dos órgãos sensoriais e atribuir sentido à
mensagem que eles trazem.
É desenvolver a capacidade de retenção e de operação, ou seja,
Memória de de localização, recuperação, manipulação, julgamento e utiliza-
trabalho ção das informações relevantes.
É saber agir com persistência, esforço, inibição, regulação e
Controle autoavaliação de tarefas realizadas, a fim de buscar formas
corretas de trabalho.
É conseguir trabalhar com o improviso, raciocínio indutivo e
Ideação dedutivo, precisão e conclusão de tarefas no tempo planejado e
disponível para o momento.
Planificação e É trabalhar com prioridades, organização, hierarquização e predi-
a antecipação ção de tarefas visando atingir fins, objetivos e resultados.
É saber realizar autocrítica realizando a alteração de condutas,
Flexibilização mudando estratégias, detectando erros e obstáculos, buscando
intencionalmente soluções sempre que necessário.
É desenvolver a capacidade de auto-organização, sistematiza-
ção, controle, revisão de resultados e supervisão da sua própria
Metacognição aprendizagem.
É conseguir aplicar diferentes resoluções de problemas, saber
Decisão realizar a gestão do próprio tempo.
É executar e finalizar determinada atividade realizando a revisão
Execução dos resultados e retomando o que for necessário.
Fonte: Elaborado pela autora com base em Fonseca, 2014.
76 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Já para Barkley (1997), a autorregulação é o componente-chave das
funções executivas, pois leva ao comportamento orientado, à utilização
de regras e falas reguladas, assim como ao controle dos impulsos.
O modelo de funções executivas proposto por Barkley (1997) inclui,
ainda, quatro domínios principais:
MayoCreative/Shutterstock
Memória de trabalho
1
Autorregulação do afeto, da motivação e da 2
estimulação
Internalização da fala 3
Reconstituição (análise e síntese do comportamento)
4
Segundo Barkley (1997), o primeiro domínio apresenta a capacidade
de manter e manipular uma informação na mente, ter noção de tem-
po, autoconsciência e funções retrospectiva e prospectiva. O segundo
domínio trata da capacidade de as pessoas se motivarem ou se envol-
verem afetivamente para um fim específico.
Uma forma de reflexão, autoquestionamento e monitoramento an-
tes de agir, o que auxilia o indivíduo a manter o curso dos planos e
objetivos, é o que apresenta o terceiro domínio. Finalmente, o último
domínio representa as atividades relacionadas à análise e à síntese. A
primeira fragmenta comportamentos ou situações em partes, e a se-
gunda pode recombiná-las em novas formas criativas de sequências de
comportamento (verbal ou não verbal).
Devemos compreender que o desenvolvimento das funções execu-
tivas depende tanto de um bom desenvolvimento neuronal quanto de
treino e estímulos para que cada uma delas trabalhe de modo interli-
gado, otimizando a aprendizagem.
Assim, durante a infância, e em especial na escola, existem estímulos,
apresentados por Fonseca (2014), que fazem com que a criança desen-
volva essas habilidades. Vejamos, a seguir, quais são eles.
Prevenção, diagnóstico e intervenção 77
Nikita Starkov/Shutterstock
Estabelecer os objetivos de cada tarefa a ser realizada.
Planificar, gerir e antecipar tarefas, textos e trabalhos, buscando
organizar as demandas de tarefas.
Ordenar e priorizar tarefas no espaço e no tempo adequado para
concluí-las.
Organizar diferentes fontes de informação e de estudo que possam
auxiliar na aprendizagem.
Separar ideias e conceitos gerais de detalhes e pormenores, sabendo
separar o que é essencial do que é complemento.
Pensar, manipular, memorizar e resumir dados ao mesmo tempo que
se realizam leituras e estudos.
Vídeo
Para ampliar seus conhe-
Considerando um panorama de regularidade, ou seja, quando as
cimentos sobre funções
executivas, assista ao estruturas cognitivas da criança se apresentam preservadas, essas são
vídeo Funções Executivas:
as funções executivas e algumas formas de estimulá-las.
habilidades para a vida e
a aprendizagem. O vídeo Mas e quando essas estruturas não estão em condições de serem
demonstra o desenvolvi-
mento e estímulos dessas estimuladas e de interagirem entre si?
funções desde a primeira
infância. Uma das causas de as funções executivas não interagirem entre si
e não gerarem aprendizagem são as lesões nas estruturas pré-frontais
Disponível em: https://www.fmcsv.
org.br/pt-BR/biblioteca/funcao-
do cérebro. Elas podem causar, entre outros problemas, situações
executiva---habilidade-para-a- como o déficit de autoconsciência, a falta de motivação, a dificuldade
vida-e-aprendizagem/. Acesso em:
14 jan. 2022.
para seguir ações, controlar as emoções e, ainda, desenvolver uma rigi-
dez cognitiva que impede a aprendizagem em alguns aspectos.
78 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Desse modo, problemas com o desenvolvimento das funções exe-
cutivas podem alterar os processos cognitivos, como também a realiza-
ção de tarefas cotidianas.
Um desses problemas associados à deficiência nas funções executi-
vas é a síndrome desexecutiva, ou síndrome frontal, associada à lesão
do lobo frontal do cérebro.
Essa síndrome atinge diversas habilidades cognitivas, como a moti-
vação, a flexibilidade de pensamento e a autorregulação, o que, conse-
quentemente, leva a problemas no ato de planejar e tomar decisões.
Juntos, esses fatores causam uma conduta desorganizada e podem
provocar mudanças de personalidade e até mesmo variações de hu-
mor. Essa lesão que acarreta a síndrome desexecutiva pode ocorrer
devido a uma lesão cerebral, seja ocasionada por meio de um derrame,
tumores ou doenças neurodegenerativas.
5.2 Prevenção às dificuldades de aprendizagem
Vídeo Ao tratarmos de prevenções referentes às dificuldades de apren-
dizagem, devemos ter claro que essas são basicamente estímulos e
cuidados que devem monitorar o desenvolvimento desde a infância,
visando proporcionar um bom desenvolvimento das funções executi-
vas e de outros aspectos que influenciam na aprendizagem, como os
Objetivo de aprendizagem fatores afetivos, biológicos e sociais.
Relacionar trabalhos O ato de prever algo está relacionado à visão de que se tem totalidade,
preventivos de problemas
de aprendizagem. visualizando os objetivos, os caminhos a seguir e os resultados espe-
rados. Se dentro dessas expectativas algo não acontece em um ritmo
adequado, essa situação deve ser revista.
BearFotos/Shutterstock
É importante ressaltar que, no processo de desenvolvimento e de
aprendizagem, cada criança se desenvolve conforme o repertório e a
capacidade que ela possui, por isso, antes de apontar características
como dificuldades, é necessária uma observação precisa de como essa
criança pensa e age. É por essa razão que o
trabalho em sala de aula é algo tão minu-
cioso e de extrema importância.
Prevenção, diagnóstico e intervenção 79
Com relação ao trabalho em sala de aula, algumas concepções po-
Ayane Hashimoto/Shutterstock
dem ser alteradas para que a aprendizagem se torne mais prazerosa,
leve e com um caráter preventivo diante de dificuldades.
A prevenção é a visão que o professor tem sobre os erros come-
tidos, pois eles podem ser vistos como uma chance de verificar a
forma como o aluno pensa, age e processa a informação que lhe foi
passada, bem como a maneira que ele compreendeu determinado
contexto.
Assim, a reflexão sobre o erro acarreta, consequentemente, uma
reformulação das práticas docentes, sendo essa uma forma preven-
tiva de agir, pois, a partir do momento em que essas dificuldades
podem ser percebidas, são sanadas antes de se tornarem proble-
mas maiores.
Se durante o percurso de aprendizagem o aluno não aprendeu,
por exemplo, na matemática, a formação dos números (que 8 pode
Livro
ser 4+4, ou 5+3, ou 2+6...), sua flexibilidade de pensamento para as-
similar o processo das quatro operações (adição, subtração, divisão
e multiplicação) será mais difícil. É necessário, inicialmente, com-
preender essa constituição de números para que o professor possa
manuseá-los de diferentes formas nos conteúdos seguintes.
Dessa forma, se o professor percebeu que o aluno não compreen-
deu a base da atividade, de nada adianta evoluir para algo mais com-
plexo, pois esse conhecimento fará falta na sequência. Logo, a forma
Para aprofundar seus preventiva é retomar e se assegurar de que o aluno assimilou o que
conhecimentos, recomen-
lhe foi transmitido.
damos a leitura do livro
Prevenção das dificuldades
Outro fator importante é a estrutura curricular da escola, ou seja,
de aprendizagem na Edu-
cação Infantil. O material o que é ensinado, quando e de que forma. Trata-se de um meio de
apresenta dicas de obser-
reflexão para a prevenção das dificuldades de aprendizagem, uma
vação para o professor,
voltado a todo o processo vez que é necessário revisar constantemente se ela está de acordo
de desenvolvimento de
com a estrutura cognitiva, afetiva e social do aluno, equilibrando es-
aprendizagem da criança,
para que ele possa, assim, sas estruturas.
interferir nesse processo
de modo preventivo Sabe-se que a organização curricular depende não somente de
e com a estimulação meios burocráticos, mas deve levar em consideração também a rea-
adequada.
lidade social e a demanda que a turma apresenta naquele momento.
GASS. E. L.; STAMPA. M. Rio de Não se trata de um documento fechado, mas sim flexível, no qual
Janeiro: Wak, 2018.
a retomada de conceitos e a reformulação de estratégias caminha
junto com a resposta que os alunos dão à aprendizagem. Outro fator
80 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Monkey Business Images/Shutterstock
relevante para a prevenção das dificulda-
des de aprendizagem é a forma como o
professor se comunica com o aluno.
A clareza da comunicação é um
fator fundamental. Deve-se ter claro,
a princípio, que o que é obvio para
um pode não ser para o outro. Para
se expressar adequadamente com o
grupo com que se fala, é necessário
levar em conta alguns aspectos: faixa
etária (no caso de crianças, utilizar um
vocabulário que corresponda ao seu reper-
tório de conhecimento); classe social e cultural, considerando que
cada termo novo que contribua para a ampliação do vocabulário seja
explicado e tenha sentido; e também o fator regional, pois dentro do
nosso país a variação linguística é muito diferente se compararmos
as regiões Sul e Nordeste, por exemplo. Assim, a forma de acolher,
comunicar e se fazer entender é muito importante em sala de aula.
Nenhum ponto deve ser esquecido.
Dessa forma, considerar cada um desses fatores de maneira sen-
sível a cada situação traz uma ótima perspectiva de prevenção. Essa
sensibilização com relação aos cuidados e detalhes do ato de apren-
der deve ser iniciada desde os primeiros anos da criança na escola,
pois, a cada fase do desenvolvimento infantil, novas expectativas e
possibilidades surgem para a sua aprendizagem e desenvolvimento.
5.3 Diagnóstico das dificuldades
Vídeo de aprendizagem
As dificuldades de aprendizagem surgem, em sua grande maioria, a
partir do momento em que a criança ingressa na escola e é descoberta
por meio do seu desempenho e dos resultados que apresenta. Nesse
momento, suas habilidades são colocadas à prova e surgem as caracte-
Objetivo de aprendizagem rísticas específicas de cada criança.
Reconhecer como é
realizado o diagnóstico
Desse modo, é importante que o professor saiba identificar os
dos problemas de possíveis problemas para encaminhar o aluno a uma avaliação
aprendizagem.
Prevenção, diagnóstico e intervenção 81
diagnóstica o quanto antes a fim de que o diagnóstico seja feito e
possíveis soluções possam ser aplicadas em sala de aula.
No entanto, é necessário destacar que não há a necessidade de
encaminhar todas as dificuldades para a avaliação de profissionais
externos. Muitas delas podem ser momentâneas, causadas por falta
de entendimento de um conteúdo específico, podendo ser resolvidas
com uma intervenção extra do professor, uma aula de reforço ou uma
dinâmica diferenciada em sala de aula.
Nesses casos, percebemos que o problema é resolvido em sala de
aula mesmo, com o trabalho do professor, mas, em algumas situações,
essa dificuldade persiste. Essa persistência se dá pela falta de enten-
dimento, de atenção e de memorização, que, apresentados de modo
constante, precisam ser avaliados por um profissional externo à escola
(psicopedagogo, psicólogo ou neurologista). O professor, antes de so-
licitar tal avaliação, precisa observar e verificar diferentes pontos para
ter certeza de que o caso se refere a questões de ordem pedagógica,
que podem ser vistas na escola, ou se a criança precisa realmente ser
encaminhada a um profissional externo.
A observação do comportamento e das atitudes do aluno em sala de
aula pode ser considerada um primeiro passo para essa verificação da
real dificuldade que se apresenta no momento. Por meio do comporta-
mento do aluno, o professor pode analisar se ele se mostra desatento,
se demora para realizar as atividades além do tempo esperado, se ele
consegue manter a concentração pelo tempo necessário, se retém a
informação que lhe foi passada, bem como observar o comportamento
desse aluno diante de desafios e trabalhos em grupo.
Outro fator que deve ser analisado refere-se à qualidade, o que se
dá na verificação das atividades e provas realizadas, por meio de um
olhar minucioso, que resulta na possível percepção sobre quais são os
obstáculos enfrentados pelo aluno, sejam eles relativos à interpretação
do que deve ser feito ou aos conteúdos em si.
Paralela a essa verificação das atividades e provas, ocorre também
a visualização da qualidade da escrita do aluno, pois por meio dela é
possível compreender como estão o rendimento e o desenvolvimento
do estudante e se ele apresenta dificuldades específicas, como de tro-
cas ortográficas constantes, de produção textual, de interpretação e
leitura, que podem significar algum distúrbio.
82 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
A observação minuciosa, em sala de aula, dos alunos que apresen-
tam dificuldades de aprendizagem é uma ferramenta importante, uma
vez que por meio dela é possível encontrar diversas possibilidades de
auxílio ou mesmo verificar a necessidade de um encaminhamento para
os profissionais externos à escola.
Quando o caso é encaminhado para a avaliação externa com pro-
fissionais específicos, eles realizarão, em ambiente clínico, uma bateria
de testes que trarão as repostas sobre em qual fase da aprendizagem
a criança se encontra ou, ainda, se ela não está ocorrendo devido a
Livro
fatores emocionais, biológicos ou sociais.
Terminado esse processo de avaliação e, em seguida, dado o
diagnóstico quanto ao problema de aprendizagem, a escola e a família
serão orientadas sobre como proceder com essa criança para que a
aprendizagem e/ou socialização ocorra de maneira satisfatória. Esses
problemas podem ser:
• dislexia;
• disgrafia;
Como complemento para
• disortografia; os seus estudos, suge-
rimos a leitura do livro
• discalculia; Diagnóstico e tratamento
dos problemas de apren-
• TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade);
dizagem, de Sara Paín. O
• TOD (transtorno desafiador opositor); material apresenta subsí-
dios históricos e práticos
• TOC (transtorno obsessivo compulsivo); do diagnóstico.
• fatores pedagógicos, relacionados à escola em si e aos apoios que
PAÍN, S. Porto Alegre: Penso, 1985.
podem ser viabilizados e solucionados nesse mesmo ambiente.
Dessa forma, o diagnóstico é um elemento muito importante para
traçarmos o caminho a ser seguido – considerando, aqui, o processo
para se chegar ao diagnóstico, que se inicia pela visão do professor em
sala de aula e prossegue por meio do encaminhamento a profissionais
especializados.
Ao final de todo o processo de avaliação, quando se chega ao
diagnóstico, surgem novas possibilidade de repensar a prática docen-
te – e, se necessário, também a estrutura curricular – e de realizar um
trabalho integrado com diferentes profissionais.
Por meio do diagnóstico, é possível começar a pensar sobre a di-
ficuldade de aprendizagem sob outro olhar, como o de perceber,
Prevenção, diagnóstico e intervenção 83
inicialmente, os acertos dos alunos, o quanto eles evoluem dentro da
sua capacidade e o valor de cada uma das suas conquistas ao longo do
processo de ensino-aprendizagem. Esse olhar leva ao entendimento de
que o tempo e o momento de cada um podem variar, e saber acolher
em cada uma dessas ocasiões faz parte do trabalho docente.
5.4 Intervenção aos problemas de aprendizagem
Vídeo
Após discutirmos sobre o olhar minucioso e entender como funcio-
na o processo de prevenção, avaliação e diagnóstico dos problemas de
aprendizagem, refletiremos agora sobre as formas de intervir e auxiliar
na superação ou, então, em como abrir os caminhos para que a crian-
Objetivo de aprendizagem ça aprenda a lidar com cada um desses problemas ou distúrbios de
aprendizagem.
Identificar como ocorrem
as intervenções relacio- A ação de intervir pode estar relacionada ao ato de agir a favor de
nadas aos problemas de
aprendizagem.
alguma coisa, ou seja, auxiliar para que determinada situação venha a
acontecer, mediar ou ajudar. No caso das dificuldades de aprendiza-
gem, o processo de intervenção surge como o caminho, o qual, após
o diagnóstico, deve ser percorrido para que o indivíduo aprenda e se
desenvolva bem.
O processo de intervenção deve ocorrer, a princípio, em dois âmbi-
tos: na escola e com o psicopedagogo, que é o profissional que trabalha
diretamente com os problemas de aprendizagem. Ambos os ambien-
tes devem estar em contato e consonância com a família, para que seja
trabalhada uma mesma linha de auxílio a essas crianças e jovens.
No âmbito das intervenções que acontecem na escola, é necessário,
inicialmente, reconhecer que não se trata de uma tarefa fácil lidar com
essa diversidade em sala de aula.
A escola deve superar a repetência como solução dos problemas,
bem como a visão de que determinado aluno não tem mais como
melhorar, aumentando, assim, os prejuízos à sua aprendizagem e
formação. Intervir significa auxiliar a criança na superação dos seus
obstáculos.
Alguns processos simples realizados no ambiente escolar podem
auxiliar as crianças com dificuldades de aprendizagem e devem ser
considerados, como se segue:
84 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Martial Red/Shutterstock
O primeiro passo é ter clareza sobre o diagnóstico. A partir do
momento em que a escola tem certeza de quais obstáculos essa
criança possui, todos os envolvidos no trabalho com ela devem estar
cientes sobre suas limitações e devem agir por um mesmo caminho
para auxiliá-la.
É necessário saber que as intervenções devem ser pontuais, ou seja,
o professor deve agir no mesmo momento em que percebe que
algo não está claro para a criança. Enquanto alguns alunos da sala
trabalham com autonomia, o professor pode atender aqueles com mais
dificuldade e auxiliar nas questões que para eles parecem mais difíceis
naquele momento.
Algumas escolas mantêm um professor tutor ou auxiliar que possa
fazer os ajustes de aprendizagem ao lado da criança durante a aula,
disponibilizando uma atenção diferenciada àquela criança específica
que apresenta dificuldade.
As salas específicas de apoio pedagógico também constituem uma boa
solução de acompanhamento dos problemas de aprendizagem. Nessas
salas, a orientação pode ocorrer tanto para o aluno quanto para aquele
professor que não sabe exatamente como adequar sua aula ou lidar
com o aluno que está na escola com um determinado laudo.
O contato direto com a família é essencial. A escola precisa mantê-la
informada sobre os encaminhamentos que estão sendo realizados
com a criança, bem como orientar sobre quais tipos de auxílio ela pode
fornecer em casa como complemento do trabalho escolar.
O contato com os profissionais externos que atendem a criança
também é necessário, de modo que seja realizado um trabalho em
conjunto e eles possam acompanhar a evolução e os obstáculos que
ainda precisam ser trabalhados.
A escola e os professores precisam ter um plano de trabalho e
objetivos claros individualizados para cada criança que apresenta uma
dificuldade ou transtorno específico.
Como complemento e auxílio a esses processos, a escola deve contar
com profissionais externos que trabalhem em conjunto, orientem e
Prevenção, diagnóstico e intervenção 85
auxiliem nas estratégias que direcionam o trabalho com essas crianças
com dificuldades de aprendizagem – o psicopedagogo, por exemplo.
Já no que se trata do atendimento psicopedagógico clínico, Weiss
(2000) define a prática psicopedagógica como aquela que deve consi-
derar a criança como um ser global, composto pelos aspectos biológico,
cognitivo, afetivo, social e pedagógico, aspectos esses considerados des-
de o processo de avaliação das dificuldades do aluno, como visto ante-
riormente, e que devem se estender durante o processo de intervenção.
No que se refere à construção biológica do ser humano, sua relação
com a dificuldade de aprendizagem está na causa orgânica, que diz
respeito àquela relacionada ao corpo, ao cérebro e ao seu desenvolvi-
mento em si.
Quanto ao aspecto cognitivo, os problemas de aprendizagem são
vistos com base nas estruturas do pensamento, ou seja, na capacidade
do potencial cognitivo desenvolvido de acordo com as expectativas de
cada fase do desenvolvimento, pois a criança apresenta, a cada ano,
diferentes habilidades a serem desenvolvidas.
O aspecto afetivo está relacionado à forma como o aprender se
manifesta, uma vez que o indivíduo pode não conseguir estabelecer
um vínculo positivo com a aprendizagem, o que acarreta dificuldades
posteriores. Estar à vontade com o ambiente de aprendizagem, com
quem medeia a aprendizagem e confiante de sua capacidade faz parte
de um processo emocional/afetivo que contribui para a aprendizagem.
O aspecto social se refere à relação do sujeito com a família, com a
sociedade, com seu contexto social e cultural, visto que o aluno pode
não aprender por apresentar limitações culturais relacionadas aos sa-
beres escolares, por não contar com o apoio e suporte da família. Sa-
bemos que, até boa parte da infância, esses elementos são essenciais
para que a aprendizagem ocorra.
Não podemos deixar de citar também o aspecto pedagógico, que
diz respeito à forma como a escola organiza o seu trabalho, ou seja, o
método, a avaliação, os conteúdos, a forma de ministrar a aula, entre
outros. Devemos lembrar que, após passar pelo processo de avaliação,
pode ser constatado que a criança não tem nenhum problema especí-
fico, síndrome ou transtorno, mas sim uma “despedagogia”, ou seja, a
falta de pré-requisitos para a aprendizagem ou a falta de entendimen-
to dos saberes que deveria dominar naquele momento e que, nesse
86 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
caso, devem ser revistos e acompanhados pela própria escola e pelo
professor.
Weiss (2000) afirma, ainda, que a aprendizagem é a constante inte-
ração do sujeito com o meio. Dessa forma, é também a interação de
todos os outros aspectos, assim como o não funcionamento ou o fun-
cionamento insatisfatório de um dos aspectos apresentados, podendo
gerar problemas de aprendizagem.
Tendo refletido sobre cada um desses aspectos, basta agora estabe- Livro
lecer o caminho do auxílio que será prestado a essa criança ou jovem.
O atendimento psicopedagógico clínico varia muito conforme a de-
manda e a necessidade apontada. Em casos simples, o aluno pode fre-
quentar o consultório uma a duas vezes por semana para ser realizado
um trabalho de ressignificação do aprender. Casos mais específicos,
como o TEA (transtorno do espectro autista), por exemplo, dependendo
do seu grau, podem requerer atendimentos de três a quatro vezes por
semana e com diferentes profissionais além da escola.
Recomendamos a leitura
Assim, o enfoque psicopedagógico na dificuldade de aprendizagem do livro Dificuldades
de aprendizagem: uma
compreende como parte do trabalho com o desenvolvimento mais do
proposta pedagógica para
que a dificuldade, considerando, também, os diferentes caminhos que alunos disléxicos. O livro
traz um bom exemplo
podem ser abertos para que a aprendizagem ocorra.
de intervenção como
complemento aos nossos
O olhar psicopedagógico entende o aluno como um ser interdisci-
estudos, em específico
plinar e busca apoio em diferentes áreas do conhecimento, além de para alunos disléxicos.
analisar a aprendizagem no contexto escolar e familiar.
FERREIRA, S. M. D. São Paulo:
O trabalho no consultório é individualizado, pois, mesmo que apre- Nelpa, 2019.
sente a mesma síndrome, transtorno ou dificuldade, cada ser humano
reage de uma forma diferente às intervenções, possui caminhos diver-
sos de desenvolvimento e compreensão. Por isso, o tempo de interven-
ção é algo amplo e que dependerá da evolução de cada situação. De
qualquer modo, o trabalho comprometido e direcionado, em parceria
com a escola e a família, é o melhor caminho para que a superação de
obstáculos aconteça.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A complexidade do desenvolvimento humano, em todos os seus âm-
bitos – neurológico, biológico, social e afetivo –, demonstra a riqueza da
individualidade e peculiaridades de cada um, seja na forma de ser, agir,
interagir com o mundo e nas diferentes formas de aprender.
Prevenção, diagnóstico e intervenção 87
Entender essa complexidade está relacionado a um estudo constante
sobre essa compreensão, que nos leva a novas descobertas, novas formas
de diagnosticar e intervir nos problemas e transtornos de aprendizagem.
A ciência evolui, e com ela novas descobertas nos deixam em constan-
te movimento com relação às dificuldades de aprendizagem, esclarecen-
do por que elas surgem e como podemos intervir para auxiliar quem as
possui.
Somos parte de um grupo de pessoas que estuda sobre essas
questões e que pode fazer a diferença na vida de muitos por meio de um
olhar diferenciado quanto às suas dificuldades e limitações. Esse olhar
abre caminhos e traz perspectivas diferentes de vida, de interação e de
aprendizagem.
ATIVIDADES
Atividade 1
Sabemos que, para que a aprendizagem aconteça, as funções
executivas devem estar em consonância. Entre as funções execu-
tivas estudadas está a atenção. Quais são os aspectos relaciona-
dos ao desenvolvimento da atenção? Qual exemplo prático se
pode dar sobre essas questões?
Atividade 2
Fonseca (2014) ressalta algumas estratégias que auxiliam no
desenvolvimento das funções executivas. Escolha uma dessas
sugestões e relacione-a a um exemplo prático.
Atividade 3
Como prevenção às dificuldades de aprendizagem, é necessário
que o professor tenha um entendimento diferenciado sobre o
erro. Como seria esse entendimento?
REFERÊNCIAS
BARKLEY, R. A. Behavioral inhibition, sustained attention, and executive functions: constructing
a unifying theory of ADHD. Psychological Bulletin, v. 121, n. 1, p. 65-94, 1997.
FONSECA, V. Cognição, neuropsicologia e aprendizagem: abordagem neuropsicológica e
psicopedagógica. 6. ed. São Paulo: Vozes, 2014.
GARON, N.; BRYSON, S. E.; SMITH, I. M. Executive function in preschoolers: a review using an
integrative framework. Psychological Bulletin, v. 134, n. 1, p. 31-60, 2008.
LEZAK, M. D. Neuropsychological assessment. 3. ed. New York: Oxford University Press, 1995.
WEISS, M. L. Reflexões sobre o diagnóstico psicopedagógico. In: BOSSA, N. A. Psicopedagogia
no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2000.
88 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
Resolução das atividades
1 Processos de aprendizagem
1. Discutimos, no início do capítulo, que existem duas concepções
de aprendizagem: a comportamentalista e a cognitivista, que
nos levaram a refletir sobre como acontece a aprendizagem.
Vimos, ainda, que a psicologia trouxe grande contribuição para a
aprendizagem escolar. Relate qual foi essa contribuição e exponha
sua opinião sobre essa modificação.
A psicologia trouxe para a educação escolar grande contribuição no
sentido de compreender que cada pessoa é alguém que pensa e
aprende de maneira diferente e individual e que, por isso, não faz
sentido todos serem submetidos a uma aprendizagem em que o aluno
somente se submete aos conhecimentos do professor, mas sim que
seja um ser ativo e responsável pelo seu modo de aprender. Em seu
relato, reflita sobre os benefícios de uma educação não tradicional
para a aprendizagem dele.
2. Conhecemos e analisamos as diferentes formas de estímulos
necessárias para que o desenvolvimento humano e a aprendizagem
aconteçam. Escreva quais são essas formas de estímulos. Destaque
e comente aquela que, pessoalmente, torna-se a mais relevante
para o desenvolvimento da criança.
Os estímulos são os afetivos, físicos, cognitivos e sensoriais. Todos
são importantes e devem ser trabalhados de maneira integrada para
que o desenvolvimento humano ocorra de modo amplo. É importante
que você relate essa necessidade, mas que também aponte qual a
sua importância.
3. Pudemos conhecer e refletir sobre a importância da afetividade para
a aprendizagem. Dentre os aspectos que a compõem, conhecemos
Wallon, um dos maiores estudiosos do tema. Conceitue o que é a
afetividade para Wallon e relate uma experiência afetiva que marcou
seu processo de aprendizagem ao longo de seu desenvolvimento.
Para Wallon, é com base nas próprias experiências, repetições e
diferenças que a criança se torna capaz de distinguir e reconhecer
o que está de acordo ou não com suas necessidades, o que
consequentemente a leva ao aprendizado. O estudioso ressalta
Resolução das atividades 89
a importância das experiências afetivas para a aprendizagem.
É interessante você refletir sobre seu histórico de aprendizagem
e relacioná-lo com uma prática afetiva que o influenciou, como a
relação com algum professor, ou algum apoio quando precisou.
2 Dificuldades de aprendizagem
1. Sobre as dificuldades de aprendizagem estudadas, escolha quatro
delas e descreva suas principais características. Em seguida,
responda: como você avalia seu processo de aprendizagem com
relação à leitura, à escrita, à interpretação, ao traçado, à ortografia
e à matemática?
Esta é uma resposta pessoal, entretanto, você deve escolher quatro
dificuldades de aprendizagem e descrevê-las de acordo com o
que foi estudado no capítulo. Ao refletir sobre o seu processo de
aprendizagem, busque pensar nas seguintes questões: em qual área
tenho mais dificuldade? Como foi meu processo de aprendizagem?
Poderia ter ocorrido de maneira melhor? Essas questões são cruciais
para a autorreflexão.
2. Conhecer as características da dislexia e encaminhar a criança para
uma avaliação psicopedagógica, bem como saber intervir nesses
casos, é de extrema importância para o profissional da educação.
Com base nessa premissa, cite as principais características da
criança disléxica.
A criança disléxica apresenta dificuldades na alfabetização,
como problemas de leitura e escrita, de orientação espacial, de
compreensão de textos e de falta de atenção em sala de aula.
3. Dos tipos de discalculia estudados, escolha o que para você parece
ser o mais comum e justifique sua resposta.
Para responder a esta questão, é necessário escolher entre os
seguintes tipos de discalculia:
• Practognóstica: dificuldades em enumerar, comparar e manipular
objetos reais ou em imagens.
• Ideognóstica: dificuldades em fazer operações mentais e
compreender conceitos matemáticos.
• Verbal: dificuldades em nomear quantidades matemáticas,
números, termos e símbolos.
• Léxica: dificuldades na leitura de símbolos matemáticos.
• Operacional: dificuldade na execução de operações e cálculos
numéricos.
90 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
• Gráfica: dificuldades na escrita de símbolos matemáticos.
Além disso, é importante refletir sobre as que você considera
mais comuns. Em sua resposta, busque pensar em suas próprias
experiências, relatos de amigos, colegas, familiares e professores.
3 Transtornos de aprendizagem
1. Vimos em nossos estudos que a atenção pode ser aprimorada ou
desenvolvida por meio de intervenções cognitivas, e que é algo que
difere em cada pessoa. Por isso, podemos considerar alguns tipos
de atenção. Escolha um dos tipos de atenção estudados, escreva
sua definição e comente da sua importância para o processo de
aprendizagem.
- Atenção seletiva: habilidade para se centrar em um estímulo ou
atividade na presença de outros estímulos que desviam a atenção.
- Atenção alternada: habilidade para alterar a atenção focada entre
dois estímulos.
- Atenção dividida: é possível se centrar ou prestar atenção a
diferentes estímulos ao mesmo tempo.
- Atenção focada: habilidade para focar a atenção em um estímulo,
sem dispersar com estímulos externos.
- Atenção constante: a habilidade para se centrar em um estímulo
ou atividade durante um longo período.
Após escolhido o tipo de atenção e escrito sobre ela, cabe ressaltar
que todas têm a importância de constituir o processo de atenção do
ser humano e que precisam ser estimuladas.
2. Vimos que a Síndrome de Asperger é um transtorno neurobiológico,
dentro do DSM-5 é caracterizado como um transtorno do
neurodesenvolvimento, parte do transtorno do espectro autista.
Escreva quais as características que são similares entre o TEA e o
Asperger.
Assim como no autismo, a síndrome de Asperger traz prejuízos
na capacidade de socializar, de se comunicar com as pessoas e de
interpretar o mundo, porém apresenta uma melhor adaptação social
do que as crianças com autismo. Trata-se de uma forma diferente de
ver e interagir com o mundo.
3. Sabemos que o TOC (transtorno obsessivo compulsivo) pode se
manifestar já na infância, trazendo prejuízos ao desenvolvimento.
Resolução das atividades 91
Descreva os dois tipos de TOC estudados e quais prejuízos você
acredita que cada um pode trazer?
Transtorno obsessivo-compulsivo subclínico – as obsessões e
rituais se repetem com frequência, mas não atrapalham a vida da
pessoa.
Transtorno obsessivo-compulsivo propriamente dito – as
obsessões persistem até o exercício da compulsão que alivia a
ansiedade. Tal transtorno acarreta prejuízos para a criança durante a
vida escolar, pois tais hábitos podem tirar a atenção de aula, ocasionar
a saída de sala muitas vezes para lavar as mãos, por exemplo. Como
o transtorno está relacionado à ansiedade, esta pode prejudicar seu
tempo e qualidade das produções na escola.
4 Fatores que interferem na aprendizagem
1. Vimos que a afetividade é um fator importante para a
aprendizagem, e que alguns autores concordam com esse fato,
trazendo considerações importantes sobre ele. Escreva como
Piaget entende a relação entre afetividade e aprendizagem e
apresente um exemplo prático sobre isso.
Piaget defende a relação entre as construções cognitivas e as afetivas ao
longo da existência humana. Ele destaca que inteligência e afetividade
são dimensões indissociáveis e integradas ao desenvolvimento
psicológico, portanto não é possível a sua separação. Sem afeto, não
existe interesse nem necessidade e motivação. Um exemplo prático
seria um aluno que não possui vínculo com o professor e com o
ambiente da escola, pois ele dificilmente terá bom rendimento escolar.
2. Entre os fatores sociais que interferem na aprendizagem, vimos
que a escola é uma grande responsável por essa questão. Cite
quais são as questões voltadas ao ambiente escolar que podem
interferir no desempenho escolar do aluno.
Algumas questões são: possuir estrutura física apropriada, com
mobiliários adequados para a faixa etária; saber determinar quando,
como e onde cada espaço escolar é organizado para favorecer a
aprendizagem e a socialização; e promover um espaço que favoreça
o contato e as relações também sociais, pois elas contribuem para a
aprendizagem e aproximam professores e alunos.
92 Transtornos e dificuldades de aprendizagem
3. Com relação aos fatores biológicos que interferem na
aprendizagem, descreva o processo que acontece no encéfalo para
que a aprendizagem ocorra.
O cérebro é o órgão da aprendizagem; ele é composto de bilhões de
neurônios, que são as células nervosas, as quais interagem entre si
e com outras células, formando redes neurais para que possamos
aprender o que é significativo e relevante para a vida.
5 Prevenção, diagnóstico e intervenção
1. Sabemos que, para que a aprendizagem aconteça, as funções
executivas devem estar em consonância. Entre as funções
executivas estudadas está a atenção. Quais são os aspectos
relacionados ao desenvolvimento da atenção? Qual exemplo
prático se pode dar sobre essas questões?
A atenção está relacionada a sustentação, foco, fixação, seleção de
dados relevantes e irrelevantes e evitar distratores. Um exemplo
prático de como a atenção acontece é a capacidade de manter o foco
e não se distrair em sala de aula com conversas paralelas de colegas.
2. Fonseca (2014) ressalta algumas estratégias que auxiliam no
desenvolvimento das funções executivas. Escolha uma dessas
sugestões e relacione-a a um exemplo prático.
Entre as sugestões de Fonseca (2014), podemos ter o de estabelecer
objetivos com os alunos; antecipar tarefas, textos e trabalhos para
melhor organização; priorizar e ordenar tarefas no espaço e no tempo
para concluir projetos e realizar testes; organizar e hierarquizar dados,
gráficos, mapas e fontes variadas de informação e de estudos; pensar,
reter, manipular, memorizar e resumir dados ao mesmo tempo em
que se lê.
3. Como prevenção às dificuldades de aprendizagem, é necessário
que o professor tenha um entendimento diferenciado sobre o erro.
Como seria esse entendimento?
O erro deve ser visto como instrumento de análise para o professor
compreender o momento em que aluno se encontra e como ele
entendeu o que foi ensinado, refletindo sobre possíveis reformulações
em sua prática e, assim, trabalhando de maneira preventiva a partir
do momento em que essas dificuldades sejam percebidas, o que
pode acontecer precocemente.
Resolução das atividades 93
TRANSTORNOS
Transtornos e Dificuldades de Aprendizagem
E DIFICULDADES DE
APRENDIZAGEMPriscila Chupil
Priscila Chupil
Código Logístico
ISBN 978-65-5821-111-2
I0 0 0 4 8 5 9 786558 211112