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A RMN e suas ap
Quando se fala em ressonncia magntica nuclear (RMN), possivelmente a primeira idia que vm cabea seja a do equipamento empregado para diagnstico mdico por imagem. A associao se justifica, afinal dezenas de milhes desses exames so feitos por ano no mundo. Mas a RMN uma tcnica que se estende bem alm das aplicaes mdicas. empregada hoje como um poderoso instrumento na fsica, qumica, medicina, biologia, agricultura e, mais recentemente, na chamada informao quntica, nova rea de pesquisa cujo expoente tecnolgico mais popular o computador quntico, que promete ser impensavelmente mais veloz que seus congneres atuais. Aqui, o leitor vai encontrar um pouco da histria da RMN e a descrio de algumas das principais aplicaes.
Tito Jos Bonagamba, Klaus Werner Capelle e Eduardo Ribeiro de Azevedo Instituto de Fsica de So Carlos, Universidade de So Paulo
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licaes atuais
Com o desenvolvimento da fsica no incio do sculo passado, foi possvel constatar que a carga e a massa no eram as nicas propriedades das partculas elementares. Descobriu-se, em particular, que o eltron tem um momento magntico, que foi interpretado como conseqncia do movimento giratrio dessa partcula em torno do prprio eixo ou, mais precisamente, do momento angular intrnseco, chamado spin. O spin s pode ter certos valores, que, no caso do eltron, so +1/2 e 1/2. Para outras partculas, os possveis valores do spin podem ser diferentes, porm sempre so limitados a mltiplos inteiros de 1/2. Em outras palavras, o spin quantizado, ou seja, seus valores variam aos saltos e no de modo contnuo. Isso foi observado em um experimento conduzido pelos fsicos alemes Otto Stern (1888-1969) e Walther Gerlach (1889-1979), no incio da dcada de 1920 (ver Dois experimentos clssicos). Mesmo depois da descoberta do spin e de sua interpretao como momento angular intrnseco, dvidas permaneceram sobre, por exemplo, a questo da sua origem e de seus possveis valores. Uma resposta mais satisfatria a essas perguntas s pde ser dada aps 1928, principalmente atravs das contribuies do fsico ingls Paul Dirac (19021984) para a chamada mecnica quntica relativstica.
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DOIS EXPERIMENTOS CLSSICOS
IMAGENS CEDIDAS PELOS AUTORES
O experimento feito em 1922 por Stern e Gerlach tornou-se um clssico na histria da fsica do sculo passado. Nele, um feixe de tomos de prata atravessa o interior de um m e atinge uma placa fotogrfica. O m foi construdo com um formato especial, para produzir um campo que cresce na direo vertical. O tomo de prata tem um eltron desemparelhado na ltima camada e, por essa razo, seu comportamento magntico equivalente ao de um eltron isolado submetido fora magntica. Dependendo do sinal do spin do eltron (+1/2 ou -1/2), ele ser de-
fletido por essa fora para cima ou para baixo, o que far os tomos de prata atingirem posies diferentes na placa fotogrfica (figura 1). Stern e Gerlach observaram apenas duas zonas de impacto. Esse resultado mostrou que o spin do eltron apresenta apenas dois valores permitidos ou seja, uma grandeza quantizada , como proposto pelo fsico austraco Wolfgang Pauli (1900-1958) e pelos holandeses Samuel Goudsmit (1902-1978) e George Uhlenbeck (1900-1988) para explicar os resultados dessa experincia. Esse experimento foi realizado depois com feixes de eltrons, prtons e nutrons, todos apresentando spin 1/2.
MOMENTOS INVERTIDOS
Em 1934, Rabi e Cohen usaram dois ms mostrados na figura 2 como A e B com formatos semelhantes ao do experimento de Stern e Gerlach, porm invertidos entre si. Entre esses dois ms, encontrava-se um terceiro (C), cujo campo vertical e uniforme. No interior do m C, foi colocada uma bobina alimentada por um gerador de radiofreqncia.
Figura 1. Esquema do experimento realizado em 1922 por Stern e Gerlach
interessante observar que, para ser completada, a descrio matemtica de uma propriedade que aparentemente to simples o giro de um objeto pequeno em torno de si mesmo precisou esperar o casamento das duas grandes revolues conceituais do incio do sculo passado: a teoria da relatividade restrita, publicada em 1905 pelo fsico alemo Albert Einstein (1879-1955), e a mecnica quntica, cujo desenvolvimento se deu principalmente na dcada de 1920. A primeira modificou os conceitos sobre espao e tempo, com conseqncias principalmente para objetos que se deslocam a velocidades prximas da luz no vcuo (300 mil km/s); e a outra descreveu os fenmenos observados no microuniverso dos tomos e das molculas. Apesar da complexidade terica que envolve o spin, essa propriedade pode ser facilmente observada em nosso dia-dia: o magnetismo produzido pelo spin o responsvel pelas propriedades magnticas do ferro e de outros ms simples.
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Estruturas finas e hiperfinas
Outra conseqncia da existncia do spin foi descoberta na anlise da luz absorvida e emitida por tomos. Ao absorver energia, um tomo abandona seu estado natural (de mais baixa energia) e fica excitado. Em seguida, o excesso de energia devolvido ao meio na forma de luz (radiao eletromagntica). Porm, essa luz s emitida em certas freqncias ou seja, quantizada , o que d origem a um conjunto de linhas, o espectro. Esse espectro bem caracterstico para cada tomo, funcionando como um tipo de identidade atmica. Em 1913, o modelo de tomo apresentado pelo fsico dinamarqus Niels Bohr (1885-1962) levou a previses em bom acordo com resultados experimentais para as freqncias emitidas e absorvidas
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Rabi e Cohen usaram um feixe de molculas de hidrognio e deutrio com spin 1/2 podemos pensar em um feixe de hidrognio que atravessava os trs ms, passando pelo interior da bobina. Vale lembrar que um ncleo com spin 1/2 s pode assumir dois nveis de energia. No mais baixo deles, a direo do spin e a do campo magntico no caso gerado pelos ms esto paralelas (, por exemplo). Para o nvel de maior energia, essas duas grandezas esto antiparalelas ( ). Rabi e Cohen foram capazes de estimar a diferena de energia entre essas duas situaes. Se a bobina no estivesse emitindo radiofreqncia na freqncia de transio do 1H, seu spin e o campo permaneciam alinhados paralelamente e, portanto, as molculas do feixe sofriam desvios iguais tanto no m A quanto no B, atingindo em cheio o detector, posicionado em um local estratgico para receber esse feixe. Caso contrrio, o spin e o campo se tornaFigura 2. Esquema do experimento realizado por Rabi e Cohen em 1934
vam antiparalelos. E, nesse caso, o desvio sofrido pelas molculas no m A no era cancelado pelo desvio em B, e o feixe no atingia o detector, que captava um nmero menor de sinais de chegada. O grfico da figura 2 mostra que a freqncia correta chamada de transio para o ncleo de hidrognio de aproximadamente 4 MHz para um campo magntico no caso, gerado pelo m C de 0,094 tesla.
pelo tomo de hidrognio, que tem o ncleo formado por um prton orbitado por apenas um eltron. Porm, o aumento da resoluo dos instrumentos revelou que muitas das linhas espectrais para o tomo de hidrognio consistiam, na verdade, de subconjuntos de linhas separadas, chamados multipletos. Essa estrutura fina, como foi denominada, colocou em cheque as teorias da poca, incluindo o prprio modelo de Bohr. Posteriormente, os experimentos trouxeram outra surpresa: at as linhas individuais dos multipletos podem consistir de vrias sublinhas, dessa vez batizadas de estrutura hiperfina. Hoje, sabemos que a estrutura fina se deve ao fato de os eltrons orbitarem o ncleo com velocidades prximas da luz, sendo assim sujeitos a efeitos relativsticos. J a estrutura hiperfina explicada pela interao entre o momento magntico do eltron e o das partculas no ncleo. Temos, ento, duas possibilidades de sondar, experimentalmente, a estrutura do tomo e as pro-
priedades dos eltrons nele confinados: i) a espectroscopia, tcnica na qual os tomos, ao absorverem e emitirem luz, revelam seus espectros caractersticos; ii) experincias envolvendo campos magnticos, com a de Stern e Gerlach.
Desenvolvimento espantoso
Uma evoluo importante do experimento de Stern e Gerlach foi introduzida pelo fsico austraco Isidor Rabi (1898-1988) e o norte-americano Victor Cohen em 1934. Esses resultados foram fundamentais para o desenvolvimento das tcnicas modernas de RMN (ver Dois experimentos clssicos). Aps a Segunda Guerra Mundial, com o desennovembro de 2005 CINCIA HOJE 43
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volvimento das telecomunicaes, surgiram instrumentos mais adequados para a realizao de experimentos do tipo proposto por Rabi e Cohen. Por volta de 1945, o fsico suo Felix Bloch (19051983) e o norte-americano Edward Purcell (19121997) observaram como duas substncias (gua e parafina) absorviam ondas de rdio os fsicos preferem se referir a esse tipo de onda eletromagntica como radiofreqncia. De forma independente, eles acabaram propondo dois mtodos de RMN um baseado em radiofreqncia contnua e outro em radiofreqncia pulsada pelos quais receberam o prmio Nobel de Fsica de 1952. A grande inovao desses mtodos, quando comparados com o de Rabi e Cohen, que os experimentos podiam ser realizados com amostras lquidas ou slidas, em vez de feixes moleculares, fato que trouxe enorme praticidade. Esses mtodos so empregados at hoje, sendo o mtodo pulsado muito mais utilizado. Nestas seis dcadas desde a inovao proposta por Bloch e Purcell, a RMN desenvolveu-se de forma espantosa, sendo til no s na fsica e qumica, mas tambm na medicina, biologia, agricultura e, mais recentemente, na chamada computao quntica, tpico que discutiremos mais adiante. Devido a essas contribuies, vrios pesquisadores receberam outros prA mios Nobel: os suos Richard Ernst (qumica, 1991) e Kurt Wthrich (qumica, 2002), bem como o ingls Peter Mansfield e o norte-americano Paul Lauterbur (medicina, 2003).
B
Nveis de energia
O experimento de RMN tambm est baseado na existncia do spin nuclear dito de forma mais tcnica, o spin nuclear a soma vetorial dos momentos angulares associados aos movimentos orbitais e dos spins dos prtons e nutrons que formam o ncleo. Cada ncleo tem seu spin, que, por sua vez, leva ao surgimento de um momento magntico. Assim como o spin do eltron e de outras partculas, o spin nuclear quantizado: s pode assumir valores inteiros ou semi-inteiros (1/ 2, 1, 3/2, ....). Exemplos de ncleos atmicos que tm essas caractersticas: tomos de hidrognio e de carbono, ambos com spin 1/2, e o de sdio, com spin 3/2. Quando ncleos atmicos esto sujeitos a um campo magntico, eles ganham energia magntica cujo valor depende basicamente de seus spins e da intensidade do campo. Essa energia magntica tambm quantizada. No caso dos ncleos de spin 1/2, h apenas dois valores possveis de energia, ou seja, dois nveis de energia. Para ncleos de spin 3/2, h quatro nveis possveis e assim por diante (figura 3A e 3B). A diferena de energia entre nveis contguos define a chamada freqncia de transio, cujo valor importante ressaltar varia com a intensidade do campo magntico aplicado sobre o ncleo e com o tipo de ncleo. A freqncia de transio tambm denominada freqncia de Larmor, homenagem ao fsico irlands Joseph Larmor (1857-1942) pode variar basicamente de 10 megahertz (10 MHz) a 1.000 MHz, ou seja, est dentro da faixa de ondas de rdio (ou radiofreqncia) do espectro eletromagntico, que abrange as ondas de rdio, microondas, o infravermelho, a luz visvel, o ultravioleta, os raios X e raios gama).
Figura 3. Nveis de energia e suas populaes relativas em dois sistemas de spins nucleares (S), ambos submetidos a um campo magntico (B0). Em A, esto os dois valores de energia possveis para um ncleo com spin 1/2. A diferena de populao entre esses dois nveis d origem magnetizao macroscpica (M0). Em B, esto os quatro nveis de energia permitidos para um ncleo com spin 3/2. Os crculos representam esquematicamente o nmero de ncleos e, conseqentemente, o de spins em cada nvel de energia. Em C, a magnetizao aponta no mesmo sentido do campo
Populaes alteradas
Quando estamos lidando com uma amostra macroscpica, h nela cerca de 1023 ncleos. Nesse caso, o que determina a populao (quantidade) deles com cada um dos valores permitidos de energia a temperatura da amostra e o campo magntico aplicado. Na temperatura ambiente e na presena de campos magnticos da ordem de 10 teslas (10 T) para se ter uma idia, um m comum, desses de geladeira, gera um campo magntico cerca de cem vezes menos intenso , h uma diferena de populao muito pequena entre os nveis, com uma
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Figura 4. Efeito dos pulsos de radiofreqncia sobre as populaes de ncleos atmicos. Em A, o efeito de um pulso cuja freqncia a de transio sobre a populao dos nveis e o momento magntico nuclear (M0). Em B, movimento de precesso do momento magntico nuclear em torno do campo (B0)
leve probabilidade a favor de haver mais ncleos com momentos magnticos orientados paralelamente (campo , momento ) pois, nessa situao, os ncleos tm menor energia do que antiparalelamente ao campo aplicado (). Essa diferena resulta em um pequeno momento magntico denominado magnetizao nuclear apontando no mesmo sentido do campo magntico aplicado sobre os ncleos (figura 3C).
Girando como um pio
Se aplicarmos sobre uma populao de ncleos um pulso eletromagntico com a freqncia de transio, faremos com que haja transies entre os nveis permitidos, alterando, portanto, suas populaes (figura 4). Esse fenmeno chamado excitao em ressonncia. Assim, controlando a durao e a intensidade da radiao aplicada sobre uma populao de ncleos, podemos manipular a quantidade deles em cada nvel de energia e, em conseqncia, a magnetizao do conjunto de ncleos, que podemos pensar como sendo a amostra de um material que se quer estudar. Por exemplo, se aplicarmos sobre essa amostra um pulso eletromagntico com a freqncia de transio e tambm com a durao correta, podemos fazer com que as populaes de ncleos de dois nveis se igualem. Se desligarmos esse pulso exatamente quando as populaes forem iguais, teremos promovido a chamada equalizao das populaes desses nveis (figura 4A). Quando se igualam as populaes de dois nveis, ocorrem fenmenos essenciais para se entender como funciona a tcnica de RMN: i) a direo do campo magntico e da magnetizao nuclear antes alinhados paralelamente formam agora um ngulo de 90 graus entre si; se imaginarmos a direo do campo na vertical, teremos a magnetizao nuclear na horizontal (figura 4A) por isso, no jargo da RMN, diz-se que foi aplicado um pulso de 90 graus ou p/2; ii) aps o desligamento do pulso, essa magnetizao nuclear tende a girar em torno da direo do campo movimento de precesso com freqncia igual freqncia de transio. Uma boa
analogia seria a de um pio girando bem inclinado, quase resvalando o cho, em torno da direo do campo gravitacional terrestre (figura 4B). Colocando, ento, uma bobina em torno da amostra, surgir conforme prev uma lei da fsica uma corrente eltrica induzida na bobina com freqncia igual freqncia de transio. Detectando-se esse sinal eltrico, pode-se, ento, determinar essa freqncia e, portanto, a diferena de energia entre os nveis de energia dos spins nucleares (figura 5). Vale mais uma vez lembrar que esse valor da freqncia de transio depende da intensidade do campo aplicado sobre o ncleo, conforme discutiremos logo abaixo. Depois que cessa a ao do pulso, os momentos magnticos nucleares afetados nem todos o so, mas a explicao foge ao objetivo deste artigo voltam situao anterior ao pulso, ou seja, momento e campo alinhados. Esse retorno dos momentos magnticos e, conseqentemente, dos spins ao estado de equilbrio conhecido como relaxao magntica nuclear, e os tempos caractersticos so chamados tempos de relaxao.
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Figura 5. Esquema do equipamento empregado em experimentos de RMN. O conjunto sintetizador-transmissor produz um pulso de radiofreqncia (RF) que alimenta uma bobina, que est mergulhada em um campo magntico (B0). A bobina gera a RF necessria para excitar os ncleos atmicos da amostra, que se encontra no interior da bobina. O movimento de precesso da magnetizao nuclear induz na bobina uma corrente eltrica, ou seja, o sinal de RMN, que captado pela sonda (antena) e, depois, amplificado pelo receptor e processado por um computador
Espectroscopia e relaxao
As freqncias de transio e os tempos de relaxao dependem do ambiente em torno dos ncleos, ou seja, dependem de como os momentos magnticos nucleares interagem com outros campos eltricos e magnticos gerados por outras partculas presentes na amostra estudada por exemplo, eltrons e ncleos geram campos eltricos e magnticos. Essa interao do momento magntico nuclear com os campos gerados ao seu redor que permite tcnica de RMN desvendar caractersticas da vizinhana dos ncleos e, portanto, fazer uma anlise apurada da estrutura e da dinmica molecular da amostra estudada. Por exemplo: i) as freqncias de transio de um ncleo de carbono (13C) de um grupo qumico CH3 so ligeiramente diferentes daquelas de um pertencente ao grupo CH2; ii) o tempo de relaxao dos ncleos de hidrognio na parafina diferente daqueles na gua, mesmo que o campo magntico aplicado sobre as amostras
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dessas duas substncias seja igual. Essas caractersticas fazem da RMN uma das ferramentas mais poderosas para a caracterizao de materiais, tendo aplicao em vrios sistemas lquidos ou slidos, incluindo plsticos (polmeros), vidros, protenas, supercondutores (materiais que conduzem eletricidade praticamente sem resistncia), produtos naturais, ligas magnticas, cristais lquidos (usados em telas de relgios, computadores, TV etc.), matria orgnica dos solos. Porm, para recuperar as informaes sobre os campos internos e relacion-las com a estrutura, composio qumica e dinmica das molculas seja em slidos, seja em lquidos , necessrio realizar experimentos complexos, geralmente envolvendo vrios pulsos de radiofreqncia aplicados simultaneamente em diferentes ncleos atmicos. O desenvolvimento e a utilizao desses experimentos uma das linhas de pesquisa de nosso grupo, no Instituto de Fsica de So Carlos, da Universidade de So Paulo (ver O LEAR). H hoje mtodos de anlise da matria (espectroscopia) por RMN envolvendo uma, duas, trs ou mais dimenses de freqncia, mas o objetivo praticamente o mesmo: obter informaes cada vez mais especficas sobre a dinmica e a estrutura de tomos e molculas da amostra em estudo a partir da interao dos momentos magnticos (ou spins) nucleares com a sua vizinhana. Um exemplo de aplicao est na determinao de estrutura de protenas em soluo, linha de pesquisa que deu ao tambm suo Kurt Wthrich o Nobel de Qumica de 2002.
Janela para o interior do corpo
A RMN permite a obteno de imagens do corpo humano com grande resoluo, at escalas menores que o milmetro (figura 6). A imagem por RMN basicamente um mapa da concentrao de ncleos de hidrognio nos tecidos. uma tcnica intrinsecamente no invasiva. Tipicamente, o contraste nessa tcnica obtido por tempos de relaxao, uma propriedade que depende das caractersticas bioqumicas do tecido. Esses tempos so diferentes entre tecidos normais e patolgicos em um mesmo rgo. Essa caracterstica, em geral, garante um diagnstico preciso, sem a necessidade do uso de meios de contraste adicionais, comuns nas demais tcnicas de imagens no invasivas raios X e tomografia computadorizada, por exemplo.
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O LEAR
O Laboratrio de Espectroscopia de Alta Resoluo por RMN (LEAR), do Instituto de Fsica de So Carlos, da Universidade de So Paulo (USP), j desenvolve pesquisa na rea de RMN h vrios anos. Na primeira etapa de sua existncia, na segunda metade da dcada de 1980, foi desenvolvido um espectrmetro com a finalidade de estudar materiais no estado slido. Aps essa etapa, j na dcada seguinte, o grupo dedicou-se ao estudo de diversos materiais. Em 1998, a equipe do LEAR decidiu iniciar a utilizao de mtodos avanados que permitem a manipulao simultnea de dois ou mais spins
nucleares por exemplo, 1H, 13C e 15N , estabelecendo um dilogo entre eles e permitindo a obteno de informaes mais completas sobre a natureza molecular de materiais modernos. Assim, o grupo se fortaleceu na rea de desenvolvimento de mtodos de manipulao dos spins, para poder estabelecer uma conversa inteligente com os mesmos atravs de pulsos de radiofreqncia e obter respostas simples s perguntas formuladas atravs dos sinais emitidos pelos spins, como um cdigo Morse enviado e detectado pela bobina de radiofreqncia. Desse modo, o LEAR pode realizar os mais variados tipos de experimentos, entre eles o estudo de novos materiais atravs de mtodos espectroscpicos e de microimagem e computao quntica.
H cerca de 10 anos, comeou-se a empregar a RMN para detectar pequenas alteraes do fluxo sangneo no crebro, mapeando as regies envolvidas com certas funes cerebrais, produzindo, assim, imagens que revelam o funcionamento desse rgo. Essa tcnica conhecida na literatura especializada como ressonncia magntica funcional.
tomos para fazer clculos
A teoria da informao e computao quntica uma das mais recentes reas de pesquisa da fsica. Sua vertente mais aplicada j apresentou ao mundo pelo menos, teoricamente seu desdobramento mais popular: o chamado computador quntico, que promete ser, de maneira inimaginvel, mais veloz que os computadores atuais (clssicos) para certas tarefas. Em um computador clssico, toda a informao inserida, processada e lida sob a forma de seqncias de bits, que podem assumir os valores lgicos 0 e 1. Recentemente, no entanto, surgiram novas idias que propem o uso de sistemas fsicos que obedecem s leis da fsica quntica da o nome computador quntico para processar e manipular a informao. Enquanto um bit clssico s pode assumir dois valores distintos ou seja, 0 ou 1 , um q-bit (do ingls, quantum bit) poderia existir em forma de superposio, ou seja, possvel criar situaes em que tanto o estado 0 como o estado 1 da computa-
GRUPO DE IMAGENS POR RMN / INSTITUTO DE FSICA DE SO CARLOS (SP).
Figura 6. Exemplos de imagens obtidas por RMN
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SUGESTES PARA LEITURA
PANEPUCCI, H., DONOSO, J. P., TANNS, A., BECKMANN, N., BONAGAMBA, T. J. Tomografia por ressonncia magntica nuclear: novas imagens do corpo in Cincia Hoje (vol. 4, n. 20, setembro/ outubro de 1985, pp. 46-56). COVOLAN, R., ARAJO, D. B., SANTOS, A. C., CENDES, F. Ressonncia magntica funcional: as funes do crebro reveladas por spins nucleares in Cincia e Cultura (vol. 56, n. 1, janeiro de 2004, pp. 40-42). OLIVEIRA, I. S., SARTHOUR, R. S., BULNES, J. D., BELMONTE, S. B., GUIMARES, A. P., DE AZEVEDO, E. R., VIDOTO, E. L. G., BONAGAMBA, T. J., FREITAS, J. C. C. Computao Quntica: manipulando a informao oculta do mundo quntico in Cincia Hoje (vol, 33, n. 193, maio de 2003, pp. 22-29). ZORZETTO, R. tomos para fazer clculos fsicos brasileiros entram na corrida mundial em busca do computador quntico in Pesquisa Fapesp (edio 86, abril de 2003, pp. 55-59). OLIVEIRA, I. S. Teletransporte com tomos comprovado o fenmeno que pode viabilizar computao quntica in Cincia Hoje (vol. 35, n. 207, agosto de 2004, pp. 9-10).
Q-BITS EM AO
Em 1994, o matemtico norte-americano Peter Shor, ento pesquisador dos Laboratrios Bell (Estados Unidos), apresentou um algoritmo (conjunto de etapas para resolver um problema) que permite decompor um nmero em seus fatores primos muito mais rapidamente que os algoritmos clssicos. Um algoritmo clssico levaria 100 mil anos para fatorar um nmero com 1.024 algarismos (ou bits). nesse pressuposto que est calcada toda a criptografia atual utilizada em bancos, sistemas militares e governamentais etc. , que emprega nmeros com muitos algarismos, que, em tese, demorariam muito tempo para serem fatorados, mesmo pelo mais veloz dos computadores atuais. No entanto, com o algoritmo de
Shor, um nmero com 1.024 algarismos seria fatorado em meros 4,5 minutos. O algoritmo de Shor foi demonstrado usandose um computador quntico na verdade, uma molcula com 7 q-bits (figura 7). Cada spin nuclear mostrado na molcula corresponde a 1 qbit, sendo possvel com esse sistema decompor o nmero 15 em seus fatores primos (15 = 3 x 5). A tcnica de RMN uma forte candidata implementao da computao quntica. Com ela, possvel executar operaes lgicas sobre q-bits no caso, representados por spins em uma molcula com a aplicao sobre eles de pulsos de radiofreqncia (RF) com freqncia e durao bem determinadas. A figura 7B mostra a entrada de dados com os dois spins preparados com uma certa configurao , a operao lgica sobre eles (pulsos de radiofreqncia) e a sada de dados, com a nova configurao dos dados (spins).
B
A Figura 7. Em A, molcula utilizada para demonstrar o algoritmo de fatorao de Shor utilizando RMN. Em B, esquema mostrando uma operao lgica em RMN de dois q-bits
o clssica estejam representados simultaneamente. Por mais estranha que parea essa propriedade, ela que torna a capacidade de processamento da informao imensamente maior, pois vrias operaes podem ser executadas simultaneamente, o que conhecido como paralelismo quntico. J h vrios mtodos e sistemas candidatos a implementar experimentalmente os q-bits. Por exemplo, sistemas semicondutores (os denominados pontos qunticos), junes supercondutoras, armadilhas de ons, tomos aprisionados, mtodos pticos utilizando ftons, condensados de Bose-Einstein (estado da matria, a baixssimas temperaturas, em que um conjunto de tomos se comporta coletivamente, formando uma espcie de tomo gigante). Entre eles, a ressonncia magntica nuclear um dos mais promissores.
A possibilidade da utilizao da RMN para manipular a informao quntica baseia-se no fato de os spins nucleares serem entidades que obedecem s leis da fsica quntica. Nesse caso, cada orientao do spin nuclear com relao ao campo magntico aplicado associada a um estado lgico, e as operaes que levam de um estado a outro (operaes lgicas) so realizadas por pulsos de radiofreqncia. Utilizando conjuntos de operaes lgicas bsicas, vrios algoritmos qunticos foram demonstrados utilizando RMN (ver Q-bits em ao). Para finalizar, vale mencionar que, no Brasil, h vrios grupos de pesquisa que trabalham tanto no desenvolvimento quanto na aplicao da RMN em fsica, qumica, biologia e agricultura, estando eles reunidos na Associao de Usurios de RMN (Auremn).
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