Teorias sobre a Arte
Introdução
A filosofia da arte é formada por um conjunto de problemas para a resolução
dos quais concorrem diferentes teorias. O primeiro problema que
qualquer teoria da arte tem de enfrentar é o problema da própria
definição de “arte” ou de “obra de arte”, nem que seja para depois o
abandonar. São as teorias mais antigas que, embora com um menor poder
explicativo, gozam de uma popularidade assinalável. Essas teorias são
conhecidas como “teoria da imitação/representação”, “teoria da expressão” e
“teoria formalista” e podem ser agrupadas numa mesma categoria, a das teorias
essencialistas.
As teorias essencialistas defendem que existem propriedades essenciais
comuns a todas as obras de arte e que só nas obras de arte se
encontram. Daí que se procurem identificar as propriedades que, sendo
essenciais, são também individuadoras da arte. Ora, se há propriedades comuns
a todas as obras de arte e individuadoras das obras de arte, é então possível
dizer quais são as condições necessárias e suficientes da arte; quer dizer,
é possível fornecer uma definição explícita de arte.
As teorias procuram apresentar definições explícitas de arte. Contudo, é preciso
reconhecer que nem todas as definições explícitas são essencialistas. Assim
sendo, são de considerar dois tipos de teoria da arte, essencialistas e não-
essencialistas, se bem que esta divisão não seja absolutamente consensual.
Assim sendo, para alguns teóricos da arte, dada a natureza dinâmica, criativa e
inovadora do fenómeno artístico, nunca conseguiremos estabelecer de
forma segura um conjunto de propriedades intrínsecas que todas as
obras de arte possuem, devendo nós centrar-nos preferencialmente
nos seus aspetos relacionais, processuais e contextuais, é dizer, nas
relações que estes estabelecem, nos processos por que passam e no contexto
histórico e social que os envolve.
Teorias Essencialistas da Arte
1. TEORIA DA ARTE COMO IMITAÇÃO (Teoria Mimética) – Arte
como Representação
Uma obra é arte só se imita algo.
Tese: as obras de arte são produções humanas que imitam ou
representam a natureza ou a ação do homem.
Argumentos: uma obra de arte tem de reproduzir algo. Uma obra de
arte é tanto melhor quanto mais fielmente reproduzir aquilo que imita.
Objeções: há obras de arte que nada imitam. Há obras de arte que a
teoria não reconhece. Há dificuldade de saber se a imitação é real. É
excessivamente restritiva, pois há obras de arte sem qualquer intuito
representativo.
É uma teoria centrada nos objetos imitados.
N. B. Para dar resposta a algumas objeções, alguns autores propuseram,
Platão e Aristóteles inclusive, que se utilizasse a designação arte
como representação, contendo em si mesmo o conceito de imitação,
querendo com isso dizer que se deve classificar como arte não penas o
que imita (embora não baste imitar para ser arte), mas também o que
representa, ou simboliza, alguma coisa e que, por isso mesmo, requer
uma interpretação.
2. TEORIA DA ARTE COMO EXPRESSÃO (Expressivista)
Uma obra é arte se, e só se, exprime sentimentos e emoções do
artista
Tese: as obras de arte são expressão de emoções e sentimentos dos artistas e
permitem ao espectador sentir emoção idêntica.
Argumentos: o objeto expressa uma emoção sentida pelo artista. O artista cria
intencionalmente a obra com o objetivo de provocar uma emoção específica no
seu recetor. A emoção estética sentida pelo espetador é idêntica à emoção
expressa pelo criador.
Objeções: há obras de arte que não expressam qualquer sentimento. Não há
garantia de que aquilo que o espetador sente foi o que o artista sentiu. A
existência de mediadores dificulta a partilha de sentimentos entre criador e
recetor. Não podemos, muitas vezes, saber o que o artista quis transmitir. A
intenção original do artista é irrelevante para se apreciar genuinamente uma
obra (“falácia intencional”).
É uma teoria centrada no artista e na expressão dos seus
sentimentos e emoções.
N.B. Lev Tolstói e Robin George Collingwwod são dois representantes da
teoria expressivista, mas com matizes. Para Tolstói, no momento em que cria,
o artista tem o propósito claro de transmitir às pessoas um sentimento
que ele experimentou certa vez, pelo que deve ser capaz de,
intencionalmente, por intermédio da obra, fazer o espectador reviver os
mesmos sentimentos que experimentou e de o contagiar com as mesmas
emoções. Assim sendo, a obra de arte é um veículo de transmissão de emoções.
Já para Collingwood, antes de produzir a obra o artista desconhece a
natureza das suas emoções, pois possui apenas um conjunto difuso e
indefinido de sentimentos. É somente ao usar a imaginação e o pensamento
para preparar a sua obra que essa excitação emocional vai sendo clarificada
para depois ser articulada com os objetos que produz. O processo de criação da
arte implica por parte do artista, durante o processo criativo, uma tomada de
consciência dos sentimentos que ou ficarão na mente do artista, ou serão
expressos numa obra.
3. TEORIA DA ARTE COMO FORMA (Formalista, de Clive Bell)
Uma obra é arte se, e só se, provoca nas pessoas emoções estéticas.
Algo é uma obra de arte se, e só se, algo tem forma significante,
Tese: as obras de arte são objetos produzidos por mão humana, com forma
significante, a qual provoca ideias e emoções estéticas.
Argumentos: a arte é vista como um vasto conjunto de técnicas de expressão
de que cada artista faz uso consoante o meio específico em que trabalha. O
pintor combina cores e figuras, o compositor sons e silêncios, o coreógrafo
movimentos e figuras, o arquiteto espaços e volumes, etc. As emoções estéticas
resultam da existência de harmonia entre linhas, formas e cores, isto é, da
presença de forma significante. A emoção estética é provocada pelas
obras de arte, mas não expressa por elas, é o resultado da relação
que o observador estabelece com a obra de arte. Deste modo, é o sujeito
que tem a capacidade de descobrir a obra de arte, a partir da emoção estética
que ela lhe desperta.
Objeções: há quem não sinta nada perante obras de arte. Falta clareza ao
critério de forma significante. É uma teoria circular (forma significante/emoção
estética) e elitista. Existem muitas obras de arte que têm exatamente as mesmas
propriedades formais de certos objetos aos quais não é reconhecido esse
estatuto (ready-made e found art). O conteúdo pode ser relevante para o
estatuto de uma obra enquanto obra de arte
É uma teoria “centrada” no espectador e nas ideias e emoções
estéticas sentidas por este.
N.B. Note-se que não se diz que as obras de arte exprimem emoções, senão
estar-se-ia a defender o mesmo que a teoria da expressão, mas que provocam
emoções nas pessoas, o que é bem diferente. Se a teoria da imitação está
centrada nos objetos representados e a teoria da expressão no artista criador, a
teoria formalista parte do sujeito sensível que aprecia obras de arte. Diz-
se que parte do sujeito e não que está centrada nele, caso contrário não
seria coerente considerar esta teoria como teoria formalista. O espetador deve
ser dotado de uma certa sensibilidade, abstrair-se do conteúdo da obra e
dar atenção aos seus elementos estruturantes. O conteúdo nunca é
condição nem critério de avaliação da arte. Se olharmos para a obra a partir do
seu conteúdo, ela despertará apenas um interesse ou gosto pessoal e não uma
emoção estética. Para Bell, para que uma obra seja reconhecida como
arte, não basta ser classificada como tal, é necessário alguém que lhe
atribua valor e lhe reconheça um estatuto, os críticos e outros
observadores capazes de apreciar a forma significante.
Pelo que se viu, nenhuma das teorias aqui discutidas parece satisfatória. As
teorias essencialistas não são sequer capazes de proporcionar uma boa definição
explícita de arte. Tendo reparado nas insuficiências das teorias essencialistas,
alguns filósofos da arte, como Morris Weitz, simplesmente abandonaram a ideia
de que a arte pode ser definida; outros, como George Dickie e Jerrold Levinson ,
apresentaram definições não-essencialistas da arte, apelando, nesse sentido,
para aspetos extrínsecos à própria obra de arte; outros ainda, como Nelson
Goodman, concluíram que a pergunta “o que é arte?” deveria ser substituída
pela pergunta mais adequada “quando há arte?”.
Teorias Não-Essencialistas da Arte
1. TEORIA INSTITUCIONAL DA ARTE (George Dickie)
Uma obra é arte se, e só se, for declarada como tal pelo mundo da
arte.
Algo é uma obra de arte, no sentido classificativo, se, e só se, algo é um
artefacto que possui um conjunto de caraterísticas ao qual foi atribuído o
estatuto de candidato a apreciação por uma ou várias pessoas que atuam em
nome de uma determinada instituição social: o mundo da arte.
Tese: O estatuto das obras de arte depende de fatores extrínsecos, e relacionais,
à própria obra.
Argumentos: aquilo que pode ser abrangido pelo conceito de arte é
determinado em última instância por uma comunidade de pessoas ligada à sua
produção, venda e difusão, e de entre os quais podemos apontar os críticos,
historiadores, galeristas, etc. Os critérios seguidos por esta comunidade são em
geral muito distintos dos usados pelo público não especializado.
Objeções: é por vezes considerada elitista. Faz da arte algo de arbitrário e
infundado, dada a sua incapacidade para distinguir a boa da má arte (apenas
classifica, não avalia). É viciosamente circular (obra de arte/mundo da arte) e
vazia (pouco informativa). Impossibilita a existência da arte primitiva e da arte
solitária.
É uma teoria centrada no chamado “mundo da arte” que estabelece o que é a
arte em si mesma.
N.B. Ao contrário das teorias anteriores, a teoria institucional oferece uma
definição processual e não uma definição funcional da arte,
defendendo que aquilo que faz uma obra de arte não são as suas propriedades
manifestas, os seus efeitos e funções, mas sim o modo como é tratada por quem
a criou, por quem a expõe e por quem a aprecia. Dickie distingue o que é
estético do que é artístico, remetendo o primeiro para o para o plano de
uma experiência individual e o segundo para uma prática social coletiva. É
nesta segunda vertente que compreende a arte: como uma prática
institucionalizada e sistémica que pressupõe uma relação entre público e
artistas. Assim sendo, é o contexto cultural em que uma obra se desenvolve e
apresenta que faz com que uma obra seja reconhecida como arte. Não é pelas
propriedades específicas que apresenta, mas pelo modo como é produzida. Mais
explicitamente, é necessário que o artefacto seja tratado como tal, isto é,
colocado numa galeria, publicado, representado ou produzido, de modo a que
possa ser apreciado.
2. Teoria Histórica da Arte (Jerrold Levinson)
Uma obra é arte se, e apenas se, é um objeto acerca do qual uma pessoa,
possuindo o direito de propriedade sobre o mesmo, tem uma intenção não
passageira de que este seja visto como uma obra de arte, tal como foram
corretamente encaradas as obras de arte anteriores.
Tese: A essência da arte não está em caraterísticas visíveis das obras, mas
reside no seu caráter histórico ou retrospetivo.
Argumentos: São três as condições necessárias e suficientes para que um
objeto seja considerado uma obra de arte. A primeira condição é a do direito de
propriedade; a segunda é a existência de um certo tipo de intenção duradoura
que relaciona a arte do presente com a arte do passado; a terceira é a da
historicidade: o artista pretende criar obras que sejam vistas como o foram as
obras do passado (a arte é necessariamente retrospetiva).
Se o artista criar um objeto com a intenção de que este seja visto de alguma
destas formas, então terá criado uma obra de arte: proporcionar prazer,
manifestar beleza, retratar a realidade, relacionar-se com o divino, desafiar
convenções, expressar emoções e criatividade, servir de luta ideológica, etc.
Objeções: É discutível que o direito de propriedade possa ser apontado como
uma condição necessária para haver arte (há contraexemplos, como o graffiti).
O mesmo se pode dizer relativamente à intencionalidade (há artistas que
expressaram o desejo de não exibição ou destruição das obras após a sua morte,
(como por exemplo Kafka, com os seus livros “O Processo” e “O Castelo”). Se só
é arte o que se relaciona com a história, não se entende como podem ser
consideradas como tal as obras primordiais. Algumas formas de encarar a arte
no passado já não são tão válidas atualmente (como é o caso dos retratos fieis de
uma pessoa, ou, atualmente, os retratos-robô da polícia ou as fotografias tipo
passe).
É uma teoria centrada na intencionalidade do artista e no caráter histórico da
obra.
N.B. Segundo Levinson, para que um objeto seja uma obra de arte, não se
exige que o artista tenha consciência de que a sua intenção tem bons
precedentes na história da arte, basta que esses precedentes, de facto,
existam. O que quer dizer que o criador pode nem ter consciência de que aquilo
que produziu é uma obra de arte. Para além disso, a teoria histórica não só
possibilita a existência de arte solitária, como mostra por que razão na arte
vale tudo, embora nem tudo resulte, isto é, por um lado não existem
limites definidos, por outro não há garantias de que um determinado uso
presente da palavra “arte” seja legitimado pela história da arte.
Fontes
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[Link] em 28.08.2012.
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[Link] em 22 de
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Costa, C. F. (2005). Estética. Obtido em
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Faria, Domingos e Veríssimo, Luís (2020). Filosofia, Exame 11, Leya Editora
Lopes, António Correia, Galvão, Pedro e Mateus, Paula (2013). Razões de Ser
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Moreira, Lina e Dias, Idalina (2020). Preparar o Exame Nacional, Filosofia 11.
Areal Editores
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