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Politico Eu - F1

1. O documento apresenta um fascículo sobre política, democracia e cidadania que visa esclarecer os significados destes termos, identificando como eles se relacionam e moldam a vida em sociedade. 2. Muitas expressões relacionadas a política são usadas no dia a dia com significados diversos e contraditórios, esvaziando seu sentido original. 3. O fascículo pretende refletir sobre os sentidos precisos de política, democracia e cidadania para compreender como eles formam o cotidiano.
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Politico Eu - F1

1. O documento apresenta um fascículo sobre política, democracia e cidadania que visa esclarecer os significados destes termos, identificando como eles se relacionam e moldam a vida em sociedade. 2. Muitas expressões relacionadas a política são usadas no dia a dia com significados diversos e contraditórios, esvaziando seu sentido original. 3. O fascículo pretende refletir sobre os sentidos precisos de política, democracia e cidadania para compreender como eles formam o cotidiano.
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1

EDUCAÇÃO MÓDULO
POLÍTICA PARA
CIDADANIA

Política, uma questão


nossa de todo dia
EMANUEL FREITAS SILVA
CLÊNIA TRINDADE LUCENA CAVALCANTE
Copyright @ 2023 by Fundação Demócrito Rocha

FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA (FDR) UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE (UANE) POLÍTICO, EU!?! – PROGRAMA DE
EDUCAÇÃO POLÍTICO-CIDADÃ
Presidente Gerente Educacional
Luciana Dummar Prof. Dr. Deglaucy Jorge Teixeira Concepção e Coordenadora Geral
Diretor Administrativo-Financeiro Coordenadora Pedagógica Valéria Xavier
André Avelino de Azevedo Profa. Ms. Jôsy Braga Cavalcante Coordenadora de Conteúdo
Gerente-Geral Coordenadora de Cursos e Secretária Escolar Monalisa Soares
Marcos Tardin Esp. Marisa Ferreira Coordenadora Editorial
Gerente Editorial Desenvolvedora Front-End Lia Leite
Lia Leite Isabela Marques Revisor
Gerente de Marketing e Design Estagiárias em Mídias e Tecnologias para Educação Daniel Oiticica
Andréa Araújo Stefany Ribeiro e Rebeca Azevedo Projeto Gráfico e Editora de Design
Gerente de Audiovisual Estagiária em Pedagogia Andrea Araujo
Chico Marinho Arielly Ribeiro Designer Gráfico
Gerente de Projetos Welton Travassos
Raymundo Netto Ilustrador
Analistas de Projetos Carlus Campos
Aurelino Freitas e Fabrícia Góis Analista de Marketing
Analista de Contas Henri Dias
Narcez Bessa Analista de Projetos
Daniele de Andrade
Social Media
Este fascículo digital é parte integrante do projeto Político Eu?!: Programa de Educação Cidadã, em atendimento ao Letícia Frota
Termo de Fomento Nº 01/2023, celebrado entre a Câmara Municipal de Fortaleza e a Fundação Demócrito Rocha.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

Todos os direitos desta edição reservados à:

Fundação Demócrito Rocha


Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora
Cep 60.055-402 - Fortaleza-Ceará
Tel.: (85) 3255.6006 - 3255.6276
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2 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


SUMÁRIO
1. Apresentação....................................................................... 4

2. A vida cotidiana e a política do dia a dia.................................. 6

3. Em busca de uma definição de política.................................... 9

Referências........................................................................ 14

EDUCAÇÃO POLÍTICA PARA CIDADANIA 3


1
APRESENTAÇÃO

V
ocê já deve ter feito a si mesmo(a) EXERCÍCIO DE REFLEXÃO
a pergunta que nomeia este Pro-
jeto: “Político, eu?”, “Política,
EM QUE EXPRESSÃO
eu?”; provavelmente, ela se se- O QUE
EXPRESSÃO SITUAÇÕES PODE QUE PODE
guiu às respostas do tipo “deus me livre!”, SIGNIFICA
SER UTILIZADA SUBSTITUÍ - LA
“sai dessa!”, “tô fora!”, “jamais”. Ou, quem
sabe, embora não tenha feito a si tal ques- “isso é uma
tão, já deve ter escutado tais respostas de indicação política”
outras pessoas.
Esses tipos de resposta, muitas vezes, “não é uma
evocam um sentido pejorativo do termo indicação técnica,
“política” que se constrói à medida em que mas política”
a Política, com P maiúsculo, tem sua ima-
gem corroída por práticas que a mobilizam “politicamente
para justificar os mais diversos interesses e correto”
finalidades. Cotidianamente, ouvimos di-
versas expressões que são utilizadas para, “politização do
de um modo ou outro, definir ou dar senti- Judiciário”
do ao termo “política”, como as seguintes:

“isso é uma decisão política” Nossa comunicação, na vida cotidiana, àqueles(as) que exercem mandatos eletivos
por vezes se vale do uso de palavras que, no Estado; para outros, política também
“não é indicação técnica, mas política” fugindo de uma definição ideal, tornam poderia ser um qualificativo usado para en-
“politicamente incorreto” incompreensíveis seus sentidos mais au- tender uma nomeação para um cargo em
tênticos. Com isso, as palavras passam a que não tivesse sido observado o critério
“politização do Judiciário”
significar diversas coisas ao mesmo tem- da competência. Se falarmos de Democra-
po, muitas delas, inclusive, contraditórias. cia, ela seria, talvez, definida como a mera
Antes de prosseguirmos, gostaria de Se fizéssemos uma rápida enquete para escolha de uma maioria ou uma escolha
convidar você a relembrar situações em saber o que aqueles(as) que estão perto produzida após escutar várias pessoas; Ci-
que tais expressões são utilizadas. Você de nós entendem por política que respos- dadania, por sua vez, constaria como algu-
verá que elas estão mais presentes em tas obteríamos? Com toda certeza, muitas! ma coisa que diz respeito aos cidadãos, ter-
nosso dia a dia do que poderíamos imagi- Diversas e, possivelmente, contraditórias! mo também confuso e impreciso nos usos
nar. Agora, com isso em mente, complete o Política, para alguns, poderia apare- cotidianos que dele se fazem. Os diferentes
exercício a seguir: cer com o sentido de “aquilo que um(a) termos relacionados à política são, muitas
político(a) faz”, restringindo a Política vezes, usados com significados diversos.

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Um exemplo para refletir
Vamos pensar, por exemplo, sobre o significado do termo “populismo”.
Sempre que um governante adota medidas populares, como a redução de im-
postos com o intuito de baixar preços de mercadorias, ou sempre que se anun-
ciam políticas públicas de auxílio aos que mais necessitam, os(as) políticos(as) são
taxados(as), sobretudo pela imprensa especializada (mas também, por intelectu-
ais, economistas e adversários políticos), de “populistas”.
Ou seja, não se consideram os conteúdos das decisões, suas motivações, ou
mesmo suas repercussões. E, assim, a expressão vai sendo mobilizada para nome-
ar práticas e decisões diversas, abarcando uma vastidão que, consequentemente,
esvazia seu significado.

Partindo desses exemplos, nós, os auto- Neste fascículo, refletiremos sobre os


res deste fascículo, e você temos a seguin- sentidos do termo política, seus usos coti-
te tarefa: compreender o que significam os dianos e o significado mais preciso possível
termos “política, democracia e cidadania”, em que podemos empregá-lo; por associa-
identificando os modos como eles se re- ção, compreenderemos também sobre
lacionam entre si e como moldam a vida democracia e cidadania. Esperamos, ao
em sociedade, dando forma ao nosso coti- final dessa jornada compreensiva da polí-
diano. Um desafio que enfrentamos nessa tica, levar você à resposta que se espera à
jornada é o fato de a política ser apresenta- pergunta que nomeia o Projeto. Que você
da e identificada com ações e práticas que possa dizer “sim, sou político!”, “sim, sou
despertam sentimentos de desconfiança, política!”, e possa compartilhar esta res-
desinteresse, descrença. Assim, para al- posta em tom propositivo e compreensivo
cançarmos sucesso em nosso percurso de a outros(as), sobretudo aos jovens, com o
aprendizagem, precisamos conhecer me- intuito de que também possam responder
lhor esse tema, tanto em suas definições positivamente à questão. Por isso, convida-
teóricas quanto em suas práticas, de modo mos você a participar ativamente do curso,
que possamos assumir nossa condição de convidar outras pessoas e compartilhar a
sujeitos políticos (no sentido pleno da pa- iniciativa. Vamos juntos(as)?
lavra), cidadãos e democratas.

EDUCAÇÃO POLÍTICA PARA CIDADANIA 5


2
A VIDA COTIDIANA E A
POLÍTICA NO DIA - A - DIA

T
odos os dias, ao levantarmos, balho sem chegar atrasado e lá realizar
encontramos uma rotina a ser as tarefas que nos cabem; comparecer
cumprida, dentro ou fora de a uma entrevista de emprego; ir ao mé-
casa. Ir à escola num horário dico para uma consulta agendada, den-
predeterminado, realizar atividades tre outras coisas que podemos fazer em
próprias a este espaço social; ir ao tra- nossa vida cotidiana.

VIDA COTIDIANA

Vamos de dica de leitura?


A vida cotidiana pode ser compreendida como o espaço temporal em que se
desenrola a vida de todos nós, homens e mulheres. É nela, na vida cotidiana, que
existimos, que nossa biografia e nossas possibilidades se constroem. Não é pos-
sível existir sem experienciar a vida cotidiana. Uma boa reflexão sobre a ideia de
cotidiano e como ele se estrutura pode ser encontrada na obra da socióloga hún-
gara Agnes Heller (1929-1919). A autora possui dois livros sobre o tema: “Sociologia
da Vida Cotidiana” e “O Cotidiano e a História”. No primeiro livro, de caráter mais
teórico, ela nos apresenta uma caracterização dos elementos que organizam nossa
existência enquanto um “cotidiano”. Já no segundo livro, encontramos as discus-
sões delineadas na primeira obra, apresentadas numa forma mais didática, esmiu-
çando e tornando menos complexo para nosso entendimento. Te convidamos a
conhecer as ideias de Heller, iniciando por este último livro, para que, articulando
a leitura com suas vivências, você possa exercitar a empreitada de analisar a vida
cotidiana. Que tal?

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Consideremos os três exemplos dados Mas, se pararmos para pensar detalha-
acima: ir à escola, ir ao trabalho e ir a uma damente o que significa cada uma delas,
consulta médica. Fatos do cotidiano de quais são seus elementos constituintes,
muitos(as) brasileiros(as). Exatamente por será que encontraremos algum elemento
isso, tidos como “banais”, no sentido de “cor- da política nelas? Antes de prosseguirmos
riqueiros”. Nada excepcional, ou seja, nada com essa reflexão, que tal você mesmo
fora do cotidiano. Elas revelam ações que re- preencher o quadro abaixo? Vamos lá?
alizamos além de nossas casas, correto?

Análise de Situações
Complete a tabela escrevendo na coluna 2, os elementos políticos presentes na situ-
ação da coluna 1:

ESCREVA OS ELEMENTOS POLÍTICOS


ANALISE A SITUAÇÃO
PRESENTES NA SITUAÇÃO

1. Ir à escola

2. Ir ao Trabalho

3. Ir a uma entrevista de emprego

Agora que você já completou o qua- necessários para a vida em sociedade? A


dro com suas respostas, vamos pensar resposta é: essa mesma sociedade, através
juntos(as) acerca de cada uma das situa- de diversos mecanismos.
ções. A começar, o que significa ir à escola? Pensemos, de maneira geral não fomos
Ora, todos(as) nós passamos, um dia, por consultados(as) sobre o que queríamos
essa atividade cotidiana, enquanto éramos aprender na escola, nem mesmo se quería-
estudantes. Você que nos lê, inclusive, pode mos ir a uma escola A definição do conjunto
ainda o ser, ou pode trabalhar em uma es- de saberes a serem apreendidos nas esco-
cola, sendo esse o seu cotidiano atual. Es- las é realizada por meio de representantes
tamos tratando, contudo, da ação realizada do povo que votam projetos de lei como a
por crianças, adolescentes e jovens de irem chamada Lei de Diretrizes e Bases da Edu-
cotidianamente a um estabelecimento de cação (LDB) e seus ajustes, tornando disci-
ensino apreender conhecimentos tidos plinas obrigatórias aquelas que foram apro-
como necessários para sua vida em socie- vadas como tais. Uma definição política,
dade. Sendo a escola uma instituição so- portanto. E quanto aos anos que devemos
cial, que reúne duas gerações distintas com passar na chamada escola básica, é decisão
o intuito de socializar conhecimentos, cabe diretamente feita por cada um(a) de nós?
uma pergunta: quem define esse conjunto Também não! Tudo é matéria de “projeto
de saberes e conhecimentos tidos como de lei”, que envolve um amplo processo que

EDUCAÇÃO POLÍTICA PARA CIDADANIA 7


se inicia com uma proposição e passa por série de decisões políticas que, tomadas
diversos debates, seja em espaços políticos por outras pessoas, permitiram que eu
propriamente ditos (como os Parlamentos encontrasse um Sistema Escolar e uma
– Câmaras Municipais, no caso das cida- Justiça do Trabalho aptas a conduzirem
des, Assembleias Legislativas, no caso dos relações escolares e de trabalho. Ok! Mas,
estados ou Congresso Nacional), seja em o que ir ao médico tem a ver com política?
espaço técnicos, como grupos criados por Aí já é demais, não é?”
secretarias de educação. Logo, educação é Não, não é! Ir ao médico, mesmo que
política! Fruto de decisões políticas, no me- para uma consulta na rede privada, envol-
lhor sentido do termo, certo? ve ser atendido por um profissional que
Mas, sair de casa para trabalhar, o que estudou, realizou estágios, possui um re-
isso tem a ver com política? Ora, podemos gistro em um Conselho Regional, tudo isso
aqui pensar em alguns termos que relacio- regulamentado pela... decisão política!
nam mundo do trabalho e política. Vejamos: Isso sem falar que, em caso de um atendi-
trabalhar de carteira assinada ou por con- mento na rede pública, estaríamos a falar
trato envolve relações trabalhistas regidas de um Ministério da Saúde, de um Sistema
por leis (há, inclusive, um ramo do direito in- Único de Saúde, de redes de assistência
titulado “direito do trabalho” e mesmo um básica, de unidade de pronto atendimento
“Tribunal Superior do Trabalho”, incluindo a etc. Ou seja, olhando para a saúde vemos
ideia de um “salário mínimo”, uma jornada muita... política!
de trabalho que não pode ser excedida, di- Poderíamos continuar nossa reflexão
reitos de contratação e de demissão dentre falando de segurança pública e violência,
tantas outras coisas que, da política, regem de preços de combustíveis e do transporte
seu trabalho). Isso sem falar naqueles(as) público, qualidade e preço dos alimentos,
que, estando desempregados(as), necessi- da situação de ruas e avenidas, de sanea-
tam de políticas públicas, as mais diversas, mento básico, relações entre os gêneros e
para reduzir os prejuízos pela falta de ocu- de tantas outras coisas que, embora não
pação, como o seguro desemprego. Assim, pareçam à primeira vista, são permeadas
trabalho inclui política! por decisões políticas. Nosso percurso até
Agora você deve estar pensando: “tudo aqui destaca, portanto, o lugar da Política,
bem, ir à escola e trabalhar envolvem uma em nossa vida cotidiana.

8 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


3
EM BUSCA DE UMA
DEFINIÇÃO DE POLÍTICA

E
stamos agora em condições de mos em busca de uma importante obra,
propormos a você um passo a organizada pelo cientista político italiano
mais em nossa caminhada, um Norberto Bobbio (1909-2004), intitulada
passo não tão fácil assim de rea- Dicionário de Política (2004). Precisamen-
lizar. Queremos encontrar uma definição, a te no verbete “política”, vemos as seguin-
mais precisa possível, do que vem a ser po- tes considerações, que transcrevemos de
lítica. Será que conseguiremos? modo livre:
De partida, convém dizer que a Política O termo “política” provém dos vocábu-
é um objeto de estudo polissêmico, variá- los gregos:
vel, presente em diversas disciplinas aca-
1- ê polis: a Cidade, a região, a reu-
dêmicas – Filosofia, História das Ideias,
nião dos cidadãos que formam a
Sociologia, Direito, Ciência Política e
cidade (portanto, em sua origem,
mais. Vários saberes dedicam-se à tarefa
diz respeito à citè, à sua gestão,
que também nos pomos aqui: a de tentar
seus cuidados; 2- ê politeia: o Es-
encontrar uma definição o mais precisa e
tado, a Constituição, o regime
objetiva de “política”.
político, a República, a cidadania;
Assim sendo, é preciso dizer sempre em
3- ta politica: plural de políticos,
que sentido o termo está sendo emprega-
as coisas políticas, tudo o que
do, ou seja: quando falamos de “política”
diz respeito ao Estado, ao regime
do que estamos falando? Logo, quando
político; 4- ê politikè (techné): a
nos pomos a estudar a política estamos es-
arte política (atividade); 5- politica
tudando o quê?
pragmateia: estudo da vida dos
Para qualquer cidadão(ã) comum o ter-
homens em comum.
mo “política” parece familiar, faz parte de
sua linguagem cotidiana, pois o emprega Como vemos, política significa, ao mes-
para descrever a conduta de vários sujei- mo tempo, cidade, gestão, Estado, consti-
tos, sobretudo daqueles(as) que têm na tuição, cidadania, políticos, arte, técnica,
política sua principal atividade. vida em comum. Certamente, você conhe-
Na Universidade, e também na escola, cia alguns desses sentidos, não é mesmo?
aprendemos que um dos primeiros movi- Se não, eles apresentam alguma dificulda-
mentos a serem feitos quando se estuda de de compreensão para você? Caso sim,
algo é buscar compreender sua etimologia, você pode consultar diretamente a obra
ou seja, as origens dos termos em questão. que citamos, tudo bem?
Para fazer isso com o termo “política”, fo-

EDUCAÇÃO POLÍTICA PARA CIDADANIA 9


QUADRO 2 POLÍTICA

Opa, vamos a outras dicas?


Então, sei que você deve estar ansioso(a) para nossas “dicas de leitura”, comuns em
um curso como este, não é mesmo? Quando se trata de um tema tão complexo como
o nosso, temos tantas opções que fica até difícil escolher quais sugerir. Mas vamos lá:
se você prefere uma discussão mais “clássica”, ou seja, uma obra que seja considerada
como referência e tenha, ao mesmo tempo, o peso da “autoridade” reconhecida do
autor, você poderia partir da obra “A Política”, escrita por Aristóteles (384 aC-322). Nela
você encontrará definições do que seja a política em termos de exercício de poder.
Outra obra tida como “clássica”, e na qual você já deve ter pensado, é “O príncipe” de
Maquiavel (1469-1527), na qual o italiano, ao escrever diversos conselhos ao soberano,
nos vai mostrando o que é a política em suas dimensões internas, dando ênfase aos
elementos que compõem uma decisão política. Filmes e séries também são excelentes
meios através dos quais podemos compreender o que seja a Política. Você pode sentar
e ver, por exemplo, a série “The family” (Netflix) ou mesmo “O Conto da Aia” (Globo
Play). Que tal?

Vamos, então, prosseguir em nossa Em nosso tempo, ao se preten-


busca. Para isso, faremos aqui referência a der falar sobre política, é preciso
outra importante obra, O que é política? começar por avaliar os precon-
(1993), da filósofa alemã Hannah Arendt ceitos que todos temos contra a
(1906-1975). Você pode pesquisar um pou- política – visto não sermos políti-
co sobre a vida dela, uma mulher judia que cos profissionais [...] os preconcei-
esteve presente em diversas discussões im- tos contra a política, a concepção
portantes do seu tempo (sobretudo aquelas de a política ser, em seu âmago
que diziam respeito ao avanço dos totalita- interior, uma teia feita de velhaca-
rismos – nazismo, fascismo e stalinismo) e ria, de interesses mesquinhos e de
cuja obra filosófica abrange uma infinidade ideologia mais mesquinha ainda.
de temas que, por isso mesmo, falam direta- (ARENDT, 2002, p. 08).
mente às questões que enfrentamos.
No livro O que é política? há um capítu- Como lembra o que se passa em nosso
lo que guarda muita relação com o nosso tempo, não é? O que a autora está nos di-
tema (como, aliás, grande parte da obra de zendo, com uma atualidade precisa, é que
Arendt), em que a autora discute se, diante um dos primeiros movimentos a ser rea-
de um mundo destruído por guerras entre lizado por aqueles(as) que, como nós, se
nações e a liberdade ceifada por regimes aventuram na compreensão daquilo que
totalitários, poderia haver ainda algum seja a política é tomar ciência dos diversos
sentido para a política, compreendendo preconceitos, das imagens prévias, visões
esta como a relação primordial entre os estereotipadas que circulam sobre ela. Es-
indivíduos na vida em sociedade. Para res- sas imagens, mesmo que sejam construídas
ponder a essa questão, a autora começa mentalmente e que circulem pela socieda-
por nos admoestar o seguinte: de com bastante força por estarem apoiadas

10 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


O perigo é a coisa política de-
saparecer do mundo. Mas os pre-
conceitos se antecipam; jogam
fora a criança junto com a água
do banho, confundem aquilo que
seria o fim da política com a políti-
ca em si, e apresentam aquilo que
seria uma catástrofe como ineren-
te à própria natureza da política e
nas ações dos governos, na classe política,
sendo, por conseguinte, inevitável
adquirem força de verdade, formando-se
(ARENDT, 2002, p. 10).
uma tradição, um modo de pensar a polí-
tica que não possibilita a transposição des- Juntando o diagnóstico que a autora
sa limitação, ocasionando o descrédito e a faz quando escreve o texto, nos anos 1960,
apatia que tão bem conhecemos. com o diagnóstico que podemos também
Isso se deve, conforme vimos acima, elaborar de modo similar ao nosso tempo,
tanto às práticas daqueles que são os(as) qual alternativa nos restaria? Será que você
políticos(as) profissionais, que por vezes e nós poderíamos fazer algo? O que nos ca-
se assemelha a “uma teia feita de velhaca- beria nessa tarefa de lidar com os precon-
rias”, como à confusão e pouca precisão ceitos em relação à política? Caso haja al-
das ideologias, que parecem expressar, em guma coisa a se fazer, cabe a nós, sujeitos
diversas ocasiões, mais interesses particu- que não lidamos profissionalmente com a
lares e pouco de interesses coletivos, nem política, ou caberia somente àqueles(as)
mesmo guardando relação com aquilo que que são dela “empregados(as)”?
deveriam representar: visões de mundo Não haverá outra saída senão lidar com
com projetos coletivos de sociedade. a natureza daquilo que são os preconcei-
Tais preconceitos, nos lembra Arendt, tos, ou seja, visões deturpadas das coisas
são perigosos porque, em se tratando da e dos indivíduos. Um preconceito é uma vi-
atividade política, ou seja, daquela ativida- são prévia, anterior, independente de qual-
de que diz respeito à condução de nossas quer experiência que mostre o contrário
vidas em coletividade, podem levar ao fim daquilo que o costume ou a tradição dizem
dela mesma, jogando fora “a criança junto sobre algo. Daí a necessidade de, como diz
com a água do banho”. De modo que, ao a autora, a política ter de “lidar sempre
mirarmos nas práticas que não condizem e em toda a parte com o esclarecimen-
com o que se espera da política, acabamos to e com a dispersão de preconceitos”
por atingir a própria política em si, desacre- (ARENDT, 2002, p. 13). É o movimento que
ditando-a e deslegitimando-a. Não é justa- estamos fazendo aqui, correto? Saber que
mente assim que se sentem muitos(as) de existem os preconceitos em relação ao que
nós, sem expectativa nenhuma em relação seria a política e saber da necessidade de
à política? Isso posto, a autora argumenta: enfrentá-los, para o bem da cidadania.

EDUCAÇÃO POLÍTICA PARA CIDADANIA 11


PARA SABER MAIS:

POLÍTICOS
IDEOLOGIAS VISÕES DE MUNDO CLASSE POLÍTICA
PROFISSIONAIS

Políticos(as) profissionais Ideologias políticas podem Visões de mundo, muito Uma das mais importantes
podem ser entendidos(as) ser definidas como um con- próximas das ideologias, se definições da Ciência Política
como aqueles(as) que “vivem junto sistemático de ideias estruturam como sistemas que é a de “classe política”,
da política”, no sentido de sobre elementos da vida orientam a vida dos indivíduos definida como o conjunto
fazerem dela sua atividade social (tais como: economia, em sociedade. Formuladas de indivíduos que, dentre
profissional, dela retirando trabalho, educação, relação a partir de valores, crenças e todos(as) os(as) cidadãos(ãs),
seu sustento. Uma importante entre os gêneros, segurança interesses, elas se legitimam são os(as) responsáveis pelas
caracterização destes(as) e de pública, etc.), a partir dos por portarem um status de decisões políticas propria-
como se diferem daqueles(as) quais decisões políticas são naturalidade ou obviedade, mente ditas, ou seja, o grupo
que vivem “para a política”, que tomadas por governantes que pondo-se como inegociáveis governante. Uma excelente
seriam os(as) “políticos(as) por se identificam com uma ou por serem admitidas como caracterização desse grupo
vocação”, pode ser encontrado outra dessas ideologias, sendo no plano da “essência” ou da pode ser encontrada na obra
numa importante obra da as mais conhecidas aquelas “verdade das coisas”. Uma A Classe Política, do italiano
Ciência Política, escrita- pelo que nomeamos, vagamente, discussão importante sobre o Gaetano Mosca (1858-1941).
alemão Max Weber (1864- como “esquerda” e “direita”, tema é trabalhada por Thomas
1920), intitulada Ciência e mas sendo em número de três Swoell (1930-...) em Conflito
Política: duas vocações. aquelas que mais representam de visões: origens ideológi-
as correntes surgidas no sé- cas das lutas políticas.
culo XIX e que ainda regem os
movimentos políticos: social-
ismo, liberalismo e conserva-
dorismo. Sobre o assunto, ler
a recente obra da advogada
Gabriela Prioli, Ideologias,
lançada em 2022.

12 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


Agora parece que temos condições de
avançar em busca da nossa definição, não
é mesmo? Antes disso, porém, convém con-
versarmos um pouco sobre os elementos
que constituem a política. O primeiro deles, e
talvez o mais importante, seja o “poder”, uma
vez que a política é muitas vezes definida
como “exercício de alguma forma de poder”.
Quando um governo, de qualquer uma
das três esferas (municipal, estadual ou
federal), decreta um novo imposto de pa-
gamento obrigatório, isso é expressão de
um poder que detém. Ao decidir, depois de
muita discussão (técnica e política), pela
imposição de um novo tributo, o governo
influencia comportamentos de diversas
pessoas (no caso em questão, o compor-
tamento será o pagamento do imposto).
A política, assim, é o terreno das diversas
implicações de relações de poder!
Mas, se a política tem a ver com o poder
e se o poder visa a alterar o comportamen-
to das pessoas, é evidente que o ato polí-
tico de poder possui dois aspectos: a) um
interesse; b) uma decisão. E aqui nos va-
lemos das ideias de outro importante autor,
desta vez brasileiro, para avançarmos nessa
definição: João Ubaldo Ribeiro (1941-2014),
que talvez você conheça não como pensa-
dor político, mas como romancista, autor
de obras como O Sorriso do Lagarto (1989)
e Viva o Povo Brasileiro! (1984).
Para o autor (RIBEIRO, 1998), a política
diz respeito a algo que responde a três per-
guntas: “quem manda? Por que manda?
Como manda?”. Mando é igual a poder.
Logo, quem tem o poder, como o tem e por
que o tem? Ou, se quisermos, podemos
formular assim: quem decide? Por que de-
cide? Como decide?
Assim pensando, definimos a política
como a arte de exercer o poder de decidir!
Política é tomada de decisão e esta pode,
ou deseja, influenciar ou modificar com-
portamentos (seja por meio de impos-
tos, leis, comportamentos, padrões etc.).
Logo, essas decisões não são tomadas no
vazio, mas estruturadas a partir de inte-

EDUCAÇÃO POLÍTICA PARA CIDADANIA 13


resses coletivos, de grupos diversos pre-
sentes na sociedade, que almejam, por
Dito tudo isso, temos agora condições REFERÊNCIAS:
de afirmar que: a política envolve o co-
meio da decisão política, fazer com que ARENDT, Hannah. O que é política? 3. ed.
mum, a coletividade, a pólis; ela não é algo
seus interesses sejam transformados em Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
solitário, individual, intra-humano, ou pró-
decisões políticas. Você pode estar lem- BOBBIO, Norberto et al. Dicionário de Po-
prio do “si mesmo”; ela está na cidade, está
brando do primeiro artigo de nossa Cons- lítica. [Link]. Ed. UNB: Brasília, 1998.
fora, está nos outros e com os outros; seria,
tituição Federal, promulgada em 1988, RIBEIRO, João Ubaldo. Política: quem
portanto, em seus próprios termos, algo
que em parágrafo único diz: “todo poder manda, por que manda, como manda.
do plano do “nós”. Ela constitui-se como
emana do povo, que o exerce por meio [Link]. por Lucia Hippolito. Rio de Janei-
o conjunto daquilo que é coletivamente
de representantes eleitos ou diretamente, ro: Nova Fronteira, 1998.
demandado, dentro de uma organização
nos termos desta Constituição”. Você lerá territorial, congregando formas de vida,
mais sobre a Constituição nos próximos maneiras de pensar e horizontes.
fascículos, certo? A política, como atividade humana, re-
Avançando mais um pouco em nossa quer e produz interação, diálogo, argumen-
definição, podemos dizer que a política tação, persuasão, cálculo, planejamento.
pode ser compreendida como um proces- Isso ocorre, especialmente, quando fa-
so através do qual interesses são trans- lamos de política em uma democracia.
formados em objetivos e os objetivos são Um aspecto a ser destacado é que tudo
conduzidos à formulação e tomada de isso requer de nós, e não apenas dos(as)
decisões efetivas. Isso quer dizer que a po- políticos(as) profissionais, uma disposição
lítica é um processo por meio do qual, par- para participar dos processos de tomada
tindo-se de interesses diversos, se busca de decisões e organização da sociedade,
formular ações e tomar decisões que dirão ou seja, ao exercício do poder de que fala a
respeito a todos. Este fato está, como diz o Constituição. É isso que nos permite exer-
autor, no centro da política. citar nossa cidadania, agindo em defesa de
Contudo, importa deixar claro que a po- direitos e interesses, conferindo direção e
lítica não se ocupa de todos os processos orientação a todos(as) nós, como sujeitos
de formulação e tomada de decisões, mas e membros de grupos, coletividades, clas-
somente daqueles que afetem, de alguma ses sociais, entre outros. Somente assim é
forma, a coletividade. O processo decisó- possível conquistar e manejar o poder que,
rio mais importante em uma democracia, nos termos constitucionais, pertence a to-
como a nossa, é a eleição, ou seja, o pro- dos e a cada um(a) de nós.
cesso que nos leva ao voto. Candidatos(as) Por isso mesmo, podemos concluir esse
disputam a nossa decisão para, a partir primeiro módulo dizendo que a política é
disso, decidirem muitas coisas por/para constituída pelos seguintes atores: pessoas,
nós, pelos quatro anos seguintes. Interes- cidadãos(ãs), grupos, mercado, associa-
sante, não é? Nossa escolha na urna refe- ções, políticos(as) e técnicos(as). Nessa lis-
rendará um conjunto de outras decisões ta, onde você está? Onde gostaria de estar?
que regerão nossas vidas por um tempo. É Sabemos que, como sujeito e brasileiro(a),
a condução de nossa própria existência co- você já está nos dois primeiros lugares; com
letiva, com reflexos imediatos sobre nossa este Curso esperamos que se reconheça
existência individual, nossa prosperidade como um importante ator político, um(a)
ou pobreza, nossa educação ou falta de cidadão(ã) pleno(a), que responda positiva-
educação, nossa felicidade ou infelicidade, mente à pergunta: “Político(a), eu? Sim,
como lembra Ribeiro (1998). sou! E há como não ser?”.

14 Fundação Demócrito Rocha | Universidade Aberta do Nordeste


EDUCAÇÃO POLÍTICA PARA CIDADANIA 15
AUTORES:
Emanuel Freitas da Silva
Bacharel e mestre em Ciências Sociais
(UECE, UFRN) e doutor em Sociologia
(UFC). Desenvolve pesquisas nas áreas de
teoria política, eleições e religiões, sendo
Bolsista de Produtividade (BPI-FUNCAP).
Professor de Teoria Política da UECE,
atuando nos cursos de Pós-Graduação em
Sociologia e em Políticas Públicas e na Gra-
duação em Ciências Sociais. Autor do livro
Carisma e renovação da tradição católica
em Fortaleza (Edições Waldemar Alcânta-
ra) e organizador dos livros Eleições Muni-
cipais 2020: cenários, disputas e resultados
políticos e Atores Políticos e Dinâmicas
Eleitorais, ambos pela EdMeta/UECE.

Clênia Trindade Lucena


Cavalcante
Doutoranda em Políticas Públicas (UECE),
mestre em Sociologia (UFC) e Bacharel em
Direito (UFMA).

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