Certa vez, perguntaram ao seu Pastinha: o que era a
Capoeira. E ele, um grande mestre respeitado, ficou
um tempo calão, revirando sua alma. Depois
respondeu com muita calma, em forma de ladainha:
Capoeira é um jogo, [e um brinquedo. É desrespeitar
o medo, é dosar bem a coragem. É luta de
mandingueiro, um gemido na senzala. É um corpo
arrepiado, um berimbau bem tocado. É o sorriso do
menininho, é o vôo do passarinho. É o bote da cobra
coral. Sentir na boca, todo gosto do perigo. É sorrir
pro inimigo, no apertar de sua mão. É o grito de
zumbi, ecoando nos quilombos. É o levantar do
tombo, antes de tocar no chão. Enfim, aceitar o
desafio com vontade de lutar. Capoeira é um navio,
solto nas ondas do mar. (Mestre Toni, Rio de Janeiro)
De acordo com autores, a capoeira enquanto atividade física e manifestação
cultural surgiu em decorrência dos meios de comunicação e do incansável trabalho
dos mestres e seus alunos dês da década de 70. Dessa forma a identidade das
comunidades de Florianópolis tem sido reflexo da grande procura desta luta/arte,
não só em Florianópolis mas em todo o estado de Santa Catarina, levando consigo
as características da a resistência e do conformismo, que são parte da cultura
popular brasileira. Neste contexto torna-se visível na cultura da ilha de Florianópolis
o perfil de resistência africana por meio da capoeira, haja vista que, nem sempre foi
tolerada essa visibilidade, pois na década de 70 havia apenas um (1) grupo de
capoeira em Florianópolis, e atualmente existem cerca de trinta (30) grupos
institucionalizados na região.
No entanto nota-se que o ensino da “capoeira tem sido objeto de apropriação e
descaracterização por parte do Estado, da academia e do mercado.” (Pinto et all, p.
63)
Ou seja, a utilização da capoeira em projetos assistencialistas, acaba sendo tratada
como atividade física e esporte nacional, deixando de lado seu caráter histórico e
cultural. Onde o autor aponta como sendo uma “camisa de força no que é popular”
“buscando a hegemonia e o controle da cultura popular.” (Pinto et all, p. 63)
O ensino de Capoeira e Florianópolis deu inicio no final da década de 70, “quando o
Mestre Pop chegou à ilha na condição de artesão e se propôs a ensinar Capoeira,
encontrou um ambiente com forte identidade cultural, o ensino ocorre nas ruas, no
educandário para menores infratores, em associações” (Pinto et. al. p. 63) entre
outros locais. Neste contexto “muitas crianças e jovens são atraídos pela luta/arte e
começam a praticar nos bairros e nas ruas, espontaneamente, sem nenhuma
orientação.” (Pinto et all, p. 63) Dessa forma a “Capoeira encontrou em Florianópolis
um povo descontraído acolhedor e apaixonado, um chão fértil para se desenvolver
de forma singular.” (Pinto et all, p. 63) E não parou de crescer dês de então.
Segundo os autores, é com base no resgate do sentido histórico de luta social e de
raça, que encontra-se presente na origem da Capoeira e na construção de
conhecimentos sobre cultura local inerentes para educação física, tal pesquisa têm o
objetivo de produzir material didático para formação inicial e continuada de
educadores e professores da rede pública de ensino. O estudo da região se dá pelo
fato de existir mais de “30 grupos de Capoeira, entre outras manifestações afro-
brasileiras, com o intuito de verificar quais funções elas exercem sobre a formação
da identidade do município, na cristalização do racismo ou na emancipação racial
com vistas à cidadania plena.” (Pinto et all, p. 64)