Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas
ISSN 1984-1639
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Sociales, Costa Rica
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A Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas (ISSN 1984-1639) é uma publicação quadrimestral do Departamento de Estudos
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Os trabalhos deverão contemplar: (i) a discussão dos grandes temas e problemas que caracterizam o pensamento sobre as Américas; (ii) a
ênfase nos estudos comparativos e interdisciplinares; e (iii) a consistência com as linhas de pesquisa do programa de pós-graduação do ELA.
A Revista publica trabalhos em português, espanhol e inglês. Poderão ser publicados trabalhos em outras línguas, a critério do Comitê
Executivo.
Sumário
Clássicos das Ciências Sociais Latino-Americanas
Teologia da Libertação Latino-Americana: Camilo Torres - Samuel Silva Gotay .................................. 1
Dossiê Crises Políticas na América Latina
Introdução: Crises Políticas na América Latina - Patrícia da Silva Santos, Ricardo Pagliuso Regatieri .... 22
O que a Ciência Política (não) tem a Dizer sobre o Neogolpismo Latino-Americano? - Gabriel
Eduardo Vitullo, Fabricio Pereira da Silva ............................................................................................................ 27
Polêmicas sobre a Definição do Impeachment de Dilma Rousseff como Golpe de Estado - Danilo
Enrico Martuscelli ................................................................................................................................................ 67
O Novo na sua Face Sombria: um balanço das análises sobre a ascensão da extrema direita no
Brasil atual - Patrícia da Silva Santos, Ricardo Pagliuso Regatieri ................................................................ 103
Primaveras, Tribunais e Dólares: uma análise panorâmica das crises políticas na América Latina
(1990-2020) - Pedro Borba .............................................................................................................................. 122
Contradicciones del Capitalismo y Transformaciones Sociales en América Latina - Agustín Lucas
Prestifilippo .......................................................................................................................................................... 157
O “Pós-Neoliberalismo” e a Reconfiguração do Capitalismo na América Latina - Beatriz Stolowicz
.............................................................................................................................................................................. 189
O Estado como Forma e como Limite: contradições das esquerdas na América Latina, em especial
na Venezuela e no Brasil - Vladimir Puzone ................................................................................................ 216
Caminhos da Reprodução da Colonialidade: experiência desenvolvimentista e reação
conservadora sob a tensão colonialidade/decolonialidade - Rogério de Souza Medeiros, Bruno Ferreira
Freire Andrade Lira .............................................................................................................................................. 250
Crise da Democracia Liberal, Neoliberalismo e Corpos na Rua no Brasil Contemporâneo:
reflexões sobre a política pública de cortes de recursos ao ensino superior público e faíscas
insurgentes - Luciana Fernandes ...................................................................................................................... 287
O Governo López Obrador no México: entre a crise e as relações com os Estados Unidos - Fabio
Barbosa dos Santos, Marcela Franzoni ................................................................................................................ 310
Artigos
Estado Burguês, Planejamento Econômico e Industrialização no Brasil (1930-1980) - Glauber
Lopes Xavier ......................................................................................................................................................... 338
In Memorian
Florestan Fernandes: sociólogo e socialista - Jales Dantas da Costa ..................................................... 373
Resenhas
Repensando o Comum como Princípio Político - Marina Bolfarine Caixeta ....................................... 412
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Recebido: 15-09-2020
Aprovado: 25-11-2020
Teologia da Libertação Latino-Americana: Camilo Torres
Samuel Silva Gotay1
A Igreja Católica na América Latina constitui um terço dos católicos do
mundo e nos próximos trinta anos representará a metade do total dos católicos do
globo. Este dado leva ao sociólogo Germán Guzmán [entre 1962 e 1977] a
concluir que “nas circunstâncias atuais da América Latina, a maior força para
enfrentar qualquer forma de imperialismo e neocolonialismo externo ou interno
está na Igreja Católica”. Esta possibilidade, desde já, está condicionada a que
ocorram mudanças radicais nessa instituição social.
O desenvolvimento dos camilistas na América Latina é um sinal que
aponta à possibilidade dessas mudanças.
Apesar da importância da igreja como fator social que opera na dinâmica
das sociedades da América Latina, esta tem sido pouco estudada por nossos
historiadores e cientistas sociais. O propósito deste ensaio (parte de um estudo
sobre estes desenvolvimentos na década de 1960) é o de examinar o contexto em
que afloram as ideias do sacerdote revolucionário Camilo Torres Restrepo,
Publicado no livro Fuentes de la Cultura Latinoamericana Tomo II, México, Fondo de Cultura
Económica, 1993, organizado por Leopoldo Zea Tradução do original em castelhano por Sergio
Alejandro Dorfler Bustamante, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais –
Estudos Comparados sobre as Américas (PPG-ECsA-UnB) da Universidade de Brasília, revisão da
tradução por Raphael Lana Seabra docente do PPG-ECsA-UnB.
1
Samuel Silva Gotay (1935) é um sociólogo porto-riquenho, professor na Universidade de Porto
Rico (UPR) na Faculdade de Ciências Sociais de Río Piedras. Formado em Psicologia na UPR,
mestre em Teologia e Sociologia da Religião na Universidade de Yale e doutor em Estudos Latino-
Americanos pela Universidade Autônoma do México. Possui vários trabalhos sobre as relações da
igreja com a sociedade latino-americana. Entre eles se conta com o intitulado O Apostolo e a
Igreja e a pobreza em Porto Rico: Uma interpretação histórico-social. Conhece, amplamente, a
discutida Teologia da Libertação que surge na América Latina, a partir da reunião do Conselho
Episcopal Latino-Americano em Medellin, Colômbia. Publica a Bibliografia mínima da Teologia da
Libertação. O texto aqui publicado é resultado do Seminário de História das Ideias na América
Latina, ministrado no Centro de Estudos Latino-Americanos da Faculdade de Filosofia e Letras da
UNAM, publicado em 1972, no anuário Latinoamerica, trabalho que leva o título de Teoria da
Revolução de Camilo Torres: seu contexto e suas consequências continentais, aqui publicado em
quase sua totalidade.
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analisar sua teoria e sua teologia da revolução para entender suas consequências
continentais, e examinar algumas das perguntas propostas por esse fenômeno à
história e à sociologia da religião.
I. Seu Contexto
A Igreja e as classes dominantes
A Igreja Católica na América Latina tem sido estudada, geralmente, desde
o ponto de vista de uma das instituições que cumpre a função de guardiã da
estabilidade social e política para benefício das classes dominantes. Em troca
disso recebe a proteção dos seus privilégios. Loyd Mecham, em sua prestigiosa
obra Church and State in Latin America (1934), retoma pelo menos 36 ocasiões
em que a igreja organizou, financiou, provocou, influenciou e apoiou golpes de
Estado a governos liberais. Durante o desenvolvimento colonial e enquanto durou
o velho regime, a igreja foi considerada o departamento de assuntos religiosas do
Estado graças ao Patronato Real que colocava nas mãos do rei mais “poderes
administrativos” sobre a igreja colonial do que o próprio Sumo Pontífice sobre
esta. Essa relação implicava, por sua vez, a fidelidade e a defesa do Estado por
parte da igreja.
Com a transformação produzida no sistema sociocultural pelo advento do
liberalismo, a igreja foi despojada de seu poder político - e, em alguns casos, do
econômico - por conta de sua aliança com os regimes conservadores.
Eventualmente, a igreja se reconciliou com as liberdades econômicas e políticas
do liberalismo (o que a levou a recuperar alguns dos seus poderes), para começar
novamente, em nosso século, com outro conflito ante o advento de outro sistema
socioeconômico: o socialismo.
Não obstante as condições de mudança social no mundo, a crise da
cultura e a revolução social levaram, desta vez, o conflito ao seio da igreja, e esta
já não pôde apresentar uma frente tão unida como o fizera no século XIX na
América Latina a partir das guerras de independência. Se olharmos para esta
situação de crise e mudança social veremos como esses fatores incidiram sobre o
conflito interno na igreja revelando-nos o surgimento de outro clero, este último
exerce uma função social contraditória à que desempenha a igreja (religião
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institucional) e em apoio dos interesses de outra classe social. Esse novo clero
desempenha um papel de agente de mudança e de apoio dos interesses da classe
baixa e dos grupos marginais.
A crise da cultura
O século presente está marcado por duas revoluções fundamentais, a
revolução tecnológica – que levou o homem à lua – e a revolução dos povos
coloniais e das minorias oprimidas. Estas duas revoluções revelam a natureza da
crise de nossa cultura no sentido de um mundo que morre para dar à luz a outro
que apenas tem perfilado seu contorno.
Esta crise está caracterizada pelo processo de secularização e pela rapidez
das transformações sociais.
O processo de secularização
Apesar de que desde o século XIX o homem vem descobrindo com força e
reafirmando a “historicidade” dos conceitos e dos valores e das crenças, que esse
homem havia sacrificado e acreditava eternos ou determinados por uma lei
natural, não é senão até nosso século que as consequências de ver o mundo e a
cultura como criações do homem se amontoam e se precipitam em um processo
de “dessacralização” que anuncia que o homem religioso descobriu que Deus o
fez completamente “autônomo” e “responsável” de si mesmo e pela sua história.
O homem de mediados do século XX já não pode justificar as condições
socioeconômicas e a estrutura política alegando a existência de uma “lei natural”,
porque a sociologia explicou-lhe a natureza da formação das ideologias e das
convenções sociais; as normas, as instituições e os valores que o homem havia
sacralizado como absolutos e universais já foram secularizados. Agora nenhuma
lei, estrutura social ou sistema econômico pode ser considerado como “ordenado
por Deus” ou como “revelado”, mas produto do fazer político e social dos
homens.
As rápidas transformações sociais
A outra característica da crise de nossa cultura é constituída pela rapidez
das mudanças. Enquanto antes falava-se em processos de séculos, atualmente o
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conhecimento se duplica em períodos tão curtos que às vezes não passam de
cinco anos; a tecnologia, a moral, as concepções tecnológicas, os processos
econômicos, a cultura material manufaturada (edificações, máquinas, a cidade),
as técnicas educativas, as tarefas especializadas, as profissões e, ainda, as
comunidades, estão sujeitas a mudanças tão velozes nos últimos anos que tornam
impossível ao homem manter um “conhecimento tal” sobre o mundo como para
reclamar ser uma “autoridade”. Em um mundo “permanente”, aqueles de “idade
mais avançada” constituem a autoridade porque detêm mais conhecimento e
domínio da realidade, mas em um mundo em transformação as “autoridades
tradicionais” perdem seu valor e sua relevância. Nesse mundo não há autoridade,
exceto a reconhecida pelos homens. No nosso século “a autoridade” está morta.
Junto a isto e em parte como consequência do anterior, ocorre uma
tendência que (em falta de outro nome) chamaremos de “tendência à
democratização”, na qual a participação da pessoa nos acontecimentos que
afetam sua vida começa a firmar-se, uma vez que o exercício da autoridade à
moda antiga já não é mais possível. Cada homem tem que decidir o que lhe
convém. O homem comum possui opiniões, um mínimo de educação e escuta o
rádio e assiste à televisão. Este homem sabe que muitas das verdades são relativas
e não absolutas; venham elas do papa ou do reitor de um monastério. O
“aconselhar paternalista” de antes é substituído pelo counceling indireto, a
“conferência autorizada” pelo seminário de participação e os “sermões
dogmáticos” pelos “grupos de estudo”. Essa participação do homem que de
repente se descobre como responsável pelas forças do destino é inerente ao
processo de secularização que vem dando à luz a esse novo mundo que nasce.
Quando os elementos da cultura, tais como a moral, o costume, a
comunidade, os trabalhos e outros não são o suficientemente permanentes como
para desempenhar a função de formar uma pessoa mediante o “processo de
socialização”; faz-se mais urgente do que em qualquer período da história que as
pessoas jovens lutem “ativamente” com seu mundo para formulá-lo e defini-lo de
modo a atender às suas necessidades, em lugar de vivenciá-lo com um atitude
passiva e de dependência.
Vemos isso na forte e desesperada procura por forjar uma “nova
moralidade”; não somente nos jovens, em quem a relatividade do seu meio
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circundante – por conta das rápidas mudanças – não pôde imprimir padrões
normativos de vida, mas também nos filósofos, nos teólogos e profissionais que
formulam concepções éticas para lidar com os problemas humanos.
Os clérigos de vanguarda da América Latina geralmente são pessoas que
estudaram e se formaram intelectualmente nesse ambiente peculiar de nossa
cultura em crise. Apesar de que essas características da crise de nossa cultura não
são tão evidentes nas sociedades tradicionais da maioria de nossos meios rurais
ou nas dos recentemente urbanizados na América Latina, alerta-se que a
liderança dos clérigos de vanguarda, especialmente os chamados “rebeldes”
receberam formação intelectual nos centros urbanos europeus ou norte-
americanos, onde o efeitos da crise é mais agudo e onde mais se reflete sobre ela.
Todo o ambiente da cultura do século XX pressiona esses homens, moldando-os
em homens do século.
Teologia da revolução
Esse clero teve acesso a toda uma discussão teológica sobre a renovação
da igreja que procedeu por muitos anos no concílio, particularmente nos
seminários do norte da Europa, em cujos centros a teologia bíblica produto da
crítica bíblica protestante e judaica colocou no fogo os velhos dogmas
escolásticos da igreja, a velha liturgia latina e as concepções não científicas do
mundo, do homem e da sociedade – a isso ajudaram enormemente os ramos da
sociologia, da antropologia e da psicologia freudiana.
Assim, esse clero jovem (como os que haviam se mantido informados
quanto às transformações do mundo e da teologia) tem uma concepção diferente
sobre a religião, a igreja e sobre a missão da mesma, concepção essa que não é
compartilhada por seus superiores, geralmente de maior idade e produto das
sociedades rurais estáveis.
O concílio eclesiástico fez eco dessas ideias de vanguarda em suas
discussões e abriu o caminho a ser seguido para transformar o “conceito da
igreja”: a igreja como comunidade (o povo de Deus em lugar do clero e da
hierarquia); a liberdade religiosa e a liberdade de consciência; reconhecimento
do valor das liberdades terrestres; reconhecimento da corresponsabilidade dos
cristãos na construção da comunidade humana.
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Mas o mais importante havia sido a superação da antinomia entre o
temporal e o eterno. A condena do “mundo” e o “terrestre” como coisa
degenerada frente ao divino, é superada com a reafirmação da criação como obra
de Deus e o reconhecimento da história como a arena de ação de Deus. Com isso
vem o reconhecimento da vida cotidiana, o trabalho e a política como meios de
servir a Deus mediante o serviço ao próximo e, por outro lado, o reconhecimento
da natureza histórica da igreja.
A nova teologia produz uma brecha insuperável entre o novo clero e a sua
velha hierarquia respeito ao entendimento da relação igreja-mundo. Enquanto a
hierarquia está orientada pela função histórica que tem desempenhado como
instituição, a nova geração de teólogos e estudantes seminaristas está orientada
pela preocupação dos teólogos europeus do pós-guerra; pelo ambiente cultural
das universidades e seminários invadidos pela questão da revolução colonial, da
revolução racial, da questão universitária, da Guerra do Vietnã e da atitude crítica
que domina a cultura juvenil. Mas, sobretudo, são perturbados pelas condições
de miséria, fome, doenças, desemprego e exploração, que se aprofundam na
América Latina a partir do fracasso das esperanças postas no capitalismo
industrializado, e, a partir das novas esperanças apresentadas pela Revolução
Cubana. Não é somente uma geração em contato direto com a miséria que surge
da exploração, mas que possui, também, instrumentos conceituais para entendê-
la e interpretá-la. Conhecem o “desenvolvimentismo” de Lebret e o diálogo
cristão-marxista estimulado por Emanuel Mounier na França. Isto faz deles
diferentes do clero que, por muitos anos, havia educado a igreja.
As condições econômicas da América Latina na década de 1960-1970
No começo da década de 1970 os sinais de fadiga da “substituição de
importações”, que havia determinado a história das três décadas anteriores,
indicavam que esta tinha atingido o esgotamento. Com a crise da depressão na
década de 30, as economias da América Latina que possuíam infraestruturas
desenvolvidas tentaram se industrializar, transferindo os esforços da instável
produção primária para a produção industrial. O Estado fez-se com a função de
dirigente, controlando a política fiscal, fomentando, distribuindo e arbitrando. Os
países onde o enclave estrangeiro não permitiu o desenvolvimento de uma
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burguesia nacional, de acumulação de capital nem de uma infraestrutura
administrativa, não puderam dar início a essas ações depois da Segunda Guerra
Mundial e viram esses anos sob o governo de ditadores a serviço da hegemonia
estrangeira que explorava seus recursos.
O liberalismo econômico puro havia fracassado na América Latina. O
Estado adquiriu uma função econômica com os modelos populistas e com os
reformistas chamados “democratas de esquerda”. Surgiu uma classe operária que
pugnava por participar das decisões políticas e por obter melhores benefícios.
Avalanches de campesinos invadiram as cidades criando periferias que levaram o
desequilíbrio social ao limite; criando situações críticas pela falta de facilidades e
seus consequentes problemas de saúde, moradia, desemprego, delinquência,
pressões políticas e instabilidade. O desequilíbrio da infraestrutura urbana
afetava, ainda, à classe média e à indústria. Os governos populistas fizeram
esforços distributivos para a incorporação das novas classes, mas resultaram em
medidas inflacionárias e contraditórias às necessidades de concentração de
capital em uma industrialização que tinha esgotado seu mercado e que exigia o
controle das pressões das classes populares. Todavia, as classes populares não
podiam esperar. Especialmente a infraclasse de marginados e os que compunham
o subemprego. A mortalidade, a fome em algumas regiões, as enfermidades, a
superlotação e o contraste cada vez maior com “quem tem”, contraste que a
disseminação dos meios de comunicação tornou mais evidente e desafiante a
exploração do campesinato, que já não se sustentava no campo; tudo levada a
proporções insuportáveis dada a alta taxa de crescimento populacional tornava a
situação muito dolorosa e difícil como para que essas classes esperassem.
O imperialismo norte-americano, que começara a fortalecer os vínculos de
dependência dessas economias periféricas mediante medidas de injeção de
capital e ajuda econômica, iria exigir garantias de estabilidade (contra as pressões
populares) a esses governos, aos quais controlaria usando a OEA como
instrumento de dominação.
O desenvolvimentismo alertará que essas economias não se salvarão com
medidas keynesianas, pois se trata de economias pequenas condenadas a serem
sacrificadas pela sobrevivência das economias centrais do mercado mundial que
controla seu próprio ritmo de produção, preços, sistemas de comercialização,
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etecetera, pelo qual apenas uma “transformação integral” poderia criar o
equilíbrio necessário. Com quais recursos? Poupança nacional? De onde?
Investimento estrangeiro? A que custo? Tudo ficou em magníficos diagnósticos (o
que era uma magnífica contribuição, mas não resolvia o problema). O mesmo
caminho foi seguido pela possibilidade de reforma agrária para a modernização
da produção, para absorver a mão de obra, para expandir o mercado interno e
para aliviar tensões políticas. O poder explorador sobre índios e campesinos era
absoluto. As dificuldades políticas da modernização superavam as dificuldades
técnicas. A burguesia nacional e, por conseguinte, os setores políticos poderosos
estavam intimamente ligados à oligarquia tradicional. Impossível renovar o setor
rural pacificamente.
Nessa situação surge Cuba como uma opção para a América Latina.
Significa independência dos Estados Unidos, reforma agrária, reforma urbana,
alfabetização e políticas distributivas com medidas voltadas à industrialização. A
teoria do foco guerrilheiro como vanguarda da revolução para a qual o
campesinato é o povo, é a revolução proposta desde um marxismo flexível e
nativo, que não demanda maturidade das condições objetivas nem que uma
revolução burguesa ocorra - de qualquer forma as economias periféricas coloniais
não a gerariam.
Essa perspectiva revolucionária, que exalta a imagem do guerrilheiro como
reformista social moralizante e como expressão do “novo homem” não mais
alienado, é a revolução esperada e por isso impacta fortemente à América Latina
com o símbolo da esperança definitiva.
Essa esperança cria uma atmosfera nos povos que vivem essas condições
descritas. E, no caso dos sacerdotes de formação europeia, impactados pela
natureza dos tempos que refletem na cultura, na teologia e na ética social, irão se
vincular à revolução por motivos religiosos, mas aceitando a revolução nos seus
próprios termos.
A igreja e as classes exploradas
Uma mutação surge no sacerdócio latino-americano como resultado
dessas condições do mundo em que vivemos. Assim, aparecem: Camilo Torres,
Francisco Lage, Carlos Zalfaroni, o padre Allaz, Jordan Bishop, Hélder Câmara, os
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Sacerdotes para o Terceiro Mundo, a Igreja Jovem do Chile, os sacerdotes de
Golconda na Colômbia e outros sacerdotes no Uruguai, na Argentina, na Bolívia,
no Peru, na Guatemala, na República Dominicana, em Cuba e em Porto Rico.
Sociologicamente esse clero exercia uma função oposta à de manter a
estabilidade política e social. São agentes de mudança ao serviço de uma classe
social diferente à que a igreja, como instituição social, esteve servindo
politicamente. Aqui avisamos que a religião “institucionalizada” e a religião
como “movimento ideológico-evangélico” desempenhavam duas funções sociais
contraditórias que serviam a duas classes opostas em questão de seus interesses.
Essa contradição se intensifica em épocas de crises econômicas e culturais. Os
estudos sociológicos sobre as seitas messiânicas e subversivas nos indicam que
estas põem em risco a segurança que a funcionalidade da cultura e da vida
comunal oferece.
A característica fundamental das seitas é a sua relação de antagonismo
com o mundo “oficial”, com as instituições religiosas oficiais, com as autoridades
eclesiásticas e com a moral pública e a ética do clero oficial. Esse antagonismo se
traduz numa visão apocalíptica de destruição do mundo corrompido, de iminente
salvação dos “pobres” e “puros” que não se contaminaram com “o mundo” e no
rechaço aos costumes e às instituições aceitos pelas classes superiores, que
dirigem essas instituições. Até agora na maioria das seitas, como mencionado por
Williams em seu estudo sobre as seitas no Chile e no Brasil, esse antagonismo se
manifesta em um rechaço ao mundo e na inversão de valores da moral oficial,
constitui “uma subversão da ordem tradicional na linguagem do simbolismo
religioso”, subversão que resulta na inutilização da ação política real. Se for certo
que constitui uma rebelião contra a injustiça da ordem material ou imperante,
não passa de ser uma rebelião simbólica. Nesse sentido, constituem-se rebeliões
alienadas.
Embora estes grupos “camilistas” não respondam em todas suas
características à tipologia de seita, como a conhecemos na sociologia da religião,
encontramos nos camilistas essa característica fundamental da rebelião contra a
ordem socioeconômica e religiosa imperante e a favor dos grupos
marginalizados, mas com a diferença de que a rebelião dos camilistas não é
simbólica, mas política. A rebelião dos camilistas contra o sistema de exploração
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não toma o caráter simbólico da apocalíptica destruição do mundo nem o da
salvação celestial como consolo aos explorados, mas toma o caráter
revolucionário dos movimentos hussitas e dos movimentos camponeses alemães
do século dezesseis. O camilismo é um movimento que luta pela salvação do
homem mediante a promoção da revolução socialista, ainda que a revolução não
esgote a luta pelo “novo homem”.
Quais condições determinam que a religião sirva de “ópio das massas” e
quais condições determinam que a religião como ideologia? Ainda não sabemos.
A procura pela resposta a essa pergunta é muito recente ainda. Camilo Torres
Restrepo e os camilistas serão a longo prazo parte dessa resposta. Por isso a
importância do estudo contínuo desses grupos.
II. Teoria e Teologia da Revolução em Camilo Torres Restrepo
Introdução, os dias de Camilo
O pensamento de Camilo Torres é a expressão peculiar das condições
existentes na Colômbia, expressão que é estimulada pela natureza dos tempos.
Seu pensamento é o grito do povo que sofreu com a matança dos dois mil
operários e de suas famílias, assassinados em 1928 pela oligarquia e a pseudo
burguesia que lhes fechou a entrada no sistema social e econômico; é a expressão
articulada do povo frustrado que vê suas esperanças morrerem com o assassinato
de Gaetán; a indignação dos 300.000 colombianos mortos na matança da década
de 50 – 30.000 por ano, dois mil e quinhentos por mês, oitenta e três por dia,
quatro a cada hora -; é a ameaça dos milhares de camponeses que precisam
arrancar a sobrevivência do minifúndio, enquanto um punhado de famílias
possuem o 64 por centro da superfície agrícola, a mesma que se apoderou do
Banco da República em 1951 para emitir sua moeda e decidir a política
monetária mais conveniente; é o gemido das trezentas mil crianças que morrem
anualmente de fome ou miséria; é a arma dos pequenos agricultores da
monocultura de café, explorados pelos comerciantes colombianos e norte-
americanos; é o fuzil dos campesinos assassinados diariamente no planalto e nos
bosques pelo exército por conta de liberais e conservadores que fecharam o
sistema à participação dos operários, dos campesinos e dos marginalizados. É a
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resposta da violência revolucionária à violência institucional. Mas também é o
ato de liberdade de um homem que toma para si a exploração de seu povo e
oferece sua própria vida.
Com a intervenção militar de 1964 no Brasil, o foco da “igreja rebelde”
muda para a Colômbia, onde o padre Camilo Torres, capelão universitário e
sociólogo interessado no desenvolvimento comunal e na reforma agrária,
começou a entrar em conflitos com sua hierarquia dadas as tentativas de unificar
o povo colombiano em um Frente Unido para tomar o poder e promover
mudanças radicais nas estruturas sociais e econômicas.
Já em 1964 Camilo escreveu:
“Nós progressistas somos muito espertos. Falamos muito bem. Gozamos de
popularidade. Mas a reação move um dos seus poderosos dedos e nos paralisa.
Não podemos seguir sem organização e sem armas iguais, pelo menos. Já
falaremos disso tudo” (TORRES RESTREPO, 1964).
Em dezembro conversa com seu grupo sobre o “dever do revolucionário” e
sobre “seu ingresso à guerrilha”.
No início do ano 1965, quando o projeto para publicar uma série de
estudos sobre a Colômbia falha, redige a plataforma da Frente Unida, na qual diz
que tendo em vista que uma minoria é quem toma as decisões fundamentais do
país em contra de uma maioria, e que tendo em vista que essa minoria não
alterará seus interesses nem afetará os estrangeiros, faz-se necessário que as
maiorias tomem o poder para realizar as mudanças necessárias ao
desenvolvimento econômico e social, e procede a convocar uma unidade que
substituirá os desprestigiados partidos políticos. A Plataforma da Frente Unida do
Povo Colombiano continha os seguintes objetivos:
- reforma agrária sem indenização
- reforma urbana que outorgaria a propriedade sobre suas residências aos
moradores das mesmas;
- planificação obrigatória de investimento público e privado;
- impostos progressivos sobre a renda, não haveria instituições isentas;
- nacionalização de bancos, companhias de seguros, hospitais, centros de
fabricação de medicinas, transportes públicos, rádio e televisão e
exploração de recursos naturais;
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- relações internacionais independentes com todos os povos;
- previdência social e saúde pública garantidas, o pessoal médico
trabalhará em qualidade de empregados públicos;
- sanções para os pais de crianças abandonadas (milhares em Bogotá);
-orçamento adequado para as forças armadas e para defesa da soberania
nacional sob responsabilidade de todo o povo;
- igualdade política para as mulheres.
Em março Camilo leu a Plataforma a um clube da Juventude Conservadora
e dali foi difundida rápida e amplamente. Durante os motins causados pela
intervenção norte-americana em Santo Domingo, que pareceram derrocar o
governo de Valencia na Colômbia, Camilo falou com os estudantes em
representação de Valencia e os instou a “se organizar com armas iguais contra as
forças”. Daqui em diante a Plataforma da Frente Unida se estende como um fogo
devastador e Camilo não descansará, visitará campos e cidades, sindicatos e
universidades em uma corrida veloz e urgente para se comunicar com todo o
país. A isto o regime respondeu com uma crescente repressão.
Em maio os grupos de oposição aceitaram sua plataforma. Durante o verão
a hierarquia declara suas atividades “incompatíveis com o caráter sacerdotal”
enquanto Camilo se encontra com a Frente de Liberação Nacional e planejam
juntos c luta nas cidades. Fora destituído de suas funções por petição própria,
quando Camilo saiu para participar das guerrilhas em 18 de outubro desse
precipitado ano de 1965. Quatro meses depois morre em combate.
A motivação cristã: teologia dos motivos revolucionários
Camilo encontra a razão da sua vida e da sua missão revolucionária no
seu amor ao próximo. Nas vezes em que menciona a sua trajetória biográfica
menciona que, em primeiro lugar, encontrou no cristianismo “uma forma de viver
o amor pelo próximo” e logo, ao ver sua importância, disse que resolveu se
dedicar “ao amor ao próximo completo” e por isso se tornou sacerdote. Mas
como “para ser sincero e verdadeiro teria que ser eficaz – e por isso viu a
necessidade de aliá-lo à ciência – fez-se sociólogo também. No entanto, ao
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estudar sociologia percebeu que para dar de comer às maiorias “não bastava com
a beneficência do paternalismo”. Em outras palavras, concluiu que “a revolução
não somente é permitida, mas é obrigatória para os cristãos que veem nela a
única maneira eficaz e ampla de realizar o amor para todos”.
Foi assim que chegou aos seus principais lineamentos:
1. O poder deve ir para as maiorias, sem ele não há mudança social;
2. O rechaço da via eleitoral como caminho para tomar o poder;
3. A luta armada como um mal necessário que impõe a burguesia como
condição para entrar o poder.
Para ele, é o amor cristão o que o induz a abandonar o sacerdócio pela
revolução:
“Abandonei o sacerdócio pelas mesmas razões pelas quais me comprometi com
ele. Descobri o cristianismo como uma vida totalmente centrada no amo ao
próximo… Foi depois disso quando compreendi que na Colômbia não se pode
realizar este amor simplesmente pela beneficência, mas urgia uma mudança de
estruturas políticas, econômicas e sociais, que exigiam uma revolução à qual tal
amor estava intimamente ligado”.
Esta experiência pessoal é teologizada por ele quando em “A Revolução,
Imperativo Cristiano” faz menção ao apostolado cristão. O apostolado cristão
“consiste em todo aquilo que leve aos demais a ter uma vida sobrenatural (...) o
resultado último e essencial é invisível já que é a mesma vida sobrenatural”. Mas
diz ele que o “amor” é o “índice externo” da presença dessa vida sobrenatural.
Menciona, ainda, os meios ordinários (da teologia católica) para obter a vida
sobrenatural “na ausência da caridade”. Cita I Coríntios 13 e Santiago II 15-15
entre outro para fundamentar que fé e rito sem caridade não são indício de vida
sobrenatural, ao tempo em que cita Romanos XIII 8: “Porque ele que ama ao
próximo cumpre a lei”.
Daqui em diante passará neste em muitos outros artigos à análise das
condições de opressão e da impossibilidade de conseguir a mudança social sem
tomar o poder para a revolução das estruturas. Se o cristianismo vai aplicar seu
amor à realidade humana, conclui, tem que ser fazendo a revolução. Nesta
mencionada conferência disse: “[…] fica muito claro que o cristianismo, nos
países pobres, não somente pode, mas deve comprometer-se com a mudança das
estruturas para conseguir uma maior planificação técnica a favor das maiorias”.
Em seguida procede a analisar a colaboração com os marxistas. Na carta ao bispo
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coadjutor de Bogotá inclui-lhe um estudo onde diz: “Isto se chama revolução, e
se é necessário para realizar o amor ao próximo, então para um cristão é
necessário ser revolucionário”. E na reportagem de Gilly no Monthy Review, que
Marcha publicou em espanhol, aponta: “Por isso um pouco em tom de piada,
mas também seriamente coloco-me intransigente e digo à minha gente, o católico
que não é revolucionário e não está com os revolucionários está em pecado
mortal”.
Essa convicção será repetida múltiplas vezes em artigos e discursos.
Nesse sentido, Camilo Torres é definitivamente um revolucionário cristão,
apesar de que a análise da situação, a estratégia e a tática sejam seculares, como
analisaremos mais tarde. Camilo é um conservador em sua teologia. Não irá tão
longe como outros cristãos radicais que chegaram a teologizar sobre a revolução
desde um ponto de vista secular humanista ainda como motivação. Seu
conservadorismo teológico vemo-lo na matéria do jornal El Tiempo quando diz:
“Em questões bíblicas não sou partidário do livre arbítrio. Em questões científicas
sou partidário da discussão livre baseada na liberdade de investigação”; e a
mesma atitude se revela com a nitidez com que ele observa as regas e o
protocolo de obediência canônica com seus superiores, inclusive no momento de
romper com eles e na consideração que lhes guarda ainda depois. É na análise
dessa característica de Camilo aonde se observa com maior claridade a força e o
poder do seu compromisso – seu “amor” – com o povo e a dor do seu
rompimento com a hierarquia.
A ação secular e a ciência sem ideologia
Apesar de que Camilo considera que o motivo para a participação do
cristianismo na revolução é de natureza religiosa, considera que a ação dos
cristãos no mundo se dá “como pessoas, como cidadãos do mundo, e não como
integrantes de uma instituição religiosa”. Camilo, bem como os teólogos de
vanguarda, rejeita o “triunfalismo” e o ‘integralismo” da igreja e mantém uma
distinção entre o que é realmente divino ou especificamente divino – enquanto
pertence a Cristo – e as obras dos homens – resultados da motivação do homem e
da sua formação cultural, ainda que esse homem seja cristão.
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Camilo faz referência ao teólogo espanhol José María González Ruiz,
quem explica essa mudança na teologia da igreja, que deixará as portas abertas
para a colaboração com os marxistas.
A igreja não pôde ter a proteção de se instalar no mundo como um enclave
territorial dotado de autonomia e dos recursos de sua própria independência. A
graça não vem suprir nem suplantar as glândulas produtoras de valores humanos;
somente vem potencializá-los e elevá-los. A igreja não recebeu de Cristo a missão
de produzir técnicas políticas, sociais ou culturais… Por isso a igreja não tem por
que criar uma política cristã, uma sociedade cristã (GONZÁLEZ RUIZ, José
María).
Falando sobre as soluções para o subdesenvolvimento, diz que “essas
soluções não devem ser cristãs, nem protestantes, nem batistas, nem materialistas.
Essas soluções devem ser científicas, eficazes: e a eficácia não tem ideologia”.
Essa posição teológica de Camilo vai ligada à sua concepção sobre a
relação entre ciência e ideologia, como já vimos despontar na citação anterior.
Nos primeiros anos Camilo descobre na sociologia “o caminho” como antes já o
havia descoberto no sacerdócio e como mais tarde o irá descobrir na revolução.
Com essa paixão que o caracteriza, pregou a objetividade da ciência como o
caminho para encontrar a solução dos problemas. Mesmo quando já não acredite
que isso seja suficiente, ainda lhe restará sua concepção da objetividade da
ciência. Em um excelente, embora simples, artigo, ataca, de um lado, a “covardia
disfarçada de objetividade” da sociologia empirista – sem análise estrutural dos
problemas e que escolhe problemas insignificantes que não revelam as condições
político-econômicas da ‘maioria’” -; e, por outro lado, ataca a concepção dos
“falsos discípulos de Marx”, que afirmam que a ciência é inseparável da ideologia
da classe que a produz - isso implica que neste caso haveria necessariamente
uma sociologia burguesa e outra proletária - sem lembrar que nem Marx nem
Engels pertenciam à classe proletária e que, caso se discutisse que estes são
excepcionais, isto enceraria o caso uma vez que, precisamente, os cientistas são
excepcionais. Aponta Camilo:
“Chegar a ser essa excepção é a base para chegar a ser um cientista… exceções
que não se conseguem senão baseadas na disciplina e na formação
científica, na base do valor moral e da ética profissional, da autocrítica e do
reconhecimento dos próprios juízos de valor, para se preservar dos mesmos
durante a indagação objetiva dos fatos…”
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São estas duas concepções, a teológica e a científica o que habilitará
Camilo Torres a trabalhar na colaboração com os não cristãos e pela unidade na
revolução por uma sociedade socialista.
Cristianismo e marxismo
O cristianismo e o marxismo podem trabalhar juntos em prol do que têm
em comum. Camilo entende que o marxismo, além de ser uma filosofia, é
também uma ciência sobre a sociedade e uma técnica para o desenvolvimento, e
concorda com este último ponto – pelo objetiva que a ciência pode ser e porque
a igreja já não demanda que as soluções sejam “cristãs”.
Na sua publicação sobre a Frente Unida ele coloca:
“[…] é necessário definir que esta plataforma tende ao estabelecimento de um
Estado socialista, com a condição de que entendemos o ‘socialismo’ em um
sentido unicamente técnico e positivo, em nenhuma mistura com elementos
ideológicos. Trata-se de um socialismo prático e não teórico”.
À pergunta sobre se é marxista Camilo responde ao jornalista francês Jean
Pierre Sergent o seguinte:
“O fato de ser marxista é algo complexo, eu acredito que eles apresentam
algumas soluções e alguns pontos de vista que estão exatamente no domínio da
técnica econômica, sociológica e política e então, se seus pontos de vista são
científicos – como o são os meus respeito à sociedade colombiana – haverá
coincidência nesses domínios que, embora eu não seja marxista, posso conciliar”.
Por isso, respeito à Colômbia ele afirma:
“Eu poderia colaborar verdadeiramente com os comunistas na Colômbia porque
creio que entre eles há elementos verdadeiramente revolucionários e porque são
cientistas têm pontos que coincidem com o trabalho que eu me proponho. E
como nós lançamos a consigna de que seríamos amigos de todos os
revolucionários e inimigos de todos os contrarrevolucionários, nós seremos
amigos dos comunistas e iremos com eles até a tomada do poder, sem descartar a
possibilidade de que depois ocorrerá uma discussão sobre temas filosóficos. Mas
o que importa pelo momento são as questões práticas”.
Ante essa concepção prática que Camilo tem acerca do marxismo, faz uso
da abertura criada pela encíclica do Papa João XXIII, Pacem in Terris, quando diz
que “distinguindo cuidadosamente entre as teorias filosóficas”, poderiam ser úteis
e proveitosos os contatos com estes outro grupos de iniciativas “práticas”
enquanto e aonde os homens cristãos em seu mundo acreditem que tais medidas
práticas respondem à “reta razão” e “às justas aspirações do homem”.
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O ponto em comum entre cristãos e marxistas, segundo Camilo, é a
prioridade que a “ação em serviço dos demais” tem no mundo presente. Assim,
“o elemento comum está constituído”, precisamente “pelo que é essencial no
cristianismo”. No seu pensamento, o povo (maioria oprimida) converte-se em
ponto de validação; a redenção do povo é o critério para avaliar, para dar valor,
para julgar; e, no caso dos marxistas, o povo e, no caso dos marxistas, o povo
exerce o mesmo papel. Assim, a revolução do povo é o ponto sobre o qual se
apoia a colaboração cristão-marxista no movimento de Camilo.
A partir disso, todos seus discursos sobre a unidade destacarão o
compromisso com a revolução do povo por cima de todas as diferenças estéreis.
Em vista disso dirá:
“A todos irão nos chamar de comunistas… e irão dizer que o Partido Comunista
vai tomar o poder dentro do movimento; mas nós o que queremos fazer é a
revolução. Sabemos que os que se farão com o movimento serão os que
apresentarão respostas mais populares e mais revolucionárias e os que
demonstrem mais valor durante a luta; por isso, se tomam o poder, é porque o
merecem”.
Sua concepção sobre a ação secular dos cristãos, apoiada pela sua
concepção sobre o marxismo como ciência e pela sua concepção da relação
entre ciência e ideologia tem o efeito de esclarecer a separação da igreja e do
Estado, de tal maneira que Camilo está seguro de que uma mudança na estrutura
política ou econômica do país não implicará na morte da igreja.
“A igreja não está casada com nenhum sistema temporal e ter tratado de liga-la a
esses sistemas acarretou para nós que, na época em que os bárbaros invadiram
Roma, afirmou-se que a igreja havia acabado; que quando a Revolução Francesa
sobreveio a igreja acabou porque o Antigo Regime e a monarquia foram
derrubados; e que, hoje em dia, com o sistema capitalista acabando, algumas
pessoas acreditam que a igreja está chegando ao seu fim, e consideram que o
cristianismo não possui suficiente virtualidade para cristianizar um mundo
socialista rumo ao qual parece que nos dirigimos”.
Camilo trabalha conjuntamente com seus companheiros revolucionários
marxistas, mas mantém as diferenças claras. Em Frente Unida lhes diz: “[…] eu
não penso em fazer proselitismo com meus irmãos comunistas… e os comunistas
devem saber que eu também não integrarei suas fileiras, pois eu não sou nem
serei comunista, nem como colombiano, nem como sociólogo, nem como
sacerdote”.
Nasce a igreja rebelde
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Camilo constitui uma façanha na história da igreja e na história da teoria
revolucionária. Com sua práxis e com a reflexão sobre ela propõe um desafio à
concepção marxista conservadora sobre a religião e, em particular, sobre o
cristianismo e abre, com clareza meridiana, um novo caminho à igreja para que
esta se redima dos seus erros passados e se justifique como instituição e como
ideologia no mundo do futuro. Toda uma geração de clérigos seguirá este
caminho para enfrentar-se à opressão frente à qual se sentiam impotentes, por
conta das restrições teológicas e políticas do seu meio cultural ou pela falta de
soluções às suas crises de lealdades divididas. Muitos pensaram como Camilo,
quiçá tenham sob sua posse melhores trabalhos sobre alguns dos temas de
Camilo, quiçá sejam mais audazes teologicamente, mas ninguém havia oferecida
com tanto entusiasmo, espontaneidade e generosidade todo o que tinha, o pouco
e o muito para usá-lo inteligentemente em favor da redenção do povo, e muito
menos com a certeza radical e com o amor que Camilo o fez.
Não obstante, este caminho que Camilo abriu e que não poderá ser mais
fechado por nenhuma autoridade, não poderá ser copiado com exatidão e cada
um dos clérigos da igreja rebelde terá que responder criadoramente à sua
situação, enriquecendo, assim, a ética social de Camilo, sua teoria revolucionária
e expandindo seu caminho.
III. Consequências
A morte de Camilo deu início ao camilismo. O melhor da geração de
sacerdotes dessa década, preparados em Lovaina, Paris e em outros seminários da
Europa, decidem adotar definitivamente a linha revolucionária de Camilo e se
lançam contra as estruturas sociopolíticas que apoiam a exploração econômica e
a miséria na América Latina, Em um movimento crescente que parecia acender
toda a América Latina, começaram a surgir por todo o continente incidentes,
manifestações, protestos e denúncias em contra da violência institucionalizada e
a favor da violência revolucionária e da socialização dos meios de produção.
Surge a revista Cristianismo y Revolución na Argentina; aparece a Pastoral
do Terceiro Mundo aprovando a revolução, publicam-se as conclusões do
Seminário Sacerdotal de Chile, aonde se ataca o capitalismo e se pede
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compreensão com a violência revolucionária; no Uruguai, o padre Carlos
Zaffaroni se transforma no Camilo uruguaio – e foge para a clandestinidade, onde
permanece até hoje; na Guatemala, padres e freiras norte-americanos se unem à
guerrilha; faz-se claro que a igreja latino-americana só tem um caminho ante si: a
revolução; em Cuba, Fidel Castro chega a reconhecer publicamente a
legitimidade revolucionária dos cristãos e a admitir diante do Congresso Cultural
da Havana a necessidade de reexaminar a posição marxista sobre a religião; no
Brasil, o bispo Antônio Fragoso continua desafiando publicamente o regime das
torturas quando diz: “pode ser que a luta armada seja necessária e quando ela é
necessária pode ser evangélica”; no Panamá, o padre Pérez Herrera organiza um
encontro nacional chamando o povo “à violência revolucionária” e contra o
imperialismo “condição que devem assumir os cristãos”; na Colômbia, Germán
Guzmán continua o trabalho de Camilo; na Bolívia, oitenta sacerdotes pedem
uma revolução na igreja; no Brasil tornam-se públicas as anotações do teólogo
Comblin sobre o material preparatório para a Reunião Episcopal de Medellín,
onde ele deixa claro que “a tomada do poder pelo povo” mediante a força e a
socialização de todos os meios de produção por meio de ‘um governo ditatorial”
são condições imprescindíveis para o desenvolvimento; do Brasil exporta-se o
manifesto dos Trezentos Cinquenta Sacerdotes reconhecendo a “eleição do
caminho revolucionário” como “um chamado que pode provir do mais puro da
consciência”, manifesto este que circulará por toda a América Latina e chegará à
reunião do episcopado em Medellín com quase mil assinaturas de sacerdotes.
Diante dessa avalanche de acontecimentos que ameaçava a segurança das
classes dirigentes na América Latina, como nunca antes na história recente, e
frente à real possibilidade da metodologia da guerrilha como veículo da década
para a expressão dessa rebeldia clerical, o Vaticano convence-se de que é sua
responsabilidade vir à América Latina para colocar um muro de contenção a essa
força transbordante. Diante da magnitude do movimento revolucionário cristão,
perigoso mais por sua importância estratégica do que numérica, o Papa Paulo VI
decidiu vir à América Latina – primeira visita de um papa em 476 anos -, e vir
presencialmente à Colômbia, onde Camilo regará com seu sangue esse
florescimento revolucionário. Esse florescimento e essa visita dramatizaram a
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magnitude das consequências continentais do acontecimento de Camilo Torres
Restrepo.
Apesar das numerosas cartas de movimentos cristãos, sindicalistas e
sacerdotais pedindo-lhe que não viesse a desautorizar a revolução dos oprimidos,
Paulo VI veio à Colômbia a se enfrentar com o espectro de Camilo e ali
conversou com as classes dirigentes e falou aos campesinos “representativos”
trazidos em caminhões pelo governo para a ocasião. Seus três discursos foram
dirigidos contra a revolução e contra o uso da violência revolucionária.
A apoteótica visita resultou num fracasso histórico. Camilo havia vencido.
As consequências continentais do seu pensamento continuaram sendo
enriquecidas com novos atos e novas reflexões sobre a teologia e sobre a teoria
da revolução.
Seis meses depois da visita do Papa Paulo, surgiu o movimento do Grupo
Sacerdotal de Golconda na Colômbia. Proclama que necessitam de “mudanças
estruturais”, que a pressão para as mudanças será:
“Pacífica ou violenta de acordo com a atitude que assuma a classe dirigente, e
que a mudança deve ser revolucionária e a revolução deve ser popular ou não
ser… com o objetivo de conseguir a instauração de uma sociedade de tipo
socialista que permita a eliminação de todas as forças de exploração do homem
pelo homem e que responda às tendências históricas de nosso tempo e à
idiossincrasia do homem colombiano”.
Os sacerdotes de Golconda incorporam a linguagem progressista de
Medellín para mostrar o vínculo de sua oposição com a da igreja; de Camilo
adotam seu entendimento das causas estruturais da miséria e do
subdesenvolvimento, a necessidade da revolução, sua atitude revolucionária, seu
sentido de compromisso e de entrega, seu entendimento teológico do amor como
guia da decisão revolucionária e seu entendimento da compatibilidade da
revolução socialista com a fé cristã. Mas diferentemente de Camilo, decidem
atuar como movimento de sacerdotes com ordens ministeriais e não como
indivíduos ou revolucionários isolados, o que os leva a desenvolver mais a
justificativa teológica de sua função revolucionária dentro da igreja e dentro da
revolução.
Na Argentina organiza-se o Movimento dos Sacerdotes para o Terceiro
Mundo. Seguem as linhas do pensamento de Camilo com a diferença de que
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levam mais longe ainda a secularização do pensamento camilista quando dizem
que:
“Não necessitamos justificar com citações bíblicas nem com apelações
evangélicas esta exigência de participar com toda nossa vida da transformação do
mundo dos explorados, dos famintos e dos despojados… Se a análise das
condições sociais, políticas e culturais e morais em que sobrevivem milhões de
irmãos; se a morte permanente de outros irmãos… se os dados da violência
institucionalizada… analfabetismo, doenças… desemprego, prostituição… se
nenhuma dessas realidades nos leva a nos comprometermos com a ação, com a
luta e com a vida revolucionária, não haverá papas nem evangelhos, nem
teólogos, nem profetas que possam converter nosso coração”.
No Chile surge a Igreja Jovem. É este camilismo o que deixa mais explícito
e mais público seu diálogo e sua cooperação com os marxistas. Acima de tudo
deixam claro, superando as expressões de Camilo, que o socialismo a que
aspiram não é um socialismo misturado com as alcunhas de “cristão” ou
“democrático”, como se quis misturar com fórmulas “pequeno-burguesas”, mas
que aspiram “ao socialismo científico com o qual a teoria e a prática do
marxismo contribuíram para elaborar de maneira sem igual”. No momento do
triunfo de Allende, a extensão do movimento era tamanha que numerosos
sacerdotes e organizações católicas saíram a defender publicamente o triunfo do
socialismo para surpresa da Democracia Cristã.
Esses são somente os movimentos mais conhecidos e articulados, mas o
camilismo avança por toda a América Latina somando cristãos à revolução em
virtude dos elementos ideológicos da fé cristã, e incorporando os mesmos ao
diálogo cristão-marxista para a luta onde se perfila o futuro da América. Desde o
Cone Sul, onde ocorreu primeiro a revolução da independência, até a indômita
ilha de Porto Rico, que ainda luta pela sua primeira independência, as
consequências da vida e do pensamento de Camilo Torres continuam crescendo.
Este movimento continuará crescendo? Conseguirá modificar a
mentalidade dos hierarcas da igreja, ou se manterá entre os círculos dos
oprimidos e marginalizados? Qual será seu impacto na história da América Latina
quando a metade dos católicos do globo se encontrem em nosso continente?
Poderá o Vaticano manter sua resistência à revolução por mais tempo? Creio que
estas são perguntas que merecem uma séria consideração por parte dos
historiadores e cientistas sociais da América Latina.
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Introdução: Crises políticas na América Latina
Patrícia da Silva Santos1*
Ricardo Pagliuso Regatieri2**
Na abertura deste dossiê sobre crises políticas na América Latina,
gostaríamos de ressoar as palavras do escritor Augusto Roa Bastos a respeito do
Paraguai: “Su historia parecería, si no fuese objetivamente real, la fabulación de
un dramático destino, de una tragedia ininterrumpida, con tramos de grandeza y
plenitud, sin embargo, muy altos y significativos.”3 Tais palavras ecoam
fortemente no cenário latino-americano contemporâneo, no qual se ensaia
novamente a tragédia, sob orquestração neoliberal e, muitas vezes, abertamente
autoritária e antidemocrática – quando não, de contornos neofascistas.
As atuais crises políticas na América Latina possuem intrincados vínculos
históricos, econômicos e sociais. A posição (semi)periférica da região em relação
ao sistema capitalista mundial, as tensões internas situadas na intersecção de
classes e identidades étnicas altamente conflitantes, as heranças da origem
colonial, patriarcal e escravagista convergem para deflagrar situações críticas na
política institucional e evidenciam a vigência de forças profundamente
desagregadoras nas sociedades latino-americanas.
Este dossiê foi concebido como uma tentativa de compreensão,
incontornavelmente parcial, de situações de crise política ocorridas recentemente
na região e seus nexos com forças desintegradoras prevalecentes no âmbito do
capitalismo (periférico) contemporâneo.
Nesse sentido, o dossiê reúne contribuições de autores do Brasil, da
Argentina e do México que discutem as crises políticas da região desde ângulos
diversos. Nele, o leitor encontrará discussões a respeito das dificuldades da
apreensão dos novos golpes na região por parte da Ciência Política; do debate
1 * Professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA).
2 ** Professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
3 BASTOS, Augusto Roa. “Paraguay: isla rodeada de tierra”, El Correo de la Unesco, 1977, p. 56.
Disponível em: [Link]
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acadêmico no campo da Ciência Política em torno da definição do impeachment
de Dilma Rousseff como golpe; da caracterização do governo Bolsonaro e do
bolsonarismo pelas Ciências Sociais; das relações entre crises políticas recentes
na América Latina e movimentos populares, poder judiciário e mercado; da
reestruturação capitalista dos anos 1990 sob alegação de “pós-neoliberalismo”;
da emergência de forças antidemocráticas na América Latina tendo em vista o
quadro mais amplo da crise do sistema mundial capitalista; da forma e dos limites
do Estado no subcontinente; dos limites das esquerdas no Brasil, no México e na
Venezuela; das articulações do modelo desenvolvimentista dos governos do
Partido dos Trabalhadores com a tensão colonialidade/decolonialidade; das
insurreições do movimento estudantil após o anúncio das primeiras medidas
neoliberais na educação pelo governo Bolsonaro.
A partir de uma análise de uma década de produção da Ciência Política
tendo como amostra algumas das principais revistas editadas na ou sobre a
América Latina assim como trabalhos apresentados em eventos dessa área,
Gabriel Eduardo Vitullo e Fabricio Pereira da Silva constatam a baixa presença de
análises sobre os recentes golpes na região. Os autores sugerem que o aparato
conceitual e o enfoque fortemente influenciados pelo institucionalismo norte-
americano que marcam esse campo bloqueiam não apenas uma compreensão
mais aprofundada mas até mesmo a própria tematização daquilo que eles
chamam de neogolpes na América Latina, para o estudo dos quais eles propõem
uma agenda de pesquisa.
Danilo Enrico Martuscelli discute as polêmicas em torno da definição do
impeachment de Dilma Rousseff como golpe nos debates acadêmicos e políticos.
Por meio de uma análise bibliográfica das discussões, Martuscelli sustenta que as
vertentes institucionalistas tendem a refutar a tese do golpe porque dissociam
instituições e luta de classes, concentrando suas análises em processos
institucionais, sem considerar as forças sociais que os mobilizam. Para o autor, a
consideração da influência dos conflitos de reprodução de classes é fundamental
para a compreensão do caráter golpista do impeachment sofrido por Rousseff.
Ainda no terreno da análise da produção bibliográfica, Patrícia da Silva
Santos e Ricardo Pagliuso Regatieri oferecem um balanço crítico, ainda que de
caráter parcial, a respeito de como o governo Bolsonaro e o bolsonarismo têm
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sido interpretados pelas Ciências Sociais brasileiras. Os autores identificam três
tipos de caracterizações do governo atual e sua base de apoiadores: a primeira
recorre à experiência histórica europeia do fascismo e considera que o Brasil
testemunha um renascimento desse fenômeno político, ao passo em que a
segunda divisa elementos que permitem paralelos com o fascismo mas insiste na
especificidade sócio-histórica brasileira, enquanto a terceira está mais
preocupada com o destino do jogo político da Nova República, com seu
esgotamento simbolizado pelas manifestações de 2013 e com as novas formas de
ativismo digital. Santos e Regatieri enfatizam que, para uma melhor compreensão
da ascensão da extrema direita no Brasil, faz-se necessário articular tendências
sociais e políticas globais com aquelas em curso no país.
Com base em um panorama das crises políticas ocorridas na América
Latina no período de 1990 a 2020, Pedro Borba discute o papel do que nomeia
primaveras, tribunais e dólares no jogo político institucional da região. Nesse
sentido, o autor reflete sobre o rol de crises do período sob a ótica da influência
da eclosão de protestos com identidade cidadã, oposicionista e popular
(“primaveras”); da intervenção de órgãos de controle (“tribunais”); e da
interferência sobre a dinâmica representativa resultante do risco de crise cambial
(“dólares”). Borba opõe-se à ideia de que os 37 episódios de crises levantados em
15 países devam-se a um estágio transitório de consolidação democrática e
sustenta, por sua vez, que as intervenções desarmadas características do período
moldam práticas, expectativas e limites da democracia liberal na América Latina.
Já Agustín Lucas Prestifilippo aponta que as reformas neoliberais no centro
e na periferia do capitalismo levaram a uma progressiva destruição da
institucionalidade democrática e a processos de desintegração sistêmica em
distintos níveis da totalidade social. Mobilizando abordagens críticas do
capitalismo que vão de Theodor Adorno e Max Horkheimer a Wolfgang Streeck,
o autor propõe existir uma íntima correlação entre a deterioração das condições
materiais de vida e a proliferação de projeções paranoicas violentas dirigidas a
pessoas e grupos que catalisam as sensações de frustração. As novas forças
antidemocráticas na América Latina, segundo Prestifilippo, manifestam a
apropriação política de profundas tendências ideológicas conformadas pela
cultura neoliberal contemporânea.
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Beatriz Stolowicz, em artigo publicado inicialmente em 2011, agora
traduzido para o português, discute as implicações para os países latino-
americanos do modelo que costuma ser chamado, de maneira eufemística, de
“pós-neoliberalismo”. A autora demonstra como, na verdade, esse modelo
consistiu em uma reestruturação do capitalismo na região, com algumas críticas
ao neoliberalismo que teve vigência até os anos 1990, mas sem nenhuma
perspectiva real de sua negação. Nesse sentido, o projeto legitimou-se sob a
alegação de “anti-neoliberal” ou “pós-neoliberal”, apropriando-se também do
léxico do chamado pensamento crítico. Um dos eixos era uma reconfiguração da
sociedade, que apresentava como políticas “progressistas” ideias elaboradas pelo
neoconservadorismo desde os anos 1980.
Analisando os casos de governos de esquerda no Brasil e na Venezuela,
Vladimir Ferrari Puzone chama a atenção para o fato de que sua gravitação em
torno do Estado e as limitações intrínsecas a essa forma estreitaram o horizonte de
transformações e obliteraram a construção de alternativas anticapitalistas.
Enquanto no Brasil o ensaio neodesenvolvimentista por meio do Estado levado a
cabo pela esquerda organizada terminou com um golpe da direita e com a
subsequente ascensão de um governo autoritário, na Venezuela o regime vem
recrudescendo, fazendo uso crescente da força e se apegando a todo custo à
defesa do Estado e da nação contra tentativas de golpe por parte da direita.
Buscando compreender o ciclo de desenvolvimentismo recente promovido
pelos governos do partido dos trabalhadores por meio de parâmetros da tensão
entre colonialidade e decolonialidade, Rogério de Souza Medeiros e Bruno
Ferreira Freire Andrade Lira levam a cabo um debate sobre os processos de
inclusão econômica e social ocorridos no período. Para os autores, o processo de
“medianização precarizada” ocorrido nos governos petistas não foi capaz de
romper com modelos de desenvolvimento neoliberais próprios da colonialidade
e, por isso, não logrou conter a subsequente reação conservadora e de extrema
direita. Embora algumas políticas públicas de inclusão tenham rompido com
modelos da colonialidade, priorizou-se a lógica da “medianização precarizada”.
Luciana Fernandes apresenta uma discussão sobre o padrão neoliberal
subjacente ao governo de Jair Bolsonaro, indicando os nexos entre racionalidade
neoliberal e crise da democracia liberal, com base em discussões bibliográficas
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que incluem autores como Wendy Brown, Pierre Dardot e Christian Laval. Além
disso, a autora se vale do episódio de resistência ao corte de gastos educacionais
ocorrido no início de 2019 para discutir as potencialidades das revoltas populares
e da ocupação das ruas face ao projeto de precarização e austeridade, com
especial foco no ensino superior público.
Fabio Barbosa dos Santos e Marcela Franzoni discutem o governo de
López Obrador no México sob o prisma dos impasses e limites que a associação
subordinada desse país com os Estados Unidos coloca. Segundo os autores, López
Obrador não deverá modificar o padrão vigente de relações com os Estados
Unidos, buscando benefícios por meio da implementação de uma agenda
doméstica de centro-esquerda pautada pela tentativa de mitigar as mazelas
sociais do país sem enfrentar suas causas estruturais. Assim, seu governo poderia
ser visto como uma versão tardia do progressismo latino-americano, mesclando a
expectativa de crescimento econômico com programas sociais redistributivos,
sem questionar os fundamentos da modernização periférica mexicana.
Como se vê, a coletânea busca tecer os vínculos entre forças sociais e
crises políticas, sob diversas óticas e com base em situações específicas. Grosso
modo, destacam-se as preocupações com o potencial desagregador do
neoliberalismo e seus vínculos com o autoritarismo, assim como o caráter
recorrente das instabilidades democráticas – sintomaticamente expressas nos
golpes desarmados que tomaram a história latino-americana recente.
De todo modo, sem perder de vista a encenação da história mundial, os
autores oferecem um panorama significativo dos recentes desdobramentos do
“dramático destino” latino-americano por meio do debate acerca de suas crises
políticas. Esperamos que o dossiê contribua para a discussão e, em alguma
medida, para a reflexão em torno de possíveis formas de superação das tragédias
ininterruptas da América Latina.
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Recebido: 31-08-2019
Aprovado: 18-02-2020
O que a Ciência Política (não) tem a Dizer sobre o
Neogolpismo Latino-Americano?
Gabriel Eduardo Vitullo1
Fabricio Pereira da Silva2
Qual tem sido a reação da ciência política latino-americana, e
especialmente da ciência política brasileira, diante dos processos de ruptura
institucional de novo tipo sofridos por diversos países da região nesta última
década? Ou, mais concretamente: como a disciplina vem se posicionando frente
ao que aconteceu em Honduras em 2009, no Paraguai em 2012, e no Brasil em
2016? Qual a centralidade que ocupa este tema na agenda de investigação dos
cientistas políticos dos nossos países? Nestas páginas procuraremos responder a
estas perguntas, a partir da análise dos textos publicados nas principais revistas da
área, assim como do exame dos artigos apresentados nos Congressos da
Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e nos Congressos da Associação
Latino-Americana de Ciência Política (ALACIP).
Partimos do pressuposto de que, diante de um fenômeno novo que põe em
xeque a sobrevivência das democracias latino-americanas, a ciência política,
1
Professor Associado no Departamento de Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Possui Graduação em
Ciência Política (1994) e Graduação em Direito (1995), ambas pela Universidad de Buenos Aires
(UBA), Mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS,
1999) e Doutorado em Ciência Política por essa mesma universidade (UFRGS, 2005). Fez Pós-
Doutorado na Universidad Complutense de Madrid (2014-2015). Contato: gvitullo@[Link]
2
Professor Adjunto do Departamento de Estudos Políticos e Professor do Quadro Permanente do
Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (UNIRIO). Colíder do Centro de Análise de Instituições, Políticas e Reflexões da América,
África e Ásia (CAIPORA), Grupo de Pesquisa sediado na UNIRIO. Professor da Maestría en
Estudios Contemporáneos de América Latina da Universidad de la República (UdelaR) do
Uruguai. Graduou-se em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez o
Mestrado em História Social pela UFRJ e o Doutorado em Ciência Política pelo Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ). Fez Pós-Doutorado no Instituto de Estudios
Avanzados da Universidad de Santiago de Chile (2019-2020). Contato:
fabriciopereira31@[Link]
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sempre preocupada justamente com a questão democrática, deveria dar ao
assunto o destaque que este merece, pondo-o, assim, no topo das suas
preocupações acadêmicas e políticas. Algo que, todavia, pareceria não se
verificar na prática: a nossa primeira impressão é que, de fato, a disciplina não
tem prestado ao tema a importância que este exige. Fora eventos como os cursos
sobre “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil” – que congregaram
alguns valorosos cientistas políticos da área como organizadores ou ministrantes –
, pareceriam ser poucos os colegas que se debruçam sobre o fenômeno do
neogolpismo e publicam ou apresentam artigos sobre o tema. E, nas poucas
ocasiões em que o assunto aparece, daria a impressão de que são minoria os que
caracterizam os fatos acontecidos nos três países acima citados como “golpes” ou
“neogolpes”. Estas, então, são as respostas provisórias às perguntas acima
formuladas e que dão lugar à hipótese a ser testada no presente texto: a produção
acadêmica sobre o assunto seria pouco expressiva em termos quantativos, e em
geral tímida na sua capacidade de análise e potencial de crítica.
O artigo se estrutura da seguinte forma. Na primeira parte apresentamos a
metodologia utilizada para a seleção, coleta e análise dos dados empíricos. Na
segunda parte discutimos conceitualmente o fenômeno do neogolpismo,
apontando por que efetivamente são golpes, e de que natureza; adicionalmente
oferecemos algumas reflexões pontuais sobre o caráter inercialmente conservador
da ciência política hegemônica (que marca também sua produção latino-
americana). Na terceira parte expomos sistematicamente os dados empíricos, de
modo a testar a hipótese levantada. Por fim, na conclusão sistematizamos os
resultados finais e propomos uma agenda de pesquisa para os colegas
interessados em colocar os neogolpes no centro do debate da nossa disciplina.
Metodologia
A efeitos de explorar a pertinência ou não da nossa hipótese, realizamos
uma análise bibliométrica do material publicado nas principais revistas de ciência
política latino-americanas – com especial destaque para aquelas editadas no
Brasil – e dos trabalhos apresentados nos Congressos da ABCP e da ALACIP sobre
os processos de ruptura institucional sofridos por Honduras (2009), Paraguai
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(2012) e Brasil (2016). O período do levantamento se estende por quase uma
década: começa em julho de 2009, logo depois de ocorrido o neogolpe em
Honduras, e se prolonga até o final de 2018. O universo pesquisado perfaz um
total de 6.915 materiais publicados em 24 revistas selecionadas e 9.818 trabalhos
programados nas sucessivas edições dos eventos citados.
As publicações brasileiras escolhidas para a análise foram: Dados – Revista
de Ciências Sociais (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro, IESP-UERJ), Revista de Sociologia e Política
(Universidade Federal do Paraná, UFPR), Opinião Pública (Centro de Estudos de
Opinião Pública da Universidade Estadual de Campinas, CESOP/Unicamp),
Revista Brasileira de Ciências Sociais (Associação Nacional de Pós-Graduação e
Pesquisa em Ciências Sociais, ANPOCS), Brazilian Political Science Review
(Associação Brasileira de Ciência Política, ABCP), Novos Estudos CEBRAP (Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento, CEBRAP), Revista Brasileira de Ciência
Política (Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, IPOL-UnB) e
Revista de Ciências Sociais (Universidade Federal do Ceará, UFC).
No caso das revistas editadas em outros países, as publicações analisadas
foram: América Latina Hoy (Universidad de Salamanca, Espanha), Revista de
Ciencia Política (Pontificia Universidad Católica de Chile), Colombia Internacional
(Universidad de los Andes, Colômbia), Latin American Research Review (Latin
American Studies Association, EUA), Revista de la Sociedad Argentina de Análisis
Político (SAAP, Argentina), Revista Mexicana de Ciencias Políticas y Sociales
(Universidad Autónoma de México), Política y Gobierno (Centro de Investigación
y Docencia Económicas, México), Cuadernos del CENDES (Universidad Central
de Venezuela), Nueva Sociedad (Fundación Friedrich Ebert, Argentina), Paraguay
desde las Ciencias Sociales (Universidad de Buenos Aires, Argentina), Novapolis –
Revista Paraguaya de Estudios Políticos Contemporáneos (Centro de Estudios y
Educación Popular ‘Germinal’, Paraguai), Análisis Político (Universidad Nacional
de Colombia), Estudios Políticos (Universidad Nacional Autónoma de México),
Revista Internacional de Investigación en Ciencias Sociales (Universidad
Autónoma de Asunción, Paraguai), Revista Uruguaya de Ciencia Política
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(Universidad de la República, Uruguai) e Apuntes (Universidad del Pacífico,
Perú)3.
No que se refere à ABCP, contemplamos os 1.913 trabalhos incluídos na
programação do Oitavo (Gramado, 2012), do Nono (Brasília, 2014), do Décimo
(Belo Horizonte, 2016) e do Décimo-Primeiro (Curitiba, 2018) Encontros4. E no
caso da ALACIP, consideramos os trabalhos programados para o Quinto (Buenos
Aires, 2010), o Sexto (Quito, 2012), o Sétimo (Bogotá, 2013), o Oitavo (Lima,
2015) e o Nono (Montevidéu, 2017) Congressos.
Para o processo de recuperação dos materiais que guardam relação direta
ou indireta com os acontecimentos de Honduras, Paraguai ou Brasil, fizemos uso
dos mecanismos de pesquisa avançada oferecidos pelo Google e o Google
Scholar. No processo de identificação e seleção de ditos materiais nos servimos
das seguintes expressões de busca: “golpe”, “coup”, “neogolpe”, “impeachment”,
“impedimento”, “impedimiento”, “juicio político”, “juízo político”,
“afastamento”, “deposição”, “deposición”, “derrocamiento”, “ruptura
democrática”, “Zelaya”, “Lugo”, “Dilma”, “Rousseff”, “Honduras”, “Paraguai”,
“Brasil”, “2009”, “2012”, “2016”, nas suas mais diversas combinações. Vale
esclarecer que neste processo não restringimos a busca a um campo específico
(títulos, resumos ou palavras-chave), senão que foi realizada sobre os textos na
íntegra. Isto nos permitiu selecionar não somente os textos e trabalhos focados na
análise dos fatos já mencionados acontecidos em Honduras, Paraguai e Brasil,
mas também identificar aqueles materiais que, mesmo não tendo como alvo o
exame desta temática, aludem, de algum modo, a eles.
Feita a recuperação e contabilização de todos esses materiais, procedemos
à análise dos mesmos. Com o auxílio do programa Doc Fetcher e dos dispositivos
de busca oferecidos pelo Adobe Reader, localizamos as expressões de pesquisa
acima elencadas em cada um dos materiais para, ato contínuo, proceder à leitura
da passagem onde tais expressões se faziam presentes. Quando necessário, e
como complemento ao exame do contexto em que apareciam os termos assim
3
Mesmo não sendo editadas na América Latina, as revistas América Latina Hoy e Latin American
Research Review também fazem parte da nossa seleção, dada a sua importância para o
desenvolvimento da ciência política na região.
4
Infelizmente não foi possível ter acesso aos anais do Sétimo Congresso da ABCP, realizado em
Recife, em 2010.
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identificados, lemos fragmentos maiores, o resumo do artigo ou as suas palavras-
chave e, em casos muito pontuais, o texto na íntegra. Istol nos possibilitou, na
sequência, passar à etapa da classificação de todos esses materiais. de todos esses
materiais. Esta classificação foi orientada pelo critério de maior ou menor
aproximação ao tema que nos ocupa, por qual ou quais dos três países são
contemplados em cada um dos materiais analisados e pelo tipo de terminologia
utilizada para se referir ao que aconteceu nos três países: Golpe? Neogolpe?
Impeachment? Juizo Político? Derrubada? Deposição? Queda? Ruptura
Institucional? Quanto a este último caso, e a efeitos de melhor testar a nossa
hipótese, optamos por agrupar tais rótulos no par dicotômico “Golpe vs
Impeachment”.
Sobre Golpes e Neogolpes
Uma questão central, ao abordar o conceito de “Golpe de Estado”, diz
respeito a sua historicidade. Como bem destaca Bianchi (2016), o conceito de
golpe de Estado (Coup d’État) foi formulado por Gabriel Naudé em seu
Considérations politiques sur les coups d’État, de 1639. Nessa obra, o golpe era
entendido como uma ação do “príncipe”, justificada em nome da razão de
Estado. Era um ato de força, em defesa do bem público, que se definia por seu
caráter extraordinário e pelo elemento surpresa. O conceito, porém, só viria
ganhar popularidade dois séculos mais tarde, na França do século XIX, quando
Alexis de Tocqueville e Karl Marx desenvolveram suas análises críticas sobre o
processo político protagonizado por Luís Napoleão, em 1851.
Mas a noção de golpe só assumiria as feições com as quais estávamos
acostumados a associá-la no século XX, como fruto da interpretação das rupturas
institucionais encabeçadas pela corporação militar, em especial na segunda
metade do século. O destaque, neste caso, deve ser dado ao livro Coup d’État: a
practical handbook, de Edward Luttwak, publicado em 1968 (Bianchi, 2016).
Nesta obra o golpe se define como um ato realizado por setores do Estado que
não integram o governo (burocracia, forças armadas, policiais) de modo a se
autonomizar do poder eleito, e tem como elemento central o uso da força militar.
De acordo com Bianchi (2016),
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o sujeito do golpe de estado moderno é (...) uma fração da burocracia estatal. O
golpe de estado não é um golpe no Estado ou contra o Estado. Seu protagonista se
encontra no interior do próprio Estado, podendo ser, inclusive, o próprio
governante. Os meios são excepcionais, ou seja, não são característicos do
funcionamento regular das instituições políticas. Tais meios se caracterizam pela
excepcionalidade dos procedimentos e dos recursos mobilizados. O fim é a
mudança institucional, uma alteração radical na distribuição de poder entre as
instituições políticas, podendo ou não haver a troca dos governantes.
Sinteticamente, golpe de estado é uma mudança institucional promovida sob a
direção de uma fração do aparelho de Estado que utiliza para tal de medidas e
recursos excepcionais que não fazem parte das regras usuais do jogo político (s.
p.).
Isso dá crédito a Moreno Velador e Figueroa Ibarra (2019, p. 152) quando
afirmam que, “[...] em que pese o fato de que falar de Golpe de Estado implique
fazer alusão ao Estado, a deposição levada a cabo é, na verdade, de um governo
e não de um Estado”. Caberia então pensar o golpe como uma ruptura
impulsionada desde o interior do próprio aparato estatal que, na maior parte dos
casos, visa mudar a configuração governamental. O que nos leva a coincidir com
Renato Perissinoto (2016, p. 2), quando sustenta que um golpe, portanto, “é
essencialmente, a substituição de um governo por meio de procedimentos não
previstos; um golpe de Estado é basicamente o rompimento das regras do jogo
sucessório”.
No mesmo diapasão se expressa Carlos Barbé, no Dicionário de
política organizado por Norberto Bobbio, Niccola Mateucci e Gianfranco
Pasquino publicado originalmente em 1983. O autor observa que o nosso
entendimento de golpe de Estado precisa se dar à luz do constitucionalismo
moderno. Para ele, o golpe tem como momento central a substituição do governo
em desacordo com as regras constitucionais, e se dá historicamente através de
integrantes do Estado. Seu agente, portanto, não precisa estar necessariamente
vinculado às forças armadas. Porém, se estas não são o agente principal (como
eram na maioria dos casos), devem ao menos assumir uma atitude de
“neutralidade-cumplicidade” (Barbé, 2010, p. 547).
É no sentido de um tipo de golpe que se diferencia particularmente dos
“golpes militares” do século XX que tem optado pela expressão “neogolpismo”
(Tokatlian, 2009, 2012; Huertas, Cáceres, 2014; Lemoine, 2014; Soler, 2015;
Jinkings, Doria, Cleto, 2016; Perissinotto, 2016; Cannon, 2016; Reis, 2017;
Miguel, 2018; Souza, 2018; entre outros) para tratar dos novos processos de
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desestabilização e derrubada de governos legitimamente eleitos. Este novo tipo
não tem a participação direta dos militares, e se processa através de
interpretações distorcidas das instituições – particularmente do mecanismo do
impeachment quando este é constitucionalmente previsto –, combinando
estratégias institucionais com a mobilização de setores da sociedade civil através
dos tradicionais e dos novos meios de comunicação. Tais características têm
como intuito revestir de alguma legalidade e legitimidade estratégias não-
eleitorais de chegada ao poder.
Não prentedemos analisar em profundidade os diversos conceitos de
golpe, mas apenas ilustrar sua historicidade. Se o golpe se metamorfoseou e ao
longo do tempo foi nomeando fenômenos distintos, por que essa transfomação
não poderia continuar ocorrendo? A ciência política latino-americana pareceria
ter ficado aferrada a um tipo de golpe muito frequente durante boa parte do
século XX no continente, porém deveria superar esse paradigma para, de tal
modo, conseguir compreender e caracterizar melhor o que tem ocorrido nestes
últimos anos em países como Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016)
ou, mais recentemente, em casos como o da Bolívia (2019).
Assim sendo, consideramos que caberia entender o “neogolpismo” como
um tipo de golpe de Estado que preserva certas aparências legais e se processa
preferencialmente por meio das instituições vigentes e do cumprimento de ritos
formais – mesmo que estas possam, na sequência, eventualmente sofrer
modificações, durante a etapa cinzenta que se abre a partir de então.
Diferentemente dos golpes do século passado, tais formas mais processuais e mais
sutis no uso concentrado da força tornam mais difícil sua condenação aberta pela
comunidade internacional e até facilitam o reconhecimento dos governos
resultantes da nova modalidade de golpe pelas potências estrangeiras que, por
ação ou omissão, apoiaram tais rupturas. Quanto aos atores dos novos golpes,
não são diferentes daqueles que preparavam e executavam os golpes “clássicos”,
porém o peso específico e o lugar que ocupa cada um deles tendem a mudar.
O “novo golpismo” está encabeçado mais abertamente por civis e conta com o
apoio tácito (passivo) ou a cumplicidade explícita (ativa) das Forças Armadas,
pretende violar a constituição do Estado com uma violência menos ostensiva,
procura preservar uma aparência institucional mínima (por exemplo, com o
Congresso em funcionamento e/ou a Corte Suprema temporariamente intacta),
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nem sempre envolve uma grande potência (por exemplo, Estados Unidos) e aspira
mais a resolver um impasse social ou político potencialmente ruinoso que a
fundar uma nova ordem (Tokatlian, 2009).
Nos “neogolpes”, então, se apresentam como atores principais os setores
políticos conservadores, atuando através do Parlamento e do Judiciário (aparato
de segurança incluído). Adicionalmente, são sustentados pelos poderes fáticos da
burguesia local (agro/industrial/rentista, atualmente constituindo o mesmo ator
hibridizado), setores religiosos e os grandes oligopólios de comunicação – com o
(por enquanto) ainda difícil de comprovar, mas muito provável apoio de think
tanks de direita internacionais e do governo dos EUA. Essas novas modalidades
de golpe têm sido nomeadas de muitas maneiras: golpe “brando” ou “branco”,
golpe “institucional”, golpe “parlamentar”... São termos que nem sempre definem
muito mais além da sutileza com a qual estes processos são levados adiante. A
caracterização de golpe “parlamentar”, por exemplo, pode que nem sempre seja
correta, dado o papel de protagonista que cabe, também, ao Judiciário na posta
em prática e reconhecimento de todo o processo.
Valeria insistir, portanto, na determinação dos novos elementos que traz o
“neogolpismo” e que marcam suas diferenças com o padrão outrora tão frequente
na região. Barbé (2010) menciona duas perguntas sobre o golpe: “quem o faz” e
“como se faz”. À primeira pergunta, podemos responder que seguem sendo
agentes do próprio Estado – o que é essencial ao conceito. A mudança que vem
ocorrendo tem relação com a segunda pergunta. O “como se faz” é que está se
transformando.
Talvez a insistência nas instituições e nos procedimentos guarde relação
com a concepção da democracia predominante na nossa disciplina, na medida
em que esta é definida, de forma bastante acrítica, como um mero conjunto de
instituições e procedimentos já estabelecidos. Desse modo, preservados
formalmente certos simulacros de instituições e procedimentos, não se poderia
afirmar categoricamente que a democracia foi de todo abandonada. Portanto, a
ideia de “golpe institucional” tem mais a ver com o “como se faz” do que com
“quem faz” – os golpes sempre ocorreram através de agentes do próprio Estado
(soberano, Forças Armadas, burocracia, parlamentares etc.), porém agora o
modus operandi seria mais complexo e a princípio menos violento.
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Em toda a América Latina, a ciência política institucionalizou-se tendo
como principal referência a forma em que foi sendo construída e definida a
disciplina nos círculos acadêmicos dos EUA, mantendo com estes uma forte
relação de identidade – e eventualmente de dependência. Isto leva a entender,
em grande medida, o porquê do predomínio de certas temáticas dentro da nossa
área em detrimento de outras. E fundamentalmente explica também o porquê de
certos enfoques serem predominantes, como acontece com a perspectiva
institucionalista (ou neoinstitucionalista) (Souza, Valmore, 2016; Feres Jr., 2000).
Concretamente, vemos que a disciplina, no seu processo de
institucionalização e autonomização, tem adotado como um dos seus principais
temas de pesquisa a questão democrática e as instituições que foram sendo
associadas a ela em sua vertente liberal (partidos, parlamentos, sistemas e
processos eleitorais, relação entre os poderes, etc), com destaque para os
processos de transição, consolidação e funcionamento deste regime. A forte
relação da ciência política com a democracia levou a que esta fosse definida –
seguindo o modelo construído nos EUA – como uma disciplina a serviço da
“educação dos cidadãos para a democracia” (Farr, 1988 apud Feres Jr., 2000, p.
98). Esta interpretação foi reforçada pela leitura que se impôs da história da
disciplina naquele país, que levou a sustentar a tese de que “A ciência política
apareceu com o crescimento da democracia representativa. A conclusão lógica a
ser tirada é que o desenvolvimento da ciência política, da maneira pela qual a
entendemos, depende do futuro da democracia representativa” (Anckar,
Berndtson, 1987 apud Feres Jr., ibid., p. 99).
Entretanto, apesar da questão democrática ter se constituído em tema
central para a disciplina, estranhamente – ou nem tanto – a ciência política tem
dado pouco relevo aos processos de regressão ou involução autoritária que vêm
sofrendo vários países do continente – em grande medida nem vem lendo-os
dessa maneira. A “desconsolidação” dos regimes democráticos latino-americanos
não parece suscitar um grau de interesse minimamente equiparável ao enorme
interesse gerado anteriormente pela “consolidação” desses mesmos regimes entre
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os “transitólogos” e “consolidólogos” – hoje “qualidólogos”5. Mais estranho pode
parecer se considerarmos que o enfoque teórico-metodológico prevalescente,
como destacamos, é o neoinstitucionalista, sendo que foi justamente através de
algumas das consideradas instituições-chave dos regimes democráticos que foram
efetivadas as rupturas que aqui chamamos de neogolpistas. A estranheza se
dissipa, contudo, ao verificar o pouco diálogo que a ciência política estabelece
com outras disciplinas do campo das Ciências Humanas e Sociais e a falta de
importância do Estado como objeto de estudo. Consideramos a ciência política
impregnada por uma crescente tendência à sofisticação metodológica, que não se
traduz, na maioria dos casos, em avanços significativos para a disciplina,
especialmente quanto à dimensão teórica. Desse modo, produz-se uma
incapacidade de compreender os processos disruptivos, e de um modo geral de
agregar, analisar e entender a dimensão do conflito. Esse formalismo excessivo se
traduz numa ênfase na questão institucional, nas formas, sem conseguir entender
as forças sócio-políticas em luta. Logo, isso deriva numa incapacidade tanto de
predizer quanto de explicar. Mesmo quando o próprio jogo é rompido, não se
consegue observar nem muito menos entender o que ocorreu, e
consequentemente nomear os fenômenos como o que eles são.
Em resumo, quando o neogolpismo se encontra com o caráter
conservador e formalista da ciência política hegemônica, temos ou um
incômodo silêncio ou uma envergonhada adesão, conforme procuraremos
comprovar com os dados empíricos apresentados na próxima seção. Abordar
esses golpes como o que efetivamente são exige de nós, politólogos, uma
profunda reflexão (inclusive uma autocrítica) em torno das fundações sobre as
quais vem se construindo a nossa disciplina, particularmente na América Latina,
tão marcada pela influência estadunidense.
Um Panorama do (quase não) Debate da Ciência Política sobre os Neogolpes
Nesta terceira parte do artigo, passamos a examinar o material empírico.
Como já mencionado, foi feito um levantamento em oito revistas de ciência
5
Para uma abordagem crítica sobre a “transitologia”, a consolidologia e a “qualidologia”,
sugerimos consultar Vitullo (2001) e Pereira da Silva (2017).
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política brasileiras e em dezesseis revistas estrangeiras da área, abrangendo um
universo total de 225 números e 2.398 materiais publicados, no caso das
primeiras, e um total de 401 números e 4.517 materiais, no caso das segundas,
ao longo da última década (2009-2018)6 ). Somando os dados referentes às
revistas brasileiras e às revistas publicadas no exterior, chegamos a um total geral
de 626 números e 6.915 materiais publicados, de acordo com o que detalhamos
a seguir (quadros 1 e 2):
Quadro 1: Revistas brasileiras (2009-2018)
Revista Qualis* Números Materiais
publicados publicados
Revista Dados A1 38 295
Revista de Sociologia e Política A1 36 373
Opinião Pública A1 24 220
Revista Brasileira de Ciências Sociais A2 28 423
Brazilian Political Science Review A2 25 195
Novos Estudos CEBRAP A2 29 333
Revista Brasileira de Ciência Política B1 26 302
Revista de Ciências Sociais (UFC) B3 19 257
Total 225 2.398
Fonte: Elaboração própria.
* Qualis do quadriênio 2013-2016.
Quadro 2: Revistas estrangeiras (2009-2018)
Revista Qualis* Números Materiais
publicados publicados
América Latina Hoy (Espanha) A2 28 441
Revista de Ciencia Política (Chile) A2 27 313
Colombia Internacional (Colômbia) A2 27 232
Latin American Research Review (EUA) A2 38 534
Revista SAAP (Argentina) B1 18 225
Revista Mexicana de Ciencias Políticas y Sociales B1 28 377
(México)
Política y Gobierno (México) B1 19 164
Cuadernos del CENDES (Venezuela) B1 28 303
Nueva Sociedad (Venezuela) B2 58 733
Revista Paraguay desde las Ciencias B3 9 55
(Argentina)**
Revista Paraguaya de Estudios Políticos B3 11 73
Contemporáneos / NOVAPOLIS
Análisis Político (Colômbia) – 28 273
Estudios Políticos (México) – 27 264
Revista Internacional de Investigación en – 19 169
Ciencias Sociales (Paraguai)
Revista Uruguaya de Ciencia Política (Uruguai) – 17 135
6
Não consideramos o que foi publicado no primeiro semestre de 2009, dado que o neogolpe em
Honduras só ocorreu em junho daquele ano.
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DOI: 10.21057/10.21057/repamv14n2.2020.26975
Apuntes (Peru) – 19 226
Total 401 4.517
Fonte: Elaboração própria.
* Qualis do quadriênio 2013-2016.
** A revista começou a ser publicada em 2012, portanto o períodocontemplado, neste caso, foi
2012-2018.
Entre as revistas brasileiras, procuramos incluir as mais representativas
dentro das melhor avaliadas no sistema Qualis: três que ostentam conceito A1,
outras três com conceito A2 e uma com conceito B1. Fora estas, optamos também
por incluir no nosso universo a Revista de Ciências Sociais (UFC), dado que foi a
única revista brasileira que publicou vários textos sobre o tema (incluindo um
dossiê), com uma perspectiva que destoa da perspectiva predominante. Já no caso
das revistas publicadas no exterior, levamos em consideração o conceito Qualis e
a necessidade de contemplarmos os países onde a disciplina está mais
solidificada, dando espaço também na nossa análise a duas publicações que,
mesmo sem serem editadas na América Latina, estão entre as mais prestigiosas
dentre as que têm por foco a política da região.
Dentro desse vasto universo, procuramos identificar por um lado os textos
que abordassem, de modo direto, os neogolpes sofridos por Honduras, Paraguai e
Brasil, observando a forma em que fazem referência aos mesmos. E, por outro,
buscamos detectar e quantificar aqueles materiais acadêmicos que, mesmo não
tratando diretamente do tema, fizessem alguma alusão – destacada ou até
marginal – a tais acontecimentos. Consequentemente, exibimos a seguir os
principais resultados obtidos com este levantamento.
No caso dos encontros da ABCP e dos congressos da ALACIP, foram
apresentados 1.913 e 7.905 trabalhos respectivamente, conforme detalhamento a
seguir:
Quadro 3: Encontros da Associação Brasileira de Ciência Política (2012-2018)
Edição Ano Trabalhos
VIII Encontro – Gramado 2012 510
IX Encontro – Brasília 2014 338
X Encontro – Belo Horizonte 2016 561
XI Encontro – Curitiba 2018 504
Total 1.913
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Fonte: Elaboração própria.
Quadro 4: Congressos da Associação Latino-Americana de Ciência Política (2010-2017)
Edição Ano Trabalhos
V Congresso – Buenos Aires 2010 1.230
VI Congresso – Quito 2012 1.842
VII Congresso – Bogotá 2013 1.416
VIII – Congresso – Lima 2015 1.468
IX Congresso – Montevidéu 2017 1.949
Total 7.905
Fonte: Elaboração própria.
O neogolpismo nas revistas de ciência política brasileiras
Dentro do período de nove anos e meio pesquisado, identificamos, nas
oito revistas brasileiras selecionadas, 31 textos (26 artigos acadêmicos, 3 resenhas
e 2 apresentações de dossiê) que abordam diretamente o tema que ocupa a nossa
atenção. Isto dentro de um conjunto que chega a um total de 2.398 materiais, o
qual representa, portanto, apenas 1,3% desse universo. Tal constitui, sem
dúvidas, um índice baixíssimo para uma disciplina que tem o tema da
democracia como seu principal objeto de estudo. E mesmo se restringirmos o
universo em cada um dos três casos nacionais ao material publicado com
posterioridade a cada um dos respectivos neogolpes, ainda assim os percentuais
continuam sendo muito reduzidos: somente 0,3% dos 2.398 textos publicados em
todo o período analisado abordam o caso de Honduras, 0,6% dos 1.622 textos
publicados depois de junho de 2012 tratam do caso paraguaio e 5,2% dos 575
textos publicados depois de agosto de 2016 têm seu foco no caso brasileiro. Mas
não é este apenas o único fato que chama a atenção. Há outras questões que
também devem ser destacadas e que passamos a listar a seguir, a partir da leitura
dos dados apresentados no quadro 5:
1. Há quase paridade entre o número de materiais que definem o que
aconteceu nos três casos citados como “golpe” (16) e aqueles que se valem
da expressão “impeachment” ou equivalentes (15), o que deixa em evidência
a relutância de setores importantes da ciência política brasileira em utilizar
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uma expressão mais condizente com o que realmente aconteceu nos três
países examinados.
2. No que diz respeito à distribuição dos 31 materiais segundo o
conceito Qualis atribuido às revistas onde estes foram publicados, se verifica
um equilíbrio entre o número de ocorrências encontrado em revistas
classificadas como A1 e A2 e o número de ocorrências em revistas
classificadas como B1 e B3: 15 textos no primeiro caso, 16 no segundo. Com
a ressalva, aqui, de que ao termos avaliado seis revistas que estão nos estratos
mais altos do Qualis e apenas duas classificadas como B1 e B3, poderia se
pensar que haveria uma maior abertura para publicação de artigos sobre essa
temática em revistas tidas como de “menor relevância”.
3. Já no que se refere aos países citados nesses 31 materiais, vale
destacar que 7 tratam do caso de Honduras, 9 do Paraguai e 29 se debruçam
sobre o caso brasileiro, somando ao todo 45 ocorrências (em vários destes
textos o foco está posto em mais de um dos três países aqui analisados, o que
explica que a soma supere os 31 acima mencionados).
4. Ao examinar, para cada um dos três países, o tipo de caracterização
ou termo escolhido para se referir aos fatos, se observa um claro predomínio
da qualificação de “golpe” nos casos de Honduras e do Paraguai: em 5 dos
textos o que aconteceu em Honduras em 2009 é definido como um “golpe” e
apenas em 2 optou-se pela expressão “impeachment”; e em 6 textos os
acontecimentos de 2012 que levaram à deposição de Fernando Lugo são
caracterizados como um “golpe”, enquanto 3 usam a expressão
“impeachment”. Já no caso brasileiro, em que pese a utilização da expressão
“golpe” também ser majoritária, as proporções mudam de modo bastante
significativo: em 16 textos os fatos que levaram à derrubada da presidenta
legitimamente eleita são definidos como “golpe” e em 13 como
“impeachment”.
5. É possível constatar que nas três revistas analisadas com conceito A1
no Qualis (Dados, Revista de Sociologia e Política e Opinião Pública) há
apenas 5 artigos dedicados a examinar o novo golpismo latino-americano e
para o qual 4 utilizam o rótulo de “impeachment” e apenas um o de “golpe”.
Já nas revistas com conceito Qualis A2 encontramos 13 artigos que tratam do
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tema, sendo que nelas, contrariamente, há mais ocorrências da expressão
“golpe” que “impeachment” (7 e 6, respectivamente).
6. No caso das revistas com conceito Qualis B1 e B3, encontramos
proporções bastante diferentes, a ponto de serem contabilizados apenas 6
textos em que os episódios de 2016 são definidos como “impeachment” e 10
como “golpe”. Neste quesito, ainda, vale salientar que não fosse a Revista de
Ciências Sociais, da Universidade Federal do Ceará (Qualis B3), o número
cairia sensivelmente: dos 31 textos que abordam o tema do neogolpe no
Brasil, 15 foram publicados nessa revista.
7. Os 16 materiais sobre a temática que nos ocupa publicados nas
revistas A1, A2 e B1 (a Revista Dados/Qualis A1, Revista Brasileira de
Ciências Sociais/Qualis A2, a Brazilian Political Science Review/Qualis A2, a
Novos Estudos CEBRAP/Qualis A2 e a Revista Brasileira de Ciência
Política/Qualis B1) constituem apenas 1,0% dos 1.548 materiais veiculados
nas cinco revistas ou, o que é ainda mais preocupante, representam um
insignificante 0,7% se considerarmos o conjunto de materiais publicados na
década em todos os periódicos sob análise, com exceção da revista da UFC.
Como foi dito, incluímos esta revista com o intuito de apresentar um
contraponto aos periódicos melhor avaliados. Excluindo-a da análise,
chegamos a um quadro mais fiel (e alarmante) da situação em que se
encontra a produção na área.
Quadro 5 – Revistas brasileiras (2009-2018) / Textos que tratam diretamente dos casos
de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil (2016) – Por país, Golpe ou
Impeachment e revista.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
Revista – – – – – – – 1 1 – 1 1
Dados 100,0 100,0% 100,0 100,0
% % %
Revista de – 1 1 – 1 1 – – – – 2 2
Sociologia e
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0 100,0
Política
% %
Opinião – – – – 1 1 1 – 1 1 1 2
Pública
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 50% 50% 100,0
%
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DOI: 10.21057/10.21057/repamv14n2.2020.26975
Revista – – – – – – 1 2 3 1 2 3
Brasileira de
33,3% 66,7% 100,0% 33,3% 66,7% 100,0
Ciências
Sociais %
Brazilian 1 – 1 1 – 1 1 – 1 3 – 3
Political
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0 100,0
Science
Review % %
Novos – – – – – – 3 4 7 3 4 7
Estudos
42,9% 57,1% 100,0% 42,9% 57,1% 100,0
CEBRAP
%
Revista – – – – – – – 1 1 – 1 1
Brasileira de
100,0 100,0% 100,0 100,0
Ciência
Política % % %
Revista de 4 1 5 5 1 6 10 5 15 19 7 26
Ciências
80,0% 20% 100,0% 83,3% 16,7% 100,0% 66,7% 33,3% 100,0% 73,1% 26,9% 100,0
Sociais UFC
%
Total 5 2 7 6 3 9 16 13 29 27 18 45
71,4% 28,6% 100,0% 66,7% 33,3% 100,0% 55,2% 44,8% 100,0% 60,0% 40,0% 100,0
%
Fonte: Elaboração própria.
Nota: O número de trabalhos é 31, porém a soma alcança os 45 devido a que em vários destes
aparece mencionado mais de um país.
Quando a atenção é posta nas referências feitas aos fatos acontecidos nos
três países acima citados, seja em textos que abordam diretamente a temática,
seja em textos que tratam de outros assuntos mas que fazem alguma alusão –
mesmo que marginal – a tais acontecimentos, resulta importante, à luz dos dados
apresentados no quadro 6, fazer as seguintes considerações :
1. Ao contemplar não apenas os materiais focados na análise do que
aconteceu em Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016), mas também
aqueles que mesmo tratando de outros temas fazem alguma referência a tais
casos, se chega a um total de 64 menções (equivalente a 4,1% de todo o
material examinado)7. Destas, 23 definem tais acontecimentos como “golpe”,
enquanto uma quantidade bastante mais elevada, somando um total de 41
ocorrências, faz uso da expressão “impeachment”.
7
Se refizermos o cálculo para cada país, tomando em consideração somente o período posterior
ao respectivo neogolpe, temos que para o casos de Honduras e Paraguai os textos publicados
representam apenas 0,4% e 0,6% dos seus respectivos intervalos temporais. Já no caso do Brasil, a
proporção sobe aos 10,4% dos 575 materiais publicados a partir do segundo semestre de 2016, o
que, mesmo sendo um percentual bastante mais elevado que para os outros dois países, continua
constituindo uma mais do que tímida proporção.
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2. Quando desagregamos esse total e concentramos o foco apenas nos
materiais acadêmicos cujo tema principal não é o do neogolpismo, logo
chama a atenção o predomínio da expressão “impeachment”, em detrimento
da expressão “golpe: 7 ocorrências para “golpe” e 26 ocorrências para
“impeachment”, em uma proporção de quase 4 por 1. O que permitiria
concluir que em textos que não guardam relação direta com o tema
específico a tendência é a de aderir acriticamente ao discurso legitimador
produzido pelos próprios governos fruto dos neogolpes.
3. Tal predomínio no uso da expressão “impeachment” se verifica nos
diferentes estratos Qualis das publicações analisadas: nas revistas A1 há uma
nítida maioria que usa a expressão “impeachment” na hora de se referir a tais
acontecimentos, em proporção de 15 contra 2, nas revistas A2 a expressão
“impeachment” ou equivalentes também é majoritária, em proporção de 8 x 4
e situação análoga se verifica na revista B1, onde a relação é de 3
“impeachment” x 1 “golpe”. A B3 aqui não é listada, pois não há artigos que
façam qualquer menção indireta ou marginal ao tema do neogolpismo.
4. Ao desagregarmos ainda mais esta parte do universo sob análise e
examinarmos as menções feitas a cada um dos três países, constatamos que o
caso paraguaio apenas é citado em 1 material, Honduras mal aparece (com 2
textos que usam a expressão “golpe” e 1 a palavra “impeachment”), e o Brasil
concentra quase toda a atenção. Sendo que, neste último caso, na grande
maioria dos materiais que fazem alguma menção, mesmo que marginal, aos
acontecimentos de 2016, seus autores optam pela expressão “impeachment”
(25 ocorrências contra apenas 5 que qualificam tais acontecimentos como
“golpe”), o qual evidencia, mais uma vez, a resistência que as correntes
majoritárias da ciência política brasileira têm em reconhecer os
acontecimentos de 2016 como o que eles foram: um golpe de Estado de novo
tipo.
Quadro 6 – Revistas brasileiras (2009-2018) / Textos que, sem tratar diretamente do
tema, fazem alguma menção aos casos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil
(2016) – Por país, Golpe ou Impeachment e revista.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
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DOI: 10.21057/10.21057/repamv14n2.2020.26975
Revista – – – – – – 1 1 2 1 1 2
Dados
50,0% 50,0% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0%
Revista de – – – – 1 1 – 3 3 – 4 4
Sociologia
100,0% 100,0 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
e Política
% –
Opinião – – – – – – 1 11 12 1 11 12
Pública
8,3% 91,7% 100,0% 8,3%– 91,7% 100,0%
Revista – – – – – – – 1 1 – 1 1
Brasileira
100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
de
Ciências
Sociais
Brazilian – – – – – – – 3 3 – 3 3
Political
100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
Science
Review
Novos 1 – 1 – – – 3 4 7 4 4 8
Estudos
100,0 100,0% 42,8% 57,1% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0%
CEBRAP
%
Revista 1 1 2 – – – – 2 2 1 3 4
Brasileira
50,0% 50,0% 100,0% 100,0% 100,0% 25,0% 75,0% 100,0%
de Ciência
Política
Revista de – – – – – – – – – – – –
Ciências
Sociais
UFC
Total 2 1 3 – 1 1 5 25 30 7 27 34
66,7% 33,3% 100,0% 100,0% 100,0 16,7% 83,3% 100,0% 20,6% 79,4% 100,0%
%
Fonte: Elaboração própria.
Nota: O número de trabalhos é 33, porém a soma alcança os 34 devido a que há um texto em
que aparecem mencionados simultaneamente os casos do Paraguai e do Brasil.
O neogolpismo nas revistas de ciência política estrangeiras
No caso das outras dezesseis revistas selecionadas, encontramos ao todo
57 materiais que tratam diretamente do neogolpismo latino-americano (50 artigos
e 7 resenhas), sobre um universo de 4.517 materiais publicados entre julho de
2009 e final de 2018, o que representa 1,2% para o acumulado dos três países ou
0,7% do publicado sobre cada um com posterioridade ao respectivo neogolpe
(proporções, portanto, tão ou mais exíguas que as já vistas na análise das revistas
brasileiras). A seguir, com base nos dados exibidos no quadro 7, serão destacados
outros fatos relevantes:
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1. Nos 57 materiais que abordam de modo direto o tema dos neogolpes na
região, uma ampla maioria faz uso da expressão “golpe”, enquanto são
minoria os que se valem da expressão “impeachment” e equivalentes (“juicio
político” e “interrupções presidenciais”, entre outras): somam 44 os primeiros
contra apenas 13 os segundos. Verifica-se, portanto, um contraste bastante
importante com as revistas brasileiras: longe da paridade, há, no caso das
revistas publicadas no exterior, um claro predomínio da caracterização de
“golpe”, em uma proporção em que chega a 77,2% dos materiais analisados.
2. Dos três casos, foi o de Honduras o que maior atenção recebeu nas revistas
publicadas no exterior, com 32 materiais (quase a metade) que fazem
referência a ele, seguido pelo Paraguai, com 25, e o Brasil, com apenas 10, o
qual contrasta fortemente com o as revistas brasileiras já analisadas. O fato do
caso brasileiro ser mais recente pode que explique, em parte, o menor
número de ocorrências.
3. Ao analisar de forma mais específica o tratamento dado a cada país, há
uma diferença muito expressiva entre a caracterização que é feita sobre os
casos de Honduras e Paraguai por um lado e o do Brasil, por outro. Dos 32
artigos que abordam o processo hondurenho, 29 se referem a ele como um
“golpe” (90,6%) e dos 25 que tratam do caso paraguaio, 19 também o
caracterizam desse modo (76,0%), já no caso brasileiro apenas 1 de 10 assim
o consideram (pífios 10,0%). Pode que o fato de ter havido uma participação
mais explícita dos militares seja o principal fator explicativo, no caso de
Honduras, para ter optado majoritariamente pela caracterização de “golpe”
para se referir aos acontecimentos de 2009. Porém esta não seria uma
variável de peso na hora de entender a enorme diferença que há ao comparar
os casos paraguaio e brasileiro: terá sido, então, a insólita velocidade com a
qual se processou o afastamento de Fernando Lugo da presidência paraguaia
o elemento explicativo que motivou o predomínio da expressão “golpe”,
diferentemente do que aconteceu para o caso brasileiro?
4. Por último, ao focar na análise em cada uma das 16 revistas selecionadas,
chama a atenção o fato de que mais da metade dos materiais que abordam o
tema do neogolpismo latino-americano se concentrem em apenas duas
revistas: a Revista de Ciencia Política, do Chile, com 12 artigos, e a revista
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45
DOI: 10.21057/10.21057/repamv14n2.2020.26975
Nueva Sociedad, com 21 artigos. Em ambas, 100,0% dos textos que tratam
dos casos hondurenho e paraguaio os caracterizam como “golpe”. O mesmo
não acontece no caso brasileiro: na primeira revista citada, os 3 artigos que
abordam a derrubada de Dilma Rousseff fazem uso da expressão
“impeachment”, de forma análoga ao que acontece com 3 dos 4 textos que
abordam o tema na revista Nueva Sociedad. Vale destacar, ainda, que fora a
Revista de Ciencia Política, as outras 3 publicações conceituadas como A1 no
Qualis mal dão atenção ao assunto: na Latin American Research Review
(LAAR) apenas um dentre 534 artigos publicados no período trata
diretamente do tema (no caso, sobre Honduras), na América Latina Hoy
(revista que é a principal referência europeia de estudos latino-americanos)
num universo de 441 textos publicados entre 2009 e 2018, apenas 2 tratam
do caso hondurenho (definido como “golpe”) e 1 aborda o caso do Paraguai
(tido como um caso de “impeachment”) e, no caso da revista Colombia
Internacional há apenas 3 textos entre os 232 publicados no período que
tratam o tema (todos sobre os acontecimentos de Honduras, de 2009,
definidos como “golpe”).
Quadro 7 – Revistas estrangeiras (2009-2018) / Textos que tratam diretamente dos
casos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil (2016) – Por país, Golpe ou
Impeachment e revista.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
América 2 1 3 – 1 1 – – – 2 2 4
Latina Hoy 66,7% 33,3 100,0% 100,0% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0%
%
[Link] 4 – 4 5 – 5 – 3 3 9 3 12
Ciencia 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100% 100% 75% 25% 100%
Política
Colombia 3 – 3 – – – – – – 3 – 3
Internacion 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
al
Latin 1 – 1 – – – – – – 1 1
American 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
Research
Review
Revista 1 – 1 – – – – 1 1 1 1 2
SAAP 100,0% 100,0% 100,0 100,0 50.0% 50,0% 100,0%
% %
[Link] 1 – 1 1 – 1 – – – 2 – 2
Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas V.14 N.2 2020 ISSN: 1984-1639
46
DOI: 10.21057/10.21057/repamv14n2.2020.26975
na de 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
[Link]íticas
y Sociales
Política y – 1 1 – 1 1 – 1 1 – 3 3
Gobierno 100, 100,0% 100,0% 100,0% 100,0 100,0 100,0% 100,0%
0% % %
Cuadernos – – – 1 – 1 – – – 1 – 1
del 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
CENDES
Nueva 13 – 13 4 – 4 1 3 4 18 3 21
Sociedad 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 25,0% 75,0% 100,0 85,7% 14,3% 100,0%
%
[Link] – 1 1 5 4 9 – – – 5 5 10
ay desde 100, 100,0% 55,5% 44,4% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0%
las C.
0%
Sociales*
[Link] – – – 3 – 3 – – – 3 – 3
aya de 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
Estudios
Políticos
Contempor
áneos /
NOVAPOLI
S
Análisis 4 – 4 1 1 4 1 5
Político 100,0% 100,0% 100,0 100,0 80,0% 20,0% 100,0%
% %
Estudios – – – – – – – – – – – –
Políticos
[Link] – – – – – – – – – – – –
cional de
Investigació
n en
[Link]
[Link] – – – – – – – – – – – –
aya de
Ciencia
Política
Apuntes – – – – – – – – – – – –
Total 29 3 32 19 6 25 1 9 10 49 18 67
90,6% 9,4% 100,0% 76,0% 24,0% 100,0% 10,0% 90,0% 100,0 73,1% 26,9% 100,0%
%
Fonte: Elaboração própria.
* No caso da Revista Paraguay desde las Ciencias Sociales o período analisado começa em 2012,
ano de início da revista.
Nota: O número de trabalhos é 57, porém a soma alcança os 67 devido a que em vários destes
aparece mencionado mais de um país.
Para além da observação dos textos que abordam diretamente os fatos
acontecidos nos três países citados, buscamos examinar também os textos que,
mesmo tratando de outros assuntos, fazem algum tipo de referência a tais
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acontecimentos. São 115 materias que se enquadram nesta situação (equivalente
a 2,5% dos 4.517 textos analisados)8, os quais, somados aos 57 já examinados,
dão um total de 172 textos. Isto representa 3,8% do total de publicações naquelas
dezesseis revistas, um resultado superior ao que apresentam as oito revistas
brasileiras selecionadas (2,5%), mas ainda assim muito reduzido. Sobre este
universo, ainda, cabem algumas considerações adicionais, tendo por base os
dados apresentados no quadro 8:
1. Se considerarmos o conjunto de referências, observaremos que 123 tratam os
fenômenos como “golpes” e 49 como “impeachment”, “juicio político”,
“crise”, “interrupção presidencial”, etc, numa proporção de praticamente 3
por 1.
2. Focando em cada um dos três países, é posssível constatar como, dentre os
materiais que fazem alguma referência ao tema, mas que não o abordam de
modo direto, o caso hondurenho é o mais mencionado, com 55 ocorrências,
seguido do caso paraguaio, com 39, e o caso brasileiro, com 32 menções. Se
verifica, então, uma menor desvantagem do caso brasileiro na comparação
com aqueles artigos que tratam diretamente do tema.
3. Quanto à caracterização que é feita de cada um dos processos nos artigos
publicados nas revistas estrangeiras, dentro do subconjunto ora analisado,
mais uma vez o processo hondurenho é o mais tratado como “golpe” (52 das
55 menções ou 94,5%), seguido pelo caso paraguaio (27 de 39 ou 69,2%) e
pelo brasileiro (9 de 32 ou meros 28,1%). Vale observar que quando se levam
em conta as menções em trabalhos que não abordam diretamente a nossa
temática, mesmo que continue minoritário, aumenta proporcionalmente o
número de materiais em que o processo brasileiro é definido como um golpe:
28,1% nesses trabalhos contra apenas 10,0%, como já resenhado, no caso
dos trabalhos que tratam diretamente do tema que nos ocupa.
8
Novamente se refizermos os cálculos levando em consideração apenas o período posterior a
cada neogolpe, são estes os resultados: 1,2%, 1,1% e 2,1% dos trabalhos fazem alguma referência
secundária ao tema para os casos de Honduras, Paraguai e Brasil respectivamente.
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Quadro 8 – Revistas estrangeiras (2009-2018) / Textos que, sem tratar diretamente do
tema, fazem alguma menção aos casos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil
(2016) – Por país, Golpe ou Impeachment e revista.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
América 5 – 5 – – – – – – 5 – 5
Latina Hoy
100,0% 100,0% 100,0% 100,0
%
[Link] 6 – 6 3 – 3 – 2 2 9 2 11
Ciencia
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100% 81,8% 18,2% 100,0
Política
%
Colombia – – – 1 2 3 2 5 7 3 7 10
Internacional
33,3% 66,7% 100,0% 28,6% 71,4% 100% 30,0% 70,0% 100,0
%
Latin 7 – 7 – 1 1 – 7 7 7 8 15
American
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 46,7% 53,3% 100,0
Research
Review %
[Link] – 2 2 1 1 2 – – – 1 3 4
100,0% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0% 25,0% 75,0% 100,0
%
[Link] 2 – 2 1 1 2 – – – 3 1 4
a de
100,0% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0% 75,0% 25,0% 100,0
[Link]íticas y
Sociales %
Política y – – – – – – – – – – – –
Gobierno
Cuadernos 2 – 2 – – – 1 1 2 3 1 4
del CENDES
100,0% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0% 75,0% 25,0% 100,0
%
Nueva 20 – 20 5 2 7 5 7 12 30 9 39
Sociedad
100,0% 100,0% 71,4% 28,6% 100,0% 41,7% 58,3% 100,0% 76,9% 23,1% 100,0
%
[Link] – – – 3 – 3 – – – 3 – 3
desde las C.
100,0% 100,0% 100,0% 100,0
Sociales*
%
[Link] 5 – 5 11 4 15 1 – 1 17 4 21
a de Estudios
100,0% 100,0% 73,3% 26,7% 100,0% 100% 100,0% 80,9% 19,1% 100,0
Pol.
Contemporá %
neos /
NOVAPOLIS
Análisis 1 1 2 – – – – – – 1 1 2
Político
50,0% 50,0% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0
%
Estudios 3 – 3 1 – 1 – – – 4 – 4
Políticos
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0
%
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49
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[Link] – – – 1 – 1 – – – 1 – 1
onal de
100,0% 100,0% 100,0% 100,0
Investigación
en [Link] %
[Link] – – – – 1 1 – 1 1 – 2 2
a de Ciencia
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0 100,0
Política
% %
Apuntes 1 – 1 – – – – – – 1 – 1
100,0% 100,0% 100,0% 100,0
%
Total 52 3 55 27 12 39 9 23 32 88 38 126
94,5% 5,5% 100,0% 69,2% 30,8% 100,0% 28,1% 71,9% 100,0% 69,8% 30,2% 100,0
%
Fonte: Elaboração própria.
* No caso da Revista Paraguay desde las Ciencias Sociales o período analisado começa em 2012,
ano de início da revista.
Nota: O número de trabalhos é 115, porém a soma alcança os 126 devido a que em vários destes
aparece mencionado mais de um país.
O neogolpismo nos Encontros da ABCP
Para além das revistas, também nos debruçamos sobre o material
apresentado nos Encontros da ABCP e nos Congressos da ALACIP. Optamos por
analisar estes dois eventos por serem disciplinares (atraindo basicamente
cientistas políticos, de formação ou atuando atualmente na área), e por
constituirem respectivamente os principais eventos nacional e regional na área
em questão. No levantamento realizado sobre as últimas quatro edições do
encontro da ABCP, identificamos um total de 11 trabalhos que abordam
diretamente o nosso tema, representando 0,6 % dos 1.913 trabalhos
programados. Além disso, temos 34 trabalhos que de modo indireto fazem
alguma referência ao tema, o qual representa 1,8% do total. Assim, temos 45
trabalhos tratando do tema em algum nível, ou seja, 2,3% do total9. Esse número
reduzido apresenta alguma alta em 2016 (Belo Horizonte, com 3,9% dos
trabalhos) e em 2018 (Curitiba, com 3,0% dos trabalhos), em comparação a 2012
9
Como o primeiro congresso analisado foi o de 2012, portanto em data em que já tinham
acontecido os neogolpes de Honduras e Paraguai, para ambos os países levamos em consideração
o período completo. Já no caso brasileiro, podemos tomar apenas os dados dos dois últimos. E ao
fazer isto verificaremos que o número de trabalhos que tratam diretamente da nossa temática
representa apenas 0,8%, os que fazem alguma alusão indireta ao assunto alcançam os 2,7% e a
soma de ambos percentuais totaliza um 3,5%. Todas proporções, mais uma vez, bastante exíguas.
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(Gramado, com 1,0%) e a 2014 (Brasília, com 0,9%). Isso é evidentemente
provocado pelo caso brasileiro. Mas não se pode afirmar a partir dos dados que
essa alta configure uma tendência, na medida em que, se o número de trabalhos
tratando diretamente do tema aumenta ligeiramente entre 2016 e 2018, os
trabalhos que o mencionam indiretamente caem consideravelmente entre estes
Encontros (e com isso o número total de trabalhos que de alguma forma fazem
alusão ao tema).
Vejamos os dados dos trabalhos que tratam diretamente dos neogolpes,
discriminando-os entre os que os tratam como “golpes” e os que os definem
como “impeachments”.
Quadro 9 – ABCP (2012-2018) / Trabalhos que tratam diretamente dos casos de
Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil (2016) – Por país, Golpe ou Impeachment
e ano do evento.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
2012 1 – 1 – – – – – – 1 – 1
100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
2014 1 – 1 2 – 2 – – – 3 – 3
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
2016 1 – 1 – – – 2 – 2 3 – 3
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
2018 1 – 1 – 1 1 1 2 3 2 3 5
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 33,3% 66,7% 100,0% 40,0% 60,0% 100,0%
Total 4 – 4 2 1 3 3 2 5 9 3 12
100,0% 100,0% 66,6% 33,3% 100,0% 60,0% 40,0% 100,0% 75,0% 25,0% 100,0%
Fonte: Elaboração própria.
Nota: O número de trabalhos é 11, porém a soma alcança os 12 devido a que em um deles
aparecem mencionados dois países.
Primeiramente, chama a atenção que a produção sobre os neogolpes nos
Encontros da ABCP seja bastante reduzida, quase inexistente – particularmente
considerando o número de trabalhos que tratam do tema de forma direta, o que
lamentavelmente facilita nossa análise. Há apenas 1 trabalho no Encontro de
2012, que aborda o caso hondurenho como um golpe. No Encontro de 2014, há
2 trabalhos sobre a temática, considerando as quedas de Zelaya e Lugo como
“ruptura democrática” e “golpe de Estado parlamentar”. No Encontro de 2016, há
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1 trabalho sobre Honduras e (apenas) 2 sobre o Brasil. Vale mencionar que o
Encontro se deu em meio ao processo de construção do golpe contra Dilma
Rousseff (entre seu afastamento temporário pela Câmara dos Deputados e o
definitivo pelo Senado Federal)10. Finalmente, no Encontro de 2018 há um ligeiro
aumento, para 5 trabalhos – quantidade que deveria ter sido significativamente
maior se for considerada a definição do tema geral do evento como “O Brasil e
sua crise”. Podemos constatar que dessa feita aparecem 3 trabalhos que tratam o
tema como “impeachment” e apenas 2 que o qualificaram como golpe11.
Levando em conta os dados de todos os anos, é curioso notar que não há
um número consideravelmente superior de estudos apenas sobre o Brasil: 5
trabalhos tratam do caso brasileiro, 4 do hondurenho e 3 do paraguaio. O
hondurenho é sempre tratado como golpe, o que é mais nuançado no caso
brasileiro. De todo modo, nota-se que os poucos trabalhos dedicados diretamente
ao tema o consideram majoritariamente como golpe. Pode-se sugerir que os
poucos politólogos brasileiros que se dedicam a esse debate, a ponto de tomá-lo
como um tema de pesquisa a ser tratado em seus trabalhos, o fazem movidos,
precisamente, pela preocupação de entendê-los como rupturas. Os cientistas
políticos que não tratam diretamente do tema tendem a lançar mão
genericamente da ideia do “impeachment”, um conceito que alguns poderiam a
priori e equivocadamente considerar como “mais neutro”.
Tomando os países separadamente, os poucos trabalhos que analisam os
casos hondurenho e paraguaio tendem a considerá-los golpes. Porém, quando se
trata do Brasil a visão é diferente, pois esse processo tende a ser majoritariamente
tratado como “crise”, “impeachment” ou “interrupção de mandato presidencial”.
São muito poucos os que debatem mais claramente a “crise da democracia” e a
“pós-democracia” no Brasil. Isso fica mais nítido ao considerarmos os dados de
trabalhos que mencionam indiretamente o tema.
10
O tema foi discutido apenas em uma mesa-redonda nesse Encontro da ABCP (“A Ciência
Política e a Crise Brasileira”), sendo tratado como golpe por apenas um dos participantes, Luis
Felipe Miguel. Não por acaso, o idealizador do primeiro curso sobre “O golpe de 2016 e o futuro
da democracia no Brasil”, na UnB (Miguel, 2018).
11
Nesse ano ocorreram 9 eventos especiais que trataram do caso brasileiro (3 deles numa
perspectiva comparada regional). Esses eventos o apresentaram de forma genérica (portanto fraca)
como uma “crise” política, institucional ou constitucional.
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Quadro 10 – ABCP (2012-2018) / Trabalhos que, sem tratar diretamente do tema,
fazem alguma menção aos casos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil
(2016) – Por país, Golpe ou Impeachment e ano do evento.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
2012 – 1 1 – 3 3 – – – – 4 4
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
2014 – – – 1 – 1 – – – 1 – 1
100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
2016 1 – 1 1 1 2 4 13 17 6 14 20
100,0% 100,0% 50,0% 50,0% 100,0% 23,5% 76,5% 100,0% 30,0% 70,0% 100,0%
2018 – – – – – – 2 8 10 2 8 10
20,0% 80,0% 100,0% 20,0% 80,0% 100,0%
Total 1 1 2 2 4 6 6 21 27 9 26 35
50,0% 50,0% 100,0% 33,3% 66,7% 100,0% 22,2% 77,8% 100,0% 25,7% 74,3% 100,0%
Fonte: Elaboração própria.
Nota: O número de trabalhos é 34, porém a soma alcança os 35 devido a que em um dos textos
aparecem mencionados dois países.
Pode-se confirmar a partir desse quadro que os trabalhos que não tratam
diretamente do tema o apresentam genericamente como “impeachments”. Nesse
caso, mesmo para a derrubada de Zelaya e de Lugo, há mais menções no campo
do impeachment que do golpe. Mas é para o caso brasileiro que essa tendência é
realmente marcante: enquanto 6 trabalhos o mencionam no campo do golpe, 21
o fazem com referência a impeachment ou assemelhados. Nota-se também uma
queda nas menções em 2018. Os casos hondurenho e paraguaio desaparecem, e
ocorre uma redução considerável do brasileiro. Ao que parece, as rupturas
hondurenha e paraguaia tendem a se esvaecer das análises dos cientistas políticos
brasileiros, e mesmo o caso brasileiro teve sua atenção consideravelmente
reduzida entre 2016 e 2018. Se essa tendência se mantiver, possivelmente
teremos em 2020 ainda alguns trabalhos tratando do tema, mas com uma
redução ainda mais significativa dos que o mencionam indiretamente (até mesmo
para evitar o debate em torno da natureza de processos como o brasileiro).
De um modo geral, salta aos olhos então o desinteresse dos cientistas
políticos brasileiros frequentadores da ABCP em relação aos neogolpes. Pode-se
afirmar que o tema entra de algum modo no radar dos politólogos brasileiros a
partir da crise em seu próprio país – o que indica o interesse reduzido por temas
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latino-americanos. A preocupação (quando esta existe) é com a “crise brasileira”,
que não chegou ainda a ser cabalmente diagnosticada, se tomamos em conta a
participação dos politólogos brasileiros na ABCP.
O neogolpismo nos Congressos da ALACIP
No levantamento feito sobre as últimas cinco edições do Congresso da
ALACIP (2010, 2012, 2013, 2015 e 2017), identificamos um total de 76
trabalhos que abordam diretamente o tema que nos ocupa, representando 1,0%
dos 7.905 trabalhos programados12. A distribuição, todavia, é bastante irregular,
pois a maioria deles se concentra numa única edição, a de 2017, realizada em
Montevidéu. Nessa ocasião, houve 58 trabalhos que trataram do neogolpismo
latino-americano (equivalente a 3,0% dos 1.949 trabalhos previstos na ocasião).
Já os 18 restantes se distribuiram da seguinte forma: 6 no Congresso de 2010
(Buenos Aires), apenas 1 no Congresso de 2012 (Quito), 8 na edição de 2013
(Bogotá) e 3 no Congresso de 2015 (Lima), o qual, em termos percentuais,
significou respectivamente 0,5%, menos de 0,1%, 0,6% e 0,2% dos trabalhos
programados em cada edição do evento.
Quanto aos países que são objeto de tais trabalhos, por óbvio no
Congresso de Buenos Aires, de 2010, Honduras é o único que aparece (com
cinco trabalhos que qualificam os sucessos de 2009 como um “golpe de Estado”
e um que não adere a esta caracterização). No Congresso seguinte, realizado em
Quito, em 2012, também se faz presente apenas Honduras entre os trabalhos
dedicados à nossa temática, pois o golpe no Paraguai tinha acontecido no mês
anterior à realização do Congresso, quando as datas para o envio dos trabalhos
completos já tinham se encerrado. No caso, houve apenas 1 trabalho que tratou
do assunto e que definiu a derrubada de Zelaya como um “golpe”. O leque se
amplia em 2013, no Congresso que teve lugar em Bogotá. Na oportunidade, 1
trabalho focou sua atenção só em Honduras, 3 em Honduras e Paraguai e 4 só no
12
Se formos delimitar por período específico para cada um dos três países, verificaremos que no
caso de Honduras os 19 trabalhos que abordam o neogolpe de 2009 representam ínfimos 0,2%
dos 7.905 que somam as cinco edições da ALACIP selecionadas. Não muito distantes dos 0,4%
que representam os 25 trabalhos que abordam o caso paraguaio, sobre um total de 6.675
trabalhos incluídos na programação da edição de 2012 e subsequentes. Já no caso do neogolpe
brasileiro, os 50 textos que abordam o assunto representam 2,6% dos trabalhos programados para
a edição da ALACIP do ano de 2017.
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Paraguai. Nesse conjunto de 8 trabalhos, predomina a caracterização de “golpe”
em ambos os casos: 3 versus 1 para Honduras e 5 versus 2 para o Paraguai. Na
edição que seguiu na sequência, a de 2015, realizada em Lima, voltou a ser
apenas Honduras o país contemplado, por 3 trabalhos, todos os quais definiram
os acontecimentos de 2009 como um “golpe”.
Parágrafo à parte merece o Congresso de Montevidéu, de 2017, dado o
aumento expressivo de trabalhos com foco posto no assunto que aqui estamos
analisando. Das 58 propostas incluídas na programação que abordam o tema,
encontramos 5 que tratam de Honduras, 16 de Paraguai, 50 do caso brasileiro e
2 da América Latina, de forma genêrica (a soma supera o número de trabalhos
acima citado, pois vários são os que abordam mais de um país). Interessante
notar que o significativo aumento de textos focados neste fenômeno que põe em
questão a democracia no continente se deve, em grande parte, ao caso brasileiro:
86,2% dos 58 trabalhos incluem a derrubada da presidenta Dilma Rousseff como
alvo de análise. Há, porém, um outro fato que também chama a atenção: em
100,0% dos trabalhos que abordam o caso hondurenho a palavra utilizada para
definir o que aconteceu no país é “golpe”. O que contrasta com o caso
paraguaio, onde esta proporção cai para 62,5%, e ainda mais com o caso
brasileiro, para o qual vemos que apenas 40,0% dos 50 trabalhos que incluem os
acontecimentos de 2016 na sua análise optam pelo qualificativo de “golpe”.
Quadro 11 – ALACIP (2010-2017) / Trabalhos que tratam diretamente dos casos de
Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil (2016) – Por país, Golpe ou Impeachment
e ano do evento.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
2010 5 1 6 – – – – – – 5 1 6
83,3% 16,2% 100,0% 83,3% 16,2% 100,0%
2012 1 – 1 – – – – – – 1 – 1
100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
2013 3 1 4 5 2 7 – – – 8 3 11
75,0% 25,0% 100,0% 71,4% 28,6% 100,0% 72,7% 27,3% 100,0%
2015 3 – 3 2 – 2 – – – 5 – 5
100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%
2017 5 – 5 10 6 16 20 30 50 37* 36 73
100,0% 100,0% 62,5% 37,5% 100,0% 40,0% 60,0% 100,0% 52,1% 47,9% 100,0%
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Total 17 2 19 17 8 25 20 30 50 56* 40 96*
89,5% 10,5% 100,0% 68,0% 32,0% 100,0% 40,0% 60,0% 100,0% 58,3% 41,7% 100,0%
Fonte: Elaboração própria.
* Inclui 2 ocorrências para América Latina.
Nota: O número de trabalhos é 76, porém a soma alcança os 96 devido a que em vários destes
aparece mencionado mais de um país.
Como dito acima, para além da análise dos trabalhos destinados
diretamente ao exame das novas formas que assume o golpismo no continente,
também fizemos um levantamento das menções que este fenômeno mereceu em
textos que não abordavam o tema de forma direta. Foi assim que identificamos,
no conjunto dos 7.905 trabalhos programados nas cinco edições do Congresso
da ALACIP, 132 trabalhos que faziam algum tipo de referência ao assunto.
Somando-os aos 76 já analisados, chegamos a um total de 208 textos que têm
como foco os acontecimentos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil
(2016) ou, mesmo não tendo tal foco, fazem alguma alusão a este tema (o que
equivale a 2,6% de tal universo)13.
De forma análoga ao que aconteceu com os trabalhos enfocados nos fatos
ocorridos nos países citados, nesses que tinham outro tema principal, também a
distribuição nas sucessivas edições é bastante irregular. Concretamente,
observamos que as menções aos casos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e
Brasil (2016) nesses trabalhos que tratam de outros temas, que não o do
neogolpismo, somam 11 no Congresso de Buenos Aires, 3 em cada um dos
Congressos de Quito, Bogotá e Lima e 112 no Congresso realizado em
Montevidéu.
Numa análise desagregada desses trabalhos cuja temática não é a do
neogolpismo, outra vez verificamos que em 2010 e 2012 o único país
mencionado é Honduras, caracterizando a remoção de Zelaya, na maioria dos
casos, como um “golpe”: 7 dos 11 trabalhos de 2010 e os 3 de 2012 assim o
definem. Na edição seguinte, a de Bogotá, em 2013, só aparecem referências
indiretas ao caso paraguaio: 2 consideram que a remoção de Fernando Lugo
13
Ao delimitar o universo de análise para cada um dos três países em função do período pós-
neogolpe correspondente, temos que os 22 trabalhos sobre Honduras representam 0,3% do
universo total, os 24 trabalhos sobre o Paraguai representam 0,4% dos trabalhos apresentados nos
congressos de 2012, 2013, 2015 e 2017 e os 104 que abordam o caso brasileiro configuram 5,3%
de todos os trabalhos programados para o congresso de 2017, realizado em Montevidéu.
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tratou-se de um “golpe” e 1 de “impeachment”. Já no Congresso de 2015,
realizado em Lima, os dois países, Honduras e Paraguai, recebem alguma alusão:
1 trabalho faz referência ao “golpe” em Honduras e 2 mencionam o caso
paraguaio (um como “golpe” e o outro como “impeachment”).
Novamente abordamos em separado o Congresso de 2017, de
Montevidéu, pelo número significativamente maior de propostas que
identificamos. Como já antecipado, há 112 trabalhos que, mesmo não abordando
diretamente o tema das novas modalidades de golpe na América Latina, fazem
alguma referência aos casos de Honduras, Paraguai e/ou Brasil. Chama a
atenção, aqui, que a grande maioria se refira a estes sucessos com o qualificativo
de “impeachment” ou equivalentes: 82 desses trabalhos assim os definem
(73,2%), enquanto apenas 30 optam por qualificá-los como “golpe” (26,8%). Ao
discriminar por países, constatamos que o que desequilibra majoritariamente a
balança é o caso brasileiro: dos 7 trabalhos que fazem referência à remoção de
Zelaya, 6 o qualificam como “golpe” (85,7%), e dos 19 dos que mencionam a
remoção de Lugo 11 também optam por este rótulo (57,9%). Já quando se faz
referência à remoção de Dilma Rousseff, apenas 25 dos 104 trabalhos definem o
que aconteceu como um “golpe” (escassos 24,0%) – mesma tendência observada
nos Encontros da ABCP.
Quadro 12 – ALACIP (2010-2017) / Trabalhos que, sem tratar diretamente do tema,
fazem alguma menção aos casos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil
(2016) – Por país, Golpe ou Impeachment e ano do evento.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
2010 7 4 11 – – – – – – 7 4 11
63,6% 36,4% 100,0% 63,6% 36,4% 100,0
%
2012 3 – 3 – – – – – – 3 – 3
100,0% 100,0% 100,0 100,0
% %
2013 – – – 2 1 3 – – – 2 1 3
66,7% 33,3% 100,0 66,7% 33,3% 100,0
% %
2015 1 – 1 1 1 2 – – – 1 2 3
100,0% 100,0% 50,0% 50,0% 50,0% 33,3% 66,7% 100,0
%
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2017 6 1 7 11 8 19 25 79 104 42 88 130
85,7% 14,3% 100,0% 57,9% 42,1% 100,0 24,0% 76,0% 100,0% 32,3% 67,7% 100,0
% %
Total 17 5 22 14 10 24 25 79 104 55 95 150
77,3% 22,7% 100,0% 58,3% 41,7% 100,0 24,0% 76,0% 100,0% 36,7% 63,3% 100,0
% %
Fonte: Elaboração própria.
Nota: O número de trabalhos é 132, porém a soma alcança os 150 devido a que em vários destes
aparece mencionado mais de um país.
Conclusão
Para concluir a nossa análise, vamos agregar os dados apresentados
separadamente até aqui. Primeiro, vejamos os trabalhos que tratam diretamente
dos casos de Honduras, Paraguai e Brasil.
Quadro 13 – Trabalhos que tratam diretamente dos casos de Honduras (2009), Paraguai
(2012) e/ou Brasil (2016) – Por país, Golpe ou Impeachment e tipo de produção.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
Revistas
5 2 7 6 3 9 16 13 29 27 18 45
brasileiras
71,4% 28,6% 100,0% 66,7% 33,3% 100,0% 55,2% 44,8% 100,0% 60,0% 40,0% 100%
Revistas 29 3 32 19 6 25 1 9 10 49 18 67
estrangeiras 90,6% 9,4% 100,0% 76,0% 24,0% 100,0% 10,0% 90,0% 100,0% 73,1% 26,9% 100%
ABCP 4 – 4 2 1 3 3 2 5 9 3 12
100,0
100,0% 66,7% 33,3% 100,0% 60,0% 40,0% 100,0% 75,0% 25,0% 100%
%
ALACIP 19
17 2 17 8 25 20 30 50 56 40 96
100,0%
89,5% 10,5 68,0% 32,0% 100,0% 40,0% 60,0% 100,0% 58,3% 41,7% 100%
Total 55 7 62 44 18 62 40 54 94 141 79 220
88,7% 11,3% 100,0% 71,0% 29,0% 100,0% 42,5% 57,5% 100,0% 64,1% 35,9% 100%
Fonte: Elaboração própria.
Nota: O número de trabalhos é 175, porém a soma alcança os 220 devido a que em vários destes
aparece mencionado mais de um país.
A partir desse quadro, podemos notar que o caso hondurenho é tratado
quase unanimemente como golpe (88,7%), seguido pelo Paraguai (71,0%). Já o
caso brasileiro é tratado majoritariamente como impeachment (57,5%). Os casos
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hondurenho e paraguaio são interpretados majoritariamente como golpes em
todos os tipos de produção, com poucas variações entre cada uma. Já no caso
brasileiro, a opção pela caracterização de golpe predomina nas revistas
brasileiras e nos Encontros da ABCP, enquanto o rôtulo de impeachment aparece
como majoritário nas revistas estrangeiras e – mesmo que em menor medida –
nos Congressos da ALACIP. Isto nos permitiria afirmar que dentro do pequeno
conjunto de colegas do Brasil que têm dado atenção ao tema, haveria uma
percepção mais clara sobre o caráter golpista dos acontecimentos de 2016,
quando comparada com a leitura que dos mesmos fatos fazem os participantes
da ALACIP e os colegas que publicam em revistas do exterior.
Tomando os dados de forma mais agregada, a avaliação predominante é
de considerar os casos de neogolpes enquanto tais, em todos os tipos de
produção. Desse modo, ao menos entre os que se propõem a escrever
diretamente sobre o tema, a percepção é de haver neogolpismo – e é com a
motivação de compreendê-lo e eventualmente denunciá-lo que esses trabalhos
em geral são elaborados. Vejamos agora como muda quando focamos nos
trabalhos que mencionam os neogolpes sem ter esta como a temática central.
Quadro 14 – Trabalhos que, sem tratar diretamente do tema, fazem alguma menção aos
casos de Honduras (2009), Paraguai (2012) e/ou Brasil (2016) – Por país, Golpe ou
Impeachment e tipo de produção.
Honduras (H) Paraguai (P) Brasil (B) (H + P + B)
G I G+I G I G+I G I G+I G I G+I
Revistas – 1 1 30 34
3
5 25 7 27
brasileiras 100,0 100,0 100,0 100,0
2 1 100,0
16,7% 83,3% 20,6% 79,4%
% % % %
66,7% 33,3% %
Revistas 55 39 32 126
52 3 27 12 9 23 88 38
estrangeiras 100,0 100,0 100,0 100,0
94.5% 5,5% 69,2% 30,8% 28,1% 71,9% 69,8% 30,2%
% % % %
ABCP 2 6 27 35
1 1 2 4 6 21 9 26
100,0 100,0 100,0 100,0
50,0% 50,0% 33,3% 66,7% 22,2% 77,8% 25,7% 74,3%
% % % %
ALACIP 22 24 104 150
17 5 14 10 25 79 56 94
100,0 100,0 100,0 100,0
77,3% 22,3% 58,3% 41,7% 24,0% 76,0% 37,3% 62,7%
% % % %
Total 72 10 82 43 27 70 45 148 193 160 185 345
87,8% 12,2% 100,0 61,4% 38,6% 100,0 23,3% 76,7% 100,0 46,4% 53,6% 100,0
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DOI: 10.21057/10.21057/repamv14n2.2020.26975
% % % %
Fonte: Elaboração própria.
Nota: O número de trabalhos é 259, porém a soma alcança os 345 devido a que em vários destes
aparece mencionado mais de um país.
Vemos nesse caso que a percepção dos neogolpes enquanto tais cai
consideravalmente. Isso indica provavelmente que, excluídos os politólogos que
se dedicam a estudar esses casos específicos e a temática geral que nos interessa,
a tendência prevalecente é considerar que se tratou de processos de
impeachment (53,6% do total). Essa categoria prevalece de forma contundente
nas revistas brasileiras (79,4%), nos Encontros da ABCP (74,3%) e nos Congressos
da ALACIP (62,7%). As proporções se invertem apenas no caso das revistas
estrangeiras, onde apenas 30,2% dos textos que fazem alguma menção aos
acontecimentos de Honduras, Paraguai e/o Brasil os qualificam como processos
de “impeachment”, enquanto 69,8% se valem da expressão “golpe”. O que
realmente é determinante para esse resultado é o caso brasileiro: este aparece
majoritariamente como impeachment em todos os tipos de produção (o que não
ocorre com a caracterização do que aconteceu nos outros dois países). Nesse
caso, mesmo entre os brasileiros, a percepção sobre a ocorrência de um neogolpe
em seu país muda.
O que se extrai de mais relevante da observação dos quadros 13 e 14 é
que, enquanto a produção que trata diretamente do tema o classifica
majoritariamente como neogolpe, isso não ocorre no maior número de produções
que apenas o mencionam. Assim, pode-se sugerir que esta amostra do quadro 14
se aproxima mais da percepção média dos politólogos da região, enquanto os
mais preocupados em estudar essas rupturas e nossa temática estão por sua vez
pautados por uma visão mais crítica e problematizadora da democracia liberal e
particularmente da situação que vêm enfrentando os regimes sócio-políticos da
região.
Pode-se constatar que o caso brasileiro é o mais difícil de classificar como
neogolpe para os colegas da região, o que possivelmente é motivado pela maior
preocupação com os ritos formais em comparação com os outros casos. E talvez
porque seja mais difícil para os politólogos brasileiros (evidentemente um número
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considerável dos que mencionam o referido processo), classificar seu próprio país
como um exemplo de ruptura, e comparativamente mais fácil fazê-lo em relação
a outros países (nas raras vezes em que estes entram em seu radar). Assim, pode-
se notar adicionalmente que os autores brasileiros (que são, logicamente, a
grande maioria nas revistas brasileiras e nos encontros da ABCP) pouco
produziram sobre (ou ao menos mencionaram) Honduras e Paraguai. Pode-se
sugerir, a partir dessa constatação, que haveria um desinteresse na ciência
política brasileira em relação à região da qual fazemos parte.
Adicionalmente, pode ser observada, ainda que levemente, uma maior
produção ou um maior número de menções ao tema nos Congressos da ALACIP.
Somando referências diretas e indiretas, temos 2,6% para a ALACIP e 2,3% para a
ABCP. A diferença é ligeiramente maior comparando os trabalhos que abordam
diretamente o tema: 1,0% na ALACIP contra 0,6% na ABCP. Se considerarmos
essas diferenças relevantes, podemos sugerir que a ALACIP teria maior abertura
(comparativamente à ABCP e às revistas) para a produção de estudantes e colegas
oriundos de posições mais periféricas, bem como para a apresentação de textos
em preparação e análises de conjuntura. Poderíamos aventar a partir disso que
haveria mais produção sobre neogolpismo na ciência política regional (análises
de conjuntura, trabalhos em eventos menores e coletâneas), que não chegou aos
espaços mais mainstream da disciplina e particularmente às revistas. Se chegará
ou não, não temos como saber, embora chame a atenção o fato de que
transcorridos 10 anos do neogolpe em Honduras, 7 do neogolpe no Paraguai e 3
de concretizado o neogolpe no Brasil seja tão pouco o que tem sido publicado
sobre o assunto em pauta.
De todo modo, a partir da análise de uma década de produção da ciência
política – tanto a publicada nas principais revistas editadas na ou sobre a América
Latina quanto os trabalhos apresentados nos eventos já citados –, e dado o
significativo volume de material examinado neste artigo, constata-se a quase
ausência da temática dos neogolpes – seja por falta de interesse ou pela falta do
necessário arsenal teórico-analítico para tal, contribuindo assim para a sua
invisibilização (Boron, 2010). Especificamente quanto ao caso brasileiro, nota-se
uma dificuldade em classificá-lo como uma ruptura intitucional, produto de um
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golpe. Como sugerimos, isso ocorre provavelmente pelo maior esforço em
aparentar legalidade nesse processo, em comparação com os anteriores.
Outro elemento a ser observado é que a grande maioria das produções que
abordam o tema em pauta enfocam empiricamente um dos casos de neogolpe.
São muito poucas as que abordam comparativamente dois ou os três casos aqui
citados. O que implica dizer que são raros os trabalhos que procuram discutir o
fenômeno de forma mais teórico-conceitual. Pode-se sugerir que a ciência
política se dedica geralmente à empiria e a estudos de casos (em maior medida
nacionais). Assim, no tema de nosso interesse temos análises circunscritas a
fenômenos nacionais, mas pouco debate no nosso universo de produções sobre o
conceito de neogolpismo ou sobre a teoria democrática (eventualmente lançando
mão dos casos empíricos para sustentar o debate teórico-conceitual). E foi a essa
tendência que nos adequamos neste artigo, estruturando boa parte de nossa
pesquisa empírica e consequente apresentação dos resultados a partir do trinômio
de casos nacionais Honduras/Paraguai/Brasil, pois é sobre isso basicamente que
tratam as produções aqui analisadas.
Mesmo tendo adotado metodologicamente a opção de buscar o tratamento
desses casos nacionais a partir do momento da ruptura institucional, devemos
observar que nos três casos a crise que derivou nos neogolpismos é bem anterior
a esses desfechos. A instabilidade no caso hondurenho começou praticamente
desde a reorientação política protagonizada por Zelaya, quando se aproximou do
chavismo. Quanto ao caso paraguaio, deve-se observar que a estratégia do
impeachment sem maiores justificativas foi lançada contra Lugo desde o início de
seu mandato e que, quanto ao caso brasileiro, o processo se iniciou ao menos em
2014, com a contestação do resultado eleitoral pela oposição de direita. Esses
indícios já poderiam ter sido considerados pelos politólogos como material para
análise (e preocupação). Particularmente no Brasil, seguem-se desde então cinco
anos de crise ininterrupta, que culminam com um processo eleitoral em outubro
de 2018 marcado por graves irregularidades que põem em xeque a própria
legitimidade do pleito, e com um novo governo que vem terminando de
desmontar o que restou do regime democrático no país. Como dissemos, pode-se
sugerir que o neogolpe brasileiro é menos entendido enquanto tal pela maior
lentidão e cumprimento de ritos em comparação aos outros dois casos. Se for essa
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a razão para seu tratamento diferenciado, isso só viria a reforçar nossa crítica à
obsessão institucionalista e formalista da ciência política hegemônica, que
secundariza ou diretamente ignora outras dimensões da vida política que vão
além das questões formais e procedimentais.
Nossa pesquisa seguirá em duas direções. Primeiramente, reunindo mais
literatura sobre o debate em torno do conceito de neogolpismo (procurando
refiná-lo), bem como para a definição de quais casos podem efetivamente se
enquadrar nessa categoria – o que exige a análise mais detida de cada evento
potencialmente classificável como um neogolpe. Em segundo lugar, seguiremos
com a análise do tratamento dado pela ciência política ao tema, levantando os
trabalhos apresentados nos próximos Congressos de associações da área (ALACIP
2019 e ABCP 2020), bem como de livros e de cursos sobre o tema, de modo a
continuarmos testando a nossa hipótese.
Para além disso, sugerimos uma agenda de pesquisa aos colegas
interessados em colocar os neogolpes no centro do debate da ciência política.
Cabe encontrar formas de medir e de comparar o espaço dedicado a essa reflexão
nos diversos campos de conhecimento das humanidades – e não nos
surpreenderíamos com a constatação de uma desvantagem da ciência política
nessa comparação. É importante mapear de forma sistemática os conceitos
utilizados até aqui para tratar desses fenômenos. A partir disso, deve-se buscar
uma definição mais precisa do neogolpismo, potencialmente avançando para
algum conceito mais satisfatório do que este de “neogolpes” que estamos
preliminarmente adotando. Igualmente, deve-se discutir o que ocorre depois
dessas rupturas, o que levará à reflexão em torno dos “Estados de exceção”,
“regimes híbridos”, “desdemocratizações”, “pós-democracias”,
“reoligarquizações”, etc. O que bem provavelmente impulsionará a necessidade
mesma de um repensar de algumas das bases de nossa disciplina.
Referências bibliográficas
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O que a Ciência Política (não) tem a Dizer sobre o Neogolpismo Latino-
Americano?
Resumo
Qual tem sido a reação da ciência política latino-americana, e especialmente da ciência política
brasileira, diante dos processos de ruptura institucional de novo tipo sofridos por diversos países
da região nesta última década? Ou, mais concretamente: como a disciplina vem se posicionando
frente ao que aconteceu em Honduras em 2009, no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016? Qual
a centralidade que ocupa este tema na agenda de investigação dos cientistas políticos dos nossos
países? Procuramos responder a estas perguntas a partir da análise dos textos publicados nas
principais revistas da área, assim como do exame dos artigos apresentados nos Congressos da
Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e nos Congressos da Associação Latino-
Americana de Ciência Política (ALACIP), buscando por termos selecionados que guardam relação
com a temática dos neogolpes. Partimos do pressuposto de que, diante de um fenômeno novo que
põe em xeque a sobrevivência das democracias latino-americanas, a ciência política, sempre
preocupada justamente com a questão democrática, deveria dar ao assunto o destaque que este
merece, pondo-o, assim, no topo das suas preocupações acadêmicas e políticas. O artigo
confirma a hipótese da quase ausência do tema na produção da ciência política latino-americana.
Palavras-chave: Ciência Política; Neogolpismo; América Latina.
¿Qué Tiene para (no) decir la Ciencia Política sobre el Neogolpismo
Latinoamericano?
Resumen
¿Cuál ha sido la reacción de la ciencia política latinoamericana, y especialmente de la ciencia
política brasileña, frente a los procesos de ruptura institucional de nuevo tipo sufridos por varios
países de la región en la última década? O más concretamente: ¿cómo la disciplina se ha
posicionado frente a lo que sucedió en Honduras en 2009, en Paraguay en 2012 y en Brasil en
2016? ¿Cuál es la centralidad de este tema en la agenda de investigación de los politólogos de
nuestros países? Apuntamos a responder a estas preguntas analizando los textos publicados en las
principales revistas del área, así como examinando los artículos presentados en los Congresos de
la Asociación Brasileña de Ciencia Política (ABCP) y los Congresos de la Asociación
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Latinoamericana de Ciencia Política (ALACIP), buscando términos seleccionados que tienen
relación con el tema de los neogolpes. Partimos de la suposición de que, ante un nuevo fenómeno
que pone en tela de juicio la supervivencia de las democracias latinoamericanas, la ciencia
política, siempre preocupada precisamente por la cuestión democrática, debería dar al tema el
protagonismo que merece, poniéndolo así en la cima de sus preocupaciones académicas y
políticas. El artículo confirma la hipótesis de la cuasi ausencia del tema en la producción de la
ciencia política latinoamericana.
Palabras clave: Ciencia Política; Neogolpismo-; América Latina.
What does the Political Science (not) have to say about the new forms of
institutional breakthrough suffered in Latin America?
Abstract
What has been the reaction of Latin American Political Science, and especially of Brazilian
Political Science, to the processes of institutional ruptures of a new type suffered by several
countries in the region in the last decade? Or, more concretely: how has the discipline been
positioning itself against what happened in Honduras in 2009, in Paraguay in 2012, and in Brazil
in 2016? What is the centrality of this theme in the research agenda of the political scientists of our
countries? We seek to answer these questions by analyzing the texts published in the main
journals of the area, as well as examining the articles presented at the Congresses of the Brazilian
Association of Political Science (ABCP) and the Congresses of the Latin American Association of
Political Science (ALACIP), looking for selected terms that are related to the theme. We start from
the assumption that, faced with a new phenomenon that calls into question the survival of Latin
American democracies, Political Science, always concerned precisely with the democratic
question, should give the subject the prominence it deserves, thus putting it at the top of their
academic and political concerns. The article confirms the hypothesis that the theme is almost
absent in the production of Latin American political science.
Keywords: Political Science; Neo-coups d’État; Latin America.
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Recebido: 19-12-2019
Aprovado: 25-05-2020
Polêmicas sobre a Definição do Impeachment de Dilma
Rousseff como Golpe de Estado
Danilo Enrico Martuscelli1*
“Eu jamais apoiei ou fiz empenho pelo
golpe” (declaração de Michel Temer sobre o
impeachment de Dilma, no Programa Roda
Viva, em setembro de 2019)
Introdução
O debate travado nos meios políticos e acadêmicos sobre o processo de
destituição de Dilma Rousseff do cargo de Presidente da República está bem
distante de chegar a um consenso. Muitas são as polêmicas envolvendo esse
acontecimento político, especialmente as ligadas à sua caracterização como
sendo ou não um golpe de Estado. Tais polêmicas podem ser sintoma da
existência de divergências teóricas e políticas profundas, manifestadas aberta ou
veladamente pelos diferentes analistas, e estarem relacionadas aos critérios
definidores deste conceito e à sua aplicação para explicar o impedimento de
Dilma Rousseff.
Nessa perspectiva, tornam-se incontornáveis alguns questionamentos: o
que define um golpe de Estado como tal? Quais aspectos devem ser considerados
para caracterizar a especificidade deste fenômeno? Os golpes de Estado estão
fundamentalmente ligados aos conflitos institucionais ou aos conflitos de classes?
Quais desses tipos de conflitos possuem primazia na análise deste fenômeno?
Devem ser concebidos como golpes de Estado somente os processos políticos que
1 *Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atua como
docente nos cursos de Licenciatura em Ciências Sociais e Mestrado em Filosofia (Campus
Chapecó/SC) e Mestrado Interdisciplinar em Ciências Humanas (Campus Erechim/RS) da
Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Autor dos livros: Crises políticas e capitalismo
neoliberal no Brasil (Ed. CRV, 2015) e Classes dominantes, política e capitalismo contemporâneo
(Em Debate/UFSC, 2018). Correio eletrônico: daniloenrico@[Link]
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envolvem o emprego da força pelo aparelho de Estado e resultam,
consequentemente, na ruptura com o regime democrático vigente? Sob nenhuma
hipótese, o uso do dispositivo constitucional do impeachment pode ser entendido
como um meio empregado para deflagar um golpe de Estado? É possível
estabelecer alguma relação entre golpe de Estado, crise política e disputas pelo
controle do processo decisório da política de Estado? À luz do conjunto desses
problemas suscitados, é possível conceber a interrupção do mandato presidencial
de Dilma como um golpe de Estado?
Para tratar dessas polêmicas questões que se fazem presentes na
conjuntura atual nacional e internacional, dividiremos o artigo em quatro seções
principais. Na primeira delas, discutiremos como, no calor dos acontecimentos, o
conceito de golpe de Estado foi omitido, rechaçado ou utilizado por
determinados agentes políticos para caracterizar a deposição de Dilma Rousseff.
Nas duas seções seguintes, adotaremos o mesmo procedimento para examinar o
debate acadêmico sobre o tema. Assim, na segunda seção deste artigo, focaremos
as análises que refutam a tese deste impeachment como um golpe de Estado e são
orientadas pela problemática teórica institucionalista. Na terceira seção,
debateremos os estudos que fazem explicitamente o uso do conceito de golpe
para compreender a queda de Dilma e estabelecem conexões desse
acontecimento político com os conflitos de classe. Na quarta e última seção do
artigo, apresentaremos os critérios científicos que consideramos adequados para
validar a caracterização do impeachment da presidente da República, ocorrido
em 2016, como um golpe de Estado.
Basicamente, o conceito de golpe de Estado com o qual operamos designa
três aspectos indissociáveis, a saber: 1) as disputas em torno do controle do
processo decisório e do conteúdo da política de Estado (a direção política de
classe do golpe: qual é a força social ascendente no processo e interessada em
reforçar ou assumir o controle da política de Estado?); 2) as transformações nas
relações entre os ramos dominantes e não dominantes do aparelho de Estado (a
mudança institucional provocada pelo golpe: qual é a força institucional
executora do golpe?); e 3) o trabalho de conspiração/usurpação do poder
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realizado pelas forças golpistas (meios empregados: quais recursos são
mobilizados para deflagrar e legitimar o golpe?).2
O Debate Político sobre a Deposição de Dilma Rousseff
A definição de golpe de Estado recebeu os mais diferentes sentidos no
debate político ocorrido no calor dos acontecimentos. Nesta seção, procuraremos
ilustrar as teses formuladas por algumas das forças políticas que se manifestaram e
intervieram na conjuntura em questão. Está fora de questão, aqui, apresentar a
posição do conjunto das forças políticas nesse processo. Tal procedimento seria
impossível de ser concretizado no reduzido espaço de um artigo acadêmico.
Objetiva-se tão somente indicar o caráter polissêmico das análises políticas
acerca da deposição de Dilma Rousseff e demonstrar os pressupostos teóricos que
as informam no debate político de ideias, ainda que manifestos na maioria das
vezes em estado prático.
Para aqueles que defenderam abertamente a necessidade de interromper o
mandato de Dilma, os motivos jurídicos apresentados tinham relação com dois
tipos de crime de responsabilidade que teriam sido cometidos pela presidente da
República, a saber: a) as manobras fiscais realizadas pelo governo, não previstas
em lei, as quais se efetivaram por meio do atraso do repasse de verbas do Tesouro
Nacional para bancos privados e públicos, com vistas a aliviar ou garantir a
situação fiscal do governo por determinado tempo (as chamadas “pedaladas
fiscais”); e b) a emissão de decretos que estabeleciam a liberação de créditos
suplementares, sem passar por aprovação do Congresso Nacional.
Para os acusadores, com tais iniciativas, a presidente Dilma teria afrontado
a legislação vigente e deveria ser enquadrada naquilo que estabelece a Lei
2. Em outro momento, realizamos um balanço geral da discussão teórica sobre o conceito de
golpe de Estado, apontando o alcance e os limites das análises mais influentes sobre o tema. Ver:
Martuscelli (2018a). Neste artigo, empreendemos a crítica dos estudos que se centram
exclusivamente nas instituições estatais para definir um golpe de Estado por considerarmos que a
caracterização mais adequada deste fenômeno envolve examinar a relação entre instituições
estatais e conflitos de classe. É a partir dessa problemática orientada pelos conflitos reprodutivos
de classe que se torna possível superar o formalismo analítico presente nas análises orientadas
pela problemática institucionalista e entrever o impacto que produzem tais conflitos, em particular
os conflitos internos ao bloco no poder sobre as instituições políticas do Estado e sobre o próprio
conteúdo da política estatal. Em síntese, para a formulação do conceito de golpe de Estado,
procuramos nos inspirar na teoria do bloco no poder desenvolvida por Nicos Poulantzas (2019).
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1.079/1950, que “define os crimes de responsabilidade e regula o respectivo
processo de julgamento” dos ocupantes dos cargos de Presidente da República,
Ministros do Estado, Ministros do Supremo Tribunal Federal ou Procurador-Geral
da República. Assim sendo, cumprindo todos os trâmites e requisitos legais do
processo de admissibilidade e aprovação do impeachment, realizado no âmbito
do Congresso Nacional, a destituição da presidente da República não poderia ser
considerada uma violação constitucional ou mesmo um golpe de Estado.
No entanto, a despeito das polêmicas sobre a interpretação casuísta das
“pedaladas fiscais” e dos decretos de abertura de créditos suplementares como
crime de responsabilidade, práticas, aliás, que haviam sido adotadas por vários
outros governos no âmbito federal, estadual e municipal sem terem sido
tipificadas como crimes passíveis de impeachment, é preciso observar que, na
votação de admissibilidade do processo de impeachment, ocorrida na Câmara
Federal no dia 17 de abril de 2016, as declarações de voto feitas pela grande
maioria dos deputados federais estiveram muito distantes de dar centralidade aos
aspectos jurídicos do processo. Outras razões e motivações ganharam mais
centralidade e orientaram o voto dos 367 parlamentares que se manifestaram
favoráveis à admissibilidade do pedido de impeachment.
Como observa a jornalista Andrea Dip (2018, p. 59), os deputados
“dedicaram voto à própria família, a torturadores da época da ditadura e a
corretores de seguros do Brasil. Mas, principalmente votaram em nome de Deus”.
Já Almeida (2017, p. 72) destaca que:
A expressão “pedaladas fiscais”, acusação formal do processo jurídico-político,
foi citada apenas oito vezes entre os 367 deputados que votaram a favor do
impeachment, e foram destes que vieram a quase totalidade de referências a deus
— 43 vezes —, à (sua) família e à nação. Em várias declarações, família — 117
vezes — veio associada aos termos “honra”, “respeito”, “consciência”, buscando
significar honestidade e bom caráter de quem a evocou. E o apelo à nação — 28
vezes — não era um discurso identitário cultural ou protecionista econômico
como muito recorrente em contextos internacionais contemporâneos. Além do
sentido mais geral de unidade, o termo nação expressou um patriotismo que
identificou na corrupção do Estado um crime contra o país. Corrupção foi o termo
de acusação mais recorrente e estava em sintonia com a mensagem da grande
mídia naquele momento, a saber: a corrupção é a geradora de todos os males
econômicos e éticos, além de ser sistêmica em um partido específico.
Não faria sentido supor que aqueles que se manifestaram favoravelmente à
destituição de Dilma Rousseff assumiriam, de forma tácita ou explícita, a posição
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de que estavam empenhados na consumação de um golpe de Estado, tendo em
vista a conotação negativa que, histórica e socialmente, essa noção carrega.
Assim, para ser eficiente quanto aos resultados e ganhar adeptos, a defesa da
saída de Dilma deveria, na medida do possível, ser capaz de mesclar uma série
de mensagens e argumentos com conotação positiva e com amplo alcance social,
como: o respeito à Constituição Federal e à democracia; as reverências a Deus e
à família; o estabelecimento de uma divisão entre verdadeiros (cidadãos de bem e
pagadores de impostos) e falsos patriotas (corruptos que só pensam em “mamar
nas tetas” do Estado); a contraposição entre eficiência e transparência do mercado
e a gastança e corrupção do Estado; e, não menos importante, a
responsabilização do PT por toda a deterioração do quadro social e econômico, e
por toda a corrupção existente no país. Tal tese foi expressa por meio do
entendimento de que o problema era o “conjunto da obra” – e acrescentaríamos:
da obra feita pelos petistas no governo, pois o PMDB, que também fez parte por
um longo tempo da aliança política com o PT, não deveria ser defenestrado do
governo.
Notamos, aqui, como aspectos de ordem política e moral tornam-se mais
determinantes que os aspectos de natureza legal ou constitucional para dar
sustentação à deposição de Dilma. Tal hierarquia (o político se sobrepondo ao
que é legal) poderia fazer sentido se o impeachment no Brasil fosse tratado como
recall e não como crime de responsabilidade, mas como os aspectos políticos e
jurídicos se mesclam na própria definição do impeachment, isto dá margem para
que esse expediente sirva tanto como um recurso de chantagem política, como de
imposição de um golpe “constitucional” contra o mandato de qualquer presidente
da República. Para sua consumação, basta contar com o ativismo ou anuência do
Judiciário, legitimando a tese de que tudo está funcionando como prega a
Constituição Federal, e a maioria qualificada de 2/3 no Congresso Nacional vindo
a aprovar o processo.
Com isso, cabe fazer as seguintes indagações: o uso casuístico dos
princípios legais e constitucionais vigentes que regem o processo de
impeachment pode ser tratado como uma espécie de violação constitucional e,
portanto, como um dos meios empregados para deflagar um golpe de Estado? Há
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a possibilidade de o dispositivo de impeachment se tornar um expediente
utilizado para perpetrar golpes de Estado?
Além de ser possível dar uma resposta positiva a tais questões para o caso
da presidente Dilma, é importante ressaltar que a própria legislação do
impeachment tal como está estabelecida sempre conteve em si a possibilidade de
manobra para neutralizar ou minar a capacidade governativa de qualquer
presidente da República no país, como nos lembram Napolitano e Ribeiro (2017,
p. 55):
Os detalhamentos de cada tipo de crime nos artigos específicos [da Lei
1.079/1950] deixam um grande espaço de manobra política e leitura
discricionária, possibilitando que a referida lei fosse invocada em momentos de
luta política entre os Poderes Executivo e o Legislativo, como de fato ocorreu.
Entre as forças alinhadas contrárias à destituição de Dilma Rousseff,
ganhou evidência o pronunciamento feito na imprensa por Fernando Haddad, o
então prefeito de São Paulo e candidato à reeleição pelo Partido dos
Trabalhadores (PT) neste município. Em entrevista concedida ao jornal O Estado
de S. Paulo, Haddad (2016) salientou que, durante o processo eleitoral, daria
prioridade à discussão dos temas municipais, sem, com isso, ignorar os debates
nacionais. Ao se referir aos fundamentos do impeachment de Dilma, tratou-os
como casuísmo, mas, ao mesmo tempo, afirmou que a palavra golpe é “um
pouco dura” por remeter à ditadura militar, a “armas e tanques nas ruas” e a
“encarceramento injusto de pessoas que foram submetidas à tortura”, observando,
ademais, que o “processo não está seguindo os ritos previstos na Constituição”.
Aqui, a noção de golpe de Estado é remetida à ideia de ditadura militar ou de uso
da força física por parte do aparelho de Estado e, por isso, é problematizada por
Haddad para caracterizar o impeachment de Dilma.
Posição bastante diferente tomou a própria presidente Dilma, a ala
majoritária do PT e outras organizações políticas, como PSOL, PCdoB, MTST,
MST, CUT, UNE, entre outras, durante essa conjuntura, as quais utilizaram
abertamente a palavra golpe para se referir ao processo de impeachment. Assim,
não é casual que as palavras de ordem: “Não vai ter golpe! Vai ter luta!”, tenham
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marcado os mais variados atos e mobilizações de resistência do período3. Uma
ação encaminhada por deputados do PSDB, DEM, SD, PP e PPS ao STF, exigiu,
inclusive, que Dilma se explicasse sobre a acusação de que teria sofrido um
golpe. Os questionamentos feitos por esses deputados eram os seguintes:
1) A interpelada ratifica as afirmações – proferidas em distintos eventos – de que
há um golpe em curso no Brasil?
2) Quais atos compõem o golpe denunciado pela Interpelada?
3) Quem são os responsáveis pelo citado golpe?
4) Que instituições atentam contra seu mandato, de modo a realizar um golpe de
Estado?
5) É parte desse golpe a aprovação, pelo Plenário da Câmara dos Deputados, da
instauração de processo contra a Interpelada, por crime de responsabilidade, nos
termos do parecer da Comissão Especial à Denúncia por Crime de
Responsabilidade 1/2015, dos Srs. Hélio Pereira Bicudo, Miguel Reale Junior e
Janaina Conceição Paschoal?
6) Se estamos na iminência de um golpe, quais as medidas que a Interpelada, na
condição de Chefe de Governo e Chefe de Estado, pretende tomar para
resguardar a República? (Oliveira, 2016)
No dia 18 de maio de 2018, o STF, representado pela ministra Rosa
Weber, notificou a presidente Dilma para que esclarecesse, caso quisesse, as
afirmações de que teria sido vítima de um golpe de Estado e lhe concedeu 10 dias
para dar uma resposta. Poucas semanas antes, uma juíza havia concedido liminar
proibindo a realização de um debate sobre o impeachment na Faculdade de
Direito da UFMG, aceitando a posição dos acusadores de que o Centro
Acadêmico estava sendo aparelhado partidariamente (Macedo, 2016). Logo em
seguida, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais tomou a decisão de anular essa
liminar.4
Esses exemplos de ação judicial tomada contra a presidente Dilma e
membros da comunidade universitária demonstram que o próprio uso da palavra
golpe para se referir ao impeachment havia se tornado objeto de interpelação
3 Para uma explicação da fragilidade dessa resistência, ver: Boito Jr. (2018), em especial, o
capítulo intitulado: “Por que foi fraca a resistência ao golpe de 2016?”.
4 Já sob o governo Temer, no início de 2018, o ministro da Educação Mendonça Filho afirmou à
imprensa que acionaria os órgãos do Judiciário e de fiscalização para investigar a disciplina “O
Golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, que seria ministrada pelo professor Luis Felipe
Miguel para o curso de graduação em Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). No
entanto, a tática da ameaça e da intimidação adotada por esse Ministro não foi adiante e
malogrou, vindo a ser respondida com atos de resistência de pesquisadores e acadêmicos de
várias universidades e faculdades, que não só manifestaram solidariedade ao professor Miguel
pelas ameaças e intimidações descabidas que vinha sofrendo, como passaram a organizar uma
série de cursos sobre o golpe de Estado em diversas instituições do país. Um relato sobre esse
conturbado processo pode ser encontrado em: Miguel (2019a).
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jurídica e intimidação política, indicando, assim, que, muito distante de as
instituições políticas estarem “funcionando normalmente”, o processo de
impeachment vinha se consolidando com uma clara ameaça ao regime
democrático liberal-burguês vigente no país.
Ainda sobre a notificação feita pelo STF à Dilma, é oportuno observar o
conteúdo do discurso apresentado pela peça de defesa da Presidente, assinada
pelos advogados José Eduardo Martins Cardozo e Renato Ferreira Moura Franco,
na qual é reiterada a caracterização do impeachment de Dilma Rousseff como
um golpe de Estado e realizado um razoável balanço bibliográfico de estudos
sobre o tema, chegando às seguintes observações sobre o que viria a ser o
“neogolpismo” ou os golpes de novo tipo:
Nesses golpes não são utilizados tanques, bombardeios, canhões ou
metralhadoras, como ocorre nos golpes militares. São usados argumentos
jurídicos falsos, mentirosos, buscando-se substituir a violência das ações armadas
pelas palavras ocas e hipócritas dos que se fingem de democratas para melhor
pisotear a democracia no momento em que isto servir a seus interesses. Invoca-se
a Constituição, apenas para que seja ela rasgada com elegância e sem ruídos
(Cardozo e Franco, 2016, p. 14).
Dessa maneira, o impeachment de Dilma seria concebido como um golpe
por ter sido construído por meio de processo “ilegítimo e ofensivo à
Constituição”. Com essa definição de golpe de Estado, a defesa de Dilma Rousseff
procurava questionar o processo de impeachment e contestar os argumentos
jurídicos da acusação – que concebia as pedaladas fiscais e os decretos de
créditos suplementares como crimes de responsabilidade –, por considerá-los
falsos e utilizados de maneira casuística para destituir uma governante que passa
por uma situação de impopularidade. Além disso, a defesa de Dilma identificava,
nas oposições parlamentares, os agentes principais do golpe, pois a elas caberia
aceitar e aprovar o pedido de impeachment: “Que oposições parlamentares não
buscarão a desestabilização política, independentemente do agravamento que
isso traga à economia e às condições sociais do povo, na busca de um assalto
rápido ao poder, fora da legitimação das urnas?” (Cardoso e Franco, 2016, p. 16).
Em linhas gerais, essa peça de defesa enunciava os meios empregados para a
deflagração do golpe de Estado: o uso casuístico da lei; e os agentes principais
que deram o golpe, a oposição parlamentar. Essa seria a tônica da defesa de
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Dilma durante todo o processo para denunciar o impeachment da Presidente
como expressão de um novo tipo de golpe.
Para além de tratar o debate político como o lugar das paixões e emoções,
no qual apenas imperariam os comportamentos subjetivos ou mesmo irracionais
dos agentes envolvidos, procuramos indicar nesta seção do artigo alguns dos
pressupostos teóricos que informavam as diferentes análises e tomadas de posição
política na conjuntura em questão. Ainda que os meios empregados e os critérios
de validação do discurso político tenham sua especifidade, é possível observar,
no discurso acadêmico, a repetição de uma série de questionamentos que se
fizeram também presentes nos debates políticos. Com isso, não queremos
sustentar que a ciência tenha se subsumido à dinâmica política, ou mesmo se
sobreposto, mas sim indicar as afinidades eletivas entre um discurso e outro.
Como veremos, a seguir, essas afinidades eletivas se manifestam nos próprios
questionamentos feitos pela produção acadêmica sobre o assunto em pauta: o
golpe de Estado implica o uso da força? O impeachment só pode ser concebido
como um expediente legal e constitucional ou pode ser utilizado para outros fins?
Quais foram os protagonistas principais do processo de destituição da presidente
Dilma e quais métodos empregaram para atingir esse objetivo? Quais interesses
estavam em jogo nesse processo?
Não foi Golpe: o caráter constitucional do impeachment de Dilma no debate
acadêmico
A destituição de presidentes da República na América Latina e no mundo
tem sido objeto de várias análises no âmbito das Ciências Humanas. Parte delas
tem identificado uma mudança nos meios empregados e nas forças institucionais
que são responsáveis por tais processos de destituição, indicando, assim, que, a
partir dos anos 1980, os presidentes da República não seriam mais removidos por
meio de métodos violentos empregados por forças militares.
De acordo com Hochstetler (2007), o período de 1978 a 2003 foi marcado
pela contestação de cerca de 40% dos presidentes eleitos na América Latina, dos
quais 23% foram substituídos por civis por meio de impeachment e renúncias.
Para a autora, três fatores principais marcaram esses processos contestatórios: a
implementação de políticas neoliberais, o envolvimento pessoal do presidente
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com corrupção e a dificuldade do presidente de obter maioria junto ao
Congresso. Diferentemente das décadas anteriores, na qual a queda de
presidentes se dava pela ação dos militares, a conjuntura aberta a partir do final
dos anos 1970 teria sido marcada pela presença de protestos populares como
variável fundamental para a destituição presidencial.
Bermeo (2016) sustenta que há, desde os anos 1990, três variedades de
“retrocesso democrático” em ascensão: 1) os “golpes promissórios” que
“abrangem a derrubada de um governo eleito como uma defesa da legalidade
democrática e envolvem uma promessa pública de realizar eleições e restaurar a
democracia o mais rápido possível” (Ibidem, p. 8); 2) a ampliação das atribuições
do Executivo, englobando uma série de mudanças institucionais para limitar ou
dificultar a intervenção das forças de oposição, sem que haja necessidade de
colocar em xeque a institucionalidade democrática; e, por fim, 3) a “manipulação
estratégica das eleições”, a qual compreende uma série de iniciativas que são
tomadas no interior da própria institucionalidade para favorecer determinada
candidatura sem que isso denote a aparência de fraude.
Já Powell e Thyne (2011) realizam amplo balanço sobre a ocorrência de
golpes de Estado entre 1950 e 2010 no mundo todo e observam uma queda
tendencial do número de golpes de Estado, especialmente a partir dos anos 1980,
indicando, contudo, haver um declínio ainda mais acentuado do número de
golpes de Estado e um crescimento significativo de golpes bem-sucedidos, a partir
dos anos 2000 – o que teria resultado no maior índice de golpes bem-sucedidos
em todo o período por eles analisado: “12 das 18 (67%) tentativas de golpe foram
desde então bem-sucedidas, e somente uma das quatro mais recentes tentativas
falhou” (Ibidem, p. 255).
É possível admitir, portanto, que o ascenso e a difusão ampla de diversos
regimes democráticos, em escala internacional, nas últimas décadas, teriam
criado novas condicionalidades para os processos de interrupção de mandatos
presidenciais, que passaram a ser resolvidos por métodos não violentos, sob o
apanágio constitucional e executados por forças civis que integram o Estado. No
entanto, uma questão emerge nesse debate: o uso do procedimento de
impeachment poderia ser caracterizado como fator de uma nova forma de golpe
de Estado?
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Para Pérez-Liñan (2018), o impeachment contemporâneo pode ser
considerado como o “equivalente funcional” do golpe militar do passado, pois
ambos processos tendem a possuir causas históricas em comum, tais como: as
recessões econômicas que desestabilizam o governo, a existência de
mobilizações populares que o enfraquecem e fortalecem a oposição e a
radicalização dos posicionamentos políticos das elites. No entanto, o autor
considera um equívoco analítico e político ampliar o conceito de golpe de Estado
para incorporar os processos de impeachment:
Analiticamente, não podemos realizar pesquisas empíricas para identificar
semelhanças e diferenças, a menos que tenhamos uma clara distinção conceitual
entre as duas categorias. Politicamente, a identificação de impeachment e golpes
cria desafios inesperados: implica – de maneira revisionista – que os movimentos
sociais que defendiam impeachment na década de 1990 eram antidemocráticos,
naturaliza o papel da intervenção militar nas narrativas anticorrupção e oculta o
fato de que presidentes poderosos – não parlamentares poderosos – são o
principal perigo para a estabilidade democrática. (Pérez-Liñan, 2018, pp. 10-11).
Ainda que considere que o Congresso e/ou Judiciário possam cometer
abusos e distorcer o caráter democrático do dispositivo do impeachment quando
o Executivo não estiver amparado por sólido apoio popular, Pérez-Liñan (2018)
entende que o maior risco à democracia nos países latino-americanos não se
encontra no Congresso ou no Judiciário, mas na hegemonia do Executivo que
conta com vários recursos a seu dispor, como o comando da “patronagem”, dos
“recursos orçamentários” e das “forças de segurança” para impor um poder
autoritário. Nessa perspectiva, o conceito de golpe de Estado não pode abrigar o
conceito de impeachment por estar diretamente associado a uma prática
antidemocrática.5
Marsteintredet (2013) procura analisar os casos de destituição inesperada
de presidentes que não acarretam em rupturas democráticas. Em vez de procurar
5 Em obra anterior, Liñan-Perez (2009) sustentava que o período 1992-2004 teria sido marcado
por um “novo padrão de instabilidade”, no qual as destituições de presidentes democraticamente
eleitos não implicaram a derrubada de regimes democráticos, tal como teria ocorrido na América
Latina nos anos 1960 e 1970. Para ele, três seriam os fatores principais que tornariam possível o
impeachment sem rompimento com a ordem constitucional: a) os meios de comunicação
passaram a exercer um papel fundamental na investigação e revelação de escândalos de
corrupção; b) os presidentes deixaram de controlar ou obter apoio do Congresso; e c) a
mobilização popular contra o governo tornou-se um aspecto decisivo para a queda do presidente.
Em linhas gerais, sua análise estabelece uma clara distinção entre crises presidenciais que
resultam da ativação de mecanismos constitucionais para destituir o presidente (impeachment) e
aquelas derivadas de ações inconstitucionais (golpe de Estado).
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identificar qualquer traço em comum desses processos com os golpes de Estado,
o autor prefere classificar a “nova forma de instabilidade do Executivo” como
“interrupção presidencial”, que ganha projeção na América Latina a partir de
1978, isto é, trata-se de “uma saída prematura, extraordinária e forçada de um
presidente eleito que não acarreta numa ruptura democrática” (Ibidem, p. 2). Isso
não significa que as interrupções presidenciais ocorridas na América Latina sejam
todas iguais. Na verdade, o autor lança mão de uma tipologia para explicar a
variação dos casos e identifica duas variáveis: a) a motivação primária da
oposição, que pode ter relação com o comportamento ilegal ou inconstitucional
do presidente ou com as políticas ou comportamento político que adota,
podendo haver a combinação de ambas motivações; e b) o grau de aderência às
regras democráticas, abarcando as seguintes implicações:
Se o presidente é o ator mais antidemocrático, removê-lo provavelmente afetará
positivamente a democracia. Se a oposição é o ator mais antidemocrático e
consegue destituir o presidente, é provável que a interrupção fortaleça uma
oposição semileal ou desleal, prejudicando o desenvolvimento democrático
(Ibidem, p. 6).
Novamente, o conceito de golpe é utilizado para se referir à ação militar e
à ruptura democrática.
Em outro artigo, Kasahara e Marsteintredet (2018) formulam a seguinte
tipologia dos mandatos interrompidos desde 1985 na América Latina: via
institucional/impeachment: Collor (1992, Brasil), Pérez (1993, Venezuela), Cubas
(1999, Paraguai), Lugo (2012, Paraguai), Pérez-Molina (2015, Guatemala) e
Rousseff (2016, Brasil); via institucional/incapacidade ou abandono de cargo:
Bucaram (1997, Equador) e Gutiérrez (2005, Equador); via decisão unilateral do
presidente/renúncia: Alfonsín (1989, Argentina), de la Rúa (2001, Argentina),
Serrano (1993, Guatemala), Fujimori (2000, Peru), Sánchez de Lozada (2003,
Bolívia), Mesa (2005, Bolívia); via decisão unilateral do presidente/renúncia e
eleições antecipadas: Siles Zuazo (1985, Bolívia) e Balaguer (1986, República
Dominicana); via ação militar/golpe: Mahuad (2000, Equador) e Zelaya (2009,
Honduras).
No caso do impeachment de Dilma, Kasahara e Marsteintredet (2018)
procuram caracterizá-lo como uma “resposta parlamentarista à crise”, um “voto
de desconfiança” marcado por motivações de caráter político e “fundamentações
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controversas” que gerariam custos políticos de grande magnitude e que não
seriam satisfatórios para resolver a própria crise. Os autores indicam que seria
mais produtivo realizar reformas institucionais para reduzir o “risco de
manipulação do impeachment” e as tensões decorrentes de sua legitimidade e
legalidade, e para tratá-lo como mecanismo de destituição presidencial
exclusivamente político. Mais importante do que discutir “se é um golpe ou não”,
para a aprovação do impeachment por motivações políticas, como eles apontam,
seria preciso manter o quórum qualificado de 2/3, estabelecer uma cláusula de
dissolução do Congresso e convocar novas eleições, possibilitando, assim, que
tanto o Congresso como o vice-presidente dividissem com o presidente os custos
da remoção. Diante do exposto, caberia fazer a seguinte indagação: quais as
possibilidades de se concretizar um impeachment, caso essas reformas
institucionais fossem realizadas e todo o processo decisório de aprovação do
impeachment ficasse nas mãos das partes diretamente envolvidas?
Em artigo mais recente, Marsteintredet e Malamud (2019) procuram fazer
um balanço dos usos do conceito de “golpe com adjetivos” e identificam um
paradoxo na produção acadêmica sobre o tema disponível em espanhol, tendo
em vista que, ao mesmo tempo em que há um aumento da frequência do uso do
conceito de golpe, há um declínio da ocorrência desse fenômeno nos anos 2000.
Na visão desses autores, há em curso um alargamento deste conceito,
comprometendo-se os critérios basilares para a sua própria definição. Em
contraposição à perspectiva dos “golpes com adjetivos”, que pode assumir
variadas formas: neoliberal, constitucional, parlamentar, jurídico, brando, etc.,
Marsteintredet e Malamud (2019) concebem que o conceito de golpe de Estado
abrange três elementos fundamentais: o ator que perpetra o golpe, que se situa no
interior do próprio Estado (militares, judiciário, congresso, burocracia civil); a
vítima ou alvo que é golpeado, indicando, com isso, que todo golpe envolve uma
mudança de governo – e não necessariamente de regime; e a tática adotada, que
assume um caráter ilegal e inconstitucional de destituição do governo. Para tais
autores, o impeachment não pode ser caracterizado como um golpe, pois não
abrange um desses elementos: o emprego da tática ilegal. Nesse sentido, quando
procuram situar a destituição de Dilma Rousseff, descartam a tese do golpe de
Estado por considerarem que não houve o uso de métodos ilegais ou
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inconstitucionais. Para atestar essa questionável tese, valem-se, inclusive, do
argumento de que autoridades nacionais e internacionais não reconheceram tal
destituição como golpe. Além disso, compreendem que não faz sentido falar nem
em golpe jurídico, pois não houve uso da força e ameaças à ordem
constitucional, nem em golpe parlamentar, uma vez que o requerimento de
impeachment foi aprovado pelo número de parlamentares requerido pela própria
Constituição.
Limongi (2017) também descarta a tese do golpe de Estado para
caracterizar o impeachment de Dilma. Para ele, essa presidente teria sido
destituída por perder apoio parlamentar e teria perdido esse apoio tanto por ter
tentado mudar, de maneira “quixotesca”, “esquemas consolidados de corrupção
envolvendo acordos partidários” (Ibidem, p. 8), como por não oferecer um porto
seguro a segmentos de sua própria base política no Congresso que vinham sendo
alvo da Operação Lava Jato. Para Limongi, o impeachment seria fruto
principalmente da inabilidade da presidente Dilma em estabelecer acordos
partidários para garantir ampla base de apoio parlamentar.
Em outro artigo escrito pelo autor conjuntamente com Figueiredo, eles
sustentam a tese de que a crise do segundo governo Dilma que resultou no seu
impedimento não seria derivada de “causas institucionais”, mas
fundamentalmente da “estratégia dos atores políticos”. Nesse sentido, não seria
resultante da própria dinâmica do chamado “presidencialismo de coalizão” – que
funcionaria sob a base da barganha e da cooperação entre Executivo e coalizão
partidária no Congresso Nacional –, mas fruto da indecisão e da incapacidade do
governo Dilma de propor medidas para conter a polarização política – que vinha
ganhando força, ao menos desde as eleições de 2014 – e a crise econômica. Isto
teria aberto brechas para que o governo fosse “bombardeado pelos dois lados,
tanto pela direita quanto pela esquerda” (Limongi e Figueiredo, 2017, p. 92),
possibilitou que Eduardo Cunha atuasse como um dos principais responsáveis por
sua queda, e que Temer tirasse proveito disso, pois, afinal, ambos e outros aliados
“fizeram uso da mobilização anti-PT para chegar ao poder e, dessa forma,
aumentar suas chances de escapar das denúncias que os ameaçavam” (Ibidem, p.
95). Por esse ângulo de análise, o impedimento de Dilma não teria sido causado
pelo presidencialismo de coalizão, mas estaria relacionado tanto à inabilidade da
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Presidente para estabelecer alianças quanto à ação racional da oposição para
remover Dilma do cargo de presidente da República com vistas a assumir o
governo e conter as denúncias de corrupção que lhes eram dirigidas.
Da análise que empreendemos até aqui sobre a produção acadêmica que
refuta, problematiza ou faz reparos à tese de que o impeachment de Dilma
poderia ser caracterizado como um golpe de Estado, podemos identificar alguns
aspectos em comum:
a) em primeiro lugar, chama-nos a atenção o forte predomínio da
problemática teórica institucionalista nessas análises,6 o que as levam a dissociar
a relação entre instituições e conflitos de classe, ou seja, a operar com a ideia de
que as instituições políticas do Estado são apartadas das relações de classe. Qual
é consequência desse procedimento analítico? Tal procedimento resulta na
ocultação ou omissão do impacto dos conflitos reprodutivos de classe sobre o
processo de destituição da presidente Dilma Rousseff, o que também não lhes
impossibilita detectar qual é a força social dirigente do processo de deposição
presidencial;
b) em segundo lugar, ao operarem com a distinção entre golpe de Estado
(= violação constitucional e ruptura democrática) e impeachment (=
procedimento legal e constitucional nos limites da democracia), tais análises
assumem abertamente uma visão edulcorada de democracia, que é concebida
fundamentalmente como resultante de uma relação harmônica entre Executivo e
Legislativo. Nesse sentido, o impeachment de Dilma pode ser entendido como
um “voto de desconfiança” do Congresso Nacional contra o Executivo para que o
sistema político traga a relação entre Executivo e Legislativo à sua
normalidade/estabilidade. A crise do impeachment seria compreendida, assim,
6 No âmbito da análise institucionalista, há autores que identificam o impeachment de Dilma
como um golpe parlamentar. Este é o caso de Santos e Guarnieri (2016), que indicam que houve
uma queda do sucesso legislativo de Dilma no sentido de aprovar especialmente Medidas
Provisórias e Projetos de Lei Orçamentária, matérias que eram aprovadas sem muita dificuldade
nos anos anteriores. Os autores sustentam que tal queda não teve relação com a “baixa aprovação
do governo” ou com sua “guinada programática”, mas principalmente com a tentativa de
lideranças parlamentares, dirigidas por Eduardo Cunha, de obstruir as pautas do governo,
inicialmente em troca de verbas e cargos; com a iniciativa do PSDB de buscar formular o
requerimento de impeachment, mesmo quando não havia nenhum elemento que comprovasse
que a presidente Dilma tivesse cometido algum crime de responsabilidade; e com os protestos de
rua organizados pela direita e incentivados pela divulgação das denúncias de corrupção feitas
pela Lava Jato com o apoio da mídia.
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como possibilidade histórica do próprio processo de “consolidação da
democracia”, que, por vezes, passa por caminhos tortuosos sem perder de vista a
rota a que está inelutavelmente destinada a seguir.7 Trata-se, na verdade, de uma
visão teleológica sobre o processo de evolução da democracia a partir da
transição política ocorrida nos anos 1980. A própria noção de “consolidação da
democracia” está bastante ligada à ideia de linearidade e de processo que se
aprofunda progressivamente – o que pode resultar na ocultação e na
subestimação da continuidade da presença de aspectos autoritários no novo
regime político e na idealização da possibilidade efetiva de concretização dos
processos democráticos. Em resumo, como a época dos golpes militares no Brasil
teria sido supostamente deixada para trás, a aplicação do dispositivo do
impeachment para interromper o mandato de Dilma Rousseff só poderia ser vista,
para tais analistas, como manifestação da força das instituições democráticas no
país, tese que foi amplamente difundida e sintetizada pela mídia corporativa e por
formadores de opinião por meio do jargão: “as instituições estão funcionando
normalmente”;
c) em terceiro lugar, é preciso observar que, embora tais análises
reconheçam que um golpe de Estado é perpetrado por um órgão interno ao
Estado e que, portanto, o golpe pode ser executado por militares, parlamentares,
judiciário e setores da burocracia civil, elas tendem a sustentar, aberta ou
veladamente, que, desde que se respeite todos os ritos constitucionais, a
aprovação do impeachment não pode ser confundida com a deflagração de um
golpe de Estado. O uso casuístico da legislação e da Constituição não é tratado
como uma espécie de violação constitucional, mas apenas como uma
controvérsia que pode ser superada desde que as instituições políticas nacionais e
internacionais não reconheçam a deposição de Dilma ou de qualquer outro
presidente da República como um golpe.
Assim, é possível afirmar que os analistas orientados pela perspectiva
institucionalista tendem a ser movidos por uma espécie de fetiche do
constitucionalismo, que descura da distinção existente entre a lei (formal) e a
7 Como nos lembra Miguel (2019b), essa ideia de consolidação democrática que informa boa
parte das análises institucionalistas, é uma noção inútil para analisar a conjuntura de deposição da
presidente Dilma, uma vez que se sustenta na “crença de que a institucionalidade burguesa pode,
de fato, realizar os valores que ela promete” (Ibidem, p. 19)
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efetividade da lei (real), e ocultam, assim, as manobras políticas que podem ser
adotadas pelas forças sociais politicamente ascendentes para favorecer seus
interesses. Tais análises também comungam com uma visão das instituições que
tende a tratar o Executivo como o polo negativo, já que estaria inclinado ao
autoritarismo, e o Congresso Nacional como polo positivo, uma vez que
expressaria forte potência democrática. Por justamente desconsiderar as conexões
entre instituições e conflitos de classes sociais, tal forma de tratar as relações entre
Executivo e Legislativo torna-se bastante insuficiente do ponto de vista analítico e
distante daquilo que o filósofo florentino chamou de “verdade efetiva da coisa”.
Contrariando essa visão idealista sobre o Legislativo, é importante retomar a
análise das crises da história republicana brasileira, realizada por Napolitano e
Ribeiro (2017, p. 72), que salientam que via de regra no caso brasileiro: “(…) o
Congresso Nacional entra em cena, não para dar sustentação aos projetos
reformistas, ainda que temperados, mas para bloqueá-los de maneira
intransigente”. Nessa perspectiva, o Congresso Nacional estaria associado ao
“golpismo atávico” que acomete a história republicana brasileira e não seria
concebido como o lugar onde se manifestam os potenciais democráticos mais
sublimes.8
Foi Golpe: a destituição de Dilma caracterizada como golpe de Estado
No que se refere às análises que operam com o conceito de golpe de
Estado para se referir ao processo de impeachment de Dilma Rousseff,
identificamos divergências significativas. Há análises que se dedicam mais
detidamente à discussão sobre o próprio conceito de golpe e procuram responder
à pergunta: por que foi golpe?, outras tendem mais a aplicar tal conceito à análise
deste processo sem entrar nos detalhes sobre o que diferencia um golpe de outros
8 Tal consideração não nos leva a desconsiderar as implicações que possuem a forte centralização
e concentração de poderes no Executivo sobre o processo decisório nas democracias burguesas,
fenômeno que vem sendo caracterizado por vários analistas do campo crítico, como: “estatismo
autoritário” (Poulantzas, 2000; Boukalas, 2014), “autoritarismo civil” (Saes, 2001) ou
“bonapartismo soft” (Losurdo, 2004). Ocorre que nenhum deles recorre a uma visão formalista das
instituições, considerando-as como apartadas dos conflitos reprodutivos de classe. Ao contrário,
definem o processo de centralização e concentração de poderes no Executivo como resultante ou
como expressão desses conflitos.
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fenômenos que envolvem a interrupção de mandatos presidenciais.
Apresentaremos, a seguir, algumas dessas interpretações.
Perissinotto (2016) indica três elementos para caracterizar a destituição de
Dilma como um golpe de Estado. Em primeiro lugar, destaca o uso casuístico ou
oportunista dos procedimentos legais para aprovar o impeachment, que já vinha
sendo alimentado desde o questionamento dos resultados eleitorais realizado
pelo PSDB. Em segundo lugar, sustenta que todo golpe de Estado conta com a
participação de agentes estatais e envolve uma ação conspiratória, mas considera
importante distinguir: os “perpetradores intencionais”, que são representados pela
“coalizão política de conveniência” formada por PMDB e PSDB, e os agentes que
criaram as condições propícias para o golpe, entre os quais quatro deles
tornaram-se fundamentais: os protestos de rua organizado pela direita desde
2013, a mídia, o STF e “o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal e os
efeitos da Lava Jato”. Ao operar com essa distinção, ele refuta a caracterização do
golpe contra Dilma como um golpe parlamentar-jurídico por associar
principalmente o conceito de golpe aos seus “perpetradores intencionais”.
Perissinotto (2016) aponta também que o debate sobre a natureza social ou de
classe do golpe pode se converter num dos pontos importantes para a agenda de
pesquisa da Ciência Política sobre os golpes, mas apenas indica tal possibilidade
sem analisá-la ou tratá-la como critério para caracterizar a deposição de Dilma
como um golpe de Estado.
Para Santos (2017), diferentemente do “assalto ao poder” perpetrado pelos
golpes militares que envolvem o uso da violência e podem se concretizar em
qualquer regime, os golpes parlamentares só podem ocorrer em democracias
representativas de massa, que são caracterizadas por duas condições:
1. a competição eleitoral pelos lugares de poder, a intervalos regulares, com
regras explícitas, e cujos resultados sejam conhecidos pelos competidores; 2. a
participação da coletividade na competição se dê sob a regra do sufrágio
universal, tendo por única barreira o requisito de idade limítrofe (Ibidem, p. 25).
Para ele, os golpes parlamentares são profundamente marcados por uma
instabilidade política, na qual as alianças feitas para destituir um governo não
oferecem garantias, seja para quem herdá-lo, seja sobre como exercê-lo, sendo
seus executores civis vinculados ao parlamento. Desse modo:
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Em golpes parlamentares, é a reação parlamentar dos derrotados que violenta o
princípio de garantias mútuas e se dispõe a destituir o grupo político vencedor
com apelos controversos à legislação constitucional (…). [tais golpes] indicam
uma modalidade de ruptura de governo, sem explícitas alterações legais, a que
estão expostos todos os governos regularmente eleitos, parlamentaristas ou
presidencialistas (Santos, 2017, pp. 31-32)
Na comparação dos golpes de 1964 e 2016, ao mesmo tempo que
diferencia quem foram seus executores (respectivamente, militares e civis), Santos
(2017) assinala como denominador comum de ambos eventos o fato de terem
sido resultado de uma “clara reação dos conservadores [constituída por
empresários brasileiros e grandes parcelas das classes médias] à participação
popular na vida pública e rejeição de políticas de acentuado conteúdo social”
(Ibidem, p. 32). Como ele destaca, a própria crítica à corrupção e os apelos éticos
feitos por grupos conservadores que se fizeram presentes na crise de 1954,
levando ao suicídio de Vargas; na vitória eleitoral de Juscelino Kubitschek, em
1955; e na derrubada de João Goulart, em 1964, não tinham como prioridade
fundamental o combate à corrupção, mas foram expedientes empregados com o
propósito de conter medidas favoráveis aos “destituídos” e às “classes
vulneráveis”, assim: “(…) na maioria absoluta das vezes o governo denunciado é
de inclinação popular” (Ibidem, p. 42).
Embora enquadre a destituição de Dilma como um golpe parlamentar
resultante de uma reação conservadora a um governo de inclinação popular, para
Santos (2017), o aspecto institucional do golpe, ou seja, a centralidade dada à
participação dos parlamentares na deflagração do impeachment parece ser
relativizada ao longo de sua análise, na medida em que ele passa a defender que
a Ação Penal 470, também conhecida como “julgamento do mensalão”, teria
inaugurado a ação conservadora de interrupção da liderança do PT pela via não
eleitoral, ou ainda: “A Ação Penal 470 estreou ostensivo espetáculo de
intervenção jurídica na política [e] deu início à formulação jurídica dos
fundamentos para os golpes parlamentares de transgressão constitucional”
(Ibidem, pp. 159-160).9 Mais do que isso, o autor sustenta explicitamente que o
9 Na análise do autor, três teses foram advogadas pelo STF para dar sustentação à AP 470: a) a
tese de que “a Constituição era aquilo que o Supremo Tribunal Federal diz que ela é”,
consolidando, assim, uma espécie de “sequestro de poder constituinte do povo”; 2) a tese de que
o acusado deve assumir a responsabilidade por demonstrar que não era culpado, o que implica a
“disjunção epistemológica entre ser inocente e não ser culpado”; e 3) a tese da “imputação de
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golpe concretizou-se por meio de um “acordo tácito” das forças majoritárias do
Judiciário e do Legislativo, além de envolver o papel decisivo do empresariado e
da mídia como “ator subsidiário” na difusão das notícias que chegavam às
grandes massas.
Napolitano (2019) observa que um dos traços comuns aos antigos e
contemporâneos golpes de Estado é a ação de um ator “abrigado no próprio
Estado”, e sustenta que os golpes de Estado contemporâneos tendem a se
manifestar “contra processos e projetos de mudança socioeconômica, vistos
como ‘subversão da ordem tradicional’ (ou alegados como tais pelos golpistas)”
(Ibidem, p. 402). Ao examinar o caso das crises políticas e golpes de Estado
ocorridos no Brasil, especialmente as ocorridas a partir de 1945, identifica a
presença do que chama de “golpismo atávico”, que possui um caráter latente e
que pode aflorar com certa frequência, “alimentado por utopias autoritárias e
valores elitistas receosos dos avanços democráticos” (Ibidem, p. 407). De alguma
maneira, o autor parece compartilhar do mesmo entendimento de Santos (2017)
sobre o significado social dos golpes de Estado no Brasil e sustenta, ademais, que
havendo reduzida unidade entre as frações das elites e menor adesão social aos
seus interesses econômicos, maior demanda há por poderes moderadores para
impor soluções que nem sempre seguem a ordem constitucional e os valores
democráticos. Os exemplos de novos poderes moderadores fornecidos pelo autor
seriam os seguintes: a burocracia técnica federal nos anos 1930, as Forças
Armadas nos anos 1950 e 1960, e o Judiciário na conjuntura mais recente.
Napolitano (2019) enquadra a deposição de Dilma no rol de manifestações
do “golpismo atávico”, concretizado por “grupos conservadores brasileiros”
defensores da “moralidade pública” e apoiados por uma “sociedade amedrontada
pela crise econômica, pela insegurança pública e pela falta de serviços básicos”
(Ibidem, p. 413). Em outra análise, atesta que o conflito entre Legislativo e
Executivo foi um elemento constante das crises republicanas no Brasil ocorridas
em 1954, 1964 e 2016, ainda que tenha exercido um papel político-ideológico e
possibilidade objetiva e causalidade adequada”, que acarreta a ideia de que “a inexistência de
provas de conexões inferiores (causações adequadas ao longo de toda cadeia de comando
[administrativo]) comprovava, contra o réu, que ele era responsável pelo ilícito. Era dispensável
sua presença em qualquer outro lugar da hierarquia de decisão: ele possuía o domínio do fato”
(Santos, 2017, p. 168 et seq.)
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assumido graus distintos em cada um desses eventos políticos, diferenciando-se,
como vimos, de muitas análises que procuraram delegar um papel progressista ao
Congresso (Napolitano e Ribeiro, 2017). É oportuno apresentar, numa longa
citação, os aspectos principais que, segundo tais autores, caracterizariam as
deposições forçadas de presidentes da República, entre as quais se inclui o
impeachment de Dilma:
1) Resistência dos segmentos conservadores, sejam liberais ou autoritários, a
líderes e partidos políticos afinados com qualquer tipo de “política de massas” e
agendas econômicas “nacional-desenvolvimentistas”, ainda que moderadas. 2)
Existência de uma cultura política autoritária que, para além de se constituir
como uma corrente doutrinária delimitada e específica, é pautada sobretudo pelo
chamado “autoritarismo de crise”, sugerindo um deficit democrático arraigado na
tradição do constitucionalismo liberal brasileiro. Inclusive, (...) um traço
autoritário como constituinte das práticas institucionais de parte das elites
políticas brasileiras. 3) Dificuldade de articulação social e político-institucional de
um projeto reformista e nacional-desenvolvimentista consistentes, dado o
antirreformismo visceral das elites, profissionais liberais e da classe média alta,
(...) 4) Uso de estratégias de desconstrução simbólica dos governos indesejáveis
ao establishment que constituem uma espécie de “tecnologia golpista” para
derrubar governos eleitos, disseminada sobretudo pela imprensa liberal,
espalhando-se na opinião pública a partir dos seguintes elementos-chave:
denúncia da corrupção, denúncia da inversão de valores e hierarquias sociais e
de querer instaurar a “divisão social” (“subversão”), denúncia do “populismo
irresponsável” ameaçador à “boa administração” do Estado e da livre-iniciativa.
5) Instrumentalização do Congresso Nacional como fator de pressão sobre as
agendas reformistas do Executivo, em combinação a outros agentes e instituições
(como as Forças Armadas no passado e o Poder Judiciário no presente). No caso
do Poder Legislativo, vale ressaltar que sua composição social é historicamente
conservadora. (Ibidem, pp.73-74)
Souza (2016) também trata a deposição de Dilma como um golpe de
Estado. Em sua análise é crucial o papel cumprido pela “elite do dinheiro” nesse
processo: “é antes de tudo a elite financeira que comanda os grandes bancos e os
fundos de investimento” (Ibidem, p. 13). Trata-se de uma elite que comanda e
“compra” as demais elites existentes, tais como: as elites política, jurídica,
jornalística, intelectual, literária, etc. Nesse sentido, o autor caracteriza o golpe
como uma fraude concretizada pela elite do dinheiro e que está profundamente
vinculada ao tema da “corrupção seletiva”: “Todos os golpes de Estado tiveram a
corrupção como mote, precisamente porque ela se presta sem esforço a ser
tomada arbitrariamente contra o inimigo político de ocasião” (Ibidem, p. 12).
Um dos elementos destacados pelo autor para dar sustentação ao golpe foi
o conluio constituído entre mídia e aparato jurídico-político. Esse conluio passou
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a se estabelecer quando a pauta da redução das tarifas de transportes, mobilizada
no contexto das manifestações de junho de 2013, passou a ceder lugar para
bandeiras de natureza “antipolíticas” e “antipartidos”, a ser substituída por temas
como inflação e custo de vida, corrupção e, em especial, a promover ataques
contra a PEC 37, que visava estabelecer uma divisão de funções entre
investigação (Polícia Federal), acusação (Ministério Público) e julgamento (Juiz).
O que a “casta jurídica” desejava era concentrar todas essas funções e conseguir
derrotar a PEC 37 com a ajuda da mídia. Com a não aprovação da PEC 37 no
Congresso Nacional, o discurso anticorrupção ganhou força e se fez presente na
disputa eleitoral de 2014, juntamente aos discursos sobre o controle de gastos
públicos e da austeridade fiscal, e passou a ser adotado de maneira seletiva para
atacar o PT e seus principais líderes. Dessa maneira, aquilo que surgiu como algo
abstrato em junho de 2013, tornava-se algo mais concreto, especialmente com a
criação da Lava Jato no começo de 2014, que gradualmente acabou
desempenhando o papel de criminalizar o PT, sua base de apoio e seu projeto de
inclusão social. Tratava-se de um “falso combate à corrupção”, que jamais
poderia confessar os reais interesses [da elite do dinheiro] que o sustentava, por
dois motivos principais:
(…) primeiro, a corrupção pode ser vendida como interesse de todos, servindo
como uma luva para todo tipo de mascaramento de interesses particulares em
interesse geral; em segundo lugar, ninguém diz verdadeiramente o que é
corrupção, tornando-a, precisamente por seu caráter impreciso e maleável, o
mote ideal de todo tipo de distorção sistemática da realidade (Souza, 2016, p.
113).
Na caracterização do processo de golpe, Souza (2016) identifica um
protagonismo inicial do Judiciário, graças ao vazamento ilegal da conversa entre
a presidente Dilma e Lula feita a comando do juiz Sérgio Moro e ao impedimento
da nomeação de Lula para o Ministério da Casa Civil. No entanto, considera que
o Judiciário teria perdido sua “aura de imparcialidade” justamente por tomar
essas iniciativas, abrindo espaço, na cena, para o Parlamento. Liderada pelo
deputado Eduardo Cunha (PMDB), a maioria dos congressistas procurou
enfraquecer o governo federal por meio da aprovação de projetos de lei (as
chamadas “pautas-bombas”) que aumentavam os gastos públicos e impunham
óbices ao cumprimento das metas fiscais de 2015. Mais tarde, quando se viu
ameaçado por processo de cassação na Comissão de Ética da Câmara dos
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Deputados, Cunha autorizou a abertura do processo de impeachment. Pelo fato
de o Judiciário ter saído de cena com sentimento de “dever cumprido”, como
salienta Souza (2016), o Parlamento se tornou o principal protagonista do golpe.
Com isso, conclui:
A elite financeira, a mídia – sob o comando da TV Globo –, o parlamento
comprado e a casta jurídica se unem e decretam o fim do governo eleito. Com o
golpe consumado, todos os interesses que se articulam partem direto para a
rapina e para o saque do espólio. Vender as riquezas brasileiras, o petróleo à
frente, cortar os gastos sociais, posto que o que vale agora é apenas o interesse do
1% mais rico, e fazer a festa da turma da “privataria”. Os pobres voltam ao
esquecimento, à marginalidade e aos salários de escravos por serviços à classe
média e às empresas dos endinheirados. Tudo como antes como no quartel de
Abrantes (Ibidem, pp. 131-132)
Singer (2015) anteviu alguns aspectos importantes que contribuiriam
pouco tempo depois para a deflagração do golpe. Ao analisar o primeiro governo
Dilma, o autor identificou, nesse período, a existência de uma contradição entre
uma coalizão produtivista, formada por industriais e trabalhadores organizados, e
uma coalizão rentista, que agregava o capital financeiro e a classe média
tradicional, e observou que o ensaio desenvolvimentista capitaneado pela
coalizão produtivista começava a passar por um processo de crise, a partir da
qual se constituiria uma “frente única burguesa anti-desenvolvimentista”, que se
unificaria sob a dominância do rentismo e reivindicaria a política neoliberal.
Vários fatores explicariam a crise do ensaio desenvolvimentista e a dissolução da
coalizão produtivista, mas um deles teria sido fundamental para provocar tais
deslocamentos, a saber, o ativismo estatal perseguido pelo governo Dilma:
Enquanto, pelo alto, Dilma e Mantega realizaram ousado programa de redução
dos juros, desvalorização da moeda, controle do fluxo de capitais, subsídios ao
investimento produtivo e reordenação favorável ao interesse público de
concessões à iniciativa privada, no chão social e político o vínculo entre
industriais e trabalhadores se dissolvia, e os empresários se unificavam “contra o
intervencionismo” (Ibidem, p. 69)
Esse seria o pano de fundo dos conflitos de classe que levaria,
posteriormente, Singer (2018) a caracterizar o impeachment de Dilma como um
golpe parlamentar, destacando, desse modo, o papel que o Congresso cumpriu
nesse processo. Para ele, o golpe parlamentar resultou da formação de uma
“sólida frente antirrepublicana”, liderada por Eduardo Cunha e setores do PMDB,
como o próprio vice-presidente Michel Temer. Tal frente foi construída para se
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contrapor ao ensaio republicano que Dilma teria buscado pôr em prática durante
seu governo, especialmente com a constituição da Operação Lava Jato – que teria
revelado um forte esquema de corrupção na Petrobras. Portanto, Singer (2018)
parte do pressuposto de que a Lava Jato teria, em alguma medida, cumprido um
papel republicano e que mesmo que tenha tido como alvo preferencial quadros
ligados ao PT, na prática, teria gerado reação de setores antirrepublicanos no
Congresso e contribuído para desconstruir a base parlamentar do governo Dilma.
Ademais, o autor procura desvincular as ideias de golpe parlamentar e
golpe de Estado, quando observa que:
(...) golpe parlamentar não é golpe de Estado, que “na grande maioria dos casos”
significa a tomada do poder pelas Forças Armadas. O processo de impedimento,
repleto de incontáveis peripécias, fora aprovado na Câmara, em 17 de abril, por
maioria constitucional, depois de quatro meses de contraditório, público e livre,
entre acusação e defesa. (Singer, 2018, p. 14)”
Assim sendo, o conceito de golpe de Estado passa a se referir unicamente à
ação de militares, e a aprovação por parte de uma maioria constitucional do
impeachment de Dilma torna-se o critério empregado para concluir que não
houve ruptura democrática, como ocorre nos golpes militares, mas um “golpe por
dentro da Constituição” (Singer, 2018, p. 15).
Na análise de Boito Jr. (2018), o “golpe do impeachment” é caracterizado
fundamentalmente como resultante de uma ofensiva política do grande capital
internacional e da fração burguesa a ele associada (força política dirigente do
golpe) que é ancorada na mobilização da alta classe média (base social do golpe)
– o que teria permitido a restauração do neoliberalismo (mudança no conteúdo
da política econômica, social e externa do governo). A ofensiva restauradora do
neoliberalismo ocorre em meio a um processo de crise do
neodesenvolvimentismo, que se alicerçava na hegemonia política da grande
burguesia interna, com apoio do movimento popular e sindical organizado, e dos
trabalhadores da massa marginal, concebidos como principais beneficiários dos
programas sociais dos governos petistas. Diferentemente de Singer que advoga a
tese da frente única burguesa, Boito Jr. (2018) identifica ao menos três tipos de
posição da grande burguesia interna diante do golpe: capitulação (empresas
nacionais de construção civil e engenharia pesada, que foram perseguidas
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judicialmente pela Lava Jato), tentativa de salvar o governo Dilma (bancos
nacionais, especialmente Bradesco), apoio ativo (FIESP, CNI e indústria de
transformação) e neutralidade (indústria naval).
Além disso, observa que os conflitos de classe decorrentes desse processo
político repercutiram nas instituições políticas do Estado e no debate de ideias,
resultando, com isso, na deflagração de um golpe parlamentar, articulado
principalmente por partidos e parlamentares que se situavam na oposição ao
governo Dilma (p. ex., o PSDB, que desde o anúncio da vitória de Dilma nas
urnas, questionou os resultados das eleições de 2014) ou passaram para esse
campo político durante o processo (p. ex., o PMDB, especialmente após a
publicação do programa “Uma ponte para o futuro”, no final de 2015). Boito Jr.
(2018) salienta ainda que a Operação Lava Jato se tornou o partido da alta classe
média e que, embora os interesses dessa fração não coincidam com os interesses
das forças dirigentes do golpe, acabou sendo utilizada pelo imperialismo e pela
burguesia a ele associada para combater os interesses de sua fração rival: os
interesses da grande burguesia interna, fração que possui uma relação de
contradição e dependência em relação ao capital estrangeiro; distingue-se da
antiga burguesia nacional por não assumir posições anti-imperialistas; não é uma
mera correia de transmissão do capital imperialista; e está situada nos seguintes
ramos: indústria de transformação, construção civil, indústria naval, mineração,
agronegócio e bancos nacionais.
Apesar de evidenciar o importante papel da Lava Jato no golpe, o autor
não opera com a tese de que teria havido um golpe jurídico-parlamentar, embora
tal noção possa ser deduzida do desenvolvimento de sua análise, tendo em vista
o papel fundamental que ocupa a Lava Jato no processo de crise do
neodesenvolvimentismo e na deposição de Dilma. Para além do debate sobre os
aspectos institucionais do golpe, o que é central nesta análise são os conflitos de
classe, especialmente os que envolvem o aguçamento da contradição principal
entre imperialismo e burguesia a ele associada, de um lado, e burguesia interna,
de outro. Ou ainda, para ele, é preciso observar como os conflitos de classe
incidem e repercutem sobre os conflitos institucionais para que se possa alcançar
uma análise mais satisfatória da crise política e do golpe de Estado.
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Do mesmo modo que foi possível identificar alguns aspectos comuns às
análises que não tratam o impeachment de Dilma como golpe, podemos apontar
algumas semelhanças gerais existentes nas interpretações que afirmam haver uma
correlação entre tal impeachment e golpe de Estado. Certamente, trata-se de uma
unidade relacionada à tese geral (foi golpe) e também a um problema de fundo:
os conflitos de classe assumem importância decisiva na caracterização do
impedimento de Dilma. Isto distancia esse conjunto de análises do caráter
formalista predominante nos estudos orientados pela perspectiva institucionalista,
na medida em que tais análises procuram demonstrar o impacto dos conflitos de
classe sobre as instituições políticas do Estado e sobre o conteúdo da política
econômica e social.
Um problema que perpassa esse segundo conjunto de análises no campo
acadêmico é o debate sobre a natureza de classe do golpe. As interpretações,
aqui mencionadas, consideraram importante identificar quais forças sociais se
beneficiaram do golpe, ou ainda, procuraram oferecer respostas à questão: a
quem interessava a deposição de Dilma? As categorias mobilizadas para dar
conta da explicação desta questão variam de um caso para outro, mas subjaz a
todos analistas a necessidade de detectar, de modo mais ou menos desenvolvido,
a força social que dá direção política ao golpe, daí advindo o emprego de noções
e conceitos como: reação conservadora contra governo de inclinação popular,
“golpismo atávico” realizado por grupos conservadores brasileiros, “elite do
dinheiro”, “coalizão rentista”, “o capital financeiro e a burguesia a ele associada”.
Também se faz presente nesse debate a caracterização do conteúdo da
política de Estado que atende aos interesses das forças dirigentes e que passa a
orientar o governo que sucedeu o governo Dilma. Nesse caso, podemos destacar,
entre outras, as seguintes referências: antirreformismo visceral, rejeição às
políticas que atendem os interesses das classes vulneráveis, contrariedade a
projetos desenvolvimentistas e à continuidade de avanços democráticos,
aprofundamento da “privataria” e dos saques às riquezas nacionais, restauração
do neoliberalismo ortodoxo, dissolução da coalizão produtivista, crise do
neodesenvolvimentismo.
Todas essas referências aludem às mudanças reivindicadas e/ou
consumadas pelas forças dirigentes do golpe no plano da política econômica e
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social. Certamente, o exame post factum do golpe permite ao analista da
conjuntura um tratamento mais rigoroso das orientações predominantes da
política do governo nascido do golpe. No entanto, nada impediu que análises
feitas no calor dos acontecimentos conseguissem detectar tendências gerais dos
processos de realinhamento político de classe e de redefinição da política
econômica e social.
Por uma Caracterização do Impeachment de Dilma Rousseff como Golpe de
Estado: apontamentos finais
Diante do exposto e com o intuito de apresentar algumas conclusões
finais, chamamos a atenção para o fato de que todo golpe de Estado – o que
inclui o caso do impedimento de Dilma – implica uma mudança na correlação
política de forças que integram o bloco no poder, podendo, assim, acarretar na
redefinição da hegemonia política de uma fração do bloco no poder, caso em que
uma dada fração burguesa deixa de ter seus interesses priorizados pela política
estatal e cede lugar para outra fração pertencente ao bloco no poder. Nesse caso,
estaríamos diante da substituição da fração de classe que exerce o controle sobre
o processo decisório da política estatal; ou então, resultar no reforço da
hegemonia política de uma dada fração burguesa – o que envolve intensificar a
implementação de políticas que lhes são favoráveis e conter ou neutralizar a
política de acomodação e concessão material aos interesses de outras frações
burguesas que se situam de maneira subordinada à fração hegemônica do bloco
no poder. O golpe de 2016 designa o reforço da hegemonia política dos
interesses do capital financeiro internacional e da burguesia a ele associada, e a
contenção do processo de fortalecimento político dos interesses da grande
burguesia interna, que vinha ocorrendo desde 2005 (Martuscelli, 2018b). A
despeito de o golpe de 2016 ter recebido o apoio ativo de amplos segmentos da
grande burguesia interna, inclusive nas mobilizações de rua, não foram esses
segmentos que lograram estabelecer a hegemonia política no bloco no poder,
uma vez que, se a implementação de uma versão extremada do neoliberalismo
unifica a burguesia contra os interesses dos trabalhadores na política de redução
ou supressão de direitos sociais e trabalhistas, contrariamente estabelece uma
hierarquia entre os interesses do capital financeiro internacional e aqueles da
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grande burguesia interna. É adequado afirmar que o golpe de 2016 teve como
consequência a implementação de uma política que impôs sérios sacrifícios
materiais às classes dominadas, mas essa constatação é insuficiente para quem se
propõe a realizar uma análise global das classes sociais. Para tanto, é preciso
detectar também quais interesses das frações do bloco no poder foram priorizados
pela nova política governamental, isto é, qual hierarquia de interesses se
constituiu no seio do bloco no poder.
Esse primeiro critério utilizado para identificar a existência de um golpe de
Estado, demonstra como os conflitos de classe impactam as relações entre as
frações do bloco no poder e o conteúdo da política de Estado. Nessa perspectiva,
é possível indicar que o golpe de Estado que resultou no impeachment de Dilma,
coincidiu com uma crise política que possibilitou a ascendência política de forças
sociais interessadas em promover a implementação de uma política neoliberal
extremada (ortodoxa). Como vimos, as principais frações interessadas na
aplicação desta política eram o capital financeiro internacional e a burguesia a
ele associada.
Outros aspectos relacionados ainda a esse primeiro critério dizem respeito
à adesão das classes dominantes e das classes médias ao golpe. Em concordância
com Boito Jr. (2018), sustentamos que o golpe de Estado não foi propriamente
resultado de uma “frente única burguesa”, de uma “reação conservadora” ou de
uma iniciativa da “elite do dinheiro”, consideradas em abstrato como
homogêneas, mas esteve marcado por diferentes posicionamentos das frações
burguesas, abrangendo: apoio ativo, aceitação passiva, tentativas de evitar a saída
de Dilma e neutralidade.10 Ou seja, o processo de golpe foi permeado por
contradições no seio das classes dominantes. Tais contradições sempre se fazem
presentes de maneira mais manifesta nos períodos de crise política, como são as
conjunturas de deflagração de golpes de Estado. No que se refere à ativa
participação de setores das classes médias nos protestos de rua favoráveis ao
impeachment de Dilma, é importante não superestimar seu papel político, em
função de que a classe média não chegou ao poder. Mas, afinal, qual posição
ocupou a classe média no golpe? Em primeiro lugar, é possível caracterizá-la
10 Sobre esses diferentes posicionamentos da burguesia, ver também: Valle (2019).
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como base social principal e força motriz do golpe. Ainda que parte da classe
média tenha conferido apoio ao campo político neoliberal dirigido pelo capital
financeiro internacional e pela burguesia a ele associada, a classe média não foi a
força dirigente deste processo. Contudo, sua participação como principal força
social dos protestos de rua contra o governo Dilma foi decisiva para garantir ao
golpe uma considerável base social. Observamos também que não foi o conjunto
da classe média que apoiou o golpe, mas as camadas superiores dessa fração de
classe, ou ainda, a alta classe média. Outra parcela da classe média, ainda que
em número proporcionalmente mais reduzido, foi às ruas resistir ao golpe, como
constatam Cavalcante e Arias (2019) com base em dados de pesquisas de opinião
de grande amplitude.
Um segundo critério utilizado para tratar do impeachment de Dilma como
golpe foi a participação de uma força interna ao Estado como perpetradora ou
executora do golpe. Tal critério tem sido mais amplamente aceito nos estudos
sobre golpes de Estado, mas o que muitas análises deixam de observar é que a
existência desta força no interior das instituições políticas do Estado emerge como
efeito dos conflitos reprodutivos de classes, engendrados principalmente pelas
disputas intraburguesas pelo controle do processo decisório da política estatal.
Desse modo, esse segundo critério permite entrever as relações entre os ramos
dominantes e não dominantes do aparelho de Estado. No caso dos estudos aqui
considerados, percebemos que o Parlamento e o aparato judicial, que envolve
STF, MP, órgãos do Judiciário, Lava Jato, tendem a ser indicados como os
protagonistas principais no processo de impeachment. Nenhuma análise salientou
qualquer tipo de participação ativa ou decisiva das forças militares nesse
processo. No entanto, a maioria dos analistas considerou que o Congresso
Nacional foi a principal força institucional do golpe ou o “perpetrador
intencional”, para utilizarmos uma expressão cunhada por Perissinotto (2016), daí
advindo a ideia de definir o golpe como sendo um golpe parlamentar.
Se se consideram ao pé da letra os requisitos legais e constitucionais para a
aceitação e aprovação do pedido de impeachment no Brasil, a conclusão a que
se chega é a de que, formalmente, caberá sempre ao Congresso Nacional o papel
decisivo na destituição de qualquer presidente da República. Basta que o
presidente da Câmara dos Deputados acolha o pedido de impeachment e que,
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com quórum qualificado de 2/3, a Câmara Federal aceite e o Senado Federal
aprove o referido pedido. No entanto, o analista da conjuntura que procura
realizar um exame rigoroso desta questão não pode se fixar exclusivamente nos
aspectos legais e constitucionais do processo de impeachment. Necessita levar
em consideração também a existência dos aspectos políticos relacionados a esse
processo. Isto envolve observar como os conflitos e realinhamentos de classes
impactam a dimensão institucional e podem provocar mudanças na base política
que dá sustentação a um determinado governo.
No caso do impeachment de Dilma, os conflitos de classe repercutiram na
dimensão partidária, e dois fatores foram decisivos para a sua aprovação: a) a não
aceitação por parte do PSDB dos resultados eleitorais de 2014 e as iniciativas que
esse partido tomou, a partir de então, para legitimar o fim antecipado do mandato
de Dilma Rousseff; e b) o desembarque do PMDB da coalizão governamental
liderada pelo PT e as articulações que o antigo aliado dos petistas passou a fazer
com outros parlamentares ou partidos satélites para inviabilizar o governo,
especialmente a partir do lançamento do programa “Uma ponte para o futuro”,
que pretendia unificar o partido em torno de uma plataforma neoliberal, e do
acolhimento por parte do deputado Eduardo Cunha do pedido de impeachment
na Câmara Federal. Embora outros deslocamentos partidários tenham ocorrido
nesse processo, o posicionamento tomado por esses dois grandes partidos que
possuíam ampla inserção política nacional e bancada superior a 50 parlamentares
foi decisivo para minar a base partidária do governo Dilma no Congresso
Nacional11 e aglutinar forças favoráveis à implementação do neoliberalismo
extremado.
Como se insere o aparato judicial, composto por STF, órgãos do Judiciário,
MP, Lava Jato, no golpe? Trata-se de mero coadjuvante que teria apenas criado as
condições para que o golpe fosse consumado ou teria sido um dos executores
fundamentais da destituição de Dilma? Nesse caso, notamos uma ampla gama de
posicionamentos que convergem com a aceitação do impeachment, entre os
11 No caso do PMDB, 59 de 66 deputados votaram favoráveis ao impeachment. Já entre os
parlamentares do PSDB, a aprovação dos votantes foi unânime: 52 votos. Outros partidos com
número superior a 20 parlamentares também foram decisivos para aprovar a destituição da
presidente Dilma: DEM (posição unânime: 28 votos); PP (38 de 42 votos); PR (26 de 36 votos);
PRB (posição unânime: 22 votos); PSB (29 de 32 votos)
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quais destacamos: a conivência de parcelas significativas desse aparato com o
tratamento questionável dado às pedaladas fiscais e aos decretos de créditos
suplementares como crime de responsabilidade; a organização de toda uma
arquitetura institucional para defenestrar do governo a presidente Dilma e as
forças ligadas ao PT, destacando-se os seguintes componentes: a Ação Penal 470
e a legitimação da teoria do domínio do fato, o rechaço à PEC 37, a ampliação da
abrangência do dispositivo da delação premiada, a Operação Lava Jato, o
vazamento ilegal de conversas entre Dilma e Lula, o impedimento da posse de
Lula como ministro, a criminalização do lobby, a “participação ativa” do STF na
condução dos trabalhos do julgamento do processo de impeachment no Senado e
a sua “omissão” ao rejeitar todos recursos que visavam demonstrar irregularidades
e lacunas no processo;12 o “conluio” entre aparato judicial e mídia corporativa –
aspecto fundamental para gerar o consenso negativo contra Dilma e seu partido e
legitimar socialmente as iniciativas da cúpula do aparato judicial que não se
inserem no aparelho estatal por meio da representação do voto; a politização do
judiciário e a formação de uma ampla rede de conspiração política constituída
principalmente por juízes, promotores e operadores da Lava Jato, como
demonstraram as diversas matérias divulgadas por The Intercept Brasil em 2019.
Nessa perspectiva, como considerar esse conjunto de elementos como
algo secundário ou irrelevante na caracterização das forças institucionais que
foram protagonistas e perpetradoras do golpe? Em que medida falar apenas em
golpe parlamentar não só contribui para ocultar esses elementos, como também
tende a reforçar a visão de que apenas os políticos/parlamentares participaram da
trama golpista, enquanto o aparato judicial foi orientado por decisões técnicas
alheias à política? Não se referir ao aparato jurídico como perpetrador do golpe
não resultaria em tratar seus membros como cidadãos de bem, acima dos
conflitos de interesses e guiados por princípios voltados para a defesa inconteste
da moralidade pública e contra a corrupção? Por esse rol de questionamentos
suscitados e de observações feitas sobre o papel do aparato judicial no golpe,
julgamos adequado caracterizá-lo como uma das forças institucionais do golpe, e
definir o impeachment de Dilma como um golpe jurídico-parlamentar,
12 Esses dois últimos pontos foram observados por: Monteiro (2018)
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relembrando, aqui, que esse aspecto institucional do golpe é condicionado e
atravessado pelos conflitos reprodutivos de classe presentes na referida
conjuntura. Como salienta Monteiro (2018), a destituição de Dilma pode ser
concebida como um “golpe não clássico, mas de natureza jurídico-parlamentar”,
uma vez que:
Enquanto os golpes clássicos não precisam do Judiciário e, uma vez executados,
geralmente se voltam contra ele; nos neogolpes, a mais alta corte do país torna-se
primordial no processo, seja como garantidora do golpe concretizado no
Parlamento, seja como ator efetivo no processo de destituição. O principal
motivo é a necessidade de aparência de legalidade e de manutenção do rito legal.
(Ibidem, p. 71)
O último critério de aferição do golpe diz respeito aos meios empregados
para destituir Dilma. As análises consideradas nesse trabalho tendem a indicar o
uso casuístico ou oportunista da legislação nacional e da Constituição referente
ao impeachment. Um dos aspectos fundamentais da tática adotada pelas forças
golpistas foi a de caracterizar expedientes amplamente utilizados por governos
em nível federal, estadual e municipal em várias gestões, como são os casos das
pedaladas fiscais e dos decretos de crédito suplementares, como crimes de
responsabilidade e como alegação suficiente e crível para interromper o mandato
de Dilma. Outro aspecto importante foi o conluio criado pelo aparato judicial e a
mídia corporativa com vistas a legitimar todas as iniciativas tomadas pelos
maiores defensores da moralidade pública (os membros do judiciário) e transmitir
a ideia de lisura técnica de todo o processo que, embora implicasse a decisão dos
congressistas, tinha o aval do judiciário – afinal as instituições estavam
funcionando muito bem.
Com isso, é possível elaborar um esquema que sintetize as principais teses
formuladas neste trabalho. Como foi indicado ao longo do texto, compartilhamos
muitos dos pressupostos teóricos dos analistas que caracterizam a destituição de
Dilma como um golpe de Estado, conectam esse processo com conflitos
reprodutivos de classe existentes na sociedade brasileira e tendem a observar o
impacto que tais conflitos produzem sobre as instituições políticas do Estado e
sobre o conteúdo da política econômica e social. O quadro abaixo resume o que
acabamos de discutir.
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Quadro 1 – A destituição de Dilma Rousseff como golpe de Estado
Golpe de Estado Destituição de Dilma Roussefff
Objetivo central Reforço da hegemonia política do capital financeiro
internacional e da burguesia a ele associada por meio da
reivindicação e implementação de uma versão extremada da
política neoliberal
Força política dirigente Capital financeiro internacional e burguesia a ele associada
Base social ou força motriz Alta classe média
Forças institucionais Congresso Nacional e Aparato judicial composto por STF,
perpetradoras Judiciário, MP, Lava Jato
Meios empregados Uso casuístico da lei do impeachment e conluio entre aparato
judicial e mídia corporativa para legitimar a lisura técnica do
golpe.
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Polêmicas sobre a Definição do Impeachment de Dilma Rousseff como Golpe de
Estado
Resumo
O objetivo deste artigo é analisar algumas das polêmicas existentes nos debates políticos e
acadêmicos sobre a caracterização do impeachment de Dilma como sendo uma interrupção
constitucional do mandato presidencial ou um golpe de Estado. Nesse trabalho, indicamos os
limites da abordagem institucionalista que tende a dissociar as instituições dos conflitos de classe
e a refutar a tese do golpe. Concordamos com as análises que tendem a demonstrar o impacto dos
conflitos reprodutivos de classe sobre a dinâmica institucional e operam com a tese de que a
deposição de Dilma pode ser caracterizada como um golpe de Estado.
Palavras-chave: Golpe de Estado, Impeachment, Governo Dilma Rousseff, Política brasileira.
Controversy over Defining Dilma Rousseff's Impeachment as a Coup d’Etat
Abstract
The purpose of this paper is to analyze some of the controversies in the political and academic
debates about the characterization of Dilma's impeachment as a constitucional interruption of the
presidencial mandate or a coup d'état. In this paper, we indicate the limits of the institutionalist
approach that tends to dissociate institutions from class conflicts and refute the coup thesis. We
agree with the analyzes that tend to demonstrate the impact of reproductive class conflicts on
institutional dynamics and operate with the thesis that Dilma's deposition can be characterized as
a coup d'etat.
Keywords: Coup d’etat, Impeachment, Dilma Rousseff Government, Brazilian Politics.
Controversias sobre la Definición del Juicio Político de Dilma Rousseff como un
Golpe de Estado
Resumen
El propósito de este artículo es analizar algunas de las controversias en los debates políticos y
académicos sobre la caracterización del juicio político de Dilma como una interrupción
constitucional del mandato presidencial o un golpe de estado. En este artículo, indicamos los
límites del enfoque institucionalista que tiende a disociar a las instituciones de los conflictos de
clase y refutar la tesis del golpe de estado. Estamos de acuerdo con los análisis que tienden a
demostrar el impacto de los conflictos reproductivos de clase en la dinámica institucional y
operan con la tesis de que la deposición de Dilma puede caracterizarse como un golpe de estado.
Palabras clave: Golpe de Estado, Juicio político, Gobierno de Dilma Rousseff, Política brasileña.
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Recebido: 22-09-2020
Aprovado: 04-11-2020
O Novo na sua Face Sombria: um balanço das análises sobre
a ascensão da extrema direita no Brasil atual
Patrícia da Silva Santos1*
Ricardo Pagliuso Regatieri2**
1. Introdução
A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 impôs uma tarefa complexa e
espinhosa às ciências sociais brasileiras: não só compreender a atuação das forças
sociais que permitiram a ocupação da presidência do país por uma figura tão
improvável e controversa, como também caracterizar a natureza dessas forças e
de seu governo. Tratar-se-ia de um governo (neo)fascita? Ou do bom e velho
autoritarismo brasileiro encarnado numa figura bizarra? Que mudanças tiveram
lugar no Brasil nos últimos anos desencadeando uma passagem vertiginosa de um
governo de esquerda moderado para um governo radical de direita? Bolsonaro
somente pode ser compreendido como resultado de processos muito mais
abrangentes, tanto do ponto de vista temporal, como geográfico e,
evidentemente, levando em conta nexos coletivos. De modo que a pergunta em
relação à eleição do presidente se desloca para as questões relativas às tendências
sociais, tanto circunstanciais como históricas e globais, que estão em jogo no
momento político contemporâneo.
Tudo isso requer um grande esforço intelectual, que vem sendo gestado de
maneira a cobrir diversos aspectos do que está sendo denominado bolsonarismo:
os grupos sociais que servem de suporte ao projeto da extrema direita no poder, a
comparação entre a extrema direita brasileira e os movimentos autoritários que
angariam espaço em outras partes do mundo, o papel das crises econômicas
1* Professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA).
2** Professor do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
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iniciadas em 2008 na ascensão contemporânea de soluções autoritárias, a
relevância dos meios técnicos de comunicação na disseminação das ideologias
extremistas, as semelhanças e diferenças entre o momento atual e outros períodos
brasileiros em que a direita radical exerceu influência no cenário político
nacional (notadamente, no período do movimento integralista e na ditadura), as
aproximações e distanciamentos entre a extrema direita atual e os movimentos
fascistas dos anos 1930, o neoliberalismo, os projetos de destruição inerentes à
atuação do atual governo brasileiro, entre muitos outros. O rol extenso de temas
faz parte do diagnóstico do presente que vem sendo construído por diferentes
intelectuais brasileiros.
O propósito central desse artigo é oferecer um balanço crítico, embora
certamente parcial, desse debate. Ainda que incompleto, esse panorama,
construído por meio da exposição, confrontação e análise de algumas das teses
levantadas para a compreensão da situação brasileira, pretende contribuir para o
delineamento das tendências sociais em jogo no cenário sociopolítico brasileiro.
2. (Neo)Fascismo, Neoliberalismo Totalitário e Neoatraso
Para compreender as especificidades do momento contemporâneo
brasileiro, além de tentar estabelecer conexões e desdobramentos a partir do
contexto sociopolítico nacional, os analistas têm buscado fazer movimentos
temporais e geográficos, em busca de conceitos, analogias e comparações. Do
ponto de vista histórico, as análises voltam-se ora para o passado especificamente
brasileiro, com destaque para os anos 1960, ora para os movimentos fascistas dos
anos 1930. De todo modo, nem a constelação inerente à ditadura brasileira, nem
a organização própria ao fascismo repetem-se, propriamente, no momento atual.
É por isso que, entre os analistas que adotam essas posturas, há um cuidado em
formular elaborações que acentuam as especificidades da extrema direita
brasileira contemporânea, sob concepções como (neo)fascismo, neoatraso ou
novo totalitarismo. De uma perspectiva geográfica, muitos olhares voltam-se,
comparativamente, para outras partes do globo onde a direita extremista ocupa o
poder. Aqui também não é possível uma identificação estrita entre o Brasil e
países europeus, por exemplo. Porém, a comparação é instrutiva na medida em
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que situa no contexto global o que ocorre no país e logra expor alguns dos nós
que conectam o bolsonarismo à economia globalizada neoliberal. De qualquer
forma, talvez seja possível afirmar que a maior dificuldade nas análises ainda está
em destrinchar tendências futuras a partir do ponto de cruzamento de vetores
históricos e geográficos que convergem no presente histórico brasileiro.
No debate brasileiro contemporâneo, a tentativa de compreensão do
cenário político tem envolvido uma disputa pela designação mais apropriada para
o contexto atual. Vários autores têm lançado mão dos conceitos de fascismo ou
de neofascismo para analisar a realidade brasileira. Armando Boito Jr. (2019;
2020), por exemplo, defende a caracterização do bolsonarismo como
neofascismo, argumentando que ele seria uma espécie específica do gênero
teórico mais abrangente fascismo. Para o autor, embora não tenhamos uma
ditadura fascista, teríamos um governo neofascista operando em uma democracia
burguesa deteriorada (Boito Jr., 2020: 112). Em tal governo prevaleceriam
características específicas que remontam ao modelo geral do fascismo, tais como:
a mobilização das classes médias, desorganização dos trabalhadores e eliminação
do reformismo, componentes ideológicos de anticomunismo, culto à violência,
crítica à corrupção, crise prévia à eclosão da extrema direita, acomodação da
burguesia, entre outras.
Dialogando com Boito Jr., Michel Löwy (2019) também defende a
conceituação neofascismo para designar o atual governo brasileiro. Destacando a
dimensão internacional do movimento de ascensão da direita radical, Löwy
afirma que a extrema direita neofascista e/ou autoritária chega a governar metade
dos países do mundo, mas que ainda não há uma análise global disponível para
entendermos esse fenômeno. De todo modo, o autor aponta dois elementos
relevantes, embora ambos tenham impactos diferenciados para as distintas partes
do mundo: o (1) “pânico identitário” (expressão tomada de Daniel Bensaïd), que
se fortalece na globalização capitalista e reforça lógicas nacionalistas e/ou
religiosas intolerantes e a (2) crise financeira do capitalismo iniciada em 2008. O
movimento atual não seria idêntico ao dos anos 1930, conforme Löwy, pois não
responde propriamente a “ameaças revolucionárias”, não se conecta
necessariamente ao grande capital, nem se apoia apenas na pequena burguesia.
Especificamente no caso brasileiro, o analista enxerga divergências em relação à
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ascensão atual da extrema direita europeia. Aqui, o discurso anticorrupção é
central, a questão racial não foi alçada à condição de bandeira principal, o ódio à
esquerda é crucial, não ocorre uma continuidade em relação ao discurso fascista
dos anos 1930 (integralismo), o neoliberalismo é um aliado e a religião tem papel
essencial. De modo geral, são características distintas daquelas presentes em
países europeus onde a extrema direita ganhou espaço. De qualquer forma, as
especificidades brasileiras levantadas por Michel Löwy contribuem para uma
maior historicização e posicionamento geográfico desse processo global,
indicando que a caracterização do bolsonarismo como neofascismo não implica,
necessariamente, abrir mão de sua contextualização.
Em sua discussão, Löwy chama atenção para a forma como Marilena
Chauí caracterizou a situação brasileira. A filósofa justifica o não emprego da
designação fascismo por não reconhecer em governos de extrema direita
contemporâneos o caráter fortemente militarista, o nacionalismo exacerbado nem
o imperialismo via colonialismo (características próprias do movimento fascista,
conforme Chauí). Ela prefere enxergar na ascensão contemporânea da extrema
direita uma nova forma de totalitarismo, que seria característica do
neoliberalismo – Chauí retoma a expressão “sociedade administrada” utilizada
por Adorno e Horkheimer nos anos 1940. Nesse novo totalitarismo, “em lugar da
forma do Estado absorver a sociedade, como acontecia nas formas totalitárias
anteriores, vemos ocorrer o contrário, isto é, a forma da sociedade absorve o
Estado” (Chauí, 2019). Nesse tipo de totalitarismo próprio ao neoliberalismo “a
sociedade se torna o espelho para o Estado, definindo todas as esferas sociais e
políticas não apenas como organizações, mas, tendo como referência central o
mercado, como um tipo determinado de organização: a empresa” (Chauí, 2019).
Ao analisar mais especificamente a situação brasileira, Vladimir Safatle
(2020) sustenta que a pandemia deveria servir para dissipar qualquer dúvida em
relação ao caráter fascista do governo atual. No flerte bolsonarista com a morte
teríamos a versão brasileira do “estado suicidário” (Safatle, 2020). Tal estado
havia sido materializado no telegrama 71 de Hitler, que preconizava a
autodestruição do estado em caso de derrota da guerra. No Brasil, para além da
necropolítica, teríamos agora um Estado que “é a mistura da administração da
morte de setores de sua própria população e do flerte contínuo e arriscado com
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sua própria destruição” (Safatle, 2020). Essa dimensão suicida da política
brasileira atual talvez seja o maior desafio para aqueles que buscam resistir à
lógica do bolsonarismo. A oposição não é a um projeto de país, que poderia ser
criticado, dissecado em suas falhas e contraposto por outras ideias. Trata-se de
uma oposição que deve resistir a um antiprojeto devastador, como propõem
analistas que serão tratados na próxima seção.
Conforme André Singer e outros sete colegas seus da Universidade de São
Paulo (entre eles o próprio Safatle), o bolsonarismo atualiza discursos e estratégias
do fascismo histórico brasileiro – o integralismo de Plínio Salgado. Eles afirmam
que, “mesmo considerando as diferenças, o bolsonarismo está muito mais
próximo das marcas características do integralismo do que da tradicional direita
conservadora brasileira, pela simples razão de que ambos, bolsonarismo e
integralismo, representam um fenômeno mobilizador, que vem de baixo para
cima” (Singer et at., 2020). Na altura do golpe parlamentar de 2015-2016, o que
estava em questão para as elites brasileiras era o esvaziamento da Constituição de
1988 e a transformação da democracia em um arremedo oligárquico. No vácuo
deixado pelas forças da direita tradicional, que pareciam ter jogado a toalha
frente à tarefa de oferecer uma alternativa palatável para o país, teria sido possível
o que os autores chamam de “retomada do fascismo à brasileira” (Singer et at.,
2020). Apresentando-se como alternativa antissistêmica, Bolsonaro teria sabido
“se aproveitar do impulso anti-institucional desperto pelas manifestações de
2013, com suas tópicas de antirrepresentação política e refratária aos modelos de
governabilidade característicos da democracia pós-Constituição de 1988” (Singer
et at., 2020), unindo essas energias com as do conservadorismo janista, malufista
e de grupos como a TFP (tradição, família e propriedade). A novidade de
Bolsonaro, segundo os autores, seria que, “pela primeira vez na história do Brasil
republicano, um autoritarismo vindo de baixo para cima não teve seu voo
interceptado no meio do caminho por uma alternativa conjurada pelas elites,
como se deu com Getúlio Vargas nos anos 1930 e com o golpe de 1964” (Singer
et at., 2020).
Por seu turno, Gabriel Cohn, em texto publicado logo após as eleições de
2018, sustenta não ser possível taxar de fascismo o “novo presidencialismo
brasileiro” (Cohn, 2018). Para ele, o fascismo implica em Estado forte, sem traço
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de liberalismo, seja novo seja antigo. Contudo, haveria um ponto central para a
caracterização do “presidencialismo de ocupação” do governo de Jair Bolsonaro:
a dimensão propagandística. As táticas do famoso ministro da propaganda
nazista, Joseph Goebbels, estariam sendo reeditadas pela extrema direita
brasileira, nomeadamente, a estratégia de disseminação continuamente repetida
de mentiras com o objetivo de transmutá-las em verdades. O principal argumento
contrário à identificação com os modelos fascistas do início do século passado
consiste na constatação de que “estamos diante da emergência de algo novo, de
modo peculiar de organização e exercício do poder em escala planetária, e para
cuja consolidação o caso brasileiro é da maior importância, por tudo aquilo que
este país representa.” (Cohn, 2018). Em vez de voltar o olhar para o passado, seria
necessário compreender o que está sendo gestado para o futuro, não somente no
âmbito local, mas em escala global. O Brasil estaria ensaiando algo que “não é
mera aberração sustentada por governo ocasional”, mas tem “importância
planetária” (Cohn, 2018).
Para Roberto Schwarz, há bastante em comum entre os processos que
tiveram lugar em 1964 e em 2018, ainda que no primeiro caso tenha se tratado
de um golpe militar e no segundo de um candidato que venceu uma eleição. O
que permite aproximar esses dois momentos é uma mesma dinâmica de fundo, a
saber, o entrelaçamento entre o moderno e o atrasado na sociedade brasileira. Tal
vinculação dialética, na qual, na periferia do capitalismo, o velho se encrusta no
novo e se reproduz por meio dele é um tema caro a Schwarz desde seus trabalhos
da década de 1960 e é central na sociologia uspiana3. Conforme Schwarz, em
ambos os casos, “um programa francamente pró-capital mobilizou, para
viabilizar-se, o fundo regressivo da sociedade brasileira, descontente com os
rumos liberais da civilização” (Schwarz, 2020: 25). Schwarz cita como exemplo
clássico dessa articulação o apoio do capital ao nazismo na Alemanha na década
de 1930, o qual soube mobilizar os sentimentos regressivos das massas. A aposta
da burguesia alemã em apoiar o nazismo “deflagrou um processo incontrolável,
3 Ao menos na sociologia de Florestan Fernandes e de discípulos seus como Fernando Henrique
Cardoso, José de Souza Martins e Sedi Hirano. No final da década de 1960 e início da década de
1970, tanto a abordagem de Schwarz quanto a dos sociólogos reunidos em torno de Florestan
acerca da combinação entre tradicional e moderno no Brasil sofreu uma dura crítica por parte de
Maria Sylvia de Carvalho Franco, também egressa desse círculo paulista.
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ao fim do qual já não havia como saber quem seria devorado por quem”
(Schwarz, 2020: 25).
Entretanto, uma grande diferença que Schwarz vê entre os dois momentos
históricos é que, se em 1964 tanto a esquerda quanto a direita prometiam, de um
jeito ou de outro, a superação do subdesenvolvimento, com o final do ciclo
político dominado pelos herdeiros da redemocratização (PSDB e PT), e em
especial com o fim do processo de integração social viabilizado pelo boom das
commodities durante o período petista, o horizonte da superação do
subdesenvolvimento parece agora fechado. Nesse contexto, em que, por um lado,
faltava organização política para aprofundar a democracia e a reflexão social
coletiva, e por outro, operaram técnicas recém-inventadas de propaganda
enganosa, a frustração social da parte daqueles que haviam sido favorecidos pelas
políticas progressistas levou-os a apostar na opção anti-ilustrada com vistas a
garantir a qualquer preço os ganhos já alcançados (Schwarz, 2020: 26). Outra
importante diferença entre 1964 e 2018 apontada por Schwarz é o tipo de atraso
que presidiu a reação às pautas progressistas: enquanto há cinquenta anos, ela se
compunha dos “preteridos pela modernização, representativos do Brasil antigo,
que lutava para não desaparecer, mesmo sendo vencedor”, o neoatraso
bolsonarista, que mobiliza a “deslaicização da política, a teologia da
prosperidade, as armas de fogo na vida civil, o ataque aos radares nas estradas, o
ódio aos trabalhadores organizados”, se originou “no terreno da sociedade
contemporânea, no vácuo deixado pela falência do Estado” (Schwarz, 2020: 27-
28). Não só no Brasil, mas também globalmente, “os faróis da modernidade
mundial perderam muito de sua luz” (Schwarz, 2020: 28), afirma o autor.
Como se vê, embora a eleição de Bolsonaro tenha, não raro, despertado
um sentimento inicial de surpresa, alguns analistas procuram compreendê-la não
só em sua aparência de ruptura radical, mas também buscando delinear os
possíveis nexos de continuidade histórica.
3. Caos como Método e Lógica da Guerra
Se não há consenso entre os partícipes do debate político contemporâneo
na utilização do termo fascismo para caracterizar o governo de Jair Bolsonaro,
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parece haver um pouco mais de acordo quando se sublinha o caráter
eminentemente destrutivo do projeto bolsonarista. É nesse sentido que se
articulam as ideias de caos como método (Nobre, 2020), “guerra cultural”
(Rocha, 2020a; 2020b; 2020c), “guerra híbrida” (Leirner 2019) e “populismo
digital” (Cesarino, 2019). De todo modo, o projeto devastador do bolsonarismo se
desdobra em diferentes frentes: engloba tanto as instituições como o debate
público, sobretudo por contaminação via redes sociais; inclui direitos previstos no
período de democratização como a legislação ambiental e o próprio sistema
político; incorpora especialmente todos os campos identificados por tal projeto
como “ideológicos”, sobretudo o intelectual e o artístico – tudo isso combinado a
um neoliberalismo econômico bastante radical.
Nesse sentido, para Marcos Nobre, que se opõe ao uso do conceito de
fascismo para entender o atual cenário político nacional, seria necessário
entender Bolsonaro “nos termos da política da guerra e da morte que o guia”
(Nobre, 2020: 9). Conforme o autor, Bolsonaro foi eleito na esteira do colapso do
sistema político que se precipitou desde 2013, tendo logrado “canalizar para sua
candidatura a devastação social e institucional das crises sobrepostas” (Nobre,
2020: 15) e transformado esse colapso e essa devastação em estilo de governo.
Com a pandemia de COVID-19 no segundo ano de seu mandato, “Bolsonaro
levou o caos como método ao limite” (Nobre, 2020: 17). O enfrentamento à crise
sanitária e à crise econômica que a acompanha exigiria governar, que é,
entretanto, “algo que Bolsonaro não pode nem pretende fazer” (Nobre, 2020: 17).
De forma que sua decisão foi montar um “governo de guerra” (Nobre, 2020: 14),
baseado num tripé composto por seus apoiadores mais fanáticos, pelos militares –
que fariam as vezes de um partido e vertebrariam o governo de Bolsonaro como
antes haviam feito o PSDB e o PT durante o que Nobre denomina de República
do Real (1994-2016) – e o centrão.
O autor argumenta que em 2018 grande parte do eleitorado se sentia
“existencialmente ameaçada” e que “Bolsonaro foi muito bem-sucedido em
apontar o dedo para o sistema político como fonte e origem desse medo e dessa
angústia muito reais” (Nobre, 2020: 24). Seu grande mérito, revelador do
significado social mais profundo de sua vitória, consistiria em ter feito
convergirem lavajatismo, antipetismo, disposições antissistema, conservadorismo
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de costumes, reivindicação absoluta de “lei & ordem”, forças de segurança
pública e privada, e um autoritarismo sem disfarces.
Na mesma linha, mas partindo de um referencial teórico distinto, Letícia
Cesarino argumenta que este é um fenômeno típico do populismo: em contextos
de grave crise e desordem, surgem lideranças carismáticas que reivindicam “a
pureza necessária para reintroduzir a ordem em um sistema irreversivelmente
corrompido.” (Cesarino, 2019: 534). Para Cesarino, a facada que atingiu
Bolsonaro durante as eleições também foi muito importante para que fosse
possível criar certa aura de pureza em torno dele. Por conta do atentado, foi
possível produzir o que a autora chama de “o corpo digital do rei”: em analogia à
imagem da teologia política medieval, na qual um corpo divino se sobrepunha ao
corpo físico do rei, “após o atentado a faca que retirou Jair Bolsonaro da esfera
pública, seu corpo debilitado foi substituído por um corpo digital formado por
seus apoiadores, que passaram a fazer campanha no seu lugar” (Cesarino, 2019:
533).
Nessa política pautada na radicalização da lógica amigo/inimigo, é
sintomático que a metáfora da guerra seja mobilizada por diferentes analistas.
Alguns preferem empregar a ideia de guerra híbrida: é como se houvesse um
estado permanente de guerra, que também opera no âmbito psicológico,
promovendo desorientação e perda da sensação de real (Leirner, 2019) – o
âmbito por excelência dessa prática têm sido as redes sociais bolsonaristas,
conforme apontaremos mais abaixo. Mas, antes, seria pertinente questionarmos
quem é o inimigo nesse amplo projeto de destruição do governo extremista
brasileiro, pois é precisamente essa figura que garante certa coerência interna e
fechamento ao discurso (por mais deturpado que este seja) – quem está fora da
margem divisória do sistema bolsonarista já é designado como inimigo (Cesarino,
2019).
Como lembra João Cezar de Castro Rocha (2020a), a extrema direita
contemporânea posiciona seu principal inimigo não mais externamente
(comunismo internacional), mas sim internamente (os pretensos partidários do
comunismo no Brasil). Contudo, aqui não há apenas uma alteração geográfica da
localização do inimigo, na medida em que a ela estão associadas certas
alterações na estrutura social que reorientaram também a forma de atuação da
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extrema direita brasileira. A ideia de que a guerra agora é cultural apoia-se em
interpretações acerca do “inimigo” da direita radical, que, em parte, procuram
responder às transformações ocorridas no campo da esquerda – não sem fortes
deturpações. Como argumenta Carapanã (2018), no mundo pós-socialista, os
ultraconservadores precisavam criar novas narrativas que relacionassem os
oponentes da esquerda ao comunismo. E a solução foi encontrada ao tomar
elementos das lutas identitárias para potencializar as forças inimigas: o
deslocamento cultural do oponente permite aos radicais de direita conceber um
discurso que identifica o comunismo em frentes tão diversas como as lutas
feministas, a ONU e a OMS, o politicamente correto, a música pop e as
universidades. É como se esses e outros grupos e instituições fizessem parte de
uma conspiração contra os valores civilizatórios ocidentais (Carapanã, 2018).
Especificamente no caso brasileiro, Rocha (2020b) propõe que a guerra
cultural posta em marcha por Bolsonaro e os que o cercam se sustenta em um
tripé, composto de uma (1) retomada, em tempos democráticos, da Doutrina de
Segurança Nacional do regime militar, do (2) discurso revanchista e revisionista
do Exército materializado no Projeto Orvil e da (3) retórica do ódio de Olavo de
Carvalho. A narrativa do Projeto Orvil mostra precisamente como teria passado a
agir o inimigo interno no período final da ditadura e na redemocratização.
Elaborado entre 1986 e 1989 sob a liderança do então ministro do Exército do
governo Sarney, Leônidas Pires Gonçalves, e privilegiando o que seus autores
consideravam ser os crimes da luta armada no Brasil, o Projeto Orvil pretendia ser
uma resposta ao livro Brasil: nunca mais, de 1985, que havia denunciado as
arbitrariedades, a tortura e os desaparecimentos durante a ditadura militar (Rocha,
2020a). Essa contranarrativa – orvil é livro lido ao contrário – do Exército
apresenta o século vinte no Brasil como palco de uma série de tentativas de
tomada do poder pelo movimento comunista internacional, com vistas a
estabelecer no Brasil uma ditadura do proletariado.
Porém – e, de acordo com Rocha, isso nos conduz ao coração do
bolsonarismo –, segundo o Projeto Orvil, “a iniciativa ‘mais perigosa’ iniciou-se
em 1974, quando a esquerda realizou uma autocrítica severa e mudou de
estratégia, abandonando os coturnos e abraçando os livros, a fim de conquistar
corações e mentes por meio da infiltração lenta, porém segura, nas instituições do
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Estado e da sociedade civil” (Rocha, 2020b). Para Bolsonaro, esse aparelhamento
ideológico por parte da esquerda não teria feito mais do que se ampliar nas
últimas quatro décadas. A esses dois elementos, Doutrina de Segurança Nacional
e Projeto Orvil, soma-se o novo discurso de direita radical que tem sido
elaborado por Olavo de Carvalho desde a década de 1990. O guru bolsonarista
lograria traduzir para as redes sociais a Doutrina de Segurança Nacional, ao
mesmo tempo em que dissemina a conspiração de uma infiltração gramsciana
para a tomada do poder – reformulando aspectos que estão no Orvil. Se, desde a
redemocratização, as instituições são colonizadas pelos comunistas, a tarefa que
se coloca Bolsonaro não é a de reconstruí-las ou reformá-las, mas antes a de
desmantelá-las – colocando alguém que odeia as universidades públicas à frente
do Ministério da Educação e um desmatador para chefiar o Ministério do Meio
Ambiente, extinguindo o Ministério da Cultura, e contrariando todos os esforços
do Ministério e de ministros da Saúde para combater a pandemia de coronavírus.
Ao analisar detidamente a presença do bolsonarismo nas redes sociais,
Cesarino (2019) tem apontado a mesma dinâmica no discurso dos
ultraconservadores brasileiros. O bolsonarismo seria bivalente, ao combinar o
ultraconservadorismo moral ao neoliberalismo econômico. Nisso, há o abuso de
“significantes vazios” para separar o nós (“trabalhadores”, “cidadãos de bem”,
“patriotas”) deles (“vagabundos” que se apresentariam como ativistas de direitos
humanos, militância feminista, lgbt e do movimento negro). A antropóloga
elabora como tudo isso foi traduzido na linguagem direta e apelativa aos afetos
das redes sociais por meio de memes, vídeos, montagens imagéticas e textos
impactantes. No caso das eleições de 2018, Cesarino indica o quanto essa
atuação política foi capaz de angariar adeptos que permaneciam às margens do
ativismo: “O carisma digital e a simplicidade discursiva tanto da memética
quanto do discurso populista [...] fizeram com que qualquer um se sentisse à
vontade e encorajado a participar da política nesses novos termos.” (Cesarino,
2020: 112).
Ponto relevante para a compreensão dessa capacidade de mobilização do
bolsonarismo são os mecanismos criados por seus discursos para mobilizar afetos.
De acordo com Nobre (2020), as energias fomentadas a partir da crise política
visível a partir de 2013 acabaram não se aglutinando nas formas clássicas dos
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partidos políticos e dos movimentos sociais e sim na internet e nas redes sociais,
permitindo que “a solidão de pessoas que se sentiam prejudicadas, discriminadas,
diminuídas encontrasse eco em milhares de outras solidões” e oferecendo “a
oportunidade de fazer alguma coisa, de pôr a mão na massa, de arrebentar ‘tudo
o que está aí’” (Nobre, 2020: 27). As redes sociais forneceram o espaço propício
para a formação da “figura caleidoscópica” (Cesarino, 2019: 549) e contraditória
de Bolsonaro, capaz de conectar “interesses, medos e outros afetos de segmentos
eleitorais específicos” (Cesarino, 2019: 550).
Na esteira dessas análises, talvez possamos pensar essa capacidade
catalisadora do discurso bolsonarista por meio de uma reflexão teórica feita por
Theodor Adorno em 1967 para compreender a persistência do radicalismo de
direita nas democracias contemporâneas. Os adeptos da extrema direita seriam
sujeitos autoritários que se ressentem contra a democracia precisamente porque
ela “nunca se concretizou plenamente em lugar algum, permanecendo algo
formal” (Adorno, 2019: 18). Por isso, a imagem dos movimentos
ultraconservadores é a das “chagas” ou “cicatrizes” de uma democracia. No caso
brasileiro, os ressentidos cobrem um amplo espectro: donas de casa preocupadas
com a moralidade de seus filhos, pais de família acossados pela criminalidade,
jovens com trabalhos precários, homens ameaçados pela masculinidade em crise,
opositores brancos de classe média contra o politicamente correto etc. (Cesarino,
2019: 550). Conforme argumenta Rocha, “o bolsonarismo é sobretudo um
sistema de crenças” (Rocha, 2020c). Ou seja, não é simplesmente a figura de
Bolsonaro que está em jogo, mas sim toda uma “pulsão antissistêmica” (Rocha,
2020c) que o presidente e seus adeptos souberam catalisar. Como tem afirmado
Isabela Kalil a partir de suas pesquisas acerca de perfis de bolsonaristas, o
“bolsonarismo é maior que Bolsonaro”, daí a necessidade de compreender a
ressonância que os discursos de intolerância vão encontrando na sociedade, para
além da centralização na figura do presidente (Kalil, 2019).
Por fim, conforme já apontado na seção anterior, a compreensão desses
mecanismos bolsonaristas de mobilização em meio a uma política de guerra não
pode ocorrer em detrimento da consideração do cenário internacional. É
necessário considerar que o “atual presidente mimetiza táticas de populismos
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autoritários mundo afora4, que atacam permanentemente o que continua a
funcionar e se beneficiam de que as coisas continuem a funcionar apesar de seus
ataques” (Nobre, 2020: 18). Viktor Orbán na Hungria, Rodrigo Duterte nas
Filipinas, Recep Erdoğan na Turquia e o governo do partido Lei e Justiça na
Polônia também participam do movimento de ascensão de novos líderes
autoritários na última década. Para Nobre, tal movimento configura um levante
conservador que tem sua origem nos efeitos da crise econômica de 2007-2008,
permitindo um paralelo com a de 1929. Essa onda conservadora soube mobilizar
“déficits reais dos regimes democráticos para chegar ao poder de Estado”,
destacando a “lacuna entre a ‘vontade popular’ e os mecanismos estabelecidos de
representação política” (Nobre, 2020: 22). Referindo-se aos acontecimentos da
última década, Nobre frisa que “os resultados políticos regressivos dos últimos
anos não indicam uma tendência irresistível da história: provêm, antes de tudo,
de tentativas de manipular e de bloquear os potenciais democráticos que
emergiram no período pós-crise econômica mundial” (Nobre, 2020: 31), o que
está em consonância com a interpretação de que junho de 2013 não deve ser
encarado como intrinsecamente reacionário5. Também Cesarino (2019) aponta
uma tendência global de ruptura com o neoliberalismo progressista6 e a pós-
política que marcaram as décadas anteriores – culminando na bivalência
neoliberalismo-conservadorismo que indicamos anteriormente. Desnecessário
acrescentar que essa bivalência está no cerne do caráter destrutivo do governo
bolsonarista. Por meio dela, o antiprojeto de país opera uma devastação de
4 Tal interpretação vai no sentido da de Shalini Randeria, que procura analisar os novos líderes
autoritários mundiais a partir de uma perspectiva que coloca em relevo suas conexões. Conforme
Randeria, os líderes autoritários contemporâneos “aprendem rapidamente uns com os outros quais
argumentos e modelos funcionam bem e quais estratégias políticas são efetivas” (2019: 51).
5 Em seu livro Choque de democracia: razões da revolta, escrito em 2013 pouco após os
acontecimentos do mês de junho, Nobre afirma: “As energias sociais de protesto mobilizadas nas
revoltas de junho de 2013, que se dirigem contra o pemedebismo, não têm outra maneira de
enfrentá-lo senão enfrentando o sistema como um todo. São energias difusas que se dirigem
contra a normalização do pemedebismo [lógica de megablocos de apoio parlamentar que
estiveram do lado tanto dos governos do PSDB quanto do PT e que acabaram sendo identificados
com o ‘sistema’] e que não se encontram devidamente representadas no sistema político. Em nível
social mais profundo, uma nova cultura política se forma, já mais próxima do social-
desenvolvimentismo, ao mesmo tempo que o sistema político continua a funcionar segundo uma
cultura política pemedebista” (Nobre, 2013: 46). Esse trecho evidencia como, em 2013, Nobre
enxergava potenciais de renovação democrática nas revoltas daquele ano, cujas energias
antissistêmicas, entretanto, se direcionaram no sentido da destruição reacionária do status quo.
6 A tese do fim do período do neoliberalismo progressista foi proposta por Nancy Fraser em artigo
de 2017 tendo em vista o contexto norte-americano e a eleição de Donald Trump (Fraser, 2017).
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múltiplas dimensões, que incorpora elementos como o meio ambiente, a opinião
pública, a educação, direitos humanos e trabalhistas.
5. Conclusões
O balanço que acima procuramos fazer reveste-se de um incontornável
caráter parcial. O fato de que é praticamente impossível dar conta de todas as
intervenções recentes que buscam caracterizar a natureza e o funcionamento do
governo Bolsonaro e do bolsonarismo impõe o imperativo de fazer escolhas –
imperativo que, como Weber nunca cansou de enfatizar, é intrínseco às ciências
de modo geral e às ciências sociais em particular. Os autores e textos que
escolhemos para esse nosso balanço do debate chamaram nossa atenção nos
últimos meses no contexto de um esforço de cada um de nós dois em encontrar
caminhos explicativos para a recente virada autoritária no Brasil. Ao final desse
balanço parcial a respeito da situação política e social brasileira, gostaríamos de
destacar argumentos e autores que têm logrado entender a ascensão da extrema
direita brasileira em suas peculiaridades históricas e geográficas daqueles que
compreendem o fenômeno ainda de uma maneira mais geral, análoga a
processos ocorridos em outras partes do mundo e/ou períodos históricos. Além
disso, também vale a compreensão crítica da forma como, até o momento, esse
debate tem sido capaz de compreender a inserção e o lugar do bolsonarismo no
plano internacional. Cumpre mencionar, por antecipação, que entender as
especificidades brasileiras não significa destacar o país de processos globais, mas
sim reconhecer sua condição semiperiférica no âmbito do sistema capitalista
mundial.
Como vimos, desde que Bolsonaro foi eleito, há uma discussão ampla
relativa à melhor forma de denominar o que ocorre no Brasil. Enquanto alguns
analistas defendem taxativamente o emprego da concepção (neo)fascismo (a
exemplo de: Safatle, 2020; Singer et at., 2020; Löwy, 2019; Boito Jr., 2019, 2020),
outros rechaçam o termo como não apropriado (como: Cohn, 2019; Nobre, 2020;
Chauí, 2019). Contudo, para além da polêmica em torno dessa adoção
conceitual, é possível perceber que algumas análises conseguem atinar melhor
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para especificidades brasileiras, independentemente do emprego ou recusa de
conceito de carga semântica tão complexa.
Nesse sentido, enquanto Boito Jr. (2019, 2020), por exemplo, defende a
caracterização de neofascismo como apropriada para o contexto brasileiro
procurando parâmetros nacionais equivalentes aos que estiveram em vigência nos
anos 1930 em países europeus, Löwy (2019) pondera melhor as distinções entre
os fascismos do início do século passado e os governos atuais que denomina
neofascistas. Além disso, Löwy também procura traçar diferenças entre o caso
brasileiro contemporâneo e os governos de extrema direita europeia. Por outro
lado, na discussão desenvolvida por Marilena Chauí (2019) há a recusa do
emprego da concepção de fascismo, porém a opção pela designação
“neoliberalismo totalitário” é, ao menos no texto em pauta, um tanto genérica,
sem ater-se à maneira própria e extrema como esse modelo se organiza no caso
brasileiro. Também seria importante observar mais detidamente o modo peculiar
como, em um país de origem escravocrata e colonial como o Brasil, se logra
operar a transformação de “medos, ressentimentos e ódios sociais silenciosos em
discurso do poder e justificativa para práticas de censura e de extermínio” (Chauí,
2019). Ou seja, cabe a pergunta em relação às raízes sócio-históricas que
tornaram possível a sanção por parte da sociedade brasileira de um projeto
construído em torno de argumentos hierárquicos, racistas, homofóbicos,
machistas e fundamentalistas religiosos.
Conforme é possível observar nas discussões apresentadas, Bolsonaro
logrou mobilizar a favor de sua eleição tendências sociais distintas (movimentos
anticorrupção e antissistema político, ultraconservadorismos difusos, antipetismo,
medos relativos às crises econômicas e de segurança pública, disseminação de
novas tecnologias de comunicação etc.). Mas isso só foi possível por uma
combinação de forças internas e externas, que estavam operando no movimento
“desigual e combinado” da ordem mundial. Ao destrinchar alguns nós desse nexo
fatídico, a discussão desenvolvida por Marcos Nobre (2020) consegue atrelar
medos e angústias individuais que, de algum modo, associaram-se a crises
mundiais como a de 2008 e convergiram na eleição da figura antissistêmica de
Bolsonaro.
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Para compreender a extrema direita bolsonarista e seu modo de operação
no âmbito das redes sociais, Cesarino (2019, 2020) e Rocha (2020a, 2020b,
2020c), cada um a seu modo, também procuram encontrar traços do movimento
mundial de alterações nas pautas políticas da esquerda que permitiram ao
discurso ultradireitista brasileiro redelinear seu inimigo. Na ótica da extrema
direita, já não se trata do comunismo clássico que tinha o projeto de revolucionar
o modo de produção, mas de inimigos mais “camuflados”, difusos, que ocuparam
postos chaves promovendo valores de cunho também identitário e cultural
(universidades, organismos internacionais, setores artísticos e intelectuais etc.).
Também na análise desse processo de construção discursiva do inimigo – ponto
fundamental para a compreensão da extrema direita – é necessária uma
perspectiva abrangente, de contornos globais. Assim, quando Rocha (2020a)
remonta essas transformações de ordem planetária em consonância com aspectos
históricos brasileiros (ao mobilizar, por exemplo, o discurso revanchista e
revisionista do exército materializado no Projeto Orvil) contribui para uma
compreensão mais específica da ascensão da extrema direita brasileira que não
está, contudo, desatrelada de processos que permitiram que a lógica autoritária
domine atualmente metade do planeta. Por seu turno, em consonância com suas
reflexões acerca do capitalismo periférico brasileiro, Schwarz (2020) também
procura entender o que ocorre no Brasil contemporâneo a partir de uma ótica que
privilegia a posição do país na economia mundial e destaca as relações entre o
golpe de 1964 e o momento presente. Em ambas as ocasiões, tratou-se do
bloqueio de processos democráticos e mais inclusivos. A discussão de Nobre
(2020) não inclui o período do golpe militar, mas sua análise da década de 2010
no Brasil também a encara como palco de tentativas de manipular e de bloquear
potenciais democráticos que haviam sido liberados.
Grosso modo, talvez seja possível argumentar que, quanto mais o debate
em torno do bolsonarismo lograr construir observações capazes de compreender
a situação brasileira em suas especificidades, sem deixar de considerar suas
conexões com os rumos mundiais, mais consistente será o diagnóstico passível de
ser oferecido pelas ciências sociais – e mais importante: melhor providas de
informação estarão as forças de resistência. Nesse sentido, não basta apenas
construir pontes teóricas com o passado (embora a visada histórica siga
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imprescindível), como bem argumenta Gabriel Cohn: “Tanto mais se torna vital a
lucidez, a abertura para o novo também na sua face sombria, a atenção e a
inteligência alerta, móveis, que saibam enfrentar o pior risco, o de perder o tempo
da história.” (Cohn, 2019).
Referências
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O Novo na sua Face Sombria: um balanço das análises sobre a ascensão da
extrema direita no Brasil atual
Resumo
O artigo realiza um balanço parcial e com propósitos críticos das análises recentes das ciências
sociais brasileiras acerca da caracterização do governo de Jair Bolsonaro e do assim chamado
bolsonarismo. Com esse objetivo, o artigo coloca em diálogo análises da situação brasileira atual
que mobilizam as ideias de (neo)fascismo, de neoliberalismo totalitário, de reposição do atraso
brasileiro e de estratégias de guerra, ocupação e utilização do caos como método de governo. Por
meio da revisão crítica da literatura, também há o propósito de expor algumas das tendências
sociais que estão em jogo no cenário sociopolítico brasileiro e seus nexos com o contexto global.
Na conclusão do artigo, procura-se apontar os ganhos e limites das abordagens discutidas
anteriormente e argumenta-se que, quanto mais o debate das ciências sociais brasileiras em torno
do bolsonarismo lograr compreender a situação brasileira em suas especificidades sem ao mesmo
tempo deixar de considerar suas conexões com os rumos mundiais, mais consistente será seu
diagnóstico do presente histórico.
Palavras-chave: autoritarismo; neofascismo; guerra; neoliberalismo; Brasil
Lo Nuevo en su cara Sombría: Un balance de los análisis sobre el ascenso de la
extrema derecha en el Brasil actual
Resumen
Este artículo hace un balance parcial y con propósitos críticos de los análisis recientes de las
ciencias sociales brasileñas respecto a la caracterización del gobierno de Jair Bolsonaro y al así
llamado bolsonarismo. Con ese objetivo, el artículo pone en diálogo análisis de la situación
brasileña actual las cuales movilizan las ideas de (neo)fascismo, de neoliberalismo totalitario, de
reposición del atraso brasileño y de estrategias de guerra, ocupación y utilización del caos como
método de gobierno. A través de la revisión crítica de la literatura, buscamos también exponer
algunas de las tendencias sociales que están en juego en el escenario sociopolítico brasileño y sus
nexos con el contexto global. En la conclusión, apuntamos las ganancias y las limitaciones de los
abordajes anteriormente discutidos y argumentamos que, cuanto más el debate de las ciencias
sociales brasileñas alrededor del bolsonarismo logre comprender la situación brasileña en sus
especificidades sin al mismo tiempo dejar de lado sus conexiones con los rumbos mundiales, más
consistente será su diagnóstico del presente histórico.
Palabras clave: autoritarismo; neofascismo; guerra; neoliberalismo; Brasil
The Bleak Face of the New: A review of the analyses of the rise of the far right in
contemporary Brazil
Abstract
The article undertakes a partial yet critical review of recent analyses regarding the government of
Jair Bolsonaro and the so-called ‘bolsonarismo’ within the Brazilian social sciences. With this
purpose, it places into dialogue analyses of the current Brazilian political situation that make use
of the ideas of (neo)fascism, totalitarian neoliberalism, neo-backwardness and strategies of war,
occupation and utilization of chaos as method of ruling. By means of the critical review of the
literature, the article also aims at discussing a number of social tendencies in the Brazilian socio-
political scenario and their connections to the global context. In its conclusion, the article points
out advantages and limits of the approaches discussed, arguing that, the more the debate on
‘bolsonarismo’ in the Brazilian social sciences succeeds in comprehending the specificities of the
Brazilian situation while also taking into account its connections with the course of contemporary
world, the more consistent their account of the historical present becomes.
Keywords: authoritarianism; neofascism; war; neoliberalism; Brazil.
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Recebido: 31-05-2020
Aprovado: 23-06-2020
Primaveras, Tribunais e Dólares: uma análise panorâmica
das crises políticas na América Latina (1990-2020)
Pedro Borba1
O objetivo deste texto é analisar as crises políticas na América Latina nas
últimas três décadas, período em que a democracia liberal se tornou regime
político prevalecente na região. O tema recebeu nova atenção em função da
turbulência recente na política latino-americana, que ressuscitou o argumento da
ingovernabilidade do presidencialismo, quando não de um regime democrático .
Com efeito, essa turbulência responde, nos últimos cinco anos, pela derrubada
precoce de presidentes na Guatemala (2015), Brasil (2016), Peru (2018) e Bolívia
(2019), além de impasses prolongados em Honduras, Venezuela e Nicarágua. Em
2019, houve manifestações populares de grande escala no Chile, no Equador, na
Colômbia, no Haiti, e em menor grau no Paraguai, no Panamá e no Brasil,
recolocando no radar as resistências populares e lutas instituintes por direitos em
meio ao giro eleitoral conservador na última década. No caso chileno, a
insurgência desencadeada pela elevação dos preços do transporte público
deflagrou o país a tal ponto que precipitou um processo constitucional, que porá
termo à carta outorgada pela ditadura militar em 1980.
A Ciência Política tem produzido um corpo sistemático de análise sobre as
crises institucionais latino-americanas, em especial no que tange à interrupção de
mandatos presidenciais (Hochstetler, 2007; Marsteinstredet & Bertzen, 2008;
Pérez-Liñán, 2000, 2007; Souza, 2013, 2016; Valenzuela, 2004). Mais
amplamente, houve nos anos 1990 um pessimismo generalizado com a adoção
de regimes presidenciais pela rigidez de seu processo político (Linz, 1990). O
1 Professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em Ciência Política pelo
IESP/UERJ. Contato: [Link]@[Link].
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mandato independente do executivo também foi objeto de desconfiança pela
“altíssima concentração da responsabilidade pelos resultados no presidente”, o
que levaria a uma dinâmica de delegação direta com oscilações abruptas de
popularidade (O’Donnell, 1991, p. 33). A frequência com que os mandatos
presidenciais foram interrompidos por quebras de confiança, especialmente por
escândalos de corrupção e protestos populares, concorria ao “argumento de que
o presidencialismo sul-americano tende ao colapso” (Hochstetler, 2007, p. 41).
Para cobrir suas próprias vulnerabilidades, os presidentes acabavam embutindo
traços plebiscitários de legitimação que viriam a minar as instituições
democráticas que os elegeram (Valenzuela, 2004).
Há dois pressupostos frequentes na análise institucionalista das crises
políticas que convém explicitar por seus desdobramentos problemáticos. O
primeiro é que as crises são eventos independentes entre si, até certo ponto
homogêneos. Esse pressuposto se apoia implicitamente sobre o que Sewell Jr.
(2005) chamou de “temporalidade experimental”: as crises concretas são
recortadas e convertidas em unidades amostrais para aferir seus determinantes.
Esse recorte faz com que as crises sejam percebidas como o reverso da
democracia enquanto regime, isto é, como uma condição isolada de
anormalidade. O segundo pressuposto desdobra o anormal como
disfuncionalidade, como contrapartida negativa ou patológica da boa operação
institucional da representação política. Esse pressuposto funcionalista negligencia
a ambiguidade do termo, já que a irrupção de crises, se sabidamente já produziu
derrocadas autoritárias, foi também recurso de resistência popular contra o
sequestro elitista do estado, via estelionato eleitoral, corrupção e autoritarismo. A
história latino-americana dos últimos trinta anos oferece exemplos suficientes de
ambos os casos.
O argumento aqui não toma uma leitura normativa da democracia liberal
para avaliar seus desvios e vulnerabilidades, a serem expostos em momentos
críticos, mas parte das crises para reavaliar a democracia realmente existente.
Para tal, procede um levantamento da ocorrência desses episódios em 15 países
latino-americanos entre 1990 e 2020. Como outros analistas já observaram, uma
característica saliente do período é que, não obstante a gravidade ou a duração
das crises políticas registradas, há resiliência considerável do arcabouço
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institucional, que eventualmente se fortalece com esses episódios (Marsteinstredet
& Bertzen, 2008; Pérez-Liñán, 2007). Mesmo quando a crise implica violência,
destituição de governos ou paralisia decisória, a tendência geral foi, em seu
desfecho, a restauração os procedimentos formais da democracia representativa,
que se mantém como referência de legitimidade. Esse resultado aparentemente
paradoxal, condensado especialmente à luz da experiência da década passada, é
então nosso ponto de partida. Ao invés de perguntar o que isso diz sobre a
dinâmica das crises políticas recentes, interessa sobretudo responder o que esse
paradoxo revela sobre o consenso aparente em torno da democracia liberal.
A segunda proposição é que, através de uma abordagem panorâmica, as
crises revelam as formas contemporâneas de intervenção sobre a dinâmica do
sistema político, capazes de levá-lo à inoperância momentânea. A primeira delas
é a eclosão relativamente acelerada de protestos multitudinários com identidade
cidadã, oposicionista e popular, com força suficiente para travar os canais usuais
de negociação pela pressão urgente das ruas. A segunda é a intervenção de
órgãos de controle tendo por base a primazia da lei sobre a política, que, em
determinadas circunstâncias, podem ensejar um impasse. Por fim, há interferência
informal sobre a dinâmica representativa resultante do poder de veto dos
investidores ou, em outras palavras, da suscetibilidade da política ao risco de
estrangulamento externo das economias latino-americanas. Esquematicamente,
iremos tratar essas três formas de intervenção como “primaveras”, “tribunais” e
“dólares”.
Objeto de diversos estudos anteriores, a incidência das primaveras, dos
tribunais e dos dólares não só nos ajuda a compreender as situações de crise
política na região, mas nos instiga a ver a democracia liberal para além da
triangulação essencial entre partido, cidadão e órgãos representativos. Desde
Weber e Schumpeter, reputamos essa triangulação ao cerne do jogo político nas
modernas democracias de massa. Tratar genericamente as interferências sobre ela
como distúrbios antidemocráticos perde de vista as visões concorrentes, e mesmo
incompatíveis, de democracia que se chocam nas crises impulsionadas por
protestos multitudinários, por órgãos de controle e pelo comportamento dos
investidores. Nesse sentido, e seguindo a sugestão original de Carl Schmitt,
poderíamos ler as situações críticas não como uma aberração, exótica ao curso
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regular da norma, mas como uma oportunidade para desvelar certas realidades
que permanecem subreptícias sob a normalidade.
O artigo desenvolve essa proposta em três etapas. A primeira esclarece o
uso do termo crise e a forma como se procedeu o levantamento dos episódios a
partir de um critério fundamentalmente contextual. A segunda etapa analisa com
maior detalhe o papel das mobilizações populares, das instituições independentes
de controle e do estrangulamento externo como “interventores desarmados” sobre
o sistema político. Como consequência, é possível observar as crises não como
eventos isolados, mas capazes de tecer conexões anteriores e posteriores através,
por exemplo, do efeito de exemplaridade e contraexemplaridade. A terceira etapa
é transpor o efeito das primaveras, dos tribunais e dos dólares para uma reflexão
contrafactual sobre a democracia liberal, buscando refazer os laços entre a
irrupção do excepcional e a vigência da regra.
A Crise Política como Exceção
Há mais de meio século, o historiador alemão Reinhart Koselleck elaborou
o argumento de que a crise não é uma irrupção circunstancial, mas sim condição
constitutiva da sociedade moderna, ou seja, faz parte da forma como ela organiza
a política, a moral e o transcurso do tempo histórico (Koselleck, 1999). A
modernidade abriu uma crise que nunca foi exatamente resolvida. Diante desse
marco, qualquer tentativa de conceptualização inevitavelmente perde em
coerência. Delimitar e definir uma conjuntura específica de “crise” implica algum
grau de arbitrariedade, mas tal sacrifício é necessário para uma sociologia política
ser possível (NETSAL, 2017). Em termos gerais, o estudo das crises políticas se
baseou em duas formas de análise. A primeira atribui a ocorrência de crises à
operação de processos sociais mais amplos, como foi a análise de Tocqueville
(1997) sobre a Revolução Francesa ou a de Samuel Huntington (1968) sobre a
instabilidade no Terceiro Mundo. A tese de Guillermo O’Donnell (1996) sobre o
aparecimento de estados burocrático-autoritários igualmente segue essa chave de
explicação processual, na medida em que a crise é ponto de confluência histórica
de determinadas tendências de desenvolvimento. Por ser impelida por
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transformações estruturais, a crise política assim entendida não pode ser resolvida
meramente pela restauração da rotina institucional anterior.
A segunda forma privilegia a autonomia do evento crítico, o que em larga
medida assimila a análise institucional. Dessa maneira, por manobras
contingentes e incentivos específicos, os atores produzem uma situação atípica de
deflagração da disputa com rumos indeterminados. As crises não são parte ou
ápice de uma narrativa mais ampla; elas são a própria narrativa. Quaisquer
processos de mudança social são irrelevantes ou remotos perante a interação
estratégica dos protagonistas da crise política, que é, do ponto de vista analítico,
uma unidade autocontida.
As análises do primeiro tipo, baseadas em processos abrangentes, se
tornaram mais escassas nas últimas três décadas conforme perderam força o
marxismo e as teorias da modernização. Na América Latina, a remissão dos
episódios de crise a processos tendenciais ainda se pode identificar, ainda que
matizada, na agenda sobre transição e consolidação democrática (Vitullo, 2001).
Disso derivaria a hipótese de que a recorrência de crises políticas fossem
sintomas de um período transitório a ser superado progressivamente. Essa
hipótese ganhou nova tonalidade com o ciclo eleitoral de governos de esquerda
nos anos 2000. Se os anos 1990 foram marcados por crises suscitadas por
guinadas neoliberais, seria plausível que a prevalência de agendas redistributivas
atacasse as raízes da instabilidade (Silva, 2011; Souza, 2013). No entanto, a
posterior derrocada desse ciclo revelou não só o reaparecimento de crises
institucionais profundas, mas também do estelionato eleitoral para implementar
programas de austeridade.
Diante disso as crises latino-americanas parecem desprovidas, em seu
conjunto, de uma conotação tendencial clara. Em casos particulares, é usual que
elas inspirem, por sua própria natureza, análises processuais retrospectivas, como
já observou Pérez-Liñán (2007): a eclosão do conflito agudo é decomposta e
analisada a partir da extrapolação ou culminância de tendências previamente já
em curso. Afora os casos particulares, a tentativa de estabelecer explicações
processuais para as crises latino-americanas contemporâneas perdeu força, além
das razões teóricas, pela própria divergência de trajetórias na região.
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Em boa medida pelo crescimento da abordagem institucional, a análise
centrada no evento crítico se tornou predominante. Para organizar a aproximação
empírica, utilizaremos uma definição desse tipo: uma crise política envolve as
circunstâncias excepcionais em que a rotina institucional é bloqueada, fazendo
com que o acirramento do conflito eleve também a incerteza a respeito dos
resultados possíveis. Como frisou Tilly (1978), há uma distinção relevante entre
uma situação revolucionária e resultados revolucionários, o que mutatis mutandis
vale para as crises políticas em geral. Mais do que avaliar retrospectivamente as
transformações resultantes, é preciso ter em conta o interregno decisivo entre a
abertura de possibilidades e o desfecho de um evento crítico.
Para tornar o critério mais apurado, tomou-se como referência inicial a
efetivação ou possibilidade concreta de interrupção precoce de mandatos
presidenciais entre 1990 e 2020. A seguir, excluiu-se os casos de interrupção por
causas ordinárias, como a renúncia de Hugo Banzer na Bolívia (2001), então
vítima de câncer. A seguir, foram adicionados casos em que, mesmo sem risco
imediato ao mandato presidencial, é possível identificar circunstâncias
excepcionais de estremecimento da ordem política. Tal foi o caso, por exemplo,
da escalada da guerra civil colombiana após o estabelecimento de uma zona
desmilitarizada no sul do país em 1998 (Tokatlián, 2006; Valencia, 2005).
Embora a fracassada negociação de paz com as FARC tenha arruinado a
popularidade de Andrés Pastrana, seu mandato não esteve em risco direto; ainda
assim, o rumo da guerra abriu uma janela de possibilidades tão ou mais extremas
para o país e seus vizinhos. Nessa mesma rubrica se inclui a insurreição do
Exército Zapatista de Libertação Nacional em 1994, que, por não ameaçar
seriamente uma interrupção de mandato presidencial, é geralmente
desconsiderada na catalogação das crises. No entanto, os eventos em Chiapas (e
sua repercussão nacional e internacional) abriram uma ruptura de outra natureza
na política mexicana que, confluindo com a quebra do peso e o assassinato de
Donaldo Colossio no mesmo ano, abriram radicalmente o horizonte de
possibilidades.
A definição contextual significa que os episódios não podem ser avaliados
por um critério formal estanque, como a queda do presidente ou o amplo
emprego de violência, mas pelo efeito que produzem em seu contexto político.
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Em casos de guerra civil, como ocorreu na América Central, no Peru ou na
Colômbia, o uso da violência política pode não ser critério suficiente para
distinguir uma crise. Em governos autoritários como o Peru de Alberto Fujimori,
as medidas de exceção são sinais da operação regular do sistema político, e não
de sua instabilidade. Essa avaliação contextual sem dúvida abre margem para
discricionaridade, já que há inúmeros casos limítrofes, alguns dos quais iremos
comentar em seguida. Desde já, é importante esclarecer que a atenção à fissura
das rotinas institucionais implica que uma crise só adquire sentido diante de seu
contexto prévio.
Vale lembrar que a literatura sobre crises dedica pouca ou nenhuma
atenção ao problema da duração, de modo que os levantamentos disponíveis têm
por regra elencar os casos só como unidades (Hochstetler, 2007; Marsteinstredet
& Bertzen, 2008; Pérez-Liñán, 2007; Souza, 2016; Valenzuela, 2004). Pela
presunção de independência relativa entre a abertura e o desfecho da crise,
alteramos esse procedimento metodológico. A medida de duração utilizada foi
semestral, o que confere uma aproximação razoável. De fato, há exemplos de
crises em períodos curtos e alta intensidade: a rebelião policial no Equador em
2010 transcorreu em cerca de duas semanas e ameaçou afastar à força Rafael
Correa do cargo. A deposição de Fernando Lugo no Paraguai (2012), ícone do
chamado “neogolpismo”, teve tramitação incrivelmente célere, sacrificando o
direito de ampla defesa do presidente em nome da imediata recomposição da
rotina institucional. Seria possível objetar que nesses casos o semestre seja
medida inadequada. Por outro lado, a escala semestral permite igualmente
projetar crises mais prolongadas com seus desenvolvimentos internos, como, por
exemplo, o ciclo de lutas antineoliberais na Bolívia entre 2000 e 2005.
Entremeada por eleições presidenciais e municipais, duas quedas presidenciais
(Sánchez de Lozada em 2003 e seu vice Carlos Mesa em 2005), seus reequilíbrios
foram precários e provisórios. Nesse caso, isolar os picos de tensão social perde
de vista a dinâmica de conjunto: o desfecho da crise política iniciada com a
“guerra da água” em 2000 é melhor compreendido se situado no encaixe entre o
plebiscito sobre a nacionalização do gás e a eleição de Evo Morales em 2005,
quando os movimentos populares, sindicais e indígenas atingem novas conexões
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As dificuldades relacionadas à duração se misturam com a determinação,
nem sempre cristalina, do início e do fim de uma crise política. Nesse sentido,
não se pode supor que há um desfecho na crise quando desaparece a razão de
sua eclosão. Precisamente porque há uma margem de indeterminação no curso
dos eventos, esse critério intuitivo pode ser traiçoeiro: no exemplo acima, a
vitória da mobilização popular contra a privatização da água em Cochabamba,
em abril de 2000, não enquadra bem um desfecho da crise por ela desencadeada.
Dessa forma, a delimitação mais coerente para uma crise política corresponde ao
restabelecimento da operacionalidade do sistema político como núcleo decisório,
controlando o grau de incerteza e beligerância. Esse restabelecimento pode tanto
democratizar como desdemocratizar os termos pelos quais as decisões são
produzidas e implementadas. De igual maneira, esse restabelecimento pode
exigir maiores ou menores mudanças com relação ao status quo ante conforme
for a profundidade da crise, isto é, a gravidade do bloqueio que ela impõe à
rotina institucional. Essas ressalvas poderiam ser eventualmente afiadas como
novas hipóteses, mas isso extrapolaria os limites do presente argumento. Por ora,
interessa demarcar a duração como um atributo descritivo.
Para ilustrar a dificuldades inerentes aos limites iniciais e finais de cada
caso, vale observar a situação recente na Guatemala. O pivô da crise foi a
Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG), constituída
em 2006 pela cooperação entre agências guatemaltecas de investigação e as
Nações Unidas. Com efeito, a atuação da CICIG produzira diversas investigações
de impacto na década de 2010, ao implicar figuras de alto escalão governamental
em crimes de corrupção, fraude e até crimes violentos. Assim, há um efeito
cumulativo em que é difícil discernir exatamente quando inicia a crise política no
país, ela própria infundida em um quadro de segurança pública em deterioração
por razões múltiplas (Brannun, 2019).
Nesse cenário, definiu-se como momento de ignição o primeiro semestre
de 2015, quando a CICIG atingiu frontalmente o presidente em exercício Otto
Pérez Molina, implicado em um esquema de fraude aduaneira conhecido como
“A Linha” (Ives & Guimarães, 2016). O escândalo inflamou um ciclo de protestos
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de rua sob o mote digital de #RenunciaYa, iniciado em 25 de abril (Torres, 2015).
A queda do mandatário às vésperas da eleição presidencial parecia oferecer uma
oportunidade de reequilíbrio, catapultando um político jovem e outsider,
identificado com os protestos e comprometido com o mandato da CICIG. Esse
compromisso foi curto à medida em que Jimmy Morales, figura carismática da
nova direita, foi ele próprio alvo de investigações sobre o financiamento de
campanha, recolocando o impasse entre a CICIG e o sistema político
guatemalteco.
O desfecho da crise, portanto, parece mais claro no segundo semestre de
2017 quando Morales decide encerrar o mandato da Comissão à revelia da Corte
Constitucional e das manifestações de rua. Ainda que essas manifestações não
tenham se encerrado, é plausível afirmar que, a partir deste ato de soberania de
Morales, que acabaria por pulverizar sua popularidade, mas o aproximar das
elites econômicas guatemaltecas, o sistema político começa a se reorganizar e
reerguer diques para sua operação, pavimentadas com a eleição presidencial de
2019 (Álvarez Aragón, 2020; Brannun, 2019; Calderón Castillo, 2019). Aqui, uma
dificuldade adicional de trabalhar com o tempo presente é presumir quão estável
virá a ser esse reequilíbrio; quiçá um novo abalo no futuro próximo nos faça
reavaliar o período 2017-2019 não como desfecho, mas como flutuação interna
na instabilidade originada pela devassa da CICIG contra a política institucional no
país.
Em suma, como seria de esperar, delimitar a duração de uma crise acarreta
um recorte nem sempre autoevidente. Na mesma linha, há um critério mínimo de
intensidade que é igualmente de difícil aferição. Em razão do que percebeu
Koselleck, é sempre mais fácil dizer que há uma crise do que o contrário. Ainda
assim, há campanhas políticas de fôlego, com mobilização extensa da sociedade
civil, que não necessariamente desencadeiam uma crise em seu bojo. Pense-se,
por exemplo, na campanha vitoriosa contra a lei de privatização das empresas
públicas no Uruguai em 1992, ou na recente “primavera colombiana” de 2019.
No Brasil, vale considerar o contraste entre a mobilização pelo “Fora Collor” (na
qual há um bloqueio institucional que leva à renúncia do presidente) e pelo “Fora
FHC” (1995-1996), que, embora mais duradoura, nunca emparedou ou paralisou
o sistema político. Essa distinção estipula um critério mínimo de intensidade.
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O mesmo vale para o uso político das corporações armadas do estado,
fenômeno quase imediatamente identificado como crise política por inúmeras
razões históricas. Para transpor esse critério de intensidade, vejamos exemplos
contrastantes: de um lado, os casos de Peru (1992) e Guatemala (1993), de outro
o recente episódio de incursão militar no parlamento de El Salvador (2020). O
caso do autogolpe de Fujimori em 1992 é, nessa rubrica, exemplo claro de crise
política com protagonismo do Exército e das polícias. Curiosamente, os
levantamentos empíricos baseados na interrupção de mandato presidencial são
levados ou a omitir o caso peruano, ou a identificá-lo em novembro de 1991,
quando o Senado tentou sem sucesso depor Fujimori, menosprezando o crucial, a
saber, a escalada autoritária com que o presidente responderia à crise. Um
movimento similar foi tentado em 1993 na Guatemala. O presidente Antonio
Elías Serrano, inspirado pelo precedente peruano, tentou um autogolpe
conhecido como Serranazo, mas foi frustrado pela firme resposta doméstica e
internacional. Ambos os casos, não obstante seus desfechos distintos, transitam
em um grau de abalo grave da rotina institucional que os separa de turbulências
pontuais nas relações civis-militares.
Em fevereiro de 2020, em uma manobra de claro viés autoritário, o
presidente de El Salvador Nayib Bukele adentrou o Congresso acompanhado de
soldados armados e oficiais de alta patente para exigir que fosse votado seu
projeto para a área de segurança pública, principal plataforma de sua campanha.
A forma do episódio atraiu enorme atenção, mas foi mais dramática do que seu
conteúdo. Ao final, Bukele estava mais interessado em uma performance de
liderança forte que lhe permitisse redirecionar a agenda política do país em um
momento em que surgiam pautas adversas para seu governo (Lemus, Martínez &
Martínez, 2020). Ora, pelo perfil de Bukele, não há garantia contra uma deriva
autoritária à frente (El Salvador se encontra em estado de emergência pela
pandemia de Covid-19), mas parece excessivo considerar a manobra de fevereiro
como uma crise política. No limite, vale lembrar que nem todo processo de
desdemocratização é consequência direta de uma crise.
Em síntese, seja em termos de duração ou intensidade, é preciso
estabelecer critérios de distinção das crises políticas latino-americanas,
centrando-se na excepcionalidade do evento diante de seu contexto. Com isso,
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formamos um conjunto heterogêneo de 37 casos em que as instituições políticas
estiveram sob alta pressão nos últimos trinta anos de hegemonia da democracia
liberal na região (ver Tabela 1). Nosso próximo passo é reavaliar esse conjunto
através do significado que tiveram os “interventores desarmados” sobre a arena
política, as “primaveras” nas ruas, os julgamentos políticos e o risco de colapso
cambial. Mais do que recorrências periódicas ou espasmos patológicos, essas
gramáticas de intervenção foram disputando espaço no campo semântico da
democracia.
Tabela 1 - Crises políticas na América Latina, 1990-2020
Argentina Curralito (2001-2003)
Guerras populares contra o neoliberalismo (2000-2005);
Bolívia
Separatismo oriental (2008); Derrubada Evo Morales (2019-2020)
Derrubada Collor (1992); Mensalão (2005-2006); Crise do Lulismo
Brasil
(2013-2016); Impasse de Bolsonaro (2020)
Chile Revolução Pinguina (2006); Inverno Chileno (2011); Revolução dos
30 Pesos (2019-2020)
Colômbia Processo 8000 (1995-1996); Escalada Guerra Civil (1998-2002)
El
-
Salvador
Impugnação de A. Bucaram (1997); Destituição de J. Mahuad
Equador (2000); Destituição de L. Gutiérrez (2005); Sublevação policial
(2010); Outubro Plebeu (2019)
Guatemala Serranazo (1993-1994); CICIG (2015-2017)
Honduras Deposição Zelaya (2009); MACCIH e crise eleitoral (2017-2019)
México Levante Zapatista (1994-1996); Crise eleitoral (2006); Ayotzinapa
(2014);
Nicarágua Crise de abril (2018-2019)
Tentativa de Golpe de Oviedo (1996); Março Paraguaio e
Paraguai Campanha Oviedista (1998-2003); Destituição Fernando Lugo
(2012); Segundo Março Paraguaio (2017)
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Peru Autogolpe Fujimori (1991-1992); Vladvídeos (2000); Escândalo da
Odebrecht (2017-2020)
Uruguai -
Venezuela Destituição de Andrés Pérez (1992-1993); Conspiração contra
Chávez (2002-2003); Crise do Chavismo (2013-2020)
Gráfico 1 - Cronologia de crises políticas na América Latina, 1990-2020
Os “interventores desarmados” e a democracia liberal
A dinâmica de incerteza que caracteriza a crise política não pode ser
integralmente acessada só pelo conflito interno ao sistema político. Ademais, a
violência política organizada, que outrora recebeu grande atenção nos Estudos
Latino-americanos, foi perdendo força nas últimas décadas como terreno decisivo
da mudança política. Não só as insurgências armadas se tornaram
comparativamente rarefeitas, mas também o golpe de estado em seu sentido
clássico se tornou menos frequente (Pérez-Liñán, 2007, pp. 40-63). Entre 1945 e
1978, houve 20 casos de colapso democrático decorrentes de golpes militares na
região (Marsteintredet & Berntzen, 2008). Desde 1990, nos 15 países em análise,
houve três ocasiões em que o presidente em exercício foi destituído mediante
intervenção militar, no Equador (2000) por uma sedição de oficiais de baixa
patente no ápice da crise, e na Guatemala (1993) e em Honduras (2009) por
pressão da corporação, sem recurso direto à violência. O movimento contra a
reeleição de Evo Morales em 2019, que dos protestos amplos contra os resultados
evoluiu para o uso paraestatal da violência miliciana, poderia ser considerado um
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caso-limite em função da conivência das forças policiais e militares. Ainda
quando houve participação das corporações armadas, uma vez forçada a
interrupção do mandato, a crise foi encaminhada por meio dos procedimentos
constitucionais da democracia liberal, através da linha sucessória e do calendário
eleitoral.
É preciso parcimônia para apreender essa mudança, que é uma inflexão de
grau. Isso não significa o apaziguamento geral das relações civis-militares, nem
muito menos a proscrição da violência política. O que está em jogo é que, pelo
esmaecimento dos mecanismos históricos de intervenção armada sobre o sistema
político, sobressaíram formas “desarmadas” de impelir e legitimar a mudança. O
caráter desarmado aqui não é necessariamente uma descrição literal, já que a
violência é componente assíduo em situações de crise. O que parece distinguir o
período atual é que os três mecanismos fundamentais de tomada do poder pela
força, os golpes militares, as invasões estrangeiras e as insurreições armadas de
base faccional ou regional, estão em notável desuso, fazendo com que a
violência seja antes um subproduto ocasional da situação de crise. Nesse sentido,
para compreender as democracias latino-americanas nos últimos trinta anos, não
basta apontar a escassez de golpes, guerras e revoluções, mas deve-se atentar
para como sobressaem formas diferentes de suspensão da ordem. É nessa chave
que tentaremos decifrar, nas seções seguintes, o significado das primaveras
populares, dos órgãos de controle e dos movimentos silencioso dos investidores.
“Primaveras” e o Triunfo Espontâneo do Povo
Há mais de meio século, um livro decisivo do historiador britânico George
Rudé instigou os especialistas a estudar a multidão “não como uma entidade
abstrata, mas como um fenômeno histórico vivo e multifacetado” (Rudé, 1991
[1964], p. 14). Com efeito, esse fenômeno permanece atual, igualmente vivo e
multifacetado, embora suscitando os mesmos estereótipos que Rudé procurava
combater. Embora suas origens sejam sabidamente anteriores, o termo
“primavera” ganhou uso disseminado na última década para lidar com multidões
autoconvocadas do mundo árabe ao Chile, da Ucrânia à Turquia ou Hong Kong.
De certo modo, a expressão oferece uma descrição provisória de um fenômeno
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ainda não bem apreendido. Como tal remete genericamente à irrupção, até certo
ponto abrupta e heterogênea, de grandes movimentos de rua, por fora dos canais
institucionais de mediação e representação. Esses movimentos, embora
carregando aspectos singulares, por suas práticas e recursos organizativos, ao
mesmo tempo se reapropriam do imaginário de soberania popular, uma das
âncoras da política moderna (Bringel & Pleyers, 2017; Gerbaudo, 2017: 89-112).
É bastante conhecido o papel dos protestos populares massivos na
deposição de presidentes na América Latina no ciclo de redemocratização
iniciado em 1979. Em fevereiro de 1989, o confronto aberto nas ruas de Caracas
foi uma espécie de marco inicial na luta popular contra o neoliberalismo. O
então presidente Carlos Andrés Pérez teria sua popularidade irreversivelmente
debilitada e cairia anos mais tarde. À mesma época, o processo de impeachment
de Fernando Collor no Brasil também atingiu seu clímax sob a pressão das ruas,
com o movimento dos “caras pintadas”. A certa altura, esse roteiro era tão
familiar que os movimentos sociais foram classificados como “o poder moderador
dos novos regimes civis” (Hochstetler, 2007, p. 14) e os “os principais defensores
da soberania popular” (Souza, 2013, p. 227).
Convém, ainda assim, estabelecer uma fronteira nos conceitos.
Movimentos sociais designam coletividades que mantém ligações contínuas e
compartilham alguma projeção política de si e do mundo. Movimentos sociais
são, pois, formas associativas específicas. O que mais frequentemente se trata por
“primavera” não possui esse nível de articulação, primando antes pelo
descentramento e pela efemeridade. Não resta dúvida que movimentos sociais
(bem como partidos políticos e outras organizações) podem ter papel decisivo, e
em geral o tem, na deflagração desse tipo abrangente de mobilização da
sociedade, mas isso em si não os equivale. Nesse sentido, mais do que certa
duração temporal, a “primavera” tem um caráter excepcional, disruptivo. Seu
contágio transborda, em uma conjuntura aguda, a base associativa prévia.
Para a discussão sobre crises políticas, esse transbordamento massivo tem
se mostrado decisivo. É interessante notar que não há apenas um contágio
instantâneo entre grupos sociais até então desarticulados, mas também há contato
indireto com outras experiências semelhantes de ativação multidudinária. O
Caracazo de 1989 foi inúmeras vezes recontado, relembrado e reconhecido pelas
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lutas antineoliberais na América Latina, transbordando aquele dia particular para
atingir uma memória social de potência popular pela ocupação das ruas. Não
raro, esse encadeamento não é só simbólico, mas se inscreve na própria trajetória
das pessoas e organizações que os protagonizaram, como ocorre claramente, por
exemplo, nas jornadas de luta de 2006, 2011 e 2019 no Chile (Cortés, 2020). A
metáfora da erupção vulcânica, como Alexis Cortés a usa, remete não só ao
caráter explosivo e súbito do evento, mas também ao sedimentos que são
formados em seu rescaldo.
Além disso, vale indicar que esses encadeamentos são possíveis também
em dinâmica sincrônica em diferentes países, como se viu pela interação
contínua entre a crise política no Brasil e na Venezuela a partir de 2013. Os
movimentos oposicionistas nesses países fortaleceram-se mutuamente como
espelhos de uma luta comum, estabelecendo analogias simbólicas e contatos
diretos. Os protestos convocados pelo candidato derrotado Henrique Capriles
após as eleições de abril de 2013, questionando a idoneidade do processo
eleitoral, foram a abertura de um encadeamento de manifestações de rua
lideradas pela direita latino-americana. Desnecessário lembrar, a analogia com a
Venezuela foi uma das principais ferramentas retóricas da direita brasileira para
deslegitimar o governo do PT e sua longa predominância eleitoral.
Essa inflexão à direita é talvez a principal incógnita no tratamento das
“primaveras” como intervenção desarmada sobre o sistema político. No caso das
lutas antineoliberais que ganharam força nas décadas de 1990 e 2000, o caráter
progressista e popular dos protestos de massa se contrapunha a um sistema
político elitista e conservador. O transbordamento dos movimentos sociais e dos
partidos de oposição em grandes insurreições cívicas estabeleceu uma gramática
de intervenção sobre a política institucional. Em outras palavras, por meio de
sucessivas crises políticas e seus efeitos-demonstração, estabeleceu-se nos novos
regimes democráticos o “povo” enquanto potência, sem depender para tal nem
das instâncias institucionais de pressão nem da tomada violenta do poder. Na
maior parte dos casos, as “primaveras” ao redor do mundo concorreram a esse
sentido de democratização próprio aos movimentos sociais populares.
O giro latino-americano à direita trouxe a seguinte incógnita: as crises
políticas a que precipitaram ativação são nesse caso também “primaveras”? De
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saída, isso parece ofuscar dimensões cruciais da nova conjuntura: definitivamente
não se pode negligenciar o uso da violência pela oposição na Venezuela e na
Bolívia, e o ciclo de protestos que culminou com o impeachment de Dilma
Rousseff possuía vínculos nítidos e estreitos com a política institucional. Mais
importante, há uma diferença a manter entre a pressão por inclusão política e
expansão de direitos, diante da urgência dos movimentos de direita de controlar a
situação de crise restaurando e reforçando hierarquias sociais. A intervenção dos
protestos populares após a eleição boliviana de 2019, além de não ser
literalmente “desarmada”, também concorreu a um giro restaurador com
consequências ainda em aberto. Isso adverte contra o risco de reificar a “multidão
nas ruas” e considerar similares quaisquer casos de sua aparição.
Por outro lado, parece insuficiente resolver o problema simplesmente
separando duas categorias diferentes e dicotômicas: enquanto “primaveras”
seriam inerentemente progressistas, ao resto caberia outro nome, como “outono”
ou golpe. Antes de tudo, existem ambiguidades empíricas. Na Nicarágua, a
irrupção popular contra o governo sandinista de Daniel Ortega em 2018 teve
como gatilho uma reforma regressiva do sistema previdenciário, imposta por
decreto presidencial em abril, elevando a contribuição e reduzindo as
aposentadorias. Quase que imediatamente, “se conformou em todo o país um
movimento cívico, multitudinário, autoconvocado, em que participam numerosas
organizações e grupos, alguns deles organizados durante a crise e outros, desde
antes” (Cuadra Lira, 2018, s/p). A insurreição catalisou a compressão política no
governo de Ortega, outrora parte do ciclo de governos de esquerda na América
Latina, que estabeleceu estado de exceção em 2019 denunciando uma ameaça
de golpe de estado. Embora haja nuances, não se pode estabelecer uma oposição
rígida entre o “longo abril” na Nicarágua e a crise política em curso na
Venezuela. Se ampliarmos o escopo e trouxermos à análise os casos recentes na
Guatemala (2015-2017), Paraguai (2017) e Honduras (2017-2019), fica ainda
mais difícil traçar a linha de separação. Justamente porque a multidão não é
politicamente homogênea, e as crises políticas se definem pela indeterminação
entre abertura e desfecho, não é fácil separar os casos de perfil progressista dos
demais. É preciso, levando isso em conta, algum registro para essa imagem
recorrente de um “movimento cívico, multitudinário, autoconvocado”.
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O ponto fundamental é perceber como a intervenção imediata do povo ou
da cidadania é uma potência que se constitui sobre a democracia, não porque
essas intervenções tenham sido idênticas nos últimos trinta anos, mas
precisamente porque percorreram trajetórias que variaram extremamente. No
ciclo das lutas antineoliberais, a irrupção do povo contra o sistema político
parecia encaixada a uma direção emancipatória. Na medida em que esse
alinhamento posteriormente se esfumaça, também fica claro que o fenômeno é
mais flexível e heterogêneo. O que a conjuntura atual demonstrou é que a direita
é capaz de apropriar-se, à sua maneira, do lugar do povo como oposição
independente, isto é, de estabelecer o que Laclau e Mouffe (1987) chamaram de
“cadeia de equivalências” entre diferentes posições de sujeito, capaz, com isso,
de transbordar sua base associativa prévia. O maior triunfo da direita venezuelana
é capitalizar para si todas as formas de oposição ao governo de Maduro.
A rigor, é preciso conceber a multidão auto-organizada em uma
“primavera” não como uma descrição empírica nem valorativa, mas como uma
dimensão simbólica. O cerne dela é uma plataforma oposicionista em base
cidadã, nacional e espontânea, capaz de prevalecer sem recorrer à negociação
institucional ou à força. Que essa dimensão simbólica não seja fidedigna à sua
realização empírica é secundário, porque todas as suas impurezas (confrontos
físicos, conexões institucionais, interesses corporativos) acabam por ser
acidentais. Uma perspectiva panorâmica sobre as crises latino-americanas mostra
que a potência da multidão afirma sua excepcionalidade na medida em que
apaga essas impurezas, e por isso é flexível a circunstâncias políticas tão diversas.
Essa potência carrega um sentido de democracia baseada na vontade popular
imediata, como efetivação real e concreta, por isso superior à mecânica formal
das instituições e capaz de eventualmente paralisá-la. Em retrospectiva, esse tipo
de intervenção popular nas crises políticas não constitui um fenômeno obsoleto
nem unidirecional, mas sim vivo, em aberto em suas possibilidades: “tal como a
sociedade mudou, também a multidão mudou com ela e, ao mudar, deixou seu
legado às gerações posteriores” (Rudé, 1991 [1964], p. 289).
“Tribunais”: teoria e prática das instituições de controle
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A preocupação com as instituições de controle nasceu geminada ao
diagnóstico de hipertrofia das prerrogativas presidenciais nos novos regimes
democráticos (O’Donnell, 1991). A vulnerabilidade socioeconômica que
acompanhou o processo de democratização na América Latina acentuaria esse
caráter delegativo e centralizador, sendo sobremaneira frágeis as instituições
judiciais e burocráticas responsáveis por ancorar a prevalência da lei e um
sentido de bem comum (O’Donnell, 1993). Desdobrando-se do tema das
transições, emergia uma agenda sobre reforma da estrutura de estado para
responder ao novo ambiente democrático, superando o legado autoritário para
fazer da burocracia uma solução, e não mais um problema. Era necessária uma
nova malha institucional para garantir formas independentes de eficiência,
responsabilização e controle dos dirigentes para além da competição eleitoral.
As eleições livres asseguram, por definição, alguma forma de controle
vertical dos eleitores sobre seus representantes eleitos. Em caso de atos deletérios
ou corruptos por parte destes, é razoável esperar que a exposição negativa de
mídia, as manifestações de oposição e a competição eleitoral estabeleçam
mecanismos para essa responsabilização política. O que Guillermo O’Donnell
levantou nos anos 1990 era que não bastava uma poliarquia ser democrática, ela
exigia o “império da lei” como lastro da disputa (O’Donnell, 2004). Em poucas
palavras, isso acarretava a isonomia legal de todos os cidadãos, a garantia de
prerrogativas individuais e salvaguardas processuais, além da operação efetiva do
sistema de distribuição de justiça em todo o território. Para O’Donnell, a ênfase
dos analistas em poliarquias já institucionalizadas, onde o império da lei era um
dado assegurado, obscurecia os principais dilemas que viviam os países latino-
americanos pós-transição: “meu interesse pelo que chamo de accountability
horizontal nasce de sua ausência” (O’Donnell, 2004, p. 27).
A definição formal de accountability horizontal é ligeiramente tortuosa,
mas vale reproduzi-la na íntegra:
“a existência de agências estatais que tem o direito e o poder legal e que estão de
fato dispostas e capacitadas para realizar ações, que vão desde a supervisão de
rotina a sanções legais ou até o impeachment contra ações ou emissões de outros
agentes ou agências de Estado que possam ser qualificadas como delituosas”
(O’Donnell, 2004, p. 40).
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Toda a malha de controle está vertebrada sobre a inibição do delito, ou
seja, sobre o imperativo legal como base para a fiscalização entre burocracias no
interior do aparato de estado. Consequentemente, “o direito e o poder legal”
significa a autonomia relativa desses órgãos de controle, independentes com
relação à cadeia de comando formada pelas maiorias eleitorais. O fortalecimento
democrático exigia, então, o adensamento e capacitação de órgãos de
investigação criminal, controladoria do orçamento, inteligência financeira,
fiscalização de órgãos públicos e adjudicação imparcial e célere de conflitos.
Essa digressão à obra de O’Donnell dos anos 1990 se justifica porque o
tema da accountability horizontal foi absorvido e disseminado pelo pensamento
ortodoxo sobre a democracia na América Latina. O desenvolvimento de
instituições de garantia do rule of law passou a ser eixo programático de
organismos internacionais (FMI e Banco Mundial), organizações não-
governamentais (como a National Endowment for Democracy e a Transparência
Internacional) e mesmo agências de cooperação internacional do Departamento
de Estado dos EUA, com o qual essas ONGs tem conexões próximas
(Albuquerque, 2018). Nessa chave a democracia é traduzida a um novo
vocabulário de governança, “boas práticas”, transparência, accountability,
compliance, eficiência e, sobretudo, império da lei (rule of law). O combate à
corrupção se torna um farol para a reforma do estado.
Nos primeiros casos de impeachment por acusações de corrupção (Collor
no Brasil e Andrés Pérez na Venezuela), parece prevalecer a lógica da delegação
irrestrita com responsabilização vertical identificada por O’Donnell. Os
presidentes, no uso de suas prerrogativas cesaristas, avançaram políticas drásticas
que arrasaram sua popularidade e sua credibilidade, criando um contexto de
isolamento em que a improbidade administrativa apenas concorre ao desfecho da
crise. No caso venezuelano, o impedimento exigiu inclusive algum malabarismo
jurídico do Congresso, decidido a livrar-se do presidente diante da pressão
popular e das duas quarteladas mal-sucedidas em fevereiro e novembro de 1992
(Pérez-Liñán, 2007, pp. 18-22 e 99-103). O mesmo enquadramento “delegativo”
de adéqua à queda do presidente peruano Alberto Fujimori em 2000, após a
revelação de esquemas de suborno e intimidação conduzidos pelo chefe da
inteligência do governo. O efeito imediato da crise (a renúncia ocorre semanas
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depois da publicação dos primeiros vídeos) reforça a ideia de que, mais do que
intervenção dos órgãos de controle, a corrupção se processa pela
responsabilização imediata do presidente.
Salvo melhor juízo, o primeiro caso de crise política com protagonismo
dessas instituições foi o chamado “Processo 8000”, investigação criminal contra o
presidente eleito Ernesto Samper do Partido Liberal colombiano. A acusação
girava ao redor do recebimento clandestino de dinheiro do cartel de Cali para a
campanha eleitoral de 1994, alavancada por gravações (“narco-cassetes”) obtidas
pelo candidato derrotado, Andrés Pastrana. Com grande apoio midiático, o
processo foi então liderado pela Fiscalía General de la Nación, órgão
independente dentro do poder judicial estabelecido pela Constituição de 1991. A
imprevisibilidade da crise foi potencializada pelas múltiplas e longevas conexões
entre o estado colombiano e o crime organizado reveladas no curso da
investigação, para as quais intercediam também membros da sociedade civil. Em
1996, contudo, a investigação formal contra o presidente foi arquivada na
Câmara pela reorganização da maioria liberal, garantindo o mandato de Samper e
impondo balizas aos rumos da crise política (Hinojosa & Pérez-Liñán, 2007).
Um segundo caso de relevo para a intervenção das instituições de controle
sobre o sistema político foi o escândalo do “mensalão” no Brasil em 2005, que
atingiria a cúpula do Partido dos Trabalhadores junto a políticos de inúmeros
partidos. Mobilizados pelo tema da corrupção, atuaram em conjunto o Ministério
Público, a imprensa e o Legislativo, que instaurou Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito (CPMI) à revelia da base governista. O transcorrer da crise incidiu
diretamente sobre o pleito presidencial de 2006, já que o relatório final da CPMI
e a primeira denúncia formal pela Procuradoria-Geral da República foi lançada
meses antes da votação. Nesse sentido, há um desfecho na conjuntura de crise
com a reeleição de Lula em 2006, ainda que o processo penal do “mensalão”
tenha transcorrido até 2012. O sufrágio da figura de Lula, eventualmente
fortalecida, controlaria os rumos da ofensiva anticorrupção contra o PT. De uma
circunstância excepcional com elevada incerteza o tema passaria ao repertório
ordinário da oposição.
Em retrospectiva, é interessante observar como, tanto na Colômbia como
no Brasil, a corrupção revolvida pela fricção interna ao sistema político abre uma
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cunha para o engajamento das instituições de controle; entretanto, a capacidade
de recomposição das instituições representativas é decisiva para o manejo da
crise, seja pela maioria parlamentar, seja pelo sufrágio popular. Por essa
perspectiva, uma situação nova se coloca aberta na última década, a partir das
interrupções de mandato presidencial em Honduras (2009), com intervenção
decisiva da Corte Constitucional, e no Paraguai (2011), em que o Parlamento,
investido em tribunal, contou com a cumplicidade do Tribunal Eleitoral para
depor Fernando Lugo. Em ambos os casos, a maioria oposicionista no parlamento
conseguiu respaldo das instituições de controle para consumar uma intervenção
com redirecionamento de política, sob o pretexto da violação da lei e do bom uso
das atribuições presidenciais.
Se a década de 1990 inspirou a avaliação de que os movimentos sociais
seriam um “poder moderador” ao sistema político, a década de 2010 fez com que
esse papel fosse reivindicado pelos tribunais, procuradorias e polícias judiciárias.
Do papel de fiscalização independente emerge uma cultura organizacional
vocacionada à refundação da política pela ética e pelo direito. As avaliações
sobre os escândalos de corrupção como subproduto da liberdade de imprensa
perdem de vista esse perfil mais combativo e profissionalizado das instituições de
controle. Desde 2015, os casos mais emblemáticos desse novo cenário ocorreram
na Guatemala, no Brasil e no Peru, onde a luta contra a corrupção por agentes
autônomos de estado se tornou flanco para uma profunda desestabilização da
política institucional.
É interessante observar que há encadeamentos não só pela exemplaridade,
mas por ligações de contágio direto. No caso brasileiro, a ligação “para trás” é
explícita, já que a Operação Lava Jato, iniciada em 2014, só fez potencializar
uma projeção política que as instituições de controle nunca abandonaram desde
2005. Ademais, o desenvolvimento da Lava Jato produziu contágio continental,
de forma mais dramática no Equador e no Peru, onde levou à renúncia de Pedro
Pablo Kuczynski (2018) e à prisão de ex-presidentes e dirigentes partidários. Em
países como Panamá, Argentina, El Salvador, Equador e México, investigações
criminais envolvendo lideranças políticas no bloco governante estiveram na
ordem do dia, sem evoluir a um ponto crítico, mas fortalecendo um sentimento
difuso de criminalização de partidos, políticos e instituições. No Chile, mesmo a
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cúpula do Exército foi devassada por uma investigação grave de desvio de verbas
públicas em 2015 (“milicogate”), seguido de escândalo semelhante envolvendo a
polícia nacional (“pacogate”). .
O que interessa iluminar é que, por trás da “intervenção desarmada” dos
órgãos de controle, há uma leitura implícita a respeito do devido funcionamento
do regime democrático organizada pelo binômio lícito/ilícito. Ora, investigações
de corrupção são um procedimento em si ordinário. Há situações específicas em
que isso produz uma crise política mais ampla. Através desses casos críticos fica
claro que a dimensão simbólica da intervenção dos “tribunais” e seus
funcionários não-eleitos sobre o sistema político. A fiscalização independente
dessas burocracias equipara o interesse público à lei vigente, tomando-a em um
sentido deliberadamente reificado, ou seja, isento de e oposto à política. O ex-
juiz Sérgio Moro, em um discurso aos formandos de 2018 na Universidade de
Notre Dame nos Estados Unidos), resume esse espírito: “nunca esqueçam a pedra
angular das nações democráticas, que é o império da lei [rule of law]” (Moro,
2018, s/p). Não há nenhuma menção no discurso à vontade da maioria, às
eleições, à disputa programática e à representação; pelo contrário, ele define a
democracia como um “governo da lei [government by law]”. A intervenção das
autoridades legais se põe em um plano superior à democracia dos votos e dos
partidos, um plano necessário para corrigi-la, reformá-la, depurá-la.
“Dólares”: disciplina de mercado e “estelionato eleitoral”
Para além das primaveras e dos tribunais, uma terceira forma de
“intervenção desarmada” se consolidou nos últimos trinta anos graças ao risco
cambial em uma economia aberta, ou seja, o voto dos dólares. É uma forma mais
delicada dado que, ao contrário dos anteriores, não há um agente político
igualmente bem definido. Não se trata de apontar o efeito geral da situação
econômica sobre o comportamento dos eleitores e sobre a sustentação dos
governantes. Esse efeito é razoavelmente endógeno ao sistema político, já que
uma performance econômica negativa tende a pesar nas urnas. O que convém
distinguir são as situações particulares em que a desconfiança dos investidores
contra o governo cria um impasse de governabilidade, em particular quando um
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bloqueio institucional decorre da adoção de diretrizes econômicas contrárias às
que haviam sido de alguma maneira pactuadas nas eleições.
A divergência entre plataforma eleitoral e programa de governo, fenômeno
em si recorrente nas últimas quatro décadas, já foi usada como epítome da falta
de caráter dos políticos profissionais, dispostos a qualquer promessa para
arrebanhar votos. Os intérpretes da “democracia delegativa”, por sua vez, viram
aí mais uma evidência de que não havia um vínculo representativo e
programático propriamente dito com os presidentes eleitos. No entanto, foi
sobretudo a partir da obra de Susan Stokes (2001) que o fenômeno do
“estelionato eleitoral” começou a ser analisado em seu próprio mérito, indicando
causas específicas para sua recorrência.
Stokes (2001) apresentou um argumento causal com sua contrapartida
normativa. O primeiro explicava que, para políticos interessados em ganhar
cargos eletivos, a manobra seria uma estratégia razoável, dado que os votantes
desconfiariam de políticas de liberalização econômica, mas ao final o resultado
entregue pelo governo seria mais importante que a fidelidade aos compromissos
de campanha. Por força da globalização financeira, esses políticos “acreditavam
que os eleitores seriam prejudicados pelas ações dos mercados se os governos
executassem políticas que não as favoráveis aos mercados” (Stokes, 2001, pp.
186-187). Daí a recorrência com que eles se elegeriam com programas estatistas
e redistributivos para em seguida implementar reformas neoliberais, sem que
ocorresse, contudo, a trajetória inversa. Em um plano normativo, Stokes defendeu
que, mesmo com o estelionato, poderia eventualmente subsistir uma dinâmica de
representação baseada no interesse comum, que seria passível de
responsabilização através do voto retrospectivo.
A contraposição apresentada pela cientista política Daniela Campello
(2014; 2015) levou o debate sobre estelionato eleitoral a outro nível. Campello
aponta corretamente a premissa problemática de que só o neoliberalismo poderia
efetivamente atingir resultados econômicos positivos, tendo de ser, contudo,
mascarado em função das preferências dos eleitores. A esse respeito, o giro à
esquerda dos anos 2000 foi um contraponto esclarecedor, já que as plataformas
eleitorais redistributivas foram levadas a cabo sem reviravolta das condições
econômicas gerais. Em geral, a popularidade dos mandatários se manteve alta
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justamente por não inverter suas políticas após as eleições. Conforme os
programas de esquerda eram levados das urnas aos gabinetes, os analistas
levantaram a hipótese plausível de que, passadas duas décadas de choques
neoliberais, a inversão de programas estaria obsoleta; afinal, seria “o chamado
‘estelionato eleitoral’ um fenômeno datado frente à atual conjuntura de governos
progressistas (...) na América Latina?” (Souza, 2013, p. 247).
Não tardou muito para que essa hipótese otimista fosse descreditada. A
esse respeito o caso mais salutar é o do presidente equatoriano Lenin Moreno,
eleito em 2017 como herdeiro da Revolução Cidadã da Alianza-PAIS de Rafael
Correa. Uma vez no cargo, iniciou uma reorientação à direita, demonizando
Correa e definindo o equilíbrio fiscal como eixo da agenda econômica. Em maio
de 2018, Moreno indicou para ministro da Economia e Finanças Richard
Martínez, então presidente do Comitê Empresarial Equatoriano, que passou a
centralizar as medidas de austeridade, que reaproximaram o Equador do Fundo
Monetário Internacional. Um programa trienal de cooperação financeira com o
órgão foi assinado em 2019, estabelecendo um compromisso de reformas pró-
mercado. O chamado paquetazo de outubro de 2019, que incluía a elevação
drástica do preço dos combustíveis, produziu uma insurreição popular de duas
semanas em todo o país, obrigando o governo a se retirar temporariamente da
capital. O giro de Moreno trouxe à memória dos equatorianos o mandato de
Lucio Gutiérrez, que elegeu-se em 2002 com uma plataforma de esquerda e
acabou deposto após inverter suas políticas. O retorno dessa modalidade de
estelionato eleitoral na conjuntura recente também se exemplifica, em escala
mais moderada, no mandato de Ollanta Humala no Peru (2011-2016) e na
reeleição de Dilma Rousseff no Brasil (2015-2016).
Em tal cenário, sobressai a hipótese de Campello de que o estelionato
eleitoral tem raiz no risco cambial, já que “refletem a decisão de presidentes de
esquerda de adotar políticas propensas a atrair influxos de capital financeiro em
períodos de escassez de dólares” (Campello, 2014, p. 262). De forma geral, os
capitalistas são reticentes com relação aos candidatos de esquerda, o que, em
uma economia aberta, gera risco de fuga de capitais. Mas a disponibilidade de
liquidez internacional é uma condição variável. Momentos de abundância de
divisas, como foi a década de 2000, em decorrência do superciclo das
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commodities, fazem com que haja maior autonomia de política econômica, o que
diminui a pressão pelo estelionato eleitoral (Campello, 2015). Essa é a explicação
da viabilidade da “onda rosa” latino-americana. Em 2011, contudo, as
commodities começam a cair e, a partir de 2013, há perdas líquidas de capital na
América Latina (Santos, 2015). Novamente sob restrição externa, reaparece a
pressão por inverter políticas, tentando atrair dólares com políticas ortodoxas.
Posteriormente, o argumento de Campello foi reforçado pelo estudo da
presidência de Manuel Zelaya, único caso de inversão de política da direita para
a esquerda (Cunha, Souza & Flores, 2013). Nesse caso, a política de Hugo
Chávez de patrocinar seus aliados criou um incentivo atípico para a atração de
divisas, fazendo com que o presidente hondurenho encampasse uma agenda
avessa à sua campanha, ingressando na Aliança Bolivariana das Américas e sendo
beneficiado pelos fundos do Petrocaribe. Até certo ponto, um argumento
semelhante serviria a justificar a resiliência da hegemonia do PSUV na
Venezuela, mesmo com o deterioro da situação econômica. Nesse caso, a
alternativa de financiamento externo com o crédito da China fez com que o
governo de Maduro não ficasse inteiramente exposto ao voto dos dólares. Em
outros termos, essa associação estratégica permitiu arrefecer as pressões por
inversão de política em uma circunstância específica em que a atração de capitais
seria imperativa.
É certo que a interferência do estrangulamento externo sobre a política é
tema caro ao pensamento latino-americano. Parece razoável prever, inclusive,
uma revisitação crescente às teorias da dependência em um cenário atual, do
qual o Brasil tem sido exemplo mais explícito, de direitização autoritária
combinada com especialização produtiva e enxugamento do mercado interno.
Recentemente, a vulnerabilidade às flutuações do cenário econômico
internacional foi reavaliada como determinante para o sucesso ou fracasso dos
presidentes latino-americanos (Campello & Zucco, 2016). Em um olhar
retrospectivo, é evidente como a análise institucional da democracia foi desligada
da questão de classe, o que tem consequências específicas em países periféricos.
A dinâmica por trás do estelionato eleitoral e das crises cambiais em geral tem
mostrado uma chave possível para essa reconciliação.
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Cabe fazer dois esclarecimentos. A primeira é que não se pode equiparar
imediatamente a interferência dos “dólares” a uma crise política, tal qual por si só
investigações de corrupção ou manifestações populares não necessariamente
transbordam a uma situação crítica. Por exemplo, o direitista Mauricio Macri
elegeu-se na Argentina sob a bandeira da confiança dos investidores e da atração
de divisas, acabando por recorrer a empréstimos do FMI em 2018 para saldar as
obrigações em dólar, após já ter duplicado a taxa básica de juros. Em tal
circunstância não houve nem crise política, nem estelionato eleitoral
propriamente dito, já que seu perfil pró-mercado era transparente.
Em segundo lugar, cabe esclarecer que adotamos um critério menos rígido
que o usual para compreender o voto informal dos detentores de capital como
“intervenção desarmada”. Campello (2014) identifica um estelionato eleitoral
quando, nos primeiros seis meses de governo, há inversão da plataforma de
campanha (independente disso resultar ou não em uma crise política). Em nosso
levantamento, partimos das crises (Tabela 1) para averiguar até que ponto sua
eclosão ou aprofundamento têm relação direta com a fuga de capitais ou com um
estelionato eleitoral para apaziguar as expectativas dos investidores.
Reaproveitando o exemplo da Argentina, é possível iluminar essa diferença de
registro: o governo peronista de Carlos Menem, eleito em 1989, representou um
dos casos mais emblemáticos de estelionato eleitoral e “neoliberalismo de
surpresa” nos anos 1990, mas isso não produziu uma crise política em seu
governo. Sua política de paridade cambial com o dólar, no entanto, estaria no
cerne da avassaladora crise política de 2001, precipitada por uma fuga de
capitais. O presidente Fernando de la Rúa não se enquadra, por sua vez, como
um caso convencional de estelionato eleitoral, já que o compromisso com a
austeridade para manter a conversibilidade do peso era claro em sua campanha
(Campello, 2015, pp. 159-187).
Os custos sociais da valorização artificial do peso se expressaram nas
eleições legislativas de outubro de 2001, ceifando cerca de metade da base de
apoio do presidente no Congresso, além de uma proporção inédita (22%) de
votos brancos e nulos. Aos primeiros sinais de que o governo poderia reagir a
esse revés eleitoral com um alívio do arrocho, o mercado financeiro reagiu
rapidamente contra o peso. O poder de veto dos investidores sobre a arena
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política, de certa forma, neutralizou preemptivamente o impacto das urnas,
criando o cenário para a efervescência social de dezembro de 2001. No limite,
essa forma de “intervenção desarmada” subentende o regime democrático não
pela vontade popular imediata ou pelo imperativo da lei, mas por sua
equiparação a uma economia de livre mercado.
O Significado Contrafactual das Crises em Trinta Anos de Democracia
Destacamos até aqui três matrizes de “intervenção desarmada” sobre o
jogo político institucional que, de uma maneira ou de outra, disputam seu sentido
democrático. As “primaveras” respondem por movimentos de massa, baseados
em uma plataforma cidadã de oposição, que embutem uma visão superior de
democracia pelo triunfo espontâneo do povo. Já os “tribunais” se referem à
hipertrofia das instituições de controle orientadas sobretudo ao combate da
corrupção, erguendo sobre o sistema político um critério formal de democracia
como estado de direito. Por fim, os “dólares” exercem um poder de veto capaz
de, em dadas circunstâncias, forçar a inversão de política por representantes
eleitos, já que prevalece uma leitura tácita de que verdadeiramente democráticos
são aqueles países que abdicam de políticas heterodoxas, dirigistas e
nacionalistas. Ademais, as situações críticas produzidas pela intervenção
desarmada de “primaveras”, “tribunais” e “dólares” não são sintomas de um
estágio transitório, nem indicam, em seu conjunto, uma tendência uniforme de
desenvolvimento da política latino-americana ao longo dos últimos trinta anos.
Tampouco se pode afirmar que os fenômenos descritos sob tais rubricas sejam em
si inteiramente novos e inéditos na história latino-americana.
Em uma perspectiva histórica alargada, o que sobressai no atual período
democrático é a prevalência dessas intervenções desarmadas em momentos de
crise política. Isso não significa, como já alertado, que tais intervenções sejam
isentas de qualquer violência, ou que os militares estejam irrevogavelmente
apartados da arena política. O caráter “desarmado” da intervenção significa
especificamente que sua lógica interna e sua autorepresentação não se definem
pela ultima ratio da força, mesmo que ela ocorra como subproduto acidental da
crise. Há um contraste nesse sentido com o histórico de intervenções sobre a
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política institucional na América Latina. Se a política desarmada se fez
majoritariamente intramuros ao governo, com barganhas e compensações, as
principais formas de intervenção externa ao sistema político apelaram aos meios
violentos como busílis da mudança política. É possível resumir três formas
básicas: o golpe militar, a intervenção estrangeira e a insurreição armada, seja por
uma facção política ou por província irredenta. O que hoje identificamos como
um período democrático na América Latina é, desse ponto de vista, o primeiro
período em que a gramática da intervenção armada se tornou secundária para
entender as crises políticas na região.
As crises permitem iluminar as linhas de fratura da ordem política, o que
vale A representação convencional da democracia liberal tem três vértices
básicos: o cidadão/eleitor, o partido e os órgãos representativos. A mediação que
organiza o sistema político é a eleição periódica. No entanto, essa mediação não
se resume ao dia da votação: partidos e representantes se movem
estrategicamente em função das oportunidades e riscos eleitorais futuros. Em
teoria, as eleições produzem efeitos mesmo quando não ocorrem, isto é,
modulam o comportamento dos agentes durante o período intereleitoral. No
limite, se os governantes não controlam diretamente as eleições, seus mandatos
precisam organizar-se de modo a ampliar sua base de simpatizantes, ou pelo
menos conservá-la.
A hipótese do presidencialismo ingovernável na América Latina sustenta
que essa triangulação é inerentemente instável. As mediações entre eleitores,
partidos e instituições representativas seriam insuficientes e sua fragilidade
produziria perturbações periódicas, apatia democrática e eventualmente colapso
institucional (Valenzuela, 2004). Posteriormente, uma interpretação mais otimista
atribuiu às interrupções de mandato presidencial a propriedade de resolver
impasses com maior flexibilidade, aproximando-se na prática do parlamentarismo
(Marsteintredet & Berntzen, 2008). No entanto, em ambos os casos há uma visão
uniforme do significado da democracia, associada à representação convencional
em três vértices, para o qual as crises são pontos exógenos. O que a análise das
“intervenções desarmadas” demonstrou, contudo, é que elas não compõem um
terreno uniforme de “não-democracia”, mas sim carregam visões discrepantes do
que uma democracia deva ser. Essas intervenções são baseadas no conflito entre
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significados sobrepostos, já que um atributo inseparável da democracia é o
dissenso em torno do sentido real dela própria.
Há uma dinâmica contrafactual análoga às eleições: “primaveras”,
“tribunais” e “dólares” produzem efeitos sobre o sistema político mesmo quando
não ocorrem. Em outros termos, ainda quando não bloqueiam a rotina
institucional, essas “intervenções desarmadas” alteram seus itinerários, ou ainda,
as expectativas e os cálculos dos atores. As crises políticas já não seriam, pois,
unidades analíticas autocontidas, mas um ponto de observação, uma
circunstância excepcional que nos ajuda a decifrar a situação ordinária. No bojo
da normalidade do jogo político, permanecem as possibilidades não-realizadas
da irrupção multitudinária, do pretorianismo anticorrupção e do estrangulamento
cambial. As elites políticas, para divisar suas perspectivas de poder, respondem só
ao comportamento eleitoral prospectivo, mas também ao risco de crise política
que os derrube precocemente.
É preciso entender as práticas e expectativas emergentes das democracias
latino-americanas sem perder de vista a dinâmica das intervenções desarmadas
ao longo dos últimos trinta anos. Como já foi notado, um dos efeitos colaterais da
redução procedimental da democracia foi desarmar a análise para processos de
desdemocratização que não interrompem definitivamente a competição eleitoral.
Ao propor que a noção de democracia é em si objeto de dissenso, isso tampouco
implica relativismo quanto ao seu conteúdo. Se as “intervenções desarmadas”
interferem na vida política mesmo quando não ocorrem, é preciso compreender
as respostas a elas tanto em seus riscos como em suas potencialidades.
Segundo José Maurício Domingues (2019), seria possível discernir uma
tendência contemporânea de oligarquização da democracia liberal pelo
entrincheiramento do sistema político, sem para tal revogar de todo as liberdades
civis e políticas. Nessa chave, poderíamos projetar um cenário plausível de
neutralização autoritária das “intervenções desarmadas”: novas tecnologias de
vigilância e repressão como recurso preventivo ao contágio de futuras
“primaveras”; a cooptação ou implosão dos órgãos de controle externo contra o
risco dos “tribunais”; um compromisso indefinido com o neoliberalismo como
resguardo contra o veto dos “dólares”. Nesse caso, a anulação das linhas de
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fratura da democracia liberal concorreria simplesmente a institucionalizar o
insulamento da elite política.
Por outro lado, há o desafio contemporâneo de pensar respostas
democratizantes à questão. A esse respeito, cabem indicações preliminares a
partir da experiência recente. As primaveras populares, para além de seu efeito
imediato, não podem ser desconectadas do debate sobre organização política; os
casos mais consequentes foram precisamente aqueles que interagiram e
retroalimentaram sua base associativa prévia, de modo a potencializar
reivindicações e controlar uma reação conservadora. Com relação à
vulnerabilidade econômica à fuga de capitais, o primeiro passo é não naturalizá-
la. Assim, há que se considerar a conotação política de arranjos nacionais e
regionais de proteção cambial, por exemplo, pensando as restrições à mobilidade
de capitais como subsídio democrático, dentre outros dispositivos contracíclicos.
De igual maneira é preciso recalibrar a luta contra a corrupção para além da
simples criminalização da política, estabelecendo contrapesos aos agentes não-
eleitos e recuperando um propósito redistributivo como vértice. Aprofundar nosso
entendimento sobre as intervenções sobre as instituições representativas em
situações críticas pode não só nos ajudar a compreender seus limites e discursos
autolegitimadores, mas também a sinalizar os caminhos pendentes para
democratizá-las.
Considerações Finais
O artigo catalogou 37 episódios de crise política em 15 países latino-
americanos entre 1990-2020, sem reduzi-los conceitualmente à interrupção de
mandato presidencial. Por estabelecer uma diferença entre a abertura de uma
crise e seu desfecho, em função da indeterminação que lhe é própria, estipulou-
se um critério de duração para cada uma delas a partir da escala semestral. A
análise panorâmica desses episódios não revela uma tendência clara para essas
crises políticas em seu conjunto, mas foi possível notar certos traços emergentes
nessas três décadas. Em diálogo com a literatura, o artigo discerniu então três
gabaritos fundamentais de intervenção crítica sobre o sistema político, que
esquematicamente resumiu como “primaveras”, “tribunais” e “dólares”. Ao invés
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de assumi-los como ocorrências exógenas, mantendo no centro da análise as
relações entre Legislativo e Executivo, a proposta foi deslocar a análise para essas
bordas móveis do jogo representativo.
Disso resultam duas conclusões a serem futuramente aprofundadas em
uma análise comparada das crises políticas: primeiro, há uma inflexão histórica
no período recente com relação ao caráter das intervenções disruptivas sobre a
política institucional, já que o protagonismo das ações armadas (golpe militar,
invasão estrangeira e insurreição armada) cede a formas que não apelam
diretamente à violência política para fundar a mudança. Em segundo lugar, as
práticas e narrativas ligadas às “intervenções desarmadas” do povo
autoconstituído, das instituições de controle e da confiança do mercado age
continuamente no processo político para além das circunstâncias excepcionais
em que promovem um bloqueio da rotina institucional. Esse procedimento nos
permite reavaliar a mudança política na América Latina, e seus ciclos à direita e à
esquerda na América Latina, sem se restringir à triangulação entre cidadão,
partido e instituições representativas.
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Primaveras, tribunais e dólares: uma análise panorâmica das crises políticas na
América Latina (1990-2020)
Resumo
O artigo analisa três formas de intervenção sobre o jogo político institucional em momentos de
crise política na América Latina contemporânea: a eclosão relativamente acelerada de protestos
multitudinários com identidade cidadã, oposicionista e popular (“primaveras”); a intervenção de
órgãos de controle (“tribunais”); e a interferência sobre a dinâmica representativa resultante do
risco de crise cambial (“dólares”). Procede um levantamento de 37 episódios de crise política em
15 países da região entre 1990 e 2020, entendendo-os como circunstâncias excepcionais de
bloqueio da expediência rotineira do sistema político. Em seguida, define o sentido das
primaveras, dos tribunais e dos dólares em diálogo com a literatura sobre crises institucionais,
descartando tratar tais intervenções como um estágio transitório de consolidação democrática. Em
vez disso, dois argumentos são propostos: em primeiro lugar, que o caráter “desarmado” de tais
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intervenções constituiria uma descontinuidade na história latino-americana, em contraste com o
protagonismo até então de interventores armados para compreender a crise; em segundo lugar,
para além das circunstâncias críticas, essas intervenções desarmadas produzem efeitos mesmo
quando não ocorrem, moldando práticas, expectativas e limites da democracia liberal na região.
Palavras-chaves: Crise Política; América Latina; Democracia; Presidencialismo.
Springs, Courts and Dollars: a panoramic analysis on political crises in
contemporary Latin America (1990-2020)
Abstract
The article analyse three forms of intervention on institutional politics in situations of political
crises in contemporary Latin America: the relatively sudden irruption of multitudinous protests
with popular, oppositional and citizen identity (‘springs’); the intervention of accountability
institutions (‘courts’); and the interference on representation as a result of capital flight risk
(‘dollars’). It presents a historical mapping of 37 episodes of political crises in 15 countries in the
region between 1990 and 2020, framing them as exceptional circumstances of blockade in usual
expediency of the political system. Reviewing those cases and the literature on institutional crises,
it develops the meaning of ‘springs’, ‘courts’, and ‘dollars’, discarding the hypothesis that they
represent a somehow transitory stage in democratic consolidation. Instead, two arguments unfold:
first, that the ‘unarmed’ character of such interventions is a discontinuity in Latin American history,
in contrast to the predominantly armed forms of political disruption; second, beyond critical
junctures, these unarmed interventions generate effects even when they do not occur, shaping
practices, expectations and boundaries of liberal democracy in the region.
Key-words: Political Crisis; Latin America; Democracy; Presidentialism.
Primaveras, Tribunales y Dólares: un análisis panorámico de las crisis políticas
en América Latina contemporánea (1990-2020)
Resumen
El artículo analisa tres formas de intervención sobre el juego político institucional en América
Latina contemporánea: la eclosión relativamente acelerada de protestos multitudinarios con
identidad ciudadana, oposicionista y popular (“primaveras”), la intervención de órganos de
controle (‘tribunales”), y la interferencia sobre la dinámica representativa resultante del riesgo de
crisis cambiales (“dólares”). Procede un levantamiento de 37 episódios de crisis política en 15
países de la región entre 1990 y 2020, definiéndolos como circunstancias excepcionales de
bloqueo de la expediencia rutinera del sistema político. Em seguida, define el sentido de las
“primaveras”, “tribunales” y “dólares” en diálogo con la literatura sobre crisis institucionales,
descartando tratar esas intervenciones como un estagio transitorio de la consolidación
democrática. En cambio, dos argumentos se plantean: primero, que el carácter “desarmado” de
tales intervenciones constituiria una descontinuidad en la historia latinoamericana, en contraste
con el anterior protagonismo de interventores armados para compreender las crisis; segundo, más
allá de las circunstancias críticas, esas intervenciones desarmadas producen efectos aún cuando
no ocurren, moldando prácticas, expectativas y límites de la democracia liberal en la región.
Palavras-claves: Crisis política; América Latina; Democracia; Presidencialismo.
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Recebido: 23-05-2020
Aprovado: 07-10-2020
Contradicciones del Capitalismo y Transformaciones
Sociales en América Latina
Agustín Lucas Prestifilippo1
Introducción
Desde hace años, distintas zonas del mundo –Estados Unidos de la forma
más emblemática; pero también Europa, en Alemania y Francia, España e Italia, o
Hungría y Polonia– atestiguan un resurgimiento de fuerzas políticas reactivas con
creciente base social que han sacudido la interpretación “progresista” (Fraser,
2019) con la que el capitalismo se venía presentado a sí mismo desde comienzos
de la década del ´90.
Si a principios del nuevo siglo los experimentos de integración trasnacional
como la Unión Europea o el Nafta comenzaban a despertar las sospechas de que
aquella interpretación no consistía sino en una mera legitimación ideológica de la
selectividad puramente financiera y comercial con la que el capitalismo
globalizado pretendía realizar el viejo sueño cosmopolita del liberalismo (Stiglitz,
2002), el Brexit y la reciente aparición de liderazgos autoritarios con voluntad de
poder y capacidad electoral han vuelto a plantear en el debate público un
problema que recorre las meditaciones de la teoría política y las luchas militantes
de las izquierdas desde los tiempos de Rosa Luxemburgo. Nos referimos a la
pregunta por la (in)compatibilidad entre capitalismo y democracia.
1
Doctor en Ciencias Sociales por la Universidad de Buenos Aires (UBA), Magíster en Estudios
Literarios (UBA), y Sociólogo por la misma casa de estudios. Docente de grado y postgrado de la
Facultad de Ciencias Sociales y de la Facultad de Filosofía y Letras de la UBA. Investigador
asistente en el Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET). Autor del
libro El lenguaje del sufrimiento. Estética y política en la teoría social de Theodor Adorno
(Prometeo, 2018). Sus investigaciones actuales giran en torno a la Teoría Crítica contemporánea y
la Sociología del neoliberalismo. Correo electrónico: alprestifilippo@[Link].
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Trayendo a memoria los peores recuerdos de la inmediata posterioridad al
colapso de Wall Street, este escenario de polarización y radicalización autoritaria
en los países centrales luego de la crisis de 2008 permite formular la pregunta de
si acaso no estamos siendo testigos, en los albores de la segunda década del
nuevo siglo, de una repetición de las impugnaciones con las que el fascismo
irrumpió en la sociedad de entreguerras (Cfr. Amin, 2014; Traverso, 2019).
Con la victoria electoral en segunda vuelta de Jair Bolsonaro, no ha
quedado margen para muchas dudas que la realidad latinoamericana, aun en la
heterogeneidad estructural de sus experiencias singulares, no se encuentra exenta
de estos sismas. Distintos sucesos permiten reforzar esta constatación en las
fronteras del capitalismo desarrollado. Podemos recordar, entre otros, el ciclo
iniciado con las movilizaciones de 2014 bajo la consigna “Brasil Livre”, seguido
de la destitución de Dilma Rousseff y posterior encarcelamiento de Lula da Silva;
la reciente masacre en las calles de Bolivia y su coronación en el Golpe de Estado
al gobierno del MAS; o las distintas manifestaciones de lawfare que se observaron
con menor o mayor éxito en la búsqueda de proscripción de dirigentes populares
en Argentina y Ecuador. Las sociedades latinoamericanas, que desde principios
del nuevo siglo habían visto surgir experiencias socio-económicas y político-
culturales alternativas al destino de la globalización capitalista, crujen en nuestros
días por la aparición de nuevas formas de radicalización política que, lejos de
impugnar al neoliberalismo capitalista desde una perspectiva descolonizante,
parecen más bien oficiar de canales de oclusión de sus encuadres democráticos.
Lo peculiar aquí es que estas nuevas versiones del neoliberalismo,
antagónicas con la misma idea del principio fundamental de igual libertad de
todos los miembros de una comunidad política, hacen depender su progresiva
acumulación de fuerzas de la expresión pura de una violencia cuya legitimidad se
nutre principalmente de las fuentes del racismo, la xenofobia, el clasismo y la
misoginia (Ipar, 2019). ¿Cómo comprender este proceso en el que se engarzan de
formas enigmáticas y desiguales el neoliberalismo y las más oscuras fuerzas
antidemocráticas? ¿Cuál es la singularidad de esta expresión del capitalismo en
las que los modos de clasificación que constituyeron la dominación colonial
desde los inicios de la modernidad (Quijano, 2004) recuperan su capacidad de
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atracción precisamente por su enunciación desinhibida en el espacio público
político de nuestras sociedades?
Para acercarnos a una respuesta, debemos comenzar por situarlo en una
constelación histórica y geográfica en la cual las nuevas formas sociales del
descontento se anudan a las recientes contradicciones económicas del
capitalismo, en el centro y en la periferia, evidenciando el fenómeno de un
agotamiento de las fuentes de legitimación del orden existente. En este marco, el
problema de la articulación entre capitalismo neoliberal y politización
antidemocrática en América Latina puede ser estudiado a partir de modelos que
se diferencian según el aspecto privilegiado al que hacen referencia. Por un lado,
se vuelve necesario comprender las condiciones históricas de posibilidad de la
crisis global; esto es, cuáles fueron los largos procesos subteráneos que
confluyeron en una determinada coyuntura dando lugar a la interrupción de un
continuo histórico aparentemente impertérrita en la superficie. Pero también
nuestro problema requiere de un estudio de los efectos de esa crisis en la
totalidad social; esto es, qué transformaciones pueden registrarse en los distintos
niveles del orden social luego del quiebre. Mientras que la primera estrategia de
interpretación asume un interés “histórico”, pues se pregunta cómo ha sido
posible la crisis, la segunda orientación se formula la pregunta “sociológica”
sobre aquello que esta crisis ha hecho posible.
En este escrito nos proponemos acercarnos a este problema interpretando
las transformaciones sociales que han sucedido a la última gran crisis económica
del capitalismo en América Latina. Sin pretensiones de asumir una imagen
homogénea que, como ya reconociera clásicamente en sus estudios Cornejo
Polar (2003), borre los múltiples tiempos que componen las experiencias
colectivas que ese nombre invoca, revisaremos algunas discusiones teóricas
contemporáneas acerca de estos efectos en el nivel específico de las formas de
integración que estructuran las sociedades contemporáneas de nuestra región. En
este sentido, nos guiamos por una pregunta que acompaña a la sociología desde
sus comienzos, a saber: cómo puede verse erosionada la infraestructura de los
apoyos colectivos del individuo por las transformaciones históricas del sistema
económico capitalista.
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El Aplazamiento de la Crisis y los Dilemas Contemporáneos de las Luchas
Sociales
Los análisis recientes de Wolfgang Streeck parten de la premisa de
comprender las relaciones entre el neoliberalismo y las actuales fuerzas
antidemocráticas desde una mirada integral, en la cual la sensibilidad teórica
hacia las diferencias de niveles e instancias de la estructura social no aleja al
conocimiento de su relación crítica con la totalidad. De allí que en sus trabajos
podamos encontrar no sólo una precisa genealogía de las líneas de causación que
confluyeron en la última gran crisis del capitalismo sino también un estudio
profundo sobre sus repercusiones en los conflictos prácticos que dividen al
mundo social contemporáneo. Con este complejo programa de investigación, que
se realiza por medio de un reencuentro entre los lenguajes de la sociología y de
la economía política, se presenta una sugerente búsqueda de actualización de la
Teoría Crítica de la Sociedad.
Streeck inscribe el triple estallido bancario, de finanzas públicas, y de
crecimiento económico que arrastra a la economía mundial desde 2008 en una
teoría del capitalismo que, al mismo tiempo en que presenta diacrónicamente
una narración histórica de los cambios sucedidos en los patrones de desarrollo,
cuenta con capacidad explicativa para articular esas transformaciones en una
lógica en la que se reconectan analíticamente economía y sociedad.2 Pues para
Streeck esos cambios profundos en los esquemas de acumulación dependen
siempre del motor de los conflictos distributivos entre las clases que fracturan la
totalidad social.
Visto de esta manera, su retrospectiva histórica reconoce que desde fines
de los años sesenta y comienzos de los setenta se advierten indicadores
económicos que avizoraban desplazamientos de largo plazo en la dinámica
2
Para ello Streeck se ve obligado a revisar críticamente los presupuestos “tecnocráticos” con los
que algunas expresiones de la Teoría Crítica se acercaron al estudio científico-social del
capitalismo, desde los análisis del orden económico nacionalsocialista mediante el concepto de
“capitalismo de Estado” hasta la teoría del “capitalismo tardío” de los años de la postguerra.
Mientras que el primero declaraba la “primacía de lo político por sobre lo económico”, la
segunda remitía las líneas de quiebre del sistema a déficits de legitimación en la población
asalariada. Para Streeck este alejamiento teórico de los problemas fundamentales de la economía
política sólo podía pagar el alto precio de una renuncia “a una parte esencial del legado de Marx”
(2003: 24). Para una reconstrucción alternativa de las primeras “generaciones” de la Teoría
Crítica, véase: (Regatieri, 2019).
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capitalista. Esos cambios vendrían marcados por la inflexión de un regreso hacia
los “mercados autorregulados”. La desregulación del sector financiero, la
privatización de empresas de servicios públicos, el desarrollo de nuevas
tecnologías de producción orientadas a la diferenciación del producto, o la
aparición de nuevos métodos de publicidad, son algunos de los signos más
elocuentes al respecto.
Sin embargo, aun cuando ellos evidenciaban mutaciones profundas en el
patrón de acumulación, esas transformaciones no pudieron ser diagnosticadas
como tales, ni por las direcciones sindicales y políticas que representaban los
intereses de los trabajadores, ni por las teorías que se dieron la tarea de estudiar la
sociedad capitalista luego de 1945. Dificultades de comprensión, por lo tanto, en
un momento en el que más necesarios se hacían los conceptos adecuados para la
realización de acciones colectivas que pudiesen responder estratégicamente al
lento pero continuo proceso de descomposición de los acuerdos que habían
sustentado las instituciones sociales de bienestar desde la época de la
reconstrucción.
El motivo de esa ceguera, que la lectura incisiva de Streeck señala en la
perplejidad con la que las izquierdas europeas se comportaron desde los setenta,
respondía sin embargo no sólo a déficits de perspectiva, sino también a
imposibilidades objetivas. Los límites estructurales de lo pensable aquí parecieran
haberse acotado notablemente por el relativo éxito de las estrategias estatales de
compensación de los efectos desintegradores de estas transformaciones en el
patrón de acumulación. Si no se dio un movimiento contundente de resistencia al
aumento de la tasa de desempleo o a la mercantilización de los servicios, esto se
debió en gran parte, al anudamiento de un complejo entramado de políticas
económicas que lograron aplazar el advenimiento visible de una ruptura del
modelo de sociedad que había caracterizado a las economías de posguerra. Ese
entramado en el que Streeck ubica la sucesión histórica de políticas monetarias
inflacionarias, crecimiento de la deuda pública de los Estados, y la promoción del
endeudamiento privado de los hogares, configura un mecanismo que buscó
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expandir el inventario de recursos en la economía para satisfacer las promesas de
prosperidad del capitalismo.3
Precisamente las respuestas de los gobiernos ante estas mutaciones de la
dinámica capitalista permitieron que, por un lado, se facilitase el movimiento de
liberalización de los mercados y de financiarización de las economías en las que
el capital, exonerado de las constricciones impuestas por los marcos nacionales
de soberanía estatal, pudo recuperar la curva ascendente de las tasas de retorno
de forma exponencial. A su vez, al posponer la crisis, sosteniendo niveles
elevados de consumo y estilos de vida promovidos por un “zeitgeist optimista”
luego de dos décadas de crecimiento rápido y casi ininterrumpido, facilitaron la
reproducción de la lealtad en la mayoría de la ciudadanía, garantizando la
denegación en los sujetos de los motivos de su malestar, y obturando los canales
públicos de expresión de las críticas que pudieran poner en crisis sus fuentes de
legitimación.
Para explicar este proceso Streeck reconduce el sentido de estos
desplazamientos en la dinámica capitalista al análisis de los conflictos de clase
por la apropiación de la riqueza socialmente producida. Esto supone, dice el
autor, volver a concebir al capital no tanto como sustancia, esto es: “aparato”,
“mecanismo” o “medio de producción”, sino más bien como sujeto; vale decir,
como clase social con capacidad de agencia y diagramación de acciones
estratégicas orientadas a fines. En este marco, la línea de quiebre del pacto que
había sostenido el modelo de sociedad del capitalismo de postguerra puede ser
efectivamente asociada al problema de la legitimidad, a condición de incluir en
esta cuestión también al capital como actor colectivo. En efecto, para esta clase el
déficit de legitimidad se expresa, según la clásica formulación de Michal Kalecki,
como “pérdida de confianza” ante un orden que no garantiza una tasa
“adecuada” de retorno del capital invertido. Los medios con los que cuenta el
capital para solucionar esta adversidad, y volver a acoplar la realidad a sus
3
El correlato de esta lúcida historización, la disolución del “pacto de paz” del capitalismo con la
democracia, se confirma de la manera más trágica en América Latina, donde la clausura
vertiginosa del Estado de derecho como condición de las reformas neoliberales se realizó a sangre
y fuego mediante sendas dictaduras cívico-militares instrumentadas por el imperialismo
estadounidense. En esta otra historia del neoliberalismo, su faceta “combativa” (Davies, 2016),
asume un sentido ominosamente literal.
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expectativas, son variados, siendo la renuncia a la inversión productiva, y la
relocalización de su patrimonio en nuevos mercados libres de regulación social
uno de los más significativos.
Las transformaciones estructurales en el patrón de acumulación que
comienzan a gestarse a comienzos de los setenta no serían así tanto el resultado
de déficits de lealtad de los ciudadanos, sino de una rebelión del capital ante la
idea de continuar participando de la “fórmula de paz” que había sostenido al
capitalismo de pleno empleo. La última gran crisis del capitalismo tiene que ser
entendida entonces como el agotamiento final del conjunto de herramientas de
política económica implementadas por los Estados desde los años iniciales de
esas rebelión, cuyo propósito siempre estuvo orientado a posponer un quiebre
histórico inevitable ante el rechazo del capital de ceder parte de sus ganancias
para garantizar la prosperidad e integración de la sociedad.
Como no podía ser de otra manera, la agudización de las contradicciones
recientes del capitalismo neoliberal tiene correlatos en todas las dimensiones de
la sociedad. Sin embargo, estas distintas transformaciones sociales están
determinadas por una forma dominante que marca la modalidad paradójica que,
según Streeck, asumen las luchas colectivas del presente. Pues por la misma
tendencia al desplazamiento del conflicto social desde la disputa salarial en el
lugar de trabajo hacia el plano transnacional de las tensiones entre Estados
soberanos y agentes de la “diplomacia financiera internacional”, la complejidad
de la realidad social aparece ante la experiencia de los actores como opacidad
completamente ajena al sentido, limitando ostensiblemente su capacidad de
incidencia política sobre dicho conflicto. Como decíamos al comienzo, aquí nos
interesa estudiar qué desplazamientos sociales pueden estar dándose como efecto
de este escenario paradójico luego de la crisis. Formulado a modo de pregunta,
¿qué consecuencias tiene esta situación en el nivel específico de los procesos de
integración que estructuran sociedades en la periferia del capitalismo
desarrollado, caracterizadas por una desigualdad de ingresos y patrimonios sólo
comparable con las de fines del siglo XIX (Piketti, 2019; Pérez Sáinz, 2016)?
Interregno Capitalista y Transformaciones en los Procesos de Reproducción
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Streeck caracteriza el orden social que ha dejado la crisis a partir de la
imagen gramsciana del interregno, en donde “lo viejo agoniza y lo nuevo no
puede nacer”. Al determinar al orden social con esta metáfora se alude a una
temporalidad difusa, transicional, una Sattelzeit (Koselleck) signada por la
interrupción de las estructuras que regulaban un orden previo pero abierto a una
indeterminación en la que todavía no se han instituido nuevas relaciones
normativas que estabilicen expectativas generalizadas de roles. Precisamente la
simultánea discordancia entre la identificación de un período como transicional y
la dilatación indefinida de su duración en el tiempo es lo que para Streeck define
las contradicciones del presente, y lo que hacía suponer, ya en 1930, que los
interregnos podían “dar lugar a los fenómenos morbosos más variados” (Gramsci,
1981: 37).
En el interregno duradero del neoliberalismo luego de su crisis los
presupuestos institucionales sobre los que se sostienen la coordinación de las
acciones sociales son motivo de una duda hiperbólica. Para desarrollar
conceptualmente esta posibilidad, Streeck propone recuperar “libremente” la
distinción teórica de David Lockwood (1964) entre integración sistémica e
integración social. Como podrá recordarse, en su clásico escrito sobre esta
cuestión en las sociedades industrializadas, Lockwood discute con aquellas
perspectivas que, como la teoría del conflicto y el funcionalismo normativo, no
han sido capaces en su unilateralidad de responder satisfactoriamente a la
pregunta sociológica elemental sobre las relaciones entre orden y cambio social.
Mientras que, por un lado, los autores de la teoría del conflicto cuestionan
en la sociología funcionalista el excesivo énfasis en las dimensiones
estabilizadoras de las instituciones, cuyos efectos teóricos redundan en una
incapacidad para explicar las luchas sociales por el poder –y con ellas, el estatuto
inestable de toda autoridad–; por el otro, el funcionalismo normativo acusa a su
contendiente de recortar artificialmente el modelo de la acción estratégica,
generalizándolo como modelo paradigmático de los vínculos sociales. Como
resultado de esta selectividad unilateral, se inhibe a comprender los compromisos
valorativos que comparten quienes incluso se orientan en sus acciones por
propósitos motivados por una mera voluntad de poder. Ante esta mutua
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insuficiencia en la que ambas posiciones se contraponen, Lockwood propone la
distinción al interior del fenómeno de la integración entre su modalidad sistémica
y su modalidad social. Aun cuando ambas sean necesarias para una correcta
concepción de las relaciones entre orden y cambio en las sociedades modernas
industrializadas, presentan lógicas heterogéneas que requieren ser estudiadas en
profundidad.
Las relaciones sociales que organizan una sociedad se tejen siempre
alrededor de un conjunto dado de condiciones materiales. Éstas incluyen no sólo
los medios técnicos de dominación de la naturaleza, sino también los medios
técnicos de dominación social. Los mecanismos de coordinación de las acciones
que posibilitan la implementación de estos instrumentos de coacción forman
parte de la modalidad sistémica de integración de una sociedad: “El problema de
la integración sistémica apunta a las relaciones ordenadas o conflictivas entre las
partes de un sistema social” (Lockwood, 1964: 371). Por lo tanto, una fuente de
tensión en este contexto responde a los desajustes funcionales que puedan darse
en las búsquedas de resolución eficaz de problemas técnicos por parte de los
aparatos de dominación de una sociedad. Por el contrario, “el problema de la
integración social se enfoca a las relaciones ordenadas o conflictivas entre los
actores” (Ibíd.), esto es: entre los estratos sociales que organizan sus relaciones
alrededor de las condiciones materiales en órdenes institucionales específicos.
Aquí el punto focal del conflicto ya no se ubica en la relación funcional entre las
partes de un sistema y su entorno, sino en las relaciones sociales entre actores
colectivos con “aspiraciones” diferenciales o pretensiones de reconocimiento
heterogéneos.
Continuando estos pasos, y ante la tarea de dar cuenta de los dilemas
sociales del “capitalismo tardío”, Jürgen Habermas también ha identificado la
necesidad de atender a las modalidades diferenciales de integración a los fines de
fundamentar un concepto de totalidad social que no repita los impasses en los
que recae el pensamiento contemporáneo. Aquí las perspectivas con las que se
discute ya no serán el funcionalismo normativo y la teoría del conflicto; sino los
déficits, por un lado, de un idealismo hermenéutico en la sociología comprensiva;
y, por el otro, de una nivelación de las diferencias conceptuales en la teoría de
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sistemas. Para ello, Habermas adoptará una estrategia conceptual que consiste en
determinar su concepto de sociedad de manera dúplice a partir de las categorías
de sistema/mundo de la vida, en el marco más amplio de una teoría de la
modernización que, en última instancia, se remonta al concepto de
racionalización de Max Weber. Según esta interpretación, los mundos culturales
relativamente homogéneos en los que las sociedades pre-modernas encontraban
la fuente de su reproducción quedarán sujetos a un proceso de diferenciación
interna en los que la integración social se expresará como una de las diferentes
formas de relación humana con un mundo pluralizado en distintas concepciones
de la objetividad (naturaleza, cultura, sociedad y subjetividad).
Cabe decir aquí entonces que las relaciones sociales en las que se urde el
vínculo del actor con las expectativas institucionales de un orden social son
formas de reproducción simbólica de un mundo de la vida –cuyo trasfondo
presuponen y que ratifican en su actualización comunicativa–, pero que trabajan
en conjunto con otras formas de regulación simbólica en las que también
intervienen actos ilocucionarios donde los sujetos entablan relaciones
interpersonales para entenderse acerca de algo, difiriendo en cada caso aquella
dimensión del mundo al que hacen referencia. El fenómeno de la integración
social alude así al problema específico que implica la coordinación de las
acciones de un individuo con la normatividad de un orden institucional, en forma
análoga en que la reproducción cultural atiende al problema específico de la
coordinación de las acciones de un creyente con los valores transmitidos por una
tradición, o la socialización a las cuestiones relativas a la incorporación de las
capacidades y habilidades de comportamiento adulto en el ámbito familiar.
En esta reformulación, la otra modalidad de la integración que
diferenciaba Lockwood también será resignificada en el marco más amplio de
una profunda discusión con la teoría de sistemas. Los sistemas funcionan como
formas de articulación de las acciones orientadas hacia el control de la naturaleza
y la sociedad. Como efectos del proceso de diferenciación interna del mundo de
la vida, ellos contienen potenciales liberadores que se expresan en técnicas al
servicio de la satisfacción de las necesidades materiales de los seres humanos. Sin
embargo, su capacidad sólo puede ser concebida legítimamente como
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potencialidad emancipatoria allí donde su estudio no lo independice de las
formas de regulación que caracterizan los procesos de reproducción simbólica
del mundo de la vida. Pues precisamente en esto reside la “incontenible ironía”
en la que para Habermas ha desembocado el proceso de racionalización social:
las formas sistémicas de integración no pueden prescindir de la estructura
“deslingüistizada” de sus medios de control, como el dinero y el poder, sin que
esto las aleje de la finalidad para la que fueron producidas. Puesto que la
reproducción material de una sociedad requiere de acciones eficaces en su
capacidad productiva y organizativa, sus criterios no pueden ser otros sino los
que residen en la capacidad de dominación técnica. Pero paradójicamente el
progresivo aumento de la complejidad de los mecanismos sistémicos no sólo “no
admite una actitud de conformidad normativa ni afiliaciones sociales generadoras
de identidad, sino que más bien destierra éstas a la periferia” (Habermas, 1988:
231).
Sistema y mundo de la vida expresan de esta forma dos dimensiones de la
reproducción social, en las que intervienen racionalidades distintas –
instrumental/estratégica y comunicativa–, formas de acción heterogéneas –
orientadas al propio éxito o hacia el mutuo entendimiento–, y medios de
vinculación diferentes –de control y lingüísticos–. Pero en su evolución histórica,
este dualismo, prerrequisito necesario para comprender la complejidad de las
sociedades capitalistas desarrolladas, ha conducido a la producción de nuevas
formas sociales de opresión y sufrimiento que solicitan ser identificadas y
explicadas. Pues si la diferenciación de los sistemas económicos y administrativos
que se desprenden de la racionalización del mundo de la vida tienen la tendencia
a violentar las lógicas simbólicas de reproducción social, imponiendo su
racionalidad particular como criterio único de evaluación de todas las acciones,
entonces será una de las tareas fundamentales de la Teoría Crítica de la Sociedad
la de detectar las patologías sociales de esos procesos, reconstruyendo los
potenciales de emancipación contenidos en las estructuras del mundo de la vida,
que la modernización capitalista sólo ha obturado en su lógica obstinada de
desarrollo.
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La reformulación de las tesis de Lockwood en términos de una Teoría
Crítica orientada al diagnóstico de las patologías sociales de la racionalización
capitalista sienta sólidas bases conceptuales y normativas sobre las que pueden
desarrollarse análisis de los “fenómenos morbosos más variados” (Gramsci). En el
caso de Habermas, la determinación de la colonización sistémica del mundo de
la vida como fuente privilegiada de crisis permitía extraer la conclusión de que la
expansión de las modalidades de integración sistémica que requieren los
procesos de reproducción material no contribuyen a un enriquecimiento de las
formas de reproducción simbólica que estructuran los órdenes institucionales de
la esfera privada y de la esfera de la opinión pública, sino que las empobrecen
culturalmente –como se observa en las tendencias a la tecnificación de la vida
política– incluso conduciendo al peligro de su completa destrucción –como
muestran las formas del padecimiento ante los procesos de mercantilización de lo
íntimo–. Evidentemente, Streeck (2009: 249) presupone estas reformulaciones
críticas de la distinción de Lockwood para dar cuenta tanto de las nuevas
“morbosidades” que produce el interregno neoliberal como de las posibilidades
que se abren para una acción colectiva orientada hacia la emancipación social.
“Menos que Sociedad”: desintegración sistémica y entropía social
A primera vista, pareciera que la recuperación de Streeck vuelve a
simplificar la cuidada diferenciación conceptual con la que Habermas había
ofrecido una compleja idea de totalidad social capitalista. En efecto, en el uso
“libre” que propone Streeck regresamos nuevamente a la distinción original de
Lockwood entre modalidades sistémicas y sociales de integración. Sin embargo,
visto con mayor detenimiento aparece lo que en realidad impulsa este regreso; a
saber: la pretensión de volver a pensar enfáticamente qué significa integración
sistémica. Pues para el estudio de Streeck los medios lingüísticos de la
reproducción simbólica de la sociedad no son necesariamente el principal eje de
los dramas del presente. Podría incluso sostenerse que sus análisis acerca del
orden social en el interregno neoliberal presuponen la teoría habermasiana de la
moderna estructura diferenciada del mundo de la vida.
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Lo que aquí sí resulta problemático en esa teoría es el modo en que una
estrategia conceptual expresamente dualista, por su carácter abstracto y
dicotomizante, pierde la sal de la dialéctica en la que ambas modalidades de la
integración se imbrican mutuamente en la historia. Para desarrollar esta sospecha,
compartida por muchos de los representantes contemporáneos de la Teoría
Crítica de la Sociedad (Honneth y Joas, 1991), Streeck radicalizará la tarea de la
distinción conceptual, pero ahora con el propósito de complejizar lo que con
Lockwood denominábamos modalidad sistémica de integración. Radicalizar una
distinción aquí significa no sólo diferenciar lo que se consideraba idéntico,
aportando rendimientos conceptuales a una perspectiva epistemológica, sino
también realizar una operación eminentemente crítica, que resulta de un giro
materialista en la teoría. Ese desplazamiento se da en el traslado del marco en el
que trabajan los conceptos, en dos pasos: primero, desde el encuadre filosófico-
histórico de la racionalización moderna hacia la narrativa histórica de la
dinámica reciente del capitalismo; y segundo, y al interior de esta dinámica, de
un concepto de capitalismo “tardío” u “organizado” hacia una noción de
capitalismo “neoliberal”. El primer desplazamiento es crucial para atender al
segundo, puesto que lo que posibilita el pasaje de la filosofía a la historia, de la
lógica evolutiva a las gramática de los cambios institucionales y las luchas
colectivas, es la interpretación de las diferencias en las operaciones de
coordinación sistémica de las acciones sociales como transformaciones
producidas por un proceso concreto de antagonismos de clase. Vale decir, lo que
habilita el giro materialista de la actual Teoría Crítica de la Sociedad es la
recuperación de una variable independiente para explicar las transformaciones
recientes del patrón de acumulación capitalista (Streeck, 2009).4
Aquí el sentido de la crítica materialista no consiste tanto en la descripción
de un orden secuencial de sucesos evidentes empíricamente, sino en la
interrupción des-totalizadora que precisa los elementos sistémicos como
instancias con diversos niveles de eficacia, las cuales varían en función de la
fuerza organizativa y conciencia histórica de los estratos sociales en sus conflictos
4
La cual podría ser concebida en conjunción con el concepto de racialidad del poder, a los fines
de un estudio preciso sobre el modo en que han operado estas transformaciones en sociedades de
pasado colonial. Véase al respecto (Castro-Gómez y Grosfoguel, 2007).
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prácticos. No será una tarea menor entonces la de reconstruir el peso relativo de
cada una de ellas, diferenciando cuáles ocupan posiciones dominantes en un
determinado momento.
Veamos pues en qué ha consistido la modalidad sistémica de integración
en la sociedad capitalista reciente y cómo ha variado institucionalmente en el
tiempo. En el análisis de Streeck esta cuestión no aparece enunciada
positivamente. Ella se entrevera en sus análisis del interregno neoliberal. Una
sociedad en interregno estaría signada por
(…) una descomposición de la integración sistémica a escala macro, que privaría
a los individuos a escala micro de estructuración institucional y de apoyo
colectivo, y que desplazaría la carga de ordenar la vida social, de dotarla de un
mínimo de seguridad y estabilidad, a los propios individuos y a los dispositivos
sociales que puedan crear por sí mismos (Streeck, 2016: 14).
De esta breve caracterización puede extraerse una definición mínima de
cuáles son las competencias de los mecanismos sistémicos de integración. Al
posibilitar un arraigo institucional de los individuos como sujetos sociales, ellos
regulan normativamente sus relaciones en función de expectativas de rol
estabilizadas “a escala macro”. Esta idea de integración sistémica como fuente de
seguridad de estatus y apoyo colectivo la ve operando Streeck en el lapso de los
treinta años que siguieron a 1945, en el que las mismas devastaciones de la
guerra, la amenaza representada por las posiciones soviéticas y los movimientos
de compensación en América Latina, obligaron al capitalismo europeo a un
acoplamiento a los requerimientos extra-capitalistas de la institucionalidad
estatal. Durante el excepcional tiempo en que tuvo vigencia esta modalidad de
integración sistémica, la regulación de la administración estatal ocupó una
posición dominante, dictando los límites legítimos de la acumulación privada en
función de criterios ajenos a la pretensión capitalista de valorización.
Precisamente por esa coerción política del capital que caracterizó a la integración
sistémica es que este momento también puede ser denominado “capitalismo
democrático”. Pero en la caracterización de Streeck la función de control que
caracterizó al ejercicio del medio poder por parte de la burocracia estatal no
aparece como el producto de una lógica anónima de dominación abstracta –aquí
el “sub-sistema administrativo” no genera “intercambios” entre inputs y outputs
con el mundo de la vida como su “entorno”–; sino que, por el contrario, este
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anclaje institucional se presenta como un verdadero campo de batalla: caja de
resonancias de peticiones de justicia articuladas por una clase social organizada y
movilizada en el ámbito de una esfera de opinión pública íntimamente dividida
por luchas y antagonismos orientados a la democratización de la apropiación de
la riqueza socialmente producida.
Así como esta reformulación de la categoría de integración sistémica en
términos de una concepción histórica y materialista concibe al poder político del
Estado como una capacidad de influencia direccionada por los coeficientes de
fuerzas sociales en lucha en un momento determinado de la historia del
capitalismo, del mismo modo debe revisarse la estructura del otro medio de
control que incluíamos con Habermas en los mecanismos funcionales de
integración sistémica. El dinero “habla” en términos de precios relativos y
beneficios; pero, a diferencia de la caracterización funcionalista de la teoría de
sistemas, aquí su manera de comunicarse no puede concebirse ajena a las
tensiones del mundo de la vida, sino como producto del antagonismo entre clases
con intereses y principios de justicia contrapuestos. Esto supone que el mercado
es siempre ya, histórica y sistemáticamente, un proceso cristalizado en el que han
intervenido distintas formas de “incrustación” (embeddedness) de acciones
orientadas a la maximización de beneficios (Polanyi, 2001). La incrustación social
del medio dinero entonces es su otro sin el que éste no sería posible. Sin esta
infraestructura institucional de regulaciones, en las que intervienen compromisos
valorativos, obligaciones normativas y plexos jurídicos, el medio de control del
dinero no estaría en condiciones de resolver eficazmente los problemas de
coordinación para los que es empleado.
Pero las formas de incrustación institucional de las acciones económicas
no constituyen una noción de esencia transtemporal. Ellas no sirven para una
mera ampliación complementaria de la teoría económica estándar de la elección
racional, en la que se ratifica el prejuicio de la eficiencia por medio de la
incorporación de conocimientos elaborados en función de evidencia empírica
sobre la historia de las prácticas culturales de una comunidad. La
“embeddedness” no es en sí misma un requisito funcional que opere siempre, en
todo momento y en todo lugar, detrás de los cálculos de beneficio,
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garantizándoles su adecuada, esto es: eficiente, realización social en relaciones
contractuales (Beckert, 2009).
Para constatar el modo en que se transforma la incrustación institucional
en el remolino histórico, basta con regresar a las determinaciones con que nos
habíamos acercado al presente del neoliberalismo luego de su última gran crisis
en 2008. En efecto, las transformaciones al interior de las formas sistémicas de
integración que pautaron la tendencia de desarrollo neoliberal desde la década
del ´70 tuvieron como efecto el socavamiento de sus propias bases de
sustentación simbólica –vale decir: el presupuesto tácito de que sin una relativa
limitación social de la mercantilización capitalista, el mismo orden económico se
vuelve insostenible–destruyendo progresivamente las fuentes internas de
oposición sin las cuales el sub-sistema de la economía de mercado no podría
estabilizarse como un orden social legítimo.
Por lo tanto, en la medida en que las estructuras de integración sistémica
que coordinan las acciones de mercado no son ajenas a la degradación del
tiempo, están sujetas a esta dialéctica negativa de la historia capitalista. Las
mutaciones en la correlación de fuerzas sociales son las que aquí vuelven
comprensibles estas transformaciones. Precisamente la liberación del capital de
las formas de regulación sistémicas del poder estatal, lo que hemos caracterizado
como una rebelión empresaria contra la regulación democrática de la economía
de mercado, tiene como correlato el desarraigo institucional de la sociedad. A
este proceso Streeck lo denominará desintegración sistémica. El mismo consiste
en sentido estricto en la transfiguración institucional del Estado: de sub-sistema de
control democrático de la economía capitalista a medio de expresión de las
demandas de justicia procedentes de los agentes del mercado. La institución
estatal se convierte así en canal de desdemocratización de la economía al
servicio de tasas ilimitadas de ganancia de los propietarios del capital.
El correlato de la “larga transformación” del capitalismo tardío de
posguerra hacia el neoliberalismo no fue entonces solamente el estancamiento de
la actividad en la economía real, el aumento grotesco de las desigualdades tanto
de ingreso como de riqueza, y el incremento de la deuda pública y privada
(Streeck, 2013: 54), sino también la progresiva desintegración sistémica de la
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sociedad, la cual se ha hecho visible crudamente en los tiempos presentes del
interregno luego de la crisis. Streeck caracteriza el correlato de la “larga
desintegración” como una sobrecarga de los individuos con la tarea de resolver,
por sus propios medios, la función de coordinación de las acciones que los
apoyos colectivos de las instituciones sociales garantizaban. Al no darse la
integración sistémica que suponía la domesticación político-estatal de la
economía de mercado, el problema de la integración de los agentes –el capital,
los trabajadores y los consumidores– al sistema económico debe resolverse sin el
apoyo de la mediación institucional. La ausencia de un patrón de regulación
sistémica, la disolución de los compromisos sociales y de las obligaciones de rol
que implicaba la dominación burocrática del Estado, produce así un orden social
signado por una indeterminación que vuelve virtualmente ingobernables las
posibilidades de coordinación de las acciones económicas. Del lado de los
individuos, la entropía social lleva a que los sujetos se vean obligados a tejer
estrategias de supervivencia y a la improvisación obligada de mecanismos que
permitan responder a las demandas de un sistema económico concebido a
imagen y semejanza de la “productividad marginal” como único principio de
asignación de recursos.
La conversión oligárquica del poder económico en poder político que ha
marcado el capitalismo en su fase neoliberal; esto es, la dominación de los
resortes de la autoridad estatal por parte del capital financiarizado, lleva a que la
ausencia de mediación que implicaba la integración sistémica, lo que Streeck
denomina el devenir “menos que sociedad” de la sociedad, sea colmada por dos
fuentes de legitimidad: del lado del individuo, la conducción de su vida se nutre
de la economía pulsional de afectos como la codicia y el miedo en tanto fuentes
de motivación última de su obcecada participación en el orden social. Detrás de
esta restricción a esta dimensión reactiva de los sentimientos de avidez e
inseguridad, el sujeto se socializa bajo la percepción cínica de que en el orden
social que pauta el interregno neoliberal luego de la crisis sólo caben las
orientaciones de acción estratégicas orientadas al propio éxito individual en una
lucha competitiva por la supervivencia. De allí que los sujetos individuales en el
interregno entrópico del neoliberalismo puedan ser tan proclives tanto a la
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realización extrema de esfuerzos para sostener su participación en los mercados
como al constante endeudamiento privado con tal de sostener una práctica de
consumo de mercancías cada vez más diferenciadas, concebida como medio
privilegiado de realización personal. Mientras que la disposición al sacrificio de
toda dimensión de la vida que exceda el circuito de la valorización conforma los
métodos de una conducción de la vida que recuerda de lejos el ascetismo
intramundano que caracterizó a los primeros burgueses en los grupos religiosos
del puritanismo, por su parte la disposición a configurar la propia vida según el
criterio estético de un “estilo” trae a memoria el hedonismo propugnado por los
grupos de bohemios románticos.
Pero esta productividad social de la dimensión meramente reactiva de la
afectividad humana no sería posible sin el acicate de las formas novedosas de
interpelación ideológica que produce la cultura neoliberal (Prestifilippo y
Wegelin, 2016). Entre la desintegración sistémica y la entropía social penetran
ideologemas que sirven para sustituir, aunque más no sea precaria e
intermitentemente, las fuentes sistémicas de motivación que ofrecían las
instituciones estatales en el capitalismo democrático. De las múltiples y
contradictorias exigencias que hoy configuran la constelación ideológica de la
cultura neoliberal luego de la crisis, destacaremos aquí tres mandatos que
posibilitan el reconocimiento ideológico de los individuos como miembros
sociales en tiempos de entropía:
a) extensión de un nuevo ascetismo sacrificial que permite valorar
positivamente la autoexplotación ilimitada en una figura de la subjetividad
laboral que toma el modelo individualista del emprendedor o empresario de sí
como paradigma de todo desempeño económico;
b) jerarquización de valores comerciales al servicio de un hedonismo
despreocupado en el que el consumo de productos diversificados y
continuamente mejorados por nuevas tecnologías postfordistas facilita recursos de
identificación imaginaria con las mercancías; y, por último
c) aparición de modalidades discursivas de un securitarismo cruel que
facilita la interpretación de los “otros” como amenazas a la propia vida, las cuales
deben ser neutralizadas mediante una violencia anticipatoria.
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A continuación nos detendremos en algunos aspectos de esta última
ideología, a los fines de indagar qué modalidades de reintegración está
promoviendo en el interregno desintegrado y entrópico del orden social
neoliberal.
Después del Desarraigo: la cultura neoliberal y los enigmas de la crueldad
Que con la crisis de 2008 se puso en evidencia la insostenibilidad de un
orden social vacío no sólo de recursos monetarios para continuar posponiendo el
colapso, sino también de las mismas fuentes de legitimación con las que hasta ese
momento aquellas reformas se habían justificado, lo supo registrar con
mordacidad incluso cierta tendencia contestataria al interior del nuevo cine
comercial de Hollywood. El montaje con el que comienza Capitalism: A Love
Story (Moore, 2009) refleja con cruda elocuencia los primeros síntomas de
morbidez que empezaban manifestarse a pocos meses de que la crisis se haya
desatado.
El film, que abreva en el documental realista de denuncia, inicia con la
sucesión de registros audiovisuales que realizan tres familias de trabajadores al
momento de ser desalojadas en distintos puntos geográficos de Estados Unidos.
Inmediatamente después, el ojo de la cámara – que ahora asume el punto de vista
del director –, nos presenta un joven agente inmobiliario, cuya carrera en ascenso
en el Estado de Florida se ha forjado en base a la oferta de información sobre
viviendas con hipotecas ejecutadas. Sin eufemismos ni señas de rubor, el joven
declara que el mejor análogo para describir su trabajo se encuentra en la fauna de
las aves. Más específicamente, en el comportamiento de los buitres.
Sobrevolando un campo repleto de cuerpos agonizantes, entre cadáveres en
descomposición, el buitre hace de la debilidad ajena la oportunidad de su
provecho. Ante la evidencia irrefutable de los hechos, la sonrisa incrédula del
joven emprendedor no refleja necesidad de exculpación alguna; en efecto, dice,
“esto es el capitalismo”.
La crisis hizo crujir la consistencia simbólica de la ideología que impulsó
el despliegue heroico del neoliberalismo en los decenios que siguieron a la
reunificación del mundo capitalista (Harvey, 2007). Esa ideología, casi una
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narrativa épica, tuvo la capacidad de convocar a vastos estratos de la sociedad, a
partir de promesas de prosperidad cargadas de anhelos liberadores en los que la
humanidad podría finalmente hacer realidad, en el plano interno, los ideales
libertarios de una autonomía ilimitada para la creación de proyectos (Boltanski y
Chiapello, 1999) y, en el plano externo, el sueño cosmopolita de una convivencia
pacífica sin divisiones culturales ni fronteras políticas (Jameson, 1990). La
revelación de las contradicciones del capitalismo que expuso la crisis, la
visibilidad extraordinaria de la fractura en la que se sostenía la totalidad social
desde los años setenta, puso de manifiesto la realidad de las oposiciones sociales
que aquella “lógica cultural” (Jameson) del neoliberalismo había procurado
denegar.
Pero la obscenidad que expresa el discurso del joven broker inmobiliario
no es tolerable por demasiado tiempo. Aun cuando en la Sattelzeit de interregno
que inauguró la crisis el cinismo de los perversos pauta una dimensión de
resignación e incredulidad en la subjetividad contemporánea (Streeck, 2016: 34),
la frustración ante el derrumbe de las promesas incumplidas ha dado lugar a la
emergencia de nuevas creencias que, a modo de mitos, permiten a quienes las
asumen resolver algunas de las aristas más traumáticas de las contradicciones
expuestas. Veíamos que en un tiempo de interregno pueden darse
acontecimientos cuya lógica se presenta indescifrable a sus contemporáneos
precisamente por el debilitamiento del potencial hermenéutico del horizonte que
delimitaba lo legible de una época. Ante la experiencia de lo real de las
divisiones, han comenzado a sedimentarse narrativas que, como los ideologemas
del mérito en el trabajo y del consumo como estilo de vida, han procurado
apaciguar el daño insoportable que produce la desintegración sistémica en la vida
del yo.
Efectivamente, frente a las nuevas formas de padecimiento en tiempos de
precarización generalizada (Prestifilippo y Wegelin, 2019), el sujeto cobija los
ideologemas de la cultura neoliberal como instancias de descarga libidinal,
sirviéndose de ellos como medios de externalización de la identificación hacia
objetos con los que se logra un enlace afectivo. Ese desplazamiento puede
orientarse hacia el yo como objeto privilegiado, hacia las cosas del mundo o
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hacia los otros sujetos. Frente a la sensación de falta ante el mandato perverso de
una integración que debe edificarse sólo a costas de las estrategias del individuo,
la ligadura con un objeto permite descomprimir el peso de la angustia. Pero estos
enlaces afectivos que posibilita la cultura del interregno neoliberal producen sus
descargas de formas diferentes. Quisiéramos detenernos en el modo singular en
que se da hoy una ligadura que no opera bajo el modelo de la sublimación,
“dulcificando las pasiones”, sino, por el contrario, radicalizando las tensiones que
fracturan al sujeto hasta el paroxismo. Se trata de una forma de identificación
afectiva que direcciona la agresividad hacia “otros”.
¿Cómo interpretar esta operación paradojal de una pacificación mediante
declaración de guerra? Pues aquí de lo que se trata es de un trabajo cultural de
agudización de las contradicciones, de polarización de las identidades en un
llamado al combate que trabaja sobre lo que Balibar ha denominado el enigma
de la crueldad en el sujeto (2005: 110). La ideología aquí llama a una acción,
conmina a la participación social, y al involucramiento en el ejercicio activo de
la destrucción de un objeto externo como carnadura emblemática de una
amenaza. Esta interpelación “incide en los estratos más profundos y sensibles de
la identidad social e individual, donde se toman decisiones sobre el respeto y el
desprecio, la inclusión y la exclusión, el reconocimiento y la excomunión”
(Streeck, 2017).
Se trata de una conminación ideológica al ejercicio de una violencia
anticipatoria contra una amenaza que proviene de “otros” que no responden al
llamado del presente: vidas vulnerables que, en sus formas débiles de resistencia
al neoliberalismo, no se subordinan automáticamente a las demandas que
conforman las ideologías individualistas del mérito emprendedor o del
hedonismo consumista. Esos otros los figura la ideología de la crueldad como:
los «enemigos» contra los que ahora se dirige están en gran medida desprovistos
de poder y se hallan dentro del propio sistema neoliberal. En algunos casos, como
los de aquellos traumatizados por la pobreza, la deuda y el hundimiento de las
redes de seguridad social, ya han sido en gran medida destruidos como fuerza
política autónoma. Pero de algún modo esto aumenta el impulso de castigarlos
más aún (Davies, 2016).
Esta interpelación toca los nervios más enigmáticos del sujeto
contemporáneo porque se sitúa allí en donde opera una dimensión afectiva que,
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a diferencia de la erótica, se rebela a toda inhibición cultural (Brown, 2019: 165 y
ss.).
Lo que desconcierta aquí es que la subjetividad intente mitigar de esta
forma el desasosiego que produce la intensidad y la multiplicidad de los
conflictos que desgarran a la totalidad social capitalista en nuestro presente. Por
lo tanto, aquello que requiere de mayor explicación son las condiciones de
eficacia de una interpelación que impulsa a participar de un juego en el cual se
continúa profundizando la precarización de las vidas, el daño y la violencia
social. La hipótesis que quisiéramos sostener es que la aparición de esta ideología
logra ofrecer, en sus heterogéneas narrativas del odio y en las obscenas figuras
retóricas que moviliza, no sólo nuevas formas de justificar la desigualdad social
creciente y los daños infligidos a quienes excluye, sino fundamentalmente
estrategias de reintegración en una figura extraña de la comunidad en tiempos de
desarraigo neoliberal.
Para desplegar esta hipótesis revisemos una escena. Se trata de uno de los
debates presidenciales del partido republicano durante la campaña electoral de
2015 en Estados Unidos. En un momento, Wolf Blitzer, el moderador del debate
que trasmitió en vivo la cadena de noticias CNN, le plantea al congresista de
Texas y entonces candidato presidencial Paul Ron la pregunta por lo que debería
hacer el Estado ante la “hipotética” –y para nada ingenua– situación de un
trabajador que, ante una problemática de salud de extrema gravedad, no cuente
con cobertura médica privada.
La respuesta del congresista no se hace esperar, y escuchamos que ese
trabajador tendría que hacerse cargo de sus propias decisiones, asumiendo así la
responsabilidad por las consecuencias de sus actos. Puesto que en eso consistiría
la libertad; a saber: en asumir riesgos a título personal. La escena no termina aquí,
sino con la sorpresiva reacción que despertó la respuesta del candidato ante el
público, expresada en un acalorado aplauso, gritos de júbilo y una celebración
colectiva. Cuando el moderador pregunta si lo que se estaba insinuando es que la
sociedad debería dejar morir al trabajador, el mismo público se ocupa de
despejar toda duda. Uno tras otro, los integrantes del público clamaron a los
gritos la afirmación de la condena.
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¿Qué problemas son los que aquí se han puesto en escena? Detrás de estas
manifestaciones de entusiasmo colectivo ante la posibilidad de dar la muerte,
directa o indirectamente, a quienes no pueden pagar en el mercado los servicios
de salud, se solapan múltiples determinaciones que hacen a una dimensión
novedosa y estructural de la actual configuración ideológica del neoliberalismo
luego de su crisis. Puesto que la idea que el Estado es “muy grande”, vale decir,
que el Estado gasta más de lo que recauda generando déficits fiscales, o que el
Estado interviene “demasiado” en el mercado, por ejemplo, emitiendo más dinero
del que debería, son conceptos ya clásicos de un modelo de libertad de mercado
que puede ser retrotraído a las discusiones contra el Estado de Bienestar
emprendidas por autores como Menger, Hayek o Nozick (Cfr. Peck, 2010), y que
tuvieron pregnancia en toda la historia del neoliberalismo desde los ´70. Sin
embargo estas ideas no dejaban de formar parte de una doctrina que no lograba
trascender los estrechos límites de un debate entre “expertos”.
La ideología que nutre la sobrevida del neoliberalismo en tiempos de
interregno parecería haber logrado hacer de la vieja tensión entre democracia y
capitalismo un juego de suma cero en el que ya no es necesario hacer uso de
grandes racionalizaciones o complejas justificaciones académicas para sostener
posiciones ideológicas anti-democráticas. Tampoco es necesario, como en su fase
utópica, comprometer a la población a una serie de sacrificios mediante un sueño
salvífico de redención futura. En nuestros días esa vieja oposición entre mercados
y política democrática parece haberse resuelto decididamente a favor de los
primeros, abriendo un espacio simbólico liberado de toda constricción normativa.
Lo inédito aquí no es sólo lo que se dice, un mensaje nutrido de las
tradiciones más oscuras del sadismo y la crueldad política que nos remiten a los
rituales de violencia y sumisión de los fascismos del siglo pasado, sino también
que la modalidad de su enunciación ya no pueda restringirse a un ámbito
limitado de validez, como el que se expresaba en las doctrinas del
ordoliberalismo o de la Escuela Austríaca, sino que se haya ampliado a lo que
podríamos llamar un nivel espontáneo, haciéndose carne en las prácticas
ritualizadas de los agentes sociales. De esta generalización social de la crueldad
como instancia fundante de sociabilidad depende tanto la articulación de
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movimientos sociales antidemocráticos como el progresivo e ininterrumpido
aumento del caudal electoral de dirigentes políticos de extrema derecha al que
hacíamos referencia en la introducción.
Analicemos pues los distintos niveles en los que aquella escena reveló al
modo de un síntoma las transformaciones ideológicas profundas que hacen
comprensible la cultura neoliberal del interregno capitalista. Una primera
dimensión se presenta en la idea de libertad esgrimida. Para la audiencia del Tea
Party era evidente que aquel trabajador caído en desgracia no tenía que ser
protegido por el Estado porque él había decidido consiente y voluntariamente no
pagar un servicio de salud privado, y al hacerlo había asumido los riesgos de esa
decisión. Precisamente por ello, quien asume sus riesgos debe también
responsabilizarse por sus actos, cargando de esta manera con las consecuencias
para su vida.
Lo decisivo es que para el colectivo que ovacionó esta noción de libertad
no sería justo que el Estado intervenga asignando un presupuesto para cubrir los
gastos médicos del tratamiento a los vulnerables de la sociedad. En la medida en
que la cobertura médica no es un derecho de todo ciudadano que tenga que ser
garantizado por el Estado, sino una mercancía a la que se accede por dinero, es
ocioso diferenciar si el joven en cuestión “no quiso” contratar el servicio o “no
pudo” hacerlo por falta de ingresos. El mercado asigna los recursos según un
criterio que no es moral, vale decir: particularista, sino “natural” u “anónimo”, y
por lo tanto: universalista. Se configura así un principio de justicia distributiva
encarnado en esta concepción de la libertad de mercado que tendrá un papel
fundamental para entender esta declinación punitivista de la ideología neoliberal.
Sin embargo, esta idea de justicia de mercado que asigna una distribución
correcta de bienes y recursos, determinando desigualdades, violencias, y hasta
muertes justas, presupone un imperativo contradictorio que puede conducir a la
locura: se nos obliga de manera perversa a convertirnos en sujetos capaces de
asumir riesgos en mundos sociales dominados por la inestabilidad económica y la
inseguridad social. Responder exitosamente al imperativo del mercado implicaría
transformarnos en sujetos autónomos económicamente y a asumir de manera
individual las consecuencias de nuestros actos. Pero esa respuesta al llamado del
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mercado se vuelve imposible en un contexto en el cual precisamente se han
precarizado las condiciones sociales y económicas que permitirían viabilizar esos
modelos de autonomía (Butler, 2015).
Como veíamos más arriba, la distribución desigual de la precariedad es
uno de los correlatos más relevantes de la erosión progresiva de las condiciones
institucionales de apoyo a la realización de los propósitos de vida de los
individuos. Esta precarización también tiene su corolario en el plano de la
intimidad afectiva del sujeto. Como efecto de esa destrucción neoliberal de la
“infraestructura” sistémica de apoyo colectivo, nace lo que Hegel denominó en
sus Principios de la filosofía del derecho “sufrimiento de indeterminación”, vale
decir: un creciente sentimiento de angustia ante la evidente imposibilidad de
responder a la exigencia impuesta de convertirse en un sujeto autosuficiente.
Aquí pueden sernos de ayuda algunas de las ideas que Adorno y
Horkheimer (2017) desarrollaron en su momento acerca del lugar y significado
sintomático del antisemitismo en las sociedades capitalistas. Lo que ellos
quisieron explicar en las postrimerías del Holocausto, es un problema que nos
resulta pertinente puesto que apunta a la difícil cuestión de por qué en
determinadas condiciones de una coyuntura, las ideologías del odio pueden
volverse capaces de concitar la adhesión y movilizar a amplios estratos de una
sociedad, atravesando sectores ubicados en distintas posiciones de clase en la
estructura. En Dialéctica de la Ilustración esta cuestión se explicita en los términos
de una pregunta por las causas que hicieron del antisemitismo un punto nodal de
la politización de las masas.
A su manera de ver, en el antisemitismo se conjugaba una determinada
economía que vuelve correcta a la pregunta por su rendimiento, pero que no
puede ser traducido sin restos a una dinámica de acumulación de dinero o de
poder. Efectivamente, si el antisemitismo fascista había logrado movilizar a
amplias capas de la sociedad, esto se debe a que esta ideología satisfacía una
necesidad central para los sujetos. De esta manera, para Adorno y Horkheimer el
antisemitismo como fenómeno de masas no tiene una utilidad material
manifiesta, sino por el contrario, estrictamente simbólica. Lo que realiza el
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antisemitismo, su plus para el sujeto, son sus impulsos destructivos reprimidos en
el proceso de su socialización.
Si volvemos a la reacción de júbilo del público del Tea Party, podemos
reconocer algo de esta economía libidinal. En efecto, siguiendo la dimensión
analizada acerca del principio de la justicia de mercado y la consiguiente idea de
libertad que le sirve de fundamento, lo que reconocemos aquí es una cierta
modalidad del sujeto que estaría explotando el neoliberalismo de interregno. A
esta comunidad de público y líder se le presenta el “otro”, el joven trabajador sin
ingresos suficientes para asegurarse una cobertura de salud privada, como una
perturbación traumática, algo que interrumpe violentamente el cerrado equilibrio
de su identidad de grupo. Podríamos decir que en la afirmación de goce ante la
destrucción del otro hay algo que se logra en la subjetividad de los agentes que lo
afirman, algo que se satisface con estos movimientos afectivos movilizados detrás
de este imperativo de autosuficiencia.
Finalmente, una última dimensión de los problemas expresados en lo
ominoso de esta escena refiere al estilo de presentación en las justificaciones. En
otros momentos de la historia del capitalismo, habría resultado imposible que un
candidato en un debate presidencial, ante cientos de personas en la audiencia, y
millones de espectadores en la transmisión televisiva, sostenga públicamente que
una persona que no puede pagar un servicio de salud privado merece morir. 5
¿Cuáles son los mecanismos psíquicos del poder que facilitan este valor de
exhibición del placer ante el sufrimiento de los demás? La cultura neoliberal de
interregno logra desinhibir algo de lo reprimido (Brown, Gordon y Pensky, 2019:
29). En las declaraciones misóginas, homofóbicas, xenófobas y racistas de los
profetas políticos del odio en distintos puntos de la región, en los pedidos de
revisión de los juicios a genocidas o a favor de la tortura militar, o en las
manifestaciones públicas en contra de las medidas solidarias de protección de
indigentes que mueren de frío en las calles de las grandes urbes, lo que se busca
es encarnar en el discurso político legitimado la liberación de una dimensión
5
Es uno de los grandes descubrimientos de Achille Mbembe (2011) identificar este
comportamiento orientado a una legitimación del “dar la muerte” de los otros como una
dimensión central del neoliberalismo contemporáneo. Aquí nos ocupamos de estudiar cómo se
expresa esta dimensión en el plano “espontáneo” de la ideología.
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reactiva del sujeto, en la que puedan derribarse cualquier límite que contenga las
tendencias agresivas de la población.
Esos límites o constricciones son los que en la economía libidinal de los
sujetos socializados en el marco de la integración sistémica permitía a su vez su
incoporación en un modelo democrático de vida comunitaria anclado en una
idea solidaria de responsabilidad colectiva. Por el contrario, la declinación
securitaria de la ideología neoliberal facilita en sus desnudas expresiones de odio
social y crueldad desatada contra los débiles una nueva versión del concepto
acuñado originalmente por Marcuse de “des-sublimación represiva”, en la que se
resuelve el conflicto interno entre las instancias psíquicas del sujeto a favor de
una radicalización de su sujeción. En estas formas colectivas de exhibición de la
pulsión de muerte, la sustancia vital libidinal es privada de su carácter inmediato
y aparece completamente controlada por los mecanismos de dominación social
(Žižek, 2006). En los términos de la segunda tópica freudiana, en la “des-
sublimación represiva” que configura el nuevo neoliberalismo, se socializa el
inconsciente a través de una identificación entre el ello y el superyó a expensas
de la instancia de la reflexión que representa el yo.
Lo liberador en los gritos de la audiencia a favor de la muerte del joven
trabajador descansa en la percepción de que hay determinadas constricciones
que no dejan expresar una verdad auténtica arbitrariamente contenida. Como
corolario, la ideología neoliberal de la crueldad garantiza el bloqueo de la
reflexión crítica de los sujetos acerca de la corrosión de los lazos sociales y las
obligaciones compartidas de rol que caracterizaban la integración sistémica en el
“capitalismo democrático”. Al ser percibidas como coerciones externas que
mancillan la experiencia del sujeto, posibilita en sus manifestaciones desinhibidas
de violencia y odio ante los más débiles la destructividad de las pulsiones
agresivas como solución imaginaria a todos los dramas que le infringe un mundo
opaco que no se logra descifrar.
Conclusiones
En este escrito nos hemos acercado al fenómeno de la actual emergencia
de fuerzas antidemocráticas en América Latina situándolo en un análisis más
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amplio de la estructura y los efectos de la última gran crisis del sistema capitalista
para los procesos de coordinación social. En nuestra reconstrucción de distintos
modelos de crítica hemos podido determinar cómo la progresiva destrucción de
la institucionalidad democrática que supusieron las reformas neoliberales en el
centro y la periferia capitalista trajo aparejados procesos de desintegración
sistémica con consecuencias de largo alcance en los distintos niveles de la
totalidad social.
Podemos concluir que la actual pregnancia social de las nuevas fuerzas
antidemocráticas en América Latina manifiesta una apropiación estrictamente
política de profundas tendencias ideológicas que hacen a la actual cultura
neoliberal y que se encuentran extendidas en distintos estratos de la sociedad. Los
“enigmas” de la ideología de la crueldad pueden ser descifrados así por sus
rendimientos para la subjetividad contemporánea: ella ha ofrecido a los
individuos sobrellevar el drama del “sufrimiento de indeterminación” (Hegel),
producido por el interregno entrópico del actual capitalismo neoliberal.
Se trata de una novedosa conjunción de interpelaciones ideológicas y
mecanismos libidinales que sirve no sólo para justificar la agudización brutal de
las desigualdades sociales en los países del centro y de la periferia, sino también
para ofrecer mecanismos de reintegración del individuo en una voluntad
colectiva delimitada en su identidad por el deseo de castigo hacia los demás. Aun
cuando los sujetos a los que aluden los discursos del odio pueden ubicarse en
cualquier categoría social, siempre se trata de formas precarias de vida, que
padecen la agudización de la distribución desigual de las vulnerabilidades, y que
resignifican las formas tradicionales de clasificación que estructuraron la sujeción
colonial otorgándoles una nueva actualidad para la reproducción de los
mecanismos de dominación social en nuestro presente.
Como en la economía libidinal del antisemitismo que analizaron
ejemplarmente Adorno y Horkheimer, aquí vuelve a operar un mecanismo
proyectivo que estructura formas renovadas de agresividad hacia los otros. En este
sentido, se establece una íntima relación entre el deterioro de las condiciones
materiales necesarias para una vida socialmente lograda y las proyecciones
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paranoicas de violencia ante quienes se convierten en catalizadores de las
frustraciones padecidas.
¿Cómo afectan estas reposiciones violentas de la división de lo social,
entre la desintegración sistémica y la re-integración autoritaria, entre la entropía
social y las ideologías de la crueldad, a las perspectivas comprometidas con un
horizonte emancipatorio de descolonización social? La Teoría Crítica
contemporánea requiere de categorías filosóficas y de estudios científico-sociales
que permitan interpretar en la prosa del mundo latinoamericano las dislocaciones
en las que estas nuevas formas de sujeción crujen, revelando en las prácticas
sociales otra idea posible de justicia, en la que la democratización es presupuesto
y punto de partida.
Esto inaugura la ineludible pregunta acerca de las dimensiones de la
experiencia –corporal y teórica, cultural y política– en las que puedan
reconocerse los saberes libres que trabajen desde y sobre lo común no sólo para
resistir la precarización neoliberal sino también para proyectar órdenes sociales
alternativos en nuestra región, anclados en una noción de responsabilidad
colectiva, de cuidado sin cálculo, y de igualdad sustantiva.
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Contradicciones del Capitalismo y Transformaciones Sociales en América Latina
Resumen
Las sociedades latinoamericanas crujen en nuestros días por la aparición de nuevas formas de
radicalización política que, lejos de impugnar al capitalismo, parecen más bien oficiar de canales
de oclusión de sus encuadres democráticos. ¿Cómo comprender este proceso en el que se
engarzan de forma enigmática el neoliberalismo y las más oscuras fuerzas opuestas al principio
fundamental de igual libertad de los miembros de una comunidad política? En este artículo nos
aceramos a este problema interpretando las transformaciones sociales que han sucedido a la
última gran crisis económica del capitalismo en la región. Para ello, revisaremos algunas
discusiones de la Teoría Crítica contemporánea acerca de estos efectos en el nivel específico de
las formas de integración que estructuran nuestro mundo social. En este sentido, nos guiamos por
una pregunta que acompaña a la sociología desde sus comienzos, a saber: cómo puede verse
erosionada la infraestructura de los apoyos colectivos del individuo por las transformaciones
históricas del sistema económico capitalista. El escrito finaliza con una aproximación analítica del
papel que cumplen en nuestro presente las reconfiguraciones recientes de la cultura neoliberal
para la subjetividad contemporánea.
Palabras clave: Contradicciones del capitalismo; Integración Social; Cultura Neoliberal; Ideología;
Teoría Crítica Contemporánea; Jürgen Habermas; Wolfgang Streeck; América Latina.
Contradições do Capitalismo e Transformações Sociais na América Latina
Resumo
As sociedades latino-americanas de hoje estão em ebulição com a emergência de novas formas
de radicalização política que, longe de desafiar o capitalismo, parecem mais canais para bloquear
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os seus quadros democráticos. Como podemos compreender este processo em que o
neoliberalismo e as forças mais perversas que se opõem ao princípio fundamental da igualdade de
liberdade para os membros de uma comunidade política estão enigmaticamente ligados? Neste
artigo propomos abordar este problema através da interpretação das transformações sociais
ocorridas na região desde a última grande crise econômica do capitalismo. Para tal, iremos rever
algumas discussões da Teoria Crítica contemporânea sobre estes efeitos no nível específico das
formas de integração que estruturam o nosso mundo social. Neste sentido, somos guiados por
uma questão que tem acompanhado a sociologia desde os seus primórdios, nomeadamente: como
a infra-estrutura dos apoios coletivos do indivíduo pode ser corroída pelas transformações
históricas do sistema econômico capitalista. O artigo termina com uma abordagem analítica do
papel que as recentes reconfigurações da cultura neoliberal desempenham no nosso presente para
a subjetividade contemporânea.
Palavras-chave: Contradições do Capitalismo; Integração Social; Cultura Neoliberal; Ideologia;
Teoria Crítica Contemporânea; Jürgen Habermas; Wolfgang Streeck; América Latina.
Contradictions of Capitalism and Social Transformations in Latin America
Abstract
Latin American societies today are crackling with the emergence of new forms of political
radicalization which, far from challenging capitalism, seem more like channels for occluding their
democratic boundaries. How can we understand this process in which there is a mysterious
intertwining of neoliberalism and the darkest forces opposed to the fundamental principle of equal
freedom for the members of a political community? In this paper we approach this problem by
interpreting the social transformations that have taken place in the region since the last great
economic crisis of capitalism. In order to do so, we examine some discussions of contemporary
Critical Theory about these effects on the specific level of the forms of integration that structure our
social world. In this sense, we are guided by a question that has accompanied Sociology since its
beginnings, namely: how the infrastructure of the collective supports of the individual can be
eroded by the historical transformations of the capitalist economic system. The article ends with an
analytical approach to the role played in our present by recent reconfigurations of neoliberal
culture for contemporary subjectivity.
Keywords: Contradictions of Capitalism; Social Integration; Neoliberal Culture; Ideology;
Contemporary Critical Theory; Jürgen Habermas; Wolfgang Streeck; Latin America.
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Recebido: 19-08-2019
Aprovado: 13-10-2020
O “Pós-Neoliberalismo” e a Reconfiguração do Capitalismo
na América Latina1
Beatriz Stolowicz2
O Novo Momento Latino-Americano
Ao terminar a primeira década do século XXI, nos encontramos em um
momento complexo na América Latina, para o qual as arengas ou expressões de
desejo não alcançam. Sem perder de vista as grandes possibilidades de disputa de
projetos que se abriram na região, as preocupações que indicávamos no final de
2007 sobre os governos de esquerda3 parecem estar confirmadas quando
dizíamos que nestes processos em construção “o movimento não é tudo” –
rebatendo Bernstein – e que sua direção é decisiva; que a direita colocou todos os
seus recursos econômicos, políticos, militares e simbólicos para disputar e definir
essa direção, e que resta saber se as forças que aspiram à igualdade e à
emancipação humana efetivamente as disputarão. Um requisito para isso é ser
claro sobre o terreno da disputa.
Nos últimos anos, as discussões sobre a América Latina se concentraram
nessas novas experiências de governo, como é lógico, com grande entusiasmo, a
ponto de se tornar moda parafrasear que se trata de uma “mudança de época”.
Os triunfos eleitorais da direita foram considerados uma exceção, não
muito bem explicada, e, às vezes, endossado a um ultraesquerdismo atávico. O
final da década produz certa perplexidade ao comprovar as falências de tais
1 Escrito em 2011. Publicado em: Beatriz Stolowicz, A contracorriente de la hegemonía
conservadora, Bogotá, Espacio Crítico Ediciones, 2012.
2 Professora-Pesquisadora da Área Problemas de América Latina, Departamento de Política e
Cultura, Universidade Autônoma Metropolitana Unidade Xochimilco, México. Contato:
beastolowicz@[Link]
3 Em Beatriz Stolowicz (Coord.) Gobiernos de izquierda en América Latina. El desafio del cambio.
Bogotá, Ediciones Aurora, 2007.
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apreciações volicionais. O avanço da direita em alguns países, os sinais de
estagnação na captura do eleitorado pela esquerda onde ela já governa, e o
refluxo nos impulsos de mudança levaram a repensar as análises sobre a região.
Sobretudo nos cinco anos anteriores, dada a natureza inédita da
conjuntura pelo protagonismo popular e por seu conteúdo ético, as análises sobre
a América Latina focalizaram a democratização dos regimes políticos e os
processos constituintes onde a esquerda e centro esquerda governam. A maioria
delas eram análises eminentemente superestruturais, em que o aparato estatal foi
assimilado ao poder do Estado, e a autonomia foi atribuída ao político, deixando
de fora a análise estrutural da reprodução econômica e das classes (embora, às
vezes, este último tenha implicitamente aparecido na forma de um possibilismo
político). Portanto, foi rejeitado que cada modelo econômico requer um certo
modelo político e social, que esse não pode ser pensado à margem daquele além
da retórica ou das lideranças carismáticas.
Num segundo plano, permaneceram as análises originadas nos países
onde, há muito tempo, é executada estratégia para estabilizar política e
socialmente a reestruturação capitalista neoliberal. Situados necessariamente em
uma temporalidade mais prolongada e numa articulação analítica mais clara
entre economia e política, a partir dessas análises era possível observar
fenômenos análogos a alguns dos processos progressistas. Apesar disso, o era de
difícil interlocução. Agora começa a haver um terreno comum de preocupação
com o padrão de acumulação extrativista primário-exportador e financeirizado
sob o domínio transnacional, que é impulsionado, garantido e financiado pelos
Estados latino-americanos. Que, salvo algumas exceções ou nuances e, por isso,
muito valiosas, é realizado em todos os países da região, apesar das diferenças
sociopolíticas ou até mesmo explorando a maior legitimidade dos governos de
esquerda ou de centro-esquerda para executá-lo.
Embora a convergência de preocupações seja mais recente, o fenômeno
não é novo. Há mais de uma década que, após as crises financeiras
(particularmente as de 1995 e 1997), massas de capital excedente em risco de
desvalorização na especulação procuram reciclar-se na acumulação por
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despossessão4 com espoliação territorial, tanto no saque dos recursos naturais
quanto na superexploração da força de trabalho; e que buscam recuperar a
acumulação ampliada mediante a construção de infraestrutura – de rotação mais
lenta, mas assegurada pelo Estado –, que, por sua vez, aumenta a acumulação por
desapropriação com o barateamento da extração dessas riquezas naturais. Não
nos esqueçamos de que a IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura
Regional Sul-Americana) e o Plano Puebla Panamá (hoje Projeto Mesoamérica) já
existem há uma década (desde 2007, diretamente articulados pela adesão da
Colômbia a ambos).
A novidade é que também onde a esquerda ou a centro-esquerda
governam, o capital transnacional encontrou ótimas condições de estabilização
na crise capitalista, uma vez que também alcança isso através da legitimação
política.
É novo, além disso, que em vários desses países esse padrão de
acumulação – com mudanças institucionais, políticas e sociais que lhes são
consubstanciais – seja promovido em nome de um “novo desenvolvimento”, com
a implantação de uma retórica “neodesenvolvimentista” que explora as
reminiscências simbólicas do antigo desenvolvimento redistributivo latino-
americano, que não é nada semelhante. Onde a direita governa essas mesmas
linhas estratégicas e suas políticas são executadas embora o rótulo de
“neodesenvolvimentismo” não seja adicionado a ele.
O novo, no entanto, não surgiu por geração espontânea. Pelo contrário,
sustento a tese de que estamos testemunhando um ponto de chegada da
realização bem-sucedida da estratégia dominante executada durante 20 anos para
estabilizar e legitimar a reestruturação do capitalismo na América Latina,
denominada por seus promotores como “pós-neoliberalismo”.
Várias das perguntas sobre a evolução de projetos comumente conhecidos
como alternativos, e sobre sua efetiva capacidade de disputa, encontrariam
respostas mais claras em referência ou contraste com essa estratégia dominante,
tanto quanto eles significam uma ruptura ou apontam a ela. Para isso, é
4 A categoria acumulação por despossessão foi cunhada por David Harvey, aludindo à prática
permanente do que Marx chamou de acumulação original na atual reprodução capitalista, como
um sinal do novo imperialismo.
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necessário transcender o curto tempo do eleitoral, que sobredetermina as análises
e as dinâmicas de projetos de mudança na região, e aumentar o foco para uma
duração de tempo mais longa.
Vinte Anos de “Pós-Neoliberalismo”
Desde o início da década de 1990, a estratégia para estabilizar a
reestruturação capitalista neoliberal na América Latina foi oficialmente
apresentada em três etapas sucessivas: a primeira de “ajuste, estabilização e
iniciação”; uma segunda de “aprofundamento das reformas estruturais”; e uma
terceira fase de “consolidação das reformas e restauração dos níveis de
investimento”5 . A primeira etapa, de demolição do padrão de acumulação
anterior e de suas instituições, havia sido executada nos anos 1970 e 1980, sob
ditaduras militares e autoritarismo civil; a segunda e a terceira etapas tiveram que
ser implementadas já sob as “novas regras do jogo” de regimes representativos,
democracias. A ideia de uma sucessão estava mais claramente inspirada no Chile,
onde a demolição do padrão de acumulação foi concluída sob a ditadura de
Pinochet. Em outros países, em vez de uma sucessão, tiveram que sobrepor
etapas, como, por exemplo, no Brasil e no México, sobrepondo, também, a
retórica correspondente a cada um. Com um olhar retrospectivo, cabe perguntar
se a terceira etapa de “consolidação das reformas e restauração dos níveis de
investimento” não estaria sendo executada na primeira década do século XXI por
alguns dos novos governos progressistas.
Definidos os objetivos, ao mesmo tempo em que a estratégia estava sendo
formulada para avançar nesse caminho, cujas linhas principais abordavam as
dimensões política, institucional e social para dar segurança ao aprofundamento
da reestruturação capitalista, para estabilizá-la e legitimá-la. Esta estratégia
multidimensional foi promovida desde 1990 pela “nova” neo-estruturalista
Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal); pelo Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), presidido pelo ex-cepalino Enrique
5 As três etapas foram formuladas em 1990 pelo chileno Marcelo Selowsky (1990, p. 28-31),
economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe.
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Iglesias6, e na segunda metade dos anos noventa, também pelo Banco Mundial,
com Joseph Stiglitz como economista-chefe e com o colombiano Guillermo Perry
como economista-chefe para a América Latina e o Caribe7. Por abordar as esferas
de ação que o economicismo de mercado neoclássico não contemplava
discursivamente, desde o início foi apresentado como “pós-neoliberal”.
Autodefiniu-se como “superação do neoliberalismo”, mas ao mesmo tempo
contrário ao “populismo” (na verdade, o que eles definiram como tal). Para isso,
seus intelectuais e ideólogos questionaram alguns postulados doutrinários do
liberalismo econômico, que em seu entendimento deviam ser corrigidos – nunca
negados –, o que em termos doutrinários era estritamente um pós-liberalismo; que
foi expressado como correção – nunca negação – dos postulados ultraliberais
sobre o Estado e do ultra-individualismo sociopolítico.
Desde o sistema, nas vozes de grandes empresários, políticos e
intelectuais, se multiplicaram expressões de crítica ao “neoliberalismo” (tal como
o definiam). Já em 1996, Norbert Lechner disse: “Nos anos noventa, a América
Latina entrou em uma fase ‘pós-neoliberal’. O neoliberalismo está esgotado como
uma proposta inovadora” (Lechner, 1996). Essas expressões foram oficialmente
recolhidas pela Cúpula das Américas de 1998, realizada em Santiago do Chile.
Apesar da retórica, o que foi aprovado não foi antiliberal, nem pós-neoliberal,
mas as linhas para estabilizar a reestruturação capitalista quando se observavam
sinais de uma crise de governabilidade na região.
Deve-se esclarecer, mais uma vez, que o termo “pós-neoliberal” foi
cunhado desde o sistema – não por esta autora – e que conforme sua origem é
utilizado neste trabalho. O interessante é que o termo “pós-neoliberalismo”
estava sendo socializado dentro da “esquerda moderna” ou “nova esquerda”.
Para aumentar a confusão, nos últimos cinco anos, o termo “pós-neoliberalismo”
é usado para descrever os projetos dos governos de esquerda e de centro-
esquerda, como um caminho que apenas se estaria percorrendo. Já afirmei,
6 As linhas mestras da estratégia "pós-neoliberal" estão presentes no documento da CEPAL:
Transformação produtiva com equidade. A tarefa prioritária do desenvolvimento da América
Latina e do Caribe nos anos noventa (1990), e com muito maior precisão no trabalho de Enrique
V. Iglesias, então presidente do BID: Reflexiones sobre el desarrollo económico. Hacia un nuevo
consenso latinoamericano (1992).
7 O manifesto pós-neoliberal para a América Latina do Banco Mundial é o famoso Além do
Consenso de Washington (1998).
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repetidamente, a inconveniência de usar o mesmo termo, cunhado pelos
dominantes, para denominar ou caracterizar projetos opostos e supostamente
antagônicos. Ao longo dos anos, é possível pensar que talvez não tenha sido
apenas uma falta de imaginação linguística.
O pós-neoliberal é uma concepção estratégica lúcida e complexa. Ela não
vê as democracias como um perigo contra a continuação da reestruturação
capitalista, mas como uma oportunidade para construir consensos moderados a
favor das chamadas reformas econômicas, para as quais a política e a democracia
deveriam ser instrumentos de governabilidade e, claro, de integração
institucionalizada da esquerda que já avançava eleitoralmente.
A estratégia requer passar por reformas estruturais – semelhantes ao
Decálogo de Williamson, mas apresentadas como uma iniciativa endógena – para
“aproveitar as vantagens da globalização mediante a exportação do mais
abundante”. É retoricamente postulada como uma transição de vantagens
comparativas ortodoxas ou “espúrias” para uma “competitividade autêntica”
posterior, que inevitavelmente tinha que ser impulsionada pelo capital
transnacional por sua contribuição financeira, tecnológica e por seu acesso aos
mercados. Para capturar esse investimento estrangeiro devia-se garantir um clima
favorável aos negócios, lucros mais atraentes, segurança jurídica, estabilidade
financeira e baixo déficit fiscal, e o pagamento da dívida. Um maior ativismo
estatal era necessário para fortalecer o setor privado, e para isso era necessário
reformar o Estado para torná-lo “pequeno, mas eficaz”. Essa suposta transição
obviamente exigiu a redução do salário real e o alto desemprego: uma plataforma
a partir da qual as políticas sociais são legitimadas para fortalecer a
governabilidade.
O apelo ao Estado e a essa dimensão “social” são os sinais distintivos do
“pós-neoliberalismo” para se apresentar como progressista e mesmo de esquerda.
A estratégia propunha que, no curto prazo, a assistência dirigida à pobreza
extrema fosse implementada para absorver as tensões sociais da (primeira)
“década perdida”, que além disso liquidaria a cultura de direitos, substituindo-a
por uma cultura mendicante degradada e agradecida. Mas, o pós-neoliberalismo
visa alcançar, em longo prazo, uma profunda reestruturação social, que seria a
base para gerar consenso social em torno da reestruturação capitalista.
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Essas linhas mestras foram os objetivos imutáveis do “pós-neoliberalismo”
ao longo desses 20 anos. Mas a maneira de executá-los variaria de acordo com as
condições concretas de cada país e na região, dependendo das demandas globais
do capitalismo. O fundamental era, e tem sido, a combinação daquelas esferas de
ação para que, quando tivesse problemas em um, os outros compensassem: por
exemplo, se a legitimidade do sistema político ou a credibilidade da democracia
falhavam, políticas sociais direcionadas ou um maior ativismo governamental
deviam compensá-lo para neutralizar conflitos e construir consenso passivo ou
ativo; ou, inversamente, com alta legitimidade política, as “reformas econômicas”
poderiam ser promovidas com menos “gastos” nas outras esferas. Sua execução
exigiu maior percepção política, flexibilidade e pragmatismo, metaforicamente
levantados com expressões como “um terno sob medida”, ou “projetos em
andamento” ou “trabalhos em progresso”.
Os pós-neoliberais apareciam como os questionadores da tecnocracia,
quando apenas uma divisão do trabalho era estabelecida, de modo que os
tecnocratas disseram o que era inevitável, e os neopolíticos, como fazê-lo de
forma mais eficaz e legítima. “Neopolíticos” porque economistas e técnicos “pós-
neoliberais” tornaram-se os novos especialistas e teóricos da política, democracia
e governabilidade, conjuntamente com a velha classe política. Para viabilizar
cada uma das novas ações, bem como as mudanças de ênfase ou peso específico
de cada esfera em relação às demais de acordo com as circunstâncias, um
exército de intelectuais estava colocando as novas “agendas temáticas” e suas
respectivas retóricas sob máscaras teoréticas8. De um modo particular, é
necessário enfatizar que foram os ideólogos do sistema que impuseram as
definições sobre o “neoliberalismo”, que as estavam modificando em diferentes
conjunturas, de tal forma que a estratégia dominante pudesse ser apresentada
como uma “alternativa” a si mesma em vários momentos ou fases9. Sob linhas
comuns a toda a região, como pano de fundo, perfeitamente identificáveis nos
temas que determinavam as orientações das ciências sociais em cada conjuntura
8 Esse pragmatismo tático explica, em grande parte, que a estratégia não poderia ser apreendida
em seu desenho total, especialmente em suas fases iniciais. Uma revisão retrospectiva dos temas,
das ações promovidas e dos debates esclareceria os momentos táticos da estratégia dominante.
9 Para a economia do espaço, para ver as mudanças de definições no neoliberalismo, refiro-me ao
meu trabalho “El debate actual: posliberalismo o anticapitalismo” (2009) em meu livro A
contracorriente de la hegemonia conservadora (2012).
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– e as réplicas do chamado pensamento crítico, fatigantemente contestatório –,
em cada país havia diferentes ênfases atribuídas de acordo com as realidades
sócio-políticas específicas. Esta aparente assincronia desaparece quando
tendências comuns são consideradas em um período mais longo, o que é agora
reconhecido na convergência de preocupações de países com governos
chamados progressistas e com governos de direita.
Isso não significa que essa estratégia dominante e conservadora (mesmo
que apresentada como progressista) não tenha que enfrentar resistências e
conflitos, não significa que sua execução não acumule contradições e nem
mesmo freios ou retrocessos em certas conjunturas e em certos países. Existe uma
dialética que não pode ser ignorada. Porém, nesses 20 anos, observamos a grande
capacidade de adaptação tática, de mudança no uso de instrumentos, de
modificação discursiva na execução da estratégia dominante. A ponto de
transformar em "oportunidade" as contradições que a própria estratégia gera para,
como eu disse, apresentar uma próxima fase como alternativa a si mesma.
A Reconfiguração Capitalista
A execução – em suas combinações particulares – das linhas mestras da
estratégia para estabilizar a reestruturação capitalista em nossa região avançou
apesar do fato de a América Latina ter sido o centro das rejeições e lutas contra o
neoliberalismo. Avançou, até mesmo ou precisamente, porque foi feito em nome
de ir além do neoliberalismo. Os passos dados há 20 anos mostram sua
materialização no presente.
Os usos conservadores da política institucional através de uma democracia
governável têm sido objeto de análise por parte desta autora em distintos
trabalhos, aos quais me refiro, cuja matéria deve ser pensada como uma esfera
funcional em relação às demais, de enorme importância. Nessa perspectiva,
devemos pensar, também, no significado das mudanças ou ajustes dos regimes
políticos com os triunfos eleitorais da esquerda ou da centro-esquerda, como
também foi sugerido em outros trabalhos.
Em contraste com as oscilações previsíveis dos regimes políticos devido às
variações eleitorais – as “regras do jogo” que são úteis para a construção de
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consenso acerca dessas mesmas regras –, o objetivo de reestruturar a sociedade
tem uma dimensão mais profunda e de longo prazo para estabilizar o capitalismo
em sua atual fase histórica.
A reestruturação da sociedade
A reestruturação social “pós-neoliberal” baseia-se na demolição do padrão
de acumulação anterior e suas relações sociais e institucionais. Desemprego e
empobrecimento são concebidos como a “oportunidade” de empreender essa
reestruturação e alcançar legitimidade. O objetivo central da reestruturação é
dissolver os sujeitos coletivos da pugna distributiva, certamente os populares.
Mas, ao contrário do discurso ortodoxo “neoliberal” sobre a liberdade individual,
o “pós-neoliberal” visa a que a flexibilização e a precarização do trabalho, a
terceirização através de pequenas e médias empresas (PME) e o trabalho
autônomo sejam aceitos como meios legítimos para acessar à “equidade”.
O pós-neoliberalismo busca legitimar a “democracia dos proprietários”
neoliberais. Esta sociedade patrimonial de indivíduos “donos” de algo que eles
trocam no mercado “como se fossem livres e iguais”, isto é, sem impedimentos
formais para acessar bens, serviços, atividades ou profissões, exceto o que eles
podem reivindicar possuir (recursos monetários ou “capital humano”); em que a
condição salarial formal desaparece (direitos legais individuais e coletivos,
regulamentos) para converter trabalhadores em “empresários” que gerenciam sua
reprodução individualmente, indivíduos responsáveis por seu destino que
“investem” em sua segurança (“custos de oportunidade”), seguro de saúde, fundos
de pensão, etc. com recursos de seu fundo de consumo salarial ou recursos que
estão nas mãos do Estado via impostos, e que vão para o capital privado que
gerencia esses fundos de poupança e seguro. Os pós-neoliberais “corrigem” os
defeitos de mercado através do discurso e do método social-liberal da equidade
como igualdade de oportunidades: apenas os deficientes e os muito pobres
recebem, através de subsídios ou alocações, um mínimo não igual nem
permanente que os transforma em detentores de capital humano (capacidades e
habilidades empregáveis), para que possam ser incorporados no mercado e
também fazer parte da democracia de proprietários. Até este ponto, o pós-
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neoliberalismo não se distancia em termos práticos da ortodoxia neoliberal que
inclui expressamente políticas direcionadas de “atenção à pobreza”, que
permanentemente aprofundam a desigualdade, mesmo que possam
temporariamente subtrair alguns da inanição. No entanto, o discurso da equidade
social-liberal apresenta o assistencialismo como um veículo para a afirmação da
autonomia individual e da criatividade intercambiáveis no mercado. Desse modo,
nasce uma nova concepção de "justiça na sociedade como equidade". John Rawls
é o mentor por excelência.
Em seus projetos-mestres, a estratégia pós-neoliberal para dissolver os
sujeitos populares da pugna distributiva também levanta outras linhas de ação
que questionam discursiva ou doutrinariamente as concepções liberais ou social-
liberais baseadas no indivíduo. Essas outras linhas de ação, ao contrário,
reivindicam o uso de organizações intermediárias (entre o indivíduo e o Estado)
para a gestão limitada da sobrevivência ou coexistência. E que, ao mesmo tempo,
são propostas como antídoto para o enfraquecimento dos mecanismos de
controle e governabilidade diante de expressões anômicas geradas pela dispersão
individualista. Esse aspecto da vasta estratégia para a estabilidade da dominação
se baseia nas orientações do projeto neoconservador elaborado nas décadas de
1970 e 1980 e que adquire a identidade “pós-neoliberal” nos anos 1990 com o
comunitarismo.
Em nome de “resgatar o indivíduo solitário do neoliberalismo e ir ao
encontro da comunidade perdida”, a reestruturação da sociedade é
complementada e legitimada pela gestação de um microcorporativismo
conservador de múltiplas funções: a) mantém os sujeitos populares dispersos da
pugna distributiva, não questiona a distribuição da riqueza, mas permite
administrar recursos limitados para a sobrevivência ou para a convivência: uma
espécie de pobreza acompanhada; b) torna a desigualdade invisível à imagem da
diversidade pluralista, envolto, entre outros, pelo manto do multiculturalismo; c)
não afeta as decisões do sistema político ou do Estado, mas é percebido como
“participação” e “empoderamento”. É o instrumento de coesão social ("capital
social") que pareceria impossível.
Se o social-liberalismo está associado a ações governamentais
“distributivas”, devido à sua retórica, o comunitarismo social-conservador está
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associado ao reinado da “sociedade civil”. Mas não com a sociedade civil liberal
de indivíduos, e sim com a sociedade civil de grupos e comunidades. Não mais
com “racionalidade instrumental”, mas com a “moralidade” e a “solidariedade”
grupal. Não mais com o horizonte pragmático do custo-benefício, mas com a
subjetividade do “reconhecimento”.
Pouca atenção é dada ao fato de que, no meio de sua poderosa retórica
filosófica, os comunitaristas sustentam que a teoria neoclássica, embora
reducionista, não foi superada (insuperável?) para manter os equilíbrios
necessários ao crescimento econômico, que deve ser complementado e nunca
negado. Mas a carga filosófica e sociológica da sua argumentação fez os
comunitaristas aparecerem como opositores categóricos do liberalismo, o que
aumenta sua eficácia ideológica para permear o campo das “alternativas”. E
permite que eles apareçam como pensamento crítico no campo das ciências
sociais, porque seu argumento aparentemente desloca o reino absoluto da
economia neoclássica com a reentrada da sociologia e da antropologia, das
matemáticas com os estudos culturais. O apelo a Durkheim e Karl Polanyi se
torna moda, e as elaborações de conservadores como Peter Berger, Robert
Putnam, Amitai Etzioni, Michael Novak ou Frances Fukuyama aparecem como
referentes de uma terceira via.
O comunitarismo conservador é apresentado como uma expressão de um
pós-modernismo nostálgico do pré-moderno (próximo aos tories ou aos velhos
whigs). Na América Latina, toma forma no solidarismo da doutrina social da
Igreja, no social-cristianismo: que reformula seus conceitos de “bem viver”, de
“função social da propriedade” (ou “responsabilidade social empresarial”), de
“preço justo” e outros, questionando o “liberalismo”, mas fundamentando a
moralidade do capitalismo; além de ser a Igreja oficial, protagonista central na
execução da estratégia comunitarista. É por isso que não é coincidência que a
fase de demolição “neoliberal” tenha sido realizada com Friedman, e que a fase
de estabilização “pós-neoliberal” se faça com Hayek.
Junto com o assistencialismo individualizado, na América Latina são
criadas múltiplas organizações comunitárias, que assumem a forma de
cooperativas e associações solidárias até universidades interculturais. Algumas
dessas organizações, como foi comprovado, cumpriram funções de contra-
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insurgência10. Esse mundo comunitário e solidário é cercado por uma rede de
“gestores” em que a classe média profissional encontra trabalho e renda, participa
da reestruturação da sociedade e se converte em um intelectual orgânico do
projeto.
Ao mesmo tempo, as concepções e práticas comunitárias conservadoras
cumprem um papel fundamental na reconfiguração do mundo do trabalho, por
exemplo, na implementação das formas toyotistas de produção e exploração: o
trabalho em equipe, com o autocontrole dos trabalhadores, em círculos de
controle de qualidade; aumento da produtividade através dos estímulos morais de
“reconhecimento” e “dar voz”; sentimento de pertencer à empresa, concebido
como uma “comunidade de trabalho e corresponsabilidade” em que todos estão
“associados”. Para esta reconfiguração das relações de produção e de trabalho, a
estratégia pós-neoliberal aceita e até promove entre as organizações
intermediárias um certo tipo de sindicalismo afim, “participativo” e “proativo”11,
que se encarrega de promover o aumento da produtividade e a assunção de parte
dos trabalhadores do interesse da empresa (do capital). Com isso, diante do
neoliberalismo ortodoxo que repudia o sindicalismo, o pós-neoliberalismo
aparece como progressista.
A flexibilização e precarização do trabalho, consubstancial à
contrarrevolução neoliberal, adota novas formas “comunitárias” que as ocultam e
legitimam; por exemplo, a constituição de cooperativas que realmente
descentralizam a produção da empresa-mãe, na qual a relação de trabalho e
exploração é ocultada pela ilusão de propriedade comum, facilitando a
autoexploração dos trabalhadores e a economia de despesas sociais ou isenções
fiscais ao capital. Empresas capitalistas registradas como cooperativas que
realmente terceirizam a produção de outras; ou “cooperativas” que são empresas
10 É o caso das Associaciones Solidaristas na América Central, estabelecidas por lei como uma
associação colaborativa entre empregadores e trabalhadores que proíbe explicitamente a
existência de um sindicato; Cooperativas Convivir de Colombia, origem de organizações
paramilitares; ou as recém-criadas Cidades Rurais em Chiapas, no México.
11 Refiro-me aos estudos fundamentais do brasileiro Ricardo Antunes sobre esse novo
sindicalismo. A partir de minha pesquisa, considero que os fundamentos ideológicos e práticos
que a caracterizam estão intimamente ligados à estratégia comunitarista conservadora para o
controle social e a gestação do consenso.
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capitalistas para a contratação precária de trabalho (maquila de nómina) e até
para fornecer “serviços sindicais”.
Este é o mundo das pequenas e médias empresas, promovido pelo pós-
neoliberalismo como uma alternativa de trabalho independente e horizontalidade
da comunidade, que em alta proporção é um instrumento para a insegurança no
emprego, indicando qual é o verdadeiro conteúdo da propaganda de que “PME
criam empregos”12 .
A utilidade do social
A “vocação social” do pós-neoliberalismo foi explícita nas modalidades
que adotou, desde cedo, como Economia Social de Mercado no Chile, com os
governos da Concertación desde 1990; como Estado social de direito na
Colômbia após a Constituinte de 1991; e como Liberalismo Social no México,
promovido por Carlos Salinas de Gortari desde dezembro de 1988 e formalizado
em 1992 como uma doutrina do governo. O Programa Nacional de
Solidariedade, de Salinas, apresentado em dezembro de 1988, foi um precursor
da reconfiguração pós-neoliberal da sociedade combinando assistencialismo e
organização comunitária, em perfeita harmonia com o solidarismo do Vaticano,
com quem o governo restabeleceu relações diplomáticas (rompidas desde 1867).
As distintas denominações dão conta da área prioritária para articular e legitimar
a estratégia, assunto muito interessante que não pode ser tratado aqui. E a esta
altura de nossa análise, já não deveria chamar a atenção para o fato de que esses
três casos paradigmáticos do pós-neoliberalismo inicial, de “vocação social”
explícita, tenham exibido uma poderosa capacidade de cooptar setores da
esquerda, para transformar a sociedade de maneira conservadora, e para
lubrificar a entrega da administração do estado à direita tradicional.
O “Estado social” pós-neoliberal, ao tempo de “reformar-se”, obteve o
apoio dos empresários que entenderam altruisticamente que, além de sua razão
“moral”, os gastos sociais têm uma utilidade econômica. O progressismo pós-
neoliberal tornou-se, assim, um grande negócio capitalista.
12 O presidente da Asociación Latinoamericana de Micro, Pequeña y Mediana Empresa, Francisco
dos Reis, na reunião de economistas de Havana, em março de 2010, reconheceu que a direita e o
capital têm “vencido e neutralizado” o setor.
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Os empresários fornecem os serviços sociais que o Estado não fornece
mais, mas financia, transferindo assim parte do fundo de consumo dos
trabalhadores e dos consumidores pobres – que não deduzem impostos –
diretamente para a acumulação de capital. Em algumas áreas, o Estado até
diminui seus gastos com o co-financiamento dos usuários ou clientes, como são
agora chamados, sob o critério de “corresponsabilidade”. O campo do social é o
que materializa a “associação Estado-mercado-sociedade” (o “lar público” de
Daniel Bell, o “terceiro setor”). Com essa associação, os pobres e as classes
médias financiam os extremamente pobres; o grande capital acumula legitimado
por seus serviços pelo “novo bem-estar”; e os governos ganham clientelas
eleitorais. Se produz o milagre que “todos ganham”, embora o capital esteja
concentrado e a desigualdade aumente. Esse é um dos fundamentos dos acordos
de “unidade nacional” recentemente impulsionados no Chile, pelo presidente
Sebastián Piñera, e, na Colômbia, pelo presidente Juan Manuel Santos. Outros
acordos tácitos de unidade nacional estão na agenda dos governos progressistas,
por exemplo, no Uruguai.
Uma seção especial exigiria a análise do local como espaço de articulação
das distintas esferas na estratégia pós-neoliberal. É o lócus da associação Estado-
mercado-sociedade; da “gestão social” de organizações não-governamentais; de
“participação” e de “empoderamento” comunitaristas e solidaristas. Viabiliza a
“descentralização” (desconcentração na realidade) do Estado que entrega à
provisão de funções sociais ao capital enquanto concentra as decisões
econômicas no Banco Central e no Ministério da Fazenda (o “bunker
hegemônico”, como tem caracterizado Jaime Osorio). É o espaço de menor
resistência para a acumulação pela desapropriação transnacional, batizado de
espaço “glocal”. É também, com todos esses componentes, a escola pós-
neoliberal, na qual a esquerda começa a aprender o novo sentido do público, da
“governança”, de um novo “estilo de governo”, que se aplicará nas áreas
nacionais quando triunfa eleitoralmente. A onipresença do financiamento por
parte do BID a projetos locais de governos progressistas é um indicador de seu
papel estratégico.
A importância do Estado e a reconfiguração do poder
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Tanto pelo seu apelo ao social quanto pela importância explicitamente
atribuída ao Estado, é que a estratégia de estabilização capitalista aparece como
pós-neoliberal. Para alguns, seriam as duas características típicas da social-
democracia. Ou de sua versão modernizada como Terceira Via, uma “nova
esquerda” com sua senha: “tanto mercado quanto possível, tanto Estado quanto
necessário”.
O Estado é um ator central como suporte institucional e material de todos
os aspectos da estratégia, fazendo uso intensivo de suas potestades coercitivas.
Este é o reino do neoinstitucionalismo. Este é conhecido principalmente pelas
funções governamentais multiplicadas para garantir a governabilidade por meio
de políticas públicas: governança para governabilidade. A good governance
traduzida como governança é medida pela sua eficácia em garantir o controle
social e criar um consenso ativo e passivo, e por transferir riqueza para o capital.
Mas quando falamos de neoinstitucionalismo, a função de estatal instituinte é da
maior importância, através do uso intensivo do direito positivo para converter a
estratégia de acumulação por despossessão em Estado de Direito. A
desapropriação é legalizada, tudo é feito dentro da Lei, e com um poder judicial
ativo que sanciona seu descumprimento.
O Estado “pós-neoliberal” enfatiza sua função subsidiária: por um lado,
financiar o capital – que não investe ou arrisca – com recursos novos, isenções e
privilégios fiscais, serviços gratuitos e infraestrutura, em uma modalidade de zona
franca permanente; por outro lado, oferecer todos os tipos de segurança jurídica e
política: contratos muito longos, garantias para a remessa de lucros para o
exterior, garantias de que não serão afetados por desapropriações ou disputas
trabalhistas, et cetera.
Esta função ativa do Estado a serviço do capital foi apresentada desde
1996 sob a fórmula de “pós-privatização” (Perry, Burki, 1998): parcerias público-
privadas. Eles operam em tudo: na construção de infraestrutura, nos serviços
sociais (agora também no ensino superior), na exploração dos recursos naturais.
Em relação a este último, o direito cumpre uma importante função que estabelece
a distinção entre direitos de propriedade e direitos de uso, permitindo a
exploração privada mesmo se a propriedade estatal é mantida sobre eles, seja
porque, por razões políticas, não foram privatizadas ou mesmo quando foram re-
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nacionalizadas. Nos últimos cinco anos, foram promovidas leis específicas de
parceria público-privada que, independentemente de cenários políticos,
institucionalizam permanentemente essa função de estado subsidiário; a
transferência de recursos públicos para a duração dos contratos,
independentemente de decisões parlamentares ou governamentais; e a
"nacionalização" legal do capital transnacional, que já não requer um recurso aos
órgãos internacionais de resolução de controvérsias.
Este é a trama institucional para o padrão predador, de acumulação
primária exportador extrativista, financeirizado, nas mãos do grande capital; que
se baseia em vastas monoculturas transgênicas, em mineração especialmente a
céu aberto, na exploração de energia como petróleo, gás, hidroeletricidade, na
expropriação da biodiversidade, e na construção de um sistema multimodal de
transporte e comunicação para baratear sua extração. Todas essas atividades
requerem o controle do território, com a desapropriação de povos, camponeses,
pequenos proprietários e comunidades indígenas, para as quais a militarização e
o paramilitarismo operam quando necessário. Este padrão extrativista está
conectado com a especulação financeira (assim como esta com as funções
“sociais”).
A esse serviço, as parcerias público-privadas também atingem aquelas que
foram definidas como esferas exclusivas do Estado no exercício do monopólio da
força. A segurança, que era uma função privativa do Estado, também é fornecida
pelo setor privado com financiamento público, na função policial, nas prisões e
nas funções militares.
Em países com governos progressistas, onde essas transformações
institucionais, a serviço do grande capital, são apresentadas como parte de um
“novo desenvolvimento” e do “interesse nacional”, suas implicações são
negligenciadas e se prioriza o “saldo positivo do modelo” na reativação
econômica de curto prazo: porque produz empregos temporários; onde os
impostos são exigidos, produz recursos fiscais para derrubar o assistencialismo
social; cria uma nova fração burguesa contratante com o Estado nos serviços
periféricos ao grande capital (que não é exatamente uma nova burguesia nacional
porque compartilha os objetivos do capital transnacional, do qual é satélite
econômico e ideológico), além de beneficiar um segmento profissional em tarefas
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técnicas, de marketing, administração e gestão. Por estrito interesse econômico,
esses segmentos e classes sociais dissimilares dão apoio político aos governos
“neodesenvolvimentistas”.
A imagem dos presidentes exercendo um poder bonapartista sobre todas as
classes, beneficiando todos e recebendo de todos sua adesão, qual personificação
da unidade nacional, longe de sugerir um momento de "equilíbrio estático
catastrófico entre forças com poder orgânico equivalente" (Gramsci)13, faz pensar
antes na subordinação ou absorção de uma das forças pela ou pelas outras. Deve-
se ter em mente que a estratégia pós-neoliberal avançou mais onde a esquerda foi
enfraquecida como uma força de horizonte anticapitalista e onde a
independência das organizações de classe popular foi enfraquecida; avançou
mais onde as conquistas e os direitos sociais e políticos foram mais destruídos ou
onde o empobrecimento impactou mais, e é da profundidade desse abismo que
as ações sociais dos governos brilham muito mais; deve-se também ter em mente
que as conquistas do pós-neoliberalismo são medidas pela elevação dos lucros
capitalistas e pelo aumento do conservadorismo na sociedade. Não é,
precisamente, uma equivalência de forças com o capital sobre as quais se coloca
por cima, como árbitro, o presidente.
Tanto nesses países “neodesenvolvimentistas” com governos progressistas,
como naqueles em que a estratégia é executada sem esse fardo discursivo, há
uma reconfiguração da sociedade e o exercício do poder capitalista com efeitos
de longo prazo, o que não podemos explicar com os conceitos tradicionais da
teoria política. Por um lado, rompe-se com os fundamentos do Estado liberal
moderno que formalmente estabelece, para sua universalização, a separação
entre o público e o privado; tanto é assim que o conceito de corrupção perde
significado. Não é só que não há autonomia relativa do Estado, mas é um novo
patrimonialismo com a qual o privado domina direta, aberta e legitimamente o
13 Sobre a conceituação de Antonio Gramsci de cesarismo ou bonapartismo, cf Gramsci, 1981,
p.65-68. Atualmente não estamos em um momento semelhante àquele, durante a Revolução
Mexicana, no qual Álvaro Obregón empreendeu reformas trabalhistas e deu espaços de poder
estatal aos trabalhadores da Confederação Regional de Trabalhadores do México (CROM),
organização que ele promoveu, para limitar a força dos sindicatos independentes, impondo
condições às diferentes frações da burguesia que queriam controlar o Estado, e aos Batalhões
Vermelhos do CROM para combater as tropas da Divisão Norte comandadas por Pancho Villa.
Esse equilíbrio de forças construiu Bonapartisticamente em troca da subordinação funcional do
CROM, pela qual os trabalhadores logo pagaram mais.
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público. Portanto, parcerias público-privadas não são sinônimo de economia
mista. Com o pós-neoliberalismo, estamos diante de uma espécie de Estado neo-
oligárquico transnacionalizado de direito, abertamente orientado para o grande
capital (transnacional), mesmo quando financia o social. Mantém o envelope das
formas liberais como eleições periódicas e três poderes, mas que são
subordinadas ao capital pelo "interesse nacional do desenvolvimento" (que é
desnacionalizante) e delimitadas pela juridização da política e da economia.
Em alguns de nossos países, esse Estado compartilha as características do
antigo Estado oligárquico, em que a classe que domina economicamente é
também a fração reinante no Estado – para usar um conceito de Poulantzas –
tanto nos partidos representados no parlamento como na alta burocracia. A
pergunta que deve ser feita é se, sob a estratégia pós-neoliberal, que tem como
eixo o controle da sociedade e da política, o Estado mudaria sua natureza porque
a fração reinante vem de outras classes ou grupos sociais. A democratização do
regime político ou as mudanças de pessoal no aparato estatal não são suficientes
para analisar o balanço de poder, sem ignorar a importância que eles podem ter
para modificar o poder do capital.
Estamos também enfrentando uma reconfiguração da dominação em
termos de mediações sociais, que existem. Em vários dos nossos países, as
mediações tradicionais foram destruídas nas relações políticas de classes, mas
outras mediações foram construídas para a governabilidade. Embora sejam muito
diferentes das clássicas, se produzem governabilidade, isso significa que não é
um "estado falido", como o Estado mexicano tem sido caracterizado
falaciosamente. As políticas assistencialistas desempenham um papel de
mediação. A legitimação do poder também é feita através da questão da
segurança: a insegurança é induzida e explorada para validar o exercício da força
pública e privada. Novos inimigos foram construídos, alguns muito difusos, não
apenas o chamado terrorismo que também alude às lutas sociais contra a
despossessão capitalista, mas também, por exemplo, epidemias. No México, a
população do Distrito Federal, a mais crítica e politizada do país, em abril de
2009, voluntariamente se submeteu ao estado de sítio pela AH1N1. A
manipulação da insegurança é feita sob os fundamentos de uma nova doutrina de
segurança nacional garante dos direitos do capital, agora civil ou democrática.
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Que dá novamente as forças armadas um papel protagonista e de liderança na
defesa da ordem capitalista, apesar do fato de que nas democracias elas teriam
supostamente retornado para seus quartéis.
A “mudança de época” que foi proclamada como caracterização do novo
momento latino-americano aludia também a um enfraquecimento imperialista na
região. Apesar de estarmos em um momento incomparável na história da América
Latina devido ao número de expressões governamentais de maior distância do
governo dos Estados Unidos, há também uma necessidade de rever as avaliações
que foram feitas nos últimos anos sobre os graus de subordinação ou autonomia
em relação ao imperialismo, pensados apenas pela diplomacia. A partir dos
reducionismos analíticos sobre o imperialismo, ultimamente concebidos apenas
como uma relação de dominação de um Estado sobre outro, perdeu-se de vista o
fato de que o imperialismo é essencialmente o domínio molecular do capital
financeiro (com isso quero dizer a fusão potencializada de todas as suas formas
de reprodução e concentração), que utiliza o poder de seus Estados para sua
penetração territorial, para a exportação de capital, mercadorias e tecnologia,
para a apropriação das riquezas naturais e da mais-valia. Visto desta maneira, o
“neodesenvolvimento” não implica uma diminuição do poder imperialista, mas o
contrário. O peso internacional e geopolítico das “economias emergentes” (como
o Brasil em nossa região) também tem a ver- embora não somente – com o capital
transnacional se expandindo através de associações e fusões que se triangulam a
partir desses espaços geográficos e apoios estatais; através do qual muda a sua
"bandeira", o que facilita a negociação política e o uso de prerrogativas
multilaterais regionais.
Um Ponto de Chegada
Sustento a tese de que estamos testemunhando um ponto de chegada na
estratégia dominante promovida por 20 anos para estabilizar e legitimar a
reestruturação capitalista, cujo objetivo foi transformar a América Latina em um
espaço vantajoso, seguro e estável para a reprodução do capital; portanto, um
espaço para a estabilização do capitalismo, em crises cada vez mais frequentes.
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Com exceção de alguns países como o México, a região se destacou por
“resistir” melhor ao ataque da crise que eclodiu em 2008. Beneficiou-se do
aumento dos preços das matérias-primas e da energia que exporta. Em alguns
países com governos progressistas, as maiores mediações políticas e as pressões
eleitorais pressionaram esses governos a manter o ritmo dos “gasto social”, o que
mitigou os efeitos das crises sobre trabalhadores e consumidores pobres; embora,
se constate aumento de renda, a situação não melhorou no saldo da distribuição
de riqueza, que continua concentrada14. O aumento do consumo individual, em
quase todos os países, está sobretudo com endividamento. A fim de conter a
queda do crescimento, os megaprojetos de infraestrutura e o investimento
transnacional nas atividades de exportação extrativista se intensificaram em todos
os países. O grande beneficiário desses sucessos conjunturais foi e continua a ser
o grande capital transnacional, seja de origem externa ou com “sementes
crioulas” (empresas translatinas), com efeitos benéficos para seus parceiros locais
e para as frações da classe média periférica. Eles são os sucessos usados como
endosso às orientações atuais, mas essas brisas frescas incitam tempestades
severas.
A reconfiguração do poder capitalista em nossa região é acompanhada
pela gestação de uma nova hegemonia burguesa. Isso é expresso na legitimação
do neo-desenvolvimento transnacional, que é como eu prefiro chamá-lo; na
legitimação de uma concepção do Estado como suporte material e institucional
para esse neo-desenvolvimento transnacional; e na legitimação de uma
reestruturação social em nome de um “novo bem-estar”, que não se baseia em
direitos coletivos universais, mas na peculiar igualdade de oportunidades que
descrevemos. Essas tendências e suas ideias hegemônicas são muito mais visíveis
onde governa a direita e em alguns países com governos progressistas, mas
pressionam para se impor também onde a esquerda governa. Até que ponto eles
conseguiram isso, é uma medida da disputa do projeto.
14 Embora a Venezuela ainda dependa da extração de petróleo, ela não segue a lógica ou a
estratégia "pós-neoliberal" nos termos descritos, sendo observadas melhorias na redistribuição da
riqueza para maiorias: o Coeficiente de Gini (distribuição de renda) passou de 0,4865 em 1998
para 0,3898 em 2010, segundo o Instituto Nacional de Estatística, colocando a Venezuela como o
país com a menor desigualdade na região (exceto Cuba).
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Uma manifestação dessa nova hegemonia burguesa é que, no período de
maior crítica e interpelação do capitalismo por seus efeitos devastadores sobre a
humanidade e o planeta, na América Latina se pensa fundamentalmente do ponto
de vista do capital. Em muitos casos, pensa-se do ponto de vista do capital
também quando se fala em socialismo. Isso não surpreenderia no século XIX,
quando o socialismo era entendido como o próprio movimento do capitalismo
com algumas reformas sociais, nem surpreenderia Schumpeter, que esperava que
um “socialismo responsável” garantisse o desenvolvimento suave do capital. Mas
terá que nos fazer refletir sobre as metamorfoses do chamado pensamento crítico.
Em particular, sobre a influência efetiva do “pós-neoliberalismo” na definição de
alternativas.
Novas Perguntas
A função do “pós-neoliberalismo” para a estabilização e legitimação da
reestruturação (neoliberal) do capitalismo justifica perguntar se faz sentido
estabelecer uma diferenciação entre o pós-neoliberalismo e o neoliberalismo,
uma vez que seus objetivos são os mesmos. O problema que enfrentamos vai
além, assim como a pergunta anterior, devemos nos perguntar se é conceitual e
descritivamente apropriado continuar falando sobre o neoliberalismo, ou sob
quais precisões. Uma vez que o "neoliberalismo" não constitui uma categoria de
análise ou um conceito com eficácia descritiva invariante, e ao longo de seus
vários usos, a ofensiva hegemônica dominante foi montada.
Como apontei em um artigo de 200915, o pós-neoliberalismo é para o
neoliberalismo, como são as “reformas” empreendidas pelo capitalismo para
estabilizar suas “revoluções” (contrarrevoluções) ou reestruturações. Faz parte de
sua consolidação, mas não é idêntico nos meios e, acima de tudo, em
argumentos doutrinários.
A “reforma” estabilizadora pós-neoliberal é feita apelando à oposição em
uma tríade, o que permite que ela se apresente como o “terceiro progressista”. É
uma revolução passiva que recolhe discursivamente as demandas dos oponentes
15 Beatriz Stolowicz, “El debate actual: posliberalismo o anticapitalismo” (2009), em A
contracorriente de la hegemonia conservadora (2012).
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do neoliberalismo, expropria sua linguagem, esvaziando-a de seu conteúdo
transformador. O pós-neoliberalismo assume a “crítica do neoliberalismo” para
“corrigi-lo”, ao mesmo tempo rejeita o marxismo e apresenta como progressistas
elaborações neoconservadoras. O grave é que os argumentos e ações “anti-
neoliberais” elaborados pelo neoconservadorismo podem ser confundidos com o
discurso e com algumas das práticas historicamente associadas às aspirações
emancipatórias, e avançaram na desnaturação de algumas de suas formas
organizativas, seus conteúdos e objetivos. Não apenas os neutralizam, mas os
transformam em engrenagens da hegemonia dos dominantes.
O neoliberalismo e o pós-neoliberalismo não são sucessivos movimentos
pendulares de correção em excesso para recuperar o equilíbrio (como
"progresso"), como formulado pela teoria do pêndulo elaborada a partir do
capitalismo para explicar seu devir. Essa “teoria” esconde o fato de que após cada
correção há uma maior concentração e centralização de capital, o que cria
contradições e crises. A tarefa incessante da reprodução capitalista é derrubar ou
iludir as “barreiras” que o próprio capital impõe. Em certos momentos, ao fazê-lo,
produziram reestruturações que qualitativamente modificam toda a reprodução
capitalista. Este não é o caso.
Nos Grundrisse, Marx apresentou essa ideia, que sintetizei no citado
trabalho de 2009, e que reproduzo extensivamente para sustentar meu
argumento. Marx considerou o capitalismo como uma "força destrutiva" de tudo o
que o limita, portanto “revolucionário”, que derruba todas as barreiras que se
apresentam: natureza, territórios, necessidades humanas, leis, costumes. “Pela
primeira vez, a natureza se torna puramente um objeto para o homem, em uma
coisa puramente útil; deixa de ser reconhecido como um poder para si mesmo;
mesmo o reconhecimento teórico de suas leis autônomas aparece apenas como
uma artimanha para sujeitá-lo às necessidades humanas, seja como objeto de
consumo ou como meio de produção”. E ironicamente ele reafirmou assim:
“Hence the great civilising influence of capital” (“Eis a grande influência
civilizadora do capital”). Mas essas barreiras não são realmente superadas –
prossegue – porque, com sua expansão universal, os capitais as reintroduzem,
com novas contradições: “A universalidade a que ela [força destrutiva do
capitalismo] tende incessantemente encontra obstáculos em sua própria natureza,
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que em certa etapa do desenvolvimento do capital será reconhecido como a
maior barreira para essa tendência”. A tendência à superprodução de crises é
inerente à natureza do capital para “pular as barreiras”, porque precisa
constantemente de “mais-trabalho”, “mais-produtividade” e “e mais-consumo”.
Mas o mais-consumo está em contradição com o mais-trabalho que cria mais-
valia: o capitalista vê os outros assalariados como consumidores, mas ele procura
reduzir o trabalho necessário dos seu e, com isso, seu fundo de consumo. O
capital quebra permanentemente “as proporções” devido à “coerção à qual o
capital alheio a submete”, isto é, a concorrência. O consumo insuficiente do
produto excedente significa que essas forças produtivas são supérfluas. Por isso, a
tendência expansiva do capital é um constante "colocar e tirar forças produtivas":
a "tendência universal" do capital é colocá-las no lado da oferta (troca livre), e
isso é confrontado com a "limitação particular" do consumo insuficiente do
produto excedente, que procura extrair forças produtivas, “colocar um freio nas
barreiras externas e artificiais, através de costumes, leis, etc.” (ou regulamentos
como é dito atualmente). Mas o capital procura quebrar essas barreiras
novamente e recria as forças produtivas supérfluas (desvalorização) e, mais uma
vez, tem que enfrentar uma “disciplina que é insuportável, nem mais nem menos
que as corporações". Por esta razão, Marx diz: "ao contrário do que dizem os
economistas, o capital não é a forma absoluta do desenvolvimento das forças
produtivas” (Marx, 1971, pp.362-367 e 402).
Nessas décadas, o capitalismo demonstrou capacidade de derrubar ou
escapar de barreiras, o que fez com o pragmatismo e a flexibilidade, combinando
práticas que são justificadas a partir de distintos aspectos doutrinários ou teóricos
do pensamento burguês. A estratégia pós-neoliberal tem buscado eliminar as
barreiras políticas, sociais, institucionais e de “criação do espaço”16, abrindo
caminho para que o capital avance sem obstáculos. Assim, cada êxito “pós-
neoliberal” permite um avanço “neoliberal”, não é a rigor um “retorno” ao
16 Em um livro também publicado em 2009, que acaba de chegar às minhas mãos, David Harvey
analisa a atual dinâmica capitalista abordando também o tema da eliminação ou evasão de
“barreiras” e as novas que ele vem colocando na busca de um crescimento médio de 3 por cento,
apontando especificamente para as ambientais, de mercado, de lucro, de reconfiguração espacial
da geografia da produção. Isso inclui tanto o acesso a matérias-primas e mão-de-obra barata,
como novos espaços para o Estado financiar o capital e estabelecer mecanismos institucionais
para garantir o fluxo e a acumulação de capital, Cf. Harvey, 2009.
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neoliberalismo. Daí a confusão que provoca a simultaneidade de discursos
aparentemente opostos.
À primeira questão sobre se faz sentido diferenciar o pós-neoliberalismo
do neoliberalismo, é possível responder que, se partirmos da reprodução
capitalista (exploração-espoliação-dominação) como unidade de análise, não
seria necessário lidar de maneira particular com suas diferenças discursivas ou
táticas, que fazem a totalidade complexa da reprodução capitalista. Mas, dada a
função do pós-neoliberalismo na revolução passiva na América Latina, não
podemos ignorar as especificidades que favorecem o reforço da hegemonia dos
dominantes. A verdade é que esta primeira questão tem seu próprio reverso: se os
objetivos neoliberais são realizados com ações e concepções que formulam
críticas ao liberalismo e à teoria neoclássica que é consubstancial a ele, até que
ponto é conveniente continuar falando sobre o “neoliberalismo”, pelo menos nos
termos com os quais é feito hoje.
O terreno analítico é minado pelas diferentes definições de
“neoliberalismo” baseadas em políticas econômicas ou postulados doutrinários.
Elas ofuscam a caracterização do neoliberalismo como a contrarrevolução
capitalista que visa derrubar como principal barreira o poder relativo alcançado
pelo trabalho versus capital e o declínio na taxa de lucro, para o qual teve que
demolir também as barreiras do espaço, políticas, institucionais e culturais, a fim
de restaurar um poder de classe ilimitado dos capitalistas. Já são quatro décadas
de demolição-reestruturação com esse objetivo. E como estamos vendo com o
manejo da crise capitalista, por enquanto não se vislumbra uma forma de
reprodução capitalista distinta. A maior concentração e centralização de capital
que já ocorreu nesses anos de crise colocará de forma potencializada novas
barreiras ambientais, energéticas, de matérias-primas, de consumo, de lucro, de
produção geográfica do capital etc., como afirma Harvey. Para derrubá-los ou
driblá-las, o capital exigirá maior subordinação e dependência da América Latina,
gerando maiores contradições sociais e políticas e um previsível conflito
crescente. Isso em si mesmo será uma nova barreira para derrubar ou iludir pelo
capital. Soluções de força estão na ordem do dia, e aí está a militarização de
nossa região, não só pelos Estados Unidos, mas também pelos exércitos nacionais
sob uma nova doutrina de segurança nacional civil.
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Mas não sabemos de que outras formas as forças do capital procurarão
eliminar ou iludir as novas barreiras. O que aconteceu nessas décadas não
autoriza subestimar a capacidade da classe dominante de encontrar maneiras de
fazê-lo. Isso coloca sérios desafios para detectar tais “inovações” no tempo, a fim
de reduzir a distância entre os processos socio-históricos e sua interpretação
adequada para aumentar a resistência e o avanço de nossos povos.
As duas últimas décadas devem nos ensinar que a conservação do
capitalismo é perseguida com uma diversidade de fontes doutrinárias e teóricas, e
que, nesse sentido, não existe um “pensamento único”. Também é útil assimilar
que os objetivos capitalistas compartilhados são realizados de diferentes
maneiras, o que requer um estudo concreto e permanente da realidade concreta.
A pregação ética não é suficiente. Mas para que essas formas sejam inteligíveis
como mecanismos de dominação, não se pode perder de vista os processos
profundos que as demandam, articulam e modificam; isto é, a unidade de análise
deve ser a reprodução capitalista e o anticapitalismo como um horizonte
epistêmico e político. Este é o que pode finalmente evitar as limitações
contestatórias (em resposta a uma iniciativa dominante permanente), inerentes à
falta de um horizonte próprio. Só assim teremos a base da contra-hegemonia, e
não apenas uma crônica do que já aconteceu.
Quando se fala em gestar contra-hegemonia, também é necessário
repensar seu alcance e conteúdo. Não se trata mais apenas de superar as
concepções das elites econômicas, políticas e intelectuais, ou do individualismo
em suas diferentes manifestações. A hegemonia dos dominantes é também
realizada através da manipulação de formas de organização e práticas populares
“anti-liberais”, com formatos semelhantes aos objetivos emancipatórios, mas de
conteúdo e objetivos de subordinação. O esforço contra-hegemônico pode
produzir rispidezes que não contemplamos há muito tempo.
Assumir que estamos diante de um ponto de chegada bem-sucedido da
estratégia dominante complexa e lúcida não é uma opção para o pessimismo,
mas uma condição para não desperdiçar as possibilidades de disputa de projetos
que foram abertos na região pelas lutas populares.
Referências
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213
DOI: 10.21057/10.21057/repamv14n2.2020.26927
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O “Pós-Neoliberalismo” e a Reconfiguração do Capitalismo na América Latina
Resumo
Hoje causa perplexidade que a direita tenha conquistado apoio entre setores populares e de classe
média na América Latina, mesmo em países onde governos de esquerda e centro-esquerda
melhoraram sua renda e suas condições de vida. Mas o avanço de ideias e práticas sociais
conservadoras não é tão recente, nem surgiu por geração espontânea. Há 10 anos fiz o alerta –
como pode ser visto neste artigo agora publicado em português – que a estratégia dos dominantes,
implantada desde a década de 1990 para estabilizar a reestruturação capitalista, vinha tendo
sucesso na construção de uma nova hegemonia burguesa. A estratégia dominante ganhou
legitimidade porque foi apresentada como “anti-neoliberal” ou “pós-neoliberal”, após ter imposto
uma noção falsificada sobre o “neoliberalismo” e depois de se apropriar do léxico do chamado
pensamento crítico. A estratégia estabilizadora teve como um de seus eixos uma profunda
reconfiguração da sociedade, apresentando-se como ideias e políticas “progressistas” elaboradas
pelo neoconservadorismo desde os anos 1980. Esse “pós-neoliberalismo” elaborado a partir do
sistema influenciou governos de esquerda em diferentes graus, mas se tornou o “mainstream” nas
ciências sociais na América Latina.
Palavras-chave: Pós-neoliberalismo – Reestruturação capitalista – Reconfiguração do Estado e da
sociedade
El “Posneoliberalismo” y la Reconfiguración del Capitalismo en América Latina
Resumen
Hoy produce perplejidad que la derecha haya conquistado apoyos entre sectores populares y de
clase media en América Latina, incluso en países donde gobiernos de izquierda y centroizquierda
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habían mejorado sus ingresos y condiciones de vida. Pero el avance de las ideas y prácticas
sociales conservadoras no son tan recientes ni han surgido por generación espontánea. Hace 10
años hice la advertencia –como se observa en este trabajo que ahora se publica en portugués– de
que la estrategia de los dominantes desplegada desde la década de 1990 para estabilizar la
reestructuración capitalista estaba mostrando éxitos en construir una nueva hegemonía burguesa.
La estrategia dominante ganó legitimidad porque fue presentada como “anti-neoliberal” o “post-
neoliberal”, tras haber impuesto una noción falsificada sobre el “neoliberalismo”, y tras apropiarse
del léxico del llamado pensamiento crítico. La estrategia estabilizadora tuvo como uno de sus ejes
una profunda reconfiguración de la sociedad, presentando como “progresistas” ideas y políticas
elaboradas por el neoconservadurismo desde los años 1980. Ese “posneoliberalismo” elaborado
desde el sistema influyó en grados distintos sobre los gobiernos de izquierda, pero llegó a ser el
“mainstream” en las ciencias sociales en América Latina.
Palabras clave: Posneoliberalismo – Reestructuración capitalista – Reconfiguración Estado y
sociedad
“Post-Neoliberalism” and the Reconfiguration of Capitalism in Latin America
Abstract
Today it is perplexing that the right wing has won support among popular and middle class sectors
in Latin America, even in countries where left and center-left governments had improved their
income and living conditions. But the advance of conservative social ideas and practices are not
so recent nor have they arisen by spontaneous generation. 10 years ago I made the warning - as
can be seen in this paper that is now published in Portuguese - that the strategy of the dominant,
deployed since the 1990s to stabilize capitalist restructuring, was showing success in building a
new bourgeois hegemony. The dominant strategy gained legitimacy because it was presented as
“anti-neoliberal” or “post-neoliberal”, after having imposed a falsified notion about
“neoliberalism”, and after appropriating the lexicon of so-called critical thinking. The stabilizing
strategy had as one of its axes a profound reconfiguration of society, presenting as “progressive”
ideas and policies elaborated by neo-conservatism since the 1980s. That “post-neoliberalism”
elaborated from the system influenced left governments to different degrees , but it became the
“mainstream” in the social sciences in Latin America.
Keywords: Post-neoliberalism – Capitalist restructuring – Reconfiguration State and society.
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Recebido: 31-05-2020
Aprovado: 06-11-2020
O Estado como Forma e como Limite: contradições das
esquerdas na América Latina, em especial na Venezuela e no
Brasil
Vladimir Puzone1
A atual conjuntura nos países da América do Sul é marcada pela queda
dos assim chamados governos progressistas e a ascensão de grupos de extrema-
direita, como no Brasil e na Bolívia, ou o retorno de grupos políticos dominantes,
como no Uruguai. Junte-se a eles as disputas entre a herança do chavismo com
Nicolás Maduro na Venezuela e as sucessivas tentativas de golpe, o que configura
crises políticas que se arrastam há anos. Entram em cena administrações que
enfatizam o mercado como regulador da vida social ou o uso de aparato
repressivo para conter protestos.
As causas para essa derrocada ainda estão sendo discutidas. Algumas delas
remetem às expectativas dos governos progressistas em torno de uma retomada
das perspectivas estatais e das transformações sociais movidas ou agenciadas por
ele. A despeito das diferenças entre aqueles governos – uns de tom mais radical,
como foram os casos da Venezuela, do Equador e da Bolívia; outros de cariz mais
consensual e reformista, casos do Brasil, Argentina e Uruguai –, pode-se dizer que
em todos eles o estado foi peça central nas mobilizações. Mesmo em países como
a Bolívia e Equador, em que os movimentos indígenas se caracterizam por maior
autonomia, as instituições parlamentares e estatais funcionaram como centro de
gravidade dos conflitos políticos.
A presença do estado nesses governos esteve relacionada àquilo que se
denominou de “pós-neoliberalismo”, pois representaram vitórias eleitorais
1
Bolsista PNPD/CAPES e pesquisador colaborador pelo Departamento de Sociologia da
Universidade de Brasília. Contato: vfpuzone@[Link]
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assentadas em uma longa trajetória de protestos e mobilizações contra políticas
neoliberais. Desde o Caracazo em 1989 até a ascensão do antigo líder sindical
Evo Morales à presidência na Bolívia em 2005, as manifestações de trabalhadores
e grupos subalternos se voltaram contra as medidas nos anos 1990 que
aprofundaram processos de exclusão e aumento da desigualdade social. A partir
da eleição de Hugo Chávez em 1998, parecia que as normas do “Consenso de
Washington” seriam revertidas em favor das camadas mais empobrecidas das
populações dos países da região. No entanto, a sequência dos governos pós-
neoliberais passou a ser contestada por parte dos movimentos e organizações
populares que estiveram no centro das rebeliões contra a piora nas condições de
vida impostas pela implementação neoliberal. Isso foi o ensejo para que
discussões em torno da caracterização dos governos “pós-neoliberais”
questionasse a validade da expressão e a suposta contraposição deles em relação
ao neoliberalismo (Svampa, 2019; Machado e Zibechi, 2016; Stolowicz, 2012;
Dilger, Lang e Pereira Filho, 2016; Santos, 2018).
Muitos autores indicaram que esse modelo econômico não foi capaz de
modificar os padrões de acumulação do capital na região e, portanto, reverter
processos de dependência e subordinação aos centros da economia mundial
(Carcanholo, 2015). A expansão do setor primário, estimulada pela demanda
chinesa no início dos anos 2000, mostrou não só as fragilidades do modelo de
desenvolvimento adotado por muitos dos países sul-americanos. Tão importante
quanto o reforço de padrões de acumulação, que já vinha se observando desde as
ditaduras militares, especialmente os processos de desindustrialização e
especialização rebaixada na divisão do trabalho internacional, a ênfase nas
atividades extrativistas acentuava a relação predatória com a natureza
característica desde a conquista territorial e o massacre dos povos originários a
partir do século XVI (Svampa, 2019; Mantovani, 2014). O modo de vida de
comunidades locais é suprimido, em um processo que contribui para uma
expansão da pura sobrevivência da força de trabalho e, portanto, recriando
condições para a acumulação capitalista (Fontes, 2010, pp. 21-98). Ao mesmo
tempo, durante a expansão das atividades primário-exportadoras, diferentes
setores capitalistas obtiveram lucros crescentes, integrando parcelas de
trabalhadores precarizados aos circuitos da expansão econômica baseada no
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extrativismo e na financeirização (Gago, 2018). Para tanto, o estado funcionou
como elemento mediador fundamental. Depois de um período de
desregulamentações nas décadas de 1980 e 1990, e que resultou nos levantes
mencionados anteriormente, as vitórias das esquerdas sul-americanas significaram
um retorno do estado enquanto agente central na modernização capitalista
(Stolowicz, 2012, pp. 13-38). Temos aqui outro dos motes caros aos
progressismos: a oposição entre mercado e estado, ou ainda, entre neoliberalismo
e ação governamental.
Aparentemente, trata-se de uma percepção correta, já que os governos
progressistas realizaram uma série de investimentos em obras de infraestrutura e
deram apoio estatal a empresas, além, é claro, dos gastos públicos em benefícios
sociais. Essa impressão parece ainda mais correta se contrapusermos tais
investimentos públicos com as privatizações e desregulamentações operadas
anteriormente. Contudo, a oposição entre estado e mercado opera com uma
simplificação, como se o primeiro antagonizasse com o segundo.2 No centro
dessa confusão estão o estado e as suas tarefas nas sociedades capitalistas
periféricas. A contestação à ideia de que o neoliberalismo se opõe à atuação do
estado destaca algumas contradições na atual política estatal, especialmente se
levarmos em conta que o padrão de acumulação foi cada vez mais aprofundando
a reprimarização da economia. Os gastos sociais, por exemplo, foram feitos não
pela ampliação de direitos universais (como direito à moradia, transporte,
educação e saúde públicas e gratuitas). Diferentemente, os benefícios pagos
atrelaram-se à ampliação do crédito às camadas mais empobrecidas dos
trabalhadores, o que resultou nas possibilidades de ampliação dos ganhos dos
setores financeiros.
O estado pode ser tomado, então, como um dos aspectos centrais da
análise sobre os destinos dos governos progressistas, a partir do qual surgem
2
De acordo com Cortés (2012, p. 95), a expressão “retorno do estado” é mal formulada, uma vez
que ele esteve o tempo todo aí. O que saiu de cena foi sua face ligada ao bem-estar: “está
amplamente demonstrado que as políticas neoliberais supuseram um potente exercício do poder
estatal”. Por sua vez, Osório (2014, pp. 222-3) mostra que os aspectos mais visíveis do estado,
como os gastos públicos e o tamanho do aparato estatal, foram colocados em segundo plano com
o neoliberalismo. Contudo, seria preciso prestar atenção para seus aspectos “invisíveis”, isto é,
como formas de intervenção social mais restritas com relação às camadas mais empobrecidas das
populações da região se apoiaram em formas de gestão estatal. (Todas as traduções de citações
em espanhol são de minha responsabilidade).
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algumas questões. Por que o estado é visto como o instrumento principal de
transformações substantivas na vida dos indivíduos? Quais são as implicações
dessa representação para as práticas políticas, tanto em nível institucional como
fora dela, especialmente para as possiblidades de organização autônoma dos
trabalhadores e subalternos? O presente texto toma essas indagações como ponto
de partida. Farei aqui uma conexão sucinta entre o estado como forma política e
da sociabilidade burguesa, por um lado, e as limitações dos grupos e partidos de
esquerda em países como Venezuela e Brasil, por outro.
Inicialmente, o artigo examina brevemente o estado enquanto forma
específica mediante a qual os indivíduos são socializados nessas sociedades e
como seus conflitos e antagonismos são contidos no interior dessa forma. Ele não
pode ser entendido como instituição isolada dos conflitos sociais e de classe, e
nem dos processos de acumulação do capital. Ao contrário, seus traços
fundamentais devem ser entendidos em correspondência com as características
fundamentais das sociedades capitalistas. Mostrarei na sequência da exposição
como as determinações do estado enquanto forma política e de socialização têm
de ser analisadas a partir das particularidades históricas das sociedades latino-
americanas e, sobretudo, mediante o exame da configuração do capitalismo na
região. Esse constitui, a meu ver, um passo necessário para se entender por que o
estado aparece muitas vezes como instituição capaz de resolver as desigualdades
sociais, ou ao menos reduzi-las substancialmente. Tal expectativa aponta para
uma ambivalência fundamental quando se fala do estado nos países latino-
americanos. Diante da exclusão e da desigualdade social, ele pode despontar em
determinados momentos como meio de ascensão social e melhoria nas condições
gerais de vida. Em paralelo, ocorre uma limitação dos horizontes de
transformação de trabalhadores e subalternos, que passam a ver no estado a
forma última de acomodação e resolução dos conflitos. A maneira como suas
vidas são produzidas e reproduzidas continua a ser opaca. Em contrapartida,
pelas limitações mesmas da configuração das sociedades burguesas por aqui, o
estado também aprofunda os processos de controle dos explorados e dominados
de maneira violenta.
Feitas tais observações, passarei à comparação entre esquerdas na
Venezuela e no Brasil com o intuito de examinar em que medida as crises
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políticas se ligam às suas limitações, especialmente suas organizações e partidos
mais bem estruturados, e sua conformação aos horizontes de transformação
circunscritos pelo estado. Apesar dessas diferenças, há algumas similitudes
quando se observam as crises em ambos os países. Em especial, trata-se de
mostrar que a gravitação de seus respectivos movimentos e organizações de
trabalhadores e subalternos em torno do estado é um elemento importante para se
compreender os golpes e a tentativas de golpe para retirar partidos e grupos de
esquerda, além do uso da violência policial e militar. É preciso, então,
compreender por que as esquerdas e os movimentos e organizações dos
trabalhadores e subalternos se encontram atualmente em posições defensivas e
por que isso se relaciona às limitações perante o estado. O artigo também
pretende contribuir para uma discussão a respeito das dificuldades tanto das
esquerdas brasileiras quanto venezuelanas (e das sul-americanas, em geral) para
formular alternativas aos cenários em que crescem antigos e novos
reacionarismos.3
Excurso sobre Estado e Forma Social
Dizer que o estado se configura como um modo particular em que as
relações de antagonismo próprias às sociedades burguesas se ajustam não
significa negar que ele seja utilizado a favor das intenções de determinados
grupos. Embora possa ser uma característica do estado, ela não descreve seus
traços fundamentais (Heinrich, 2012, p. 202 e ss.). Trata-se de avaliá-lo como
uma forma específica, mediante a qual as classes (e outros grupos sociais
atravessados por nexos de dominação) relacionam-se umas às outras e
reproduzem tais relações. Uma vez que os indivíduos nas sociedades capitalistas
tendencialmente devam se constituir enquanto proprietários privados
formalmente iguais, o uso direto de força nas relações de dominação solaparia tal
3
Não é intenção deste artigo fazer uma comparação exaustiva entre formas de organização de
trabalhadores e subalternos, assim como formas de democracia participativa que existiram nos
dois países nas últimas décadas – algo que extrapola em muito as pretensões do presente texto. Na
verdade, trata-se mais de um panorama que examina as relações entre alguns traços particulares
do desenvolvimento do capitalismo nos dois casos, as maneiras como seus respectivos estados se
configuraram em meio àquele desenvolvimento e como grupos e organizações de extração
popular pautaram suas ações a partir desse quadro. Para uma comparação entre instituições
participativas nos dois países, os textos de Amorim (2015) e Silva (2016) são bastante instrutivos.
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igualdade. Consequentemente, o estado não pode agir defendendo interesses
particulares, mas aparentemente como uma força independente. Não por acaso, o
funcionamento das instituições políticas, especialmente das decisões tomadas nas
democracias liberais, é expressão daquela igualdade. Se todos os indivíduos são
formalmente iguais, mas não podem definir de forma associada como se dará a
produção e a reprodução de suas vidas, então a política deve funcionar mediante
sufrágio universal e eleger representantes que tomarão decisões em seu lugar. Ao
mesmo tempo, o estado deve garantir as condições para a acumulação do capital,
que não podem ser estabelecidas pelos capitais individuais – tais como
investimentos em infraestrutura necessária à produção e circulação de
mercadorias ou a regulação da competição.
Pode-se entender as leis trabalhistas também como essa imposição dos
interesses gerais da acumulação capitalista em relação aos interesses e vontades
dos capitalistas individuais. Se dependesse destes, a exploração de trabalhadores
deveria esgotar ao máximo suas forças, exaurindo-as física e mentalmente e, por
conseguinte, solapando as próprias bases da acumulação. Nesse sentido, o estado
não é apenas uma forma que garante condições da produção global do capital.
Ela também contém em si as possiblidades de acomodar as reivindicações dos
explorados e dominados – o que significa dizer que ele não é apenas um
aparelho que media relações de exploração e dominação. Essas mesmas relações
chocam-se com a resistência de trabalhadores e subalternos e, por vezes, suas
demandas e conflitos também encontram expressão nas instituições estatais –
ainda que as instituições políticas das sociedades capitalistas contribuam
decisivamente para a desorganização dos subalternos, incluindo sua repressão.
Assim, as lutas no interior do estado não são uma mera ilusão, isto é, não
se pode limitar a crítica às suas pretensões universais e concebê-las como simples
ideologia (Demirovic, 2014). Apesar da crítica, os conflitos entre os indivíduos na
sociedade burguesa continuam a assumir a forma do estado. Trata-se, então, de
mostrar as razões disso, a partir de uma aproximação entre a teoria do fetichismo
e análise da forma estado. Este funciona à revelia das vidas da maioria dos
indivíduos e de suas decisões nessa sociedade. Num plano mais profundo, essa
forma política de socialização corresponde ao fato de que só podem satisfazer
suas necessidades de modo heterônomo, mediante a troca mercantil e porque
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parte substantiva dos indivíduos tem de colocar sua força de trabalho à
disposição de outros, tendo em vista a ausência dos meios para produzir e
reproduzir suas vidas. Dessa maneira, as decisões a respeito dos conflitos entres
os diferentes possuidores de mercadorias, que não são iguais entre si na
determinação de suas vidas, também deve assumir uma forma igualmente
heterônoma. “Na ausência de relações diretas entre os indivíduos, o estado é a
esfera de mediação entre as práticas individuais” (Lechner, 2013, p. 340). 4
Contudo, apesar da forma do estado resultar dos elementos do próprio
processo de reprodução do capital, esse processo é constantemente
acompanhado de crises e inconsistências (Hirsch, 1990, p. 150 e ss.). A colisão
entre as determinações gerais do capital como um todo e os interesses de seus
detentores particulares se mostra especialmente nos conflitos internos ao estado e
na disputa entre partidos políticos. Isso aponta para a contingência dos processos
políticos em cada estado, os quais não podem simplesmente ser deduzidos das
determinações gerais do capital, mas só podem ser compreendidas pelos
antagonismos específicos a cada formação social. Em resumo, o desenvolvimento
do estado e suas formas nacionais depende tanto da conformação dos processos
de produção no interior de cada estado-nação quanto da percepção que as
classes possuem dessa situação (Thwaites-Rey e Ouviña, 2012, p. 61).
Levando em conta essas especificidades, é possível questionar: como
pensar a questão do estado enquanto garantidor das relações de igualdade
4
Assim, as representações em torno do estado não se limitam a um problema de ordem
individual, mas a formas de pensamento socialmente válidas e dotadas de objetividade, como
Marx (1996, p. 202) havia caracterizado a percepção da economia política em relação à
mercadoria e o dinheiro. O estado pode ser analisado de maneira homóloga: parece ser algo dado
e evidente, mas é também forma pela qual as relações entre indivíduos e classes se moldam. E as
próprias formas permitem que elas sejam tomadas como um dado evidente da realidade. Aqui é
preciso pensar numa homologia entre o estado e o exame das outras formas pelas quais a
sociabilidades capitalista se expressa e adequa suas contradições. O exemplo da forma salário
talvez seja útil para o caso em questão. Ninguém que pensa e luta a favor dos dominados e
explorados deveria ser contra aumentos de salário e do nível de renda de trabalhadores, que
representam, afinal, possiblidades de melhoria de vida. Apesar disso, o aumento salarial não
elimina o fato de que a própria forma salário obscurece as relações de exploração. Somente a
superação da necessidade de se vender a força de trabalho para sobreviver é que pode ir além da
exploração. Algo semelhante pode ser pensado em relação ao estado. Por um lado, este pode
consistir em um meio de mudanças na vida dos trabalhadores e dos subalternos, especialmente
em contextos onde sua luta pressione as instituições estatais a reconhecer suas demandas e
possibilite aprofundar processos de democratização e maior participação política. Por outro lado,
enquanto forma de socialização de indivíduos isolados ente si e que não determinam em conjunto
suas condições de vida, o estado deve permanecer como elemento chave dessa sociedade.
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jurídica entre proprietários privados em sociedades como as nossas, onde a
igualdade formal é colocada em xeque não apenas pelo passado escravista e
colonial, mas também porque os proprietários privados não são tratados como
iguais? Além disso: é possível entender o estado enquanto forma política e da
sociabilidade burguesa diante dos dilemas enfrentados pelo desenvolvimento
desse tipo de sociedade, isto é, pensar em estados nacionais em países
subordinados à periferia do capitalismo?
Particularidades e Barreiras à Forma do Estado na América Latina
Muitos autores buscaram investigar os traços particulares dos estados da
região e como sua configuração correspondia às especificidades da constituição e
das transformações dos países. Para Norbert Lechner (2013, p. 340), seria falsa a
divergência entre o estudo teórico do estado capitalista como modelo e seu
estudo empírico na América Latina como um desvio. O autor chileno afirmou que
a relação entre elementos abrangentes e particulares da sociedade capitalista
deve ser entendida dentro de uma totalidade e, assim, considerar o
desenvolvimento capitalista mundial. Elemento básico de tal investigação consiste
na posição particular dos países da região e sua própria formação enquanto
espaço de conquista e espoliação durante a expansão capitalista para além da
Europa a partir do século XVI.
Como bem colocaram Thwaites-Rey e Ouviña (2012, p. 162), o conjunto
de estados da América Latina possui uma origem em comum, a despeito de seus
desenvolvimentos distintos. Desde seu início a região se conformou como um
espaço de acumulação dependente no mercado mundial. Mesmo a partir do
momento em que se tornaram independentes em relação aos impérios europeus,
no século XIX, suas articulações sociais internas continuariam a ser marcadas pela
inserção subordinada nos processos globais de acumulação do capital. A
debilidade dos processos produtivos seria expressa pela dificuldade das
sociedades locais em criar as bases materiais de um interesse geral que se
transfiguraria no estado, a exemplo dos países centrais do capitalismo (Lechner,
2013, p. 343). A ausência de vínculos fortes entre classes dominantes locais, que
invertiam o excedente apropriado em mercados exteriores, e as classes
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subalternas, trabalhando sob condições que rebaixam o valor de sua força de
trabalho e sem incorporar o progresso técnico alcançado, implicava que a
circulação do capital não se realizasse internamente.
Ao mesmo tempo, o estado teria um papel fundamental nas tentativas de
alavancar a expansão do capital. Segundo Osorio (2014, p. 207), essa
configuração de acordo com a subordinação externa e o rebaixamento das
condições de vida “exige que o Estado do capitalismo dependente opere como
uma relação social condensada de enorme relevância”. Assim, ele deve assumir
um caráter interventor, configurando o que o autor chama de uma “matriz
estadocêntrica” de particular importância na história da região, especialmente a
partir do século XX. Não menos importante foram as lutas dos subalternos na
imposição de limites tanto à atuação repressiva do estado quanto na regulação do
uso da força de trabalho e em melhorias na qualidade de vida, já que boa parte
das classes trabalhadoras ficou à margem das relações formais de exploração
reguladas pelo estado. Ou seja, o desenvolvimento do capitalismo na região
encontrou barreiras colocadas pela inserção inicial de seus países enquanto
fornecedores de matérias-primas para a expansão da acumulação de capital na
Europa. Esse dado inicial seria reforçado ao longo da história da América Latina e,
nos momentos em que as necessidades da reprodução do capital impuseram
transformações significativas para as relações entre as classes, o estado seria
chamado justamente enquanto forma que ajudaria a reconfigurar as relações de
exploração e dominação. Em especial, os estados da região foram chamados a
resolver problemas referentes às possibilidades de conformação de um mercado
interno de produção e circulação de mercadorias, o que marcou também as
relações entre dominantes e dominados. Assim, é possível dizer que a relação
entre o estado como forma e as particularidades do desenvolvimento capitalista
na região indica uma configuração pendular do estado, entre perspectivas de
integração às formas de reconhecimento e amortecimento dos antagonismos
capitalistas e aquelas ligadas ao controle violento dessas contradições.
Os textos de René Zavaleta e Alberto Quijano trazem aproximações
estimulantes com as considerações a respeito da forma do estado e ajudam a
entender porque a busca por construções nacionais ainda é uma pauta que
atravessa um conjunto de teorias e movimentos políticos por aqui, e porque o
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estado é visto como entidade capaz de incorporar permanentemente indivíduos
ao funcionamento normal da acumulação. Por outro lado, em consonância com
análises a respeito do desenvolvimento truncado do capitalismo na região, elas
destacam como o estado é elemento fundamental nessa construção, justamente
pelas bases insuficientes da acumulação.
Em alguns de seus textos sobre o assunto (1989a, 1989b), Zavaleta mostra
de forma bastante perspicaz como a constituição do estado (e da própria figura da
nação) se liga, especialmente nas experiências europeias, à superação dos
particularismos e das localidades. Para que os processos de reprodução e
acumulação do capital aconteçam, eles precisam de uma força de trabalho livre,
tanto para sua circulação quanto para a venda. Isso corresponderia a um
complexo com certo grau de centralização e homogeneização em torno do
mercado interno. Indivíduos considerados juridicamente iguais e formalmente
livres se submeteriam a essa forma de coletividade que é a nação, configuração
mais eficiente para a instalação do modo de produção capitalista segundo
Zavaleta. Quanto mais o capital pudesse circular e crescer em um determinado
território, tanto mais pujante seria a nacionalização.
Porém, a forma-estado e a nação seriam marcados localmente a ferro e
fogo e não a partir dos ideais de igualdade e fraternidade originados na revolução
francesa. A partir da conquista dos territórios locais pelos impérios europeus,
assistiu-se à violência do processo de formação dos estados locais: “todas as
formas de poder institucionalizado que se oponham, obstaculizem ou
desacelerem a produção e o mercado do capital, quer dizer, a expansão das
novas formas sociais que implicam o capital devem ser confrontadas e, melhor,
destruídas” (Quijano 2014a, p. 610). A expropriação dos indivíduos de suas terras
e de seus meios de vida, que também havia ocorrido na Europa, foi agravada em
um cenário no qual boa parte deles, trazidos à força de outro continente, não
poderiam se sentir pertencentes ao território nacional e, portanto, fazer parte de
um interesse geral corporificado no estado – a não ser, é claro, pelo uso de mais
violência. Aqui, o sociólogo peruano tem em vista o problema da racialização e
da eliminação dos povos originários, assim como a migração forçada e a
escravização de africanos para cá.
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Os ensaios de Quijano ganham particular importância diante do problema,
uma vez que mostram como a racialização foi elemento central tanto no plano da
produção capitalista quanto na conformação dos modos de dominação e
subjetividade modernas. Nos países europeus, a identificação das populações
nacionais fomentou-se não apenas conformando-se um tipo racial específico aos
territórios, mas também em oposição aos povos colonizados e classificados
racialmente. Por lá, as lutas por democratização da sociedade foram, sem dúvida,
balizadas pela expansão do mercado e seu impulso de igualar os indivíduos.
Mesmo assim, as lutas sociais foram contidas pelo alcance dos processos de
nacionalização sob a égide do estado, resultando na constituição de cidadãos. O
que ocorreu por aqui foi o contrário:
em sociedades submetidas a um poder imperial de novo cunho, com as
populações classificadas colonialmente em ‘raças inferiores’, distribuídas em
formas de trabalho não assalariado, e que, portanto, junto com sua exclusão do
mercado e dos contratos, as excluíam de toda forma de individualização e das
liberdades consequentes (Quijano, 2014a, p. 613).
Tal exclusão seria fundamental por dois motivos. Primeiro, a constituição
dos estados nacionais latino-americanos imitaria os modelos existentes na Europa,
já que as formas sociais encontradas por aqui seriam rebaixadas e não conformes
à razão eurocêntrica e capitalista – o que ajuda a entender a importação das
ideias europeias pelas classes dominantes daqui. Além disso, o estado se
converteu em modelo de ação política e resolução dos conflitos para todas as
populações. As mesmas instituições das burguesias vitoriosas em suas revoluções
clássicas deveriam ser implantadas do outro lado do oceano. Não menos
importante é o fato de que o distanciamento em relação a burguesias e grandes
proprietários rurais foi fundamental para que os padrões da sociabilidade
capitalista desenvolvidos na Europa (e nos Estados Unidos, mais recentemente)
fossem vistos como ideais a serem imitados, ignorando as formas das relações
sociais dos povos indígenas originários e de africanos escravizados. Mas por
conta da própria colonialidade, acrescenta Quijano, é que as esperanças em
torno da nacionalização e da igualdade formal entre os indivíduos foram
falsificadas. A maior parte dos explorados e dominados passou a ser vista
simplesmente como um resquício da barbárie à qual a civilização ocidental
deveria se opor e dominar.
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A partir desses elementos ressaltados por Zavaleta e Quijano e, com base
nas imposições contra as tentativas dos setores populares na região de estabelecer
outras formas de organização social e política, é possível afirmar que uma das
faces do estado por aqui se revelou por muito tempo como força. Tal condição
seria estendida para quase totalidade das classes trabalhadores e grupos
subalternos. A ausência ou o enfraquecimento das condições do desenvolvimento
da produção e da circulação de mercadorias dentro dos espaços nacionais da
América Latina significou, para os subalternos, que a reprodução de sua força de
trabalho ficaria aquém dos padrões exteriores. Isso se expressaria na ausência dos
significantes em torno da ideia de igualdade entre os indivíduos que caracterizam
a forma geral das sociedades burguesas. Seria preciso esperar até o século XX
para que seus elementos consensuais aflorassem e, assim, que o estado enquanto
corporificação dos interesses gerais e forma de regulação dos antagonismos
sociais pudesse se apresentar, ainda que de forma limitadamente.
Se nos per