0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 145 visualizações14 páginasConto Popular
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CONTO POPULAR: O LEGADO DE UMA TRADIGAO
Francisco Assis de Sousa Lima - USP
Adere & narrativa a marca de quem a narra, como 4 tigela de barro a marca das maos do oleiro, No ato
de narrar intervém a atividade da mao que, com os gestos aprendidos no trabalho, apéia de cer maneiras
diferentes aquilo que se pronuncia. Se a arte de narrar rareou, entdo a difusdo da informagdo teve nesse
acontecimento uma participagdo efetiva (Walter Benjamin, em O Narrador).
Hist6ria de Trancoso néo tem fim ndo, é assim como uma rima de violeiro que vai longe. Se a gente quiser
‘modifica ela pra frente, outra hora faz terminaséo. Se pode findar uma e emendar outra no meio. A
historia de Trancoso é uma s6, mas naquela a gente bota toda a quadra que quer e vai longe. (Cirilo Pedro
da Silva, Mestre de “Maneiro-pau”).
RESUMO
Estudo do conto popular do nordeste, espe-
cialmente do Cariri cearense, identificando-se a pre-
senga do contador de histérias e do ptiblico como
elementos ativos e necessarios. A pesquisa foi reali-
zada através de viagens de coleta, abrangendo con-
tato com informantes e suas histérias. Enfoca-se
aspectos ligados a meméria, atualidade do contar,
a transmissao de valores e a visio do mundo no
conto e na vivéncia. O saber narrar se enquadra
como um lazer e uma arte onde a mensagem fica
disponivel e é apreendida segundo as expectativas e
anseios do piiblico.
ABSTRACT
This is a study of the popular short story
in Northeastern Brazil, mainly in the Cariri area
in the state of Ceard, where the presence of both
the storyteller and the public are identified as
active and necessary elements. Trips whose aim
was to gather data and make contact with in-
formants and their stories were the starting po-
int for the research. Aspects such as those con-
nected with memory, an updated way of telling
the story, the conveyance of values, and the way
the world is seen both in the short story and in
existence are highlighted. Story-telling is seen
both as leisure and art where the message is avai-
lable and is to be grasped depending on the ex-
pectations and will of the audience.
INTRODUGAO
A tarefa de levantar e estudar 0 conto po-
pular do Nordeste, mais diretamente da minha
regio de origem, o Cariri cearense, remonta a
1979, quando esbocei um projeto de pesquisa para
um Mestrado na area de Psicologia Social da Uni-
versidade de Sao Paulo. Dispunha ento como re-
feréncia basica, além da meméria pessoal de se-
res e debulhas da minha infancia rural, os Contos
Tradicionais do Brasil, de Luis da Camara Cascu-
do, livro que foi para mim uma espécie de pano de
fundo para as “mil-e-uma noites” que eu imagi-
nava e sentia pulsar nos confins do sertao.
Antes, entre 1970 e 1974, do Recife revisi-
tava um Cariri “mitico”, ressoante naquelas dis-
tncias em espago e tempo, realizando viagens
das quais resultaram uma mais estreita aproxi-
macao com o Reisado, a Lapinha, os cantos de
trabalho, as cantigas de cegos, as modas, as ince-
lengas, os benditos de romeiros e de penitentes,
as cantigas de roda e as brincadeiras infantis, as
adivinhagées, os ternos de pifanos, os violeiros
repentistas ou cantadores de viola, os dangado-
res de coco, as cerdmicas e os versos de feira, li-
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 200014
dos ou cantados, os dramas, os “bonecos” de em-
panada ou mamulengo, as feiras, 0 mundo das
botijas enterradas e das assombracées em noites
de lua, no cotidiano das pequenas cidades, vilas,
sitios e pés-de-serra. Um interesse assistematico
pelo folclore exercitou-se ai.
‘A menos de um passo era possivel locali-
zar a presenca do contador de histérias como
ponto integrante dessa cadeia que aqui nao ter-
mina nem se esgota, e a partir dele restaurar
um veio perdido da histéria pessoal, atualizé-la
em nova circunstancia. Em 1975 e, posterior-
mente, em 1979, jé em Sao Paulo, entrevistei dois,
contadores conhecidos daquela regiao, e a par-
tir desse impulso inicial empreendi cinco viagens
de coleta ao Ceard, de 1980 a 1983, abrangendo
um contato com 37 informantes ¢ totalizando
um corpus de 182 histérias. Neste artigo farei
um apanhado deste trabalho, publicado sob 0
titulo Conto popular e comunidade nar-
rativa (Prémio Silvio Romero 1984).
PANORAMA TEORICO
Segundo Théo Brandao(1982), as cinco
principais obras da contista brasileira incluem as
de Cascudo (Contos tradicionais do Brasil), Silvio
Romero (Contos populares do Brasil, 1885, Lisboa
€ 1897, RJ), os contos coletados por Silva Cam-
pos (publicados na obra O folclore no Brasil, de
Basilio de Magalhies), os Contos populares e can-
tigas de adormecer, de Lindolfo Gomes e as 142
historias brasileiras, de Aluisio de Almeida.
Atualmente, o nome de referéncia nessa
tradigao de coleta, classificacao e estudo do con-
to popular é Brdulio do Nascimento, coordena-
dor brasileiro do Projeto Conto Popular e Tradi-
gao Oral no Mundo de Lingua Portuguesa e
responsdvel pela organizacao de um primeiro
catdlogo de classificacéo dos contos brasileiros
na perspectiva de Aarne-Thompson.
Para Cascudo, é o conto popular, dentre os
materiais folcléricos, 0 mais expressivo e amplo e
também o menos examinado, reunido e divulga-
do, constituindo-se um indice revelador de infor-
macGo histérica, etnogréfica, sociolégica, juridica
e social, além de guardar estreitas relagdes com a
Psicologia. Nesse autor, a visdo sobre 0 conto de-
corre de sua concepcao abrangente da “ciéncia”
do Folclore, onde ¢ assinalado o dominio comum
da “psicologia coletiva”, da “cultura geral no Ho-
mem, da tradigao e do milénio da Atualidade, do
herdico no cotidiano”, constituindo-se uma “ver-
dadeira Hist6ria Normal do Povo”, articulando-se
a praticamente todas as disciplinas humanisticas,
embora nao se detendo, como ele mesmo diz, nes-
tas “discussdes substanciais”.
Segundo Alan Dundes (1962, p.59-60), até
fins do século XIX, predominantemente, as explica-
Ges genéticas satisfaziam a definigao da natureza
do folclore. Afirmariam os “mitdlogos solares” que
materiais folcléricos seriam origindrios, em grande
arte, da leitura poética de fendmenos celestes, como
© movimento solar, feita pelo homem primitivo. Pos-
teriormente, a “escola antropolégica”, responsdvel
pela nogio de “sobrevivéncia”, estipularia que o fol-
Clore se “evolvera de fatos histéricos e costumes pri-
mordiais”, constituindo-se de vestigios arcaicos pre-
servados ao longo da evolucao cultural. A teoria
“mito-ritualistica”, representativa desta corrente, se-
gundo a qual todos os mitos advém do ritual, impli-
cava a questdo circular, insoliivel, da génese primé-
ria, de modo que os estudos passaram a incidir sobre
o prisma preferencial do desenvolvimento evolutivo.
No método histérico-geogréfico finlandés
de estudo do conto - em cuja escola surge Antti
Aarne, nome-marco no estabelecimento de uma
linguagem unificadora do universo da contistica
=, 0 problema das origens é evitado, permanecen-
do a perspectiva diacrénica e a preocupacao com-
parativa, comuns aos métodos anteriores de estu-
do do folclore (e, por extensao, do conto)
mitolégico e antropolégico. Nele buscam-se reu-
nir todas as versdes possiveis de um dado conto na
tentativa de reconstrucao da sua forma geral hi-
potética, nao se procurando explicar como esta
forma original teria surgido, importando sobretu-
do o processo de transmissao e o desenvolvimento
evolutivo, o que implica a evidéncia de que 0 con-
to sofre variagdes 4 medida em que é transmitido.
Cronos, Natal-RN, v.1,n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000The types of the folk-tale — a classification
and bibliography, traduzido ampliado por Stith
Thompson a partir da obra de Antti Aarne Verzei-
chnis der Marchentypen (FF Comunicatons 3,
1910), cataloga varias centenas de historias tra-
dicionais correntes na Europa. Nessa obra, uma
narrativa completa teria sido a base para cada
tipo, mas o desdobramento da classificag’o em
episédios ou motivos foi aplicado a alguns gru-
pos de narrativa (histérias do ogro estuipido, de
animais, e numerosas anedotas). Mais tarde, Sti-
th Thompson encampou essa tarefa de classifica-
do dos motivos em seu extenso Motif-index of
folk-literature.
Na obra de Aarne-Thompson, os grupos
principais dos tipos ou histérias completas distri-
buem-se em Contos de Animais, Pilhérias e Anedo-
tas, sendo o maior deles um grupo intermediério
dos Contos Comuns ou contos propriamente ditos,
composto de historias magicas ou maravilhosas
(em varias subdivisdes) e religiosas, marcadas por
elementos sobrenaturais; de histérias romanticas
que transcorrem dentro dos limites do possivel; e
das relativas ao ogro estipido (nosso bicho-papao),
cujo lugar na classificacdo ¢ insatisfatério pelo en-
trelagamento do maravilhoso e anedético que Ihe
comum, 0 que, por outro lado, as dispde em pro-
ximidade no catdlogo.
Em nosso meio, Camara Cascudo, inspira-
do em Aarne-Thompson, classificou cem contos de
acordo com a seguinte divisdo: Contos de Encan-
tamento, Contos de Exemplo, Contos de Animais,
Facécias, Contos Religiosos, Contos Etiolégicos,
Deménio Logrado, Contos de Adivinhagao, Natu-
reza Denunciante, Contos Acumulativos, Ciclo da
Morte e Tradicao.
Vladimir Propp, no classico Morfologia do
conto maravilhoso, trabalhando uma amostra, sele-
cionada ao acaso, de cem contos maravilhosos rus-
sos, verificou que somente pela andlise de funcdes
estruturais se poderia estabelecer um indice confid-
vel de tipos: “Se existem tipos, ndo é ao nivel em que
Aarne os situa, sendo no das particularidades estrutu-
rais dos contos que se parecem entre si” (1977, p.23).
15
Introduziu uma unidade minima nova, a fungi, fa-
zendo notar que os nomes e atributos das_dramatis,
personae mudavam, mas nao as suas agbes. Desco-
briu que no conto maravilhoso observam-se trinta e
uma fungGes possiveis e que a auséncia de algumas
delas néo compromete a ordem das que permane-
cem nem o seu reconhecimento enquanto tipo es-
trutural. Sao estas as fungdes: afastamento, proibi-
Gio e transgressao, interrogatorio e informacao, logro
e cumplicidade, dano (ou caréncia), mediacao, ini-
cio da acao contraria, partida do herdi, funcao do
doador e reagao do heréi (prova), recepcio do objeto
magico, deslocamento no espaco, combate, marca
do herdi, vitéria, reparacao do dano ou caréncia, re-
tomo do heréi, perseguigao e socorro, chegada in-
cdgnito do heréi, pretensdes do falso-herdi, tarefa di-
ficil e tarefa cumprida, reconhecimento do herdi e
descoberta do falso-heréi, transfiguracao do herdi,
castigo ou punicdo do falso-herdi, casamento (recom-
pensa).
Além deste modelo que estipula a suces-
sao temporal das acdes, Propp elaborou um se-
gundo modelo, mais geral, ordenando as per-
sonagens, em mimero de sete e agrupando-as
em esferas de agdo: do agressor, do doador, do
auxiliar, da personagem buscada, do mandatd-
rio, do herdi e do falso-herdi. Os elementos va-
ridveis do contos, os atributos, ficam compre-
endidos pelo conjunto das qualidades externas
das personagens: idade, sexo, situagao, aparén-
cia exterior com suas particularidades. Sendo
invaridvel a estrutura, 0 exame dos atributos é
que permitira a localizacdo das marcas parti-
culares a produgao de um determinado conta-
dor, em seu lugar e em seu tempo, revelando
seu imagindrio e informando sobre uma cultu-
ra especifica, sobre um estilo e uma ética.
Em revisdo bibliogréfica e critica empreen-
dida por Marie-Louise Tenéze sobre 0 conto mara-
vilhoso, séo levantadas especulacées quanto na-
tureza do género, em varias diregdes. Uma delas,
tendo por referéncia o folclorista sufgo Max Luthi,
dispoe sobre critérios estilisticos por meio dos quais,
para autor, se explicitaria a “forma interior” do
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 200016
conto maravilhoso. Luthi classifica 0 estilo do géne-
ro como “abstrato”, advindo dai uma conseqiién-
cia: importa o esclarecimento do plano das ages,
em detrimento das motivacées, que permanecem
na sombra, Essa posicdo se concilia perfeitamente
com aquela trabalhada por Propp, para quem im-
Portam os atos, suas conseqiiéncias para o herdi e
para o desenvolvimento da intriga, e nao o senti-
mento que porventura anime as personagens.
Para Luthi, o conto maravilhoso é uma obra
poética que previne 0 acaso para melhor elimind-
lo, em virtude da estreita necessidade que liga
“Dom” e “Prova”, em paralelo com a ampla liber-
dade que, segundo Propp, ¢ inerente ao conto
maravilhoso. Este autor estabeleceu a lei de per-
mutabilidade de motivos e tipos, a partir da verifi-
cacao de que as partes constitutivas de um conto
podem ser transpostas a outro sem mudanga al-
guma, inviabilizando a idéia de se considerar cada
tema como um todo organico, independente em si
mesmo.
Para Tenéze, 0 conto em seu micleo de base
orienta-se pela relacdo entre o herdi ¢ a situacao
dificil com a qual se confronta ao longo da acao,
sendo este um critério constitutivo do género. Se-
gundo Ruth Terra é no ambito do conto maravi-
Ihoso que melhor se pode reconhecer a presenca
de uma estrutura légica, que preside a narrativa
popular como um todo. Nesta, as possibilidades
de criagdo para o contador tradicional ou para o
poeta popular se desenvolveriam nos limites da
rotina cultural da sociedade na qual est inserido,
nao se podendo falar em arbitrariedade nesse do-
minio (Terra, 1977, p.1).
livro de Bruno Bettelheim A psicandlise
dos contos de fadas, credita aos contos de fadas
um interesse psicopedagégico, na medida em que
auxilia a crianga a lidar com a problematica psi-
colégica do crescimento e da integracao de suas
personalidades. © conto de fadas permitiria a ex-
plicitagao de dificuldades inerentes condicao
humana, com a vantagem de exprimir, modelar-
mente, a possibilidade de uma superacdo satisfa-
téria da agao de herdis que, como as demais per-
sonagens, seriam “mais tipicas do que tinicas”. Esse
autor chama a atengo para o fato de que nesses
contos 0 mal é tao onipresente quanto a virtude,
dualidade que coloca a questo moral e requisita
a luta para resolvé-lo. A promogao da moralidade
nao residiria no fato de a virtude prevalecer, mas
no dado de ser o herdi mais atraente para a crian-
ga e de com ele se identificar em todas as suas lu-
tas. Assim, a crianca adequaria o contetido incons-
ciente as fantasias conscientes, num movimento
que a capacitaria a lidar com este contetido, ori-
entando-a para o futuro e para uma existéncia
“mais satisfatoriamente independente”.
Numa outra linha de interpretacao, basea-
da em C. G. Jung, Marie-Louise Von Franz parte
do principio de que os contos de fadas sio a ex-
pressao mais pura e simples do inconsciente cole-
tivo, representando de forma concisa e plena a
prépria realidade arquetipica e o processo de indi-
viduagdo. Como figura tipica e arcaica, o heréi re-
presentaria um modelo de ego funcionando de
acordo com o Self, ao resgatar, através das peripé-
cias desenroladas em cada conto, um dano pri-
mordial cuja resolucdo, sempre feliz, viria satisfa-
zer as exigéncias subjetivas daquela instancia
integradora da personalidade.
trabalho desenvolvido por Oswaldo Elias
Xidieh em Narrativas pias populares é um exemplo
importante, entre nés, de um estudo sistematizado
de textos orais em articulago com o universo soci-
ocultural em que se integram e so produzidos. Cen-
trando-se basicamente num corpo de narrativas de
cunho religioso secularizado, o trabalho de Xidieh
tem o mérito de refletir sobre o “momento social
em que elas se justificam e funcionam”, Nao res-
tringindo sua visio a um grupo estrito de narrati-
vas, 0 autor destaca a organicidade presente no
conjunto da producao popular oral, caracterizan-
do-o como uma unidade. Estabelece a filiacao dos
textos as elaboragées religiosas pautadas em fontes
eruditas, registra os valores sociais que neles se ex-
pressam e 0 modo como se acomodam “As vicissi-
tudes da vida sécio-cultural que transcende o am-
bito estritamente rural, caboclo e rtistico”.
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000Englobando um total de 76 textos colhi-
dos no interior de Sao Paulo e em alguns bairros
da capital (seguindo classificaco prépria), Xi-
dich aborda sociologicamente um material fol-
clérico assim considerado na acepgao de “esfe-
ra de cultura” e de “fenémeno social”. Para ele,
“o folclore ndo é um conjunto disparatado e des-
continuo de valores ¢ elementos de todos os tipos
e nem separados cada um deles em compartimen-
tos estanques” (1967, p.141). Neste sentido, sua
obra aponta caminhos novos para 0 estudo do
conto popular em nosso meio, numa perspecti-
va fértil porque interessada na fungo que a li-
teratura oral, como um todo continuo e organi-
co, desempenha ao nivel da representacao
popular em seu exercicio cotidiano.
AMBITO DA PESQUISA
Um trabalho de reflexo conjunta, a partir
de 1979, com Ruth Terra, conduziu-me a idéia de
estudar o conto a partir de sua posigao no interior de
uma comunidade narrativa, ou seja, dentro da rela-
do que se estabelece entre 0 contador e o piiblico
enquanto unidade interdependente e dinamica; nou-
tras palavras, procurando abarcar um processo de
transmisso em que contador e ptblico so objeto e
sujeito mutuamente ativos e necessarios. Segundo
‘Tenéze (1964), a raridade das obras enfocando a co-
munidade narrativa liga-se ao fato de que cada vez
mais 0 conto perde 0 seu papel vivo nas reunides
coletivas de divertimento e de trabalho.
O estudo procurou objetivar questées liga-
das a meméria, atualidade do contar, trans-
missio de valores ¢ a visio de mundo implicadas
no conto e em sua pratica. Foi realizado um le-
vantamento de contadores, do seu repertério, além
de depoimentos ¢ histérias de vida. Tendo ainda
como intuito uma leitura sob o prisma da adapta-
go exemplar, isto é, da singularidade com que 0
conto é reelaborado por cada contador em sua cir-
cunstdncia € no seu contexto, procurei identificar
tragos sugestivos deste processo, que envolve reci-
procidade entre os planos do real e do imagindrio
popular.
17
Neste sentido foi importante considerar, por
exemplo, toda uma representago popular do Pa-
dre Cicero e sua inser¢io no mundo do contador,
como exemplo vivo de transfiguragao imagindria
ou de atualizagao da figura do herdi, o que parece
constituir tendéncia universal, de grande valor no
Ambito psicolégico e mitico. Por outro lado, a fi-
gura do Padre Cicero em muito contribuiu para 0
intenso fluxo migratério do Nordeste a regiao do
Cariri cearense, 0 que, dentre outros aspectos, a
torna por assim dizer Area-sintese do Nordeste.
Impressées obtidas a partir do contato com
0s primeiros informantes conduziram & adogao de
um critério relativo de mapeamento, com a utili-
zacao de indicadores internos & amostra. Novos
contadores foram referendados tendo por base 0
seu reconhecimento dentro da prépria comunida-
de. Nos limites em que a pesquisa se deu, foi possi-
vel reconhecer que o sentido maior do conto se
encontra na instancia viva do seu requisito cotidi-
ano: em seu fluir na imaginagao e na consciéncia
no momento presente, na sua atualidade.
ACHADOS E PERDIDOS
A nocdo de uma quebra de continuidade
na transmissdo do conto popular é reconhecida
pela totalidade dos informantes. Algo desta prati-
ca permanece viva, ainda, pelo menos enquanto
reminiscéncia ou acontecimento esparso, garan-
tido principalmente pela memoria dos velhos, os,
quais representam um percentual minimo da po-
pulacao. Velhos que, muito em breve, nao sero os,
de antigamente...
Possivelmente, 0 peso sobredeterminan-
te da TV, para nao computer, aqui, mudancas
outras ocorridas no contexto econémico e
sociocultural da regio, inviabilizaria de ante-
mao 0 reemprego da pratica cotidiana do con-
to, até mesmo pelo condicionamento massifi-
cante exercido pelos modernos meios de
comunicacao. Estes novos recursos, como a TV
(presente em todas as cidades do Cariri e em
alguns setores rurais beneficiados pela eletrifi-
cagio) e 0 radio (a partir de 1937, no formato
C—O
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 200018
de Servigo de Alto-Falantes, tendo sido inaugu-
rada em 1951 a primeira rédio da regio) sao
acolhidos com entusiasmo e ha quem os incor-
pore positivamente.
Por outro lado, pode-se relembrar o desa-
parecimento de reunides de trabalho propicia-
torias a veiculacao do conto, as debulhas, hoje
obsoletas, em virtude de mudancas nas técnicas
agricolas. Além de modificagdes culturais espe-
cfficas, pelas quais respondem a implantacao e
disseminagao de novas linguagens, mudangas
outras no perfil regional acarretam a defasagem
na pratica do contar. Se os meios de comunica-
co de massa contribuem para a introducao de
valores em que a informagao e a opinido pas-
sam a predominar sobre uma troca mais efetiva
de experiéncias, hd que se pensar também no
empobrecimento econémico e social como fator
de prejuizo na sustentagao mais conseqitente dos
antigos valores.
‘Assim, o éxodo e a marginalizacao do ho-
mem do campo, sua miserabilizacao crescente,
enfim, a falta de garantias sobre um minimo vi-
tal perturba a capacidade de sintonia com os va-
lores estdveis da tradigao sob a qual este mesmo
homem se abrigava. Tal como a infiltragao de
novas técnicas e linguagens, 0 empobrecimento
econémico e social, responsavel pela quebra de
relagdes de vizinhanca e de vivéncia comunité-
ria, contribui decisivamente para a gradativa su-
peracao de praticas tradicionais de transmissao,
oral. No Cariri cearense tais relagdes nao se
acham de todo deterioradas.
Embora depoimentos venham registrar a
caréncia de herdeiros da meméria do conto e de
sua pratica, 0 contato com a populacao regional
tornou patente que, extrapolando essa arte para
além do Ambito estrito do conto, no seio dessa
gente se preza a narrativa, fato observavel na for-
ma discursiva, fluente e movimentada com que
os informantes em geral ritmam os seus relatos.
UM OFICIO ARTESANAL
Alguns informantes evocam a meméria de
grandes contadores de histéria na regiao, mas pre-
domina a sua localizagio no elemento doméstico
da comunidade, onde individuos se autorizam e so
eleitos agentes privilegiados dessa transmissao.
Embora isto nao sirva para descaracterizar uma
“figura antropolégica” do contador de histérias,
permite enquadré-la no circulo geral de uma am-
biente humano onde todos compartilham, na me-
dida das possibilidades, do interesse e do talento de
cada um, de uma reserva de saber onde narrar é
marca reconhecida.
A figura individual do contador importa
menos. A este respeito pode-se fazer um paralelo
frente a outros portadores de cultura popular, va-
lendo referir, para tanto, dois estudos que dispoem
algo neste sentido. Maria Isaura Pereira de Quei-
roz (1958, p.62), em pesquisa sobre a danca de
Sao Gonealo, afirma que esta danga “nao é ele-
mento diferenciador dentro da comunidade”, ou
seja, se um mestre de Sio Goncalo participa de
uma “elite” local, ou é por outras formas distin-
guido dentro da comunidade, isto nao decorreria
do fato mesmo de ele ser mestre, embora tal co-
menda exija qualidades pessoais. Estudando a li-
teratura de folhetos do Nordeste, Ruth Terra (1983)
entende que o lugar do poeta deve ser compreen-
dido para além de uma figura personalizada de
autor, apresentando-se este, antes, como intérpre-
te fiel a uma tradicdo e aos seus valores e, por isto,
responsdvel perante um puiblico de cujo universo
compartilha.
No Cariri e no Nordeste, contar historias
nao é uma atividade remunerada. O contador de
histérias nao representa uma categoria profissio-
nal & parte, embora seu oficio comporte exigén
as de um fazer artesanal: empenho, técnica, esti-
lo, singularidade e talento na repeticéo. Mas 0
contador nao langa o chapéu as moedas, como o
faz.o embolador, o tirador de versos de feira, 0 can-
tador de viola e, de resto, os brincantes nordesti-
nos. A “histéria de Trancoso” ¢ lazer e ¢ arte, mas
antes de tudo é um fazer dentro da prépria vida.
Dé-se e circula como um objeto sem prego, valor
de estimacao.
Circulante como o anel que passa de mao
em mao, o conto possuii portadores. Nao hé quem
0 administre, senao o préprio piiblico que o tenha
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000cultivado. E matéria de tempo livre, e é cadéncia
no espaco liidico da ocupacdo. Préximo do sonho,
é sentinela da vigilia. Fantasia e imagem, é tam-
bém veiculo do real.
O contador comparece aos terreiros e sa-
las, acontece espontaneamente na oportunidade
hospitaleira dos arranchos e pernoites. E pretexto
nas reunides familiares, em noites de sexta-feira
da paixdo, enquanto se espera a hora do galo. Es-
taria presente ao ritmo das debulhas. E ponto e
contraponto nas conversas em noites, com cadei-
ras nas calgadas. Pode ir roga, animar o traba-
Iho nas feiras e nos eitos. Acompanha o viajante
nos caminhos e travessias. Insinua-se nos lugares
do acalanto, e é palavra tecida e rendada no colo
de avés, rendidas ao pedido, ao convite e A cum-
plicidade dos netos.
A personalidade do narrador se afirma e se
expande na hora de contar. Mas nao se pode sepa-
rar o conto do narrador, do seu universo e do seu
puiblico. Mesmo a eleicao do repertério e 0 jeito
como é transmitido se define junto ao puiblico. Os
recursos mimicos, as inflexdes, o traco de humor,
a énfase normativa, as sugestdes de mistério ou a
suspensao narrativa sao efeitos da técnica e da
versatilidade do contador. No entanto, sua opor-
tunidade, pontuagio e eficdcia orientam-se atra-
vés e em funcdo de uma escuta participante. Nao
falar o conto se nao houver um meio que o solici-
te. E se é para este meio que se dirige, sé falard
bem enquanto integrar sua experiéncia cotidiana,
religando-a as fronteiras da grande meméria: a
meméria da tradigao.
processo narrativo nao dilui a importan-
cia individual do contador. Relativiza-o, ao nivel
em que este se torna capaz de organizar um saber,
transforma-lo até, mas nunca transtorné-lo: é aqui
que se opera uma relacao de vigilancia coletiva.
Mais do que por mera vigilancia, o publico assiste
ao narrador e o respeita pela sua qualidade de
doador e agente de uma transmissio.
Para Walter Benjamin (1980, p.62)
narvar histérias & sempre a arte de as continuar
contandoe esta se perde quando as historias jé ndo
‘do mais retidas Perde-se porque jd ndo se teceefia
19
enquanto elas sdo escutadas. Quanto mais esqueci-
dode si mesmo estd quem escuta, tanto mais fundo
se grava nele a coisa escutada. No momento em
que 0 ritmo do trabalho o capturou, ele escuta as
histérias de tal maneira que o dom de narré-tas the
advém espontaneamente. Assim, portanto, estd
consttuida a redeem que se assenta o dom de nar-
rar. Hoje em dia ele se desfaz em todas as extremi-
dades, depois deter sido atada hd milénias no érm-
bito das mais antigas formas de trabalho artesanal.
© mundo do conto nao poderia ser outro,
sendo 0 mundo mesmo do popular. Mundo sem
patria, ou além de qualquer patria, porque fun-
dado sobre a linguagem coletiva. Mundo diversi-
ficado, aparentemente fragmentério, mas fecun-
do em sua heterogeneidade de formas. Resistente
em suas normas e valores, intercomunicante em
seu imaginario, e versatil. © mundo do contador
6 sua histéria, riscada também nas histérias que
ai se contam.
‘VERTENTE EXEMPLAR
Em diferentes niveis de filiagdo histérica e
de universo formal, o registro do “exemplo” pode
ser verificado, de modo explicito ou entrevisto, no
conjunto de contos coletados no Cariri. Tal afirma-
ao pode ser aplicada & producao inteira do Nor-
deste e talvez do Brasil, uma vez que o elenco de
textos presentes em coleténeas diversas, antigas e
recentes, conservam entre si certa familiaridade te-
matica e de linguagem.
Entendo nao haver no processo de trans-
missio do conto popular um intuito normativo
deliberado, isto é, nao lhe assiste intencionali-
dade ostensiva em relacao 4 norma, no sentido
da apresentacéo de um axioma ou de uma li-
¢40 moral, que parece caracterizar o universo
da fabula. No conto, de cunho maravilhoso es-
pecialmente, a mensagem fica disponivel e en-
tregue ao ouvinte que a apreende segundo suas
expectativas e anseios.
Encontram-se no corpus narrativas piedo-
sas, especialmente aquelas que compdem o ciclo
de “quando Nosso Senhor andava pelo mundo”,
cujo teor por si mesmo religioso traz muito de
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 200020
exemplar, onde o senso de justiga se elabora em
conexio com 0 sagrado. Xidieh atribui a estes con-
tos a fungio de preservar na sociedade “nistica”
0s “valores de um sistema consagrado pela tradi-
a0” e de inserir, na “sociedade rustica em mudan-
ga”, tracos de “urbanizagio” e de “secularizacao”
que emergiriam das narrativas pias reelaboradas,
estas se oferecendo, por sua vez como “um qua-
dro de referéncia para enfrentar e resolver proble-
mas emergentes dessa mudanca”. Dentre outros
aspectos analisados, Xidieh sublinha o elemento
da hospitalidade, constante em tais narrativas,
enquadrando-o no espirito de solidariedade, valo-
res cultivados pela comunidade “ristica”, embora
dela nao exclusivos, uma vez que “moldados pro-
fundamente, para nao dizer essencialmente, por um
‘mundo que precede a formagao de qualquer socie-
dade riistica no Brasil” (1967, p. 90 e 144).
Trés das narrativas tematizam o valor da
hospitalidade e envolvem “lices” a Sao Pedro.
Outras colocam & prova sua fidelidade, pondo-o
em ridiculo e desmascarando-o em sua tentativa
de burlar o Senhor com ardis desonestos. Uma
delas, de cunho humoristico, pée em evidéncia 0
valor do trabalho e da fungdo atribufda ao homem
de ser responsdvel pelo sustento doméstico.
Dezenas de outros contos, de cardter nao
religioso, apresentam a marca velada e por vezes
a disposigao explicita do exemplo. Uma panora
mica do temério evidencia, no campo semantico,
uma série de registros que se acomodam perfeita-
mente a vertente exemplar, enquanto suporte de
valores ou veiculo de ensinamentos.
Hé narrativas que incidem, admoestando,
sobre vicios capitais ou mandamentos fora de um
contexto narrativo apologético e religioso, tradu-
zindo, possivelmente, a incorporagao de valores cris-
tos que, por forca histérica, consolidaram-se na
comunidade para formar uma ética. Algumas de-
senvolvem-se em torno do orgulho e levam as tlti-
mas conseqiiéncias o castigo imposto a quem o pro-
tagoniza. Outras se constituem num libelo contra
© adultério. Varios contos que enquadram o tema
do rico invejoso voltam-se claramente contra a usu-
ra, Diante das privagdes acarretadas pela pobreza é
sancionada a extorsio do rico pelo pobre, ou, o que
é freqiiente, geram-se narrativas no desfecho das
quais o pobre é “justicado”. Ha contos onde a ambi-
0 conduz a “lacos” ou armadilhas, cujo fechamen-
to tragico decorre da alianga involuntéria e indire-
ta com o deménio, que destréi para seu império as
“vitimas” da gandncia.
Outras narrativas inscrevem formulas, ma-
ximas ou provérbios que encerram cristalizacdes,
de uma sabedoria preceitual: “o bem se paga com
© bem”; “mais vale quem Deus ajuda do que quem
cedo madruga”. Em conto correlato o proprio in-
formante ressaltou da histéria o cardter exemplar,
sublinhando que toda oferta ou todo auxilio sé fru-
tificam quando prestados “em nome da providén-
cia divina’. Versées referidas, ligadas ao tema do
‘Justo Juiz” configuram histérias da “Justiga de
Salomao”.
Outros contos organizam-se diretamente a
partir da instncia do conselho, o qual, embora ofe-
recido de forma cifrada, garante aquele que o se-
gue a vitdria, no caso a realizacio feliz de sua tra-
jetéria de vida. As recomendacGes ou conselhos
repetem-se de modo mais ou menos constante num,
grupo de narrativas: “nao deixar atalho por arro-
deio”, “nao se hospedar em casa de homem velho
casado com mulher nova”; “ver trés vezes pra po-
der crer”.
Narrativas envolvendo atitudes dadas
como tipicas do comportamento feminino — a
incapacidade para guardar segredos ~ orientam-
se para situagdes em que a mulher é “exempla-
da”, isto é, punida severamente no intuito de
regrar-Ihe a conduta e combater a prevaricacao.
Igual postura é adotada em reacao as mulheres
ciumentas. Procedimento andlogo pode ser vis-
to em narrativas onde o “heréi”, preguicoso, &
surrado pela mulher na situagao inicial do con-
to; realizado o seu afastamento, e tendo falha-
do nas primeiras tentativas de superagao da ino-
perdncia que o torna vitima, consegue, por obra
de objetos magicos obtidos como recompensa
por servicos prestados, resgatar a posicao de su-
perioridade, depois de vingar o ultraje perpetra-
do pela mulher.
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000HA narrativas que literalmente, ou aparen-
temente, transgridem os valores abrigados pela
tradigdo, sustentando-se pelo seu cardter faceci-
‘050 ou anedético, como é 0 caso daquelas onde o
herdi vence pela esperteza, de que é protétipo 0
ciclo de Pedro Malazartes e congéneres. Nestas,
as ages do herdi em geral exemplificam vingan-
cas do mais fraco sobre poderosos exploradores,
© que, reforcado pelo elemento anedético, recu-
peram por assim dizer a ética em que se pauta 0
conto tradicional.
O VAQUEIRO QUE NAO MENTIA
Esto incluidos, no corpus, contos corres-
pondentes ao tema do “vaqueiro que ndo men-
tia”, constante da coletanea de Cascudo e ampla-
mente estudado por Théo Brando. Nesses contos
o valor basico presente é o da fidelidade. Uma das
versdes que coletei, Jodo das Montanhas, narra a
histéria de um vaqueiro tido como homem de
palavra por seu patrao, o qual confia aquele a
guarda de um boi de sua estima, assumindo ao
mesmo tempo, publicamente, ser o vaqueiro in-
capaz de mentir. Duvidando da existéncia de al-
guém tio fiel, um fazendeiro vizinho propée uma
aposta, empenhando sua propriedade, o que é
aceito, na mesma moeda, pelo patrao do vaquei-
ro. O desafiante lanca mao de um estratagema:
envia sua prdpria filha & casa de Joao das Mon-
tanhas, uma vez sabendo-o solteiro, e recomen-
da que 0 seduza e exija, depois, comer do figado
do boi Azeitao. Assim ocorre, e quando a moca,
estando gravida, diz. do seu “desejo” de comer do
figado do boi, o vaqueiro reluta mas termina por
atender, contrariado, a tamanha exigéncia, Pos-
teriormente é chamado pelo patrao, que, como
de costume, haveria de indagar sobre o boi. No
caminho ensaia diversas respostas que julgava
poder apresentar como desculpas pela morte do
animal. Nenhuma delas, contudo, Ihe era aceité-
vel, até que resolve contar ao patrao a verdade
sobre o acontecido. Na ocasiao, achavam-se a
postos ambos os contendores, que, diante da fran-
queza do vaqueiro em situacao to extrema, dao
por encerrada a aposta. O patrao de Joao das Mon-
21
tanhas sai vencedor e este casa-se com a filha do
fazendeiro vizinho, ganhando sua parte de terra.
Para Théo Brando a histéria do vaqueiro
que nao mentia é
‘muito mais epresentativa das expectativas das cul-
turas patriareais e dos povos pastoris, que €ainda a
cde uma parte da nossa regido, do que a dos préprios
romances em que se celebram as faganhas ¢proezas
capacidades sobrenaturais de bois, cavalos ¢ va-
quires.
No mesmo estudo, o autor chama a aten-
cdo para a “ideologia de fidelidade e lealdade do
vaqueiro ao fazendeiro”, que se articula a
‘manutengio de todo um sistema exploratério da
peastoricia ao lado naturalmente de outros agentes
de natureza sdcio-econémica: os sistemas de con-
trato de trabalho, 0 pagamento, nao em dinheiro,
mas em reses obtidas (Branddo, 1982, p.133-135).
No Gariri cearense prevalece ainda o sis-
tema de “quarta’, de acordo com o qual o vaquei-
ro é pago com uma dentre quatro reses nascidas
numa “manga” ou fazenda. Observa-se ainda
uma relativa valorizacao social do vaqueiro que,
habitualmente, é lavrador também, na qualida-
de de morador, rendeiro ou mesmo pequeno pro-
prietério.
UMA ESTORIA DE AMOR
Anovela Uma estéria de amor, de Joao Gui-
mares Rosa, contém um interessante aprovei-
tamento do conto O vaqueiro que néo mentia e da
Histéria do criador de porco. 0 autor funde-os na
boca da contadora de histérias Joana Xaviel. Duas
versées que colhi da Histdria do criador de porco
resumem-se no seguinte: 0 compadre rico incuin-
be ao compadre pobre cuidar do seu criatério de
porcos. Premido pela necessidade, 0 compadre
pobre passa a alimentar sua famflia com os por-
cos do compadre rico. Vendo 0 criatério dimi-
nuit, a sogra do compadre rico resolve flagrar 0
ladrao, escondendo-se dentro de um batt (ou ora-
tério), 0 qual é levado propositadamente para a
casa do pobre. Ao ver que os filhos do pobre estao
a se fartar de carne, a velha revela em voz alta
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 200022
sua descoberta. © compadre pobre, percebendo
o ardil, mata a velha e diz. ao rico ter sido morte
natural. A velha é enterrada, 0 compadre rico
interpreta a desgraca como castigo pelo “falso”
que teria levantado ao pobre. Este ainda a expée,
depois de desenterré-la, ao compadre rico, ins-
truindo-o a enterré-la de novo com os seus per-
tences. O compadre pobre consegue, a partir deste
recurso, espoliar a riqueza do seu patrio, inver-
tendo-se a distribuicao das posses.
Guimaraes Rosa, em sua novela, situa a
estima de um homem rico por uma vaca e a con-
fianga que depositava sobre 0 vaqueiro. Na hi
toria, é a mulher deste tltimo que “deseja” co-
mer da carne da vaca, que é morta. Mas 0
vaqueiro mente quanto as razdes da morte do
animal, atribuindo-a a um acidente. Em segui-
da, a mae do homem rico, ouvindo por acaso os
filhos do vaqueiro pedirem pedacos de carne de
uma tal “vaca Cumbuquinha”, descobre que
aquele havia mentido. A mulher do vaqueiro en-
venena a mae do rico, e ainda rouba as alfaias,
da velha, tornando-se rica. A historia termina
“com o mal nao tendo castigo”.
© vaqueiro Manuelzao, personagem de
Uma estéria de amor, reclama no sentido de que
aquela histéria nao estaria bem contada, 0 que
oinscreve no dominio de um saber vigilante, que
compreende e integra valores fundamentais ina-
liendveis. “Todos que ouviam, estranhavam mui-
to: estdria desigual das outras, danada de diver-
sa. Mas essa histéria estava errada”...Guimaraes
Rosa, conhecedor de ambos os contos, certamen-
te ndo os fundiu de modo gratuito. Esta fusdo
Ihe foi ditada pelo interesse de problematizar, em
torno da personagem Manuelzao, sua condicao
de vaqueiro de palavra, fiel a um patrao rico e
ausente e a sua busca de valores ligados 4 pro-
priedade de terra e ao estabelecimento de uma
familia. Por outro lado, a manipulacao dos dois
contos pelo escritor informa sobre o seu conhe-
cimento de fontes populares, das quais, com
habilidade, se utilizou lancando mao, no caso,
de narrativas que em sua novela adquirem um
peso estruturante.
UM EXEMPLO MEDIEVAL
Um conto em especial, O beato da travessia
ou Histéria da justiga divina, distingue-se no corpus
por constituir-se em narrativa exemplar dentre as
exemplares, estando filiada & tradigao do exemplum,
género amplamente cultivado na Idade Média den-
tro de uma ética crist sob a qual servia como ins-
trumento pedagégico e de aplicacao doutrindria A
apologética. Esta narrativa est catalogada em Aar-
ne-Thompson e corresponde ao Mt. 759 (confirma-
fo da justica divina). Trata-se de um tema estuda-
do por Ruth Terra (1981) no artigo “O ermita e 0
anjo no Nordeste”. Segundo a autora, consta no
Brasil uma tinica versio, publicada, embora incom-
pleta, em Contos populares do povo brasileiro, de
Aluisio de Almeida. Daf 0 valor da verso caririen-
se. Por outro lado, a presenca do tema no folheto
Histéria do homem que teve uma questo com Santo
Anténio, objeto do referido artigo, demonstraria a
circulacao deste exemplo, no Nordeste, a partir, pelo
menos, da Segunda década deste século.
De acordo com o mencionado estudo, a his-
téria PO ermita e 0 anjo
remonta a fontes drabes e judaicas, serd encon-
trada entre os padres do deserto, no século VI, e
terd grande divulgagdo nos livros de exemplo do
século XIII e em séculos posteriores, continuando
a ser difundida em contos da tradigdo oral (na
qual sinspiraram os autores do exemplum), ena
literatura erudita.
E narrativa corrente em varios paises, ten-
do sido registrada “nos séculos XIX e XX na Breta-
nha, Espanha, Portugal e Brasil”. A verso que dis-
ponho poderia servir como elo de uma cadeia, uma
vez que, no Brasil, a versao publicada comporta
apenas a situagio inicial e o desfecho; falta-Ihe 0
afastamento e os trés episédios principais que cons-
tituem 0 corpo d’O ermita e o anjo.
Ao discutir a questo das fontes a partir das
quais teria sido versificado o folheto relativo ao tema
da confirmacao da justica divina, a autora acredita
que o poeta popular poderia ter tido conhecimento da
historia por meio da tradigao oral, levantando, como
hipotese geral, ter este conhecimento advindo de
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000sermdes de padres regulares, ou das pregagdes dos
padres franciscanos, durante as Santas MissGes,
uma das formas pela qual a Igreja se fazia presente
no interior do Nordeste, até comepo deste século.
0 folheto é analisado em relagao ao con-
texto social em que foi produzido e, mais direta-
mente, em relacdo ao quadro da religiosidade po-
pular ao qual se acha intimamente associado. Se
0 folheto pode ser compreendido, por um lado, a
partir “da religiosidade popular do campo e dos va-
lores ai vigentes, por outro, fornece elementos que
esclarecem sobre estes valores ¢ esta religiosidade”.
‘A verso que trago é a de um beato que
“queria servir a Deus e s6 podia servir se fosse ld
num canto oculto secretamente”, indo viver no meio
do mato, a orar e fazer peniténcia. Acolhe em sua
companhia um ladrdo e assassino que decidira
“virar beato”, no intuito de escapar 4 aco da
Justiga por um crime que havia cometido. Na-
quele tempo, a “justiga era a justiga divina, era
uma roda bem grande, uma campa”, € 0 rei orde-
nou que todos os habitantes do lugar fossem sub-
metidos & prova. Sob a incredulidade e o protesto
do beato, o seu companheiro foi trés vezes alvo
de acusacao pela campa, e, em seguida, enforca-
do. Dai, 0 beato, certo de que a justia de Deus
no era reta, abandonou seu lugar de reclusao e
de peniténcia e saiu sem destino. Adiante é abor-
dado por um mogo que propée andarem juntos.
No caminho, deparam-se com uma casa, onde
sao acolhidos. O novo companheiro rouba daquele
que 0s hospedava uma salva de ouro, tinico obje-
to que restara de sua antiga riqueza. Esta salva
de ouro é a seguir presenteada a um mau hospe-
deiro. Posteriormente, 0 acompanhante assassi
na um recém-nascido, cravando-lhe um prego na
moleira. O beato, a estas alturas, temia ser mor-
to, mas, nao conseguindo escapar, prossegue em
caminhada. Por fim, 0 moco ordena-Ihe que cave
a terra num certo lugar indicado, e, ao fazé-lo,
descobre ali uma caveira. Em seguida séo dadas
as explicacdes para os atos: a caveira era a viti-
ma do assassinato cometido pelo falso beato; a
salva de ouro foi roubada do bom hospedeiro por-
que representava um bem que o prendia a terra e
23
que o levava e & sua familia para o inferno; a
mesma salva foi doada a um mau hospedeiro por-
que, estando este no inferno em vida, nada mais
teria a perder; a crianca foi morta porque, pri-
mogénito, seria objeto de um amor excessivo que
iria tornd-lo imprestvel e capaz de botar toda a
familia no inferno. Revela-se 0 mogo, entéo, ser
© anjo-da-guarda do beato, a quem teria vindo
confirmar que a justica de Deus é reta. Neste
momento o antigo beato abre os olhos e se acha
no lugar onde estivera, durante mais de vinte
anos, passando de novo a orar e fazer penitén-
cia, sem mais duvidar da justica de Deus.
A narrativa caririense, segundo Ruth Terra,
esta mais préxima do espfrito dos textos medievais —
ao buscar explicagdes no além — do que os contos
populares recentes, onde as explicagies sao busca-
das na terra. A fortuna deste exemplum, no Nordes-
te, deve-se, possivelmente, ao fato de compor-se a
uma pregacao em cuja ténica apocaliptica era im-
portante a tematica do inferno, na qual se veiculava
uma ambigua idealizacao da pobreza. Elementos de
adaptacéo exemplar, como a tradugdo de “ermita” em
“peato”, (¢, dentre outras, a transformagao do anjo
m “anjo-da-guarda” , tao presente na experiéncia
cotidiana da religiao popular) é compreensivel pela
sua constdncia no mundo de onde provém a nossa
versio. Esta adaptagao, cujo detalhamento nao vou
apresentar aqui, obedece a um critério de diferenci-
aco de elementos do conto, proposto por Propp.
Segundo ele, a forma universal é anterior a forma
nacional, 0 que é valido para todos os registros fol-
dléricos e nao apenas para o conto popular.
NOTA FINAL
Em seu cerne, as narrativas correm em pa-
ralelo a toda uma visdo, idealizada, de valores pres-
critos dentro da comunidade. No universo do con-
to, 0 sofrimento e a privacdo nao sao escamoteados.
Antes, so assumidos enquanto condigao inevitd-
vel ao destino humano, havendo abertura para a
sua superacdo. Se so minimas as possibilidades
de éxito em virtude das dificuldades que se impoem
sempre em grau maximo, a vit6ria se reveste da
—————
Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 200024
mais plena realizagio. Os sinais desta vitéria se
estabelecem como carta marcada no perfil imedi-
atamente reconhecivel de cada personagem. E as-
sim que 0 falso-herdi importa tanto quanto 0 he-
16i a narrativa, porque em torno dele se completa
a rede de agdes e conseqiténcias que se arma no
conto, como um jogo cerrado, sem margem para
falsificagdes.
As instancias do bem e do mal, do perse-
guido e do perseguidor, o sentido da divida e do
merecimento so respondidas em forma direta,
sem concesséo ou ambigiiidade. Esta produgao
aponta para a nogao de justica que, em nivel geral
e simbélico, é indice constante dos contos, seja de
modo explicito, como em narrativas de exemplos,
seja de modo implicito, como se acha no conto
maravilhoso, em cujo mbito aquela nocao apa-
rece transfigurada através de um senso de equili-
brio urdido ao longo dos processos de reparacao
de caréncias e danos, cumpridos invariavelmente.
No seio da comunidade narrativa a circu-
lagao do conto popular é suporte de uma fala for-
madora e universalizante, uma vez que incide so-
bre valores angulares retransportados ao cotidiano
regional, em sintonia com a experiéncia da tradi-
Gao. Para que esta transmissdo se sustente, faz-se
necessario que garantias minimas de sociabilida-
de se verifiquem.
Na regidio em estudo, as condigées de vida
da populacdo ainda permitem que a pratica do con-
to nao padeca por completo de desfalecimento.
Apesar do empobrecimento agravado por anos se-
guidos de seca, da desruralizagdo crescente e da
tendéncia a monocultura e A concentragao de ter-
ras, 0 Cariri se destaca, no contexto do Nordeste,
por uma relativa estabilidade. As boas disposicées
climaticas e de solo, o tipo da divisio das proprie-
dades, dentre outras condicées, também de ordem
hist6rica, favorecem a fixacdo do homem e o nao
esvaziamento completo de relages comunitarias
indispensaveis ao estabelecimento da cultura de
base oral.
No Cariri de hoje, como vimos, a meméria
do conto se manifesta latente. O conto vem per-
dendo seu lugar polarizador diante de um publ
co outrora fiel; a atual geracéio vem se voltando
para outras formas de atracio cultural, de novos
valores. Mesmo assim, ela pode ser buscada nao
apenas ao nivel de ressondncia, como se confir-
ma na consolidagao de um imagindrio, alimen-
tado num movimento em que intervém a acdo
conflitiva e alicercadora do real.
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