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Conto Popular

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CONTO POPULAR: O LEGADO DE UMA TRADIGAO Francisco Assis de Sousa Lima - USP Adere & narrativa a marca de quem a narra, como 4 tigela de barro a marca das maos do oleiro, No ato de narrar intervém a atividade da mao que, com os gestos aprendidos no trabalho, apéia de cer maneiras diferentes aquilo que se pronuncia. Se a arte de narrar rareou, entdo a difusdo da informagdo teve nesse acontecimento uma participagdo efetiva (Walter Benjamin, em O Narrador). Hist6ria de Trancoso néo tem fim ndo, é assim como uma rima de violeiro que vai longe. Se a gente quiser ‘modifica ela pra frente, outra hora faz terminaséo. Se pode findar uma e emendar outra no meio. A historia de Trancoso é uma s6, mas naquela a gente bota toda a quadra que quer e vai longe. (Cirilo Pedro da Silva, Mestre de “Maneiro-pau”). RESUMO Estudo do conto popular do nordeste, espe- cialmente do Cariri cearense, identificando-se a pre- senga do contador de histérias e do ptiblico como elementos ativos e necessarios. A pesquisa foi reali- zada através de viagens de coleta, abrangendo con- tato com informantes e suas histérias. Enfoca-se aspectos ligados a meméria, atualidade do contar, a transmissao de valores e a visio do mundo no conto e na vivéncia. O saber narrar se enquadra como um lazer e uma arte onde a mensagem fica disponivel e é apreendida segundo as expectativas e anseios do piiblico. ABSTRACT This is a study of the popular short story in Northeastern Brazil, mainly in the Cariri area in the state of Ceard, where the presence of both the storyteller and the public are identified as active and necessary elements. Trips whose aim was to gather data and make contact with in- formants and their stories were the starting po- int for the research. Aspects such as those con- nected with memory, an updated way of telling the story, the conveyance of values, and the way the world is seen both in the short story and in existence are highlighted. Story-telling is seen both as leisure and art where the message is avai- lable and is to be grasped depending on the ex- pectations and will of the audience. INTRODUGAO A tarefa de levantar e estudar 0 conto po- pular do Nordeste, mais diretamente da minha regio de origem, o Cariri cearense, remonta a 1979, quando esbocei um projeto de pesquisa para um Mestrado na area de Psicologia Social da Uni- versidade de Sao Paulo. Dispunha ento como re- feréncia basica, além da meméria pessoal de se- res e debulhas da minha infancia rural, os Contos Tradicionais do Brasil, de Luis da Camara Cascu- do, livro que foi para mim uma espécie de pano de fundo para as “mil-e-uma noites” que eu imagi- nava e sentia pulsar nos confins do sertao. Antes, entre 1970 e 1974, do Recife revisi- tava um Cariri “mitico”, ressoante naquelas dis- tncias em espago e tempo, realizando viagens das quais resultaram uma mais estreita aproxi- macao com o Reisado, a Lapinha, os cantos de trabalho, as cantigas de cegos, as modas, as ince- lengas, os benditos de romeiros e de penitentes, as cantigas de roda e as brincadeiras infantis, as adivinhagées, os ternos de pifanos, os violeiros repentistas ou cantadores de viola, os dangado- res de coco, as cerdmicas e os versos de feira, li- Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 14 dos ou cantados, os dramas, os “bonecos” de em- panada ou mamulengo, as feiras, 0 mundo das botijas enterradas e das assombracées em noites de lua, no cotidiano das pequenas cidades, vilas, sitios e pés-de-serra. Um interesse assistematico pelo folclore exercitou-se ai. ‘A menos de um passo era possivel locali- zar a presenca do contador de histérias como ponto integrante dessa cadeia que aqui nao ter- mina nem se esgota, e a partir dele restaurar um veio perdido da histéria pessoal, atualizé-la em nova circunstancia. Em 1975 e, posterior- mente, em 1979, jé em Sao Paulo, entrevistei dois, contadores conhecidos daquela regiao, e a par- tir desse impulso inicial empreendi cinco viagens de coleta ao Ceard, de 1980 a 1983, abrangendo um contato com 37 informantes ¢ totalizando um corpus de 182 histérias. Neste artigo farei um apanhado deste trabalho, publicado sob 0 titulo Conto popular e comunidade nar- rativa (Prémio Silvio Romero 1984). PANORAMA TEORICO Segundo Théo Brandao(1982), as cinco principais obras da contista brasileira incluem as de Cascudo (Contos tradicionais do Brasil), Silvio Romero (Contos populares do Brasil, 1885, Lisboa € 1897, RJ), os contos coletados por Silva Cam- pos (publicados na obra O folclore no Brasil, de Basilio de Magalhies), os Contos populares e can- tigas de adormecer, de Lindolfo Gomes e as 142 historias brasileiras, de Aluisio de Almeida. Atualmente, o nome de referéncia nessa tradigao de coleta, classificacao e estudo do con- to popular é Brdulio do Nascimento, coordena- dor brasileiro do Projeto Conto Popular e Tradi- gao Oral no Mundo de Lingua Portuguesa e responsdvel pela organizacao de um primeiro catdlogo de classificacéo dos contos brasileiros na perspectiva de Aarne-Thompson. Para Cascudo, é o conto popular, dentre os materiais folcléricos, 0 mais expressivo e amplo e também o menos examinado, reunido e divulga- do, constituindo-se um indice revelador de infor- macGo histérica, etnogréfica, sociolégica, juridica e social, além de guardar estreitas relagdes com a Psicologia. Nesse autor, a visdo sobre 0 conto de- corre de sua concepcao abrangente da “ciéncia” do Folclore, onde ¢ assinalado o dominio comum da “psicologia coletiva”, da “cultura geral no Ho- mem, da tradigao e do milénio da Atualidade, do herdico no cotidiano”, constituindo-se uma “ver- dadeira Hist6ria Normal do Povo”, articulando-se a praticamente todas as disciplinas humanisticas, embora nao se detendo, como ele mesmo diz, nes- tas “discussdes substanciais”. Segundo Alan Dundes (1962, p.59-60), até fins do século XIX, predominantemente, as explica- Ges genéticas satisfaziam a definigao da natureza do folclore. Afirmariam os “mitdlogos solares” que materiais folcléricos seriam origindrios, em grande arte, da leitura poética de fendmenos celestes, como © movimento solar, feita pelo homem primitivo. Pos- teriormente, a “escola antropolégica”, responsdvel pela nogio de “sobrevivéncia”, estipularia que o fol- Clore se “evolvera de fatos histéricos e costumes pri- mordiais”, constituindo-se de vestigios arcaicos pre- servados ao longo da evolucao cultural. A teoria “mito-ritualistica”, representativa desta corrente, se- gundo a qual todos os mitos advém do ritual, impli- cava a questdo circular, insoliivel, da génese primé- ria, de modo que os estudos passaram a incidir sobre o prisma preferencial do desenvolvimento evolutivo. No método histérico-geogréfico finlandés de estudo do conto - em cuja escola surge Antti Aarne, nome-marco no estabelecimento de uma linguagem unificadora do universo da contistica =, 0 problema das origens é evitado, permanecen- do a perspectiva diacrénica e a preocupacao com- parativa, comuns aos métodos anteriores de estu- do do folclore (e, por extensao, do conto) mitolégico e antropolégico. Nele buscam-se reu- nir todas as versdes possiveis de um dado conto na tentativa de reconstrucao da sua forma geral hi- potética, nao se procurando explicar como esta forma original teria surgido, importando sobretu- do o processo de transmissao e o desenvolvimento evolutivo, o que implica a evidéncia de que 0 con- to sofre variagdes 4 medida em que é transmitido. Cronos, Natal-RN, v.1,n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 The types of the folk-tale — a classification and bibliography, traduzido ampliado por Stith Thompson a partir da obra de Antti Aarne Verzei- chnis der Marchentypen (FF Comunicatons 3, 1910), cataloga varias centenas de historias tra- dicionais correntes na Europa. Nessa obra, uma narrativa completa teria sido a base para cada tipo, mas o desdobramento da classificag’o em episédios ou motivos foi aplicado a alguns gru- pos de narrativa (histérias do ogro estuipido, de animais, e numerosas anedotas). Mais tarde, Sti- th Thompson encampou essa tarefa de classifica- do dos motivos em seu extenso Motif-index of folk-literature. Na obra de Aarne-Thompson, os grupos principais dos tipos ou histérias completas distri- buem-se em Contos de Animais, Pilhérias e Anedo- tas, sendo o maior deles um grupo intermediério dos Contos Comuns ou contos propriamente ditos, composto de historias magicas ou maravilhosas (em varias subdivisdes) e religiosas, marcadas por elementos sobrenaturais; de histérias romanticas que transcorrem dentro dos limites do possivel; e das relativas ao ogro estipido (nosso bicho-papao), cujo lugar na classificacdo ¢ insatisfatério pelo en- trelagamento do maravilhoso e anedético que Ihe comum, 0 que, por outro lado, as dispde em pro- ximidade no catdlogo. Em nosso meio, Camara Cascudo, inspira- do em Aarne-Thompson, classificou cem contos de acordo com a seguinte divisdo: Contos de Encan- tamento, Contos de Exemplo, Contos de Animais, Facécias, Contos Religiosos, Contos Etiolégicos, Deménio Logrado, Contos de Adivinhagao, Natu- reza Denunciante, Contos Acumulativos, Ciclo da Morte e Tradicao. Vladimir Propp, no classico Morfologia do conto maravilhoso, trabalhando uma amostra, sele- cionada ao acaso, de cem contos maravilhosos rus- sos, verificou que somente pela andlise de funcdes estruturais se poderia estabelecer um indice confid- vel de tipos: “Se existem tipos, ndo é ao nivel em que Aarne os situa, sendo no das particularidades estrutu- rais dos contos que se parecem entre si” (1977, p.23). 15 Introduziu uma unidade minima nova, a fungi, fa- zendo notar que os nomes e atributos das_dramatis, personae mudavam, mas nao as suas agbes. Desco- briu que no conto maravilhoso observam-se trinta e uma fungGes possiveis e que a auséncia de algumas delas néo compromete a ordem das que permane- cem nem o seu reconhecimento enquanto tipo es- trutural. Sao estas as fungdes: afastamento, proibi- Gio e transgressao, interrogatorio e informacao, logro e cumplicidade, dano (ou caréncia), mediacao, ini- cio da acao contraria, partida do herdi, funcao do doador e reagao do heréi (prova), recepcio do objeto magico, deslocamento no espaco, combate, marca do herdi, vitéria, reparacao do dano ou caréncia, re- tomo do heréi, perseguigao e socorro, chegada in- cdgnito do heréi, pretensdes do falso-herdi, tarefa di- ficil e tarefa cumprida, reconhecimento do herdi e descoberta do falso-heréi, transfiguracao do herdi, castigo ou punicdo do falso-herdi, casamento (recom- pensa). Além deste modelo que estipula a suces- sao temporal das acdes, Propp elaborou um se- gundo modelo, mais geral, ordenando as per- sonagens, em mimero de sete e agrupando-as em esferas de agdo: do agressor, do doador, do auxiliar, da personagem buscada, do mandatd- rio, do herdi e do falso-herdi. Os elementos va- ridveis do contos, os atributos, ficam compre- endidos pelo conjunto das qualidades externas das personagens: idade, sexo, situagao, aparén- cia exterior com suas particularidades. Sendo invaridvel a estrutura, 0 exame dos atributos é que permitira a localizacdo das marcas parti- culares a produgao de um determinado conta- dor, em seu lugar e em seu tempo, revelando seu imagindrio e informando sobre uma cultu- ra especifica, sobre um estilo e uma ética. Em revisdo bibliogréfica e critica empreen- dida por Marie-Louise Tenéze sobre 0 conto mara- vilhoso, séo levantadas especulacées quanto na- tureza do género, em varias diregdes. Uma delas, tendo por referéncia o folclorista sufgo Max Luthi, dispoe sobre critérios estilisticos por meio dos quais, para autor, se explicitaria a “forma interior” do Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 16 conto maravilhoso. Luthi classifica 0 estilo do géne- ro como “abstrato”, advindo dai uma conseqiién- cia: importa o esclarecimento do plano das ages, em detrimento das motivacées, que permanecem na sombra, Essa posicdo se concilia perfeitamente com aquela trabalhada por Propp, para quem im- Portam os atos, suas conseqiiéncias para o herdi e para o desenvolvimento da intriga, e nao o senti- mento que porventura anime as personagens. Para Luthi, o conto maravilhoso é uma obra poética que previne 0 acaso para melhor elimind- lo, em virtude da estreita necessidade que liga “Dom” e “Prova”, em paralelo com a ampla liber- dade que, segundo Propp, ¢ inerente ao conto maravilhoso. Este autor estabeleceu a lei de per- mutabilidade de motivos e tipos, a partir da verifi- cacao de que as partes constitutivas de um conto podem ser transpostas a outro sem mudanga al- guma, inviabilizando a idéia de se considerar cada tema como um todo organico, independente em si mesmo. Para Tenéze, 0 conto em seu micleo de base orienta-se pela relacdo entre o herdi ¢ a situacao dificil com a qual se confronta ao longo da acao, sendo este um critério constitutivo do género. Se- gundo Ruth Terra é no ambito do conto maravi- Ihoso que melhor se pode reconhecer a presenca de uma estrutura légica, que preside a narrativa popular como um todo. Nesta, as possibilidades de criagdo para o contador tradicional ou para o poeta popular se desenvolveriam nos limites da rotina cultural da sociedade na qual est inserido, nao se podendo falar em arbitrariedade nesse do- minio (Terra, 1977, p.1). livro de Bruno Bettelheim A psicandlise dos contos de fadas, credita aos contos de fadas um interesse psicopedagégico, na medida em que auxilia a crianga a lidar com a problematica psi- colégica do crescimento e da integracao de suas personalidades. © conto de fadas permitiria a ex- plicitagao de dificuldades inerentes condicao humana, com a vantagem de exprimir, modelar- mente, a possibilidade de uma superacdo satisfa- téria da agao de herdis que, como as demais per- sonagens, seriam “mais tipicas do que tinicas”. Esse autor chama a atengo para o fato de que nesses contos 0 mal é tao onipresente quanto a virtude, dualidade que coloca a questo moral e requisita a luta para resolvé-lo. A promogao da moralidade nao residiria no fato de a virtude prevalecer, mas no dado de ser o herdi mais atraente para a crian- ga e de com ele se identificar em todas as suas lu- tas. Assim, a crianca adequaria o contetido incons- ciente as fantasias conscientes, num movimento que a capacitaria a lidar com este contetido, ori- entando-a para o futuro e para uma existéncia “mais satisfatoriamente independente”. Numa outra linha de interpretacao, basea- da em C. G. Jung, Marie-Louise Von Franz parte do principio de que os contos de fadas sio a ex- pressao mais pura e simples do inconsciente cole- tivo, representando de forma concisa e plena a prépria realidade arquetipica e o processo de indi- viduagdo. Como figura tipica e arcaica, o heréi re- presentaria um modelo de ego funcionando de acordo com o Self, ao resgatar, através das peripé- cias desenroladas em cada conto, um dano pri- mordial cuja resolucdo, sempre feliz, viria satisfa- zer as exigéncias subjetivas daquela instancia integradora da personalidade. trabalho desenvolvido por Oswaldo Elias Xidieh em Narrativas pias populares é um exemplo importante, entre nés, de um estudo sistematizado de textos orais em articulago com o universo soci- ocultural em que se integram e so produzidos. Cen- trando-se basicamente num corpo de narrativas de cunho religioso secularizado, o trabalho de Xidieh tem o mérito de refletir sobre o “momento social em que elas se justificam e funcionam”, Nao res- tringindo sua visio a um grupo estrito de narrati- vas, 0 autor destaca a organicidade presente no conjunto da producao popular oral, caracterizan- do-o como uma unidade. Estabelece a filiacao dos textos as elaboragées religiosas pautadas em fontes eruditas, registra os valores sociais que neles se ex- pressam e 0 modo como se acomodam “As vicissi- tudes da vida sécio-cultural que transcende o am- bito estritamente rural, caboclo e rtistico”. Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 Englobando um total de 76 textos colhi- dos no interior de Sao Paulo e em alguns bairros da capital (seguindo classificaco prépria), Xi- dich aborda sociologicamente um material fol- clérico assim considerado na acepgao de “esfe- ra de cultura” e de “fenémeno social”. Para ele, “o folclore ndo é um conjunto disparatado e des- continuo de valores ¢ elementos de todos os tipos e nem separados cada um deles em compartimen- tos estanques” (1967, p.141). Neste sentido, sua obra aponta caminhos novos para 0 estudo do conto popular em nosso meio, numa perspecti- va fértil porque interessada na fungo que a li- teratura oral, como um todo continuo e organi- co, desempenha ao nivel da representacao popular em seu exercicio cotidiano. AMBITO DA PESQUISA Um trabalho de reflexo conjunta, a partir de 1979, com Ruth Terra, conduziu-me a idéia de estudar o conto a partir de sua posigao no interior de uma comunidade narrativa, ou seja, dentro da rela- do que se estabelece entre 0 contador e o piiblico enquanto unidade interdependente e dinamica; nou- tras palavras, procurando abarcar um processo de transmisso em que contador e ptblico so objeto e sujeito mutuamente ativos e necessarios. Segundo ‘Tenéze (1964), a raridade das obras enfocando a co- munidade narrativa liga-se ao fato de que cada vez mais 0 conto perde 0 seu papel vivo nas reunides coletivas de divertimento e de trabalho. O estudo procurou objetivar questées liga- das a meméria, atualidade do contar, trans- missio de valores ¢ a visio de mundo implicadas no conto e em sua pratica. Foi realizado um le- vantamento de contadores, do seu repertério, além de depoimentos ¢ histérias de vida. Tendo ainda como intuito uma leitura sob o prisma da adapta- go exemplar, isto é, da singularidade com que 0 conto é reelaborado por cada contador em sua cir- cunstdncia € no seu contexto, procurei identificar tragos sugestivos deste processo, que envolve reci- procidade entre os planos do real e do imagindrio popular. 17 Neste sentido foi importante considerar, por exemplo, toda uma representago popular do Pa- dre Cicero e sua inser¢io no mundo do contador, como exemplo vivo de transfiguragao imagindria ou de atualizagao da figura do herdi, o que parece constituir tendéncia universal, de grande valor no Ambito psicolégico e mitico. Por outro lado, a fi- gura do Padre Cicero em muito contribuiu para 0 intenso fluxo migratério do Nordeste a regiao do Cariri cearense, 0 que, dentre outros aspectos, a torna por assim dizer Area-sintese do Nordeste. Impressées obtidas a partir do contato com 0s primeiros informantes conduziram & adogao de um critério relativo de mapeamento, com a utili- zacao de indicadores internos & amostra. Novos contadores foram referendados tendo por base 0 seu reconhecimento dentro da prépria comunida- de. Nos limites em que a pesquisa se deu, foi possi- vel reconhecer que o sentido maior do conto se encontra na instancia viva do seu requisito cotidi- ano: em seu fluir na imaginagao e na consciéncia no momento presente, na sua atualidade. ACHADOS E PERDIDOS A nocdo de uma quebra de continuidade na transmissdo do conto popular é reconhecida pela totalidade dos informantes. Algo desta prati- ca permanece viva, ainda, pelo menos enquanto reminiscéncia ou acontecimento esparso, garan- tido principalmente pela memoria dos velhos, os, quais representam um percentual minimo da po- pulacao. Velhos que, muito em breve, nao sero os, de antigamente... Possivelmente, 0 peso sobredeterminan- te da TV, para nao computer, aqui, mudancas outras ocorridas no contexto econémico e sociocultural da regio, inviabilizaria de ante- mao 0 reemprego da pratica cotidiana do con- to, até mesmo pelo condicionamento massifi- cante exercido pelos modernos meios de comunicacao. Estes novos recursos, como a TV (presente em todas as cidades do Cariri e em alguns setores rurais beneficiados pela eletrifi- cagio) e 0 radio (a partir de 1937, no formato C—O Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 18 de Servigo de Alto-Falantes, tendo sido inaugu- rada em 1951 a primeira rédio da regio) sao acolhidos com entusiasmo e ha quem os incor- pore positivamente. Por outro lado, pode-se relembrar o desa- parecimento de reunides de trabalho propicia- torias a veiculacao do conto, as debulhas, hoje obsoletas, em virtude de mudancas nas técnicas agricolas. Além de modificagdes culturais espe- cfficas, pelas quais respondem a implantacao e disseminagao de novas linguagens, mudangas outras no perfil regional acarretam a defasagem na pratica do contar. Se os meios de comunica- co de massa contribuem para a introducao de valores em que a informagao e a opinido pas- sam a predominar sobre uma troca mais efetiva de experiéncias, hd que se pensar também no empobrecimento econémico e social como fator de prejuizo na sustentagao mais conseqitente dos antigos valores. ‘Assim, o éxodo e a marginalizacao do ho- mem do campo, sua miserabilizacao crescente, enfim, a falta de garantias sobre um minimo vi- tal perturba a capacidade de sintonia com os va- lores estdveis da tradigao sob a qual este mesmo homem se abrigava. Tal como a infiltragao de novas técnicas e linguagens, 0 empobrecimento econémico e social, responsavel pela quebra de relagdes de vizinhanca e de vivéncia comunité- ria, contribui decisivamente para a gradativa su- peracao de praticas tradicionais de transmissao, oral. No Cariri cearense tais relagdes nao se acham de todo deterioradas. Embora depoimentos venham registrar a caréncia de herdeiros da meméria do conto e de sua pratica, 0 contato com a populacao regional tornou patente que, extrapolando essa arte para além do Ambito estrito do conto, no seio dessa gente se preza a narrativa, fato observavel na for- ma discursiva, fluente e movimentada com que os informantes em geral ritmam os seus relatos. UM OFICIO ARTESANAL Alguns informantes evocam a meméria de grandes contadores de histéria na regiao, mas pre- domina a sua localizagio no elemento doméstico da comunidade, onde individuos se autorizam e so eleitos agentes privilegiados dessa transmissao. Embora isto nao sirva para descaracterizar uma “figura antropolégica” do contador de histérias, permite enquadré-la no circulo geral de uma am- biente humano onde todos compartilham, na me- dida das possibilidades, do interesse e do talento de cada um, de uma reserva de saber onde narrar é marca reconhecida. A figura individual do contador importa menos. A este respeito pode-se fazer um paralelo frente a outros portadores de cultura popular, va- lendo referir, para tanto, dois estudos que dispoem algo neste sentido. Maria Isaura Pereira de Quei- roz (1958, p.62), em pesquisa sobre a danca de Sao Gonealo, afirma que esta danga “nao é ele- mento diferenciador dentro da comunidade”, ou seja, se um mestre de Sio Goncalo participa de uma “elite” local, ou é por outras formas distin- guido dentro da comunidade, isto nao decorreria do fato mesmo de ele ser mestre, embora tal co- menda exija qualidades pessoais. Estudando a li- teratura de folhetos do Nordeste, Ruth Terra (1983) entende que o lugar do poeta deve ser compreen- dido para além de uma figura personalizada de autor, apresentando-se este, antes, como intérpre- te fiel a uma tradicdo e aos seus valores e, por isto, responsdvel perante um puiblico de cujo universo compartilha. No Cariri e no Nordeste, contar historias nao é uma atividade remunerada. O contador de histérias nao representa uma categoria profissio- nal & parte, embora seu oficio comporte exigén as de um fazer artesanal: empenho, técnica, esti- lo, singularidade e talento na repeticéo. Mas 0 contador nao langa o chapéu as moedas, como o faz.o embolador, o tirador de versos de feira, 0 can- tador de viola e, de resto, os brincantes nordesti- nos. A “histéria de Trancoso” ¢ lazer e ¢ arte, mas antes de tudo é um fazer dentro da prépria vida. Dé-se e circula como um objeto sem prego, valor de estimacao. Circulante como o anel que passa de mao em mao, o conto possuii portadores. Nao hé quem 0 administre, senao o préprio piiblico que o tenha Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 cultivado. E matéria de tempo livre, e é cadéncia no espaco liidico da ocupacdo. Préximo do sonho, é sentinela da vigilia. Fantasia e imagem, é tam- bém veiculo do real. O contador comparece aos terreiros e sa- las, acontece espontaneamente na oportunidade hospitaleira dos arranchos e pernoites. E pretexto nas reunides familiares, em noites de sexta-feira da paixdo, enquanto se espera a hora do galo. Es- taria presente ao ritmo das debulhas. E ponto e contraponto nas conversas em noites, com cadei- ras nas calgadas. Pode ir roga, animar o traba- Iho nas feiras e nos eitos. Acompanha o viajante nos caminhos e travessias. Insinua-se nos lugares do acalanto, e é palavra tecida e rendada no colo de avés, rendidas ao pedido, ao convite e A cum- plicidade dos netos. A personalidade do narrador se afirma e se expande na hora de contar. Mas nao se pode sepa- rar o conto do narrador, do seu universo e do seu puiblico. Mesmo a eleicao do repertério e 0 jeito como é transmitido se define junto ao puiblico. Os recursos mimicos, as inflexdes, o traco de humor, a énfase normativa, as sugestdes de mistério ou a suspensao narrativa sao efeitos da técnica e da versatilidade do contador. No entanto, sua opor- tunidade, pontuagio e eficdcia orientam-se atra- vés e em funcdo de uma escuta participante. Nao falar o conto se nao houver um meio que o solici- te. E se é para este meio que se dirige, sé falard bem enquanto integrar sua experiéncia cotidiana, religando-a as fronteiras da grande meméria: a meméria da tradigao. processo narrativo nao dilui a importan- cia individual do contador. Relativiza-o, ao nivel em que este se torna capaz de organizar um saber, transforma-lo até, mas nunca transtorné-lo: é aqui que se opera uma relacao de vigilancia coletiva. Mais do que por mera vigilancia, o publico assiste ao narrador e o respeita pela sua qualidade de doador e agente de uma transmissio. Para Walter Benjamin (1980, p.62) narvar histérias & sempre a arte de as continuar contandoe esta se perde quando as historias jé ndo ‘do mais retidas Perde-se porque jd ndo se teceefia 19 enquanto elas sdo escutadas. Quanto mais esqueci- dode si mesmo estd quem escuta, tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada. No momento em que 0 ritmo do trabalho o capturou, ele escuta as histérias de tal maneira que o dom de narré-tas the advém espontaneamente. Assim, portanto, estd consttuida a redeem que se assenta o dom de nar- rar. Hoje em dia ele se desfaz em todas as extremi- dades, depois deter sido atada hd milénias no érm- bito das mais antigas formas de trabalho artesanal. © mundo do conto nao poderia ser outro, sendo 0 mundo mesmo do popular. Mundo sem patria, ou além de qualquer patria, porque fun- dado sobre a linguagem coletiva. Mundo diversi- ficado, aparentemente fragmentério, mas fecun- do em sua heterogeneidade de formas. Resistente em suas normas e valores, intercomunicante em seu imaginario, e versatil. © mundo do contador 6 sua histéria, riscada também nas histérias que ai se contam. ‘VERTENTE EXEMPLAR Em diferentes niveis de filiagdo histérica e de universo formal, o registro do “exemplo” pode ser verificado, de modo explicito ou entrevisto, no conjunto de contos coletados no Cariri. Tal afirma- ao pode ser aplicada & producao inteira do Nor- deste e talvez do Brasil, uma vez que o elenco de textos presentes em coleténeas diversas, antigas e recentes, conservam entre si certa familiaridade te- matica e de linguagem. Entendo nao haver no processo de trans- missio do conto popular um intuito normativo deliberado, isto é, nao lhe assiste intencionali- dade ostensiva em relacao 4 norma, no sentido da apresentacéo de um axioma ou de uma li- ¢40 moral, que parece caracterizar o universo da fabula. No conto, de cunho maravilhoso es- pecialmente, a mensagem fica disponivel e en- tregue ao ouvinte que a apreende segundo suas expectativas e anseios. Encontram-se no corpus narrativas piedo- sas, especialmente aquelas que compdem o ciclo de “quando Nosso Senhor andava pelo mundo”, cujo teor por si mesmo religioso traz muito de Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 20 exemplar, onde o senso de justiga se elabora em conexio com 0 sagrado. Xidieh atribui a estes con- tos a fungio de preservar na sociedade “nistica” 0s “valores de um sistema consagrado pela tradi- a0” e de inserir, na “sociedade rustica em mudan- ga”, tracos de “urbanizagio” e de “secularizacao” que emergiriam das narrativas pias reelaboradas, estas se oferecendo, por sua vez como “um qua- dro de referéncia para enfrentar e resolver proble- mas emergentes dessa mudanca”. Dentre outros aspectos analisados, Xidieh sublinha o elemento da hospitalidade, constante em tais narrativas, enquadrando-o no espirito de solidariedade, valo- res cultivados pela comunidade “ristica”, embora dela nao exclusivos, uma vez que “moldados pro- fundamente, para nao dizer essencialmente, por um ‘mundo que precede a formagao de qualquer socie- dade riistica no Brasil” (1967, p. 90 e 144). Trés das narrativas tematizam o valor da hospitalidade e envolvem “lices” a Sao Pedro. Outras colocam & prova sua fidelidade, pondo-o em ridiculo e desmascarando-o em sua tentativa de burlar o Senhor com ardis desonestos. Uma delas, de cunho humoristico, pée em evidéncia 0 valor do trabalho e da fungdo atribufda ao homem de ser responsdvel pelo sustento doméstico. Dezenas de outros contos, de cardter nao religioso, apresentam a marca velada e por vezes a disposigao explicita do exemplo. Uma panora mica do temério evidencia, no campo semantico, uma série de registros que se acomodam perfeita- mente a vertente exemplar, enquanto suporte de valores ou veiculo de ensinamentos. Hé narrativas que incidem, admoestando, sobre vicios capitais ou mandamentos fora de um contexto narrativo apologético e religioso, tradu- zindo, possivelmente, a incorporagao de valores cris- tos que, por forca histérica, consolidaram-se na comunidade para formar uma ética. Algumas de- senvolvem-se em torno do orgulho e levam as tlti- mas conseqiiéncias o castigo imposto a quem o pro- tagoniza. Outras se constituem num libelo contra © adultério. Varios contos que enquadram o tema do rico invejoso voltam-se claramente contra a usu- ra, Diante das privagdes acarretadas pela pobreza é sancionada a extorsio do rico pelo pobre, ou, o que é freqiiente, geram-se narrativas no desfecho das quais o pobre é “justicado”. Ha contos onde a ambi- 0 conduz a “lacos” ou armadilhas, cujo fechamen- to tragico decorre da alianga involuntéria e indire- ta com o deménio, que destréi para seu império as “vitimas” da gandncia. Outras narrativas inscrevem formulas, ma- ximas ou provérbios que encerram cristalizacdes, de uma sabedoria preceitual: “o bem se paga com © bem”; “mais vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga”. Em conto correlato o proprio in- formante ressaltou da histéria o cardter exemplar, sublinhando que toda oferta ou todo auxilio sé fru- tificam quando prestados “em nome da providén- cia divina’. Versées referidas, ligadas ao tema do ‘Justo Juiz” configuram histérias da “Justiga de Salomao”. Outros contos organizam-se diretamente a partir da instncia do conselho, o qual, embora ofe- recido de forma cifrada, garante aquele que o se- gue a vitdria, no caso a realizacio feliz de sua tra- jetéria de vida. As recomendacGes ou conselhos repetem-se de modo mais ou menos constante num, grupo de narrativas: “nao deixar atalho por arro- deio”, “nao se hospedar em casa de homem velho casado com mulher nova”; “ver trés vezes pra po- der crer”. Narrativas envolvendo atitudes dadas como tipicas do comportamento feminino — a incapacidade para guardar segredos ~ orientam- se para situagdes em que a mulher é “exempla- da”, isto é, punida severamente no intuito de regrar-Ihe a conduta e combater a prevaricacao. Igual postura é adotada em reacao as mulheres ciumentas. Procedimento andlogo pode ser vis- to em narrativas onde o “heréi”, preguicoso, & surrado pela mulher na situagao inicial do con- to; realizado o seu afastamento, e tendo falha- do nas primeiras tentativas de superagao da ino- perdncia que o torna vitima, consegue, por obra de objetos magicos obtidos como recompensa por servicos prestados, resgatar a posicao de su- perioridade, depois de vingar o ultraje perpetra- do pela mulher. Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 HA narrativas que literalmente, ou aparen- temente, transgridem os valores abrigados pela tradigdo, sustentando-se pelo seu cardter faceci- ‘050 ou anedético, como é 0 caso daquelas onde o herdi vence pela esperteza, de que é protétipo 0 ciclo de Pedro Malazartes e congéneres. Nestas, as ages do herdi em geral exemplificam vingan- cas do mais fraco sobre poderosos exploradores, © que, reforcado pelo elemento anedético, recu- peram por assim dizer a ética em que se pauta 0 conto tradicional. O VAQUEIRO QUE NAO MENTIA Esto incluidos, no corpus, contos corres- pondentes ao tema do “vaqueiro que ndo men- tia”, constante da coletanea de Cascudo e ampla- mente estudado por Théo Brando. Nesses contos o valor basico presente é o da fidelidade. Uma das versdes que coletei, Jodo das Montanhas, narra a histéria de um vaqueiro tido como homem de palavra por seu patrao, o qual confia aquele a guarda de um boi de sua estima, assumindo ao mesmo tempo, publicamente, ser o vaqueiro in- capaz de mentir. Duvidando da existéncia de al- guém tio fiel, um fazendeiro vizinho propée uma aposta, empenhando sua propriedade, o que é aceito, na mesma moeda, pelo patrao do vaquei- ro. O desafiante lanca mao de um estratagema: envia sua prdpria filha & casa de Joao das Mon- tanhas, uma vez sabendo-o solteiro, e recomen- da que 0 seduza e exija, depois, comer do figado do boi Azeitao. Assim ocorre, e quando a moca, estando gravida, diz. do seu “desejo” de comer do figado do boi, o vaqueiro reluta mas termina por atender, contrariado, a tamanha exigéncia, Pos- teriormente é chamado pelo patrao, que, como de costume, haveria de indagar sobre o boi. No caminho ensaia diversas respostas que julgava poder apresentar como desculpas pela morte do animal. Nenhuma delas, contudo, Ihe era aceité- vel, até que resolve contar ao patrao a verdade sobre o acontecido. Na ocasiao, achavam-se a postos ambos os contendores, que, diante da fran- queza do vaqueiro em situacao to extrema, dao por encerrada a aposta. O patrao de Joao das Mon- 21 tanhas sai vencedor e este casa-se com a filha do fazendeiro vizinho, ganhando sua parte de terra. Para Théo Brando a histéria do vaqueiro que nao mentia é ‘muito mais epresentativa das expectativas das cul- turas patriareais e dos povos pastoris, que €ainda a cde uma parte da nossa regido, do que a dos préprios romances em que se celebram as faganhas ¢proezas capacidades sobrenaturais de bois, cavalos ¢ va- quires. No mesmo estudo, o autor chama a aten- cdo para a “ideologia de fidelidade e lealdade do vaqueiro ao fazendeiro”, que se articula a ‘manutengio de todo um sistema exploratério da peastoricia ao lado naturalmente de outros agentes de natureza sdcio-econémica: os sistemas de con- trato de trabalho, 0 pagamento, nao em dinheiro, mas em reses obtidas (Branddo, 1982, p.133-135). No Gariri cearense prevalece ainda o sis- tema de “quarta’, de acordo com o qual o vaquei- ro é pago com uma dentre quatro reses nascidas numa “manga” ou fazenda. Observa-se ainda uma relativa valorizacao social do vaqueiro que, habitualmente, é lavrador também, na qualida- de de morador, rendeiro ou mesmo pequeno pro- prietério. UMA ESTORIA DE AMOR Anovela Uma estéria de amor, de Joao Gui- mares Rosa, contém um interessante aprovei- tamento do conto O vaqueiro que néo mentia e da Histéria do criador de porco. 0 autor funde-os na boca da contadora de histérias Joana Xaviel. Duas versées que colhi da Histdria do criador de porco resumem-se no seguinte: 0 compadre rico incuin- be ao compadre pobre cuidar do seu criatério de porcos. Premido pela necessidade, 0 compadre pobre passa a alimentar sua famflia com os por- cos do compadre rico. Vendo 0 criatério dimi- nuit, a sogra do compadre rico resolve flagrar 0 ladrao, escondendo-se dentro de um batt (ou ora- tério), 0 qual é levado propositadamente para a casa do pobre. Ao ver que os filhos do pobre estao a se fartar de carne, a velha revela em voz alta Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 22 sua descoberta. © compadre pobre, percebendo o ardil, mata a velha e diz. ao rico ter sido morte natural. A velha é enterrada, 0 compadre rico interpreta a desgraca como castigo pelo “falso” que teria levantado ao pobre. Este ainda a expée, depois de desenterré-la, ao compadre rico, ins- truindo-o a enterré-la de novo com os seus per- tences. O compadre pobre consegue, a partir deste recurso, espoliar a riqueza do seu patrio, inver- tendo-se a distribuicao das posses. Guimaraes Rosa, em sua novela, situa a estima de um homem rico por uma vaca e a con- fianga que depositava sobre 0 vaqueiro. Na hi toria, é a mulher deste tltimo que “deseja” co- mer da carne da vaca, que é morta. Mas 0 vaqueiro mente quanto as razdes da morte do animal, atribuindo-a a um acidente. Em segui- da, a mae do homem rico, ouvindo por acaso os filhos do vaqueiro pedirem pedacos de carne de uma tal “vaca Cumbuquinha”, descobre que aquele havia mentido. A mulher do vaqueiro en- venena a mae do rico, e ainda rouba as alfaias, da velha, tornando-se rica. A historia termina “com o mal nao tendo castigo”. © vaqueiro Manuelzao, personagem de Uma estéria de amor, reclama no sentido de que aquela histéria nao estaria bem contada, 0 que oinscreve no dominio de um saber vigilante, que compreende e integra valores fundamentais ina- liendveis. “Todos que ouviam, estranhavam mui- to: estdria desigual das outras, danada de diver- sa. Mas essa histéria estava errada”...Guimaraes Rosa, conhecedor de ambos os contos, certamen- te ndo os fundiu de modo gratuito. Esta fusdo Ihe foi ditada pelo interesse de problematizar, em torno da personagem Manuelzao, sua condicao de vaqueiro de palavra, fiel a um patrao rico e ausente e a sua busca de valores ligados 4 pro- priedade de terra e ao estabelecimento de uma familia. Por outro lado, a manipulacao dos dois contos pelo escritor informa sobre o seu conhe- cimento de fontes populares, das quais, com habilidade, se utilizou lancando mao, no caso, de narrativas que em sua novela adquirem um peso estruturante. UM EXEMPLO MEDIEVAL Um conto em especial, O beato da travessia ou Histéria da justiga divina, distingue-se no corpus por constituir-se em narrativa exemplar dentre as exemplares, estando filiada & tradigao do exemplum, género amplamente cultivado na Idade Média den- tro de uma ética crist sob a qual servia como ins- trumento pedagégico e de aplicacao doutrindria A apologética. Esta narrativa est catalogada em Aar- ne-Thompson e corresponde ao Mt. 759 (confirma- fo da justica divina). Trata-se de um tema estuda- do por Ruth Terra (1981) no artigo “O ermita e 0 anjo no Nordeste”. Segundo a autora, consta no Brasil uma tinica versio, publicada, embora incom- pleta, em Contos populares do povo brasileiro, de Aluisio de Almeida. Daf 0 valor da verso caririen- se. Por outro lado, a presenca do tema no folheto Histéria do homem que teve uma questo com Santo Anténio, objeto do referido artigo, demonstraria a circulacao deste exemplo, no Nordeste, a partir, pelo menos, da Segunda década deste século. De acordo com o mencionado estudo, a his- téria PO ermita e 0 anjo remonta a fontes drabes e judaicas, serd encon- trada entre os padres do deserto, no século VI, e terd grande divulgagdo nos livros de exemplo do século XIII e em séculos posteriores, continuando a ser difundida em contos da tradigdo oral (na qual sinspiraram os autores do exemplum), ena literatura erudita. E narrativa corrente em varios paises, ten- do sido registrada “nos séculos XIX e XX na Breta- nha, Espanha, Portugal e Brasil”. A verso que dis- ponho poderia servir como elo de uma cadeia, uma vez que, no Brasil, a versao publicada comporta apenas a situagio inicial e o desfecho; falta-Ihe 0 afastamento e os trés episédios principais que cons- tituem 0 corpo d’O ermita e o anjo. Ao discutir a questo das fontes a partir das quais teria sido versificado o folheto relativo ao tema da confirmacao da justica divina, a autora acredita que o poeta popular poderia ter tido conhecimento da historia por meio da tradigao oral, levantando, como hipotese geral, ter este conhecimento advindo de Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 sermdes de padres regulares, ou das pregagdes dos padres franciscanos, durante as Santas MissGes, uma das formas pela qual a Igreja se fazia presente no interior do Nordeste, até comepo deste século. 0 folheto é analisado em relagao ao con- texto social em que foi produzido e, mais direta- mente, em relacdo ao quadro da religiosidade po- pular ao qual se acha intimamente associado. Se 0 folheto pode ser compreendido, por um lado, a partir “da religiosidade popular do campo e dos va- lores ai vigentes, por outro, fornece elementos que esclarecem sobre estes valores ¢ esta religiosidade”. ‘A verso que trago é a de um beato que “queria servir a Deus e s6 podia servir se fosse ld num canto oculto secretamente”, indo viver no meio do mato, a orar e fazer peniténcia. Acolhe em sua companhia um ladrdo e assassino que decidira “virar beato”, no intuito de escapar 4 aco da Justiga por um crime que havia cometido. Na- quele tempo, a “justiga era a justiga divina, era uma roda bem grande, uma campa”, € 0 rei orde- nou que todos os habitantes do lugar fossem sub- metidos & prova. Sob a incredulidade e o protesto do beato, o seu companheiro foi trés vezes alvo de acusacao pela campa, e, em seguida, enforca- do. Dai, 0 beato, certo de que a justia de Deus no era reta, abandonou seu lugar de reclusao e de peniténcia e saiu sem destino. Adiante é abor- dado por um mogo que propée andarem juntos. No caminho, deparam-se com uma casa, onde sao acolhidos. O novo companheiro rouba daquele que 0s hospedava uma salva de ouro, tinico obje- to que restara de sua antiga riqueza. Esta salva de ouro é a seguir presenteada a um mau hospe- deiro. Posteriormente, 0 acompanhante assassi na um recém-nascido, cravando-lhe um prego na moleira. O beato, a estas alturas, temia ser mor- to, mas, nao conseguindo escapar, prossegue em caminhada. Por fim, 0 moco ordena-Ihe que cave a terra num certo lugar indicado, e, ao fazé-lo, descobre ali uma caveira. Em seguida séo dadas as explicacdes para os atos: a caveira era a viti- ma do assassinato cometido pelo falso beato; a salva de ouro foi roubada do bom hospedeiro por- que representava um bem que o prendia a terra e 23 que o levava e & sua familia para o inferno; a mesma salva foi doada a um mau hospedeiro por- que, estando este no inferno em vida, nada mais teria a perder; a crianca foi morta porque, pri- mogénito, seria objeto de um amor excessivo que iria tornd-lo imprestvel e capaz de botar toda a familia no inferno. Revela-se 0 mogo, entéo, ser © anjo-da-guarda do beato, a quem teria vindo confirmar que a justica de Deus é reta. Neste momento o antigo beato abre os olhos e se acha no lugar onde estivera, durante mais de vinte anos, passando de novo a orar e fazer penitén- cia, sem mais duvidar da justica de Deus. A narrativa caririense, segundo Ruth Terra, esta mais préxima do espfrito dos textos medievais — ao buscar explicagdes no além — do que os contos populares recentes, onde as explicagies sao busca- das na terra. A fortuna deste exemplum, no Nordes- te, deve-se, possivelmente, ao fato de compor-se a uma pregacao em cuja ténica apocaliptica era im- portante a tematica do inferno, na qual se veiculava uma ambigua idealizacao da pobreza. Elementos de adaptacéo exemplar, como a tradugdo de “ermita” em “peato”, (¢, dentre outras, a transformagao do anjo m “anjo-da-guarda” , tao presente na experiéncia cotidiana da religiao popular) é compreensivel pela sua constdncia no mundo de onde provém a nossa versio. Esta adaptagao, cujo detalhamento nao vou apresentar aqui, obedece a um critério de diferenci- aco de elementos do conto, proposto por Propp. Segundo ele, a forma universal é anterior a forma nacional, 0 que é valido para todos os registros fol- dléricos e nao apenas para o conto popular. NOTA FINAL Em seu cerne, as narrativas correm em pa- ralelo a toda uma visdo, idealizada, de valores pres- critos dentro da comunidade. No universo do con- to, 0 sofrimento e a privacdo nao sao escamoteados. Antes, so assumidos enquanto condigao inevitd- vel ao destino humano, havendo abertura para a sua superacdo. Se so minimas as possibilidades de éxito em virtude das dificuldades que se impoem sempre em grau maximo, a vit6ria se reveste da ————— Cronos, Natal-RN, v.1, n.1, p. 13-26, jan./jun. 2000 24 mais plena realizagio. Os sinais desta vitéria se estabelecem como carta marcada no perfil imedi- atamente reconhecivel de cada personagem. E as- sim que 0 falso-herdi importa tanto quanto 0 he- 16i a narrativa, porque em torno dele se completa a rede de agdes e conseqiténcias que se arma no conto, como um jogo cerrado, sem margem para falsificagdes. As instancias do bem e do mal, do perse- guido e do perseguidor, o sentido da divida e do merecimento so respondidas em forma direta, sem concesséo ou ambigiiidade. Esta produgao aponta para a nogao de justica que, em nivel geral e simbélico, é indice constante dos contos, seja de modo explicito, como em narrativas de exemplos, seja de modo implicito, como se acha no conto maravilhoso, em cujo mbito aquela nocao apa- rece transfigurada através de um senso de equili- brio urdido ao longo dos processos de reparacao de caréncias e danos, cumpridos invariavelmente. No seio da comunidade narrativa a circu- lagao do conto popular é suporte de uma fala for- madora e universalizante, uma vez que incide so- bre valores angulares retransportados ao cotidiano regional, em sintonia com a experiéncia da tradi- Gao. Para que esta transmissdo se sustente, faz-se necessario que garantias minimas de sociabilida- de se verifiquem. Na regidio em estudo, as condigées de vida da populacdo ainda permitem que a pratica do con- to nao padeca por completo de desfalecimento. Apesar do empobrecimento agravado por anos se- guidos de seca, da desruralizagdo crescente e da tendéncia a monocultura e A concentragao de ter- ras, 0 Cariri se destaca, no contexto do Nordeste, por uma relativa estabilidade. As boas disposicées climaticas e de solo, o tipo da divisio das proprie- dades, dentre outras condicées, também de ordem hist6rica, favorecem a fixacdo do homem e o nao esvaziamento completo de relages comunitarias indispensaveis ao estabelecimento da cultura de base oral. No Cariri de hoje, como vimos, a meméria do conto se manifesta latente. O conto vem per- dendo seu lugar polarizador diante de um publ co outrora fiel; a atual geracéio vem se voltando para outras formas de atracio cultural, de novos valores. Mesmo assim, ela pode ser buscada nao apenas ao nivel de ressondncia, como se confir- ma na consolidagao de um imagindrio, alimen- tado num movimento em que intervém a acdo conflitiva e alicercadora do real. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS 1 - AARNE, Anti, Thompson, Stith. The types of the folktale, a classification and bibliography. Helsinki: Suomalainen Tiedekatemia, 1928. (FF Comunications, 74). 2 - ADOTEVI, Stanislas. Négritude et négrologues. Paris: Union d’Editeurs, 1972. Les musées dans les systémes éducatifs et culturels contemporains. 3-ANDRADE, Manuel Correia de. A terra eo homem do nordeste. 2. ed. Sao Paulo: Brasiliense, 1964. 4 - BENJAMIN, Walter. Textos escolhidos. So Pau- Jo: Abril Cultural, 1980. O narrador. (Os Pen- sadores). 5 - BETTELHEIM, Bruno. A psicandlise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. 6 - BOSI, Ecléa. Meméria e sociedade: lembrangas de velhos. Sao Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1979. 7 - BRANDAO, Théo. Seis contos populares no Bra- sil. 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