0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 58 visualizações13 páginasPalavras Que Tocam
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Bealn Clvehue-
9p DORA RE RERES ~ iTiTes ‘
SOCIEDADE PSICANALITICA DE PORTO ALEGRE
Conferéncia de Quinta Feira, 16 de Outubro de 2003
PALAVRAS QUE TOCAM
Danielle Quinodoz
Quais palavras encontrar, na minha pratica cotidiana em psicandlise, para
ajudar meus pacientes a exprimir, ndo somente o que eles pensam, mas
também o que eles sentem e experienciam? As vezes, um paciente me
consulta numa primeira vez, simplesmente para solicitar ajuda; ele nao sabe
qual ajuda pedir ~ simplesmente ele vai mal: quais palavras utilizar para Ihe
fazer sentir se eu posso Ihe ajudar? Quais sao as palavras que tocam?
Existem conhecimentos que se ensinam, outros que descobrimos através da
experiéncia pessoal. A psicandlise se insere ai. Como fazer sentir em que
consiste a reiacdo de transferéncia e contra-transferéncia entre um analista e
um analisando, a um paciente que ainda nao teve a experiéncia pessoal? E,
portanto, como alguém pode imaginar que uma psicandlise podera Ihe ajudar.
se ele nao sabe do que se trata? Eu penso que os psicoterapeutas podem se
colocar questées parecidas. Isso implica, primeiramente, perguntar-se
primeiramente: quem séo, atualmente, os pacientes que nos solicitam ajuda?
Os pacientes heterogéneos
A maioria dos meus analisandos é capaz de simbolizar e utilizar mecanismos
psiquicos secundérios, da linha da neurose., Mas, por outro lado, sem
necessariamente serem psicéticos, eles recorrem a mecanismos mais
arcaicos da linha da psicose, como a negagdo, a projegao, a identificaco
projetiva macica. e eles utiizam a clivagem de diferentes formas. A
importancia desses Ultimos mecanismos pode, as vezes, travar o
funcionamento de sua capacidade simbdlica, da qual, no entanto, esses
pacientes dao provas em outras circunstancias. Os analistas em formacao
que eu supervisiono me expdem mais seguidamente casos similares.
Esta heterogeneidade se encontra em cada um de nés em propor¢ées que
variam conforme as pessoas e que podem evoluir com o tempo. No entanto, ¢
especialmente importante remarcar que, se nés somos todos mais ou menos
heterogéneos do ponto de vista da nossa personalidade, alguns suportam
essa situagao, enquanto outros a toleram mal.
Os pacientes que suportam sem muita angustia sua heterogeneidede
jaram neles um objeto intemo suficientemente construtivo e benevolente
ndo experimentam a urgéncia para eliminar certas forgas presentes pare
evitar a angustiaContrariamente, outras pessoas ndo suportam ressentir em si esses
movimentos divergentes. Eles tem o sentimento de partir em pedacos,
levados por essas forcas centrifugas. Longe de poder instalar em si um objeto
bom e integrador, eles tém o sentimento que 0 objeto, ele também, corre 0
isco de partir-se em pedacos; as vezes mesmo, eles fantasiam que eles
préprios podem Ihe enlouquecer. Eu chamo pacientes heterogéneos os
pacientes que pedem ajuda porque eles sofrem muito de sua
heterogeneidade. Eles séo angustiados por ndo conseguir integrar diferentes
aspectos deles mesmos e acreditam ndo conseguir conservar seu sentimento
de unidade interna, Eles exprimem, seguidamente, de forma latente ou
manifesta, sua angustia de virem a enlouquecer.
Elementos compativeis e elementos incompativeis
O nivel de tolerancia & heterogeneidade varia conforme as pessoas. Mas
outros fatores intervém: existem elementos que é possivel, até desejavel, que
se liguem para fazer uma sintese homogénea, enquanto outros sao
incompativeis. Vou dar exemplos mostrando que ha diferenga de se ter
elementos que se liguem entre si e de elementos em que essa ligagdo é
incompativel
Elementos compativeis:
Freud deu um exemplo de uma crianga, o pequeno Hans (Freud. 1909) que
sofria porque ele detestava seu pai como rival perto de sua mae, mas que ele
amava esse pai como companheiro de brincadeiras. Enquanto ele nao pode
ligar esses elementos opostos, Hans sofria de sua heterogeneidade © do
conflito que isso causava, Mas elaborando seu conflito edipiano, Hans ia
reunir esses sentimentos de raiva e de amor em relagéo ao mesmo pai, para
ter um sentimento de amor total. Esses afetos de amor e raiva estavam
compativeis. Nos vemos nesse exemplo, que a clivagem entre diferentes
aspectos de um objeto total é uma clivagem util, porque ela permite distinguir
os elementos que o compée e sair da confusao para permitir a integragao. Eu
lembro 0 que Freud diz sobre a confusao de sentimentos: “A raiva misturada
ao amor provém, por uma parte, dos estados preliminares de emar, nao
completamente dominados ...” (Freud, 1915, pg 184)
Elementos incompativeis. A angustia de enlouquecer
Elementos incompativeis séo elementos que ndo podemos ligar para fazer
uma sintese. Por exemplo, na clivagem do ego Freud descreve duas “atitudes
do 2g0' impossiveis de se ligarem: um paciente nao pode ligar a negacao da
morte de um dos pais com 0 reconhecimento desta morte para fazer uma
sintese Essas duas atitudes sdo incompativeis, podemos justap6-las em si
mesmas. passar de uma a outra, mas é impossivel de integra-las_ em um toco
coerente, Ocorre 0 mesmo com o sentimento de todo o poder infantil: ele ndo
pode ser ligado aquele do real poder pés-edipiano. Ultrapassar uma clivagem
emire duas partes incompativeis pertencentes a registros diferentes implica
‘9 paciente permita, a uma das partes, evoluir suficientemente para cue
terre-se compativel com a outra parte
engA tomada de consciéncia da presenga em nés de sentimentos pertencentes a
registros diferentes incompativeis é, muitas vezes, muito angustiante. Ela
pode ameacar a integridade do ego e suscitar a angustia de eniouquecer: “eu
tenho em mim duas atitudes incompativeis; 0 que fazer? Isso me deixa louco!”
So estes pacientes heterogéneos que tem especialmente necessidade que 0
analista encontre as palavras que tocam.
Para um paciente heterogéneo, uma das solug6es de facilidade consiste em
amputar a parte desagradavel, cindindo-a e esquecendo dela, ao prego de um
empobrecimento de si mesmo ou, mais grave, da diminuiggo de seu
sentimento de existir. Portanto, 6 somente quando o paciente aceitou que sua
parte desagradavel Ihe pertence, que essa parte pode evoluir. Se ela evolui
até tornar-se compativel, ela poderd ent&o se ligar com o resto dele mesmo
em diregdo a uma unificagao do ego. Para isso, o paciente pode ter
necessidade de se identificar com um psicanalista que néo esquece a
existéncia do lado primitivo de seu analisando, mesmo se ele escolneu
interpretar em relaco ao seu lado evoluido, ou vice-versa.
Exemplo de Albert
As vezes, 0 analista hesita em se dirigir a parte infantil do seu paciente,
porque ele cré que o paciente sente célera ou vergonha, imaginando que o
analista esqueceu que ele é um adulto responsavel. Portanto, como um
paciente podera adotar ou re-adotar uma parte dele que eliminou se ele nao
percebe que a abandonou? Cabe ao analista se dirigir ao paciente numa
linguagem que lhe permita sentir que ele pode ser uma pessoa adulta,
evoluida, carregada de grandes responsabilidades e, ao mesmo tempo, ter
reag6es ou sentimentos que fazem pensar aos de uma crianga pequena. Eu,
seguidamente, verifiquei que a angtistia do paciente diante dessas reagées
infantis diminui se o analista a coloca em palavras. O simples fato que o
analista Ihe explicita, implica, para 0 analisando, que 0 analista es!
convencido que em cada um de nés, a presenga de um aspecto infantil nao
impede a presenga de um aspecto adulto.
© paciente heterogéneo tem necessidade de sentir que 0 analista esta bem
consciente que ele, analista, também tem partes infantis que nao 0
escandelizam. Esta convicgao do analista me parece indispensavel para que
ele tenha crédito e que 0 paciente possa, por identificacdo. aceitar sua
heterogeneidade.
Albert fazia uma anélise porque ele softia de fortes angustias de separacao
que © incapacitavam, apesar de que ele era um homem encarregado de
pesadas responsabilidades profissionais. Houve um momento em sua analise
once eu comecei a relacionar suas angustias de separacao atual e @
nsensibilidade aparente, com, segundo seus dizeres, 0 que ele vivenciou
quando da partida de sua mae quando ele era uma crianga muito pequena
Eu sentia que ele no podia suportar que ele, adulto “importante”. posse ter
s que poderiamos atribuir a uma crianga. Coloquei, ent&o. em palavras
yergonha e Ihe disse: “talvez isso seja muito desconcertante para vocé.
r agora comigo como um pequeninho que sofre tanto se sua mae vaiembora, quando, ao mesmo tempo, na sua profissdo, vocé é levado a tomar
decis6es to importantes!” Ele entao gritou: “Quero expulsar esse menino a
pontapés’.
Na realidade, Albert havia sempre, inconscientemente, atuado seu desejo
inconsciente de “expulsar o menino’: Ele Ihe cagava néo 0 ouvindo. Mas,
cagando-o, ele Ihe impedia inconscientemente de crescer e evoluir, ele
mesmo, ao mesmo tempo em que o todo de sua pessoa. Ora, 0 que foi
cagado, retornava sob outra forma: o “menino” encontrava inconscientemente
diversas formas de incomodar Albert, manifestando na sua forma infantil 2
raiva e a dor de se sentir abandonado. Depois de minha intervencao, Albert
verbalizou seu desejo de expulsar o menino no lugar de atuar. Ora, tomando
consciéncia de seu desejo de expulsar 0 menino, ele tomava implicitamente
consciéncia que o menino fazia parte dele. Ele podia ent&o, permitir ao
menino evoluir, ao invés de permanecer imobilizado.
A comunicagao se efetua conforme duas diregdes
De um lado, trata-se de que o analista compreenda seu paciente se deixe
tocar pela sua linguagem, e, por outro lado, que ele se faga compreender por
sue paciente e Ihe toque através de suas palavras,
Primeira diregdo: Escutar e compreender o que um paciente
heterogéneo tem necessidade de transmitir
Entre numerosos pontes, destacarei dois:
1, Penso ser importante que o analista possa reconhecer os dois lados
da personalidade de seu paciente na linguagem que esse utiliza.
De fato, um paciente heterogéneo vai privilegiar 0 lado psicético ou o lado
neurético de sua personalidade, conforme a escuta do analista. As vezes
inconscientemente, ele mostraré unicamente 0 lado que, conforme sua
fantasia, o analista prefere conhecer, ou melhor, que ele pensa que o analista
prefere conhecer. E por isso, eu sublinho, que seguidamente a mesma frase
pronunciada por um analisando pode ter uma caracteristica neurética para
certos analistas e psicotica para outros. De fato, trata-se de frases que tem os
dois lados. Mas certos analistas tendem a tomar em consideracao
principalmente seu laco neurdtico, e outros, seu lado psicético. No entanto.
desde que se trata de pacientes heterogéneos, penso ser essencial que 0
analista perceba os dois lados a cada vez, mesmo se ele escolheu
interpretar somente um num primeiro tempo.
llustro isso retomando um breve episddio da andlise de Laure (D. Quinodoz.
4996), uma paciente indiana que havia comecado a primeira entrevista me
dizendo: “Eu nasci quando eu tinha seis meses”. Esta primeira frase poderia
ser entendida de diferentes maneiras: lado neurético, isso poderia ser
simplesmente uma homenagem a seus pais adotivos que a adotaram quando
ela tinha seis meses, como uma forma de valorizar a afeigdo deles. Mas, lado
psicético. isso poderia ser uma negacao da existéncia dos primeiros meses
de sua vida. De fato, um ndo impede outro. Era muito importante que eu
percebesse os dois lados, mesmo se eu escolnesse nao interpretarimediatamente os dois registros de significagao. De fato, essa charmosa
jovem mulher culta, apreciada na sua profissdo, parecia equilibrada; ela
parecia encontrar as dificuldades de ordem neurdtica. Ninguém no seu
ambiente compreendia que ela poderia, as vezes, cair no que ela chamava
“buraco negro’, momentos de angustia insuportaveis e, sobretudo, ninguém
percebia de quais angustias incomunicaveis primitivas poderia se tratar.
Mas, eu escutei 0 lado psicético de sua frase “Ev nasci aos seis meses”.
Poderia entender que ela me falava inconscientemente do buraco de seis
meses no inicio de sua vida, seis meses que no teriam existido. Anulando a
existéncia dos seus pais biolégicos, ela se anulava ela mesma. Tratava-se de
uma angtistia perturbadora, na qual ela perdia o sentimento da existéncia de
pessoas importantes para ela e o sentimento de existir ela mesma. No seu
lado psicético, seu sentimento de existir estava ent&o, ligado & presenga dos
pais adotives que sendo idealizados, tomavam-se eles mesmos objetos
internos frageis. Laure apresentava um vazio de representacSo precoce dos
primeiros objetos intemos, os pais biolégicos: a esse vazio ‘de objetos’
correspondia um “vazio de ser’. A inexisténcia para Laure dos objetos
importantes causava nela o sentimento que ela mesma ndo existia
Vemos entéo, com esse exemplo, 0 quanto foi importante que eu
compreendesse também 0 lado psicético de uma frase que poderia ter sido
entendida s6 no seu lado neurético.
2. A linguagem nao-verbal dos pacientes heterogéneos
Um outro aspecto que tora dificil a compreensao da linguagem de um
paciente heteragéneo é que ele, as vezes, recorre a meios nao verbais para
comunicar-se com 0 analista, utilizando frequentemente a identificagao
projetiva: o analista sente entéo, uma contratransferéncia particular que
chamo, seguindo Leon Grinberg (1956,1962), contra-identificagao projetiva
Saber utilizar essa contratransferéncia particular faz, no meu ponto de vista,
parte integrante da linguagem que toca. Para o psicanalista. trata-se de
chegar a perceber 0 que o paciente Ihe comunicou inconscientemente sem
palavras. E depois, interpretar o que ele pensa que o paciente Ihe transmitiu
assim,
Segunda diregao: Como a minha linguagem pode tocar?
Uma linguagem que sugere
Denomino linguagem que toca uma linguagem que sugere mais do que ela
demonstra. E uma linguagem que nao se limita a transmitir verbalmente os
pensamentos, mas também os sentimentos e as sensagdes que
acompanham esses sentimentos,
Se um discurso nos toca, isso depende de numerosos fatores além do
contetido do discurso, como o timbre da voz e a mimica. Ao extremo, a
mesma frase, conforme a forma de pronuncié-la, se dirigira somente @ razé0
do interlocutor, ou se dirigird também aos sentimentos © mesmo as
sensacdesCertamnente, a linguagem depende da pessoa que a cria. Se uma pessoa &
sensivel & unidade de seu prdprio ser, isso tera também, certamente,
repercussées na sua forma de falar. Elas poderao dar ent4o, ao interlocutor, 0
sentimento de se dirigir 4 pessoa inteiramente, pedindo implicitamente uma
escuta que mobilize os afetos e as sensagées, suscitando fantasias, inclusive
fantasias corporais. Talvez esta observacdo risque de desencorajar, dando a
impressao que falar com uma linguagem que toca é um dom. Penso que isso
sé é verdade em parte, e que a linguagem que toca pode se aprender, ou
mais, que podemos ser sensibilizados.
Vimos que o analista tenta ajudar os pacientes heterogéneos a colocar num
caminho sua capacidade de simbolizar, a fim de Ihe permitir distinguir melhor
© mundo das fantasias, de se retirar da anguistia e sentir 0 que é a liberdade
psiquica, Trata-se, entéo, de permitir ao paciente reviver experiéncias
pessoais, de suscitar tomadas de consciéncia, de fazer surgir vinculos entre 0
momento presente e experiéncias emocionais passadas. Isso ndo pode ser
feito com explicagdes, nem com uma linguagem puramente racional. Os
pacientes heterogéneos tém necessidade de uma linguagem evocadora de
fantasias. préxima da poesia, centrada sobre os afetos, fazendo referencias
a0 pré-consciente e nao transmitindo um pensamento linear, mas um
pensamento “por sintese’. (Luquet., p 552 e 563). Trata-se de encontrar
palavras que revelem uma rede inteira de associagées. E uma linguagem
parecida com as dos artistas e poetas: uma linguagem que sugere mais do
que explica ou demonstra. Uma linguagem que recorre a metéforas, as
imagens, 4s analogias
Exemplo de Louis
Els aqui uma sessao extraida da andlise de Louis (4 sess6es por semana),
que poderé evidenciar como o analista pode tentar fazer vibrar o material
trazido pelo paciente, a fim de Ihe ajudar a encontrar as palavras pat
expressar sua angustia e assim descobrir 0 sentido emocional de
acontecimentos angustiantes que continuam sem significago para ele. Nos
veremos também, que é dificil de distinguir na clinica o aspecto compreenso
e expressao da linguagem. E através do mesmo caminho que me deixei tocar
pela linguagem de meu analisando e que tentei Ihe tocar pela minha
linguagem
Louis ¢ um adulto no qual a infancia foi marcada por abandonos precoces €
por mudancas de enderecos através do mundo. Ele se lastima de nao
experimentar nenhum sentimento e que nada tem sentido na sua vida. Como
colocar em andamento seu poder criativo e simbdlico?
A sesso comeca por um longo siléncio, eu acabo por manifestar minha
presenga por um ruido da garganta. Louis me explica ent&o que ndo vale a
pena compartiihar comigo as imagens e palavras que the ocorrem. porque
elas nao tém. diz ele "nem pé nem cabega’ '. Euo cito: “Nao tem nenhum fio.
Veja. por exemplo, agora eu olho as nuvens que passam na frente da sua
janela, empurradas a toda velocidade pelo vento ... (silencio). eu penso na
NT No cnginal: ‘ni queue ni téte’. Literal: nem rabo nem cabeca. Para nos sena equivalente
Zo. ‘nem ge nem cabega”
3 exerrua da Corraterie (silencio) ... eu penso num velho amigo que teve um
acidente (silencio) um outro que nao vejo hd um longo tempo (siléncio) ofha!
ele mora na rua da Corraterie. Eu ndo me lembro mais nem do seu nome. Ah,
sim, ele se chamava Oltramare (silencio) ontem eu vina tv 0 inicio da corrida
‘Vendée Globe’.” ... Louis se cala novamente.
O silencio se prolonga. Eu, a analista, me sinto muito sé e impotente. Meu
sentimento de solidao vem de mim ou de uma parte de Louis projetada em
mim? Estara ele me comunicando inconscientemente um sentimento que ele
6 incapaz de me comunicar verbalmente? Minha tristeza e meu sentimento de
impoténcia seréo devidos a uma identificagao projetiva? Eu refago meu
barulho da garganta.
Louis retoma como para justificar seu siléncio: “Veja, 0 que me vem séo
imagens e palavras sem significacdo. Eu me deixo simplesmente me levar por
elas ... isso ndo tem sentido em Ihe falar’.
A. Aqui no diva, vocé néo me leva com vocé na sua viagem, vocé faz uma
corrida solitéria, a “Vendée Globe’ ...
L. (surpreso) Poderia se dizer isso ...mas as palavras que me vem ndo tem
ligag&o nenhuma entre elas. E incoerente, nada tem sentido!
A. Sem sentido? Vocé no acredita que nds reencontramos sua forma de
suprimir os fios invisiveis, que no entanto existem: o vento solto ... sua viagem
além mar quando vocé era pequeno, “Oltramare ...", ‘Outro mar’, sua
chegada nos EUA depois de uma série de acontecimentos sem pé nem
cabeca, que chegavam velozmente e que vocé vivia sem compreender. Vocé
estava so nessa viagem em plena tempestade, nem pai, nem mae ... Aqui
nao me dizendo as escalas do seu pensamento,vocé néo estaria me fazendo
sentir um pouco em que solidéo vocé estava, crianga, quando vocé fez essa
viagem que te parecia incoerente?
L. (transtornado) Eu estava absolutamente sozinho ... sempre. Os
acontecimentos chegavam, um atrés do outro, téo incoerentes uns quanto os
outros. Tao inesperados. Eu sé podia sofrer. O desacordo dos meus pais, a
partida do meu pai, as tantas que se sucederam, a morte da minha mae, a
partida “autre-mer’ [além-mar], meu terror de ver aparecer & mde de
substituig&0 , mais, eu acreditava que eu saia para encontrar minha familia,
mas ndo, 0 internato. Depois, eu passei minha vida a saltar, eu mesmo, de
um acontecimento a outro, a reproduzir esse “cog a ’éne” minhas miltiplas
namoradas, meus multiplos empregos, eu passei minha vida a saltar de uma
atividade a outra. Sozinno. (silencio comovente até o fim da sessa0)
Uma fantasia organizadora da realidade psiquica do paciente é vivida
diretamente na relacdo transferencial entre analista e analisando.
J que a forma que Louis se comunicava comigo era ndo-verbal, eu deveria
escutar 0 que se passava em mim em relagdo aos sentimentos e sensagdes.
Mas. para que sua angustia tome sentido, Louis tinna necessidade que eu
retomasse suas proprias palavras, mas Ihe fazendo sentir 0 significadoemocional do que ele recém havia me dito. Eu deveria encontrar palavras
sugerindo ligagdes que Louis nao tinha visto, de tal maneira que o que ele
havia me falado vibrasse e que ele descobrisse a riqueza do que ele tinha
recém falado.
Com o sentimento de tristeza que me invadiu durante essa sesso de anélise,
vivenciei 0 despedacamento das experiéncias vividas por Louis e sua
dificuldade a integré-las para poder construir uma histéria interna pessoal que
tenha sentido. Louis justapunha em si suas experiéncias (e os objetos
internos que estéo ligados) e ndo podia integré-las para criar um todo que
tenha sentido. Mais, esta sesséo mostrava o circulo vicioso que se
estabelecia entre as rupturas que Louis sofria e aquelas que ele criava
quando do inicio da sesso, Louis se fechava no siléncio, reforgava sua
solid&o se cortando da analista suscetivel de Ihe ajudar @ perceber os
vinculos. E por causa da minha escuta da identificacao projetiva que a
comunicagao entre nés pode continuar a existir. Penso que faltava no mundo
interno de Louis a presenga de um objeto suscetivel de dar sentido a0 caos
no qual ele vivia. E essa falta e essa necessidade que Louis reproduzia na
andlise para que eu Ihe ajudasse a encontrar um significado, e que assim,
através da possibilidade da angustia se expressar, ele conseguisse uma
melhor integragdo. Penso que vemos aqui o que é tipico de uma psicanalise:
© analista no explica: ele ajuda o analisando a sentir o que eles estado
vivendo juntos através da interpretagao.
Se eu nao tivesse utilizado minha contra-identificacao projetiva, eu mesma
teria ficado com meus sentimentos de solidéo e impoténcia, no lugar de
permitir a Louis encontrar uma significagéo emocional ao que ele vivenciava
Eu jamais tenho certeza de interpretar corretamente os sentimentos
inconscientes projetados em mim pelo paciente, Mas eu penso que a
aceitagao dessa incertitude é primordial. Ela vai permitir ao analisando, pouco
@ pouco, a dar-se conta de que eu sou bem consciente de nao poder sentir
exatamente 0 que ele experimenta: € normal que ele seja 0 Unico a sentir 0
que ele sente, Eu me limito a dar uma estimulacdo para que ele caminhe a fim
de encontrar ele mesmo, a significagdo do que ele vive.
© exemplo de Louis também nos mostra 0 quanto o uso de metéforas, de
imagens, e de analogias ¢ importante para colocar em andamento a
capacidade simbdlica do analisando, e Ihe permitir exoressar sua angustia
Elas despertam no paciente as vastas redes de representacdes suscetiveis
de permitir 20 seu psiquismo de se movimentar, e de fazer ligagdes que
ultrapassam de longe as interpretagdes do analista
Importancia das imagens fornecidas pelo paciente.
Um analisando que fazia um intenso trabalho interno para ultrapassar as
cisdes. para ligar corformismo e néo-conformismo. superego severo @
superego protetor. havia sido convidado. na véspera. a ir a casa de pessoa:
que tinham gatos e me falou: “gatos com um bom pedigree. esses que a
gente encontra na boa sociedade”. Eu retomei sua expresséo na transferéncia
@ ihe disse. “Vocé teve tanto cuidado em escother uma analista didata osSSP, uma analista com um bom pedigree, e que surpresa de perceber que,
talvez, eu seja também uma analista de ‘gouttiéres'” . Eu suponho que no
Québec a expressdo “chat de gouttiére’ designa, como na Suica, gato
simpatico, mas que vive na rua e nao tem nenhum pedigree. Essa expresso
psicanalista de gouttiéres pode permitir uma representacdo de todo um
Conjunto complexo de fantasias, mover as redes muito diferentes de
associagSes e ajudar meu paciente a me instalar nele como um objeto interno
integrador permitindo suportar a angustia
Penso que o ponto de partida da minha linguagem de analista se encontra na
do paciente, mesmo se utilizo esse ponto de partida para fazer ligacdes que o
analisando nao imagina conscientemente.
Com cada paciente, desde as entrevistas preliminares, é essencial sentir
em qual area especifica se situam as imagens que falam a esse paciente. Da
area musical a drea do futebol, passando pela da informatica, da natureza ou
da antiguidade egipcia, os campos so t&o variados quanto a diversidade de
personalidades encontradas. O analista e o analisando podem entéo criar um
tipo de linguagem comum, retendo certas imagens que vibraram durante a
anélise. Por exemplo, eu e uma de minhas pacientes sabiamos 0 que a
expressao ‘uma casa sobre um pilotis” queria dizer para nés duas, Essa
expressao, que pouco @ pouco foi se criando a partir de imagens trazidas pela
paciente, designava e condensava em quatro palavras um aspecto complexo
da representagao de seu ego. Ela expressava 0 sentimento da minha
paciente de ter fortemente construido os andares superiores de sua casa
interna, mas de ter deixado vazia as fundagdes. Mas a imagem evocava muito
mais. Ela nos fazia sentir toda a riqueza das experiéncias emocionais que
haviam concorrido a essas representagdes. Era suficiente, a ela ou a mim, de
mencionar essa imagem para que todo um entrelagamento de associagées se
colocasse em ressonancia, Essa criagdo de expresso comum faz parte da
linguagem que toca e pode permanecer como um ponto de referéncia
entre o analista e seu analisando para lembrar um momento de insight.
Existem outras caracteristicas da linguagem que toca, que nao falarei hoje
Uma linguagem figurada’
Todavia, quando um paciente vive grandes dificuldades para falar na andlise.
@ porque ele tem necessidade de comunicar ao analista experiéncias
angustiantes muito precoces — experiéncias que ele viveu antes dele saber
exprimir com palavras o que ele vivenciava. Ele néo podia nem dizer a si
mesmo. Ora. as primeiras experiéncias so corporais. H Segal mostra bem
falando de um bebé ao seio: ela pensa que “o seio” corresponde a sensacao
global de mamar, bem mais que uma visdo ou representacao visual do seio
Ela escreve: “o seio alucinado no é, no inicio, uma experiéncia visual, mas
uma experiéncia corporal... as experiéncias fisicas sao interpretadas
enquanto relagées de objetos fantasmaticos, 0 que Ihe dé um sentido
SEP Sociedade suica de Psicandlise
NT incame no onginal10
emocional. Um bebé que sofre pode viver como sendo detestado”. (H Segal,
1991, p 50)
Eu tive muitas experiéncias onde o meu discurso de analista, despertando
fantasias corporais nos pacientes, Ihes permitia encontrar um’ sentido
emocional a essas fantasias corporais e, a partir dali, reconstruir experiéncias
angustiantes sensoriais ou corporais esquecidas. Essas ultimas podem,
entdo, tomar-se um ponte de partida para o seu trabalho de simbolizagao
Por exemplo, como é possivel, no inicio da vida, distinguir 0 sentimento de
frustragéo da sensag&o corporal global que acompanha a fome? Sao
seguidamente essas experiéncias de anguistia precoce confusa, corporal e
afetivo confundidos, desprovido de significado, que 0 paciente projeta no
analista. Ora, é no contexto de seu mundo interno de adulto que o analista
recebe essas projecdes. O analista ter tendéncia a traduzir [as projecdes]
imediatamente num [no seu] registro evoluido, Quer dizer, que o analista
tera tendéncia a experimentar diretamente o sentimento de angistia,
sem prestar atengao as manifestagdes corporais que 0 acompanharam,
porque, inconscientemente, o analista contesta logo o que é afetivo e
corporal, e sé retém o que lhe parece o mais precioso, a saber, o
sentimento em detrimento da sensagdo corporal, que apenas introduz
essa sensagao.
E por isso que quando se trata de tomar consciéncia de sua contra-
identificagdo projetiva, o analista tem necassidade de prestar uma atencao
muito particular, néo somente a seus proprios afetos, mas as suas fantasias
corporais, e também as manifestagdes corporais que acompanham seus
afetos. Em efeito, quando o paciente foi marcado por experiéncias
angustiantes precoces permanecendo sem significagao para ele, € através
da experiéncia corporal re-experienciada na andlise que ele podera
reencontrar suas fantasias corporais e seus afetos desconhecidos. Ocorre
que se é 0 analista que vivencia nele mesmo a experiéncia corporal que
acompanha 0 afeto, entdo, 0 paciente ndo é consciente disso. E que ele {o
analista] pode assim ajudar o paciente a estar atento a essa sensacao,
ajudando-o a passar da sensagdo a experiéncia corporal, e dali, 4 sua
significacdo emocional
Um exemplo: a significagdo emocional de uma experiéncia corporal
(Eisa)
Vamos ver como, durante uma andlise, Elsa tomou consciéncia do sentido
emocional de uma experiéncia corporal angustiante precoce. Elsa era uma
analisanda seguidamente silenciosa, Quando ela falava, permanecia factual.
permanecia em geral imével e muito controlada. Mas as vezes, bruscamente
ela se agitava numa raiva desproporcional acionada por um minimo
incomodo: um pouco como uma crianga sobrecarregada por uma crise de
angustia e que se sente depois “toda culpada’. Durante uma sesséo de
psicandlise. eu me senti terrivelmente angustiada. como se eu estivesse
atada de todos os lados na minha poltrona, eu tinha a impressaco que Elsa
espreitava meus movimentos e que o minimo de meus gestos ou 9 minimo41
barulho que eu faria, iria desencadear uma catastrofe. Nao ousava quase
nem respirar mais, nem engolir minha saliva. Elsa se lastimava: “eu néo
posso dizer nada”. Minha impress&o corporal era to forte e tao inesperada
que pensei numa contra-identificago projetiva; tratava-se, talvez, de uma
experiéncia compiexa de Elsa, inconscientemente projetada em mim. Sera
que eu poderia ajudar Elsa a encontrar a significago emocional? Eu Ihe
respondi, descrevendo a sensagdo corporal que eu mesma senti: “Como
se eu te atasse to forte que vocé ndo poderia nem mesmo se debater, que
vocé néo poderia nem mesmo gritar!”. Elsa se agitou violentamente no diva.
“Eu quero procurar todos essas ligagdes que me retém por tudo, eu gostaria
de thes fazer saltar!". Eu respondo: “Eu te teria atado, como se eu tivesse
medo que vocé se estragasse toda”. Elsa pensa alto: “E estranto, eu jamais
estive presa, no entanto 6 no meu corpo. Ah, mas sim! Eu néo me lembro,
mas meus pais me contaram que depois do meu nascimento, eu estive muito
doente, eu estive muitos dias presa a transfus6es. Minha mae me disse que
ela teve muito medo.!" Elsa reencontrou na transferéncia essa experiéncia,
surpresa sobretudo de descobrir esta impress&o que se “nés” a prendemos, 6
sobretudo para Ihe impedir de fazer 0 mal, tanto ela poderia ser perigosa. Era
todo um conjunto de atitudes, de imobilizagdes, de descargas motoras, de
sensagées corporais que tomavam uma significacdo emocional para Elsa. Ela
tinha necessidade que eu escutasse minhas impressdes corporais, que eu
Ihes desse uma significagéo emocional, para poder Ihe propor. Elsa tomava
ento consciéncia, por sua vez, do que ela vivia no seu corpo e podia dar
sentido.
Quando o analista aprende a “Falar Louco” *
Quando os pacientes heteragéneos utilizam mecanismos como a negacao, a
projegdo maciga e as cisdes, eles tem seguidamente a impressao que esses
mecanismos provem de uma parte deles mesmos, que em linguagem familiar
eu chamarei uma parte /ouca’ que toma mais ou menos lugar. Ora,
seguidamente, essa parte /ouca nao é tocada pela mesma linguagem que 0
restante de sua pessoa, no so as mesmas metaforas que Ihe “falam”. Trata-
se de que o analista se dirja a essa parte louca na linguagem que ela
compreende, Como?
As vezes, utilizo uma linguagem de dupio entendimento que teré um sentido
tanto no contexto do delirio que no da realidade. Nao falarei hoje. (Referencia
a Gradiva)
Mas eu vou estudar mais de perto 0 caso no qual eu me dirijo diretamente a
parte “louca” de meu paciente, com o sentimento de que se quero que esta
parte possa me entender, eu deverei falar sua lingua, quer dizer, “falar louco”
Eu tenho a impressao de “falar louco” quando eu interpreto claramente as
fantasias arcaicas de meus pacientes adultos. Sempre tomo certas
precaucdes antes de falar louco. Em particular, nunca esqueco que esta parte
louca nao é a totalidade da pessoa de meu paciente, e que se me dirijo 2
=.NT: No onginal: “Parfer Fou’: Falar de forma bizarra, de forma louca
NT. No anginal: “Folle~ louca, bizarra.12
essa parte, é também para encontrar a outra. Espero 0 momento propicio
para dar essa interpretagéo, onde n&o imagino outras interpretacdes
suscetiveis de dar sentido a uma situagdo. E fico, cada vez, surpresa: longe
de achar estranha a minha interpretag4o, 0 paciente a percebe néo somente
normal, mas “além de si". Nesse sentido, minha experiéncia de analista
infantil, mesmo se ela é distante, 6 de grande ajuda. O mundo fascinante dos
crocodilos e dos lobos nao esta longe. Darei um exemplo:
Livio 6 um homem da ciéncia, um técnico que, por momentos, é assaltado
pela angustia insuportavel de ser atacado e contaminado por micrébios que
podem Ihe destruir. Ele se lembra que sua mae seguidamente queixava-se
que ele era um bebé chorao durante seu primeiro ano de vida
O processo analitico se desenvolvia bem. Mas Livio recomegou com terriveis
crises de angustias e, durante uma sessdo, tive a impressao que para Ihe
ajudar a sair de seu tormento, eu nao tinha outra escolha que nao fosse me
irigir a sua parte infantil. Senti entéo que eu poderia pensar louco alto e Ihe
disse: “vocé me devorou tanto, mordeu e despedacou durante o seu primeiro
ano de vida, que agora eu $6 posso Ihe destruir; cada um dos pedacos que
vocé me arrancou estaré pronto a te morder de volta". Eu verbalizava assim,
diretamente, na transferéncia, suas fantasias arcaicas de agressdo oral em
dirego a sua me nutridora ou, mais, em diregao ao seio, objeto parcial. Eu
verbalizava, ao mesmo tempo, sua angustia de vinganca, Cada micrdbio era
um pedago de objeto parcial pronto a Ihe agredir. Digo bem era e nao
representava, porque penso que se trava de equacao simbdlica (H. Segal,
1957) e nao de representantes ou de simbolismo evoluido
Livio se acalmou e me respondeu num tom emocionante: “eu tenho medo de
contaminar os que eu amo!" Ele no se chocou por eu ter colocado em
palavras fantasias que imaginei poderiam ser as suas, a uma idade onde as
palavras nao existiam para ele. Ele néo achou aberrante que eu verbalize
atribuindo a ele, intengdes que ele nao pode ter conscientemente, mas que.
[Link] percebia as consequéncias. Percebi entao, através de sue
resposta, que a angustia parandide, quer dizer, o medo de ser estragado pelo
objeto mau. cedeu lugar a anguistia depressiva, ou seja, o medo de estragar 0
objeto bom e de Ihe perder. Sua resposta chamava mecanismos mais
elaborados que estes, os quais eu fazia aluséo na minha interpretacao. Nao
era uma parte louca de Livio que respondia a interpretagao louca que eu fiz
Penso que minha interpretacdo pode tocar Livio porque ela combinava dois
niveis de simbolismo: elementos simbélicos concretos e um simbolismo mais
evoluido. De um lado, eu the dizia que ele me mordia e que eu Ihe mordia
através dos micrébios (concreto), mas eu incluia essa experiéncia concreta
numa frase que supunha um tipo de simbolismo mais evoluido. Nesses
momentos de angustia, Livio tinha verdadeiramente medo de ser mordido
concretamente pelos micrébios, mas minha forma de falar Ihe permitiu incluir
essa experiéncia num tipo de simbolismo mais evoluido, Penso que, as
vezes. a forga da interpretagdo pode vir ao encontro de dois niveis de
simbolismo13
A psicanalise vai 4 contra-corrente
Para terminar, 6 preciso reconhecer que a psicanélise continua indo contra-
corrente, Nés vivemos um periodo no qual nos comunicamos rapidamente,
mais longe, com mais pessoas, preenchendo mais nosso tempo, o que
permite sempre fazer mais e mais! Como, entdo, uma pessoa ocupard seu
tempo, varias vezes na semana, parando com todos afazeres, para se deitar
no diva durante trés quartos de hora para estar alenta ao que se passa na
sua realidade psiquica? Como o psicanalista passaré numerosas horas por
dia, sentado numa poltrona, durante dezenas de anos, permanecendo atento
a0 mundo interno de alguns pacientes? Se a eficdcia visa efetuar 0 maximo
No minimo de tempo, 0 ritmo lento da psicandlise pode, verdadeiramente,
parecer louco.
E entéo que eu penso no Pequeno Principe, de A. Saint Exupéry. Um
marchand se avantajava de fazer economizar um tempo precioso, cinglienta ¢
trés minutos por semana, as pessoas que absorveriam suas pilulas
suprimindo a necessidade de beber. E 0 Pequeno Principe pensa: “Eu, se
tivesse cinquenta e trés minutos para gastar, caminharia suavemente até uma
fonte .." (Saint Exupéry, 1946, p 75). E possivel que para alguns dentre nds, a
sessAo de andlise representa esse lento caminho em direco a fonte. Mas as
fontes nao sero julgadas inuteis num pais onde todas as casas possuem
agua encanada? Mas porque eu nao poderia apreciar as Aguas encanadas, e
também as fontes?
Tomar o tempo de olhar e de escutar as pessoas que encontramos, que luxo!
Gostaria de encontrar as palavras para fazer sentir que sera uma pena privar
desse luxo os que 0 apreciam!
Tradugao: Luciane Faldo
Revisdo: Alice Lewkowicz
setembro/2003