Relatório Anual 2021: Drogas em Portugal
Relatório Anual 2021: Drogas em Portugal
A Situação do País
em Matéria de Drogas
e Toxicodependências
SICAD 1
PREÂMBULO
C
ompete ao SICAD apoiar o Coordenador Nacional na elaboração do
Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e
Toxicodependências a apresentar anualmente ao Governo Português e à
Assembleia da República. Este Relatório reúne a informação de numerosos
parceiros de diversas áreas ministeriais, nos domínios da redução da procura e da oferta, assim
como os resultados de vários estudos nacionais. Permite-nos conhecer a situação do país e
também, tendo como referência os Planos Nacionais vigentes nesta área, monitorizar o
cumprimento das metas neles definidas, numa perspetiva de promoção da saúde e do bem-estar
social.
Em 2013-16 foi possível identificar ganhos em saúde, e muito em particular nos indicadores
relacionados com as infeções por VIH e com a mortalidade. Também foram atingidas as metas
para os consumos dos jovens, em especial no caso da canábis (perceção dos riscos, a idade do
início dos consumos e o consumo recente).
Os dados nacionais sobre o impacto da pandemia nos consumos evidenciaram que houve
mais consumidores a reduzirem os consumos com a pandemia do que o inverso, sendo a redução
mais expressiva no consumo de substâncias mais ligadas a contextos de diversão. A heroína foi a
substância com mais consumidores a dizerem que não alteraram os consumos e a única em que
foram um pouco mais os que passaram a usar mais do que os que referiram consumir menos, o
que indicia que estes consumidores tendem a ser um grupo de particular risco em situações como
SICAD 1
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências
esta. Por sua vez, entre os jovens de 18 anos, apesar do predomínio da diminuição dos consumos,
houve um aumento significativo da experiência recente de problemas atribuídos ao consumo de
substâncias ilícitas, facto que deverá ser desde já equacionado no planeamento das
intervenções.
Em 2020 houve diminuições nos indicadores relacionados com os utentes em tratamento, com
os processos contraordenacionais por consumo de drogas e com a mortalidade (de notar que
apesar do decréscimo do total de overdoses, houve um aumento das de opiáceos). Embora esta
transversalidade dos decréscimos refletisse também os efeitos da pandemia na atividade dos
serviços, foi possível observar que houve um esforço de resposta dos serviços a situações de
consumo mais problemáticas, como o demonstram as quebras mais acentuadas no número de
novos utentes do que de readmitidos e dos utentes com consumos de canábis do que dos com
consumos de cocaína ou heroína, ou a maior diminuição de indiciados não toxicodependentes
do que de toxicodependentes.
Também as restrições devido à pandemia afetaram diversos aspetos dos mercados das
drogas a nível nacional e global, sendo evidente a resiliência dos traficantes que, rapidamente,
ultrapassaram as disrupções iniciais e aproveitaram as oportunidades, quer para alterações nas
rotas e modus operandi, quer para a aceleração de certas dinâmicas de tráfico pré-existentes.
Em 2021, com o atenuar das medidas restritivas e a maior adaptação dos serviços à nova
realidade, houve uma tendência de recuperação na maioria dos indicadores, voltando a valores
mais próximos dos anos anteriores à pandemia.
Apesar de alguns indicadores ainda não terem atingido em 2021 os valores pré-pandémicos,
vários há que já os atingiram e até alguns que os ultrapassaram. É o caso, por exemplo, do número
de readmitidos em tratamento em ambulatório e dos internamentos em CT que já atingiram os
níveis pré-pandemia, indiciando um retomar da atividade normal dos serviços. Por sua vez,
destaca-se, enquanto evolução preocupante que persiste, o aumento de overdoses,
correspondendo o valor de 2021 ao mais alto desde 2009.
Uma última nota sobre os resultados do Flash Eurobarometer – Impact of drugs on communities
realizado em 2021, que colocaram Portugal numa posição muito favorável entre os países da UE,
tanto no que toca à existência de problemas relacionados com drogas na comunidade (os mais
referidos pelos portugueses foram a facilidade de acesso às drogas, pessoas a fumar canábis em
lugares públicos e a pobreza e o desemprego relacionados com o consumo), como à sua
evolução nos últimos anos (o segundo país com mais referências à diminuição dos problemas).
Não obstante estes resultados encorajadores, importa reforçar o investimento nestas áreas
face ao observado impacto inicial da pandemia e ao atual contexto de recessão nacional e
global que, como todos sabemos, tende a agravar as desigualdades, a pobreza e as condições
de saúde mental, sobretudo nas populações mais vulneráveis.
2 SICAD
Preâmbulo
Responder de forma célere e eficaz aos desafios futuros implica vontade política na criação
de condições para tal, sob pena de se reverterem os ganhos alcançados em saúde e bem-estar
social.
SICAD 3
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados
CONSUMOS E
PROBLEMAS RELACIONADOS
Desde 2013, o início do anterior ciclo estratégico, foram realizados diversos estudos nacionais
na área das drogas e toxicodependência, alguns deles iniciados há muitos anos e que têm
permitido a análise de tendências e a comparabilidade da situação nacional no contexto
europeu e internacional.
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Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências
Portugal continua a surgir abaixo dos valores médios europeus nas prevalências de consumo
recente de canábis, de cocaína e de ecstasy (e ainda mais quando se trata da população de
15-34 anos), as três substâncias ilícitas com maiores prevalências de consumo em Portugal.
Em 2021, no inquérito anual Comportamentos Aditivos aos 18 anos: inquérito aos jovens
participantes no Dia da Defesa Nacional, as prevalências de consumo de qualquer droga foram
de 32% ao longo da vida, 25% nos últimos 12 meses e de 15% nos últimos 30 dias. A canábis surgiu
com prevalências próximas às de qualquer droga, e 10%, 7% e 3% dos inquiridos consumiram outra
droga ao longo da vida, nos últimos 12 meses e 30 dias. Entre estas outras drogas, destacaram-se
as anfetaminas/metanfetaminas (ecstasy incluído) com prevalências de 6% ao longo da vida, 5%
e 2% nos últimos 12 meses e 30 dias, seguindo-se-lhes a cocaína e os alucinogénios com valores
próximos, as NSP e, por último, os opiáceos. As prevalências de consumo de qualquer droga, que
vinham a aumentar desde 2015 (embora já estáveis entre 2018 e 2019), decresceram em 2021.
Estas variações refletem sobretudo o consumo de canábis, uma vez que as prevalências do
consumo de outras drogas que não canábis não têm sofrido alterações relevantes. Quanto a
consumos atuais mais intensivos, 4% dos inquiridos (25% dos consumidores) tinha um consumo
diário de canábis, proporções próximas às dos anos anteriores. Os consumos continuam a ser mais
expressivos nos rapazes, existindo também algumas diferenças regionais, como é evidenciado no
consumo recente de qualquer droga (entre 30% no Algarve e 19% na R. A. da Madeira). É de
assinalar que apesar da tendência global evolutiva entre 2019 e 2021 de diminuição ou
estabilidade dos consumos, houve um aumento expressivo da experiência recente de problemas
relacionados com o consumo de substância ilícitas.
6 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados
Em 2021, no European Web Survey on Drugs: patterns of use realizado entre consumidores de
substâncias ilícitas e NSP, os dados nacionais sobre o impacto da pandemia do SARS-CoV-2 nos
consumos evidenciaram que houve mais consumidores a reduzirem os consumos com a
pandemia do que o inverso, com exceção da heroína. Esta foi a substância com mais
consumidores a dizerem que não alteraram os consumos (48%) e, a única em que foram um
pouco mais os que passaram a usar mais (19%) do que menos (17%). As substâncias com mais
referências a um menor uso com a pandemia foram as mais ligadas a contextos de diversão, em
particular o ecstasy (55%) e as anfetaminas (46%), mas também a canábis resina (40%), as
metanfetaminas (37%) e a cocaína em pó (36%). Em comparação com os resultados europeus,
os consumidores portugueses mencionaram mais ter havido alterações nos consumos com a
pandemia e, estas foram tendencialmente mais no sentido de redução dos consumos do que as
alterações referidas pelo conjunto dos europeus.
Em 8 dos 9 problemas listados, Portugal ficou muito aquém da média UE e, face aos outros
países, apresentou proporções muito baixas de existência destes problemas na comunidade,
ocupando os dois últimos lugares no ranking em 6 dos 9 problemas. Em Portugal, os problemas
relacionados com as drogas mais identificados na comunidade foram a facilidade de acesso às
drogas (48%), pessoas a fumar canábis em lugares públicos (47%) e a pobreza e o desemprego
relacionados com o consumo (44%). Os menos identificados foram traficantes e consumidores
intimidam a população local (20%), conflitos e violência (24%) e violência doméstica (28%)
relacionados com o consumo de drogas.
Quanto à evolução nos últimos anos dos problemas causados pelas drogas na comunidade,
face às médias europeias, os portugueses fizeram uma avaliação bastante mais positiva, com 17%
a afirmarem que os problemas aumentaram, 21% que diminuíram e 55% que não houve
alterações. Portugal posicionou-se entre os três países com as proporções mais baixas dos que
pensam que houve, nos últimos anos, um aumento dos problemas, sendo o segundo país, a seguir
à Estónia, em que mais declararam ter havido uma diminuição daqueles.
SICAD 7
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências
de canábis nos 13-18 anos foi de 6% e, 2% dos de 18 anos (15% dos consumidores) tinha um
consumo diário. Os consumos continuam a ser mais prevalentes nos rapazes, existindo também
algumas diferenças regionais, como é exemplo o consumo recente de qualquer droga (entre 12%
no Norte e na R. A. da Madeira e 18% no Algarve). Entre 2015 e 2019, em Portugal Continental, as
prevalências de consumo de qualquer droga nos 13-18 anos registaram uma descida da
experimentação (de 18% para 15%), sendo mais ténue a do consumo recente (14% para 13%) e
atual (de 7% para 6%). Tal resulta da diminuição do consumo de canábis, já que o de outras
drogas que não canábis apresentou uma tendência inversa. Este padrão de evolução ocorreu
em ambos os sexos, mas não em todas as idades e as regiões do país. No European School Survey
Project on Alcohol and Other Drugs, 2019 (ESPAD 2019), Portugal teve prevalências de consumo
de qualquer droga (14%) e de canábis (13%) inferiores às médias europeias, embora a de outras
drogas que não canábis (6%) tenha sido um pouco superior. 3,8% dos alunos portugueses de 16
anos foram classificados como consumidores de canábis de alto risco (CAST), representando 38%
dos consumidores recentes (médias europeias: 4,0% e 35%). 2% experimentaram canábis em
idades iguais ou inferiores a 13 anos (3% em 2015), valor idêntico à média europeia. Entre 2015 e
2019 desceu pela segunda vez consecutiva a prevalência de consumo ao longo da vida de
qualquer droga, devido à diminuição do consumo de canábis, dado que Portugal foi dos poucos
países que aumentaram o consumo de outras drogas que não canábis.
No ESPAD 2019, a canábis foi uma vez mais a substância ilícita a que os alunos portugueses
de 16 anos atribuíam um menor risco elevado para a saúde, havendo uma diminuição do risco
percebido associado ao consumo de drogas entre 2015 e 2019, tal como sucedido no quadriénio
anterior. De um modo geral, face às médias europeias, os portugueses percecionavam mais
como de grande risco o consumo regular e ocasional das várias substâncias, ocorrendo situação
inversa em relação à experimentação.
8 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados
Em 2021 estiveram em tratamento 23 932 utentes com problemas relacionados com o uso
de drogas no ambulatório da rede pública. Dos 3 236 utentes que iniciaram tratamento em
2021, 1 538 eram readmitidos e 1 698 novos utentes. Entre 2020 e 2021 houve um ligeiro aumento
(inferior a 2%) dos utentes em tratamento no ambulatório, após as descidas nos quatro anos
anteriores, estando ainda muito aquém dos valores pré-pandemia. O aumento dos que
iniciaram tratamento no ano (+18%) – após o decréscimo em 2020 que quebrou a tendência
de ligeiro acréscimo entre 2016-19 - foi mais acentuado nos novos utentes do que nos
readmitidos, tal como ocorreu com as descidas no ano anterior. De qualquer modo, só o
número de readmitidos se aproxima já dos valores pré-pandémicos, mantendo-se o dos novos
utentes ainda aquém daqueles. Os valores de 2017-21 foram inferiores aos do anterior
quinquénio, seja do total de utentes em ambulatório, seja dos que iniciaram tratamento.
Apesar da heroína continuar a ser a droga principal mais referida entre os utentes em
ambulatório e das UD, no caso dos utentes das CT e dos novos utentes em ambulatório, a cocaína
e a canábis são predominantes. Em 2017-21 verificou-se um aumento nas proporções de utentes
com a canábis e a cocaína como drogas principais.
SICAD 9
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências
superiores nos subgrupos de injetores – VIH+ (6% - 26%) e VHC+ (56% - 88%). Após a descida
acentuada das proporções de novas infeções por VIH até 2011, há um atenuar no ritmo dessa
evolução, sendo os valores dos últimos quatro anos nos injetores em tratamento no ambulatório, os
mais baixos dos últimos dez anos (5%). É de notar, no entanto, o aumento nos últimos três anos da
proporção de novas infeções (VIH+) entre os injetores novos utentes, ocorrendo situação inversa
com os injetores readmitidos, em que as proporções de novas infeções em 2020 e 2021 foram as
mais baixas do último quinquénio. Quanto à hepatite C, em 2020 e 2021 houve descidas das
proporções de novas infeções tanto no total dos utentes em ambulatório (reforçando a tendência
de diminuição iniciada em 2016) como no subgrupo de injetores (após a estabilidade registada
entre 2016-19). No entanto, é de notar em 2021, após as descidas consecutivas nos dois anos
anteriores, o aumento da proporção de novas infeções entre os injetores que iniciaram tratamento
ambulatório, sejam novos utentes, sejam readmitidos.
Nos reclusos em tratamento por problemas relacionados com o uso de drogas a 31/12/2021,
a prevalência de VIH+ era de 14%, valor que se enquadra nas registadas nos últimos quatro anos.
A de Hepatite C (VHC+) era de 49%, idêntica à do ano anterior e correspondendo ao segundo
valor mais baixo do quinquénio. A prevalência de Hepatite B (AgHBs+) era de 4%, semelhante à
média das prevalências do quinquénio. De um modo geral, estas prevalências enquadram-se nas
verificadas em 2021 nos utentes em tratamento em meio livre. A proporção de seropositivos com
terapêutica antirretroviral em contexto de reclusão continua a ser tendencialmente mais elevada
do que em meio livre. Persiste, em ambos os contextos, uma elevada comorbilidade de VIH+ e
VHC+ nestas populações.
Quanto às notificações da infeção por VIH e SIDA, os dados de 2020 e 2021 não se
encontravam disponíveis. Os casos com transmissão associada ao consumo de drogas
representavam, em 2019, 32% do total acumulado de casos de infeção por VIH e 43% dos de SIDA.
Os casos associados à toxicodependência representavam 12% dos diagnósticos de infeção por
VIH nos últimos quinze anos, 6% nos últimos 10 anos e 3% no último quinquénio. Em 2019 foram
diagnosticados 778 casos de infeção por VIH, dos quais 172 de SIDA, representando os associados
à toxicodependência, 2% e 8% daqueles. Continua a registar-se um decréscimo de infeções por
VIH e de SIDA diagnosticados anualmente, tendência que se mantém a um ritmo mais acentuado
nos casos associados à toxicodependência. Considerando o decréscimo de novos casos de
infeção por VIH nesta categoria de transmissão, reflexo das políticas implementadas,
designadamente na mudança de comportamentos de risco ao nível do consumo injetado de
drogas, importa continuar a investir nas políticas promotoras do diagnóstico precoce –
indicadores clínicos evidenciam ainda um diagnóstico tardio - e do acesso ao tratamento, com
vista a potenciar os ganhos em saúde entretanto obtidos.
No que respeita à mortalidade relacionada com o consumo de drogas, segundo o INE, IP,
em 2020 ocorreram 63 mortes de acordo com o critério do OEDT (-13% face a 2019),
representando os valores de 2019 e 2020 os mais altos da década. Destes, 50 (79%) foram
atribuídos a intoxicação.
Nos registos do INMLCF, IP, em 2021, dos 413 óbitos com substâncias ilícitas/metabolitos e
informação da causa de morte, 74 (18%) foram overdoses. Houve um aumento das overdoses
face a 2020 (+45%), representando o valor mais elevado desde 2009. No último quinquénio
registaram-se mais overdoses do que no período homólogo anterior, sendo os valores dos últimos
quatro anos os mais altos desde 2011. Nas overdoses de 2021 é de destacar a presença de
cocaína (51%), metadona (41%) e opiáceos (39%). Para além do valor atípico de overdoses com
metadona em 2021, é de notar que o número de casos com cocaína foi o mais elevado desde
10 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados
2009. Os valores registados nos últimos quatro anos de overdoses com cocaína e de overdoses
com opiáceos foram os mais altos desde 2011. Na grande maioria (84%) das overdoses havia
mais do que uma substância, destacando-se, associadas às drogas ilícitas, as benzodiazepinas
(58%) e o álcool (22%). Quanto às outras mortes com a presença de drogas (339) - atribuídas a
morte natural (42%), acidentes (36%), suicídio (13%) e homicídio (3%) - têm vindo a aumentar
desde 2016, atingindo em 2021 o valor mais alto desde 2008.
Quanto à mortalidade relacionada com o VIH, os dados de 2020 e 2021 não se encontravam
disponíveis. Em 2019 foram notificados 197 óbitos ocorridos no ano em casos de infeção por VIH,
62 dos quais associados à toxicodependência. Verifica-se uma tendência decrescente no
número de mortes ocorridas a partir de 2002, e a um ritmo mais acentuado nos casos associados
à toxicodependência. É de notar que para os óbitos ocorridos em 2019, e tal como sucedido nos
anos anteriores, o tempo decorrido entre o diagnóstico inicial da infeção e o óbito é superior nos
casos associados à toxicodependência por comparação aos restantes casos, o que indicia o
investimento no acompanhamento da população toxicodependente com VIH.
Em 2021 foram abertos 6 378 processos de contraordenação por consumo de drogas relativos
às ocorrências no ano, um aumento de 4% face a 2020 e uma diminuição de -48% em relação a
2017, ano com o valor mais elevado desde 2001. Apesar das descidas já verificadas em 2018 e
2019, os valores de 2020 e 2021 foram os mais baixos desde 2007, muito provavelmente
relacionado com a pandemia e seus reflexos nos consumos e nas intervenções no âmbito da
dissuasão. Tal como nos sete anos anteriores, em 2021 foi a GNR quem remeteu mais ocorrências
para as CDT. 78% dos processos de 2021 tinham decisão proferida, uma proporção superior à de
2020 embora ainda aquém às dos anos pré-pandemia. Uma vez mais predominaram as
suspensões provisórias dos processos de consumidores não toxicodependentes (67%), seguidas
das decisões punitivas (21%) e das suspensões provisórias dos processos de consumidores
toxicodependentes que aceitaram tratamento (11%). Em 2020 e 2021, as proporções deste último
tipo de decisões foram as mais elevadas dos últimos sete anos.
Tal como nos anos anteriores, a maioria dos processos estavam relacionados com a canábis
(75% só canábis e 3% canábis com outras drogas), seguindo-se a cocaína, o que é consistente
com os estudos nacionais sobre o consumo de drogas. Em 2021, aumentaram os processos de
cocaína (o valor mais elevado de sempre), bem como os de heroína e os que envolviam várias
drogas. O número de processos de canábis manteve-se estável e diminuíram os processos
relacionados com ecstasy.
SICAD 11
Caracterização da Situação ⚫ Oferta
Oferta
OFERTA
A aplicação da legislação nacional em matéria de drogas ilícitas tem como finalidade reduzir
a sua disponibilidade e acessibilidade nos mercados, sendo por isso da maior importância a
monitorização dos indicadores relativos à perceção da facilidade de acesso a drogas ilícitas. Os
estudos evidenciam que a canábis continua a ser a droga ilícita percecionada como de maior
acessibilidade, refletindo as prevalências de consumo na população portuguesa. Segundo o
estudo Flash Eurobarometer – Impact of drugs on communitie, realizado em 2021 na população
geral com 15+ anos dos países da UE, 52% dos portugueses consideravam fácil ou muito fácil
aceder a canábis em 24 horas (se desejado), sendo as percentagens correspondentes ao
ecstasy, cocaína, e heroína, de 26%, 24% e 20%. Cerca de 40% consideravam fácil ou muito fácil
aceder a novas substâncias psicoativas (NSP). Face às médias europeias, os portugueses tinham
uma perceção de menor facilidade de acesso à canábis, ao ecstasy e à cocaína, mas de maior
facilidade de acesso à heroína e às NSP. Segundo o INPG 2016/17, na população geral de 15-74
anos, mais de metade dos consumidores da maioria das substâncias ilícitas consideravam fácil ou
muito fácil aceder a elas, sendo estas proporções superiores entre os jovens consumidores. Entre
2012 e 2016/17 houve uma evolução positiva nestas perceções, no sentido da diminuição da
facilidade percebida de acesso a estas substâncias. Os resultados do ESPAD realizado em 2019
entre os alunos de 16 anos apontaram para uma diminuição entre 2015 e 2019 da facilidade
percebida de acesso à canábis, mantendo-se relativamente estáveis as perceções quanto ao
acesso às outras drogas. Face às médias europeias, os alunos portugueses tinham uma menor
perceção de facilidade de acesso à maioria das drogas, sendo a evolução 2015-2019 mais
positiva do que no conjunto dos europeus.
Vários estudos têm vindo a contemplar também indicadores relativos à aquisição de drogas
nos mercados digitais, contribuindo para a monitorização das tendências dos mercados. Em 2021,
no European Web Survey on Drugs: patterns of use, em Portugal, as NSP destacaram-se com as
maiores proporções de consumidores recentes (22%) a utilizarem a internet (darknet, loja ou redes
sociais) como via de aquisição, seguindo-se-lhes a canábis (14%) e as metanfetaminas (8%). Estas
proporções tendem a ser mais altas quando se restringe aos consumidores que compraram essas
substâncias nos últimos 12 meses (respetivamente 34%, 14% e 13%). O recurso às redes sociais foi
superior ao segmento do mercado da darknet e também ao de uma loja na internet no caso da
SICAD 13
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências
As restrições devido à pandemia afetaram diversos aspetos dos mercados das drogas ao nível
nacional e global, embora ainda esteja por avaliar o seu impacto a médio e longo prazo. Por sua
vez, as alterações nos indicadores nacionais do domínio da oferta em 2020 e 2021 sugerem que
o impacto inicial (em 2020) não foi igual para os vários tipos de drogas e patamares do mercado,
assim como a sua evolução em 2021, nuns casos com níveis de recuperação já acima dos valores
pré-pandémicos e, noutros, a manterem-se ainda aquém desses valores. No entanto, é de
assinalar que em 2021, ao nível do retalho, houve um aumento das apreensões e das quantidades
confiscadas de todas as drogas que sofreram uma quebra em 2020.
Uma vez mais foi consolidado o predomínio da canábis nos vários indicadores da oferta,
refletindo a prevalência do seu consumo no país. Apesar do haxixe continuar a ser predominante
no mercado nacional, a liamba (canábis herbácea), assim como o cultivo de canábis, ganharam
maior relevância nos últimos dois anos, com valores mais elevados de apreensões e quantidades
confiscadas em todos os patamares do mercado, por comparação a 2018 e 2019. A cocaína
mantém-se como a segunda droga com mais visibilidade nos mercados e, apesar do declínio em
2020 na maioria dos indicadores em análise, em 2021 houve uma recuperação em muitos deles,
atingindo até valores acima dos pré-pandémicos ao nível do retalho. A heroína foi a substância
que registou menores variações em 2020, com pequenas subidas na maioria dos indicadores, as
quais foram reforçadas em 2021 (sobretudo no retalho, já com valores superiores aos pré-
pandémicos), invertendo a tendência de declínio verificada já há alguns anos. O ecstasy foi a
droga que teve as maiores quebras em todos os patamares do mercado em 2020 (invertendo a
subida nos anos anteriores) e a que apresentou em 2021 menores sinais de recuperação, sendo
os mais relevantes ao nível do retalho.
Antes de apresentar alguns indicadores neste domínio, importa mencionar que, desde
meados de 2017, os dados das apreensões policiais não refletem a totalidade dos resultados
nacionais, exigindo cautelas na sua leitura.
Em 2021, uma vez mais o haxixe foi a substância com o maior número de apreensões (1 081).
Seguiu-se-lhe a cocaína e a liamba, respetivamente com 513 e 449 apreensões, e com valores
inferiores, a heroína (270) e o ecstasy (77). É de assinalar, pela primeira vez no âmbito destes
registos, apreensões de MDMB-4-en-PINACA (canabinoide sintético), de 4-CMC e de alfa-PHP
(ambas substâncias estimulantes).
Entre 2020 e 2021 houve um aumento das apreensões de haxixe (+49%), de heroína (+29%) e
de cocaína (+28%), e ligeiras descidas das de liamba (-3%) e de ecstasy (-3%). Em 2020 e 2021, os
números de apreensões foram tendencialmente inferiores aos dois anos anteriores, exceto no
caso da liamba e da heroína.
14 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Oferta
Quanto às rotas, Portugal tem sido um país de trânsito no tráfico internacional de haxixe e de
cocaína, em particular nos fluxos oriundos respetivamente de Marrocos e, da América Latina e
Caraíbas, e com destino a outros países, sobretudo europeus. Em 2021 destacaram-se como os
principais países de origem da cocaína apreendida, o Brasil, seguido do Paraguai e da Costa
Rica, constatando-se nos últimos anos uma redução na utilização de Portugal em rotas com
destino fora da Europa. Marrocos e Espanha surgiram como os principais países de origem no
caso do haxixe e, Espanha e Portugal no da liamba. Por sua vez, retomando a tendência dos
anos anteriores a 2020, Portugal surge como origem da rota de tráfico de canábis em alguns fluxos
com destino a países europeus e Brasil. Apenas uma minoria das apreensões de heroína tinha
informação sobre a rota, destacando-se a África do Sul como o principal país de origem, sendo
desconhecida a proveniência da quase totalidade do ecstasy apreendido no país.
Sobre os meios utilizados no transporte das drogas, é de notar, entre 2020 e 2021, o aumento
relevante do número de apreensões por via marítima de haxixe (pelo segundo ano consecutivo)
e de cocaína.
Os preços médios das drogas confiscadas em 2021 sofreram algumas alterações relevantes
face a 2020, seja no sentido de contrariar as evoluções expressas no primeiro ano da pandemia –
caso da heroína e do ecstasy(g), cujas subidas dos preços em 2021 aproximam-nos mais dos anos
pré-pandemia, embora ainda aquém destes -, seja no sentido de as reforçar – caso do haxixe,
cuja ligeira subida do preço representa o valor mais alto da década, reforçando a inversão, em
2020, da estabilidade dos preços nos anos pré-pandemia. O preço médio da liamba tem-se
mantido relativamente estável nos últimos quatro anos (com os valores mais baixos desde 2014)
e, o da cocaína nos últimos três anos (representando os valores mais baixos da década).
Quanto à potência/pureza médias das drogas apreendidas houve algumas variações entre
2020 e 2021, sendo de destacar a subida da potência do haxixe e da pureza da cocaína
(cloridrato), representando os valores mais elevados nos últimos dez anos, e, a descida da pureza
das anfetaminas. Em termos de evolução ao longo do quinquénio, o haxixe, a cocaína
(cloridrato) e o ecstasy (pó) apresentaram uma tendência de aumento da sua potência/pureza
neste período. Apesar das oscilações anuais, no caso da canábis herbácea, da cocaína
base/crack e da heroína há uma tendência de relativa estabilidade dos valores nos últimos cinco
anos e, no das anfetaminas, uma tendência de diminuição do seu grau de pureza. De um modo
geral, com exceção das anfetaminas, em 2017-21 verificaram-se valores médios de
potência/pureza das drogas mais elevados face ao período homólogo anterior.
SICAD 15
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências
Nas decisões judiciais ao abrigo da Lei da Droga, em 2021 registaram-se 1 174 processos-crime
findos envolvendo 1 616 indivíduos, na sua maioria (81%) acusados por tráfico. Cerca de 90% dos
indivíduos foram condenados e 9% absolvidos. Após as descidas em 2013 e 2014, houve uma
tendência de aumento, representando os valores de 2019 os mais altos desde 2013. Em 2020
houve uma quebra acentuada muito provavelmente devida à pandemia, seguida ainda de uma
ligeira descida em 2021. É de assinalar o aumento de indivíduos condenados por consumo desde
2009 - relacionado com a fixação de jurisprudência em 2008 –, com um acréscimo relevante nos
últimos anos. Tal como desde 2004, uma vez mais predominou nestas condenações ao abrigo da
Lei da Droga a aplicação da pena de prisão suspensa (50%) em vez de prisão efetiva (21%),
seguindo-se a aplicação apenas da multa efetiva (26%), sobretudo aplicada a condenados por
consumo. Uma vez mais a maioria destas condenações estavam relacionadas só com uma
droga, persistindo o predomínio da canábis e a superioridade das condenações pela posse de
cocaína em relação às de heroína, consolidando assim as tendências dos últimos anos.
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