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Relatório Anual 2021: Drogas em Portugal

Este relatório anual resume a situação do país em matéria de drogas e toxicodependências em 2021. Apresenta dados sobre consumos e problemas relacionados com drogas na população geral e jovem, assim como indicadores sobre tratamento, redução da oferta e mercados de drogas. Embora alguns indicadores ainda não tenham atingido os níveis pré-pandemia, a maioria mostra uma tendência de recuperação em 2021 à medida que as restrições diminuíram e os serviços se adaptaram. Permanecem desafios como o aumento de overdo

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Relatório Anual 2021: Drogas em Portugal

Este relatório anual resume a situação do país em matéria de drogas e toxicodependências em 2021. Apresenta dados sobre consumos e problemas relacionados com drogas na população geral e jovem, assim como indicadores sobre tratamento, redução da oferta e mercados de drogas. Embora alguns indicadores ainda não tenham atingido os níveis pré-pandemia, a maioria mostra uma tendência de recuperação em 2021 à medida que as restrições diminuíram e os serviços se adaptaram. Permanecem desafios como o aumento de overdo

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Sumário Executivo

Relatório Anual 2021

A Situação do País
em Matéria de Drogas
e Toxicodependências

SICAD 1
PREÂMBULO

C
ompete ao SICAD apoiar o Coordenador Nacional na elaboração do
Relatório Anual sobre a Situação do País em Matéria de Drogas e
Toxicodependências a apresentar anualmente ao Governo Português e à
Assembleia da República. Este Relatório reúne a informação de numerosos
parceiros de diversas áreas ministeriais, nos domínios da redução da procura e da oferta, assim
como os resultados de vários estudos nacionais. Permite-nos conhecer a situação do país e
também, tendo como referência os Planos Nacionais vigentes nesta área, monitorizar o
cumprimento das metas neles definidas, numa perspetiva de promoção da saúde e do bem-estar
social.

Em 2020 foi concluída a avaliação externa do PNRCAD 2013-2020 e, em 2021, com a


participação de muitas entidades com responsabilidades nos domínios da redução da procura e
da oferta, foi elaborado o Plano Nacional para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das
Dependências 2021-2030 e o seu primeiro plano de ação, o PARCAD Horizonte 2024, documentos
que aguardam aprovação em Conselho de Ministros.

Em termos de balanço do anterior ciclo estratégico constatou-se que a evolução no primeiro


ciclo de ação (2013-16) foi mais positiva do que a do segundo (2017-20), terminando este num
ano atípico devido à pandemia do SARS-CoV-2.

Em 2013-16 foi possível identificar ganhos em saúde, e muito em particular nos indicadores
relacionados com as infeções por VIH e com a mortalidade. Também foram atingidas as metas
para os consumos dos jovens, em especial no caso da canábis (perceção dos riscos, a idade do
início dos consumos e o consumo recente).

Já no segundo ciclo de ação surgiram alguns indicadores menos positivos, como o


agravamento do consumo de canábis na população geral (mais nas mulheres e nos 25 -44
anos), um acréscimo do consumo de outras drogas que não canábis e a diminuição do risco
percebido associado ao consumo de drogas entre os mais jovens, e uma subida das overdoses.
Outras evoluções merecedoras de reflexão foram a diminuição dos utentes em tratamento,
embora aumentassem os que tinham a canábis e a cocaína como drogas principais, a
persistência de mais diagnósticos tardios do VIH+ nos casos associados à toxicodependência, a
descida das contraordenações por consumo de drogas, o aumento do grau de pureza de várias
drogas e a maior circulação de drogas nos mercados.

Os dados nacionais sobre o impacto da pandemia nos consumos evidenciaram que houve
mais consumidores a reduzirem os consumos com a pandemia do que o inverso, sendo a redução
mais expressiva no consumo de substâncias mais ligadas a contextos de diversão. A heroína foi a
substância com mais consumidores a dizerem que não alteraram os consumos e a única em que
foram um pouco mais os que passaram a usar mais do que os que referiram consumir menos, o
que indicia que estes consumidores tendem a ser um grupo de particular risco em situações como

SICAD 1
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências

esta. Por sua vez, entre os jovens de 18 anos, apesar do predomínio da diminuição dos consumos,
houve um aumento significativo da experiência recente de problemas atribuídos ao consumo de
substâncias ilícitas, facto que deverá ser desde já equacionado no planeamento das
intervenções.

Em 2020 houve diminuições nos indicadores relacionados com os utentes em tratamento, com
os processos contraordenacionais por consumo de drogas e com a mortalidade (de notar que
apesar do decréscimo do total de overdoses, houve um aumento das de opiáceos). Embora esta
transversalidade dos decréscimos refletisse também os efeitos da pandemia na atividade dos
serviços, foi possível observar que houve um esforço de resposta dos serviços a situações de
consumo mais problemáticas, como o demonstram as quebras mais acentuadas no número de
novos utentes do que de readmitidos e dos utentes com consumos de canábis do que dos com
consumos de cocaína ou heroína, ou a maior diminuição de indiciados não toxicodependentes
do que de toxicodependentes.

Também as restrições devido à pandemia afetaram diversos aspetos dos mercados das
drogas a nível nacional e global, sendo evidente a resiliência dos traficantes que, rapidamente,
ultrapassaram as disrupções iniciais e aproveitaram as oportunidades, quer para alterações nas
rotas e modus operandi, quer para a aceleração de certas dinâmicas de tráfico pré-existentes.

Em 2021, com o atenuar das medidas restritivas e a maior adaptação dos serviços à nova
realidade, houve uma tendência de recuperação na maioria dos indicadores, voltando a valores
mais próximos dos anos anteriores à pandemia.

Apesar de alguns indicadores ainda não terem atingido em 2021 os valores pré-pandémicos,
vários há que já os atingiram e até alguns que os ultrapassaram. É o caso, por exemplo, do número
de readmitidos em tratamento em ambulatório e dos internamentos em CT que já atingiram os
níveis pré-pandemia, indiciando um retomar da atividade normal dos serviços. Por sua vez,
destaca-se, enquanto evolução preocupante que persiste, o aumento de overdoses,
correspondendo o valor de 2021 ao mais alto desde 2009.

No domínio da redução da oferta, também a evolução em 2021 foi de recuperação na


maioria dos indicadores, sendo de notar os aumentos de apreensões e quantidades confiscadas
da maioria das drogas ao nível do retalho (com a cocaína, a heroína e a liamba a registarem
valores superiores aos de 2018 e 2019). São de assinalar também, como tendências recentes
merecedoras de atenção, o desmantelamento nos últimos dois anos de plantações interiores de
canábis de dimensão considerável e a maior utilização dos mercados digitais.

Uma última nota sobre os resultados do Flash Eurobarometer – Impact of drugs on communities
realizado em 2021, que colocaram Portugal numa posição muito favorável entre os países da UE,
tanto no que toca à existência de problemas relacionados com drogas na comunidade (os mais
referidos pelos portugueses foram a facilidade de acesso às drogas, pessoas a fumar canábis em
lugares públicos e a pobreza e o desemprego relacionados com o consumo), como à sua
evolução nos últimos anos (o segundo país com mais referências à diminuição dos problemas).

Não obstante estes resultados encorajadores, importa reforçar o investimento nestas áreas
face ao observado impacto inicial da pandemia e ao atual contexto de recessão nacional e
global que, como todos sabemos, tende a agravar as desigualdades, a pobreza e as condições
de saúde mental, sobretudo nas populações mais vulneráveis.

2 SICAD
Preâmbulo

Responder de forma célere e eficaz aos desafios futuros implica vontade política na criação
de condições para tal, sob pena de se reverterem os ganhos alcançados em saúde e bem-estar
social.

Enquanto Coordenador Nacional para os Problemas da Droga, das Toxicodependências e


do Uso Nocivo do Álcool, quero deixar uma palavra de profundo reconhecimento e
agradecimento a todos os Profissionais e Serviços com responsabilidades no planeamento e
implementação das políticas e intervenções nestas áreas, que demonstraram neste particular
contexto, uma grande resiliência e um elevado profissionalismo orientado pelo humanismo. Só o
reforço da cooperação e o aperfeiçoamento dos dispositivos permitirão consolidar os progressos
que vimos alcançando, antecipar e enfrentar os novos desafios e manter o papel de referência
internacional que o nosso País tem constituído.

Lisboa, 21 de novembro de 2022

O Coordenador Nacional para os Problemas da Droga, das Toxicodependências


e do Uso Nocivo do Álcool

João Castel-Branco Goulão

SICAD 3
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados

Consumos e Problemas Relacionados

CONSUMOS E
PROBLEMAS RELACIONADOS

Desde 2013, o início do anterior ciclo estratégico, foram realizados diversos estudos nacionais
na área das drogas e toxicodependência, alguns deles iniciados há muitos anos e que têm
permitido a análise de tendências e a comparabilidade da situação nacional no contexto
europeu e internacional.

No IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral,


Portugal 2016/17 (INPG 2016/17) realizado na população residente em Portugal (15-74 anos), as
prevalências de consumo de qualquer droga foram de 10% ao longo da vida, 5% nos últimos 12
meses e de 4% nos últimos 30 dias, verificando-se aumentos face a 2012, sobretudo do consumo
recente e atual. A canábis, a cocaína e o ecstasy foram as substâncias ilícitas com as maiores
prevalências de consumo, embora as duas últimas muito aquém da canábis. De um modo geral,
a população de 15-34 anos apresentou consumos recentes mais altos do que a de 15-74 anos.
Quanto a consumos recentes mais intensivos de canábis, 3% dos inquiridos (64% dos consumidores)
consumiu 4 ou mais vezes por semana nos últimos 12 meses, e 2% (55% dos consumidores) todos
os dias. 3% dos inquiridos (69% dos consumidores) tinha um consumo diário/quase diário nos últimos
30 dias. Em relação a padrões de consumo abusivo e dependência de canábis, em 2016/17
cerca de 0,7% da população de 15-74 anos tinha um consumo de risco elevado (0,4%) ou de risco
moderado (0,3%), quase duplicando o valor correspondente (1,2%) nos 15-34 anos (0,6% com
consumo de risco elevado e 0,6% de risco moderado) (CAST). Tal também sucede nos resultados
de outro teste (SDS), em que 0,8% da população de 15-74 anos apresentava sintomas de
dependência do consumo de canábis, sendo a proporção correspondente nos 15-34 anos de
1,4% (19% dos consumidores recentes).

Entre 2012 e 2016/17 houve um agravamento das prevalências de consumo recente de


canábis e das frequências mais intensivas, com mais de três quintos dos consumidores a ter
consumos diários nos últimos 12 meses. Embora mais ligeiro, há também um agravamento da
dependência do consumo de canábis na população, apesar de tal não se verificar nas
proporções de dependência entre os consumidores recentes (cerca de um quinto com sintomas
de dependência), reflexo do aumento dos consumidores que não apresentavam estes sintomas.
São de assinalar os particulares agravamentos no grupo feminino e nos 25-34 anos e 35-44 anos.
Em relação à maioria das outras drogas, os consumos mantiveram-se estáveis, tendo mesmo,
diminuído em alguns casos.

SICAD 5
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências

Portugal continua a surgir abaixo dos valores médios europeus nas prevalências de consumo
recente de canábis, de cocaína e de ecstasy (e ainda mais quando se trata da população de
15-34 anos), as três substâncias ilícitas com maiores prevalências de consumo em Portugal.

Para além deste panorama nacional, persistem relevantes heterogeneidades regionais. Os


Açores e o Norte (NUTS II) apresentaram as prevalências de consumo recente e atual de qualquer
droga mais altas nos 15-74 anos, sendo que nos 15-34 anos foram também estas, a par do Centro
e Lisboa. O Alentejo surgiu com as menores prevalências em ambas as populações. O padrão
nacional de evolução das prevalências de consumo recente entre 2012 e 2016/17 – subida das
de canábis e estabilidade ou descida da maioria das outras substâncias – manteve-se em quase
todas as regiões. Assinalam-se entre as exceções, a descida da canábis no Alentejo, os aumentos
dos consumos de cocaína e de ecstasy nos Açores e Madeira (superiores nos 15-34 anos), e as
subidas do consumo recente de NSP em várias regiões, em particular nos Açores, mas também
na Madeira, Norte, Centro e Algarve (mais acentuadas nos 15-34 anos).

Em 2021, no inquérito anual Comportamentos Aditivos aos 18 anos: inquérito aos jovens
participantes no Dia da Defesa Nacional, as prevalências de consumo de qualquer droga foram
de 32% ao longo da vida, 25% nos últimos 12 meses e de 15% nos últimos 30 dias. A canábis surgiu
com prevalências próximas às de qualquer droga, e 10%, 7% e 3% dos inquiridos consumiram outra
droga ao longo da vida, nos últimos 12 meses e 30 dias. Entre estas outras drogas, destacaram-se
as anfetaminas/metanfetaminas (ecstasy incluído) com prevalências de 6% ao longo da vida, 5%
e 2% nos últimos 12 meses e 30 dias, seguindo-se-lhes a cocaína e os alucinogénios com valores
próximos, as NSP e, por último, os opiáceos. As prevalências de consumo de qualquer droga, que
vinham a aumentar desde 2015 (embora já estáveis entre 2018 e 2019), decresceram em 2021.
Estas variações refletem sobretudo o consumo de canábis, uma vez que as prevalências do
consumo de outras drogas que não canábis não têm sofrido alterações relevantes. Quanto a
consumos atuais mais intensivos, 4% dos inquiridos (25% dos consumidores) tinha um consumo
diário de canábis, proporções próximas às dos anos anteriores. Os consumos continuam a ser mais
expressivos nos rapazes, existindo também algumas diferenças regionais, como é evidenciado no
consumo recente de qualquer droga (entre 30% no Algarve e 19% na R. A. da Madeira). É de
assinalar que apesar da tendência global evolutiva entre 2019 e 2021 de diminuição ou
estabilidade dos consumos, houve um aumento expressivo da experiência recente de problemas
relacionados com o consumo de substância ilícitas.

As Estimativas do Consumo Problemático/de Alto Risco de Drogas de 2018 apontaram, em


Portugal Continental, para uma taxa por mil habitantes de 15-64 anos de 4,5‰ (IC 3,0 – 7,0) para
os consumidores recentes de opiáceos (8,8 nos homens e 0,45 nas mulheres), o que representa
um ligeiro decréscimo entre 2015 e 2018, após o ligeiro aumento entre 2012 e 2015. As últimas
estimativas de consumidores recentes de cocaína e de drogas por via endovenosa reportam a
2015, e apontavam para taxas de 9,8‰ para os consumidores recentes de cocaína e de 2,1‰
para os consumidores de drogas por via endovenosa, sendo esta inferior à estimativa de 2012.
Quanto ao consumo de alto risco de canábis e com base nos dados do IV INPG, Portugal 2016/17,
as 3 estimativas realizadas caso se considere a frequência do consumo, o risco moderado e
elevado (CAST), ou a dependência (SDS), apontaram para taxas de 32,2‰, 7,2‰ e 9,0‰,
representando um aumento face a 2012. A superioridade da estimativa baseada na frequência
dos consumos pode ser reflexo dos consumos mais frequentes não serem determinantes da
perceção de problemas a eles associados, sendo muito poucos os que disseram ter procurado
ajuda especializada para estes consumos.

6 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados

Em 2021, no European Web Survey on Drugs: patterns of use realizado entre consumidores de
substâncias ilícitas e NSP, os dados nacionais sobre o impacto da pandemia do SARS-CoV-2 nos
consumos evidenciaram que houve mais consumidores a reduzirem os consumos com a
pandemia do que o inverso, com exceção da heroína. Esta foi a substância com mais
consumidores a dizerem que não alteraram os consumos (48%) e, a única em que foram um
pouco mais os que passaram a usar mais (19%) do que menos (17%). As substâncias com mais
referências a um menor uso com a pandemia foram as mais ligadas a contextos de diversão, em
particular o ecstasy (55%) e as anfetaminas (46%), mas também a canábis resina (40%), as
metanfetaminas (37%) e a cocaína em pó (36%). Em comparação com os resultados europeus,
os consumidores portugueses mencionaram mais ter havido alterações nos consumos com a
pandemia e, estas foram tendencialmente mais no sentido de redução dos consumos do que as
alterações referidas pelo conjunto dos europeus.

Também em 2021 Portugal participou no Flash Eurobarometer – Impact of drugs on


communities realizado na população geral com 15+ anos dos países da UE e, 75% dos portugueses
(78% a média da UE) consideraram as drogas como um problema na sua comunidade. Embora
os portugueses tendessem a avaliar mais como um problema muito grave (34%) do que o
conjunto dos europeus (25%), tal não foi evidente quando questionados sobre a existência de
alguns problemas específicos relacionados com drogas na sua comunidade.

Em 8 dos 9 problemas listados, Portugal ficou muito aquém da média UE e, face aos outros
países, apresentou proporções muito baixas de existência destes problemas na comunidade,
ocupando os dois últimos lugares no ranking em 6 dos 9 problemas. Em Portugal, os problemas
relacionados com as drogas mais identificados na comunidade foram a facilidade de acesso às
drogas (48%), pessoas a fumar canábis em lugares públicos (47%) e a pobreza e o desemprego
relacionados com o consumo (44%). Os menos identificados foram traficantes e consumidores
intimidam a população local (20%), conflitos e violência (24%) e violência doméstica (28%)
relacionados com o consumo de drogas.

Quanto à evolução nos últimos anos dos problemas causados pelas drogas na comunidade,
face às médias europeias, os portugueses fizeram uma avaliação bastante mais positiva, com 17%
a afirmarem que os problemas aumentaram, 21% que diminuíram e 55% que não houve
alterações. Portugal posicionou-se entre os três países com as proporções mais baixas dos que
pensam que houve, nos últimos anos, um aumento dos problemas, sendo o segundo país, a seguir
à Estónia, em que mais declararam ter havido uma diminuição daqueles.

No contexto das populações escolares, os estudos de 2018 e 2019 não evidenciaram


alterações muito relevantes nas prevalências de consumo recente e atual de drogas ilícitas face
a 2014 e 2015. A canábis continuava a apresentar prevalências muito superiores às das outras
drogas, destacando-se entre estas, a cocaína (nos mais novos) e o ecstasy (nos mais velhos). No
Health Behaviour in School-aged Children, 2018 (HBSC/OMS, 2018), 1%, 4%, 11% e 26% dos alunos
do 6.º, 8.º, 10.º e 12.º ano já tinham experimentado canábis, sendo os consumos das outras drogas
bastante inferiores (entre 0,6% e 2%, consoante a substância e ano de escolaridade). Cerca de
4% dos alunos do 6.º, 8.º e 10.º ano consumiram drogas nos últimos 30 dias (3% em 2014 e 6% em
2010), e 1% fê-lo regularmente. No Estudo sobre o Consumo de Álcool, Tabaco e Droga e outros
Comportamentos Aditivos e Dependências, 2019 (ECATD-CAD, 2019), a nível nacional, a
prevalência de consumo ao longo da vida de qualquer droga nos alunos de 13-18 anos foi de
15% e a de consumo recente 13%. As prevalências do consumo de canábis foram próximas
destas, sendo bastante inferiores as das restantes drogas, como é o caso do ecstasy e da cocaína,
as mais prevalentes entre estas (cerca de 2% ao longo da vida). A prevalência de consumo atual

SICAD 7
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências

de canábis nos 13-18 anos foi de 6% e, 2% dos de 18 anos (15% dos consumidores) tinha um
consumo diário. Os consumos continuam a ser mais prevalentes nos rapazes, existindo também
algumas diferenças regionais, como é exemplo o consumo recente de qualquer droga (entre 12%
no Norte e na R. A. da Madeira e 18% no Algarve). Entre 2015 e 2019, em Portugal Continental, as
prevalências de consumo de qualquer droga nos 13-18 anos registaram uma descida da
experimentação (de 18% para 15%), sendo mais ténue a do consumo recente (14% para 13%) e
atual (de 7% para 6%). Tal resulta da diminuição do consumo de canábis, já que o de outras
drogas que não canábis apresentou uma tendência inversa. Este padrão de evolução ocorreu
em ambos os sexos, mas não em todas as idades e as regiões do país. No European School Survey
Project on Alcohol and Other Drugs, 2019 (ESPAD 2019), Portugal teve prevalências de consumo
de qualquer droga (14%) e de canábis (13%) inferiores às médias europeias, embora a de outras
drogas que não canábis (6%) tenha sido um pouco superior. 3,8% dos alunos portugueses de 16
anos foram classificados como consumidores de canábis de alto risco (CAST), representando 38%
dos consumidores recentes (médias europeias: 4,0% e 35%). 2% experimentaram canábis em
idades iguais ou inferiores a 13 anos (3% em 2015), valor idêntico à média europeia. Entre 2015 e
2019 desceu pela segunda vez consecutiva a prevalência de consumo ao longo da vida de
qualquer droga, devido à diminuição do consumo de canábis, dado que Portugal foi dos poucos
países que aumentaram o consumo de outras drogas que não canábis.

No ESPAD 2019, a canábis foi uma vez mais a substância ilícita a que os alunos portugueses
de 16 anos atribuíam um menor risco elevado para a saúde, havendo uma diminuição do risco
percebido associado ao consumo de drogas entre 2015 e 2019, tal como sucedido no quadriénio
anterior. De um modo geral, face às médias europeias, os portugueses percecionavam mais
como de grande risco o consumo regular e ocasional das várias substâncias, ocorrendo situação
inversa em relação à experimentação.

No Inquérito Nacional sobre Comportamentos Aditivos em Meio Prisional, 2014, a população


reclusa apresentou prevalências de consumo de qualquer droga superiores às da população
geral, com cerca de um quarto dos reclusos a declararem consumos recentes na atual reclusão.
A canábis destacou-se com as maiores prevalências de consumo na atual reclusão, seguindo-se,
com prevalências inferiores a 10%, a cocaína e a heroína. Entre 2007 e 2014 houve uma
estabilidade ou diminuição das prevalências de consumo das várias substâncias, e em especial
do consumo de heroína. Cerca de 14% dos reclusos já tinham consumido alguma vez droga
injetada e 4% na atual reclusão. Entre 2007 e 2014 houve uma redução desta prática, sobretudo
ao longo da vida, consolidando a acentuada quebra entre 2001 e 2007. Cerca de 7% dos reclusos
(11% dos consumidores) disseram já ter tido alguma overdose fora da prisão e 2% em reclusão.

Também no Inquérito Nacional sobre comportamentos aditivos em jovens internados em


Centros Educativos, 2015, estes jovens tinham prevalências e padrões de consumo nocivo de
substâncias ilícitas superiores às de outras populações juvenis. 89% já tinham consumido
substâncias ilícitas ao longo da vida e, 80% e 68% fizeram-no nos últimos 12 meses e 30 dias antes
do internamento. Há uma importante redução dos consumos com o internamento (34% e 19% nos
últimos 12 meses e 30 dias), e ainda mais no Centro Educativo. A canábis apresentou prevalências
de consumo próximas às de qualquer droga, seguindo-se com valores muito inferiores, nos últimos
12 meses antes do internamento, a cocaína (14%), o ecstasy (14%) e as anfetaminas (11%), e nos
consumos recentes após o internamento, o ecstasy (3%) e o LSD (2%). Mais de metade usavam
numa mesma ocasião uma substância ilícita com outra(s) lícita/ilícita, e 46% tinha, nos 30 dias
antes do internamento, um consumo diário de canábis (passando para 5% após o internamento).

8 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados

Em 2021 estiveram em tratamento 23 932 utentes com problemas relacionados com o uso
de drogas no ambulatório da rede pública. Dos 3 236 utentes que iniciaram tratamento em
2021, 1 538 eram readmitidos e 1 698 novos utentes. Entre 2020 e 2021 houve um ligeiro aumento
(inferior a 2%) dos utentes em tratamento no ambulatório, após as descidas nos quatro anos
anteriores, estando ainda muito aquém dos valores pré-pandemia. O aumento dos que
iniciaram tratamento no ano (+18%) – após o decréscimo em 2020 que quebrou a tendência
de ligeiro acréscimo entre 2016-19 - foi mais acentuado nos novos utentes do que nos
readmitidos, tal como ocorreu com as descidas no ano anterior. De qualquer modo, só o
número de readmitidos se aproxima já dos valores pré-pandémicos, mantendo-se o dos novos
utentes ainda aquém daqueles. Os valores de 2017-21 foram inferiores aos do anterior
quinquénio, seja do total de utentes em ambulatório, seja dos que iniciaram tratamento.

Na rede pública e licenciada registaram-se 440 internamentos relacionados com o uso de


drogas em Unidades de Desabituação e 1 980 em Comunidades Terapêuticas, correspondendo
a 52% e 56% do total de internamentos nestas estruturas. Estes internamentos aumentaram face a
2020 (+45% em UD e +8% em CT), ano em que houve decréscimos relevantes devido à pandemia,
após a tendência de estabilidade entre 2016-19. Em 2021, o número de internamentos em CT já
foi próximo dos valores pré-pandemia, mantendo-se o das UD ainda muito aquém daqueles.

Apesar da heroína continuar a ser a droga principal mais referida entre os utentes em
ambulatório e das UD, no caso dos utentes das CT e dos novos utentes em ambulatório, a cocaína
e a canábis são predominantes. Em 2017-21 verificou-se um aumento nas proporções de utentes
com a canábis e a cocaína como drogas principais.

Os indicadores sobre o consumo de droga injetada e partilha de seringas apontam para


reduções destes comportamentos no último quinquénio face ao anterior. Em 2021, os consumos
recentes de droga injetada variaram entre 3% e 14% nos vários grupos de utentes em tratamento,
e as práticas recentes de partilha de seringas entre 9% e 28% nos injetores. Entre os que iniciaram
tratamento em ambulatório verifica-se, nos últimos três anos, uma estabilidade do consumo
recente de droga injetada após a diminuição nos anos anteriores, embora o decréscimo se
mantenha entre os readmitidos. Entre os utentes das UD e CT há uma diminuição dos consumos
recentes de droga injetada ao longo do último quinquénio.

Considerando a heterogeneidade dos perfis demográficos e de consumo dos utentes em


tratamento, torna-se essencial continuar a diversificar as respostas e a apostar nas intervenções
preventivas de comportamentos de consumo de risco.

Quanto ao tratamento por problemas relacionados com o uso de drogas no contexto do


sistema prisional, a 31/12/2021 estavam integrados 54 reclusos nos programas orientados para a
abstinência e 850 em programas farmacológicos (838 com agonistas opiáceos e 12 com
antagonistas). Apesar do aumento face a 2020, desde o anterior ciclo estratégico que se verifica
um decréscimo de reclusos nos programas orientados para a abstinência, reflexo da diminuição
da procura. Também há em 2017-21 uma diminuição de reclusos em programas farmacológicos
com agonistas ou antagonistas opiáceos face a 2012-16, o que poderá refletir uma eventual
diminuição de consumidores de opiáceos, mas tal carece de confirmação no contexto de
reclusão (as estimativas na população geral indiciam um ligeiro decréscimo entre 2015-2018).

Em relação às doenças infeciosas, em 2021, as prevalências nos vários grupos de utentes em


tratamento por problemas relacionados com o uso de drogas (exceto em reclusão) enquadraram-
se no padrão dos últimos anos – VIH+ (2% - 12%), VHC+ (7% - 58%) e AgHBs+ (1% - 9%) –, sendo

SICAD 9
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências

superiores nos subgrupos de injetores – VIH+ (6% - 26%) e VHC+ (56% - 88%). Após a descida
acentuada das proporções de novas infeções por VIH até 2011, há um atenuar no ritmo dessa
evolução, sendo os valores dos últimos quatro anos nos injetores em tratamento no ambulatório, os
mais baixos dos últimos dez anos (5%). É de notar, no entanto, o aumento nos últimos três anos da
proporção de novas infeções (VIH+) entre os injetores novos utentes, ocorrendo situação inversa
com os injetores readmitidos, em que as proporções de novas infeções em 2020 e 2021 foram as
mais baixas do último quinquénio. Quanto à hepatite C, em 2020 e 2021 houve descidas das
proporções de novas infeções tanto no total dos utentes em ambulatório (reforçando a tendência
de diminuição iniciada em 2016) como no subgrupo de injetores (após a estabilidade registada
entre 2016-19). No entanto, é de notar em 2021, após as descidas consecutivas nos dois anos
anteriores, o aumento da proporção de novas infeções entre os injetores que iniciaram tratamento
ambulatório, sejam novos utentes, sejam readmitidos.

Nos reclusos em tratamento por problemas relacionados com o uso de drogas a 31/12/2021,
a prevalência de VIH+ era de 14%, valor que se enquadra nas registadas nos últimos quatro anos.
A de Hepatite C (VHC+) era de 49%, idêntica à do ano anterior e correspondendo ao segundo
valor mais baixo do quinquénio. A prevalência de Hepatite B (AgHBs+) era de 4%, semelhante à
média das prevalências do quinquénio. De um modo geral, estas prevalências enquadram-se nas
verificadas em 2021 nos utentes em tratamento em meio livre. A proporção de seropositivos com
terapêutica antirretroviral em contexto de reclusão continua a ser tendencialmente mais elevada
do que em meio livre. Persiste, em ambos os contextos, uma elevada comorbilidade de VIH+ e
VHC+ nestas populações.

Quanto às notificações da infeção por VIH e SIDA, os dados de 2020 e 2021 não se
encontravam disponíveis. Os casos com transmissão associada ao consumo de drogas
representavam, em 2019, 32% do total acumulado de casos de infeção por VIH e 43% dos de SIDA.
Os casos associados à toxicodependência representavam 12% dos diagnósticos de infeção por
VIH nos últimos quinze anos, 6% nos últimos 10 anos e 3% no último quinquénio. Em 2019 foram
diagnosticados 778 casos de infeção por VIH, dos quais 172 de SIDA, representando os associados
à toxicodependência, 2% e 8% daqueles. Continua a registar-se um decréscimo de infeções por
VIH e de SIDA diagnosticados anualmente, tendência que se mantém a um ritmo mais acentuado
nos casos associados à toxicodependência. Considerando o decréscimo de novos casos de
infeção por VIH nesta categoria de transmissão, reflexo das políticas implementadas,
designadamente na mudança de comportamentos de risco ao nível do consumo injetado de
drogas, importa continuar a investir nas políticas promotoras do diagnóstico precoce –
indicadores clínicos evidenciam ainda um diagnóstico tardio - e do acesso ao tratamento, com
vista a potenciar os ganhos em saúde entretanto obtidos.

No que respeita à mortalidade relacionada com o consumo de drogas, segundo o INE, IP,
em 2020 ocorreram 63 mortes de acordo com o critério do OEDT (-13% face a 2019),
representando os valores de 2019 e 2020 os mais altos da década. Destes, 50 (79%) foram
atribuídos a intoxicação.

Nos registos do INMLCF, IP, em 2021, dos 413 óbitos com substâncias ilícitas/metabolitos e
informação da causa de morte, 74 (18%) foram overdoses. Houve um aumento das overdoses
face a 2020 (+45%), representando o valor mais elevado desde 2009. No último quinquénio
registaram-se mais overdoses do que no período homólogo anterior, sendo os valores dos últimos
quatro anos os mais altos desde 2011. Nas overdoses de 2021 é de destacar a presença de
cocaína (51%), metadona (41%) e opiáceos (39%). Para além do valor atípico de overdoses com
metadona em 2021, é de notar que o número de casos com cocaína foi o mais elevado desde

10 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Consumos e Problemas Relacionados

2009. Os valores registados nos últimos quatro anos de overdoses com cocaína e de overdoses
com opiáceos foram os mais altos desde 2011. Na grande maioria (84%) das overdoses havia
mais do que uma substância, destacando-se, associadas às drogas ilícitas, as benzodiazepinas
(58%) e o álcool (22%). Quanto às outras mortes com a presença de drogas (339) - atribuídas a
morte natural (42%), acidentes (36%), suicídio (13%) e homicídio (3%) - têm vindo a aumentar
desde 2016, atingindo em 2021 o valor mais alto desde 2008.

Quanto à mortalidade relacionada com o VIH, os dados de 2020 e 2021 não se encontravam
disponíveis. Em 2019 foram notificados 197 óbitos ocorridos no ano em casos de infeção por VIH,
62 dos quais associados à toxicodependência. Verifica-se uma tendência decrescente no
número de mortes ocorridas a partir de 2002, e a um ritmo mais acentuado nos casos associados
à toxicodependência. É de notar que para os óbitos ocorridos em 2019, e tal como sucedido nos
anos anteriores, o tempo decorrido entre o diagnóstico inicial da infeção e o óbito é superior nos
casos associados à toxicodependência por comparação aos restantes casos, o que indicia o
investimento no acompanhamento da população toxicodependente com VIH.

Em 2021 foram abertos 6 378 processos de contraordenação por consumo de drogas relativos
às ocorrências no ano, um aumento de 4% face a 2020 e uma diminuição de -48% em relação a
2017, ano com o valor mais elevado desde 2001. Apesar das descidas já verificadas em 2018 e
2019, os valores de 2020 e 2021 foram os mais baixos desde 2007, muito provavelmente
relacionado com a pandemia e seus reflexos nos consumos e nas intervenções no âmbito da
dissuasão. Tal como nos sete anos anteriores, em 2021 foi a GNR quem remeteu mais ocorrências
para as CDT. 78% dos processos de 2021 tinham decisão proferida, uma proporção superior à de
2020 embora ainda aquém às dos anos pré-pandemia. Uma vez mais predominaram as
suspensões provisórias dos processos de consumidores não toxicodependentes (67%), seguidas
das decisões punitivas (21%) e das suspensões provisórias dos processos de consumidores
toxicodependentes que aceitaram tratamento (11%). Em 2020 e 2021, as proporções deste último
tipo de decisões foram as mais elevadas dos últimos sete anos.

Tal como nos anos anteriores, a maioria dos processos estavam relacionados com a canábis
(75% só canábis e 3% canábis com outras drogas), seguindo-se a cocaína, o que é consistente
com os estudos nacionais sobre o consumo de drogas. Em 2021, aumentaram os processos de
cocaína (o valor mais elevado de sempre), bem como os de heroína e os que envolviam várias
drogas. O número de processos de canábis manteve-se estável e diminuíram os processos
relacionados com ecstasy.

Quanto aos indivíduos envolvidos nestes processos, em 2021 o aumento dos


toxicodependentes foi superior ao dos não toxicodependentes, após uma diminuição mais
acentuada destes do que dos toxicodependentes em 2020. Todavia, a grande maioria continua
a ser não toxicodependente, refletindo as estratégias e abordagens específicas de sinalização e
intervenção precoce, preconizadas no planeamento estratégico na área da dissuasão.

SICAD 11
Caracterização da Situação ⚫ Oferta

Oferta

OFERTA

As tendências de evolução dos indicadores do domínio da oferta de drogas ilícitas, apesar


de influenciadas pelos níveis de atividade de aplicação da lei e a eficácia das medidas de
combate ao tráfico, constituem uma componente fundamental na monitorização dos mercados.

A aplicação da legislação nacional em matéria de drogas ilícitas tem como finalidade reduzir
a sua disponibilidade e acessibilidade nos mercados, sendo por isso da maior importância a
monitorização dos indicadores relativos à perceção da facilidade de acesso a drogas ilícitas. Os
estudos evidenciam que a canábis continua a ser a droga ilícita percecionada como de maior
acessibilidade, refletindo as prevalências de consumo na população portuguesa. Segundo o
estudo Flash Eurobarometer – Impact of drugs on communitie, realizado em 2021 na população
geral com 15+ anos dos países da UE, 52% dos portugueses consideravam fácil ou muito fácil
aceder a canábis em 24 horas (se desejado), sendo as percentagens correspondentes ao
ecstasy, cocaína, e heroína, de 26%, 24% e 20%. Cerca de 40% consideravam fácil ou muito fácil
aceder a novas substâncias psicoativas (NSP). Face às médias europeias, os portugueses tinham
uma perceção de menor facilidade de acesso à canábis, ao ecstasy e à cocaína, mas de maior
facilidade de acesso à heroína e às NSP. Segundo o INPG 2016/17, na população geral de 15-74
anos, mais de metade dos consumidores da maioria das substâncias ilícitas consideravam fácil ou
muito fácil aceder a elas, sendo estas proporções superiores entre os jovens consumidores. Entre
2012 e 2016/17 houve uma evolução positiva nestas perceções, no sentido da diminuição da
facilidade percebida de acesso a estas substâncias. Os resultados do ESPAD realizado em 2019
entre os alunos de 16 anos apontaram para uma diminuição entre 2015 e 2019 da facilidade
percebida de acesso à canábis, mantendo-se relativamente estáveis as perceções quanto ao
acesso às outras drogas. Face às médias europeias, os alunos portugueses tinham uma menor
perceção de facilidade de acesso à maioria das drogas, sendo a evolução 2015-2019 mais
positiva do que no conjunto dos europeus.

Vários estudos têm vindo a contemplar também indicadores relativos à aquisição de drogas
nos mercados digitais, contribuindo para a monitorização das tendências dos mercados. Em 2021,
no European Web Survey on Drugs: patterns of use, em Portugal, as NSP destacaram-se com as
maiores proporções de consumidores recentes (22%) a utilizarem a internet (darknet, loja ou redes
sociais) como via de aquisição, seguindo-se-lhes a canábis (14%) e as metanfetaminas (8%). Estas
proporções tendem a ser mais altas quando se restringe aos consumidores que compraram essas
substâncias nos últimos 12 meses (respetivamente 34%, 14% e 13%). O recurso às redes sociais foi
superior ao segmento do mercado da darknet e também ao de uma loja na internet no caso da

SICAD 13
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências

maioria das substâncias e muito em particular da canábis e da cocaína (pó), destacando-se


entre as exceções, as NSP e as anfetaminas, em que predominou a aquisição em loja na internet.
No IV Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral, Portugal
2016/17, cerca de 0,1 da população de 15-74 anos, bem como da de 15-34 anos, declarou ter
obtido NSP via internet nos últimos 12 meses, sendo as proporções correspondentes nos respetivos
grupos de consumidores bem mais relevantes (42% e 40%).

Em Portugal, as tendências recentes expressas através de diversos indicadores no domínio da


oferta de drogas ilícitas enquadram-se, de um modo geral, nas tendências europeias.

As restrições devido à pandemia afetaram diversos aspetos dos mercados das drogas ao nível
nacional e global, embora ainda esteja por avaliar o seu impacto a médio e longo prazo. Por sua
vez, as alterações nos indicadores nacionais do domínio da oferta em 2020 e 2021 sugerem que
o impacto inicial (em 2020) não foi igual para os vários tipos de drogas e patamares do mercado,
assim como a sua evolução em 2021, nuns casos com níveis de recuperação já acima dos valores
pré-pandémicos e, noutros, a manterem-se ainda aquém desses valores. No entanto, é de
assinalar que em 2021, ao nível do retalho, houve um aumento das apreensões e das quantidades
confiscadas de todas as drogas que sofreram uma quebra em 2020.

Uma vez mais foi consolidado o predomínio da canábis nos vários indicadores da oferta,
refletindo a prevalência do seu consumo no país. Apesar do haxixe continuar a ser predominante
no mercado nacional, a liamba (canábis herbácea), assim como o cultivo de canábis, ganharam
maior relevância nos últimos dois anos, com valores mais elevados de apreensões e quantidades
confiscadas em todos os patamares do mercado, por comparação a 2018 e 2019. A cocaína
mantém-se como a segunda droga com mais visibilidade nos mercados e, apesar do declínio em
2020 na maioria dos indicadores em análise, em 2021 houve uma recuperação em muitos deles,
atingindo até valores acima dos pré-pandémicos ao nível do retalho. A heroína foi a substância
que registou menores variações em 2020, com pequenas subidas na maioria dos indicadores, as
quais foram reforçadas em 2021 (sobretudo no retalho, já com valores superiores aos pré-
pandémicos), invertendo a tendência de declínio verificada já há alguns anos. O ecstasy foi a
droga que teve as maiores quebras em todos os patamares do mercado em 2020 (invertendo a
subida nos anos anteriores) e a que apresentou em 2021 menores sinais de recuperação, sendo
os mais relevantes ao nível do retalho.

Antes de apresentar alguns indicadores neste domínio, importa mencionar que, desde
meados de 2017, os dados das apreensões policiais não refletem a totalidade dos resultados
nacionais, exigindo cautelas na sua leitura.

Em 2021, uma vez mais o haxixe foi a substância com o maior número de apreensões (1 081).
Seguiu-se-lhe a cocaína e a liamba, respetivamente com 513 e 449 apreensões, e com valores
inferiores, a heroína (270) e o ecstasy (77). É de assinalar, pela primeira vez no âmbito destes
registos, apreensões de MDMB-4-en-PINACA (canabinoide sintético), de 4-CMC e de alfa-PHP
(ambas substâncias estimulantes).

Entre 2020 e 2021 houve um aumento das apreensões de haxixe (+49%), de heroína (+29%) e
de cocaína (+28%), e ligeiras descidas das de liamba (-3%) e de ecstasy (-3%). Em 2020 e 2021, os
números de apreensões foram tendencialmente inferiores aos dois anos anteriores, exceto no
caso da liamba e da heroína.

14 SICAD
Caracterização da Situação ⚫ Oferta

Em relação às quantidades apreendidas, em 2021 houve um incremento significativo da


liamba apreendida (o valor mais elevado desde 2010) e, descidas nas quantidades confiscadas
de haxixe (apesar de ser o segundo valor mais alto desde 2015) e de ecstasy (o valor mais baixo
desde 2015). As quantidades apreendidas de cocaína e de heroína foram próximas às de 2020,
sendo os valores dos últimos três anos os mais altos desde 2007 no caso da cocaína, e os mais
baixos de sempre no caso da heroína. Apesar da subavaliação dos dados desde 2017 e da
pandemia, em 2017-21 verificaram-se aumentos relevantes, face a 2012-16, nas quantidades
apreendidas de canábis (de haxixe e de liamba) e de cocaína.

São também de assinalar, enquanto indicador da produção interna, as quantidades


confiscadas nos últimos dois anos de plantas de canábis (os valores mais altos do milênio) e de
plantas de ópio (os valores mais altos desde 2009).

Quanto às rotas, Portugal tem sido um país de trânsito no tráfico internacional de haxixe e de
cocaína, em particular nos fluxos oriundos respetivamente de Marrocos e, da América Latina e
Caraíbas, e com destino a outros países, sobretudo europeus. Em 2021 destacaram-se como os
principais países de origem da cocaína apreendida, o Brasil, seguido do Paraguai e da Costa
Rica, constatando-se nos últimos anos uma redução na utilização de Portugal em rotas com
destino fora da Europa. Marrocos e Espanha surgiram como os principais países de origem no
caso do haxixe e, Espanha e Portugal no da liamba. Por sua vez, retomando a tendência dos
anos anteriores a 2020, Portugal surge como origem da rota de tráfico de canábis em alguns fluxos
com destino a países europeus e Brasil. Apenas uma minoria das apreensões de heroína tinha
informação sobre a rota, destacando-se a África do Sul como o principal país de origem, sendo
desconhecida a proveniência da quase totalidade do ecstasy apreendido no país.

Sobre os meios utilizados no transporte das drogas, é de notar, entre 2020 e 2021, o aumento
relevante do número de apreensões por via marítima de haxixe (pelo segundo ano consecutivo)
e de cocaína.

Os preços médios das drogas confiscadas em 2021 sofreram algumas alterações relevantes
face a 2020, seja no sentido de contrariar as evoluções expressas no primeiro ano da pandemia –
caso da heroína e do ecstasy(g), cujas subidas dos preços em 2021 aproximam-nos mais dos anos
pré-pandemia, embora ainda aquém destes -, seja no sentido de as reforçar – caso do haxixe,
cuja ligeira subida do preço representa o valor mais alto da década, reforçando a inversão, em
2020, da estabilidade dos preços nos anos pré-pandemia. O preço médio da liamba tem-se
mantido relativamente estável nos últimos quatro anos (com os valores mais baixos desde 2014)
e, o da cocaína nos últimos três anos (representando os valores mais baixos da década).

Quanto à potência/pureza médias das drogas apreendidas houve algumas variações entre
2020 e 2021, sendo de destacar a subida da potência do haxixe e da pureza da cocaína
(cloridrato), representando os valores mais elevados nos últimos dez anos, e, a descida da pureza
das anfetaminas. Em termos de evolução ao longo do quinquénio, o haxixe, a cocaína
(cloridrato) e o ecstasy (pó) apresentaram uma tendência de aumento da sua potência/pureza
neste período. Apesar das oscilações anuais, no caso da canábis herbácea, da cocaína
base/crack e da heroína há uma tendência de relativa estabilidade dos valores nos últimos cinco
anos e, no das anfetaminas, uma tendência de diminuição do seu grau de pureza. De um modo
geral, com exceção das anfetaminas, em 2017-21 verificaram-se valores médios de
potência/pureza das drogas mais elevados face ao período homólogo anterior.

SICAD 15
Relatório Anual 2021 – A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependências

Em 2021, e salvaguardada a subestimação dos dados, foram identificados 2 083 presumíveis


infratores - 42% como traficantes e 58% como traficantes-consumidores -, 1 579 (76%) dos quais
foram detidos. O número de presumíveis infratores aumentou face a 2020 (+ 25%), tendo sido mais
significativo o aumento de traficantes-consumidores (+34%) do que o de traficantes (+14%).
Apesar deste aumento, os valores mantêm-se inferiores aos dos anos pré-pandemia. Face a 2020
aumentaram os presumíveis infratores na posse de várias drogas, assim como dos que detinham
só canábis e dos que estavam na posse apenas de cocaína. No entanto, apenas o número de
presumíveis infratores na posse de várias drogas atingiu os níveis pré-pandémicos.

Nas decisões judiciais ao abrigo da Lei da Droga, em 2021 registaram-se 1 174 processos-crime
findos envolvendo 1 616 indivíduos, na sua maioria (81%) acusados por tráfico. Cerca de 90% dos
indivíduos foram condenados e 9% absolvidos. Após as descidas em 2013 e 2014, houve uma
tendência de aumento, representando os valores de 2019 os mais altos desde 2013. Em 2020
houve uma quebra acentuada muito provavelmente devida à pandemia, seguida ainda de uma
ligeira descida em 2021. É de assinalar o aumento de indivíduos condenados por consumo desde
2009 - relacionado com a fixação de jurisprudência em 2008 –, com um acréscimo relevante nos
últimos anos. Tal como desde 2004, uma vez mais predominou nestas condenações ao abrigo da
Lei da Droga a aplicação da pena de prisão suspensa (50%) em vez de prisão efetiva (21%),
seguindo-se a aplicação apenas da multa efetiva (26%), sobretudo aplicada a condenados por
consumo. Uma vez mais a maioria destas condenações estavam relacionadas só com uma
droga, persistindo o predomínio da canábis e a superioridade das condenações pela posse de
cocaína em relação às de heroína, consolidando assim as tendências dos últimos anos.

A 31/12/2021 estavam em situação de reclusão 1 742 indivíduos condenados ao abrigo da


Lei da Droga, representando o segundo valor mais baixo dos últimos dez anos e um ligeiro
decréscimo (-2%) face a 2020. Os valores dos últimos quatro anos foram os mais baixos dos últimos
dez anos. Representavam cerca de 18% do universo da população reclusa condenada,
proporção próxima às dos anteriores (19% em 2020 e 18% em 2019). A grande maioria destes
indivíduos (76%) estavam condenados por tráfico, 23% por tráfico de menor gravidade e menos
de 1% por outros crimes ao abrigo da Lei da Droga.

Para além da criminalidade diretamente relacionada com a Lei da Droga, há a considerar a


criminalidade indiretamente relacionada com o consumo de drogas, como a praticada sob o
efeito destas e/ou para obter dinheiro para a sua aquisição. Segundo o Inquérito Nacional sobre
Comportamentos Aditivos em Meio Prisional, 2014, 22% dos reclusos declararam como motivo dos
crimes que levaram à atual reclusão, a obtenção de dinheiro para o consumo de drogas (24%
em 2007 e 23% em 2001), e 42% declararam estar sob o efeito de drogas quando os cometeram.
Entre os crimes praticados sob o efeito de drogas, destacaram-se o furto, o roubo, o tráfico e o
tráfico para consumo, seguidos das ofensas à integridade física e da condução sem habilitação
legal. No Inquérito sobre comportamentos aditivos em jovens internados em Centros Educativos,
2015, 33% dos jovens apontaram como motivo dos crimes que levaram ao internamento atual a
obtenção de dinheiro para o consumo de drogas/álcool (25%) e/ou estarem sob o efeito destas
substâncias (19%). Quanto à prática de crimes que levaram alguma vez à presença em Centro
Educativo, 60% destes jovens disseram ter estado sob o efeito de drogas pelo menos nalgumas
situações em que os cometeram.

16 SICAD

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