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Poemas e Fados de Lisboa

O poema descreve o amor do narrador por Lisboa, retratando a cidade como uma mulher amada. Ao longo de vários poemas, o narrador expressa sua devoção a Lisboa, descrevendo diferentes bairros e aspectos da cidade que o inspiram e trazem memórias. Os poemas celebram a beleza e encanto singular de Lisboa.

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Poemas e Fados de Lisboa

O poema descreve o amor do narrador por Lisboa, retratando a cidade como uma mulher amada. Ao longo de vários poemas, o narrador expressa sua devoção a Lisboa, descrevendo diferentes bairros e aspectos da cidade que o inspiram e trazem memórias. Os poemas celebram a beleza e encanto singular de Lisboa.

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GAIVOTA

Se uma gaivota viesse


Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse

Nesse céu onde o olhar


É uma asa que não voa
Esmorece e cai no mar

Que perfeito coração


No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração

Se um português marinheiro
Dos sete mares andarilho
Fosse quem sabe o primeiro

A contar-me o que inventasse


Se um olhar de novo brilho
Ao meu olhar se enlaçasse

Que perfeito coração


No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração

Se ao dizer adeus à vida


As aves todas do céu
Me dessem na despedida

O teu olhar derradeiro


Esse olhar que era só teu
Amor que foste o primeiro

Que perfeito coração


Morreria no meu peito
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração

Meu amor
Na tua mão
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração

Olhos Castanhos
Teus olhos castanhos
De encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes
Brilhantes, luzentes
Caídas dos céus

Teus olhos risonhos


São mundos, são sonhos
São a minha cruz

Teus olhos castanhos


De encantos tamanhos
São raios de luz

Olhos azuis são ciúme


E nada valem pra mim
Olhos negros são queixume
D'uma tristeza sem fim

Olhos verdes são traição


São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus
Castanhos leais

Teus olhos castanhos


De encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes
Brilhantes, luzentes
Caídas dos céus

Teus olhos risonhos


São mundos, são sonhos
São a minha cruz

Teus olhos castanhos


De encantos tamanhos
São raios de luz

Olhos negros são queixume


D'uma tristeza sem fim

São cruéis como punhais


Olhos bons com coração
Os teus
Castanhos leais

FADO LOUCURA
Sou do fado
Como sei
Vivo um poema cantado
De um fado que eu inventei
A falar
Não posso dar-me
Mas ponho a alma a cantar
E as almas sabem escutar-me
Chorai, chorai
Poetas do meu país
Troncos da mesma raiz
Da vida que nos juntou
E se vocês não estivessem a meu lado
Então não havia fado
Nem fadistas como eu sou
Nesta voz tão dolorida
É culpa de todos vós
Poetas da minha vida
A loucura, ouço dizer
Mas bendita esta loucura de cantar e sofrer
Chorai, chorai
Poetas do meu país
Troncos da mesma raiz
Da vida que nos juntou
E se vocês não estivessem a meu lado
Então não havia fado nem fadistas como eu sou

Então não havia fado nem fadistas como eu sou

CHUVA
As coisas vulgares que há na vida
Não deixam saudades
Só as lembranças que doem
Ou fazem sorrir

Há gente que fica na história


Da história da gente
E outras de quem nem o nome
Lembramos ouvir

São emoções que dão vida


À saudade que trago
Aquelas que tive contigo
E acabei por perder

Há dias que marcam a alma


E a vida da gente
E aquele em que tu me deixaste
Não posso esquecer

A chuva molhava-me o rosto


Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai meu choro de moça perdida


Gritava à cidade
Que o fogo do amor sob chuva
Há instantes morrera

A chuva ouviu e calou


Meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade

A chuva molhava-me o rosto


Gelado e cansado
As ruas que a cidade tinha
Já eu percorrera

Ai meu choro de moça perdida


Gritava à cidade
Que o fogo do amor sob chuva
Há instantes morrera

A chuva ouviu e calou


Meu segredo à cidade
E eis que ela bate no vidro
Trazendo a saudade

E eis que ela bate no vidro


Trazendo a saudade

FADO PORTUGUÊS
O Fado nasceu um dia
Quando o vento mal bulia
E o céu o mar prolongava
Na amurada dum veleiro
No peito de um marinheiro
Que estando triste cantava
Que estando triste cantava

Ai que lindeza tamanha


Meu chão, meu monte, meu vale
De folhas flores frutas de oiro
Vê se vês terras de Espanha
Areias de Portugal
Olhar ceguinho de choro

Na boca de um marinheiro
Do frágil barco veleiro
Morrendo a canção magoada
Diz o pungir dos desejos
Do lábio a queimar de beijos
Que beija o ar e mais nada
Que beija o ar e mais nada

Mãe adeus, adeus Maria


Guarda bem no teu sentido
Que aqui te faço uma jura
Que ou te levo à sacristia
Ou foi Deus que foi servido
Dar-me no mar sepultura

Ora eis que embora outro dia


Quando o vento nem bulia
E o céu o mar prolongava
À proa de outro veleiro
Velava outro marinheiro
Que estando triste cantava
Que estando triste cantava

Ai que lindeza tamanha


Meu chão, meu monte, meu vale
De folhas flores frutas de oiro
Vê se vês terras de Espanha
Areias de Portugal
Olhar ceguinho de choro

TIDO ISTO É FADO


Perguntaste-me outro dia se eu sabia o que era o fado
Eu disse que não sabia, tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia eu menti naquela hora
E disse-te que não sabia, mas vou-te dizer agora

Almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras


Na Mouraria canta um rufia, choram guitarras
Amor de ciúme cinzas e lume, dor e pecado
Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado

Se queres ser o meu senhor e teres-me sempre a teu lado


Não me fales só de amor fala-me também do fado
Que o fado que é o meu castigo só nasceu p'ra me perder
O fado é tudo o que digo mais o que eu não sei lhe dizer

Almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras


Na mouraria canta um rufia, choram guitarras
Amor de ciúme, cinzas e lume, dor e pecado
Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado

Amor de ciúme, cinzas e lume, dor e pecado


Tudo isto existe, tudo isto é triste, sim, tudo isto é fado

NO TEU POEMA
No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida

No teu poema
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo

Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor, mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha

No teu poema
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano

Existe um rio
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas

Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera do futuro

LISBOA MENINA E MOÇA


No Castelo, ponho um cotovelo
Em Alfama, descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar

À Ribeira encosto a cabeça


A almofada da cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo

Lisboa, menina e moça, menina


Da luz que os meus olhos veem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada


Toalha à beira-mar estendida
Lisboa, menina e moça, amada
Cidade, mulher da minha vida

No Terreiro, eu passo por ti


Mas da Graça, eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha, sorri
És mulher da rua

E no bairro mais alto do sonho


Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar

Lisboa, menina e moça, menina


Da luz que os meus olhos veem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada


Toalha à beira-mar estendida
Lisboa, menina e moça, amada
Cidade, mulher da minha vida

Lisboa no meu amor, deitada


Cidade por minhas mãos despida
Lisboa, menina e moça, amada
Cidade, mulher da minha vida

CANÇÃO DO MAR
Fui bailar no meu batel
Além do mar cruel
E o mar bramindo
Diz que eu fui roubar
A luz sem par
Do teu olhar tão lindo

Vem saber se o mar terá razão


Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel


Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo

Vem saber se o mar terá razão


Vem cá ver bailar meu coração

Se eu bailar no meu batel


Não vou ao mar cruel
E nem lhe digo aonde eu fui cantar
Sorrir, bailar, viver, sonhar contigo

PICA DO 7
De manhã cedinho eu salto do ninho

E vou pra paragem

De bandolete à espera do 7 mas não pela viagem

Eu bem que não queria

Mas um certo dia eu vi-o passar

E o meu peito céptico, por um pica de eléctrico

Voltou a sonhar

A cada repique, que soa do clique

Daquele alicate

Num modo frenético, o peito céptico toca a rebate

Se o trem descarrila o povo refila

E eu fico num sino

Pois um mero trajeto no meu caso concreto

É já o destino

Ninguém acredita no estado em que fica

O meu coração

Quando o 7 me apanha

Até acho que a senha me salta da mão

Pois na carreira desta vida vã

Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá

Que triste fadário e que itinerário tão infeliz

Cruzar meu horário

Com o dum funcionário de um trem da carris

Se eu lhe perguntasse

Se tem livre passe pró peito de alguém

Vá-se lá saber

Talvez eu lhe oblitere o peito também


Ninguém acredita no estado em que fica

O meu coração

Quando o 7 me apanha

Até acho que a senha me salta da mão

Pois na carreira desta vida vã

Mais nada me dá a pica que o pica do sete me dá

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