PAUL FEYERABEND:
DO ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO
AO PLURALISMO
Profa. Dra. Halina Leal
FURB
PAUL FEYERABEND (1924-1994)
“(...) meu espírito polêmico estendia-se mesmo a ideias
semelhantes às minhas.”
FEYERABEND, Paul. Matando o Tempo. P. 149
• Filósofo da ciência austríaco; crítico, irreverente, ousado.
• Foi orientando de Karl Popper (1902-1994), posteriormente
tornou-se crítico do “racionalismo popperiano’.
• Colega e amigo do “racionalista” Imre Lakatos (1922-1974).
IMRE LAKATOS X PAUL FEYERABEND
PAUL FEYERABEND (1924-1994)
Paul Karl Feyerabend (1924-1994) ocupa uma posição peculiar
nas discussões filosóficas acerca da ciência. Suas ideias sobre a
conduta razoável dos cientistas operam na direção de elucidar e
resolver as dificuldades de compatibilização de critérios ou
padrões científicos permanentes e circunstâncias variadas e
variáveis de aplicação de tais critérios e padrões.
PAUL FEYERABEND (1924-1994)
“É possível (...) criar uma tradição que se mantém una, ou intacta, graças
à observância de regras estritas, e que, até certo ponto, alcança êxito.
Mas será desejável dar apoio a essa tradição, em detrimento de tudo
mais? Devemos conceder-lhe direitos exclusivos de manipular o
conhecimento, de tal modo que quaisquer resultados obtidos por outros
métodos sejam, de imediato, ignorados? Essa é a indagação a que
pretendo dar resposta neste ensaio. E minha resposta será um firme e
vibrante NÃO.”
FEYERABEND, Introdução de CM, p.21
PAUL FEYERABEND (1924-1994)
Visão de Ciência Criticada por Feyerabend....
(...) todas as ciências empregam um método comum em suas
investigações, na medida em que utilizam os mesmos princípios de
avaliação da evidência; os mesmos cânones para julgar da adequação das
explicações proposta; e os mesmos critérios para selecionar uma dentre
várias hipóteses. (...)
NAGEL, Ernest. Ciência: Natureza e Objetivo, p.19
PAUL FEYERABEND (1924-1994)
FASES DO PENSAMENTO:
▪ Primeira Fase (1950-1970): Positivista e Popperiana. na qual ele utiliza pressupostos
do racionalismo crítico para defender o pluralismo e o humanismo.
▪ Segunda Fase (1970-1990): Crítica e “Anarquista”. na qual ele busca, a partir de
“dentro”, apresentar as incoerências dos sistemas ditos racionalistas, sendo
identificado como o “rebelde”, o “terrorista epistemológico”.
▪ Terceira Fase: Pluralista, Contextualista, Interacionista (1990-1994): representada
sobretudo pela terceira edição de Contra o Método, Toda Cultura é Potencialmente
Todas as Culturas, Conquista da Abundância e sua autobiografia Killing Time (onde ele
faz um acerto de contas com sua filosofia
MÉTODO...CIÊNCIA
• SEGUNDA FASE:
1. Pontos de Crítica ao “Racionalismo”:
[Link] separação entre contexto de descoberta e contexto de
justificação.
1.2. Total separação entre descrições históricas e prescrições
metodológicas.
MÉTODO...CIÊNCIA
• SEGUNDA FASE:
1. Pontos de Crítica ao “Racionalismo”:
1.3. Consideração das razões lógicas e empíricas como únicas
válidas na avaliação de teorias.
1.4. Rejeição da pluralidade de métodos, defendendo um
conjunto de regras e princípios fixos e uniformes.
MÉTODO...CIÊNCIA
SEGUNDA FASE:
2. “Teses”:
2.1. Anarquismo Epistemológico:
Princípio Tudo Vale, princípio de Proliferação de Teorias.
2.2. Contraindução
2.3. Incomensurabilidade
MÉTODO...CIÊNCIA
ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO:
(...) Um anarquista ingênuo diz a) que tanto as regras absolutas quanto as
regras dependentes do contexto têm seus limites e conclui b) que todas
as regras e critérios são inúteis e devem ser postos de lado. A maior
parte dos comentadores considera-me um anarquista ingênuo nesse
sentido, esquecendo as numerosas passagens onde mostro que certos
procedimentos ajudaram os cientistas na sua investigação.
MÉTODO...CIÊNCIA
ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO:
(...) embora concorde com a), não concordo com b). Sustento
que todas as regras têm seus limites e que não existe uma
“racionalidade” englobante. Não sustento que devamos
proceder sem regras nem critérios.
FEYERABEND, Against Method, 1993, p. 20
MÉTODO...CIÊNCIA
PRINCÍPIO TUDO VALE
(...) “tudo vale” não é um “princípio” que eu sustente – não penso que
possam ser utilizados e produtivamente discutidos os “princípios” fora da
situação concreta de investigação que supomos que afetam – mas a
exclamação apavorada de um racionalista que observa a história um
pouco mais de perto.
FEYERABEND, Against Method, 1993, p. vii
MÉTODO...CIÊNCIA
PRINCÍPIO DE PROLIFERAÇÃO DE TEORIAS:
(...) princípio de proliferação: inventar e elaborar teorias que são
inconsistentes com o ponto de vista aceito, mesmo se este for altamente
confirmado e geralmente aceito. Qualquer metodologia que adota o
princípio será chamada de metodologia pluralista.
FEYERABEND, Against Method, 1993, pp. 105-106
MÉTODO...CIÊNCIA
CONTRAINDUÇÃO
Regras Positivistas:
(1) Só aceitar hipóteses que se ajustem a teorias confirmadas ou
corroboradas (condição de consistência).
(2) Eliminar hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos.
Regras da Contraindução:
(1) Introduzir hipóteses que não se ajustem a teorias aceitas e
confirmadas.
(2) Introduzir hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos.
MÉTODO...CIÊNCIA
INCOMENSURABILIDADE
As teorias incomensuráveis podem ser refutadas por referência aos seus
próprios tipos de experiência correspondente; ou seja, pela descoberta
das contradições internas de que sofrem. [...] Os seus conteúdos não
podem ser comparados. E também não é possível proceder a um juízo de
verossimilhança exceto dentro dos limites de uma teoria particular.
FEYERABEND, Contra o Método, 1988, p.284
FILOSOFIA CIÊNCIA
INCOMENSURABILIDADE
Minha discussão da incomensurabilidade (...) não “reduz a diferença a
uma diferença de teoria”. Ela inclui formas de arte, percepções e
estágios de desenvolvimento infantil e assevera
que os pontos de vista de cientistas, especialmente seus pontos de vista a
respeito de assuntos básicos, são com frequência tão diferentes uns dos outros
como o são as ideologias de diferentes culturas. (CM, primeira edição, p. 274)
FEYERABEND, Prefácio à Terceira Edição de CM, p.13
RACIONALIDADE
[...] a razão, pelo menos sob a forma em que é defendida pelos
lógicos, filósofos e alguns cientistas, não corresponde à ciência e
poderia não ter contribuído para o seu crescimento. Esse é um bom
argumento contra aqueles que admitem a ciência e também são
escravos da razão. Eles devem agora fazer uma escolha. Eles podem
ficar com a ciência; podem ficar com a razão; não podem ficar com
ambas. [...]
FEYERABEND, Against Method, 1993, p. 241
RACIONALIDADE
• TERCEIRA FASE:
Expressão madura de suas ideias ... representada
principalmente pela terceira edição inglesa de Contra o
Método (combina partes de Contra o Método excertos de
Ciência em uma Sociedade Livre)
RACIONALIDADE
Feyerabend identifica ciência com prática e razão com
racionalidade.
Ciência=Prática
Razão=Racionalidade
RACIONALIDADE
(...) a posição que eu desejo defender. Essa posição adota
alguns elementos do naturalismo, mas rejeita a filosofia
naturalista. O naturalismo diz que a razão é completamente
determinada pela pesquisa. Disto conservamos a ideia
segundo a qual a pesquisa pode mudar a razão. (...) O
idealismo diz que a razão governa completamente a pesquisa.
Disto conservamos a ideia segundo a qual a razão pode mudar
a pesquisa. (...)
RACIONALIDADE
(...) Combinando os dois elementos, chegamos à ideia de um
guia que é parte da atividade guiada e transformado por ela.
Isto corresponde à visão interacionista da razão e da prática.
FEYERABEND, Against Method, 1993, p.230-232
RACIONALIDADE
(...) razão e prática não são dois tipos diferentes de entidades,
mas partes de um só processo dialético.
FEYERABEND, Against Method, 1993, p.233
RACIONALIDADE
O que é chamado “razão” e “prática” são dois tipos diferentes de
prática, estando a diferença em que um exibe alguns aspectos
formais simples e facilmente documentáveis, fazendo-nos, assim,
esquecer as propriedades complexas e dificilmente entendidas que
garantem a simplicidade e a documentabilidade, enquanto o outro
esconde os aspectos formais sob uma grande variedade de
propriedades acidentais.
FEYERABEND, Against Method, 1993, p.224
RACIONALIDADE
• Interações: teórico-observacional; descoberta-
justificação; prescrição-descrição.
• Lógica: multiplicidade de sistemas formais e visões de
mundo.
(...) não existe um aspecto único – LÓGICA – subjacente a todos os
domínios considerados.
FEYERABEND, Against Method, 1993, p.195
PLURALISMO
(...) advirto mais uma vez o leitor de que não tenho a
intenção de substituir princípios “velhos e dogmáticos” por
outros “novos e libertários”. Por exemplo, não sou nem
populista, para quem uma apelo “ao povo” é a base de
todo o conhecimento, nem relativista, para quem não há
“verdades como tais”, mas apenas verdades para este ou
aquele grupo e/ou indivíduo. (...)
FEYERABEND, Prefácio à Terceira Edição de CM, p. 16
PLURALISMO
(...)Tudo o que digo é que os não especialistas
frequentemente sabem mais do que os especialistas e
deveriam, portanto, ser consultados, e que profetas da
verdade (incluindo os que empregam argumentos) em geral
são impelidos por uma visão que conflita com os próprios
eventos que, supõe-se, essa visão estaria explorando.
FEYERABEND, Prefácio à Terceira Edição de CM, p.17
PLURALISMO
(...) quem diz que é a ciência que determina a natureza da realidade presume
que as ciências têm uma única voz. Acredita que existe um monstro, CIÊNCIA, e
que quando ela fala, repete e repete sem parar uma única mensagem coerente.
Nada mais distante da verdade. Diferentes ciências têm ideologias muito distintas.
(...). Vemos, portanto, que as ciências são repletas de conflitos. O monstro
CIÊNCIA que fala uma única voz é uma colagem feita por propagandistas,
reducionistas e educadores. Até agora, falei das ciências físicas. Mas há também
a sociologia, a psicologia, e elas também se subdividem em escolas cheias de
divergências. Desse modo, dizer que “somos obrigados a tomar a ciência como
guia em questões relacionadas à realidade” não é só errado – é um conselho que
não faz sentido.
FEYERABEND, Lições Trentinas 2016, p.85
PAUL FEYERABEND...”UM
PLURALISTA”?
OBRIGADA!