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3a aula
22 de Setembro de 2023
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Estrutura ordenada de R
Em R existe um subconjunto não vazio, que denotamos por R+ ,
de números ditos positivos, que tem as seguintes propriedades:
P10 ∀ x ∈ R x =0 ou
˙ x ∈ R+ ou
˙ − x ∈ R+
P11 ∀ x, y ∈ R+ x + y ∈ R+
P12 ∀ x, y ∈ R+ x.y ∈ R+
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Ordem em R
Define-se a relação binária 6 por
a<b ⇔ b + (−a) ∈ R+
a6b ⇔ b + (−a) ∈ R+ ou
˙ b = a.
Notação: Também se escreve b > a e b + (−a) = b − a.
Por P10, dados dois números reais a e b, vale uma e só uma das
afirmações
b = a ou ˙ a < b ou ˙ b < a.
Além disso, por definição,
x ∈ R+ ⇔ 0 < x.
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A relação 6 define uma ordem total em R:
O1 ∀ x ∈ R x 6x (reflexividade)
O2 ∀ x, y , z ∈ R (x 6 y e y 6 z) ⇒ x 6 z (transitividade)
O3 ∀ x, y ∈ R (x 6 y e y 6 x) ⇒ x = y (anti-simetria)
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Por (R, +, ., 6) satisfazer às propriedades P1-P12, que indicam
que as estruturas algébrica e ordenada de R estão ligadas e são
compatı́veis, diz-se que se trata de um corpo ordenado.
Conseguimos indicar algum número positivo?
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1 é positivo
Sabemos que 1 6= 0, por definição, logo 1 + 1 6= 1.
Mas podemos ter 1 + 1 = 0, como acontece no exemplo que vimos
na aula anterior?
Provaremos de seguida que 1 > 0.
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Comecemos por mostrar que:
∀ a ∈ R \ {0} a.a := a2 > 0.
Como a 6= 0, por P10 tem-se a > 0 ou −a > 0.
Caso 1: Se a > 0, então a2 > 0 por P12.
Caso 2: Se a < 0, então −a > 0, logo (−a).(−a) > 0.
E já provámos (veja-se (III) acima) que (−a).(−a) = a.a.
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Em particular, 1 > 0 porque
1 6= 0
e, por P9 e (IV),
1 = 1.1 = 12 > 0.
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E, portanto, 1 + 1 > 0 por P11.
Também já sabemos que 1 + 1 6= 1, logo estes três elementos de R
são distintos: 0, 1 e 1 + 1.
Denotamos 1 + 1 por 2.
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Mais geralmente,
N = {1, 1 + 1, 1 + 1 + 1, · · · } = {1, 2, 3, · · · }
e todos estes números são distintos: tem-se
∀ n ∈ N 0 < n < n + 1.
Logo o conjunto N não é finito. Isto é, para toda a lista finita
{n1 , n2 , · · · , nk } de números de N, existe um elemento de N que
não lhe pertence: por exemplo, n1 + n2 + · · · + nk .
E, portanto, o conjunto R também não é finito.
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Função módulo
Para cada número real a define-se o valor absoluto (ou módulo)
de a por
(
a se 0 6 a
|a| =
−a se a < 0
Note-se que, para todo o a ∈ R, valem as propriedades:
|a| > 0
− |a| 6 a 6 |a|
| − a| = |a|
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Além disso:
• |a b| = |a| |b| ∀a, b ∈ R
• |a + b| 6 |a| + |b| ∀a, b ∈ R.
• |a| − |b| 6 |a − b| ∀a, b ∈ R.
h i
• ∀x ∈ R ∀ δ ∈ R+ |x| 6 δ ⇔ −δ 6 x 6 δ .
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Demonstração de |a b| = |a| |b|
Se a > 0 e b > 0, então a b > 0, logo
|a b| = a b = |a| |b|.
Se a < 0 e b > 0, então (−a) b > 0 e
|a b| = |(−a) b| = |(−a)| |b| = |a| |b|.
Se a < 0 e b < 0, então a b = (−a) (−b) > 0 e
|a b| = |(−a) (−b)| = (−a) (−b) = |a| |b|.
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Demonstração de |a + b| 6 |a| + |b|
Se a > 0 e b > 0, então a + b > 0 e |a| + |b| = a + b; e, portanto
|a + b| = |a| + |b|.
Se a 6 0 e b 6 0, então a + b 6 0, |a + b| = −a − b e
|a| + |b| = −a − b; e, portanto, |a + b| = |a| + |b|.
Se a < 0 < b e |a| 6 |b| (ou seja, −a 6 b), então a + b > 0, logo
|a + b| = a + b e |a| + |b| = −a + b. Além disso, a + b < −a + b,
uma vez que a < 0.
Analogamente se trata o caso a < 0 < b e |a| > |b|.
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Note-se que vale a igualdade se e só se a e b têm o mesmo sinal
ou um deles é zero.
E que
|a − b| = |a + (−b)| 6 |a| + | − b| = |a| + |b| ∀ a, b ∈ R.
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Demonstração de |a| − |b| 6 |a − b|
Do que acabámos de provar nos dois slides anteriores, conclui-se
que
|a| = |a − b + b| 6 |a − b| + |b|
|b| = |b − a + a| 6 |b − a| + |a| = |a − b| + |a|.
Logo
|a − b| > |a| − |b| e |a − b| > |b| − |a|.
E, portanto, |a − b| > |a| − |b| .
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Temos assim uma função D : R × R → R+0 definida no produto
cartesiano
R × R = {(x, y ) : x, y ∈ R}
por D(a, b) = |b − a| e chamada distância entre a e b, e que tem
as propriedades seguintes:
• D(a, b) > 0 ∀ a, b ∈ R
• D(a, b) = 0 ⇔ a=b
• D(a, b) = D(b, a) ∀ a, b ∈ R
• D(a, b) 6 D(a, c) + D(c, b) ∀ a, b, c ∈ R
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Demonstração de |x| 6 δ ⇔ −δ 6 x 6 δ
|x| 6 δ ⇔ (x > 0 e x 6 δ) ou (x 6 0 e − x 6 δ)
⇔ (0 6 x 6 δ) ou (−δ 6 x 6 0)
⇔ −δ 6 x 6 δ.
Notação: {x ∈ R : −δ 6 x 6 δ} = [−δ, δ].
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Intervalos
{x ∈ R : −δ < x 6 δ} = ] − δ, δ]
{x ∈ R : −δ 6 x < δ} = [−δ, δ[
{x ∈ R : a < x < b} = ]a, b[
{x ∈ R : a 6 x 6 a} = {a}
···
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Números naturais
0 e 1 nascem de P1-P9, isto é, da estrutura algébrica de R.
N = {1, 1 + 1, 1 + 1 + 1, · · · } = {1, 2, 3, · · · } obtém-se de P1-P12,
isto é, da estrutura algébrica e ordenada de R.
N tem uma génese muito simples, mas possui propriedades
aritméticas notáveis.
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Algumas propriedades de N
• Podemos efectuar a divisão inteira entre dois naturais, isto é,
∀n ∈ N ∀d ∈ N ∃1 q ∈ N0 ∃1 r ∈ {0, 1, · · · , d − 1} tal que
n = dq + r .
Se r = 0, diz-se que d divide n, ou que d é um divisor de n, ou
ainda que n é múltiplo de d.
Um natural n diz-se primo se n > 1 e os únicos divisores naturais
de n são 1 e n.
2, 3, 5, 7, 11 são os primeiros cinco primos conhecidos.
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Por exemplo, se d = 2, a divisão inteira por d permite descrever N
como a união de
P = {naturais pares} e I = {naturais ı́mpares}.
De facto, dado natural n, o resto da divisão inteira de n por 2 é 0
ou 1. No caso de ser 0, existe k ∈ N tal que n = 2k e n diz-se par;
no caso de ser 1, existe k ∈ N0 tal que n = 2k + 1 e n diz-se ı́mpar.
Note-se que:
1=2×0+1
n = 2k ⇒ n + 1 = 2k + 1
n = 2k + 1 ⇒ n + 1 = 2k + 2 = 2(k + 1)
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Além disso, N é união disjunta de P e I porque, se k ∈ N,
m ∈ N ∪ {0} e 2k = 2m + 1, então
2k = 2m + 1 ⇒ 1 = 2(k − m) e k >m
⇒ 1 = 2(k − m) > 2.
O que é uma contradição, pois 1 < 2 por se ter 1 > 0.
Note-se ainda que
n é par ⇔ n2 é par
uma vez que
n = 2k ⇒ n2 = 4 k 2 = 2 (2 k 2 )
n = 2k + 1 ⇒ n2 = 4 k 2 + 4 k + 1 = 2 (2k 2 + 2 k) + 1.
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Mais algumas propriedades de N
• Cada natural n > 1 tem uma factorização em primos (que é
única a menos da ordem dos factores).
• Em N vale o Princı́pio da Boa Ordem: Todo o subconjunto não
vazio de naturais tem 1o elemento.
• Em N vale o Princı́pio de Indução Finita: Seja A ⊆ N tal que
(a) 1 ∈ A
e
(b) n ∈ A ⇒ n + 1 ∈ A.
Então A = N.
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O Princı́pio de Indução Finita permite definir objectos
recursivamente. Por exemplo,
1! = 1 e (n + 1)! = (n + 1) n! ∀ n ∈ N.
E também serve para simplificar demonstrações de propriedades
válidas nos números naturais.
Por exemplo, provemos que 2n > n ∀ n ∈ N.
Seja A = {n ∈ N : 2n > n}. Temos
1 ∈ A porque 21 = 2 > 1.
n∈A ⇒ 2n+1 = 2.2n > 2n > n + 1 ⇒ n + 1 ∈ A.
Logo A = N.
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Mais números reais
Do ponto de vista algébrico, N tem deficiências, pois nem sequer
satisfaz P3 ou P4.
Por exemplo, as equações x = 0 e x + 1 = 0 não têm solução em
N.
Alguns destes defeitos de N resolvem-se acrecentando-lhe
elementos:
Z = {1, 2, 3, · · · } ∪ {0} ∪ {−1, −2, −3, · · · }
Chamam-se números inteiros.
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Agora todas as equações lineares x + a = b, com a, b ∈ Z, têm
solução em Z.
Mas, por exemplo, a equação 2x − 1 = 0 não tem solução em Z.
Juntemos a Z os inversos para a multiplicação dos inteiros não
nulos.
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Obtemos os números racionais:
nm o
Q= : m ∈ Z, n ∈ N
n
Podemos supor que n e m não têm divisores primos em comum;
nesse caso, diz-se que a fracção m
n é irredutı́vel.
Todas as equações lineares ax + b = c, com a, b, c ∈ Q e a 6= 0
têm solução (única) em Q, igual a c−b
a .
Mas, por exemplo, as equações x 2 + 1 = 0 e x 2 − 2 = 0 não têm
solução em Q.
Porquê?
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Quanto a x 2 + 1 = 0
De facto, nem sequer existe um número real que verifique esta
equação.
Se existisse x ∈ R tal que x 2 + 1 = 0, poderı́amos afirmar que
x 6= 0
porque 02 + 1 = 0 + 1 = 1 6= 0. Então, como vimos em (IV),
x 2 > 0. Consequentemente,
x 2 + 1 > 1 > 0.
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Notem que no exemplo (A, +A , •A ) há solução da equação
x 2 + 1 = 0, pois 12 +A 1 = 1 +A 1 = 0.
+A 0 1
0 0 1
1 1 0
•A 0 1
0 0 0
1 0 1
(A, +A , •A ) não é um corpo ordenado.
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Quanto a x 2 − 2 = 0
Provemos que não existe um racional x > 0 tal que x 2 − 2 = 0.
Se existisse um tal racional, digamos m
n com m ∈ N0 , n ∈ N e n e
m sem factores primos em comum, poderı́amos afirmar que:
m
• n 6= 0 porque 02 − 2 = −2 6= 0.
m2
• n2
= 2, ou seja 2 n2 = m2 .
• m2 é par, logo m é par, digamos m = 2k para um natural k.
• 2 n2 = m2 = 4 k 2 , logo n2 = 2 k 2 e, portanto, n2 é par.
Consequentemente, n é par. Mas começámos com uma fracção
irredutı́vel m
n . Esta contradição surgiu por se supor que existe
racional x tal que x 2 = 2.
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Notem agora que, se não existe um racional x > 0 tal que
x 2 − 2 = 0, então também não existe um racional x < 0 tal que
x 2 − 2 = 0.
De facto, se existisse x < 0 verificando x 2 − 2 = 0, então terı́amos
−x > 0 e
(−x)2 − 2 = x 2 − 2 = 0.
Conclusão: Não existe um racional x tal que x 2 − 2 = 0.
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Existe x ∈ R \ Q tal que x 2 − 2 = 0 ?
Podemos deduzir que um tal real existe a partir das propriedades
P1 − P12 ?
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Dificuldade em encontrar a resposta
Listei na aula anterior as propriedades algébricas (P1-P9) e de
ordenação (P10-P12) que R satisfaz, e que fazem dele um corpo
ordenado.
Mas alguns subconjuntos de R (embora não todos) também
satisfazem todas estas propriedades.
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Por exemplo, Q também é um corpo ordenado.
• As operações + e • estão bem definidas em Q pois
m k m` + kn m k mk
+ = ∈Q e . = ∈ Q.
n ` n` n ` n`
• São associativas e comutativas em Q, e vale a
distribuitividade, porque assim é em todo o R.
• 0 e 1 estão em Q: 0 = 01 e 1 = 11 .
• Dado m m −m m
n ∈ Q, tem-se − n = n ∈ Q; dado n ∈ Q \ {0},
1 n
tem-se m = m ∈ Q.
n
• As propriedades P10-P12 da ordem são herdadas por Q
directamente de R.
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Observem agora que acabámos de provar que, com as propriedades
P1-P12, não existe x ∈ Q tal que x 2 − 2 = 0.
Isto é, não basta ser um corpo ordenado para conter um número
cujo quadrado é 2.
Então por que existe um tal número em R?