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Funções: Definições e Propriedades

O documento discute funções gerais cujo domínio é um subconjunto de números reais. Ele define operações entre funções como soma, produto e composição. Também aborda conceitos como imagem, pré-imagem, monotonia e bijecção. Exemplos ilustram essas noções.

Enviado por

Rafael Inácio
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Funções: Definições e Propriedades

O documento discute funções gerais cujo domínio é um subconjunto de números reais. Ele define operações entre funções como soma, produto e composição. Também aborda conceitos como imagem, pré-imagem, monotonia e bijecção. Exemplos ilustram essas noções.

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13a aula

27 de Outubro de 2023
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Funções

Terminado o capı́tulo sobre sucessões, avancemos para o estudo de


funções mais gerais, cujo domı́nio é um subconjunto não vazio de
R, eventualmente distinto de N, e cuja imagem está contida em R.

A estrutura algébrica e a ordem em R induzem uma estrutura


análoga no espaço destas funções, que vamos recordar.
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Operações entre funções


Soma:

f, g: A→R → f +g : A → R, (f +g )(x) = f (x) + g (x)

Produto:

f, g: A→R → f .g : A → R, (f .g )(x) = f (x) g (x)

Inverso para a multiplicação:


1 1
g: A→R→ 1/g : {x ∈ A : g (x) 6= 0} → R, (x) =
g g (x)
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Nascem deste modo os polinómios e os quocientes de polinómios


(também chamados funções racionais):

• x ∈R 7→ f (x) = cd x d + cd−1 x d−1 + · · · + c0

tais que cj ∈ R para todo o j ∈ {0, 1, · · · , d} e d ∈ N ∪ {0}.

ak x k + ak−1 x k−1 + · · · + a0
• x ∈A 7→ g (x) =
b` x ` + b`−1 x `−1 + · · · + b0

tais que ai , bj ∈ R, k, ` ∈ N ∪ {0} e A é o subconjunto de R onde


o polinómio do denominador não se anula.
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Composição:

f : A → R, g :B→R → g ◦f : A → R, (g ◦f )(x) = g (f (x))

Para esta operação, precisamos de conhecer a imagem da função f

Imagem de f = {f (x) : x ∈ Domı́nio de f }

para garantir que está contida no domı́nio de g .


Esta é uma questão, em geral difı́cil, a que voltaremos mais tarde.
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Exemplo

f : x ∈R 7→ f (x) = 1

g: x ∈R 7→ g (x) = x 2 − 5

g ◦f : x ∈R 7→ (g ◦ f )(x) = −4

f ◦g : x ∈R 7→ (f ◦ g )(x) = 1

Nota: Neste exemplo, g ◦ f 6= f ◦ g .


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Outro exemplo

1
f : x ∈ R \ {0} 7→ f (x) = 1 +
x

Imagem de f = ] − ∞, 1[ ∪ ]1, +∞[

1
x ∈ R \ {0, −1} 7→ (f ◦ f )(x) = 1 + 1
1+ x
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Verifiquemos que

Imagem de f = ] − ∞, 1[ ∪ ]1, +∞[ = R \ {1}.

1
Dado y ∈ R \ {1}, consideremos x = y −1 . Então x 6= 0 e
 1  1
f (x) = f = 1 + 1 = 1 + (y − 1) = y .
y −1 y −1

Além disso, não existe x ∈ R \ {0} tal que f (x) = 1 porque

1 1
1+ =1 ⇔ = 0.
x x
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Ordem em R e funções
A ordem em R induz a seguinte relação entre duas funções com
igual domı́nio:

f, g: A→R → f 6g ⇔ f (x) 6 g (x) ∀x ∈ A

Com a ordem em R e o Axioma do Supremo construimos funções


novas. Por exemplo:
(
x se x > 0
• f : R → R, f (x) = |x| =
−x se x < 0

• f : R → R, f (x) = bxc = maior inteiro menor ou igual a x.


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Funções que podem ser agora compostas, somadas, multiplicadas,


etc., gerando-se mais funções novas:

• x ∈R 7→ b |x| c

• x ∈R 7→ |bxc|

• x ∈R 7→ x − bxc

• x ∈R 7→ x bxc

x
• x ∈ R \ [0, 1[ 7→ bxc
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A ordem em R permite também definir a monotonia de funções.

Diz-se que uma função f : A → R é crescente se

∀ x, a ∈ A x <a ⇒ f (x) 6 f (a).

A função f : A → R é decrescente se −f é crescente, ou seja,

∀ x, a ∈ A x <a ⇒ f (x) > f (a).

As noções estritas são definidas analogamente usando-se < e > em


vez de 6 e >.
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Imagem e pré-imagem de um conjunto por uma função

Dada uma função f : A → R e um subconjunto C ⊆ A,

f (C ) = {f (c) : c ∈ C}

é a imagem de C por f .

Dada uma função f : A → R e um subconjunto B ⊆ R,

f −1 (B) = {x ∈ A : f (x) ∈ B}

é a pré-imagem (ou imagem recı́proca ou imagem inversa) de B


por f .
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Exemplo 1
Considere a função f : R → R dada por
(
2x−3
4 se x > 0
f (x) =
4 se x < 0

e os conjuntos C = {−1, 0} e B = [3, 5[. Então


n 3 o
f (C ) = f ({−1, 0}) = − ,4
4

f −1 (B) = f −1 ([3, 5[) = {x ∈ R : 3 6 f (x) < 5}


 
15 23
= ] − ∞, 0[ ∪ , .
2 2
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Exemplo 2
Considere a função f : R → R definida por

f (x) = bxc = maior inteiro menor ou igual a x

e os conjuntos C = [−2, −1[ e B = ]0, 1[.


Então

f (C ) = f ([−2, −1[) = {−2}

f −1 (B) = ∅.
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E se D = [0, 1], então

f −1 (D) = {x ∈ R : 0 6 bxc 6 1} = [0, 2[.


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A propósito de pré-imagens

Diz-se que uma função f : A → B é sobrejectiva se f (A) = B, isto


é, se para todo o b ∈ B, a pré-imagem por f de {b} é um conjunto
não vazio.

Graficamente, isto significa que, para todo o b ∈ B, o gráfico de f


intersecta a recta horizontal de equação y = b pelo menos uma
vez.
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Diz-se que f : A → B é injectiva se elementos distintos de A têm


imagens distintas, isto é, se

f (a1 ) = f (a2 ) ⇒ a1 = a2 .

Ou seja, para todo o b ∈ B, a pré-imagem por f de {b} é o


conjunto vazio ou tem só um elemento.

Ou seja, para todo o b ∈ B, o gráfico de f intersecta a recta


horizontal de equação y = b quando muito uma vez.
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Uma função f : A → B é bijectiva se é simultaneamente


sobrejectiva e injectiva, isto é, se

∀b ∈ B ∃1 a ∈ A : f (a) = b.

Ou seja, f é uma bijecção se para todo o b ∈ B o gráfico de f


intersecta a recta horizontal de equação y = b uma e uma só vez.
O que é equivalente a dizer que, para todo o b ∈ B, a pré-imagem
de {b} por f tem exactamente 1 elemento.
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Exemplo 3

Consideremos a função f : R → R dada por f (x) = 2x + 5.

Esta função é bijectiva porque, para cada y ∈ R,


y −5
f (x) = y ⇔ 2x + 5 = y ⇔ x= .
2

Isto é, para cada y ∈ R, a pré-imagem de {y } é o conjunto


não-vazio { y −5
2 }, confirmando-se que f é sobrejectiva; e a
pré-imagem de {y } só tem um elemento, o que mostra que f é
injectiva.
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Exemplo 4

Consideremos agora f : ] − ∞, 0] → R dada por f (x) = 2x + 5.

• f não é sobrejectiva, uma vez que,

x 60 ⇒ 2x + 5 6 5.

• f é injectiva porque

f (x1 ) = f (x2 ) ⇔ 2x1 + 5 = 2x2 + 5 ⇒ x1 = x2 .


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Exemplo 5

Seja f : R → R dada por f (x) = x 2 − 6x + 14.

• f não é sobrejectiva uma vez que

x 2 − 6x + 14 = (x − 3)2 + 5 > 5.

• f não é injectiva, pois f (2) = f (4) = 6.


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Exemplo 6
Seja f : [3, +∞[ → [5, +∞[ dada por f (x) = x 2 − 6x + 14.

f é bijectiva porque, se y > 5 e x > 3,

x 2 − 6x + 14 = y ⇔ (x − 3)2 + 5 = y
⇔ (x − 3)2 = y − 5
p
⇔ |x − 3| = y − 5
p
⇔ x −3= y −5
p
⇔ x = 3 + y − 5.
√ √
Note-se que, como y − 5 > 0, temos x = 3 + y − 5 > 3.
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Observação

Se uma função é estritamente crescente (ou estritamente


decrescente), então é injectiva.

De facto, se a função f é estritamente crescente e a 6= b, então:

• Ou a < b, caso em que f (a) < f (b).

• Ou a > b, caso em que f (a) > f (b).

Um argumento análogo mostra que se uma função é estritamente


decrescente, então é injectiva.
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Por exemplo, seja f : R → R dada por f (x) = x 3 . Esta função é


injectiva porque é estritamente crescente:

x >a ⇒ x 3 > a3

uma vez que

x 3 − a3 = (x − a)(x 2 + ax + a2 )

x −a>0
e
 a 2 3 2 3 2
a 6= 0 ⇒ x 2 + ax + a2 = x + + a > a >0
2 4 4

a=0 ⇒ x >0 ⇒ x 2 + ax + a2 = x 2 > 0.


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Contudo, uma função pode ser injectiva sem ser monótona.


n
Por exemplo, f : N → R dada por f (n) = (−1)
n é injectiva mas não
é nem estritamente crescente nem estritamente decrescente.

Por exemplo, f : R → R dada por f (x) = x1 se x 6= 0, e f (0) = 0, é


injectiva mas não é nem estritamente crescente nem estritamente
decrescente.
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Função inversa
Seja f : A → R uma função injectiva.

Se Imf = {f (a) : a ∈ A} designa a imagem de f , a função inversa


de f é a única função

g : Imf → A

que a cada b ∈ Imf associa o único a ∈ A tal que f (a) = b.

Note-se que, por definição, g é a única função com domı́nio Imf


que satisfaz as igualdades

g ◦ f = IdA e f ◦ g = IdImf .
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Notação: A inversa de f denota-se f −1 .

Dificuldade: Determinar o domı́nio da função f −1 , isto é, descrever


completamente o conjunto

Imf = {f (x) : x ∈ Domı́nio de f }.


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Exemplo 1

• Se f : R → R é tal que f (x) = x, então f é estritamente


crescente (logo injectiva) e sobrejectiva. Além disso, f −1 = f .
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Exemplo 2

• Se f : R → R é definida por f (x) = 1 − x, então f é


estritamente decrescente (logo injectiva) e sobrejectiva. E f −1 = f
uma vez que

(f ◦ f )(x) = f (f (x)) = f (1 − x) = 1 − (1 − x) = x.
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Exemplo 3

• Se f : R → R é tal que
(
−2x se x < 0
f (x) =
− 21 x se x > 0

então f é estritamente decrescente (logo injectiva). E é


sobrejectiva:

• dado y > 0 existe x = − y2 < 0 tal que f (x) = −2x = y ;

• dado y < 0 existe x = −2y > 0 tal que f (x) = − 12 x = y .


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Logo f tem inversa. E f −1 = f porque


(
−2(− 21 x) = x se x > 0
(f ◦ f )(x) = f (f (x)) =
− 12 (−2x) = x se x < 0
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Note-se que o gráfico de f −1 é o simétrico do gráfico de f


relativamente à recta de equação cartesiana y = x.

Porque

(x, f (x)) ∈ gráfico de f ⇔ (f (x), x) ∈ gráfico de f −1 .


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Em particular, se f é estritamente crescente (respectivamente,


estritamente decrescente), então f −1 também é estritamente
crescente (respectivamente, estritamente decrescente).

Verifiquemos esta afirmação analiticamente.


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Se f : A → R é estritamente crescente, então f −1 também é


estritamente crescente porque:
• Dados y1 < y2 ∈ Imf , existem x1 , x2 ∈ A tais que

y1 = f (x1 ) e y2 = f (x2 ).

• Além disso, tem-se x1 < x2 porque f é estritamente crescente.

• E f −1 (y1 ) = x1 , f −1 (y2 ) = x2 .
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Exemplo 4

• Se f : [0, +∞[ → R é tal que f (x) = x 2 , então f é


estritamente crescente uma vez que

x >a>0 ⇒ x 2 − a2 = (x − a)(x + a) > 0

porque x −a>0 e

a>0 ⇒ x >0 ⇒ x + a > x > 0.

Além disso, Imf = [0, +∞[ porque já sabemos que, dado y > 0,
existe um (único) real não-negativo cujo quadrado é y .
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Deste modo, concluı́mos que a inversa de f é a função

f −1 : [0, +∞[ → [0, +∞[



x 7→ x

cujo gráfico é o simétrico, relativamente à recta de equação


cartesiana y = x, do gráfico de f .
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Exemplo 5
• Se f : R → R é tal que f (x) = x 3 , então já sabemos que f é
estritamente crescente.

Logo está definida a inversa desta função, dada por

f −1 : Imf → R

3
x 7→ x

cujo gráfico é o simétrico, relativamente à recta de equação


cartesiana y = x, do gráfico de f .

Provaremos mais tarde que Imf = R.


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Exemplo 6

• Se f : R → R é tal que
(
1
x se x 6= 0
f (x) =
0 se x = 0

então f não é estritamente crescente nem estritamente


decrescente, mas é uma bijecção. E f −1 = f :

 1 = x se x 6= 0
1
(f ◦ f )(x) = x
 0 se x = 0
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Exemplo 7

• Se f : R → R é tal que
(
x se x ∈ Q
f (x) =
−x se x ∈
/Q

então f não é monótona, mas é uma bijecção. E f −1 = f :


(
x se x ∈ Q
(f ◦ f )(x) =
−(−x) = x se x ∈
/Q
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Exemplo 8

• Se f : R \ {0} → R \ {0} é tal que


(
− x1 se x > 0
f (x) =
−x se x < 0

então f não é monótona, mas é uma bijecção.

Verifiquemos que f −1 = f1 .
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x <0 ⇒ f (x) = −x
1 
⇒ f (x)
f
1 1
= (−x) =
f f (−x)
1
= 1
= x.
− −x
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1
x >0 ⇒ f (x) = −
x
1 
⇒ f (x)
f
1 1 1
= − =
f x f (− x1 )
1
= 1
= x.
x
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1
Do mesmo modo se confirma que f ◦ f = IdR\{0} .

Note-se ainda que o domı́nio da função inversa (igual à imagem de


f ) é R \ {0} pois coincide com

{x ∈ R \ {0} : f (x) 6= 0}

e f não se anula.
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Observação
1
f é o inverso para a multiplicação de f .
1
f é uma função.

f −1 é a inversa de f para a composição.


f −1 é uma função, que só existe se f for injectiva.

f −1 (B) é a imagem inversa por f do conjunto B.


f −1 (B) é um conjunto, e é noção bem definida ainda que f não
tenha inversa.

Se f é injectiva, então f −1 (B) é a imagem de B pela função


inversa de f . Mas só nesse caso.
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Precisamos de generalizar para funções mais algumas das


definições que estudámos no contexto de sucessões.
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Funções limitadas, majoradas, minoradas


Seja f : A → R uma função. Diz-se que f é limitada se f (A) é um
conjunto limitado. Ou seja, f é limitada se

∃ R > 0: ∀ a ∈ A |f (a)| 6 R.

Diz-se que f é majorada se f (A) é um conjunto majorado, ou seja,

∃ M ∈ R: ∀a ∈ A f (a) 6 M

e que é minorada se f (A) é um conjunto minorado, isto é,

∃ m ∈ R: ∀a ∈ A f (a) > m.
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Supremo e ı́nfimo de uma função

Seja f : A → R uma função majorada. Chama-se supremo de f ao


supremo do conjunto f (A).

Chama-se valor máximo de f ao máximo do conjunto f (A), caso


exista.

Definição análoga para ı́nfimo e valor mı́nimo de uma função


f : A → R minorada.
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Máximos e mı́nimos globais de uma função


Diz-se que f : A → R tem um máximo global em a ∈ A se

f (a) = valor máximo global de f

isto é,
∀x ∈ A f (x) 6 f (a).

Diz-se que f : A → R tem um mı́nimo global em b se

f (b) = valor mı́nimo global de f

ou seja,
∀x ∈ A f (x) > f (b).
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Máximos e mı́nimos locais de uma função

Diz-se que f : A → R tem um máximo local em a se

∃ δ > 0: ∀ x ∈ ]a − δ, a + δ[ ∩ A f (x) 6 f (a).

Diz-se que f : A → R tem um mı́nimo local em b se

∃ δ > 0: ∀ x ∈ ]b − δ, b + δ[ ∩ A f (x) > f (b).


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Exemplo 1
Seja f : [−1, 4] → R a função dada por f (x) = 5x.

• f é limitada: como é estritamente crescente, tem-se

∀ x ∈ [−1, 4] f (−1) 6 f (x) 6 f (4).

• f tem mı́nimo global (atingido só em −1) e máximo global


(atingido só em 4).
• f não tem outros máximos ou mı́nimos locais além dos
globais.
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Exemplo 2
Seja f : R → R a função dada por
(
−x se x < 0
f (x) =
2x + 1 se x > 0

• f não é majorada:
M
∀ M ∈ R+ ∃x = ∈ R: f (x) = 2x + 1 = M + 1 > M.
2

• f é minorada e inf f = 0, mas f não tem mı́nimo global.


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De facto,

x <0 ⇒ f (x) = −x > 0


x >0 ⇒ f (x) = 2x + 1 > 1 > 0

logo 0 é minorante de Imf .

Além disso, dado β > 0, existe x = − β2 tal que

β
0 < f (x) = −x = <β
2
e, portanto, β não é minorante de Imf . Logo o ı́nfimo de f é igual
a 0. Contudo, 0 ∈ / Imf , e portanto, 0 não é mı́nimo global de f .
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Exemplo 3

Seja f : R → R a função dada por f (x) = x − bxc. Como para


todo o x ∈ R se tem

bxc 6 x < bxc + 1

concluı́mos que

∀x ∈ R 0 6 x − bxc = f (x) < 1.


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E, portanto,
• f é minorada por 0.
• 0 é o valor mı́nimo global de f : é atingido em cada a ∈ Z.
• f é majorada por 1.
1+β
• 1 é o supremo de f : dado 0 < β < 1, existe 2 ∈ ]0, 1[:
1 + β  1+β 1+β 1+β β+β
f = −b c= −0> = β.
2 2 2 2 2
Logo β não é majorante de f (R). E 1 é o supremo de f (R).
• 1 não é máximo de f pois 1 ∈
/ Imf = f (R).
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Exercı́cio

Esboce o gráfico da função f : R → R dada por

f (x) = x − bxc.
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Limites
Sejam f uma função e ` ∈ R.

Diz-se que o limite de f quando x tende para +∞ é ` se

∀ε > 0 ∃ δ = δε > 0 :
x >δ e x ∈A ⇒ |f (x) − `| < ε.

Notação: limx → +∞ f (x) = `.

Para esta definição ser válida, o domı́nio de f tem de conter


números reais positivos arbitrariamente grandes. Ou seja, o
domı́nio de f não pode ser majorado.
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Analogamente se definem

lim f (x) = +∞
x → +∞

lim f (x) = −∞
x → +∞

lim f (x) = ` ∈ R
x → −∞

lim f (x) = +∞
x → −∞

lim f (x) = −∞
x → −∞
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Notem que, para que as três últimas definições da página anterior


sejam válidas, o domı́nio de f tem de conter números reais
negativos arbitrariamente grandes.

Ou seja, o domı́nio de f não pode ser minorado.


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Nota: Quando existe, o limite é único.


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Exemplo

1
limx → +∞ 1+x 2
= 0:
q
1
dado ε > 0, existe δ = ε > 0 tal que
r
1 1 1 1
x >δ= ⇒ x2 > ⇒ 2
< 2 < ε.
ε ε 1+x x
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Outro exemplo

(I ) Para todo o natural n (que fica fixo no que se segue),

lim x n = +∞.
x → +∞

(II ) Para todo o natural n (que fica fixo no que se segue),


(
+∞ se n é par
lim x n =
x → −∞ −∞ se n é ı́mpar
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Demonstração de (I )

Dados n ∈ N e ε > 0, seja δ = max {1, ε}. Então

x >δ ⇒ x >1 ⇒ xn > x


x >δ ⇒ x >ε ⇒ x n > x > ε.

O que confirma que, para todo o n ∈ N, se tem

lim x n = +∞.
x → +∞
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Conta auxiliar: x > 1 ⇒ xn > x


Fixado x > 1, provemos que

∀n ∈ N x n > x.

Se n = 1, a afirmação é trivial.
Suponhamos agora que para um natural n fixado se tem x n > x.
Então
x n+1 − x = x (x n − 1) > 0
porque
• x >1 ⇒ x > 0,
• por hipótese de indução x n > x

• e xn > x > 1 ⇒ x n > 1.


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Demonstração de (II )
Para cada ε > 0, seja δ = max {1, ε} > 0. Então

−δ = min {−1, −ε}

e, se n é par,

x < −δ ⇒ x < −1 ⇒ x n > −x > δ > ε


⇒ x n > ε.

O que mostra que, se n é par,

lim x n = +∞.
x → −∞
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Se n é ı́mpar, ε > 0 e δ = max {1, ε} > 0, então

x < −δ ⇒ x < −1 ⇒ xn 6 x
x < −δ ⇒ x < −ε ⇒ x n 6 x < −ε.

O que confirma que, se n é ı́mpar,

lim x n = −∞.
x → −∞
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Outros limites

Para funções definidas em intervalos não-degenerados (isto é, não


reduzidos a um ponto) podemos definir outras noções de limite.
Vejamos como.
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Ponto de acumulação de um conjunto A em R

Dado um conjunto A ⊂ R, diz-se que a ∈ R é um ponto de


acumulação de A em R se

∀δ > 0 (]a − δ, a + δ[ \{a}) ∩ A 6= ∅.

De modo análogo se define ponto de acumulação de A pela direita


(usando-se ]a, a + δ[) e pela esquerda (usando-se ]a − δ, a[).
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Exemplo
Se A = ]0, 1[ ∪ {3}, então todo o a ∈ [0, 1[ é ponto de acumulação
de A em R pela direita.

De facto, se 0 6 a < 1, para todo o δ > 0 tem-se


na + 1 δo
min , a+ ∈ ]a, a + δ[ ∩ A
2 2
porque
a+1 1+1
a< < =1
2 2
e, como δ > 0,
δ
a<a+ < a + δ.
2
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Logo
na + 1 δo
a < min , a+ < a + δ.
2 2
e na + 1 δo
0 < min , a+ < 1.
2 2

Isto é, na + 1 δo
min , a+ ∈ ]a, a + δ[ ∩ A.
2 2
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Exercı́cio: Verifique que 1 é ponto de acumulação de A pela


esquerda, mas não é ponto de acumulação de A pela direita.
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3 não é ponto de acumulação de A, nem pela esquerda nem pela


direita, porque
i 1 1h 
A∩ 3 − ,3 + \ {3} = ∅.
2 2
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Outro exemplo

1
Qual é o conjunto de pontos de acumulação de n : n ∈ N em
R?

É {0}.

Porquê ?
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Mais um exemplo

Qual é o conjunto de pontos de acumulação de Q em R?

É R, porque Q é denso em R.
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Limite de uma função num ponto

Sejam f : A → R uma função, a ∈ R um ponto de acumulação de


A pela esquerda e pela direita e ` ∈ R.

Diz-se que ` é o limite de f quando x tende para a se

∀ε > 0 ∃ δ = δa, ε > 0 :


0 < |x − a| < δ e x ∈A ⇒ |f (x) − `| < ε.

Notação: limx → a f (x) = `.


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Note-se que não interessa o valor de f em a nem sequer se f está


definida em a.

Mas é preciso que f esteja definida numa sucessão (an )n


convergente para a tal que an > a para todo o n ∈ N, e que f
esteja definida numa sucessão (bn )n convergente para a tal que
bn < a para todo o n ∈ N.
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Nota: O limite, quando existe, é único.

A verificação desta unicidade é idêntica à que foi feita para


sucessões.
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Limites laterais

Se a ∈ R é um ponto de acumulação de A pela direita, diz-se que


` ∈ R é o limite de f quando x tende para a por valores maiores do
que a se

∀ε > 0 ∃ δ = δa, ε > 0 :


0<x − a < δ e x ∈A ⇒ |f (x) − `| < ε.

Notação: limx → a+ f (x) = `.


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Se a ∈ R é um ponto de acumulação de A pela esquerda, diz-se


que ` ∈ R é o limite de f quando x tende para a por valores
menores do que a se

∀ε > 0 ∃ δ = δa, ε > 0 :


−δ < x − a < 0 e x ∈A ⇒ |f (x) − `| < ε.

Notação: limx → a− f (x) = `.


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Observe-se que, por definição, se a ∈ R é um ponto de acumulação


de A pela esquerda e pela direita, então

lim f (x) = ` ⇔ lim f (x) = lim + f (x) = `.


x →a x → a− x →a
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Exemplo 1

Seja f : R → R dada por f (x) = 2. Consideremos a ∈ R.

Então limx → a f (x) = 2 uma vez que, dado ε > 0, existe δ = 1 tal
que

0 < |x − a| < δ = 1 ⇒ |f (x) − 2| = |2 − 2| = 0 < ε.

Note-se que, neste exemplo, δ pode ser escolhido independente de


a e de ε.
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Exemplo 2

Seja f : R → R dada por f (x) = 2 se x 6= 0 e f (0) = 1. Então

lim f (x) = 2
x →0

uma vez que, dado ε > 0, existe δ = 1 tal que

0 < |x − 0| < δ = 1 ⇒ |f (x) − 2| = |2 − 2| = 0 < ε.


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Exemplo 3
Sejam f : R → R dada por f (x) = 5x − 1 e a ∈ R.

Então limx → a f (x) = 5a − 1 uma vez que, dado ε > 0, existe


δ = 5ε > 0 tal que
ε
0 < |x − a| < δ = ⇒ |f (x) − (5a − 1)| =
5

= |(5x − 1) − (5a − 1)| = 5|x − a| < 5δ = ε.

Note-se que, neste exemplo, δ pode ser escolhido independente de


a (mas não de ε).
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Exemplo 4
Sejam f : R → R dada por f (x) = bxc e a = 23 .

1
Então limx → 3 f (x) = 1 uma vez que, dado ε > 0, existe δ = 2 tal
2
que
3 1
0 < |x − | < δ = ⇒ 1<x <2
2 2

⇒ |f (x) − 1| = |bxc − 1| = |1 − 1| = 0 < ε.

Note-se que agora δ pode ser escolhido independente de ε, mas


houve que ter em conta a posição de 32 no intervalo [1, 2[ para
seleccionar adequadamente o valor de δ.
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Exemplo 5

Sejam f : R → R dada por f (x) = bxc e a = 47 .

1
Então limx → 7 f (x) = 1 uma vez que, dado ε > 0, existe δ = 4 tal
4
que
7 1
0 < |x − | < δ = ⇒ 1<x <2
4 4

⇒ |f (x) − 1| = |bxc − 1| = |1 − 1| = 0 < ε.


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Exemplo 6
Sejam f : R → R dada por f (x) = bxc e a = 3.

Então limx → 3+ f (x) = 3 uma vez que, dado ε > 0, existe δ = 1


tal que

0<x −3<δ =1 ⇒ 3<x <4

⇒ |f (x) − 3| = |bxc − 3| = |3 − 3| = 0 < ε.

Analogamente se conclui que limx → 3− f (x) = 2. E, portanto, o


limx → 3 f (x) não existe.
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Exemplo 7
√ √
• Para todo o a > 0, tem-se limx → a x= a.

Dado a > 0,

∀ε > 0 ∃ δ = min {a, ε a} > 0 : 0 < |x − a| < δ


√ √ |x − a| |x − a| ε a
⇒ x >0 e | x− a| = √ √ < √ < √ = ε.
x+ a a a


• Quando a = 0, tem-se limx → 0+ x = 0 uma vez que
∀ ε > 0 ∃ δ = ε2 > 0 :

√ √
0<x <δ ⇒ 0< x < ε2 = ε.
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Exemplo 8

1

• limx → 0 x sen x = 0.

De facto, dado ε > 0, existe δ = ε tal que


1
0 < |x| < δ = ε ⇒ x sen 6 |x| < ε.
x

De modo análogo se mostra que, para todo o natural k,


1
lim x k sen = 0.
x →0 x
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Limites infinitos

Sejam f : A → R uma função e a ∈ R um ponto de acumulação de


A pela esquerda e pela direita.

Diz-se que o limite de f quando x tende para a é +∞ se

∀ε > 0 ∃ δ = δa, ε > 0 :


0 < |x − a| < δ e x ∈A ⇒ f (x) > ε.

Notação: limx → a f (x) = +∞.


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Analogamente se definem

lim f (x) = +∞
x → a+

lim f (x) = +∞
x → a−

lim f (x) = −∞
x →a

lim f (x) = −∞
x → a+

lim f (x) = −∞
x → a−
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Exemplo

1
lim = +∞
x →0 x2

porque, dado ε > 0, existe δ = √1 > 0 tal que


ε

1 1 1
0<x <δ= √ ⇒ 0 < x 2 < δ2 = ⇒ > ε.
ε ε x2
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Exemplo

1
lim não existe
x →0 x
porque

1 1
lim + = +∞ e lim = −∞.
x →0 x x → 0− x
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1
De facto, dado ε > 0, existe δ = ε > 0 tal que

1 1
0<x <δ= ⇒ >ε
ε x
enquanto que
1 1
−δ = − < x < 0 ⇔ > −x > 0
ε ε
1
⇒ >ε
−x
1
⇒ < −ε
x
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Exemplo

bxc
lim
x →0 x
não existe porque

bxc 0
lim + = lim =0
x →0 x 0<x <1e x →0 x
+

enquanto que

bxc −1
lim = lim = +∞.
x → 0− x −1 < x < 0 e x → 0− x

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