Materiais
Gabriel Braun
Colégio e Curso Pensi, Coordenação de Química
Sumário TABELA 1 Composição de ligas típicas
Liga Composição mássica
1 Os materiais inorgânicos 1
1.1 As ligas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 Latão até 40% de zinco em cobre
1.2 O carbonato de cálcio, o cimento e o concreto . . . 2
Bronze outro metal que não zinco ou nível em cobre
2 Os materiais poliméricos 2
Solda estanho em chumbo
2.1 Os polímeros de adição e condensação . . . . . . . 2
2.2 Os copolímeros e materiais compósitos . . . . . . 2 Aço inoxidável acima de 12% de cromo em ferro
2.3 As propriedades físicas dos polímeros . . . . . . . 3
3 Os materiais para novas tecnologias 4
3.1 A condução eletrônica nos sólidos . . . . . . . . . 4 baixa do que o elemento puro. Como o retículo está distorcido, o
3.2 Os materiais luminescentes . . . . . . . . . . . . . 5 deslizamento de planos de átomos é mais difícil de um plano em
3.3 Os materiais magnéticos . . . . . . . . . . . . . . . 6 relação ao outro. Consequentemente, uma liga substitucional é
mais forte e mais dura do que o metal puro.
O aço é uma liga homogênea baseada no ferro que contém
1 Os materiais inorgânicos até 2% em massa de carbono. Os átomos de carbono (77 pm)
são muito menores do que os átomos de ferro (124 pm) e não
podem, portanto, substituí-los no retículo cristalino. Eles são tão
Os materiais usados na tecnologia, na medicina e na construção pequenos que podem se acomodar nos interstícios, ou buracos,
são classificados grosseiramente como duros ou moles. A matéria do retículo do ferro. O material resultante é denominado liga
dura consegue resistir a forças intensas sem deformação e a ma- intersticial. Para dois elementos formarem uma liga intersticial,
téria mole reage mais prontamente à aplicação de uma força. De o raio atômico do elemento que é o soluto deve ser inferior a 60%
modo geral, a matéria dura é inorgânica e a mole é tipicamente do raio atômico do elemento hospedeiro. Os átomos intersticiais
orgânica. interferem na condutividade elétrica e no movimento dos átomos
que formam o retículo. Esse movimento restrito torna a liga mais
1.1 As ligas dura e mais forte do que o metal hospedeiro puro.
Uma das ligas mais antigas é o bronze. A fusão do cobre ocorre
As ligas são criadas misturando dois ou mais metais fundidos e em uma temperatura muito elevada (1083 ◦ C), logo, é muito difícil
permitindo que esfriem. A Tabela 1 lista algumas ligas comuns. de trabalhar em fornos de carvão. O estanho funde em tempe-
Suas propriedades dependem de sua composição, de sua estrutura ratura baixa (232 ◦ C), logo, não pode ser usado na fabricação de
cristalina, e do tamanho e da textura dos grãos que as formam. panelas. Ambos os metais são muito macios e, portanto, não
Em uma liga homogênea, os átomos dos elementos usados se fazem boas ferramentas. O bronze, porém, funde em uma tem-
distribuem uniformemente, como ocorre em compostos. São peratura intermediária, entre os pontos de fusão do cobre e do
exemplos o latão, o bronze e as ligas usadas em cunhagem. Uma estanho e, quanto maior for a proporção do cobre, maior é a tem-
liga heterogênea é formada por misturas de fases cristalinas com peratura de fusão. Além disso, o bronze é muito mais resistente
composições diferentes. São exemplos a solda estanho-chumbo do que o cobre e o estanho e mais resistente à corrosão do que os
e o amálgama de mercúrio-prata que era usado pelos dentistas. dois metais puros.
Diferentemente dos metais puros, que têm pontos de fusão dis- O bronze é uma liga substitucional homogênea de cobre e zinco
tintos, as ligas normalmente fundem e solidificam ao longo de que possui boa resistência à corrosão. A percentagem de zinco
um intervalo de temperaturas. no latão varia, mas em geral fica em torno de 30%. O estanho,
Uma liga na qual os átomos de um metal substituem os de outro o arsênio e o antimônio podem ser adicionados ao bronze para
é denominada liga substitucional. Os raios atômicos dos elemen- melhorar a resistência à corrosão, ao passo que o ferro aumenta a
tos que podem formar ligas substitucionais não diferem em mais dureza.
de 15%. Um exemplo é a liga de cobre e zinco usada em moedas O bismuto e o cádmio formam uma liga heterogênea. Quando
de cobre. Como o tamanho dos átomos de zinco é muito seme- uma mistura fundida de bismuto e cádmio solidifica, o sólido
lhante ao dos átomos de cobre (seus raios são 133 pm e 128 pm, torna-se uma mistura de pequenos cristais de bismuto puro e de
respectivamente), os átomos de zinco podem substituir alguns cádmio puro. Quando uma mistura fundida, rica em bismuto, es-
átomos de cobre no cristal. Em função das pequenas diferenças de fria, o bismuto se deposita e a composição do líquido restante se
tamanho e estrutura eletrônica, os átomos menos abundantes em modifica, ficando mais rica em cádmio. Quando uma mistura fun-
uma liga substitucional distorcem a forma do retículo dos átomos dida, rica em cádmio, esfria, o cádmio se deposita e a composição
mais abundantes do metal hospedeiro, dificultando o fluxo de do líquido restante fica rica em bismuto. Devido às composições
elétrons e o espalhamento do movimento térmico. Portanto, uma que mudam, a liga funde e solidifica em uma faixa de tempera-
mistura substitucional tem condutividade térmica e elétrica mais turas. Contudo, existe uma composição na qual toda a amostra
⋆
Contato: [Link]@[Link], (21) 99848-4949 congela e funde em uma única temperatura fixa, que é inferior
Materiais | Gabriel Braun, 2023 2
ao ponto de fusão dos metais puros. Uma mistura que se com- Embora os polímeros possam ser grandes e complexos, suas pro-
porta desse jeito é chamada de eutético (das palavras gregas para priedades podem ser entendidas quando os grupos funcionais que
facilmente fundido). contêm são conhecidos.
Os polímeros são feitos por dois tipos principais de reações,
As ligas de metais tendem a ser mais resistentes e ter menor con- as reações de adição e as reações de condensação. O tipo de
dutividade elétrica do que o metal puro. Nas ligas substitucionais,
reação que ocorre depende dos grupos funcionais existentes nos
os átomos do metal soluto substituem alguns átomos de um metal
de raio atômico semelhante. Nas ligas intersticiais, os átomos do
materiais de partida. Muitos desses materiais vêm do petróleo,
elemento soluto entram nos interstícios do retículo formado por mas alguns polímeros são feitos a partir de produtos agrícolas
átomos do metal que tem o maior raio atômico. como o milho e a soja
2.1 Os polímeros de adição e condensação
1.2 O carbonato de cálcio, o cimento e o concreto Os alquenos podem reagir entre si para formar longas cadeias,
Os compostos iônicos de cálcio são frequentemente utilizados em um processo chamado polimerização por adição. Por exem-
como materiais estruturais em organismos, em edifícios e na plo, uma molécula de eteno pode ligar-se a outra molécula de
engenharia civil, devido à rigidez de suas estruturas. Essa rigidez eteno, outra molécula de eteno pode juntar-se à nova molécula e
vem da força com que o cátion Ca21, pequeno e de alta carga, assim por diante, formando uma longa cadeia de hidrocarboneto.
interage com seus vizinhos. Como o íon carbonato também tem O alqueno original, neste caso o eteno, é chamado de monô-
carga dois, o carbonato de cálcio, CaCO3 tem uma energia de rede mero. Cada monômero torna-se uma unidade repetitiva, isto é,
relativamente alta (Tópico 1E). É por isso que um dos materiais a estrutura que se repete muitas vezes para produzir a cadeia do
de construção mais antigos foi o calcário, uma forma impura de polímero. O produto, uma cadeia de unidades repetitivas ligadas
carbonato de cálcio, que toma sua cor amarelada de impurezas por covalência, é o polímero. O polímero de adição mais simples
como os íons Fe2+ . Em sua forma comprimida e dura, temos o é o polietileno, −(CH2 CH2 )n − feito pela polimerização do eteno
mármore e, em sua forma menos compacta, temos o giz. e formado por longas cadeias de unidades repetitivas −CH2 CH2 −.
A indústria de plásticos desenvolveu polímeros a partir de mui-
As duas formas mais comuns de carbonato de cálcio cristalino
tos monômeros de fórmula CHX−CH2 , em que X é um átomo
são a calcita e a aragonita. Embora a aragonita seja mais dura e
(como o Cl no cloreto de vinila, CHCl−CH2 ) ou um grupo de áto-
densa do que a calcita, ela é menos abundante e menos estável.
mos (como o CH3 no propeno). Esses etenos substituídos dão polí-
Além disso, ela se converte em calcita em temperaturas elevadas.
meros de fórmula −(CHXCH2 )n − e incluem o cloreto de polivinila
A natureza fez uso intensivo da capacidade do cálcio em formar
(PVC), −(CHClCH2 )n − e o polipropileno, −(CH(CH3 )CH2 )n −.
estruturas rígidas. Ele é encontrado na forma de carbonato de
Eles diferem em aparência, rigidez, transparência e resistência às
cálcio nas conchas dos moluscos e de fosfato de cálcio nos ossos.
intempéries.
Na verdade, grandes depósitos de calcário provêm de conchas e
Nos polímeros por condensação, os monômeros ligam-se
micro-organismos que se acumularam no leito dos oceanos há
por reações de condensação, como as usadas para formar ésteres
milhões de anos. As conchas e os ossos são muito mais resistentes
ou amidas. Os polímeros formados pela ligação de monômeros
do que os sais de cálcio puros porque têm a estrutura de um com-
que têm grupos ácidos carboxílicos com os que têm grupos álcool
pósito, com carbonatos ou fosfatos incrustados em uma matriz
são chamados de poliésteres. Os polímeros desse tipo são muito
resistente.
usados na fabricação de fibras artificiais. Um poliéster típico é o
Os tijolos usados na construção civil normalmente são unidos
PET, um polímero produzido pela esterificação do ácido tereftá-
por aglomerantes chamados de argamassas. A argamassa de ci-
lico com etilenoglicol (1,2-etanodiol, HOCH2 CH2 OH). Seu nome
mento Portland é formada por cerca de uma parte de cimento e
técnico é poli(tereftalato de etileno).
três partes de areia (principalmente sílica, SiO2 ). Contendo ci-
A polimerização por condensação de aminas com ácidos car-
mento Portland, cal (hidróxido de cálcio) e areia, a argamassa
boxílicos leva às poliamidas, substâncias mais comumente co-
de cal tem cura rápida. Ela se transforma em uma massa dura
nhecidas como náilons. Uma poliamida comum é o náilon-66,
quando a cal reage com o dióxido de carbono do ar para formar
que é um polímero de 1,6-diamino-hexano, H2 N(CH2 )6 NH2 , e
o carbonato. O concreto também é muito usado na construção
ácido adípico, HOOC(CH2 )4 COOH. O 66 do nome corresponde ao
de pisos e paredes. Sua formulação inclui um aglomerante (que
número de átomos de carbono dos dois monômeros.
costuma ser um cimento, em geral o Portland) e um aglomerado
(rocha triturada). Os alquenos sofrem polimerização por adição. Os polímeros de
condensação normalmente são produzidos por condensação de
Os compostos de cálcio são materiais comuns de construção por- um ácido carboxílico com um álcool para formar um poliéster ou
que o íon Ca2+ , pequeno e rígido, forma estruturas rígidas. O com uma amina para formar uma poliamida.
cimento Portland se forma quando uma mistura de calcário, ar-
gila e outras substâncias é aquecida em alta temperatura. Ela
endurece quando se adiciona água, formando um retículo de hi- 2.2 Os copolímeros e materiais compósitos
dratos.
Os copolímeros são polímeros formados por mais de um tipo
de unidade repetitiva. Um exemplo é o náilon-66, no qual as
unidades repetitivas são o 1,6-diamino-hexano, H2 N(CH2 )6 NH2 , e
2 Os materiais poliméricos o ácido adípico, HOOC(CH2 )4 COOH. Eles formam um copolímero
alternado, no qual os monômeros ácido e amina se alternam.
Em um copolímero em bloco, um longo segmento, no qual
As cadeias de átomos de carbono dos compostos orgânicos podem a unidade repetitiva é um dos monômeros, é seguido por um
chegar a ter comprimentos muito grandes formando macromolé- segmento que só contém o outro monômero. Um exemplo é o
culas, moléculas que contêm centenas e, às vezes, milhares de áto- copolímero em bloco formado pelo estireno e o butadieno. O
mos. Os polímeros, como o propileno e o politetrafluoroetileno poliestireno puro é um material transparente e quebradiço, isto é,
(comercializado como Teflon), são compostos macromoleculares que se parte facilmente. O polibutadieno é uma borracha sintética
formados por cadeias ou redes de pequenas unidades repetidas. muito resistente, porém mole. Um dos copolímeros em bloco dos
Materiais | Gabriel Braun, 2023 3
dois monômeros é o poliestireno de alto impacto, um material Os arranjos de empacotamento das cadeias que aumentam o
durável e resistente, e um plástico transparente. Uma formulação contato intermolecular resultam em maior resistência, bem como
diferente dos dois polímeros produz a borracha estireno-butadieno maior densidade. Cadeias longas sem ramificações podem se
(SBR), que é usada principalmente em pneus de automóveis e alinhar umas às outras, como espaguete cru, e formar regiões
calçados para corrida, e, também, nas gomas de mascar. cristalinas que aumentam as interações e resultam em materi-
Em um copolímero aleatório, monômeros diferentes ligam-se ais fortes e densos. Cadeias poliméricas ramificadas não podem
sem nenhuma ordem em particular. Um copolímero graftizado é se acomodar tão bem e formam materiais mais fracos e menos
formado por cadeias longas de um monômero com cadeias laterais densos. Uma armadura flexível e leve foi desenvolvida usando
formadas pelo outro monômero. Por exemplo, o polímero usado conjuntos de fibras de polietileno longas, alinhadas na mesma
para fazer lentes de contato rígidas é um hidrocarboneto apolar direção e muito próximas, e sujeitas a forças intermoleculares
que repele água. O polímero usado para fazer lentes de contato muito fortes. Essa armadura é cerca de 15 vezes mais resistente
moles é um copolímero graftizado com cadeias de monômeros do que o aço, mas é tão pouco densa que flutua em água. Ela é
apolares e cadeias laterais de um monômero que absorve a água. macia e flexível, logo é de uso confortável.
As cadeias laterais absorvem tanta água que 50% do volume da A elasticidade de um polímero é sua capacidade de voltar à
lente de contato é água, o que torna as lentes flexíveis, macias e forma original após ser esticado. A borracha natural tem cadeias
mais confortáveis do que as lentes de contato rígidas. longas com baixa elasticidade e é facilmente amolecida por aque-
Um material compósito consiste em duas ou mais substân- cimento. No entanto, a vulcanização da borracha aumenta sua
cias combinadas em um material homogêneo, sem perderem suas elasticidade. Na vulcanização, a borracha é aquecida com enxo-
características individuais. As conchas do mar são formadas por fre. Os átomos de enxofre formam ligações cruzadas entre as
compósitos naturais que devem sua resistência a uma matriz or- cadeias de poliisopreno e produzem uma rede tridimensional de
gânica rígida e sua dureza aos cristais de carbonato de cálcio átomos. Como as cadeias estão ligadas, a borracha vulcanizada
incorporados na matriz. Alguns compósitos leves, como o compó- não amolece tanto quanto a borracha natural quando a tempera-
sito de grafita usado em raquetes de tênis nos quais as fibras do tura aumenta. Ela é também muito mais resistente à deformação
material estão incorporadas em uma matriz polimérica, podem quando esticada, porque as ligações cruzadas puxam-na de volta.
ter uma razão resistência densidade três vezes maior do que a Materiais poliméricos que voltam à forma original após o esti-
do aço. Um material compósito contendo flocos cerâmicos em ramento são chamados de elastômeros. No entanto, quando o
um polímero ácido poliláctico é usado como solda rápida para número de ligações cruzadas aumenta muito, forma-se uma rede
ossos fraturados. O material é injetado em forma de pasta no osso rígida que resiste ao estiramento. Por exemplo, altas concentra-
fraturado, onde ele solidifica na temperatura do corpo, formando ções de enxofre levam a um grande número de ligações cruzadas
uma estrutura que atua como tecido ósseo e promove a solda, com e ao material duro chamado ebonite, que é usado na fabricação
a formação de novas células ósseas na região adjacente. de canetas-tinteiro e bolas de boliche.
Os plásticos podem ser distinguidos por sua reação ao calor. Um
Os copolímeros e compósitos combinam as vantagens de mais de
um material componente. polímero termoplástico pode ser amolecido novamente após ter
sido moldado. Um polímero termorrígido adquire uma forma
permanente no molde e não amolece sob aquecimento. Muitos
2.3 As propriedades físicas dos polímeros materiais termoplásticos são feitos por polimerização por adição
e podem ser reciclados por fusão e reprocessamento. Exemplos
Um polímero pode ser projetado para ter as propriedades ne- são o polietileno e o tereftalato de polietileno. Plásticos termorrí-
cessárias para uma aplicação. O primeiro aspecto a considerar gidos são usados quando a resistência ao calor é importante. Por
é o comprimento da cadeia. Como as moléculas dos polímeros exemplo, a borracha vulcanizada de pneus e a espuma de ureia-
sintéticos têm comprimentos diferentes, eles não têm massas formaldeído usada na produção de compensados são plásticos
moleculares definidas. Você pode falar apenas da massa mole- termorrígidos.
cular média e do comprimento médio da cadeia de um polímero. Os silicones são materiais poliméricos sintéticos baseados no
Os polímeros também não têm pontos de fusão definidos. Eles silício e não no carbono. Eles são formados por longas cadeias
amolecem gradualmente à medida que a temperatura aumenta. −O−Si−O−Si− com as duas posições restantes dos átomos de Si
A viscosidade de um polímero, isto é, sua capacidade de fluir ligadas a grupos orgânicos, como o grupo metila, CH3 . Os silico-
quando fundido (Tópico 1F), depende do comprimento da cadeia. nes são usados para impermeabilizar tecidos porque os átomos
Quanto mais longas são as cadeias, mais emaranhadas elas estão, de oxigênio ligam-se ao tecido, deixando os grupos metila, hi-
e o fluxo torna-se mais lento. drofóbicos (repelem água), para fora da superfície do tecido. Os
A resistência mecânica de um polímero aumenta quando as silicones são materiais flexíveis que têm aplicações variadas em
interações entre as cadeias aumentam. Portanto, quanto maio- medicina, como implantes e liberação de fármacos no organismo.
res forem as cadeias, maior será a resistência mecânica de um Eles são também usados nas indústrias aeroespacial e eletrônica
polímero. Quanto mais fortes forem as forças intermoleculares como adesivos e isolantes resistentes ao calor.
para cadeias de mesmo tamanho, mais forte será a resistência Como são compostos moleculares, os polímeros normalmente
mecânica. A natureza dos grupos funcionais ligados ou que com- não conduzem eletricidade. Entretanto, os polímeros que têm
põem uma parte do esqueleto do polímero afeta a intensidade ligações duplas alternadas na cadeia podem ser usados para con-
das forças intermoleculares e contribui para a resistência me- duzir eletricidade
cânica. Por exemplo, o náilon é uma poliamidas e seus grupos Os polímeros fundem-se em uma faixa de temperaturas. Os polí-
−NH− e −CO− podem participar de ligações hidrogênio e, em meros formados por cadeias longas tendem a ter alta viscosidade.
consequência, o náilon é um polímero resistente. Ele também A resistência dos polímeros aumenta com o aumento do compri-
é higroscópico (absorve água), porque as moléculas de água são mento das cadeias e das regiões de cristalização. Os polímeros
atraídas pelos grupos polares do polímero. Em contraste, o polie- termoplásticos são recicláveis.
tileno é um hidrocarboneto que só contém ligações C−C e C−H,
que são hidrofóbicas. Em consequência, enquanto o polietileno
repele a água, a água pode penetrar os tecidos de náilon porque
as moléculas de H2 O podem migrar quando formam e quebram 3 Os materiais para novas tecnologias
ligações hidrogênio com as moléculas do polímero.
Materiais | Gabriel Braun, 2023 4
A química está na base da infraestrutura material do mundo mo-
derno. Ela permite produzir as substâncias utilizadas na miniatu-
rização dos materiais eletrônicos de chips de computador, cada
um dos quais podendo conter bilhões de componentes. O es-
tudo da química também possibilita desenvolver materiais que
geram luz e são usados para exibir informações de todos os tipos
em dispositivos compactos e eficientes no consumo de energia.
Além disso, a química permite a produção de materiais magné-
ticos usados para armazenar informações de forma compacta e
prontamente disponível.
3.1 A condução eletrônica nos sólidos
Uma corrente elétrica é o fluxo de uma carga elétrica. Na con-
dução eletrônica, a carga é levada pelos elétrons. A condução
eletrônica é o mecanismo de condução nos metais e na grafita. FIGURA 1 Em um sólido tipicamente isolante, uma banda de valência
Na condução iônica, a carga é levada por íons. Um eletrólito só- completa está separada da banda de condução vazia por uma
lido é um condutor iônico. A condução iônica é o mecanismo de diferença de energia substancial. Note a quebra na escala
condução eletrônica em um sal fundido ou uma solução de ele- vertical.
trólito. Como os íons são muito volumosos para viajar facilmente
pela maior parte dos sólidos, o fluxo de carga é, quase sempre,
resultado da condução eletrônica. Entretanto, existem eletrólitos está separada pela grande diferença de energia, os elétrons não
sólidos que permitem que os íons se movam por sua rede e, por são móveis e o sólido é um isolante.
isso, são materiais importantes usados em baterias recarregáveis. Os semicondutores revolucionaram a indústria eletrônica por-
Um isolante é uma substância que tem uma resistência muito alta que dispositivos semicondutores muito pequenos podem ser usa-
e não conduz eletricidade. dos para controlar o fluxo da corrente elétrica. Em um semicon-
Os sólidos são classificados de acordo com sua resistência elé- dutor intrínseco, uma banda de condução vazia e uma banda
trica e o modo como ela varia com a temperatura: de valência completa têm energias próximas. Em temperaturas
comuns, embora a maior parte dos elétrons esteja na banda de
• Um condutor metálico é um condutor eletrônico com uma
valência, alguns ocupam a banda de condução adjacente e são
resistência que cresce quando a temperatura aumenta.
móveis. À medida que aumenta a temperatura do sólido, aumenta
• Um semicondutor é um condutor eletrônico com uma resis- também o número de elétrons excitados da banda de valência para
tência que diminui quando a temperatura aumenta. a banda de condução. Por isso, a resistência de um semicondutor
diminui com o aumento da temperatura. Em linguagem técnica,
• Um supercondutor é um condutor eletrônico que conduz ele- todos os isolantes são, na verdade, semicondutores intrínsecos,
tricidade com resistência igual a zero, geralmente em tempera- mas a separação de bandas em um isolante é tão grande que sua
turas muito baixas. condutividade elétrica permanece muito baixa nas temperaturas
normais.
Na maior parte dos casos, um condutor metálico tem resistência
muito menor do que um semicondutor, mas é a dependência da A capacidade de um semicondutor de transportar corrente elé-
resistência em relação à temperatura que diferencia os dois tipos trica também pode ser ampliada pela adição de elétrons à banda de
de condutores, não a magnitude da condutividade. condução ou pela remoção de elétrons da banda de valência. Essa
A teoria dos orbitais moleculares explica as propriedades elé- modificação é feita quimicamente pela dopagem do sólido, isto
tricas dos condutores eletrônicos, dos semicondutores e dos iso- é, pela inclusão na estrutura de pequenas quantidades de impure-
lantes tratando-os como uma enorme molécula e supondo que zas, formando o que se conhece como semicondutor extrínseco.
seus elétrons de valência ocupam orbitais deslocalizados que se Um exemplo é a adição de uma quantidade muito pequena de um
espalham pelo sólido. Em vez dos poucos orbitais moleculares elemento do grupo 15, como o arsênio, ao silício de alta pureza.
muito separados, típicos de moléculas pequenas, os inúmeros O arsênio aumenta o número de elétrons no sólido: cada átomo
orbitais moleculares de um sólido estão tão próximos em energia de Si (Grupo 14) tem quatro elétrons de valência e cada átomo de
que eles formam uma banda quase contínua. As (Grupo 15) tem cinco. Os elétrons adicionais ocupam a banda
Uma banda vazia ou incompleta de orbitais moleculares é co- de condução do silício, normalmente vazia, permitindo que o só-
nhecida como banda de condução. Como os orbitais vizinhos dos lido conduza corrente elétrica (Figura 2). Esse tipo de material é
sólidos ficam tão próximos em energia, muito pouca energia adici- chamado de semicondutor do tipo n porque ele contém excesso
onal é necessária para excitar os elétrons dos orbitais preenchidos de elétrons de carga negativa.
superiores para os orbitais vazios da banda de condução. Com Quando o silício (Grupo 14) é dopado com índio (Grupo 13)
isso, os elétrons podem mover-se livremente pelo sólido e, assim, no lugar do arsênio, o sólido tem menos elétrons de valência do
transportar corrente elétrica. A resistência do metal aumenta que o silício puro e a banda de valência não está completamente
com a temperatura porque, quando aquecido, os átomos vibram preenchida (Fig. 3). Dizemos que a banda de valência, neste caso,
mais vigorosamente e impedem a migração de elétrons. contém buracos. Como a banda de valência não está completa,
Em um isolante, os elétrons de valência preenchem os orbitais ela funciona como uma banda de condução, permitindo o fluxo
moleculares disponíveis para dar uma banda chamada banda de da corrente elétrica. Esse tipo de semicondutor é chamado de
valência. Existe uma separação de bandas substancial, uma semicondutor do tipo p, porque a ausência de elétrons, com
faixa de energias na qual não existem orbitais, antes que a banda carga negativa, equivale à presença de buracos com carga positiva.
de condução, composta por orbitais vazios, comece (Figura 1). Os Dispositivos eletrônicos de estado sólido, como diodos, tran-
elétrons da banda de valência podem ser excitados até a banda sistores e circuitos integrados, contêm junções p-n, nas quais um
de condução somente se uma grande quantidade de energia for semicondutor do tipo p está em contato com um semicondutor
usada. Como a banda de valência está cheia e a banda de condução do tipo n (Figura 4 e 5). A estrutura de uma junção p-n permite
Materiais | Gabriel Braun, 2023 5
FIGURA 4 A estrutura de uma junção p-n permite o fluxo da corrente
elétrica somente em uma direção. Na direção inversa, o ele-
FIGURA 2 Em um semicondutor do tipo n, os elétrons adicionais forne-
trodo negativo está acoplado ao semicondutor do tipo p. Não
cidos pelos átomos dopantes, ricos em elétrons, entram na
há fluxo de corrente.
banda de condução (formando a banda em verde na parte
inferior da banda de condução) onde podem agir como trans-
portadores de corrente.
FIGURA 5 A estrutura de uma junção p-n permite o fluxo da corrente elé-
trica somente em uma direção. Na direção direta, os eletrodos
estão invertidos para permitir a regeneração dos transporta-
dores de carga.
FIGURA 3 Em um semicondutor do tipo p, os átomos dopantes, pobres
em elétrons, removem com eficiência alguns elétrons da banda
de valência e os buracos formados (a banda em azul no alto da peróxido de hidrogênio reage com cloro, o O2 formado pela oxida-
banda de valência) tornam móveis os elétrons remanescentes ção de H2 O2 é produzido em estados energeticamente excitados
e permitem a condução de eletricidade pela banda de valência. e emite luz quando volta ao estado fundamental. Esse processo é
um exemplo de quimioluminescência, a emissão de luz por pro-
dutos que se formam em estados energeticamente excitados em
que a corrente flua em uma só direção. Quando o eletrodo que
uma reação química. Os bastões de luz usados para a iluminação
está ligado ao semicondutor do tipo p tem carga negativa, os bu-
de emergência brilham com a luz de um processo quimiolumines-
racos do semicondutor do tipo p são atraídos a ele, os elétrons do
cente. A bioluminescência é uma forma de quimioluminescência
semicondutor tipo n são atraídos para o outro eletrodo (positivo)
produzida por organismos vivos. Por exemplo, a enzima lucife-
e a corrente não flui.
rase catalisa a oxidação da luciferina em vaga-lumes e algumas
Quando a polaridade é invertida, com o eletrodo negativo ligado bactérias, produzindo oxiluciferina em um estado excitado.
ao semicondutor do tipo n, os elétrons fluem desse semicondutor A fluorescência e a fosforescência são a emissão de luz por
através do semicondutor do tipo p para o eletrodo positivo. moléculas excitadas por radiação de alta frequência, como a luz
A ligação nos sólidos pode ser descrita em termos de bandas de visível emitida quando uma substância é iluminada com radiação
orbitais moleculares. Nos metais, as bandas de condução são ultravioleta. A fluorescência dura apenas alguns nanossegundos
formadas por orbitais não completamente preenchidos que per- depois que cessa a iluminação. Na fosforescência, a iluminação
mitem o fluxo de elétrons. Nos isolantes, as bandas de valência persiste, às vezes por segundos ou muito mais, como no caso
estão completas e a grande separação de bandas impede a passa- do elemento fósforo, do qual o fenômeno recebe o seu nome. A
gem dos elétrons para os orbitais vazios. Nos semicondutores, os diferença crucial no mecanismo é que a fluorescência retém a ori-
níveis vazios estão próximos em energia dos níveis completos. entação do spin do elétron excitado, enquanto na fosforescência
o elétron torna-se desemparelhado e leva algum tempo até que o
spin se inverta novamente.
3.2 Os materiais luminescentes Os materiais fluorescentes são muito importantes na indústria
eletrônica em que tubos finos de luz fluorescente do tamanho
Incandescência é a luz emitida por um corpo aquecido, como o de um lápis são usados para fornecer a luz de fundo para os dis-
filamento de uma lâmpada ou as partículas de fuligem aquecidas positivos LCD em computadores portáteis e televisores de tela
da chama de uma vela. Luminescência é a emissão de luz por plana. A radiação ultravioleta gerada no tubo excita o material
um processo diferente da incandescência. Por exemplo, quando o fluorescente que recobre a superfície interior do tubo e ilumina a
Materiais | Gabriel Braun, 2023 6
tela. Como os materiais fluorescentes podem ser ativados por ra- usam muito menos energia do que as lâmpadas incandescentes e
dioatividade, eles também são usados em detectores de cintilação são muito mais duradouros.
para medir a radiação.
Os materiais luminescentes liberam energia na forma de luz
Os tubos de raios catódicos muito usados no passado na produ- quando retornam dos estados excitados para estados de menor
ção de televisores e monitores de computador e as telas de plasma energia.
que (ao lado dos monitores de cristal líquido) os substituíram
utilizam fósforos, materiais fluorescentes que brilham quando
excitados pelo impacto de elétrons ou radiação ultravioleta. 3.3 Os materiais magnéticos
Em um diodo emissor de luz, também conhecido pela sigla em
inglês LED (light emitting diode), um material luminescente gera O paramagnetismo é a tendência que uma substância tem de
luz quando uma corrente elétrica é aplicada a uma junção p-n ser atraída por um campo magnético. A propriedade é uma con-
(Figuras 6 e 7). sequência da presença no átomo ou na molécula de pelo menos
um elétron desemparelhado que se alinha com o campo aplicado.
Entretanto, como os spins de átomos ou moléculas vizinhos se
alinham quase que ao acaso, o paramagnetismo é muito fraco e o
alinhamento dos elétrons se perde quando o campo magnético é
removido. No caso de alguns metais d, porém, os elétrons desem-
parelhados de muitos átomos vizinhos podem se alinhar uns aos
outros sob a ação de um campo magnético, o que produz o efeito
muito mais forte do ferromagnetismo. As regiões dos spins ali-
nhados, chamadas de domínios, sobrevivem mesmo depois que
o campo magnético foi retirado.
O ferromagnetismo é muito mais forte do que o paramagne-
tismo, assim, os materiais ferromagnéticos são usados na fabri-
cação de ímãs permanentes e no revestimento de discos rígidos
de computador. As cabeças eletromagnéticas de gravação ali-
nham grande número de spins quando o disco passa por elas e
FIGURA 6 Uma junção p-n sem reversão.
o alinhamento dos spins nos domínios permanece por anos. Em
um material antiferromagnético, spins vizinhos são presos em
O circuito ligado a um LED é disposto de forma que os elétrons um arranjo antiparalelo, de forma que o momento magnético
da fonte fluem para o interior da banda de condução do lado n e é cancelado. O manganês é antiferromagnético. Em um mate-
são forçados para a banda de condução do lado p. Assim que os rial ferrimagnético, os spins dos átomos vizinhos são diferentes
elétrons estão na banda de alta energia do lado p, eles voltam para e, embora eles estejam presos em um arranjo antiparalelo, os
a banda de menor energia e emitem a diferença de energia como dois momentos magnéticos não se cancelam completamente. O
luz. Os compostos usados para produzir luzes de cores diferentes ferromagnetismo também ocorre em ligas como alnico e alguns
variam, mas usa-se comumente arseneto de alumínio e gálio compostos de metais d, como óxidos de ferro e cromo.
para LEDs vermelhos, nitreto de gálio e índio para LEDs verdes e Os ferrofluidos são líquidos ferromagnéticos formados por
seleneto de zinco para LEDs azuis. Quando pequenos LEDs dessas suspensões de magnetita finamente pulverizada, Fe3 O4 , em um
três cores são agrupados em uma tela, pode-se gerar qualquer cor líquido oleoso (como óleo mineral) contendo um sabão ou deter-
dependendo de quais das três cores são ativadas. LEDs brancos gente. As partículas de óxido de ferro não se depositam, porque
normalmente são formados a partir de LEDs amarelos e azuis elas são atraídas pela extremidade polar das moléculas do deter-
misturados em proporções diversas. gente, que formam aglomerados compactos (um tipo de micela)
em volta das partículas. As pontas não polares das moléculas
de detergente apontam para fora, o que permite que as micelas
formem uma suspensão coloidal no óleo. Quando um ímã se apro-
xima de um fluido de ferro, as partículas que estão no líquido
tentam alinhar-se com o campo magnético, mas são mantidas no
lugar pelo óleo. Como resultado, é possível controlar o fluxo e a
posição do fluido de ferro pela aplicação de um campo magnético.
Uma das aplicações dos fluidos de ferro é no sistema de freio de
aparelhos de ginástica. Quanto mais forte for o campo magnético,
maior será a resistência ao movimento.
Os materiais magnéticos podem ser paramagnéticos, ferrimag-
néticos, ferromagnéticos ou antiferromagnéticos. Nos materiais
ferromagnéticos, grandes domínios de elétrons estão aprisionados
na mesma orientação.
FIGURA 7 Uma junção p-n com reversão, resultando na emissão de luz à
medida que os elétrons que entram migram para a banda de
condução do semicondutor tipo p e caem nas vacâncias de sua
banda de valência.
Os diodos orgânicos emissores de luz (OLED) usam um filme de
polímero orgânico que conduz eletricidade para gerar luz de cores
diferentes. Embora os dispositivos LCD, que usam cristais líquidos
(Tópico 1G), sejam mais comuns, os monitores LED não exigem
iluminação de fundo e, portanto, podem ser muito mais finos.
Os LEDs estão sendo introduzidos em muitas aplicações, porque