Filogenia e Taxonomia: Relações Evolutivas
Filogenia e Taxonomia: Relações Evolutivas
Reconstruções
Filogenéticas
Prof. Fabrício R Santos
O sistema de classificação das espécies segue uma hierarquia A Sistemática Filogenética conecta a
de categorias crescentes que formalizam o agrupamento de
diversidade biológica à história evolutiva
organismos, o qual deve ser feito a partir do reconhecimento
da história de ancestralidade comum das espécies.
Filogenia = A história evolutiva de uma espécie ou grupo de espécies
A nomenclatura binomial da espécie é a primeira relacionadas.
etapa no agrupamento: espécies derivadas do
Filogenia é geralmente representada como árvores filogenéticas
mesmo ancestral comum imediato são geralmente
que traçam relacionamentos evolutivos inferidos, revelando a
agrupadas no mesmo gênero.
história de ancestralidade comum entre espécies.
As demais categorias são mais amplas, isto é,
agrupam táxons de acordo com ancestrais comuns Sistemática = O estudo e classificação da diversidade biológica em um
mais e mais antigos: contexto evolutivo.
• Gêneros são agrupados em uma Família, pois A diversidade biológica reflete episódios passados de especiação
compartilham um ancestral comum recente. e macroevolução.
• Famílias são agrupadas em Ordens, que se
Taxonomia = Identificação , nomeação e classificação de espécies; é um
agrupam em Classes, que são agrupadas em Filos,
que se agrupam em Reinos e um dos 3 Domínios.
componente da sistemática.
1
Organismos podem ser
Que são árvores?
representados em um
diagrama (árvore) que
ilustra seus
relacionamentos
evolutivos.
Usando dados
morfológicos e
moleculares, podemos
estimar os ancestrais
comuns inferidos pelos
pontos de divergência
nas árvores
filogenéticas. Charles Darwin (1837)
Anotações sobre padrões de especiação nos Tentilhões de Galápagos
Árvore Filogenética
n1 OTU 1 Topologias equivalentes
n2
OTU 2
n3
OTU 3
n4
OTU 4
n5
raiz OTU 5
OTU 6
No de diferenças
8 7 6 5 4 3 2 1
antiga recente
tempo
n nó interno - ~ ancestral comum do passado
OTU unidade taxonômica operacional - populações, espécies ou grupos
2
Grou
Árvores reticuladas
3
Árvores filogenéticas baseadas em sistemática
Dois métodos, comparação de proteínas do sangue e hibridização DNA-DNA, foram Antiga controvérsia sobre afinidades entre
usados para construir esta árvore de espécies de ursos e procionídeos.
focas, leões marinhos e morsas
4
Archaea Árvores nos informam sobre processos recentes de
Eucariotos
diversificação de populações e espécies
Riquétsias
Grupos irmãos de
ciclídeos do
Lago Tanganika na
Mitocôndrias
África oriental
Nature, 1998
Árvore MP C0I (E. Michel, 1999)
outras bactérias
paciente D-x
paciente D-y
paciente B-x
paciente B-y
paciente A-x
paciente C-x
paciente C-y
paciente A-y
paciente E-y
paciente E-x
paciente F-x
paciente F-y
Dentista X
Dentista-y
LC02-x
LC03-x
LC02-y
LC03-y
HIVLI
africano
amazônico
5
Árvore NJ COI em
Thamnophilidae
B0665
99
D. ochropyga
Termos filogenéticos
B0663
B0655
99 B0653
B0654 D. ferruginea
B0656
99 B0369
B0367 R. ardesiaca
B0368
99 B0609
D. squamata
B0317
B0647
• Homologia
99 B0329
B0326
P. leucoptera
B0335
99
B0658
B0644
B0657
M. loricata • Analogia
99 B0677
B0678 T. major
• Convergência, Reversão
B0646
B0291
99
B0292
B0290
D. plumbeus
99 B0680
B0643 F. serrana
B0660
99 B0281
B0285 D. mentalis • Plesiomorfia – estado ancestral – “0”
(Simplesiomorfia)
99 B1189
B1301 H. atricapillus
B1188
B1296
99
B1186 S. cristatus
B1303
90
99 B0525
B0524
99 B0515
T. doliatus • Apomorfia – estado derivado – “1”
T. caerulescens
(Autapomorfia - Sinapomorfia)
99 B0511
90 B0513
82 B0528
99 B0535
91 B0562 T. ambiguus
99 B1148
B1147
B1150
T. pelzelni
Vilaça et al. 2006
Analogia
Homologia:
um caráter (ancestral ou derivado) compartilhado
entre duas ou mais espécies, o qual estava presente Espécies: 1 2 3 4
no ancestral comum destas. Estado do caráter:
Analogia:
caráter “compartilhado”, geralmente não-presente
no ancestral comum (i.e., o caráter evolui duas
vezes, independentemente): evolução convergente
(ou paralela) e reversão ao estado ancestral. A este estado ancestral
caráter recorrente damos o nome de Homoplasia.
Nas spp. 1 e 3 há uma analogia (caráter análogo) ou homoplasia;
Origem independente – evolução paralela ou convergente .
Espécies: 1 2 3 4 Espécies: 1 2 3 4
Estado do caráter: Estado do caráter:
Nas spp. 1, 3 e 4 há uma homologia ancestral (simplesiomorfia); Nas spp. 1 e 2 aparece um caráter homólogo derivado
é ancestral porque está presente na base da árvore, no (sinapomorfia). Aconteceu uma transição do estado “basal” ou
ancestral comum de todas 4 spp atuais. primitivo no ancestral imediato destas duas spp ou OTUs.
6
Origem das Homoplasias Evolução Convergente = Aquisição de características
similares em espécies de diferentes linhas evolutivas,
Convergência: origem independente do devido ao compartilhamento de nichos ecológicos
caráter (i.e., duas linhagens fixam similares, sendo a seleção natural responsável por
paralelamente um “fenótipo” similar). moldar adaptações análogas.
Exemplos:
asas de pássaros e morcegos
Reversão: origem e subseqüente perda, ou bicos de aves e monotremados
mutação “de volta” ao caráter ancestral (i.e.,
reversão ao estado plesiomórfico). Evolução convergente também se dá no nível
molecular: sequências de DNA e proteínas podem
sofrer mudanças paralelas, reversões, etc
Evolução
Convergente e
Seleção Natural Um grupo monofilético:
Similaridades aparentes
é um grupo de táxons que inclui o
entre marsupiais ancestral comum e todos seus
australianos e mamíferos
placentários em outros descendentes
continentes.
Estas espécies ocupam
nichos parecidos nos
diferentes continentes.
Famílias monofiléticas
Exemplo de grupo Hyllobatidae Pongidae Hominidae
não-monofilético: Répteis
Peixes Anfíbios Tartarugas Mamíferos Lagartos Cobras Crocodilos Aves
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Famílias parafiléticas
Hyllobatidae Pongidae Hominidae
Abordagens filogenéticas
Fenética
(Taxonomia numérica)
MÉTODOS FENÉTICOS
Fenética
Análise de vários Matriz de Construção
• Abordagem Clássica (desde Linnaeus). caracteres dissimilaridade de árvore
(fenótipos, sítios polimórficos em base ao número filogenética
• Agrupa espécies baseada na similaridade de DNA, freq. alélicas, etc.) de diferenças
fenotípica (ou genotípica). A B C A B C Fenograma
A 0 A
• Usa todas características distinguíveis.
B 3 0 B
• Ex: métodos baseados em distâncias C 7 6 0 C
(UPGMA) Relações de
similaridade
Cladística Cladística
• Baseia-se no padrão de ancestralidade comum e
• A Teoria Evolutiva postula que grupos de
modificação das espécies e não em mera
organismos relacionados descendem de um
similaridade.
ancestral comum.
• Deve usar apenas caracteres derivados
• Sistemática Filogenética (Cladística) é um método
(apomórficos) compartilhados (sinapomórficos ou
de classificação taxonômica baseado na história
homólogos derivados).
evolutiva.
• Portanto, objetiva traçar a história evolutiva real, o
Foi desenvolvido em 1950 por padrão de descendência com modificação.
Willi Hennig, um entomologista
• Ex: métodos baseados em caracteres (parcimônia).
alemão.
8
MÉTODOS CLADÍSTICOS
Caracteres utilizados
Construção
Análise de vários caracteres
com estados ancestrais (0) e de árvore filogenética
derivados (1) Analogias Homologias Homologias
Cladograma Ancestrais Derivadas
1
A B C D E 2 3
E
1
2 4 D
3
4 5 6 C Fenética Sim Sim Sim
5
6 B
7
7 8
8 A
Relações de Cladística Não Não Sim
ancestralidade comum
9
O objetivo da inferência filogenética é resolver a ordem de
Análise Filogenética ramificação das linhagens nas árvores evolutivas:
Tempo
pode-se determinar (ou inferir) o
relacionamento ancestral dentre as D B B
espécies.
E D D
Há 3 possíveis árvores sem raiz para O número de árvores sem raiz aumenta
4 táxons (A, B, C, D) exponencialmente com o número de táxons
A B
árvore 1 árvore 2 árvore 3 # táxons # árvores sem raiz
A C A B A B C A C 3 1
4 3
5 15
B D 6 105
7 945
B D C D D C C D 8 10,935
A
9 135,135
10 2,027,025
Métodos de reconstrução (ou inferência) filogenética objetivam B E . .
descobrir qual das árvores é a “mais provável". . .
A C D . .
Espera-se que esta seja a “verdadeira” árvore biológica — aquela que . . 36
seguramente represente a história evolutiva dos táxons analisados – 30 -3,58 x 10
mas esta é formalmente chamada de árvore inferida a partir dos B F E
dados, cuja confiança pode ser testada por diferentes métodos.
Raiz D
D
árvore sem raiz
A
A Note que nesta árvore
A
A C
enraizada, o táxon A não
B D B
C D árvore enraizada
está mais estreitamente
relacionado ao táxon B Note que nesta árvore
árvore enraizada
enraizada, táxon A é mais
Raiz em relação a C ou D
raiz
estreitamente relacionado ao
como sugerido acima. táxon B, enquanto o C é mais
relacionado ao D.
10
Uma árvore sem raiz de 4 táxons pode ser enraizada em cinco lugares
distintos para produzir cinco árvores enraizadas diferentes Cada árvore sem raiz pode teoricamente ser enraizada
em qualquer lugar ao longo de qualquer de seus ramos
2 4
A C A C
1 5
árvore sem raiz: # táxons # árvores x # árvores
sem raiz # raízes = com raiz
B 3 D B D 3 1 3 3
4 3 5 15
C 5 15 7 105
árvore c/raiz árvore c/raiz árvore c/raiz árvore c/raiz árvore c/raiz
A D 6 105 9 945
1 2 3 4 5 7 945 11 10.395
B A A C D 8 10.395 13 135.135
B E 9 135.135 15 2.027.025
A B B D C . . . .
. . . .
C C C A A A C
D . . . .
. . 36
. . 38
D D D B B 30 ~3,58x10 57 ~2,04x10
11
Variabilidade genética Freqüências alélicas
Fenotípica
Freqüência de um dos alelos em cinco locos
Morfológica bialélicos (A-E) em 3 populações (pop1, 2, 3)
Funcional
POP1 POP2 POP3
Protéica
A - 0,4 A - 0,6 A - 0,3
DNA B - 0,2 B - 0,5 B - 0,2
Macromutações C - 0,9 C - 0,8 C - 0,9
D - 0,1 D - 0,3 D - 0,2
SNP’s – mutações de ponto E - 0,2 E - 0,1 E - 0,4
Inserções de retroposons
Microssatélites Frequências alélicas servem apenas para comparações fenéticas
intra-específicas.
Analogia
SNPs em sequências de DNA
* * * ** * * * * * *
Espécies: 1 2 3 4
A aat tcg ctt cta gga atc tgc cta atc ctg
B ... ..a ..g ... .a. ... ... t.. ... ..a Estado do caráter: T C T C
C ... ..a ..c ..g ... ..t ... ... ... t.a
D ... ..a ..a ..g ..g ..t ... t.g ..t t..
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Homologia Ancestral (0) Homologia Derivada (1)
Espécies: 1 2 3 4 Espécies: 1 2 3 4
Estado do caráter: C T C C Estado do caráter: T T C C
Nas spp. 1, 3 e 4 há uma homologia ancestral (simplesiomorfia); C Nas spp. 1 e 2 possuem homólogos derivados (sinapomorfia) T
é ancestral porque está presente na raiz da árvore (ancestral (i.e., aconteceu uma transição do estado “basal” ou primitivo,
comum) como uma plesiomorfia. no ancestral comum imediato destas duas spp ou OTUs).
Tipos de Similaridade
Métodos gerais de reconstrução filogenética
Similaridade observada entre duas OTUs pode ser por:
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Tipos de dados usados em inferência filogenética
Métodos baseados em caracteres : Usam diretamente os caracteres Estima-se primeiro qual árvore sem raiz seria
alinhados, tais como sequências de DNA ou proteína a mais “correta”
táxons caracteres
espécie A ATGGCTATTCTTATAGTACG
A C
espécie B ATCGCTAGTCTTATATTACA
espécie C TTCACTAGACCTGTGGTCCA
espécie D TTGACCAGACCTGTGGTCCG
espécie E TTGACCAGTTCTCTAGTTCG
B D
Métodos baseados em distâncias: Transformam os dados em distâncias
(dissimilaridades) par-a-par, e usam a matriz durante inferência da árvore. Alguns métodos produzem a árvore já com a raiz (UPGMA),
A B C D E outros podem fornecer árvores com raiz se os dados
M espécie A ---- 0,20 0,50 0,45 0,40 Exemplo 1:
A
espécie B 0,23 ---- 0,40 0,55 0,50 Distância “p”
possuem informação suficiente (Parcimônia,
T
R espécie C 0,87 0,59 ---- 0,15 0,40 (= percentagem Verossimilhança) e todos podem se utilizar ou necessitam
observada de
I espécie D 0,73 1,12 0,17 ---- 0,25 sequências obrigatoriamente de um grupo externo para produzir uma
Z espécie E 0,59 0,89 0,61 0,31 ---- diferentes)
árvore com raiz (Neighbor Joining - NJ)
Exemplo 2: distância Kimura 2-parâmetros
(estimativa do número real de substituições entre táxons)
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Métodos de Distância Métodos de Distância
d
ij a b c d d a b c d
ij a b c d d c
a 0 a 0 b
b 0,5 0 b 0,5 0 a
c 0,75 0,25 0 c 0,75 0,25 0
d 0,5 1,0 0,75 0 d 0,5 1,0 0,75 0
d G C A A * = 1 etapa de mutação d G C A A
árvore 2 Tot
c d
árvore 1 1
a b
árvore 2
árvore 3
d árvore 3 c
15
Exemplo de Parcimônia Exemplo de Parcimônia
C a * cT 1 2 3 4 Ga cG 1 2 3 4
* a A C G A * a A C G A
árvore 1 árvore 1
Tb d C b A T G C Gb dA b A T G C
c G T G C c G T G C
* a A C G A a A C G A
árvore 1 árvore 1
Cb dA b A T G C b d b A T G C
c G T G C a b c G T G C
* = 2 etapas de mutação d G C A A d G C A A
Tot árvore 2 Tot
c d
árvore 1 1 2 1 2 6 árvore 1 1 2 1 2 6
a b
árvore 2 árvore 2 2 2 1 2 7
árvore 3 árvore 3 2 1 1 1 5
d árvore 3 c
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A análise de parcimônia
pode discriminar alguns tipos
de eventos paralelos. Máxima verossimilhança
Na figura ao lado, 4 seqüências Verossimilhança (L) é a probabilidade dos dados, dado o
alinhadas homólogas (a) de modelo de substituições nucleotídicos e uma hipótese de
distintos organismos foram topologia filogenética
utilizadas para construir uma
L = P (dados/árvore)
árvore de parcimônia (b).
Na árvore estão dispostas os
eventos de mutações Modelo evolutivo de substituições
(apomorfias), numerados de 1 Diferentes padrões de substituição nucleotídica específicos
a 8. No evento 2, o estado de cada conjunto homólogo de sequências de DNA.
alélico derivado (nucleotídio A) Transição
demonstrou ser um evento A G
paralelo, aparecendo
Transversão
independentemente na
seqüência do homem e do C T
milho
Jukes-Cantor Kimura 2P
(1 parâmetro) (2 parâmetros)
A frequência dos nucleotídios não é considerada A frequência dos nucleotídios não é considerada
Todas substituições têm a mesma taxa Transições e transversões têm diferentes taxas
b
A frequência dos nucleotídios é considerada
Transições e transversões têm diferentes taxas,
assim como os tipos de mudanças nucleotídicas
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Dados reais:
Modeltest mudanças observadas e esperadas
Incongruência
entre árvores de
genes e espécies
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Associações históricas Eventos entre gene (associado) e a
espécie (host)
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