Curso Completo de Direito Processual Civil
Tópicos abordados
Curso Completo de Direito Processual Civil
Tópicos abordados
Ministério Público
(Promotor) - Direito
Processual Civil
Autor
Prof.: Rodrigo Vaslin 26 de Junho de 2023
Estratégia Carreira Jurídica
Ministério Público (Promotor) - Direito Processual Civil - Prof.: Rodrigo Vaslin
Sumário
Apresentação do Curso ...................................................................................................................................... 4
1 - Conceito................................................................................................................................................... 12
4 - Fontes ...................................................................................................................................................... 45
4 - Princípio da Inafastabilidade da Jurisdição ou Acesso à ordem jurídica justa ou Ubiquidade ............. 112
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Ministério Público (Promotor) - Direito Processual Civil - Prof.: Rodrigo Vaslin
Resumo........................................................................................................................................................... 156
Gabarito.......................................................................................................................................................... 225
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AULA 00
INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO PROCESSUAL
CIVIL
APRESENTAÇÃO DO CURSO
Iniciamos o nosso Curso Regular de Direito Processual Civil para Ministério Público (Promotor), voltado
para englobar absolutamente TODO o conteúdo necessário para ser aprovado nesse certame que, sem
dúvida alguma, será extremamente difícil.
O presente curso de Processo Civil tem por objetivo ser o material mais completo, abarcando o conteúdo
essencial contido nos Manuais do mercado, compilando as informações necessárias e suficientes para a
aprovação em concursos públicos, envolvendo Legislação; Jurisprudência; Doutrina; Questões (provas
objetivas, discursivas e orais).
Nos últimos anos (2018 a 2022), nosso material foi muito bem recebido pelo público. Com a adesão de
milhares de alunos nos mais variados cursos, recebemos vários elogios quanto à completude e didática do
material1.
e) a depender da assinatura, VÁRIOS outros pacotes, a exemplo do estudo estratégico, trilha estratégica,
rodadas, treinamento de provas escritas, provas orais etc.
1
Podem visualizar alguns desses feedbacks no instagram @rodrigovaslin.
2
Para a compreensão integral da matéria, indico a leitura do PDF completo. Todavia, para quem já tem alguma familiaridade com
nossa matéria e queira dar uma acelerada, indico o resumo.
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Além disso, em 2023, o Estratégia vai trabalhar em ações específicas para não faltar nada a você, a exemplo
de simulados, maratonas, revisão de véspera etc.
Pois bem.
Sabemos que, com a entrada em vigor em 18/03/2016 do Código de Processo Civil (Lei n. 13.105/2015), a
tendência das bancas examinadoras é cobrar, inicialmente, as novidades legislativas implantadas por esse
novo Código (Exs: IRDR, IAC, alteração na sistemática dos honorários – art. 85, CPC etc.) e, paulatinamente,
as discussões doutrinárias e entendimentos jurisprudenciais a respeito das referidas inovações.
Esse raciocínio foi comprovado em nossas pesquisas estatísticas constantes no material “como estudar”.
A leitura das estatísticas de TODAS as Carreiras Jurídicas demonstram que a exigência da letra da lei fica
entre 60% e 70% das alternativas.
Todavia, mesmo com a ênfase inicial na lei seca, já vemos cobranças pontuais acerca da Jurisprudência, bem
como da Doutrina (Exs: permanência ou não da categoria condições da ação, entendimentos sobre negócio
jurídico processual, enunciados do Fórum Permanente de Processualistas Civis – FPPC, enunciados da I e II
Jornadas de Direito Processual Civil do CJF etc.).
Diante disso, elaboraremos este curso com base em dados estatísticos do que vem sendo mais cobrado, das
tendências das bancas examinadoras, sempre com base nos quatro pilares de estudo: Legislação;
Jurisprudência; Doutrina e Questões.
METODOLOGIA DO CURSO
As aulas levarão em consideração as seguintes “fontes”, ou seja, os matizes a partir dos quais os nossos
materiais são estruturados:
FONTES
Legislação - Novo
CPC e leis Jurisprudência Milhares de
especiais, a Doutrina relevante do STF e questões de
exemplo: MS, Lei do STJ. concursos públicos
n. 8.437/92 etc.
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Vistos alguns aspectos gerais da matéria, teçamos algumas considerações acerca da metodologia de estudo.
Certo é que temos doutrina especializada na matéria de enorme relevância (Min. Luiz Fux, Teresa Wambier,
Humberto Theodoro Jr., Nelson Nery, Marinoni, Arenhart, Mitidiero, Fredie Didier Jr., Leonardo Carneiro da
Cunha, Dierle Nunes, Cássio Scarpinella Bueno, Daniel Assumpção, Elpídio Donizetti etc.) e, alguns deles,
escrevem voltados para concursos (Daniel Assumpção, Maurício Cunha, Mozart Borba etc.), mas percebemos
a necessidade de compilarmos as informações essenciais tratadas nesses manuais e que estão sendo
cobradas nos concursos em um único material, de fácil compreensão e assimilação.
Isso, contudo, não significa superficialidade. Sempre que necessário e importante, os assuntos serão
aprofundados.
A didática, entretanto, será fundamental para que, diante do contingente de disciplinas, do trabalho, dos
problemas e questões pessoais de cada aluno, possamos extrair o máximo de informações para a hora da
prova.
Para tanto, o material será permeado de esquemas, gráficos informativos, resumos, figuras, tudo com a
pretensão de “chamar a atenção” para as informações que realmente importam.
Com essa estrutura e proposta pretendemos conferir segurança e tranquilidade para uma preparação
completa, sem a necessidade de recurso a outros materiais didáticos.
Digo e repito, o PDF abarcará TUDO o que precisam saber sobre Processo Civil.
Essas aulas destinam-se a complementar a preparação quando estiver cansado do estudo ativo (leitura e
resolução de questões), ou até mesmo para fazer a revisão. Você disporá de um conjunto de vídeos para
assistir como quiser, podendo assistir on-line ou baixar os arquivos. Com outra didática, você disporá de um
conteúdo complementar para a sua preparação. Ao contrário do PDF, evidentemente, AS VIDEOAULAS NÃO
ATENDEM A TODOS OS PONTOS QUE VAMOS ANALISAR NOS PDFS, NOSSOS MANUAIS ELETRÔNICOS. Por
vezes, haverá aulas com vários vídeos; outras que terão videoaulas apenas em parte do conteúdo; e outras,
ainda, que não conterão vídeos. Nosso foco é, sempre, o estudo ativo! Evidentemente, os pontos mais
importantes também constarão dos vídeos.
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Teoria de forma
objetiva e direta Referência e
Súmulas e
com síntese do análise da
jurisprudência
METODOLOGIA pensamento legislação
pertinentes
doutrinário pertinente ao
comentadas.
relevante e assunto.
dominante.
Vídeoaulas
Muitas questões Resumo dos complementares
anteriores de principais sobre
APROVAÇÃO!
provas tópicos da determinados
comentadas. matéria. pontos da
matéria
APRESENTAÇÃO PESSOAL
Meu nome é Rodrigo Vaslin Diniz e sou Juiz Federal Substituto do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ocasião em que recebi a láurea
acadêmica como melhor aluno (Prêmio Barão do Rio Branco), também sou pós-graduado em Direito
Processual Civil, Direito Constitucional e Direito Civil. Ainda, estou cursando o Mestrado em Direito
Processual Civil na Universidade de São Paulo (USP). Antes do TRF 4ª Região, fui servidor do TRT 3ª Região,
ocupei um cargo em comissão no MPF e fui Juiz Federal Substituto do TRF 1ª Região e do TRF 4ª Região.
Ainda na faculdade, cheguei a fazer alguns concursos. Desde que me formei, em agosto de 2013, dediquei-
me seriamente aos certames e, na maioria deles, fui reprovado. Em cada reprovação, fazia um exame frio de
onde tinha errado e consertava meu método. Assim, consegui aprimorar meu estudo e meus resultados,
alcançando êxito nos 13 certames descritos abaixo:
1 - Técnico do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (2009); 2 - Técnico do Ministério da Fazenda (2009);
3 - Técnico do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (2011); 4 - Analista do Tribunal de Justiça Militar de
Minas Gerais (2013); 5 - Analista do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (2015); 6 - Advogado
da Copasa (2014); 7 - Advogado da Telebrás (2015); 8 - Defensor Público de Minas Gerais (2014/2015); 9 -
Defensor Público Federal (2014/2015); 10 - Promotor de Justiça Adjunto do Ministério Público do Distrito
Federal e Territórios (2015/2016); 11- Procurador do Estado do Mato Grosso (2016); 12 - Juiz Federal
Substituto do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (2015/2016); 13 - Juiz Federal Substituto do Tribunal
Regional Federal da 4ª Região (2016/2017).
Ainda, cheguei a uma prova oral do TJPB (1º lugar), mas minha inscrição definitiva foi indeferida, pois não
tinha três anos de atividade jurídica.
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De todo meu estudo, entendo3 que os quatro pilares de concursos públicos, em geral, são:
Caderno completo: Tenham a certeza de que, com este curso, o item “a” estará preenchido;
Lei seca: neste item, sugiro a leitura do pdf com o código ao lado, fazendo os destaques necessários. Ainda,
quando cansados da leitura, podem fazer outras coisas, mas sempre ouvindo áudios da Constituição, Leis,
Súmulas etc. Costumava me gravar lendo as leis e súmulas para depois ouvir.
Jurisprudência: Mais que indicada, é exigida a leitura dos Informativos do STF e STJ. Podem lê-los
diretamente no site dos Tribunais, ou em outros sites que os comentam.
Resolução de questões: Nada dos três itens acima adiantará se não fizerem várias questões. Existem livros
e sites exclusivamente dedicados a compilar questões de bancas e de determinados cargos, mas no nosso
curso você já se deparará com centenas de questões.
Além disso, comento sobre algumas práticas interessantes de estudo no meu instagram, vídeos no youtube,
bem como cursos do estratégia, a exemplo do Como Estudar para a Magistratura Federal, em que explico
pormenorizadamente o que fazia.
Mas como devo distribuir meu tempo, professor? São tantas coisas para ler e tantos produtos oferecidos
pelo Estratégia.
Para tirar esse peso dos seus ombros, o estratégia criou, no segundo semestre de 2020, a trilha estratégica.
Ali, o professor coordenador consegue aliar todos os pacotes e no momento ideal de estudo. Não há
solução melhor para seu problema.
Nossos materiais abarcam TUDO o que precisam saber. De todo modo, deixarei abaixo meus contatos para
quaisquer dúvidas ou sugestões. Terei o prazer em orientá-los e conversar sobre o Processo Civil4. Vamos
juntos nessa jornada?
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Informações mais detalhadas sobre minha preparação e tópicos importantes vocês encontram no Estudo Estratégico para
Magistratura Federal, em que analiso todas as 5 fases desse concurso, resolvendo as provas dos últimos concursos e dando dicas
fundamentais para se prepararem da melhor forma.
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Também sou professor de Direitos Difusos e Coletivos. Portanto, sintam-se à vontade para enviar questionamentos dessa
matéria.
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Instagram: @rodrigovaslin
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Para iniciar os estudos no Processo Civil, é preciso, primeiro, visualizar a divisão do próprio código,
comparado com o Código de 1973.
O CPC/2015 ficou muito mais didático, dividido em Parte Geral e Parte Especial, com os Livros, Títulos e
Capítulos mais bem organizados.
Contudo, antes de adentrar no estudo pormenorizado de todo o Código, é necessário fazer uma Introdução.
Isso porque partiremos da premissa que, para compreender o Processo Civil, é necessário o estudo prévio
de sua correlação com a Teoria Geral do Direito e com o Direito Constitucional, em um estudo
interdisciplinar.
Assim, iremos tratar, primeiramente, do Conceito, da História do Direito Processual Civil e sua correlação
com os dois itens acima elencados, gerando o fenômeno do Neoprocessualismo.
Depois, abordaremos as Fontes da disciplina e entraremos no estudo do novo Código, passando pela História
de sua criação e, sobretudo, pela Exposição de Motivos, destacando os 5 objetivos dos legisladores quando
da elaboração de seu texto legal. Por fim, abordaremos os Princípios mais importantes da disciplina.
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Sim, quem já tinha conhecimento, por exemplo, da Exposição de Motivos, saiu na frente:
CESPE – DPU/2017: Um sistema processual civil que não proporcione à sociedade o reconhecimento e
a realização dos direitos, ameaçados ou violados, que tem cada um dos jurisdicionados, não se
harmoniza com as garantias constitucionais de um Estado democrático de direito. Se é ineficiente o
sistema processual, todo o ordenamento jurídico passa a carecer de real efetividade. De fato, as
normas de direito material se transformam em pura ilusão, sem a garantia de sua correlata realização,
no mundo empírico, por meio do processo. Exposição de motivos do Código de Processo Civil/2015,
p. 248-53. Vade Mecum Acadêmico de Direito Rideel. 22.ª ed. São Paulo, 2016 (com adaptações).
Tendo o texto precedente como referência inicial, julgue os itens a seguir à luz do entendimento
jurisprudencial e doutrinário acerca das normas fundamentais do processo civil.
33 Voltado para a concepção democrática atual do processo justo, o CPC promoveu a evolução do
contraditório, que passou a ser considerado efetivo apenas quando vai além da simples possibilidade
formal de oitiva das partes.
Comentários: Alternativa correta. Tanto na Exposição de Motivos, quanto nos artigos iniciais do
CPC/15 (arts. 6º, 9º, 10), é possível vislumbrar a consagração do contraditório substancial, não mais
formado apenas pelo binômio ciência + reação (contraditório formal), mas sim pelo trinômio ciência +
reação + poder de influenciar as decisões do juiz.
34 Apesar de o CPC garantir às partes a obtenção, em prazo razoável, da solução integral do mérito,
esse direito já existia no ordenamento jurídico brasileiro até mesmo antes da Emenda Constitucional
n.º 45/2004.
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pelo Brasil em 1992. Antes dessa data, a duração razoável do processo era decorrência do devido
processo legal (art. 5º, LIV, CRFB).
Sempre digo que o conhecimento dessa parte inicial (com a leitura da exposição de motivos) é fundamental
para a compreensão da matéria. Ao sedimentar a parte introdutória, vocês lerão o CPC sempre fazendo
correlação dos institutos lidos com a razão pela qual eles foram criados. Como exemplo, podemos citar:
Ex1: Mire e veja...esses artigos iniciais do CPC (arts. 1º ao 12) concretizam o fenômeno da
constitucionalização releitura e o objetivo número 1 da Exposição de Motivos (promover sintonia fina do CPC
com a Constituição).
Ex2: Opa, a ênfase ao sistema multiportas e a previsão do amicus curiae (art. 138) simbolizam o objetivo n.
2 da Exposição de Motivos (criar condições para o juiz decidir de forma mais rente à realidade).
Ex3: Olhe, a concentração das possíveis defesas na contestação (art. 337 – incompetência, impugnação ao
valor da causa, impugnação à justiça gratuita etc.) promove o objetivo 3 (Simplificar, reduzindo
complexidades).
Ex4: Realmente, a extensão da coisa julgada às questões prejudiciais – art. 503, § 1º sobreleva o objetivo n.
4 (dar todo o rendimento possível a cada processo em si mesmo considerado).
Percebam que, ao compreenderem a finalidade dos legisladores, torna-se bem mais fácil interpretar, aplicar
e memorizar o Novo Código de Processo Civil.
De início, já aponto os principais temas que irão despencar nas provas: modelo constitucional do Processo
Civil (art. 1º); sistema multiportas (art. 3º); primazia do julgamento de mérito (art. 4º); princípio da boa-fé
objetiva (art. 5º); cooperação (art. 6º); proibição de decisão surpresa (arts. 9º e 10), ordem cronológica (art.
12) honorários advocatícios (art. 85); justiça gratuita (art. 98); intervenção de terceiro (retirada da nomeação
à autoria e oposição e inclusão do amicus curiae e desconsideração da personalidade jurídica); funções
essenciais à justiça (Defensoria, MP, Advocacia pública e privada); atos processuais (dias úteis, sistema
eletrônico, efeitos da citação) negócio jurídico processual (art. 190); novas hipóteses de impedimento (art.
144, VII e VIII), suspeição (art. 145 I – amizade íntima com advogado); tutela provisória (art. 294ss), que se
subdivide em tutela de urgência (antecipada ou cautelar) e evidência; audiência prévia de conciliação e
mediação (art. 334); julgamento antecipado parcial do mérito (art. 356); carga dinâmica do ônus da prova
(art. 373, § 1º); novos limites da coisa julgada (art. 503, § 1º); cumprimento de sentença contra Fazenda
Pública (art. 534); protesto (art. 517), coisa jugada inconstitucional (art. 525, §§ 12 ao 15); exceções à
impenhorabilidade (art. 833, §2º); prescrição intercorrente (art. 921); recursos (prazo, agravo de
instrumento - art. 1.015, extinção dos embargos infringentes); combate à jurisprudência defensiva,
microssistema de causas repetitivas (IRDR e recursos repetitivos), IAC (art. 947), precedentes obrigatórios
(art. 927), etc.
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OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Valorize o trabalho de nossa equipe adquirindo os cursos através do site
Estratégia.
1 - CONCEITO
Advém de Ulpiano a clássica divisão do Direito entre os ramos público e privado.
Em uma separação mais simples e direta, é comum dizer que o direito privado, composto
predominantemente Direito Civil e Direito Empresarial, tem como principais características a livre
manifestação de vontade, igualdade entre as partes, liberdade contratual e a disponibilidade dos interesses.
Já o Direito Público se caracterizaria pela regência dos princípios da indisponibilidade do interesse público e
pela supremacia do interesse público sobre o interesse privado. Fariam parte do Direito Público, pois, o
Direito Constitucional, Administrativo, Penal, Tributário, Processo Penal e Processo Civil.
Contudo, aprofundando o conhecimento, iremos citar três critérios que costumam ser mais utilizados para
separar tais ramos:
✓ 1º critério - interesse5 (Hely Lopes Meirelles, Oswaldo Bandeira de Mello e Pontes de Miranda): Enquanto
o direito público diz respeito às coisas públicas do Estado, o direito privado se refere à utilidade dos
indivíduos. Pontes explica6 que “o direito privado cuida dos indivíduos e suas relações; porém, quando o
interesse geral passa à frente, o direito é público, porque admite a situação de poder dos entes coletivos que
correspondem àqueles interesses”.
Crítica: Pietro Perlingieri diz ser difícil individualizar um interesse privado que seja completamente
autônomo em relação ao interesse público. Ex: Direito de Família é regido pelo direito privado, mas possui
indiscutivelmente um interesse público. A exemplo, o art. 226, caput, da CRFB diz que “A família, base da
5
Deriva da famosa frase de Ulpiano “Hujus studii duae sunt positiones, publicum et privatum. Publicum jus est, quod ad Tum rei
Romanae spectat, privatum quod ad singulorum utilitatem.”
6
PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti. Tratado de direito privado, t. I, p. 72.
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sociedade, tem especial proteção do Estado”. Tércio Sampaio também tece críticas, aduzindo que essa noção
perde nitidez em face de certos interesses particulares e não obstante sociais, como é a proteção dos direitos
trabalhistas7.
✓ 2º critério – sujeito (Pimenta Bueno e Agustín Gordillo): É a natureza dos sujeitos que delimita se se trata
de direito público ou privado. Assim, se a relação jurídica tem o Estado como parte, será aplicado o direito
público. Em se tratando de relações entre sujeitos privados, incidirá o direito privado.
Crítica: A Administração também se submete ao direito privado, a exemplo de um contrato de locação
entre um ente público e um particular, sujeito ao regime jurídico de direito privado. Os atos da
administração compõem um gênero, do qual são espécies: i- atos administrativos, sujeitos ao regime jurídico
administrativo; ii- atos privados, sujeitos ao regime jurídico de direito privado (ex: contrato de locação); iii-
atos políticos; iv – atos de mera execução; v- atos de juízo/opinião.
✓ 3º critério – subordinação: Nas relações de direito público há a presença do poder público de autoridade,
o jus imperii do Estado. Quando a relação jurídica for de paridade, de igualdade, está-se diante do direito
privado.
Crítica: No Estado Democrático de Direito, não se reconhece uma superioridade do Estado sobre seus
“súditos”. No Direito Brasileiro, já se nota uma relativização do princípio da superioridade do interesse
público sobre o privado8, bem como criação de mitigações à indisponibilidade do interesse público9, duas
pedras de toque do Direito Administrativo.
7
FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito: Técnica, Decisão e Dominação. 6ª Ed. São Paulo: Atlas, 2008.
8
A doutrina sustenta a inexistência de supremacia abstrata do interesse público sobre o privado, exigindo ponderação de
interesses para resolver eventuais conflitos. SARMENTO, Daniel (org.). Interesses públicos versus Interesses privados:
desconstruindo o princípio da supremacia do interesse público. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.
9
Exemplos de mitigações: 1) no rito dos Juizados Especiais Federais, os representantes da Fazenda Pública são autorizados a
conciliar e transigir sobre os interesses discutidos na demanda (art. 10, parágrafo único, da Lei 11.029/2001); 2) passou a ser
permitida a utilização de mecanismos privados para resolução de disputas, inclusive a arbitragem, nos contratos de concessão de
serviço público e nas parcerias público-privadas (arts. 23-A da Lei 8.987/95 e 11, III, da Lei 11.079/2004), contratos built to suit
(art. 44-A, Lei 12.462/11); 3) a lei de arbitragem, reformada pela lei 13.129/2015 passou a permitir a arbitragem para a
Administração Pública de forma mais aberta; 4) A Lei n. 13.140/2015 (Mediação) passou a permitir a mediação e conciliação na
Administração em diversas hipóteses.
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Percebe-se, portanto, que não há consenso sobre qual critério seja o melhor10. Desse modo,
adverte-se que, mesmo com todas as críticas, se houver perguntas em provas 11, é interessante
discorrer sobre esses três critérios mais utilizados, bem como sobre a crítica doutrinária que há
sobre cada qual.
Dito isso, assegura-se que o Direito Processual Civil é o ramo do direito público, porquanto regulamenta
uma das três funções do Estado, qual seja, a função jurisdicional. Tais características o colocam como ramo
do direito público em qualquer critério que se adote, seja do interesse (a função jurisdicional, como
decorrência da própria soberania, é de interesse público); seja do sujeito (Estado-Juiz figura na relação
jurídica processual) ou ainda sob o critério da subordinação (a jurisdição é inafastável, inderrogável e
imperativa).
A doutrina, tanto nacional como estrangeira, diverge ao conceituar o Direito Processual. Como prova disso,
transcreveremos trechos de diversos autores:
Vicente Greco Filho: O direito processual civil é o ramo do direito público que consiste no
conjunto sistemático de regras e princípios que regula a atividade da jurisdição, o exercício da
ação e o processo, em face de uma pretensão civil, entendida esta como toda aquela cuja decisão
esteja fora da atuação da jurisdição penal, penal militar, do trabalho e eleitoral12.
Ada Pellegrini, Antônio Cintra, Cândido Rangel: É complexo de normas e princípios que regem o
exercício conjunto da jurisdição pelo Estado-juiz, da ação pelo demandante e da defesa pelo
demandado.
Alexandre Freitas: ramo da ciência jurídica que estuda e regulamenta o exercício, pelo Estado, da
função jurisdicional13.
Echandía: É o ramo do Direito que estuda o conjunto de normas e princípios que regulam a
função jurisdicional do Estado em todos os seus aspectos e que, portanto, fixam o procedimento
que se há de seguir para obter atuação do direito positivo no caso concreto.
10
MONTORO, André Franco. Introdução à ciência do direito, p. 468
11
Já foi objeto de questionamento em prova oral do TRF 1ª Região acerca da crítica que se faz ao princípio da superioridade do
interesse público sobre o particular.
12
GRECO FILHO, Vicente. Direito Processual Civil Brasileiro, Vol. 1, 19ª Ed., São Paulo: Saraiva, 2009, p. 66.
13
CÂMARA, Alexandre. Lições de Direito Processual Civil. 20ª Ed. Rio de Janeiro: Lumenjuris, 2010, p. 5.
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Cassio Scarpinella: ramo do direito que se volta a estudar a forma de o Poder Judiciário (Estado-
juiz) exercer a sua atividade-fim, isto é, prestar a tutela jurisdicional a partir do conflito de
interesse (potencial ou já existente) que exista entre duas ou mais pessoas.
Esse autor faz ainda um complemento, asseverando que este ramo vai mais longe, abrangendo
estudo de outros meios alternativos de resolução de conflitos.
De todas as formulações, pode-se extrair que o conceito de processo se correlaciona diretamente com o
modo de exercer a função jurisdicional (uma das três funções do Estado).
Mas professor, se a jurisdição é o elemento mais importante do conceito, não deveria se chamar Direito
Jurisdicional e não Direito Processual?
De fato, alguns autores pensaram nisso e propuseram a nomeação da disciplina como Direito Jurisdicional,
como o espanhol Juan Monteiro Arouca. Outros, como João Mendes de Almeida Júnior preferiam Direito
Judiciário. Inclusive, na USP, havia até pouco tempo as cátedras de direito judiciário civil.
Contudo, o mais comum é chamá-lo de Direito Processual. Como diz Alexandre Freitas Câmara, em time que
está ganhando não se mexe. Portanto, trabalharemos com essa nomenclatura, Direito Processual Civil.
Ultrapassado esse ponto, resta saber qual o objeto de estudo do Direito Processual Civil:
✓ 1ª corrente (Dinamarco, Marcus Vinicius Gonçalves): Nas palavras de Dinamarco14, uma visão moderna
aponta como categorias centrais do sistema processual a jurisdição (poder estatal endereçado à pacificação
de pessoas e grupos em casos de conflito jurídico), a ação (poder de provocar o exercício da jurisdição e
influir em seu direcionamento), a defesa (contraposto negativo da ação, como poder de influir em sentido
oposto) e o processo (conjunto de técnicas para o exercício da jurisdição pelo juiz, da ação pelo autor e da
defesa pelo réu).
✓ 2ª corrente (majoritária): O objeto de estudo da disciplina constitui um tripé, formado pela Jurisdição,
pela Ação e pelo Processo. Alexandre Câmara, fazendo menção à famosa trilogia do Direito Processual Civil
diz: “Sem a explicação prévia da jurisdição, não se pode compreender a ação. E sem a compreensão perfeita
desses dois conceitos, é ilusória a tentativa de entender o que é o processo”. Referida corrente salienta que
defesa seria um desdobramento da ação, não constituindo objeto próprio.
✓ 3ª corrente: Erick Navarro aduz que a disciplina, por muito tempo, focou no estudo detido da ação, depois
migrando para o estudo minucioso da jurisdição e, por fim, do processo. Atualmente, porém, com espeque
na concepção austríaca e alemã, diz-se que o ponto fulcral da matéria é a efetividade do processo. Assim, o
novo polo metodológico em volta do qual o processo passou a orbitar é a tutela jurisdicional. Tão importante
quanto declarar ou constituir um direito é satisfazê-lo. Assim, esta corrente entende que os objetos
principais de estudo da disciplina são jurisdição, ação, processo e tutela.
14
DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. Vol. I. 10ª Ed. Malheiros: São Paulo, 2020, p. 60.
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Jurisdição
Tutela DIREITO
Ação
PROCESSUAL
CIVIL
Processo
No quarto eixo, estudamos as mais diversas classificações de tutela, tais como quanto à pretensão (cognitiva
ou executiva), quanto à satisfatividade (específica ou equivalente), quanto ao meio de prestação (comum ou
diferenciada), quanto ao momento (preventiva ou repressiva), quanto à definitividade (definitiva ou
provisória) etc.
Consoante Cássio Scarpinella, esse enfoque não só na juris-dição, mas também na juris-satisfação, é a tônica
do novo Código, consagrada no art. 4º do CPC.
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Como conclusão deste tópico, podemos conceituar o Direito Processual Civil como o ramo do direito público
consistente no conjunto de normas (regras e princípios) que regulam a função jurisdicional, o exercício da
ação e o processo, com o fim de prestar a tutela devida em face de uma pretensão civil.
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Professor, entendi as discussões a respeito do objeto do processo. Mas qual corrente adoto em provas?
Em provas objetivas, a 2ª corrente. Em provas discursivas, suscitar as diversas concepções.
Comentários: Alternativa correta. ATENÇÃO! Vejam que as questões ainda cobram aquele
trinômio clássico (jurisdição, processo e ação).
1ª Fase: Sincretismo/Civilismo/Imanentismo/Praxismo
Vigorou desde o Direito Romano15 até o século XIX, mais precisamente até 1868, quando Oskar Von Bülow
publicou sua obra Teoria das Exceções Processuais e Pressupostos Processuais 16, dando início à 2ª Fase.
Durante todos esses séculos, não havia autonomia didático-científica do Direito Processual Civil. Ele era
concebido de uma forma entrelaçada, imanente, inerente ao Direito Material. O estudo do processo era o
estudo da prática forense, daí a designação praxismo.
Crítica: Há sim autonomia do Direito Processual Civil, até porque há casos em que se utiliza o Processo Civil
sem mesmo valer-se do Direito Material. É o caso de extinção de processo sem resolução do mérito, por falta
das condições da ação (legitimidade ou interesse), consoante art. 485, IV, CPC.
Iniciada em 1868, quando Oskar Von Bülow publicou sua obra, percebeu-se o processo como uma relação
jurídica autônoma, mais precisamente uma relação jurídica triangular, formada pelas partes e pelo Estado-
Juiz. Direito material e processual desuniram-se, passando este a ser estudado como ciência autônoma –
aquela que possui método e objeto próprios.
15
Discorreremos rapidamente sobre o Direito Romano (é raro, mas cai em provas) quando falarmos sobre História da Jurisdição.
16
No Alemão: Die Lehre von den Processereden und die Processvoraussetzungen.
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Crítica: Embora tenha havido grandes avanços na matéria decorrentes dessa separação, com a criação e
aprimoramento de institutos próprios do Processo Civil, a disciplina se tornou extremamente formalista, não
promovendo o devido acesso à justiça, já que, por vezes, utilizava-se de institutos processuais para não
apreciar o pedido das partes, esquecendo-se de sua finalidade primordial de ser um instrumento para a
realização do direito material, para uma decisão de mérito justa e efetiva (art. 4º, CPC).
As reformas implantadas neste último Código, nas décadas seguintes, já se enquadram na 3ª fase, chamada
fase do instrumentalismo processual.
Consagrada no pós 2ª Guerra Mundial, a partir da década de 1950, não buscou negar a fase anterior, mas
sim promover reaproximação do Direito material com o Direito Processual, de modo que este, mantendo
sua autonomia didático-científica (ainda visto como relação jurídica triangular), foi concebido como um
instrumento para a realização do Direito Material. A relação entre esses dois polos é circular e
complementar17.
Como livro representativo dessa fase, temos a obra “Acesso à Justiça”18, do italiano Mauro Cappelletti e
norte-americano Bryant Garth, em que os autores analisam as deficiências de alguns sistemas jurídicos do
ocidente e propõe uma reformulação do Processo a fim de garantir a universalização da tutela jurisdicional,
por meio da adoção de 3 ondas renovatórias, quais sejam: i) luta pela assistência judiciária (justiça aos
pobres); ii) representação dos interesses difusos (coletivização do processo); iii) novo enfoque de acesso à
justiça (efetividade do processo).
17
Pergunta de concurso: “Explique a relação circular entre Direito Material e Processo”. Resposta: Após explicar as fases do
Direito Processual Civil, seria interessante dizer que não há processo oco. O processo serve ao direito material ao mesmo tempo
em que é servido por ele. Não há, portanto, relação de subordinação, mas sim de simbiose, complementaridade. Essa relação de
complementaridade (cíclica) foi chamada por Carnelutti de teoria circular dos planos do direito material e do direito processual.
18
Título original, traduzido, seria o seguinte: Acesso à Justiça: O movimento mundial para tornar os direitos efetivos. Foi publicado
originalmente em 1978 e traduzido para o Português pela Ministra Ellen Gracie em 1988.
18
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i) Justiça aos pobres (1ª onda): Na maioria dos países, os custos do processo são elevados. No Brasil, por
exemplo, as partes precisam pagar as custas iniciais, as provas (perícias, diligências, etc.), e ainda o preparo
de recursos, o que afasta as classes mais pobres. Além da limitação econômica, também a falta de educação
e cultura dificulta o acesso à justiça, uma vez que muitas pessoas desconhecem seus direitos e, portanto,
nem sabem que tiveram algum direito violado.
Para solucionar tal problema, propôs-se a criação de hipóteses de gratuidade de justiça, bem como
incentivos à assistência jurídica aos pobres19.
Exemplos no Brasil de concretização da 1ª onda: Lei n. 1.060/195020, que estabelecia normas para gratuidade
de justiça aos necessitados, bem como o reforço paulatino da Defensoria Pública, mormente pelas Emendas
Constitucionais n. 45, 69, 74 e 80, instituição destinada a prestar assistência jurídica aos necessitados (art.
5º, LXXIV, c/c art. 134, CRFB).
ii) Coletivização do Processo (2ª onda): Na sociedade de risco, conceito desenvolvido por Ulrick Beck, o
avanço técnico-econômico promoveu o acesso de grande parte da população aos bens de consumo, mas
também fez com que riscos sociais, políticos, econômicos e industriais tomassem proporções cada vez
maiores. Os problemas se tornam cada vez mais massificados, abrangentes.
Essa coletivização se justifica por três motivos: i) existência de bens de titularidade indeterminada; ii) bens
ou direitos individuais cuja tutela individual não seja economicamente aconselhável; iii) economia
processual.
Diante desses problemas, percebeu-se21 que o critério de legitimidade do processo civil clássico, bem como
que as regras da coisa julgada são insuficientes, dado não serem compatíveis com os conflitos de massa e
19
Caiu em prova oral da DPE/MG (2015): Tecnicamente, deve-se diferenciar os conceitos de: a) gratuidade de justiça (arts. 82,
95, 98, 99, 169, 565, 968, 1.015, 1.021 e 1.026): refere-se à dispensa provisória do recolhimento de custas e despesas processuais
e extraprocessuais; b) assistência jurídica (arts. 27, V e 186, § 3º): toda e qualquer atividade assistencial referente ao amparo
prestado no campo jurídico – dentro ou fora de uma relação jurídico-processual, prestada, no âmbito particular, por advogados e,
no âmbito público, exclusivamente pela Defensoria (art. Art. 134 c/c art. 4º, LC 80/94); c) assistência judiciária (art. 26, II): se refere
apenas aos meios necessários à defesa dos direitos do assistido em juízo, dentro de uma relação jurídica processual.
20
Veremos que a Lei n. 1.060/50 foi quase integralmente revogada pelo CPC/15, havendo um aperfeiçoamento de alguns de seus
institutos e correção de terminologias.
21
DIDIER, Fredie; ZANETI, Hermes. Curso de Direito Processual Civil: Processo Coletivo, 7ª ed., Salvador: Juspodivm, 2012, vol. 4, p.
36.
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com a tutela dos direitos de titularidade indeterminada, porquanto voltados apenas para o processo de
partes individualizadas. Para sanar tais entraves, elaborou-se, ao longo do tempo, os conceitos de
legitimidade extraordinária (art. 18, CPC), regras diferenciadas de coisa julgada (ex: coisa julgada erga omnes,
ultra partes etc. – art. 103, CDC) e hipóteses de ampliação dos efeitos das decisões judiciárias (recursos
repetitivos, IRDR etc.).
Exemplos no Brasil de concretização da 2ª onda: todo o microssistema da tutela coletiva, formada, em seu
núcleo duro, pela Lei de Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/85) e pelo Código de Defesa do Consumidor (Lei n.
8.072/90), e, em seu derredor, por diversas outras leis, tais como Lei 4717/65 – ação popular; Lei 6938/81 –
política nacional do meio ambiente; Lei 7.513/86 – investidores dos mercados de valores mobiliários; Lei
7853/89 – pessoas portadoras de deficiência; Lei 8069/90 – ECA; Lei 8492/92 – improbidade administrativa;
Lei 10471/03 – estatuto do idoso; Lei 10671/03 – estatuto do torcedor (equiparado a consumidor); Lei 12016
– MS, Lei 12846/13 – anticorrupção; Lei 13.300/16 - mandado de injunção.
Ainda, a sistemática de precedentes obrigatórios (art. 927, CPC/15) também é uma tentativa de tratar um
processo e resolver várias outras situações similares.
iii) Efetividade do processo (3ª onda): Intitulada de “enfoque de acesso à justiça”, os autores dizem que os
novos direitos exigem mecanismos procedimentais que os tornem exequíveis.
No livro de Franklyn Roger e Diogo Esteves22, além das três ondas propugnadas na obra “Acesso à Justiça”,
há a inclusão de mais duas:
iv) Dimensão ética e política do direito (4ª onda): Os autores advertem que Kim Economides23 preconiza a
existência de uma quarta onda de acesso à justiça, expondo a dimensão ética e política da administração da
justiça.
De acordo com Kim, “a essência do problema não está mais limitada ao acesso dos cidadãos à justiça, mas
inclui também o acesso dos próprios advogados à justiça”. Isso porque, “o acesso dos cidadãos à justiça é
22
Princípios Institucionais da Defensoria Pública, 2ª edição, Ed. Gen: São Paulo, 2017.
23
Alguns autores vêm indicando que a 4ª onda de acesso à justiça é a virada tecnológica do direito, transitando do analógico para
o digital, com criação, por exemplo, de ODR´s (online dispute resolution), inteligência artificial e precedentes, audiências virtuais,
computação quântica, smart contracts etc.
20
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inútil sem o acesso dos operadores do direito à justiça”. Com isso, o professor indica importantes e novos
desafios, tanto para a responsabilidade profissional como para o ensino jurídico.
Contudo, os autores brasileiros lançam uma crítica à concepção do professor inglês, pois a construção teórica
de Kim retira o foco do acesso e passa a focar na justiça, realizando a análise crítica das carreiras jurídicas e
da estruturação interna corporis do sistema de justiça.
v) Internacionalização da proteção dos Direitos Humanos (5ª onda): Ao longo da segunda metade do século
XX, o Direito Internacional dos Direitos Humanos sofreu enorme avanço, com a edição de documentos
importantíssimos, como Carta de São Francisco (1945), Declaração Universal de Direitos Humanos (1948), o
Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966) e o Pacto de Internacional de Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais (1966).
Como exemplo desse reforço, todo juiz brasileiro deve, diante de qualquer lei, proceder ao chamado duplo
controle24. Isso significa que, além de poder analisar a compatibilidade de qualquer norma com a
Constituição (controle de constitucionalidade), também deve verificar a compatibilidade das normas com os
tratados internacionais de direitos humanos (controle de convencionalidade).
Nesse passo, alguns obstáculos surgem. Diogo Esteves e Franklyn Roger aduzem que:
No entanto, é possível identificar entre todos estes sistemas de proteção aos Direitos Humanos, três fatores
impeditivos do acesso à justiça no plano internacional.
O primeiro deles seria o da própria existência de cortes internacionais aptas a garantir a tutela jurídica contra
atos estatais. Nem todos os locais possuem organização suficiente para esta atividade, como ocorre na Ásia
e, até bem pouco tempo atrás, na África.
O terceiro e último aspecto compreenderia a facilitação dos indivíduos, grupos ou entidades à jurisdição
internacional e a facilitação do procedimento perante as Cortes Internacionais. Várias cortes ainda não
admitem pleito individual.
24
RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos, Ed. Saraiva: São Paulo, 2017.
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Atenção! Inspirado no Projeto Florença, de Cappelletti e Garth, em 2018, deu-se início ao Global Acess to
Justice Project25, que reúne pesquisadores dos quatro cantos do globo26. No livro, já se elencam duas novas
ondas de acesso à justiça: 6ª onda: iniciativas promissoras e novas tecnologias para aprimorar o acesso à
justiça; 7ª onda: desigualdade de gênero e raça nos sistemas de justiça.
Elucidada a fase do instrumentalismo, bem como a tônica do século passado e ainda atual de se concretizar
o acesso à justiça por meio das ondas renovatórias, é hora de passar à quarta e última fase.
4ª Fase: Neoprocessualismo
Tem por objetivo manter a noção alcançada pela fase anterior, isto é, concepção de que o processo é um
instrumento para se efetivar o direito material, mas acrescentar em seu estudo todos os avanços operados
pelo Neoconstitucionalismo. É a fase do instrumentalismo revisitada pelos influxos do
neoconstitucionalismo e do pós-positivismo.
No Rio Grande do Sul, Carlos Alberto Alvaro de Oliveira chama a fase do neoconstitucionalismo de
formalismo valorativo, no sentido de que é preciso interpretar o processo a partir dos valores da
constituição, reforçando os aspectos éticos dentro do processo, sobretudo o da boa-fé (art. 5º, CPC).
Vistos o Conceito e as Fases do Direito Processual Civil, é preciso saber um pouco mais sobre qual a influência
do Neoconstitucionalismo no Processo Civil. Vamos aprofundar?!
25
Disponível em: < [Link] >. Acesso em 10/07/22.
26
HENRICHS, Cristiane-Maria. New Global Acess to Justice Project: Consolidação de Ideias Antigas-Reflexões sobre as Novas Ideias
Disponível em: < [Link]
[Link] >. Acesso em 10/07/22.
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De antemão, é importante frisar que não há um movimento neoconstitucional uníssono, pois essa vertente
intelectual é composta de uma diversidade de posições filosóficas e políticas. Como aponta a doutrina 27 ao
discorrer sobre o tema:
Todavia, nosso papel aqui não é criar mais dúvida, mas sim saná-las!
Então, como forma de tornar didática a noção, focaremos no Min. Luís Roberto Barroso, que divide o
fenômeno do neoconstitucionalismo em três marcos fundamentais28:
1) Marco histórico: Tem início com a redemocratização da Europa, surgindo na Alemanha, logo depois da 2ª
Guerra Mundial, seguida da Itália e, durante a década de 70, em Portugal e Espanha. No Brasil, o marco
histórico deste novo Direito Constitucional é a Constituição de 1988.
2) Marco filosófico: pós-positivismo que, segundo Bernardo Gonçalves, é caracterizado, sobretudo, pela
reaproximação entre direito e moral29, ultrapassando a concepção positivista.
O positivismo jurídico toma forma, principalmente, a partir do séc. XIX, por meio das obras de
autores como Jeremy Bentham e John Austin. Contudo, é no séc. XX que seus preceitos são
27
SARMENTO, Daniel. O neoconstitucionalismo no Brasil: riscos e possibilidades. In: Filosofia e Teoria Constitucional
contemporânea, 2009, p. 114-115.
28
BARROSO, Luís Roberto. O novo direito constitucional e a constitucionalização do Direito. Disponível em:
<[Link] Acesso em
06/01/2021.
29
GONÇALVES, Bernardo. Curso de Direito Constitucional. 10ª Ed. Juspodiuvm: Salvador, 2017, p. 177-181.
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desenvolvidos com mais rigor, em especial nas obras de Hans Kelsen (Teoria Pura do Direito), H.
L. A. Hart (O Conceito do Direito), Joseph Raz e Alf Ross.
De modo geral, o positivismo jurídico possui duas características compartilhadas por seus
autores.
A primeira é a “tese social”, segundo a qual o que pode ser considerado direito na sociedade é
uma questão social ou convencional.
A segunda é a “tese da separação”, de acordo com a qual não há uma identificação necessária
entre o direito e a moral.
Este último aspecto é de especial importância: para o positivismo jurídico, o que importa é a
análise da validade do direito, e não de sua justiça. Trata-se de uma opção metodológica para
abordar o fenômeno jurídico, o que não implica concordância com o ordenamento ou mesmo
cega obediência a ele.
Não se trata de livro sobre Formação Humanística, mas me permitam só mais um acréscimo: há
vários positivismos jurídicos.
Doutro lado, existem os positivistas inclusivistas (Hart, Coleman), que aceitam uma ligação entre
o direito e a moral, mas não se trataria de uma conexão necessária.
O debate acerca do pós-positivismo, argumentam os autores, situa-se na confluência das duas grandes
correntes de pensamento que oferecem paradigmas opostos para o Direito: o jusnaturalismo e o positivismo
(...) a superação histórica do jusnaturalismo e o fracasso político do positivismo abriram caminho para um
conjunto amplo e ainda inacabado de reflexões acerca do Direito, sua função social e sua interpretação.
Barroso afirma que “é neste universo que se vive no Brasil um momento de reconhecimento de
normatividade a princípios como o da dignidade da pessoa humana, como justiça, como o devido processo
legal, que são na verdade a porta de entrada dos valores no sistema jurídico, de modo que o pós-positivismo
nos liberta da dependência absoluta do texto legislado para reconhecer que há normatividade nos valores e
nos princípios ainda quando não escritos”.
Após a 2ª Guerra, tornou-se célebre a fórmula de Gustav Radbruch, segundo a qual a extrema injustiça não
pode ser considerada direito.
24
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Daniel Sarmento30 conclui afirmando que, embora o pós-positivismo busque ligação entre Direito e Moral,
ele, porém, não recorre a valores metafísicos ou a doutrinas religiosas para buscar a Justiça, mas sim a uma
argumentação jurídica mais aberta, intersubjetiva, permeável à Moral, que não se esgota na lógica formal.
3) Marco teórico - No plano teórico, três grandes transformações modificaram o conhecimento convencional
relativamente à aplicação do direito constitucional: a) o reconhecimento de força normativa à Constituição31;
b) a expansão da jurisdição constitucional32; c) o desenvolvimento de uma nova dogmática da interpretação
constitucional.
De todo modo, adianta-se que, deste terceiro marco (teórico), é possível afirmar que, ao reconhecer a força
normativa da Constituição, surge o fenômeno da Constitucionalização do Direito, podendo ser bipartido em
dois vetores33:
i) Constitucionalização inclusão: vários institutos que dantes não eram previstos na Constituição passaram,
com a CRFB de 1988, serem nela arrolados. Exemplos: união estável (art. 226, § 4º), tutela do meio ambiente
(arts. 225 ss), tutela do consumidor (art. 5º, XXXII), dentre outros.
Houve, pois, uma inflação de assuntos abordados por nossa Constituição analítica, o que favorece a chamada
ubiquidade constitucional, isto é, a onipresença da Constituição em todos os ramos.
a) tutela constitucional do processo, formada pelo conjunto de princípios e garantias, estando presentes
nos seguintes artigos:
30
SARMENTO, Daniel. Direito Constitucional: Teoria, História e Métodos de Trabalho, 2ª Ed. Belo Horizonte: Fórum, p. 201.
31
HESSE, Konrad. A Força Normativa da Constituição. Porto Alegre: Sergio Antônio Fabris, 1991.
32
Criação e expansão dos Tribunais Constitucionais nos países ocidentais, derivação da formulação teórica de Hans Kelsen na
elaboração da Constituição Austríaca de 1920.
33
O jurista francês Louis Favoreau elenca três vertentes do fenômeno: constitucionalização elevação (= inclusão);
constitucionalização transformação (=releitura); constitucionalização juridicização (força normativa da Constituição).
34
DINAMARCO, Cândido Rangel. Op. Cit., p. 64.
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b) jurisdição constitucional das liberdades, composta pelo arsenal de meios predispostos pela Constituição
para conferir maior efetividade ao processo e dos direitos individuais e grupais, tais como:
ii) Constitucionalização releitura: os institutos de todos os ramos do direito devem, para uma interpretação
adequada, passar pela filtragem constitucional. Na feliz expressão de Paulo Bonavides, “Ontem, os Códigos;
hoje, a Constituição”.
Ex1: Releitura dos institutos da posse, da propriedade, do contrato, da família, em especial diante da
despatrimonialização e da personalização do direito privado.
Ex2: releitura do devido processo legal (art. 5º, LIV, CRFB) que, além de dever respeitar o procedimento
imposto pela lei processual (devido processo legal formal), deve ser justo, visar a solução mais efetiva e
correta possível, utilizando-se da proporcionalidade e razoabilidade (devido processo legal substancial)
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Assim, enquanto os neoconstitucionalistas defendem uma interpretação que reforce o papel do Judiciário
no Estado Contemporâneo, escudando um papel de garantidor e concretizador dos princípios e garantias
fundamentais constitucionais, os pós-positivstas, a seu turno, seriam apenas aqueles que acreditam que há
uma conexão necessária entre o Direito e a Moral.
Assim, na linha proposta por Daniel Sarmento, nem todo pós-positivista é neoconstitucionalista, e vice-versa.
Para tanto, podemos citar o exemplo de Dworkin e Alexy que, além de pós-positivistas (sustentarem existir
uma ligação entre Direito e Moral), são também adeptos do neoconstitucionalismo, ao reconhecerem um
papel de guardião ao Poder Judiciário na concretização de valores e garantias fundamentais, com maior
interferência no Poder Executivo e Legislativo. São os chamados substancialistas.
Doutro lado, há juristas pós-positivistas (partidários da existência de alguma ligação entre Direito e Moral),
mas pertencentes ao procedimentalismo, como Habermas (teoria do discurso) e John Hart Ely (Democracy
and Distrust), que entendem que a jurisdição constitucional deve exercer um papel de controle da
democracia representativa, verificando somente se as “regras do jogo” democrático estão sendo cumpridas.
Não defendem uma atuação reforçada do Poder Judiciário no Estado Contemporâneo.
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a) de expressão doutrinária, de origem inglesa, desenvolvida com a série de julgados da Câmara dos
Lordes, que retém competência legislativa e judicante.
b) de expressão doutrinária, que tem como marco histórico o direito constitucional europeu, com
destaque para o alemão e o italiano, após o fim da Segunda Guerra mundial.
c) do novo constitucionalismo de expressão doutrinária, que tem origem e marco histórico no direito
brasileiro com a redemocratização e as inovações constantes da Constituição de 1946.
d) de expressão doutrinária, de origem anglo-saxã, desenvolvida na Suprema Corte dos Estados Unidos
à época em que John Marshall era seu presidente, caracterizada pelo amplo ativismo judicial.
e) de expressão doutrinária atribuída ao constitucionalista argentino Bidart Campos e tem como marco
histórico a reforma constitucional de 1957.
Comentários: Vimos na parte geral que o neoconstitucionalismo tem como marco histórico o direito
europeu do segundo pós-guerra.
Comentários: Assertiva correta. Expressão que encontra fundamento na doutrina de Konrad Hesse
(Força normativa da Constituição), autor alemão que enfatiza a busca de uma maior concreção do texto
constitucional por meio de uma maior efetividade de suas normas.
a) A constitucionalização do direito infraconstitucional tem como sua principal marca a inclusão na Lei
Maior de normas anteriormente codificadas.
(...)
Comentários:
28
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A alternativa A está incorreta. A resposta foi retirada do livro de Luís Roberto Barroso, que afirma
"Como antes já assinalado, a constitucionalização do direito infraconstitucional não tem como sua
principal marca a inclusão na Lei Maior de normas próprias de outros domínios, mas, sobretudo, a
reinterpretação de seus institutos sob uma ótica constitucional”. Nesse trecho, fica claro que a principal
marca é a constitucionalização releitura e não a constitucionalização inclusão.
A alternativa B está correta. Consoante Daniel Sarmento35, o substancialismo tem duas características:
ii- Em decorrência dessa visão, os substancialistas advogam papel mais ativo para a jurisdição
constitucional.
i- sustentam que o papel da Constituição é definir as regras do jogo político, assegurando a sua
natureza democrática. As decisões substantivas sobre temas no campo moral, econômico, político etc.
não deveriam estar nas Constituições.
ii- Por conta dessa visão, defendem um papel mais modesto para a jurisdição constitucional,
sustentando que ela deve adotar uma postura de autocontenção, a não ser quando estiver em jogo a
defesa dos pressupostos de funcionamento da própria democracia.
35
SARMENTO, Daniel. Op. Cit., p. 220.
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Fredie Didier36 elenca 9 mudanças essenciais para a compreensão da matéria, sendo 6 mudanças
relacionadas com a Teoria Geral do Direito (3 relacionadas à teoria das fontes e 3 referentes à teoria da
hermenêutica) e, por fim, as 3 restantes focadas na relação entre Direito Processual Civil e Direito
Constitucional.
Relação do Direito
Teoria das Fontes Teoria da Hermenêutica Processual com o Direito
Constitucional
36
DIDIER JR., Fredie. Curso de Direito Processual Civil, v. 1, Ed. Juspodivm: Salvador, 2018, p. 50-74.
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O surgimento da teoria dos princípios revolucionou a teoria das fontes37. Hoje é indiscutível que normas
jurídicas são gênero, do qual são espécies regras e princípios.
Segundo Canotilho, são vários os critérios sugeridos para efetuar o discrímen entre princípios e regras:
1) Grau de Abstração: os princípios são normas com um grau de abstração relativamente elevado; de modo
diverso, as regras possuem uma abstração relativamente reduzida.
3) Caráter de fundamentalidade no sistema das fontes de direito: os princípios são normas de natureza
estruturante ou com um papel fundamental no ordenamento jurídico devido à sua posição hierárquica no
sistema das fontes (ex: princípios constitucionais) ou à sua importância estruturante dentro do sistema
jurídico (ex: princípio do Estado de Direito).
4) Proximidade da ideia do Direito: os princípios são standards juridicamente vinculantes radicados nas
exigências de justiça (Dworkin) ou na ideia do direito (Larenz); as regras podem ser normas vinculativas com
um conteúdo meramente funcional.
5) Natureza normogenética: os princípios são fundamentos de regras, isto é, são normas que estão na base
ou constituem a ratio de regras jurídicas, desempenhando, por isso, uma função normogenética
fundamentante.
Porém, a concepção que tem maior influência na doutrina nacional é de Robert Alexy38, que defende a visão
da diferença qualitativa entre os conceitos.
Para o autor, os princípios são mandamentos de otimização, que devem ser cumpridos na maior medida
possível, de acordo com as condições fáticas e jurídicas subjacentes. Dessa forma, os princípios nunca
asseguram ou impõem deveres definitivos, sendo, por isso, denominados de normas prima facie.
As regras, por seu turno, são mandamentos de determinação, normas que são sempre satisfeitas ou não
satisfeitas com definitividade; contemplam determinações daquilo que é fática e juridicamente possível,
sendo aplicadas na maneira do tudo ou nada (Dworkin).
37
ÁVILA, Humberto. Teoria dos Princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 20ª ed. Salvador: Juspodivm, 2020.
38
ALEXY, Robert. Teoria dos Direitos Fundamentais. Trad. Virgílio Afonso da Silva, São Paulo: Malheiros. 2008.
31
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No que tange às antinomias, o conflito entre regras é solucionado pela operação de subsunção, baseada nas
técnicas tradicionais de solução de antinomias (cronologia – regra posterior derroga anterior; especialidade
– regra especial prevalece sobre geral; hierarquia – regra superior prevalece sobre a inferior).
Por sua vez, o conflito entre princípios é solucionado através da técnica da ponderação, que estabelece uma
relação de precedência condicionada de um dos princípios em conflito, desde que obedecidos os parâmetros
estabelecidos para a solução do caso concreto.
Importante ressaltar que a preponderância de um princípio em relação a outro depende do caso em análise,
pois em situação concreta diversa, a relação de precedência poderá ser invertida, levando o princípio
anteriormente superado a ser a norma adotada na nova conjuntura. Assim, a atribuição de pesos aos
princípios em conflito (sopesamento) é que vai definir a precedência da norma aplicável ao caso concreto.
Lembre-se, também, que a regra da proporcionalidade39 formulada por Alexy é o mais famoso método para
solucionar conflito aparente de princípios, inclusive adotado pelo art. 489, § 2º, CPC, sendo tal regra
subdividida em:
Adequação: verificação se o ato questionado é adequado, idôneo para o atingimento do fim, do objetivo.
Ex: inconstitucional exigência de inscrição no conselho para ser músico. O ato (exigência de inscrição) não
promove o fim (controle do exercício da profissão), segundo RE 795467, julgado pelo STF.
Necessidade: verificação se não há outra medida menos gravosa a se tomar. Ex: invalidade da demissão ao
servidor que pratica infração leve.
39 39
Tecnicamente, certo é dizer que, na concepção de Alexy, a proporcionalidade é regra e não princípio. Vejamos trecho extraído
de artigo de Lênio Streck: Já de início, podemos referir que a própria utilização da nomenclatura “princípio da proporcionalidade”
é empregada de forma equivocada. Na famosa Teoria dos Direitos Fundamentais, a proporcionalidade é uma máxima utilizada
como método para aplicar a colisão entre princípios. Trata-se da máxima da proporcionalidade (Verhältnismäßigkeitsgrundsatz).
E isso não é apenas uma discussão semântica. Na medida em que a máxima da proporcionalidade é o critério para determinar o
peso da colisão entre princípios, como poderia ser, ela mesma, um princípio? Aliás, Virgílio Afonso da Silva alerta para o fato de
que, ainda que tivéssemos apenas as opções “regra” ou “princípio”, seria mais adequado enquadrar a “máxima da
proporcionalidade” como regra (ou melhor, uma metarregra). Ademais, o próprio Alexy considera que “As três máximas parciais
são consideradas como regras”. Evidente, pois princípios para Alexy são mandamentos de otimização e, dessa forma, podem ser
aplicados em maior ou menor grau. Como o critério que julga a otimização dos princípios colidentes poderia ser, ela mesma,
otimizada? STRECK, Lênio; DALLA BARBA, Rafael Giorgio. Aborto – a recepção equivocada da ponderação alexyana pelo STF.
Disponível em: < [Link] >. Acesso em:
20.04.20.
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venda para o consumidor (ADI 855). A proteção ao consumidor não autoriza a aniquilação do princípio da
livre iniciativa.
1 - Princípio é uma espécie de norma que se encontra em qualquer nível do ordenamento, p. ex.
encontra-se princípio tanto constitucional quanto infraconstitucional.
2 – Nem toda norma constitucional é um princípio. A Constituição é um conjunto de normas:
princípios e regras.
3 – Nem sempre quando a norma é muito importante é um princípio. Ex: Didier diz que a
motivação das decisões é uma regra – impõe conduta certa, clara.
4 - não podemos, hoje, pensar que uma regra sucumbe perante o princípio necessariamente,
havendo conflito entre eles. Se regra e princípio estiverem em mesmo patamar normativo (ex:
os dois na Constituição), prevalece a regra, já que ela explicita opção de solução clara para aquele
determinado problema, isto é, já houve uma ponderação prévia pelo legislador.
5 - Derrotabilidade das regras (defeasibility): Surgida com Hart em The Ascription of
Responsability and Rights (1948), seu fundamento é a constatação de que é impossível ao
legislador antever todas as hipóteses em que uma regra poderia ser excepcionada. Diante desse
fato, é possível ao juiz afastar a aplicação da regra para fazer valer a verdadeira justiça no caso
concreto OU se perceber que o fim perseguido pela norma exige aquela superação da regra. É
pouco utilizada, mas já foi: a) juízes federais, há décadas (antes da jurisprudência do STF),
flexibilizavam o critério de ¼ do salário-mínimo para a parte receber benefício de prestação
continuada (BPC-LOAS), pois tal valor era muito pequeno para aferição da miserabilidade. O
patamar era incongruente, inclusive, com diversos outros programas sociais do governo federal;
b) o Min. Edson Fachin (ARE 954.858, d.j. 30/08/2021) propôs o reconhecimento da
derrotabilidade da regra imunizante de jurisdição em relação a atos de império praticados por
Estado soberano e que representem “atos ofensivos ao direito internacional da pessoa humana
praticados no território brasileiro, tais como aqueles que resultem na morte de civis em período
de guerra”. Iremos tratar do julgado no tema jurisdição; c) nada obstante a interpretação
restritiva que deve ser conferida ao art. 126, §4º, da LEP, os princípios da individualização da
pena, da dignidade da pessoa humana, da isonomia e da fraternidade, ao lado da teoria da
derrotabilidade da norma e da situação excepcionalíssima da pandemia de Covid-19, impõem o
cômputo do período de restrições sanitárias como de efetivo estudo ou trabalho em favor dos
presos que já estavam trabalhando ou estudando e se viram impossibilitados de continuar seus
afazeres unicamente em razão do estado pandê[Link], 3ª Seção, REsp 1.953.607-SC, Rel. Min.
Ribeiro Dantas, d.j. 14/09/22 (Tema 1120).
CESPE/PGM - BH /2017 (adaptada). Acerca das Constituições, assinale a opção correta. a) De
acordo com a doutrina, derrotabilidade das regras refere-se ao ato de se retirar determinada
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Era comum dizer que os tribunais não produziam direito, apenas o declaravam. Contudo, atualmente, é um
equívoco.
O que os tribunais fazem é continuar a produção do direito que se inicia na tarefa legislativa. Os tribunais,
ao decidir casos, produzem direito a partir deles.
Com o advento do CPC/15, podemos ver um enorme reforço da Jurisprudência e dos Precedentes. Quando
tratarmos de Fontes, falaremos um pouco mais deste item.
Atualmente, muitos dispositivos normativos são feitos de maneira aberta, indeterminada, flexibilizando o
sistema.
Dentre os enunciados abertos, temos as cláusulas gerais e os conceitos jurídicos indeterminados. Qual a
diferença40?
Cláusula geral é um de enunciado normativo aberto que se caracteriza pelo fato de ser indeterminado na
hipótese normativa (descrição da situação regulada pelo enunciado) e indeterminado no consequente
normativo (consequência jurídica caso a hipótese ocorra). Ou seja, há uma dupla indeterminação.
40
MARTINS-COSTA, Judith. O Código Civil Como Sistema em Construção. Revista de informação legislativa, v. 35, n. 139, p. 5-22,
jul./set. 1998; DIDIER JR., Fredie. Cláusulas Gerais Processuais. Disponível em: < [Link]
[Link] >. Acesso em 10.04.2020.
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O grande exemplo é o devido processo legal, já que, da leitura do dispositivo, não se sabe o que é um
processo devido, ou seja, a hipótese é indeterminada. Da mesma forma, não é explicitado o que ocorre se o
processo não for devido, havendo a indeterminação do consequente.
No direito privado, por sua vez, temos as cláusulas gerais da boa-fé, função social da propriedade41, função
social do contrato etc.
Fredie Didier ainda considera como cláusulas gerais do CPC/15 os seguintes artigos: art. 297 (poder geral de
cautela), antigo art. 798, CPC/73; art. 497 (poder geral de efetivação), antigo 461, §5º, CPC/73; art. 723
(poder geral de adequação na jurisdição voluntária), antigo 1.109, CPC/73.
Esse tipo de enunciado normativo tende a ser mais permanente, já que ele vai se adaptando historicamente.
Não é por acaso que o enunciado do devido processo legal existe há séculos e séculos. À medida que a
sociedade vai mudando, o sentido que é dado àquele enunciado também se altera.
Conceito jurídico indeterminado, por sua vez, é um enunciado aberto em que a hipótese normativa também
é indeterminada, mas o consequente é determinado. Como exemplo, tem-se a repercussão geral no recurso
extraordinário. A hipótese é indeterminada, mas a consequência é clara: se não tiver repercussão geral, o
recurso não será conhecido (art. 102, § 3º, CRFB).
A norma jurídica não é o texto normativo, mas, sim, o resultado da interpretação de um texto normativo,
isto é, norma é o sentido que se dá a um texto normativo.
Há um clássico exemplo de Gustav Radbruch de que em uma estação ferroviária havia uma placa que diz
“proibida a entrada de cão”. Esse é um texto normativo.
Se o homem tenta entrar com um urso, pela lógica formal, em tese, poderia entrar, já que o texto normativo
diz apenas “cão”. Pela lógica do razoável42, ao contrário, não poderia entrar, já que a norma extraída daquele
41
Mesmo havendo regras que concretizem a cláusula geral, a exemplo da perda da propriedade se não cumprir a função social da
propriedade, é preciso dizer que tal consequência não limita, não exaure a cláusula geral. Haverá casos que não se encaixem
naquelas situações, pode-se aplicar também a função social da propriedade.
42
Questão de prova oral do TJSP (2016): O que é a lógica do razoável? Resposta: Buscando superar a lógica formal e o modelo
subsuntivo de aplicação do direito, Recaséns Siches, autor Guatemalteco, professor da Universidade do México, propõe a lógica
do razoável, uma vez que a razão de ser do direito é a vida humana, e esta, alicerçada em experiências, realidades e juízos de valor
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texto é no sentido de que há proibição para qualquer um que entre com animais que possam perturbar
terceiros ou prejudicar o transporte em si dos trens que ali partiam e chegavam. Portanto, o homem não
poderia entrar com o urso.
Por fim, se um homem cego tenta entrar com seu cão guia, o que deve ocorrer? Mesmo que o texto
normativo não abra qualquer exceção, a interpretação que se deve fazer é que o cão guia é o olho do cego.
Portanto, não deverá haver proibição.
Percebam, com esse exemplo, que o texto normativo não é a mesma coisa que a norma que se possa extrair
dele.
Os juízes, diante do caso concreto, irão interpretar o texto normativo e recriá-lo, dando sentido aos
enunciados normativos.
Segundo aponta a doutrina43, razoabilidade teria nascido no sistema da common law, mais especificamente
no direito norte-americano por meio da evolução jurisprudencial da cláusula do devido processo legal
(Emendas 5ª e 14ª da Constituição dos Estados Unidos), que seria caracterizado não só pelo caráter
procedimental (procedural due process of law): contraditório, ampla defesa etc., mas também pela vertente
substantiva de tal cláusula (substantive due process of law): proteção dos direitos e liberdades dos indivíduos
contra abusos do Estado.
Doutro lado, a proporcionalidade teria origem alemã. Aplicado inicialmente no âmbito do Direito
Administrativo, notadamente no “direito de polícia”, o referido princípio recebeu, na Alemanha, dignidade
constitucional, entendida como princípio implícito do próprio Estado de Direito.
Embora haja essa diferenciação - que é interessante ser mencionada para demonstrar conhecimento nas
provas, tem prevalecido a tese da fungibilidade dos conceitos, ambos relacionados aos ideais de igualdade,
justiça material, instrumentos de contenção dos excessos cometidos pelo Poder Público.
os mais diversos não pode ser enquadrada perfeitamente numa lógica formal que, ao fim e ao cabo, não proporcionaria uma
concretização da justiça. Deve o juiz harmonizar tanto quanto possível a tensão dos valores de justiça, segurança e certeza,
construindo assim uma decisão prudente, equitativa e razoável para cada caso concreto.
43
OLIVEIRA, Rafael. Curso de Direito Administrativo. 5ª Ed. São Paulo: Método, 2017, p. 44.
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A Constituição não é apenas uma folha de papel44, descritiva das relações de poder, mas sim deontológica,
configurando um dever ser, com poder de conformar a realidade.
Antes, os direitos não eram irradiados diretamente a partir da Constituição, mas somente a partir do
momento em que havia a intermediação do legislador regulamentando o que estava previsto na
Constituição.
Atualmente, normas constitucionais são aplicáveis direta e imediatamente, na maior parte dos casos45. Hoje,
parece ser uma obviedade, mas não era no mundo todo antes de 1945 e, no Brasil, antes da CRFB/1988.
Dentro da temática dos direitos fundamentais, vários aspectos são imprescindíveis no estudo, tais como seus
fundamentos históricos (ex: carta magna, constituições norte-americana e francesa etc.), filosóficos
(dignidade da pessoa humana) e teóricos (jusnaturalismo, positivismo e realismo); características (ex:
historicidade, indisponibilidade, eficácia vertical e horizontal etc.); gerações (1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª); fontes
(tratados internacionais, constituições); limites (teoria interna, externa, limite dos limites).
Contudo, todos são temas tratados exaustivamente em outras disciplinas, sendo citados, em Processo Civil,
na medida em que se tornar necessário.
Como efeito da já dita força normativa da constituição, os direitos fundamentais passaram a ter carga
normativa e passaram a ser encarados como uma pauta mínima ética sobre a qual se constrói o direito.
Assim, o Legislativo não pode tudo, tem que respeitar o mínimo ético dos direitos fundamentais construídos
ao longo dos séculos, sob pena de eventual lei afrontar as cláusulas pétreas (art. 60, § 4º, IV) e ser declarada
inconstitucional.
O Executivo também não pode tudo, devendo respeitar e garantir os direitos fundamentais, sob pena de que
tal garantia seja promovida pelo Poder Judiciário, em uma de suas principais funções que é agir de forma
contramajoritária para proteger direitos fundamentais.
44
Para Lassale, a Constituição era vista como mera folha de papel, nada mais expressando senão as relações de poder fáticas
existentes. LASSALE, Ferdinand. O que é uma constituição? Tradução de Gabriela Edel Mei. São Paulo: Pilares, 2015
45
SILVA, José Afonso da. Aplicabilidade das normas constitucionais. 2ª ed. São Paulo: Malheiros, 1982.
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Além disso, os direitos fundamentais passaram a ser estudados em uma dupla dimensão:
➢ Dimensão objetiva: direitos fundamentais são normas como normas que orientam a produção de
outras normas, isto é, são elementos normativos mínimos orientadores de todo o ordenamento
jurídico. Isso repercute no processo no sentido de que há um direito processual fundamental, que
serve como parâmetro para todo direito processual infraconstitucional.
➢ Dimensão subjetiva: são vistos como direitos subjetivos, ou seja, posições de vantagem subjetivas
atribuídas às pessoas.
Em relação ao Processo Civil, poderíamos dizer, por exemplo, que Francisco tem direito ao
contraditório; Ana Maria tem direito ao juiz natural. Além disso, o processo tem de ser adequado
para bem proteger tais direitos fundamentais.
O processo tem que ser construído de acordo com os direitos fundamentais (dimensão objetiva)
e, além disso, tem que servir como instrumento para bem tutelar os direitos fundamentais
(dimensão subjetiva).
Todos os países europeus democráticos, um a um, praticamente, com algumas exceções como o
Reino Unido e Holanda, passaram a adotar Tribunais Constitucionais e a permitir o controle de
constitucionalidade das leis. Este modelo na Europa é processualmente diferente do modelo
adotado nos Estados Unidos, mas o conceito de que a última palavra na interpretação da
Constituição é dada pelo Poder Judiciário foi o que prevaleceu.
46
BARROSO, Luís Roberto. O novo direito constitucional e a constitucionalização do Direito. Disponível em:
<[Link] Acesso em
06/01/2021.
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Professor, agora sim consegui entender quais foram os marcos do Neoconstitucionalismo e a influência para
o Processo Civil.
Muito bem! Uma vez internalizados os marcos do neoconstitucionalismo, é imprescindível apontar quais
foram suas consequências.
Com a rejeição da necessidade do formalismo jurídico positivista, com a concepção de força normativa da
Constituição, máxima efetividade dos direitos e garantias fundamentais etc., questões de interesse
predominante do Poder Executivo - como a implementação de políticas públicas e de direitos sociais -
passaram a fazer parte da esfera de atuação do Poder Judiciário, reforçando, sobremaneira, o seu papel
constitucional. Nessa quadra, é importante perceber uma excessiva judicialização, bem como um maior
ativismo judicial47.
47
Barroso diferencia ativismo judicial de judicialização. Ele explica que a judicialização representa em grande parte a transferência
de poder político para o Judiciário, principalmente, para o Supremo Tribunal Federal. “A judicialização é fato”. O constitucionalista
aponta três causas: a redemocratização do país, que levou as pessoas a procurarem mais o Judiciário; a constitucionalização, que
fez com que a Constituição de 1988 tratasse de inúmeros assuntos; e o sistema de controle de constitucionalidade. Já o ativismo,
ao contrário da judicialização, não é fato, diz Barroso, mas atitude. Acontece quando há um déficit de outros Poderes e o Judiciário
aplica princípios a situações não previstas em leis. Ele cita como exemplo a fidelidade partidária, quando o Tribunal Superior
Eleitoral estabeleceu, e o Supremo confirmou, norma não prevista na Constituição em nome do princípio democrático. A demanda
para acabar com o troca-troca de partido, diz, não foi atendida pelas instâncias políticas competentes.
48
Já dissemos que, tecnicamente, certo é dizer que, na concepção de Alexy, a proporcionalidade é regra e não princípio.
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princípios. O juiz não é apenas a “boca da lei”, como afirmavam os positivistas exegéticos franceses, devendo
exercer um papel importante nessa nova hermenêutica jurídica.
Portanto, podemos citar como consequências principais: a) aumento da Judicialização dos conflitos; b)
maior intervenção do Poder Judiciário em políticas públicas, garantia de direitos sociais etc.; c) utilização
recorrente da técnica da ponderação.
Ocorre que essas consequências foram tão intensas que já se levantam vozes fortes contrárias a esse exagero
do Poder Judiciário. Qual crítica é feita hoje ao Neoconstitucionalismo?
Essa fase levou ao cometimento de uma série de abusos, do uso exagerado dos princípios, da criatividade
judicial, da flexibilização exacerbada da lei. Os juízes, sob o escudo de princípios, muitas vezes de duvidosa
aplicação, passaram a decidir de forma discricionária49.
49
MALMSTEIN, George. Teoria da Katchanga; ÁVILA, Humberto. Neo-constitucionalismo: entre o direito da ciência e a ciência do
direito; SARMENTO, Daniel. Neo-constitucionalismo: riscos e possibilidades; STRECK, Lênio. Eis porque abandonei o
“neoconstitucionalismo”. Disponível em: <[Link]
neoconstitucionalismo> Acesso em 01/01/2021.
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Essa crítica já vem sendo cobrada em prova! Vejamos a questão discursiva do TJSP.
TJSP – 186º Concurso – Juiz de Direito: Dissertação “O profissional do Direito, ao construir soluções
para os casos, tem um dever analítico. Não bastam boas intenções, não basta intuição, não basta
invocar ou elogiar princípios; é preciso respeitar o espaço de cada instituição, comparar normas e
opções, estudar causas e consequências, ponderar as vantagens e desvantagens. Do contrário
viveremos no mundo da arbitrariedade, não do Direito.”
A partir do trecho citado, disserte sobre a proposição nele contida, abordando os seguintes pontos: a)
o enquadramento da propositura nas escolas jusnaturalistas ou do positivismo jurídico; b) a relação
que o texto estabelece entre princípios e normas; c) a relação que a solução baseada exclusivamente
em princípios com os tipos de racionalidade jurídica expostos por Max Weber; d) o modo pelo qual o
respeito “ao espaço de cada instituição” referido no texto acarreta novos desafios para a legitimidade
da jurisdição estatal.
Resposta: Pelo tamanho, transcrevi minha resposta a essa questão no final deste pdf.
Resposta: A questão é de Direito Constitucional, mas poderia ser respondida quase que integralmente
pelo que falamos durante a aula. Discorremos sobre neoconstitucionalismo, pós-positivismo. Falamos
do substancialismo e do procedimentalismo. Diferenciamos regras de princípios. Sobre as dimensões
da igualdade, as abordaremos no capítulo de princípios. O seguinte artigo de Lênio Streck aborda todos
esses temas diretamente: “Jurisdição Constitucional e Hermenêutica: Perspectivas e Possibilidades de
Concretização dos Direitos Fundamentais Sociais no Brasil”.
Para terminar, vale aduzir que, nos últimos anos, em algumas decisões, percebe-se que o Judiciário está
tentando ter uma maior autolimitação (judicial self-restraint).
41
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Por exemplo, o STJ50 já suscitou a doutrina Chenery51, segundo a qual o Judiciário não pode anular um ato
adotado pela Administração sob o argumento de que ele não se valeu de metodologia técnica. Isso porque,
em temas envolvendo questões técnicas e complexas, os Tribunais não gozam de expertise para concluir se
os critérios adotados pela Administração são corretos ou não. No caso, o STJ entendeu que a interferência
judicial para invalidar a estipulação das tarifas de transporte público urbano viola a ordem pública, mormente
nos casos em que houver, por parte da Fazenda estadual, esclarecimento de que a metodologia adotada
para fixação dos preços era técnica.
O STF, por sua vez, já adotou a doutrina Chevron (Chevron deference)52, segundo a qual ao juiz cabe
inicialmente verificar se a lei é clara quanto ao assunto em discussão. Se a lei é clara, é dever do juiz aplicar
a lei e não será dada deferência. Se a lei não for clara, dá-se um segundo passo: não caberá aos tribunais
fornecer a solução para aquela vagueza, mas sim apenas verificar se a solução posta pela agência é razoável.
No caso concreto, o STF pontuou:
Ufa...agora sim acabou. Conseguiram acompanhar? Lembre-se de que, qualquer coisa que precisarem, estou
disponível no fórum do aluno e nas redes sociais.
Cientes desse influxo do Neoconstitucionalismo no Processo Civil, poderemos adentrar no estudo mais
objetivo do CPC/15 e das regras e princípios que compõem a nossa disciplina.
Vamos lá!?
Antes, apenas destacaremos um último tópico que, às vezes, tem sido cobrado.
50
STJ, CE, AgInt no AgInt na SLS 2.240-SP, Rel. Min. Laurita Vaz, d.j. 7/6/17 - Info 605.
51
Provem de decisão da Supreme Court de 1943 no caso SEC versus Chenery Corp.
52
Cunhada no precedente Chevron U.S.A. Inc versus Natural Resources Defense Council, julgado pela SCOTUS em 1984.
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Processo e Ideologia
Podemos perceber que, com a influência do Neoconstitucionalismo, o Processo Civil deve ser compreendido
em sua ideologia Democrática, sempre tendo por desiderato fazer com que o juiz supere o positivismo
acrítico e efetivamente tutele o direito material, principalmente os direitos fundamentais, em uma atitude
comprometida com a Constituição. A legislação deve ser compreendida a partir dos princípios constitucionais
e dos direitos fundamentais, e é o juiz quem tem o dever de interpretá-la de acordo com a Constituição.
Entendo, porém, que o trecho “processo e ideologia” impõe que façamos uma referência à obra de Ovídio
Baptista da Silva, cujo título é justamente “Processo e Ideologia53”, lançada em 2004.
O que nos interessa é a parte inicial, em que ele traça os motivos pelos quais ele entende que o Processo
Civil não evoluiu e estava ainda baseado no Iluminismo, na filosofia cartesiana, no racionalismo, recheado
de formalismos que, de certa maneira, traziam a ineficiência da tutela jurisdicional. Além disso, o direito se
prende muito na norma, esquecendo-se dos fatos.
Todas essas características impedem o juiz de interpretar a lei de modo mais livre, impondo-lhe uma
condição de bouche de la loi. Nesse livro, portanto, Ovídio advoga um poder de interpretação mais amplo do
juiz. A superação do paradigma racionalista, no seio processual civil, estaria, portanto, na eliminação da
desconfiança (que racionalistas têm) com a discricionariedade judicial54.
Obs: Essa ideia de concessão de maior discricionariedade ao juiz é bastante controversa. É atitude
justamente combatida por inúmeros doutrinadores atuais (ex: Lênio Streck, Rafael de Oliveira, André Karam
Trindade, Dierle Nunes etc.).
Para compreender de modo mais claro suas motivações, interessante lermos a entrevista concedida por
Ovídio à Academia Brasileira de Direito Processual Civil (ABDPC).
ABDPC - Caro professor Ovídio, fale-nos um pouco sobre o seu novo livro "Processo e
Ideologia": o que o levou a escrever um livro abordando a temática do processo e da ideologia?
PROF. OVÍDIO - Você deseja saber os motivos que me levaram a escrever o livro "Processo e
ideologia". (...) diria que meus interesses, a partir de uma certa época, que eu dataria como
compreendo os últimos dez anos, orientaram-se para a investigação dos pressupostos históricos,
políticos, basicamente culturais, que formaram o direito moderno, particularmente o processo
53
Há doze capítulos em Processo e Ideologia: 1) “O Pensamento Ideológico”; 2) “Os Juristas e o Poder”; 3) “Processo, Racionalismo
e Reforma Religiosa”; 4) “OParadigma Racionalista e a Tutela Preventiva”; 5) “Fundamentos do Procedimento
Ordinário”; 6) “Demandas Plenárias e Sumárias”; 7) “‘Ação’ e Ações na História do Processo Civil moderno”; 8) “Tempo do
Processo e Regulação da Sucumbência”; 9) “Uso Alternativo do Procedimento Ordinário — Tutelas de urgência”; 10) “Os Recursos
— Viés Autoritário da Jurisdição”; 11) “Do Lógico ao Analógico”; e 12) “Processo Civil, Individualidade e Democracia”.
54
SILVEIRA, Marcelo. Processo e Ideologia de Ovídio Baptista. Disponível em: < [Link]
e-ideologia-de-ovidio-araujo-baptista-da-silva-por-marcelo-pichioli-da-silveira >. Acesso em 21.04.2020.
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ABDPC - O senhor ressalta, nos capítulos iniciais de seu livro, que nos primórdios da Era
Moderna a "interpretação" da lei era combatida pelo poder político. O senhor poderia nos
explicar melhor o que isso significa?
PROF. OVÍDIO - Não apenas no início da Era Moderna a interpretação da lei foi combatida pelo
Poder político (no sentido amplo, que inclui também, muito especialmente o "poder invisível" ou
o poder informal). Ainda hoje, nosso sistema conserva-se instrumento de nossas elites. Na
verdade, como disse noutro capítulo, o direito moderno (quero referir-me especialmente ao
processo) nasceu irmanado com o capitalismo que construiu o Estado Industrial. Daí ser utópico
transformá-lo sem que minimamente se transformem nossas condições sociais. Nós ainda
estamos impedidos de interpretar a lei. Nossa função, especialmente a do juiz, é apenas
descobrir "vontade do legislador" ou, mais docemente, a "vontade da lei". Esta exigência mistura,
proposital e convenientemente, texto e sentido do texto, como se o texto legal tenha um sentido
invariável, uma "vontade constante", como dizia um célebre texto de direito romano medieval.
Isto, naturalmente, impede que se interprete - em autêntico sentido hermenêutico - a norma
legal. O juiz apenas revela a vontade da lei, como se o sentido, o significado da proposição
legislativa fosse sempre o mesmo. Este é um dos aspectos (apenas um deles) antidemocráticos
do sistema.
ABDPC - Uma das denúncias mais fortes dos capítulos iniciais de seu livre consiste na tentativa
de "geometrização" do direito empreendida pelos filósofos modernos (Descartes, Leibniz, etc.).
O senhor poderia nos dar um exemplo do reflexo dessa atitude no moderno direito (não
necessariamente apenas no âmbito processual)?
PROF. OVÍDIO - Pensamos o direito - não no passado, mas atualmente - pelos critérios das
ciências experimentais, basicamente pela epistemologia das ciências exatas. Claro, reproduzindo
Savigny, resolvemos os problemas jurídicos como quem resolve uma equação algébrica. Não
dizemos, com a tranqüilidade dos puros, que o juiz errou quando a sentença nos prejudica; e que
ele acertou quando julga a nosso favor? Para nossa compreensão, cuidadosamente preparada
pela Universidade, o juiz, ao julgar, raciocina como deveria raciocinar um físico ou um
matemático. Estamos na epistemologia do "certo" e do "errado". (...) Veja, como é complicado
ignorar, pior ainda, aceitar um sistema que se congelou no século XVIII.
Sabendo dessa crítica do renomado professor gaúcho, passemos às fontes do Direito Processual Civil.
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4 - FONTES
É o lugar de onde são oriundos os preceitos jurídicos, bem como os meios e as formas de revelação do Direito.
Como afirma Alexandre Câmara55, o estudo das fontes é extremamente importante para a delimitação do
que pode ser considerado Direito. Assim é que o Direito Processual só o é enquanto provém de uma das
fontes do Direito Processual.
a) fontes materiais ou reais, que são não só fatores sociais, que abrangem os históricos, os religiosos, os
naturais (clima, solo, raça, natureza geográfica do território, constituição anatômica e psicológica do
homem), os demográficos, os higiênicos, os políticos, os econômicos e os morais (honestidade, decoro,
decência, fidelidade, respeito ao próximo), mas também os valores de cada época (ordem, segurança, paz
social, justiça), dos quais fluem as normas jurídico-positivas.
b) fontes formais, que se subdividem em estatais e não estatais. As estatais subdividem-se em legislativas
(leis, decretos, regulamentos, tratados internacionais etc.) e jurisprudenciais (sentenças, precedentes
55
CÂMARA, Alexandre. Lições de Direito Processual Civil. 20ª Ed. Lumenjuris: Rio de Janeiro, 2010.
56
Op. Cit, p. 190.
57
DINIZ, Maria Helena. Fontes do direito. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo
Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Teoria Geral e Filosofia do Direito. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de Azevedo
Gonzaga, André Luiz Freire (coord. de tomo). 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível
em: < [Link] >. Acesso em: 10.02.2020.
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judiciais, súmulas etc.). As não estatais, por sua vez, abrangem o direito consuetudinário (costume jurídico),
o direito científico (doutrina) e as convenções em geral ou negócios jurídicos.
a) fontes materiais, sendo o conjunto de fatores políticos, históricos, sociais, culturais e econômicos que
influenciaram a criação da norma jurídica.
b) fontes formais, consubstanciando na norma jurídica já constituída. Essas fontes formais se subdividem
em:
i- fontes formais heterônomas: a norma advém de um terceiro, em geral o Estado, sem a participação do
destinatário. Aqui estão enquadradas a lei lato sensu (Constituição, Leis ordinária e complementar, medida
provisória, decreto, tratados internacionais), súmulas vinculantes, sentença arbitral e sentenças normativas.
ii- fontes formais autônomas: o destinatário da norma participa. Estão enquadradas a convenção coletiva de
trabalho; acordo coletivo de trabalho e os costumes.
Em certames fora da área trabalhista, a classificação de Marcus Vinícius Gonçalves59 é cobrada. O autor
divide as fontes do direito processual civil em:
58
SARAIVA, Renato. SOUTO, Rafael Tonassi. Direito do Trabalho: concursos públicos. 21ª ed. Salvador: Juspodivm, 2018, pp. 27-31.
59
GONÇALVES, Marcus Vinicius Rios. Op. Cit., pp. 51-58.
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a) fontes formais, havendo subdivisão em: i- fonte formal imediata (Lei lato sensu60); ii- fonte formal mediata
ou acessória (analogia, costumes, princípios gerais do direito e as decisões com efeito vinculante - súmula
vinculante e decisão do STF em controle concentrado).
De maneira similar, mas acrescendo as fontes materiais, Nelson Rosenvald e Cristiano Chaves61 dividem as
fontes em:
a) fontes materiais, sendo o conjunto de fatores políticos, históricos, sociais, culturais e econômicos que
influenciaram a criação da norma jurídica (direito político)62.
b) fontes formais, sendo aquelas que determinam os modos de formação e de revelação das normas
jurídicas, havendo subdivisão em: i- fonte formal imediata (Lei lato sensu); ii- fonte formal mediata ou
acessória (analogia, costumes, princípios gerais do direito, súmula vinculante e normas decorrentes do poder
normativo da justiça do trabalho em dissídios coletivos);
Ao longo dos últimos anos, porém, tem-se visto uma discussão importante sobre algumas das fontes formais
(imediatas e mediatas) e as fontes não formais, representada no quadro abaixo:
60
No Processo Civil, destacam-se a Constituição da República, Lei 13.105/15, leis estaduais, tratados internacionais e regimentos
internos dos Tribunais. Ademais, citam-se as Leis dos Juizados, Lei do Mandado de Segurança, Falência, CDC, ACP, inquilinato,
dentre outras. Ainda, pode haver normas processuais em diplomas materiais, como, por exemplo, normas de processo civil no
código civil (normas heterotópicas). Os seguintes artigos do Código Civil são exemplos disso: artigos 194; 227; 274; 456 (os quatro
já revogados); 788; 1.647, I e II; 787, § 3º; 1.698; 447.
61
ROSENVALD, Nelson; CHAVES, Cristiano. Curso de Direito Civil: parte geral. Vol. 1. 14ª ed. Salvador: Juspodivm, 2016, pp. 114-
117.
62
Pode-se dizer que a quantidade enorme de processos no Judiciário foi um fator de estímulo à criação do CPC/15.
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Segundo a doutrina clássica, pela tradição romano-germânica (civil law) do direito pátrio, o direito processual
civil era e ainda é ancorado, essencialmente, na Lei lato sensu (Constituição, Lei federal, Lei estadual,
tratados internacionais, regimentos internos dos Tribunais). Portanto, esta era e continua sendo a fonte
primária e imediata do processo civil. O próprio artigo 5º, II, CRFB demonstra a existência de sistema
substancialmente legalista, ao aduzir que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em
virtude de lei”.
Considerando, porém, que o legislador não é capaz de prever soluções para todas as situações de possíveis
contendas, aliado ao fato de que a sociedade está em permanente transformação, utilizava-se a doutrina da
designação fonte formal mediata para indicar as fontes utilizadas em caso de omissão legislativa, quais
sejam, analogia, costumes e princípios gerais do direito.
O art. 4º, da antiga Lei de Introdução ao Código Civil (atual Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro)
e art. 126, CPC/73 assim preceituavam:
Art. 4o Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os
princípios gerais de direito.
Art. 126. O juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade da lei.
No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia,
aos costumes e aos princípios gerais de direito. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
Dizia-se, ainda, que nesses artigos havia uma ordem a se seguir. Primeiro, deveria buscar a analogia. Após,
buscar-se-ia os costumes e, ao fim, os princípios gerais do direito. Vejamos os conceitos.
A analogia consiste na aplicação de uma norma legal reguladora de um caso para uma outra situação similar,
em decorrência da ausência de norma para este caso concreto sob análise. Diferencia-se ainda analogia legis
(criação de uma norma ao caso concreto com base em outra norma) e analogia iuris (criação da norma ao
caso concreto com base em todo o ordenamento jurídico).
Os costumes, por sua vez, caracterizam-se pelo binômio: a) elemento objetivo - prática reiterada; b)
elemento subjetivo (opinio iuris) – convicção de que aquela prática é obrigatória.
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Os princípios gerais do Direito são considerados como aquelas normas que, embora não sejam escritas,
encontram-se presentes em todo o sistema, tais como: “o direito não socorre aos que dormem”; “ninguém
pode ser beneficiado pela própria torpeza”; “o alegado e não provado é como não alegado”.
Por fim, alguns ainda elencavam a equidade como fonte formal indireta. Consoante afirma o art. 140,
parágrafo único, CPC (antigo art. 127, CPC/73), a equidade pode ser utilizada no direito apenas quando
houver expressa autorização legal. Abaixo listo algumas hipóteses em que ela é permitida:
Há quem distinga três tipos de equidade63: equidade substitutiva, equidade integrativa, equidade
interpretativa.
a) fala-se de equidade substitutiva quando o juiz estabelece uma regra que supre a falta de uma norma
legislativa;
b) fala-se de equidade integrativa quando a norma legislativa existe, mas é demasiadamente genérica e,
portanto, não define com precisão todos os elementos da fatti specie ou todos os efeitos jurídicos. Neste
caso a equidade opera no âmbito da norma legislativa, completando-lhe as partes faltantes;
c) fala-se de equidade interpretativa quando o juiz define, com base em critérios equitativos, o conteúdo de
uma norma legislativa que existe e é completa.
Como fonte não formal ou materiais (sem força vinculante), eram elencadas a doutrina e a jurisprudência.
A doutrina é formada pelo conjunto de lições dos jurisconsultos acerca do Direito Processual Civil.
A jurisprudência, a seu turno, segundo Miguel Reale64, deve ser entendida como a forma de revelação do
direito que se processa através do exercício da jurisdição, em virtude de uma sucessão harmônica de
decisões dos tribunais.
63
SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Princípio da Reparação Integral. 1ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p.91.
64
REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito, 27ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2009.
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Ocorre que esse posicionamento, tendo em vista os influxos do neoconstitucionalismo, que rechaçou, por
exemplo, a utilização dos princípios gerais do direito como fonte mediata (utilizável apenas na omissão
legislativa), bem como o novo enfoque do CPC/15 dado à jurisprudência, mais especificamente aos
precedentes vinculantes, é possível falar, atualmente, na teoria moderna das fontes do Direito Processual
Civil.
Com o Constitucionalismo Contemporâneo (oriundo do 2º pós guerra), e a mudança já vista na teoria das
fontes, é possível conceber o gênero normas composto de duas espécies, regras e princípios.
Os princípios, nessa quadra, são mandamentos de otimização, que devem ser cumpridos na maior medida
possível, considerando as condições fáticas e jurídicas subjacentes. Tais princípios, dada a sua condição
deontológica (dever-ser), devem ser tidos como fontes formais diretas e não aplicados apenas em casos de
omissão legislativa.
Ele menciona que os princípios gerais do direito consistiam em uma autorização para o juiz decidir de forma
discricionária.
65
STRECK, Lênio. Hermenêutica Jurídica em Crise: uma exploração hermenêutica da construção do Direito. Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2012, p. 133, 139.
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Lênio é crítico do positivismo normativista de Hans Kelsen, pois diz que o capítulo VIII da Teoria Pura do
Direito do referido autor, confere-se enorme discricionariedade ao magistrado ao dizer que o juiz tem, diante
de si, um quadro com inúmeras possibilidades conferidas pela norma. E que, por um ato de vontade, o juiz
escolhe uma das possibilidades.
A ideia de princípios gerais do direito vinha exatamente nesse sentido: na falta de norma que delineasse a
moldura, o art. 4º da LINDB dizia que o juiz buscaria os princípios gerais do direito.
Lênio critica a teoria da decisão dos positivistas normativistas (Kelsen), adotando a concepção de Dworkin
de que, para cada caso concreto, há sim uma decisão adequada. Caberia ao juiz hércules, segundo Dworkin,
apreendê-la.
2ª mudança: mudança da jurisprudência como fonte não formal para fonte formal imediata
Como salienta Elpídio Donizetti66, “com o advento do CPC/15, superada está a controvérsia sobre a admissão
da jurisprudência como fonte do Direito”.
Passou-se a adotar um sistema de precedentes judiciais obrigatórios, consoante art. 927, CPC.
66
DONIZETTI, Elpídio. Curso Didático de Direito Processual Civil, 20ª Ed. São Paulo: Atlas, 2017, p. 6.
51
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O precedente é uma decisão judicial verificada à luz do caso concreto, capaz de persuadir decisões futuras
sobre temas iguais ou semelhantes.
Jurisprudência, segundo Miguel Reale67, deve ser entendida como a forma de revelação do direito que se
processa através do exercício da jurisdição, em virtude de uma sucessão harmônica de decisões dos
tribunais. Essas decisões podem ser precedentes ou não.
67
Op. Cit., p. 203.
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Maiores aprofundamentos ficarão para o final do curso, quando tratarmos da sistemática recursal e dos
precedentes vinculantes.
O que importa saber, por ora, é que a Jurisprudência é fonte inegável do Direito. Ficou claro o enfoque do
novo CPC à segurança jurídica e ao respeito às decisões dos tribunais superiores6869.
Como fontes formais mediatas ou indiretas (analogia, costume e equidade) e fonte não formal (doutrina),
remete-se o aluno para os conceitos já destrinçados no tópico anterior.
Em regra, apenas a União está autorizada a produzir/criar normas de Direito Processual Civil (art. 22, I, CRFB).
ATENÇAO: A Lei Complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre matéria específica de interesse
local (art. 22, parágrafo único, CRFB/88).
I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e
do trabalho.
Parágrafo único. Lei complementar poderá autorizar os Estados a legislar sobre questões
específicas das matérias relacionadas neste artigo.
Ademais, lembrem-se que o art. 24, incisos IV, X e XI, CRFB dispõem que:
Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre:
68
A título de curiosidade, a Min. Ellen Gracie conta uma passagem curiosa de sua vida. Nos EUA, chegando ao hotel, pediu que lhe
fosse entregue um papel contendo as tarifas que deveria pagar quando de sua saída, para se precaver. No dia seguinte, ao fechar
a conta, a recepcionista não cobrou uma daquelas tarifas. Ao indagar do porquê, a funcionária afirmou que no dia anterior a
Suprema Corte tinha declarado inconstitucional aquela tarifa. Vejam o respeito imediato que as pessoas, empresas e órgãos têm
às decisões da Suprema Corte.
69
Outra curiosidade: em palestra de um professor alemão em na UFMG, foi-lhe perguntado o que ocorre na Alemanha se um juiz
de primeiro grau desrespeita uma decisão do Tribunal Constitucional, isto é, se existia algo similar à reclamação do direito
brasileiro. O Professor ficou sem entender a pergunta, pois lá é inconcebível o desrespeito à decisão de Tribunal Superior.
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No tocante ao inciso XI, a dificuldade é saber quais seriam normas de processo e de procedimento.
Veremos mais à frente do curso as diversas concepções de processo. Dentre elas, temos a concepção de
processo como contrato; quase contrato; relação jurídica, situação jurídica; procedimento em contraditório,
entidade complexa etc.
A depender da corrente que se adote, a interpretação desse artigo ficará ainda mais complicada.
1ª corrente71: A doutrina majoritária entende que não há essa abertura aos Estados para legislarem sobre
processo.
Vicente Greco aduz que por “procedimentos em matéria processual devem-se entender os procedimentos
administrativos de apoio ao processo, e não o procedimento judicial, já que este é indissociável do processo”.
A exemplo, o Estado poderia regular o procedimento administrativo para arquivamento, desarquivamento
dos autos; procedimento administrativo para remessa à imprensa oficial etc.
2ª corrente: Doutro lado, Paula Sarno Braga72, após discorrer sobre as inúmeras teorias sobre o processo,
conclui que não há distinção criteriosa, clara e correta entre processo e procedimento, o que daria azo à
criação de leis processuais por parte dos Estados.
Assim, os Estados podem legislar sobre processo complementarmente ao padrão geral, respeitando as suas
peculiaridades.
Sobre o tema, há que se aguardar manifestação enfática do STF, até então inexistente. De todo modo, vale
consultar o voto da Min. Rosa Weber na ADI 2932/ES (d.j. 04/11/21), no qual elenca casos apreciados pelo
STF em que reconheceu a inconstitucionalidade de leis estaduais por terem criado normas sobre processo,
adentrando na competência privativa da União (art. 22, I, CRFB).
No que tange ao inciso X, Alexandre Câmara diz que não há como negar o caráter de fonte do Direito
Processual às leis estaduais. Poderiam os Estados legislar sobre processo nos juizados, instituindo, por
70
Importante salientar que, em 2018, o Estado de Pernambuco foi o 1º a criar esse código de procedimentos em matéria
processual (Lei n. 16.397/18). Disponível em: < [Link] Acesso em
01/01/2021.[Link]
71
GAJARDONI, Fernando da Fonseca. Procedimento. Enciclopédia jurídica da PUC-SP. Celso Fernandes Campilongo, Alvaro de
Azevedo Gonzaga e André Luiz Freire (coords.). Tomo: Processo Civil. Cassio Scarpinella Bueno, Olavo de Oliveira Neto (coord. de
tomo). 1. ed. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017. Disponível em: <
[Link] >. Acesso em 22.04.2020.
72
BRAGA, Paula Sarno. Normas de Processo e de Procedimento: o problema da repartição de competência legislativa no direito
constitucional brasileiro. Ed. Salvador: Juspodivm, 2015.
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exemplo, regras quanto à assistência judiciária pela Defensoria Pública, ou a forma de se realizar a execução
perante aqueles órgãos, desde que tais normas não sejam contrárias às gerais editadas pela União.
Além dessa competência concorrente, a CRFB atribui aos Estados a incumbência de organizar sua própria
justiça, editando leis de organização judiciária (art. 125, § 1º), bem como dispor sobre competência dos
tribunais e sobre o processo declaração de inconstitucionalidade de leis estaduais e municipais (art. 125, §
2º).
Art. 125. Os Estados organizarão sua Justiça, observados os princípios estabelecidos nesta
Constituição.
Saliente-se, ainda, que os regimentos internos dos tribunais estaduais influenciam diretamente no direito
processual ao estabelecer ritos para determinados recursos, como o agravo regimental, por exemplo.
Sobre as medidas provisórias, constituem uma espécie normativa peculiar, pois, ao contrário da regra, elas
são criadas pelo Presidente da República, pelo Governador ou pelos Prefeitos, ou seja, pelo Poder
Executivo73.
Em razão disso, a medida provisória tem validade por 60 dias, prorrogáveis por outros 60 dias, e será editada
apenas em situações de relevância e de urgência.
Passado esse período, se a medida provisória não for convertida em lei, perderá sua eficácia.
Por conta de todas essas questões específicas, há vedação no Texto Constitucional para a edição de tal
espécie normativa para disciplinar o Direito Processual Civil, nos termos do art. 62. §1º, I, da CRFB.
73
Na ADI 425, em 2001, o STF mencionou ser autorizada a edição de MP no âmbito estadual e municipal. A propósito, Alexandre
de Moraes diz que: “o Supremo Tribunal Federal considera as regras básicas de processo legislativo previstas na Constituição
Federal como modelos obrigatórios às Constituições Estaduais. Tal entendimento, que igualmente se aplica às Leis Orgânicas dos
Municípios, acaba por permitir que no âmbito estadual e municipal haja previsão de medidas provisórias a serem editadas,
respectivamente, pelo Governador do Estado ou Prefeito Municipal e analisadas pelo poder Legislativo local, desde que, no
primeiro caso, exista previsão expressa na Constituição Estadual e no segundo, previsão nessa e na respectiva Lei Orgânica do
Município. Além disso, será obrigatória a observância do modelo básico da Constituição Federal". MORAES, Alexandre de. Direito
Constitucional, 10ª ed. São Paulo: Atlas, 2001, p. 550-551.
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Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar medidas
provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional.
§1º É vedada a edição de medidas provisórias sobre matéria: I – relativa a: b) direito penal,
processual penal e processual civil; (Incluído pela Emenda Constitucional nº 32, de 2001)
A vedação, contudo, só passou a existir a partir da EC32/2001, de modo que, antes, era possível legislar sobre
a matéria. A título de curiosidade, o art. 16 da LACP74 foi alterado por uma medida provisória, convertida em
lei, posteriormente, em 1997.
Outro ponto digno de destaque é a mudança promovida no CPC pela Lei n. 14.195/21, que foi fruto da
conversão da MP 1.040/21. Na MP, não havia nenhuma previsão sobre o Processo Civil, até porque é
constitucionalmente vedado, mas, ao converterem a MP em Lei, inseriram o art. 44, alterando diversos
dispositivos do CPC (arts. 77, 238, 246, 247, 397 e 921). Tal prática, chamada de contrabando legislativo ou
inserção de emenda jabuti, já foi reconhecida inconstitucional pelo STF75. Aguardemos os desdobramentos.
Portanto...
74
Em julgamento do tema 1075, em 2021, o STF declarou inconstitucional o dispositivo, mas não por vício formal, já que, em 1997,
podia sim medida provisória versar sobre Direito Processual Civil.
75
Viola a Constituição da República, notadamente o princípio democrático e o devido processo legislativo (arts. 1º, caput, parágrafo
único, 2º, caput, 5º, caput, e LIV, CRFB), a prática da inserção, mediante emenda parlamentar no processo legislativo de
conversão de medida provisória em lei, de matérias de conteúdo temático estranho ao objeto originário da medida provisória.
2. Em atenção ao princípio da segurança jurídica (art. 1º e 5º, XXXVI, CRFB), mantém-se hígidas todas as leis de conversão fruto
dessa prática promulgadas até a data do presente julgamento, inclusive aquela impugnada nesta ação. 3. Ação direta de
inconstitucionalidade julgada improcedente por maioria de votos. (ADI 5127, Rel. Min. Rosa Weber, Rel. p/ acórdão: Min. Edson
Fachin, Tribunal Pleno, julgado em 15/10/2015)
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Fredie Didier vem dizendo que há 11 fontes do Direito Processual Civil no Brasil.
Em verdade, ele menciona que existem 10 + 1, pois a 11ª não é bem uma fonte do direito processual, mas
tem que ser estudada no conjunto das fontes, pois ajuda a compreender.
2ª fonte: Lei federal ordinária, que pode prever normas processuais federais (art. 22, I, CRFB)
3ª fonte: Tratados Internacionais de Direitos Humanos, com previsões processuais, a exemplo do Pacto de
São José da Costa Rica (proibição de prisão civil do depositário infiel, audiência de custódia), Tratado de Nova
York, que regula ação de alimentos entre pessoas que estão em países diversos, Protocolo de las lenas, que
dispõe sobre a cooperação entre países do Mercosul, Tratado de Roma, que prevê normas processuais para
União Europeia.
4ª fonte: – Medida Provisória. Atualmente, não é admitida para legislar sobre direito processual, mas tal
vedação foi inserida apenas em 2001. Antes dessa data, porém, houve casos de MP sobre direito processual
civil.
5ª fonte – Constituição e Leis Estaduais, que podem editar: a) competência dos Tribunais; b) lei de
organização judiciária (art. 125, § 1º), c) processo de controle de constitucionalidade de leis estaduais e
municipais (art. 125, § 2º).d) processos nos juizados especiais (art. 24, X, CRFB); e) procedimento em matéria
processual (art. 24, XI, CRFB); e) Cooperação judiciária pode ser regulamentada pela leis estaduais; f)
Intervenção de entes públicos estaduais no processo (Lei 9469/97).
6ª fonte: Precedentes
8ª fonte: normas administrativas. Como exemplos, podemos citar que resoluções do CNJ suspenderam
prazos durante a pandemia da COVID-19, regulamentou plantão judiciário (e, portanto, competência) etc.
Ademais, o próprio CPC remete às resoluções do CNJ, como normas de complementação do CPC – cadastro
de peritos, complementação do sistema de precedentes e procedimento para apuração de demora
irrazoável pelo juiz. Já há trabalhos acadêmicos analisando, justamente, o Direito Processual das Resoluções.
9ª fonte: Tribunais têm poder normativo para regular sua própria atuação. Não podem contrariar a lei, mas
podem avançar em espaços que a lei deixa em aberto. O CPC, por exemplo, tem mais de 20 remissões aos
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regimentos internos dos tribunais76. O Regimento Interno do STF regulamentou a sustentação oral por
videoconferência.
10ª fonte: Costumes77. Já dissemos que os costumes se caracterizam pelo binômio: a) elemento objetivo -
prática reiterada; b) elemento subjetivo (opinio iuris) – convicção de que aquela prática é obrigatória. Na
Espanha, reconhece-se jurisdição a tribunais consuetudinários, como, por exemplo, o Tribunal das águas de
Valença. As grandes normas da arbitragem internacional são os costumes, falando-se numa lex mercatória
processual. No cenário nacional, em demandas envolvendo indígenas, por exemplo, os caciques
representam as tribos.
11ª fonte: Soft law. Não é fonte, mas é muito importante, pois vem sendo utilizado para referir a
determinados documentos escritos por organizações respeitadas, entidades públicas ou privadas
respeitadas, que consagram diretrizes interpretativas tidas como boas práticas, recomendadas, sugeridas.
E a consolidação dessas diretrizes por entidades que possuem alto grau de respeitabilidade tem conteúdo
normativo, mas não normativo jurídico, e sim no sentido de serem prescritivos. Exemplos: i- IBA –
internacional Bar Association, que possui consolidação de boas práticas internacionais sobre arbitragem; ii-
Códigos modelos, a exemplo do Código Modelo de Ética judicial da ibero-américa. Serviu de base, inclusive,
para a construção da resolução do CNJ (hard law) do código de ética judicial; iii- Princípios de Conduta Judicial
de Bangalore, de 2008. Trata-se de "um projeto de Código Judicial em âmbito global, elaborado com base
em outros códigos e estatutos, nacionais, regionais e internacionais, sobre o tema, dentre eles a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, da ONU. Essa declaração de direitos prevê um julgamento igualitário, justo
e público, por tribunal independente e imparcial, princípio de aceitação geral pelos Estados-Membros.; iv-
Recomendações do CNJ. Como exemplo, houve recomendação de registro de união estável em cartório, o
que foi seguido. Embora não seja hard law, como as resoluções do CNJ, tem um ethos tão forte que, de tão
adotado, seguido, vira costume. Neste momento, transmuda-se para hard law.
Interpretar significa explicar, explanar ou aclarar o sentido de palavra, expressão ou texto. Sua finalidade é
extrair do texto uma norma e o seu real significado, bem como verificar em quais casos aquela norma se
aplica ou não.
Adianta-se que a interpretação da lei processual segue os mesmos critérios e alcança os mesmos resultados
que a interpretação das leis em geral.
A doutrina divide a as formas de interpretação quanto aos sujeitos (fonte); aos meios e aos resultados.
76
OLIVEIRA, Paulo Mendes de. Regimento Interno como fontes de normas processuais. O Poder Normativo dos Tribunais. Ed.
Juspodivm: Salvador, 2020.
77
SOUZA, Marcus Seixas. Normas Processuais Consuetudinárias: história, teoria e dogmática. Ed. Juspodivm: Salvador, 2019.
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i - Autêntica
É a que emana do próprio órgão competente para a edição do ato interpretado. Assim, se este emanou do
Poder Legislativo, interpretação autêntica é a que for objeto de uma norma emanada daquele Poder sobre
o conteúdo do ato anterior.
ii- Doutrinária:
iii- Jurisprudencial:
É a forma de revelação do direito que se processa através do exercício da jurisdição, em virtude de uma
sucessão harmônica de decisões dos tribunais. Essas decisões podem ser precedentes ou não.
b) Quanto ao modo
i- Gramatical:
Permite a interpretação da norma por meio da verificação do sentido literal das palavras e frases.
Sabe-se que texto e norma são coisas distintas, como já demonstrou Friedrich Müller, em sua “metódica
estruturante”. O texto da lei, porém, serve como ponto de partida e também de chegada da norma. Ponto
de partida, uma vez que é dele que se extrairá a norma por meio de processos interpretativos diversos. Ponto
de chegada, pois, mesmo se adotando métodos distintos e concepções teóricas díspares (ex: Hermenêutica
filosófica e Hermenêutica argumentativa), a norma extraída da interpretação não poderá subverter os
próprios limites semânticos do texto.
Para Müller, a norma jurídica resulta da conjugação do programa normativo com o âmbito
normativo. O programa normativo consiste nas possibilidades de sentido do texto, estabelecidas
de acordo com os recursos tradicionais da interpretação jurídica. Já o âmbito normativo se
identifica com a parcela da realidade social dentro da qual se coloca o problema a resolver, de
onde o intérprete extrairá os componentes fáticos e axiológicos que irão influenciar sua decisão.
Este é o espaço da argumentação tópica, da busca da melhor solução para o caso concreto, tendo
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Como exemplo de tal conduta, cita-se a tentativa de enquadrar o art. 52, X, CRFB, no âmbito da mutação
constitucional pelo Min. Gilmar Mendes. Tal posição, por ir além dos limites do texto, foi rechaçada pelo STF.
Atenção: em 2017, porém, o STF79 voltou atrás e passou a acolher a teoria. Assim, o art. 52, X, da CF/88
sofreu uma mutação constitucional e, portanto, deve ser reinterpretado. Dessa forma, o papel do Senado,
atualmente, é apenas o de dar publicidade à decisão do STF, decisão esta que, mesmo se tomada em controle
difuso, já é dotada de efeitos erga omnes e vinculante.
ii- Teleológica:
Consoante art. 5º, da LINDB, ao se interpretar a norma jurídica, o intérprete deve ter sempre em vista os fins
sociais a que a lei se destina, assim como o bem comum.
No Direito Processual Civil, os principais fins sociais estão positivados expressamente. Dentre eles, podemos
reiterar as normas fundamentais do Processo Civil (arts. 1º ao 12, CPC), preceituando a necessidade de
interpretação deste ramo conforme a Constituição (art. 1º - constitucionalização releitura); promoção da
solução consensual dos conflitos (art. 3º), primazia da solução integral do mérito (art. 4º), dever de boa-fé
(art. 5º) cooperação entre os atores processuais (art. 6º).
Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
78
BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo
modelo. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2018, p. 320.
79
STF. Plenário. ADI 3406/RJ e ADI 3470/RJ, Rel. Min. Rosa Weber, d.j. 29/11/2017 - info 886.
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Além desses fins propostos nos artigos iniciais, temos também como uma das finalidades precípuas do
CPC/15 de garantir a segurança jurídica e isonomia, por meio da sistemática dos precedentes vinculantes
(art. 927, IRDR, IAC etc.).
iii- Histórica:
Exige-se que se analisem as normas que regulavam o mesmo instituto antes da vigência da atual, bem como
os textos do anteprojeto e do projeto de lei que foram elaborados e que deram origem à lei alvo da atividade
interpretativa.
Como exemplo no Processo Civil, temos a limitação de tutela contra a Fazenda Pública.
O primeiro tratamento normativo dado ao tema foi no âmbito da Lei 4.348/64, que limitou os provimentos
cautelares em MS. Na Lei n. 8.437/92, houve a mesma limitação em relação às cautelares.
Contudo, em 1994, por meio do art. 273, CPC/73, houve a permissão genérica de concessão de antecipação
de tutela. Assim, criou-se a tese de que as limitações de tutela contra a Fazenda Pública eram direcionadas
apenas às cautelares e não às antecipações de tutela.
Diante do impasse, a Fazenda advogada a tese de que, por meio de uma interpretação histórica das
vedações, corroborado pelos anteprojetos das leis que criaram as limitações, essas deveriam se estender
para as antecipações de tutela, porquanto o fim precípuo delas era vedar a oneração excessiva da Fazenda
em tutelas concedidas ainda em caráter sumário. A jurisprudência chegou a acatar tal fundamentação, mas
ainda não era pacífico.
Com o mote de acabar com essa incerteza, editou-se o art. 1º, Lei n. 9.494/97, estendendo as vedações às
antecipações de tutela. Confira-se:
Art. 1º Aplica-se à tutela antecipada prevista nos arts. 273 e 461 do Código de Processo Civil o
disposto nos arts. 5º e seu parágrafo único e 7º da Lei nº 4.348, de 26 de junho de 1964, no art.
1º e seu § 4º da Lei nº 5.021, de 9 de junho de 1966, e nos arts. 1º, 3º e 4º da Lei nº 8.437, de 30
de junho de 1992.
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Quanto ao resultado:
i- Declarativa:
ii- Extensiva:
Ex: na vigência do CPC/73, exigia-se o consentimento do cônjuge do autor para propositura de determinadas
demandas (antigo art. 10/atual art. 73). Contudo, silenciava o legislador quanto à união estável. A
jurisprudência aplicava a interpretação extensiva nesses casos.
O CPC/15, acolhendo referido norte, dispôs no art. 73, § 3º que se aplica o regramento também às uniões
estáveis comprovadas nos autos.
A norma jurídica não é o texto normativo, mas, sim, o resultado da interpretação de um texto
normativo, isto é, norma é o sentido que se dá a um texto normativo.
Podemos dizer que o intérprete “recria”, já que ele cria a partir de algo. Os juízes, diante do caso
concreto, irão interpretar o texto normativo e recriá-lo. Essa ideia repercute muito no processo, pois,
para que o processo alcance sua finalidade, é necessário que o juiz dê sentido aos enunciados
normativos.
iii- Restritiva:
Reduz-se o alcance das palavras para que corresponda a vontade do texto.
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Histórica
Progressiva
a) A tópica desenvolvida por Theodor Viehweg adota os chamados “topoi” (lugares ou premissas
comuns) como norte da atividade interpretativa. Os tópicos, por sua vez, cobram o seu sentido sempre
a partir do problema a cuja elucidação se destinam.
b) No âmbito da metodologia jurídica, os tipos são regras configuradas conceitualmente, aos quais se
aplica a subsunção por via do procedimento silogístico.
c) Para a metodologia concretista, desenvolvida, entre outros, por Friedrich Müller, a interpretação
não significa apenas densificar a norma, mas produzir a norma de acordo com a qual o caso é então
decidido.
d) A ciência do Direito não pode caracterizar-se como um sistema rigorosamente axiomático, porque
este exige um número fechado de conceitos fundamentais, logicamente compatíveis entre si.
Pautado na ideia de que a razão e a exatidão dos conceitos pudesse abarcar todos os fatos da vida, o
ordenamento jurídico da época experimentou uma intensa fase de codificação (ex: Código de
Napoleão de 1804) e a limitação da atividade interpretativa dos magistrados. Com o surgimento da
escola de exegese na França (positivismo exegético), jurisprudência dos conceitos na Alemanha e
jurisprudência analítica na Inglaterra, os casos submetidos ao Poder Judiciário deveriam ser
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solucionados por mera subsunção do fato à norma (derivada dos textos legais ou do próprio
precedente inglês), sem permissão par que os juízes interpretassem além do texto. O magistrado era
um autômato, um “bouche de la loi”.
Isso não poderia vigorar por muito tempo. Por óbvio, as leis não davam conta de todos os fatos da vida.
A riqueza do real exigia atividade hermenêutica mais intensa e livre. Daí a justificação para o
surgimento da escola do direito livre (Duguit) na França, Jurisprudência dos interesses e do valores na
Alemanha e realismo jurídico na Inglaterra.
Nesse momento conturbado da viragem do século XIX para o século XX, existiam inúmeras escolas e
correntes jurídicas, momento de intenso debate entre as concepções acima citadas. Ademais, a eclosão
cultural era intensa e o Direito passou a ser influenciado pelas outras ciências humanas, tais como
sociologia, psicologia, filosofia etc.
Com o desiderato de expurgar a influência dessas diversas disciplinas, o teórico de Viena, Hans Kelsen,
elaborou a sua “Teoria Pura do Direito” e se tornou, ao lado de Hart, um dos baluartes do positivismo
jurídico. Em sua concepção, o Direito como ciência deveria se fechar para essas disciplinas auxiliares e
encontrar sistematicidade, completude e fundamentação racional nele próprio. Isso tudo explica a
norma hipotética fundamental e a separação que ele faz de Direito e Moral.
Não desprezando sua contribuição teórica para o Direito, algumas de suas formulações precisavam ser
melhoradas, sobretudo a separação do Direito e Moral e a permissão da discricionariedade do juiz (no
capítulo VIII da sua Teoria Pura do Direito, no qual elenca que a lei confere ao magistrado uma moldura,
dentro da qual poderá escolher qual opção acredita ser a mais correta para o caso concreto).
Vislumbrando a necessidade de mudança, mormente depois da eclosão das duas grandes guerras 80,
exsurgiu no cenário jurídico a corrente pós-positivista, estimulada por teóricos como Radbruch, Robert
Alexy, Ronald Dworkin, Friedrich Müller etc. Estamos, agora, na fase do Neoconstitucionalismo.
80
Embora comum, é um equívoco dizer que o positivismo normativista de Hans Kelsen proporcionou o nazismo. Kelsen era judeu
e teve que ir para os EUA para não ser perseguido na Alemanha Nazista. Ainda, Kelsen era um homem relativista, que não
acreditava em um conceito único de justiça, verdade etc. e, obviamente, ele não chancelaria um regime que defendesse uma raça
superior, a verdadeira raça, que deveria governar os demais. Não bastasse, ele mesmo afirmava que sua teoria pura só poderia
ser compreendida e florescer em ambientes democráticos, sobretudo porque procurava apartar a explicação do Direito das
influências de outras áreas - filosofia, história, psicologia. E dizia que em ambientes totalitários, é muito comum a recorrência a
valores de outras ciências para contaminar o direito. A exemplo, o "espírito do bom povo da Alemanha" passou a constar em
textos legislativos e permitir várias atrocidades. A título complementar, Carl Schmitt, um dos ideólogos do nazismo, era grande
adversário do positivismo jurídico. COSTA MATOS, Andityas; NETO, Arnaldo. Contra o Absoluto: Perspectivas Críticas, Políticas e
Filosóficas da Obra Kelseniana. Curitiba: Juruá, 2012.
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Dentre as mudanças promovidas pelo Neoconstitucionalismo (falamos sobre 9), temos uma em
especial, que são as transformações na hermenêutica jurídica. Dentro dela, temos 3 características.
A norma jurídica não é o texto normativo, mas, sim, o resultado da interpretação de um texto
normativo, isto é, norma é o sentido que se dá a um texto normativo.
Ex: clássico exemplo de Gustav Radbruch de que em uma estação ferroviária havia uma placa que diz
“proibida a entrada de cão”. Esse é um texto normativo.
Ex2: homem tenta entrar com um urso. Pela lógica formal, em tese, poderia entrar, já que o texto
normativo diz apenas cão. Pela lógica do razoável, ao contrário, não poderia entrar, já que a norma
extraída daquele texto é no sentido de que haja proibição para qualquer um que entre com animais
que possam perturbar terceiros ou prejudicar o transporte em si dos trens que ali partiam e chegavam.
Portanto, o homem não poderia entrar com o urso.
Ex3: se um homem cego tenta entrar com seu cão guia, o que deve ocorrer? Mesmo que o texto
normativo não abra qualquer exceção, a interpretação que se deve fazer é que o cão guia é o olho do
cego. Portanto, não deverá haver proibição.
Percebam, com esse exemplo, que o texto normativo não é a mesma coisa que a norma que se possa
extrair dele.
Podemos dizer que o intérprete “recria”, já que ele cria a partir de algo. Os juízes, diante do caso
concreto, irão interpretar o texto normativo e recriá-lo.
Não se concebe mais o ato interpretativo como apenas operações puramente lógicas, formais,
silogísticas (Letra B).
Ex: do ponto de vista formal, o cão guia é cão, e teria sua entrada na sala proibida. No entanto, essa
interpretação seria absolutamente irrazoável.
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Nesse sentido, várias teorias passam a explicar o processo hermenêutico, com destaque para a Tópica
de Theodor Viehweb. Para ele, a interpretação só se pode dar a partir do caso concreto. Além disso, o
processo interpretativo é eminentemente argumentativo, devendo ser aceitos, a priori, como
igualmente válidos, todos os topoi (ou soluções possíveis) até que um deles, confrontando com os
demais no caso concreto, mostre-se dotado do melhor argumento, prevalecendo naquela
oportunidade.
Assim como na Tópica, Müller reconhece que a concretização da norma se dá a partir de sua aplicação
concreta. Todavia, acrescenta o entendimento de que o significado do texto constitucional não pode
ser extraído, senão a partir das pré-compreensões do intérprete, que se vale das possíveis
interpretações dadas pelo texto para, a partir dele, fundi-lo à sua realidade histórica, extraindo da
norma, ou o significado do texto no caso concreto.
Com a resposta acima também seria possível responder a questão do 28º concurso.
I - A jurisprudência dos valores, em sua corrente atual, defende a aproximação entre direito e moral,
desde que os princípios morais sejam incluídos no ordenamento por uma das fontes jurídicas: a
legislação ou a jurisprudência dos tribunais;
II - Para a tópica “pura", assim considerada a metodologia jurídica de Theodor Viewheg, o sistema é
apenas mais um topos a ser levado em conta na busca da decisão para o caso concreto;
III - Para a “teoria estruturante", de Friedrich Muller, e possível o raciocínio orientado para o problema,
desde que não ultrapasse o texto da norma;
IV - A “sociedade aberta dos intérpretes da Constituição", expressão cunhada por Haberle, além de ser
um processo de interpretação que permite ao julgador mais elementos para a tomada de decisões,
81
GUALTIERI, Lucas; VIEIRA, Roberto; MALHEIROS, Marcelo; MATIAS, Flávio. Concurso para Procurador da República: Comentários
das questões objetivas dos 26º e 27º concursos. Salvador: Juspodivum, 2015.
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tem pertinência, em matéria de direitos humanos, pelo fato destes também regerem as relações
horizontais entre os indivíduos.
Comentários: Apenas a alternativa I está incorreta, porquanto a jurisprudência dos valores surgiu na
Alemanha com Ihering, bem antes do neoconstitucionalismo propugnar pela religação do Direito e
Moral.
Ainda, a corrente atual dessa jurisprudência não exige que a moral venha pela legislação, mas sim pela
aplicação nos casos concretos.
Quanto ao item IV, pela teoria da sociedade aberta dos intérpretes da Constituição (Peter Häberle,
autor alemão), a Constituição e o ordenamento devem ser interpretados não apenas pelos operadores
do Direito, mas sim por todos os membros da sociedade. O amicus curiae e as audiências públicas são
dois exemplos clássicos de concretização dessa visão do mencionado autor alemão e de abertura do
Poder Judiciário aos cidadãos.
Sobre a integração da lei processual, frisa-se que não se confunde com interpretação. Enquanto,
interpretação significa explicar, explanar ou aclarar o sentido de palavra, expressão ou texto, integração é a
atividade de suprir lacunas.
Consoante art. 126, CPC/73 e art. 140, CPC/2015, ao juiz não é dado eximir-se de julgar alegando a existência
de lacunas (é proibido o non liquet).
Art. 126. O juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade da lei.
No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia,
aos costumes e aos princípios gerais de direito. (Redação dada pela Lei nº 5.925, de 1º.10.1973)
Art. 127. O juiz só decidirá por eqüidade nos casos previstos em lei.
Art. 140. O juiz não se exime de decidir sob a alegação de lacuna ou obscuridade do ordenamento
jurídico.
Parágrafo único. O juiz só decidirá por equidade nos casos previstos em lei.
Se o juiz não encontrar solução no ordenamento jurídico posto, deverá recorrer aos métodos de integração.
Sobre ele, porém, já falamos no tópico anterior, ao qual remetemos os alunos. Ali, tratamos da analogia,
costumes, equidade e princípios gerais do direito, bem como das críticas e peculiaridades de cada um.
Segundo art. 16, CPC, aplica-se sobre todo o território nacional (princípio da territorialidade).
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Art. 16. A jurisdição civil é exercida pelos juízes e pelos tribunais em todo o território nacional,
conforme as disposições deste Código.
Como diz Carnelutti, o processo se rege pela norma do Estado a que pertença o órgão jurisdicional que o
conduz (lex fori). Como a jurisdição constitui uma das expressões da soberania nacional, ela é regrada pelas
normas do ordenamento jurídico pátrio.
O art. 13, por sua vez, reforça que a jurisdição civil será regida pelas normas processuais brasileiras,
ressalvada a possibilidade de aplicação de disposições de tratados internacionais dos quais o Brasil faz parte.
Art. 13. A jurisdição civil será regida pelas normas processuais brasileiras, ressalvadas as
disposições específicas previstas em tratados, convenções ou acordos internacionais de
que o Brasil seja parte.
Tal dispositivo é uma decorrência do art. 5º, § 2º, CRFB, que aduz:
Art. 5º, § 2º Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes
do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República
Federativa do Brasil seja parte.
Lembra-se que, para ser aplicado no âmbito interno, o tratado tem de ser incorporado ao nosso
ordenamento jurídico. E, para tanto, é preciso passar por 4 etapas: i- negociação e assinatura (art. 84, VIII,
CRFB); ii- aprovação do Congresso por meio de decreto legislativo (art. 49, I, CRFB); iii- ratificação pelo
Presidente; iv- promulgação do texto do tratado mediante decreto presidencial.
Sobre a temática, é importante salientar a existência de três esferas hierárquicas em nosso ordenamento
quanto aos tratados:
a) status constitucional (art. 5º, § 3º, CRFB): tratados internacionais que versem sobre direitos humanos,
aprovados nas duas casas do Congresso Nacional, em 2 (dois) turnos, por 3/5 (três quintos) dos votos dos
respectivos membros;
b) status supralegal (RE 466.343-SP e HC 90.172-SP): tratados sobre direitos humanos aprovados pelo
procedimento ordinário, não perpassando pelo rito da letra “a”.
c) status legal: tratados internacionais que não versem sobre direitos humanos são equivalentes às leis
ordinárias, com fulcro no art. 102, III, “b”, CRFB (RE 80.004/SE).
1ª corrente (Ronaldo Cramer): Adotam a tese da supralegalidade, em que, havendo conflito entre tratado
internacional e lei federal que verse sobre processo, prevalecerá o tratado internacional.
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2ª corrente (majoritária): Adotam a tese de que o tratado terá hierarquia equivalente às normas ordinárias
e prevalecerá, no caso, não por ser supralegal, mas sim pelo critério da especialidade.
Essa segunda corrente se compatibiliza com que os tributaristas, em geral, afirmam sobre o art. 98 do CTN.
Diz Luciano Amaro que o conflito entre a lei interna e o tratado resolve-se, pois, a favor da norma especial
(tratado), tornando-se indiferente que a norma interna seja anterior ou posterior ao tratado.
Art. 85-A. Os tratados, convenções e outros acordos internacionais de que Estado estrangeiro ou
organismo internacional e o Brasil sejam partes, e que versem sobre matéria previdenciária,
serão interpretados como lei especial. (Incluído pela Lei nº 9.876, de 1999).
Ainda sobre a lei processual civil no espaço, vale fazer quatro observações:
Obs1: Sendo necessária colheita de provas no exterior, o art. 13, LINDB permite a utilização das leis
processuais de outro país. Para isso, é preciso que a prova a ser colhida não seja proibida no direito brasileiro.
Obs2: o art. 10, LINDB permite a aplicação das regras do país estrangeiro na hipótese de sucessão por morte
ou por ausência, desde que as regras do outro país sejam favoráveis ao cônjuge ou filhos brasileiros83. Aqui,
aplicam-se as regras materiais do país do de cujus, mas o inventário tramitará em conformidade com a lei
processual civil brasileira.
82
Breves Comentários ao Novo Código de Processo Civil/Teresa Arruda Alvim Wambier [et al.] coordenadores. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2015, p. 91.
83
Se houver conflito entre cônjuge e filhos, a doutrina diz: "Pode ocorrer que a lei brasileira seja mais
favorável apenas ao cônjuge, ou apenas aos filhos. Nesse caso, recomenda a doutrina, se a lei brasileira
só é mais favorável ao cônjuge, deve ser atendida só nesse ponto; do mesmo modo, se é mais favorável
só aos filhos, deve ser atendida neste particular a lei brasileira, para beneficiar os descendentes".
MARTINS-COSTA, Judith. Comentários ao art. 5º, XXXI. In: STRECK, Lênio; CANOTILHO, José Gomes;
SARLET, Ingo; MENDES, Gilmar (org.) Comentários à Constituição do Brasil. São Paulo: Saraiva, 2013.
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Obs3: para que os processos que tramitem no exterior tenham validade no território nacional, a sentença
estrangeira deve ser homologada perante o STJ (art. 105, I, “i”, CRFB). As cartas rogatórias estrangeiras
também devem passar pelo STJ, que concederá exequatur, a ser concretizada pelo juiz federal (art. 109,
CRFB). Lembre-se que o CPC/15 previu o auxílio direto, que dispensará esse intermédio pelo STJ.
Abordaremos o assunto mais à frente.
Art. 16. A sentença civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da competência territorial do
órgão prolator, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas,
hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento,
valendo-se de nova prova. (Redação dada pela Lei nº 9.494/97)
O artigo quis dizer que a decisão do juiz na ação civil pública não produz efeitos no Brasil todo, mas apenas
na comarca (se for Justiça Estadual) ou na seção ou subseção judiciária (se for Justiça Federal) do juiz prolator.
Em completa atecnia, o dispositivo confunde competência com efeitos da decisão, tudo com vistas a limitar
o potencial da tutela coletiva. Por esse e outros motivos, foi rechaçado pelo STJ84 e declarado inconstitucional
pelo STF85. Ao tratarmos da jurisdição, explicaremos tudo.
Sobre a Lei Processual no Tempo, sabe-se que se a lei não previr seu prazo de vacatio legis, aplica-se o art.
1º da LINDB, cuja redação é a seguinte:
Art. 1o Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias
depois de oficialmente publicada.
§ 3o Se, antes de entrar a lei em vigor, ocorrer nova publicação de seu texto, destinada a correção,
o prazo deste artigo e dos parágrafos anteriores começará a correr da nova publicação.
84
A eficácia das decisões proferidas em ações civis públicas coletivas NÃO deve ficar limitada ao território da competência do
órgão jurisdicional que prolatou a decisão. STJ. CE. EREsp 1134957/SP, Rel. Min. Laurita Vaz, d.j. 24/10/16.
85
STF. Plenário. RE 1101937/SP, Rel. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 7/4/2021 (Tema 1075) (Info 1012).
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No CPC/15, não se aplica o dispositivo supramencionado, já que o art. 1.045 já previu que a norma entraria
em vigor decorrido 1 ano de sua publicação.
No que toca ao dia da entrada em vigor, sabe-se que entrou em vigor no dia 18/03/2016.
Ademais, quanto ao debate sobre se algumas normas já poderiam ser aplicadas durante o período de
vacatio, iremos ver à frente que, segundo Didier, deveria ser feita uma diferenciação entre: a) norma jurídica
nova; b) pseudonovidade; c) norma simbólica.
Dito isso, vale dizer que as normas processuais novas se aplicam aos processos pendentes.
Art. 14. A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em
curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a
vigência da norma revogada.
a) unidade processual, que estabelece que o processo em trâmite continue a ser regido pelo ordenamento
em vigência na data de sua instauração (adotado pelo CPC/39, art. 1.047, § 1º);
b) fases processuais (postulatória, instrutória e decisória), que determina que deve ser aplicada a lei anterior
até o final da fase, passando a valer, em seguida, as novas disposições;
c) isolamento dos atos processuais, que se assenta na aplicação imediata da lei processual, incidindo as
regras tão logo se dê a entrada em vigor da nova legislação, inclusive em relação aos processos pendentes
(art. 1.046, CPC).
No CPC/15, prevalece a teoria do isolamento dos atos processuais, pelo que a lei nova, respeitando os atos
já praticados, disciplina aqueles que virão a ser praticados dali em diante (tempus regit actum).
Isso se dá pela compreensão de que cada ato que compõe o processo é um ato jurídico que merece proteção,
não podendo a lei nova atingir um ato jurídico perfeito (art. 5º, XXXVI, CRFB) 87.
86
FREIRE, Rodrigo; CUNHA, Maurício. Novo Código de Processo Civil para Concursos: Doutrina, Jurisprudência e Questões de
Concursos. 7ª ed. Salvador: Juspodivm, 2017, p. 69.
87
Por isso se questiona a súmula 205, STJ que diz: A lei 8.009/90 aplica-se à penhora realizada antes de sua vigência. Muitos
sustentam que tal entendimento viola a CRFB, mas o STJ é pacífico pela sua plena aplicação.
71
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Assim, desde o momento da publicação88 da decisão, surge o direito das partes de interpor o recurso, sendo
o recurso regido pela lei pretérita.
Ex1: mesmo que o CPC/15 tenha extinto os embargos infringentes, se até 17/03/2016 fosse publicado
acórdão não unânime, a parte teria direito aos embargos infringentes.
Ex2: No julgamento desse recurso, não poderá o Tribunal arbitrar honorários. Considerando que os
honorários sucumbenciais recursais são um novo instituto, um elemento econômico desmotivador para a
interposição de recurso, não se pode conferir eficácia retroativa ao seu conteúdo em razão da
impossibilidade de prejudicar a parte em razão de ato praticado antes do início da vigência da nova lei.
Assim conforme enunciado n. 7, STJ, a majoração da verba honorária na fase recursal somente pode ser
aplicada aos recursos interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016, início da vigência
do CPC/15.
Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/1973 (relativos a decisões publicadas até 17
de março de 2016) devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele prevista,
com as interpretações dadas, até então, pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.
Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir
de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma
do novo CPC.
Nos feitos de competência civil originária e recursal do STJ, os atos processuais que vierem a ser
praticados por julgadores, partes, Ministério Público, procuradores, serventuários e auxiliares da
Justiça a partir de 18 de março de 2016, deverão observar os novos procedimentos trazidos
pelo CPC/2015, sem prejuízo do disposto em legislação processual especial.
88
Se decisão for proferida em audiência ou sessão, considera-se publicada naquele ato. Se proferida em gabinete, considera-se
publicada quando da juntada aos autos pelo escrivão ou chefe de secretaria. Não se pode confundir com a intimação. Publicar é
tornar a decisão pública.
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Somente nos recursos interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016, será
possível o arbitramento de honorários sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11,
do novo CPC.
Os direitos subjetivos decorrem da concretização dos requisitos legais previstos pelo direito
objetivo vigente. Eventual direito aos honorários advocatícios recursais será devido quando os
requisitos previstos no art. 85, § 11, do CPC/2015 se materializam após o início de vigência deste
novo Código. Por isso, nos termos do Enunciado Administrativo n. 7/STJ: "somente nos recursos
interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016, será possível o
arbitramento de honorários sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11, do novo CPC".
No caso, a sentença foi proferida durante a vigência do CPC/1973, porém, o acórdão a quo foi
publicado já durante a vigência do CPC/2015. Logo, o pagamento de honorários advocatícios
recursais é devido. STJ, 1ª Seção, EAREsp 1.402.331-PE, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, d.j.
09/09/2020 (info 679)
No segundo caso, cinge-se a controvérsia a definir qual seria o recurso a ser interposto no caso
concreto contra decisão que rejeita o valor da causa e a respectiva legislação de regência (CPC/73
ou CPC/15). No caso, trata-se de impugnação a decisão de incidente de impugnação ao valor da
causa decidido sob a égide do CPC/73, objeto de embargos de declaração decididos sob a égide
do CPC/15. Na Corte Especial do STJ, o placar está 2 x 1, tendo o Min. Noronha pedido vista. STJ,
Corte Especial, REsp 1.847.798-RJ, Rel. Min. Antonio Ferreira, d.j. 01/06/22, infos 739 e 742.
Fiquemos atentos!
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a) a lei passou a ser aplicada apenas aos processos ajuizados depois da sua entrada em vigor, sem
retroatividade, em atenção à unidade processual e à validade dos atos processuais já praticados,
evitando, com isso, a utilização de duas normas no mesmo processo.
b) os atos que estavam pendentes nos processos em curso no momento da sua entrada em vigor se
sujeitaram à nova lei processual, mas foi preservada a eficácia dos atos processuais já praticados na
égide da lei antiga, aplicando a teoria do isolamento dos atos processuais.
d) aplicou a teoria da unidade processual, segundo a qual a lei nova deve incidir sobre todos os atos
processuais praticados e a praticar no processo em curso, refazendo-se aqueles realizados em
desconformidade com a nova lei.
e) o novo CPC aplicou a teoria da unidade processual, incidindo a sua aplicação sobre os atos já
praticados e os por vir a ser, repetindo aqueles efetivados em desacordo com a nova regra processual.
Comentários
A alternativa B está correta. Ela trata da Teoria do Isolamento dos Atos, sistema o qual espeita os atos
processuais já realizados, somente aplicando a lei processual nova àqueles atos processuais vindouros,
a ser praticados sob a égide do novo diploma.
Enunciado 267. Os prazos processuais iniciados antes da vigência do CPC serão integralmente
regulados pelo regime revogado.
Enunciado 268. A regra de contagem de prazos em dias úteis só se aplica aos prazos iniciados após a
vigência do Novo Código.
Enunciado 275. Nos processos que tramitam eletronicamente, a regra do art. 229, § 2º, não se aplica
aos prazos já iniciados no regime anterior.
Enunciado 341. O prazo para ajuizamento de ação rescisória é estabelecido pela data do trânsito em
julgado da decisão rescindenda, de modo que não se aplicam as regras dos §§ 2 º e 3º do art. 975 do
CPC à coisa julgada constituída antes de sua vigência.
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Enunciado 399. Os arts. 180 e 183 somente se aplicam aos prazos que se iniciarem na vigência do CPC
de 2015, aplicando-se a regulamentação anterior aos prazos iniciados sob a vigência do CPC de 1973.
Enunciado 564. Os arts. 1.032 e 1.033 devem ser aplicados aos recursos interpostos antes da entrada
em vigor do CPC de 2015 e ainda pendentes de julgamento.
a) Para os recursos interpostos para impugnar decisões publicadas a partir da vigência do CPC/15, será
possível o arbitramento de honorários sucumbenciais recursais.
b) Aos recursos interpostos sob a égide do CPC/73, caberá a abertura de prazo para correção de vícios
prevista no CPC/15.
c) Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/73 e ainda não julgados, devem ser exigidos os
requisitos de admissibilidade recursal do CPC/15.
d) O modelo adotado pelo CPC/15 foi da metanorma de incidência parcial por isolamento de fase
processual: a lei processual nova será aplicada imediatamente, preservando-se os atos praticados de
acordo com a lei anterior.
e) Se a prova tiver sido requerida na vigência do CPC/73, mas for julgada na vigência do CPC/15, segue-
se a sistemática do CPC/15 em relação às disposições de direito probatório.
Comentários
A alternativa A está correta. Enunciado administrativo 7, STJ: Somente nos recursos interpostos contra
decisão publicada a partir de 18 de março de 2016, será possível o arbitramento de honorários
sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11, do novo CPC.
A alternativa C está incorreta. Enunciado administrativo número 2: Aos recursos interpostos com
fundamento no CPC/1973 (relativos a decisões publicadas até 17 de março de 2016) devem ser
exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele prevista, com as interpretações dadas, até
então, pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.
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A alternativa D está incorreta. A teoria adotada é do isolamento dos atos processuais e não isolamento
das fases processuais.
A alternativa E está incorreta. O regramento das provas é uma exceção à teoria do isolamento dos atos
processuais.
Art. 1.047. As disposições de direito probatório adotadas neste Código aplicam-se apenas às provas
requeridas ou determinadas de ofício a partir da data de início de sua vigência.
i- Coisa julgada das questões prejudiciais (art. 503, §1º, CPC) só se aplica para processos ajuizados após 18
de março de 2016.
ii- Os processos pendentes (não sentenciados) do rito sumário e especial revogados continuam tramitando
normalmente. Trata-se de ultratividade da lei processual civil revogada (art. 1.046, § 1º, CPC).
Por outro lado, para processos ajuizados a partir de 18/03/2016, reger-se-ão pelo procedimento comum,
procedimento este que fundiu o procedimento ordinário e sumário.
iii- As provas requeridas ou determinadas na vigência do CPC/73 serão produzidas de acordo com as regras
do CPC/73. Por outro lado, as provas requeridas ou determinadas na vigência do CPC/15 serão produzidas
de acordo com as regras do CPC/15.
Art. 1.047. As disposições de direito probatório adotadas neste Código aplicam-se apenas às
provas requeridas ou determinadas de ofício a partir da data de início de sua vigência.
iv- O disposto no art. 525, §§ 14 e 15, e no art. 535, §§ 7o e 8o, aplica-se às decisões transitadas em julgado
após a entrada em do CPC/15.
v- Como os juizados também julgavam demandas cujo rito era o sumário, em algumas hipóteses (art. 275, II,
CPC/73 c/c art. 3º, II, Lei 9.099/95), a competência prorrogará até a edição de lei específica (art. 1.063, CPC).
Com o CPC/15:
i- se até 17/03/2016 não tiver sido sentenciada a demanda que tramitava sob o rito sumário, as
regras do CPC/73 se aplicarão a esse processo (art. 1.046, §1º, CPC);
ii- se até 17/03/2016 já tiver sido sentenciada, a causa passa a ser regida conforme o CPC/15.
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Neste caso, se a demanda tramitava no juízo comum, passará a ser regulada pelo procedimento
comum do CPC/15;
Art. 1.063. Até a edição de lei específica, os juizados especiais cíveis previstos na Lei no 9.099, de
26 de setembro de 1995, continuam competentes para o processamento e julgamento das
causas previstas no art. 275, inciso II, da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973.
iii- Por fim, se a demanda foi intentada a partir de 18/03/2016, a parte pode optar por: a) ajuizar
no juízo comum, caso em que não seguirá mais o rito sumário (que foi revogado pelo CPC/15).
Deverá obedecer ao rito comum; b) ajuizar nos juizados especiais, caso em que seguirá o rito
sumaríssimo.
Atenção: o fato de vigorar ainda o CPC/73 no que tange à insolvência civil (art. 1.052, CPC) não é uma exceção
à teoria do isolamento dos atos, porquanto não houve previsão do CPC/15 quanto ao tema. A partir do
momento em que lei futura disciplinar o assunto, haverá a aplicação da teoria do isolamento dos atos
processuais (art. 1.052, CPC).
O Min. Luiz Fux, em sua obra89, elenca diversas hipóteses de situações jurídicas geradas pela incidência da
lei nova. Vejamos:
1. A lei processual tem efeito imediato e geral, aplicando-se aos processos pendentes;
respeitados os direitos subjetivo-processuais adquiridos, o ato jurídico perfeito, seus efeitos já
produzidos ou a se produzir sob a égide da nova lei, bem como a coisa julgada;
3. A resposta do réu, bem como seus efeitos, rege-se pela lei vigente na data do surgimento do
ônus da defesa pela citação.
4. A revelia, bem como os efeitos, regulam-se pela lei vigente na data do escoar do prazo da
resposta;
5. A prova do fato ou do ato quando ad solemnitatem, rege-se pela lei vigente na época da
perectibilidade deles, regulando-se a prova dos demais atos pela lei vigente na data da admissão
89
FUX, Luiz. Teoria geral do processo civil. Rio de Janeiro: Forense, 2014.
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6. A lei processual aplica-se aos procedimentos em curso, impondo ou suprimindo atos ainda não
praticados, desde que compatível com o rito seguido desde o início da relação processual e eu
não sacrifique os fins de justiça do processo;
7. A lei vigente na data da sentença é a reguladora dos efeitos e dos requisitos da admissibilidade
dos recursos;
8. A execução e seus pressupostos regem-se pela lei vigente na data da propositura da demanda,
aplicando-se o preceito número seis aos efeitos e de procedimentos executórios em geral;
10. Os embargos e seus requisitos de admissibilidade regem-se pela vigente na data de seu
oferecimento;
11. O processo cautelar, respeitado o cânone maior da irretroatividade, rege-se pela lei mais
favorável à conjuração do periculum in mora quer em defesa do interesse das partes, quer em
defesa da própria jurisdição.
Enunciado 267: (arts. 218, e 1.046). Os prazos processuais iniciados antes da vigência do CPC
serão integralmente regulados pelo regime revogado. (Grupo: Direito intertemporal e
disposições finais e transitórias)
Enunciado 268: (arts. 219 e 1.046). A regra de contagem de prazos em dias úteis só se aplica aos
prazos iniciados após a vigência do Novo Código. (Grupo: Direito intertemporal e disposições
finais e transitórias)
Enunciado 275: (arts. 229, §2º90, 1.046). Nos processos que tramitam eletronicamente, a regra
do art. 229, §2º, não se aplica aos prazos já iniciados no regime anterior. (Grupo: Direito
intertemporal e disposições finais e transitórias; redação alterada no V FPPC-Vitória)
Enunciado 341. O prazo para ajuizamento de ação rescisória é estabelecido pela data do trânsito
em julgado da decisão rescindenda, de modo que não se aplicam as regras dos §§ 2 º e 3º do art.
975 do CPC à coisa julgada constituída antes de sua vigência.
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Enunciado 399. Os arts. 180 e 183 somente se aplicam aos prazos que se iniciarem na vigência
do CPC de 2015, aplicando-se a regulamentação anterior aos prazos iniciados sob a vigência do
CPC de 1973.
a) O Direito Processual Civil possui natureza de Direito público e possui inter-relacionamento com o
Direito constitucional muito bem expresso no capítulo III, da Constituição Federal que trata do Poder
Judiciário.
c) São fontes do Direito Processual Civil, além da própria Constituição Federal, as codificações, as leis
de organização judiciária dos estados, leis processuais esparsas, além dos regimentos internos dos
tribunais de justiça.
d) A lei estrangeira não pode determinar a forma processual a ser aplicada no Brasil, embora o juiz
possa utilizar-se de prova alienígena para decidir a causa, sem valorá-la, porquanto rege-se a sua
produção pela lei que nele vigorar
e) Sobre a aplicação da lei processual no tempo, diverso das condições da ação que é regulada pela lei
vigente quando da propositura da ação, à resposta do réu é aplicada aquela em vigor quando do
surgimento do ônus da defesa produzido pela citação.
Comentários
A alternativa A está correta. O capitulo III entre os artigos 92 e 126 da CF dispõe sobre a organização
judiciária. Ademais, como vimos nesta aula, o CPC/15 é baseado no
neoconstitucionalismo/neoprocessualismo, de forma que transpassam os valores essenciais da CF à
interpretação de todo o ordenamento jurídico. O próprio art. 1º é exemplo disso: O processo civil será
ordenado, disciplinado e interpretado conforme os valores e as normas fundamentais estabelecidos
na Constituição da República Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código.
A alternativa B está correta. Os pressupostos ao Rext e REsp estão nos artigos 102, III e 105, III CR.
Ademais, o art. 22,I,CR determina que compete privativamente à União legislar sobre direito
processual (não podendo ser feito por medida provisória).
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A alternativa D está incorreta. Art. 13, LINDB. A prova dos fatos ocorridos em país estrangeiro rege-se
pela lei que nele vigorar, quanto ao ônus e aos meios de produzir-se, não admitindo os tribunais
brasileiros provas que a lei brasileira desconheça.
Quanto ao ônus e meios, respeita-se a legislação estrangeira. Entretanto, o juiz daqui obviamente
poderá valorá-la.
A alternativa E está correta. Conforme o art. 1046, CPC. Aplica-se a lei processual vigente no momento
da pratica do ato (corolário do princípio tempus regit actum). Como diz Fux: A resposta do réu, bem
como seus efeitos, rege-se pela lei vigente na data do surgimento do ônus da defesa pela citação.
(IBFC – EBSERH – ADVOGADO HUGG UNIRIO/ 2017) Assinale a alternativa correta sobre a
aplicabilidade das normas processuais em face da entrada em vigor da Lei Federal nº 13.105, de
16/03/2015 (Novo Código de Processo Civil).
a) As disposições da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil de 1973), relativas
ao procedimento ordinário e aos procedimentos especiais que forem revogadas aplicar-se-ão às ações
propostas e não sentenciadas até o início da vigência do Novo Código de Processo Civil
b) As disposições da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil de 1973), relativas
aos procedimentos ordinário e sumário e aos procedimentos especiais que forem revogadas aplicar-
se-ão às ações propostas e não sentenciadas até o início da vigência do Novo Código de Processo Civil
c) As disposições da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil de 1973), relativas
ao procedimento sumário e aos procedimentos especiais que forem revogadas aplicar-se-ão às ações
propostas e que não tenham decisão fnal transitada em julgado até o início da vigência do Novo Código
de Processo Civil
d) As disposições da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil de 1973), relativas
aos procedimentos ordinário e sumário e aos procedimentos especiais que forem revogadas aplicar-
se-ão às ações propostas e que não tenham decisão fnal transitada em julgado até o início da vigência
do Novo Código de Processo Civil
e) As disposições da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil de 1973), relativas
ao procedimento sumário e aos procedimentos especiais que forem revogadas aplicar-se-ão às ações
propostas e não sentenciadas até o início da vigência do Novo Código de Processo Civil
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Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos,
as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente.
1ª corrente: aplicação supletiva nos casos em que não há norma aplicável e aplicação subsidiária quando há
norma incompleta, que deverá ser complementada. Foi a corrente que coloquei no material.
No CPC comentado, organizado por Teresa Arruda, Fredie Didier, Eduardo Talamini e Bruno Dantas, afirma-
se:
2ª corrente: aplicação subsidiária nos casos em que não há norma aplicável e aplicação supletiva quando há
norma incompleta, que deverá ser complementada. É a corrente que tem conhecimento.
Daniel Assumpção, no seu CPC Comentado, aduz:
O dispositivo (art. 15, CPC) foi feliz em prever a aplicação supletiva e subsidiária, afastando-se do
equívoco costumeiro de dar os fenômenos como sinônimos. Na aplicação subsidiária tem-se a
integração da legislação subsidiária na legislação principal, resultando no preenchimento de
vácuos e lacunas da lei principal. Já na aplicação supletiva, as leis complementam uma a outra.
Portanto, percebe-se que temos autores para os dois lados. Talvez o CPC tenha resolvido colocar os dois
termos no art. 15 justamente para evitar essa discussão.
É difícil dizer qual corrente adotar em prova. Mas, de certo modo, vejo que nos Manuais há um predomínio
da 2ª corrente.
Processo do Trabalho
Até o advento do CPC/2015, não havia maiores controvérsias quanto às regras de heterointegração do
processo do trabalho, dispostas nos arts. 769 e 889 da CLT:
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Art. 769. Nos casos omissos, o direito processual comum será fonte subsidiária do direito
processual do trabalho, exceto naquilo em que for incompatível com as normas deste Título. [...]
Art. 889. Aos trâmites e incidentes do processo da execução são aplicáveis, naquilo em que não
contravierem ao presente Título, os preceitos que regem o processo dos executivos fiscais para
a cobrança judicial da dívida ativa da Fazenda Pública Federal.
Bento Herculano, Desembargador do TRT 21ª Região, destaca a existência de duas correntes surgidas após
o advento do CPC/15, quais sejam:
1ª corrente (minoritária): Edilton Meireles esposa entendimento de que o art. 15 do CPC/2015 trata-se de
verdadeira norma de processo do trabalho – a despeito de estar inserido no corpo do CPC – e, por
conseguinte, teria revogado o art. 769 da CLT.
2ª corrente (majoritária): Analisando a temática, Jorge Pinheiro Castelo afirma que o art. 15 do CPC/2015
não revogou os dispositivos da CLT. Ele afirma que o art. 15 veicula duas funções principais.
A primeira consiste em ser utilizado de forma subsidiária aos demais segmentos processuais: “A aplicação
subsidiária tem como função, apenas, suprir as omissões existentes no legislador processual ordinário, no
caso laboral”. Exemplos: tutela provisória, rol de bens impenhoráveis, inspeção judicial, desconsideração da
personalidade jurídica etc.
Já a segunda função – de supletividade – ocorre em forma de complementaridade, tendo por objetivo
completar e aprimorar o subsistema processual heterointegrado. Exemplos: hipóteses de impedimento e
suspeição, complementando a CLT; regra do ônus da prova (art. 373, CPC c/c art. 818, CLT).
Processo Administrativo
Por decorrência do art. 5º, LV, CRFB, que assegura aos litigantes no processo administrativo o contraditório
e ampla defesa, por óbvio que várias das normas fundamentais do Processo Civil a ele se aplica (a exemplo,
as normas processuais fundamentais – arts. 1º a 12, CPC).
Ademais, vários dos princípios do CPC/15 também já estão previstos na seara administrativa. Ex: princípio da
razoabilidade e proporcionalidade (art. 2º, Lei n. 9.784/99); legalidade, moralidade, eficiência (art. 37, CRFB),
observância dos julgados em controle concentrado de constitucionalidade e súmulas vinculantes (arts. 102,
§ 2º, 103-A, CRFB).
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Agora, deverá ampliar seu respeito aos precedentes vinculantes (art. 927, CPC), até porque o próprio art.
985, § 2º, CPC, o resultado do julgamento será comunicado à agência reguladora para competente
fiscalização da observância.
Processo eleitoral
É plenamente aplicável o CPC ao processo eleitoral. Tal entendimento é amplamente utilizado no TSE. A
exemplo, vide recente Resolução n. 23.478/2016 que “estabelece diretrizes gerais para a aplicação da Lei
nº 13.105, de 16 de março de 2015 – Novo Código de Processo Civil –, no âmbito da Justiça Eleitoral”.
Enunciados do CJF relativos ao assunto:
Enunciado 16 – As disposições previstas nos arts. 190 e 191 do CPC poderão aplicar-se aos
procedimentos previstos nas leis que tratam dos juizados especiais, desde que não ofendam os
princípios e regras previstos nas Leis n. 9.099/1995, 10.259/2001 e 12.153/2009.
Tudo certo quanto à matéria de Fontes? Qualquer dúvida ou sugestão, será um prazer receber a
manifestação de vocês por e-mail.
No período colonial, o ordenamento jurídico no Brasil se resumia às Ordenações Reais, que se dividiram em:
Foi a partir da nossa Independência, em 1822, que os textos das Ordenações Filipinas foram sendo
paulatinamente revogados, mas substituídos por textos que, de certa forma, mantinham suas influências.
Primeiro surgiu o Código Criminal do Império de 1830, que substituiu o Livro V das Ordenações. Em 1832, foi
promulgado o Código de Processo Criminal, que reformou o processo e a magistratura. Por fim, em 1850,
surgiram o Regulamento 737 (Processo Civil para relações comerciais) e o Código Comercial.
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Posteriormente, a Constituição de 1891 atribuiu competência concorrente aos Estados para legislar sobre
Processo Civil, o que deu ensejo ao surgimento de Códigos Judiciários Estaduais, em alguns Estados da
Federação, sem prejuízo da existência de normas federais de processo.
Na Constituição seguinte (1934), atribuiu-se à União a competência privativa para legislar sobre Processo
Civil, mas os códigos judiciários permaneceram vigente até que fosse editado o CPC.
Adveio o CPC/39, entrando em vigor em 1º de Janeiro de 1940, sendo revogado pelo CPC/73 em 31 de
Dezembro de 1973.
O CPC/73, por sua vez, entrou em vigor em Janeiro de 1974, sendo elaborado a partir do projeto do Ministro
Alfredo Buzaid, professor de Processo Civil da USP e aluno de Enrico Tullio Liebman.
A Constituição de 1988, a seu turno, também atribuiu competência exclusiva à União para legislar sobre
Processo Civil (art. 22, I), mas concedeu aos Estados competência supletiva para legislar sobre procedimento
em matéria processual (art. 24, XI).
Em relação ao Novo Código de Processo Civil, ele foi precedido da seguinte cronologia.
O Ato do Presidente do Senado Federal n. 379, de 2009, instituiu a Comissão de Juristas responsável pela
elaboração do anteprojeto do novo CPC, comissão essa presidida pelo Ministro Luiz Fux e relatada pela
professora Tereza Arruda Alvim Wambier90. O anteprojeto foi elaborado e enviado ao Senado Federal (PL
166/2010). Naquela casa, foi criada uma nova comissão de juristas, que realizou alguns aperfeiçoamentos.
O projeto foi rapidamente aprovado no Senado e remetido para a Câmara dos Deputados.
Na Câmara dos Deputados, o projeto sofreu muitas alterações91 e foi aprovado sob o codinome de Projeto
Barradas (PL 8.046/2010)92. Voltando ao Senado, foram aprovados 12 destaques e, finalmente, foi para a
sanção presidencial.
90
Os demais integrantes da comissão foram Adroaldo Furtado Fabrício, desembargador aposentado do RS ; Benedito Cerezzo
Pereira Filho, advogado ; Bruno Dantas, consultor geral do Senado ; Elpídio Donizetti Nunes, desembargador do TJ/MG ; Humberto
Theodoro Júnior, desembargador aposentado de Minas Gerais ; Jansen Fialho de Almeida, juiz do TJ/DF ; José Miguel Garcia
Medina, advogado; José Roberto dos Santos Bedaque, desembargador do TJ/SP ; Marcus Vinicius Furtado Coelho, membro do
Conselho Federal da OAB ; e Paulo Cesar Pinheiro Carneiro, advogado e ex-procurador de Justiça.
91
A comissão especial formada na Câmara dos Deputados para analisar o projeto recebeu o auxílio de diversos processualistas, a
exemplo de Fredie Didier, Dierle Nunes, Leonardo Carneiro da Cunha, dentre outros.
92
Parecer a este PL pode ser visto no link: [Link]
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Dentre os vetos (arts. 35, 333, 1.015, XII, art. 515, X, 895, § 3º, 937, VII, 1.055), merece destaque o veto da
transformação de uma lide individual em uma lide coletiva (art. 333 c/c 1.015, XII), isto é, seria possível
ajuizar uma ação individual e, percebendo-se o viés coletivo do objeto do processo, esta ação poderia ser
transformada em uma ação coletiva93.
O Código de Processo Civil (Lei 13.105/2015) foi aprovado com uma vacatio legis de um ano.
Art. 1.045. Este Código entra em vigor após decorrido 1 ano da data de sua publicação oficial.
Para os que defendem a superioridade hierárquica da lei complementar em relação à lei ordinária (posição
não adotada pelo STF), o art. 1.045, CPC seria nulo, pois estipula vacatio em ano, enquanto que a LC 95/98
(art. 8º, § 2º) exige a estipulação de prazo em dias.
Para suprir a lacuna, aplicar-se-ia a regra disposta no art. 1º da Lei de Introdução às Normas do Direito
Brasileiro (LINDB): “Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias
depois de oficialmente publicada”. Então, o CPC/15 começaria a vigorar 45 dias após a publicação
(17/03/2015). Mas como conta esse prazo?
O art. 8º, § 1º, afirma que a contagem do prazo para entrada em vigor das leis que estabeleçam período de
vacância far-se-á com a inclusão da data da publicação E do último dia do prazo, computando-se, portanto,
o dies a quo e o dies ad quem. Por esse critério, tendo sido publicado o CPC/15 no dia 17 de março, os
quarenta e cinco dias da vacatio legis devem ser contados a partir do mesmo dia 17 de março, expirando-se,
assim, no dia 30 de abril de 2015.
Nos termos do § 2º do art. 8º da LC n. 95/98, as leis entram em vigor no dia subsequente ao da consumação
integral do período de vacância, pelo que o Código de Processo Civil de 2015 teria começado a vigorar no
dia 01 de maio de 2015.
2ª corrente (Marinoni e Mitidiero): Se a contagem for em dias, o CPC/15 entraria em vigor em 16/03/2016.
Eles chegam nesse número por meio de dois passos.
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Razões do veto: “Da forma como foi redigido, o dispositivo poderia levar à conversão de ação individual em ação coletiva de
maneira pouco criteriosa, inclusive em detrimento do interesse das partes. O tema exige disciplina própria para garantir a plena
eficácia do instituto. Além disso, o novo Código já contempla mecanismos para tratar demandas repetitivas. No sentido do veto
manifestou-se também a Ordem dos Advogados do Brasil - OAB.”
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1º passo - Faz-se a conversão de 1 ano em 365 dias, pois o art. 8º, § 2º, LC 95/98 impõe a contagem em dias.
Art. 8º, § 2º As leis que estabeleçam período de vacância deverão utilizar a cláusula ‘esta lei entra
em vigor após decorridos (o número de) dias de sua publicação oficial’. (Incluído pela LC 107, de
26.4.2001)
2º passo - Consoante art. 8º, § 1º, LC 95/98, incluindo o dia do início (17/03/2015 – dia da publicação)
e incluindo o último dia (15/03/2016), o CPC/15 entraria em vigor no dia subsequente, qual seja, dia
16/03/2016. Obs: Lembre-se que o ano de 2016 é bissexto (Fevereiro teve 29 dias).
Art.8º, § 1º, da LC 95/98, "a contagem do prazo para entrada em vigor das leis que estabeleçam
período de vacância far-se-á com a inclusão da data da publicação E do último dia do prazo,
entrando em vigor no dia subseqüente à sua consumação integral”.
Situação muito similar a esta ocorreu com a entrada em vigor do CC/02. Há julgados do STJ mencionando
que a data de entrada em vigor do CC/02 foi dia 11/01/03. A única forma de se chegar a esta data é fazendo
a contagem em dias.
3ª corrente (Cássio Scarpinella Bueno): Se for contagem em ano, entra em vigor no dia 17/03/2016. Tal
corrente chega à referida data pelos mesmos critérios da 2ª corrente. Contudo, como 2016 é ano é bissexto,
essa corrente considera que um ano teve 366 dias e não 365 (considerado pela corrente anterior) e,
portanto, o prazo findaria em 16 de março. Como entra em vigor no dia subsequente à consumação integral
do prazo, entraria em vigor no dia 17/03/2016.
Sintetizando: Se considerarmos o ano como sendo o período de 365 dias, temos que o período anual iniciado
em 17 de março de 2015 terminou no dia 15 de março de 2016 (2ª corrente), entrando o CPC/15 em vigor
no dia 16/03/2016. Se considerarmos o ano como sendo o período de 366 dias (já que em 2016 temos ano
bisexto), temos que o período anual iniciado em 17 de março de 2015 terminou no dia 16 de março de 2016,
entrando o CPC/15 em vigor no dia 17/03/2016.
A Lei n. 810/49 define o ano civil como sendo o “período de doze meses contados do dia do início ao dia e
mês correspondentes do ano seguinte”. Ou seja, o ano civil, no caso em exame, iria de 17/03/2015 a
17/03/2016. E assim, aplicando o art. 8º, §1º, LC 95/98 que manda incluir na contagem a data da publicação
e a do último dia do prazo, entrando a lei em vigor no primeiro dia subsequente, poder-se-ia concluir que o
Código entrará em vigor em 18/03/2016.
Ademais, a Lei 13.105/2015 expressamente determina que a vacatio legis seja de um ano e não de 365 dias,
portanto, a vigência se dará a partir do dia 18/03/2016.
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A segunda dúvida que surgiu com o CPC/15 foi: poderia ser aplicado antes de entrar em vigor?
Sabe-se que uma lei não produz efeitos no período da vacatio legis; por não está em vigor, de seu texto não
é possível extrair consequências normativas. Ocorre que, partindo da premissa que texto é diferente de
norma, há textos no novo CPC que não criam normas jurídicas novas. Assim, Fredie Didier diz que é preciso
diferenciar três espécies de normas:
i- Norma jurídica nova: Do texto do novo CPC, podem-se extrair inúmeras normas jurídicas novas, normas
essas que só podem surtir efeitos após 18/03/2016, data em que o CPC entrou em vigor. Como exemplo,
cita-se os novos requisitos da petição inicial (art. 319, II e VII, CPC); irrecorribilidade imediata de decisões
interlocutórias (art. 1009, §§ 1º e 2º); incidente de resolução de demandas repetitivas (art. 976ss); incidente
de assunção de competência (art. 947ss).
ii – Pseudonovidade: o texto do novo CPC trouxe disposição similar às normas que já vinham sendo extraídas
do CPC/73 e encampadas pela doutrina e jurisprudência. Como exemplo, art. 373, § 1º, CPC, que o juiz, ao
redistribuir o ônus da prova, garanta à parte, a quem foi atribuído o ônus da prova, a oportunidade de se
desincumbir dele. Além desse, temos o art. 10, que consagra a proibição de decisão-surpresa, que já vinha
sendo propalada pela doutrina e jurisprudência como decorrência do contraditório substantivo (ciência +
reação + possibilidade de influenciar o juiz).
iii- Normas simbólicas: Como ressalta Marcelo Neves, na legislação simbólica, o sentido político prepondera
sobre o sentido normativo-jurídico. Como exemplo, citam-se os artigos iniciais (arts. 1º ao 10, CPC/15), que
ressaltam princípios constitucionais que, pelo fenômeno da constitucionalização releitura e pela filtragem
constitucional, já deviam ser aplicados ao Processo Civil. Outro exemplo é a ênfase à solução consensual dos
conflitos (mediação, conciliação), que já era uma política estimulada pela doutrina, jurisprudência, sobretudo
pelo CNJ – vide Resolução n. 125.
Atenção: No final de 2015, foi aprovado o Projeto de Lei 168/2015 (Lei 13.256/16) que promoveu 44
alterações na Lei 13.105/15 que serão objeto de tratamento neste material conforme forem sendo
estudadas as matérias.
Adianta-se que referida reforma visou, principalmente, voltar com o duplo juízo de admissibilidade para
processos direcionados ao STJ e STF. O juízo de admissibilidade único a ser feito no STJ e STF (prevista no
CPC original) iria inviabilizar os Tribunais Superiores com uma avalanche de processos.
De acordo com as regras do PL 168/2015 (Lei 13.256/16), principalmente após a alteração do art. 1.042 do
novo CPC, o exame de admissibilidade voltou a ser feito pelo presidente dos tribunais de origem.
Comentaremos essas mudanças em aulas vindouras.
Última dica sobre esse assunto: Essa mudança do CPC/15 promoveu uma volta da sistemática já vigente no
Código anterior, consagrada nas súmulas 634 e 635, STF.
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634: Não compete ao Supremo Tribunal Federal conceder medida cautelar para dar efeito
suspensivo a recurso extraordinário que ainda não foi objeto de juízo de admissibilidade na
origem.
635: Cabe ao Presidente do Tribunal de origem decidir o pedido de medida cautelar em recurso
extraordinário ainda pendente do seu juízo de admissibilidade.
Caiu na DPU/2015: A peça judicial a ser feita era medida cautelar perante o STJ, pois o Recurso Especial já
tinha sido admitido no Tribunal de origem. Antigamente se falava na necessidade de manejar a medida
cautelar para obter o efeito suspensivo. Agora, não se fala mais em medida cautelar, mas sim em concessão
de efeito suspensivo.
Pela redação originária, estavam superadas as súmulas 634 e 635, STF (enunciado 221, FPPC).
Todavia, a Lei n. 13.256/16, aprovada ainda na vacatio legis do CPC/15, modificou toda a
sistemática, com os novos incisos I e III, ambos do §5º do art. 1.029. Assim, voltou-se a mesma
ideia das súmulas 634 e 635 do STF. A diferença é que o pleito de efeito suspensivo não se faz
por medida cautelar inominada, mas sim por mera petição. Daniel Assumpção salienta que a
previsão expressa de que não é necessário ingressar com mais uma ação, mas incidentalmente
com um mero requerimento descomplica o processo e, por isso, deve ser bastante elogiada
Portanto, com fulcro no CPC/15, a competência para apreciação desse pleito se manteve.
i- Se o RE ou REsp ainda não passou pelo juízo de admissibilidade no tribunal a quo (art. 1.029,
§5º, III, CPC);
ii- Caso tenha havido admissão do recurso no Tribunal a quo, o pedido de concessão será feito
ao tribunal superior respectivo (art. 1.029, §5º, I, CPC).
A mudança se deu no tocante a não utilização de cautelar inominada, mas sim um pleito com
tutela provisória de urgência, nos termos do art. 1.029, §5o.
Conforme já assentado na decisão recorrida, o ajuizamento perante esta Corte de ação cautelar
para que se conceda efeito suspensivo a recurso extraordinário apenas é cabível nos casos em
que tal insurgência tenha tido juízo positivo de admissibilidade na origem. In casu, não se verifica
a ocorrência desse requisito, pelo que se mostra manifestamente incabível a presente ação.
Incidem, portanto, as Súmulas 634 e 635 do STF, as quais assim dispõem: (...). (...) Outrossim,
anoto que tal providência resta mantida também sob a vigência do CPC/2015, cujo art. 1.029,
§ 5º, I, prevê que "O pedido de concessão de efeito suspensivo a recurso extraordinário ou a
recurso especial poderá ser formulado por requerimento dirigido [...] ao tribunal superior
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Visto todo o contexto em que o CPC/15 foi aprovado, entraremos no estudo mais detido do diploma, bem
como das leis especiais mais importantes para a disciplina.
De início, devemos pontuar os 5 objetivos dos legisladores com o novo Código, todos muito bem delineados
na Exposição de Motivos. Com isso, é muito mais fácil de se interpretar o texto legal.
Adianta-se que em teoria geral se estuda qual a interpretação que o operador do Direito deve buscar. Seria
a vontade do legislador (voluntas legislatoris) ou vontade da lei (voluntas legis)?
Para a primeira concepção (voluntas legislatoris), ressai-se o método histórico, havendo uma interpretação
ex tunc, isto é, até o momento da elaboração da norma.
Para a segunda (voluntas legis), a norma tem um sentido próprio, determinado por fatores objetivos,
independente até certo ponto do sentido que tenha querido dar o legislador.
A controvérsia está longe de ser resolvida. Nesse sentido, com Ferraz Jr., identificando uma
conotação ideológica na sua raiz, isto é, levado a um extremo, podemos dizer que o subjetivismo
favorece um autoritarismo personalista, ao privilegiar a figura do “legislador”, pondo sua
“vontade” em relevo. Por exemplo, a exigência na época do nazismo, de que as normas fossem
interpretadas, em última ratio, de acordo com a vontade do Fuhrer (era o Fuhrerprinzip) é
bastante elucidativa/significativa. Por outro lado, o objetivismo, levado também ao extremo
favorece certo anarquismo, pois estabelece o predomínimo de uma equidade duvidosa dos
intérpretes sobre a própria norma ou, pelo menos, desloca a responsabilidade do legislador para
os intérpretes, chegando-se a afirmar, como fazem alguns realistas americanos, que direito “é o
que decidem os tribunais”. Além disso, acrescenta, não deixa de ser curioso que, nos movimentos
revolucionários, o direito anterior à revolução é relativizado e atualizado em função da nova
situação, predominando aí a doutrina objetivista, muito embora, quanto ao direito novo, pós-
revolucionário, tende-se a privilegiar a vontade do legislador e a fazer prevalecer as soluções
legislativas sobre as judiciais que, a todo custo e no máximo possível, devem a elas se conformar.
94
STRECK, Lênio. Hermenêutica Jurídica em Crise: uma exploração hermenêutica da construção do Direito. Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2012.
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De todo o exposto, ao mesmo tempo em que devemos nos conscientizar para não se valer de maneira acrítica
dessas interpretações (vontade do legislador ou vontade da lei), devemos dizer que elas são sim úteis.
Sendo úteis e bastante incidentes em prova, passaremos a expor os 5 objetivos dos legisladores com a
elaboração do CPC/15, fins esses elencados na própria exposição de motivos.
2.1 - Estabelecer expressa e implicitamente verdadeira sintonia fina com a Constituição Federal
Do primeiro artigo já se percebe a consagração do Modelo Constitucional do Direito Processual Civil, bem
como a influência notável do neoconstitucionalismo em nossa disciplina.
Como dissemos em tópico anterior, em decorrência da força normativa da Constituição, todos os ramos do
direito devem passar pelo fenômeno da constitucionalização releitura, isto é, seus institutos devem sempre
ser relidos, interpretados conforme os valores e normas fundamentais da CRFB. É o que diz o art. 1º, CPC.
Sendo o direito processual civil um ramo do direito público, porque, em última análise, voltado
ao estudo da atividade-fim do Poder Judiciário, o exercício da função jurisdicional, evidencia-se
95
SCARPINELLA Bueno. Manual de Direito Processual Civil, 3ª Ed. Saraiva: São Paulo, 2017, p. 45.
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a indispensabilidade de seu estudo dar-se a partir da CRFB. É ela – e não as leis – que moldam o
ser (ou melhor, o dever-ser) do Estado brasileiro.
Estudar direito processual civil a partir da CRFB é, antes de tudo, extrair tudo o que ela contém
sobre o direito processual civil. Todas as normas constitucionais de direito processual civil que
criam o modelo de organização e atuação do Estado-juiz. Criam no sentido de impor o modelo,
não apenas um, qualquer um, mas o modelo a ser necessariamente observado pelo intérprete e
aplicador.
Dos artigos iniciais já se pode ver essa necessidade de sintonia fina com a Constituição. As normas
fundamentais do Processo Civil estão assim dispostas nos artigos iniciais:
Art. 6º Cooperação
Art.
Publicidade e fundamentação
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Art.
Ordem cronológica
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CESPE/ DPU/2017: Para garantir os pressupostos mencionados em sua exposição de motivos, o CPC
estabelece, de forma exaustiva, as normas fundamentais do processo civil.
Comentários: Há outras normas fundamentais em outros artigos espraiados pelo CPC/15 (ex: arts. 926,
927, 946, 976) e na Constituição (ex: juiz natural, direito à prova etc.) que, embora não incluídos no rol
dos primeiros artigos, não deixam de ter o status de normas fundamentais do processo civil.
A Exposição de Motivos expressamente adverte que um dos maiores exemplos de sintonia fina com a
Constituição foi a tentativa de sobrelevar a segurança jurídica. E, como meio para tal, cria todo um
sistema de precedentes vinculantes, sistema esse que veremos mais adiante.
c) arbitrariedade e cooperação.
Comentários: A alternativa B é correta. A duração razoável está prevista no art. 4º e a boa-fé objetiva
está no art. 5º, ambos do CPC. O equívoco da alternativa D e E é a referência à boa-fé subjetiva e não
à boa-fé objetiva. O erro da letra C é a menção à arbitrariedade. E, por fim, a incorreção da letra A é a
palavra legitimidade que, embora conceito utilizado no processo civil (condição da ação – art. 17), não
é princípio do CPC/15.
Criar condições para que o juiz possa proferir decisão de forma mais rente à realidade fática subjacente à
causa
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Como exemplo de concretização desse objetivo, podemos citar a ênfase ao sistema multiportas 96 ou ADR –
alternative dispute resolution (mediação, conciliação, arbitragem – art. 3º); amicus curiae97; cooperação
internacional (auxílio direto – art. 28ss).
Ainda, criou-se a regra de que a parte é citada, atualmente, para uma audiência de conciliação e mediação
e não para contestar. Dessa audiência, poderão participar conciliador e mediador e o réu deve comparecer,
sob pena de se qualificar sua ausência injustificada como ato atentatório à dignidade da justiça. Não se
chegando a acordo, terá início o prazo para a contestação (art. 334, CPC).
Sobre a temática do art. 3º, CPC, é interessante, ao menos, ler os artigos 165 ao 175, prioritariamente o art.
165, porquanto ali estão apostas as duas diferenças básicas entre mediação e conciliação, qual seja,
mediador não propõe solução e é indicado para casos em que as partes já possuem uma relação prévia (ex.
direito de família); enquanto que a conciliação é sugerida para casos em que as partes não se conhecem (ex.
acidente de trânsito), permitindo, ainda, que o conciliador sugira algumas soluções, agindo de modo mais
ativo.
96
A origem dessa expressão “Justiça Multiportas” remonta os estudos do Professor Frank Sander, da Faculdade de Direito de
Harvard, que mencionava, já em 1976, a necessidade de existir um Tribunal Multiportas, ou “centro abrangente de justiça”. Essa
origem caiu no concurso para Promotor do MP-GO/2019.
97
Trecho da exposição de motivos: “Predomina na doutrina a opinião de que a origem do amicus curiae está na Inglaterra, no
processo penal, embora haja autores que afirmem haver figura assemelhada já no direito romano (CÁSSIO SCARPINELLA BUENO,
Amicus curiae no processo civil brasileiro, Ed. Saraiva, 2006, p. 88). Historicamente, sempre atuou ao lado do juiz, e sempre foi a
discricionariedade deste que determinou a intervenção desta figura, fixando os limites de sua atuação. Do direito inglês, migrou
para o direito americano, em que é, atualmente, figura de relevo digno de nota (CÁSSIO SCARPINELLA BUENO, [Link]., p. 94 e
seguintes)”.
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Ainda, é interessante ler a Lei de Mediação (Lei n. 13.140/2015). Trataremos desse tema posteriormente, de
forma mais aprofundada.
Acerca do amicus curiae, veremos o artigo abaixo e brevíssimas considerações (já que trataremos do instituto
quando da análise das intervenções de terceiro).
§ 1o A intervenção de que trata o caput não implica alteração de competência nem autoriza a
interposição de recursos, ressalvadas a oposição de embargos de declaração e a hipótese do §
3o.
§ 3o O amicus curiae pode recorrer da decisão que julgar o incidente de resolução de demandas
repetitivas.
O amicus curiae, portanto, é terceiro admitido no processo para fornecer subsídios instrutórios (probatórios
ou jurídicos) à solução de causa revestida de especial relevância ou complexidade. Como visto, é um
instrumento valioso do Poder Judiciário para produzir decisões mais rente à realidade (objetivo nº 2).
Ademais, o amicus curiae é um dos principais agentes democráticos dessa nova etapa do processo civil. Na
linha da sociedade aberta dos intérpretes da Constituição (Peter Häberle, autor alemão), a Constituição e o
ordenamento devem ser interpretados não apenas pelos operadores do Direito, mas sim por todos os
membros da sociedade. O amicus curiae e as audiências públicas são dois exemplos clássicos de
concretização dessa visão do mencionado autor alemão e de abertura do Poder Judiciário aos cidadãos.
Com a simples leitura do artigo acima já se consegue resolver uma miríade de questões. Vejamos:
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( FGV- TRT12ª/17 – OJAF) O juiz de Direito da 29ª Vara Empresarial de determinada cidade encontra-
se com um caso que possui grande repercussão social. Em razão disso, uma entidade especializada no
tema que será apreciado peticiona nos autos, em junho de 2017, requerendo a sua intervenção no
feito como amicus curiae.
a) é impossível a pretensão deduzida porque a figura do amicus curiae existe apenas para as causas
que tramitam no STF;
b) se o juiz não aceitar a participação da entidade como amicus curiae, ela poderá recorrer dessa
decisão interlocutória;
c) é viável a admissão de amicus curiae em 1º grau de jurisdição, desde que aceito pelo juiz em decisão
irrecorrível;
d) amicus curiae só existe para as causas que estejam nos Tribunais, ou seja, do 2º grau em diante;
e) caso a entidade seja aceita como amicus curiae, ela poderá no futuro recorrer da sentença e
decisões posteriores.
Comentários: A alternativa A é incorreta. O amicus curiae, embora mais utilizado no STF, nunca existiu
apenas para causas daquela corte. Vide art. 32 da Lei 4.726/1965 (Junta Comercial); Lei
6.385/1976 (Comissão de Valores Mobiliários – CVM); art. 14, § 7º, da Lei 10.259/2001 (Juizados
Especiais Federais); art. 118 da Lei 12.529/2011 (CADE).
A alternativa D está incorreta. Como dito acima, é admissível em qualquer grau de jurisdição.
A alternativa E está incorreta. Conforme art. 138, §§ 1º e 3º, pode opor embargos de declaração e
recorrer da decisão que julgar o IRDR.
Comentários: Alternativa errada. Deve-se incentivar a solução consensual durante todo o processo
também (art. 3º, CPC).
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Exemplos de consagração desse objetivo são: extinção das cautelares nominadas e de incidentes
(reconvenção, exceção incompetência relativa, impugnação à justiça gratuita, valor da causa – tudo na
contestação – art. 337); intervenção de terceiro (arts. 119 a 138), com a retirada de nomeação à autoria e
oposição e inserção de amicus curiae e desconsideração da personalidade jurídica; tutela provisória (art. 294
ss); sistema recursal (admissibilidade, prazo etc.).
Ademais, cria-se a faculdade de o advogado promover, pelo correio, a intimação do advogado da outra parte.
Também as testemunhas devem comparecer espontaneamente, sendo excepcionalmente intimadas por
carta com aviso de recebimento (art. 455).
O prazo para todos os recursos, com exceção dos embargos de declaração, foi uniformizado: quinze dias (art.
1.003, §5º). O recurso de apelação continua sendo interposto no 1º grau de jurisdição, tendo-lhe sido,
todavia, retirado o juízo de admissibilidade, que é exercido apenas no 2º grau de jurisdição (art. 1.010, § 3º).
Desapareceu o agravo retido, tendo, correlatamente, alterado o regime das preclusões (art. 1.009, §2º).
Uma das grandes alterações havidas no sistema recursal foi a supressão dos embargos infringentes, criando
figura peculiar (art. 942).
Na execução, se eliminou a distinção entre praça e leilão, assim como a necessidade de duas hastas públicas.
Desde a primeira, pode o bem ser alienado por valor inferior ao da avaliação, desde que não se trate de
preço vil. Foram extintos os embargos à arrematação, tornando-se a ação anulatória o único meio de que o
interessado pode valer-se para impugná-la.
Conforme art. 503, § 1º, CPC, os efeitos da coisa julgada material serão aplicáveis para questões
prejudiciais.
TJSP/2017: d) pode abranger a resolução de questão prejudicial, desde que dessa resolução dependa
o julgamento do pedido; que tenha sido facultado o contraditório; e que o órgão seja competente em
razão da matéria e da pessoa para resolver a questão como se principal fosse.
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Finalmente, sendo talvez este último objetivo parcialmente alcançado pela realização daqueles
mencionados antes, imprimir maior grau de organicidade ao sistema, dando-lhe, assim, mais coesão
Art. 5º, LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;
Art. 8º Garantias Judiciais “Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e
dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial,
estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra
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ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal
ou de qualquer outra natureza”.
Origem
A expressão due processo of Law apareceu primeiramente no século XIV – 1354, a partir de Eduardo III, Rei
da Inglaterra. Contudo, a noção de devido processo legal como cláusula de proteção contra a tirania é ainda
mais antiga, remontando ao Édito de Conrado II (Decreto Feudal Alemão de 1.037, século XI)98.
Tal decreto inspirou a Magna Carta de 1215, assinada pelo rei João “Sem Terra” em favor dos barões feudais
saxônicos, consagrando, no artigo 39 daquele documento, sob a designação “law of the land”, a ideia
equivalente ao due processo f law. O artigo 39 da Magna Carta dispunha:
No free man shall be seized or imprisoned, or stripped of his rights or possessions, or outlawed or
exiled, or deprived of his standing in any other way, nor will we proceed with force against him,
or send others to do so, except by the lawful judgment of his equals or by the law of the land.
Embora o texto inglês de 1215 não tenha cunhado a expressão “devido processo legal”, percebe-se que sua
intenção era realmente limitar o exercício arbitrário do Monarca, impondo limites e garantias contra seus
atos em respeito aos cidadãos.
Como o devido processo legal é a tradução brasileira de uma expressão inglesa “Due Process of Law”, a
utilização do termo ficou equivocada, porque sendo “law” o Direito, o devido processo não é aquele em
conformidade com a lei, mas com o Direito como um todo. É por isso que alguns autores não utilizam a
expressão devido processo legal, preferindo o termo devido processo constitucional. Assim, são
consideradas expressões sinônimas de devido processo legal o direito ao processo justo e o direito ao fair
trial. Italianos traduziram como processo giusto. Portugueses traduziram em processo equitativo.
Ademais, já se frisou que o devido processo legal é uma cláusula geral, cuja hipótese normativa E o
consequente normativo são abertos. Seu sentido é preenchido de acordo com as circunstâncias histórico-
culturais do momento da decisão. É exatamente por essa abertura semântica que o devido processo é
compreendido de diversas formas ao longo do tempo.
Atualmente, são tidos como corolários do devido processo legal as seguintes normas99: contraditório; juiz
natural; publicidade; duração razoável; publicidade; igualdade; proibição de prova ilícita e da motivação.
Contudo, há possibilidade de surgimento de várias outras garantias. Cita-se o processo eletrônico como um
campo ainda a ser descoberto, campo no qual haverá muito desenvolvimento do devido processo legal.
98
PEREIRA, Ruitemberg Nunes. O princípio do devido processo legal substantivo. Rio de Janeiro: Renovar, 2005, pp. 18-27.
99
Didier aponta que são princípios implícitos na CRFB o da efetividade; da boa-fé processual e da adequação, todos decorrentes
da cláusula geral do Devido Processo Legal. DIDIER JR., Fredie. Op. Cit., pp. 87-98.
98
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Portanto, devido processo legal é um conjunto de garantias processuais que estão expressamente e
implicitamente previstos, surgindo todos para proteger-nos contra a tirania.
Para provas, é preciso saber que a doutrina identifica duas dimensões do princípio.
a) Dimensão formal ou processual: o devido processo legal é a fonte de uma série de direitos e garantias
que dizem respeito à validade do processo. É essa dimensão que nos garante o contraditório, o juiz natural,
a publicidade, a motivação, ou seja, é o conjunto de garantias processuais por todos conhecidas.
Embora já incorporada na jurisprudência pátria, mormente no STF, impõe-se a alusão às duas críticas
lançadas pela doutrina a essa concepção, quais sejam:
a) A concepção brasileira é errada: para os americanos, a dimensão substancial do devido processo legal é
a fonte de proteção dos direitos fundamentais implícitos, ou seja, é uma norma que permitia a criação de
direitos fundamentais sem texto expresso. Para o Brasil, tal construção não serve, pois temos um rol imenso
de direitos fundamentais E nossa própria constituição diz expressamente que o rol de direitos é meramente
exemplificativo.
Por fim, vale sublinhar que o devido processo legal é exigido no âmbito legislativo, administrativo,
jurisdicional e, ainda, no âmbito privado.
No âmbito privado, também há processo, que decorre do direito ao autorregramento da vontade e o devido
processo deve ser aplicado tanto na formação das normas, quanto em sua aplicação. São exemplos os
regulamentos de clubes100, regimentos de condomínios e os contratos em geral. Nesse contexto, se um
condômino desobedecer a uma norma do regimento do condomínio, deverá ser notificado para apresentar
defesa, antes de ser punido pelo síndico.
100
Art. 57, Código Civil: “A exclusão do associado só é admissível havendo justa causa, assim reconhecida em procedimento que
assegure direito de defesa e de recurso, nos termos previstos no estatuto.” Esta norma foi ratificada pelo STF no RE 201.819, em
2005, sendo este um dos julgamentos mais significativos do STF no processo civil.
99
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No estudo dos direitos fundamentais, fala-se em eficácia vertical dos direitos fundamentais, que se dá na
regulação da relação entre Estado e cidadão, bem como em eficácia horizontal dos Direitos Fundamentais,
que se consubstancia na aplicação dos Direitos Fundamentais entre particulares. Nesse ponto, a doutrina é
uniforme em dizer que a teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais se originou a partir do caso
Lüth, julgado pelo Tribunal Constitucional Federal Alemão em 1958101.
a) teorias do state action e public function (EUA): os direitos fundamentais só são exigíveis nas relações dos
particulares com o poder público (state action theory) ou, pelo menos, com um particular que desenvolva
atividade nitidamente pública (public function theory).
b) eficácia indireta e mediata: os direitos fundamentais se aplicam às relações entre particulares, mas apenas
de forma mediata, indireta, necessitando que eles sejam aplicados por meio das cláusulas gerais do direito
privado (boa-fé, função social, ordem pública etc.). Essa foi a teoria aplicada pelo Tribunal Alemão no famoso
caso Lüth, de 1958.
c) eficácia direta e imediata: os direitos fundamentais são exigíveis nas relações entre particulares, sem
necessitar de qualquer intermediação por meio de lei, de cláusula geral, nada disso. É a adotada no Brasil
pela doutrina majoritária e pelo STF. Casos em que foi aplicada: RE 161.243 de 1997 – imposição à Air France
tratamento igualitário entre funcionários franceses e brasileiros; RE 158.215-4/RS de 1996 - obrigatoriedade
do respeito à ampla defesa para a exclusão de associado em associação privada; RE 201.819/RJ de 2006 –
exclusão de sócio da União Brasileira de Compositores sem ampla defesa e contraditório.
2 - PRINCÍPIO DO CONTRADITÓRIO
É corolário do devido processo legal, sendo previsto no artigo 5º, LV da CRFB, bem como art. 8, da Convenção
Americana sobre Direitos Humanos e arts. 9º e 10 do CPC/15.
Art. 5º, LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são
assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;
101
Erich Lüth era crítico de cinema e conclamou os alemães a boicotarem um filme, dirigido por Veit Harlam, conhecido diretor da
época do nazismo. Harlam e a distribuidora do filme ingressaram com ação cominatória contra Lüth, alegando que o boicote
atentava contra a ordem pública, o que era vedado pelo Código Civil alemão. Lüth foi condenado nas instâncias ordinárias, mas
recorreu à Corte Constitucional. Ao fim, a queixa constitucional foi julgada procedente, pois o Tribunal entendeu que o direito
fundamental à liberdade de expressão deveria prevalecer sobre a regra geral do Código Civil que protegia a ordem pública. Esse
foi o primeiro caso em que se decidiu pela aplicação dos direitos fundamentais também nas relações entre os particulares
(drittwirkung, eficácia horizontal).
100
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Art. 8º Garantias Judiciais “Toda pessoa tem direito a ser ouvida, com as devidas garantias e
dentro de um prazo razoável, por um juiz ou tribunal competente, independente e imparcial,
estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra
ela, ou para que se determinem seus direitos ou obrigações de natureza civil, trabalhista, fiscal
ou de qualquer outra natureza."
C está incorreta. O contraditório substancial não é só a garantia de ouvir e ser ouvido, mas também
de influenciar o juiz. Ademais, tem relação com ônus processual (ex: ônus de contestar, exercer o
contraditório, sob pena de revelia); sanção processual (ex: o contraditório não pode servir para
deduzir pretensão destituída de fundamento, sob pena de litigância de má-fé e inadmissão de recurso
protelatório).
FAUGRS/Analista do TJRS/17 - a) O princípio do contraditório exige apenas a ciência bilateral dos atos
e termos do processo, bem como a possibilidade de contraditá-los. A está incorreta. Há o terceiro
elemento (poder de influência)
A primeira se refere ao contraditório e às questões de ordem pública: é sabido que algumas questões no
processo podem ser reconhecidas de ofício (v.g. decadência, incompetência absoluta, inconstitucionalidade
da lei, intempestividade etc.). Todavia, não pode o juiz reconhecer alguma questão ex officio sem tê-la
102
Uma hipótese de violação à reação é o caso de indisponibilidade do sistema de peticionamento eletrônico por motivos técnicos
no último dia do prazo, o que prorrogará o prazo para o dia útil subsequente (art. 10, § 2º, Lei 11.419/2006).
101
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submetido antes à manifestação das partes, porquanto o contraditório substancial é uma garantia de não
surpresa.
Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a
respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate
de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
MPE-SC/MPE-SC – Promotor/19 - O Código de Processo Civil dispõe que o juiz não pode decidir, em
grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado às partes
oportunidade de se manifestar, salvo se tratar de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
Comentários: O art. 10, CPC diz exatamente o contrário, isto é, deve ouvir as partes previamente
inclusive se se tratar de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
A doutrina salienta que o STJ ora adota, corretamente, soluções favoráveis ao contraditório, ora adota
soluções bem restritivas.
Por exemplo, em 2018, a Corte Especial entendeu que, em razão dos princípios do juiz natural e da não
surpresa, o ministro que não acompanhou o início de um julgamento com sustentações orais não pode
participar de sua continuação (EREsp 1.447.624, d.j. 15/08/18). Por isso, o STJ aprovou emenda regimental
38/19, alterando o art. 162 do RISTJ para disciplinar a participação no julgamento do ministro que não assistiu
às sustentações orais103.
Doutro lado, o STJ tem entendido pela desnecessidade de intimar o recorrente antes da prolação de decisão
que reconhece, de ofício, algum óbice de admissibilidade do recurso especial104, contrariando o art. 10 (que
fala “em grau algum de jurisdição”) e o art. 933 do CPC.
103
A emenda prevê a possibilidade de renovação da sustentação para viabilizar a participação de ministro que não tenha
acompanhado a defesa oral, quando isso for necessário, por exemplo, para a formação de quórum, para desempate ou no
julgamento de recurso repetitivo.
104
O recorrente defende a nulidade do julgado impugnado pelo MS por teratologia consistente na declinação de competência
de ofício do juízo singular para o Tribunal de Justiça Militar, porquanto não houve observação do art. 10, CPC/15 (...). Contudo, a
jurisprudência do STJ já admite o caráter não absoluto do art. 10 do CPC/15, uma vez que entende pela desnecessidade de
intimar o recorrente antes da prolação de decisão que reconhece algum óbice de admissibilidade do recurso especial. (...).
Eventual vício de incompetência é considerado tão grave no ordenamento que, além de poder ser pronunciada de ofício, configura
hipótese de ação rescisória (art. 966, II, do CPC/2015). Ademais, a declaração - em si considerada - atinente à declinação de
competência absoluta não implica prejuízos ao requerente. (...) (STJ, 2ª T, AgInt no RMS 61732/SP, Rel. Min. Mauro Campbell, d.j.
05/12/19). No mesmo sentido: STJ, AgInt no AREsp 1793022/SP, Rel. Min. Salomão, d.j. 31/05/21,
102
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Enunciado 5, ENFAM: Não viola o art. 10 do CPC/15 a decisão com base em elementos de fato
documentados nos autos sob o contraditório.
Ademais, há intensa controvérsia sobre se o art. 10, quando preceitua que o juiz não pode decidir com base
em “fundamento” a respeito do qual não tenha dado às partes oportunidade de manifestação, está o
legislador se referindo a fundamento de fato e/ou de direito.
De início, é preciso diferenciar fundamento legal de fundamento jurídico. O tema será aprofundado quando
do estudo da “causa de pedir”, mas adianto que, para Bedaque105, enquanto fundamento legal traduz a
mera indicação do dispositivo, o fundamento jurídico representa o enquadramento dos fatos no
ordenamento, isto é, a subsunção daqueles fatos constitutivos à violação ocorrida no plano material,
situação apta a ensejar certas consequências jurídicas.
1ª corrente (Carlos Alberto Alvaro de Oliveira, Marinoni, Mitidiero): as partes devem ser ouvidas se o juiz vai
utilizar dispositivo legal diverso do indicado em suas alegações.
2ª corrente (Cruz e Tucci106, FPPC, STJ – majoritária): se o juiz aplicar um dispositivo de lei (fundamento
legal) sobre o qual não houve debate, não há problema, pois o conhecimento geral da lei é presunção jure
et de jure, incidindo aqui o iura novit curia.
105
BEDAQUE, José Roberto dos Santos. A causa petendi e o contraditório, p. 82.
106
CRUZ e TUCCI, José Rogério. A decisão surpresa na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Disponível em: <
[Link]
tribunal-justica >. Acesso em 07.08.2021.
103
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aplicação do princípio da não surpresa não impõe, portanto, ao julgador que informe
previamente às partes quais os dispositivos legais (fundamento legal) passíveis de aplicação para
o exame da causa. O conhecimento geral da lei é presunção jure et de jure (art. 3º da LINDB).
(STJ, 4ª T, EmbDcl. No REsp n. 1.280.825, Rel. Min. Gallotti, d.j. 27/06/17107).
Enunciado 281, FPPC (art. 319, III): A indicação do dispositivo legal não é requisito da petição
inicial e, uma vez existente, não vincula o órgão julgador.
Doutro lado, se o juiz alterar o fundamento jurídico, isto é, a qualificação/enquadramento jurídico, a relação
jurídica afirmada, há discussão se precisa intimar as partes.
1ª corrente (ENFAM): não precisa intimar as partes. Só há necessidade quando o juiz altera o substrato fático
e não quando altera o fundamento jurídico.
Art. 4°, § 2º Não se considera “decisão surpresa” a que, à luz do ordenamento jurídico nacional
e dos princípios que informam o Direito Processual do Trabalho, as partes tinham obrigação de
prever, concernente às condições da ação, aos pressupostos de admissibilidade de recurso e aos
pressupostos processuais, salvo disposição legal expressa em contrário.
107
No caso, o inconformismo dos embargantes residiu na aplicação, na fase de julgamento da causa, após o conhecimento do
recurso especial, de dispositivo legal que, realmente, não fora invocado pelas partes, a saber, o art. 205 (prescrição decenal), ao
invés do art. 206, § 3º, V (prescrição trienal), ambos do Código Civil.
104
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2ª corrente (doutrina majoritária): Dinamarco108 salienta que tal posicionamento parte de uma falsa
premissa consistente no conhecimento da lei pelo juiz (iura novit curia), pela qual a correta qualificação
jurídica dos fatos será sempre feita por ele e não pelas partes.
Consoante Fernanda Costa Vogt109, a rígida distinção entre fato e direito e o brocardo iura novit curia pode
ser atribuída ao racionalismo ocidental e à burocratização do Estado Moderno, estando, atualmente,
suplantado: i- do ponto de vista discursivo, pela incidência cada vez maior da intersubjetividade do processo;
ii- do ponto de vista procedimental, pelo ganho de autonomia das partes, com a possibilidade de disporem
sobre seus poderes, deveres, ônus e faculdades, como, aliás, prevê a cláusula geral do art. 190 do CPC.
No common law, a separação entre questões de fato e questões de direito é mais tênue, principalmente
porque as atividades postulatória e instrutória não eram rigidamente delimitadas no procedimento.
Damaska110 observa que o stare decisis promoveu um sistema de vinculação “rico em fatos”, sobrepondo o
raciocínio indutivo ao dedutivo e se aproximando da realidade social, onde fatos e valoração jurídica se
misturam.
Na sociedade complexa atual, em litígios intrincados, a exemplo dos processos estruturais, é ainda mais difícil
definir onde termina o fato e onde começa o direito.
Transpondo tal problema para os exemplos, de um lado, questões de direito, a exemplo da comprovação
do direito estrangeiro, estadual, municipal ou consuetudinário (art. 376 do CPC), podem necessitar de dilação
probatória (portanto, nem na visão clássica do iura novit curia, tal preceito seria absoluto). Doutro lado, as
cláusulas gerais e conceitos jurídicos indeterminados, de tessitura aberta, exigem do juiz esforço para
preenchê-la, impondo, muitas vezes, que recorra aos fatos, atuando como intérprete in concreto111.
Em suma, na quadra histórica em que estamos, com a evolução das teorias sobre a interpretação, não se faz
a dedução da norma como compartimento estanque em relação à dedução dos fatos.
A cognição dos fatos e do direito, segundo Fernanda Vogt, dá-se em espiral, em processo simbiótico: dos
fatos ao direito e do direito aos fatos. Só assim é produzida a norma do caso concreto.
108
DINAMARCO, Cândido Rangel. Comentários ao Código de Processo Civil: das normas processuais civis e da função jurisdicional.
Arts. 1º ao 69. São Paulo: Saraiva, 2018, p. 118-119.
109
VOGT, Fernanda Costa. Cognição do juiz no processo civil: flexibilidade e dinamismo dos fenômenos cognitivos. Salvador:
Juspodivm, 2020, p. 99.
110
DAMASKA, Mirjan R. Rational and irrational proof revisited. Cardozo Journal of International and Comparative Law, v. 525, 1997,
p. 28.
111
MARTINS-COSTA, Judith. A boa-fé no direito privado. São Paulo: Saraiva, 2ª ed., 2018, p. 196.
105
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Portanto, seja em matéria de fato, seja em matéria jurídica, a participação dos litigantes, opinando,
arrazoando, argumentando, é vital para a formação do convencimento do julgador mediante a influência
que essa participação procura exercer em seu espírito112. Nesse sentido:
Enunciado 282 do FPPC: (arts. 319, III e 343) Para julgar com base em enquadramento normativo
diverso daquele invocado pelas partes, ao juiz cabe observar o dever de consulta, previsto no art.
10.
Conforme vimos em julgado acima colacionado, a 4ª Turma do STJ113 já se posicionou nesse sentido, isto é,
de que o ‘fundamento’ ao qual se refere o art. 10 do CPC/15 é o fundamento jurídico. Ainda, já foi cobrada
tal posição em prova:
FUNDATEC/PGE-RS – Procurador/15 - e) Em razão das máximas iura novit curia e da mihi factum dabo
tibi ius, constitui tarefa privativa do juiz a aplicação do direito, independentemente da sua arguição
pelas partes, cabendo a estas últimas apenas a alegação dos fatos. Quer isso dizer que o contraditório
somente alcança as questões de fato, não sendo necessário para as questões de direito. E está
incorreta. Contraditório alcança questões de fato E de direito.
Enunciado 235, FPPC: (arts. 7º, 9º e 10, CPC; arts. 6º, 7º e 12 da Lei 12.016/2009) Aplicam-se ao
procedimento do mandado de segurança os arts. 7º, 9º e 10 do CPC.
Enunciado 259, FPPC: (arts. 190 e 10). A decisão referida no parágrafo único do art. 190 depende
de contraditório prévio.
Art. 9o Não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida.
Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica: I - à tutela provisória de urgência; II - às
hipóteses de tutela da evidência previstas no art. 311, incisos II e III; III - à decisão prevista no art.
701 (ação monitória).
Frisa-se que tal rol é exemplificativo, isto é, não exaure as possibilidades de decisões inaudita altera parte.
Como exemplos, há os artigos 77/81 (imposição de ofício de multas), 332 (improcedência liminar do pedido),
112
DINAMARCO, Cândido Rangel. Op. Cit., p. 118.
113
STJ, 4ª Turma, EmbDcl. No REsp n. 1.280.825, Rel. Min. Isabel Gallotti, d.j. 27/06/2017.
106
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355 (julgamento antecipado do mérito), 562 (liminar em possessória), 678 (embargos de terceiros), tutela
provisória no despejo (art. 59, §1º, Lei n. 8.245/91) e mandado de segurança (art. 7º, III, Lei n. 12.016/09).
Enfim, o importante é saber que, embora o contraditório seja mitigado, não há violação, não há
inconstitucionalidade. Além de a decisão poder ser revista depois, são mitigações feitas com a finalidade de
dotar de efetividade a jurisdição, outro princípio constitucional. Assim, o próprio legislador já fez a
ponderação e entendeu que, nesses casos, a mitigação ao contraditório é mínima (até porque poderá ser
revertida), ao passo que o direito da outra parte à efetividade é promovido de maneira significativa.
Várias outras repercussões são sentidas em diversos dispositivos do CPC/15. Além da regra geral dos artigos
9º e 10, o CPC/15, Leonardo Greco114 aponta que o contraditório consiste em um megaprincípio, na medida
em que a sua concretização (em vários dispositivos do CPC) pressupõe a observância de outros princípios e
regras, tais como:
iv- o juiz precisará ouvir o réu em 15 dias, ou prazo maior, quando este concordar com a alteração da causa
de pedir ou do pedido (art. 329, II);
v- redistribuição do ônus da prova de ofício deve ser precedida de contraditório (art. 373, §1º e enunciado
632 do FPPC);
114
GRECO, Leonardo. Contraditório Efetivo. Revista Eletrônica de Direito Processual – REDP. Vol. 15. Jan a Jun/15.
115
Era comum ter a desconsideração e, depois que ocorria, as partes eram intimadas. (STJ, 4ª T, AgInt no AREsp 918295/SP, Rel.
Min. Gallotti, d.j. 18/10/16).
116
Em momento oportuno, iremos discorrer a respeito. Por ora, saibam que o STJ (EREsp 617.428-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi,
d.j. 4/6/14) e o enunciado 30 do CJF não exigem que as partes sejam as mesmas do processo originário. Basta que, depois da
juntada, as partes sejam intimadas para o contraditório.
117
Nesse sentido, o STJ anulou uma sentença, pois não se deu vista às partes a partir dos documentos trazidos pelo MP (STJ, 3ª
Turma, REsp. 1.824.337/CE, Rel. Min. Moura Ribeiro, d.j. 10/12/19).
107
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viii- necessidade de ouvir as partes antes da decretação da prescrição e da decadência (art. 487, p.ú), exceto
no julgamento liminar de improcedência (art. 332, §1º), em que poderia o juiz reconhecer prescrição e
decadência liminarmente, sem ouvir as partes118;
TRF 2ª Região/Juiz Federal/17 - Caio move ação em face de autarquia federal. O feito é contestado e,
depois, o juiz federal verifica, de ofício, que o lapso de tempo prescricional previsto em lei foi
ultrapassado, embora nada nos autos toque ou refira o assunto. O Juiz: c) Deve ser dada às partes
oportunidade de manifestação. C está correta.
ix- fatos novos (art. 493, p.ú e art. 933, caput e §1º c/c enunciado 60 do CJF119);
xi – em regra, somente as partes que atuaram em contraditório ou que tiveram essa possibilidade podem
sofrer os efeitos da coisa julgada (art. 506);
xii- na fraude à execução, antes de decretá-la, o juiz deve ouvir o terceiro adquirente (art. 792, §3º);
xiv- o relator não poderá prover monocraticamente sem que a outra parte não seja ouvida (art. 932, V, “a”,
“b” e “c”).
xv- necessidade de prazo de 5 dias para corrigir vício formal (art. 932, parágrafo único);
xvi- embargos de declaração com potencial efeito infringente (art. 1.023, §2º);
xvii- o recorrente deve ser ouvido em 5 dias para adaptar as razões quando houver fungibilidade entre os
embargos de declaração e o agravo interno (art. 1.024, 3º);
118
Embora a redação legal permita tal prática, a doutrina vem dizendo que, inclusive para a improcedência liminar do pedido, as
partes devem ser ouvidas. O autor, por exemplo, pode suscitar causa suspensiva, impeditiva da prescrição. Ainda, o réu pode
renunciar a prescrição e utilizar o art. 940 do CC etc..
119
Enunciado 60 da I JDPC do CJF: É direito das partes a manifestação por escrito, no prazo de cinco dias, sobre fato superveniente
ou questão de ofício na hipótese do art. 933, § 1º, do CPC, ressalvada a concordância expressa com a forma oral em sessão.
108
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ii- dever de advertência do art. 250120, avisando o réu de que, caso não conteste, será considerado revel;
iii- licitude da produção de provas pelo réu revel, se chegar à tempo (art. 349);
iv- igualou honorários de sucumbência nas causas em que atua a Fazenda, seja vencedora ou vencida (art.
85, §3º);
c) congruidade de prazos
i- para assegurar o contraditório, o juiz pode dilatar prazos processuais (art. 139, VI);
ii- o juiz não pode reduzir prazos peremptórios, sem anuência das partes (art. 222, p. ú.);
iii- fixação de 5 dias de antecedência para publicação da pauta nos Tribunais (art. 935).
Possibilita a participação no processo de todas as entidades e grupos que possam colaborar com uma decisão
mais rente à realidade fática subjacente à causa. Assim, generalizou-se a intervenção do amicus curiae para
qualquer processo; os arts. 927, §2º e 983, caput e §1º preveem audiências públicas; ampla divulgação
exigida no art. 979. Ainda, na formação dos precedentes (art. 927), é necessário o contraditório prévio sobre
os argumentos a serem utilizados para formar o precedente e para superá-lo, para aplicação de precedente
vinculante de ofício e para correção de algum vício.
Enunciado 2, FPPC: Para a formação do precedente, somente podem ser usados argumentos
submetidos ao contraditório.
Enunciado 459, FPPC: As normas sobre fundamentação adequada quanto à distinção e superação
e sobre a observância somente dos argumentos submetidos ao contraditório são aplicáveis a
todo o microssistema de formação dos precedentes.
Enunciado 458, FPPC: Para a aplicação, de ofício, de precedente vinculante, o órgão julgador deve
intimar previamente as partes para que se manifestem sobre ele.
120
Não constando a advertência no mandado, não incidirão os efeitos da revelia, já que o réu não possui conhecimentos técnicos
para aquilatar a gravidade da não apresentação de defesa no prazo legal (STJ, 4ª Turma, Resp 10.137/MG, rel. Min. Athos Gusmão
Carneiro). Tal advertência não precisará constar na intimação para contestar reconvenção (art. 343, § 1º), pois será feita na pessoa
do advogado, ser dotado do conhecimento sobre as consequências jurídicas da não impugnação.
109
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O CPC robusteceu o dever constitucional de fundamentação (art. 93, IX, CRFB/88), elencando, no art. 489,
§1º, várias decisões que serão consideradas nulas, caso não respeite aquelas determinações.
MPPR/19: c) Há regra geral do CPC que permite que decisões sejam proferidas sem a oitiva da parte
afetada. Incorreta. A regra geral do CPC é que as partes devem ser ouvidas anteriormente (arts. 9º e
10). Entretanto, há casos excepcionais em que isso não é preciso. É exatamente o que foi cobrado na
questão anterior. Ex: art. 9º, parágrafo único; art. 562; art. 332 etc.
Por fim, apenas se ressalta as diferenças do contraditório na esfera civil e penal. O art. 261 do CPP exige
que haja defesa técnica, ainda que por defensor dativo. No processo civil, o que se exige é a oportunidade
de manifestação, sendo que, não existindo, haverá o efeito material da revelia (presunção de veracidade das
afirmações aduzidas pelo autor, salvo hipóteses do art. 345, CPC).
121
PORTANOVA, Rui. Princípios do Processo Civil. 5ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003, p. 125-126.
110
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2ª corrente (Alexandre de Moraes): a ampla defesa tem acepção mais ampla, assegurando ao réu condições
de trazer para o processo todos os elementos tendentes a esclarecer a verdade. Já o contraditório é a própria
exteriorização da ampla defesa.
3ª corrente (Nelson Nery122): o contraditório contém a ampla defesa. Pelo contraditório, há necessidade de
dar conhecimento da existência da ação e de todos os atos do processo. De outro, contém a possibilidade
de as partes reagirem, apresentarem todas as suas defesas (ampla defesa).
4ª corrente (Didier Jr.123): não há razão para diferença. Para o autor, a ampla defesa é identificada com a
dimensão substancial do processo, mais propriamente com a nova configuração do contraditório, composto
pelo clássico binômio ciência e reação, adicionado pelo poder de influência.
SV 5, STF: A falta de defesa técnica por advogado no processo administrativo disciplinar não
ofende a Constituição.
Saibam que, no informativo 849 do STF, a Corte rejeitou proposta de cancelamento da SV 5 requerido pelo
Conselho Federal da OAB. Na oportunidade, os Ministros salientaram que a referida súmula não eliminou o
direito de defesa por advogado no âmbito administrativo disciplinar, na medida em que apenas tornou
facultativa a presença desse profissional (PSV 58/DF, julgamento em 30.11.16).
O ato, porque necessita de manifestação de vontade de dois órgãos, é chamado de complexo. O que a SV 3
diz é que, para análise do Tribunal de Contas sobre a legalidade da concessão inicial, não é necessário o
contraditório e ampla defesa. Entretanto, seria necessário garantir o contraditório e ampla defesa se tiverem
se passados mais de 5 anos desde a concessão inicial e o Tribunal de Contas ainda não examinou a legalidade
do ato.
122
NERY JR., Nelson. Princípios Constitucionais do Processo Civil na Constituição Federal. 7ª ed. São Paulo: RT, 2002, p. 135.
123
DIDIER JR., Fredie. Op. Cit., p. 114.
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Cuidado! Tal entendimento valia até o RE 636553, julgado em 19/2/20 (info 967):
Portanto, se antes não havia prazo para análise desse benefício, agora há (5 anos). Assim, não há mais a
hipótese de o Tribunal demorar mais de 5 anos para analisar. Se inexiste essa possibilidade, não haverá mais
a necessidade de conceder ampla defesa e contraditório.
Está previsto no artigo 5º, XXXV da CRFB, bem como no art. 3º, CPC, valendo asseverar que não havia previsão
similar nas Constituições de 1824, 1891, 1934 e 1937, sendo tal princípio constitucionalizado apenas em
1946 (art. 141, §4º)125, cujo teor foi reproduzido nas Cartas de 1967 e na EC1 de 1969 e alargado na CRFB/88.
Art. 5º, XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito.
O art. 5º, XXXV, CRFB pode ser visto sob três óticas:
a) Impossibilidade de limitação do direito de ação;
124
STJ, 2ª Turma, REsp 1.506.932/PR, Rel. Min. Auro Campbell Marques, d.j. 02/03/2021, info 687; STJ, 2ª T, AgInt no RMS
47.738/RJ, Rel. Min. Francisco Falcão, d.j. 03/05/22.
125
MARINONI, Luiz Guilherme. Comentário ao art. 5º, XXXV. In: CANOTILHO, J. J. Gomes; MENDES, Gilmar Ferreira; SARLET, Ingo
Wolfgang; STRECK, Lênio Luiz (orgs.). Comentários à Constituição do Brasil. São Paulo: Saraiva/Almedina, 2013, p. 358.
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Art. 181. Ficam aprovados e excluídos de apreciação judicial os atos praticados pelo Comando
Supremo da Revolução de 31 de março de 1964, assim como:
I - os atos do Govêrno Federal, com base nos Atos Institucionais e nos Atos Complementares e
seus efeitos, bem como todos os atos dos Ministros Militares e seus efeitos, quando no exercício
temporário da Presidência da República, com base no Ato Institucional nº 12, de 31 de agôsto de
1969;
III - os atos de natureza legislativa expedidos com base nos Atos Institucionais e Complementares
indicados no item I.
Visto sob a segunda ótica, a Constituição passada (art. 153, §4º, CF/1967, com redação da EC 07/1977)
expressamente permitia que a lei condicionasse o prévio esgotamento da via administrativa. Era uma
condição de procedibilidade.
Art. 153, §4° A lei não poderá excluir da apreciação do Poder Judiciário qualquer lesão de direito
individual. O ingresso em juízo poderá ser condicionado a que se exauram previamente as vias
administrativas, desde que não exigida garantia de instância, nem ultrapassado o prazo de cento
e oitenta dias para a decisão sobre o pedido.
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Atualmente, a CRFB/88 é peremptória. Nenhuma causa pode ser excluída da apreciação do Poder Judiciário,
salvo exceções por ela mesma elencadas, a exemplo do art. 52126, I e II e art. 217, ambos da CRFB.
Ocorre que há leis que ainda exigem a provocação da via administrativa antes da provocação do Poder
Judiciário, a exemplo do art. 8º, parágrafo único, Lei nº. 9.507/97 (Habeas Data); art. 5º, I, Lei nº. 12.016/2009
(MS); art. 7º, § 1º, Lei Federal n. 11.417/2006 (uso da reclamação por descumprimento de súmula
vinculante). Vejamos:
Art. 8° A petição inicial, que deverá preencher os requisitos dos arts. 282 a 285 do Código de
Processo Civil, será apresentada em duas vias, e os documentos que instruírem a primeira serão
reproduzidos por cópia na segunda.
§ 1o Contra omissão ou ato da administração pública, o uso da reclamação só será admitido após
esgotamento das vias administrativas.
126
Embora a questão seja afastada do Poder Judiciário, não é afastada da jurisdição, uma vez que o Senado exerce a função atípica
jurisdicional nesses casos.
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Sim. Nos dois primeiros casos, o que se verifica é ausência do interesse de agir, uma das condições da ação,
para provocar o Judiciário. Vamos item por item.
Lei do HD: O art. 5º, XXXV, da CF/88 estabelece que “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário
lesão ou ameaça a direito”. Ora, se não houve pedido administrativo anterior e negativa do acesso ou
retificação da informação no prazo legal, não está caracterizada nenhuma lesão ou ameaça de direito.
Lei do MS: Se do suposto ato ilegal couber recurso com efeito suspensivo, sem qualquer necessidade de
preparo ou caução do lesado, não há interesse de agir, na vertente necessidade, em buscar ao judiciário.
Além disso, o que está se proibindo é o manejo do mandado de segurança. A parte poderá, porém, valer-se
de ação ordinária ou outro meio processual cabível.
Lei nº. 11.417/2006: o ingresso de reclamação constitucional condicionada ao exaurimento das vias
administrativas também não ofende o princípio, pois a lei veda a utilização da reclamação, mas não outro
meio idôneo a impugnar aquela ofensa.
No RE 63.240, o STF considerou constitucional a exigência de prévio requerimento administrativo para haver
o interesse de agir de demandar perante o Judiciário, salvo em algumas hipóteses127.
Tal entendimento, mais uma vez, não viola a inafastabilidade. O art. 5º, XXXV, da CF/88 estabelece que “a lei
não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. Ora, como afirmou Barroso, se
não houve pedido administrativo anterior e negativa por parte do INSS no prazo legal, não está caracterizada
nenhuma lesão ou ameaça de direito.
Atenção: nos casos acima elencados, a doutrina majoritária argumenta que não são exceções ao princípio
da inafastabilidade da jurisdição, já que devem ser levadas em conta a diferença da inafastabilidade da
jurisdição e a necessidade de o autor ter interesse de agir (necessidade, utilidade, adequação).
Entretanto, ainda que se admita que um ou outro caso seja efetivamente uma restrição à inafastabilidade,
há de se considerar, consoante afirma Didier, que direitos fundamentais podem sofrer restrições por
determinação legislativa infraconstitucional, sendo necessário, porém, que haja justificação razoável.
127
a) Não há necessidade de prévio requerimento administrativo para que o segurado ingresse judicialmente com pedido de
revisão de benefício previdenciário já recebido; b) Se a ação foi proposta em um juizado itinerante; c) Se a ação foi proposta sem
prévio requerimento administrativo, mas o INSS já apresentou contestação de mérito; d) O interessado requereu
administrativamente o benefício, mas o INSS não deu uma decisão em um prazo máximo de 45 dias; e) O interessado não requereu
administrativamente o benefício, mas é notório que, sobre essa matéria, o INSS tem posição contrária ao pedido feito pelo
segurado (ex: desaposentação).
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Em acréscimo, caso a temática seja cobrada em prova, é interessante adicionar o argumento no sentido de
que é abusiva a provocação desnecessária da atividade jurisdicional, que deve ser encarada como ultima
ratio para a solução do conflito.
Na linha do que já vinha sendo definida como política do Judiciário (vide Res. 125, CNJ), o CPC/2015 (art.
165ss) e a Lei de Mediação n. 13.140/2015 desejam que que o Judiciário seja a última alternativa. Por isso,
estabelece vigoroso estímulo ao sistema multiportas, ou resolução alternativa das disputas (ADR –
alternative dispute resolution).
No que tange ao segundo aspecto da inafastabilidade, isto é, o acesso à ordem justa, podem ser
rememoradas aqui as cinco ondas de acesso à justiça citadas no início do curso, divididas em: a) assistência
judiciária (justiça aos pobres); b) representação dos interesses difusos (coletivização das demandas); c) novo
enfoque de acesso à justiça (efetividade processual); d) dimensão ética e política do direito; e)
internacionalização da proteção dos direitos humanos.
Questões interessantes
1ª questão
A CRFB/88 inovou em dois sentidos no seu texto:
a) a CF/67 falava apenas em “lesão a direito individual”. A atual Carta promove o silêncio eloquente,
abarcando a inafastabilidade não apenas dos direitos individuais, mas também a tutela coletiva;
b) a CRFB/88 previu não apenas a inafastabilidade para lesão a direito (tutela reparatória), mas também para
ameaça a direito, constitucionalizando a tutela preventiva, legitimando, por conseguinte, a tutela fundada
em cognição sumária.
2ª questão
A instituição da arbitragem viola o princípio da inafastabilidade da jurisdição? Não, pois não é uma exceção
à norma, já que a arbitragem é também jurisdição. Ademais, a arbitragem só pode vigorar para direitos
disponíveis, pessoas capazes e tenham concordado com a livre manifestação antes, na forma da Lei 9.307/96,
parcialmente alterada pela Lei n. 13.129/2015.
A título de reforço, cita-se que o STF já entendeu pela constitucionalidade da Lei de Arbitragem, in verbis:
EMENTA: [Link]ça estrangeira: laudo arbitral que dirimiu conflito entre duas
sociedades comerciais sobre direitos inquestionavelmente disponíveis - a existência e
o montante de créditos a título de comissão por representação comercial de empresa
brasileira no exterior: compromisso firmado pela requerida que, neste processo, presta
anuência ao pedido de homologação: ausência de chancela, na origem, de autoridade
judiciária ou órgão público equivalente: homologação negada pelo Presidente do STF,
nos termos da jurisprudência da Corte, então dominante: agravo regimental a que se
dá provimento, por unanimidade, tendo em vista a edição posterior da L. 9.307, de
23.9.96, que dispõe sobre a arbitragem, para que, homologado o laudo, valha no Brasil
como título executivo judicial. 2. Laudo arbitral: homologação: Lei da Arbitragem:
controle incidental de constitucionalidade e o papel do STF. A constitucionalidade da
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3ª questão
Quando houver decisão favorável ao contribuinte proferida de forma definitiva no âmbito do Conselho
Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), pode a Fazenda entrar em juízo, sob o argumento da
inafastabilidade da jurisdição, para que o juízo faça o controle de legalidade, juridicidade ou erro de fato da
decisão no âmbito administrativo?
1ª corrente: Segundo o art. 156, IX, CTN, a decisão administrativa irreformável extingue o crédito tributário,
de forma que eventual cobrança posterior de crédito já declarado inexistente pela própria Fazenda Pública
não encontraria amparo legal. No mesmo sentido é a única interpretação possível do art. 45, Decreto nº.
70.235/72.
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2ª corrente: A PGFN entende que, por não existir coisa julgada material no âmbito administrativo, seria
plenamente válida a busca do Poder Judiciário para fazer esse controle de legalidade e juridicidade tendo
em vista a lesão ao erário.
4ª questão
Previsão de vários tipos de tutela jurisdicional
Não é suficiente ter acesso, mas é necessário que o judiciário evite ou corrija a lesão ao direito. Como dito
por Cassio Scarpinella, além da juris-dição, o processo civil deve promover a juris-satisfação, consoante art.
4º, CPC.
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Para tanto, o ordenamento prevê diversos tipos de tutela, nas mais diversas classificações. Veremos um
pouco mais sobre as tutelas na sequência do curso.
Art. 5º, LXXVIII - a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração
do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. (Incluído pela Emenda
Constitucional nº 45, de 2004)
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Vale dizer que esse direito já estava garantido no Pacto de San José da Costa Rica, em seu artigo 8.1 CADH,
pacto este que no Brasil vigora desde 1992.
Artigo 8º - Garantias judiciais 1. Toda pessoa terá o direito de ser ouvida, com as devidas garantias
e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou Tribunal competente, independente e imparcial,
estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra
128
Na exposição, há passagem expressa de que “antes de ser expressamente incorporado à Constituição Federal em vigor (art. 5º,
inciso LXXVIII), já havia sido contemplado em outros instrumentos normativos estrangeiros (veja-se, por exemplo, o art. 111, da
Constituição da Itália) e convenções internacionais (Convenção Européia e Pacto de San Jose da Costa Rica). Trata-se, portanto, de
tendência mundial”.
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Mesmo antes de 1992, porém, os autores afirmam que esse princípio era corolário do devido processo legal.
Cespe – DPU/2017: Para garantir os pressupostos mencionados em sua exposição de motivos, o CPC
estabelece, de forma exaustiva, as normas fundamentais do processo civil.
Apesar de o CPC garantir às partes a obtenção, em prazo razoável, da solução integral do mérito, esse
direito já existia no ordenamento jurídico brasileiro até mesmo antes da Emenda Constitucional n.º
45/2004.
Comentários: Conforme salientado acima, antes de 1992, a duração razoável era decorrência da
cláusula do devido processo legal e, a partir de 1992, com a promulgação da Convenção Americana dos
Direitos Humanos, passou a ter previsão expressa dentro do ordenamento jurídico brasileiro.
129
MONTANS, Renato. Manual de Direito Processual Civil. 2ª ed. São Paulo: Saraiva, 2016, p. 72.
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No Brasil a Lei 9.504, de 1997, diz que “reputa-se razoável o prazo de um ano para um processo que leve à
perda de mandato eletivo”. A razão de ser desse dispositivo, porém, é que no âmbito eleitoral, a demora faz
com que o processo perca o sentido. Tal prazo não seria razoável para processos que não correm perante a
Justiça Eleitoral.
Ademais, temos a Lei n. 11.457/07, cujo art. 24 preceitua:
Art. 24.
É obrigatório que seja proferida decisão administrativa no prazo máximo de 360 (trezentos e se
ssenta) dias a contar do protocolo de petições, defesas ou recursos administrativos do contribui
nte.
Art. 143. O juiz responderá, civil e regressivamente, por perdas e danos quando:
II - recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar de ofício ou a
requerimento da parte.
Parágrafo único. As hipóteses previstas no inciso II somente serão verificadas depois que a parte
requerer ao juiz que determine a providência e o requerimento não for apreciado no prazo de
10 (dez) dias.
Em terceiro lugar, ela pode comprometer a progressão na carreira do magistrado (art. 7º, IV, parágrafo único,
Lei da Ação Popular).
Art. 7º, VI - A sentença, quando não prolatada em audiência de instrução e julgamento, deverá
ser proferida dentro de 15 (quinze) dias do recebimento dos autos pelo juiz. Parágrafo único. O
proferimento da sentença além do prazo estabelecido privará o juiz da inclusão em lista de
merecimento para promoção, durante 2 (dois) anos, E acarretará a perda, para efeito de
promoção por antigüidade, de tantos dias quantos forem os do retardamento, salvo motivo
justo, declinado nos autos e comprovado perante o órgão disciplinar competente.
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Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios
e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
Artigo 1. Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão
e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
O conceito de dignidade humana pode ser decomposto, segundo Luís Roberto Barroso 130, em três
elementos:
1) valor intrínseco;
2) autonomia; e
3) valor comunitário.
Após discorrer sobre a origem e evolução do princípio no direito pátrio e comparado, bem como destacar a
influência positiva do pensamento de Kant (na obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes) ao afirmar
que o ser humano deve ser considerado como um fim em si mesmo e não como meio para fins diversos, o
Min. Barroso destaca os três componentes primordiais do conceito.
130
BARROSO, Luís Roberto. Aqui, lá e em todo lugar: a dignidade humana no direito contemporâneo e no discurso transnacional.
São Paulo: Revista dos Tribunais. Ano 101, vol. 919, mai. 2012, p. 127-196.
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Como valor intrínseco, a dignidade significa que se deve reconhecer que cada indivíduo é um fim em si
mesmo.
Diante disso, decorre um raciocínio antiutilitarista e antiautoritário.
Do primeiro, conclui-se que o ser humano não pode ser utilizado como um meio para a realização de metas
coletivas ou de projetos pessoais de outros. Ex: Por isso, a tortura é inadmissível.
Do segundo, infere-se que é o Estado que existe para o indivíduo e não o contrário.
Quanto ao segundo elemento, autonomia, tem-se que é o elemento ético da dignidade humana. É o
fundamento do livre arbítrio dos indivíduos, que lhes permite buscar, da sua própria maneira, o ideal de viver
bem e de ter uma vida boa. A noção central aqui é a de autodeterminação: uma pessoa autônoma define as
regras que vão reger a sua vida. Ex: liberdade religiosa, de expressão, de associação, direitos sexuais
reprodutivos, uniões homoafetivas, todos estão albergados pela autonomia.
Ademais, tem-se que o Estado existe para auxiliar os indivíduos na realização dos seus projetos pessoais de
vida, que traduzem o livre e pleno desenvolvimento da personalidade.
Por isso, também deve garantir às pessoas o mínimo existencial para que tenham condições mínimas de
fazer suas escolhas de vida. Ex: direitos sociais, assistência social etc.
Quanto ao terceiro elemento, valor comunitário, também é chamado de dignidade como restrição ou
dignidade como heteronomia, representando o elemento social da dignidade. Os contornos da dignidade
humana são moldados pelas relações do indivíduo com os outros, assim como com o mundo ao seu redor.
A dignidade como valor comunitário enfatiza, portanto, o papel do Estado e da comunidade no
estabelecimento de metas coletivas e de restrições sobre direitos e liberdades individuais em nome de certa
concepção de vida boa. A questão relevante aqui é saber em quais circunstâncias e em que grau essas ações
devem ser consideradas legítimas em uma democracia constitucional.
Por sua vez, Daniel Sarmento131 elenca que o conteúdo da dignidade da pessoa humana pode ser
decomposto nos seguintes itens:
a) valor intrínseco, que veda sua instrumentalização em proveito de interesses de terceiros ou de metas
coletivas;
b) autonomia, tanto na dimensão privada, ligada à autodeterminação individual, como na pública,
relacionada à democracia. Existem na Constituição direitos que se relacionam à autonomia (liberdade de
expressão, religião, profissional etc.), mas inexiste proteção expressa para o direito de ser tratado como um
agente capaz de fazer e seguir escolhas de vida, protegido das pressões conformistas ou paternalistas do
Estado e da sociedade.
c) mínimo existencial, que envolve a garantia das condições materiais indispensáveis para a vida digna. Há
direitos sociais previstos na Constituição, mas eles não contemplam todas as necessidades materiais que
131
SARMENTO, Daniel. Dignidade da Pessoa Humana: Conteúdo, Trajetórias e Metodologia, 2ª edição. Belo Horizonte: Fórum,
2016, p. 92-93.
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sejam essenciais para uma vida digna, que também envolvem, por exemplo, o acesso a vestimentas
adequadas, à água potável, à energia etc. Para abarcar esses outros itens, existe a dignidade da pessoa
humana.
d) reconhecimento, que se conecta com o respeito à identidade individual e coletiva das pessoas nas
instituições, práticas sociais e relações intersubjetivas. Segundo Sarmento, há também normas
constitucionais específicas ligadas ao reconhecimento, a exemplo da imposição ao Estado de valorização e
proteção das culturas indígenas e afro-brasileiras, mas estão longe de englobar, em toda sua extensão, o
direito das pessoas ao respeito e valorização de sua identidade. Para abarcar esses outros itens, existe a
dignidade da pessoa humana.
Ainda, Daniel salienta que o princípio da dignidade da pessoa humana possui 7 funções:
i- fator de legitimação do Estado e do Direito: a legitimidade do Estado e da ordem jurídica se ampara em
duas ideias fundamentais – democracia e direitos humanos;
ii- norte para a hermenêutica jurídica: a unidade de sentido da Constituição repousa na dignidade da pessoa
humana. Embora em intensidade variável, ela está presente em todos os direitos fundamentais
constitucionalmente consagrados;
iii- diretriz para ponderação entre interesses colidentes: enseja a atribuição de peso superior prima facie aos
bens jurídicos mais importantes para a proteção e promoção da dignidade, e de um peso menor aos
interesses mais afastados desse princípio;
iv- fator de limitação de direitos fundamentais, a exemplo, quando o exercício de um direito conflita com a
dignidade humana de um terceiro. É comum nesses casos envolver tensão entre dois direitos fundamentais,
devendo se recorrer à ponderação. Esta, por sua vez, pode ser feita de modo abstrato pelo legislador, ou
pode ser realizada no caso concreto pelo intérprete (juiz ou não).
Ex1: limitação legislativa legítima a um direito fundamental (liberdade de expressão) foi a criminalização do
racismo (art. 20, Lei n. 7.716/89).
Ainda, alguns falam em possibilidade de limitação de direitos fundamentais para proteger a própria pessoa.
Ex1: famoso caso da proibição do lançamento de anões na França, em que o próprio anão gostaria de
continuar trabalhando naquela atividade.
É tema bastante controverso, que deixamos para o Professor de Direito Constitucional.
v- parâmetro para o controle de validade de atos estatais e particulares;
Ex1: DPH é parâmetro de controle, inclusive, de emendas à Constituição.
Ex2: pela eficácia horizontal dos direitos fundamentais, é possível invalidar atos de particulares se
desrespeitarem a DPH.
vi- critério para identificação de direitos fundamentais;
vii- fonte de direitos não enumerados: a DPH é o direito mãe da qual se extraem direitos mais específicos
não enumerados no texto constitucional;
Ex1: direito fundamental de conhecer a origem genética, a identidade do próprio pai;
Ex2: direito à integridade física, psíquica e livre desenvolvimento da personalidade;
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Vistos os elementos básicos da dignidade da pessoa humana, resta-nos perguntar em quais hipóteses poderá
ser aplicado no Processo Civil.
Didier132, entendendo que a dignidade da pessoa humana é difícil de ser detectada, no processo, distante da
concepção de devido processo legal. Mesmo assim, aponta que a sua previsão no CPC/15 pode ajudar na
reconstrução de novos sentidos ao devido processo legal, podendo ser revelado de duas maneiras:
i- construção de normas processuais que visem mais diretamente à proteção da dignidade. Exs: art. 162, III
(comunicação por meio de Libras); art. 199 (acessibilidade das pessoas com deficiência aos meios
eletrônicos), humanização do processo de interdição (arts. 751, § 3º, 755, II) etc.;
ii- reconstrução de sentido de alguns artigos do CPC, a exemplo das hipóteses de impenhorabilidade, que
podem ser interpretadas extensivamente, para abranger outros bens cuja penhora comprometa a dignidade.
Ex: próteses, cão-guia de um cego etc.
7 - PRINCÍPIO DA ISONOMIA
Prevista no art. 5º, caput, CRFB, bem como nos artigos 7º e 139, I, CPC.
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos
brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incumbindo-lhe: I -
assegurar às partes igualdade de tratamento.
132
DIDIER JR., Fredie. Op. Cit. p. 99-102.
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Segundo a teoria do impacto desproporcional133, viola a igualdade material qualquer prática empresarial,
governamental ou semigovernamental, de natureza administrativa ou legislativa que, embora concebida de
forma neutra, gere, em consequência de sua aplicação, efeitos desproporcionais sobre certas categorias de
pessoas.
Assim, não importa apenas neutralidade no momento de elaboração, mas também que o impacto dessa
medida não se caracterize como discriminação indireta, violando o princípio da igualdade.
Segundo Vitorelli134, essa teoria teve origem no leading case Griggs v. Duke Power Co. (1971), julgado pela
Suprema Corte Norte Americana.
Willie Griggs ajuizou uma pretensão em favor dos empregados negros da empresa Duke Power Company. O
autor questionava, em síntese, a política de promoção da empresa que exigia dos empregados diploma de
conclusão do ensino médio e o alcance de uma pontuação mínima em 02 (dois) testes de aptidão. Sustentava
o autor que a exigência da empresa violava o Título VII da Lei dos Direitos Civis de 1964, ao se impedir, na
prática, o acesso dos negros aos melhores postos de trabalho da empresa.
A intenção da empresa, por meio de exigências aparentemente neutras e razoáveis, na prática, redundava
em discriminação, pois o único intuito da empresa era salvaguardar sua política de dar preferência aos
brancos para a ocupação dos melhores postos de trabalho.
Ex2: No âmbito do STF, aplicou-se a teoria na ADI 1946, que questionava a constitucionalidade da incidência
do limite do salário maternidade fixado pela EC nº 20/98 sobre o salário-maternidade. O art. 14 da EC 20/98
estipulava o teto como limite do benefício de salário maternidade.
No entanto, a Suprema Corte entendeu tal limite inconstitucional e concluiu que o teto dos benefícios do
regime geral de Previdência Social não abrange o salário da licença-gestante, que pode ultrapassar esse
limite.
Isso porque, ao limitar o salário maternidade, haveria repasse do ônus ao empregador. E isso ocasionaria
uma discriminação indevida em relação à contratação de mulheres no mercado de trabalho. O empregador
iria preferir contratar homens com salários altos, pois se contratasse mulher e ela engravidasse, iria ter que
pagar a diferença entre o teto do INSS e o salário que ela ganhava durante o período de salário-maternidade.
133
BARBOSA, Joaquim. Ação afirmativa e princípio constitucional da igualdade – o Direito como instrumento de transformação
social. A experiência dos EUA. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 24.
134
VITORELLI, Edilson. Estatuto da Igualdade Racial e Comunidades Quilombolas, 2ª ed. Salvador: Juspodivm, p. 83.
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c) a igualdade como reconhecimento: significa o respeito que se deve ter para com as minorias, sua
identidade e suas diferenças, sejam raciais, religiosas, sexuais ou quaisquer outras, tendo por objetivo
construir um mundo aberto à diferença (“a difference-friendly world”). Prevista na CRFB, em seu art. 3º, IV.
II – Possuem lastro na chamada luta pelo reconhecimento e viabilizam políticas públicas de promoção
do direito à diferença dentro de um mesmo Estado.
III – Pressupõem, no interior do Estado Nacional, grupos que possuem modos próprios de criar, fazer
e viver, bem como formas próprias de expressão.
IV – O homem, para além de sua dimensão individual, é um ser social, fraternal e comunicativamente
vinculado.
a) I e II.
b) I, II e III.
c) II e III.
Comentários: O item I está incorreto. O fundamento não é na igualdade formal, mas sim na igualdade
como reconhecimento (3ª vertente).
O multiculturalismo advoga o contrário do integracionismo. Este, que vigorou durante muitos anos no
Brasil (vide Estatuto do Índio), direcionou o agir estatal para um intento homogeneizante e integrador.
O Estado deveria tratar as culturas distintas de modo especial, até que elas fossem integradas à cultura
nacional.
O multiculturalismo, que segundo alguns foi acolhido pelo texto constitucional (art. 216, CRFB),
entende que não deve haver política de assimilação à cultura dominante, mas sim respeito à
diversidade (vide Convenção 169 OIT).
Ex1: Art. 231, § 1º São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter
permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos
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recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural,
segundo seus usos, costumes e tradições.
Ex2: ADCT, Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas
terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.
Os itens III e IV estão corretos. São transcrições do texto de Deborah Duprat, “O Estado Pluriétnico”,
facilmente encontrado na internet.
No processo civil, é interessante ter a isonomia correlacionada ao princípio da paridade de armas, segundo
o qual as partes devem ter igual oportunidade dentro do processo. Como exemplo, as partes terão prazo
uniforme para interpor e contrarrazoar recursos (15 dias úteis, salvo embargos de declaração, que são 5 dias
úteis).
a) Inversão do ônus da prova, que no sistema atual está apenas no CDC (art. 6º VIII), mas que o CPC/15 traz
a teoria da carga dinâmica da prova, na forma do art. 373, § 1º, instituto de influência argentina, cujo
principais precursores foram Jorge W. Peyrano e Augusto Morello.
Art. 373, § 1o Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à
impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à
maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova
de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte
a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.
b) Prerrogativas da Fazenda Pública, subdivididas em: i) prazo diferenciado (art. 183 – prazo em dobro); ii)
remessa necessária (art. 496); iii) desnecessidade de adiantamento das custas processuais (art. 91); iv)
intimação/citação pessoal (art. 183, § 1º)
135
Cuidado: o STJ decidiu, em 23/08/2017, o REsp 1.349.935-SE, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, em sede de recurso repetitivo, no
qual aduziu que o termo inicial da contagem do prazo para impugnar decisão judicial é, para o Ministério Público, a data da entrega
dos autos na repartição administrativa do órgão, sendo irrelevante que a intimação pessoal tenha se dado em audiência, em
cartório ou por mandado. Entretanto, o referido posicionamento se aplica aos processos criminais. Aos processos cíveis ainda não
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d) nomeação de curador especial quando o réu está em desvantagem: i) réu revel citado de maneira ficta-
edital e hora certa; ii) réu preso revel; iii) incapaz quando: não tiver representante legal ou quando os
interesses daquele colidirem com os deste.
e) tramitação prioritária: i) idosos (art. 71, Estatuto); ii) ECA; iii) portadores de doenças graves (art. 1.048,
CPC); iv) vítima de violência doméstica contra a mulher (art. 1.048, III, CPC incluído em 2019); v) portadores
de deficiência (art. 9º, VII, Lei n .13.146/2015).
f) Alteração no procedimento no CPC/15: o juiz poderá dilatar os prazos e alterar a ordem das provas (art.
139, IV), de acordo com a complexidade da causa.
h) Ordem cronológica:
há decisão do STJ a respeito, mas devemos seguir a disposição legal que, no art. 1.003, § 1º, CPC, diz: Os sujeitos previstos no
caput considerar-se-ão intimados em audiência quando nesta for proferida a decisão.
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VIII - os processos criminais, nos órgãos jurisdicionais que tenham competência penal;
IX - a causa que exija urgência no julgamento, assim reconhecida por decisão fundamentada.
§ 3o Após elaboração de lista própria, respeitar-se-á a ordem cronológica das conclusões entre
as preferências legais.
§ 6o Ocupará o primeiro lugar na lista prevista no § 1o ou, conforme o caso, no § 3o, o processo
que:
I - tiver sua sentença ou acórdão anulado, salvo quando houver necessidade de realização de
diligência ou de complementação da instrução;
8 - PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO
A doutrina costuma listar dois grandes modelos de direito processual, o modelo inquisitivo e o modelo
dispositivo (adversarial).
Modelo Inquisitivo: Caracteriza-se por um protagonismo judicial na condução do processo.
Didier, abordando o assunto, assevera que, para entendermos essa afirmação, é necessário partir de algumas
premissas.
A primeira premissa é a de que não há modelos puros, nenhum deles é só inquisitivo ou só dispositivo. Desta
forma, quando se diz que o processo é inquisitivo, estamos falando de uma predominância da inquisitividade.
A segunda premissa importante é a de que há vários setores do processo em que a inquisitividade pode ou
não revelar-se. O processo será inquisitivo se predominar a inquisitividade nesses setores, quais sejam:
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Aqui temos os quatro aspectos mais significativos para a aferição da inquisitividade. Se verificarmos uma
predominância do papel do juiz em cada um desses aspectos, teremos um processo inquisitivo.
Obs: Sempre que uma regra processual, qualquer que seja, atribuir ao juiz um poder que não seja o de julgar,
fala-se que ela segue o modelo inquisitivo.
Modelo dispositivo: É aquele em que predominam as partes na condução do processo, são elas as grandes
protagonistas. Ao juiz cabe a tarefa de julgar, assumindo papel de espectador.
No que tange aos dois primeiros critérios, quais sejam, quem dá início ao processo e quem define o objeto
do processo, de um modo geral, em todos os países ocidentais cabe às partes instaurar o processo e definir
o objeto do processo. Dificilmente se vê um processo que o juiz pode instaurar de ofício, e decidir algo que
não foi pedido. Portanto, para sabermos se o modelo é predominantemente inquisitivo ou dispositivo, não
importarão esses dois primeiros setores, já que estes cabem ao juiz em quase todos os países ocidentais.
Devemos analisar, assim:
iii. A quem cabe a produção de provas
iv. A quem cabe promover a execução da decisão
Desta forma, para sabermos se o processo civil brasileiro é inquisitivo ou dispositivo, devemos aferir se o juiz
pode determinar a produção de provas de ofício E se pode promover a execução de ofício.
No Brasil, o juiz pode determinar a produção de provas de ofício (art. 370), de modo que em matéria
probatória adotamos, segundo Didier, o modelo inquisitivo.
ART.139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste código, incumbindo-lhe: (...) VIII -
determinar, a qualquer tempo, o comparecimento pessoal da partes para inquiri-las sobre os fatos
da causa, hipótese em que não incidirá pena de confesso.
Art. 370. Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas necessárias ao
julgamento do mérito. Parágrafo único. O juiz indeferirá, em decisão fundamentada, as diligências
inúteis ou meramente protelatórias.
Art. 461. O juiz pode ordenar, de ofício ou a requerimento da parte: I - a inquirição de testemunhas
referidas nas declarações da parte ou das testemunhas;
Quanto à execução, salvo a execução por quantia, todas as outras o juiz pode promover de ofício.
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Por causa disso, Fredie Didier, por exemplo, dá a entender que, se adotássemos o binômio
dispositivo/inquisitivo, o processo civil brasileiro seria inquisitivo, exatamente por essas duas
características.
Cuidado!!! Em prova, recomenda-se não dizer que o processo civil é inquisitivo. Ainda mais com o novo CPC.
O processo civil adota o modelo cooperativo, conforme veremos linhas à frente.
Essa explicação foi apenas para os senhores gravarem que, por óbvio, não há sistema puro, então temos, em
nosso processo civil, algumas marcas de dispositividade e algumas marcas de inquisitividade. Vejamos:
- Em relação a instauração do processo, e a congruência da decisão com o pedido, o processo brasileiro é
dispositivo.
- Em relação a produção de provas, o juiz pode produzi-las de ofício, adotando-se o princípio inquisitivo.
- Em relação a disposição do direito discutido – se o direito for disponível, o modelo é dispositivo. Se o direito
for indisponível, o modelo é inquisitivo.
Remessa necessária – manifestação de inquisitividade, pois, mesmo que ninguém peça, a causa tem de subir.
Didier adverte que é preciso tomar cuidado, no entanto, para não estabelecer relações indevidas. Há muitos
que dizem que processo inquisitivo é coisa de ditadura e processo dispositivo é coisa de democracia. Essa
associação, segundo o doutrinador baiano, é totalmente indevida. Há várias democracias que utilizam de
vários preceitos inquisitivos no Processo Civil (Brasil, Alemanha, Portugal, etc).
Garantismo processual
O garantismo também se espraiou para o Processo Civil, assumindo a forma de garantismo processual. O
garantismo é uma concepção filosófica segundo a qual qualquer poder atribuído ao juiz que não seja o de
julgar é manifestação clara de autoritarismo. Para os garantistas processuais, poder o juiz determinar a
produção de provas de ofício seria um absurdo.
Glauco Gumerato136, em artigo que diferencia garantismo de ativismo, aponta as suas características:
Para uma primeira – e genérica – compreensão do que é defendido por ambas as correntes, é
possível adiantar que o ativismo judicial defende uma postura mais contundente da atividade
judicial para resolver problemas que às vezes não contam com adequada solução legislativa. É
dizer: outorga-se ao juiz um poder criativo que em última análise valoriza o compromisso
constitucional da JURISDIÇÃO, e isso ainda que não haja previsão legal que o autorize na
respectiva atuação. Já o garantismo processual defende uma maior valorização da categoria
fundamental PROCESSO, e consequentemente da cláusula constitucional do due process, de
modo a valorizar a ampla defesa, o contraditório e a imparcialidade do juiz, como os pilares de
legitimação da decisão jurisdicional a ser decretada. Para o ativismo, o juiz deve atuar de maneira
136
RAMOS, Glauco Gumerato. Ativismo e garantismo no processo civil. Apresentação do debate. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-
4862, Teresina, ano 16, n. 2788, 18 fev. 2011. Disponível em: < [Link] >. Acesso em: 5.05. 2021.
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Sabe-se que o Processo Civil tem um tripé de institutos jurídicos fundamentais, quais sejam, jurisdição,
processo e ação.
Glauco aponta didaticamente qual seria o enfoque das respectivas teorias. Enquanto que os ativistas (carga
alta de inquisitividade) conferem proeminência à jurisdição, à necessidade de se atingir um resultado justo
com sua atuação, para os garantistas, o processo (devido processo) é a categoria fundamental da disciplina.
O garantismo processual tem ganhado muita força no Brasil recentemente, com a produção de vários
trabalhos com o propósito de retirar cada vez mais poderes do juiz. Consoante Didier, foi o garantismo
processual que reduziu a cláusula geral do poder de adequação do processo pelo juiz, que estava inserida no
projeto do CPC/15, restringindo-a à possibilidade de dilação de prazos processuais (art. 139, VI).
Por fim, deve-se fazer a seguinte diferenciação:
a) ativismo judicial material: relaciona-se com a criatividade do juiz, ou seja, a possibilidade de o juiz
utilizar princípios, cláusulas gerais, conceitos indeterminados de forma mais ampla na resolução do
caso concreto.
b) ativismo processual: representa a participação mais ativa do juiz na condução do processo,
aumentando a carga de inquisitividade, postura essa criticada pelos garantistas.
Longe de haver uma pacificação na doutrina processualista, salienta-se que, na atualidade, o debate ativismo
versus garantismo divide a doutrina do processo civil e gera disputas e/ou polêmicas doutrinárias que acaba
por apartar os processualistas em verdadeiras “trincheiras ideológicas”.
O que é importante para as provas?
Se houver algum questionamento envolvendo poderes do juiz, poderá o candidato adentrar no tema dos
poderes instrutórios do magistrado, discorrendo sobre esses dois modelos de compreensão do processo, de
modo a enriquecer apenas citação literal do art. 370, do Código de Processo Penal.
Lembre-se que, às vezes, a mera citação de duas correntes teóricas, mesmo que sem maiores explanações
de seus respectivos entendimentos, já pode ganhar o examinador e demonstrar que o candidato conhece
além da letra da lei.
Modelo cooperativo137
Será que a classificação dos modelos processuais em inquisitivo/dispositivo seria suficiente para explicar
todos os sistemas? Não.
137
MITIDIERO, Daniel. Colaboração no Processo Civil: do modelo ao princípio. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2019.
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Hoje em dia fala-se muito na criação de um terceiro modelo, um modelo- síntese, denominado de modelo
cooperativo. O modelo cooperativo consistiria em um processo em que não haja protagonismos em sua
condução.
De acordo com Hermes Zaneti138, a partir da década de 80, por meio dos autores Barbosa Moreira e Ada
Pelegrini Grinover, iniciou-se um movimento de consolidação de um modelo cooperativo de processo.
Posteriormente, já na década de 90, Carlos Alberto Álvaro de Oliveira capitaneou essa nova mudança de
paradigma, influenciado especialmente pelo direito estrangeiro.
A condução do processo seria compartilhada, cooperativa, de modo que partes e juiz, sem protagonismos,
sem assimetrias, conduziriam o processo. No momento da decisão, o juiz decidiria, mas a condução do
processo seria compartilhada, sem submeter o juiz à vontade das partes e nem as partes à vontade do juiz.
Uma condução cooperativa é uma condução pautada no diálogo e no equilíbrio entre todos os sujeitos do
processo. É dizer, o juiz “desce do pedestal”, fica no mesmo patamar das partes, e todos, no mesmo nível,
respeitando o diálogo e os interesses de cada um, devem colaborar para que a decisão seja a melhor possível.
Alguns, a exemplo de Assumpção, criticam essa concepção, alegando que o processo não é um “passeio no
jardim”.
Doutro lado, os defensores de tal modelo asseveram que o modelo cooperativo não é uma visão ingênua e
utópica do processo, é um modelo que impõe parâmetros objetivos para a manutenção do equilíbrio e a
construção compartilhada do processo.
Poderíamos dizer que existe um princípio da cooperação (art. 6º, CPC) que impõe um modelo cooperativo
de processo. Esse princípio seria corolário de dois grandes princípios: o devido processo legal (art. 5º, LIV,
CRFB c/c art. 1º, CPC) e a boa-fé (art. 5º, CPC). Veremos alguns exemplos mais à frente.
Princípio da cooperação processual é um dos assuntos “da moda” hoje em dia. Portanto, certamente cairá
em prova.
No que concerne aos deveres das partes, Hermes Zaneti aponta os seguintes:
i. Dever de esclarecimento: consiste no dever de redigir com clareza e coerência os articulados da demanda,
sob pena de inépcia da petição inicial (art. 321, p.u, CPC);
ii. Dever de lealdade: deve-se observar a boa-fé objetiva (art. 5º), os deveres processuais (arts. 77 e 78) e
não litigar de má-fé (arts. 79 a 81). Além disso, a lealdade também se expressa nas soluções consensuais dos
conflitos e nos negócios processuais;
138
ZANETI JR., Hermes. O Princípio da Cooperação e o Código de Processo Civil: cooperação para o processo. In: Processo Civil
Contemporâneo: homenagem aos 80 anos do professor Humberto Theodoro Junior. Rio de Janeiro: Forense, 2018.
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iii. Dever de proteção: não causar danos desnecessários ao adversário, sob pena de reconhecimento ato
atentatório à dignidade da justiça (art. 77, VI) e responsabilidade objetiva do exequente na execução injusta
(art. 520, I, e 776), por exemplo.
i. Dever de prevenção: o juiz tem o dever de apontar defeitos que comprometam a validade do processo e
dizer como eles devem ser corrigidos. Exemplos: arts. 139, IX e 317; emenda da inicial (art. 321); art. 932,
parágrafo único; art. 1.007, §§2º e 4º, art. 1.029, §3º; enunciado 95 do CJF 140.
ii. Dever de esclarecimento: é um dever que se subdivide em duas dimensões. A primeira faceta do dever
de esclarecimento é mais antiga, que é o dever de o juiz esclarecer seus posicionamentos (art. 489, § 1º). A
segunda dimensão do dever de esclarecimento é o dever de esclarecer-se quando o juiz tiver dúvida sobre
aquilo que as partes pleiteiam, não podendo indeferir o pedido sem antes intimar a parte para que ela o
esclareça. Exemplos: saneamento compartilhado (art. 357, § 3º); interrogatório das partes (art. 139, VIII).
iii. Dever de consulta ou de diálogo: de acordo com este dever, o juiz não pode decidir com base em questão
a respeito da qual as partes não foram intimadas a se manifestar. Exemplos: arts. 9º e 10, que consagram a
proibição das decisões surpresas; art. 487, parágrafo único; art. 493, parágrafo único.
iv. Dever de auxílio ou de adequação: o juiz deve adequar o procedimento às necessidades do processo,
auxiliando as partes a depender das suas necessidades. Exemplos: inversão da ordem das provas (art. 373, §
1º); ampliação de prazos, quando houver, por exemplo, dificuldade para o cumprimento do prazo posto na
lei (art. 139, VI, e art. 437, § 2º); diligências para obtenção dos dados pessoais e endereço das partes (art.
319, §1º); medidas direcionadas à outra parte e à terceiros para exibição de documentos (art. 400, parágrafo
único); art. 772, III.
CESPE/TJSC – Juiz/19 - d) O paradigma cooperativo adotado pelo novo CPC traz como decorrência os
deveres de esclarecimento, de prevenção e de assistência ou auxílio. A alternativa D está correta. O
princípio da cooperação engloba os deveres de prevenção, esclarecimento, diálogo (ou consulta) e
auxílio (ou adequação).
139
Lembrem-se do mnemônico PESCA (P – prevenção; ES – esclarecimento; C – consulta; A – auxílio ou adequação).
140
Enunciado 95 da I JDPC do CJF – O juiz, antes de rejeitar liminarmente a impugnação ao cumprimento de sentença (art. 525, §
5º, do CPC), deve intimar o impugnante para sanar eventual vício, em observância ao dever processual de cooperação (art. 6º do
CPC).
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Pelo exposto, vê-se que o princípio cooperativo repercute em toda a sistemática processual, e é densificado
através de diversos outras regras e subprincípios que revelam essa necessidade de superação dos modelos
inquisitivo e adversarial do processo.
9 - PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE
Prevista no art. 5º, LX, art. 93, IX, ambos da CF e nos arts. 8º e 11, do CPC.
Art. 5º, LX a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da
intimidade ou o interesse social o exigirem.
Art. 93, IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas
todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos,
às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos os quais a preservação do
direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação. X
as decisões administrativas dos tribunais serão motivadas e em sessão pública, sendo as
disciplinares tomadas pelo voto da maioria absoluta de seus membros; (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 45, de 2004)
Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
Art. 11. Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas
todas as decisões, sob pena de nulidade.
Parágrafo único. Nos casos de segredo de justiça, pode ser autorizada a presença somente das
partes, de seus advogados, de defensores públicos ou do Ministério Público.
O processo em meio eletrônico, por óbvio, deverá também observar a publicidade (art. 194, CPC c/c Lei
11.419/2006).
A publicidade processual tem duas dimensões:
i. Dimensão interna: o processo tem de ser público para as partes, publicidade interna esta que deve ocorrer
sem restrição alguma.
ii. Dimensão externa: o processo tem que ser público para quem não faz parte dele, possibilitando um
controle público do exercício da jurisdição. A publicidade externa, contudo, pode sofrer restrições
autorizadas pela própria Constituição (arts. 5º, LX, 93, IX) e pela lei (art. 189, CPC).
CPC/73 CPC/15
Art. 155. Os atos processuais são públicos. Correm, Art. 189. Os atos processuais são públicos, todavia
todavia, em segredo de justiça os processos: tramitam em segredo de justiça os processos:
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Art. 93, IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas
todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos,
às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos os quais a preservação do
direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação. X
as decisões administrativas dos tribunais serão motivadas e em sessão pública, sendo as
disciplinares tomadas pelo voto da maioria absoluta de seus membros; (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 45, de 2004)
§ 1º Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença
ou acórdão, que:
I – se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação
com a causa ou a questão decidida;
141
Embora Didier fala em “regra” da motivação das decisões judiciais, seguirá doutrina majoritária que diz se tratar de princípio.
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IV – não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a
conclusão adotada pelo julgador;
§ 2º No caso de colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais da
ponderação efetuada, enunciando as razões que autorizam a interferência na norma afastada e
as premissas fáticas que fundamentam a conclusão.
§ 3º A decisão judicial deve ser interpretada a partir da conjugação de todos os seus elementos
e em conformidade com o princípio da boa-fé.
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação
com a causa ou a questão decidida; Ex: Por conta do dever de proceder conforme a boa-fé
objetiva (art. 5º, CPC), condeno a parte autora em litigância de má-fé (sem explicar qual conduta
da parte que a fez incorrer em tal sanção).
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III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão; Ex: por conta do
princípio da dignidade da pessoa humana, julgo procedente ou improcedente o pedido.
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a
conclusão adotada pelo julgador; obs: É o mais complexo. Iremos tratar adiante.
MPGO, 2016: Discorra sobre o princípio da primazia da decisão de mérito, consagrada no CPC,
demonstrando quatro situações processuais em que o princípio se concretiza. Comentários: Deverá o
candidato discorrer sobre tudo o que falaremos neste tópico.
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Em suma, a primazia da decisão de mérito impõe ao órgão julgador a priorização da decisão de mérito,
devendo agir, em cooperação com as partes, para prevenir a ocorrência de eventuais nulidades e extinções
142
LINS, Artur Orlando. A primazia do julgamento de mérito no processo civil brasileiro. Salvador: Ed. lusPodivm, 2019
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do feito sem resolução do mérito. Caso alguma irregularidade ocorra, deve ainda ser oportunizada às partes
(contraditório e dever de consulta), a manifestação sobre a existência ou não de prejuízo e, ainda, sobre a
sanabilidade do vício. Caso o processo seja extinto sem resolução do mérito, que seja dada a possibilidade
ao julgador de se retratar, tudo com o desiderato de ultrapassar as questões prévias e decidir integralmente
o mérito.
Como concretizações de tal princípio, é possível citar os seguintes exemplos143:
a) regra da translatio iudicii (art. 64, §4º), que não impõe a nulidade de pleno direito dos atos decisórios,
mas, ao revés, mantém sua validade e eficácia;
b) art. 76, que prevê o dever de o juiz determinar a correção da incapacidade processual;
c) art. 139, IX, salientando que “o juiz dirigirá o processo, determinando o suprimento de pressupostos
processuais e o saneamento de outros vícios processuais”, combinado com o art. 317 de que “antes de
proferir decisão sem resolução de mérito, o juiz deverá conceder à parte oportunidade para, se possível,
corrigir o vício”, são normas gerais que podem ser aplicadas em vários casos;
d) tempestividade do ato prematuro (art. 218, §4º);
e) Em casos de nulidade, quando o juiz puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a decretação
da nulidade, não a pronunciará (arts. 282, §2º e 488, CPC).
Art. 282. Ao pronunciar a nulidade, o juiz declarará que atos são atingidos e ordenará as
providências necessárias a fim de que sejam repetidos ou retificados.
§ 1o O ato não será repetido nem sua falta será suprida quando não prejudicar a parte.
§ 2o Quando puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a decretação da nulidade,
o juiz não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta.
Art. 488. Desde que possível, o juiz resolverá o mérito sempre que a decisão for favorável à parte
a quem aproveitaria eventual pronunciamento nos termos do art. 485.
CESPE/DPE-PE – Defensor Público/2018 - Em determinado processo, o réu não foi citado nem
apresentou contestação. O magistrado, além de não declarar o processo nulo, julgou-o, no mérito,
favoravelmente ao réu.
Nessa situação hipotética, a conduta do magistrado foi correta porque: a) ele aproveitou atos que não
dependem da citação. b) ele julgou favoravelmente o mérito da causa para a parte que seria
beneficiada caso a nulidade fosse decretada. c) o autor não requereu a nulidade do processo. d) o
143
Há ainda outros exemplos: art. 218, § 4º; art. 488, art. 1.024, § 3º; art. 1.025; art. 1.032; art. 1.033.
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VUNESP/TJMT – Juiz de Direito Substituto/2018 - E) desde que possível, o juiz resolverá o mérito
sempre que a decisão for favorável à parte a quem aproveitaria eventual sentença terminativa.
Esses dispositivos (arts. 282, §2º e 488) têm intrínseca ligação com a instrumentalidade das formas (art. 277,
CPC), no sentido de que o objetivo do Processo Civil não é decretar nulidade, mas sim resolver o mérito. Se
o ato atingiu sua finalidade, segue o jogo.
TJMG/Juiz/18 - Foi indeferida prova pericial requerida pelo autor. Acolhida a pretensão inicial, o autor
apelou somente para alegar cerceamento de defesa porque entende ser absolutamente necessária a
prova indeferida. Ao julgar a apelação, o Tribunal negará provimento aplicando o princípio: A) da
isonomia. B) da celeridade. C) da cooperação. D) da instrumentalidade das formas. D está correta.
f) juiz vai auxiliar as partes quando houver dificuldade na efetivação da citação (art. 319, §§1º, 2º e 3º);
g) antes de indeferir a inicial, o juiz deve determinar a emenda do vício (art. 321);
h) Quando a parte ré alegar ilegitimidade passiva, não precisará extinguir aquele processo sem resolução do
mérito. O juiz facultará ao autor, em 15 dias, a alteração da petição inicial para substituição do réu (arts. 338
e 339)
i) Se o juiz extinguir o processo sem resolução do mérito, havendo interposição de apelação, ele poderá se
retratar em todos os casos do art. 485, CPC/15144.
Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando: (...) § 7o Interposta a apelação em qualquer dos
casos de que tratam os incisos deste artigo, o juiz terá 5 (cinco) dias para retratar-se.
j) art. 932, parágrafo único, segundo o qual o relator, “antes de considerar inadmissível o recurso, o relator
concederá o prazo de 5 (cinco) dias ao recorrente para que seja sanado vício ou complementada a
documentação exigível”.
k) art. 1.007, §§ 2º e 4º, prevendo que a parte que realizou insuficientemente o preparo terá a possibilidade
de complementar, em 5 dias, bem como que a parte que não realizou qualquer preparo terá a oportunidade
de realizar o preparo em dobro. É um óbice à famosa jurisprudência defensiva dos Tribunais.
144
No CPC/73, havia apenas duas hipóteses de retratação. No CPC/15, há 8 hipóteses (arts. 494, incisos I e II;331;332, §3º; 485,
§7º; 1018, §1º; 1021, §2º; 1040, II), várias delas relacionadas à primazia da decisão integral de mérito.
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Art. 1.007. No ato de interposição do recurso, o recorrente comprovará, quando exigido pela
legislação pertinente, o respectivo preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, sob pena
de deserção.
l) julgamento de mérito diretamente pelo tribunal (causa madura) (art. 1.013, §§3º e 4º);
m) fungibilidade dos embargos de declaração recebidos como agravo interno (art. 1.024, §3º);
n) admissão do prequestionamento ficto (art. 1025);
o) art. 1029, §3º e a desconsideração ou correção de vício formal não grave em favor do exame de mérito
nos recursos extraordinários;
p) arts. 1032 e 1033 e a fungibilidade entre RExt e REsp.
Ademais, não é suficiente ter acesso, mas é necessário que o judiciário evite ou corrija a lesão ao direito.
Como já dito, o processo civil deve promover a juris-satisfação. Nesse sentido, o ordenamento tem que dar
ao juiz mecanismos para buscar a tutela específica. No CPC/15, temos a concretização de tal desiderato nos
seguintes dispositivos: art. 297 (poder geral de cautela), antigo art. 798, CPC/73; art. 497 (poder geral de
efetivação), antigo 461, §5º, CPC/73; art. 139, IV (atipicidade dos meios executivos).
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Art. 297. O juiz poderá determinar as medidas que considerar adequadas para efetivação da
tutela provisória.
Art. 497. Na ação que tenha por objeto a prestação de fazer ou de não fazer, o juiz, se procedente
o pedido, concederá a tutela específica ou determinará providências que assegurem a obtenção
de tutela pelo resultado prático equivalente.
Parágrafo único. Para a concessão da tutela específica destinada a inibir a prática, a reiteração
ou a continuação de um ilícito, ou a sua remoção, é irrelevante a demonstração da ocorrência de
dano ou da existência de culpa ou dolo.
Art. 139. O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, incumbindo-lhe: IV -
determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias necessárias
para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que tenham por objeto
prestação pecuniária;
Também decorrente de interpretação do art. 4º, CPC, diz-se que existe um direito fundamental à
efetividade.
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Sobre o tal princípio da efetividade, iremos tratar quando abordarmos o tema tutela. Porém, a fim de matar
a curiosidade, adiantaremos posicionamentos de Pontes de Miranda e Marinoni que caem muito em prova.
Segundo Pontes de Miranda, a sentença é dotada de cargas, seja declaratória, constitutiva ou condenatória,
não havendo sentença pura. Assim, quando se fala que uma sentença é declaratória, é porque a carga
declaratória é maior que as outras cargas, não significando que as cargas mandamental ou condenatória não
existam. Ex: para condenar alguém a pagar certa quantia, é preciso antes declarar que a obrigação existe.
Nesse caso, a carga condenatória é maior que a declaratória.
Não bastasse, Pontes de Miranda conferia números a essas cargas, dizendo que todas as cargas, somadas,
tinha de dar o número 15. Daí advém a teoria do constante 15, já perguntada em prova145.
Como criação própria, o jurista também afirmava que, nas obrigações de dar, fazer e não fazer, mais que
uma condenação, declaração ou constituição, o juiz possa afirmar tutela mandamental ou executiva lato
sensu (teoria quinaria).
145
Pergunta que caiu, inclusive, na minha prova oral do TRF 4ª Região/2016-2017.
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Mandamental é ordem acompanhada de medidas coercitivas para forçar o réu a cumprir a determinação do
juiz (ex: fixação de astreintes).
Executivas lato sensu são medidas que o próprio estado juiz se substitui ao réu no cumprimento da
obrigação, na chamada subrogação (ex: mandado de busca e apreensão, mandado demolitório).
Marinoni, por sua vez, traz classificação outra que não é aquela quinaria. Ele parte de outro critério, qual
seja, momento em que se pede a tutela e momento de prática do ato ilícito.
Hipótese 1: Havendo ameaça, não preciso esperar consolidação ou a prática do ato ilícito, posso sim buscar
tutela condenando a não fazer (é tutela inibitória da prática do ato ilícito).
Hipótese 2: Havendo lesão a direito, poderá ser concedida tutela reintegratória, com o desiderato de
reintegrar o direito do autor in natura (as duas são específicas).
Hipótese 3: Se as vezes não há mais o que fazer, não tem como volver ao status quo, reparar o dano,
compensá-lo, busca-se a tutela é ressarcitória.
Diferença entre eficiência (art. 8º, CPC) e efetividade:
Efetividade se liga à satisfação ou não do direito (entrega do bem da vida pleiteado).
Eficiência está mais ligada à Administração Judiciária e gestão do processo (de modo menos custoso,
demorado etc.).
Um processo inefetivo é necessariamente ineficiente. Mas pode ser efetivo sem, porém, ter sido eficiente.
O poder judiciário pode realizar o direito de uma maneira pouquíssima eficiente (ex: efetivar direito gastando
fortuna, depois de tempo muito longo, etc.).
Um processo, atualmente, tem de ser efetivo e eficiente.
Em suma, no art. 4º, temos 3 princípios: duração razoável do processo, primazia da decisão de mérito e
efetividade.
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
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12 - PRINCÍPIO DA BOA-FÉ
Está implícito na Constituição, mas explícito no CPC (arts 5º, 322, § 2º, 489, § 3º). No CPC/73, estava previsto
no art. 14, II.
Art. 5o Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a
boa-fé.
Art. 489, § 3o A decisão judicial deve ser interpretada a partir da conjugação de todos os seus
elementos e em conformidade com o princípio da boa-fé.
Art. 14. São deveres das partes e de todos aqueles que de qualquer forma participam do
processo: (Redação dada pela Lei nº 10.358, de 27.12.2001)
Um processo, para ser devido, deve ser pautado na boa-fé (devido processo leal). Para compreender o
sentido dessa afirmativa é preciso, antes, fazer uma distinção entre boa-fé subjetiva e boa-fé objetiva.
A boa-fé subjetiva, segundo Didier, é um fato da vida: o fato de o sujeito acreditar estar agindo com licitude.
É a crença em sua atuação lícita. Este fato, em muitas situações, é levado em consideração pelo direito, que
protege aquele que está de boa-fé, aquele que acredita estar agindo licitamente.
Ex: o possuidor de boa-fé, que acredita possuir a coisa licitamente, tem uma série de direitos que lhe são
garantidos na usucapião, disputa sobre frutos e benfeitorias, responsabilidade pela perda ou deterioração.
A boa-fé objetiva, por sua vez, é uma norma que impõe comportamentos éticos, leais, de acordo com
padrões objetivos de conduta vigentes em uma determinada coletividade. Pode-se dizer, assim, que a boa-
fé objetiva não tem a ver com a crença da pessoa.
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Segundo Humberto Theodoro, Dierle Nunes, Alexandre Melo Franco e Flávio Quinaud146:
O princípio da boa-fé objetiva consiste em exigir do agente a prática do ato jurídico sempre
pautado em condutas normativamente corretas e coerentes, identificados com a ideia de
lealdade e lisura. Com isso, confere-se segurança às relações jurídicas, permitindo-se aos
respectivos sujeitos confiar nos seus efeitos programados e esperados
Segundo advertência de Didier, o princípio da boa-fé poderia ser enquadrado como conteúdo do devido
processo legal. Processo devido é processo paritário (igualdade), tempestivo (duração razoável), efetivo,
adequado, público e leal (boa-fé).
146
THEODORO, Humberto; NUNES, Dierle; BAHIA, Alexandre; PEDRON, Flávio. Novo CPC: Fundamentos e Sistematização, 1ª ed. p.
159.
147
Por influência, sobretudo, alemã (§242 do BGB).
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O princípio da boa-fé decorre de uma cláusula geral. Assim sendo, sua concretização depende da experiência
forense ao longo do tempo. Até então, suas repercussões são as seguintes:
i- Impede o abuso de direitos processuais: esse princípio torna ilícito o exercício abusivo de um direito
processual. Qualquer abuso de direito (art. 187, CC) no processo é ilícito.
Ex1: proíbe-se a nulidade de algibeira, isto é, a parte guarda a nulidade na algibeira, no bolso, durante muito
tempo e apenas a suscita posteriormente, quando lhe for oportuno. A nulidade alegada não ser admitida,
bem como a parte pode sofrer as sanções da litigância de má-fé (art. 81, CPC/2015), que, segundo o STJ,
independe de comprovação do dano.
A "nulidade de algibeira" ocorre quando a parte se vale da “estratégia” de não alegar a nulidade logo
depois de ela ter ocorrido, mas apenas em um momento posterior, se as suas outras teses não
conseguirem ter êxito. Dessa forma, a parte fica com um trunfo, com uma “carta na manga”, escondida,
para ser utilizada mais a frente, como um último artifício. Esse nome foi cunhado pelo falecido Ministro
do STJ Humberto Gomes de Barros Algibeira = bolso. Assim, a “nulidade de algibeira” é aquela que a
parte guarda no bolso (na algibeira) para ser utilizada quando ela quiser. Tal postura viola claramente
a boa-fé processual e a lealdade, que são deveres das partes e de todos aqueles que participam do
processo. Por essa razão, a “nulidade de algibeira” é rechaçada pela jurisprudência do STJ. STJ. 3ª
Turma. REsp 1372802-RJ, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 11/3/2014 (Info 539).
Ex2: como é cediço, o autor só pode desistir de um processo se o réu que contestou concordar. Esse direito
do réu não é um capricho, o réu não pode simplesmente dizer que não concorda, deve justificar, de modo
que se assim não proceder, estará exercendo seu direito de modo abusivo, de maneira desnecessária, com
o fim único de lesar a outra parte.
Ex3: a parte que abusa do direito de defesa pode autorizar que o juiz defira tutela provisória de evidência
(art. 311, I, CPC).
Ex4: o abuso no direito de recorrer é litigância de má-fé (art. 80, VII, CPC).
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ii. Torna ilícitos os comportamentos dolosos: enquanto o abuso do direito é um ilícito independentemente
do ânimo do sujeito, o agir com dolo é obviamente um agir ilícito, até mais repugnante, pois aqui há má-fé.
Ex: retirada de uma peça do processo, pedido de citação por edital quando o autor sabe onde reside o réu
(art. 258, CPC) e etc.
iii. Proibição de comportamentos contraditórios: é o chamado nemo potest venire contra factum proprium.
Ex1: pede-se a invalidação de um ato a cujo defeito deu causa (art. 276, CPC).
Ex2: oferecimento de bem à penhora. O juiz determina a penhora do bem, e depois se alega que o bem é
impenhorável. Novamente, aqui está caracterizado o venire contra factum proprium. STJ já chegou a
sancionar tal conduta e permitir a penhora de bem de família. Todavia, tal entendimento, posteriormente,
sofreu alguns reveses.
iv. Surgimento dos deveres de cooperação processual: Vimos anteriormente esses deveres.
v. Função hermenêutica: os atos postulatórios e as decisões judiciais devem ser interpretados de acordo
com a boa-fé. É dizer, a boa-fé deve incidir sobre a interpretação, tanto da postulação quanto da decisão. Tal
função está representada pelos arts. 322, §2º e 489, § 3º, ambos do CPC.
CESPE/TRE-PE/2017
c) A boa-fé processual objetiva, que não se aplica ao juiz, prevê que as partes no processo tenham um
comportamento probo e leal.
b) A boa-fé no processo tem a função de estabelecer comportamentos probos e éticos aos diversos
personagens do processo e restringir ou proibir a prática de atos atentatórios à dignidade da justiça.
c) O princípio da cooperação atinge somente as partes do processo que devem cooperar entre si para
que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa e efetiva.
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d) Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e econômicos e às exigências do
bem público, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana.
e) Será possível, em qualquer grau de jurisdição, a prolação de decisão sem que se dê às partes
oportunidade de se manifestar, se for matéria da qual o juiz deva decidir de ofício.
A alternativa A está incorreta. O art. 9º do novo diploma processual veda que o juiz profira decisão
contra a parte sem que ela seja previamente ouvida (regra). No entanto, o art. 9º, parágrafo único,
inciso I excepciona a regra, ao prever que o disposto no caput não se aplica às tutelas de urgência e de
evidência. Haverá, pois, um contraditório diferido ou postergado.
A alternativa B está correta. Um processo, para ser devido, deve ser pautado na boa-fé (devido
processo leal). A boa-fé objetiva é uma norma que impõe comportamentos éticos, leais, de acordo com
padrões objetivos de conduta vigentes em uma determinada coletividade. Pode-se dizer, assim, que a
boa-fé objetiva não tem a ver com a crença da pessoa.
A alternativa C está incorreta. O art. 6o do novo CPC alcança todos os sujeitos do processo ao tratar
da cooperação e lealdade, não somente as partes.
A alternativa D está incorreta. O juiz não atenderá a fins econômicos, como na assertiva.
Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
Vejam a importância da leitura da lei seca. A alternativa E está incorreta. Art. 10. O juiz não pode
decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se tenha dado
às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir de
ofício.
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A noção de proteção da confiança legítima aparece como uma reação à utilização abusiva de
normas jurídicas e de atos administrativos que surpreendam bruscamente os seus destinatários.
O princípio da confiança legítima nasce e desenvolve-se na Alemanha após a II Guerra. Atrelada
ao princípio da segurança jurídica (Rechtssicherheit), o princípio da confiança legítima
(Vertrauensschutz) foi consagrado, inicialmente, no célebre caso da “Viúva de Berlim”, julgado
pelo Superior Tribunal Administrativo de Berlim, em 14 de novembro de 1956150
Fredie Didier151, com base nos ensinamentos de Humberto Ávila, diz que, para que o princípio da proteção
da confiança incida, é preciso que quatro pressupostos ocorram:
148
A própria exposição de motivos do CPC/15 faz essa diferenciação, citando, para tanto, Canotilho: “O homem necessita de
segurança para conduzir, planificar e conformar autônoma e responsavelmente a sua vida. Por isso, desde cedo se consideravam
os princípios da segurança jurídica e da proteção à confiança como elementos constitutivos do Estado de Direito. Esses dois
princípios – segurança jurídica e proteção da confiança – andam estreitamente associados, a ponto de alguns autores considerarem
o princípio da confiança como um subprincípio ou como uma dimensão específica da segurança jurídica. Em geral, considera-se
que a segurança jurídica está conexionada com elementos objetivos da ordem jurídica – garantia de estabilidade jurídica,
segurança de orientação e realização do direito – enquanto a proteção da confiança se prende mais com os componentes subjetivos
da segurança, designadamente a calculabilidade e previsibilidade dos indivíduos em relação aos efeitos dos actos”. (JOSÉ JOAQUIM
GOMES CANOTILHO. Direito constitucional e teoria da constituição. Almedina, Coimbra, 2000, p. 256).
149
OLIVEIRA, Rafael. Curso de Direito Administrativo, cit. p. 54.
150
A viúva de um funcionário alemão, que residia na República Democrática Alemã, mudou-se para Berlim Ocidental, depois de
ter recebido a informação, por meio de notificação oficial, de que, com a efetivação da referida mudança, receberia pensão do
Estado. A pensão, no entanto, foi posteriormente retirada da viúva, sob o argumento de que sua concessão descumpriu regras
vigentes. O Tribunal entendeu que, na hipótese, que o princípio da legalidade deveria ceder espaço ao princípio da proteção da
confiança legítima e que a viúva deveria continuar recebendo a pensão.
151
Op. Cit. p. 140-145.
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i. Base da confiança: é o ato normativo estatal em que se confia. Pode ser uma lei, um ato administrativo,
pode até mesmo ser uma decisão judicial. O processo é um meio de criação de atos que servem como base
de confiança. Obs: Lembrar que essa base tem de ter aparência de licitude. Se for flagrantemente
inconstitucional ou ilegal, não há razão para nele depositar confiança.
ii. Confiança na base: deve haver a base da confiança, o ato, e alguém acreditar em sua idoneidade, confiança
na base.
iii. Exercício da confiança: não basta haver a crença, é preciso que o sujeito tenha se comportado em razão
de sua base de confiança.
Obs: o exercício da confiança pode ser também uma conduta negativa. Imagine-se que determinado ato
normativo isenta determinado sujeito do recolhimento de tributos. O não recolhimento desse sujeito seria
o exercício da confiança depositada no ato normativo. iv. Frustração da confiança por ato do poder público.
Qual a aplicação desses entendimentos ao Processo Civil?
A concretização do princípio da confiança no processo está sendo construída ainda, mas três concretizações
são muito claras, e merecem registro:
a) O dever de o tribunal uniformizar sua jurisprudência: o dever de uniformizar a jurisprudência é um
dever de dar segurança jurídica aos cidadãos.
Confira o seguinte trecho da exposição de motivos do CPC/15:
152
Os ingleses dizem que os jurisdicionados não podem ser tratados “como cães, que só descobrem que algo é proibido quando o
bastão toca seus focinhos” (BENTHAM citado por R. C. CAENEGEM, Judges, Legislators & Professors, p. 161).
150
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I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e
do trabalho; (...)
Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar medidas
provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional.
I – relativa a:
151
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Art. 2o O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as
exceções previstas em lei.
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Art. 5o Aquele que de qualquer forma participa do processo deve comportar-se de acordo com a
boa-fé.
Art. 6o Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo
razoável, decisão de mérito justa e efetiva.
Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
Art. 9o Não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida.
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Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a
respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate
de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
Art. 11. Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas
todas as decisões, sob pena de nulidade.
Parágrafo único. Nos casos de segredo de justiça, pode ser autorizada a presença somente das
partes, de seus advogados, de defensores públicos ou do Ministério Público.
Art. 12. Os juízes e os tribunais deverão obedecer à ordem cronológica de conclusão para proferir
sentença ou acórdão.
VIII - os processos criminais, nos órgãos jurisdicionais que tenham competência penal;
IX - a causa que exija urgência no julgamento, assim reconhecida por decisão fundamentada.
§ 3o Após elaboração de lista própria, respeitar-se-á a ordem cronológica das conclusões entre
as preferências legais.
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§ 6o Ocupará o primeiro lugar na lista prevista no § 1o ou, conforme o caso, no § 3o, o processo
que:
I - tiver sua sentença ou acórdão anulado, salvo quando houver necessidade de realização de
diligência ou de complementação da instrução;
Art. 13. A jurisdição civil será regida pelas normas processuais brasileiras, ressalvadas as
disposições específicas previstas em tratados, convenções ou acordos internacionais de que o
Brasil seja parte.
Art. 14. A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em
curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a
vigência da norma revogada.
Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos,
as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente.
I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido
e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;
III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem.
§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença
ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação
com a causa ou a questão decidida;
154
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IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a
conclusão adotada pelo julgador;
Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e
coerente.
§ 1o Os juízes e os tribunais observarão o disposto no art. 10 e no art. 489, § 1o, quando decidirem
com fundamento neste artigo.
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RESUMO
Para finalizar o estudo da matéria, trazemos um resumo dos principais aspectos estudados ao longo da aula.
Sugerimos que esse resumo seja estudado sempre previamente ao início da aula seguinte, como forma de
“refrescar” a memória. Além disso, segundo a organização de estudos de vocês, a cada ciclo de estudos é
fundamental retomar esses resumos. Caso encontrem dificuldade em compreender alguma informação, não
deixem de retornar à aula.--
CONCEITO
Direito Processual Civil é o ramo do direito público consistente no conjunto de normas (regras e
princípios) que regulam a função jurisdicional, o exercício da ação e o processo, com o fim de prestar a
tutela devida em face de uma pretensão civil.
NEOCONSTITUCIONALISMO
➢ Marco histórico: Pós 2ª Guerra Mundial
➢ Marco filosófico: pós-positivismo
➢ Marco jurídico: força normativa da constituição, nova interpretação, expansão da jurisdição constitucional
NEOPROCESSUALISMO
➢ Teoria das fontes: teoria dos princípios; jurisprudência como fonte; mudança na técnica legislativa.
➢ Teoria das normas: distinção entre texto e norma; atividade criativa; proporcionalidade e razoabilidade.
➢ Processo civil e Direito Constitucional: força normativa da Constituição; teoria dos direitos fundamentais;
expansão da jurisdição constitucional
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FONTES
CONCEITO: é aquilo que dá origem ao direito ou, mais especificamente, às normas jurídicas.
FONTES MATERIAIS/FORMAIS
fonte material: Fatores que influenciam o surgimento da norma (movimentos sociais e políticos, consultas,
doutrina)
fonte formal: norma jurídica, podendo se dividir em: i- imediata (lei, princípios, jurisprudência); ii- mediata
(analogia, costumes).
Competência privativa da União em matéria processual (art. 22, I, CRFB). Vedação para medida provisória
(62, §1º, I, “a”, da CRFB)
2) Criar condições para que o juiz possa proferir decisão de forma mais rente à realidade fática subjacente à
causa
5) Finalmente, sendo talvez este último objetivo parcialmente alcançado pela realização daqueles
mencionados antes, imprimir maior grau de organicidade ao sistema, dando-lhe, assim, mais coesão
Origem: Édito de Conrado II (Decreto Feudal Alemão de 1.037, século XI); século XIV – 1354, a partir de
Eduardo III, Rei da Inglaterra; Magna Carta de 1215 (artigo 39).
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Princípio do contraditório (art. 5º, LV, CRFB, art. 8.1 CADH, 9º, 10, CPC)
Questões interessantes: a) previsão dos artigos 9º (dever de consulta) e 10 (questões de ordem pública); b)
tutelas contra FP – art.; c) prova emprestada – não precisa haver mesmas partes.
Nenhuma causa pode ser excluída do crivo do Poder Judiciário, salvo exceções constitucionais, como por
exemplo a justiça desportiva (art. 217, CRFB).
O CPC/2015 (art. 165ss) e a Lei de Mediação n. 13.140/2015 desejam que que o Judiciário seja a última
alternativa. Por isso, estabelecem vigoroso estímulo ao sistema multiportas, ou resolução alternativa das
disputas, composto pela mediação, conciliação e arbitragem.
No RE 63.240, o STF considerou constitucional a exigência de prévio requerimento administrativo para haver
o interesse de agir de demandar perante o Judiciário, mas isso não ofende o princípio. Também não ofende
o ingresso de reclamação constitucional condicionada ao exaurimento das vias administrativas (art. 7º, § 1º,
Lei n. 11.417/2006).
Princípio da duração razoável do processo (artigo 5º, LXXVIII, CRFB (incluído pela EC 45/04 153) e art. 4º,
CPC/15)
i- complexidade da causa
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Na exposição, há passagem expressa de que “antes de ser expressamente incorporado à Constituição Federal em vigor (art. 5º,
inciso LXXVIII), já havia sido contemplado em outros instrumentos normativos estrangeiros (veja-se, por exemplo, o art. 111, da
Constituição da Itália) e convenções internacionais (Convenção Européia e Pacto de San Jose da Costa Rica). Trata-se, portanto, de
tendência mundial”.
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Princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, CRFB e art. 8º, CPC, artigo 1 da Declaração
Universal dos Direitos Humanos - 1948)
Princípio da isonomia (art. 5º, caput, CRFB, bem como nos artigos 7º e 139, I, CPC):
Repercussões: a) inversão do ônus da prova; b) prerrogativas da FP, MP, DP; c) tramitação prioritária; d)
sistema de precedentes; e) ordem cronológica.
Critérios:
Quanto à produção probatória, o juiz pode produzí-la de ofício (art. 370, CPC). Quanto à execução, salvo a
execução por quantia, todas as outras o juiz pode promover de ofício.
Princípio da publicidade (art. 5º, LX, art. 93, IX, ambos da CF e nos arts. 8º e 11, do CPC):
Duas dimensões:
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i. Dimensão interna: o processo tem de ser público para as partes, publicidade interna esta que deve ocorrer
sem restrição alguma.
ii. Dimensão externa: o processo tem que ser público para quem não faz parte dele, possibilitando um
controle público do exercício da jurisdição. A publicidade externa, contudo, pode sofrer restrições
autorizadas pela própria Constituição (arts. 5º, LX, 93, IX) e pela lei (art. 189, CPC).
Princípio da motivação das decisões judiciais (art. 93, IX, CRFB e art. 489, CPC):
Art. 489, § 1º, IV: As decisões do STJ e do STF são fartas no sentido de não obrigar o julgador a enfrentar
todos os argumentos deduzidos no processo
Art. 489, § 2º: § 2o No caso de colisão entre normas, o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais da
ponderação efetuada, enunciando as razões que autorizam a interferência na norma afastada e as premissas
fáticas que fundamentam a conclusão.
i) Não cabe à norma positivar uma posição doutrinária, até mesmo porque a técnica da ponderação não é
adotada por todos no ramo jurídico. No artigo, adotou-se, segundo alguns, a concepção de Robert Alexy e
sua técnica da ponderação.
ii) A teoria da ponderação se refere à colisão de princípios, enquanto o artigo fala em colisão de “normas”,
que, como se sabe, é gênero do qual são espécies os princípios e as regras. Embora haja posição doutrinária
minoritária pela possibilidade de ponderação de regras (ex: Humberto Ávila), a concepção majoritária é pela
impossibilidade de as regras serem ponderadas.
Art. 1022, II, CPC – cabimento de embargos de declaração caso não respeitado o art. 489, § 1º, CPC.
O modelo constitucional de Processo Civil impõe que promovamos, nas palavras de Cássio Scarpinella
Bueno, não só a juris-dição, mas também a juris-satisfação. O art. 4º do CPC/15 vem justamente nesse
sentido.
Exemplos: art. 218, § 4º; 282, § 2º; art. 317; art. 338; art. 487, § 5º, art. 488, art. 932, parágrafo único; art.
1.007, §§2º e 4º; art. 1.024, § 3º; art. 1.025; art. 1.032; art. 1.033. Também como exemplo, há a organicidade
das tutelas provisórias: a) tutela de urgência: tutela antecipada e cautelar (não há mais cautelares em espécie
nem processo autônomo); b) tutela de evidência: permite que o juiz ofereça no início a tutela (antecipação
dos efeitos práticos do provimento final) em razão da evidência do direito do autor (art. 311, CPC).
Está implícito na Constituição, mas explícito no CPC (arts 5º, 322, § 2º, 489, § 3º). No CPC/73, estava previsto
no art. 14, II.
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doutrina civilista destaca a boa-fé objetiva em três funções: a) função interpretativa (art. 113, CC); b) função
limitadora (art. 187, CC); c) função integrativa (art. 422, CC).
A doutrina ainda elenca institutos decorrentes da boa-fé objetiva, sendo os mais importantes os seguintes:
supressio, surrectio, venire contra factum proprium, exceptio non adimplente contractus (ou tu quoque), a
exceptio doli (desdobrada em exceptio doli generalis e exceptio doli specialis), duty to mitigate the loss.
Consequências práticas:
Dois sentidos:
Para que a proteção da confiança exista, é preciso que existam quatro pressupostos:
Base da confiança
Confiança na base
Exercício da confiança
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Chegamos ao final da nossa aula inaugural! Vimos uma pequena parte da matéria, a qual é, sobremaneira,
um assunto muito relevante para a compreensão da disciplina como um todo.
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A pretensão desta aula é a de situá-los no mundo do Direito Processual Civil, a fim de que não tenham
dificuldades em assimilar os conteúdos relevantes que virão na sequência.
Além disso, procuramos demonstrar como será desenvolvido nosso trabalho ao longo do Curso.
Quaisquer dúvidas, sugestões ou críticas entrem em contato conosco. Estou disponível no fórum do Curso,
pelo instagram e por e-mail.
Rodrigo Vaslin
rodrigovaslin@[Link]
rodrigovaslin
QUESTÕES COMENTADAS
Magistratura
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Comentários
A alternativa D está correta. O princípio da cooperação engloba os deveres de prevenção, esclarecimento,
cooperação (ou auxílio) e adequação.
A alternativa A está incorreta. A concessão de prazos diversos para partes em situações jurídicas distintas é
a aplicação do princípio da isonomia em sua vertente material.
A alternativa B está incorreta. O referido princípio também possui duas dimensões, segundo Didier.
Dimensão formal: É o direito de ser processado por um juiz competente para julgar sua causa. Essa
competência deve ser dada por uma lei. E não são quaisquer critérios legais, tendo também de serem gerais,
de modo que qualquer pessoa que se encaixe naquele padrão seja julgada por aquele juízo; e prévios, de
modo que aquele juiz já estava constituído para julgar causas como a minha.
Nesse sentido, vê-se que o princípio do juiz natural proíbe a criação de tribunais de exceção, consoante art.
5º, XXXVII, CRFB.
Dimensão material: Não basta que o juiz seja competente, é preciso criar mecanismos que garantam a
imparcialidade do juiz. É por esse motivo é que existe a regra da distribuição dos processos, com critérios
prévios, objetivos, gerais e aleatórios para identificar qual juízo será o responsável pela causa.
A alternativa C está incorreta. O contraditório postecipado ou diferido ainda permanece em algumas
situações, a exemplo de tutela de urgência concedida liminarmente, liminar em possessória etc.
A alternativa E está incorreta. O CPC não prevê expressamente a moralidade.
Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
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A alternativa A está incorreta. A mediação, consoante art. 3º, § 3º, CPC e Lei n. 13.140/2015 pode ser
aplicada ao gênero processo judicial e, inclusive ao processo arbitral. Vejamos:
Art. 16. Ainda que haja processo arbitral ou judicial em curso, as partes poderão submeter-se à
mediação, hipótese em que requererão ao juiz ou árbitro a suspensão do processo por prazo
suficiente para a solução consensual do litígio.
Ainda há uma discussão de sua aplicabilidade no Processo Penal, o que deverá ser tratado com o professor
da matéria. Contudo, salienta-se que já se menciona a mediação no processo penal como um dos métodos
possíveis da justiça restaurativa.
Desse modo, incorreta a afirmação de que se aplicaria somente para processos cíveis. Outro equívoco é a
afirmação de que “deve ocorrer em audiência para esse fim”. A mediação pode ocorrer em todos os
momentos do processo, em audiência para esse fim (art. 334, CPC), em audiência de instrução e julgamento
(art. 359, CPC), mediação extrajudicial (art. 694, parágrafo único, CPC), enfim, de todas as formas possíveis.
Vejam o seguinte enunciado do CJF:
A alternativa B está incorreta. Na verdade, a conciliação deve ser feita, no plano ideal, por alguém que não
seja o juiz do processo. Isso porque um dos princípios norteadores da conciliação e mediação é a
confidencialidade (art. 166, caput e §§ 1º e 2º, CPC), o que impõe que todas as informações produzidas no
curso da conciliação não sejam utilizadas para outro fim que não aquela tentativa de solução consensual.
Como isso não é possível em muitos casos, por falta de estrutura, tem-se permitido que a audiência seja
presidida pelo magistrado. Vejamos:
Além disso, outro equívoco é afirmar que o juiz “tem o dever de alcançar a composição entre os litigantes”.
Como o próprio nome diz, é uma solução consensual de conflitos, e não uma imposição de acordos pelo
magistrado.
A alternativa C está incorreta. Visa obter punição menos severa, mas mais conciliadora e restauradora.
a) método em que o terceiro não apresenta propostas, mas apenas conduz as partes para um diálogo
profícuo a fim de que elas mesmas, com autonomia e solidariedade, cheguem a um bom termo;
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b) é indicada para casos em que as partes já possuem um vínculo anterior. Ex: direito de família.
Art. 165, § 3o O mediador, que atuará preferencialmente nos casos em que houver vínculo
anterior entre as partes, auxiliará aos interessados a compreender as questões e os interesses
em conflito, de modo que eles possam, pelo restabelecimento da comunicação, identificar, por
si próprios, soluções consensuais que gerem benefícios mútuos.
Comentários
A alternativa A está incorreta. A hipótese não se amolda aos incisos do art. 485, CPC. Ao contrário, consoante
art. 487, II, CPC, quando o juiz decide sobre a ocorrência de decadência ou prescrição, ele está resolvendo o
mérito.
A alternativa C está correta. É a aplicação do art. 10, CPC. Mesmo que a prescrição seja matéria de ofício,
pela previsão do referido dispositivo, deve o juiz abrir prazo para manifestação das partes.
Obs1: o juiz somente poderá extinguir o feitos, sem dar oportunidade às partes de manifestar sobre
prescrição e decadência nos casos de "improcedência liminar do pedido", que por sua vez ocorre sem a
citação. É diferente do presente caso em que houve a citação.
Art. 332. Nas causas que dispensem a fase instrutória, o juiz, independentemente da citação do
réu, julgará liminarmente improcedente o pedido que contrariar:
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§ 1o O juiz também poderá julgar liminarmente improcedente o pedido se verificar, desde logo,
a ocorrência de decadência ou de prescrição.
Parágrafo único. Ressalvada a hipótese do § 1o do art. 332, a prescrição e a decadência não serão
reconhecidas sem que antes seja dada às partes oportunidade de manifestar-se.
A alternativa D está incorreta. As condições da ação, com o CPC/15, são interesse (necessidade, utilidade,
adequação) e a legitimidade (art. 17, CPC). No caso, a prescrição não fulmina as condições da ação, tampouco
o direito, mas apenas a pretensão, a exigibilidade.
A alternativa E está incorreta. Como se trata de matéria sobre a qual o juiz pode decidir de ofício, não há
necessidade de qualquer das partes aventar a possibilidade de ocorrência da prescrição ou decadência.
4. (TRF 2ª Região/Juiz Federal Substituto/2017)Sobre o direito intertemporal, considere as normas do
Código de Processo Civil e o entendimento do Superior Tribunal de Justiça e assinale a opção correta:
a) As disposições do CPC-2015 devem ser aplicadas imediatamente após a sua entrada em vigor a todos os
processos em tramitação.
b) São cabíveis honorários sucumbenciais recursais somente contra decisões publicadas a partir da entrada
em vigor do novo código.
c) As disposições de direito probatório adotadas no novo código somente serão aplicadas aos processos
instaurados a partir da sua entrada em vigor.
d) No tema intertemporal, o CPC adotou o sistema puro do isolamento dos atos processuais.
e) No tema, o novo CPC adotou o sistema das fases processuais.
Comentários
A alternativa A está incorreta. As disposições do CPC-2015, em regra, devem sim ser aplicadas
imediatamente após a sua entrada em vigor a todos os processos em tramitação.
Art. 1.046. Ao entrar em vigor este Código, suas disposições se aplicarão desde logo aos
processos pendentes, ficando revogada a Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973.
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Art. 1.054. O disposto no art. 503, § 1o (coisa julgada das questões prejudiciais) somente se aplica
aos processos iniciados após a vigência deste Código, aplicando-se aos anteriores o disposto
nos arts. 5º, 325 e 470 da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973.
Art. 1.057. O disposto no art. 525, §§ 14 e 15 e no art. 535, §§ 7o e 8o, aplica-se às decisões transitadas em
julgado após a entrada em vigor deste Código, e, às decisões transitadas em julgado anteriormente,
aplica-se o disposto no art. 475-L, § 1º, e no art. 741, parágrafo único, da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de
1973.
Somente nos recursos interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016, será
possível o arbitramento de honorários sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11, do
novo CPC.
A alternativa C está incorreta. O art. 1.047 dispõe que o marco definidor de qual legislação aplicar é o
requerimento de produção probatória ou a determinação de ofício para produção de alguma prova. Se o
requerimento e/ou a determinação foi feita já na vigência do CPC/15, ele será aplicável. Se se deram antes
de 18/03/2017, será aplicável o CPC/73.
Art. 1.047. As disposições de direito probatório adotadas neste Código aplicam-se apenas às
provas requeridas ou determinadas de ofício a partir da data de início de sua vigência.
A alternativa D está incorreta. Certo é que o CPC consagra, em regra, a teoria do isolamento dos atos
processuais, isto é, a lei processual nova deve ser aplicada aos atos processuais ainda não realizados,
respeitando-se os atos processuais já realizados. Entretanto, esse sistema não foi adotado de forma pura,
conforme exceções suscitadas na alternativa A.
A alternativa E está incorreta. Segundo José Miguel Medina, o CPC adotou a teoria das fases de forma
excepcional, como por exemplo nos artigos 1.054 e 1.057 (conforme visto na alternativa A).
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Questão complexa de cujo gabarito, inclusive, discordo. Coloquei a questão pela letra C. Todavia, a explicação das outras são
ótimas para estudo.
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a) Terá eficácia retroativa média a lei nova que atingir apenas os efeitos dos atos anteriores produzidos após
a data em que ela entrar em vigor.
b) A União pode invocar a proteção do direito adquirido contra lei federal que suprima direitos da própria
União.
c) De acordo com a jurisprudência do STF, uma lei processual que altere o regime recursal terá aplicação
imediata, incidindo inclusive sobre os casos em que já haja decisão prolatada pendente de publicação.
d) A CF não positivou expressamente a regra de que as leis não podem atingir fatos ocorridos no passado,
adotando, na verdade, a teoria subjetiva de proteção dos direitos adquiridos em face de leis novas.
e) O servidor público tem direito adquirido à manutenção dos critérios legais de fixação do valor da
remuneração.
Comentários
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ALMEIDA, Lilian Barros de Oliveira. O direito adquirido e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: uma construção tópica
do direito.
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GABBA, C F. Retroattivitá Delle Leggi, 3ª ed. Milão-Roma-Nápoles: Utet, v. I, 1891, pp.10-11
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CARDOZO, José Eduardo Martins. Da retroatividade da lei. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1995, p. 113
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De forma sintética, poderíamos dizer que os defensores desta corrente têm, como alicerce de
todas suas reflexões, a ideia de que as novas leis não devem retroagir sobre aqueles direitos
subjetivos que sejam considerados juridicamente como adquiridos pelo seu titular. Ou em
outras palavras: ao ver destes, a questão da irretroatividade das leis tem assento na premissa
fundamental que afirma a impossibilidade de uma lei vir a desrespeitar ‘direitos adquiridos’ sob
o domínio de sua antecedente.
b) Teoria Objetiva
Já no século XX, os doutrinadores (principalmente Paul Roubier) que se opunham à teoria dos direitos
adquiridos procuraram objetivar as questões de direito intertemporal, ao formular a necessidade de manter
intactas certas situações jurídicas constituídas na vigência da lei anterior, como critério da não aplicação da
lei nova.
Para os objetivistas, o conflito de leis no tempo resolve-se através da identificação da lei vigente no momento
em que os efeitos dos fatos são produzidos.
Paul Roubier preferia utilizar a expressão “situação jurídica” em lugar da designação “direito adquirido”, ao
argumento de que aquela seria superior ao termo direito adquirido, por não ter um caráter subjetivo e poder
ser aplicada a situações como a do menor, do interdito e do pródigo.
A teoria de Roubier gira, basicamente, em torno da distinção entre efeito retroativo e efeito imediato. O
primeiro seria a aplicação da lei ao passado, enquanto o segundo seria a aplicação da lei ao presente.
Se se pretendesse aplicar a lei às situações realizadas (facta praeteria), ela seria retroativa; se se pretendesse
aplicá-la às situações em curso (facta pendentia), seria necessário traçar uma linha divisória entre o que é
anterior à mudança do legislador e o que lhe é posterior, de modo a se definir sobre o que a lei nova poderia
incidir. Quanto às situações futuras (facta futura), obviamente que não teria cabimento falar em
retroatividade.
Roubier buscou, também, em sua teoria, um critério que permitisse identificar, no caso concreto, quando se
está diante de um efeito retroativo e quando se está diante de um efeito imediato da lei nova.
Assim, faz distinção entre uma fase dinâmica, que corresponde ao momento da constituição e extinção da
situação, e uma fase estática, que corresponde ao momento em que essa situação produz seus efeitos.
A fase dinâmica é regida por duas regras essenciais, a depender do tempo que se decorre para constituir ou
extinguir a situação jurídica. Se ela já estiver constituída no momento do advento da lei nova, esta não
poderá atingi-la. Se a constituição ou extinção da situação jurídica ainda estiver em curso, a lei nova não
pode atingir os elementos já existentes que fazem parte desta constituição ou extinção.
Conclui, então, que as leis relativas aos modos de constituição ou de extinção de uma situação jurídica não
podem, sem retroatividade, contestar a eficácia ou ineficácia jurídica de um fato passado. Há
irretroatividade aqui.
No tocante à fase estática, os efeitos da situação jurídica inteiramente constituída ou extinta são atingidos
pela lei nova, se ainda não produzidos. Entretanto, se ainda há efeitos a serem produzidos, só estes serão
atingidos pela lei nova, mantendo-se intactos os anteriores regidos pela lei anterior.
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Em suma, a lei nova determinará os efeitos jurídicos que se produzirão após a sua entrada em vigor. Aqui,
há efeito imediato da lei nova.
Concluindo, Roubier tinha a seguinte fórmula158: a lei somente deve alcançar os fatos do presente,
respeitando os fatos pretéritos e estendendo seu alcance sobre os EFEITOS futuros das situações jurídicas
consolidadas quando ainda não produzidos.
Direito Brasileiro
A CRFB/1988 dispõe:
Art. 5º, XXXVI. A lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada
A Constituição, portanto, teria adotado não o princípio da irretroatividade absoluta das leis, mas, sim, o
princípio da irretroatividade restrita, que consiste na proibição de leis prejudiciais ao direito adquirido, ao
ato jurídico perfeito e à coisa julgada.
Diante da redação e colocação do “direito adquirido”, doutrina entende que houve aqui a influência da teoria
subjetiva dos direitos adquiridos de Gabba, que também pregava a irretroatividade das leis restrita à
proteção dos direitos adquiridos.
Portanto, a letra D está correta.
E a legislação infraconstitucional?
A LICC de 1916 teria adotado a concepção subjetivista (art. 3º).
Art. 3. A lei não prejudicará, em caso algum, o direito adquirido, o ato jurídico perfeito, ou a coisa
julgada.
§ 1º Consideram-se adquiridos, assim os direitos que o seu titular, ou alguém por ele, possa
exercer, como aqueles cujo começo de exercício tenha termo prefixo, ou condição
preestabelecida, inalterável a arbítrio de outrem.
§ 2º Reputa-se ato jurídico perfeito o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se
efetuou.
§ 3º Chama-se coisa julgada, ou caso julgado, a decisão judicial, de que já não caiba recurso.
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Art. 6o A lei em vigor terá efeito imediato e geral. Não atingirá, entretanto, salvo disposição
expressa em contrário, as situações jurídicas definitivamente constituídas e a execução do ato
jurídico perfeito.
Em 1957, a LICC sofreu alteração pela Lei n. 3.238, provocando uma estranha simbiose entre as duas
correntes.
No caput do art. 6º, mantém-se a redação de que a lei terá efeito imediato e geral (teoria objetivista de
Roubier), mas ressalva que essa lei não atingirá o direito adquirido, ato jurídico perfeito e coisa julgada
(teoria subjetiva de Gabba).
De toda forma, a doutrina salienta que a intenção foi voltar a adotar a teoria subjetiva.
Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito
adquirido e a coisa julgada. (Redação dada pela Lei nº 3.238, de 1957)
§ 1º Reputa-se ato jurídico perfeito o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se
efetuou. (Incluído pela Lei nº 3.238, de 1957)
§ 2º Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular, ou alguém por êle, possa
exercer, como aquêles cujo comêço do exercício tenha têrmo pré-fixo, ou condição pré-
estabelecida inalterável, a arbítrio de outrem. (Incluído pela Lei nº 3.238, de 1957)
§ 3º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.
(Incluído pela Lei nº 3.238, de 1957)
Cabe ter presente, por isso mesmo, a ampla discussão, que, travada entre os adeptos da teoria
subjetiva e os seguidores da teoria objetiva, influenciou, decisivamente, o legislador ordinário
brasileiro na elaboração da Lei de Introdução ao Código Civil (LICC), pois, como se sabe, a LICC de
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1916 (que entrou em vigor em 1917) consagrou a doutrina sustentada pelos subjetivistas (art.
3º), enquanto a LICC de 1942, em seu texto, prestigiou a teoria formulada pelos objetivistas
(art. 6º), muito embora o legislador, com a edição da Lei 3.238/1957, que alterou a redação do
art. 6º da LICC/1942, houvesse retomado os cânones inspiradores da formulação doutrinária
de índole subjetivista que prevaleceu, sob a égide dos princípios tradicionais, na vigência da
primeira Lei de Introdução ao Código Civil (1916).
Em relação às Leis, normalmente elas dispõem para o futuro, não alcançando os atos anteriores
(ou seus efeitos), que continuam sujeitos à lei antiga, do tempo em que foram praticados
(tempus regit actum).
Todavia, excepcionalmente, é possível uma lei nova retroagir para alcançar atos anteriores ou os
seus efeitos. Essa retroatividade excepcional varia de intensidade ou grau, podendo ser
máxima, média e mínima.
Ocorre a retroatividade máxima (também chamada restitutória) quando a lei nova retroage para
atingir os atos ou fatos já consumados (direito adquirido, ato jurídico perfeito ou coisa julgada).
A retroatividade média, por outro lado, se opera quando a nova lei, sem alcançar os atos ou
fatos anteriores, atinge os seus efeitos ainda não ocorridos (efeitos pendentes). É o que ocorre,
por exemplo, quando uma nova lei, que dispõe sobre a redução da taxa de juros, aplica-se às
prestações vencidas de um contrato, mas ainda não pagas.
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Dá-se essa retroatividade mínima, quando, por exemplo, a nova lei que reduziu a taxa de juros
somente se aplicar às prestações que irão vencer após a sua vigência (prestações vincendas). A
aplicação imediata de uma lei, que atinge os efeitos futuros de atos ou fatos pretéritos,
corresponde a uma retroatividade, ainda que mínima ou mitigada, pois essa lei retroage para
interferir na causa, que é o próprio ato ou fato ocorrido no passado.
Pensões especiais vinculadas a salário mínimo. Aplicação imediata a elas da vedação da parte
final do inciso IV do art. 7.º da Constituição de 1988. Já se firmou a jurisprudência desta Corte no
sentido de que os dispositivos constitucionais têm vigência imediata, alcançando os efeitos
futuros de fatos passados (retroatividade mínima). Salvo disposição expressa em contrário – e a
Constituição pode fazê-lo -, eles não alcançam os fatos consumados no passado nem as
prestações anteriormente vencidas e não pagas (retroatividade máxima e média). Recurso
extraordinário conhecido e provido” (RE 140.499/GO, rel. Min. Moreira Alves, DJ, 09.09.1994).
Súmula 654, STF: A garantia da irretroatividade da lei, prevista no art. 5º, XXXVI, da Constituição
da República, não é invocável pela entidade estatal que a tenha editado.
Art. 5º, XXXVI - a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.
Vale frisar que a irretroatividade é uma garantia do cidadão em face do Estado, e não contrário.
Por isso, se a União edita uma norma com retroatividade, mas percebe que a norma a prejudica, não poderá
alegar a garantia da irretroatividade de uma norma que ela própria editou.
É, em última análise, raciocínio similar à proibição de se valer da própria torpeza.
A alternativa C foi considerada incorreta. De toda forma, não vislumbrei equívoco na assertiva.
Segundo o STF:
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possibilidade de interposição do aludido recurso. Reputou-se que o art. 2º do CPP (“Art. 2º. A lei
processual aplicar-se-á desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência
da lei anterior”) disciplinaria a incidência imediata da lei processual aos feitos em curso, de modo
que, se nova lei viesse a suprimir ou abolir recurso existente antes da sentença, não haveria
direito ao exercício daquele.
Consoante o STJ:
A Corte Especial, ao julgar o recurso sob o regime do art. 543-C do CPC c/c a Res. n. 8/2008-STJ,
afirmou que a incidência do duplo grau de jurisdição obrigatório é de rigor quando a data da
sentença desfavorável à Fazenda Pública for anterior à reforma promovida pela Lei n.
10.352/2001 (que alterou dispositivos do CPC referentes a recurso e a reexame necessário).
Ressaltou-se que se adota o princípio tempus regit actum do ordenamento jurídico, o qual
implica respeito aos atos praticados na vigência da lei revogada e aos desdobramentos imediatos
desses atos, não sendo possível a retroação da lei nova. Assim, a lei em vigor no momento da
data da sentença regula os recursos cabíveis contra ela, bem como a sua sujeição ao duplo grau
obrigatório, repelindo-se a retroatividade da lei nova. Diante desse entendimento, o recurso da
Fazenda Pública foi provido, determinando-se o retorno dos autos ao tribunal a quo para
apreciar a remessa necessária (antigo recurso ex officio). Precedentes citados: EREsp 600.874-SP,
DJ 4/9/2006; REsp 714.665-CE, DJe 11/5/2009; REsp 756.417-SP, DJ 22/10/2007; REsp 1.092.058-
SP, DJe 1º/6/2009; AgRg no REsp 930.248-PR, DJ 10/9/2007; REsp 625.224-SP, DJ 17/12/2007, e
REsp 703.726-MG, DJ 17/9/2007. REsp 1.144.079-SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 2/3/2011
(recurso repetitivo).
1. Entende-se por dia do julgamento a data em que foi efetivamente PUBLICADA a sentença.
3. Não tendo a sentença sido proferida em audiência, a publicação dar-se-á com a sua entrega
em Cartório, pelo Juiz, para fins de registro em livro próprio.
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4. Embargos de Declaração acolhidos, mas sem efeito modificativo, apenas para esclarecer o
momento em que se deve considerar proferida a sentença de primeiro grau. (EDcl no
REsp 1144079/SP, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia, d.j. 25/04/2013)
Ainda, com o CPC/15, o STJ elaborou 7 enunciados administrativos sobre a aplicabilidade da lei nova aos
recursos, sempre tomando como critério divisor a data da PUBLICAÇÃO da sentença.
O Plenário do STJ, em sessão administrativa em que se interpretou o art. 1.045 do novo Código
de Processo Civil, decidiu, por unanimidade, que o Código de Processo Civil aprovado pela Lei n.
13.105/2015, entrará em vigor no dia 18 de março de 2016.
Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/1973 (relativos a decisões publicadas até 17
de março de 2016) devem ser exigidos os requisitos de admissibilidade na forma nele prevista,
com as interpretações dadas, até então, pela jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.
Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões publicadas a partir
de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma
do novo CPC.
Nos feitos de competência civil originária e recursal do STJ, os atos processuais que vierem a ser
praticados por julgadores, partes, Ministério Público, procuradores, serventuários e auxiliares da
Justiça a partir de 18 de março de 2016, deverão observar os novos procedimentos trazidos
pelo CPC/2015, sem prejuízo do disposto em legislação processual especial.
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Somente nos recursos interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016, será
possível o arbitramento de honorários sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11,
do novo CPC.
Pode ser que a Banca tenha tido o seguinte raciocínio quanto à data da “publicação”:
Por exemplo, o acórdão prolatado em sessão de julgamento torna-se público na data da sessão
de julgamento, momento em que haverá o seu registro e que as partes terão ciência do seu teor.
É nesta data em que temos a “publicação” da sentença, o momento em que ela se tornou pública,
sendo este o momento para aferição das regras recursais.
Não é importante, portanto, a data da publicação do acórdão no DJe (embora essa última defina
o início do prazo recursal).
Assim, a publicação da decisão a ser considerada para fins de aplicação de novas normas
processuais é a data em que a decisão tornou-se pública, que nem sempre se confunde com a
data da sua publicação no DJe.
Mesmo que a banca tenha adotado tal raciocínio, a assertiva não foi tão clara quanto ao fato de a prolação
de sentença ter se dado em audiência ou em sessão no tribunal.
Se ela tivesse sido prolatada em gabinete, o momento da publicação dela que seria relevante para a aferição
das regras recursais.
A alternativa E está incorreta.
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c) As partes têm o direito de obter, em prazo razoável, a solução integral do mérito, exceto a atividade
satisfativa.
d) Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins econômicos e às exigências individuais,
resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a
razoabilidade, a legalidade, o segredo de justiça e a eficiência.
e) É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades
processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo
ao juiz zelar pelo efetivo contraditório.
Comentários
A alternativa E está correta.
Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a
respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate
de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
Art. 11. Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas
todas as decisões, sob pena de nulidade;
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Art. 8o Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
Promotor
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a) A legislação atual assegura às partes o direito de obtenção, em lapso temporal razoável, da plena resolução
meritória da demanda judicial, excluída a atividade satisfativa, isto é, de cumprimento ou execução.
b) O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a respeito do qual não se
tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir
de ofício.
c) O juiz não deve proferir decisão contra uma das partes sem que lhe seja dada oportunidade de se
manifestar, ainda que a decisão seja proferida em ação monitória, quando evidente o direito do autor.
d) O dever de todos os sujeitos processuais, inclusive o perito, cooperarem para buscar a obtenção de
decisão que julgue o mérito da demanda judicial, em tempo razoável, de modo justo e efetivo, não está
previsto nas normas fundamentais do processo civil no Brasil.
Comentários
A alternativa B está correta.
Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a
respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate
de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
Art. 4º As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
A alternativa C está incorreta. A decisão em ação monitória é uma exceção à regra geral.
Art. 9º Não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida.
III - à decisão prevista no art. 701 (dispositivo que versa sobre ação monitória).
CAPÍTULO I
Art. 6º Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo
razoável, decisão de mérito justa e efetiva.
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Comentários
A alternativa A está incorreta. A Constituição serve para todo o ordenamento como critério de validade.
Contudo, ao contrário do afirmado, também influencia a interpretação dos dispositivos legais. Conforme
vimos neste pdf., como decorrência da força normativa da Constituição, temos o fenômeno da
constitucionalização releitura, que impõe que todos os ramos passem por uma filtragem constitucional de
seus institutos. Podem ser dados como exemplos o devido processo legal que, relido, passou a se dividir em
devido processo legal formal e substantivo, bem como o contraditório que, sob os influxos constitucionais,
deixou de ser meramente formal (ciência + reação) para se tornar substancial (ciência + reação + poder de
influenciar o juiz).
A alternativa B está incorreta. Conforme salienta o art. 5º, XXXV, CRFB e art. 3º, CPC, a inafastabilidade da
jurisdição abrange não só a lesão ao direito, mas também a ameaça ao direito. Vejamos:
Art. 5º, XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;
Em processo civil, essa amplitude é particularmente importante. Marinoni, por exemplo, classifica as tutelas
exatamente pelo momento em que se pede a tutela e momento de prática do ato ilícito.
Hipótese 1: Havendo ameaça, não preciso esperar consolidação ou a prática do ato ilícito, posso sim buscar
tutela condenando a não fazer (é tutela inibitória da prática do ato ilícito).
Hipótese 2: Havendo lesão a direito, poderá ser concedida tutela reintegratória, com o desiderato de
reintegrar o direito do autor in natura (as duas são específicas).
Hipótese 3: Se as vezes não há mais o que fazer, não tem como volver ao status quo, reparar o dano,
compensá-lo, busca-se a tutela é ressarcitória.
A alternativa C é incorreta. Como já salientado, o contraditório substancial não é só a garantia de ouvir e ser
ouvido, mas sim de ter ciência + reação + poder de influenciar o juiz.
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A alternativa D é incorreta. A categoria condições da ação, ainda existente com o CPC/15, segundo doutrina
majoritária, é composta apenas pelo interesse de agir e legitimidade de parte, consoante art. 17, CPC, tendo
sido excluída a possibilidade jurídica do pedido.
Comentários
A alternativa C está incorreta. Conforme vimos em questões pretéritas, foi Ferdinand Lassale, e não
Konrad Hesse, que desenvolveu o conceito sociológico de Constituição, segundo o qual Constituição é o
somatório dos fatores reais de poder.
10. (MPE - PR/Promotor/2017) A respeito da parte geral do Código de Processo Civil de 2015 e das suas
normas fundamentais, assinale a alternativa correta:
a) A solução consensual dos conflitos, apesar de permitida pelo Código de Processo Civil de 2015, não é
incentivada nem considerada como papel fundamental do Poder Judiciário.
b) É direito das partes obter a solução integral do mérito, o que se considera cumprido sempre ao final da
fase de conhecimento do processo civil.
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c) De acordo com o Código de Processo Civil de 2015, a cooperação processual é norma que vincula apenas
as partes que integram a relação jurídica processual.
d) Em nenhuma hipótese pode o juiz proferir decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente
ouvida, o que demanda revisão de temas do direito processual, como a tutela provisória.
e) Não pode o juiz, em grau algum de jurisdição, decidir com base em fundamento a respeito do qual não se
tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate de matéria sobre a qual deva decidir
de ofício.
Comentários
A alternativa A está incorreta. A tônica do CPC/15 é exatamente o inverso. Isso já se percebe no capítulo I
(Das Normas Fundamentais do Processo Civil), no qual consta, no art. 3º, § 3º, que a conciliação, mediação
e outros métodos deverão ser estimulados por todos os atores judiciais.
A alternativa B está incorreta. Nem sempre a solução integral do mérito é obtida na fase de conhecimento.
O próprio artigo 4º dispõe que a solução integral do mérito inclui a atividade satisfativa. E, essa
satisfatividade, a entrega do bem da vida a quem tem direito ocorre, muitas vezes, apenas na fase de
execução. Ex: casos de sentença condenatória de obrigação de fazer, dar dinheiro ou coisa diversa de
dinheiro, em que a fase executória é imperiosa.
A alternativa C está incorreta. O dever de cooperação (art. 6º, CPC) se estende não somente às partes, mas
também ao juiz, auxiliares do juízo, enfim, todos aqueles que participarem de alguma forma do processo.
Inclusive, abordamos neste pdf. os 4 deveres do juiz decorrentes da cooperação, quais sejam, dever de
esclarecimento; prevenção; adequação; consulta.
A alternativa D está incorreta. Além do art. 9º, parágrafo único, há várias outras hipóteses em que o juiz
pode proferir decisões inaudita altera parte. A título exemplificativo, temos os artigos 562 (liminar em
possessória), 678 (embargos de terceiros), 332 (improcedência liminar do pedido), 355 (julgamento
antecipado do mérito, total ou parcial, art. 8º, § 1º da LACP (inquérito civil instaurado pelo MP), 77/81
(imposição de ofício de multas).
A alternativa E está correta. É a reprodução do art. 10, CPC.
11. (MPT/MPT/2017) Sobre a tutela provisória, analise as assertivas abaixo:
I - A chamada tutela da evidência do Código de Processo Civil foi declarada inconstitucional pelo Supremo
Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade, por violar os princípios constitucionais do
contraditório e da ampla defesa.
II - O Código de Processo Civil delimita como espécies distintas a tutela de natureza cautelar e a tutela de
natureza antecipada, alinhando-as ao gênero das tutelas provisórias de urgência. Ambas serão concedidas
quando houver elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao
resultado útil do processo.
III - Sendo concedida a tutela antecipada em caráter antecedente nas hipóteses em que a urgência for
contemporânea à propositura da ação, a petição inicial somente deverá ser aditada caso necessária a juntada
de novos documentos, no prazo máximo de 15 dias.
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IV - A tutela antecipada requerida em caráter antecedente torna-se estável se da decisão que a conceder
não for interposto tempestivamente o respectivo recurso. Qualquer das partes poderá demandar a outra
com o intuito de rever, reformar ou invalidar essa estabilidade da tutela, direito este que se extingue após
dois anos, contados da ciência da decisão que extinguiu o processo.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) Apenas as assertivas I, II e III estão corretas.
b) Apenas as assertivas II e IV estão corretas.
c) Apenas as assertivas III e IV estão corretas.
d) Todas as assertivas estão corretas
e) Não respondida.
Comentários
PROVISÓRIA Cautelar
Quanto aos requisitos, as tutelas de urgência (antecipada ou cautelar) tem os mesmos requisitos, quais
sejam, probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo. Vejamos:
Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a
probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo.
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O primeiro erro está em dizer que a petição inicial “somente deverá ser aditada caso necessária a juntada
de novos documentos”. Consoante art. 303, §1º, I, CPC, o autor sempre deverá aditar a petição inicial para
três atividades: a) complementar sua argumentação; b) juntada de novos documentos e; c) confirmação da
tutela final.
A segunda incorreção está na afirmação “no prazo máximo de 15 dias”. O mesmo art. 303, §1º, I, CPC aponta
que o aditamento deverá ocorrer em 15 dias ou em prazo maior que o juiz fixar.
O item IV está correto. É a repetição literal do art. 304, §§ 2º e 5º, CPC. Vejamos:
Art. 304. A tutela antecipada, concedida nos termos do art. 303, torna-se estável se da decisão
que a conceder não for interposto o respectivo recurso.
§ 2o Qualquer das partes poderá demandar a outra com o intuito de rever, reformar ou invalidar
a tutela antecipada estabilizada nos termos do caput.
Obs: a estabilidade (influência do direito francês – référé) é diferente da coisa julgada, conforme afirma o
próprio § 6º, art. 304, CPC. Veremos o tema mais a fundo em outro pdf.
12. (MPT/MPT/2017) Sobre as inovações do Código de Processo Civil (CPC), analise as seguintes
assertivas:
I - Por previsão expressa, as normas do CPC serão interpretadas de acordo com a Constituição da República.
II - A primazia do julgamento do mérito foi regrada expressamente, ampliando-se as possibilidades de serem
sanadas as irregularidades processuais.
III - Foram explicitadas hipóteses de decisões judiciais que não se consideram fundamentadas.
IV - Os tribunais, a par de uniformizar a sua jurisprudência, devem mantê-la estável, íntegra e coerente,
comando que se aplica até mesmo para o Supremo Tribunal Federal.
Assinale a alternativa CORRETA:
a)Todas as assertivas estão corretas.
b) Apenas as assertivas I e III estão corretas.
c) Apenas as assertivas I, II e III estão corretas.
d) Apenas a assertiva IV está correta.
e) Não respondida.
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O item I está correto. É a previsão do art. 1º, CPC. Lembrem-se da importância desse artigo, que simboliza o
fenômeno da constitucionalização do direito processual civil, fenômeno este dividido em duas vertentes: a)
inclusão; b) releitura.
O item II está correto. A primazia da decisão de mérito está prevista expressamente no art. 4º, CPC.
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Como diz Scarpinella Bueno, é a mudança do enfoque da juris-dição para a juris-satisfação. Como exemplos,
temos mais de uma dezena, muitos deles inovações do CPC/15: art. 139, IX; art. 218, § 4º; 282, § 2º; art. 317;
art. 338; art. 488, art. 932, parágrafo único; art. 1.007, §§2º e 4º; art. 1.024, § 3º; art. 1.025; art. 1.032; art.
1.033.
O item III está correto. Diferentemente do CPC/73, o CPC/15 previu, no art. 489, § 1º, as hipóteses em que
as decisões são consideradas não fundamentadas. Vejamos:
§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença
ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação
com a causa ou a questão decidida;
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a
conclusão adotada pelo julgador;
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Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e
coerente.
O Supremo Tribunal Federal também se submete a essa necessidade, porquanto a estabilidade, integridade
e coerência são exigências decorrentes do sistema jurídico como um todo para manter sua própria unidade
e garantir direitos e garantias fundamentais, tais como a isonomia, segurança jurídica, dentre outros.
Defensor
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332, §1º c/c art. 487, II), seria possível o juiz reconhecer prescrição e decadência de ofício, sem ouvir as
partes, o que é criticado pela doutrina.
O item II está correto. O modelo cooperativo é aquele em que não há protagonismos em sua condução,
sendo esta compartilhada, cooperativa, de modo que partes e juiz, sem protagonismos, sem assimetrias,
conduziriam o processo, a exemplo do saneamento compartilhado (art. 357, §3º, CPC). No momento da
decisão, o juiz decidiria, mas a condução do processo seria compartilhada, sem submeter o juiz à vontade
das partes e nem as partes à vontade do juiz.
O item III está correto. A regra da congruência ou regra da correlação entre o pedido e a sentença consiste
no dever de a decisão judicial guardar identidade com o objeto litigioso, formado pelo pedido e causa de
pedir. Afinal, foi só sobre aquele objeto que as partes debateram e que vigorou o contraditório.
Art. 141. O juiz decidirá o mérito nos limites propostos pelas partes, sendo-lhe vedado conhecer
de questões não suscitadas a cujo respeito a lei exige iniciativa da parte.
Assim, o princípio da congruência, correlação ou adstrição impõe que o juiz não ultrapasse os limites do
pedido, isto é, não julgue extra ou ultra petita, bem como não julgue aquém do pedido (citra petita).
O item IV está incorreto. A defesa técnica, em regra, não é dispensável (=prescindível) no processo civil.
Tanto é que, como requisito de validade do processo está a capacidade postulatória, detida por advogados
regularmente inscritos na OAB, procuradores, defensores públicos e membros do Ministério Público.
Ademais, em algumas hipóteses, diante do sujeito indefeso, nomeia-se a Defensoria Pública para atuar como
curadora especial.
Procurador
14. (IADES/AL-GO – Procurador/2019) Quando uma nova lei processual entra em vigor, surgem muitas
dúvidas quanto aos respectivos efeitos em relação aos processos pendentes. Assim, ao entrar em vigor
determinada lei processual, no que diz respeito aos processos em andamento, a lei processual
a) será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais e as situações
jurídicas consolidadas sob a vigência da norma revogada.
b) terá aplicação retroativa, anulando-se todos os processos em andamento.
c) nova não poderá ser aplicada aos processos em andamento, tendo em vista o direito adquirido processual
d) somente retroagirá para beneficiar as partes; assim, haverá aplicação parcial da nova legislação.
e) apenas retroagirá para beneficiar o réu; quanto ao autor, tem aplicação imediata, tanto para beneficiá-lo
quanto para prejudicá-lo.
Comentários
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Art. 14. A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em
curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a
vigência da norma revogada.
Art. 371. O juiz apreciará a prova constante dos autos, independentemente do sujeito que a tiver
promovido, e indicar na decisão as razões da formação de seu convencimento.
A alternativa B está incorreta. O enunciado traz a descrição do princípio do contraditório. Pelo princípio da
instrumentalidade, o ato será considerado válido se, realizado de outro modo, lhe alcançar a finalidade.
A alternativa C está incorreta. O enunciado conceitua o princípio da inafastabilidade da jurisdição.
A alternativa D está incorreta. Trata-se do princípio do impulso oficial.
A alternativa E está incorreta. Pelo direito de ação, assegura-se o acesso ao Poder Judiciário toda vez que
houver lesão ou ameaça de lesão a direito.
16. (VUNESP/Câmara de Piracicaba – SP - Advogado/2019) A atual legislação processual determina que
não poderá o juiz decidir contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida. Porém, valendo-se
do que dispõe o art. 9° do CPC, é caso de contraditório diferido os
a) de tutela de evidência em que ficar caracterizado o abuso de direito de defesa e o manifesto propósito
protelatório do réu.
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b) de ação monitória em que, sendo evidente o direito do autor, o juiz defira a expedição do mandado de
pagamento, entrega de coisa ou execução de obrigação de fazer.
c) de tutela de evidência em que a petição for instruída por prova documental suficiente dos fatos
constitutivos do direito do autor a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida suficiente.
d) que tratam exclusivamente de tutela provisória de urgência antecipada antecedente.
e) de ação de interdito proibitório, exclusivamente com relação a tutela de evidência requerida em caráter
antecedente.
Comentários
A alternativa B está correta. Trata-se da previsão contida no art. 9º, p. único, III.
A alternativa A está incorreta. As hipóteses de tutela de evidência que autorizam o contraditório diferido
são aquelas previstas no art. 311, II e III, CPC, quais sejam: quando as alegações de fato puderem ser
comprovadas apenas documentalmente e houver tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em
súmulas vinculantes (inciso II); e quando se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova documental
adequada do contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto custodiado,
sob cominação de multa (inciso III).
A alternativa C está incorreta, conforme explicado na alternativa anterior.
A alternativa D está incorreta. O contraditório diferido não se aplica exclusivamente à tutela de urgência
antecipada antecedente, mas também à tutela de evidência prevista no art. 311, II e III, tutela de evidencia
em ação monitória (art. 701), embargos de terceiro (art. 678), ação possessória (art. 562). Lembrem-se de
que o artigo 9º prevê um rol exemplificativo de contraditório diferido.
A alternativa E está incorreta, pelos motivos expostos acima.
17. )VUNESP/Câmara de Sertãozinho – SP – Procurador Jurídico Legislativo/2019)
No que concerne à aplicação do atual Código de Processo Civil no tempo, assinale a alternativa correta.
a) A situação estabelecida pela decisão passada em julgado será retroativamente afetada.
b) A lei nova, a partir da sua entrada em vigor, passa imediatamente a reger os feitos em andamento,
atingindo os atos já praticados.
c) Continuarão sujeitos ao regime da lei anterior as ações propostas e não sentenciadas até o início da
vigência do atual Código, em relação aos feitos de procedimento comum.
d) Suas disposições de direito probatório atingirão apenas as provas requeridas ou determinadas de ofício a
partir da data de início de sua vigência.
e) Rege-se pelo princípio da retroatividade.
Comentários
A alternativa D está correta.
Art. 1.047. As disposições de direito probatório adotadas neste Código aplicam-se apenas às
provas requeridas ou determinadas de ofício a partir da data de início de sua vigência.
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A alternativa A está incorreta. Pela regra do isolamento dos atos processuais, a lei nova não atinge os atos
já praticados e as decisões já transitadas em julgado.
Art. 14. A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em
curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a
vigência da norma revogada.
Art. 1.046. Ao entrar em vigor este Código, suas disposições se aplicarão desde logo aos
processos pendentes, ficando revogada a Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973.
A alternativa E está incorreta. O CPC consagra, em regra, a teoria do isolamento dos atos processuais, isto é,
a lei processual nova deve ser aplicada aos atos processuais ainda não realizados, respeitando-se os atos
processuais já realizados. Entretanto, esse sistema não foi adotado de forma pura, pelo que podemos citar
o princípio da unidade (art. 1046, §1º) e a teoria das fases processuais (arts. 1054 e 1057), como exceções à
regra geral.
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Como já salientamos anteriormente, a ideia é que o Processo Civil serve apenas como instrumento para
efetivação do direito material. Nesse sentido, o modelo constitucional de processo civil devem estimular não
só a juris-dição, mas também a juris-satisfação. A alternativa A está incorreta. Trata-se do princípio da
cooperação (art. 6º).
A alternativa B está incorreta. Trata-se do princípio da dignidade da pessoa humana (art. 8º).
A alternativa E está incorreta. A questão trata dos princípios da publicidade e motivação (art. 11).
19. (VUNESP/Câmara de Serrana – SP – Procurador Jurídico/2019) Tratando especificamente de direito
intertemporal processual, assinale a alternativa que está em consonância com a atual norma processual
civil.
a) É regido pelos princípios da imediatidade e da retroatividade.
b) Não é adotado de forma explícita na lei.
c) Em regra, a norma processual retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso.
d) A lei nova pode incidir imediatamente sobre relações jurídicas preexistentes, ignorando os efeitos que
estas já tenham produzido.
e) A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitadas
as situações jurídicas já consolidadas.
Comentários
A alternativa E está correta. Como vimos, em regra, o direito processual civil adota a teoria do isolamento
dos atos processuais e da imediatidade (art. 14, c/c art. 1046).
A alternativa A está incorreta. O direito processual intertemporal é regido, como regra, pelos princípios da
imediatidade e irretroatividade.
A alternativa B está incorreta. Há previsão expressa da lei a esse respeito, conforme citado nos artigos acima.
A alternativa C está incorreta, já que a regra é a irretroatividade da lei nova.
A alternativa D está incorreta, conforme dispõe o artigo 14, CPC.
20. (UPENET/UPE – Advogado/2019) O Código de Processo Civil de 2015 estabeleceu, no seu artigo 9º
, que “não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida”. O próprio
dispositivo aponta exceções à aplicação da referida regra. Assinale a alternativa que NÃO corresponde a
uma das exceções previstas no referido artigo 9º do CPC/2015.
a) Decisão proferida em tutela provisória de urgência.
b) Decisão proferida em tutela de evidência, quando a petição inicial for instruída com prova documental
suficiente dos fatos constitutivos do direito do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida
razoável.
c) Decisão proferida em tutela de evidência, quando as alegações, de fato, puderem ser comprovadas apenas
documentalmente e houver tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante.
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d) Decisão proferida em tutela de evidência, quando se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova
documental adequada do contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto
custodiado, sob cominação de multa.
e) Decisão proferida em ação monitória, quando evidente o direito do autor e o juiz determina a expedição
do mandado de pagamento.
Comentários
A alternativa B está correta. O enunciado pediu a questão que NÃO constitui uma exceção prevista no artigo
9º, CPC. A letra B, dessa forma, atende ao comando da questão, já, que, em se tratando de tutela de
evidência, quando a petição inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos constitutivos do
direito do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável, não é possível conceder
decisão liminar. Em se tratando desse tipo de tutela, só é possível decisão liminar nos casos do artigo 311, II
(as alegações de fato puderem ser comprovadas apenas documentalmente e houver tese firmada em
julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante) e III (se tratar de pedido reipersecutório fundado
em prova documental adequada do contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega
do objeto custodiado, sob cominação de multa).
A alternativa A está incorreta. A concessão de tutela provisória de urgência é uma exceção à regra prevista
no art. 9º.
A alternativa C está incorreta. Vide comentários da alternativa A.
A alternativa D está incorreta. Vide comentários alternativa A.
A alternativa E está incorreta. A decisão proferida em ação monitória quanto evidente o direito do autor
constitui exceção à regra do art. 9º.
21. (PGE-AC/Procurador do Estado/2017) Considerando-se que a tradição constitucional norte-
americana se encontra cifrada, ainda que não de forma total e absoluta, na ideia de Constituição como
regra do jogo da competência social e política, assim como na afirmação e garantia da autonomia dos
indivíduos como sujeitos privados e como agentes políticos, cuja garantia essencial é a jurisdição,
enquanto que a tradição europeia é preponderantemente marcada por um forte conteúdo normativo que
supera o limiar da definição das regras do jogo organizando o poder, afirmando-se como um projeto
político delineado de forma a participar diretamente do jogo, condicionando decisões estatais destinadas
a efetivar um programa transformador do Estado e da sociedade, seria correto afirmar que
a) o Neoconstitucionalismo resulta exclusivamente do influxo da tradição constitucional europeia.
b) o Neoconstitucionalismo resulta exclusivamente do influxo da tradição constitucional norte-americana.
c) o Neoconstitucionalismo resulta da aproximação entre os dois modelos, tanto ao adotar a ideia -
tipicamente europeia - de constituição como um texto jurídico supremo destinado a instrumentalizar um
programa transformador, quanto ao deferir à jurisdição - o que é característico do modelo norte-americano
- a tarefa de implementar tal programa quando o legislador não o faz, de que é exemplo a
inconstitucionalidade por omissão tal como existente no sistema constitucional brasileiro.
d) o Neoconstitucionalismo caracteriza-se essencialmente como um rompimento tanto com a tradição
constitucional europeia quanto com a norte-americana.
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Comentários
Comentários
A alternativa A está correta. É a exceção exposta no art. 12, § 2º, IV, CPC.
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IV - as decisões proferidas com base nos arts. 485 (cujo dispositivo trata de hipóteses de
julgamento sem resolução do mérito) e 932, CPC/15."
A alternativa B está incorreta. De fato, o processo cautelar autônomo foi abolido pelo CPC/15 (temos agora
a Tutela Cautelar), mas não as ações cognitivas meramente declaratórias, que estão plenamente previstas
no art. 19, CPC. Vejamos:
Obs: o STJ ainda prevê, nas súmulas 242 e 181 que é admissível ação declaratória de tempo de serviço e para
interpretação de cláusula contratual.
Lembrem-se que o CPC/73 previa a ação declaratória incidental com objetivo de estender a coisa julgada
material à resolução da questão prejudicial. Como o CPC/15 (art. 503, §§ 1º e 2º) estendeu a coisa julgada
material às questões prejudiciais, independente de ação declaratória incidental, discute-se se teria havido
perda do interesse em se ajuizar ação declaratória incidental com tal objetivo.
Prevalece, porém, a posição de que nem sempre estarão presentes os requisitos previstos nos §§ 1º e 2º,
art. 503, CPC, motivo pelo qual “persiste o interesse no ajuizamento de ação declaratória quanto à questão
prejudicial incidental” (Enunciado 111, FPPC).
A alternativa C está incorreta. Trata-se de hipótese de competência exclusiva do Brasil. Assim, não se pode
aceitar sentença estrangeira dispondo a respeito.
Art. 23. Compete à autoridade judiciária brasileira, com exclusão de qualquer outra:
III - em divórcio, separação judicial ou dissolução de união estável, proceder à partilha de bens
situados no Brasil, ainda que o titular seja de nacionalidade estrangeira ou tenha domicílio fora
do território nacional.
A alternativa D está incorreta. O segredo de justiça existirá em todas as instâncias caso verificados os seus
pressupostos. Não há nenhuma vedação do art. 93, IX, CRFB e art. 189, CPC, para segredo de justiça nos
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Tribunais de 2º grau e Superiores. Há, por exemplo, tramitação de alguns casos no STF sob sigilo na operação
Lava Jato.
23. (CESPE/Procurador do Município – Fortaleza/2017) Julgue o item seguinte, com base no que dispõe
o CPC sobre atos processuais, deveres das partes e dos procuradores e tutela provisória.
Com a consagração do modelo sincrético de processo, as tutelas provisórias de urgência e da evidência
somente podem ser requeridas no curso do procedimento em que se pleiteia a providência principal.
Comentários
A alternativa está incorreta. Consoante gráfico já apresentado em questão anterior, as tutelas provisórias se
dividem em: a) de urgência (antecipada e cautelar); b) de evidência. Ambas as tutelas de urgência
(antecipada e cautelar) podem ser requeridas em caráter antecedente ou incidental.
Portanto, o erro da alternativa é dizer que “somente podem ser requeridas no curso do procedimento em
que se pleiteia a providência principal”.
24. (VUNESP/Procurador de Mogi das Cruzes-SP/2017) A respeito da lei processual civil, assinale a
alternativa correta.
a) O prazo de vacatio legis do novo Código de Processo Civil foi de seis meses decorrido da data de sua
publicação.
b) As condições da ação regem-se pela lei vigente à data de propositura da ação.
c) A lei vigente na data do oferecimento da peça recursal é a reguladora dos efeitos e dos requisitos da
admissibilidade dos recursos.
d) A revelia, bem como os efeitos, regulam-se pela lei vigente na data do ajuizamento da demanda.
e) A resposta do réu, bem como seus efeitos, regem-se pela lei vigente na data do ajuizamento da demanda,
que torna a coisa julgada.
Comentários
A alternativa A está incorreta. Consoante art. 1.045, CPC, o prazo de vacatio legis foi de um ano.
Para as três últimas alternativas, colaciona-se posicionamento do Min. Luiz Fux, que elencou de forma
didática as diversas situações jurídicas geradas pela incidência da lei nova aos processos pendentes:
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1. A lei processual tem efeito imediato e geral, aplicando-se aos processos pendentes;
respeitados os direitos subjetivo-processuais adquiridos, o ato jurídico perfeito, seus efeitos já
produzidos ou a se produzir sob a égide da nova lei, bem como a coisa julgada;
3. A resposta do réu, bem como seus efeitos, rege-se pela lei vigente na data do surgimento do
ônus da defesa pela citação.
4. A revelia, bem como os efeitos, regulam-se pela lei vigente na data do escoar do prazo da
resposta;
5. A prova do fato ou do ato quando ad solemnitatem, rege-se pela lei vigente na época da
perectibilidade deles, regulando-se a prova dos demais atos pela lei vigente na data da admissão
da produção do elemento da convicção conforme o preceito mais favorável à parte beneficiada
pela prova;
6. A lei processual aplica-se aos procedimentos em curso, impondo ou suprimindo atos ainda não
praticados, desde que compatível com o rito seguido desde o início da relação processual e eu
não sacrifique os fins de justiça do processo;
8. A execução e seus pressupostos regem-se pela lei vigente na data da propositura da demanda,
aplicando-se o preceito número seis aos efeitos e de procedimentos executórios em geral;
10. Os embargos e seus requisitos de admissibilidade regem-se pela vigente na data de seu
oferecimento;
11. O processo cautelar, respeitado o cânone maior da irretroatividade, rege-se pela lei mais
favorável à conjuração do periculum in mora quer em defesa do interesse das partes, quer em
defesa da própria jurisdição.
25. (Vunesp/Procurador de Andradina - SP/2017) Antônio propõe uma ação indenizatória contra
Alfredo, versando sobre fatos ocorridos há mais de 15 anos. Requer tutela provisória de urgência, que é
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deferida num primeiro momento pelo juiz de primeiro grau. A prescrição é clara. Diante desse fato, é
correto afirmar que
a) Antônio responderá pelo prejuízo que a efetivação da tutela de urgência causar a Alfredo, se
posteriormente o juiz acolher a tese de prescrição eventualmente alegada pelo réu.
b) mesmo sendo clara a prescrição, o juiz só poderá aplicá-la se Alfredo alegar sua existência.
c) a sentença que acolher a prescrição extinguirá o processo sem resolução do mérito, por inépcia da
peti-ção inicial, sendo necessário que o juiz dê a oportunidade de Antônio se manifestar antes de decretá-
la.
d) a prescrição só poderá ser analisada pelo juiz de primeiro grau. Caso não seja reconhecida na sentença,
está precluso o direito de retomar tal discussão.
e) em vista do deferimento da tutela de urgência, precluso está o direito de Alfredo alegar a questão da
prescrição, que se convalidou pela decisão provisória do juízo de primeiro grau.
Comentários
A alternativa A está correta. A parte que obteve a concessão da tutela responde objetivamente, em caso de
revogação, por quaisquer danos decorridos da decisão judicial. É a aplicação da teoria do risco-proveito.
Vejamos as disposições legais a respeito:
Art. 302. Independentemente da reparação por dano processual, a parte responde pelo prejuízo
que a efetivação da tutela de urgência causar à parte adversa, se:
II - obtida liminarmente a tutela em caráter antecedente, não fornecer os meios necessários para
a citação do requerido no prazo de 5 (cinco) dias;
Parágrafo único. A indenização será liquidada nos autos em que a medida tiver sido concedida,
sempre que possível.
Art. 520. O cumprimento provisório da sentença impugnada por recurso desprovido de efeito
suspensivo será realizado da mesma forma que o cumprimento definitivo, sujeitando-se ao
seguinte regime:
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Ademais, diz-se que o dever de indenizar os prejuízos sofridos pelo réu é efeito secundário da sentença que
revoga (ainda que implicitamente) a tutela provisória concedida, devendo o juiz decidir de ofício, por se
tratar de matéria de ordem pública. Não precisará, portanto, de pedido expresso do réu. Nessa linha, pode
ser considerado mais uma espécie de pedido implícito.
A alternativa B está incorreta. Ao contrário do que se afirma, o reconhecimento da prescrição não depende
de requerimento da parte, podendo ser feito, de ofício, pelo juiz. A lei processual exige apenas que, antes de
extinguir o processo com base nesse fundamento, o juiz abra prazo para que a parte interessada se manifeste
a respeito (art. 487, II c/c §2º, CPC/15).
A alternativa C está incorreta. Não há que se falar em inépcia da inicial quando o processo é extinto pelo
reconhecimento da prescrição. A sentença que declara que a pretensão está prescrita extingue o processo
com resolução de mérito (art. 487, II, CPC).
A alternativa D está incorreta. A prescrição é matéria de ordem pública e, portanto, pode ser reconhecida a
qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição. Embora a prescrição possa ser alegada a qualquer tempo,
por ser questão de ordem pública, deve-se rememorar que os tribunais superiores têm o entendimento de
que nenhuma matéria, mesmo de ordem pública, pode ser reconhecida em sede de recurso especial e
extraordinário em razão da exigência de prequestionamento.
De todo modo, a questão está incorreta, porquanto não é só o juiz de primeiro grau capaz de analisar a
prescrição.
A alternativa E está incorreta. Não há que se falar em preclusão (perda da faculdade processual) de suscitar
a prescrição. Como visto, por ser questão de ordem pública, pode ser alegada em qualquer grau de jurisdição
(obs: com a observação do prequestionamento).
Ademais, a decisão que defere o pedido de concessão de tutela de urgência é provisória e, por isso, pode ser
revogada ou revista até a prolação de uma decisão definitiva pelo juiz de primeiro grau.
Cartórios
26. (VUNESP/TJRS – Titular de Serviços de Notas e Registros/2019) Nos termos do artigo 4º do Código
de Processo Civil, as partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa. Considerando que o processo civil deve ser interpretado conforme os valores e as
normas fundamentais estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil, é correto afirmar
que referido dispositivo consagra os seguintes princípios:
a) cooperação processual, proporcionalidade razoabilidade e eficiência.
b) boa-fé objetiva processual, isonomia material e impulso oficial.
c) contraditório comparticipativo, impulso oficial e legalidade.
d) razoável duração do processo, primazia das decisões de mérito e efetividade.
e) inafastabilidade da jurisdição e estimulo a resolução consensual de conflitos.
Comentários
A alternativa D está correta.
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Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Artigo 8º - Garantias judiciais 1. Toda pessoa terá o direito de ser ouvida, com as devidas garantias
e dentro de um prazo razoável, por um juiz ou Tribunal competente, independente e imparcial,
estabelecido anteriormente por lei, na apuração de qualquer acusação penal formulada contra
ela, ou na determinação de seus direitos e obrigações de caráter civil, trabalhista, fiscal ou de
qualquer outra natureza.
Art. 143. O juiz responderá, civil e regressivamente, por perdas e danos quando:
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II - recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar de ofício ou a
requerimento da parte.
Parágrafo único. As hipóteses previstas no inciso II somente serão verificadas depois que a parte
requerer ao juiz que determine a providência e o requerimento não for apreciado no prazo de
10 (dez) dias.
Em terceiro lugar, ela pode comprometer a progressão na carreira do magistrado (art. 7º, IV, parágrafo único,
Lei da Ação Popular).
Art. 7º, VI - A sentença, quando não prolatada em audiência de instrução e julgamento, deverá
ser proferida dentro de 15 (quinze) dias do recebimento dos autos pelo juiz.
A segunda parte “solução integral do mérito” contém o princípio da primazia da decisão de mérito.
Assim, o juiz deve fazer todo o esforço possível para não resolver o processo sem resolução do mérito (art.
485, CPC), já que é justamente a solução do mérito que alcança um dos principais escopos, objetivos da
jurisdição, que é solução do conflito e a pacificação social.
A reboque dessa primazia da decisão de mérito, temos a efetividade, quando o art. 4º diz “incluída a
atividade satisfativa”.
A ideia é que o Processo Civil serve apenas como instrumento para efetivação do direito material.
Consoante Cássio Scarpinella Bueno, o modelo constitucional de Processo Civil impõe que promovamos não
só a juris-dição, mas também a juris-satisfação.
O art. 4º do CPC/15 vem justamente nesse sentido.
Como concretizações da primazia da decisão de mérito e efetividade, poderíamos citar oito exemplos160:
1 – A previsão no art. 1.007, §§ 2º e 4º, CPC, de que a parte que realizou insuficientemente o preparo terá a
possibilidade de complementar, em 5 dias, bem como que a parte que não realizou qualquer preparo terá a
oportunidade de realizar o preparo em dobro. Todo esse esforço com vistas a solucionar o mérito, impedindo
a antiga e famosa jurisprudência defensiva dos Tribunais que se apegavam em questões formais para não
admitir recursos;
160
Há ainda outros exemplos: art. 218, § 4º; art. 488, art. 1.024, § 3º; art. 1.025; art. 1.032; art. 1.033.
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Art. 1.007. No ato de interposição do recurso, o recorrente comprovará, quando exigido pela
legislação pertinente, o respectivo preparo, inclusive porte de remessa e de retorno, sob pena
de deserção.
2 – Previsão do art. 932, parágrafo único, CPC de que o relator, “antes de considerar inadmissível o recurso,
o relator concederá o prazo de 5 (cinco) dias ao recorrente para que seja sanado vício ou complementada a
documentação exigível”.
3 – Previsão do art. 317 de que “antes de proferir decisão sem resolução de mérito, o juiz deverá conceder à
parte oportunidade para, se possível, corrigir o vício”, combinado com o art. 139, IX, que diz “o juiz dirigirá o
processo, determinando o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros vícios
processuais”. Como normas gerais, tal preceito pode ser aplicado pelo juiz em variados casos.
4 – Em casos de nulidade, quando o juiz poder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a
decretação da nulidade, não a pronunciará.
Art. 282. Ao pronunciar a nulidade, o juiz declarará que atos são atingidos e ordenará as
providências necessárias a fim de que sejam repetidos ou retificados.
§ 1o O ato não será repetido nem sua falta será suprida quando não prejudicar a parte.
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§ 2o Quando puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a decretação da nulidade,
o juiz não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta.
Art. 488. Desde que possível, o juiz resolverá o mérito sempre que a decisão for favorável à parte
a quem aproveitaria eventual pronunciamento nos termos do art. 485.
5 – Quando a parte ré alegar ilegitimidade passiva, não precisará extinguir aquele processo sem resolução
do mérito. O juiz facultará ao autor, em 15 dias, a alteração da petição inicial para substituição do réu.
Art. 338. Alegando o réu, na contestação, ser parte ilegítima ou não ser o responsável pelo
prejuízo invocado, o juiz facultará ao autor, em 15 (quinze) dias, a alteração da petição inicial
para substituição do réu.
6 – Se o juiz extinguir o processo sem resolução do mérito, havendo interposição de apelação, ele poderá se
retratar em todos os casos do art. 485, CPC.
§ 7o Interposta a apelação em qualquer dos casos de que tratam os incisos deste artigo, o juiz
terá 5 (cinco) dias para retratar-se.
7 - Não é suficiente ter acesso, mas é necessário que o judiciário evite ou corrija a lesão ao direito. Como
dito, o processo civil deve promover a juris-satisfação. Nesse sentido, o ordenamento tem que dar ao juiz
mecanismos para buscar a tutela específica. No CPC/15, temos a concretização de tal desiderato nos
seguintes dispositivos: art. 297 (poder geral de cautela), antigo art. 798, CPC/73; art. 497 (poder geral de
efetivação), antigo 461, §5º, CPC/73; art. 139, IV (atipicidade dos meios executivos).
8 - Como decorrência da inafastabilidade da jurisdição, diz-se que não se pode impor ao autor o ônus do
tempo do processo. Daí a existência de tutelas de urgência e inibitórias.
27. TJ-RO/Titular de Serviços de Registros e Notas/2017
É correto afirmar no que tangem as normas fundamentais do novo Código de Processo Civil:
I. A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados
por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo
judicial.
II. Os juízes e os tribunais atenderão, obrigatoriamente à ordem cronológica de conclusão para proferir
sentença ou acórdão.
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III. O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas
em lei.
IV. É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades
processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo
ao juiz zelar pelo efetivo contraditório.
A sequência correta é:
a) As assertivas I, II, III e IV estão corretas.
b) Apenas as assertivas I, III, IV estão corretas.
c) Apenas as assertivas I e IV estão corretas.
d) Apenas a assertiva II está correta.
Comentários
O item II está incorreto. Os juízes e tribunais atenderão, preferencialmente, à ordem cronológica; e não de
modo obrigatório. Inclusive, essa foi uma modificação operada pela Lei n. 13.256/2016, que incluiu o
advérbio acima sublinhado no caput do art. 12.
O item III está correto. É a reprodução do art. 2º, CPC.
Art. 2o O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as
exceções previstas em lei.
a) O juiz pode instaurar a execução de sentença que impõe prestação de fazer, não fazer ou dar
coisa distinta de dinheiro (arts. 536 e 538, CPC). Não há necessidade de provocação da parte. O
mesmo não acontece com a execução de sentença para pagamento de quantia, que depende de
provocação da parte (art. 513,CPC);
b) restauração de autos (art. 712);
c) determinação para alienação em leilão, na hipótese do art. 730;
c) herança jacente (art. 738);
d) arrecadação de bens de ausente (art. 744);
e) incidente de resolução de demandas repetitivas (art. 976, CPC), conflito de competência (art.
951, CPC), incidente de arguição de inconstitucionalidade (art. 948, CPC). O órgão julgador pode
dar início sem provocação das partes.
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Comentários
Art. 13. A jurisdição civil será regida pelas normas processuais brasileiras, ressalvadas as
disposições específicas previstas em tratados, convenções ou acordos internacionais de que o
Brasil seja parte.
O item III está correto. Atualmente, enquanto a lei e a jurisprudência são fontes formais diretas, os costumes
são fontes formais indiretas e a doutrina é fonte não formal do direito processual civil.
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O item IV está correto. Antigamente, falava-se que doutrina e jurisprudência eram fontes não formais do
direito. Contudo, com o enorme enfoque dado pelo CPC/15 aos precedentes vinculantes, deve-se atentar ao
fato de que eles já se tornaram fontes formais diretas do direito. O costume, porém, permanece como fonte
não formal.
29. (IESES/TJ-MA – Titular de Serviços de Notas e Serviços/2016)
Com relação a preocupação do legislador no novo Código de Processo Civil para assegurar uma prestação
jurisdicional célere e elevar o grau de justiça, foram valorados alguns princípios constitucionais, dos quais
podemos destacar:
a) Evidenciados no Novo Código de Processo Civil, apenas os princípios da celeridade, da razoabilidade e do
contraditório.
b) Essencialmente o princípio do juiz natural e da celeridade.
c) Princípio da ampla defesa, do contraditório, do devido processo legal, da celeridade, da dignidade da
pessoa humana, moralidade, publicidade e razoabilidade.
d) Somente os princípios da celeridade e da dignidade da pessoa humana.
Comentários
A alternativa C está correta.
A ampla defesa e contraditório são vistos em vários dispositivos, sobretudo nos arts. 9º e 10, CPC/15.
Art. 9º Não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida.
Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a
respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate
de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
O devido processo legal está nos arts. 26, I e 36, CPC, bem como está implícito em todo o código.
Art. 26. A cooperação jurídica internacional será regida por tratado de que o Brasil faz parte e
observará:
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Art. 36. O procedimento da carta rogatória perante o Superior Tribunal de Justiça é de jurisdição
contenciosa e deve assegurar às partes as garantias do devido processo legal.
Art. 4º As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem
comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a
proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
Outros
30. (CESPE/TER-PE/2017) Acerca das normas processuais civis, assinale a opção correta.
a) O juiz não pode decidir com base em fundamento a respeito do qual não tenha sido dada oportunidade
de manifestação às partes, ressalvado o caso de matéria que deva decidir de ofício.
b) Os juízes e tribunais terão de, inexoravelmente, atender à ordem cronológica de conclusão para proferir
sentença ou decisão.
c) A boa-fé processual objetiva, que não se aplica ao juiz, prevê que as partes no processo tenham um
comportamento probo e leal.
d) O modelo cooperativo, que atende à nova ordem do processo civil no Estado constitucional, propõe que
o juiz seja assimétrico no decidir e na condução do processo.
e) O contraditório substancial tem por escopo propiciar às partes a ciência dos atos processuais, bem como
possibilitar que elas influenciem na formação da convicção do julgador.
Comentários
A alternativa A está incorreta. Com espeque no art. 10, CPC, o equívoco está em ressalvar o caso das matérias
em que se deva decidir de ofício.
A alternativa B está incorreta. Os juízes e tribunais atenderão, preferencialmente à ordem cronológica.
Portanto, não se trata de cumprimento inexorável, inevitável, inflexível.
A alternativa C está incorreta. A boa-fé processual objetiva se aplica sim ao magistrado. Como diz o art. 5º,
CPC, todos aqueles que de algum modo participam do processo devem agir conforme a boa-fé. A vinculação
do Estado-juiz ao dever de boa-fé nada mais é senão o reflexo do princípio de que o Estado, tout court, deve
agir de acordo com a boa-fé e, pois, de maneira leal e com proteção à confiança.
Enunciado 375, FPPC: O órgão jurisdicional também deve comportar-se de acordo com a boa-fé
objetiva.
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A alternativa D está incorreta. O dever de cooperação, conforme visto neste pdf., impõe diversos deveres
ao juiz (esclarecimento, prevenção, adequação, consulta), demandando uma postura mais democrática, bem
como exige que o juiz conduza o processo com paridade de armas, isto é, de modo simétrico, sem favorecer
nenhuma das partes.
A alternativa E está correta. É o conceito de contraditório substancial (ciência + reação + poder de influenciar
o juiz).
31. CESPE/TCE-PA/2016
No que diz respeito às normas processuais, aos atos e negócios processuais e aos honorários de
sucumbência, julgue o item que se segue, com base no disposto no novo Código de Processo Civil.
Em observância ao princípio da primazia da decisão de mérito, o magistrado deve conceder à parte
oportunidade para, se possível, corrigir vício processual antes de proferir sentença terminativa.
Comentários
A alternativa está correta. O princípio da primazia da decisão de mérito está previsto no art. 4º, CPC, que
assim dispõe:
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Como concretização de tal princípio, a doutrina elenca diversas hipóteses. Dentre elas está justamente o
dever do magistrado de conceder à parte oportunidade para, se possível, corrigir vício processual antes de
proferir sentença terminativa.
Isso é passível de ser visualizado no art. 932, parágrafo único, CPC, ao mencionar que o relator, “antes de
considerar inadmissível o recurso, o relator concederá o prazo de 5 (cinco) dias ao recorrente para que seja
sanado vício ou complementada a documentação exigível”.
Temos disposição similar também no art. 317, que diz “antes de proferir decisão sem resolução de mérito, o
juiz deverá conceder à parte oportunidade para, se possível, corrigir o vício”. Ainda, o art. 139, IX, aduz que
“o juiz dirigirá o processo, determinando o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros
vícios processuais”.
Como normas gerais, tais preceitos podem ser aplicados pelo juiz em variados casos.
32. (FCC/TRE-PB/2015) De acordo com as regras transitórias de direito intertemporal estabelecidas no
novo Código de Processo Civil,
a) uma ação de nunciação de obra nova que ainda não tenha sido sentenciada pelo juízo de primeiro grau
quando do início da vigência do Novo Código de Processo Civil, seguirá em conformidade com as disposições
do Código de Processo Civil de 1973.
b) as ações que foram propostas segundo o rito sumário antes do início da vigência do novo Código de
Processo Civil, devem ser adaptadas às exigências da nova lei instrumental, à luz do princípio da imediata
aplicação da lei processual nova.
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c) as disposições de direito probatório do novo Código de Processo Civil aplicam-se a todas as provas que
forem produzidas a partir da data da vigência do novo diploma processual, independentemente da data em
que a prova foi requerida ou determinada a sua produção de ofício.
d) caso uma ação tenha sido proposta durante a vigência do Código de Processo Civil de 1973 e sentenciada
já sob a égide do novo Código de Processo Civil, resolvendo na sentença questão prejudicial cuja resolução
dependa o julgamento do mérito expressa e incidentalmente, tal decisão terá força de lei e formará coisa
julgada.
e) o novo Código de Processo Civil autoriza, sem ressalvas, a concessão de tutela provisória contra a Fazenda
Pública, derrogando tacitamente as normas que dispõem em sentido contrário.
Comentários
A alternativa A está correta. De início, é preciso afirmar que O CPC de 2015 não mais prevê o procedimento
especial para as ações de nunciação de obra nova, venda com reserva de domínio, usucapião, depósito e
anulação ou substituição de título ao portador. Também não prevê procedimento especial para a
especialização de hipoteca legal.
Nesses casos, deve-se aplicar o art. 1.046, § 1º, que diz:
Conforme se observa, os procedimentos especiais que foram revogados aplicar-se-ão às ações propostas e
não sentenciadas até 18/03/2016.
Como a questão diz que o processo ainda não foi sentenciado, a demanda seguirá conforme o procedimento
especial do CPC/73 (arts. 934/940).
A alternativa B está incorreta. As ações que foram propostas segundo o rito sumário antes do início da
vigência do novo Código de Processo Civil, NÃO devem ser adaptadas às exigências da nova lei instrumental.
Isso porque, conforme art. 1.046, § 1º, CPC colacionado acima, as disposições do CPC/73 relativas ao
procedimento sumário aplicar-se-ão às ações propostas e não sentenciadas até o início da vigência do
CPC/2015.
A alternativa C está incorreta. Contraria o disposto no art. 1.047, CPC:
Art. 1.047. As disposições de direito probatório adotadas neste Código aplicam-se apenas às
provas requeridas ou determinadas de ofício a partir da data de início de sua vigência.
Portanto, se a prova fora requerida ou determinada de ofício antes da vigência do CPC/15, mesmo que
produzidas após 18/03/2016, aplicam-se ainda as regras do CPC/73.
A alternativa D está incorreta. Se fôssemos aplicar a teoria do isolamento dos atos processuais, a assertiva
estaria correta. Contudo, no caso específico da coisa julgada das questões prejudiciais, o CPC/2015
excepcionou aquela teoria. Vejamos:
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Art. 1.054. O disposto no art. 503, § 1o, somente se aplica aos processos iniciados após a vigência
deste Código, aplicando-se aos anteriores o disposto nos arts. 5º, 325 e 470 da Lei no 5.869, de 11
de janeiro de 1973.
Portanto, se o processo iniciou sob a vigência do CPC/73, mas foi sentenciado após 18/03/2016, para que
haja coisa julgada das questões prejudiciais, deve ter havido ação declaratória incidental para tal finalidade.
A alternativa E está incorreta. O CPC/2015, em suas disposições finais, é explícito em dizer que são mantidas
as limitações legais impostas às tutelas provisórias contra a Fazenda Pública.
Art. 1.059. À tutela provisória requerida contra a Fazenda Pública aplica-se o disposto nos arts.
1o a 4o da Lei no 8.437, de 30 de junho de 1992, e no art. 7o, § 2o, da Lei no12.016, de 7 de agosto de 2009.
Comentários
A alternativa A está incorreta. O STF, nas ADI 466/91 e ADI 815/96, não acolheu a tese das “normas
constitucionais inconstitucionais”, desenvolvida pelo autor alemão Otto Bachof. Isso porque todas as normas
constitucionais originárias buscam seu fundamento de validade no poder constituinte originário, e não em
outras normas constitucionais. Assim, o Tribunal asseverou que, para preservar a identidade e a unidade do
texto constitucional como um todo, o Constituinte criou as cláusulas pétreas, as quais representam limites
ao poder Constituinte derivado (reformador e revisor), e não às normas originárias.
A alternativa B está correta. Na hipótese de eventual conflito entre normas constitucionais, deve-se evitar o
sacrifício total de um princípio em relação ao outro em choque, tendo em vista a inexistência de hierarquia
entre eles.
Canotilho afirma:
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O campo de eleição do princípio da concordância prática tem sido, até agora, o dos direitos
fundamentais. Subjacente a este princípio está a ideia do igual valor dos bens constitucionais,
que impede, como solução, o sacrifício de uns em relação aos outros.
A alternativa C está incorreta. Ferdinand Lassale e Konrad Hesse não concordam nesse ponto.
Para Lassale (“O que é uma Constituição”, escrita em 1863), a Constituição escrita é legítima se representa
os fatores reais de poder dentro de uma sociedade. Se ela não estiver de acordo com os fatores reais de
poder, ela irá sucumbir diante da Constituição real. Por isso, nas palavras do autor, a Constituição escrita é
uma mera folha de papel.
Sua capacidade de regular e de motivar está limitada à sua compatibilidade com a Constituição real do
contrário, torna-se inevitável o conflito, cujo desfecho há de se verificar contra a Constituição escrita, esse
pedaço de papel que terá de sucumbir diante dos fatores reais de poder dominantes no país.
Ao revés, para Hesse, mesmo reconhecendo que a Constituição não está desvinculada da realidade histórica
concreta do seu tempo, ressalta a força normativa do documento, a vontade de constituição. Sem virar as
costas para a realidade histórico-política, a Constituição não pode perder sua natureza deontológica (dever
ser). Portanto, a Constituição conforma o Estado a partir de regras e princípios que ela mesma estatui e que
“não estão sujeitos a transações ou barganhas políticas”.
A alternativa D está incorreta. A técnica da ponderação não está expressamente prevista no texto
constitucional, mas sim no Novo CPC (art. 489 §2º). Vejamos:
Art. 489, § 2º: no caso de colisão de normas o juiz deve justificar o objeto e os critérios gerais da
ponderação efetuada, enunciando as razões que autorizam a interferência na norma afastada e
as premissas fáticas que fundamentam a conclusão.
Conforme frisamos nesta aula, critica-se a redação legal por dois motivos: a) por impor uma técnica que é
muito controversa doutrinariamente; b) permitir a ponderação de normas (regras e princípios), enquanto a
doutrina majoritária só permite a ponderação de princípios e não de regras.
34. (FAUGRS/Analista do TJRS/2017) Sobre o direito ao contraditório e suas consequências, assinale a
alternativa correta.
a) O princípio do contraditório exige apenas a ciência bilateral dos atos e termos do processo, bem como a
possibilidade de contraditá-los.
b) Na ação monitoria e nas demais hipóteses de tutela da evidência, o Juiz poderá deferir a medida requerida
sem ouvir previamente o réu.
c) O Juiz deve submeter ao contraditório, debatendo previamente com as partes, mesmo as matérias
passíveis de serem examinadas de ofício.
d) Basta que o Juiz explicite as razões de sua decisão, não precisando analisar os argumentos favoráveis ou
contrários à conclusão por ele adotada.
e) Não há a previsão de intimação para contrarrazões nos embargos de declaração, já que esse recurso não
se presta à modificação da decisão.
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Comentários
A alternativa A está incorreta. O contraditório clássico exigia apenas o binômio ciência + reação. Já o
contraditório substancial, vigente no atual modelo constitucional de processo civil, é formado pelo trinômio
ciência + reação + poder de influenciar o juiz.
A alternativa B está incorreta. Em regra, segundo o art. 9º, caput, CPC, não se proferirá decisão contra uma
das partes sem que ela seja previamente ouvida. Contudo, o próprio parágrafo único elenca 3 exceções,
quais sejam: a) tutela provisória de urgência; b) ação monitória; c) tutela de evidência previstas no art. 311,
II e III.
O erro da alternativa está em dizer que, nas hipóteses de tutela de evidência, em geral, o juiz pode decidir
sem ouvir previamente o réu. Isso só ocorre nos incisos II e III do art. 311. Ao contrário, nos incisos I e IV do
art. 311, o juiz deve, primeiramente, ouvir a parte contrária para, depois, decidir.
Obs: Lembrem-se de que o rol do parágrafo único do art. 9º, CPC é exemplificativo, isto é, não exaure as
possibilidades de decisões inaudita altera parte. Como outros exemplos, temos os artigos 562 (liminar em
possessória), 678 (embargos de terceiros), 332 (improcedência liminar do pedido), 355 (julgamento
antecipado do mérito, total ou parcial, art. 8º, § 1º da LACP (inquérito civil instaurado pelo MP), 77/81
(imposição de ofício de multas).
A alternativa C está correta. É a consagração expressa do art. 10, CPC. Confira-se:
Art. 10. O juiz não pode decidir, em grau algum de jurisdição, com base em fundamento a
respeito do qual não se tenha dado às partes oportunidade de se manifestar, ainda que se trate
de matéria sobre a qual deva decidir de ofício.
A alternativa D está incorreta. Consoante art. 489, § 1º, IV, CPC, exige-se do juiz, sob pena de nulidade, em
todas as decisões (interlocutória, sentença, acórdão), o enfrentamento de todos os argumentos deduzidos
no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador. Portanto, o juiz precisará sim
analisar os argumentos favoráveis ou contrários à conclusão por ele adotada.
Obs: Importante se lembrar de que o STJ, já na vigência do CPC/15, afirmou que o juiz pode se limitar a
analisar os argumentos relevantes para o deslinde da causa, não precisando passar por absolutamente todos
os argumentos das partes. De toda forma, tal entendimento não muda o erro da assertiva.
A alternativa E está incorreta. O objetivo dos embargos de declaração é o esclarecimento, complemento ou
correção material da decisão. Portanto, eles não se prestam a invalidar uma decisão processualmente
defeituosa nem a reformar uma decisão que contenha um erro de julgamento. Por isso, é comum dizer-se
que os embargos de declaração não podem ter efeito modificativo da decisão impugnada (o chamado efeito
ou caráter “infringente”).
Contudo, doutrina e jurisprudência (STF e STJ) tendem a admitir embargos de declaração com efeitos
modificativos em alguns casos, mormente naqueles em que a decisão padece de defeito gravíssimo, que não
se caracteriza como omissão, contradição, obscuridade ou erro material. Nesses casos, deve-se ouvir a parte
contrária. Confira-se:
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Art. 1.023, § 2o O juiz intimará o embargado para, querendo, manifestar-se, no prazo de 5 (cinco)
dias, sobre os embargos opostos, caso seu eventual acolhimento implique a modificação da
decisão embargada.
Comentários
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LISTA DE QUESTÕES
Magistratura
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Questão complexa de cujo gabarito, inclusive, discordo. Coloquei a questão pela letra C. Todavia, a explicação das outras são
ótimas para estudo.
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b) Todas as decisões dos órgãos do Poder Judiciário devem ser fundamentadas, sob pena de ineficácia.
c) As partes têm o direito de obter, em prazo razoável, a solução integral do mérito, exceto a atividade
satisfativa.
d) Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins econômicos e às exigências individuais,
resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a
razoabilidade, a legalidade, o segredo de justiça e a eficiência.
e) É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades
processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo
ao juiz zelar pelo efetivo contraditório.
Promotor
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Defensor
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IV. A defesa técnica no processo civil é prescindível para assegurar às partes, ao longo de todas as etapas do
procedimento, a chamada “competência de atuação”, diretamente relacionada ao exercício pleno dos
princípios da ampla defesa, da isonomia e do contraditório.
Nesse contexto, pode-se afirmar:
a) Todas as afirmativas estão corretas.
b) Todas as afirmativas estão incorretas.
c) Estão corretas as afirmativas I e IV apenas.
d) Estão incorretas as afirmativas I e IV apenas.
Procurador
14. (IADES/AL-GO – Procurador/2019) Quando uma nova lei processual entra em vigor, surgem muitas
dúvidas quanto aos respectivos efeitos em relação aos processos pendentes. Assim, ao entrar em vigor
determinada lei processual, no que diz respeito aos processos em andamento, a lei processual
a) será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais e as situações
jurídicas consolidadas sob a vigência da norma revogada.
b) terá aplicação retroativa, anulando-se todos os processos em andamento.
c) nova não poderá ser aplicada aos processos em andamento, tendo em vista o direito adquirido processual
d) somente retroagirá para beneficiar as partes; assim, haverá aplicação parcial da nova legislação.
e) apenas retroagirá para beneficiar o réu; quanto ao autor, tem aplicação imediata, tanto para beneficiá-lo
quanto para prejudicá-lo.
15. (VUNESP/Prefeitura de São José do Rio Preto – SP – Procurador do Município/2019) Assinale a
alternativa que apresenta o princípio e sua respectiva característica.
a) Princípio do livre convencimento motivado: o poder do juiz de decidir, fundamentadamente, de acordo
com sua convicção jurídica, observando os fatos e as provas existentes no processo.
b) Princípio da instrumentalidade: determina que todos os atos processuais devem ser informados aos
envolvidos e aos seus respectivos procuradores.
c) Princípio da disponibilidade: o direito de ação não pode ser negado àqueles que se sentirem lesados em
seus direitos.
d) Princípio do juiz natural: cabe ao juiz dar continuidade ao procedimento, em cada uma de suas etapas, até
a conclusão.
e) Princípio do direito de ação: possibilidade que os cidadãos têm de exercer, ou não, os seus direitos,
perante à Administração Pública e ao Poder Judiciário.
16. (VUNESP/Câmara de Piracicaba – SP - Advogado/2019) A atual legislação processual determina que
não poderá o juiz decidir contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida. Porém, valendo-se
do que dispõe o art. 9° do CPC, é caso de contraditório diferido os
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a) de tutela de evidência em que ficar caracterizado o abuso de direito de defesa e o manifesto propósito
protelatório do réu.
b) de ação monitória em que, sendo evidente o direito do autor, o juiz defira a expedição do mandado de
pagamento, entrega de coisa ou execução de obrigação de fazer.
c) de tutela de evidência em que a petição for instruída por prova documental suficiente dos fatos
constitutivos do direito do autor a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida suficiente.
d) que tratam exclusivamente de tutela provisória de urgência antecipada antecedente.
e) de ação de interdito proibitório, exclusivamente com relação a tutela de evidência requerida em caráter
antecedente.
17. )VUNESP/Câmara de Sertãozinho – SP – Procurador Jurídico Legislativo/2019)
No que concerne à aplicação do atual Código de Processo Civil no tempo, assinale a alternativa correta.
a) A situação estabelecida pela decisão passada em julgado será retroativamente afetada.
b) A lei nova, a partir da sua entrada em vigor, passa imediatamente a reger os feitos em andamento,
atingindo os atos já praticados.
c) Continuarão sujeitos ao regime da lei anterior as ações propostas e não sentenciadas até o início da
vigência do atual Código, em relação aos feitos de procedimento comum.
d) Suas disposições de direito probatório atingirão apenas as provas requeridas ou determinadas de ofício a
partir da data de início de sua vigência.
e) Rege-se pelo princípio da retroatividade.
18. (VUNESP/Câmara de Tatuí – SP – Procurador Legislativo/2019) Assinale a alternativa que
corresponde à definição do princípio da efetividade do processo.
a) Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo razoável, decisão
de mérito justa e efetiva.
b) Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às exigências do bem comum,
resguardando e promovendo a dignidade da pessoa humana e observando a proporcionalidade, a
razoabilidade, a legalidade, a publicidade e a eficiência.
c) As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída a atividade
satisfativa.
d) Não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida.
e) Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões,
sob pena de nulidade.
19. (VUNESP/Câmara de Serrana – SP – Procurador Jurídico/2019) Tratando especificamente de direito
intertemporal processual, assinale a alternativa que está em consonância com a atual norma processual
civil.
a) É regido pelos princípios da imediatidade e da retroatividade.
b) Não é adotado de forma explícita na lei.
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c) Em regra, a norma processual retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso.
d) A lei nova pode incidir imediatamente sobre relações jurídicas preexistentes, ignorando os efeitos que
estas já tenham produzido.
e) A norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitadas
as situações jurídicas já consolidadas.
20. (UPENET/UPE – Advogado/2019) O Código de Processo Civil de 2015 estabeleceu, no seu artigo 9º
, que “não se proferirá decisão contra uma das partes sem que ela seja previamente ouvida”. O próprio
dispositivo aponta exceções à aplicação da referida regra. Assinale a alternativa que NÃO corresponde a
uma das exceções previstas no referido artigo 9º do CPC/2015.
a) Decisão proferida em tutela provisória de urgência.
b) Decisão proferida em tutela de evidência, quando a petição inicial for instruída com prova documental
suficiente dos fatos constitutivos do direito do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida
razoável.
c) Decisão proferida em tutela de evidência, quando as alegações, de fato, puderem ser comprovadas apenas
documentalmente e houver tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante.
d) Decisão proferida em tutela de evidência, quando se tratar de pedido reipersecutório fundado em prova
documental adequada do contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto
custodiado, sob cominação de multa.
e) Decisão proferida em ação monitória, quando evidente o direito do autor e o juiz determina a expedição
do mandado de pagamento.
21. (PGE-AC/Procurador do Estado/2017) Considerando-se que a tradição constitucional norte-
americana se encontra cifrada, ainda que não de forma total e absoluta, na ideia de Constituição como
regra do jogo da competência social e política, assim como na afirmação e garantia da autonomia dos
indivíduos como sujeitos privados e como agentes políticos, cuja garantia essencial é a jurisdição,
enquanto que a tradição europeia é preponderantemente marcada por um forte conteúdo normativo que
supera o limiar da definição das regras do jogo organizando o poder, afirmando-se como um projeto
político delineado de forma a participar diretamente do jogo, condicionando decisões estatais destinadas
a efetivar um programa transformador do Estado e da sociedade, seria correto afirmar que
a) o Neoconstitucionalismo resulta exclusivamente do influxo da tradição constitucional europeia.
b) o Neoconstitucionalismo resulta exclusivamente do influxo da tradição constitucional norte-americana.
c) o Neoconstitucionalismo resulta da aproximação entre os dois modelos, tanto ao adotar a ideia -
tipicamente europeia - de constituição como um texto jurídico supremo destinado a instrumentalizar um
programa transformador, quanto ao deferir à jurisdição - o que é característico do modelo norte-americano
- a tarefa de implementar tal programa quando o legislador não o faz, de que é exemplo a
inconstitucionalidade por omissão tal como existente no sistema constitucional brasileiro.
d) o Neoconstitucionalismo caracteriza-se essencialmente como um rompimento tanto com a tradição
constitucional europeia quanto com a norte-americana.
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c) a sentença que acolher a prescrição extinguirá o processo sem resolução do mérito, por inépcia da
peti-ção inicial, sendo necessário que o juiz dê a oportunidade de Antônio se manifestar antes de decretá-
la.
d) a prescrição só poderá ser analisada pelo juiz de primeiro grau. Caso não seja reconhecida na sentença,
está precluso o direito de retomar tal discussão.
e) em vista do deferimento da tutela de urgência, precluso está o direito de Alfredo alegar a questão da
prescrição, que se convalidou pela decisão provisória do juízo de primeiro grau.
Cartórios
26. (VUNESP/TJRS – Titular de Serviços de Notas e Registros/2019) Nos termos do artigo 4º do Código
de Processo Civil, as partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa. Considerando que o processo civil deve ser interpretado conforme os valores e as
normas fundamentais estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil, é correto afirmar
que referido dispositivo consagra os seguintes princípios:
a) cooperação processual, proporcionalidade razoabilidade e eficiência.
b) boa-fé objetiva processual, isonomia material e impulso oficial.
c) contraditório comparticipativo, impulso oficial e legalidade.
d) razoável duração do processo, primazia das decisões de mérito e efetividade.
e) inafastabilidade da jurisdição e estimulo a resolução consensual de conflitos.
27. TJ-RO/Titular de Serviços de Registros e Notas/2017
É correto afirmar no que tangem as normas fundamentais do novo Código de Processo Civil:
I. A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados
por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo
judicial.
II. Os juízes e os tribunais atenderão, obrigatoriamente à ordem cronológica de conclusão para proferir
sentença ou acórdão.
III. O processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas
em lei.
IV. É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos e faculdades
processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções processuais, competindo
ao juiz zelar pelo efetivo contraditório.
A sequência correta é:
a) As assertivas I, II, III e IV estão corretas.
b) Apenas as assertivas I, III, IV estão corretas.
c) Apenas as assertivas I e IV estão corretas.
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Outros
30. (CESPE/TER-PE/2017) Acerca das normas processuais civis, assinale a opção correta.
a) O juiz não pode decidir com base em fundamento a respeito do qual não tenha sido dada oportunidade
de manifestação às partes, ressalvado o caso de matéria que deva decidir de ofício.
b) Os juízes e tribunais terão de, inexoravelmente, atender à ordem cronológica de conclusão para proferir
sentença ou decisão.
c) A boa-fé processual objetiva, que não se aplica ao juiz, prevê que as partes no processo tenham um
comportamento probo e leal.
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d) O modelo cooperativo, que atende à nova ordem do processo civil no Estado constitucional, propõe que
o juiz seja assimétrico no decidir e na condução do processo.
e) O contraditório substancial tem por escopo propiciar às partes a ciência dos atos processuais, bem como
possibilitar que elas influenciem na formação da convicção do julgador.
31. CESPE/TCE-PA/2016
No que diz respeito às normas processuais, aos atos e negócios processuais e aos honorários de
sucumbência, julgue o item que se segue, com base no disposto no novo Código de Processo Civil.
Em observância ao princípio da primazia da decisão de mérito, o magistrado deve conceder à parte
oportunidade para, se possível, corrigir vício processual antes de proferir sentença terminativa.
Comentários
A alternativa está correta. O princípio da primazia da decisão de mérito está previsto no art. 4º, CPC, que
assim dispõe:
Art. 4o As partes têm o direito de obter em prazo razoável a solução integral do mérito, incluída
a atividade satisfativa.
Como concretização de tal princípio, a doutrina elenca diversas hipóteses. Dentre elas está justamente o
dever do magistrado de conceder à parte oportunidade para, se possível, corrigir vício processual antes de
proferir sentença terminativa.
Isso é passível de ser visualizado no art. 932, parágrafo único, CPC, ao mencionar que o relator, “antes de
considerar inadmissível o recurso, o relator concederá o prazo de 5 (cinco) dias ao recorrente para que seja
sanado vício ou complementada a documentação exigível”.
Temos disposição similar também no art. 317, que diz “antes de proferir decisão sem resolução de mérito, o
juiz deverá conceder à parte oportunidade para, se possível, corrigir o vício”. Ainda, o art. 139, IX, aduz que
“o juiz dirigirá o processo, determinando o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros
vícios processuais”.
Como normas gerais, tais preceitos podem ser aplicados pelo juiz em variados casos.
32. (FCC/TRE-PB/2015) De acordo com as regras transitórias de direito intertemporal estabelecidas no
novo Código de Processo Civil,
a) uma ação de nunciação de obra nova que ainda não tenha sido sentenciada pelo juízo de primeiro grau
quando do início da vigência do Novo Código de Processo Civil, seguirá em conformidade com as disposições
do Código de Processo Civil de 1973.
b) as ações que foram propostas segundo o rito sumário antes do início da vigência do novo Código de
Processo Civil, devem ser adaptadas às exigências da nova lei instrumental, à luz do princípio da imediata
aplicação da lei processual nova.
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c) as disposições de direito probatório do novo Código de Processo Civil aplicam-se a todas as provas que
forem produzidas a partir da data da vigência do novo diploma processual, independentemente da data em
que a prova foi requerida ou determinada a sua produção de ofício.
d) caso uma ação tenha sido proposta durante a vigência do Código de Processo Civil de 1973 e sentenciada
já sob a égide do novo Código de Processo Civil, resolvendo na sentença questão prejudicial cuja resolução
dependa o julgamento do mérito expressa e incidentalmente, tal decisão terá força de lei e formará coisa
julgada.
e) o novo Código de Processo Civil autoriza, sem ressalvas, a concessão de tutela provisória contra a Fazenda
Pública, derrogando tacitamente as normas que dispõem em sentido contrário.
33. (Banpará/Advogado/2017) Sobre as Normas Constitucionais, é CORRETO afirmar que:
a) Contrariando o princípio da unidade constitucional, o Supremo Tribunal Federal consagra, de modo
pacífico, a teoria das “normas constitucionais inconstitucionais”, afirmando a possibilidade de existência de
hierarquia entre normas constitucionais originárias.
b) Pelo princípio da concordância prática, as normas constitucionais que se mostrem em contradição deverão
abdicar, cada uma delas, da pretensão de que sejam aplicadas de forma absoluta.
c) Acerca da Força Normativa da Constituição, Ferdinand Lassalle e Konrad Hesse divergem em muitos
aspectos, concordam, todavia, quando afirmam que, em caso de eventual confronto entre a constituição
real e a constituição jurídica, esta, nem sempre, irá sucumbir, sendo, portanto (a constituição jurídica) capaz
de gerar força normativa própria em suas disposições, uma força ativa capaz de gerar e condicionar
comportamentos na vida do Estado.
d) A técnica da ponderação, expressamente prevista no texto da vigente Constituição da República brasileira,
serve para auxiliar na interpretação das normas principiológicas. Trata-se de alternativa à técnica da
subsunção, esta ideal para interpretar as regras jurídicas.
34. (FAUGRS/Analista do TJRS/2017) Sobre o direito ao contraditório e suas consequências, assinale a
alternativa correta.
a) O princípio do contraditório exige apenas a ciência bilateral dos atos e termos do processo, bem como a
possibilidade de contraditá-los.
b) Na ação monitoria e nas demais hipóteses de tutela da evidência, o Juiz poderá deferir a medida requerida
sem ouvir previamente o réu.
c) O Juiz deve submeter ao contraditório, debatendo previamente com as partes, mesmo as matérias
passíveis de serem examinadas de ofício.
d) Basta que o Juiz explicite as razões de sua decisão, não precisando analisar os argumentos favoráveis ou
contrários à conclusão por ele adotada.
e) Não há a previsão de intimação para contrarrazões nos embargos de declaração, já que esse recurso não
se presta à modificação da decisão.
35. (IESES/Analista/2017) Podemos definir a interpretação das normas constitucionais como as
diferentes possibilidades de analisá-las dentro de um plano metodológico. Desta forma, podemos
classificar a sua interpretação identificando as afirmações corretas:
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I. Interpretação Gramatical (ou literal): busca-se aferir o significado literal da norma jurídica por meio de uma
interpretação que leve em consideração o exame das palavras e das regras gramaticais vigentes à época da
elaboração do texto legal.
II. Interpretação Sistemática: Este método de interpretação deve ser utilizado imediatamente após a
interpretação gramatical ou literal, independentemente da aparente solução definitiva que esta possa ter
sugerido ao intérprete.
III. Interpretação Lógica ou Racional: sobre examinar a lei em conexidade com as demais leis, investiga-lhe
também as condições e os fundamentos de sua origem e elaboração, de modo a determinar a ratio ou mens
do legislador. Busca, portanto reconstruir o pensamento ou intenção de quem legislou, de modo a alcançar
depois a precisa vontade da lei (Paulo Bonavides).
IV. Interpretação Sociológica ou Teleológica: permite a alteração da ratio legis, possibilitando ao intérprete
conferir um novo sentido à norma, contrapondo-se ao sentido original da mesma e otimizando o
cumprimento da sua finalidade (Zimermann).
A sequência correta é:
a) Apenas as assertivas I, III e IV estão corretas.
b) Apenas a assertiva III está correta.
c) Apenas as assertivas I, II e IV estão corretas.
d) Apenas as assertivas I e II estão corretas.
GABARITO
Magistratura 25. A
Defensor
1. D Cartórios
13. D
2. D
3. C 26. D
4. B Procurador 27. B
5. D 28. A
6. E 14. A 29. C
15. A
16. B
Promotor Outros
17. D
18. C
7. B 30. E
19. E
8. E 31. Correta
20. B
9. B 32. A
21. C
10. E 33. B
22. A
11. B 34. C
23. Incorreta
12. A 35. A
24. B
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QUESTÕES DISCURSIVAS
1. (TJSP – 186º Concurso – Juiz de Direito): Dissertação “O profissional do Direito, ao construir
soluções para os casos, tem um dever analítico. Não bastam boas intenções, não basta intuição, não basta
invocar ou elogiar princípios; é preciso respeitar o espaço de cada instituição, comparar normas e opções,
estudar causas e consequências, ponderar as vantagens e desvantagens. Do contrário viveremos no
mundo da arbitrariedade, não do Direito.”
A partir do trecho citado, disserte sobre a proposição nele contida, abordando os seguintes pontos: a) o
enquadramento da propositura nas escolas jusnaturalistas ou do positivismo jurídico; b) a relação que o
texto estabelece entre princípios e normas; c) a relação que a solução baseada exclusivamente em
princípios com os tipos de racionalidade jurídica expostos por Max Weber; d) o modo pelo qual o respeito
“ao espaço de cada instituição” referido no texto acarreta novos desafios para a legitimidade da jurisdição
estatal.
Comentários
Resolvi transcrever minha resposta real na prova. Obtive 2,6 pontos em 4,0 – aproveitamento bem razoável,
pelo rigorismo da correção:
A ciência do Direito, enquadrável dentro do rol das ciências humanas, tem certamente uma relação de
interdependência com as diversas outras disciplinas que, no conjunto, eram chamadas pelos antigos de
“humanidades”. Nas palavras do teórico Niklas Luhman, e repetido por Marcelo Neves, o Direito é um
subsistema social que, por meio de acoplamentos estruturais, condiciona e é condicionado por diversos
outros subsistemas, dentre os quais a Política, Sociologia, Psicologia, História, Filosofia etc. Sendo assim,
dissertar sobre a atualidade do Direito implica também tratar de sua evolução histórica e de toda a
multidisciplinariedade que o cerca.
Nessa toada que se insere o trecho citado, uma vez que aborda a intrincada situação do profissional do
direito atual, justamente depois de vários acontecimentos históricos e progressos filosóficos relevantes,
dentre os quais a evolução das escolas jusnaturalistas para a escola jusracionalista, passando pelo
positivismo jurídico e chegando ao contexto do atual pós-positivismo, vertente teórica na qual se enquadra
o trecho citado no enunciado.
Tomando por base a relação intrínseca entre Direito e Justiça, podemos dizer que os filósofos antigos
(Sócrates, Platão e Aristóteles), partidários da escola jusnaturalista cosmológica, entendiam que o Direito,
para ser justo, deveria espelhar as leis naturais ditadas pelo cosmos. Assim, a ordem estaria garantia e a
promoção da justiça facilitada.
Adentrando na Idade Média, os filósofos de destaque (Santo Agostinho e São Tomás) também se filiavam ao
que denominamos como escola jusnaturalista, mas com fundamento diverso. As leis naturais não derivariam
mais do cosmos, mas sim das leis divinas. Tal concepção, obviamente abordada em diferentes nuances pelos
grandes filósofos São Tomás e Santo Agostinho (cidade de Deus/ cidade dos homens) serviu de supedâneo
teológico para a construção e o fortalecimento da Igreja Católica.
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Nos séculos XV e XVI, porém, as ideias supramencionadas estava mpor ruir. Os movimentos renascentista e
iluminista começaram a pautar as discussões da época e, com o fim de secularizar os debates, explicavam e
fundamentavam todas as coisas, inclusive o Direito, na razão. Era a época do racionalismo exacerbado,
inaugurado por Descartes.
O Direito, para ser justo e legítimo, não precisava mais espelhar as leis naturais cosmológicas ou divinas. A
razão humana se tornou capaz de acessar o direito natural, imutável, ahistórico e transpor tais ideias para
textos normativos que se tornariam a lei dos homens.
A fundamentação do Estado e do Direito na razão e não mais nas leis divinas (que legitimavam os monarcas
absolutistas no poder) ganhou força com os filósofos contratualistas (Hobbes, Locke e Rousseau) e fomentou
a eclosão de diversas revoluções relevantes, dentre as quais Revolução Americana (1776 e Constituição de
1787) e a Revolução Francesa (1789), gerando enormes reflexos no sistema jurídico então vigente.
Pautado na ideia de que a razão e a exatidão dos conceitos pudesse abarcar todos os fatos da vida, o
ordenamento jurídico da época experimentou uma intensa fase de codificação (ex: Código de Napoleão de
1804) e a limitação da atividade interpretativa dos magistrados. Com o surgimento da escola de exegese na
França (positivismo exegético), jurisprudência dos conceitos na Alemanha e jurisprudência analítica na
Inglaterra, os casos submetidos ao Poder Judiciário deveriam ser solucionados por mera subsunção do fato
à norma (derivada dos textos legais ou do próprio precedente inglês), sem permissão par que os juízes
interpretassem além do texto. O magistrado era um autômato, um “bouce de la loi”.
Isso não poderia vigorar por muito tempo. Por óbvio, as leis não davam conta de todos os fatos da vida. A
riqueza do real exigia atividade hermenêutica mais intensa e livre. Daí a justificação para o surgimento da
escola do direito livre (Duguit) na França, Jurisprudência dos interesses e do valores na Alemanha e realismo
jurídico na Inglaterra.
Nesse momento conturbado da viragem do século XIX para o século XX, existiam inúmeras escolas e
correntes jurídicas, momento de intenso debate entre as concepções acima citadas. Ademais, a eclosão
cultural era intensa e o Direito passou a ser influenciado pelas outras ciências humanas, tais como sociologia,
psicologia, filosofia etc.
Com o desiderato de expurgar a influência dessas diversas disciplinas, o teórico de Viena, Hans Kelsen,
elaborou a sua “Teoria Pura do Direito” e se tornou, ao lado de Hart, um dos baluartes do positivismo jurídico.
Em sua concepção, o Direito como ciência deveria se fechar para essas disciplinas auxiliares e encontrar
sistematicidade, completude e fundamentação racional nele próprio. Isso tudo explica a norma hipotética
fundamental e a separação que ele faz de Direito e Moral.
Não desprezando sua contribuição teórica para o Direito, algumas de suas formulações precisavam ser
melhoradas, sobretudo a separação do Direito e Moral e a permissão da discricionariedade do juiz (no
capítulo VIII da sua Teoria Pura do Direito, no qual elenca que a lei confere ao magistrado uma moldura,
dentro da qual poderá escolher qual opção acredita ser a mais correta para o caso concreto).
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Vislumbrando a necessidade de mudança, mormente depois da eclosão das duas grandes guerras 162,
exsurgiu no cenário jurídico a corrente pós-positivista, estimulada por teóricos como Radbruch, Robert Alexy,
Ronald Dworkin, Friedrich Müller etc., corrente esta adotada pelo trecho transcrito na prova. Estamos, agora,
na fase do Neoconstitucionalismo.
Sabendo das diferentes concepções do fenômeno pós-positivista formuladas por diversos juristas, podemos
elencar alguns pontos em comum, quais sejam: a) relação existente entre direito e moral (ex: fórmula de
Radbruch – uma lei extremamente injusta não pode ser tida como lei); b) diferença entre princípios e regras,
ambos espécies do gênero normas; c) intenção de diminuir a discricionariedade na atividade interpretativa
e, portanto, reduzir as arbitrariedades; d) equacionar a relação entre os 3 poderes.
Nesse viés que podemos enquadrar o texto em questão. Ele não só expõe a diferença entre norma (gênero)
e princípio (espécie de norma, tida por alexy como mandamento de otimização dentro das possibilidades
fáticas e jurídicas existentes), como também critica a discricionariedade existente em algumas
interpretações do texto normativo e assevera ser primordial a harmonia e o diálogo constante entre os três
poderes.
Adotando a posição de que princípio é uma espécie de norma jurídica, ele tece árduas críticas àqueles que,
na solução do caso concreto, baseiam-se na intuição e moral próprias, fundamentando sua decisão (art. 93,
IX, CRFB) não de forma técnica, analítica, decompondo o texto normativo (programa normativo) e analisando
o fato da vida (âmbito normativo), para disso tudo extrair a norma aplicável (regra ou princípio). Ao proceder
desta forma, de maneira atécnica, discricionária, temos uma decisão arbitrária, que apenas invoca e elogia
princípios sem perpassar pelos procedimentos necessário. A exemplo, em caso de conflito aparente de
princípios, o magistrado deve se utilizar da regra da proporcionalidade e seus subtópicos adequação (o
princípio colidente é apto a atingir o fim visado?); necessidade (há outro meio menos gravoso de preservar
tal princípio?); proporcionalidade em sentido estrito (o grau de melhoria na aplicação de um princípio deve
ser tanto maior quanto maior for a lesão ao princípio aparentemente colidente).
A decisão baseada exclusivamente nos princípios pode ser relacionada com a racionalidade jurídica prática
e burocrática, ao contrário da racionalidade teórica, tipos expostos por Max Weber. Este pensador,
analisando a cientificidade, a tecnicidade e a burocracia estatal exacerbada impulsionada pelo racionalismo,
passa a entender o fundamento do Dirieto como aquele que almeja manter o status quo burguês e capitalista
(vide Ética protestante e o espírito do capitalismo). Quando se decide exclusivamente por princípios, apenas
os elogiando, sem tecnicidade, opta-se por decidir conforme a intuição, mantendo o status quo e não
imprimindo as mudanças necessárias.
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Embora comum, é um equívoco dizer que o positivismo normativista de Hans Kelsen proporcionou o nazismo.
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Ademais, quando o trecho menciona a necessidade de respeito ao espaço de cada instituição, isso se
relaciona diretamente com a legitimidade da jurisdição estatal.
Ora, a legitimidade dos poderes executivo e legislativo advém das próprias eleições, já que os membros de
tais poderes são representantes do povo, de onde todo o poder emana (art. 1º, parágrafo único da CRFB).
A legitimidade do Poder Judiciário, por sua vez, já que seus membros não são eleitos, deriva da
fundamentação racional de suas decisões (art. 93, IX, CRFB), e da sua não intervenção exagerada nos outros
poderes, privilegiando sempre a independência e harmonia entre eles (art. 2º, CRFB).
Assim sendo, ao decidir, o magistrado tem de sempre respeitar o espaço de cada instituição. Ao poder
executivo compete, principalmente, elaborar políticas públicas. Ao legislativo, elaborar leis e ao Judiciário
julgar. Não pode este se imiscuir exageradamente nas funções típicas daqueles.
Certo é, porém, que se deve fazer ressalvas a tal posicionamento, mormente pelo estágio atual do
constitucionalismo contemporâneo em que a Constituição é dotada de Força Normativa (Konrad Hesse) e
tem de ser cumprida e conformar, de certo modo, a Política.
Desse modo, deve-se sempre respeitar o espaço de cada instituição, mas o poder judiciário não pode perder
sua legitimidade de fazer cumprir as leis, sobretudo a Constituição quando os demais poderes falharem.
Pode haver judicialização de direitos, mas não um ativismo judicial exacerbado que ocasiona arbitrariedades.
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não consistia em fazer justiça”. Para muitos e, em especial, para Alf Ross, “há uma relação entre o direito
vigente e a ideia de justiça”. Portanto e sem dúvida, uma grande indagação jurídica por certo ainda
persiste.
Nesse sentido, disserte sobre “o que é o direito” e sobre “como as convicções morais de um juiz podem
influenciar seus julgamentos acerca do que é o direito”.
a) Justiça e Moral;
b) Direito e Moral;
c) Direito e Justiça;
d) Política Jurídica.
Pressupondo como correto o adágio “onde há sociedade, há direito” (“ubi societas, ibi jus”), é válido
asseverar que, ao longo da história da humanidade, sempre se questionou acerca do que é direito e quais
suas implicações com a moral e justiça, com maior ou menor complexidade. No fim, verificar-se-á que o
Direito pode ser tido como um sistema composto de regras primárias e secundárias, ou regras e princípios
que se interagem por meio dos elementos coação, validez e interdependência, e guardam alguma ligação
com a ideia de justiça (regra de reconhecimento de Alf Ross).
Com o perpassar dos séculos, passou-se a subsidiar o direito, moral e justiça nas divindades, sendo estas a
origem e a explicação dos três fenômenos. Assim, para este jusnaturalismo teológico, a fonte do direito e da
justiça era a lei divina, na qual a lei dos homens deveria se basear para reger as relações no seio da sociedade
(Sto Tomas de Aquino).
Já com o iluminismo e o renascimento, ganhou força o jusnaturalismo racionalista que, por sua vez, explicava
o direito e a justiça por meio da razão. Para tal corrente, o intelecto seria capaz de extrair o conceito de
justiça por meio de abstrações teóricas e positivar leis cujas normas (resultado da interpretação das leis)
efetivassem os direito naturais anteriormente racionalizados. Esteve sob a referida influência jusracionalista
a escola da exegese francesa, a escola analítica inglesa e a jurisprudência dos conceitos alemã. Sob tal
enfoque, havia ênfase enorme no aspecto lógico e sintático da norma, sendo que o conteúdo da lei era
extraído por meio de interpretações literais (“bouche de la loi”).
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Segundo Lênio Streck, as características acima salientadas expõe claramente o positivismo exegético que
predominava à época. Tal concepção, frisa-se, se diferencia do positivismo normativista de Hans Kelsen que,
embora partidário do positivismo, e, portanto, partidário de explicação puramente racional do sistema
jurídico, defendia não uma interpretação exegética e literal do texto normativo. Ao revés, no capítulo VIII da
Teoria Pura do Direito, advoga a existência de uma liberdade decisória do juiz, desde que dentro da moldura
normativa.
Refratários à concepção extremamente abstrata do Direito, surgiram a escola do direito livre na França (Leon
Duguit), jurisprudência dos valores na Alemanha (Radbruch) e realismo jurídico psicológico de Uppsala e
comportamental dos norte-americanos. Alf Ross ainda funde algumas características dos dois realismos para
criar concepção única do Direito e sua ligação com a moral e a justiça, sempre tendo como desiderato
contrapor-se às antigas formulações metafísicas desses conceitos.
Essas correntes contrárias à ideia positivista e, portanto, à confiança na explicação puramente racional das
ciências humanas (Augusto Comte) pendiam para uma aproximação entre Direito, Moral e Justiça.
Isso porque, para Kelsen (positivista normativo), o Direito deveria se apartar da moral, sociologia, psicologia
etc. São círculos que não se tocam. Ademais, por meio das obra “A ilusão da Justiça” e “O que é Justiça”
asseverou ser impossível encontrar sentido unívoco para o termo.
Contudo, existem outras posições de autores expressivos. Georg Jellinek, por exemplo, dizia que o Direito é
o mínimo ético (círculos concêntricos). Já Miguel Reale diz serem os dois conceitos representados por
círculos secantes, pois existem normas amorais (ex: leis de trânsito) e imorais (segundo alguns, a colaboração
premiada). Ronald Dwordin, a seu turno, salienta que o direito é um ramo da moral, sendo que, mormente
nos “hard cases”, o juiz se vale de regras morais para solucionar as contendas. O magistrado possui
responsabilidade política de proferir decisões coerentes e íntegras, de modo a perpetuar a história
institucional do Direito que, por sua vez, é permeado de regras morais. Alf Ross, por derradeiro, chega a se
referir à regra de reconhecimento, que seria um substrato com íntima ligação com a moral, que confere
legitimidade às regras primárias e secundárias.
Sabe-se, consoante Miguel Reale, que a moral é interna e não é dotada de coercibilidade, ao passo que o
Direito é heterônomo, bilateral atributivo, e possui a coercibilidade como elemento fulcral. Contudo, é
absolutamente possível asseverar que as leis são permeadas pela moral da sociedade. E mais, em muitos
casos nos quais não há previsão legislativa, deve o magistrado verificar a história institucional dos institutos
jurídicos e do próprio ordenamento (permeado pela moral) para decidir. A moral, segundo Habermas, tem
uma relação de co-originalidade com o Direito.
Portanto, percebe-se que Direito, Moral e Justiça estão intrinsecamente relacionados. Embora não haja
pacificação sobre qual o grau de sua interação, é possível constatar, conforme Radbruch, que uma lei
extremamente injusta não é lei e, portanto, o Direito não comporta injustiças patentes.
Não há conceito unívoco de Justiça (Aristóteles, Platão, Kant, Hegel, Alf Ross etc.), mas é possível dizer que
o Direito é sistema cujo fim é promover a coesão social e buscar justiça, podendo esta ser tida, como afirma
Ross, com a sobrelevação da meritocracia, correção de desigualdades e a cada um conforme sua capacidade.
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Ao mesmo tempo que a Política dá origem ao Direito, este conforma a Política, com o desiderato de efetivar
um verdadeiro Estado Democrático de Direito, espaço onde as normas são respeitadas, cumpridas e
promovem situações minimamente morais e justas.
A intervenção do Poder Judiciário no âmbito das políticas públicas, mormente com o desiderato de
implementar direitos sociais (ex: moradia, saúde, educação – arts. 6º, 7º, CRFB) suscita intensas
controvérsias. Tais embates se remetem à existência ou não de legitimidade conferida pela Constituição ao
Poder Judiciário para agir de forma ativista e à própria delimitação do papel do Judiciário no cenário da
separação de poderes, cláusula pétrea prevista no art. 60, § 4º, CRFB. É nesse contexto, pois, que surgem os
conceitos de reserva do possível fática e jurídica; geração de direitos, neoconstitucionalismo; ativismo
judicial; teorias substancialista e procedimentalista etc.
De início, respeitada a miríade de concepções teóricas, pode-se dizer que quando o MPF ou outro
interessado pleiteia no Judiciário a implementação de direitos sociais, surgem duas possibilidades de
conduta. Primeiro, poder-se-á tomar uma atitude mais contida, mencionando que a tarefa de efetivar
políticas públicas é do Poder Executivo (art. 76 e seguintes). Segundo, há possibilidade de, fundado na CRFB,
e em sua proteção dos direitos sociais (2ª geração), adotar postura ativa, mormente quando o Executivo é
ineficiente e desidioso.
A primeira posição é subsidiada numa visão mais estanque da separação de poderes (art. 2º, CRFB), cunhada
por Aristóteles e desenvolvida por Montesquieu, bem como na ideia de que os juízes não teriam legitimidade
para agir ativamente em políticas públicas. Isso porque o Legislativo e o Executivo, como representantes do
povo, são os que detêm legitimidade para tanto, já que, consoante art. 1º, parágrafo único, CRFB, todo o
poder emana do povo. Referida linha de pensamento é bem desenvolvida por pensadores
procedimentalistas, tais como Alexander Bickel, Jeremy Waldrow, Richard Posner; Jurger Habermans que,
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com todas as suas diferenças, entendem que a política (incluindo políticas públicas) devem ser abordadas no
âmbito do discurso público no Parlamento e no Executivo, não permitindo a intromissão dos juízes.
A segunda posição, por sua vez, embasa-se na teoria substancialista, já que aduz que a própria Constituição
já fez determinadas escolhas ao promover os direitos de 1ª, 2ª, 3ª, 4ª e 5ª geração como direitos
fundamentais e merecedores de tutela jurídica. Ademais, alegam os seus partidários que uma das funções
precípuas do Judiciário é atuar no sentido contramajoritário, a fim de garantir direitos fundamentais e
proteger minorias, como aduzem Ronald Dworkin, Robert Alexy, Luís Roberto Barroso, dentre outros. Assim,
os juízes teriam sim legitimidade para, dentro dos contornos constitucionais e legais, implementar direitos
sociais. A propósito, é a posição adotada recorrentemente pelo STF em diversos casos, tais como a APF em
que abordou o estado de coisas inconstitucional, a determinação para que o sistema de saúde forneça
medicamentos imprescindíveis para a vida digna de certas pessoas, desde que respeitados alguns
parâmetros (suspensão de tutela 175); reforma de presídios etc.
Contudo, mesmo que acolhida tal posição, há casos em que se depara com argumentos fortes em sentido
contrário. Dentre eles, o mais relevante é o da reserva do possível, que pode ser dividida em fática, jurídica
e socioeconômica.
A reserva do possível fática ocorre quando efetivamente não há recursos públicos para a implementação
daquele direito social.
A reserva do possível jurídica represente a impossibilidade de destinar verbas públicas para finalidades que
não estão contidas, em princípio, no plano plurianual, lei de diretrizes orçamentárias e lei orçamentária (art.
165, CRFB).
A reserva do possível socioeconômica, por fim, consubstancia na inexistência de razão social e econômica
para a implementação daquele direito pleiteado.
Na oportunidade, o relator Celso de Mello asseverou que o instituto, originário da Alemanha, ao ser alegado
pelo Estado, deve ser cabalmente provado, não tendo qualquer relevância jurídica a mera alegação.
Outrossim, pontuou que, mesmo provada, ela não deve se sobrepor ao mínimo existencial. Assim sendo,
quando está em jogo o mínimo existencial, manifestação da própria dignidade da pessoa humana (art. 1º,
III, CRFB), deve-se adotar postura mais ativa e resguardar os mais básicos direitos fundamentais.
Decerto, é tema deveras importante e, quiça, um dos mais centrais e essenciais no cenário brasileiro, bem
como em todo o mundo. O debate merece continuar e impulsionar diversas concepções te´óricas.
Entretanto, por enfrentarmos no Brasil um desenvolvimento social tardio, há de se encampar doutrinas
estrangeiras com parcimônia.
4. ( TRF3/Juiz Federal Substituto/2016) A interpretação das normas jurídicas é uma matéria que se
desenvolveu em três etapas fundamentais: a) a obra de Friedrich Scleiermacher, no início do século XI; b)
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hermenêutica clássica de Savigny, na segunda metade do século XX, e ainda preponderantes na Alemanha
atual; c) a Nova Hermenêutica, no século XIX. O magistrado tem como parte essencial de seu ofício a
interpretação das normas e a coerência argumentativa de suas decisões. Nesse sentido, responda:
1)Quais os critérios hermenêuticos clássicos de Savigny e como se deve operacionaliza-los na
interpretação? 2) Qual o papel da lei na interpretação da norma? É possível desconsiderá-la na
interpretação? Por que?
Reconhecido por ser um dos partidários da jurisprudência dos conceitos e notório pelo embate que teve com
o jurista Thibaut acerca da necessidade ou não de a Alemanha adotar um código escrito, Savigny ainda
formulou quatro métodos de interpretação muito utilizados até hoje.
Primeiro, há o método literal, por meio do qual o intérprete extrai a norma daquilo que o texto literalmente
lhe diz, a exemplo do requisito de idade para que ocorra a aposentadoria compulsória.
Como segundo método, temos o teleológico ou finalístico. Por meio deste, o intérprete extrai a norma não
somente daquilo que o texto diz, mas com base na finalidade com a qual aquele texto normativo foi editado.
Como exemplo, adotaríamos, a interpretação finalística dos princípios da moralidade e impessoalidade na
Administração Pública (art. 37, caput, CRFB) para vedar o nepotismo, posição esposada pelo STF ao editar a
Súmula Vinculante n. 13.
Outro método seria o sistemático, por meio do qual o intérprete deve extrair a norma daquele texto
específico, pensando sempre em sua compatibilidade com todo o sistema, a fim de preservar sua unidade e
coerência. Foi o caso recente do STF em que se posicionou pela prescritibilidade da pretensão do Estado
para se ressarcir de atos ilícitos civis, muito embora o art. 37, § 5º, CRFB posa nos remeter a outra
interpretação. Ora, a regra é a prescrição das pretensões, salvo disposição expressa na lei, e a CRFB não
ressalva isso de modo peremptório e claro.
Por fim, há o método histórico, por meio do qual se extrai a norma consentânea com a própria história do
instituto e do Direito. A exemplo, tivemos a não obrigatoriedade de aposição da palavra Deus em
Constituição Estadual do Acre. Pela história, a epígrafe do texto constitucional não é de observância
obrigatória, nem nunca foi nas Constituições passadas.
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Assim, percebe-se que texto e norma são coisas distintas, como já demonstrou Friedrich Müller. O texto da
lei, portanto, serve como ponto de partida e também de chegada da norma. Ponto de partida, uma vez que
é dele que se extrairá a norma por meio de processos interpretativos diversos. Ponto de chegada, pois,
mesmo se adotando métodos distintos e concepções teóricas díspares (ex: Hermenêutica filosófica e
Hermenêutica argumentativista), a norma extraída da interpretação não poderá subverter os próprios
limites semânticos do texto.
Como exemplo de tal conduta, salienta-se a tentativa de enquadrar o art. 52, X, CRFB, no âmbito da mutação
constitucional pelo Min. Gilmar Mendes. Tal posição, por ir além dos limites do texto, foi rechaçada pelo
STF163.
A Hermenêutica, portanto, é campo para muitas divergências e embates. Talvez por isso seja tão atraente e
importante para que possamos extrair dos textos a norma mais compatível com o sistema e com a
pacificação social.
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Atenção: Em 2017, porém, o STF voltou atrás e passou a acolher a teoria inicialmente proposta por Gilmar Mendes (STF.
Plenário. ADI 3406/RJ e ADI 3470/RJ, Rel. Min. Rosa Weber, d.j. 29/11/17 - Info 886).
Assim, o art. 52, X, da CF/88 sofreu uma mutação constitucional e, portanto, deve ser reinterpretado. Dessa forma, o papel do
Senado, atualmente, é apenas o de dar publicidade à decisão do STF, decisão esta que, mesmo se tomada em controle difuso, já
é dotada de efeitos erga omnes e vinculante.
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The judicial duty of cooperation enhances fairness and efficiency in civil proceedings by requiring all participants, including judges, to work collaboratively towards a fair resolution within a reasonable time. This cooperative duty ensures that the process is viewed holistically, encouraging transparency, active participation, and adherence to procedural fairness while avoiding unnecessary delays .
Judicial trends see a movement towards self-restraint, whereby courts limit interventionist rulings to respect the separation of powers, aligned with a broader interpretative creativity necessitated by complex modern legal cases. Courts are balancing traditional proceduralism with substantive justice considerations, as seen in the adoption and adaptation of principles like reasonableness and proportionality. This reflects a shift from rigid positivism to a more dynamic interpretative process that incorporates moral and ethical dimensions in the decision-making process .
Neo-constitutionalism has shifted the understanding of legal principles and rights by integrating moral considerations into the legal reasoning process, emphasizing the role of constitutional values in all areas of law. It challenges positivist separation of law and morality, advocating for principles to play a central role in legal adjudication, thereby fostering a legal environment that aligns more closely with democratic ideals and human rights .
Different systems of procedural law transition, such as the isolation of procedural acts, affect ongoing legal cases by determining how new laws are retrospectively applied, preserving procedural integrity while respecting legal continuity. For instance, applying new rules only to future actions within a case maintains the validity of previous steps under the old procedures, ensuring a balanced adaptation to legislative changes without retroactively affecting prior case actions .
Systematic or logical-systematic interpretation contributes to the coherence of the legal system by ensuring that laws are interpreted in a manner consistent with the overall legal framework, avoiding contradictions or paradoxes. This method requires placing legal texts within a logical system that aligns with the broader legal landscape, promoting consistency and uniformity across legal codes and minimizing conflicts between statutes .
Norms governing provisional remedies influence legal certainty and fairness by setting limits on the imposition of interim measures, particularly against entities like the public treasury. They aim to prevent excessive burdens and ensure decisions are made based on substantial evidentiary support, balancing the need for immediate relief with the protection of the subjects from potentially unjust preliminary decisions .
The interpretation of legal texts differs from the normative text in that the former involves an active, creative process by judges who interpret and recreate the normative statements to provide meaning in particular cases. This interpretation is not a straightforward application but involves principles like proportionality and reasonableness. This can be seen in the example where the normative text may state a rule, but the interpretation might consider a guide dog as essential for a blind person, thus not prohibiting its use in certain contexts despite a lack of specific exemption in the text .
Proportionality and reasonableness have significantly influenced constitutional law by redefining how legal interpretations are conducted. Reasonableness originated from the US common law system under the due process clauses of the US Constitution, aiming to protect individual rights against state abuses, encompassing procedural and substantive aspects. Proportionality, with German origins, emerged as a constitutional principle to prevent public authority excesses, signifying a shift towards ensuring justice and containing public power .
The interaction between principles and rules in judicial decision-making creates challenges such as determining the scope and application in specific cases. Principles, offering broader, axiological guidance, require judges to balance them against more concrete rules, potentially leading to tension in preserving legal certainty while ensuring substantive justice. This tension necessitates careful consideration of institutional spaces, comparison of norms, and a rigorous analysis of potential outcomes, to avoid arbitrariness and uphold the integrity of the legal system .
The theory of isolation of procedural acts addresses the application of new procedural laws by ensuring that new laws apply only to future acts, not retroactively altering the legal effects of already completed actions. This preserves the validity of prior procedural steps and respects legal certainty and fairness in ongoing proceedings by applying the new legal framework from an act-forward basis, respecting the principle "tempus regit actum" .