Roteiro escrito em: 2009-18
Filmagem: março/ abril/ maio de 2018
Première mundial: Festival de Cannes (Seleção Oficial —
Competição), França, 17 de maio de 2019
Estreia nos cinemas brasileiros: 29 de agosto de 2019
Roteiro e direção: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Produção: Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt
Fotografia e câmera: Pedro Sotero
Montagem: Eduardo Serrano
Diretor de arte: Thales Junqueira
Som: Nicolas Hallet, Ricardo Cutz e Cyril Holtz
Assistente de direção: Daniel Lentini
Elenco
... Sonia Braga
... Udo Kier
... Bárbara Colen
... Thomas Aquino
... Silvero Pereira
... Thardelly Lima
... Rubens Santos
... Wilson Rabelo
... Carlos Francisco
... Luciana Souza
... Karine Teles
... Antonio Saboia
... Buda Lira
... Clebia Sousa
... Danny Barbosa
... Edilson Silva
... Eduarda Samara
... Fabiola Liper
... Ingrid Trigueiro
... Jamila Facury
... Black Jr.
... Márcio Fecher
... Rodger Rogério
... Suzy Lopes
... Uirá dos Reis
... Val Junior
... Valmir do Coco
... Zoraide Coleto
... Jonny Mars
... Alli Willow
... James Turpin
... Julia Marie Peterson
... Brian Townes
... Charles Hodges
... Chris Doubek
... Lia de Itamaracá
Rodado em 3.4K com câmeras Arri Alexa Mini. Em locações no
Povoado da Barra, e nos distritos de Parelhas e Acari (Rio Grande do
Norte).
1. SCROLL — TEXTO BRANCO SOBRE FUNDO PRETO
Daqui a alguns anos…
Depois dos trágicos incidentes conhecidos como “Os 67 Massacres de Agosto”,
os Estados Unidos proibiram finalmente o uso e o porte de armas de fogo para
seus cidadãos. A resultante guerra civil gerou também foras da lei amantes do
tiro, que passaram a ver em países distantes oportunidades de usar livre e
apaixonadamente suas armas de fogo. Esses estrangeiros clandestinos foram
batizados pela mídia de “Bandolero Shocks”. Um desses grupos escolheu como
alvo uma pequena e tranquila comunidade no interior do Brasil chamada
Bacurau, em uma missão que se tornou especialmente lendária. Naquela época,
essas incursões não eram vistas como “atos de terror”, mas como “provas de
desafio”.
CORTA PARA:
2. SEQ. ESPAÇO — VFX
SILÊNCIO. No espaço, as estrelas. Numa PAN à esquerda, revelamos o planeta
Terra bem próximo. Um satélite de comunicação desliza suavemente da
esquerda para a direita. Ao fundo, as Américas. Ruídos incompreensíveis de
comunicação discretos e baixinhos na trilha sonora, o satélite está ativo. Um
ZOOM delicado nos aproxima do Brasil, mais especialmente do Nordeste
brasileiro e do oeste de Pernambuco.
FUSÃO/DISSOLVE
3. INT. CAMINHÃO-PIPA/ RODOVIA — DETALHE/ CLOSE-UP — DIA
TERESA dorme. CLOSE-UP fechado no rosto dessa jovem mulher negra. Sono
inquieto, rosto espetacular. O ruído de um veículo em viagem na estrada.
Janelas abertas.
CORTA PARA:
3A. EXT. RODOVIA/ ASFALTO — DIA
Acompanhamos de frente em CÂMERA CAR um caminhão-pipa que atropela
violentamente um caixão de defunto de madeira na rodovia esburacada. O
caixão gira brutalmente fora do quadro no asfalto velho.
3B. INT. CAMINHÃO-PIPA/ RODOVIA — CÂMERA GRIP — DIA
Teresa acorda de sobressalto, CÂMERA GRIP apontando do para-brisa.
TERESA (Assustada.) O que foi isso?
Erivaldo, motorista do caminhão-pipa, aponta para a frente.
ERIVALDO Olhe pra frente.
3C. EXT. RODOVIA — POV PARA-BRISA — DIA
Na estrada de asfalto, uma subida revela um corpo coberto, e logo depois de
livrar a subida VEMOS ao longe um caminhão virado.
CORTA PARA:
3D. INT. CAMINHÃO-PIPA — CÂMERA GRIP
Planos de reação de Erivaldo e Teresa.
3E. EXT. RODOVIA — GRUA ZOOM — DIA
Abrimos o plano em ZOOM OUT para revelar aos poucos um caminhão
virado, sua carga de caixões baratos de defunto espalhada no asfalto e sendo
pilhada por algumas pessoas. Dois carros de passeio com malas abertas
recebem caixões. PULL BACK e ZOOM OUT estabilizam a cena na rodovia, e no
mesmo plano um ZOOM IN nos leva ao aclive na estrada de onde vem o
caminhão-pipa.
3F. INT. CAMINHÃO-PIPA — CÂMERA GRIP PARA-BRISA — DIA
Teresa e Erivaldo reagem à cena na estrada.
4. EXT. RODOVIA — POV PARA-BRISA — DIA
Uma PAN à direita e à esquerda com o caminhão em movimento mostra
pessoas levando caixões na cabeça e outras carregando uma caminhonete
Toyota com outros caixões.
5. INT. CABINE CAMINHÃO-PIPA — POV/ PAN EM MOVIMENTO/ CÂMERA CAR —
DIA
Teresa está observando a estrada e percebe que ali há um parque aquático
abandonado, com tobogã alto, escorregadores e piscinas vazias, um lugar
seco esperando ruir.
TERESA E esse parque aí? Eu sempre achei que isso num ia
dar certo.
ERIVALDO Isso aí foi gaia.
TERESA E foi? Achei que foi a merda toda que aconteceu.
ERIVALDO Também. Mas, antes disso, foi muita gaia.
CORTA PARA:
6. EXT. PARA-BRISA CAMINHÃO — DIA
Teresa no passageiro, Erivaldo dirigindo. No sistema de navegação, surgem
as fotos de três homens com a palavra PROCURADOS.
TERESA (Olhando para a mensagem na tela.) Tão procurando
Lunga, eu gostava dela.
ERIVALDO Aquela ali é os pés da besta. Sempre foi. Tem
recompensa e é boa.
TERESA
Não conte comigo pra entregar Lunga.
ERIVALDO Nem comigo… Nem se eu soubesse onde ela tá.
(Falando com o sistema de navegação.) Toca “Sapato
velho”…
Na tela, a imagem dá lugar à informação: “Sapato velho — Roupa Nova”.
Faixa toca no interior do caminhão. Erivaldo aumenta a música. Ele olha
para Teresa. Teclados lindamente datados, letra berrando.
ERIVALDO E esse jaleco? Esquenta demais, não?
TERESA (PONTO DE VISTA de Teresa, que observa a ruína
de uma antiga escola na beira da estrada.) Esse jaleco
é proteção.
ERIVALDO Tô entendendo. Tu sois muito bonita, Teresa.
TERESA Tá me paquerando, Erivaldo?
ERIVALDO Tô não.
7. EXT. RODOVIA — CÂMERA CAR — DIA
A traseira do caminhão-pipa, que abandona a rodovia e entra numa estrada
de terra. Música toca.
8. EXT. CÂMERA GRIP PARA-BRISA — DIA
Teresa no passageiro, Erivaldo dirigindo, estrada dura, a música continua.
ERIVALDO Deixa eu te mostrar uma coisa aqui perto.
TERESA Acho que eu já sei o que é. Tem que ser rápido, eu
preciso chegar logo lá.
9. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
Um segundo plano em que o caminhão sai da estrada de terra e toma um
terceiro caminho secundário, ainda mais surrado.
10. EXT. ESTRADA DE TERRA/ MIRANTE — DIA
O caminhão-pipa chega a um ponto alto de colina e estaciona. Desliga a
música. Trazendo um binóculo, Erivaldo sai da cabine e anda com Teresa até
a ponta de um mirante, de onde podem ver o canal de transposição da água
do rio São Francisco. Percebe-se que a água está interrompida por uma
pequena represa provisória a uns 350 metros de distância, guardada por um
acampamento formado por tendas, carros e homens. A água corre até a
barreira. A partir da represa, o canal de concreto continua seco. A imagem é
clara: há uma interrupção artificial no fluxo da água.
TERESA Que bando de filho da puta.
ERIVALDO (Olha pelo binóculo.) Pra eu pegar água, tem que ser
cinco quilômetros pra trás. Eles não deixam. Essa
equipe é nova, Lunga e o bando dela atacou faz
cinco meses, matou três e conseguiu liberar água.
Depois a empresa do governo veio e taparam de
novo. E aumentaram o preço pela cabeça de Lunga.
Ele passa o binóculo para Teresa.
10A. EXT. DETALHE — POV BINÓCULO/ ACAMPAMENTO REPRESA — DIA
Um homem no acampamento parece perceber o caminhão-pipa na colina.
TERESA (O ) Tem um cara que parece que viu a gente.
(Assustada.) Ele tem uma arma…
Teresa afasta-se instintivamente, com binóculo ainda no rosto.
O homem atira para cima. Outros homens surgem atrás do primeiro.
TERESA Que escroto.
ERIVALDO Vamo’ embora. Eles tão cabreiro depois do que
aconteceu.
CORTA PARA:
11. EXT. IMAGEM ALTA DE ESTRADA DE TERRA — DIA
À distância e do alto, uma nuvem de poeira numa estrada de terra. É o
caminhão-pipa a caminho de Bacurau. Ouvimos o silêncio da paisagem, o
ruído do caminhão-pipa é percebido ao longe.
12. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
O caminhão-pipa atravessa um mata-burro onde se vê uma cerca de pedra.
Pendurada na cerca, uma placa: BACURAU 17 KM — SE FOR, VÁ NA PAZ.
12A. EXT. ESTAÇÃO DE TREM — DIA
O caminhão passa pela estação de trem abandonada de Bacurau.[full06]
13. EXT. BAR DA ESTRADA — DIA
O bar/venda isolado, a um quilômetro de Bacurau. Do terraço, DARLENE e
OSIAS, os proprietários do bar, e mais um terceiro homem que está sentado
em uma mesa. Pela posição estratégica, eles sabem quem chega e quem sai da
pequena comunidade. Osias conserta o telhado, Darlene sai de dentro da
casa. O homem na mesa acena para o caminhão que está passando na
estrada.
14. INT. CABINE DO CAMINHÃO-PIPA — DIA
ERIVALDO Ah, se toda gaia fosse assim…
TERESA Tu só fala em gaia.
15. INT. PARA-BRISA DO CAMINHÃO — DIA
Uma última curva na estrada de terra revela Bacurau.
ERIVALDO (O ) É a gaia que faz o mundo moer.
16. EXT. BACURAU — DIA
Bacurau é um povoado pequeno e digno, com uma rua central semicoberta
de areia, ladeada por casas modestas dos dois lados, uma igreja católica e
outra evangélica e uma escola no limite da comunidade. Cisternas brancas
marcam alguns pontos. A comunidade está totalmente deserta. O caminhão-
pipa aproxima-se de uma árvore e para, envolto numa nuvem de poeira.
16A. EXT. RUA PRINCIPAL — DIA
Teresa anda com a mochila e a mala vermelha. Ela despe o seu jaleco branco
e o guarda na bolsa.
TERESA Erivaldo, muito obrigada. Tu vai dar uma passada lá?
ERIVALDO Vou. Valeu. Vá indo.
Erivaldo vai puxando a mangueira de água para a cisterna. Teresa, com o
caminhão-pipa ao fundo, arrasta a mala vermelha, a mochila no ombro. O
ruído das rodinhas da mala no chão de terra.
17. EXT. RUA PRINCIPAL — DIA
A imagem dessa mulher jovem na rua estranhamente deserta de Bacurau,
arrastando sua mala vermelha de rodinhas em direção ao centro do povoado.
Ao olhar para a janela de uma casa, ela percebe uma senhora magra, vestida
de preto, que desaparece ao ver Teresa, batendo a janela grosseiramente. A
senhora chama-se DOMINGAS. Teresa chega no largo da igreja e passa pelo bar
Passo e Fico, que está deserto. Algumas mesas têm sobras de comida e
bebida. Há uma arcada dentária de tubarão no design do segundo O de
“Passo e Fico”. DAMIANO, homem alto, forte, sexagenário, que arruma suas
ervas, rolos de fumo, maconha, xaropes e unguentos, é um pequeno
comerciante local, praticante de coisas verdes com um ar implícito de xamã.
Pronto para partir na sua motocicleta, que puxa um bagageiro com duas
rodas frouxas, ele vê Teresa aproximar-se.
TERESA Damiano.
DAMIANO Toma isso aqui antes de ir pra lá.
Sem nenhuma cerimônia, Damiano enfia na boca de Teresa uma sementinha.
Ela imediatamente engole com um sorriso.
TERESA Me dá outra?
DAMIANO (Com olhar experiente.) Nãããooo…
TERESA Eu sei… Tu vai pra lá?
DAMIANO Carmelita sabe de tudo. E tu sabe que eu sei muito
dela. Vai-te embora, estão te esperando.
TERESA Tu é muito bom, Damiano.
DAMIANO Eu sou.
Teresa dá um beijo na bochecha de Damiano.
CORTA PARA:
18. EXT./INT. FACHADA E SALA CASA DA FAMÍLIA DE TERESA — DIA
Teresa anda puxando a mala. Ela aproxima-se de uma multidão na frente de
uma casa. A comunidade em peso parece estar ali. Ao fundo, Darlene, Osias
e o terceiro homem do bar chegam juntos numa única moto. Teresa entra na
casa abrindo espaço entre as pessoas para chegar ao velório de sua avó, DONA
CARMELITA. O caixão está aberto na sala de estar, cercado por duas dezenas
de familiares e amigos. Na parede esquerda, uma estante abarrotada de
livros. Uma senhora dobra lenços brancos, arrumando-os sobre uma mesa.
Teresa é cumprimentada por muitos. PLÍNIO, pai de Teresa, recebe a filha
com um beijo. Ele pega a mala vermelha e leva para dentro da casa,
negociando a passagem numa casa lotada.
19. INT. COZINHA CASA DE TERESA — DIA
O som do velório continua (OFF/OS). Plínio abre a mala vermelha e de
dentro tira um estojo refrigerado, com remédios e soros, e um aparelho
branco conectado a cabos de fibra ótica muito finos.
20. INT. SALA CASA DE TERESA — DIA
Sentada à beira da cama, Teresa despede-se da avó com a mão repousada no
rosto negro dela. Três velhos ali ao lado vestidos de preto, dois deles
segurando chapéus, choramingam a passagem de Carmelita. Começam os
preparativos para o início do cortejo e Teresa, Plínio, primos e tios levantam
Carmelita segurando pontas do lençol. CARRANCA, homem de 50 anos ou
mais, repentista, óculos escuros e chapéu, dedilha uma textura musical
delicada. De repente, em OFF, lá fora:
DOMINGAS (O ) BRUXA NOJENTA! RAMEIRA SAFADA…
Teresa levanta-se e vai em direção à janela, onde outras pessoas tentam ver o
que se passa.
20A. EXT. CASA DE TERESA — POV JANELA — DIA
Domingas em pé em cima de uma cadeira, cercada por dezenas de pessoas
na área externa, discursa contra a falecida do alto da sua voz.
DOMINGAS
JÁ VAI TARDE, DESGRAÇADA, BUCETA DE
ÉGUA!! AFOLOZADA! AGORA EU QUERO
VER TU FAZER GRAÇA PROS OUTRO’,
Á É Ó
SATANÁS DE RABO, MISÉRIA DA BEXIGA! SÓ
FEZ O MAL, PESTE!
IZA, uma mulher forte, 50-60 anos, vai em direção a Domingas e pede
pacientemente para que ela desça da cadeira. Domingas continua o
fuzilamento incoerente, apoiando-se no ombro da companheira. Iza fala com
firmeza com Domingas, querendo forçar com tranquilidade a descida de
Domingas da cadeira.
DOMINGAS (Para Iza.) Tu é outra nojenta… (Gritando para a casa
de Teresa.) VAI QUEIMAR NOS QUINTO’ DOS
INFERNO’, PINIQUERA!!!
Iza aumenta a firmeza e fala baixo, mas brava com Domingas, de forma que
não ouvimos.
IZA Deixa disso, Domingas, tu bebeu.
DOMINGAS (Para Iza.) BEBI, SIM! E AQUELES TRÊS
BUNDA-MOLE LÁ DENTRO? JUNTANDO OS
TRÊS, NÃO DÁ UMA CARMELITA!
IZA Agora tá falando bem da falecida, vamo’ que hoje à
noite tu já vai tá arrependida.
Iza consegue tirar Domingas da cadeira e vai puxando-a com um abraço,
levando a companheira por entre as pessoas, que se afastam para o casal
passar.
DOMINGAS EU QUERO VER SE NO MEU ENTERRO VAI
DAR TANTA GENTE, MINHA AMIGA
CARMELITA! TEM MUITO AMOR NESSA
RAIVA, BRUXA VELHA! ESTRELA DE
PROVÍNCIA! MULHER SUPERLATIVA,
AQUELA NOJENTA!! CARMELITA RAPARIGA
DO BEM E DO MAL!!!!! NOJENTA DESGRA…!!!
Planos de reação de Plínio, de pessoas que observam. Algumas riem, outras
ficam com raiva. O fuzilamento verbal de Domingas atrai os olhares de
todos.
Teresa e Plínio, que estão na janela, observam.
PLÍNIO (Falando baixo.) Vai descer o cacete…
TERESA (Falando mais baixo ainda.) Resgate feito.
Pessoas manifestam-se contra a performance de dra. Domingas, alguns
reclamam discretamente, a maioria reprova. Iza puxa-a pelo braço levando-a
para longe dali. A mão de Iza tapa a boca de Domingas como um
desentupidor de pia. Ela continua arrastando Domingas numa nuvem de
poeira, pernas e braços rumo ao sol que se põe. Plínio, da varanda, levanta a
mão para chamar a atenção dos presentes.
PLÍNIO (Olhando para Domingas sendo afastada ao longe.)
Aproveitando a participação de Domingas, que tá
visivelmente emocionada, eu também quero falar
sobre a minha mãe, Carmelita. Carmelita teve filho,
neto, bisneto, tataraneto, afilhado, teve muitos
amigos. Na família, tem de pedreiro a cientista, tem
de professor a médico, arquiteto, michê e puta.
Agora, ladrão ela não gerou nenhum. Tem gente em
São Paulo, na Europa e Estados Unidos, tem gente
na Bahia, Minas Gerais e Recife…
Muita gente não conseguiu vir hoje aqui por causa
dos problemas na nossa região, mas muita gente
manda ajuda pra gente, muita gente manda ajuda pra
Bacurau, e essa é a maior prova de que Carmelita e
Bacurau estão em todos eles.
Obrigado, vocês, obrigado, minha filha Teresa,
que veio do Recife ficar com a gente esses dias.
Muito obrigado a todos, e viva Carmelita!
Salva de palmas.
CORTA PARA:
Í
21. EXT. FACHADA CASA DA FAMÍLIA DE TERESA — DIA
O cortejo fúnebre sai pela porta da casa, a multidão abre espaço. O caixão
carregado por três homens, Teresa e sua irmã caçula, MADALENA. Um
personagem importante na cerimônia de despedida de Carmelita é PACOTE,
homem de 35-40 anos. Ele espera o cortejo começar enquanto observa
Teresa. Estacionado na rua, um pequeno carro de som com luzes LED roxas e
a voz masculina de DJ URSO, que ecoa por toda a Bacurau. Uma tela grande
de vídeo mostra e celebra uma fotografia de Carmelita, sorridente. “Dona
Carmelita.”
DJ URSO (Via alto-falantes.) Boa tarde, amigos de Bacurau,
começa agora o cortejo de despedida de dona
Carmelita… Dona Carmelita, que viveu 94 anos pra
contar a história. Dona Carmelita foi uma figura de
muita importância na nossa comunidade e reúne aqui
praticamente toda a Bacurau… Hoje é dia de celebrar
essa vida no momento da sua passagem. E como é de
costume, vou deixar vocês com o som do sr. Sergio
Ricardo…
O pequeno carro de som põe para tocar alto “Bichos da noite”, de Sérgio
Ricardo. A pequena multidão canta, um musical lento e fúnebre no trajeto
do caixão. A voz de Sérgio Ricardo parece tomar Bacurau por inteira:
TODOS “São muitas horas da noite,
São horas do bacurau,
Jaguar avança dançando,
Dançam caipora e babau,
Festa do medo e do espanto,
De assombrações num sarau,
Furando o tronco da noite,
Um bico de pica-pau…”
22. EXT. CEMITÉRIO — ENTARDECER
Contra um céu laranja e púrpura espetacular, a pequena comunidade
despede-se de dona Carmelita numa pequena colina no cemitério. Teresa
acompanha ao lado do pai, Plínio, e da irmã, Madalena, uma garota de 17
anos. Teresa, talvez sob o efeito da sementinha de Damiano, olha um tanto
fascinada para o caixão e o VÊ vibrando fortemente (ATENÇÃO: caixão não
chacoalha, ele vibra), com uma quantidade grande de água escorrendo pela
tampa. Ela se vira para Madalena, que está com olhar ausente. Todos no
cortejo passam a abanar lenços brancos, o ruído de uma centena de panos ao
léu é bonito, como pássaros batendo as asas. O ritual termina contra o céu
crepuscular, o caixão sendo baixado no túmulo.
FADE OUT.
FADE IN.
23. EXT. ESTRADA — PL. GERAL DISTANTE — AMANHECER
Um comboio de duas caminhonetes, um caminhão e um trailer vem pela
estrada de manhã cedo, levantando poeira. São os feirantes vindo montar a
feirinha em Bacurau. Uma das caminhonetes puxa um trailer branco de
quatro rodas, antigo. Ao longe, Damiano vem de moto puxando seu
bagageiro de duas rodas. O comboio de veículos maiores o ultrapassa e o
deixa comendo poeira. O comboio passa por casa em ruínas, filmamos de
dentro.
23A. EXT. ESTRADA — RECUO + TRAV. LATERAL — AMANHECER
Recuamos em ângulo baixo, mostrando os veículos do comboio, que dobram
à direita, do lado da igreja, exceto o último integrante do comboio, que pega
à esquerda, vindo em direção à câmera.
24. EXT. FEIRA — DIA
A montagem da feira. Homens carregam caixotes de verduras, pedaços
grandes de boi, porco e bode, engradados de mel, fardos de grãos, cestos
com ervas, maconha e temperos. Há também pedaços de tecnologia:
aparelhos de segunda mão, monitores antigos ou de vidro transparente,
comunicadores, placas e cabos. Damiano arruma seu tabuleiro de produtos
da terra.
25. EXT. RUA SECUNDÁRIA — DIA
O trailer é estacionado em um espaço discreto, atrás de uma das casas, fora
da rua principal. Conexões de água e eletricidade já estavam à espera,
preparadas pela proprietária da casa, uma senhora de 60-70 anos. De dentro
do trailer saem duas mulheres e um homem (SANDRA, DEISY e ROBSON),
idades entre 20 e 45. A motorista é a MADAME. São profissionais do sexo que
armam sua barraca. Uma senhora sentada em uma cadeira observa os
visitantes.
26. EXT. FUNDOS DA ESCOLA — GRUA — DIA
Um ônibus escolar amarelo abandonado toma todo o quadro retangular
(2.39:1 Scope). Vidros intactos, mas tomados por poeira, manchas e
arranhões. No interior, plantas e verde, uma horta maravilhosa com forte
umidade. A lataria com a palavra ESCOLAR está coberta por ferrugem e
equilibrada em apoios de ferro, sem pneus.
26A. EXT. FUNDOS DA ESCOLA — PLANO DE GRUA — DIA
Câmera sobe, livra o ônibus e a escola para uma geral de Bacurau. ZOOM ao
longe revela um comboio de cinco motos e um tuk-tuk estilo indiano vindo
na estrada, por volta de oito da manhã.
27. EXT. ESTRADA — CÂMERA CAR — DIA
Cinco motos em baixa velocidade chegam a Bacurau, guiadas por homens e
mulheres, cada moto traz três ou quatro crianças. Cada criança carrega como
pode suas mochilinhas. As motos têm motores elétricos e fazem pouco
barulho para além dos pneus na estrada e sistemas de suspensão. No final do
comboio, um carro de golfe antigo e sujo, dirigido por uma senhora, traz
mais cinco crianças.
28. EXT. FACHADA DA IGREJA — DIA
Pacote abre a porta da frente da pequena igreja de Bacurau, que serve de
depósito para objetos grandes e pequenos: um almoxarifado. Ele retira duas
carteiras escolares feitas de madeira e metal e sai.
28A. EXT. TRAILER — TRAVELLING/PLANO (TRILHOS) — DIA
Deixando o trailer, Sandra e Robson vêm andando pelo beco para começar
os trabalhos na rua principal. Percebe-se que os dois são colegas e que se
gostam, se respeitam. Sandra tem 20 e poucos anos, Robson, seus 30. Os
dois vestem um tipo de robe de seda barata. Fazem um trottoir ligeiramente
descarado, ela mistura uma andada natural com o andar de quem está em
serviço. Do outro lado da rua, em paralelo, também anda Robson. O ritual é
ensaiado e, à certa altura, Sandra abre o robe e mostra o corpo totalmente nu
para Robson, do outro lado da rua. Robson faz o mesmo, seu nu frontal
momentâneo visto por outras pessoas e possíveis clientes. Recuamos e
enquadramos à distância Pacote, que vem andando com as duas carteiras
escolares, uma em cada mão. Ele chega numa casa de porta e janela.
29. EXT. MUSEU — DIA
Iza abre a porta da frente do Museu de Bacurau, uma casa simples de porta e
janela pintada de branco. Ela abre também a janela que dá para a rua. Na
fachada, MUSEU HISTÓRICO DE BACURAU. (ATENÇÃO: A câmera mostra apenas
a fachada, não entramos no museu.)
30. EXT. BACURAU — PL. GERAL — MANHÃ
Uma matilha de cães vira-latas move-se pela rua central.
31. EXT. AMBULATÓRIO — DIA
Pela janela do pequeno ambulatório, com balança e cartaz de vacinação,
VEMOS dra. Domingas, com jaleco branco, recebendo uma mulher com
menos de 20 anos. Ela a examina.
MULHER Dor de cabeça, querendo vomitar, vontade de
morrer…
DOMINGAS Tu ’tás de ressaca. Continue vomitando, beba água,
vomite mais.
32. INT. SALA E COZINHA DA CASA DE TERESA — DIA
Pacote aproxima-se da casa de Carmelita. Os carpideiros do enterro estão na
sala com amigas da morta, dobrando roupas em sacolas. Teresa está na
cozinha tomando café com Madalena. Pacote chega e senta-se à mesa.
TERESA Bom dia, Pacote.
PACOTE É Acácio. Bom dia.
TERESA “Acácio”? Ah… muito bom… Desde criança que tu é
Pacote.
PACOTE/ACÁCIO (Apontando para a sala.) Acácio… São as roupas de
dona Carmelita?
MADALENA (Rindo leve.) São, Acácio… A gente vai distribuir.
33. INT./ EXT. COZINHA E TERRAÇO CASA DE TERESA — DIA
Teresa e Madalena tomam café da manhã com Pacote. Plínio empacota
alguns objetos em caixas na área externa da casa.
TERESA Pacote é engraçado.
PACOTE Não. Acácio.
Madalena ri.
TERESA Não veio ninguém de Serra Verde ontem pro enterro
de vóinha?
PACOTE E por que viria? Aquela cidade só tem filho da puta.
TERESA Entendi… E tu ’tais tranquilo?
PACOTE Tô tranquilo.
Plínio ouve a conversa, levanta-se da bancada e põe a cabeça na porta da
cozinha.
PLÍNIO E aquela história em Serrita, não foi tu, não?
ACÁCIO Seu Plínio, aquilo… foi outra coisa…
Pausa.
MADALENA Tás sabendo que tem uma coleção dos teus “Maiores
Sucessos” circulando?
ACÁCIO Tô sabendo, eu já vi. Não dá pra me reconhecer em
nenhuma imagem. E tem uma que não sou eu, tô
levando crédito de graça.
Teresa observa.
33A. INT. COZINHA CASA DE TERESA — DETALHE EMBAIXO DA MESA — DIA
Mão de Teresa belisca delicadamente a perna de Acácio.
33B. INT./ EXT. COZINHA E TERRAÇO CASA DE TERESA — DIA
MADALENA Só não reconhece quem não te conhece. (Risos.)
Á
ACÁCIO
Tu viu, foi, menina?
MADALENA Vi.
PLÍNIO Veja essas coisa’ não, Madalena.
MADALENA Todo mundo viu, pai.
Mudando de assunto.
PACOTE E o negócio lá no enterro ontem, com dra.
Domingas?
TERESA Bacurau era pequena pras duas.
PLÍNIO Dra. Domingas não podia com Carmelita, agora
ninguém pode com dra. Domingas.
MADALENA A mulher dela pode.
34. EXT. FEIRA — DIA
Iza compra carne, separa a peça escolhida com as mãos, enquanto o
vendedor põe na balança. Atrás de Iza, mulher passa segurando três bacurins
pelas patas (com os couros marcados por linhas pontilhadas indicando áreas
de corte). Domingas está calada ao seu lado, Iza percebe do outro lado da
rua o michê Robson, encostado numa casa, disponível.
35. EXT. RUA — POV IZA — DIA
Robson olha, com leve sorriso.
36. EXT. FEIRA — DIA
Iza devolve o olhar enquanto paga ao feirante, que vê a marca de uma arcada
dentária impressa no pulso de Iza. Ele olha para Domingas, que está
distraída, o olhar fixo em Damiano, que também olha para ela do seu
tabuleiro, a 20 metros de distância. Damiano passa 50 gramas de maconha
no nariz, para dizer que está boa. Domingas grita para ele:
DOMINGAS Eu vou querer!
Ouvimos DJ Urso ao fundo, no sistema de som.
DJ URSO
Paulo Roberto, Jade tá pedindo que responda, é só 200
metros mas o recado é para que você ligue o diacho do
aparelho e responda a Jade. Atenção, Paulo Roberto,
responda a Jade…
37. EXT. BACURAU — CARRO DE SOM — DIA
As sacolas de roupas estão no chão perto de DJ Urso, que mexe nelas. Teresa
está ao seu lado com o microfone na mão. Pacote observa de longe.
TERESA Eu trouxe aqui pra quem quiser vir pegar todo o
guarda-roupa de nossa querida Carmelita, minha
avó. É de graça, roupa boa, bonita… É só vir buscar
aqui com DJ Urso…
Teresa volta-se para DJ Urso.
TERESA Obrigada, Amaury.
CORTA PARA:
38. EXT. BACURAU — DIA
Teresa, Madalena e Pacote/Acácio seguem andando em direção à escola. DJ
Urso olha para Domingas, que lhe dá um olhar de seca-pimenta.
39. EXT. CÉU AZUL — DIA
Um avião comercial a 11 mil metros de altura deixa um rastro branco no céu
azul.
PLÍNIO (O ) Todo dia, menos terça-feira, esse avião passa por
aqui…
40. EXT. PÁTIO DA ESCOLA — DIA
No pátio da escola, o professor Plínio e sua turma olham para a câmera, que
está a cerca de 8 metros de altura em SUPER PLONGÉE. Crianças, meninos,
meninas e jovens adolescentes. Alguns evitam o brilho do sol com a mão no
rosto. Plínio aponta um tablet transparente com o vidro rachado (um
esparadrapo branco sujo parece segurar a falha numa das bordas) para o céu.
RIVANILDO e JÉSSICA, os alunos mais interessados da turma, estão ao seu lado
vendo tudo de perto.
PLÍNIO De São Luís pra São Paulo. Velocidade de cruzeiro,
uns 850 quilômetros por hora. Onze quilômetros de
altura, que dá quanto em metros?
JÉSSICA Onze mil… metros.
40A. INT. SALA DE AULA 2 — ESCOLA — DIA
Chegam Pacote e Teresa trazendo as carteiras escolares. Eles entram na sala
adjacente, onde ÂNGELA dá aula a uma segunda turma. Madalena junta-se à
turma. Ângela, mulher jovem, acena para Pacote.
40B. EXT. PÁTIO DA ESCOLA — DIA
RIVANILDO Como o senhor sabe da velocidade?
PLÍNIO A velocidade de cruzeiro de jato comercial fica entre
850 e 900 quilômetros por hora. Esse avião está em
cruzeiro.
RIVANILDO Professor, quantos quilômetros daqui pra São Paulo?
Plínio entrega o tablet para o menino.
PLÍNIO Procure e me diga.
O garoto atrai mais três colegas e num grupinho passam a pesquisar, fazendo
sombra na tela.
MENINO 2 O senhor já andou de avião?
PLÍNIO Eu já.
RIVANILDO Eu quero andar de avião.
PLÍNIO Você vai andar de avião.
O garoto com o tablet na mão dirige-se ao seu professor:
MENINO 4 Professor, tem Água Rara, mas aqui… ó… não tem
Bacurau…
Plínio aproxima-se.
PLÍNIO Ah, é? Mostra aí.
Plínio toma o tablet e observa a tela usando a outra mão para fazer sombra.
Ele manuseia a tela.
CORTA PARA:
41. INT. SALA DE AULA — DIA
A turma migra para a sala de aula, Plínio lidera. Livros em estantes nas
paredes, desenhos, um monitor de TV e um globo terrestre. Uma TV ultrafina
de 55 polegadas OLED e com linhas verticais de pixels mortos próximo ao
quadro negro. Plínio digita no teclado, a caixa de pesquisa na tela:
41A. INT. DETALHE TELA — DIA
BACURAU, PE. E recebe: RESULTADO NÃO ENCONTRADO.
PLÍNIO Não tá aparecendo…
Plínio digita: “SERRA VERDE, PE”. E a tela da TV ganha vida, com o mapa
colorido. A mão de Plínio vai puxando o mapa para o oeste…
41B. INT. SALA DE AULA — DIA
A turma observa, meninos e meninas.
PLÍNIO Mais pra cá… deve estar aqui…
O mapa segue à direita e estaciona. E volta. Plínio não parece encontrar o
que procura.
PLÍNIO Era pra estar aqui.
Dois meninos se empurram rindo, fazendo barulho.
PLÍNIO Presta atenção. Vocês estão em aula…
Plínio olhando para a tela, continua procurando Bacurau.
PLÍNIO Vou sair de “mapa” pra entrar em “satélite”… Agora
vai…
Os rostos das crianças observam o professor Plínio procurando Bacurau no
mapa. Teresa e Pacote observam da entrada da sala de aula.
41C. INT. DETALHE TELA — DIA
A foto do satélite mostra a caatinga… e nada mais.
41D. INT. SALA DE AULA — DIA
Plínio parece não entender.
RIVANILDO Não tem que pagar, não, pra aparecer no mapa?
PLÍNIO Pagar nada, olha a gente aqui no mapa…
Plínio pega um rolo longo de papel no cesto de mapas e rapidamente abre
um desenho artístico ilustrativo da comunidade, um mapa analógico e
afetivo de Bacurau.
PLÍNIO Aqui… Bacurau está no mapa.
42. INT. DETALHE MAPA DE PAPEL DESENROLADO — DIA
Mapa técnico de Bacurau em tons lindamente manuais.
CORTA PARA:
43. INT. SALA CASA DE DOMINGAS — INSERT FOTO — DIA
Uma foto de Domingas e Carmelita, as duas usam um vestido idêntico azul-
claro. Com o som de Iza trepando com Robson no quarto ao lado, Domingas
retira as roupas das sacolas e faz uma montanha na sua cama. Ela as revira
procurando algo e encontra um vestido azul-claro, o mesmo da foto. Ela sai
do quarto com o vestido na mão, anda pelo corredor e chega ao segundo
quarto da pequena casa, que está com a cortina entreaberta, onde VEMOS Iza,
de saia, sentada em Robson (deitado), gemendo, enquanto é comida com
força. Domingas olha para a companheira trepando, mas Iza, de olhos
fechados, nem percebe. Robson, apoiado nos cotovelos na cama, olha para
Domingas.
44. INT. QUARTO CASA DE DOMINGAS — DIA
De volta ao quarto de casal. Domingas abre a porta do guarda-roupa e retira
a sua cópia do vestido. Ela compara os dois. Os gemidos de Iza ao fundo.
45. EXT. ESTRADA — POV BAR — TELEFOTO ZOOM — DIA
Um comboio de veículos vindo na estrada numa nuvem de poeira. Um
caminhão tem tela de LED ULTRACLARO com imagens em movimento de um
homem sorridente. Uma 4×4, uma van e um caminhão-caçamba vêm atrás.
ZOOM OUT.
46. EXT. BAR DA ESTRADA — DIA
ZOOM OUT revela que é Zezinho, no bar, quem observa o comboio do posto
de observação oficial de Bacurau. Ele vira-se e grita:
ZEZINHO Darlene! Avisa lá que Tony Jr. tá vindo. Carro, van e
caminhão!
47. EXT. BAR DA ESTRADA — SPLIT DIOPTER SHOT — DIA
Darlene vira (esquerda do quadro) as costas para a carreata (direita do
quadro) que vem vindo e envia mensagem de áudio:
DARLENE O prefeito tá chegando em Bacurau. Devem ’tá aí em
menos de cinco minutos, um carro e dois caminhões.
CORTA PARA:
48. EXT. PRAÇA/ IGREJA/ FEIRA — DIA
DJ Urso está comendo um sanduíche na praça, ouvimos mensagem enviada
por Darlene já saindo pelos alto-falantes do carro de som:
DARLENE (O ) Tony Jr. chegando em Bacurau. Devem ’tá aí em
menos de cinco minutos, um carro e dois caminhões.
DJ Urso pega seu telefone. Fala no aparelho, sua voz sai no carro de som
estacionado a cerca de 40 metros. Um relincho de cavalo abre a
comunicação. Há movimentação nas ruas.
DJ URSO E atenção, pessoal! Pra quem não ouviu, o prefeito tá
chegando. Todo mundo se organiza, ’tão desembocando
na estrada. Repetindo, temos a informação…
49. EXT. RUAS DE BACURAU — PAN — DIA
Damiano imediatamente começa a guardar suas mercadorias. Uma PAN
revela outro feirante juntando frutas e legumes.
DAMIANO Puta que pariu…
CORTA PARA:
49A. EXT. BAR DA ESTRADA — DIA
Darlene e Osias observam carro, caminhão-baú e caminhão-caçamba
passando na frente do bar, rumo a Bacurau. Carreata passa com o jingle
“Tony Silva, é Tony, é Tony, É Tony 251!”, uma massa sonora móvel de
estremecer a terra.
CORTA PARA:
49B. EXT. BACURAU — CÂMERA GRIP — DIA
Tony Jr., no assento de passageiro, óculos escuros, bem-vestido, 30 e poucos
anos. Bem-humorado, combinando com o ruído do jingle lá fora em alto
volume. Tony está em campanha e Bacurau é uma das paradas previstas
naquele dia. O motorista é o assessor; no banco de trás, um homem e uma
mulher, assessores, os dois evangélicos, na roupa e estilo. Pelo vidro traseiro,
VEMOS o caminhão-baú e o caminhão-caçamba acompanhando. Os veículos
param.
49C. EXT. BACURAU — PL. FECHADOS — DIA
A porta do carro, com o adesivo PREFEITURA DE SERRA VERDE, se abre. Tony
sai do carro e avança. Assessora vem atrás. Em PLANO MÉDIO, olha ao redor.
O caminhão e a van o esperam com motores ligados. Os assessores do banco
de trás saem. Tony manda cortar o som do jingle, o som para, deixando
apenas o ruído rural de uma Bacurau deserta.
ASSESSORA (Para Tony.) Cadê o povo?
49D. EXT. BACURAU — PLANO DE GRUA (HIGH NOON) — DIA
Tony vira o rosto. Como em High Noon, um PLANO DE GRUA começa em
PLANO MÉDIO em Tony Jr., afasta-se dele para trás… para trás… e sobe… sobe…
sobe… assumindo altura cada vez maior, revelando que Tony Jr., prefeito de
Água Rara, está sozinho, sem ninguém na rua de Bacurau. No mesmo plano,
o caminhão-baú passa devagar pelo político rumo à igreja, os telões de LED
mostrando imagens publicitárias SEM SOM de Tony Jr., candidato à reeleição
de Serra Verde. Com as mãos na cintura, Tony vira-se e manda um assovio
OFF-SCREEN para o caminhão-caçamba, que aguarda lá atrás.
49E. EXT. BACURAU — DIA
A traseira do caminhão em primeiro plano aciona a marcha a ré,
manobrando e aproximando-se da frente da escola. A assessora registra a
ação em vídeo com dispositivo móvel.
CORTA PARA:
50. EXT. TOPO DA CAÇAMBA — DIA
Milhares de livros, suas capas tremulando ao vento, o caminhão dá ré em
direção à escola.
51. EXT. FRENTE DA ESCOLA — DIA
O motorista aciona o mecanismo de despejo da caçamba e uma montanha de
livros escorre para o chão junto ao portão da escola, o ruído de uma
biblioteca sendo demolida. Milhares de livros velhos, corroídos por cupim,
umidade, muitos em bom estado para um sebo. O caminhão deixa os livros e
a caçamba volta à posição normal. Tony Jr. acena para o assessor, que lhe traz
um megafone. Ele anda na rua principal, desfilando para ninguém.
52. EXT. BACURAU — TRAVELLING — DIA
TONY JR. (Voz megafone.) Alô, alô. Bom dia a [Link] sei que
vocês estão aí… me ouvindo… eu sei que já tivemos
nossas diferenças. Mas hoje eu tô aqui de coração
aberto, eu estou trazendo só coisa boa, livros para a
escola, que é a melhor biblioteca dessa região, não é
mesmo, Ângela? A biblioteca do seu Plínio, da
professora Ângela. E eu trouxe donativos também,
comida, remédios, caixão… Eu estou aqui para cuidar
de vocês, com a força de Deus.
CORTA PARA:
53. EXT. INSERT — BACURAU — DIA
A certa distância, perto da igreja, homens tiram carga do caminhão-baú.
Dois dos assessores tomam a direita, parecem atraídos por alguma coisa. Na
rua, cestas básicas, caixas de remédios, dois caixões de defunto que parecem
preocupantemente idênticos aos do acidente com o caminhão na abertura do
filme.
54. EXT. BACURAU — TRAVELLING — DIA
TONY JR. (Voz megafone.) A eleição, claro, está vindo aí, vamos
trabalhar juntos outra vez. Eu estou pleiteando uma
reeleição, e vamos nos unir. Eu queria até coletar umas
retinas, estou com a maquininha aqui de leitura, que é
para facilitar a vida de quem não puder ir no dia.
Tony mostra o leitor óptico-digital.
55. EXT. BACURAU — MONTAGEM — DIA
Espaços vazios, silêncio. De repente, uma voz feminina ao longe, em alto e
bom som.
UMA VOZ EM E a situação da represa, fila da puta?
BACURAU
56. EXT. BACURAU — DIA
Bacurau vazia, silenciosa, ninguém nas ruas.
TONY JR. (Voz megafone.) Eu estou aqui aberto ao diálogo, e
não vou discutir com gente gritando, tá certo? Ainda
mais de maneira desrespeitosa.
OUTRA VOZ SEM Libera a água!
ORIGEM DEFINIDA
TONY JR. (Voz megafone.) Ah, se a política fosse tão simples…!
Mas vamos conversar, eu estou aqui aberto ao diálogo,
sempre estive.
Um coro de vozes vindas das casas e quintais ganha corpo.
VOZES Mentira!
Á
57. EXT. CASA DE CLÁUDIO — DIA
Uma casa com grade frontal de garagem, estilo classe média urbana,
transplantada para Bacurau. O portão mecanizado abre e de dentro saem
Cláudio, homem de meia-idade, e sua esposa, Nelinha. Ele termina de
colocar terno sem gravata e vai em direção à comitiva de Tony Jr., enquanto
o coro cresce na comunidade.
VOZES (Em sincronia.) Filho da puta! Filho da puta! Filho da
puta!
Tony Silva acena para o caminhão ligar o som.
JINGLE (Alto-falante.) “Tony Silva, é Tony, é Tony, É Tony
150!”
Cláudio e Nelinha chegam.
CLÁUDIO (Gritando por causa do som alto.) Prefeito, só para
trazer meu apoio, eu não concordo com esse
desrespeito com o senhor. O diálogo acima de tudo.
Tamo junto, viu?
TONY JR. Obrigado. A eleição chegando, estamos aí, viu?
Tony gesticula para assessor fazer leitura de retina do casal.
NELINHA (Enquanto leitor escaneia sua retina.) Vamo’ comer
um bolinho lá em casa?
58. DETALHE SUPERFECHADO DO OLHO DE NELINHA, OCUPANDO TODA A TELA,
COM LUZ-SCAN
TONY JR. Obrigado, viu, mas a gente tá na correria…
59. EXT. BACURAU — DIA
Ao som estridente do jingle da campanha, e já chegando perto da igreja,
VEMOS Sandra, a garota de programa, sendo trazida pelo braço por dois
assessores de Tony Jr., sem uso de força mas no estilo “vamos com a gente”.
Ela não parece querer ir com eles. Deisy vem atrás, querendo que eles a
soltem. Robson pega no braço de um dos homens, e outro empurra Robson.
A Madame vem junto. Temos, portanto, um entourage para Sandra.
MADAME Pague adiantado…
DEISY Ela não quer ir não, faz no caminhão, porra.
ASSESSOR 2 Se aperreie não, gordinha, ela vai mas volta.
ASSESSOR 1 Depois ela volta, é rapidinho.
Os homens fazem Sandra entrar no caminhão, os homens entram logo
depois dela, a porta é trancada, Sandra não quer ir. Deisy, Robson e Madame
observam. De dentro da boleia, Sandra controla sua ligeira aflição.
Domingas, vestindo seu jaleco de médica, surge ao fundo, vindo em linha
reta na direção de Tony Jr.
SANDRA Tô sem uma sandália… Pega minha sandália…
Robson pega a sandália no chão e joga dentro da boleia, Tony Jr. sobe no
estribo do caminhão e fala para Madame.
TONY JR. Eu vou pagar. Tá tudo certo, viu? Eu mando por ela.
MADAME Adiantado. Pague agora.
Domingas chega.
DOMINGAS (Para Sandra.) Tu quer ir?
SANDRA … Eu posso ir…
DOMINGAS Seu prefeito, a menina não quer ir, mas o senhor vai
levar na marra porque ela é puta. Eu entendo. Agora,
eu botei Sandra no mundo e gostava da mãe dela. Se
Sandra voltar machucada eu corto seu pau e dou
pras’ galinha’, ouviu?
TONY JR.
Doutora! Não fale assim comigo não, viu? A senhora
botou essa aí no mundo mas hoje ela é do mundo, e é
conhecida antiga dos meninos. Não se preocupe não,
viu? E outra coisa, eu lamento que eu esteja sendo
muito maltratado aqui em Bacurau, não tem
ninguém na rua, parece que tá todo mundo com
medo de mim. Eu não mordo não, viu.
DOMINGAS Medo? Aqui em Bacurau ninguém quer é sentir teu
cheiro de carniça na rua, seu filho da puta.
Tony Jr. bate na porta, mandando o caminhão arrancar, tocando o jingle da
campanha.
60. EXT. BACURAU — PLANO/CONTRAPLANO — DIA
Caminhão arranca, CÂMERA GRIP na boleia. Tony em primeiro plano,
Domingas andando em segundo plano acompanha como pode o caminhão e
não tira os olhos de Tony Jr., que tenta evitar o olhar de seca-pimenta de
Domingas. Um dos assessores se prepara para acender um foguete-pistola,
Tony Jr. gesticula negativamente.
TONY JR. Precisa não…
O assessor, como uma criança, pede:
ASSESSOR 2 Só unzinho…
O caminhão manobra rapidamente e parte ao som estridente de “Tony Silva,
é Tony, é Tony, é Tony 251!”, com três tiros de fogos estourando no céu,
assessor em um estribo da porta, Tony Jr. no outro.
61. EXT. CENTRO DE BACURAU — TRACKING SHOT LATERAL/ ZOOM — DIA
Um plano alto de Bacurau em que fogos estouram acima da comunidade. No
mesmo plano, um pequeno disco voador (retrô, estilo sci-fi Hollywood anos
1950) estacionado ao alto. Ao fecharmos no óvni em ZOOM, ele começa a se
movimentar em direção à câmera. A carreata (os telões de LED no caminhão
acrescentam apelo visual no conjunto) também deixa Bacurau, tomando rota
diferente. ATENÇÃO: mesmo plano.
62. EXT. ESTRADA DE TERRA — CÂMERA CAR — DIA
Damiano dirige-se para casa na sua moto puxando bagageiro na estrada de
terra, quando percebe à sua direita o objeto voador à distância. PAN ==> para
o óvni.
63. EXT. CÉU DA ZONA RURAL/ ESTRADA DE TERRA — CONTRAPLANO AÉREO —
DIA
Disco voador em primeiro plano alto e Damiano na sua motocicleta à
distância longe na estrada lá embaixo.
CORTA PARA:
64. EXT. BACURAU/ TELA DE TV — NOITE
Um descanso de tela de aquário ao fundo, no equipamento de DJ Urso.
DJ URSO (O ) Boa noite. Essa é reunião rápida para passar
algumas informações…
65. EXT. RUA PRINCIPAL BACURAU/ BAR PASSO E FICO — NOITE
DJ Urso fala ao microfone para um grupo grande de moradores, homens,
mulheres e crianças, em frente ao Bar Passo e Fico, minitrio elétrico
estacionado ao fundo. Pacote e Teresa estão presentes. A Madame e seus
pupilos (menos Sandra) assistem ali do lado.
DJ URSO … para todo mundo depois da visita de Tony Jr…
Efeito sonoro de cavalo relinchando. As crianças riem muito.
DJ URSO … As cestas básicas estão já organizadas aqui em cima
das mesas… (Aponta para as mesas.)
PLANO: Quatro mesas forradas com latas de leite, sacos de feijão, açúcar,
arroz, enlatados, produtos de limpeza.
DJ URSO Vou passar a palavra para professor Plínio.
DJ Urso passa dispositivo móvel para Plínio.
PLÍNIO
(Microfone.) Obrigado, Amaury. Esses mantimentos
aqui já passaram pela triagem porque tinha muito
alimento vencido, uns até com seis meses de vencido.
Nós não jogamos fora esses que estavam muito
vencidos, quem quiser arriscar os outros, recomendo
cuidado. (Olha para Domingas.) Dra. Domingas…
Iza ajuda Domingas a vestir seu jaleco. Domingas avança e toma a palavra,
sempre muito séria.
DOMINGAS (Microfone.) Boa noite. Essa semana, Teresa trouxe
um carregamento de vacina na mala, estamos
abastecidos, pólio, tríplice e soro antiofídico. Mas eu
quero chamar a atenção de vocês para a caixa de
Brazol iv que Tony Jr. trouxe hoje…
DJ Urso aciona no seu dispositivo o efeito de som de um cavalo relinchando.
Domingas olha séria para DJ Urso. Crianças e adultos riem.
DOMINGAS (Microfone.) … Com a distribuição gratuita de
remédio tarja preta sem prescrição médica, quinhentas
unidades só hoje aqui em Bacurau. Cada caixa tem dez
doses. Como muita gente aqui sabe, o Brazol iv é um
inibidor de humor e comportamento, só que disfarçado
de analgésico forte. Ele é muito consumido em todo o
Brasil por milhões de pessoas, e, não sei por quê, em
forma de supositório, que é o que mais vende.
Desconfie de um supositório que vende milhões de
unidades só no Brasil e em nenhum outro lugar do
mundo. Isso é porque não é um remédio de confiança.
(Domingas mostra o supositório na ponta dos
dedos.) Essa substância faz mal, vicia e deixa a pessoa
lesa.
Uma voz na aglomeração:
HOMEM Isso é presente de grego!
Nelinha cochicha com Cláudio. Domingas sinaliza concordando.
DOMINGAS Recado dado. (Domingas joga o Brazol IV no lixo.)
Agora, uma coisa. (Pausa. Domingas olha para as
pessoas.) Eu quero pedir desculpas a todos pelo meu
comportamento errado no enterro de Carmelita.
Carmelita era muito importante, Carmelita é muito
importante.
Ela olha para todo mundo, engole seco e sai. Plínio observa, talvez tocado.
TERESA (Sussurrando para Pacote.) Um docinho quando não
tá ‘bêba.
DJ Urso toca a sua vinheta “DJ Urso!”. No trio, ele põe música.
66. EXT. RUA PRINCIPAL/ BAR PASSO E FICO — NOITE
Mãos e braços de adultos e crianças pegam produtos nas quatro mesas
forradas com mantimentos. PLANO ESPECIAL de Cláudio avançando em
direção à lente. O ritmo é educado, mas algumas pessoas parecem
apressadas em pegar algumas coisas.
ENQUANTO ISSO… Alguém aproxima-se na estrada escura… É Sandra, digna
mas com aspecto triste, cansada. Madame, Robson, Deisy e Domingas a
observam voltando para Bacurau. A comunidade, de fato, sabe que Sandra
está voltando, mas há pouca ou nenhuma reação à volta da jovem prostituta
levada pela carreata de Tony Jr…
67. EXT. BACURAU — MADRUGADA
A comunidade dorme. A matilha de cães vira-latas move-se pela rua central
atrás de uma fêmea no cio. Eles de repente param e ouvem algo, a vibração
de algo grande que se aproxima.
68. EXT. ENTRADA DE BACURAU — MADRUGADA
Saindo do escuro, à distância, uma manada de cavalos soltos entra em
Bacurau, alguns em disparada, outros no trote. Não estão selados e passam
pela rua principal em largo número, o trovão das patas no chão começa a
acordar os moradores.
69. INT. QUARTO COM PACOTE E TERESA — MADRUGADA
Teresa acorda nua ouvindo os cavalos. Pacote também está nu. Eles abrem a
janela, cavalos passam na rua.
70. INT. QUARTO CASA DE DOMINGAS — MADRUGADA
Iza e Domingas acordam na cama de casal.
71. INT. CASA DE MACIEL — MADRUGADA
Maciel abre a porta da frente da casa. Cavalos passam na rua, da esquerda
para a direita.
71A. INT. CASA DE FLÁVIO E LUCIENE — MADRUGADA
Flávio e Luciene também acordam.
FLÁVIO Isso é da fazenda de Manelito.
Os lindos animais terminam por juntar-se no centro de Bacurau na
madrugada. Imagem clássica do western.
FADE OUT
NO DIA SEGUINTE…
72. EXT. PERTO DA IGREJA — DIA
Flávio e Maciel montados em cavalos sem cela preparam-se para levar os
cavalos desgarrados de volta à fazenda de origem. Flávio ao telefone informa:
FLÁVIO (Aparelho no ouvido, olhando para Pacote.) De novo,
ninguém atende na fazenda de Manelito.
Flávio grava mensagem:
FLÁVIO “Geraldo, outra mensagem, tamo levando uns
cavalos que fugiram da fazenda aí. Me liga.”
PACOTE Esquisito. Deem notícia.
73. EXT. PERTO DA IGREJA — LONG SHOT/ GRUA/ ZOOM IN — DIA
Flávio e Maciel partem levando pelo cabresto cinco cavalos. Pacote, Teresa e
mais três pessoas observam. Eles partem no trote, da igreja para o
descampado. Revelamos num movimento de câmera que lá atrás de Teresa e
Pacote vem chegando o caminhão-pipa de Erivaldo no lado da escola.
74. EXT. BACURAU — DIA
Num ligeiro TRAVELLING para a frente, o caminhão-pipa para em frente à
câmera, envolto em poeira. A música alta (indistinta) na boleia é
repentinamente desligada. Enquanto Erivaldo desce tranquilamente da
cabine, pessoas aproximam-se com olhar apreensivo. Duas crianças já
chegam com baldes e panelas olhando fixamente para o tanque, passando
para encher vasilhames.
ERIVALDO O que foi?
Uma mulher aponta para o tanque. Sem entender, Erivaldo vira-se: da lateral
do veículo, jorra água de três buracos, aparentemente feitos a tiro, na lataria
do lado esquerdo do reservatório. Crianças e adultos chegam correndo,
posicionando bacias e baldes abaixo das perfurações para não desperdiçar a
água que vaza. Mais gente chega correndo com baldes e bacias. Erivaldo vem
para o buraco em TROCA DE FOCO.
MULHER Que danado foi isso, Erivaldo!?!
ERIVALDO E eu sei? Só vi isso agora. Atiraram em mim.
O caminhão furado de bala, água vazando, baldes e bacias tentam salvar o
sangramento. Muita gente na cena. Pacote aproxima-se, observa e saca o
telefone, de olho na situação. Teresa vem junto, preocupada.
PACOTE (No celular.) Flávio…
CORTA PARA:
75. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
Flávio e Maciel a cavalo na estrada. Flávio fala com Pacote.
FLÁVIO Diz.
76. EXT. BACURAU — DIA
PACOTE Erivaldo chegou aqui com o carro-pipa furado de
bala. Acho melhor tu voltar.
77. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
FLÁVIO Furado de bala? Oxe, agora é que eu vou lá mesmo!
77A. EXT. BACURAU — DIA
Pacote observa buracos e frenesi em torno do caminhão.
PACOTE Vá não, rapaz. Tá esquisito. Fique com a gente aqui.
CORTA PARA:
77B. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
Nesse momento, Maciel chama a atenção de Flávio e aponta para a frente. À
distância, duas motocicletas vêm vindo na estrada.
FLÁVIO Vê, tem duas motos vindo na estrada. Eu não vou
desligar, não, vou ficar, peraí…
78. EXT. BACURAU — DIA
Pacote ouve preocupado, olhando para os furos no tanque.
PACOTE Duas motos como?
79. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
As duas motos passam por Flávio, Maciel e os cavalos.
FLÁVIO Passaram pela gente, tão indo praí. Tão de capacete…
Parece gente de fora.
80. EXT. BACURAU — DIA
PACOTE Não desliga. Eles pararam?
FLÁVIO (O ) Não. Continuaram… Tão indo praí.
Pacote desliga. Olha para Teresa.
PACOTE Tem dois caras de moto vindo pra cá.
TERESA De capacete?
PACOTE
De capacete.
TERESA Vai pra casa.
Pacote entende que é a melhor coisa a fazer. Erivaldo usa flanelas velhas
para tapar os buracos. Crianças aproveitam os últimos momentos antes de a
sangria estancar. Muita gente olha para Pacote com apreensão e ele vira o
rosto, pensativo, olhando o monitor/painel do caminhão, que mais uma vez
mostra as fotos de Lunga e seus comparsas: PROCURADOS.
CORTA PARA:
81. EXT. BACURAU — TRAVELLING — DIA
Um buraco de bala na lataria do tanque. Um TRAVELLING preciso nos
aproxima do buraco e, no último momento, a mão de Erivaldo o tapa com
um pedaço de pano vermelho velho, estancando o vazamento.
82. EXT. BAR DA ESTRADA — DIA
Do bar, Darlene vê as duas motos passando na estrada. Ela imediatamente
pega seu dispositivo móvel.
DARLENE (Gravando mensagem de voz.) Tem dois motoqueiros
de trilha indo pra Bacurau. Estão de capacete…
83. EXT. BACURAU — DIA
Perto do caminhão-pipa, OUVIMOS os sons de dispositivos móveis recebendo
mensagens. Homens e mulheres reagem, incluindo Pacote. O carro de som
de DJ Urso repete a mensagem ao longe, mas audível:
DARLENE (O ) Tem dois motoqueiros de trilha indo pra
Bacurau. Mas tão de capacete.
PACOTE Duas motos chegando.
ERIVALDO Capacete é de lascar…
O grupo perto do caminhão vira a cabeça e olha para a entrada da cidade.
84. EXT. ENTRADA DE BACURAU — DIA
Atrás da aglomeração, cabeças em primeiro plano, não VEMOS nada ao longe.
Pessoas continuam olhando, alguns se esgueiram. Finalmente duas motos
surgem, motociclistas com capacetes. Pacote esconde-se atrás do caminhão.
85. EXT./ INT. ENTRADA DE BACURAU/ FRENTE MERCADINHO — DIA
As motos entram em Bacurau, passando pela aglomeração de gente. Pessoas
observam, outros param tensos enquanto as motos estacionam em frente ao
mercadinho.
Um casal branco (30-40 anos), de óculos escuros, com macacões esportivos
caros, tira seus capacetes. A retirada dos capacetes parece tranquilizar as
pessoas. O casal entra no mercadinho, que tem um balcão à esquerda. Eles
olham para o grupo de pessoas ao lado do caminhão, a mulher dirige-se a
LUCIENE, atrás do balcão. A partir de agora, essas duas pessoas serão
chamadas de FORASTEIRO e FORASTEIRA.
FORASTEIRA Bom dia. Aconteceu alguma coisa ali?
LUCIENE Vocês chegaram de capacete… Motoqueiro de
capacete aqui não é coisa boa.
FORASTEIRA (Simpática, sorrindo.) Nós não somos motoqueiros,
estamos fazendo trilha.
86. INT. MERCADINHO — DETALHE — DIA
O casal percorre o mercadinho. Enquanto o Forasteiro pede água, no
extremo canto direito do quadro a Forasteira esgueira-se. CORTAMOS para:
86A. INT. MERCADINHO — SPLIT DIOPTER (UM QUADRO, DOIS PONTOS FOCAIS
IDÊNTICOS, UM NA DIREITA E OUTRO NA ESQUERDA) — DIA
A mão da Forasteira cola um dispositivo digital embaixo da mesa de metal de
um lado do quadro e mercadinho com Luciene do outro lado do quadro. O
casal de forasteiros se aproxima do balcão.
FORASTEIRA Tem cerveja?
LUCIENE Tem, e tem cachaça também.
FORASTEIRA Cerveja.
FORASTEIRO Tem água com gás, por favor?
LUCIENE Só tem normal.
FORASTEIRO Tudo certo. Tá gelada?
O casal bebe água e cerveja enquanto a balconista e um menino observam.
FORASTEIRA
Quem nasce em Bacurau é o quê?
MENINO É gente.
LUCIENE Vocês vieram conhecer o museu?
FORASTEIRO (Abrindo o zíper do macacão e abanando o rosto.)
Museu? Museu de quê?
LUCIENE De Bacurau. É bom, esse museu.
FORASTEIRO Não.
Pausa.
FORASTEIRA Qual a população aqui?
LUCIENE Uns 100-120. Tudo pobre, mas gente boa.
FORASTEIRA De onde vem esse nome, Bacurau?
LUCIENE Um pássaro.
FORASTEIRA Tipo um passarinho?
LUCIENE Um pássaro, maiorzinho.
FORASTEIRA Tá extinto já?
LUCIENE Aqui não… Mas só aparece de noite. Ele é brabo.
FORASTEIRO Bom, obrigado, vamos indo. Bom dia.
87. EXT. RUA — DIA
O casal dá as costas e sai do mercadinho. Olhando tranquilo ao redor (e
evitando o lado do caminhão), o Forasteiro vê do outro lado da rua a casa
com a placa MUSEU DE BACURAU, de portas e janelas abertas. Um menino
sentado na janela. O casal é logo abordado por Carranca, o repentista, que
sai não se sabe de onde, com viola nas mãos. A balconista observa. A
Forasteira acende um cigarro.
CARRANCA (Com voz de cantoria e dedilhando a viola.)
O senhor… sabe de alguma coisa…
com aquele caminhão-piiiipaaa?
O Forasteiro está confuso.
FORASTEIRO
Como é…?
CARRANCA (Com voz de cantoria ainda mais teatral.)
O senhor… sabe de alguma coisa
com aquele caminhão-piiiipaaaa?
Apareceu todo furado de ballllaaaaaaaa…
FORASTEIRO Não sei de nada, não. O que houve?
Sem titubear, Carranca, dedilhando a viola com uma mão, usa a outra para
fazer o sinal de uma pistola, acompanhado com o som de tiro que sai da sua
boca:
CARRANCA Pá!! Pá!! Pá!!
Carranca começa a dedilhar sua viola com as duas mãos e emenda um
repente:
CARRANCA Cabra bonito e joiado
Endoida as bicha e aparece…
Pinta de artista de cinema
O orgulho incha e cresce,
Aproveita bem a vida
Pois logo a velhice aparece…
HOMEM Não, obrigado…!
A Forasteira ri.
CARRANCA (Para a Forasteira.)A mulher pra ser bonita
Tem que ser alta ou morena,
Tem que ter os olhos verdes,
As lábia’ rubra e pequena;
É dessas que o coito mata
Pra depois chorar com pena…!
O Forasteiro não gosta.
FORASTEIRO
Que é isso?
Luciene observa do balcão com um sorriso.
CARRANCA Esse povo do Sudeste,
Não dorme nem sai no sol,
Aprendero’ a pescá peixe,
Sem precisá’ de anzol,
Se acham melhor que os outro’
Mas ’inda num entendêro,
Que São Paulo é um paiol!
A Forasteira passa uns trocados para calar a boca de Carranca.
FORASTEIRA Ó aqui, moço. E eu sou do Rio…
CARRANCA Eu num quero seu dinheiro, moça… Eu tô aqui só de
gaiato!
FORASTEIRO (Dirige-se à Forasteira.) Como é que ele sabe que eu
sou de São Paulo? O.k., amiguinho, agora já foi.
88. EXT. RUA FRENTE MERCADINHO — TRAVELLING LATERAL — DIA
A Forasteira faz pose para foto. Num movimento TRACKING circular, VEMOS
o Forasteiro em PLANO MÉDIO preparando-se para fotografar a Forasteira.
Aproximamo-nos da sua mão e em ZOOM+DETALHE VEMOS o enquadramento
da câmera/aparelho, que revela o real objetivo da foto: não é a mulher, mas a
rua, acima e ao lado: Bacurau.
Teresa chega com Erivaldo.
TERESA Opa. Vieram visitar o museu?
89. EXT. RUA — POV TERESA — DIA
O homem acena negativamente.
90. EXT. RUA — DIA
TERESA Não querem visitar, não?
FORASTEIRA
Obrigada, já estamos indo.
Erivaldo entra na conversa.
ERIVALDO Eu sou o dono daquele caminhão. Vocês viram
alguma coisa na estrada? Meu tanque tá furado de
bala.
FORASTEIRA Não, moço. Estamos fazendo trilha. A gente precisar
ir, dê licença.
TERESA Se me permitem, posso saber para onde estão indo?
FORASTEIRA Só passeando pela região mesmo.
ERIVALDO Qual é o nome de vocês? Eu sou Erivaldo.
O Forasteiro olha para a Forasteira, dá um risinho, e dirigem-se às motos.
FORASTEIRO João, e essa aqui é Maria.
Sentados nas motos, eles põem os capacetes.
FORASTEIRA (De dentro do capacete.) Engraçado, por que o
povoado não tá no mapa?
A pergunta chama a atenção do pequeno grupo.
TERESA Não entendi. “Não tá no mapa”?
FORASTEIRO (Para a Forasteira.) A gente tem que ir…
FORASTEIRA Não está no mapa… E parece que o sinal de celular
caiu. Não tem, né?
TERESA Está sem sinal.
FORASTEIRA Pois é…
FORASTEIRO Bom dia pra vocês.
Os dois dão partida nos motores de gasolina. O grupo fica verificando a
ausência de sinal nos seus dispositivos.
Pacote observa os dois manobrando enquanto usa seu dispositivo móvel e
começa a fotografar o casal.
91. EXT. MERCADINHO/ RUA — DOLLY LATERAL — DIA
As motos dos forasteiros vão embora. Pacote tenta usar o celular.
92. EXT. DETALHE TELA DISPOSITIVO MÓVEL
A tela mostra SEM REDE e CHAMANDO FLÁVIO
CORTA PARA:
93. EXT. ENTRADA FAZENDA TARAIRÚ — DIA
A quilômetros de distância, nas redondezas de Bacurau… Flávio e Maciel
cavalgando. Flávio olha o dispositivo.
FLÁVIO Tá sem sinal.
Os três cavalos no cabresto os acompanham. Eles estão no final de uma
trilha cuja margem é uma longa cerca em direção à porteira principal,
escancarada. Na parede de uma cocheira, uma placa anuncia: FAZENDA
TARAIRU 1913. Livrando a placa em TRAVELLING, uma picape parada torta, em
cima de uma seção da cerca tombada de um curral, um pneu furado e
buracos de bala na lataria. O vidro traseiro está com buracos de tiro, os
vidros do motorista e passageiro, estourados do lado esquerdo. Flávio e
Maciel aproximam-se andando com muito cuidado e apreensão. Flávio abre
lentamente a porta:
93A. EXT. FAZENDA TARAIRU – POV FLÁVIO — DIA
Há dois corpos. Mancha escura de sangue no banco, cacos de vidro. Caída
no passageiro, uma mulher tentou proteger uma criança, ambas estão
mortas, a mãe envolve o filho com os braços. Flávio reage com horror.
93B. EXT. FAZENDA TARAIRU — DIA
MACIEL A filha de seu Manelito… Soraya. E o menino dela.
FLÁVIO (Aponta para a cerca.) Os cavalos saíram por aqui.
Flávio deixa o cuspe cair da boca. Maciel pega seu dispositivo móvel e vê que
não há sinal.
MACIEL
Sem sinal. Tenta o teu.
Flávio confirma que também não há sinal.
FLÁVIO Vamo’ s’imbora…
MACIEL Deixa eu olhar a casa.
Maciel corre em direção à casa-grande da fazenda.
FLÁVIO Vamo’ s’imbora, Maciel…
94. EXT./ INT. ALPENDRE DA CASA-GRANDE DA FAZENDA TARAIRU/SALA — DIA
Em TRAVELLING LATERAL seguimos Maciel, que corre em direção à porta
escancarada da casa-grande. ZOOM IN: Maciel caminha pela casa observando
os cômodos. Uma parte de um corpo no chão aparece na copa na parte de
trás da casa.
CORTA PARA:
95. EXT. FAZENDA TARAIRU — PL. GERAL — DIA
Em primeiro plano, Flávio solta os cavalos trazidos na área da cerca, quer
devolvê-los ao seu lugar. Maciel está saindo da casa e indo diretamente até
uma moto estacionada no alpendre, tentando fazê-la funcionar.
FLÁVIO O que aconteceu lá dentro?
MACIEL Mataram seu Manelito e dona Teca também.
Mataram todo mundo.
Flávio não tem tempo para mostrar choque. Maciel consegue dar partida na
moto.
MACIEL Vamo’s’imbora. Sobe aí.
96. EXT. ESTRADA DE TERRA — PLANO GERAL/ GRUA — DIA
A dupla sai da fazenda em disparada, dobra na estrada em direção a Bacurau.
A câmera acompanha os dois em movimento COM GRUA que sobe e sobe, até
ficar alta o suficiente para vermos à distância, na estrada, os dois forasteiros
vindo na direção oposta nas motocicletas. Eles se aproximam para um
encontro surpresa na estrada.
CORTA PARA:
97. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
Maciel para a moto. Flávio congela.
FLÁVIO A gente vai morrer.
MACIEL Não, porra. São turista’ de trilha…
Flávio e Maciel estão paralisados. Ao longe, com as motos vindo, o
Forasteiro abre o zíper do seu macacão.
FLÁVIO Tu não viu o que eu vi dentro da fazenda. O cara tá
abrindo o casaco. A gente vai morrer.
Os motoqueiros param um pouco à frente, os dois com capacetes. Fazem
sinal amigável, mas mantendo distância. A Forasteira tira seu capacete.
FORASTEIRA (Simpática.) Boa! Vocês vieram daquela fazenda, ali?
O Forasteiro mantém o capacete, calado.
FLÁVIO (Mantendo-se firme.) Foi… A Fazenda Tarairu.
Aconteceu uma tragédia. Eu, se fosse vocês, não ia
lá.
FORASTEIRA Vocês ’tão com telefone? ’Tão com sinal?
Maciel engole em seco e puxa seu telefone, controlando o tremor na mão.
MACIEL Tá sem…
FLÁVIO (Interrompendo Maciel.) Tamo sim. A gente ligou, o
pessoal tá vindo já.
FORASTEIRA O senhor tem certeza que tem sinal? Eu tenho uma
informação de que essa área tá sem sinal…
FLÁVIO
Estava sem sinal, mas eu já falei com Pacote, que é
polícia aqui. Eles tão vindo já. E eu, se fosse vocês,
não ia lá não, tem muito sangue.
FORASTEIRA Posso ver seu telefone?
A Forasteira desce da moto e retira uma pistola escondida em sua bota.
Maciel controla o medo de ver a desconhecida armada.
MACIEL Por que a senhora está armada?
FORASTEIRA Vocês estão armados?
Uma pausa. Maciel baixa a cabeça.
FLÁVIO Olhe… eu vou lhe dizer uma coisa. Aqui nessa terra
isso não pode acontecer assim, não. Quem fez isso
não tá sabendo de nada, mas tá entrando de
inocente.
MACIEL Moça, deixa a gente ir embora…
Ela caminha em direção a Flávio e Maciel com a pistola na mão. Maciel vê
tudo estarrecido.
FORASTEIRA Mas eu só quero saber se vocês conseguiram avisar
sobre o que aconteceu na fazenda, ontem à noite.
MACIEL Por que a senhora tá com essa arma?
O Forasteiro com capacete tira uma arma da sua jaqueta.
FLÁVIO Vai queimar nos quinto’ dos inferno’, seus filhos da
puta—
A Forasteira dá três tiros na barriga de Maciel. O primeiro tiro passa por
Maciel e atinge também Flávio, sentado atrás dele na moto. Um CORTE a
cada tiro nos distancia em PLANOS FIXOS da execução de Maciel. Ele sai de
cima da moto lentamente. Maciel começa a perder os sentidos. Flávio
caminha na direção oposta dos forasteiros, tenta sair dali. O Forasteiro o
(
segue rapidamente e dá dois tiros em suas costas. O último PLANO ALTO (que
inicia no terceiro tiro da Forasteira e se mantém até o final da cena) revela a
presença do disco voador, que observava tudo ao longe e de cima. O casal de
Forasteiros gesticula, declarando a ação finda.
SEM CORTAR.
98. EXT. ESTRADA DE TERRA/ CAATINGA — PAN — DIA
Os dois forasteiros saem da estrada e entram na caatinga seguidos de perto
pelo óvni. Uma PAN os revela entrando na vegetação cerrada com trilha. O
drone parece brincar com os forasteiros, tentando chocar-se contra o
Forasteiro.
CORTA PARA:
98A. EXT. CAATINGA — POV ÓVNI — DIA
Seguimos os forasteiros em baixa altitude, na caatinga.
CORTA PARA:
99. EXT. FAZENDA TALHADO — PL. ABERTO/ GRUA — DIA
Uma fazenda do século XIX. JOSHUA, homem branco, caucasiano, exercita-se
no alpendre. A câmera perde altitude junto com o drone em primeiro plano,
até que, no quadro, surge KATE, andando, corpo inteiro, e pega o drone
suavemente com as mãos. JOSHUA vê ao longe os forasteiros, que vêm
chegando de motocicleta.
CORTA PARA:
Do lado oposto do pátio vem chegando WILLY, toalha no ombro, cabelo
molhado. Segurando o drone/disco, Kate avança lentamente em direção à
câmera, aguardando os forasteiros terminarem a manobra. Eles param,
desligam as motos e tiram os capacetes.
(NOTA: Diálogos em inglês, legendados em português.)
WILLY (Passa andando.) This water stinks.
[Essa água é fedorenta.]
Ele sobe os degraus do alpendre.
FORASTEIRA Yeah, it’s “cacimba” water, from the well. It smells
bad, yes.
[É água de cacimba, do poço. Tem mau cheiro sim.]
FORASTEIRO
( )
(Inglês com sotaque brasileiro.) I almost got hurt with
the drone thing, flying too close. Not cool.
[Eu quase me machuquei com a coisa do drone,
voando perto demais. Não foi legal.]
KATE (Segurando o drone.) I was just fuckin’ with you.
Take it easy.
[Eu só tava te sacaneando. Fica tranquilo.]
JOSHUA Come inside. We need to talk.
[Vamos entrar, precisamos conversar.]
CORTA PARA:
100. INT. SALA FAZENDA TALHADO — DIA
Kate entra na sala da casa-grande com Forasteiro e Forasteira, seguida de
Joshua. JAKE e TERRY (dois homens brancos caucasianos) parecem estar
conversando on-line com alguém, de frente para uma microcâmera com luz
LED ligada.
VOZ (O ) I’ve volunteered saying I would do water…
Strategically in the beginning thinking…
[Eu me ofereci para participar com a ideia de só cuidar
da água… Estrategicamente, no início eu pensei…]
JAKE (O ) If I’m leaving it up to somebody else I may not be
hydrated, and if you’re dehydrated you’re lethargic.
[Se eu deixar com outra pessoa, eu poderia não
hidratar, e se o cara desidrata, ele fica lento.]
TERRY We thought it was gonna be simple, We’re just
gonna take care of the water and help everybody
else, but what’s tricky is not only the climate, which
is Florida hot, but the bush…
[A gente pensou que seria simples, a gente teria só
que cuidar da água e ajudar o resto do pessoal, mas o
que é complicado aqui não é só o clima, que é tipo
calor da Flórida, mas a vegetação…]
JAKE
(Com um galho de urtiga na mão, mostrando para a
câmera.) Well, yeah, it’s actually greener than I
thought it would be, but the caatinga razor grass, get
a load of that. It ain’t easy…
[Na verdade, é bem mais verde do que eu esperava,
mas essa urtiga da caatinga, tem muito disso aqui.
Não é fácil…]
101. INT. SALA FAZENDA TALHADO — PAN — DIA
PAN para os que entram na sala, revelando o ambiente que mostra Jake e
Terry sentados falando com a câmera ao fundo. Uma senhora brasileira
passando pano molhado no chão. A sala tem fotografias históricas na parede.
Kate põe o drone para carregar em uma estação de eletricidade.
KATE Make yourselves comfortable, we’ll be here in a
minute.
[Fiquem à vontade, nos vemos daqui a pouco.]
Jake observa de longe a chegada dos forasteiros, que tomam o ambiente sem
sentar-se.
JAKE (Olhando de lado.) How you doing?
[Tudo certo?]
FORASTEIRA Hello.
[Oi.]
102. INT. CASA-GRANDE FAZENDA TALHADO — DIA
PAN para Kate, que em ZOOM IN atravessa um quarto escuro onde há uma
cama sem colchão, direto no estrado. Jake e Terry continuam tagarelando em
o . Ao final do ZOOM, Kate encontra CHRIS, homem de 40 e tantos anos,
que está limpando armas com um air blaster (TILT DOWN malandro para
mostrar o que Chris faz). A fala deles é distante e ininteligível. Parecem
comentar a chegada dos forasteiros.
103. INT. COPA DA FAZENDA TALHADO — DIA
CORTAMOS para o ambiente onde Chris e Kate conversam. Kate olha sobre o
ombro, como se ciente da presença dos forasteiros brasileiros na sala.
KATE
Yeah. I gotta get Michael. Is he sleeping?
[Eu tenho que falar com Michael. Ele está
dormindo?]
CHRIS I dunno.
[Não sei.]
Kate entra por uma porta ao seu lado, onde há um túnel de lona. Na
passagem da copa para o túnel, uma cortina de vento sopra seus cabelos.
TRAVELLING atrás de Kate. O movimento avança até revelar uma área de
campanha equipada com dormitório e equipamentos, estilo militar. Ao
fundo, de costas, MICHAEL (branco, caucasiano, aproximadamente 60 anos,
cabelo escovinha, estilo militar) observa um monitor com imagem do drone
com a morte de Flávio e Maciel. Michael vira-se, olha para Kate.
MICHAEL We have to get rid of them.
[Temos que nos livrar deles.]
CORTA PARA:
103A. INT. SALA FAZENDA TALHADO — DIA
A Forasteira observa as fotos com atenção. O Forasteiro está sentado em
uma das cadeiras da mesa. A senhora que limpa o chão gesticula sem falar
para o Forasteiro como que oferecendo água.
FORASTEIRO Eu falo português. Não quero não, obrigado.
CORTA PARA:
UM POUCO MAIS TARDE…
Michael entra na sala, seguido por Kate, Julia e Chris. Ele não fala nada e vai
direto para a mesa grande. Os forasteiros reagem. Joshua e Chris vêm
também. Willy já está na mesa.
FORASTEIRO Hello…
[Oi…]
104. INT. SALA FAZENDA TALHADO — DIA
Na mesa estão Michael, Kate, Willy, JULIA e o casal de brasileiros, Forasteiro
e Forasteira. A dupla que falava com a câmera (Jake, Terry) aproxima-se para
participar da conversa, eles sentam-se. O monitor continua exibindo as
imagens feitas pelo drone da execução de Flávio e Maciel. Com a exceção de
Michael, um senhor de presença inegavelmente imponente, esta é uma
seleção de pessoas comuns fisicamente, prontas para uma reunião de
trabalho.
MICHAEL So, Jake and Terry led a successful first mission last
night at the “hacienda”…
[Então, Jake e Terry concluíram uma missão bem-
sucedida ontem à noite, na “hacienda”…]
FORASTEIRO It’s “fazenda”, in Portuguese.
[É “fazenda”, em português.]
Michael mal olha para Forasteiro.
TERRY It was tough, but we did it.
[Foi dureza, mas conseguimos.]
JAKE It was intense. I’m ready to go home, mission
accomplished… it was fucked-up.
[Foi intenso, eu estou pronto para voltar pra casa…
Foi foda.]
MICHAEL So, we’re on countdown now. Number one on my
checklist list, how is the signal jamming situation?
[Então, estamos em contagem regressiva. Na minha
lista de prioridades, como está o bloqueador de
sinal?]
KATE It’s jammed. Cell phone network is down. And… they
are literally o the map.
[Tá bloqueado. A rede de celular está derrubada. E…
eles estão literalmente fora do mapa.]
JULIA Patching up the map is a neat trick.
[Toque de classe, alterar o mapa.]
FORASTEIRO
When we were in Bacurau people were already
complaining. There was no signal. And the place was
not on the map. It works.
[Quando fomos a Bacurau as pessoas já reclamavam.
E o lugar não está no mapa. Está sem sinal.
Funciona.]
KATE (Irônica.) No shit…
[Não diga…]
MICHAEL Electricity shutdown tomorrow…
[Corte de eletricidade amanhã…]
KATE Yes, simple grid. They’ll be coming back soon after
shutdown with battery power, but by then some
panic will set in.
[Sim, o grid é simples, e eles vão religar logo com a
bateria, mas até lá já deve causar pânico.]
MICHAEL What about the truck?
[E o caminhão?]
WILLY Ready to go, local contractors came through. Shock
and awe.
[Está pronto. Os prestadores de serviço locais não
decepcionaram. Vai ser luxo e riqueza.]
MICHAEL Good. So, the road…
[Então… a estrada…]
Michael aponta para uma imagem de Bacurau no mapa digital ao final da
estrada de terra.
FORASTEIRA It’s been arranged. Nobody will come from Serra
Verde, there is the road block with the people we are
paying…
[Isso foi acertado. Ninguém virá de Serra Verde com
o bloqueio na estrada, com as pessoas que estamos
pagando.]
KATE The local contractors…
[Os prestadores de serviço…]
FORASTEIRA
Yes, “local contractors”. Also, there will be no street
market in the next few days. It will be quiet.
[Isso, “prestadores de serviço”. E não vai ter feira nos
próximos dias. Vai ser tranquilo.]
O monitor com a imagem de drone das mortes de Flávio e Maciel exibida
em loop chama outra vez a atenção da Forasteira.
JAKE And no police, huh?
[Não tem polícia, né?]
FORASTEIRO No police here.
[Não tem polícia aqui.]
MICHAEL (Olhando para a tela.) The farm we hit last night, it
was isolated… the Itaa..rarai…RRuu…
[A fazenda que a gente atacou na noite passada,
isolada… Itaa..rarai…RRuu…]
FORASTEIRO (Achando que presta grande serviço.) Tarairu…
MICHAEL (Pausa, olhando para o Forasteiro.) Whatever… and
the old man’s cabin, which is also isolated…
[Não importa… E a cabana do velho, que também é
isolada…]
FORASTEIRO Damiano is his name, the old man.
[O nome dele é Damiano, o velho.]
KATE I don’t give a fuck to what his name is, we’ll be
paying him a visit, me and Willy.
[Caguei para o nome dele, mas a gente vai fazer uma
visita, eu e Willy.]
WILLY Yeah, we won the draw, I’m so going.
[Sim, a gente ganhou o sorteio, eu vou mesmo.]
Willy ouve algo no seu headphone. Todos, exceto o casal de forasteiros, têm
headphones embutidos no ouvido. Eles ouvem informações, a conversa para.
Os forasteiros estão por fora e observam… O filme não oferece essas
informações aos espectadores, que apenas ouvem cochichos baixinhos dos
headphones.
WILLY
… Oh, fuck.
[… Oh, merda.]
MICHAEL That makes sense. You only get credit using one
round on that target.
[Faz sentido. Vocês só pontuam atirando uma vez
nesse alvo.]
KATE I think it’s fine. One round each, to deal with the old
man.
[Acho justo. Um cartucho de munição pra cada, pra
lidar com o velho.]
MICHAEL Other than that, use a knife. If you shoot more
rounds, no credit.
[Então é isso, usem faca. Se atirarem mais de uma
vez, não pontuam.]
A Forasteira respira fundo e diz o que já queria ter dito:
FORASTEIRA Can I ask you to stop playing this video?… Please?
[Posso pedir pra vocês pararem de passar esse
vídeo? Por favor?]
O pedido da Forasteira surpreende a todos. O Forasteiro dirige-se a ela em
português.
FORASTEIRO Não fala isso. Deixa pra lá…
FORASTEIRA Tá me incomodando, pô…
MICHAEL (Cortante.) Please don’t speak Brazilian here.
[Por favor não falem brasileiro aqui.]
Pausa. Michael olha diretamente para a Forasteira.
MICHAEL In fact, we have a di erent angle, you wanna see it?
It’s from his helmet.
[Na verdade, a gente tem um outro ângulo, quer ver?
É do capacete dele.]
Michael aponta para Forasteiro e aciona o arquivo, olhando para a Forasteira.
O monitor agora mostra o ângulo captado do capacete do Forasteiro, no
momento em que ele atira nos dois homens na Fazenda Tarairu. A
Forasteira, constrangida, observa o monitor. Todos na mesa assistem às
imagens.
TERRY (Para Forasteiro.) You’re real cowboys, you know
that?
[Vocês são uns puta cowboys, né?]
Chris olha para a Forasteira.
CHRIS The two you shot, were they your friends, or
something?
[Os que vocês mataram, eles eram amigos ou algo do
tipo?]
O Forasteiro intercede.
FORASTEIRO Friends? No… We don’t shoot friends in Brazil… Er…
we don’t come from this region…
[Amigos? Não… não atiramos em amigos no Brasil…
Não somos dessa região.]
WILLY So, where do you come from?
[Então, vocês são de onde?]
FORASTEIRO We come from the south of Brazil. A very rich
region. With German and Italian colonies. More like
you guys.
[A gente é do sul do Brasil. Uma região muito rica.
Com colônias alemãs e italianas. Somos mais como
vocês.]
WILLY More like us? But we’re white, you ain’t white. Are
they white?
[Mais como a gente? Mas nós somos brancos, vocês
não são brancos. Eles são brancos?]
Willy joga a pergunta para o resto da mesa.
TERRY They look like white Mexicans, really. She looks
white, but she ain’t white. Her nose and her lips
gives it away.
[Eles estão mais para mexicanos brancos. Ela parece
branca, mas não é branca. Os lábios e nariz
entregam.]
KATE … Yeah, more latino like.
[É… estão mais pra latinos.]
FORASTEIRA Why do you say that?
[Por que dizem isso?]
JULIA (Olhando para o Forasteiro.) I think he’s a handsome
latino guy.
[Eu acho ele um latino bonitão.]
CHRIS Come on, guys, knock it o . This is bullying.
[Parem com isso, vocês, isso é bullying.]
O Forasteiro tenta sorrir com a brincadeira.
105. INT. DETALHE — DIA
Joelho esquerdo do Forasteiro balançando embaixo da mesa. A mão da
Forasteira o faz parar.
106. INT. SALA FAZENDA TALHADO — DIA
MICHAEL So, “amigo”… why did you shoot those people?
[Me diz uma coisa, “amigo”… Por que vocês atiraram
naquelas pessoas?]
FORASTEIRO I’m sorry but… I did what I did because they would
talk.
[Me desculpe, mas… Eu fiz o que fiz porque eles
iriam falar por aí.]
FORASTEIRA
They lied to us, they said they had called people and
we knew they did not.
[Eles mentiram pra gente, disseram que tinham
ligado para pedir ajuda e sabíamos que não era
verdade.]
JULIA Our point is, you came here to work for us, not to
get our kills.
[A questão é que vocês vieram aqui pra trabalhar pra
gente, não pra roubar nossas mortes.]
MICHAEL Yes, you’ve done a good job, finding this harmless
shit-hole town, helping with logistics, intelligence,
you’ve done well. But you were not supposed to…
you know, kill people. My point is, now you are
murderers.
[Sim, vocês fizeram um bom trabalho, encontraram
um cu de mundo inofensivo de que ninguém vai
sentir falta, ajudaram com a logística, com
informação, vocês trabalharam bem. Mas não era pra
vocês, tipo, matarem ninguém. Vocês agora são
assassinos.]
A mesa observa o Forasteiro.
FORASTEIRA Well, we killed those two men to help our mission.
[Bem, matamos os dois caras para ajudar a nossa
missão.]
KATE “Our” mission?
[“Nossa” missão?]
FORASTEIRA Yeah, well, I saw what happened at the farm. Five,
six dead, we just helped…
[Bem, eu vi o que aconteceu na fazenda. Cinco, seis
mortos, nós só ajudamos…]
MICHAEL Nah, nah, nah… you are foreign nationals who killed
two of your own people. You see, technically, we are
not even here.
[Não, não, não… vocês são prestadores locais, que
mataram dois da sua gente. Veja bem, tecnicamente,
não estamos nem aqui.]
JOSHUA
It’s completely di erent. We don’t use modern
weaponry. We only use vintage firearms.
[É muito diferente. Não usamos armas modernas, só
usamos armas vintage.]
Joshua para de falar, ouvem comunicação… Todos olham — discretamente —
para Forasteiro e Forasteira. Michael presta atenção e ouve algo no aparelho
embutido no ouvido. O resto da mesa também reage, as informações
chegando aos seus ouvidos. O Forasteiro e a Forasteira reagem preocupados.
FORASTEIRA Eu não tô gostando…
FORASTEIRO Tá tudo certo…
Michael estala o dedo com autoridade para que o casal de brasileiros pare de
falar português, enquanto tenta entender a informação que chega ao seu
ouvido. Repentinamente, Kate levanta-se da mesa empurrando a cadeira. O
casal de brasileiros se assusta. Todos se alteram…
KATE Shit, I don’t have my gun, FUCK!
[Porra! Eu tô sem minha arma, caralho!]
Jake, Julia, William, Michael e Terry fazem ação conjunta de sacar suas armas
e afastar-se da mesa enquanto atiram em Forasteiro e Forasteira, que são
atingidos múltiplas vezes no rosto e peito. A força do impacto faz o peso do
Forasteiro tombar lentamente a cadeira para trás, seu corpo atingindo o chão
violentamente, de costas. O grupo de “Bandolero Shocks” divide-se entre os
que ficaram em pé e os que permaneceram sentados, a fumaça azul de
pólvora acima da mesa.
KATE Can’t believe I came to the table without my pistol,
shit.
[Não acredito que sentei na mesa sem minha arma,
merda.]
MICHAEL
(Perguntando a pessoas on-line, via comunicador.)
I shot him.
[Eu atirei nele.]
JOSHUA I got her. I did.
[Eu peguei ela. Fui eu.]
JULIA So did I.
[Eu também.]
WILLY Stand by. I shot both.
[No aguardo. Eu atirei nos dois.]
JULIA I only shot him.
[Eu só atirei nele.]
Todos ouvem informações.
JOSHUA Fuck, that ain’t fair!
[Porra, isso não é justo!]
KATE Tough luck.
[Que dureza.]
MICHAEL O.k. Me and Julia get credits.
[O.k., pontos para mim e para Julia.]
107. INT. FAZENDA TALHADO — PLANO — DIA
A câmera desliza para o chão, onde estão os corpos destroçados a tiros de
Forasteiro e Forasteira. Jake examina a carteira do Forasteiro, no bolso de
trás da sua calça, e de dentro ele retira uma carteira funcional do Judiciário:
“procurador assistente”. Chris chega junto.
CHRIS Some government o cial? Should we worry?
[Esse cara é do governo? Devemos nos preocupar?]
JAKE We’re out of here tomorrow anyway…
[Amanhã a gente cai fora, tudo certo…]
CORTA PARA:
108. MONTAGEM — CORTES RÁPIDOS — PLANOS FIXOS
Da imagem dos dois forasteiros mortos em poças de sangue no chão da casa-
grande da fazenda, começamos uma MONTAGEM que apresenta todas as
vítimas até agora nesta narrativa. Um breve ensaio de cenas de crime em
PLANOS FIXOS que nos leva de volta aos personagens de Bacurau, na Fazenda
Tarairu. Um CORTE SECO inaugura a sequência. Homens, mulheres e
crianças.
108A. INT. SALA CASA-GRANDE FAZENDA TARAIRU — DIA
O homem velho no sofá, a senhora de avental no corredor da casa. Um rapaz
numa antessala.
108B. EXT. ENTRADA FAZENDA TARAIRU — DIA
A mãe e a criança mortos no banco da picape.
108C. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
Flávio e Maciel estendidos na estrada de terra.
108D. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
No último plano da montagem, Pacote observa os velhos conhecidos que
foram assassinados a tiros. O Jeep Willys de Pacote com a capota arriada
pode ser visto ao fundo. ATENÇÃO: Pacote em CONTRA-PLONGÉE , céu e
nuvens atrás, câmera sobe ao nível da cabeça quando Damiano entrar no
quadro.
108E. EXT. ENTRADA FAZENDA TARAIRÚ/ ESTRADA DE TERRA — DIA
Damiano vem da picape abandonada na porteira da fazenda, traz na mão um
dispositivo de comunicação inerte. Ele aproxima-se de Pacote.
PACOTE Eu devia ter vindo com eles. (CONTRA-
PLONGÉE, olhando os mortos.)
DAMIANO Pra ser três aí no chão? (Damiano vindo com fazenda
ao fundo.)
PACOTE Tu acha que se eu tivesse vindo eu ’taria aí no chão?
Esses caba’ eram gente boa, eu não.
DAMIANO Nem eu. (Pausa.) Eu vi um drone ontem. Parecia um
disco voador de filme antigo. Mas era um drone.
Pacote não sabe o que fazer com a informação, olhando para os amigos
mortos no chão da estrada. Olha em volta. Tudo está quieto. Um vento forte
sopra poeira em toda a estrada.
109. EXT. ESTRADA DE TERRA — CLOSE-UP PACOTE — DIA
O vento sopra o cabelo de Pacote. Damiano vira o rosto para evitar poeira.
CORTA PARA:
110. EXT. ESTRADA DE TERRA — DETALHE CINTURA DE PACOTE — DIA
O vento sopra a camisa de Pacote, que revela por um instante que ele está
armado, arma enfiada na calça.
PACOTE Temos que levar esses meninos.
CORTA PARA:
111. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
Pacote e Damiano terminam de colocar o corpo ensanguentado de Flávio no
banco traseiro do Jeep, onde já se encontra o de Maciel, que tem uma tira de
sangue ligando a boca ao ouvido. Flávio e Maciel mortos estão juntos,
cabeças encostadas uma na outra, como os bons amigos que eram.
PACOTE Tu volta pra Bacurau. Eu preciso falar com Lunga.
( ) ( )
DAMIANO
(Como quem nutre respeito especial.) Lunga… (Pausa.)
Um homem vale mais pelo mal que consegue fazer
do que pelo bem.
Pacote olha para Damiano, que olha para um cavalo solto, descansando
embaixo de um pé de algaroba.
ELIPSE
Pacote termina de baixar lona protetora do Jeep e entra no carro, ligando o
motor. Damiano já está montado no cavalo e prepara-se para partir.
DAMIANO E fica de olho no céu. O drone que eu falei não é de
ninguém daqui.
Os dois amigos seguem em direções opostas.
112. EXT. ESTRADA DE TERRA/ TERRA SECA — DIA
Com o ruído do Jeep partindo, Damiano acelera sua moto. No lado da
estrada, o vento sopra a areia e vai revelando ali no chão uma misteriosa
arcada dentária incorporada há muito tempo ao chão do sertão…
CORTA PARA:
113. EXT. ESTRADA DE TERRA — DIA
Uma cruz de beira de estrada. O Jeep de Pacote passa em velocidade e uma
PAN ==> à direita revela uma ponte seca, com tubulação à mostra. Após
alguns instantes em alta velocidade na estrada de terra, Pacote dá uma
guinada à esquerda, entrando na caatinga e destroçando galhos secos que
encontra pela frente.
114. EXT. CAATINGA — DIA
O Jeep avança por dentro do mato seco, galhos arranhando a lataria. O Jeep
administra bem o terreno difícil, que lembra uma alameda de vegetação
cinza, um bosque morto.
115. EXT./ INT. PARA-BRISA JEEP — DIA
Pacote dirige, expressão de pesar.
PACOTE (Gritando com os amigos mortos.) EU FALEI PRA
VOCÊS NÃO IREM, CARALHO! EU SABIA
QUE ERA COCÓ, PORRA! EU FALEI, PORRA!
Ele vira-se para ver os amigos. Flávio e Maciel balançam, mortos, com a
vibração do Jeep no banco traseiro. Maciel está de olhos semiabertos. A
poeira e a caatinga ao fundo.
116. EXT. CLAREIRA DA TRILHA NA CAATINGA — DIA
Pacote passa por uma clareira onde dois veículos em ruínas encontram-se
abandonados, tomados por ferrugem e corroídos pelo tempo. A Veraneio
ainda é reconhecível como o veículo icônico policial dos anos 1970 no Brasil
que ela uma vez foi. Pacote parece conhecer o lugar e segue em frente,
aumentando a velocidade.
116A. EXT. ESTAÇÃO DE TREM — DIA
Pacote passa com seu Jeep pela estação de trem abandonada de Bacurau.
117. EXT. CANAL DE CONCRETO — DIA
Pacote continua até chegar ao canal de concreto para abastecimento de água,
totalmente seco. Ele entra com o Jeep no leito do canal com precisão e
avança em velocidade usando o espaço vazio e seco como estrada.
CORTA PARA:
118. EXT. REPRESA ABANDONADA — DIA
Um paredão de concreto. Um brilho minúsculo de espelho que pisca ao
longe. Uma troca de informações.
119. EXT. LEITO DE RIO SECO EM FRENTE À REPRESA — DIA
Pacote está com um espelho em mãos, seu Jeep estacionado, com os corpos
de Flávio e Maciel no banco de trás. Ele sinaliza para o outro lado do vale
seco.
FUSÃO-DISSOLVE
120A. EXT. ESTRADA DO RIO SECO — DIA
Pelo para-brisa do Jeep, a represa desponta na subida da estrada. Uma
enorme muralha.
120B. EXT. MONTANHA — ZOOM IN — DIA
Por cima da muralha, em ZOOM-IN , VEMOS o Jeep de Pacote aproximar-se da
represa no leito seco do reservatório. A represa tem porte espetacular.
120C. INT. CABINE DA REPRESA — DIA
LUNGA olha-se no espelho, de costas. Pulsos, mãos e dedos repletos de anéis
e pulseiras. Ela vira-se e anda em direção a BIDÉ (armado). Uma PAN-TILT
DOWN revela o Jeep de Pacote terminando de parar na base. Pacote desce e
olha para cima.
CORTA PARA:
120D. EXT. BASE DA REPRESA — CONTRA-PLONGÉE EXTREMO — OBJETIVA ZOOM
EM APROX. 300 MM — DIA
Lunga e RAOLINO na grade.
LUNGA Tem certeza que ninguém te seguiu?
PACOTE Tenho.
121. INT. CABINE DA REPRESA — PLONGÉE — DIA
Pacote remove a capota, revelando os corpos de Flávio e Maciel.
121A. INT. TORRE DA REPRESA — DIA
Bidé está olhando para baixo na direção de Pacote. Lunga está em primeiro
plano e apenas observa.
LUNGA Isso é Flávio?!
Pacote balança a cabeça positivamente.
BIDÉ Mataram meu primo. Eu quero descer, Lunga.
121B. INT. TÚNEL COM ESCADARIA/ REPRESA — DIA
Lunga, Bidé e Raolino descem uma escadaria sensacional em túnel da
represa. Lunga na frente.
CORTA PARA:
121C. INT. BASE DA REPRESA — DIA
Um plano alto, a parede imensa da represa ao lado. O trio chega até o Jeep
de Pacote.
121D. EXT. PAREDE DA REPRESA/ JEEP — DIA
A cabeça de Flávio em primeiro plano, Raolino aproxima-se, sobe no Jeep e
chega perto do primo, tomando-lhe a cabeça. Bidé aproxima-se de Flávio.
Lunga abraça Pacote. Raolino está um pouco desorientado depois de ver os
dois homens mortos.
BIDÉ
Minha tia já sabe disso?
CORTA PARA:
122. EXT. BASE DA REPRESA — DIA
OBS.: organização de planos: Pacote tem ao fundo o lago seco e verde. Lunga
tem ao fundo a parede direita da represa, com Raolino em segundo plano.
Bidé, a parede esquerda.
PACOTE Sabe não. Eu tô vindo direto de Tarairu. Encontrei
os meninos lá. Mataram Manelito e a família toda.
Preciso da ajuda de vocês.
Todos se entreolham.
RAOLINO Por que isso, porra? Um caba’ manso desse.
LUNGA Quem fez isso?
PACOTE Não sei, mas acho que quem fez isso vai chegar em
Bacurau.
LUNGA Mataram Erivaldo?
PACOTE Não, mas ele chegou com o tanque furado de bala.
Perdendo água.
LUNGA Perdendo água… (Pausa.) E a gente vai se expor de
novo?
PACOTE Vocês são respeitados em Bacurau, na região toda. A
gente precisa de vocês, por isso que eu tô aqui.
RAOLINO Lunga tá cansada, Acácio.
LUNGA Cansada um caralho, eu tô é com fome. Tô aqui feito
a bicha do Che Guevara, passando fome nessa
merda.
RAOLINO Eu também tô com fome.
PACOTE Em Bacurau tem comida e água. Vamo’.
LUNGA (Pausa.) E tu, Acácio, vai voltar a ser Pacote?
A câmera aproxima-se de Pacote, um plano de aventura.
CORTA PARA:
123. EXT. TELA DE TV PRAÇA — NOITE
A tela grande do carro de DJ Urso com o título PACOTE, O REI DO
TECO, uma compilação dos 10 Melhores Assassinatos por encomenda de
Acácio, vulgo Pacote, no estado de Pernambuco. O número 10 estampado na
tela e imagens de câmeras de segurança em que um homem de capacete
(Pacote) atira em dois outros homens num bar. Há trilha musical típica de
videogame e ruídos de reação da plateia na praça. O número 9 mostra um
homem de capacete (Pacote) numa moto, atirando para dentro de um carro
parado em um semáforo, de dia; o carro logo arranca, perdendo o controle e
batendo numa parede lateral.
124. EXT. PRAÇA — CONTRAPLANO — NOITE
Adolescentes, homens e mulheres aglomeram-se na praça para ver o
“portfólio” de Pacote, seus assassinatos vistos com orgulho e esperança por
muitos. Teresa está entre as pessoas e apenas observa sem julgamento. Ela
não tira os olhos das imagens e não mostra horror ou reprovação, nem
tampouco prazer ou aprovação.
Acompanhado de frente, Pacote aproxima-se, por entre a aglomeração, e
Teresa o vê à distância.
TERESA Tudo certo?
PACOTE Não. (Apontando para a tela.) Alguém desliga essa
merda?
DJ Urso apressa-se em ir desligar a tela.
PACOTE (Projetando a voz.) Pessoal, Lunga voltou.
Pacote vira-se e aponta para Lunga. As pessoas abrem espaço para ela passar,
como uma rainha. As pessoas, surpresas, começam a aplaudir Lunga, que
reage com humildade. Uma adolescente tenta tirar uma foto, Pacote
intercede.
PACOTE Tire foto não, fia. Por favor.
( )
NOTA: “You’re Nobody (Til’ Somebody Kills You)”, de Notorious B.I.G., sobe
na trilha sonora. Durante o aplauso, a pequena multidão começa a abrir e
virar-se para trás, quando é revelado o Jeep estacionado, Bidé e Raolino com
mãos na cintura olhando para os corpos de Flávio e Maciel no chão de
Bacurau. Luciene, esposa de Flávio, vem andando de braços dados a duas
senhoras, entrando no quadro e chorando, olhando para o corpo do marido.
Plínio e Madalena chegam junto de Teresa, o professor Plínio baixa a cabeça.
Domingas ao lado de Iza. Há um clima de comoção na pequena comunidade.
CORTA PARA:
125. EXT. BACURAU — ZOOM OUT — NOITE
“You’re Nobody (Til’ Somebody Kills You)”, de Notorious B.I.G, sobe junto
ao ZOOM OUT. O zoom abre para revelar um grupo de cinco jovens, que
engatam uma apresentação de C-Walk no beat da música na quadra de
esportes de Bacurau. DJ Urso pilota a música do seu carro de som.
126. EXT. LARGO DE BACURAU — NOITE
SEU ARNÓBIO, homem de 60 e poucos anos, chega para falar com a liderança
da comunidade, professor Plínio e dra. Domingas.
SEU ARNÓBIO Professor Plínio, dra. Domingas. Eu queria saber de
vocês se a gente pode reabrir a igreja.
DOMINGAS Ninguém aqui nunca proibiu a igreja.
Madalena e Teresa observam.
PLÍNIO A igreja virou esse depósito eu nem sei por quê. Se
faz bem pra vocês, faz bem pra gente.
Dona DAS DORES, mulher de meia-idade, aproxima-se depois de ouvir a
conversa.
DAS DORES Eu também quero reabrir a igreja batista. Pode ser?
Todos se olham.
PLÍNIO
(Para Arnóbio e para Das Dores.) Reabra, mulher.
Quem é que tá com a chave?
MADALENA Não tem chave não, a porta fica encostada.
127. EXT. FACHADA DA IGREJA — NOITE
A igreja católica que virou almoxarifado com a porta aberta. Dois homens
retiram dois caixões de defunto.
128. EXT. PRAÇA DE BACURAU — NOITE
Um velório improvisado na praça. Dois caixões. A população ao redor. Seu
Arnóbio aproxima-se de dra. Domingas e do professor Plínio. Teresa e
Madalena estão juntas. Os dois caixões com Flávio e Maciel estão expostos
na praça de Bacurau. Arnóbio acende velas com a ajuda de uma mulher.
Pessoas e familiares estão em volta velando os corpos. Carranca canta na sua
viola uma canção de ninar, ele para de tocar ao olhar para alguma coisa o -
screen. PAN ESQUERDA <====. Carranca anda acompanhado EM TRILHO que
revela o trailer/bordel fazendo a curva, faróis acesos, preparando-se para
deixar Bacurau, Madame ao volante, Deisy no passageiro. Carranca faz sinal
de parada. Madame para o veículo, a câmera desliza até a pequena janela do
trailer, onde VEMOS os rostos de Sandra e Robson olhando para fora.
CORTA PARA:
129. EXT. PARA-BRISA TRAILER — NOITE
Carranca esgueirando-se na janela do volante, Madame na direção, Deisy ao
lado observa. Pessoas aproximam-se e preenchem o quadro na frente do
carro.
CARRANCA Vocês não deviam sair daqui não. Tá perigoso.
MADAME Eu quero ir embora agora.
CARRANCA Pegar estrada de noite? Ninguém sabe o que tá
acontecendo. Tá sem comunicação, quem saiu não
voltou. Por favor, fiquem.
DEISY Eu vou ficar.
Deisy abre a sua porta, olhando para Madame. Madame olha para ela.
MADAME Tá certo.
Ao lado de Carranca, um homem espera para fazer pergunta:
HOMEM Dona Madame, Sandra tá livre agora?
CORTA PARA:
130. INT. BAR PASSO E FICO — NOITE
Lunga, Bidé, Raolino estão comendo feito bichos em mesa na área externa
do bar. Não há música. Comem sob os olhares de dezenas de pessoas, entre
elas Pacote e Teresa, em pé.
PACOTE Tu já tinha visto aquele vídeo?
TERESA Não.
PACOTE Só pra tu saber, o número 6, o da farmácia, ali não
sou eu.
Lunga levanta-se ainda mastigando. Anda até o meio da rua. Revelamos um
grupo de pessoas, homens e mulheres, já a postos com marretas, pás e
picaretas. Lunga vai até um marcador de madeira pintado na esquina, conta
sete passos até o meio da rua calçada. As pessoas aproximam-se e começa o
som impressionante das ferramentas batendo no chão, Lunga manejando
uma picareta.
131. EXT. FERRAMENTAS NA RUA — NOITE
Cortes múltiplos da ação de trabalho das ferramentas batendo nas pedras do
calçamento. Poeira e faíscas de ferro com pedra.
132. EXT. RUA — NOITE
A cerca de 200 metros dali, crianças brincam com o medo, estimuladas
pelos acontecimentos recentes da noite em Bacurau.
O rosto de RIVANILDO, dez anos de idade, com uma lanterna acesa embaixo
do queixo. Seus amigos o ouvem contar uma história de terror e almas
penadas com citações a Carmelita, Flávio, Maciel, Lunga e Pacote. A rápida
historinha de trancoso acaba com as crianças gritando e saindo correndo
para longe da câmera.
133. EXT. RUA E BECO — NOITE
Grupo de crianças faz enorme barulho e vem gritando correndo. Entram
num beco, onde casais se beijam contra a parede.
133A. PLANO-DETALHE — NOITE
A lua encoberta por nuvem espessa.
134. EXT. BACURAU SOB POSTE DE LUZ/ DESCAMPADO — NOITE
Bacurau à noite. Nos limites do povoado, um poste ilumina a última esquina.
A partir dali, começa a escuridão da caatinga. Crianças brincam, Rivanildo e
Jéssica estão no grupo. Jéssica vem correndo até o limite da luz, as outras
crianças vêm junto.
134A. PLANO-SHOT
Movimento circular faz a câmera se reposicionar em relação às crianças, que
passam a ficar de frente para a caatinga escura.
JÉSSICA (Com lanterna pequena de LED, apontando para o
rosto.) Bora ver quem vai mais longe no escuro!
MENINO 1 Então tu vai.
JÉSSICA Eu não!
MENINO 1 Tá, me dá que eu vou.
JÉSSICA Leva isso aqui e bota onde tu parar. O mais longe
que conseguir.
MENINO 1 Eu seeeei. Me dá.
Jéssica entrega a lanterninha, que pisca a cada dois segundos. Rivanildo
observa de perto.
JESSICA Cuidado não, pra num encontrar dona Carmelita…
RIVANILDO Cuidado não, pra não encontrar Flávio e Maciel!
134B. EXT. DESCAMPADO-GERAL — NOITE
Ficamos com os meninos e meninas em primeiro plano. O menino da
lanterna distancia-se em direção ao escuro em segundo plano. Ele vai
sumindo no breu com a lanterna piscando apontada para o chão. Ao entrar
uns 30 metros no escuro, passamos a ver apenas o brilho intermitente da
lanterna. De repente, o menino volta correndo do breu, sua imagem
clareando desembestado. A lanterna fica lá. As outras crianças riem.
MENINO 1 (Ofegante.) Torei aço, viu?
RIVANILDO Mai’ é frouxo… Sou eu agora!
Rivanildo faz o mesmo caminho, reto, em direção à lanterna de LED que
pisca deixada no chão como marcador pelo outro garoto. A caminhada
começa rápida e vai desacelerando à medida que tudo fica mais escuro. Ele
olha para trás e vê seus amigos reunidos sob a luz do poste, tensos, a 50-80
metros de distância.
134C. PLANO/SHOT: REAÇÃO
Crianças olham apreensivas, algumas fazem graça. Rivanildo chega até a
lanterna e a recolhe, seguindo em frente. Na profunda escuridão, ele olha
para trás mais uma vez e vê seus amigos a mais de 100 metros, pequeninos,
sob o poste.
134D. PLANO/SHOT: REAÇÃO
Crianças já não fazem graça.
134E. RIVANILDO NO ESCURO DA CAATINGA
Ele continua com medo, até parar ao ouvir um ruído à sua esquerda. Sem
mover a cabeça e congelado de medo, ele ouve passos se aproximando e
parando, os passos parecem estar no ritmo da luz de LED que pisca na
lanterna, virada para o chão.
Luz que pisca em intervalos da lanterna ilumina o chão da caatinga em flash
momentâneo. A mão do garoto levanta a lanterna e VEMOS um vulto adulto
masculino aproximando-se no breu. Rivanildo vira o rosto congelado de
medo e aponta a lanterna, que acende por um segundo o rosto de um
homem alto, branco, com roupa paramilitar, a um metro de distância do
garoto. O homem é Joshua. Na cadência da luz que piscou na lanterna, o
homem atira com uma pistola com silenciador, o clarão laranja do tiro no
cano silenciado da arma cortando a escuridão e iluminando o rosto de
Joshua.
CORTA PARA:
135. EXT. RUA PRINCIPAL/ PRAÇA — NOITE
PLANOS/SHOTS: A comunidade em PLANO GERAL da rua principal, muita
gente na rua. Um DOLLY IN nos aproxima do telão de LED da praça, que
marca a hora grande na tela. Relógio: 23h59. Ao virar as 00h00, um
blecaute apaga todas as luzes de Bacurau. Três planos mostram pontos da
comunidade apagando. O último plano mostra a luz do poste apagando
sobre as crianças. A comunidade grita em uníssono. As crianças gritam e
correm.
136. EXT. DETALHE — LUA
A lua está saindo de trás de uma nuvem grande e espessa.
137. EXT. CAATINGA — PL. GERAL — NOITE
A caatinga descampada onde Rivanildo foi morto é iluminada pelo luar, a
lanterna ainda pisca em intervalos. Os vultos na escuridão parecem ir
embora lá longe.
138. EXT. BACURAU — NOITE
O povoado está no breu. Lunga pede para todos se calarem, Raolino, Bidé e
todos os outros que cavavam buraco pedem silêncio. Teresa está assustada,
Pacote também pede silêncio. Lanternas e dispositivos móveis começam a
iluminar as calçadas onde grupos de pessoas saem de suas casas.
LUNGA Ssssshhhhhhhhh…
A gritaria coletiva some aos poucos e faz-se um silêncio denso.
LUNGA A gente ’tá sendo atacado…
Teresa aproxima-se. O silêncio é cortado pelo grito das crianças que voltam
correndo através do beco, Jéssica e os amigos de Rivanildo.
139. EXT. RUA PRINCIPAL DE BACURAU — NOITE
O grupo de crianças aparece correndo.
JÉSSICA Rivanildo sumiu!
Lunga olha para o grupo com ferramentas.
LUNGA
Continuem, sem parar.
CORTA PARA:
140. EXT. DESCAMPADO — TRAVELLING LATERAL — NOITE
Grupo de adultos de Bacurau caminha pelo descampado à procura de
Rivanildo. Eles marcham alinhados, fazendo uma varredura, iluminando a
área com lanternas. No grupo estão Pacote, Lunga, Teresa e Plínio. O grupo
anda à frente da câmera quando de repente todos veem o corpo do garoto
caído a uma certa distância.
Todos param. Lá de trás, vem correndo Ângela, a jovem professora do
menino, que passa rapidamente em direção ao corpo do seu aluno. Ela se
aproxima do corpo e o grupo à distância baixa as luzes das lanternas, em
sinal de respeito. Lunga anda até Ângela.
LUNGA Ângela, deixe eu lhe ajudar.
ÂNGELA Já tem até formiga…
Ângela levanta o corpo de Rivanildo. Lunga vem atrás de Ângela, fazendo
sinal com as mãos para que todos saiam dali. Alguém afasta o grupo de
amiguinhos de Rivanildo, incluindo Jéssica.
JÉSSICA Rivanildo vai ficar bem?
MULHER Vamos pra casa.
Pacote está com uma cápsula de projétil na mão. Lunga procura mais
vestígios com uma lanterna. Teresa confirma que a rede de celular continua
sem funcionar.
PACOTE Uma 9 mm. E ninguém ouviu nada.
Lunga fica imóvel, pensando.
141. EXT. PRAÇA BACURAU — NOITE
Os homens e mulheres com picaretas começam a parar ao perceber a
movimentação de Ângela saindo do beco acompanhada de muita gente,
trazendo seu aluno morto nos braços. A roupa encharcada de sangue, o
vermelho desce pelo seu short e pernas. Um cortejo de silhuetas sob dezenas
de luzes de lanternas e dispositivos LED. Na área do velório, um pequeno
grupo de homens e mulheres começa a rezar o pai-nosso. Os passos de todos
ao redor num silêncio crescente. Plínio vem atrás, Madalena segura a sua
mão.
MADALENA Tem gente rezando, painho. (Pausa.) Quem foi que
fez isso?
PLÍNIO Eu não sei, Madalena…
142. PLANOS DE REAÇÃO DE DIFERENTES PESSOAS
Uma delas é Damiano, que observa estático. Domingas e Iza estão ao seu
lado. Domingas pega uma garrafinha de bolso e dá um gole. Iza sai dali em
direção ao museu. Damiano vira-se para o outro lado e anda firme até sua
moto. Dez passos à frente, Deisy se aproxima e junta-se a ele.
DAMIANO Eu tenho que pegar uma coisa em casa.
Damiano dá partida na sua moto, Deisy na traseira.
CORTA PARA:
143. EXT. FACHADA DO MUSEU — NOITE
Iza abre as portas do museu. Ela entra e desaparece no escuro.
144. EXT. BACURAU — NOITE
Lunga carrega dois baldes com água e leva até o grupo que cava o buraco. Os
homens e mulheres fazem uma pausa para se refrescar, usando panelas de
cozinha para tirar a água e beber. A matilha de vira-latas ronda a praça,
atônita.
145. EXT. BACURAU — NOITE
Sequência de rostos de pessoas ao redor da escavação, no bar e na rua
principal de Bacurau que se entreolham. Eles parecem se comunicar por
telepatia. Lunga os observa com leve sorriso, como se entendesse tudo. Um
homem ao longe está fazendo movimentos com uma espada de fogo,
sozinho. O trailer de Madame está em plena atividade, uma fila de espera do
lado de fora.
146. EXT. PRAÇA DE BACURAU — NOITE
Um carro vem pela rua central em direção à saída de Bacurau. Cláudio
dirige, Nelinha ao seu lado. Algumas pessoas tentam dissuadir o casal a não
deixar o povoado. O motorista pede passagem na rua escura, farol alto.
MULHER NA Não vai não, Cláudio!
MULTIDÃO
CLÁUDIO Vamos embora, boa sorte pra vocês…
PACOTE (Correndo.) Cláudio! Fica!
147. EXT. BACURAU — PL. AÉREO — NOITE
Num plano alto e distante, o carro avança evitando as pessoas na rua
principal, quando a silhueta escura do drone/óvni passa abaixo da câmera,
revelando que Bacurau está sendo monitorada do alto. O carro faz a curva e
toma a estrada de terra no breu, os faróis iluminam três pessoas que vêm
caminhando com bolsas e malas, se aproximando da comunidade.
CORTA PARA:
147A. EXT. ESTRADA DE TERRA — POV CARRO — NOITE
Luz alta na estrada escura. O carro passa pelas três pessoas, elas são
Darlene, Osias e Zezinho, os proprietários do bar da estrada, que vêm
andando empurrando moto e trazendo sacolas.
148. EXT. PARA-BRISAS DO CARRO — NOITE
O casal no carro em velocidade, eles olham para a frente, apreensivos.
NELINHA Cláudio, não é perigoso, não?
CLÁUDIO Em uma horinha a gente chega em Serra Verde.
149. EXT. ESTRADA DE TERRA — CÂMERA CAR — NOITE
O carro segue à frente da câmera na estrada escura, as luzes traseiras
vermelhas e, à frente, os faróis altos iluminando o caminho. O carro parece
estar num túnel escuro.
CORTA PARA:
150. EXT. ESTRADA DE TERRA — PL. AÉREO — POV DRONE — NOITE
A imagem em preto e branco via infravermelho da monitoração do drone,
um plano aéreo. O carro segue abaixo com faróis ligados, em razoável
velocidade. Uma voz em o :
OPERADOR (O ) The car is on the road, I think you will see it in
less than four minutes. Will you make it?
[O carro está a caminho, acho que vocês o verão em
menos de quatro minutos. Vocês conseguem chegar?]
CORTA PARA:
151. EXT. CAMPO ABERTO — TRAVELLING LATERAL — NOITE
Jake e Julia estão correndo a toda velocidade num descampado, sob um céu
estrelado e a escuridão da noite. Eles têm o auxílio de lanternas. Carregam
com dificuldade rifles automáticos.
JULIA (Freneticamente.) We’re on it.
[Estamos indo.]
152. EXT. ESTRADA DE TERRA — CÂMERA CAR — NOITE
O carro de Cláudio e Nelinha segue à frente da câmera.
153. EXT. PARA-BRISAS DO CARRO — NOITE
O casal no carro em razoável velocidade, eles olham para a frente.
CORTA PARA:
154. EXT. CAMPO ABERTO — TRAVELLING LATERAL — NOITE
Jake e Julia correndo, o ruído de roupa, apetrechos e armas balançando nos
corpos.
JAKE (Ofegante.) We’ve almost made it…
[Quase chegando…]
155. EXT. CAMPO ABERTO — NOITE
Na distância escura, acima de uma colina, as pequenas luzes do carro vindo.
156. EXT. ESTRADA DE TERRA — CÂMERA CAR — NOITE
Seguimos o carro, que sobe uma ladeira até sumir momentaneamente do
outro lado, sua presença ainda perceptível via luz traseira vermelha. Aos
poucos, a câmera volta a ver o carro lá na frente. De repente, o carro perde o
controle e bate no barranco enquanto faíscas atingem a lataria no escuro, a
luz alta do carro continua ligada. O carro está sendo alvejado por dezenas de
tiros, Julia e Jake escondidos na escuridão ao lado da estrada. Cláudio tenta
sair e é atingido antes de dar o segundo passo.
CORTA PARA:
157. EXT. LATERAL DA ESTRADA — NOITE
Jake e Julia parados, ofegantes, observando o que acabaram de fazer.
JAKE Holy shit…
[Puta merda…]
158. EXT. CAMPO ABERTO — DOLLY TRACK — NOITE
Com um fundo de céu já laranja, de início de dia, mas ainda escuro, Julia
respira fundo e puxa Jake de volta para o campo. Eles andam, duas silhuetas
negras com rifles em punho, para gastar a energia da adrenalina. Vão até um
umbuzeiro seco, Jake a segue, os dois atônitos.
JULIA (Falando ofegante com o comunicador.) Road is
secure. We got them. We should both get credits,
both of us, one adult male, one adult female.
[A estrada está garantida. Pegamos eles. A gente
deve pontuar créditos iguais, homem e mulher
adultos.]
Ela desliga e olha para Jake.
JULIA That was insane!
[Foi louco!]
JAKE Yeah, it was… wasn’t it?
[Foi mesmo, não foi?]
Julia respira pesado e suspira. Pausa.
JULIA Wanna fuck?
[Quer trepar?]
JAKE Alright.
[Pode ser.]
O casal beija-se e tira o equipamento para trepar. O drone desce suavemente
do céu, nivelando a uma altura humana. Ele fica parado, sua silhueta contra
o leve amanhecer. Jake e Julia no chão.
OPERADOR (O ) Guys, you do understand you’re on camera,
right?
[Vocês sabem que estão sendo filmados, certo?]
JULIA (Olhando para trás, mostrando o dedo do meio.) Fuck
o !!!
[Toma no cu!!!]
O drone afastando-se lenta e controladamente, mas na mesma baixa altitude.
159. EXT. DETALHE MONITOR DO DRONE — NOITE
A imagem em preto e branco via infravermelho da monitoração do drone
observa Jake e Julia trepando. O drone/óvni afasta-se suavemente.
CORTA PARA:
160. INT. BARRACA FAZENDA TALHADO — NOITE
Michael e Chris assistem inertes às imagens ao vivo do drone. Michael
esboça um ligeiro sorriso. Chris prefere não ver e sai do quadro. Joshua e
Terry saem do túnel.
JOSHUA Take it easy, bro.
[Calma aí, amigão.]
TERRY Very funny.
[Muito engraçado.]
Michael e Chris olham. Joshua tem uma espingarda .12 tranquilamente
apoiada no ombro, com a expressão corporal de quem acaba de voltar de um
serviço bem-feito. Terry está tenso e sério.
MICHAEL What happened?
[O que aconteceu?]
TERRY This guy shot a kid. This ain’t right.
[Esse cara atirou numa criança. Isso não está certo.]
Joshua está descarregando seu cartão de body cam numa pequena estação
elétrica.
JOSHUA He was no kid, he looked about sixteen.
[Não era uma criança, ele parecia ter uns dezesseis
anos.]
TERRY No, you fucking maniac, you know he was no older
than nine. A child.
[Não, seu maníaco, você sabe muito bem que ele não
tinha mais de nove. Uma criança.]
JOSHUA This guy’s been busting my balls all the way in. The
kid got too nosy and he was possibly armed.
[Esse cara veio enchendo o meu saco até aqui. O
menino xeretou e podia estar armado.]
TERRY That little boy had a fucking flashlight.
[O garotinho tinha a porra de uma lanterna.]
JOSHUA Which I thought was a gun…
[Que eu achei que era uma arma…]
CHRIS (Juntando-se à discussão.) I shot a kid last night, but
I never knew she was in the truck. That’s a di erent
ballpark.
[Eu matei uma criança ontem, mas eu não sabia que
ela estava na picape. Isso é outra coisa.]
MICHAEL Look at these two. On one side, we have Josh, the
bad cop, human resources guy in a supermarket. On
the other side, Terry, good cop, correctional o cer
in a state prison. This world is upside down.
[Olha pra esses dois. De um lado, Josh, o malvado,
gerente de recursos humanos num supermercado.
Do outro lado, Chris, o bonzinho, agente
penitenciário numa prisão estadual. Esse mundo está
de cabeça para baixo.]
Michael põe dedo no ouvido. Aponta para o monitor.
MICHAEL
And I gotta tell you. Joshua has scored twice for the
dead, armed teenager.
[E Joshua acaba de pontuar duas vezes com o
adolescente armado.]
JOSHUA Fuckin’ A.
[Do cacete.]
Terry está enojado.
TERRY And you, Michael, you are a fucking nazi.
[E você, Michael, você é um nazista nojento.]
Michael congela, olhando para Terry. Não gostou. O olhar dele é
desconcertante.
MICHAEL How old are you, Terry?
[Qual a sua idade, Terry?]
Terry vira o rosto.
MICHAEL Again, how old are you, Terry?
[De novo, qual a sua idade, Terry?]
TERRY Twenty-nine.
[Vinte e nove.]
MICHAEL I haven’t been to Germany in 31 years. I am more
American than you are.
[Faz 31 anos que eu não vou à Alemanha. Eu sou
mais americano do que você.]
Michael puxa seu .38 e aponta para Terry, que se assusta. Joshua observa.
JOSHUA Whoa…
[Opa…]
MICHAEL
Don’t use your arms for protection, open them, away
from your body…
[Não use os braços para se proteger, abra-os, longe
do corpo.]
Michael atira no colete à prova de balas de Terry, fazendo-o pular de dor,
com falta de ar. O projétil cai no chão.
MICHAEL If you want to piss somebody o , avoid stupid
clichés, alright?
[Se quiser encher o saco de alguém, não use clichês
idiotas, o.k.?]
Michael olha para todos que estão ali, Terry engasgado. Ele sai em direção ao
túnel, enfurecido.
161. EXT. ALPENDRE CASA-GRANDE DA FAZENDA TALHADO — NOITE
Michael vem até a mureta e para na beirada do alpendre da casa-grande para
respirar.
CORTA PARA:
162. EXT. ALPENDRE CASA-GRANDE DA FAZENDA TALHADO — POV MICHAEL —
NOITE
Michael vê no horizonte os primeiros sinais dourados do sol que nasce,
quando algo chama a sua atenção do seu lado. Ao baixar a vista, ele vê uma
senhora negra terminando de subir a escada do alpendre, chegando a menos
de um metro dele e tocando o seu braço. O fantasma de dona Carmelita.
CORTA PARA:
163. EXT. CABANA DE DAMIANO — DIA
A primeira luz do dia. Um plano limpo da cabana rústica de Damiano, com
telhado de palha, cercada por matagal seco e fechado. Barulho de insetos.
Um fio de fumaça sai da chaminé. O PLANO FIXO passa a mover-se À
ESQUERDA, por trás dos arbustos, quando passamos por uma nuca e logo
depois outra: Kate e Willy observam a cabana, armados. O movimento
lateral revela a pequena estufa onde Damiano cultiva suas sementes e ervas.
WILLY (Sussurrando.) … one shot each.
[… um tiro pra cada.]
164. INT. CABANA DE DAMIANO/ ESTUFA — DIA
Damiano está completamente nu, colhendo sementes com uma caixa
compartimentada de plástico. Ele está de sandálias de couro. Ao se preparar
para sair da estufa, ele percebe algo de diferente na energia do lugar.
Damiano age como se nada tivesse percebido.
165. EXT. CABANA DE DAMIANO — DIA
Damiano sai e vem andando nu com a caixa na mão. Ele entra na sua cabana.
Cuidadosamente, Willy e Kate aproximam-se da cabana, pistolas em punho.
Willy tem um cigarro por acender na boca. Ao chegar junto da cabana, ele
tira um isqueiro Zippo, acende e leva o fogo para o telhado de palha do
casebre (que começa a queimar). Ele logo depois usa o mesmo fogo para
acender o cigarro. Ele guarda o isqueiro. Kate diz:
KATE Go, go…
[Vai, vai…]
Ele movimenta-se tranquilamente em direção à porta da frente do casebre,
enquanto Kate aguarda ao lado para dar sequência ao ataque.
CORTA PARA:
19
166. INT. CABANA DE DAMIANO — DIA
Num piscar de olhos, Damiano nu atira com um bacamarte, cujo coice é
extraordinário, a explosão, assustadora, e o estouro, ensurdecedor.
167. INT. CABANA DE DAMIANO — CONTRACAMPO — DIA
Willy não tem tempo de entender o que houve. Com a força bruta da
explosão e o impacto certeiro, sua cabeça explode num jorro de massa
encefálica, as laterais da porta são destroçadas simultaneamente com o tiro
de alcance aberto.
168. EXT. CABANA DE DAMIANO/ ÁRVORE — DIA
O tiro faz um bando de pássaros bater em revoada e um galho de árvore cai
também atingido.
169. EXT. CABANA DE DAMIANO — DIA
Kate entra em pânico e começa a atirar a esmo, seu rosto sujo do sangue do
companheiro de ação, distanciando-se da porta de entrada.
170. EXT. CABANA DE DAMIANO — PLANO ALTO — DIA
Com o fogo queimando a beira do telhado, seguimos Kate de cima. Ela não
para de atirar a esmo contra a cabana, quando de repente uma explosão bem
maior no sentido oposto é cuspida da lateral da casa, atingindo Kate em
cheio nos braços esticados, rosto e lateral do torso.
CORTA PARA:
171. EXT. CABANA DE DAMIANO/ JANELA — DIA
Pela janela, VEMOS Deisy, também nua, segurando trôpega um segundo
bacamarte, tentando recuperar o equilíbrio, a fumaça de pólvora no ar.
Damiano chega da sala por trás dela, nu e ainda com o seu bacamarte na
mão. Eles se olham atordoados.
CORTA PARA:
172. EXT. CABANA DE DAMIANO — DIA
Ainda nus, Damiano e Deisy usam vassouras de galho seco para apagar o
pequeno fogo com força e destreza.
CORTA PARA:
173. EXT. CABANA/ CHÃO — DIA
PONTO DE VISTA. KATE: O corpo sem cabeça de Willy é o que Kate,
agonizando no chão, está vendo. Ela foi atingida nos braços e mãos, o braço
esquerdo está com a mão e o antebraço totalmente destroçados. O braço
direito ferido ainda tem funcionalidade. Damiano e Deisy aproximam-se.
Kate levanta a sua mão direita, que segura um dispositivo móvel, ligado. Ela
o põe perto da boca. Seu rosto foi parcialmente atingido no lado direito. A
aproximação de Damiano e Deisy não traz violência ou ameaça, mas espanto
e até preocupação com a mulher mortalmente ferida.
KATE Help… me…
[Me ajude.]
O dispositivo traduz imediatamente, como uma dublagem malfeita, com voz
feminina em português de Portugal.
VOZ TRADUTOR 1 Ajude-me…
DAMIANO (Aproximando-se do aparelho.) Você quer viver ou
morrer?
Outra voz feminina traduz para o inglês americano.
[full07]
VOZ TRADUTOR 2 Do you want to live or die?
KATE I don’t want to die. My arm… My hand…
VOZ TRADUTOR 1 Eu não quero morrer. Meu braço…
Minha mão…
DEISY (Para o aparelho.) Por que vocês estão
fazendo isso?
VOZ TRADUTOR 2 Why are you doing this?
KATE (Agonizando.) I don’t… know…
VOZ TRADUTOR 1 Eu não sei…
Damiano enfia uma de suas sementes na boca de Kate. Ela engole.
DAMIANO Engula…
VOZ TRADUTOR 2 Swallow…
174. EXT. TRILHA NA CAATINGA — DIA
Damiano dirige sua moto pela caatinga. Deisy usa o colete à prova de balas
avariado e ensanguentado de Kate. Ela está sentada na garupa da moto, de
costas para Damiano e virada para o bagageiro, onde Kate está quase
desmaiando. Seus dois braços estão enfaixados, com torniquetes.
DEISY Ei! Durma não! Ei! Não durma!
CORTA PARA:
175. EXT. CAATINGA — DIA
Os Bandolero Shocks andam na caatinga profunda, cercados de vegetação e
terra dura. Michael, Joshua, Chris, Julia, Jake e Terry estão em roupas de
combate, armados com rifles automáticos, e usam bonés, Julia usa um
chapéu texano. Jake passa protetor solar e entrega o spray para Julia. Michael
verifica o comunicador. Uns na frente, outros mais atrás.
MICHAEL (Liderando.) Tracking device says Willy and Kate are
on their way to Bacurau.
[Dispositivo localizador informa que Willy e Kate
estão a caminho de Bacurau.]
JOSHUA So, they’re not joining us?
[Então eles não vão se juntar à gente?]
MICHAEL This is where normally things get out of hand, every
fucking time.
[Normalmente é nessa parte em que as coisas saem
do controle.]
JOSHUA They want to score, nothing new.
[Eles querem marcar pontos, normal.]
Mais atrás, Terry anda ao lado de Jake e Julia.
TERRY Gotta tell you something.
[Vou falar pra vocês uma coisa.]
JAKE Yeah?
[Sim?]
JULIA
Shoot…
[Manda…]
TERRY Well, I don’t know, this is it, I guess.
[Sei lá, acho que tá chegando a hora, né?]
JAKE This is what?
[Que hora?]
TERRY We’re heading into that village.
[Estamos chegando nessa cidadezinha.]
JULIA Oh yes, we are.
[Estamos, sim.]
Pausa.
TERRY You know, it happened twice, I left home with my
backpack stu ed with ammo, a Glock and a Mac-
10… I went to the Chandler mall, which was
nowhere near my place, and once to the Desert
Breeze Park, also pretty far away… Couldn’t bring
myself to do it. It was right after my breakup… First,
I felt like killing her and her mom and dad, they got
lucky, they were out of town in the middle of the
crisis. Then I just felt like shooting people, to get it
out of my chest. Thank God I didn’t, it was a bad
idea.
[Foram duas vezes que eu saí de casa armado até os
dentes, com uma Glock e um Mac-10… Eu fui no
shopping Chandler, que não ficava perto lá de casa, e
outra vez no parque Desert Breeze, que também não
era perto… E eu não consegui fazer o que eu queria.
Foi logo depois da minha separação… Primeiro, eu
queria matar ela e os pais dela, mas eles deram sorte,
estavam fora durante essa minha crise. Depois, eu
tive vontade de matar qualquer um, para desabafar.
Graças a Deus que eu não fiz, era uma péssima
ideia.]
JULIA
Take it easy, man.
[Relaxa, cara.]
JAKE That’s fucked-up, Terry.
[Que merda, Terry.]
Chris ouve a conversa, calado. Ouvimos ruído digital, Jake olha num
pequeno dispositivo com monitor.
JAKE I got the drone…
[Acessei o drone…]
Olha atento.
JAKE And it’s bad news…
[E é má notícia.]
O grupo para. Os outros se aproximam.
176. EXT. DETALHE — POV DO MONITOR DO DRONE — DIA
Na mão de Jake, VEMOS as imagens. O drone está caído em algum lugar,
câmera de lado no chão, pedrinhas em primeiro plano, a caatinga ao fundo.
Um coturno aparece muito perto da lente.
JOSHUA Somebody’s got the drone.
[Alguém pegou o drone.]
O drone é levantado e entra em quadro o rosto de Lunga, que parece
desligar rapidamente a câmera. Michael observa.
JOSHUA Is that a ladyboy?
[Era um traveco?]
177. EXT. CLAREIRA DA TRILHA NA CAATINGA — DIA
O grupo aproxima-se do pequeno cemitério de veículos abandonados. Foram
vistos na passagem de Pacote com os amigos mortos a caminho de
esconderijo de Lunga.
TERRY
Is this on the map?
[Isso está no mapa?]
CHRIS Not originally, Willy reported it two days ago… You
should know.
[Originalmente não, Willy reportou dois dias atrás…
Você devia saber.]
Eles passam pelos carros comidos pelo tempo. A Veraneio (o mais antigo)
chama a atenção de Julia pela lataria furada e o que aparentam ser tiros.
JULIA This one’s got bullet holes.
[Esse tem buracos de bala.]
CHRIS Is this a cop car?
[Isso é um carro de polícia?]
MICHAEL These are just old cars.
[São só carros velhos.]
JULIA Is this area really safe?
[Essa área é segura mesmo?]
MICHAEL Oh yes, it is, and here is where we split.
[Ah, é sim, e é aqui que nos separamos.]
JOSHUA Are you going solo?
[Você vai sozinho?]
Michael nem olha para Joshua.
MICHAEL I am.
[Vou.]
CORTA PARA:
178. EXT. INSERTS — DIA
Um plano gigante da região onde nossa história se passa.
CORTA PARA:
179. EXT. VISTA DO BAR DE DARLENE — DIA
Michael desce sozinho pela estrada de terra, olha para a frente com rifle
automático na mão. Ele para.
180. EXT. BAR DE DARLENE — DIA
VEMOS Domingas à distância, observando Michael, que se aproxima. O bar
de Darlene está vazio. Silêncio. Ela está sentada em uma mesa com toalha e
panelas de barro tampadas, pratos, talheres e guardanapos limpos e
dobrados. Uma cadeira segura o jaleco da dra. Domingas. Michael aproxima-
se sem tirar os olhos da mulher. Domingas olha fixamente para ele. Ela
levanta-se e anda mais à frente.
DOMINGAS (Em português, claro e explicado.) Essa comida é pra
vocês! Comida muito boa, muito gostosa!
Michael olha para a mesa. Ele para em frente à mesa posta. Domingas
destampa panelas, o vapor sobe, ela apresenta a comida como anfitriã,
experimentando o ensopado para provar que a comida é segura. Michael de
rifle em punho. Ele olha ao redor, não há ninguém. Michael vai aos poucos
se tornando um personagem cada vez mais imprevisível. O encontro de dois
chefes de duas tribos, cada um falando uma língua, sem intérprete presente.
MICHAEL Are you alone?
[Você está sozinha?]
DOMINGAS Por que vocês estão fazendo isso?
MICHAEL (Direto.) Two people, a man and a woman. Where
are they?
[Duas pessoas, um homem e uma mulher. Onde
estão?]
DOMINGAS (Apontando para Bacurau.) Vocês deviam ir embora.
Não é bom lá para vocês.
PAN ==> revela Bacurau à direita.
MICHAEL (Com claro respeito por Domingas.) Answer my
question, dear. A man and a woman, hombre, chica,
mujer. Where?
[Responda a minha pergunta, querida. Um homem e
uma mulher. Onde?]
DOMINGAS
Por que vocês estão fazendo isso? Todo mundo foi
embora. Com medo.
Michael anda até o bar e vê janelas e portas abertas, não há ninguém. Nesse
momento, Domingas tira seu jaleco de trás da cadeira e o veste. O jaleco está
muito sujo de sangue, o que chama a atenção de Michael, que volta fitando o
sangue na roupa branca de dra. Domingas.
Uma pausa, Michael olha.
MICHAEL Whose blood is this, dear?
[De quem é esse sangue, querida?]
DOMINGAS A moça morreu. Eu tentei ajudar, mas, muito
machucada, muito sangue.
Nesse momento, Domingas pega uma peixeira e a mostra ao invasor.
Michael por sua vez pega a sua própria faca de caça e a mostra a Domingas.
MICHAEL Is the girl dead?
[A garota morreu?]
Ele volta e empurra a mesa com o pé, derrubando as panelas de barro, que se
quebram no chão, espalhando tudo. A imagem de comida boa e preparada
com algumas boas intenções no chão do sertão é violenta. Ele segura a faca
de caça. Domingas segura a peixeira, ela afasta-se e toma um gole de cachaça.
Ele olha para ela e sai em direção a Bacurau, sem tirar os olhos dela. Michael
vai embora…
CORTA PARA:
181. EXT. VARAL DE ROUPA NA ENTRADA DE BACURAU — DIA
A 50 metros do ônibus-horta, um varal de roupas em primeiro plano. Joshua
e Julia parados vendo o varal com 9 peças: as roupas ensanguentadas de
Flávio e Maciel e as vestimentas tamanho infantil de Rivanildo. As roupas
com sangue coagulado balançam ao vento.
JOSHUA Fucking savages.
[Malditos selvagens.]
JULIA
( )
(No comunicador.) Guys, there’s blood-stained
clothing hanging by this house. I don’t like the looks of
it.
[Pessoal, há roupas ensanguentadas penduradas num
varal. Não estou gostando.]
CORTA PARA:
182. EXT. MATO ALTO/ DESCAMPADO — DIA
CHRIS Any small-sized clothing?
[Tem alguma peça tamanho pequeno?]
CORTA PARA:
183. EXT. VARAL DE ROUPA NA ENTRADA DE BACURAU — DIA
Julia olha para Joshua.
JULIA Yes.
[Tem.]
184. INT. CASA EM BACURAU — DIA
Terry está sozinho numa casa de família de Bacurau. Comida em cima da
mesa, TV ligada. Passando do quintal à sala da frente, ele descobre a
realidade da casa.
TERRY (Andando cuidadosamente.) I thought the kid was a
big guy, Joshua.
[Eu achei que a criança era um cara grandão,
Joshua.]
JOSHUA (O ) I told you, it was kinda dark…
[Eu disse que estava meio escuro…]
185. EXT. VARAL DE ROUPA NA ENTRADA DE BACURAU — DIA
Ainda no varal, Julia e Joshua olham à direita e veem um caminhão de carga
vindo pela estrada. Na carroceria, dezenas de caixões de defunto, outra vez
parecidos com os caixões espalhados no início do filme, na estrada.
JOSHUA Truck is late. It’s going in now.
[O caminhão está atrasado, mas chegando agora.]
186. INT. CASA EM BACURAU — DIA
TERRY I don’t see the point anymore, this place is deserted.
Everybody left. Maybe they knew we were coming.
[Não vejo mais sentido nisso, o lugar está deserto.
Todos foram embora, talvez ficaram sabendo que
viríamos.]
187. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
VERTIGO/EFEITO. Bacurau parece inchar na tela. A mira telescópica de
Michael entra em quadro, varrendo Bacurau de um ponto alto. PONTO DE
VISTA TELESCÓPICO DE MICHAEL. Um ZOOM revela um caminhão de médio
porte com carga na carroceria de madeira, entrando lá longe em Bacurau.
MICHAEL (De olho na mira.) Yes… where is everybody? I am
quite sure they are here.
[Sim… onde estão todos? Eu acho que eles estão
aqui.]
188. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO
TELESCÓPICA — DIA
Caminhão com caixões vem vindo, passando já pelo ambulatório de
Domingas, o museu, e para na igreja.
CORTA PARA:
189. INT. CASA EM BACURAU — DIA
De dentro da casa, Terry vê o caminhão passando.
190. EXT. MATO ALTO/ DESCAMPADO — DIA
Jake e Chris observam à distância o caminhão na frente da igreja, motorista e
um homem descem. Parecem não saber o que fazer.
191. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO
TELESCÓPICA MICHAEL — DIA
O motorista verifica seu dispositivo, parece ver que não tem sinal. Olha ao
redor, gesticula para o outro homem que já está na carroceria soltando
cordas.
192. EXT. MATO ALTO/ DESCAMPADO — DIA
Protegidos por vegetação alta, a oeste da igreja, Jake e Chris veem os caixões
sendo descarregados do caminhão pelos homens e colocados no chão.
JAKE Gets your heart pumping, don’t it?
[Faz o coração disparar, não é?]
CHRIS Some weird sight these co ns, yeah.
[Imagem estranha mesmo esses caixões, sim.]
CORTA PARA:
193. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Enquanto o caminhão é descarregado, Michael, cada vez mais imprevisível,
observa pela mira da sua arma e atira em alvos distantes.
CORTA PARA:
194. EXT. BACURAU — MONTAGEM — DIA
PLANOS FIXOS de fachadas de casas, na areia da rua, pequenas nuvens de pó
explodem nas paredes. O ritmo e a quantidade de tiros aumentam, todos
com ruídos surdos e pesados.
Rua principal está deserta com o caminhão ao fundo. Uma PAN <==== à
esquerda revela o ambulatório deserto de dra. Domingas, nos aproximamos
da janela e VEMOS o corpo de Kate na maca, lençol limpo até a cintura, nua
da cintura para cima, muito sangue nos braços e no lado do rosto, moscas,
uma tentativa evidente de salvá-la. Há soro, bolsa de sangue, tudo
abandonado.
CORTA PARA:
195. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Michael em posição de tiro, deitado. Michael atira.
CORTA PARA:
196. INT. PÁTIO DA ESCOLA — DIA
O pátio da escola está vazio, ao fundo se vê o palco externo do teatrinho
com desenhos infantis. TRAVELLING LATERAL enquadra dois tiros acertando
parede e lâmpada. Ao entrar na área coberta, uma única criança aterrorizada
protege-se na parede e corre em direção à câmera. O garoto de 11 anos entra
na sala de aula, uma lembrança triste de Rivanildo. Braços adultos recebem a
criança e a porta se fecha.
CORTA PARA:
197. INT. SALA DE AULA — DIA
Um calmo TILT DOWN aos poucos revela dezenas de pessoas deitadas imóveis
no chão, segurando seus gritos. Uma delas rasteja procurando melhor
posição. Teresa e Pacote estão deitados no chão.
198. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Michael para de atirar.
TERRY (O ) Michael, are you shooting? Are you using the
silencer?
[Michael, você está atirando com o silenciador?]
MICHAEL Oh yeah… I am using the silencer.
[Oh, sim… Estou usando o silenciador.]
TERRY (O ) Michael, stop shooting, we have to go in and get
Willy and Kate.
[Michael, pare de atirar, precisamos entrar e resgatar
Willy e Kate.]
MICHAEL Oh, they ARE here somewhere…
[Ah, eles ESTÃO aqui em algum lugar…]
199. INT. CASA/ FACHADA MUSEU — DIA
Terry sai pela frente da casa. Lá no fundo, alguém passa momentaneamente
no quintal, um vulto.
TERRY There’s the museum.
[Aqui está o museu.]
JULIA (O ) We only have 90 minutes until pick-up.
[Temos apenas 90 minutos até o transporte.]
Terry observa a fachada do museu.
TERRY Signal stronger now. Maybe these rocks mu e the
signal.
[O sinal está mais forte agora. Talvez essas pedras é
que cortem o sinal.]
CORTA PARA:
200. EXT. RUA — DIA
Terry avança lentamente em direção ao museu. Ele vê à distância os homens
descarregando o caminhão, caixões na rua.
201. INT. MUSEU — DIA
Terry entra no museu. Há um pequeno altar/santuário improvisado com o
manequim de um cangaceiro, com todos os detalhes da indumentária,
chapéu, calçado. Tudo simples, belo, autêntico, talvez kitsch. Nas paredes,
fotografias em preto e branco e em cores, quase um storyboard da história de
Bacurau: fotos do passado, festas na rua, personagens do século XX, homens,
mulheres, crianças. A feira, frutas, fumo. Uma foto exibe armas sendo
vendidas, um revólver .38 encravado numa banda cortada de melancia. Chris
acompanha as fotos e vê dois moradores de Bacurau segurando armas e um
corpo baleado na caatinga, os matadores sorriem.
A Veraneio com policiais civis, que detêm dois rapazes. Outra foto exibe
quatro corpos enfileirados, no chão. A famosa imagem das cabeças do bando
de Lampião expostas em Angicos (1938), recortes de jornal: O Globo — “A
cabeça de Lampeão disputada pela sciencia” e Diário de Pernambuco —
“Coiteiros de Bacurau são alvos da volante”. A última foto mostra cabeças
decepadas organizadas em fila na escadaria da igreja de Bacurau. Uma foto
nos mostra uma mulher armada idêntica a Teresa…
No museu, Terry percebe uma parede com ganchos, os objetos expostos
estão ausentes. Ele aproxima-se das etiquetas de identificação, sob cada
gancho vazio:
201A. DETALHE ETIQUETAS
Colt .45… Smith & Wesson… Luger… Winchester… As armas estão ausentes
do mostruário.
CORTA PARA:
202. INT. MUSEU — DIA
Terry percebe que um manequim veste improvisadamente os dois coletes,
chapéus e as botas de Kate e Willy. Isso confere com a posição indicada pelo
rastreador.
203. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Todos os caixões entregues, no largo da igreja.
MICHAEL (Olhando pela mira.) I met this strange and
interesting lady.
[Eu encontrei uma senhora estranha e interessante.]
JAKE (O ) Did you shoot her?
[Você atirou nela?]
Nesse momento, Michael atira. O motorista do caminhão de carga é atingido
nas costas, BANG, morte instantânea. O ajudante ouve algo, dá a volta,
encontra o motorista morto e é também atingido por balaço na cabeça.
BANG.
204. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
MICHAEL I did not.
[Não atirei.]
205. EXT. MATO ALTO/ DESCAMPADO — DIA
Chris reage à morte dos homens no caminhão.
CHRIS Michael, did you just shoot the guys from the truck?
[Michael, você atirou nos homens do caminhão?]
206. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Sem tirar o olho da mira, Michael diz:
MICHAEL I am shooting no one.
[Eu não estou atirando em ninguém.]
207. EXT. MATO ALTO/ DESCAMPADO/ PASSO E FICO — DIA
Chris e Jake avançam em direção ao largo da igreja. Bar Passo e Fico ao
fundo, buraco cavado por Lunga e seu bando em primeiro plano, logo depois
o estacionamento de caixões.
CORTA PARA:
JAKE (O ) Michael, I know it’s you.
[Michael, eu sei que foi você.]
CORTA PARA:
208. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Ao levantar-se do chão, a mão de Michael é furada por alguma coisa. PLANO
DETALHE revela dente fossilizado de tubarão encravado no chão. Michael
pega o dente e o analisa.
CORTA PARA:
209. EXT. PASSO E FICO/ BURACO — DIA
Enquadrado ao longe pela arcada dentária de um tubarão, peça decorativa do
Bar Passo e Fico, Chris vira-se e vai até Jake, que observa a escadaria
elaborada que leva ao subterrâneo de Bacurau.
CHRIS Population could be hiding in tunnels under the
village.
[A população pode estar escondida em túneis
embaixo da vila.]
JAKE What da fuck…
[Que porra é essa?]
CORTA PARA:
210. EXT. BURACO EM BACURAU — DIA
Jake, acima do buraco, vira o rosto ao ouvir Chris. Fora do seu campo de
visão, um braço de homem abre a grade no fundo da escavação.
CORTA PARA:
211. EXT. ENTRADA DE BACURAU/ ESCOLA — DIA
Julia e Joshua vêm andando apreensivos, varal ao fundo. Julia olha para a
escola.
JULIA I feel like shooting something…
[Vontade de dar tiro em alguma coisa…]
Sem parar, ela dá uma rajada de metralhadora “tommy gun” contra a escola.
Impactos na areia, muro, fachada e janela.
JOSHUA That’s a school…
[É uma escola…]
JULIA
I know.
[Eu sei.]
Eles continuam andando, distanciando-se da escola, quando atrás e na
lateral três janelas da escola se abrem e cospem uma saraivada anônima de
fogo que fuzila os dois Bandolero Shocks OFF SCREEN, atingindo também a
placa ESCOLA PROF. JOÃO CARPINTEIRO (de dentro para fora) e vidros do
ônibus-horta.
CORTA PARA:
212. EXT. PÁTIO DA ESCOLA/ SALA DE AULA — TRAVELLING — DIA
TRAVELLING janela adentro revela uma nuvem se dissipando e um grupo de
pessoas com armas de fogo, bacamartes, rifles. Madalena, Teresa, Pacote,
Plínio, desconhecidos segurando armas, rostos aterrorizados. Abaixo deles,
um tapete humano no chão.
CORTA PARA:
213. EXT. RUA — DIA
No largo da igreja, Chris dobra a esquina para ver o que se passa.
CORTA PARA:
214. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Pela sua mira, Michael observa Chris, que está andando de costas. Michael
atira no rapaz. Chris é atingido abaixo da cabeça, no pescoço.
CORTA PARA:
Jake reage à morte de Chris e corre para se abrigar.
JAKE Oh God…
[Oh, Deus…]
215. EXT. BACURAU/ PONTO DE OBSERVAÇÃO — POV MIRA DE TIRO — DIA
Michael tira seu rifle, o põe no chão, saca seu revólver .38 e o põe na boca.
Quando ele vê alguma coisa, seus olhos são desviados: Michael vê a imagem
impressionante de dona Carmelita, linda, com Bacurau ao fundo. Carmelita
parece apontar para algo atrás de Michael. Ele congela ao ver Carmelita e
retira a arma da boca. Ele baixa o revólver e recuamos para revelar
GALEGUINHO, homem de 50 e poucos anos, rosto incrível do sertão, com
rifle apontado para a cabeça de Michael. Nosso chefe-invasor é rendido da
maneira mais clássica no cinema de aventura.
216. INT. MUSEU — DIA
No museu, Terry ouve os tiros à distância.
TERRY (No rádio.) Who’s shooting now? Is this us?
[Quem está atirando agora? São nossos os tiros?]
216A. INT. MUSEU — SPLIT DIOPTER — DIA
Terry à esquerda e à direita, no seu ponto cego, há uma saída discreta de
alçapão atrás de um dos manequins. De lá, sai apenas um revólver Colt .38,
segurado por uma mão masculina cheia de joias e anéis (Lunga), apontado
para o Bandolero Shock. Três tiros são dados, mantendo o plano na arma.
CORTA PARA:
Terry, já trôpego, segura o pescoço sangrando, sua mão sangrenta segura na
parede, sujando-a.
CORTA PARA:
O rosto de Lunga materializa-se na escuridão do buraco e sai dele em ação
para cima.
CORTA PARA:
217. INT. MUSEU — GRANDE ANGULAR — DIA
Um plano baixo composto a partir do alçapão, com a parede de armas do
museu ao fundo, os fantasmas de armamentos ausentes perfeitamente em
foco. Terry anda trôpego rumo à saída no lado direito do quadro, e agora em
primeiro plano os vultos desfocados do grupo de Lunga crescendo em forma
na imagem, ficando de pé e movendo-se em direção a Terry, armas de fogo e
facões em punho. Lunga avança para Terry, que está debilitado, e parte para
destroçar o invasor a golpes de facão. Extremamente violento.
CORTA PARA:
MOMENTOS DEPOIS…
218. EXT. FACHADA DO MUSEU — DIA
Jake corre para o museu esgueirando-se pelos cantos, e entra temendo ser
atingido. Ele está tenso.
JAKE Terry?!? Answer, goddamit…
[Terry?!? Responde, porra…]
CORTA PARA:
20
219. INT. MUSEU — DIA
Jake entra no museu, a rua está ao fundo. Olhando para o chão, ele vê um
rastro de sangue que vai até o fundo do museu. Um ZOOM OUT mostra
Lunga, Bidé, Raolino e mais seis pessoas escondidas, à espreita, com armas
de fogo e facões, do lado esquerdo do quadro, na segunda sala do museu.
Eles aguardam Jake avançar. Ele avança e é trucidado.
CORTA PARA:
220. EXT. RUA/ ESCOLA — DIA
Os corpos de Joshua e Julia atingidos por dezenas de tiros.
221. EXT. ESCOLA — DIA
Pacote, muito cauteloso, sai da escola. Ele percebe que algo aconteceu e
sente alguma segurança.
222. EXT. MUSEU — DIA
De dentro do museu são arremessadas duas cabeças humanas, que rolam
calçada abaixo e pela rua de terra. Em seguida sai Lunga, facão em punho,
banhado de sangue, um TRAVELLING na sua direção enquanto ela também se
aproxima da câmera, uma imagem de horror. Bidé e Raolino também
banhados de sangue.
( )
LUNGA
(Falando para si mesma.) Eu ainda vou ser presidente
dessa porra.
Raolino, mãos e dedos cobertos de sangue, olha ao redor e assovia.
223. EXT. BACURAU — DIA
Na rua veem-se alguns corpos e cabeças dos Bandolero Shocks e
gradualmente os moradores saem à rua num PLANO ABERTO. Pacote vem em
direção ao museu, com Teresa e Madalena.
PACOTE (Nervoso.) Foi rápido.
Teresa observa com a irmã. Ela chega até a lente da câmera, um EXTREME
CLOSE-UP gradual e preciso.
224. EXT. RUA DE BACURAU — DIA
Lunga, Raolino, Darlene, Damiano e mais duas pessoas puxam caixões
estacionados perto da igreja. TTTRRRROOOSSSSHHHHHH, o ruído da
madeira de cada caixão arrastando no chão é forte. Eles organizam os
ataúdes.
CORTA PARA:
225. EXT. LARGO DA IGREJA — DIA
O momento em que o corpo sem cabeça de um invasor é assentado
grosseiramente dentro de um caixão. Extremamente sangrento. Ali do lado,
Carranca parece musicar a cena, sem cantar.
CORTA PARA:
Domingas vem andando no descampado com sombrinha, protegendo-se do
sol. Iza corre em sua direção e a beija.
226. EXT. RUA — DIA
A maior parte das pessoas está sentada no largo, estão cansadas, em choque.
As pessoas de Bacurau (dezenas) alinhadas, olhando, fotografando alguma
coisa, com rostos sérios, alguns riem como se estivessem num grande evento
demente. Eles veem as seis cabeças de Chris, Jake, Josh, Julia, Kate e Terry
organizadas na escadaria da igreja.
CORTA PARA:
227. INT. MUSEU — DIA
Iza entra no museu onde trabalha, uma mulher e um homem a acompanham
com baldes e panos, o chão coberto de sangue. Uma faxina precisa ser feita.
IZA A gente limpa o chão…
Ela olha a parede tocada com sangue por Terry, a parede das armas ausentes.
IZA … mas ninguém toca nas paredes. Deixamos
exatamente do jeito que ficou.
Pausa…
IZA Infelizmente…
CORTA PARA:
228. EXT. RUA — DIA
O rosto de Lunga. Ela levanta-se e vem andando, igreja ao fundo, parece
estar vendo alguma coisa fixamente. Revelamos dois carros que chegam a
Bacurau, um deles é o carro de Tony Jr., que já se encontra andando na rua,
com semblante preocupado.
229. EXT. BACURAU — DIA
Pacote junta-se a Lunga, andando. Seus assessores saem da van, os mesmos
do incidente com Sandra. Eles abrem a porta da van.
230. EXT./ INT. VAN/ RUA — DIA
INSERT: Uma van confortável. A porta corrediça revela 10 poltronas
desocupadas, cada uma com uma garrafa de água mineral. Um transporte à
espera de passageiros.
231. EXT. BACURAU — DIA
Tony Jr. anda lentamente e olha os sinais de luta e sangue no chão, nas
paredes. É um homem bem diferente do candidato em campanha de dias
atrás. Iza joga um balde de água com sangue para fora do museu, quase
atingindo o prefeito. Ele dirige-se a Teresa.
TONY JR. O que foi que houve? Cadê os turistas? Os gringos?
Um cerco de gente começa a fechar em torno de Tony Jr. Plínio surge ao
lado das filhas, seu ar sábio, um alívio. Ele olha para o prefeito e não diz
nada.
CLOSE-UP: Tony Jr. vê as cabeças dos “turistas” na porta da igreja, ele parece
não ter reação. Fica mudo, engole em seco. Vira-se para o assessor da van e
fala:
TONY JR. Fecha a porta…!
[full08]
232. EXT./ INT. VAN/ RUA — DIA
O assessor que abriu a porta da van agora discretamente a fecha, devagar.
TONY JR. (Pausa. Ele engata o tom do político profissional.)
Vocês… tão precisando de remédio? Eu quero
trabalhar para que tudo fique bem, e eu
pessoalmente me encarrego de levar esses gringos
para a Justiça.
LUNGA Eles morreram.
Uma MONTAGEM de rostos: Pacote, Plínio, Teresa, Damiano, Sandra, DJ
Urso, Lunga.
O prefeito continua:
TONY JR. Isso é um rabo de foguete em que vocês se meteram.
Esse povo é gente importante. O problema da água a
gente resolve, mas isso aqui não vai ficar barato,
não… Eu mesmo vou morrer por causa disso. Em
menos de 24 horas, isso aqui tudo vai virar cinza.
Lunga dirige-se a Tony Jr.
LUNGA Tu trouxe essas pessoas pra região?
TONY JR.
Eu não tô sabendo, mas eu sei que é gente de fora,
gente importante, é um projeto de fora. Eu estou do
lado de vocês, minha gente…
PLÍNIO Estamos sob o efeito de um poderoso psicotrópico.
E você vai morrer.
Nesse momento, ouve-se uma voz gritando: a voz de Michael.
MICHAEL Amigo!
CORTA PARA:
233. EXT./ INT. VAN/ RUA — DIA
O assessor que abriu a porta da van agora tira a sua arma e a põe no chão.
Sandra, Robson e Deisy observam o outro assessor que levou Sandra à força.
Eles parecem confabular com Sandra falando baixinho, tentam convencê-la a
vingar-se, entregando-lhe uma espingarda .12.
SANDRA Eu não vou me vingar. Já basta esse nojento ser
quem ele é.
Uma voz distante:
MICHAEL AMIGO!
21
A voz de Michael, que vem coberto de sangue na rua principal, mãos
amarradas e sob a mira da arma de Galeguinho, camisa desabotoada. Pessoas
armadas vêm acompanhando atrás. Ele parece conhecer Tony Jr.
MICHAEL (Voz descompensada, dentes ensanguentados.) Amigo!
Tony Jr. congela. A palavra “amigo” de Michael reverbera nos moradores de
Bacurau. Pacote, Teresa, Lunga, Raolino, Bidé, Iza, Madalena, todos olham
tensos para Tony Jr. Ninguém diz nada.
TONY JR. (Preocupado.) O que foi? Quem é esse?
MICHAEL (O tom é de ligeira loucura.) Amigo! Amigo! Amigo!
TONY JR. Oxe… Eu não conheço esse homem.
MICHAEL Tony!! Tony Jr.!! Amigo!!
Tony Jr. nega Michael mais de três vezes. Michael o tortura com promessas
de amizade, Tony, desesperado, tenta desvencilhar-se de qualquer relação na
frente da comunidade.
234. EXT. BACURAU — DIA
Tony Jr. observa tenso. Uma MONTAGEM de rostos; Pacote, Plínio, Teresa,
Damiano, Sandra, DJ Urso, Lunga, Domingas. Plínio solta uma gargalhada.
MICHAEL Money, diñero!! My amigo! Tony Jr.!! AMIGO!!!
ALGUM TEMPO DEPOIS…
Tony Jr. está apenas de cueca, sentado com mãos e pés amarrados em cima
de um jumento. Ele foi colocado ao contrário (de costas para a cabeça do
animal). Uma vara sustenta uma garrafa de água com rolha pendurada na
frente da cabeça do asno. Lunga mela sua mão de sangue num caixão e suja o
peito de Tony Jr. Pessoas registram com dispositivos digitais. Uma simpática
senhora traz uma máscara de papangu, que é logo colocada na cabeça de
Tony Jr. para completar a sua humilhação pública de guerra.
Michael observa, cansado.
MICHAEL So much violence…
[Tanta violência…]
Iza pega no rosto de Michael, com grande interesse.
IZA Um rosto diferente… Eu acho que ele já foi uma boa
pessoa, um bom homem.
DAMIANO Leva pra casa.
Bidé, arma no ombro, puxa o jumento por uma corda, rumo à caatinga. Fala
para todos, andando.
BIDÉ Não prometo que não vou matar.
Lunga e Raolino observam.
LUNGA Não mata. Isso é pior.
DJ Urso, ao microfone, comenta esse desdobramento da história ao vivo:
22
DJ URSO Partindo agora o nosso prefeito de Serra Verde, sr.
Tony Jr, em direção à caatinga de Bacurau. Que ele
encontre a paz que tanto necessita em meio às plantas
que furam e rasgam na nossa seca verde. Num dia de
tanto sangue e tristeza na nossa comunidade, damos
adeus a Tony Jr. Que o diabo o carregue…
CORTA PARA:
235. EXT. BACURAU — DIA
A despedida de Michael. Uma execução.
SEU ZEZINHO começa a tocar uma sanfona triste enquanto Lunga, Raolino,
Pacote e Galeguinho trazem Michael ensanguentado de mãos amarradas e o
posicionam junto da escadaria secreta de Bacurau, cercada de terra e barro.
Com certo pesar e nenhum traço de alegria, todos ali parecem saber o que se
passa. Mesmo Michael sabe o que vai acontecer. No topo da escada, o líder
dos invasores diz a Teresa com grande tranquilidade:
MICHAEL We killed more people than you know.
[Matamos mais gente do que vocês imaginam.]
Teresa reage com sábio horror.
236. EXT. BURACO — DIA
Um PLANO ABERTO próximo ao chão mostra Michael descendo a escadaria de
pedra, sumindo gradativamente rumo ao subterrâneo de Bacurau. A pequena
população observa calada a cerimônia ao som da sanfona triste. Lunga fecha
o portão e, com a ajuda de Pacote, fecha a entrada com o tampão de aço
pesado. O rosto de Michael desaparece na escuridão.
Todos coletivamente começam então o trabalho de enterrar o buraco, onde
Michael fará agora parte da arqueologia desse lugar. Ao som de uma sanfona,
a areia é jogada por pás, enxadas e também com as mãos. Teresa, o primeiro
rosto visto no filme, observa agora desperta, como quem vê o despertar de
um pesadelo.
FIM