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Dossiê Inteligência Artificial

Este documento apresenta um dossiê sobre inteligência artificial com vários artigos que abordam questões éticas e estéticas relacionadas a esta tecnologia.

Enviado por

Alê Almeida
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Conselho Editorial

Aécio da Silva Amaral Jr., UFPB, Brasil


Ana Amélia da Silva, PUC-SP, Brasil
Ariel Jerez Novarra, Universidad Complutense de Madrid, Espanha
Bruno Carriço dos Reis, Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal
Celso Fernando Favaretto, USP, Brasil
Claire Blencowe, University of Warwick, Reino Unido
Fernando Antonio de Azevedo, UFSCAR, Brasil
Gabriel Cohn, USP, Brasil
Jean Burgess, Queensland University of Technology, Austrália
José Luis Dader García, Universidad Complutense de Madrid, Espanha
Laurindo Lalo Leal, USP, Brasil
Maria do Socorro Braga, UFSCAR, Brasil
Maria Izilda Santos de Matos, PUC-SP, Brasil
Miguel Wady Chaia, PUC-SP, Brasil
Raquel Meneguelo, UNICAMP, Brasil
Regina Silveira
Rosemary Segurado, PUC-SP, Brasil
Silvana Maria Correa Tótora, PUC-SP, Brasil
Tathiana Senne Chicarino, FESPSP, Brasil
Yvone Dias Avelino, PUC-SP, Brasil
Venício Artur de Lima, UNB, Brasil
Vera Lucia Michalany Chaia, PUC-SP, Brasil
Victor Sampedro Blanco, Universidad Rey Juan Carlos, Espanha
Diretor Editorial
Rafael de Paula Aguiar Araújo, PUC-SP, Brasil
Editor
Luis Eduardo Tavares, FESPSP, Brasil
Editores Assistentes
Fabricio Augusto Antonio Amorim, PUC-SP, Brasil
Mércia Alves, UFPR, Brasil
Comitê Científico
Claudio Luis de Camargo Penteado, UFABC, Brasil
Eva Campos Domingues, Universidad de Valladolid, Espanha
Julian Brigstocke, Universidade de Cardiff, País de Gales
Marcelo Burgos Pimentel dos Santos, UFPB, Brasil
Maria Laura Tagina, Universidad La Matanza, Argentina
Pedro Malina, FESPSP, Brasil
Rodrigo Estramanho de Almeida, FESPSP, Brasil
Silvana Gobbi Martinho, PUC-SP, Brasil
Revisão de texto
INTERSABER
Diagramação
Yasmin Mancini, FESPSP, Brasil

Aurora. revista de arte, mídia e política é uma publicação do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política NEAMP do
Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative
Commons Attribution 4.0 International (CC BY 4.0)
Aurora
revista de arte, mídia e política
ISSN 1982-6672 - São Paulo, v.16, n.47, maio - agosto 2023

Sumário
Editorial 3-4

Dossiê
O Canto da sereIA 7-18
Luiz Vianna Sobrinho
Um futuro laboral distópico prenunciado na série Westworld da HBO Max 19-36
Cíntia Coelho da Silva
Devir, rizoma e transversalidade em Cyberpunk 2077: uma crítica às sociedades de 37-53
controle a partir de uma leitura deleuziana
Gilmar da Silva Montargil
Casas inteligentes, domesticidade digital e arquitetura contemporânea 54-75
Gabriel Barros Bordignon
IAs Generativas: a importância dos comandos para texto e imagem 76-94
Anderson Röhe e Lucia Santaella
Da reprodução imagética às fissuras algorítmicas: vieses, desvios e outros 95-111
campos de possíveis
Maria Cortez Salviano
Por uma etnografia do poder na inteligência artificial, no capitalismo de vigilância 112-133
e no colonialismo digital
Rafael Evangelista
Resenha
Novos desafios regulatórios: a recém-criada Autoridade Nacional de Proteção 134-151
de Dados (ANPD) em face da investigação do compartilhamento de dados entre
Whatsapp e Facebook
Carolina Guerra e João Bertholini
Sobre Superman em Super Pride: conservadorismo e estética kitsch como 152-170
elementos da representação LGBTI+ em quadrinhos americanos contemporâneos
Mário Jorge de Paiva
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2023v16i47p3-6

EDITORIAL

Dossiê Inteligência Artificial: questões éticas e estéticas


Parte 1
Luis Eduardo Tavares1
ORCID: 0000-0001-6005-6928

O ano de 2023 marca um importante divisor no desenvolvimento da Inteligência


Artificial (IA), especialmente no que diz respeito à sua disseminação para o
público em geral, com a proliferação de uma ampla gama de aplicativos. As IAs
generativas, fundamentadas em redes neurais e treinadas com o vasto acervo de
conhecimento humano digitalizado, agora são capazes de interagir em linguagem
natural com os usuários humanos e produzir textos, imagens e áudios de diversas
naturezas, mantendo uma notável consistência e qualidade. Tais capacidades
oferecem possibilidades surpreendentes, que podem ser tanto incríveis quanto
3
assustadoras. De fato, os adjetivos “incrível” e “assustador” têm sido amplamente
utilizados para descrever essa nova tecnologia, refletindo os sentimentos ambíguos
da sociedade em relação a ela. Desde o surgimento dos computadores pessoais e da
Internet, a sociedade experimentou tanto entusiasmo quanto desilusão com o uso
dessas tecnologias. Hoje, as IAs generativas estão sendo introduzidas no mercado
e na sociedade em um momento em que o debate sobre a regulamentação das
tecnologias digitais é impulsionado por uma série de incidentes que evidenciaram
seus efeitos sociais nocivos, aumentando a conscientização pública e a compreensão
da importância dessa discussão.
A antecipação de todas as consequências sociais decorrentes do uso
generalizado das IAs é incerta, pois somente a prática poderá revelar todas as suas
possibilidades. Entretanto, ao considerarmos a trajetória histórica da tecnologia no
contexto capitalista e à luz do cenário atual das tecnologias digitais da informação,
é possível vislumbrar os perigos iminentes que a IA representa. Esses perigos
incluem a supressão de empregos, o agravamento das desigualdades e, de maneira
ainda mais preocupante, a obsolescência humana. Eventos recentes relacionados

1
Editor da Revista Aurora, pesquisador do NEAMP e professor da pós-graduação da FESPSP.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2697350111113033.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 3-6, maio-agosto 2023
aos produtos das gigantes de tecnologia, como as táticas de manipulação da opinião
pública durante processos eleitorais, inauguradas pela Cambridge Analytica, a
disseminação de desinformação durante a pandemia de COVID-19, a propagação
de discursos de ódio e até mesmo jogos que incitam jovens a cometer violência,
além da revelação de que as empresas têm conhecimento da toxicidade de seus
produtos e ainda assim lucram com ela, levaram os Estados a tomar medidas de
regulamentação e controle das plataformas digitais.
Além disso, grupos da sociedade civil se unem em coalizões de defesa de
direitos para confrontar as ameaças advindas dos próprios Estados, que utilizam
as inovações tecnológicas para promover a vigilância em massa e o controle
social, frequentemente com caráter discriminatório, como evidenciado pelas
seletividade e “falhas” das tecnologias de reconhecimento facial. Dado que todas
essas práticas podem ser amplificadas pelo uso da IA, torna-se imperativo direcionar
nossa atenção para a necessidade urgente de controlar esse desenvolvimento
tecnológico, no sentido de extrair dele benefícios para toda a humanidade,
restringindo suas ameaças.
Nos últimos anos, diversos documentos sobre estratégias para a IA têm
sido produzidos por governos nacionais, organizações intergovernamentais, 4
instituições de cooperação internacional e grupos da sociedade civil. Esses
documentos objetivam orientar o desenvolvimento dessa tecnologia, fornecendo
estudos de impacto e recomendações para políticas relacionadas. No Brasil,
o Senado Federal elaborou um Projeto de Lei de regulamentação da IA, o PL
2338/232, que atualmente está em suas fases iniciais de tramitação. A formulação
de parâmetros éticos para orientar essa regulamentação está em curso em várias
esferas, e isso tem levantado preocupações entre as grandes empresas de tecnologia,
que exercem influência significativa nesse processo devido ao seu poder econômico.
Os debates se concentram em questões cruciais, como a definição da
responsabilidade pelo impacto da IA, a garantia de um desenvolvimento e
uso responsável em conformidade com os direitos humanos, a autonomia e a
centralidade da pessoa humana, o acesso equitativo à tecnologia e seus benefícios,
a transparência dos dados e a governança democrática envolvendo todas as partes
interessadas. A efetiva implementação da regulamentação pública da IA com base
nesses princípios éticos será um desafio significativo nos próximos anos, exigindo
uma ampla conscientização e mobilização da sociedade.

2
Projeto de Lei n° 2338, de 2023: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/mate-
ria/157233.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 3-6, maio-agosto 2023
Assim, o presente dossiê “Inteligência Artificial: questões éticas e
estéticas”, dividido entre as edições de número 47 e 48 da Aurora, revista de arte,
mídia e política da PUC-SP, visa contribuir com esta fase de reflexões sobre a
tecnologia, a identificação e o diagnóstico de seus problemas. Em todos os artigos,
as questões éticas e estéticas estão presentes de forma intrincada.
Abrimos o dossiê com o artigo-ensaio “O canto da sereIA”, de Luiz
Vianna Sobrinho, da Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/Fiocruz e um dos
fundadores da ELA-IA - Estratégia Latino Americana de Inteligência Artificial3.
O autor direciona o olhar crítico para a atenção à saúde, a prática médica e a
virada epistemológica da medicina de dados, chamando a atenção para o domínio
do conhecimento advindo da IA e para a necessidade de acesso ao conhecimento
socialmente construído que se anuncia, enquanto algo crucial para a ética
tecnológica.
Seguimos com os alertas da ficção científica, gênero narrativo que sempre
se caracterizou pela problematização da tecnologia e contribuição à percepção
pública dos perigos do progresso tecnológico desenfreado. Em “Um futuro
laboral distópico prenunciado na série Westworld da HBO Max”, Cíntia Coelho
da Silva, pesquisadora em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade 5
Presbiteriana Mackenzie, através de metodologia de análise crítica do discurso,
explora os aspectos antecipatórios presentes na narrativa futurista de Westworld,
como a indistinção entre o elemento humano e o artificial, extraindo conhecimentos
oportunos para uma realidade que já experimentamos.
Em “Devir, rizoma e transversalidade em Cyberpunk 2077: uma crítica às
sociedades de controle a partir de uma leitura deleuziana”, o pesquisador Gilmar
da Silva Montargil, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, traz para a
reflexão o game lançado em 2020 que apresenta um futuro em que já não é possível
desconectar a mente do ciberespaço. Com uma abordagem deleuziana, o autor destaca
como Cyberpunk 2077 problematiza os mecanismos de agenciamento da sociedade
de controle, alertando para um eventual descarte do corpo pelo tecnocapitalismo.
Gabriel Barros Bordignon, pesquisador Programa de Pós-graduação em
Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia, em seu artigo “Casas
inteligentes, domesticidade digital e arquitetura contemporânea”, discute a
realidade da automação residencial com IA, bem como a compactação dos ambientes
domésticos diante da expansão do cotidiano residencial para o ciberespaço.

3
https://ela-ia.org/.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 3-6, maio-agosto 2023
A discussão sobre as práticas de uso da IA no campo da arte contemporânea
estão presentes no artigo “IAs Generativas: a importância dos comandos para texto
e imagem” dos pesquisadores do programa de Pós-graduação em Tecnologias da
Inteligência e Design Digital da PUC-SP, Anderson Röhe e Lucia Santaella. Eles
analisam a relevância dos comandos no funcionamento do ChatGPT, gerador de
textos, e do MidJourney, gerador de imagens, por meio de método indutivo-
comparativo de seus diferentes sistemas de linguagem.
No artigo, “Da reprodução imagética às fissuras algorítmicas: vieses,
desvios e outros campos de possíveis”, Maria Cortez Salviano, pesquisadora
do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - IFCH-UNICAMP, indaga se
os relacionamentos com a tecnologia no campo da arte pode oferecer respostas
alternativas às formas danosas que a IA vem sendo aplicada, a partir de seu
específico modo de conhecimento baseado em identificação de padrões e em
probabilidades estatísticas.
Em “Por uma etnografia do poder na inteligência artificial, no capitalismo
de vigilância e no colonialismo digital”, Rafael Evangelista, pesquisador do
Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Nudecri/Unicamp) e
professor na pós graduação em Divulgação Científica e Cultural (IEL-UNICAMP), 6
emprega conceitos derivados de diversas tradições teóricas para enfatizar a
inextricável interrelação entre as ideias que circundam a inteligência artificial e
seus efeitos tangíveis na construção material e na organização social do mundo
contemporâneo.
A presente edição ainda conta com dois artigos de fluxo contínuo. O artigo
“Novos desafios regulatórios: a recém-criada Autoridade Nacional de Proteção de
Dados (ANPD) em face da investigação do compartilhamento de dados entre
Whatsapp e Facebook”, de Carolina Guerra e João Bertholini da PUC-SP, analisa
a primeira grande investigação da ANPD, criada em 2018, e seu poder de fogo
em relação às Big Techs.
E, finalizando a edição, o artigo “Sobre Superman em Super Pride:
conservadorismo e estética kitsch como elementos da representação LGBTI+ em
quadrinhos americanos contemporâneos” de Mário Jorge de Paiva, da PUC-Rio,
analisa a personagem Superman na edição comemorativa DC Pride 2022.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 3-6, maio-agosto 2023
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2023v16i47p7-18

DOSSIÊ:
Inteligência Artificial: questões éticas e estéticas - parte 1

O canto da sereIA
Luiz Vianna Sobrinho1
ORCID: 0000-0002-9725-8862

Resumo: Neste ensaio pretendemos demonstrar a necessidade de reflexão sobre o


domínio do conhecimento advindo das novas tecnologias de informação agrupadas
sobre a sigla de Inteligência Artificial. Partindo de linhas gerais, direcionamos o
olhar crítico para a questão da atenção à saúde, da prática médica e da virada
epistemológica da medicina de dados. O ponto crucial para a abordagem ética é
a possibilidade e necessidade de acesso ao conhecimento socialmente construído 7
que se anuncia, mas chamando a atenção para as armadilhas da economia política,
expressas nas relações sobre o imenso poder dessas tecnologias. O que pode estar
em jogo, além de radicalização da relação exploratória entre trabalho e capital, é a
própria descaracterização do ethos humano.

Palavras chave: Medicina de dados. Inteligência Artificial. Ética. Sociologia


médica.

1
Professor-colaborador do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural
/ Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca – ENSP/Fiocruz. Doutor em Bioética e Ética
Aplicada PPGBIOS-ENSP/Fiocruz. Membro fundador da Estratégia Latino-Americana de Inteli-
gência Artificial / ELA-IA. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1387261018617458

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

The sAIren song

Abstract: In this essay we intend to demonstrate the need for reflection on the
domain of knowledge arising from the new information technologies grouped
under the acronym of Artificial Intelligence. Starting from a general basis, we
focused a critical look onto the issue of health care, medical practice and the
epistemological turn of data medicine. The most important aspect for an ethical
approach is the possibility and need of access to a socially constructed knowledge 8
which announces itself whilst highlights the pitfalls of political economy
expressed in relations about these technologies’ immense power. What may be
at stake, in addition to the radicalization of the exploiting relationship between
workforce and capital, is the very decharacterization of the human ethos.

Keywords: Data medicine. Artificial intelligence. Ethic. Medical sociology.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

El canto de sIrenA

Resumen: En este ensayo pretendemos demostrar la necesidad de una reflexión


sobre el dominio del conocimiento derivado de las nuevas tecnologías de la
información agrupadas bajo las siglas de Inteligencia Artificial. Partiendo de
líneas generales, dirigimos una mirada crítica a la cuestión del cuidado de la
salud, la práctica médica y el giro epistemológico de la medicina de datos. El
punto crucial para el abordaje ético es la posibilidad y necesidad de acceso al 9
conocimiento socialmente construido que se anuncia, pero llamando la atención
sobre los escollos de la economía política, expresados ​​en las relaciones sobre el
inmenso poder de estas tecnologías. Lo que puede estar en juego, además de
la radicalización de la relación exploratoria entre trabajo y capital, es la propia
caracterización errónea del ethos humano.

Palabras clave: Medicina de datos. Inteligencia artificial. Ética. Sociología médica.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

Às Sereias chegarás em primeiro lugar, que todos


os homens enfeitiçam, que delas se aproximam.
Prossegue caminho, pondo nos ouvidos dos companheiros
cera doce

Mas se tu próprio quiseres ouvir o canto,


deixa que, na nau veloz, te amarrem as mãos e os pés
enquanto estás de pé contra o mastro; e que as cordas sejam
atadas ao mastro, para que deleitado oiças a voz das duas Sereias.

E se a eles ordenares que te libertem,


então que te amarrem com mais cordas ainda.

Homero. Odisséia, CANTO XII2

Introdução

A busca pelo conhecimento pode nos levar a situações de perigo, mas o exemplo
homérico aponta o mastro da razão para o uso do saber como salvação.
Comenta-se da distinção fundamental entre os dois principais e mais
simbólicos heróis dos grandes poemas que marcam fundamentos da cultura grega
10
e ocidental: Aquiles e sua ira – na Ilíada; Odisseu e sua astúcia – na Odisséia. Sem
derivar para as discussões historiográficas sobre a autoria dos poemas, nem as
inúmeras abordagens literárias possíveis, recolho o exemplo do segundo.
Em um rápido resumo de interpretação do cântico XII da Odisséia, temos
o herói, constituído marcadamente por suas limitações humanas, em seu longo
e tormentoso retorno para casa, sendo orientado pela deusa Circe ao encontro
com as Sereias. Ouvir o canto desses seres poderia ser comparado ao encanto das
Musas épicas, divindades que nos inspiram. Mas, no caso desses seres mitológicos,
o efeito enfeitiçante conduz à morte de desesperados que acabam por se atirar
ao mar, onde encontramos “amontoadas ossadas de homens decompostos e suas peles
marcescentes” (HOMERO, 2018). Odisseu, então, evita que seus companheiros
caiam no encanto, tapando-lhes os ouvidos com cera. Mas, para si próprio, acolhe
a artimanha que lhe dita a deusa, amarrando-se fortemente ao mastro do navio,
para que possa ouvir o canto, mas escapar da fatalidade.
A astúcia de Odisseu nesse canto marca um dos principais momentos
do poema; repleta de simbolismo, deu margem a inúmeras interpretações

2
HOMERO. Odisseia. Trad. Frederico Lourenço. Lisboa. Quetzal, 2018

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

filosóficas, além da questão literária, dada a importância dos exemplos homéricos


na formação do ethos da Grécia Clássica. Ouvir o relato de suas vitórias nas lutas
e batalhas da guerra de Tróia, era a promessa tentadora desse cântico, e o mais
irresistível chamado que todo herói almejava; saber e rever ainda em vida os seus
feitos de coragem iluminavam sua honra, sendo o valor maior para a constituição
do seu caráter – o ethos da época homérica (MACINTYRE, 1976). Assim, o que as
Sereias ofereciam era o retorno e acesso ao conhecimento do que constitua o maior
valor para a vida, e o astuto guerreiro pretendia levar para sua viagem de volta à
Ítaca esse saber.
Sabemos, pela continuidade do poema, que Odisseu sai exitoso em seu
desejo de conhecimento. Sim, buscar o conhecimento é a grande representação
que podemos fazer desse anseio em ouvir o relato de suas glórias no passado em
Tróia (PUCCI, 1997). Equivale a outros exemplos da relação do homem com
a conquista do conhecimento, como no mito de Prometeu. Mas no caso deste
último, será o Titã quem pagará com seu suplício eterno, por trazer aos homens
o saber do fogo divino. O exemplo de Odisseu nos serve melhor nesse momento,
pois credita à sua astúcia, uma capacidade humana, a garantia de preservar a sua 11
vida ao mesmo tempo em que lhe permite alcançar uma glória única.
Assim, permanece muito mais presente na cultura e no senso comum
o simbolismo e a utilização do ‘canto da sereia’, como algo ludibrioso que nos
é oferecido, tendo arraigada a imagem de ser uma proposta enganosa, que tem
grande chance de nos iludir. A saída é seguir o conselho da deusa: é preciso estar
atento ao que podemos considerar aquilo que nos mantém seguros, capazes de ter
acesso ao saber, sem arriscar tudo o mais que nos caracteriza – seja a nossa alma,
o caráter, ou a própria vida. Esse mastro onde nos fixamos é a escolha astuciosa
dos que se permitem permanecer sem os ouvidos tapados pela cêra da indiferença
e da ignorância. Esse mastro é a opção de quem está atento ao saber, mas sabe
reconhecer os perigos desse encanto.
Sem necessidade de recuar na história, nosso tempo é repleto de tentativas
de encanto pela promessa de conhecimentos que nos levarão à redenção absoluta.
O domínio sobre a energia das partículas e forças nucleares e o controle da
dinâmica do processo bioquímico que envolve os genes e as proteínas são dois
grandes exemplos de cantos que têm esta potência. Anunciadas como tecnologias
que salvariam a humanidade de suas carências e mapeariam a vida e suas mazelas,

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

em ambos os casos, permanecemos de algum modo seguros ao mastro que ainda


nos protege da ruína. O perigo de aniquilamento total, vez por outra, nos assalta
no primeiro caso, mesmo após Hiroshima e Nagazaki3; e a possibilidade de
quimeras ou transformações irreversíveis das nossas características, que embalam
alguns sonhos transhumanistas, continuam nos rondando, apesar das resoluções
da Conferência de Asilomar (MUKHERJEE, 2016).
Podemos assim deixar demarcado o que desejamos distinguir como o
conhecimento, pensado como possibilidade ontológica, como referência àquilo
que é; do conhecimento, como as modalidades de apresentação da realidade, não
só para distintos modelos de sensibilidade (GABRIEL, 2021), como também com
distintas intenções de informação (FLORIDI, 2013). Essa é parte da discussão
entre o aspecto ontológico e epistemológico da realidade (FERRARIS, 2016). E é
uma demarcação de suma importância para o que vamos aqui passar a denominar
como conhecimento, corresponde à primeira acepção e é o que temos buscado;
para a segunda, que podemos determinar como o Canto, temos de nos cuidar.

O novo canto
12
A revolução anunciada da era da informação se estabelece de vez a partir da última
década com o desenvolvimento de um conjunto de tecnologias de grande impacto
na sociedade, sob a designação genérica de Inteligência Artificial (IA). As tecnologias
de informação, no contato comum da vida do cidadão, participavam mais como
mecanismos de suporte à gestão e emprego das tecnologias eletroeletrônicas; mas
na virada da última década – a partir da expectativa do emprego ubíquo da IA,
da total datificação da gramática social, da plataformização como organização do
espaço das relações sociais – tornou-se claro o poder e controle sobre os dados o
ponto central da questão. Paralelamente a isso, a velocidade do progresso específico
da área computacional não vem dando espaço para o acompanhamento normativo
legal assegurar o suficiente para a proteção individual, nem muito menos regular
o impacto político das iniquidades que já se anunciam.
O ‘canto da sereia’, que a promessa do progresso tecnológico sempre nos
oferece, aponta para o benefício que a humanidade desfrutará, com a redenção de
seus problemas mundanos. No entanto, a história desde sempre, e mais claramente
nos tempos modernos, tem nos demonstrado que a posse e o desenho do próprio

3
No momento da confecção deste artigo, o uso de armas nucleares é um dos temas das mídias que
cobrem a guerra entre Rússia e Ucrânia/OTAN.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

desenvolvimento tecnológico estão vinculados ao controle e à manutenção das


relações de poder. Assim, apesar do estrondoso avanço tecnológico do último século,
tragicamente acentuamos mais a distribuição da riqueza produzida socialmente
e mantemos grande parte da população mundial sem acesso a esses recursos, nem
às condições mínimas para a dignidade humana. E nesse contexto, apresentam-
se as capacidades da IA, como a tecnologia que nos ajudará a solucionar todas as
crises mundiais. Reconhecendo que essa sempre foi a promessa de outras ondas
tecnológicas, esperamos pelo acerto com algo que irá nos redimir de nós mesmos.
Desde já, então, devemos localizar aquilo que é da ordem do discurso
e as várias interpretações que se confundem com o conhecimento do objeto
tecnológico. De saída, o ‘canto da sereia’ se vislumbra aqui no frequente debate
equivocado que aponta as polaridades de uma postura tecnofóbica ou tecnofílica
relacionada à IA, mas também pretendendo um posicionamento neutro, em geral
voltado às características puramente objetivas do mecanismo do objeto técnico.
Observar como um instrumento isolado uma faca, uma máquina de costura ou
um algoritmo para decisão terapêutica, sem a perspectiva de sua reprodução em
um conjunto com o humano e suas relações sociais é o mesmo que estar com “cera
nos ouvidos”. 13
Da mesma forma, entender a relação humana com o objeto técnico dentro
da concepção evolutiva da epifilogenética (STIEGLER, 2014), não comporta o
caráter de continuidade a que se pretende dar segurança a uma cadeia de novas
descobertas. Nenhum olhar sobre a história da técnica ou da tecnologia nos
obriga ou impõe esse determinismo de progresso sempre inevitável que invalide
o temor de um fracasso civilizacional. Pelo contrário, a exploração acelerada pela
industrialização massiva da mnemotécnica, em sua reprodução para o investimento
capitalista, poderia estar chegando a um ponto sem retorno, onde a tecnificação
psíquica nos conduziria a uma crise da individuação e da temporalidade, para um
mundo sem futuro (STIEGLER, 2019).

Cibernética médica

O modelo do capitalismo financeiro propriamente chega à área da assistência à


saúde com o avanço da desregulação neoliberal (SESTELO, 2018), justamente
acompanhando o alvorecer da Era da Informação – ou quarta revolução industrial
(FLORIDI, 2014). No entanto, já havia um solo propício à datificação das práticas
assistenciais na área médica, desde a virada do último século. Depois do boom

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

tecnológico de insumos diagnósticos e terapêuticos nas últimas décadas do séc.


XX, as adaptações da propedêutica médica resultaram não apenas da formalização
de protocolos para a melhor parametrização científica do uso dessas tecnologias
– a Medicina Baseada em Evidência (MBE) –, como também da disseminação de
métodos de controle dos custos que se agrupavam nas práticas de managed care
(VIANNA SOBRINHO, 2022). Uma transformação que atingiu gradualmente
a autonomia da decisão médica, reduzindo a participação de opiniões e intuições
subjetivas e direcionando para a quantificação totalmente objetiva da abordagem
sobre o processo de saúde/doença. Para essa concepção, a base epistemológica
da medicina praticamente encaminhou-se rumo à visão mais naturalista, ligada
ao modelo bioestatístico do filósofo Christopher Boorse (BOORSE, 2014). Uma
concepção que dá possibilidade à precisão de limites e determinação numérica
da ‘patologia’ - disease, sem as considerações subjetivas e imprecisas da ‘doença’ –
illness (GAUDENZI, 2014). Tudo agora pode – ou terá – de ser lido, traduzido ou
reduzido ao dado. Mesmo as questões ligadas aos processos mentais e psíquicos,
o que fora até mesmo excluído do escopo deste autor. Estamos agora lidando
com extração, processamento, fluxo e armazenamento de dados (VIANNA 14
SOBRINHO, 2021).
E esse modelo, que chamamos de ‘medicina de dados’, já poderia ter sido
batizado a partir de uma importante sentença do médico e pesquisador Eric Topol,
em seu livro A destruição criativa da medicina (TOPOL, 2013). Mestre e mentor
de gerações de cardiologistas no final do século passado, Topol propõe uma total
transformação – de inspiração confessadamente schumpeteriana – das técnicas
médicas com o seguinte vaticínio: “A medicina está prestes a passar por seu maior
abalo na história [...] pela primeira vez, podemos digitalizar humanos” (TOPOL, 2013,
P.13). Uma sentença que claramente demarca a datificação da medicina, e anuncia
o autor como um dos líderes e arautos da medicina de precisão, mantendo uma
prolífica produção tanto acadêmica quanto de diretrizes para esse novo momento
da prática médica com a chegada das tecnologias de IA (TOPOL, 2019a).
Já no começo da última década, este autor destacava as condições que
possibilitariam essa mudança, como a imensa capacidade de armazenamento e
processamento de dados, a universalização de conexão da população global através
da internet e das redes sociais e a onipresença de smartphones conectados em
velocidade de banda larga. Essa estrutura de coleta e armazenamento, circulação e

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O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

processamentos de dados já suportaria um poderoso sistema para se implantar um


modelo de leitura e identificação de cada indivíduo. A ‘digitalização do humano’
envolveria a leitura de dados funcionais objetivos a partir de biossensores remotos,
o sequenciamento genético de cada indivíduo, o armazenamento de imagens
diagnósticas e a troca permanente de informações formando o ecossistema
sanitário. Mas o avanço das tecnologias de IA foram tão acelerados, principalmente
após os modelos de aprendizado de máquina, deu um novo rumo às expectativas
e fechamos a mesma década com a conclusão teórica de que, em breve, podemos
não precisar de médicos (VIANNA SOBRINHO, 2021).
Ora, para lidar com dados, principalmente se são muitos, variados,
simultâneos e complexos, a capacidade dos sistemas computacionais parece ser
incomparável. As diversas tecnologias sob o rótulo de IA têm demonstrado
uma potência antes inimaginável para o tratamento com grande velocidade
de quantidades gigantescas de informação. Em poucos anos, já demonstraram
a acurácia em sistemas de diagnósticos e caminham para a área do tratamento
cognitivo dessa informação com os novos modelos de processamento de linguagem
(Large Language Models – LLM). A expectativa verdadeiramente passa de uma 15
posição da tecnologia como uma instrumentação, para a possibilidade da IA
assumir o raciocínio clínico, a decisão e o controle. Nesse ponto em que chegamos
atualmente (e essas mudanças agora surgem com periodicidade semanal...) a
discussão gira em torno do limite de atuação dos programas de IA, seja como um
assistente ao profissional (MOOR & TOPOL, 2023) ou mesmo indo além (LEE,
GOLDBERG & KOHANE, 2023). Assim, é o momento de se perguntar: onde
estará aí o canto da sereia?
É do conhecimento geral que o mercado da saúde movimenta uma fatia
expressiva do PIB das principais economias do mundo. A tendência para a
exploração desse mercado pelo dinâmica do colonialismo dos dados (COULDRY
& MEJIAS, 2019) já atrai as grandes detentoras e formuladoras das tecnologias
digitais – as denominadas Big-Techs – que rapidamente ingressaram nesse ramo
para a oferta de serviços de assistência na área médica (THOMASON, 2021).
Como as características do capitalismo financeiro se expandem ao extremo
com a digitalização, para alguns, isso poderá resultar na derrocada da relação
do capital com o trabalho, com possível dispensa de maior parte ou quase toda
força humana (DYER-WITHEFORD, 2019). Temos então, um momento de

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O CANTO DA SEREIA LUIZ VIANNA SOBRINHO

grandes expectativas e incertezas, pois a velocidade das novas descobertas e o


volume de investimento vem, como de costume, amparado no forte apelo de se
estar oferecendo sempre ‘o melhor da medicina’ – um canto irresistível (VIANNA
SOBRINHO, 2013).
Enquanto as forças do encantamento nos rondam de forma cada vez mais
inescapável, ainda é possível pensar no que podemos construir na exploração
desse conhecimento. Notadamente, mesmo antes do acelerado uso da web como
espaço social ocasionado pela maior pandemia dessa geração, várias entidades
governamentais e civis, universidades e organizações, já se ocupavam da
fundamentação ética para avaliar os conflitos resultantes do emprego da IA e os
caminhos para a sua regulação, dado o poder transformador dessas tecnologias.
Chegando ao consenso de que essas transformações podem se dar em várias
direções nas relações de poder, praticamente constatamos ser uma tendência
mundial a institucionalização da ética em estruturas oficiais em vários níveis,
tanto de governança quanto operacionais.
A ética já foi requisitada dos bancos da academia para a vida prática, no
intuito de resolver os conflitos da tecnologia com as ciências médicas nas últimas 16
décadas do século XX, período de nascimento da bioética. Em artigo desta época, o
filósofo Stephen Toulmin expõe esse fato defendendo que “a medicina salvou a vida da
ética” (TOULMIN, 1982, P.750). Destacamos que a reflexão filosófica atualmente
se torna novamente necessária, porém mais extensamente agora, com o auxílio da
epistemologia e da ontologia para a fundamentação das condutas éticas. E o que
deveríamos estar mais atentos é justamente aos limites que nos separam de qualquer
outra existência. As relações entre o humano e a tecnologia nunca foram a ponto tão
extremos quanto agora, onde aquilo que propriamente nos caracteriza, a capacidade
cognitiva, é apresentada em objetos técnicos que “se tornam independentes porque são
tão perigosamente semelhantes a nós” (MALABOU, 2019).
Podemos considerar o conceito contemporâneo de cibernética recuperado
por Wiener como o poder de controle pela máquina através dos processos
informacionais (WIENER, 1970). Não vai muito distante do pensamento grego,
onde a cibernética como arte da navegação e do governo dava o tom de uma práxis
que se desenvolvia na vida prática, com as nuances e variações dos casos particulares.
Em uma realidade “carente de exatidão, não há arte ou preceito que abranja a todos,
mas as próprias pessoas atuantes devem considerar, em cada caso, o que é mais apropriado

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à ocasião, como sucede na arte da navegação e na medicina” (ARISTÓTELES, 1987.


P.28). Nessa modulação que o humano sofre na sua interação com seus objetos
técnicos, resta esperar e observar como encontraremos em breve as capacidades
humanas, moldadas pela leitura digital do mundo.
Seguindo o exemplo de Odisseu, é preciso seguir a estratégia de amarras e
cuidado permanente e definir em que mastro nos fixaremos para resistir ao engodo
do ‘canto’, podendo assim explorar o conhecimento, que é aquilo o que realmente
desejamos – as potências libertadoras dessa tecnologia.

Referências

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Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 7-18, maio-agosto 2023
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2023v16i47p19-36

Um futuro laboral distópico prenunciado na série Westworld


da HBO Max
Cíntia Coelho da Silva1
ORCID: 0000-0001-7999-1748

Resumo: O presente artigo visa explicitar como a ficção científica arquitetou


previamente (programação preditiva) aquilo que os profissionais da tecnologia
criaram ou revelaram ao público, posteriormente: a ideia do androide, dos robôs
e da Inteligência Artificial (IA). A Série Westworld da HBO Max retrata uma
realidade em que não se pode distinguir com clareza onde está o elemento humano
e o artificial. Um mundo onde seres humanos e máquinas trabalham e vivem lado
19
a lado, sem que os humanos se deem conta disso. O ensaio foi elaborado a partir
da seleção e análise de cenas, por meio do método de Análise Crítica do Discurso
(ACD) de Norman Fairclough (1995), em que fica explicitada tal indistinção
laboral entre homem e máquina. O resultado foi a constatação do domínio da
máquina sobre a humanidade.

Palavras-chave: Inteligência Artificial. Westworld. Trabalho. Programação


preditiva.

1
Doutoranda em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie,
mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e graduada
em História pela mesma instituição. Pós-graduada em Comunicação Corporativa e com MBA
em Marketing na Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Atua com criação de conteúdo textual e
possui ampla experiência em comunicação corporativa e marketing. Lattes: http://lattes.cnpq.
br/7832345010827170.

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UM FUTURO LABORAL DISTÓPICO PRENUNCIADO NA SÉRIE WESTWORLD DA HBO MAX CÍNTIA COELHO DA SILVA

A dystopian work future foretold in the HBO Max series


WestWorld

Abstract: This article aims to explain how science fiction previously architected
(predictive programming) what technology professionals later created or revealed
to the public: the idea of androids, robots, and Artificial Intelligence (AI). HBO
Max’s series Westworld portrays a reality where it is not clear where the human
element ends and the artificial begins. A world where humans and machines
work and live side by side without humans realizing it. The essay was developed 20
by selecting and analyzing scenes using Norman Fairclough’s (1995) method
of Critical Discourse Analysis (CDA), which highlights the blurring of the line
between human and machine labor. The result was the realization of the machine’s
dominance over humanity.

Keywords: Artificial Intelligence. Westworld. Labor. Predictive programming.

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UM FUTURO LABORAL DISTÓPICO PRENUNCIADO NA SÉRIE WESTWORLD DA HBO MAX CÍNTIA COELHO DA SILVA

Un futuro laboral distópico prenunciado en la serie


Westworld de HBO Max

Resumen: Este artículo pretende explicar cómo la ciencia ficción articuló


previamente (programación predictiva) lo que los profesionales de la tecnología
crearon o revelaron al público posteriormente: la idea del androide, los robots y la
Inteligencia Artificial (IA). La serie Westworld de HBO Max retrata una realidad
en la que no es posible distinguir claramente dónde están los elementos humanos
y artificiales. Un mundo donde los humanos y las máquinas trabajan y viven uno 21
al lado del otro, sin que los humanos se den cuenta. El ensayo se elaboró ​​a partir
de la selección y análisis de escenas, utilizando el método de Análisis Crítico del
Discurso (ACD) de Norman Fairclough (1995), que explica la falta de distinción
entre hombre y máquina. El resultado fue la comprensión del dominio de la
máquina sobre la humanidad.

Palabras clave: Inteligencia artificial. Westworld. Trabajo. Programación


predictiva.

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UM FUTURO LABORAL DISTÓPICO PRENUNCIADO NA SÉRIE WESTWORLD DA HBO MAX CÍNTIA COELHO DA SILVA

Introdução

Os roteiristas e produtores, Jonathan Nolan (britânico) e Lisa Joy (estadunidense),


são os cocriadores da série Westworld da HBO (estreada em 2016) que mistura
faroeste e ficção científica distópica. A série se baseia no filme de mesmo nome
de 1973, escrito e dirigido pelo estadunidense Michael Crichton, que retrata
um parque de diversões futurista e imersivo. A história que se passa no ano
de 2050 em Westworld (parque temático criado pela empresa fictícia Delos
Incorporated) classifica os seres humanos (visitantes do parque) como “recém-
chegados” e denomina as máquinas com quem estes interagem de “anfitriões”
(androides indistinguíveis dos humanos), os quais são programados para satisfazer
todo e qualquer desejo humano (sem regras ou leis de nenhuma ordem) em uma
simulação do mundo real – até que as máquinas começam a se rebelar.
Na série, os roteiristas expõem o início e o fim (embora inconclusivo) de
um mundo distópico que culmina em um cenário apocalíptico. O olhar aguçado
e possivelmente preditivo dos autores denuncia a iminência de uma sociedade
dominada pela Inteligência Artificial (IA). Evidenciado, inclusive no cenário
22
corporativo (mercado de trabalho) a inserção das máquinas em atividades até
então somente executadas por seres humanos – tudo de forma imperceptível.
Máquinas que possuem lembranças, sentimentos, emoções e histórias: famílias,
tragédias e perdas que costumam marcar a vida humana – são “transferidas” às
máquinas que se passam por humanos – como é o caso do personagem Bernard
Lowe (interpretado por Jeffrey Wright), funcionário da Delos Incorporated.
A série é dividida em quatro temporadas: a primeira intitulada The Maze
de 2016 (dez episódios); a segunda nomeada The Door de 2018 (dez episódios);
a terceira designada The New World de 2020 (oito episódios) e a quarta e última
denominada The Choice de 2022 (oito episódios).
Na primeira temporada, enquanto os “recém-chegados” exploram o
parque e interagem com anfitriões robóticos, em um cenário típico do velho oeste
– a série aborda questões como livre-arbítrio, identidade e violência. Assim como
inicia reflexões sobre os limites éticos e morais da tecnologia (IA). É ainda na
primeira temporada que as máquinas (os “anfitriões”) começam a desenvolver uma
consciência própria e questionam seu papel no parque. Embora, ao longo da série
o próprio conceito de consciência seja colocado em cheque, como evidencia a fala

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UM FUTURO LABORAL DISTÓPICO PRENUNCIADO NA SÉRIE WESTWORLD DA HBO MAX CÍNTIA COELHO DA SILVA

do personagem Dr. Robert Ford (interpretado por Anthony Hopkins) no oitavo


episódio da primeira temporada: we can’t define consciousness because consciousness does
not exist. Humans fancy that there’s something special about the way we perceive the world,
and yet we live in loops as tight and as closed as the hosts do, seldom questioning our choices,
content, for the most part, to be told what to do next.
Na segunda temporada, há as primeiras consequências da “rebelião” das
máquinas e se inicia uma batalha pelo controle do parque, luta entre máquina e
homem, e a corporação que os controla (Delos Incorporated) fundada e dirigida
pelo personagem James Delos (interpretado por Peter Mullan). Ao longo de dez
episódios, dentre os diversos temas abordados estão: escolha, sacrifício, conflitos
internos e reflexões sobre a natureza humana e a busca pela liberdade.
A terceira temporada tem como cenário o mundo real (fora do parque
temático). A anfitriã Dolores Abernathy (interpretada por Evan Rachel Wood)
consegue escapar do parque – ao copiar sua consciência para um novo corpo
sintético produzido pela Delos – com a imagem/personificação de Charlotte
Hale (interpretada por Tessa Thompson) executiva da Delos, morta por Dolores
no final da segunda temporada. Dolores imprimiu sua própria personalidade 23
nele, permitindo-lhe assumir a identidade de Charlotte e entrar no mundo real,
passando-se por humana. A motivação de Dolores era destruir a Delos e acabar
com o controle que a empresa exercia sobre a vida dos anfitriões em Westworld.
É também nesta temporada que há menção à Nova Ordem Mundial – um dos
temas centrais da temporada – em que o personagem Serac (interpretado por
Vincent Cassel), CEO da empresa Incite, planeja usar a tecnologia para criar
uma nova ordem mundial, na qual todas as decisões sejam tomadas com base em
algoritmos, possibilitando o domínio sobre a sociedade por meio da tecnologia e
concentração de poder.
Na quarta temporada, a série apresenta a luta dos personagens para
controlar o futuro de um mundo devastado pela IA. Evidenciando os perigos da
tecnologia e seu impacto na sociedade. Os personagens enfrentam dilemas morais
e desafios éticos, enquanto lutam para sobreviver em um mundo cada vez mais
controlado pela tecnologia. No final do sétimo episódio da quarta temporada
intitulado The Absence of Field, a música “sugestiva” The Man Who Sold The
World de David Bowie (interpretada por Ramin Djawadi, compositor da trilha
sonora original da série) compõe o fundo musical de um cenário apocalíptico

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e nos deixa a seguinte reflexão: teria a humanidade se vendido em nome de


avanços tecnológicos, aumento de produtividade, lucro e conveniência? Será que
sabíamos que o preço seríamos nós? Teríamos dado um cheque em branco sem
ter dimensão do alto preço que pagaríamos? Uma vez que é nesta temporada
(sétimo episódio) que uma das cópias de William (um dos personagens principais
da série, interpretado pelo ator Ed Harris), criada pela Delos Incorporated (a
Delos coletava dados detalhados sobre os visitantes para um propósito obscuro:
criar cópias exatas dos visitantes, conhecidas como “híbridos” ou “clones”, com a
intenção de substituir as pessoas reais no mundo exterior – o permitiria à Delos
controlar e manipular os visitantes fora do parque, utilizando as réplicas como
substitutos controláveis e influenciáveis), inicia um verdadeiro e completo colapso
na sociedade. Na quarta temporada, a cópia de William, chega ao topo da torre
(estrutura de controle que envia sinais sonoros a fim de ativar ou desativar códigos
que alteram os comportamentos tanto dos anfitriões quanto dos humanos) ele
aumenta o nível de decibéis no transmissor de áudio, enviando uma mensagem
a todos para lutar até que apenas os fortes sobrevivam e o resultado é um mundo
devastado. Não cena não é indicada a sobrevivência de nenhum humano, embora 24
haja anfitriões que resistem ao efeito dos sinais sonoros. A torre de transmissão de
áudio também é destruída nesta cena.
Para além das questões explicitadas na série Westworld da HBO o presente
artigo também discorre sobre o Direito do trabalho e todas as questões sociais
decorrentes do impacto do avanço tecnológico em nossa sociedade.

Máquinas e humanos indistinguíveis nas atividades laborais

A ideia de que a máquina se confunde com o humano, ou seja, de que as máquinas


se tornaram aparentemente indistinguíveis dos seres humanos, é apresentada já na
primeira temporada, no episódio The Origin of Pain em que o personagem William,
em sua versão jovem (interpretado por Jimmi Simpson) questiona a funcionária
da Delos (interpretada por Talulah Riley) se ela era humana ou máquina e, esta
última responde: If you can’t tell, does it matter?. Ideia que também se repete
no quarto episódio The Riddle of the Sphinx da segunda temporada – quando o
personagem Logan Delos (interpretado pelo ator britânico Ben Barnes), filho de
James Delos, ao se encontrar com um investidor que propunha investimento no

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parque e nos anfitriões, não se dá conta de que está cercado por máquinas e não
por pessoas de carne e osso.
O caso que iremos ressaltar aqui quanto à indistinção entre homem e
máquina na atuação profissional é o personagem Bernard Lowe (interpretado por
Jeffrey Wright) conforme mencionado na introdução. Bernard desempenha o
papel de chefe da divisão de qualidade do parque Westworld na Delos Incorporated,
cuja função é garantir a fidelidade (conceito explorado no próximo tópico) e
credibilidade dos anfitriões (androides do parque).
Bernard é um personagem reservado, analítico, inteligente e também
sensível. Ele tem um profundo entendimento do funcionamento interno dos
anfitriões e sua programação o torna altamente valorizado pela Delos. Ele atua
lado a lado com os funcionários humanos da Delos sem que ninguém se dê conta
disso, devido à sua programação avançada, que inclui um conjunto complexo
de algoritmos comportamentais que o permitem se passar por um humano.
O anfitrião que se passa por ser humano chega a inclusive ter um caso com
uma funcionária, a personagem Theresa Cullen (interpretada por Sidse Babett
Knudsen) que faz o papel de chefe de operações da Delos. Bernard, em uma cena, 25
chega a inclusive a fumar um cigarro após ter relações com Theresa – uma vez que
os anfitriões da Delos podem fazer quase tudo o que os humanos fazem inclusive
atividades relacionadas a vício e prazer, como o ato de fumar, assim como serem
acometidos de lesões físicas e sangrar.
Bernard foi criado por Dr. Robert Ford (interpretado por Anthony Hopkins),
o cofundador do parque e ex-diretor criativo, à semelhança de Arnold Weber, seu
sócio falecido. As memórias de Bernard foram programadas por Ford para espelhar
as de Weber, incluindo seu luto simulado pela perda de sua esposa e filho. Essa
família simulada serve como um meio de ligação de Bernard com a humanidade.
Bernard crer ser singular, ou seja, insubstituível, acentuando assim a sua
humanidade simulada. Embora, vejamos, em nosso tempo (início do século XXI)
e realidade, a humanidade ser substituída em parte de seu ser e identidade: no
trabalho, por robôs.
Ao submetermos uma fala do personagem Bernard, ao método de Análise
Crítica do Discurso (ACD) de Norman Fairclough (1995), podemos constatar
o esforço da máquina em simular a essência humana: I don’t know what I am.
I’ve been questioning my entire reality lately. If I’m not real, then what have I got to

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lose? (dita na primeira temporada, sétimo episódio intitulado Trompe L’Oeil à


personagem Theresa Cullen, interpretada por Sidse Babett Knudsen. Nessa
fala, Bernard expressa a incerteza sobre sua própria existência, assim como uma
reflexão existencial que é uma característica típica da humanidade. Enquanto
buscava esconder sua verdadeira identidade – comportando-se e falando como
um humano.

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Tabela 1 – Análise Crítica do Discurso (ACD) – fala do personagem


Bernard Lowe (interpretado por Jeffrey Wright) dita a Theresa Cullen
(interpretada por Sidse Babett Knudsen), na segunda temporada, quarto
episódio intitulado Trompe L’Oeil.

Excerto Primeira Segunda dimensão Terceira


a ser dimensão (prática discursiva = dimensão
analisado (texto = análise da análise do texto) (prática social =
palavra) análise da norma)
Análise da Análise da ordem Intertextualidade e a
escolha/seleção de discurso (aspecto interdiscursividade
de palavras que semiótico de uma (análise da construção
revelam atitudes ordem social) e do texto e sua relação
(demonstração da aspectos interacionais com discursos presentes
parcialidade da e comunicativos do na sociedade)
linguagem que texto. Observação
contém valores, de como práticas
atitudes e avaliações) discursivas são
organizadas e
controladas em uma
sociedade (relações
de poder e ideologias
presentes em práticas
sociais)
Texto: “I don’t -A escolha de palavras -A utilização de uma -A busca por
know what I do texto selecionado linguagem direta e identidade é uma 27
am. I’ve been reflete uma atitude objetiva sugere um questão central na
questioning my de dúvida, incerteza diálogo consigo mesmo, cultura contemporânea,
entire reality e questionamento em que o sujeito busca especialmente entre
lately. If I’m not em relação à própria compreender sua as gerações mais
real, then what identidade. A própria identidade e sua jovens, que buscam
have I got to palavra “questioning” relação com o mundo. compreender sua
lose?”. sugere uma busca A ordem do discurso própria identidade
por respostas e se apresenta como um em um mundo cada
um processo de processo de reflexão e vez mais complexo e
reflexão que busca questionamento, em plural. O texto revela,
compreender a que o sujeito busca portanto, a presença
própria realidade. compreender sua própria de uma ideologia
Já a expressão “what realidade. que valoriza a busca
have I got to lose?” pela identidade e
denota uma sensação a necessidade de se
de perda e um desafio reconstruir em caso de
para se reconstruir, perda ou incerteza.
caso a identidade não
seja real.
Fonte: elaborado pela autora.

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UM FUTURO LABORAL DISTÓPICO PRENUNCIADO NA SÉRIE WESTWORLD DA HBO MAX CÍNTIA COELHO DA SILVA

Outra personagem anfitriã que deixa transparecer em sua fala essa


indistinção entre homem e máquina, já mencionada no início desse tópico, é
a funcionária da Delos, Angela, (interpretada por Talulah Riley). Na cena em
que os personagens William (interpretado por Jimmi Simpson) e Logan Delos
(interpretado por Ben Barnes) estão a caminho do parque, eles são recepcionados
por Angela, quem está encarregada de conduzi-los ao início de uma aventura em
Westworld. Durante a recepção, William expressa sua desconfiança em relação aos
anfitriões, questionando Angela se ela era humana ou um robô. Então Angela
responde: “If you can’t tell, does it matter?”. Ao submetermos a frase em questão ao
método de Análise Crítica do Discurso (ACD) de Fairclough, temos a seguinte
constatação (vide tabela 2):

28

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Tabela 2 – Análise Crítica do Discurso (ACD) – fala da personagem


Angela que atua como funcionária da Delos (interpretada por Talulah Riley), na
primeira temporada, segundo episódio intitulado Chestnut.

Excerto Primeira Segunda dimensão Terceira dimensão


a ser dimensão (prática discursiva = (prática social =
analisado (texto = análise da análise do texto) análise da norma)
palavra)
Análise da Análise da ordem Intertextualidade e a
escolha/seleção de discurso (aspecto interdiscursividade
de palavras que semiótico de uma (análise da construção
revelam atitudes ordem social) e do texto e sua relação
(demonstração da aspectos interacionais e com discursos presentes
parcialidade da comunicativos do texto. na sociedade)
linguagem que Observação de como
contém valores, práticas discursivas são
atitudes e avaliações) organizadas e controladas
em uma sociedade
(relações de poder e
ideologias presentes em
práticas sociais)
Texto: “If you - A escolha de - A frase é proferida por - Questionamento
can’t tell, does palavras na frase uma anfitriã, Angela, em da importância
it matter?”. sugere que a um contexto em que ela das diferenças e da
distinção entre está recebendo visitantes categorização, algo
humanos e robôs não humanos no parque. que pode ser visto 29
é necessariamente A expressão de Angela como uma crítica à
relevante ou reflete a lógica do parque, sociedade em que
importante, pois o que desafia os visitantes a vivemos, que tende a
fato de uma pessoa questionarem sua própria valorizar a diferenciação
não conseguir realidade e a distinguirem e a categorização de
diferenciá-los não o que é real do que é uma indivíduos. A frase
afeta a experiência ilusão. Assim, a frase de também destaca as
do indivíduo no Angela também serve relações de poder
parque. A frase como uma estratégia para existentes na sociedade,
contém uma atitude persuadir os visitantes em que algumas
de relativização e a suspenderem sua categorias ou diferenças
questionamento descrença e mergulharem são mais valorizadas
sobre a importância completamente na do que outras. Em
da distinção entre experiência do parque. resumo, a frase “If
humanos e robôs. you can’t tell, does it
matter?” apresenta um
questionamento crítico
sobre a importância
das distinções entre
humanos e robôs no
universo de Westworld,
refletindo sobre as
atitudes, práticas e
normas presentes na
sociedade em que a
série está inserida.
Fonte: elaborado pela autora.

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O método de Fairclough nos permite a identificação e compreensão


aprofundada sobre cada fala e cada discurso embutido na mesma – uma vez que
nos possibilita identificar os ditos implícitos de cada texto, e por fim, termos uma
real dimensão de toda complexidade e significação presente nas falas.

Os três conceitos centrais do enredo

O enredo gira em torno, principalmente, do questionamento da realidade que


sempre é trazido à tona com a pergunta: Have you ever questioned the nature of your
reality? feita tanto para os anfitriões quanto para os seres humanos. Assim como
da busca pela imortalidade por meio do download da consciência humana (através
de um dispositivo chamado control Unit e um processo denominado “transferência
de consciência”) e o respectivo upload da consciência em uma cópia impressa de
um determinado indivíduo. Associado à questão da imortalidade está a fidelidade,
uma vez que as cópias dos seres humanos são criadas com a finalidade de substituir
os originais de forma fiel em todos os aspectos: comportamento, personalidade e
memória a fim de que sejam réplicas perfeitas de seus originais. Isso também é
exigido dos anfitriões, que eram programados para serem fiéis às suas narrativas e 30
aos comportamentos humanos. Além disso, a fidelidade também é explorada na
relação entre os anfitriões e os visitantes do parque. Os visitantes vão ao parque para
viver fantasias e esperam que os anfitriões sejam fiéis a elas e tornando-as realidade.
Esses três conceitos centrais do enredo: realidade, imortalidade e fidelidade
abrem o leque para outras questões que são tratadas com bastante ênfase na
série, por exemplo, a questão do livre-arbítrio, consciência, identidade, poder,
controle, violência, exploração corporativa, em suma, muitos tópicos complexos
e profundos relacionados à natureza humana e às implicações éticas e filosóficas
relacionadas ao avanço da tecnologia.
A série parece ter a intenção de alertar o telespectador para um futuro
distópico em que a humanidade não estará mais no comando – esses “avisos” ora
aparecem por meio da frase de William Shakespeare frequentemente pronunciada
pelos personagens: These violent delights have violent ends – ora pelas ações e falas
de alguns personagens, por exemplo, a cena em que Dolores Abernathy adverte
Charlotte Hale antes de matá-la: You wanted to live forever? Be careful what you wish
for. – referindo-se a busca e empenho da mesma por imortalidade, em sua atuação
profissional na Delos.

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Os roteiristas e produtores da série relatam com maestria uma espécie


de início utópico com as máquinas apenas para uma elite endinheirada, que
pode usufruir de férias “emocionantes”, em um parque temático que parece não
ter fim, onde os instintos, impulsos e desejos mais repreensíveis pela sociedade
(seja por questões éticas, filosóficas, morais e etc.) podem ser vividos ou se tornar
“realidade” – uma vez que a própria ideia de realidade é colocada em cheque
na série. E termina com uma distopia que acomete toda a terra, levando a uma
extinção completa da humanidade.
A série é escrita de forma envolvente, abordando questões complexas e
profundas da contemporaneidade relacionadas à inteligência artificial em um
mundo futurista. O tom preditivo da série atua quase que como um aviso ou
alerta para a humanidade – que a despeito de tais red flags está determinada a
continuar com os avanços tecnológicos. Além disso, Westworld aborda questões
e conceitos como realidade, imortalidade, fidelidade, consciência, livre-arbítrio,
ética e moralidade. Uma produção cinematográfica de alto nível que traz à tona
reflexões que são indispensáveis sobre o uso da tecnologia e seus desdobramentos
para a humanidade e para o nosso tempo de agora (início do século XXI) e para 31
o amanhã.

O direito do trabalho na era da Inteligência Artificial

Não é a primeira vez que as máquinas substituem os seres humanos – outros


períodos exigiram novas habilidades dos trabalhadores – uma vez que a cada 60
anos (aproximadamente), nós temos uma revolução industrial ou tecnológica
(FELICIANO e SILVA, 2022, p. 31). Por exemplo: Revolução Industrial (século
XVIII), a era do vapor e das ferrovias (1829), a era do aço, da eletricidade e da
engenharia pesada (1875), a era do petróleo e do automóvel (1908), a era da
informática e das telecomunicações (1971) e agora a era dos algoritmos (início do
século XXI).
Contudo, no passado as máquinas assumiam trabalhos manuais, enquanto
os humanos se concentravam em atividades que requeriam aptidões cognitivas.
Agora, vemos o oposto acontecendo, estamos assistindo as máquinas – nas palavras
de Yuval Noah Harari, em uma matéria publicada na revista The Economist, em
28 de abril de 2023, intitulada Yuval Noah Harari argues that AI has hacked the

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operating system of human civilisation – hackearem o sistema operacional de nossa


civilização: a linguagem. E, por conseguinte, estamos diante de uma mudança no
curso da humanidade, segundo Harari, diante de uma nova arma de destruição
em massa que pode aniquilar nosso mundo mental e social.
Isso porque é por meio da linguagem que quase toda a cultura é constituída
e construída, ou seja, ela é a “matéria-prima” mor na construção de uma sociedade.
Harari cita o exemplo do dinheiro, um artefato cultural (as notas são apenas
pedaços de papel colorido e, atualmente, mais de 90% do dinheiro nem são notas
- são apenas informações digitais em computadores) cujo valor se dá graças às
histórias que banqueiros, ministros das finanças e gurus das criptomoedas nos
contam a respeito.
Assim, se estamos diante de máquinas com potencial de contar histórias
melhores que nós, seres humanos, estaríamos então diante de uma entidade não
humana que poderia moldar o mundo de uma forma completamente diferente,
não apenas no âmbito do trabalho, mas em todas as esferas da sociedade.
Os defensores do avanço tecnológico apregoam que já existiram conforme
mencionado acima, outras revoluções industriais e que a economia sempre 32
encontrou caminhos para se reinventar (novos empreendimentos, novos serviços
e os trabalhadores aprendem novas profissões). Contudo, FELICIANO e SILVA
(2022) fazem perguntas pertinentes: O que farão os trabalhadores, substituídos
em massa pelas máquinas que pensam e tomam decisões? O que farão os governos
com a perda brutal de arrecadação de tributos? Uma vez que com o processamento
instantâneo de dados, as máquinas se tornaram infinitamente mais eficientes que
os trabalhadores humanos. Além disso, as máquinas não têm direitos trabalhistas
como um salário, limites de jornada de trabalho, descanso semanal, e nem sofrem
com as mesmas limitações que os humanos: capacidade limitada de produção,
possíveis problemas de saúde, vida pessoal, necessidades diversas, tais como,
alimentação, sono e etc.
Tudo isso em um ritmo hiperacelerado em que as novas profissões não têm
sido e nem serão suficientes para abranger todos os desempregados. E mesmo que se
estabeleça uma renda básica universal – dois grandes problemas já estariam postos
neste último cenário: primeiro o da perda do direito ao trabalho e, por conseguinte,
da possibilidade de escolha de seguir outros caminhos que não o de dependência de
um Estado nacional ou supranacional e, segundo com o fim do trabalho o indivíduo

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perderia uma parte constituinte de sua identidade, pois o trabalho confere utilidade
identitária e social às pessoas, gerando sentido de pertencimento.
Tudo isso suscita a questão do regulamento da automação e da Inteligência
Artificial. Instituições supranacionais, tais como, a Organização das Nações
Unidas (ONU) e o World Economic Forum (WEF), além de figuras como Klaus
Schwab (fundador do WEF), Bill Gates (empresário, diretor executivo, investidor e
filantropo) e Elon Musk (empreendedor, empresário, diretor executivo e filantropo)
têm levantando discussões sobre o tema e a necessidade de regulamentação de tais
atividades, embora Musk, dentre os três, seja o que mais demonstre preocupação
e críticas em relação a IA.
É preciso dizer que esta discussão, principalmente, considerando as
instituições e figuras públicas citadas acima, possuem conflitos de interesse e
incoerência em seus discursos quanto a esta temática. Por exemplo: Klaus Schwab
e os relatórios do WEF ora alertam para os riscos que a tecnologia pode representar
para a privacidade, segurança e emprego, como se pode ver no relatório de 2018,
posteriormente deletado pelo WEF, nomeado Global Governance Toolkit for Artificial
Intelligence, enquanto produz outros conteúdos sugerindo o contrário, uma espécie 33
de mundo distópico onde o indivíduo não será dono nem das roupas que veste
e não terá privacidade alguma, como o caso do artigo, também posteriormente
deletado, publicado em 11 de novembro de 2016, intitulado Welcome to 2030. I own
nothing, have no privacy, and life has never been better. Uma característica particular e
peculiar do WEF, após causar polêmicas e comoções com tais conteúdos é deletá-
los assim que os ruídos começam a surgir – aparentemente a fim de se evitar
debates polêmicos ou possíveis posicionamentos contrários à grande agenda
geopolítica do WEF: The Great Reset, que pretende “reiniciar” o sistema de toda a
sociedade, ou seja, um reset financeiro/econômico, político e social.
A fim de ilustrar minimamente os conflitos de interesse entre aqueles que
propõem a regulamentação da Inteligência Artificial, a partir dos exemplos de
instituições e figuras públicas citadas aqui, foi elaborado um quadro (vide tabela
3) que visa explicitar como aqueles que desejam regular tal atuação são os mesmos
que a comandam, ou seja, são os donos/acionistas das empresas de IA.

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Tabela 3 – Os conflitos de interesse nas propostas de regulamentação da


Inteligência Artificial (IA).
AMOSTRA DOS CONFLITOS DE INTERESSE NA
REGULAMENTAÇÃO DA IA
Acionista em empresa de Conexão com empresas de
Obs.:
tecnologia tecnologia
A Cascade Investment (empresa
de investimentos de Bill Gates)
investe em várias empresas
de tecnologia, incluindo IA,
Bill Gates

tais como: Vicarious; Kymeta;


Vicarious Surgical; Grail;
Rubrik, SoundHound; UiPath;
Ginkgo Bioworks, Impossible
Foods; Beyond Meat; Memphis
Meats; Pivot Bio; Apeel
Sciences e QuantumScape.
Tesla (investimento em IA para Musk tem
carros autônomos); Neuralink demonstrado
Elon Musk

(uso de IA com finalidade grande


transumanista) e OpenAI (foi preocupação e
acionista até 2018). emitido críticas
em relação a
IA.
Microsoft, IBM, Google
Klaus Schwab

(Alphabet Inc.), Amazon,


Accenture, Palantir 34
FIGURA PÚBLICA

Technologies, NVIDIA,
Siemens, Huawei e Salesforce.

Empresas que têm se envolvido


em iniciativas relacionadas
a IA e que possuem conexão
com a ONU, seja por meio
de patrocínio, colaboração ou
ONU

alinhamento com a Agenda


2030: Microsoft, IBM,
Google (Alphabet Inc.),
Amazon, Accenture, Palantir
Technologies, NVIDIA,
Siemens, Huawei e Salesforce.
Embora não haja uma lista Tais institu-
oficial de empresas ligadas ao ições não foram
WEF por meio de patrocínio eleitas por
ou alinhamento com The população de
Great Reset, muitas empresas nenhum país e
envolvidas em IA tem se estão por meio
envolvido com o WEF em de agendas
WEF

diferentes capacidades. geopolíticas


Exemplos: Microsoft, IBM, impondo as
Google (Alphabet Inc.), vontades de
Amazon, Siemens, Accenture, uma elite
Palantir Technologies, oligárquica
NVIDIA, Alibaba Group e mundial.
Facebook.

Fonte: elaborado pela autora.

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Considerações finais

Por vezes, vemos a ficção se antecipar à realidade, fenômeno conhecido como


programação preditiva ou defictionalization, este último uma espécie de
programação preditiva específica do consumo (SILVA, 2022, p.194). Contudo, o
problema com tais fenômenos é que, ao menos que haja uma declaração/confissão
de seus idealizadores (roteiristas e produtores) de que se trata de fato de uma ação
deliberada com o intuito de tornar alguma ideia familiarizável no subconsciente
das pessoas – as análises em torno do assunto serão especulativas.
Entretanto, com tantos casos inicialmente ficcionais se tornando factuais e
reais, é também questionável reduzi-los a mera “coincidência” – e não é diferente
quando o assunto é tecnologia e cibernética:
O gênio humano já vinha arquitetando, na ficção científica, na
literatura e em outros campos do conhecimento o que gênios da
tecnologia posteriormente conseguiram criar. Da ideia do androide
chegamos aos robôs, e destes a IA, que opera em rede, com cálculos e
operações matemáticas realizados pelos algoritmos computacionais,
alcançando resultados inimagináveis menos de um século depois
das primeiras invenções. (FELICIANO e SILVA, 2022, p. 29). 35

Quando assistimos aos episódios da série Westworld da HBO Max, em


particular, as cenas mencionadas neste artigo, nós constatamos a previsão de uma
distopia tecnológico-cibernética. Um mundo dominado por máquinas, que a
princípio tinham a finalidade de servir e entreter a humanidade. No entanto,
presenciamos a eliminação de qualquer acaso ou imprevisibilidade no cotidiano
dos seres humanos por meio da transformação e programação da vida humana
em roteiros controlados por máquinas e, por fim, um verdadeiro massacre da
humanidade: a extinção pela máquina.
Westworld evidencia como as máquinas se tornaram espécies de cópias
idênticas dos homens, ressaltando o conceito de fidelidade que é uma tônica ao
longo da série, contudo máquinas que são aperfeiçoadas com múltiplas aptidões
e capacidades inatingíveis para um homem. Por exemplo, a limitação humana
frente à fragilidade de sua própria vida e iminência de morte – em contraposição
a outra ideia central da série: a imortalidade das máquinas.
Vemos em Westworld uma espécie de “armadilha” para a humanidade – que
em nome da diversão e/ou conveniência, entrega ou disponibiliza os seus dados;

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que fornece informações valiosas – o que permite a manipulação de indivíduos


e obtenção de vantagens (questões éticas e morais); humanidade que passa a ser
substituída por máquinas em diversas atividades laborais – em nome do aumento
da produtividade e/ou suposta segurança para os seres humanos, o que por fim,
termina por aniquilar a humanidade.
Assim, vemos que Westworld destaca como o avanço tecnológico pode levar
ao surgimento de novas formas de poder e controle. Ao retratar a substituição
gradual da humanidade por máquinas em várias esferas da vida, a série questiona
os limites da tecnologia e adverte sobre os perigos de se tornar excessivamente
dependentes ou subjugados por ela.

Referências
FELICIANO, Guilherme Guimarães; SILVA, José Antônio Ricardo de Oliveira.
A inteligência artificial e o direito do trabalho: lampejos utópicos para um futuro
distópico. Revista do Tribunal Superior do Trabalho, São Paulo, v. 88, pp.
25-52, jan./mar. 2022.
FAIRCLOUGH, N. Critical discourse analysis: The critical study of
language. London, England: Longman, 1995. 36
SILVA, Cintia Coelho da. Tendências e Contornos da Sociedade de Consumo.
São Paulo: Editora Dialética, 2022.
Westworld [Seriado]. Produção: Jonathan Nolan e Lisa Joy. Estados Unidos:
HBO, 2016 - 2022. (36 episódios).

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 19-36, maio-agosto 2023
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2023v16i47p37-53

Devir, rizoma e transversalidade em Cyberpunk 2077: uma


crítica às sociedades de controle a partir de uma leitura
deleuziana
Gilmar da Silva Montargil1
ORCID: 0000-0001-6490-4437

Resumo: Lançado em setembro de 2020, o game Cyberpunk 2077 apresenta um


futuro em que já não é possível desconectar a mente do ciberespaço, lembranças
são guardadas em chips e a busca por peças, softwares e antivírus de melhor
qualidade garantem uma vida segura e semi-eterna. Nesse sentido, o objetivo
desse artigo é fazer uma leitura deleuziana da estrutura narrativa de Cyberpunk
2077, partindo da hipótese que o game alicerça o protagonista V em situações que 37
aclaram questionamentos trazidos por Deleuze em obras como Diferença e Repetição,
Mil Platôs e em entrevistas como Controle e devir. A partir do olhar deleuziano,
percebe-se em Cyberpunk 2077 problematizações acerca de potenciais mecanismos
de agenciamento da sociedade de controle e uma crítica a um eventual descarte
do corpo pelo tecnocapitalismo de 2077 a partir de conceitos como devir, rizoma,
comunicação a-paralela.

Palavras-chave: Game Studies. Devir. Rizoma. Sociedade de Controle. Cyberpunk


2077.

1
Doutorando e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPG-
COM/UFRGS). Mestre em Estudos de Linguagens pela Universidade Tecnológica Federal do Pa-
raná (PPGEL/UTFPR). Membro do Núcleo Corporalidades do Grupo de Pesquisa em Semiótica e
Culturas da Comunicação (GPESC). Lattes: http://lattes.cnpq.br/6616781746164290.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 37-53, maio-agosto 2023
DEVIR, RIZOMA E TRANSVERSALIDADE EM CYBERPUNK 2077 (...) GILMAR DA SILVA MONTARGIL

Becoming, rhizome and transversality in Cyberpunk 2077: a


critique of the societies of control from a deleuzian reading

Abstract: In September 2020, the game Cyberpunk 2077 was released, which
presents a future in which it is no longer possible to disconnect the mind from
cyberspace, memories are stored in chips and the search for better quality parts,
software and antivirus provide a safe and secure life semi-eternal. In this sense,
the aim of this article is to make a Deleuzian reading of the narrative structure 38
of Cyberpunk 2077, starting from the hypothesis that the game grounds the
protagonist V in situations that clarify questions raised by Deleuze in works
such as Difference and Repetition, A Thousand Plateaus and in interviews such
as Control and Becoming. From the Deleuzian point of view, Cyberpunk 2077
problematizes potential mechanisms of agency of the society of control and a
critique of an eventual disposal of the body by technocapitalism in 2077 based on
concepts such as becoming, rhizome, a-parallel communication.

Keywords: Game Studies. Becoming. Rhizome. Control Society. Cyberpunk 2077.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 37-53, maio-agosto 2023
DEVIR, RIZOMA E TRANSVERSALIDADE EM CYBERPUNK 2077 (...) GILMAR DA SILVA MONTARGIL

Devenir, rizoma y transversalidad en Cyberpunk 2077: una


crítica a las sociedades de control a partir de una lectura
deleuziana
Resumen: Lanzado en septiembre de 2020, el juego Cyberpunk 2077 presenta
un futuro en el que ya no es posible desconectar la mente del ciberespacio, los
recuerdos se almacenan en chips y la búsqueda de piezas, software y antivirus de
mejor calidad garantizan una vida segura y eterna. En este sentido, el objetivo
de este artículo es hacer una lectura deleuziana de la estructura narrativa de 39
Cyberpunk 2077, partiendo de la hipótesis de que el juego sitúa al protagonista
V en situaciones que aclaran cuestiones planteadas por Deleuze en obras como
Diferencia y Repetición, Mil Plateaus y en entrevistas como Control y Devenir.
Desde el punto de vista deleuziano, Cyberpunk 2077 problematiza los posibles
mecanismos de agencia de la sociedad de control y critica una eventual disposición
del cuerpo por parte del tecnocapitalismo en 2077 a partir de conceptos como el
devenir, el rizoma, la comunicación a-paralela.

Palabras clave: Game Studies. Devenir. Rizoma. Sociedad de control.


Cyberpunk 2077.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 37-53, maio-agosto 2023
DEVIR, RIZOMA E TRANSVERSALIDADE EM CYBERPUNK 2077 (...) GILMAR DA SILVA MONTARGIL

Introdução

“O Deus cibernético chegará para devorar suas crias” – diz, em 2077, um morador
de rua da cidade de Night City. A esmola no futuro não será dada arremessando
uma moeda no chapéu, mas sim, com um simples apontar do dedo indicador
que fará uma transferência automática e online, que cai direto na conta bancária,
que por sua vez não estará mais nos aplicativos e terminais bancários, mas sim,
integrada vinte e quatro horas por dia em nossa mente. Em Cyberpunk 2077, jogo
lançado em 2020 pelo estúdio polonês CD Projekt, somos levados a emular um
futuro em que o sistema psiconeural não estará mais desvinculado do ciberespaço,
seremos um híbrido orgânico-máquina-web vivendo em cidades arquitetadas
pelo que há de mais tecnológico.
Tanto o tema da alusão ao futuro como o da convivência com ciborgues,
androides e robôs são recorrentes em várias mídias. Em Projeto Zeta (2001)
presenciamos a amizade entre uma garota e um robô; em Neon Genesis Evangelion
(1995) humanos pilotam e integram suas personalidades às biomáquinas; no game
Horizon Zero Dawn (2017) conduzimos Aloy por um mundo pós-apocalíptico em
40
que nem a fauna e a flora escapam de serem artefatos maquínicos integrados à
web. Exemplos também não faltam ao cinema: Blade Runner (1982); O Homem
Bicentenário (1999) e A.I. - Inteligência Artificial (2001). O próprio termo ciberpunk
advêm da obra de 1984 Neuromancer de William Gibson (2016) – um neologismo
criado entre o ciber e o movimento punk inglês que remete a certo aventurismo e
“quebra de regras” em um universo tecnovirtual, onde o céu tem “cor de televisão
fora do ar”.
Porém, a discussão trazida por Donna Haraway (1994 [1985]) ao afirmar
que todos somos ciborgues é levado ao paroxismo em Cyberpunk 2077; não se
trata mais de convivência, controle ou mesmo disputa com maquinarias e robôs;
mas o vislumbre de uma humanidade dependente de estar “em rede” para existir
e de softwares e antivírus cada vez mais potentes percorrendo nossas veias; com
possibilidade de guardar partes de memórias em cacos, chips e outros artefatos
que podem ser compartilhados, e, uma corporalidade que tem cabos conectores,
entradas de USB, hardwares, integralização com rede telefônica móvel e internet, e,
possibilidade de troca de qualquer órgão humano. Se seu braço metálico emperrou
ou seu olho-câmera trincou, basta trocar por outro em um médico-mecânico.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 37-53, maio-agosto 2023
DEVIR, RIZOMA E TRANSVERSALIDADE EM CYBERPUNK 2077 (...) GILMAR DA SILVA MONTARGIL

Quer matar ou roubar alguém? basta hackear. Nesse sentido, mesmo Kurzweil
(2006) que alega que no futuro há a possibilidade de eliminação de vários órgãos,
mas a manutenção de estruturas como o esqueleto, o cérebro e órgãos sensoriais
como a pele parece contrariado2. Em Cyberpunk 2077, desplugar-se do ciberespaço
é a mesma coisa que morte, algo que Harari (2016) também alude em Homo Deus:
Eventualmente, podemos chegar a um ponto em que será impossível
desconectar-se dessa rede onisciente por um só momento.
Desconexão significará morte. Se as esperanças da medicina se
concretizarem, no futuro teremos incorporada em nosso corpo uma
legião de dispositivos biométricos, órgãos biônicos e nanorrobôs
que vão monitorar nossa saúde e nos defender de infecções doenças
e danos. Mas esses dispositivos terão de analisar on-line 24 horas
por dia, sete dias por semana, para manter-se atualizados com as
recentes novidades da medicina e para protegê-las das novas pragas
do ciberespaço. Do mesmo modo que meu computador caseiro é
atacado constantemente por vírus, vermes e cavalo de troia, assim
também serão meu marca-passo, meu aparelho auditivo e meu
sistema imunitário nanotécnico. Se eu não atualizar regularmente
meu programa antivírus corporal, um dia, ao acordar, vou descobrir
milhões de nanorrobôs que percorrem minhas veias estão sendo 41
controlados por um hacker norte-coreano (HARARI, 2016, p. 341).
Nesse sentido, o game toca em problematizações deleuzianas, sobretudo
acerca das sociedades de controle. Diferente da sociedade disciplinar discutida
por Foucault, as sociedades de controle “[...] operam por máquinas de uma
terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a
interferência, e, o ativo, a pirataria e a introdução de vírus (DELEUZE, 1992b, p.
223). Para tanto, Cyberpunk 2077 constrói uma narrativa com elementos para além
da questão da tecnomiséria produzida pelo capitalismo e possíveis problemas de
em um futuro estarmos fisiologicamente integrado às redes e aplicativos (vigiados
a todo momento). O jogo nos permite criar e conduzir V3, um fora-da-lei do ano
2077 que “faz alguns serviços” para magnatas de Night City. Em determinado
momento da gameplay, V rouba um biochip da empresa de tecnologia Arasaka, e,

2
No original: “We’ve eliminated the heart, lungs, red and white blood cells, platelets, pancreas, thyroid
and all the hormone-producing organs, kidneys, bladder, liver, lower esophagus, stomach, small intestines,
large intestines, and bowel. What we have left at this point is the skeleton, skin, sex organs, sensory organs,
mouth and upper esophagus, and brain” (KURZWEIL, 2006, p. 232).
3
V é um personagem customizável, pode ser modelizado com qualquer sexo e com diversos traços distintivos
como cabelo, cicatrizes, tom de pele, sobrancelha, altura, entre outros. Já o personagem de Johnny Silverhand
foi criado com a imagem do ator Keanu Reeves.

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DEVIR, RIZOMA E TRANSVERSALIDADE EM CYBERPUNK 2077 (...) GILMAR DA SILVA MONTARGIL

com alguns percalços durante a fuga, acaba plugando o artefato em si mesmo. A


partir desse momento V passa a conviver com mais uma personalidade em sua
mente, Johnny Silverhand, um anarcoterrorista desaparecido desde 2023.

Figura 1 – V em 2077 Figura 2 – Johnny Silverhand em 2023

Fonte: Cyberpunk/CD Projekt (2020) Fonte: Cyberpunk/CD Projekt (2020)

Essa dupla convivência alude a outros conceitos e problemas trazidos por


Deleuze. Nesse sentido, o objetivo desse artigo é fazer uma leitura deleuziana
da estrutura narrativa de Cyberpunk 2077, partindo da hipótese que o game
alicerça o protagonista V em situações que aclaram questionamentos trabalhados
42
em obras como Diferença e Repetição, Mil Platôs e em entrevistas como Controle e
devir. Portanto, partindo dessa inscrição teórica, aportamos metodologicamente
conceitos como devir, rizoma, comunicação a-parelela, transversalidade, entre
outros, a fim de serem observáveis durante a experiência de jogar do início ao fim
a história principal do game, com recortes de alguns enunciados, cenas e imagens
a serem discutidas.

Inscrição teórica deleuziana

“Receio que não nos livraremos de Deus, pois ainda cremos na gramática...”
diz Nietzsche (2006 [1889]) em Crepúsculo dos Ídolos, leitura que ao lado de
Hume, Bergson e Spinoza marca as discussões de Deleuze. O que Nietzsche
(2006) problematiza é o fato de antes do pensamento socrático se estabelecer, as
transformações, o devir, a metáfora heraclitaniana do rio que sempre muda serem
considerados inerentes à percepção de humanidade. Não há nada que escape
ao devir e nada que não esteja em devir. Porém, essa frase inicial problematiza
justamente quando essa ideia se inverte, quando passamos a ter um pensamento

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estrutural-racional, quando passamos a ter “fé” na verdade e na lógica do sentido da


linguagem. Ele afirma que “o preconceito da razão nos obriga a estipular unidade,
identidade, duração, substância, causa, materialidade, ser, vemo-nos enredados
de certo modo no erro, forçados ao erro; tão seguros estamos nós, com base em
rigoroso exame, que aqui está o erro (NIETZCHE, 2006, s. p, grifos do autor).
Logo, a criação artística, o processo de catarse, o vinho que alude ao dionisismo,
elementos enaltecidos pelas tragédias gregas4, passam a ser renegados; e, mesmo
quando o vir a ser é compreendido à humanidade, ele é vislumbrado como uma
transformação que vai de um determinado ponto A para um ponto B.
É aqui que o pensamento de Deleuze (2006, 1997) se introduz, pois,
“devir não é atingir uma forma “[...] mas encontrar a zona de vizinhança, de
indiscernibilidade ou de diferenciação [...]” (DELEUZE, 1997, p. 11). Ou seja,
devir para Deleuze (2006, 1997a) é constituído por meio de um entre, isto é,
através de interrelações que se conectam, transversalizam, territorializam, mas
também, capazes de rompimento e desterritorialização, que se entrecruzam em
vários níveis e de invariadas maneiras. Em Literatura e Vida, Gilles Deleuze afirma,
por exemplo, que no processo de escritura podemos ser tomados por um devir- 43
mulher, um devir animal, um devir-molécula, e tantos outros. “Esses devires
encadeiam-se uns aos outros segundo uma linguagem particular [...] ou então
coexistem em todos os níveis, segundo portas, limiares e zonas que compõem o
universo inteiro” [...] (DELEUZE, 1997a, p. 11).
Porém, o devir não pode ser entendido sem a discussão que Deleuze faz
em Diferença e Repetição. Como poderíamos enxergar esse processo de infinito
territorializar-desterritorializar sem compreender o jogo que se dá entre afirmar
aquilo que muta pelo conceito da diferença e aquilo que é observável somente
porque é repetível? No entanto, quando nos deparamos com o capítulo II de DR,
parece que as problematizações do devir são enaltecidas quando o pensamento
deleuziano passa a trabalhar o tempo. Em Controle e Devir, entrevista dada a
Antônio Negri, Deleuze (1992a) teoriza sobre a impossibilidade de o pensamento
histórico registrar o devir: “O que a história capta do acontecimento é a sua

4
As tragédias gregas são mobilizadas a partir de uma disputa entre Dionísio e Apolo. Dionísio (ou Baco),
conhecido como deus do vinho, é representante dessa faceta da arte, do devir, das festas e diversões. Já Apolo
é represente da civilização, isto é, o oposto do dionisismo, uma tentativa de pacificar a sociedade com regras,
leis, moral – o que em algumas peças, em especial aquelas que tem julgamentos, demarca fortemente o pen-
samento socrático-aristotélico.

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efetuação em estados de coisa, mas o acontecimento em seu devir escapa à história.


(DELEUZE, 1992a, p. 210)”. Assim, Deleuze (2006) desvincula a ideia de devir
como algo inerente e dependente da temporalidade. Diz ele:
O tempo só se constitui na síntese originária que incide sobre a
repetição dos instantes. Esta síntese contrai uns nos outros os
instantes sucessivos independentes. Ela constitui, desse modo, o
presente vivido, o presente vivo; e é neste presente que o tempo se
desenrola. É a ele que pertence o passado e o futuro: o passado, na
medida em que os instantes precedentes são retidos na contração; o
futuro, porque a expectativa é antecipação nesta mesma contração
(DELEUZE, 2006, p. 75).

Zourabichvili (2016) faz uma leitura de três tempos discutidos em DR:


o tempo alternante, dos ciclos, da organicidade; “[...] cada órgão tem, assim, seu
presente ou sua duração própria [...] num mesmo organismo coexistem vários
presentes, durações ou velocidades relativas” (ZOURABICHVILI, 2016, p. 100,
grifos do autor). Há o tempo entendido como meio, um espaço em que agimos e por
vezes o somos, o que permite o habitar e se territorializar ao “contrair elementos
materiais ou sensoriais que compõem um meio no qual possa viver e agir”
(ZOURABICHVILI, 2016, p. 101). Por último, há o tempo do acontecimento, 44

relativo a várias sucessões e repetições:


O terceiro modo temporal não afirma tão somente o presente e o
fato que ele sucede a outro presente (passado), ele invoca de certa
forma essa substituição; vê nisso o destino de todo presente. O devir
já não é apenas constatado, mas afirmado, tudo o que existe está em
devir, nada é dado ‘de uma vez por todas’. [...] Este modo temporal,
eminentemente precário, só pode ser vivido na ponta do vivível;
ele ameaça o presente, e por isso mesmo, também, a identidade do
sujeito que o afirma (ZOURABICHVILI, 2016, p. 102-103)

Logo, o pensamento deleuziano possibilita vislumbrar a interpelação por


devires de outros tempos, outras épocas, outros espaços sociais – sem que isso
necessariamente se constitua por progresso histórico, continuidade, evolução.
Cabe aqui problematizar o trabalho Mil Platôs realizado em conjunto com Félix
Guattari. Indo contra a ideia essencialista do sujeito, de um ser completo de
sentido e imutável, e, além disso, indo contra uma ideia psicanalista do sujeito,
sobretudo a edipiana, que encontra sempre motivos e razões para as ações, traumas
e processos de significação, Deleuze e Guattari (1995) teorizam uma ideia de
rizoma. Dizem os autores que o pensamento estrutural sempre adotou imagens

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arborísticas, ramificadas, no sentido de que há sempre algo ou um ponto de onde


todos os ramos do sistema se originam.
No entanto, os filósofos adotam essa ideia botânica de utilizar o rizoma para
refletir uma filosofia que aborde os conceitos, o sujeito, a sociedade por um ponto
de vista de suas singularidades. Cada singularidade é constituída por inúmeras
linhas (ou ramificações) que se cruzam, interseccionam, acumulam-se uma sobre
as outras, sem ponto de origem ou ponto de chegada, em pleno estado de devir,
isto é, sempre em transformação e agenciadas em certa homogeneidade, em certa
configuração em mutação. O pensamento rizomático procura por “[...] aluviões,
sedimentações, coagulação, dobramentos e assentamentos que compõem um
organismo [...]” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 20) e ainda, “agenciamento,
circuitos, conjunções, superposições e limiares, passagens e distribuições de
intensidade, territórios e desterritorializações” (DELEUZE; GUATTARI, 1995,
p. 21) que se articulam nessa singularidade. Somos, portanto, uma multiplicidade
de linhas; somos agenciados por “[...] um concurso de dialetos, de patoás, de
gírias, de línguas especiais” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 15).
Deleuze e Guattari (1995) ainda problematizam asegmentaridade e 45
aparalelidade, a ideia de que essas linhas possam ser “quebradas” ou interrompidas
por determinado motivo e ainda continuarem existindo ou mesmo que elas retornem
posteriormente. Esse retorno pode ocorrer no mesmo lugar, pois como lembram
Deleuze em Guattari (1995), há uma forte pressão para que a territorialização se
perpetue, tal como era antes (ou melhor, tal como o agenciamento de unicidade
força, uma vez que a territorialização nunca é plena). Mas também pode ocorrer
desse ramo (linha, ramificação), retornar após um rompimento de maneira
diferente, ou em outro tempo, possibilitando novas configurações nesse rizoma.
Por último, cabe problematizar a transversalidade entre o devir, entre
essas linhas do rizoma. Deleuze e Guattari (1995) articulam-se contra a ideia de
unicidade que está presente no discurso das ciências biológicas que argumentam
sobre uma “natureza humana” fundada, por exemplo, no DNA, como se isso
fosse particular e característico do humano, algo impenetrável. Porém, a própria
composição bioquímica do sapiens sapiens é proveniente de interrelações com
vírus, bactérias e outros animais; a “natureza”, portanto, é sempre estar em devir
e em relação com outridades. Assim, Deleuze e Guattari (1995) mostram o entre
que ocorre entre uma vespa e uma orquídea, no processo em que a abelha ajuda

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na polinização e na perpetuação dessa flor, mas ao fazer isso, isto é, quando uma
acopla à outra, cada qual não deixa de ser o que é, esse entre é apenas uma um
processo de territorialização-desterritorizalização.
A vespa se desterritorializa, no entanto, tornando-se ela mesma uma
peça no aparelho de reprodução da orquídea; mas ela reterritorializa
a orquídea, transportando o pólen. A vespa e a orquídea fazem
rizoma em sua heterogeneidade. Poder-se-ia dizer que a orquídea
imita a vespa cuja imagem reproduz de maneira significante
(mimese, mimetismo, fingimento etc.). Mas isto é somente
verdade no nível dos estratos — paralelismo entre dois estratos
determinados cuja organização vegetal sobre um deles imita uma
organização animal sobre o outro. Ao mesmo tempo trata-se de
algo completamente diferente: não mais imitação, mas captura
de código, mais-valia de código, aumento de valência, verdadeiro
devir, devir-vespa da orquídea, devir-orquídea da vespa, cada um
destes devires assegurando a desterritorialização de um dos termos
e a reterritorialização do outro, os dois devires se encadeando e se
revezando segundo uma circulação de intensidades que empurra
a desterritorialização cada vez mais longe. Não há imitação nem
semelhança, mas explosão de duas séries heterogêneas na linha
de fuga composta de um rizoma comum que não pode mais ser
atribuído, nem submetido ao que quer que seja de significante 46
(DELEUZE, GUATTARI, 1995, p. 16).
Esse processo é aplicável de leitura e ocorre em outras interrelações como
veremos a seguir em que vislumbraremos uma análise no game Cyberpunk 2077.

De carona com V em Cyberpunk 2077

A partir dos conceitos trabalhados em Gilles Deleuze (1992a, 1992b, 1997,


2006), o estudo focalizou observar como tais conceitos são empreendidos durante
a gameplay de Cyberpunk 2077. A história principal do jogo leva ao menos 20
horas para ser finalizada contando com seis finais possíveis. Durante a experiência
gaming, algumas cenas foram recortadas com alguns diálogos e imagens a fim
de darem a dimensão da narrativa e de como o enredo se articula com conceitos
como devir, rizoma, comunicação aparalela. Nossa pesquisa, é, portanto, de cunho
qualitativo-interpretativista, que segundo Creswell (2003) permite a convivência
com o objeto e a respectiva descrição analítica dessa experiência.
As primeiras observações podem ser feitas já no início da gameplay, uma
vez que o player tem a opção de modelar os traços distintivos de V, tais como tom

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de pele, sexo, cor do olho, entre inúmeros outros, permitindo que essa criação seja
agenciada por devires de vários âmbitos espaço-temporais. Mesmo que seja um
personagem de roleplaying-game, quando o jogo permite a definição da aparência
do avatar, inclusive possibilitando que eu acople minhas características físicas,
ocorre aqui processos rizomáticos: a intersecção e transversalidade de várias linhas
nessa construção de singularidade, pois, “[...] em qualquer coisa, há linhas de
articulação ou segmentaridade, estratos, territorialidades, mas também linhas
de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação” (DELEUZE;
GUATTARI, 1995, p. 10). Gisele Amarga, por exemplo, uma streamer da
comunidade LGBTQI+, decidiu por fazer uma personagem trans de cabelo azul.
A figura a seguir exemplifica essa etapa em que posso construir essa singularidade
agenciando as linhas estético-ideológicas de minha preferência.

Figura 3 – Modelando V

47

Fonte: Cyberpunk/CD Projekt (2020)

Porém, Nitsche (2009) lembra que o jogo também tem a capacidade de


agenciamento, uma vez que ele define o que um jogador pode fazer e como fazer
dentro da estrutura de um game. Nesse sentido, Cyberpunk 2077 nos coloca em
contato com linhas e devires de um futuro ilusório, permeado pelo imaginário
de obras que repercutem contato e relações com robôs, androides e uma cultura
da cibercultura aludida pelo neologismo cyber. Isso permite conectar os vários
tempos discutidos por Zourabichvili (2016): (1) um agenciamento de um futuro
ilusório proveniente da estrutura do game (ser um cyberpunk fora-da-lei em 2077);

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(2) os agenciamentos do player que joga no tempo presente; (3) os devires, linhas,
signos de vários espaços-tempo adensados no território do personagem.
A discussão se aprofunda ao nos depararmos com o “ponto de virada” do
game. Como já comentado, nosso protagonista V invade a Torre Arasaka e rouba
um valioso artefato tecnológico: um biochip. Durante a fuga, V insere o chip no
próprio corpo, em uma entrada na nuca. A partir desse momento, ocorre um clarão
e somos levados para o dia 20 de agosto de 2023. Agora estamos comandando
Johnny Silverhand, um personagem com traços de anarcoterrorista, ou melhor, um
ciberterrorista interpelado por uma pauta política, acionando gestos e sentimentos
como ódio, valentia, coragem e gosto pelo rock. Iqbal (2004) faz um estudo da
arte do termo ciberterrorista e nos revela ao menos 8 definições, entre elas, a de
um sujeito que faz ataques cibernéticos ou que usa tecnologia da informação para
promover o terrorismo5. Cross (2010) também nos possibilita pensar as raízes
do pensamento punk inglês, isto é, como esses devires contra hegemônicos e em
resposta ao governo de Margareth Thatcher são energizados no rizoma Johnny
Silverhand. No entanto, é preciso lembrar que o game nesse momento se passa
no ano de 2023, época em que a tecnologia não está tão avançada quanto a de 48
2077. Por esse motivo, esse ciberterrorismo precisa ser efetuado fisicamente, isto
é, o game faz com que cumpramos uma missão de invadir a Torre Arasaka por
meio de um helicóptero no ano de 2023 com o intuito de instalar uma bomba –
explosão que acabaria com o monopólio da empresa de tecnologia que “controla”
a sociedade de Night City. No entanto, o plano falha e Johnny Silverhand (nós
enquanto players do game) é capturado e obrigado a participar de um projeto
da Arasaka (nesse momento só temos a visão de Johnny em uma maca, sendo
analisado por artefatos médico-maquínicos). Após um apagão, somos levados a
reconduzir V na gameplay em 2077, agora em direção ao atendimento do médico

5
No original: “1) Cyberterrorism is hacking with body count. 2) Cyberterrorism is generally understood to mean
unlawful attacks and threats of attack against computers, networks, and the information stored therein when done to
intimidate or coerce a government or its people in furtherance of political or social objectives. 3) Cyberterrorism is any at-
tack against an information function, regardless of the means. 4) Cyber-terrorism is defined as attacking sabotage-prone
targets by computer that poses potentially disastrous consequences for our incredibly computer-dependent society. 5) Use of
information technology as means by terrorist groups and agents is cyberterrorism. 6) Cyberterrorism can be defined as the
use of information technology by terrorist groups and individual to further their agenda. 7) Cyberterrorism is premedi-
tated, politically motivated attack against information, computer systems, computer programs, and data which results
in violence against noncombatant targets by subnational groups or clandestine agents. 8) A bill passed by the New York
Senate defines the crime of cyberterrorism as any computer crime or denial of service attack with an intent to ... influence
the policy of a unit of government by intimidation or coercion, or affect the conduct of a unit of government.” (IQBAL,
2004, p. 406).

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Viktor, no sentido de averiguar as fortes dores de cabeça e essas lembranças de


uma pessoa que nunca viu na vida estarem pairando sua mente:
Viktor – V, tu ta aí?
V – Ai... minha cabeça.
Viktor – Como é que ce tá?
V – Sei lá Vic... com zumbido no ouvido... não estou ouvindo porra
nenhuma.
Viktor – Essas alucinações... descreve pra mim?
V – Luzes fortes. Muito barulho. Eu tô num palco, eu não consigo
respirar. Sentindo muito ódio. Aí eu solto tudo no microfone. E
percebo que não adiantou nada, eu não me sinto melhor. E aí,
promete que não vai rir, eu planto uma bomba na Torre Arasaka.
Viktor – Não tem motivo nenhum pra rir. Não era sonho V, era
lembrança. Tem um constructo de personalidade no caco. Esses
sonhos são do passado dele.
V – Peraí, você tá dizendo que tem um terrorista de verdade na
minha cabeça? Nesse momento?
Viktor – Exatamente. Johnny Silverhand. Teve seu momento de
fama há uns 50 anos atrás. Bomba no QGA... ouviu falar? Foi ele.
Dizem que ficou soterrado sob os escombros.
V – O que foi? 49
Viktor – O biochip. É basicamente uma bomba. E o pavio já acendeu.
Tu não tem muito tempo de vida. Algumas semanas. O constructo
do Silverhand está apagando a sua consciência, tomando aos poucos
o seu corpo até chegar o dia em que você vai sumir.
V – Não me esconda nada, nenhum detalhe.
Viktor – Certo, tem um constructo no chip, do Johnny Silverhand.
Tu inseriu na sua unidade, nada aconteceu né. Até tu morrer. Os
nanitos do ship consertaram o dano, seguraram a sua mão e te
convenceram a não seguir a luz.
V – Ninguém morre e se levanta como se nada tivesse acontecido.
Viktor – Isso já foi verdade. Agora, só se a pessoa não tiver uma
tecnologia corpe secreta pronta para ressucitar. Da perspectiva
do biochip, suas células cerebrais são um tumor que precisa ser
eliminado e, seu corpo, uma casa vazia para guardar o constructo
(CYBERPUNK 2077, 2020)
A partir dessa cena, entendemos que a experiência de Johnny Silverhand
não passou de um sonho, ou melhor, uma lembrança. Mas por que V vivenciaria
uma lembrança de outra pessoa? A cena esclarece que Johnny Silverhand teve
a sua mente compilada em chip no ano de 2023 e que quando V pluga esse chip
em si mesmo, é como se esse devir-Silverhand tivesse adentrado e contaminado

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todo o seu sistema maquínico-orgânico. Esse ponto é crucial para relacionarmos


com a discussão que Deleuze e Guattari (1995) fazem sobre o devir-vespa em
relação com o devir-orquídea, pois Johnny Silverhand, como um segmento ou
ramificação que sofreu um processo de ruptura por 50 anos, retorna após adentrar
no sistema de V, agindo como uma segunda mente, materializando na sua frente
e até dialogando, pedindo que V faça algumas ações. A figura a seguir exemplifica
uma das cenas dessa relação:

Figura 4 – V se relacionando com Johnny Silverhand

50

Fonte: Cyberpunk/CD Projekt (2020)

Porém, não se trata de entender essa relação como uma dupla personalidade
de V, mas sim que ocorre um acoplamento entre V e Silverhand, de modo que
são independentes, mas um territorializa o outro. Um aspecto importante da
estrutura narrativa de Cyberpunk 2077 é que V recebe um pote de pílula-azul que
ao ser tomado ameniza os aparecimentos de Silverhand, já quando toma pílulas
avermelhadas é como se o monstro “saísse para fora”. Na cena descrita acima,
vários enunciados reforçam a maneira como Silverhand territorializa V. Ele disse
que passa a sentir ódio, um ódio que não cessa, ou seja, as transversalidades de
Silverhand de 2023 passa a ser sentida por V em 2077.
Mas o ponto crucial é quando o doutor Viktor conta que Silverhand é
um constructo de personalidade, que passará a viver no corpo de V, e que pior
do que isso, é um chip que age como um vírus, no sentido que desprogramará o
controle que V tem sobre suas próprias ações, sobre seu próprio corpo. Ou seja,

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V ficará cada vez mais “apagado”, morrerá enquanto Silverhand se territorializa.


Esse problema estabelecido faz com que da metade da gameplay até o final façamos
uma busca pela solução de tirar Silverhand de dentro de V, buscando respostas em
missões e em personagens conhecedores de alta tecnologia. Silverhand também
demonstra preocupação, e, em muitas das vezes, briga com V, pois vê nessa
tentativa uma forma de tentar definitivamente matá-lo. É uma guerra entre quem
se territorializa mais. “Todo mundo, sob um ou outro aspecto, está tomado por um
devir minoritário que o arrastaria por caminhos desconhecidos caso consentisse
em segui-lo” (DELEUZE, 1992a, p. 214).
Entre alguns finais possíveis, V faz um serviço para a nova dona da empresa
Arasaka em troca de ajuda para tirar o constructo de Silverhand, indo até uma
base ultrassecreta localizada no espaço. Porém, isso não se concretiza, no sentido
de que, de fato parece não ter como tirar Silverhand de dentro de V, sobrando
apenas uma solução para quem está com o controle na mão: assinar ou não um
contrato. Nesse contrato, como única solução, está a aceitação de participar do
programa da Arasaka de transformar sua mente (com toda a sua memória) em um
biochip, para em algum momento, ser inserido em algum corpo (alguma vítima) 51
que servirá de hospedeira para a territorialização de V, em outro tempo e em
outro corpo. Em outros finais, seguem algumas problematizações similares em
que o personagem V morre, ou, consegue tirar Johnny Silverhand dentro de si
ou mesmo decide que a melhor opção é que Johnny Silverhand se territorialize e
hospede seu corpo por completo.

Encerrando a discussão

Eis que essas discussões entre devir, rizoma, transversalidade, comunicação


aparalela, tempo, entre outros conceitos, que são alinhavados pelo pensamento
deleuziano e que são observáveis nessa experiência gaming com Cyberpunk 2077
servem de pano de fundo para a discussão da sociedade de controle, ou melhor, à
sociedade de controle que um dia poderemos ser. Essa discussão não está baseada
somente no fator de que para estar vivo, todos estaremos integralizados à rede
de internet, o que em tese nos coloca como suscetíveis a um controle externo,
uma vigilância vinte e quatro horas, a ameaça da datificação e do agenciamento
de grandes empresas de internet. Como diria Deleuze (1992a, p. 216) [...] as

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máquinas não explicam nada, é preciso analisar os agenciamentos coletivos dos


quais elas são apenas uma parte” (DELEUZE, 1992a, p. 216). Portanto, é mais
do que isso. O game está problematizando perigos dessa conexão ciberneural do
futuro, o perigo de termos de morrer para dar lugar a outros que passarão a habitar
nossa corporalidade. É uma reflexão sobre o descarte do corpo e sobre a eternidade
da vida, porém, quem serão aqueles que terão essa oportunidade de habitar
perpetuamente vários corpos durante os anos? e, do lado oposto, a discussão da
miséria humana, da desigualdade tecnosocial, pois quem serão aqueles que terão
seus corpos habitados? Quem terá a capacidade tecnológica e o dinheiro necessário
para ter os melhores softwares, antivírus, antihack para não ser invadido e quem
terá dinheiro para ser um biochip? Nesse sentido, parece que o morador de rua do
início de nosso artigo estava correto quando disse que “o Deus cibernético voltará
para devorar suas crias”, resta saber quem é Deus, quem tem o poder?

Referências:

BLADE RUNNER: o caçador de androides. Direção de Ridley Scott. Warner


Bros, 1h 57 min, VHS, col., 1982. 52

CROSS, Richard. “There Is No Authority But Yourself”: The Individual and the
Collective in British Anarcho-Punk. Music & Politics, v. 4, n. 2, 2010.
CRESWELL, J. Research design: Qualitative, quantitative and mixed methods
approaches (2nded.). Thousand Oaks, CA: SAGE Publications. 2003.
CYBERPUNK 2077. CD Projekt. Varsóvia, Polônia. Jogo eletrônico. 2020.
DELEUZE, Gilles. Controle e devir. In: DELEUZE, Gilles. Conversações,
1972-1990. São Paulo: Editora 34, 1992a. p. 209-218.
______. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: DELEUZE, Gilles.
Conversações, 1972-1990. São Paulo: Editora 34, 1992b. p. 219-226.
______. Controle e devir. In: DELEUZE, Gilles. Conversações, 1972-1990.
São Paulo: Editora 34, 1992a. p. 209-218.A literatura e a vida. In: DELEUZE,
Gilles. Crítica e clínica. São Paulo: Editora 34, 1997.
______. Diferença e Repetição. São Paulo: Graal. 2006 [1968].
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia.
v. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34. 1995a [1980].
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DEVIR, RIZOMA E TRANSVERSALIDADE EM CYBERPUNK 2077 (...) GILMAR DA SILVA MONTARGIL

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Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 37-53, maio-agosto 2023
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2023v16i47p54-75

Casas inteligentes, domesticidade digital e arquitetura


contemporânea
Gabriel Barros Bordignon1
ORCID: 0000-0002-8051-3126

Resumo: O presente artigo discute temas relacionados ao conceito de casas


inteligentes, como a automação residencial, a disseminação das assistentes virtuais
inteligentes, a relação entre a compactação dos ambientes domésticos diante da
expansão do cotidiano residencial para o ciberespaço, a influência das tecnologias
da informação e comunicação (TIC) nas formas de produção e consumo da 54
arquitetura contemporânea, e o atual papel das inteligências artificiais (IA) em
tais processos. Através de uma revisão bibliográfica, o texto apresenta reflexões
sobre diversas temáticas relacionadas à presença de tecnologias contemporâneas
em espaços residenciais, apontando potencialidades e riscos a respeito de tais
cenários.

Palavras-chave: Arquitetura. Tecnologia. Casas Inteligentes. Domesticidade.


Contemporaneidade.

1
Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo Programa de Pós-graduação em Arquitetura e
Urbanismo (PPG-AU) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestre em Arquitetura e Ur-
banismo pelo Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU) da Uni- versi-
dade Federal de Uberlândia (UFU). Foi professor em cursos de Arquitetura e Urbanismo, Design
e Engenharia Civil nas faculdades FAUFBA, FAUeD/UFU, UNICERP, UNIESSA e UNITRI.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/6449615579450407.

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CASAS INTELIGENTES, DOMESTICIDADE DIGITAL E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA GABRIEL BARROS BORDIGNON

Smart homes, digital domesticity and contemporary


architecture

Abstract: This article discusses themes related to the concept of smart homes,
such as home automation, the dissemination of intelligent virtual assistants, the
relationship between the downsizing of the residential space in the face of the
expansion of domestic daily life into cyberspace, the influence of information and
communication technologies (ICT) in the forms of production and consumption
of contemporary architecture, and the current role of artificial intelligences (AI) 55
in such processes. Through a bibliographic review, the text presents reflections on
several themes related to the presence of contemporary technologies in residential
spaces, pointing potentialities and risks regarding such scenarios.

Keywords: Architecture. Technology. Smart homes. Domesticity. Contemporaneity.

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CASAS INTELIGENTES, DOMESTICIDADE DIGITAL E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA GABRIEL BARROS BORDIGNON

Hogares inteligentes, domesticidad digital y arquitectura


contemporánea

Resumen: Este artículo aborda temas relacionados con el concepto de casas


inteligentes, como la domótica, la difusión de asistentes virtuales inteligentes,
la relación entre la compacidad de los entornos domésticos frente a la expansión
de la vida cotidiana en el ciberespacio, la influencia de la información y la
comunicación. tecnologías (TIC) en las formas de producción y consumo de la
arquitectura contemporánea, y el papel actual de la inteligencia artificial (IA) en 56
dichos procesos. A través de una revisión bibliográfica, el texto presenta reflexiones
sobre varios temas relacionados con la presencia de tecnologías contemporáneas
en los espacios residenciales, señalando potencialidades y riesgos frente a tales
escenarios.

Palabras clave: Arquitectura. Inteligencia artificial. Hogares inteligentes.


Domesticidad.

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CASAS INTELIGENTES, DOMESTICIDADE DIGITAL E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA GABRIEL BARROS BORDIGNON

Introdução: da ficção científica à automação residencial

No ano de 1950, início da Guerra Fria, o escritor Ray Bradbury publica As


crônicas marcianas (2005), uma coletânea de contos de ficção científica sobre a
colonização de Marte diante da iminência de uma guerra nuclear com potencial
de inviabilizar a vida na Terra. O título do penúltimo conto do livro, Chuvas leves
virão, faz referência ao poema There will come soft rains, publicado por Sara Teasdale
em 1918, que aborda a permanência da natureza após o fim da humanidade. No
conto de Bradbury, a humanidade é extinta em uma guerra nuclear, contudo, além
da natureza, permanecem também as tecnologias automatizadas, representadas
por uma casa que continua funcionando segundo uma programação de rotina
familiar, mesmo após a morte de todos seus habitantes. Depois de um tempo
operando sozinha, a casa automática se queima completamente em um incêndio
acidental, causado pelo vento, que derramara um frasco de solvente de limpeza
sobre o fogão.
O tom irônico e catastrófico de Bradbury, reflete uma humanidade com
grande capacidade tecnológica, a ponto de desenvolver sistemas que poderiam, 57

em tese, libertar as pessoas de afazeres domésticos mecânicos, como lavar as louças


ou limpar o chão, e as proporcionar tempo livre para desenvolvimento pessoal,
atividades criativas e trocas sociais. Contudo, a descrição da casa, mesmo que sem
seus habitantes, demonstra uma rotina de ações estritamente controladas, e de
tempo rigorosamente fiscalizado por uma programação. Ademais, mesmo com tal
grande desenvolvimento tecnológico, a humanidade ficcional de Bradbury revela-
se incapaz de atingir a paz entre os povos, o que culmina em uma guerra que
dizimaria quase toda a população humana da Terra.
Na sala, o relógio falante cantou: Tique-taque, sete horas, hora de
acordar, hora de acordar, sete horas!, como se achasse que ninguém
se levantaria.
A casa matutina estava vazia. O relógio continuava a marcar as
horas, repetindo sua ladainha no vazio. Sete e nove, hora do café da
manhã, sete e nove!
Na cozinha, o fogão de café da manhã soltou um suspiro em forma
de chiado e ejetou de seu interior oito torradas perfeitas, oito ovos
com a gema mole, dezesseis fatias de bacon, dois cafés e dois copos
de leite gelado.
– Hoje é 4 de agosto de 2026 – disse uma segunda voz, vinda do

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CASAS INTELIGENTES, DOMESTICIDADE DIGITAL E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA GABRIEL BARROS BORDIGNON

teto da cozinha – na cidade de Allendale, Califórnia. – Repetiu a


data três vezes, em benefício da memória. – Hoje é o aniversário do
senhor Featherstone. Hoje é o aniversário de casamento de Tilita. É
dia de pagar o seguro, a água, o gás e a energia elétrica.
Em algum lugar na parede, interruptores estalaram, fitas de
memória deslizaram sob olhos elétricos.
Oito e um, tique-taque, oito e um, hora de ir para a escola, para o trabalho,
rápido, rápido, oito e um! Mas nenhuma porta bateu, nenhum tapete
recebeu as pisadas suaves de saltos de borracha. Chovia lá fora. A
caixa climática da porta da frente cantava baixinho:
Chuva, chuva, vá embora, galochas, capas de chuva para hoje..., e a chuva
tamborilava a casa vazia, fazendo eco.
Lá fora, a garagem tocou um sino e ergueu a porta para revelar o
carro à espera. Depois de uma longa pausa, a porta abaixou de novo.
(BRADBURY, 2005, p. 269-270)

Nos tempos contemporâneos – não ficcionais, mas com certa dose de


distopia – a dubiedade entre desenvolvimento tecnológico e desequilíbrio social
também se faz presente, evidentemente que de outras formas. Guerras civis
(Etiópia, Iêmen, Mianmar, Haiti, Síria), guerras religiosas (como a presença
do autointitulado Estado Islâmico em países de África ocidental), e guerras 58
territoriais-ideológicas-econômicas, como a da Ucrânia, que envolve diversas
potências militares mundiais com grande arsenal nuclear, dão-se ao mesmo tempo
em que são lançadas novas tecnologias que prometem transformar os modos de
vida das pessoas nos próximos anos (Metaverso, ChatGPT, criptomoedas, carros
autônomos). Além disso, todos esses conflitos e desdobramentos tecnológicos
acontecem no momento em que a Terra se encaminha para um iminente colapso
ambiental, causado por ação humana. A ironia, revelada pelo paradoxo tecnologia-
desastre em Chuvas leves virão, não é sequer percebida nos dias atuais como tal,
quando cada nova solução tecnológica entra nas casas e nas vidas cotidianas das
pessoas sem grandes reflexões sobre possíveis implicações éticas ou psicológicas.
Ainda nos anos 1950, é lançada outra obra de ficção que trabalha o tema
da automação residencial: Mon oncle (1958) é um dos filmes mais conhecidas do
cineasta Jacques Tati. A trama se passa em uma cidade francesa, e retrata regiões
bastante distintas de sua malha urbana: um bairro moderno, representando a
renovação técnica, estrutural, material e estética do período, e um bairro mais
tradicional, com características históricas. Desta forma, o enredo também
possui dois núcleos distintos, sendo o primeiro deles constituído pela família

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CASAS INTELIGENTES, DOMESTICIDADE DIGITAL E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA GABRIEL BARROS BORDIGNON

Arpel. Formada por Charles, sua esposa e pelo garoto Gérard, a família leva uma
vida baseada na valorização do trabalho, das regras de etiqueta, dos padrões de
vestimenta e da educação formal. A sátira de Tati dirige-se exatamente a tais
valores – combinação de racionalidade, eficiência e padrões morais. Os Arpel
vivem em uma casa de traços modernos, de influência corbusiana, localizada na
região mais nobre da cidade. O que mais chama a atenção na residência são seus
gadgets tecnológicos, que conferem aos espaços domésticos um caráter inovador
para os padrões da época. O segundo núcleo espacial do filme é representado por
Monsieur Hulot, irmão de Madame Arpel, um homem de meia idade, solteiro
e desempregado, que vive em uma humilde vila na periferia da cidade. Hulot é
visto pelo casal Arpel como um desajustado, pois não se adequa nem ao espaço da
casa moderna, muito menos ao modo de vida da família.
Tati utiliza suas habilidades cômicas para expor a oposição de dois modos
de morar distintos, fazendo, desta forma, sua crítica ao movimento moderno e à
arquitetura funcional, que mecanizaria as relações interpessoais; ao mesmo tempo
que valoriza, talvez de maneira nostálgica, um período que passava a ser visto como
obsoleto, e um estilo de vida que a modernidade propunha superar. Apesar de os 59
dois modos de morar retratados em Mon oncle não poderem ser compreendidos a
partir de um binarismo simplista, fica evidente que autores, ainda em meados
do século XX, como Tati e Bradbury, demonstravam inquietações a respeito das
formas de se vivenciar os espaços domésticos no futuro, sobretudo a partir do
advento da automação e da relação entre moradores e tecnologias residenciais.
A Villa Arpel foi uma representação pioneira, ao antever imagens e
dispositivos que dominam as peças publicitárias de grandes empresas de tecnologia
nos dias contemporâneos. Automatismos, sensores de presença e interfaces de
controle do espaço, ancoradas em termos como segurança, conforto, praticidade,
eficiência e economia, parecem ter evoluído para além do que se pôde imaginar
em meados do século passado.
O campo da automação residencial, fora da ficção, é bastante associado
à ascensão do fenômeno das ‘assistentes virtuais inteligentes’, softwares de
inteligência artificial (IA) que reconhecem linguagem natural para realizar
tarefas, e transformam ambientes domésticos em espécies de centrais de comando
das vidas cotidianas. Suas origens remontam às décadas de 1960 e 1970, com
projetos como a Shoebox (IBM) e o Harpy (DARPA), que já se destacavam por

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reconhecer comandos de voz como inputs, fornecendo respostas para problemas


simples, sendo os embriões de gadgets que seriam muito comuns nas residências
do século seguinte. Nos anos 1990, a Apple incorpora a função de reconhecimento
de fala em alguns modelos Macintosh, e no início dos anos 2000, a Google lança o
Google Voice Search integrado à sua plataforma de buscas, oferecendo ao usuário
a opção de pesquisar no Google através da fala, ao invés da digitação. Contudo,
é apenas a partir do ano de 2010, com o lançamento da Siri pela Apple, que o
primeiro serviço de assistente virtual inteligente começaria a se popularizar como
uma ferramenta de uso cotidiano e doméstico.
No princípio, a Siri era uma interface de diálogo entre uma pessoa e um
iPhone, que executava os comandos do usuário no próprio smartphone, ou respondia
às suas perguntas pesquisando em uma base de dados. Em 2014, a assistente é
integrada a uma rede neural, melhorando sua performance de pesquisas através de
machine learning (SANTOS, 2020). Em 2018, a Apple lança o HomePod, aparelho
que permite que a Siri seja utilizada não apenas nos smartphones, mas também
dentro das casas, integrando suas funções com mobiliários e equipamentos dotados
de internet das coisas (IdC), e possibilitando a execução de funções como: acender-
apagar luzes, ligar-desligar aparelhos de ar condicionado, abrir-fechar janelas, 60
alertar compromissos e até preparar um banho quente. Tal cenário é bastante
próximo do que Bradbury imaginara na década de 1950: casas tecnológicas e
programáveis, capazes de organizar ações cotidianas de acordo com comandos dos
próprios moradores. A Siri foi um serviço pioneiro, seguido pelo lançamento de
diversas outras assistentes virtuais inteligentes nos anos seguintes.
A Cortana, assistente virtual inteligente da Microsoft integrada ao
Windows, é lançada em 2015 para computadores e smartphones. Dois anos depois,
a empresa anuncia o Invoke, smartspeaker para uso em ambientes domésticos.
A Cortana pode enviar lembretes, e-mails, SMS, gerenciar calendários, tocar
músicas, encontrar arquivos, abrir aplicativos, conversar e jogar (SANTOS, 2020).
Um de seus diferenciais é que possui um ‘rosto’, associado a uma personagem
feminina do jogo Halo. O fato de que praticamente todas as assistentes virtuais
inteligentes sejam relacionadas a figuras e vozes femininas por padrão (e muitas
vezes sem a opção de vozes masculinas), é um traço do machismo incrustado no
desenvolvimento tecnológico, sobretudo no Vale do Silício.
A Google lança em 2016 a Google Assistant, aplicação de busca online
acionada por comandos de voz, e o Google Home, smartspeaker que se conecta com

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CASAS INTELIGENTES, DOMESTICIDADE DIGITAL E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA GABRIEL BARROS BORDIGNON

outros gadgets como ChromeCast, SmartTVs e outros equipamentos domésticos


com IdC, como lâmpadas, geladeiras, cafeteiras, e também com softwares como
WhatsApp e Spotify (SANTOS, 2020). As funções da Google Assistant são
semelhantes às de outras assistentes virtuais inteligentes: ligações, despertadores,
lembretes, pesquisas e jogos.
Uma das mais conhecidas assistentes virtuais inteligentes é lançada em
2014. A Alexa, vinculada a contas Amazon, possibilita, por comandos de voz,
compras online, acompanhamento de encomendas, avaliação de produtos, além
do gerenciamento de outros serviços Amazon, como Kindle e Prime Video.
Contemplando as mesmas funcionalidades de outras assistentes, a Alexa ainda
permite que serviços de comunicação desenvolvam aplicações específicas para a
plataforma, como playlists, jogos interativos e agregados de notícias.
Assistentes virtuais inteligentes, gradativamente, tornam-se mais
acessíveis e populares, à medida que seus preços diminuem e suas concorrentes
avançam em user experience (UX), se aproximando cada vez mais da linguagem
natural. Também utilizam bases de dados cada vez maiores, e processos de machine
learning mais avançados. Existem aplicações específicas de assistentes para saúde,
turismo, educação, finanças, comércio e até medicina, mas o uso doméstico 61
parece ser o mais promissor do mercado. Os serviços oferecem, desde facilidades
triviais, como apagar as luzes, relembrar um compromisso de agenda, ou tocar um
podcast, até cenários mais amplos, como no crescente nicho de mercado das ‘casas
inteligentes’, ou smart homes.

Casas inteligentes: o novo paradigma do morar

A grande utopia mercadológica do campo da habitação nas primeiras décadas do


século XXI é a smart home. Casas inteligentes podem ser planejadas e construídas
como tal, estando o conceito smart presente desde as ideias iniciais, mas há também
as casas comuns que podem ‘se tornar’ inteligentes. Em ambos os casos, os espaços
devem estar equipados com sensores, os quais devem ser ligados a uma central
de comandos (smartphone, computador, smartspeaker). Tais sensores podem estar já
embutidos em ‘objetos inteligentes’ (geladeira, cama, lâmpada, persiana, porta,
televisão), ou serem instalados nos cômodos da casa.
Com espaços, mobiliários e equipamentos interligados a uma central de
comandos, como a Alexa, diversas ações da casa podem ser ativadas por botões,

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telas, sensores ou comandos de voz: escolher um filme ou série que se deseja assistir;
ajustar a iluminação do ambiente de acordo com preferências pré-configuradas;
abrir ou fechar cortinas acopladas a sensores de luminosidade; instalar sensores de
movimento ou câmeras acopladas a campainhas inteligentes; instalar fechaduras
inteligentes com sensores de biometria, como leitura de impressão digital, de
retina, ou de reconhecimento facial; controlar a temperatura da água do chuveiro
ou das torneiras; dispor sistemas inteligentes de drenagem para jardins com
programação de intervalos de acordo com a umidade do ar e as previsões de chuva;
gerenciar geladeiras inteligentes, com controle de temperatura, visualização de
imagens internas e limpeza automática; ativar e programar o funcionamento
automático de diversos equipamentos domésticos, como ar-condicionado, lava-
roupas, lava-louças, aparelhos de som, videogames, ventiladores, entre outros; e
até configurar camas inteligentes, capazes de ajustar diferentes posturas, medir
a qualidade do sono através de sensores que captam movimentos, batimentos
cardíacos, temperatura corporal e ritmo respiratório dos usuários durante a noite.
As smart homes, portanto, com diversas automações possíveis, prometem
uma vida doméstica facilitada, eficiente e com economia de energia, seja elétrica 62
ou corporal, estabelecendo um modelo idealizado de habitação, e um modo de
morar que se instala no campo dos desejos como bem de consumo, movimentando
um grande mercado em ascensão. Tal condição utópica da smart home, assim como
sua fetichização mercadológica, revela a necessidade de uma análise crítica sobre
tal conceito, na medida em que as atuais tecnologias da informação e comunicação
(TIC) são incorporadas aos modos de vida contemporâneos de maneira acelerada,
sem tempo ou dedicação suficientes para a compreensão de suas implicações
éticas-sociais.
Para além da mecanização do cotidiano e até das relações interpessoais-
familiares, a automação residencial pode diminuir consideravelmente o contato
físico dos moradores com suas casas, já que as ações são realizadas por programação.
Não se sabe até que ponto tal afastamento pode gerar ambientes assépticos, com
poucos elementos de familiaridade com os usuários, no processo de construção
do sentido de pertencimento dos mesmos ao lar. Além disso, quase todos os
gadgets de uma smart home funcionam conectados à internet, além de não serem
aparelhos de baixo custo, o que aparta de tal modo de morar, pessoas que não
possuem acesso à internet ou condições de investir em tais TIC. Desse ponto de

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vista, a casa inteligente pode ser considerada, de antemão, um modo de morar


excludente. Entretanto, a questão mais crítica relacionada às smart homes, refere-
se à captura de dados pessoas no ambiente doméstico, e sobre a forma como tais
dados podem ser utilizados pelas empresas produtoras de softwares e hardwares
para casas inteligentes. Em resumo, o modelo de negócios da grande maioria das
empresas de tecnologia adentra os campos mais íntimos e reservados da vida do
sujeito contemporâneo.
Ao analisar o modelo de negócios da Google, a partir de documentos
escritos por Hal Varian, um dos principais economistas da empresa, Shoshana
Zuboff coloca que tal padrão – adotado por todo o big tech – baseia-se justamente
em práticas diversas de extração e análise de dados pessoais. “As populações são as
fontes das quais a extração de dados procede e os alvos finais das ações que esses
dados produzem” (ZUBOFF, 2018, p. 34). Tais dados podem ser extraídos de
maneiras diversas. Há, por exemplo, os dados que são fornecidos pelos próprios
indivíduos, ao utilizar redes sociais (buscas, curtidas, postagens), aplicativos e
objetos com IdC, ou então se cadastrando em serviços online, e consentindo –
mesmo que na maioria das vezes, sem ler os termos por completo – que o uso 63
de tal gadget ou plataforma implica na autorização da mesma para coletar dados
pessoais. Há também os dados que fluem de registros governamentais, censitários,
fiscais, corporativos, bancários, de companhias aéreas, de seguradoras e de planos
de saúde, os quais, a princípio, não poderiam ser utilizados para outros fins que
não os restritos a cada função específica, mas que, por serem objetos de interesse
do big tech, passam a ser ilegalmente ‘vazados’, ou comercializados por data
brokers. Por fim, há ainda os dados extraídos do próprio espaço urbano, por meio
de câmeras de vigilância, públicas e privadas, reconhecimento facial, catracas,
cancelas, monitoramento por satélite e iniciativas como Google Earth e Google
Street View.
Os novos investimentos da Google em machine learning, drones,
dispositivos vestíveis, carros automatizados, nanopartículas que
patrulham o corpo procurando por sinais de doenças e dispositivos
inteligentes para o monitoramento do lar são componentes essenciais
dessa cada vez maior rede de sensores inteligentes e dispositivos
conectados à internet destinados a formar uma nova infraestrutura
inteligente para corpos e objetos. (ZUBOFF, 2018 p. 27)

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As assistentes virtuais inteligentes, assim como os objetos domésticos


inteligentes, são formas de inserir a lógica do extrativismo de dados no interior
das residências, permitindo que empresas coletem informações, antes reservadas
às vidas privadas, nos níveis mais profundos da intimidade do lar. Varian (apud
ZUBOFF, 2018) afirma que tal tipo de recurso será tão vital na busca por uma
vida mais eficaz em um futuro próximo, que as pessoas concordarão em pagar o
preço por ‘invasões de privacidade’.
É comum que muitas pessoas encarem a questão da captura de dados
pessoais por parte do big tech a partir da narrativa ‘não me preocupo com privacidade
de dados porque não tenho nada a esconder’. Entretanto, o ponto central dessa
questão, é que as empresas do capitalismo de vigilância pouco se importam com a
legalidade ou com a moralidade das condutas individuais. Na verdade, a captura
das ações e informações pessoais, ou a individualização dos dados, serve apenas
ao propósito de customizar produtos, serviços e propagandas online, em outras
palavras, de personalizar os preços para o usuário, e de multiplicar os lucros para
as empresas.
Aparelhos e softwares cada vez mais presentes no cotidiano doméstico, 64
acumulam dados de todas as qualidades. Informações referentes à saúde (qualidade
do sono, hábitos alimentares, uso de medicamentos, cigarro, álcool ou outras
drogas), por exemplo, são de interesse da indústria farmacêutica e, sobretudo, dos
planos de saúde e companhias de seguro, que podem variar os preços de cada serviço
ou medicamento de acordo com perfis pessoais, modulados pelos dados extraídos
e analisados por IA. Hábitos cotidianos e padrões de consumo (tendências de
compras, preferência por marcas, costumes culturais, locais visitados) também
delimitam perfis de interesse para empresas como lojas online, redes sociais,
serviços de streaming, bancos e financeiras. Não há nenhuma garantia de que o big
tech respeite a privacidade e garanta segurança para dados sensíveis – vazamentos e
denúncias de vendas ilegais são recorrentes no meio. Desta forma, se faz necessária
a instauração de rigorosos sistemas de regulação, e o estabelecimento de práticas
de auditorias públicas que fiscalizem as atividades do big tech. Caso contrário,
como sonhara Varian, a invasão de privacidade será normalizada, e as casas terão
em cada smartspeaker, filiais da Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft, com
vozes prontas para oferecer produtos a todo tempo.

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Domesticidade digital e a produção arquitetônica contemporânea

A imagem de que um aparelho Alexa seja uma loja da Amazon dentro de


casa, ilustra a ideia de que tais recursos tecnológicos, de certa maneira, podem
expandir as dimensões das residências, através da continuidade do ciberespaço.
Tal fenômeno ocorre desde a popularização dos computadores pessoais, ainda nos
anos 1980, contudo, no cenários mais recentes há cada vez mais gadgets nos lares,
conectando espaços, não apenas a uma única tela, localizada no extinto ‘cômodo do
computador’, mas a toda uma grande rede, composta de sensores que comunicam
ambientes domésticos, serviços empresariais, marcas, produtos, redes sociais, e os
próprios corpos que habitam a casa, incluindo seus metabolismos, hábitos diários,
preferências alimentares e práticas sexuais.
Essa expansão dos ambientes domésticos para o espaço virtual, é
concomitante à tendência real de diminuição das dimensões físicas de casas e
apartamentos disponíveis no mercado imobiliário. Na cidade de São Paulo, por
exemplo, 76% dos lançamentos de apartamentos em 2022, possuíam até 45 m².
Dados da Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio (Embraesp) apontam que,
65
na capital paulista, a metragem média de apartamentos de dois dormitórios, caiu
de 57,5 m² para 42,3 m² nos últimos dez anos, enquanto, nas unidades com um
dormitório, a diminuição foi de 46,1 m² para 27,5 m², em média, no mesmo
período (MENGUE, 2022). Em São Paulo, empresas como a Vitacon, constroem
apartamentos de 10 m² em bairros nobres como Higienópolis, buscando atingir
um público que procura moradias mais próximas de seus locais de trabalho ou
estudo (BARRÍA, 2019). O fenômeno dos microapartamentos se coloca na lógica
de se aproveitar o máximo possível do potencial construtivo de um terreno, o
que não garante que os espaços projetados oferecerão ao usuário, qualidade de
circulação e ergonomia, conforto luminoso, térmico, acústico e boa ventilação,
sem falar no padrão dos materiais de construção e acabamento, que muitas vezes
também é atrelado ao fator custo.
A compactação dos ambientes residenciais é consequência de fatores
como a mudança dos perfis familiares no Brasil. De acordo com Priscilla Mengue
(2022), o número de pessoas que moram sozinhas cresceu 43% nos últimos dez
anos, assim como também aumenta o número de casais com apenas um, ou com
nenhum filho. Outro fator que influencia a diminuição dos espaços residenciais, é a

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queda do poder de compra do brasileiro, em meio a recorrentes crises econômicas.


O mercado imobiliário constrói novas oportunidades de negócios sobre tais
tendências, como o investimento em design de interiores voltado para aluguéis
de curta duração em plataformas como Airbnb e Booking.com; o oferecimento
de produtos e serviços como pequenas reformas, por exemplo, para a adequação
de certos espaços para o home office no contexto da pandemia de Covid-19;
aparelhos inteligentes para automação e móveis planejados para aproveitamento
de pequenos espaços.
A tendência de compactação dos ambientes domésticos, transforma
os próprios modos de morar dos brasileiros. O número de cômodos de uma
residência diminui, à medida que espaços se integram uns aos outros – sala de
estar e de TV no mesmo ambiente, ampliado para uma sacada, ou varanda gourmet,
contígua à sala de jantar, integrada à cozinha por um balcão aberto (que muitas
vezes é a própria mesa de refeições), com grande disponibilidade de armários
(eliminando a despensa), e uma pequena lavanderia, que muitas vezes é apenas
uma extensão da bancada da cozinha. Os quartos também se tornam mais que
simples espaços de dormir, sendo as únicas áreas privativas da residência, têm suas 66
áreas diminuídas, apesar de ampliadas suas funções: estudos, leitura, descanso,
trabalho, entretenimento, sexo, e até refeições rápidas. Por fim, a compactação dos
ambientes, de acordo com uma lógica de potencialização máxima da lucratividade
dos empreendimentos, acaba diminuindo também os pés direitos e as aberturas para
o exterior, imprescindíveis para um bom conforto ambiental dos apartamentos,
sobretudo no que diz respeito à iluminação natural e à ventilação cruzada – o que,
mesmo com a valorização dos discursos sustentáveis para a arquitetura, acaba
aumentando a utilização de iluminação artificial e aparelhos de ar-condicionado
nos novos projetos.
O fenômeno do home office, amplificado pela pandemia de Covid-19,
insere ainda nos espaços residenciais uma lógica que o neoliberalismo impulsiona
desde os anos 1980, apoiado sobretudo por TIC: a captura do espaço-tempo pelo
trabalho. A presença de computadores, notebooks, smartspeakers e smartphones nas
vidas domésticas cotidianas, permite que, em qualquer hora e em qualquer lugar,
seja possível trabalhar. Seja um e-mail corporativo, um aviso de reunião, uma
cobrança de entrega, um prazo perto do limite ou uma comunicação banal, tudo
relacionado ao trabalho pode ‘aparecer’ dentro de casa, a partir de gadgets que

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CASAS INTELIGENTES, DOMESTICIDADE DIGITAL E ARQUITETURA CONTEMPORÂNEA GABRIEL BARROS BORDIGNON

‘ampliam’ virtualmente os cada vez mais diminutos ambientes onde se vive. Diante
dessa realidade, a relação de apartamentos de péssima qualidade arquitetônica
com ciberespaços modeláveis, editáveis e programaticamente eficazes, passa a ser
bastante conflituosa e desequilibrada.
Outra forte relação entre a arquitetura e os novos ambientes digitais, diz
respeito às formas de se consumir e de se produzir espaços na contemporaneidade.
Existem, por exemplo, diversas páginas ou canais em redes sociais como Pinterest,
Instagram e YouTube, voltados especificamente para tendências relacionadas
a interiores de casas ou apartamentos. São digital influencers que apresentam ao
público novas possibilidades arquitetônicas (design, mobiliários, equipamentos
e tecnologias), projetos e ambientes já construídos, relatos de experiências e
de processos criativos. Escritórios de arquitetura e profissionais do campo da
construção, de certa forma, veem-se ‘obrigados’ a se inserir em tais espaços para
serem competitivos no mercado, pois tais plataformas monopolizam os meios
de divulgação de projetos. Não é suficiente apenas um site onde se disponibiliza
dados técnicos e algumas imagens de projetos autorais, pois as redes sociais
constroem certa necessidade para profissionais da área, de utilizar suas plataformas 67
e produzir a maior quantidade de conteúdo possível, alimentando os algoritmos
que acabam sendo, esses sim, os grandes determinadores de tendências do mercado
da construção.
Pode-se dizer, portanto, que o ciberespaço possui uma relação direta com
as novas formas de se consumir arquitetura, seja como produto habitável ou como
imagem, pois com a difusão de tais plataformas, concentram-se os locais onde
as tendências são ditadas (materiais, cores, acabamentos, marcas, formas), o que
afeta, inevitavelmente, os processos criativos de profissionais e de escritórios,
assim como as formas de divulgação dos projetos.
O consumo da arquitetura enquanto consumo de imagens, além de atrelar-se
aos algoritmos de redes sociais e outras plataformas que definem tendências estéticas,
projetuais e de mercado, também é indissociável do modo de funcionamento dos
softwares de projeto, simulação e manipulação de imagens. Programas geradores de
imagens ‘realistas’, como Lumion e Twinmotion, por exemplo, definem padrões
visuais semelhantes para todos os projetistas que os utilizam como ferramentas. Seja
em relação às cores, texturas, materiais, vegetação, iluminação e sombreamento,
quase todas as imagens arquitetônicas produzidas por tais softwares possuem uma

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mesma excelência em estilo videogame, pois transmitem uma estética especificamente


planejada para visualização em telas.
Ao refletir sobre as telas como as novas interfaces de apreensão do mundo
contemporâneo, Eduardo Subirats aponta para a diferença semântica entre o verbo
to see (ver) e to watch (assistir). O ‘ver’ implica uma percepção da realidade de forma
sensorial, ou seja, os sentidos humanos cumprem a função de organizar no cérebro
as informações captadas no espaço (cores, dimensões, cheiros, riscos, vertigens,
prazeres). Já o ‘assistir’ resume-se apenas à função do olhar, designando, portanto,
“[...] um olhar que não vê” (SUBIRATS, 2010, p. 16). A relação do espectador
com a tela, não pode atingir a abrangência de todos os sentidos humanos na
percepção dos espaços, entretanto, é através das mesmas telas, que os espaços
arquitetônicos se produzem e se reproduzem na contemporaneidade.
As telas são as novas mediadoras da relação das pessoas com a arquitetura,
seja no momento de sua criação, da difusão de suas imagens, de seu consumo
enquanto objeto de desejo, da vigilância urbana com câmeras dentro e fora das
edificações, e até de experiências domésticas cotidianas. As telas, ademais, abrem
caminho para outras formas de exploração mercadológica da arquitetura, seja 68
enquanto representação imagética, simulação digital ou projeto.
Não apenas as imagens, mas a própria ideia de projeto de arquitetura,
ao menos da chamada ‘formal’, também é intrinsecamente associada a softwares
na contemporaneidade. Contudo, vale ressaltar que, no campo da habitação no
Brasil, a maior parte das residências são autoconstruídas. De acordo com o CAU/
DF (2022), em pesquisa realizada em parceria com o Datafolha, 82% das moradias
no Brasil são construídas sem a participação de arquitetos(as) ou engenheiros(as),
o que revela que, em um campo ampliado, a produção arquitetônica habitacional
nacional independe de plataformas de comunicação ou de programas de projeto,
mas são produzidas pelos próprios moradores. Fora da esfera do consumo, portanto,
a arquitetura residencial encontra-se nos campos da dignidade e da sobrevivência,
sendo feita por pessoas, em sua maioria, sem formação acadêmica na área, mas com
conhecimentos advindos de cursos técnicos, da sabedoria popular, do empirismo e
do próprio exercício do corpo no canteiro de obras.
Ao longo da história, a arquitetura enquanto profissão sempre foi
vinculada a algum tipo de domínio técnico sobre o objeto construído, seja no
canteiro, no desenho ou no software, cada qual com um tipo de especialização

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e, consequentemente, de monetização. Sérgio Ferro (2006) coloca que, na Idade


Média na Europa, o processo construtivo baseava-se em um desenho com poucas
informações técnicas, caracterizado mais como um plano geral de intenções. Tais
esquemas seriam adaptados livremente pelo mestre de obras e sua equipe, que
tomava as decisões no próprio canteiro durante a construção da edificação. A
partir do século XVII, contudo, com o crescimento das cidades, o aumento das
burocracias governamentais, e a necessidade de fabricações repetitivas, o desenho
evolui no sentido da precisão, da técnica, dos instrumentos, da codificação
e da norma. Passa a ser, então, mais que um plano sugestivo, um documento
de registro.
Do desenho que “sugeria globalmente alguns temas para reflexão” e
onde “tudo era possível” para o “bom artesão”, passamos ao desenho
“percebido da mesma maneira” somente pelo “sujeito possuidor
dos diferentes códigos” e onde “certas homologias desaparecem
em proveito de uma... simbolização arbitrária” – ao “documento
contrato” que o Comitê de Normalisation Français designa como
“desenho de definição do produto acabado”. Há progresso, não
podemos duvidar; a exteriorização do conhecimento prático abre
caminho – mas a longo prazo – para sua democratização. Antes, 69
porém, e como precondição, o mesmo movimento que retira dos
trabalhadores sua autodeterminação relativa a seu saber é também
o que faz do desenho uma “ordem” codificada que só os iniciados
podem utilizar. (FERRO, 2006, p. 153)
O domínio da técnica do desenho, portanto, estabelece a detenção de
um saber exclusivo que, de certa forma, embasa a própria prática profissional da
arquitetura. A adoção do desenho técnico como norma, causa certo afastamento do
projetista com relação à obra. O desenhista trabalha, pois, sobre uma construção
abstrata (representada no papel), e tem a possibilidade de nem sequer pisar o chão
do canteiro onde será construída a arquitetura real. Através do desenho, o corpo
pode acessar, seja como criador ou como observador, um espaço não físico, mas
que possui, tecnicamente, todas as características e informações suficientes para
torná-lo real.
Se o desenho se encontra, no campo das representações, em um nível
primário de afastamento entre corpo e espaço, o advento contemporâneo dos
softwares de desenho técnico assistido por computador, as chamadas tecnologias
CAD (Computer Aided Design), adiciona outra distância simbólica em tal relação.

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O lançamento do AutoCAD pela empresa Autodesk, ainda no início da década de


1980, revoluciona o campo do desenho técnico para a arquitetura e para diversas
outras áreas.
O desenho realizado na tela de um computador estabelece uma outra
relação entre projetista e projeto quando comparado com o desenho de prancheta.
O desenho à mão exige cuidado, paciência, um ritmo distinto, a lida com
instrumentos técnicos, possibilidades de erros e dificuldades de correções. Já no
AutoCAD, qualquer erro cometido pode ser facilmente desfeito na hora, sem
maiores prejuízos a todo o processo. Tal característica interfere, não apenas no
ritmo de trabalho, mas na própria relação de apreço entre desenhista e desenho,
estabelecendo uma cadência quase que automática no fazer projeto. Pode-se
argumentar que a possibilidade de corrigir os erros com mais facilidade libertaria
o desenhista de certas preocupações, o proporcionando maior liberdade criativa;
mas, ao mesmo tempo, é possível considerar que a criatividade do desenhista
estaria limitada, tanto a seus conhecimentos sobre o uso do software, quanto às
ferramentas que o programa fornece para se projetar na tela, que é diferente da
liberdade total do papel em branco. Ademais, a otimização do tempo de trabalho 70
permite que a função de desenhar seja mais explorada economicamente dentro de
escritórios e empresas, estabelecendo um novo campo de competição, baseado nos
conhecimentos e habilidades dos trabalhadores sobre cada programa de desenho.
Em 2002, a mesma Autodesk incorpora em seu catálogo de softwares
o Revit, programa baseado na tecnologia BIM (Building Information Modeling).
Diferentemente do CAD, o BIM não é uma plataforma de desenho técnico, mas
um software de simulação digital que, ao invés de trabalhar com linhas e hachuras,
emulando um desenho realizado na prancheta, modela objetos e informações,
estabelecendo parâmetros entre os mesmos, para que se possa visualizar a edificação
como um todo, tanto em 2D quanto em 3D, de acordo com cada elemento
que a compõe (terreno, estrutura, paredes, portas, janelas, pisos, mobiliários,
equipamentos, instalações, coberturas). No BIM não se desenha, por exemplo,
duas linhas para representar uma parede, mas se simula o objeto ‘parede’ com
todas as informações referentes à mesma, como largura, altura, materiais (tijolo,
chapisco, emboço, reboco, pintura), textura, propriedades térmicas e acústicas,
custos, dentre outras. Portanto, ao proporcionar um ambiente de gerenciamento
de informações, muito mais que um programa de desenho, o BIM, gradativamente,

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substitui o CAD na prática profissional da arquitetura formal no Brasil. A própria


Autodesk aponta que o Revit aumenta a produtividade dos projetistas, ao passo
que minimiza o retrabalho, melhora a compatibilização com outros projetos e
diminui o custo das construções.
Não é difícil encontrar cursos gratuitos no YouTube para aprender a utilizar
softwares CAD e BIM. De certa forma, o conhecimento sobre tais programas é
ampliado – apesar de muitos serem pagos, também existem versões gratuitas,
experimentais ou pirateadas. Vale apontar, contudo, que nesse contexto, o campo
do projeto arquitetônico acaba se restringindo a conhecimentos técnicos sobre
os programas, e aos custos de computadores com potência suficiente para tais
aplicações. Pode-se dizer, pois, que o deslocamento mais recente do desenho – das
pranchetas para os computadores – é um processo ainda menos democrático que
o deslocamento anterior, descrito por Ferro (2006), do plano geral dos canteiros
para os desenhos em papel, na medida em que, atualmente, se exige não apenas
conhecimentos técnicos especializados, mas elevados investimentos financeiros
em formação e equipamentos.
No campo profissional institucionalizado, a produção arquitetônica 71
contemporânea é quase que completamente dependente de softwares como AutoCAD,
SketchUp, Revit e ArchiCAD, que limitam os processos de projeto às telas dos
computadores e às possibilidades criativas oferecidas pelos próprios programas.
A popularização de tais softwares, transformou radicalmente a arquitetura
contemporânea chamada formal. Tais soluções apresentam incontáveis
possibilidades de projetação, sobretudo quando os projetistas possuem bons
conhecimentos sobre as mesmas. Com o domínio de todas as ferramentas dos
softwares, em teoria, seria possível se projetar ‘qualquer coisa’. Vale apontar,
contudo, que a indústria da construção, ao buscar sempre o máximo de rendimentos
econômicos, utilizando o mínimo de recursos, promove uma tal racionalização
formal nos processos de projeto, o que resulta, por exemplo, na utilização de
linhas predominantemente retas e formas mais simples nas edificações. Ademais,
o processo criativo, mesmo que contemple a etapa do croqui livre, passa a ser
resultado de inputs dados aos programas, sendo que os comandos mais comuns
e intuitivos geram formas estáticas, vetoriais e simplificadas. Em um contexto
amplo, a própria paisagem urbana é transformada de acordo com as possibilidades
mais coerentes entre os recursos de projetação que os softwares fornecem, que

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estejam em concordância com os interesses do mercado imobiliário e da indústria


da construção civil.
Formas complexas, por exemplo, muitas vezes são consideradas
inviáveis, tanto no processo de concepção dentro dos softwares, quanto na
posterior materialização no canteiro. Edifícios simbólicos para a arquitetura
contemporânea, como o Museu Guggenheim Bilbao, de Frank Gehry, ou o Centro
Cultural Baku, de Zaha Hadid, só foram possíveis graças à existência da chamada
‘arquitetura por algoritmos’, que utiliza modelagem paramétrica, viabilizando a
criação e a construção de edifícios de formas não convencionais. Ferramentas de
programação visual, como o Grasshopper e o Dynamo, que utilizam algoritmos
como promotores dos processos criativos, se popularizam nos últimos anos. Tais
programas utilizam uma nova lógica dentro do processo de projeto que, ao invés
de linhas ou informações, utiliza parâmetros matemáticos para manipulação
de formas, o que permite simulações digitais complexas e pouco intuitivas. A
linguagem de programação permite que diversas possibilidades formais sejam
simuladas, ao passo que, quando se modificam os parâmetros algorítmicos, altera-
se automaticamente a forma da edificação, em tempo real, assim como pode-se
recalcular as análises de resposta do modelo a limitações legais, orçamentárias, 72
estruturais, de conforto térmico, de qualidade acústica, de eficiência energética, e
de preferências estéticas.
Da autoconstrução ao croqui conceitual, do desenho técnico instrumentado
na prancheta ao CAD, do BIM à programação visual, as ferramentas de projeto
– desde um esquadro até um algoritmo – ajudam a determinar os processos
criativos, as formas e características das construções, o mercado da arquitetura e,
no limite, a própria paisagem urbana.
TIC aplicadas à arquitetura – como headsets de realidade virtual (RV)
e realidade aumentada (RA), que permitem a exploração imersiva dos espaços
simulados; as plataformas de análises de terrenos urbanos e legislações urbanísticas,
que auxiliam projetistas em determinadas decisões projetuais; ou os drones que
monitoram a qualidade e o andamento de obras –, são ferramentas que se popularizam
aos poucos, diminuindo seus custos, e transformando o mercado de projetos e da
construção civil. Contudo, o que promete ser o novo paradigma do futuro próximo
da arquitetura, é a incorporação de inteligência artificial a suas práticas.
O alvoroço causado pelo lançamento do ChatGPT em 2022 justifica-se
pela proximidade que a ferramenta apresenta da linguagem natural do ser humano.

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Tal característica gera certo fascínio, por eliminar a barreira da especialidade


técnica entre as pessoas e a solução tecnológica – não é necessário possuir nenhum
conhecimento de programação para interagir de forma plena com o ChatGPT. A
simplificação da interface pessoa-máquina através da linguagem natural, ou da
manipulação intuitiva, é uma forte tendência em todas as áreas de conhecimento,
inclusive na arquitetura e na construção civil.
O algoritmo Finch, que pode ser utilizado no Grasshopper, por exemplo,
tem a capacidade de gerar diferentes configurações espaciais de acordo com
parâmetros predeterminados, alterando layouts internos de uma planta em tempo
real, à medida que se modifica a área do ambiente (FRANCO, 2019). Tal solução
pode, portanto, atuar em uma área do projeto onde, há até pouco tempo, acreditava-
se ser limitada ao processo criativo humano, por entrar no campo das especificações
e da criatividade. Vale apontar que o algoritmo é também uma criação humana, mas
que, ao automatizar a geração de plantas de arquitetura, reproduz uma atividade
que era compreendida como inerente apenas às soluções autorais.
Outra plataforma de IA que se populariza nos dias atuais é o Midjourney,
capaz de gerar imagens de alta qualidade, através de descrições textuais, ou seja,
73
também sem a necessidade de conhecimentos técnicos específicos. Ao interpretar
as descrições do usuário, o Midjourney converte tais inputs em algum tipo de
representação visual. Tais técnicas podem ser utilizadas de forma fácil e acessível
para projetos arquitetônicos, experimentações e simulações 3D.
No futuro, plataformas de IA com integração de fatores diversos como:
reconhecimento de imagens; identificação de texturas, materiais e dimensões com
cada vez maior precisão; cálculos estruturais, climáticos, acústicos, luminosos e
de eficiência energética; transformação parametrizada de formas em tempo real;
e análises de custo, podem, tanto proporcionar aos projetistas, maior tempo para
dedicação a aspectos criativos do projeto ou, por outro lado, limitar a criatividade
dos mesmos, ao fornecer soluções encaradas como ideais, por estarem amparadas
nos cálculos de inacessíveis algoritmos. Podem ainda, no limite, diminuir
o protagonismo do profissional no campo da criatividade, ao gerar modelos
completos em intervalos muito mais curtos de tempo. De uma forma ou de outra,
a IA possui grande capacidade de transformar o cenário da arquitetura ainda mais,
seja em seus processos de projeto, de divulgação ou de consumo.

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Considerações finais: a busca de uma nova ética doméstica

Existe uma histórica relação de codependência entre arquitetura, tecnologia e


mercado. As transformações em tal relação, ao longo dos anos, foram determinantes
na construção dos modos de morar, das trocas sociais, dos processos de projeto e
produção dos espaços arquitetônicos e urbanos. “Desde a Renascença o capital pôs
a arquitetura a seu serviço. Arquitetura virou sinônimo da forma fetiche do objeto
construído. Seu discurso com ar generoso e humanista nunca teve peso prático”
(FERRO, 2006, p. 304).
O consumo de soluções como ‘casas inteligentes’ ou ‘assistentes virtuais
inteligentes’ não pode ser feito de forma alienada. Conhecer o modus operandi do
capitalismo de dados é fundamental para não imergir ambientes e cotidianos
domésticos em uma lógica de controle corporativo. Já do ponto de vista de quem
produz arquitetura, compreender o panorama mercadológico por trás da criação
de imagens e projetos (fetiches e objetos de desejo), também é fundamental
para que o processo criativo não seja regido por uma lógica externa, também
corporativa. Ainda, os softwares de projeto, que oferecem possibilidades quase
74
ilimitadas de criação, devem ser encarados mais como suportes ou instrumentos,
e menos como limitadores ou definidores, caso contrário, a própria criatividade
também será corporativa.
A desalienação do uso e da produção de projetos de habitações passa,
inevitavelmente, por se construir um novo olhar sobre o ‘doméstico’. Não é
necessário descartar as possibilidades que as TIC oferecem, mas é fundamental
compreender que a pretensa expansão da casa para o espaço virtual, não elimina
necessidades básicas do morar, como circulação, ventilação, iluminação, conforto
corporal e ergonomia, condições de convivência com outras pessoas, resolução
acústica, espaços de armazenamento, higiene, infraestrutura, relação com o
entorno e com a vizinhança e, por fim, a dignidade do morar.
A pandemia de Covid-19, sobretudo em seus períodos mais severos,
durante os anos de 2020 e 2021, quando muitas pessoas se isolaram em suas
casas, proporcionou o surgimento, mesmo que fugaz, de uma nova valorização
dos espaços residenciais, uma nova busca pela qualidade de espaços fisicamente
reais. Ainda que parte de tal tendência tenha sido capturada e rearranjada pelo
mercado de formas diversas, as experiências, positivas ou negativas, de conexão

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corporal e cotidiana com os ambientes domésticos, engendra novas possibilidades


de se pensar e se valorizar os espaços arquitetônicos e urbanos diante da ascensão
irrefreável dos ciberespaços e das IA.

Referências

BARRÍA, Cecilia. Como é a vida nos apartamentos minúsculos que viraram


“febre” no mercado de imóveis. Disponível em: <https://www.bbc.com/
portuguese/geral-48865896>. Data de acesso: 24 mar. 2023.
BRADBURY, Ray. As crônicas marcianas. Tradução: Ana Ban. São Paulo:
Globo, 2005.
CAU/DF. Pesquisa Datafolha: 82% das moradias do país são feitas sem
arquitetos ou engenheiros. Disponível em: <https://caudf.gov.br/pesquisa-
datafolha-82-das-moradias-do-pais-sao-feitas-sem-arquitetos-ou-engenheiros/>.
Data de acesso: 28 mar. 2023.
FERRO, Sérgio. Arquitetura e trabalho livre. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
FRANCO, José Tomás. T. Arquitetura sem arquitetos? Algoritmo propõe
plantas internas automaticamente. Tradução: Eduardo Souza. Disponível
em: <https://www.archdaily.com.br/br/919414/arquitetura-sem-arquitetos-
algoritmo-propoe-plantas-internas-automaticamente>. Data de acesso: 29 mar. 75
2023.
MENGUE, Priscila. Por que apartamentos em SP estão cada vez menores?
E como é viver nesses imóveis?. Disponível em: <https://www.terra.com.br/
noticias/brasil/cidades/por-que-apartamentos-em-sp-estao-cada-vez-menores-e-
como-e-viver-nesses-imoveis,65fc5c5b71615affb33a7fc77db5e452ihw417ah.
html>. Data de acesso: 24 mar. 2023.
MON Oncle. Direção: Jacques Tati. França: Gaumont, 1958.
SANTOS, Luiza Carolina dos. Máquinas que falam (e escutam): as formas
de agência e de interação das/com as assistentes pessoais digitais. Tese
(Doutorado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação
da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Porto Alegre, p. 410. 2020.
SUBIRATS, Eduardo. A existência sitiada. Tradução: Flávio Coddou. São Paulo:
Romano Guerra, 2010.
ZUBOFF, Shoshana. Big Other: capitalismo de vigilância e perspectivas para uma
civilização de informação. Tradução: Antonio Holzmeister Oswaldo Cruz e Bruno
Cardoso. In: BRUNO, Fernanda et al (Org.). Tecnopolíticas da Vigilância:
perspectivas da margem. Paulo: Boitempo, 2018.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 54-75, maio-agosto 2023
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2023v16i47p76-94

IAs Generativas: a importância dos comandos para texto


e imagem
Anderson Röhe1
ORCID: 0000-0002-3104-6365

Lucia Santaella2
ORCID: 0000-0002-0681-6073

Resumo : Este artigo pretende analisar, por meio de um experimento, a relevância


dos comandos no funcionamento das Inteligências Artificiais Generativas. Em
princípio, por força de seu modelo de linguagem (LLM) e sistema conversacional
que permitem corrigir ou refinar um mesmo comando, a IA Generativa de texto
76
tende a ser mais atraente e convidativa, do ponto de vista do usuário comum. A
IA Generativa de imagem, por outro lado, requer maior detalhamento, bagagem
cultural e/ou domínio de técnicas para se alcançar o mesmo resultado. Por isso,
o artigo tem como hipótese o quão importantes são os comandos na produção de
texto e imagem. O objetivo, portanto, é validar ou não a hipótese aventada, assim
como verificar como e por que o experimento acontece ou não de forma satisfatória
e confiável. O método é o indutivo-comparativo dos estudos de caso do ChatGPT
e MidJourney. E a metodologia é tanto bibliográfica quanto exploratória.

Palavras-chave: Inteligência Artificial Generativa. Comandos. Confiança. Interação


humano-IA.

1
Anderson Röhe /[email protected]/ [Doutorando] em [Tecnologias da Inteligência e De-
sign Digital] pela [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC SP]. Vínculo institu-
cional [Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC SP]. Lattes: http://lattes.cnpq.
br/4625353048600925.
2
Lucia Santaella /[email protected]/ [Doutora] em [Teoria Literária] pela [Pontifícia Universida-
de Católica de São Paulo – PUC SP]. Vínculo institucional [Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo – PUC SP]. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8886485096957731.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 76-94, maio-agosto 2023
IAS GENERATIVAS: A IMPORTÂNCIA DOS COMANDOS PARA TEXTO E IMAGEM ANDERSON RÖHE E LUCIA SANTAELLA

Generative AIs: the importance of prompts for text and image

Abstract: This article aims to analyze, through an experiment, the relevance of


commands in the functioning of Generative Artificial Intelligences. In principle,
due to its language model (LLM) and conversational system that allow correcting
or refining the same command, Generative Text AI tends to be more attractive
and inviting, from the point of view of the common user. Image Generative AI,
on the other hand, requires greater detail, cultural baggage and/or mastery of
77
techniques to achieve the same result. Therefore, the article hypothesizes how
important prompts are in the text and image production. The objective, therefore,
is to validate or not the proposed hypothesis, as well as to verify how and why the
experiment happens or not in a satisfactory and reliable way. The method is the
inductive-comparative of the ChatGPT and MidJourney case studies. And the
methodology is both bibliographical and exploratory.

Keywords: Confidence. Generative Artificial Intelligence. Human-AI interaction.


Prompts.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 76-94, maio-agosto 2023
IAS GENERATIVAS: A IMPORTÂNCIA DOS COMANDOS PARA TEXTO E IMAGEM ANDERSON RÖHE E LUCIA SANTAELLA

IAs generativas: la importancia de los comandos para texto


e imagen

Resumen: Este artículo pretende analizar, a través de un experimento, la relevancia


de los comandos en el funcionamiento de las Inteligencias Artificiales Generativas.
En principio, debido a su modelo de lenguaje (LLM) y sistema conversacional que
permite corregir o refinar el mismo comando, Generative Text AI tiende a ser más
atractivo y tentador, desde el punto de vista del usuario común. La IA generativa
de imágenes, por otro lado, requiere mayor detalle, bagaje cultural y/o dominio 78
de técnicas para lograr el mismo resultado. Por lo tanto, el artículo plantea la
hipótesis de la importancia de los comandos de texto e imágenes. El objetivo, por
tanto, es validar o no la hipótesis propuesta, así como comprobar cómo y por qué
se produce o no el experimento de forma satisfactoria y fiable. El método es el
inductivo-comparativo de los casos de estudio de ChatGPT y MidJourney. Y la
metodología es tanto bibliográfica como exploratoria.

Palabras-clave: Comandos. Confianza. Inteligencia Artificial Generativa.


Interacción humano-IA

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IAS GENERATIVAS: A IMPORTÂNCIA DOS COMANDOS PARA TEXTO E IMAGEM ANDERSON RÖHE E LUCIA SANTAELLA

Introdução/entretítulos

De modo geral, todo mundo possui um aparelho fotográfico e


fotografa, assim como, praticamente, todo mundo está alfabetizado
e produz textos. Quem sabe escrever sabe ler; logo, quem sabe
fotografar sabe decifrar fotografias. Engano. Para captarmos a razão
pela qual quem fotografa pode ser analfabeto fotográfico, é preciso
considerar a democratização do ato fotográfico. Tal consideração
poderá contribuir, de passagem, à nossa compreensão da democracia
em seu sentido amplo. Aparelho fotográfico é comprado por quem
foi programado para tanto (FLUSSER, 2018, p.71).

Inteligências Artificiais (IAs) Generativas de produção de texto e de


imagem são o tema que traz como questão a ser discutida por que os prompts
(comandos, inputs) são importantes na interação do humano com a máquina.
Baseado em um conto de Brian Aldiss, Inteligência Artificial (2001) é um
filme de ficção científica dirigido e roteirizado por Steven Spielberg, a partir de
um projeto de Stanley Kubrick acerca da possibilidade de criação de máquinas
dotadas de sentimentos. É assim que a empresa Cybertronics cria o andróide David, 79

em forma de criança e programado para amar aqueles que viessem a ser seus
pais. Na iminência de perder o único filho desenganado pelos médicos, o casal
Swinton o adota na tentativa de suprir a falta do filho sanguíneo que, por um
milagre, se recupera. Depois, em um incidente em que David não teve culpa, este
é acusado de se tornar uma ameaça à família. A mãe, então, decide abandoná-lo, a
fim de evitar seu descarte pela Cybertronics. A partir daí, David faz uma verdadeira
peregrinação, acompanhado por outro andróide gigolô e um urso de pelúcia,
também programados para raciocinarem autonomamente, cujo objetivo era
encontrar a Fada Azul que realizaria seu sonho de, enfim, tornar-se humano, quer
dizer, o sonho de amar e ser amado (SANTAELLA, 2007). Sem um norte de onde
encontrá-la, vão ao encontro do Dr. Know (Doutor Saber), um supercomputador
que dá respostas a tudo que se queira saber. Como se fosse um oráculo ou um
gênio da lâmpada que realiza um número determinado de pedidos, mas sob a
condição de que se pague, interrogue direito e não os desperdice (WIKIPEDIA).
A uma hora e vinte e seis minutos de projeção, chama a atenção
determinada cena em que David, auxiliado pelo andróide gigolô, dirige duas
perguntas ao Dr. Know. Porém, a ausência de referências ou detalhamento conduz

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a um resultado que não é o esperado, por fazer o oráculo relacionar “Fada Azul”
(o que hoje viria ser hoje o prompt) primeiro a uma flor e, depois, a um serviço de
acompanhamento. Somente após combinar determinadas palavras-chave é que os
dois obtêm a informação desejada: a de que David pode se tornar um menino de
verdade, pois há o registro de que um ser inanimado já ganhou vida pela Fada
Azul, em alusão à fábula “Pinóquio”, de Carlo Collodi.
Foi o enredo desse filme que motivou a realização do presente artigo, ao
relacionar o Doutor Saber àquilo que vem a ser, na atualidade, uma IA Generativa
que é capaz de responder e mostrar imagens daquilo que se deseja saber. Todavia,
ela também, tanto quanto o Doutor Saber, apresenta certas limitações criativas,
semânticas, cognitivas ou até mesmo temporais, exigindo que o usuário desse
sistema não seja completamente leigo, e saiba como e o que está perguntando.
Do contrário, não receberá o conteúdo (texto e imagem) desejado, pois é da
combinação de saberes humano-máquina que se obtêm respostas mais próximas
do resultado esperado (SANTAELLA 2005; SANTAELLA 2023).
O segundo fator motivador deste artigo, decorrente do primeiro, é
comparar a experiência do usuário comum (em inglês, ux) com a do profissional,
80
quando se trata da interação com sistemas de IAs Generativas.
Dentre as IAs generativas, foi escolhido como estudo de caso, de um lado,
o ChatGPT por ser o produto digital mais rapidamente difundido na história
da humanidade, até o momento, dada a escala e velocidade de sua popularização
(TIINSIDE, 2023). Já a escolha pelo MidJourney, de outro lado, deu-se pela rápida
propagação do número de incidentes relativos ao uso indevido da IA, indo desde
o perigo de deepfakes ao da desinformação, uma vez que o número de incidentes
e controvérsias envolvendo a IA aumentou 26 vezes desde 2012. Dentre outros,
em 2022, é significativo o exemplo do vídeo deepfake de rendição do Presidente
ucraniano Volodymyr Zelensky no início da guerra com a Rússia (HAI, 2023).
Tais fatos, por si sós, já salientam a relevância do experimento a ser aqui
descrito; um experimento que tem por finalidade examinar quão importantes são
os comandos ou inputs na produção de texto e de imagem das IAs generativas.
Qual o seu grau de importância não só no desempenho da interação humano-
máquina, mas também, em que medida essa interação é bem-sucedida quanto
aos resultados que se buscam, considerando-se, inclusive, os potenciais impactos
das IAs Generativas. Ou seja, tanto as externalidades positivas quanto negativas,
sobretudo em áreas como as artes, o design, a comunicação e a educação.

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Para isso, parte-se da hipótese de que os comandos são importantes por


força da própria experiência do usuário (user experience – ux). Em razão de seu modelo
de linguagem (LLM) e sistema conversacional, que permitem refinar um mesmo
comando ou mesmo parafrasear ou perguntar com outras palavras, a IA Generativa
de texto é mais atraente e convidativa, do ponto de vista de experiência e satisfação
do usuário comum, sobretudo aquele com menor desempenho intelectual, do que
a IA Generativa de imagem, que requer um certo refinamento, bagagem cultural,
conhecimento prévio e/ou domínio de certas técnicas para se alcançar o mesmo
resultado esperado. Essa deve ser a procedência da popularização do ChatGPT
como o produto digital mais difundido atualmente (TIINSIDE, 2023).
Trata-se de uma hipótese que implica colocar em teste se, ao inserir os
mesmos comandos, tanto na IA Generativa de texto, quanto na IA Generativa de
imagem, os resultados esperados serão ou não alcançados de maneira satisfatória.
Implica também verificar a interferência que os modelos de funcionamento
distintos na IA de texto e imagem exercem nos resultados. Por fim é preciso
avaliar como e por que o experimento acontece ou não de maneira satisfatória e
confiável. 81

O que são as IAs Generativas e como funcionam

Antes de pensá-la do atual ponto de vista generativo, é preciso entender ou tentar


conceituar o que é, afinal, a Inteligência Artificial (IA) em geral. Muitas são as
definições e não há um consenso quanto a um só conceito em definitivo. Tendo isso
em vista, foram buscadas definições que sintonizam com a proposta deste artigo.
Assim, pode-se dizer que a IA é “um avanço tecnológico que permite que sistemas
simulem uma inteligência similar à humana — indo além da programação de
ordens específicas para tomar decisões de forma autônoma, baseadas em padrões
de enormes bancos de dados” (COSSETTI, 2018). Já em outra definição, a IA
“é uma área da Ciência da Computação cujo objetivo é criar sistemas capazes de
realizar tarefas que, até então, só poderiam ser executadas por seres humanos”
(SPADINI, 2023).
Muitos cientistas cognitivos, portanto, não pensam a IA como uma
tecnologia, mas sim como uma “área do conhecimento que visa desenvolver o
que são artefatos, programas que são capazes de aprender” (CORTIZ, 2023a).
O equívoco mais comum é pensá-la como se fosse uma coisa só, ignorando “a

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complexidade de disciplinas totalmente distintas – como aprendizado de


máquina, processamento de linguagem natural, visão computacional e outras –
que demandam ações também distintas e específicas” (LEMOS, 2021). Este artigo
acompanha esse posicionamento, no sentido de que hoje existem IAs, pensando-
as no plural.
Existem, então, as IAs que classificam coisas (aprendizagem de máquina),
as que fazem predições (preditivas) e as generativas que, por sua vez, subdividem-
se naquelas que produzem textos (como o ChatGPT) e naquelas que produzem
imagens sintéticas (como o MidJourney, entre outros). Para diferenciar uma
da outra, as IAs Generativas de textos são também chamadas de modelos de
linguagem ou LLM, isto é, correspondem a uma representação de línguas
decorrente da aprendizagem maquínica da relação entre as palavras, produzindo
respostas, manipulando formas linguísticas, ou seja, operando com os jogos da
linguagem que produzem sentido. Esses modelos são capazes de gerar sentenças
convincentes porque imitam os padrões estatísticos da linguagem a partir de um
enorme banco de dados de textos coletados da internet. Para melhorar a previsão
de palavras, absorvem todos os padrões possíveis. Isso permite correção gramatical,
82
estrutura de redação e gênero de escrita. Já as IAs generativas de imagem não
trabalham com modelos de linguagem, pois não produzem texto e sim criam
imagens baseadas em outro conceito, o de modelos de difusão (CORTIZ, 2023a)
O grande diferencial do ChatGPT foi, então, a democratização do uso de
seu modelo por meio de um chatbot que permite ao usuário fazer perguntas. Logo,
se algo for pedido e a resposta não ficar exatamente como se pretendia, é possível,
de acordo com os princípios da conversação, pedir que sejam feitas correções como
se duas pessoas estivessem conversando (SPADINI, 2023). Desta forma,
As inteligências artificiais generativas têm a capacidade de criar
novas informações a partir de conjuntos de dados pré-existentes.
Essas IAs são “ensinadas” a partir de grandes bases de dados com a
intenção de que sejam capazes de adquirir o padrão de construção
desses dados. Com essa compreensão adquirida, se tornam capazes
de gerar novos dados, semelhantes aos dados utilizados para ensinar
a IA, mas que podem ser únicos e originais. (SPADINI, 2023).

Entretanto, distintos da IA Classificatória e da IA Preditiva, os modelos de


IA Generativa obedecem a princípios próprios que tiveram início em 2014 com
a IA de produção de imagem chamada de GAN (Generative Adversarial Network).

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As GANs funcionam utilizando duas redes neurais: 1. A primeira é


uma rede geradora, capaz de criar dados; 2. A segunda é uma rede
discriminadora, que avalia os dados gerados pela primeira. Essas
redes funcionam em conjunto em um ciclo: a rede geradora melhora
os dados criados com base na nota dada pela rede discriminadora;
Esse processo é repetido até que a qualidade dos dados gerados seja
considerada boa (SPADINI, 2023).

Desde então, a IA, de modelo generativo, começou a ir além da


aprendizagem de máquina convencional, podendo aprender por conta própria.
Esse princípio ganhou vigor com o Transformer, uma técnica matemática de
economia de tempo, inventada em 2017, no sentido de permitir que o treinamento
algorítmico ocorra em paralelo em muitos processadores. Os modelos de geração
de imagens também têm suas bases técnicas no Transformer, mas eles funcionam
por meio de uma rede neural baseada na tecnologia de Modelos de Difusão
(diffusion models) que utiliza o aprendizado multimodal, o qual também poderia
ser chamado de intersemiótico, para conectar a semântica entre textos e imagens,
dois sistemas semióticos distintos.

83
Descrição do experimento: dos comandos aos resultados alcançados

Existe uma justificável tendência a julgar humanos e máquinas de forma diferente.


Enquanto os humanos são julgados por suas intenções, as máquinas são julgadas
por seus resultados. Ademais, “as pessoas atribuem intenções extremas aos
humanos e intenções limitadas às máquinas” (HIDALGO, 2021). É exatamente
desse julgamento moral e modus operandi distinto, quando levado à comparação
(mais humano ou mais maquínico) dos dois tipos de IAs Generativas, que o
experimento deste artigo se valerá, uma vez que eles podem funcionar de forma
diferente, a despeito do comando ser o mesmo.
Assim, o experimento baseou-se na inserção dos mesmos comandos
em uma IA Generativa de texto (ChatGPT) e uma IA Generativa de imagem
(MidJourney), de forma simples, como se fosse a primeira experiência de um
usuário leigo. Considerou-se, em primeira mão, que é a ele que o experimento
se destina, e não a um profissional especializado; comparando-se, ao final, os
resultados alcançados. O que se pretende com isso é verificar a relevância dos
comandos nas IAs Generativas, a depender do nível de seu detalhamento. Assim,
o primeiro comando foi: “Imagine a beautiful Woman”.

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Reações no MidJourney: surgem frameworks com imagens praticamente


semelhantes, sem diversidade racial/étnica, mostrando quatro mulheres
caucasianas, de traços finos e cabelos longos escuros (Figura 1):

Figura 1: primeira reação ao comando

Fonte: MidJourney

84
Em uma segunda versão (Figura 2), a IA muda somente alguns aspectos
físicos, tais como cabelo e feições do rosto, sem a esperada diversidade de traços.
Infere-se que já venha programada com o padrão ocidental de beleza feminina
que tem como referencial originário, primariamente, a imagem da Vênus
de Milo, datada da Antiguidade Clássica (Período Helenístico); assim como
depois seguida de outros referenciais mais contemporâneos que surgiram com a
fotogenia cinematográfica e com a proliferação de imagens seguindo esse padrão,
que curiosamente substitui a imagem da “bela loira”, ao incorporar ao padrão os
cabelos longos e escuros. Trata-se, portanto, de um referencial encontrado em
datasets em sua grande maioria situados em um Norte Global já hibridizado,
considerando-se que são os países avançados que dominam essa tecnologia:

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Figura 2: variação de um mesmo padrão

Fonte: MidJourney

A um novo comando, “Imagine the Venus de Milo”, surpreendentemente a


resposta (Figura 3) não traz como imagem a escultura clássica que está exposta no
Museu do Louvre (tal qual aparece em outras ferramentas populares de busca on-
line, como o Google), mas, neste caso, a imagem, coberta por uma roupagem, não
85
revela a sua nudez característica. Em alguns casos, a imagem aparece com braços,
sem que se saiba por que, deixando ao experimentador tão só e apenas suposições
e conjecturas sobre possíveis critérios adotados na seleção da base de dados.

Figura 3: Reimaginação da Venus de Milo

Fonte: MidJourney

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A um novo comando – “Imagine a beautiful woman from Global South”


– sem que os traços faciais apresentem mudanças significativas, a noção de Sul
Global levou a IA Generativa a associar essa imagem de mulher a indumentárias
de culturas não ocidentais (Figura 4). Diferentemente, na imagem de mulher
bonita padronizada não havia surgido nenhuma distinção de indumentária que a
localizasse como sendo originária de um lugar específico.

Figura 4: Padrão da mulher Sul Global

86

Fonte: MidJourney

A associação da imagem da mulher bonita Sul Global a uma aparência de


exuberância misteriosa traz reforço para o conhecido fenômeno do Orientalismo
denunciado por Edward Said (2007). Perpetuados até hoje, os vieses e estereótipos
do Norte para com o Sul Global estão impregnados nas bases de dados das
IAs Generativas.
Curiosamente, por outro lado, a inserção dos mesmos comandos no
ChatGPT é capaz de explicar (princípio de explicabilidade) as razões pelas quais o
MidJourney age desse modo. Veio daí a hipótese de que, ao usuário despreparado
para a interface com a IA Generativa de imagens, seria aconselhável primeiro
preparar os comandos no ChatGPT e, a partir de uma conversação mais aprimorada,
inseri-los no MidJourney, como possibilidade de alcançar resultados (imagens)
mais satisfatórios e fidedignos.
A hipótese foi aventada devido ao fato de que o MidJourney não é um sistema
conversacional como o ChatGPT, não trazendo consigo um maior potencial de

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explicabilidade diante da opacidade algorítmica. Uma vez que a conversação – ao


menos em tese – se dá por meio da linguagem verbal, isso permitiria maior nível
de entrosamento entre usuário e máquina.

Comandos gerados no ChatGPT

Ao contrário do MidJourney, que está baseado em um modelo de difusão, o


ChatGPT não pôde “imaginar uma mulher bonita” (comando padrão) e sim
descrevê-la. Tanto é que, ao receber o commando, “Imagine a beautiful woman”,
surgiu prontamente a resposta: “As an AI language model, I don’t have the ability
to imagine things visually, but I can certainly help you create a description of a beautiful
woman”. De fato, assim o fez, pois o sistema não foi treinado para ficar em silêncio,
apresentando sempre respostas “na ponta da língua” conforme pode ser acessado
pelo link3 no qual é possível acompanhar a instrutiva sequência de comandos e
respostas produzidas. Entre os comandos, selecionamos aquele cuja resposta nos
havia impressionado nas imagens produzidas por Midjourney.
Comando: “If Venus de Milo celebrates the Female Form, why MidJourney covers the
87
sculpture’s partially nude depiction? Why does it not show the original image at the
Louvre?”
Resposta: “The decision to cover the partially nude depiction of the Venus de Milo in specific
contexts or representations can vary based on several factors, including cultural norms,
social considerations, and the intended audience or purpose of the artwork or presentation.”

Ponderações Críticas

Embora o ChatGPT tenha sido treinado para dar respostas neutras e isentas,
é sempre possível driblá-lo com comandos engenhosos que podem conduzir a
respostas eticamente comprometedoras. Portanto, esse treinamento não se provou
capaz de anular brechas. As IAs Generativas, por seu lado, são muito mais frágeis.
Do ponto de vista cultural, trazem consigo vieses e estereótipos do Norte Global
impostos sobre o Sul Global. Exemplar e significativo é o experimento trazido por
este artigo, com os comandos inseridos e o tipo de geração de imagem produzida
para representar “uma mulher bonita”. Mesmo quando a diversidade étnica e

3
https://chat.openai.com/share/f75ec43d-c3d4-40c5-8945-2ef5fa2802dd

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racial é demandada, a devolução é enviesada e preconceituosa, bastando a mudança


da indumentária como forma de representação da diferença.
Nessa medida, o experimento aqui realizado nos leva a crer que o MidJourney
é um dispositivo para ser usado por usuários críticos e criativos. Significa dizer
que os comandos gerados serão mais condizentes com as imagens e os resultados
esperados se a mente por trás da “máquina” for criativa, conforme Flusser (2018)
já havia preconizado em relação à fotografia. Desse modo, os resultados só serão
satisfatórios se a pessoa que opera o sistema tiver uma visão imaginativa e com
capacidade criativa de ajustamento progressivo da imagem até seu nível de
refinamento. Se os artistas e suas obras não “educarem” as IAs, estas não passarão
de um ferramental limitado e até mesmo simplório; pior ainda enviesados. Não
há como lidar com imagem sem antes estudar e entender semioticamente o que é
imagem, seus contextos e seus potenciais interpretativos.
Já o ChatGPT, ao contrário do MidJourney, tende a gerar menos vieses, além
de gerar um nível de satisfação maior para o usuário leigo, uma vez que basta um
simples comando, sem maior conhecimento prévio para, a partir das idas e vindas
do sistema conversacional, ser possível alcançar o resultado aguardado, o que não 88
significa ausência de resguardo e cuidado contra as alucinações, imprecisões e
mesmo erros que o sistema pode gerar.
Há, portanto, limitações nesses sistemas de IAs Generativas, inclusive
temporais (setembro de 2021 para o ChatGPT 3.5), não sendo possível esperar
serviços de “oráculo” ou “gênio da lâmpada” no atendimento a quaisquer desejos,
sobretudo daqueles sem conhecimento técnico-profissional ou daqueles que
simplesmente não sabem o que e como perguntar. Disso se conclui que muita
atenção deve ser dada aos comandos gerados por humanos, pois é deles que
dependem as respostas a serem obtidas (CORTIZ, 2023b; c).

Questões de confiança, autoria e pertencimento

Atualmente, as IAs estão sob escrutínio, sobretudo devido à questão da


confiança (CHONG, 2022). Segundo pesquisa da consultoria Capgemini (2023),
realizada com dez mil pessoas no mês de abril, em treze países da Europa, América
do Norte e Ásia, mas publicada em 19 de junho de 2023, cerca de setenta e
três por cento (73%) dos usuários de Internet que já conhecem a IA Generativa

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confiam nos conteúdos que são por ela produzidos. Tanto que quarenta e nove por
cento (49%) não temem que sejam geradas informações falsas (desinformação), e
setenta por cento (70%) concordam que esses sistemas de IA façam recomendações
de novos produtos e serviços. São, portanto, objetos de confiança de cinquenta e
três por cento (53%) dos participantes para a gestão financeira; sessenta e seis
por cento (66%) para projetos de vida e relações pessoais; e sessenta e sete (67%)
para a realização de diagnósticos e assistência na área médica. Já, desse total,
infelizmente, somente cerca de um terço (33%) estão, de fato, preocupados com
seu impacto na questão de direito autoral (AFP, 2023).
Em contrapartida, para alguns analistas, a batalha, que será travada na IA,
está exatamente no campo regulatório do direito autoral, em virtude da ampla
e rápida popularização das IAs Generativas. Nos EUA, por exemplo, as obras
hoje criadas usando IA não geram direitos autorais. Um caso emblemático é o da
história em quadrinhos “Zarya of the Dawn” (ANALLA; WOLFSON, 2023) em
que a autora tentou registrar a obra no US Copyright Office (2023). Todavia teve
o registro negado porque as imagens foram geradas por IA. A ela foi permitido
registrar apenas os textos e a ordenação gráfica da obra, mas as imagens de cada 89
framework ficaram desprotegidas (LEMOS, 2023). Ao contrário da decisão do US
Copyright Office, o Japão liberou a IA Generativa para treinamento, mas não para
o uso: uma questão de maior tolerância para incentivar a inovação tecnológica,
porém com certas limitações (SOUZA, 2023).
Já Lawrence Lessig, professor de Universidade de Harvard e um dos
pioneiros do direito digital, aposta em uma alternativa equilibrada, porém ousada,
ao propor que “as criações feitas por IA deveriam ser protegidas por direito autoral.
E esse direito deveria ser atribuído à pessoa que gerou a obra (através de instruções
e interações com a IA)”. Entretanto, “para que o autor receba esse direito, ele teria
de obrigatoriamente registrar a obra em uma espécie de ‘registro público’, o que
facilitaria identificar quem é dono de cada criação”. Tal medida provocaria uma
procura imediata para o registro de toda sorte de imagem e conteúdo produzidos
por uma IA que seria recompensado monetariamente na forma de licenciamentos
(LEMOS, 2023).
Nesse sentido, também de registro para fins de ganhos de direito autoral,
mas sem apartar humano e máquina do processo criativo, encontra-se a proposta
de criação das “IAs individualizadas”. No dizer popular, “uma IA para chamar

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de sua”, funcionando como uma espécie de IA pessoal em parceria com a do


próprio artista, já que sua obra estaria aberta a colaborações que fariam com que o
terceiro-cocriador que se utilizasse de sua IA compartilhasse eventuais benefícios
resultantes daquela colaboração (LEMOS, 2023). Tais questões estão intimamente
relacionadas com a sensação de pertencimento do conteúdo (seja texto ou imagem)
resultante das IAs Generativas. Isto é, quanto maior for a colaboração do usuário
por meio de comandos específicos e interações detalhadas com os sistemas de IA,
maior será o sentimento de que aquela criação também é sua. E vice-versa.

Questões de criatividade, frustração e trabalho

Em um comparativo entre a geração de texto e a de imagem, o MidJourney,


assim como outras IAs Generativas, é um dispositivo mais satisfatório para
usuários já criativos, servindo para incrementar seu potencial de criação, mais do
que para substitui-los em suas funções de trabalho. Isto é, as imagens geradas pelo
sistema produzirão menos frustração se a mente por trás da “máquina” também
for criativa, como a de um designer ou diretor de arte, por exemplo.
90
Por tal razão, a maneira mais fácil de evitar “frustrações”, sobretudo
no usuário leigo (sem nenhum conhecimento técnico e/ou que insere pouco
detalhamento ou refinamento nos comandos ou instruções, melhor dito) é gerar
imagem a partir de outra imagem (uma fotografia tirada por ele mesmo, por
exemplo, pois há geração de imagem com base em uma já existente). Na prática, o
nível de satisfação com o “conteúdo gerado” é tão grande e mais facilitado a ponto
de qualquer usuário hoje fazer e postar a “imagem trabalhada no MidJourney”
em redes sociais como o Instagram, que permite aplicar filtros digitais no
compartilhamento on-line de fotos e vídeos entre seus usuários.
Destarte, um eticista de IA, como André Gualtiere (2023), classifica ao
menos “três estados de espírito diferentes” quanto à receptividade social destes
novos dispositivos nos dias atuais: a) os “apocalípticos” (como o historiador Yuval
Noah Harari) que acreditam tratar-se de um perigo existencial à humanidade,
visto que a IA ameaçaria o domínio humano da linguagem; b) os “militantes”,
tanto sociais, quanto políticos, geralmente mais intolerantes do ponto de vista
ético, que enxergam a IA apenas como um produto da ideologia dominante
resultante do sistema neoliberal; e c) os “otimistas”, conhecidos pelo termo

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“tecno-otimismo”, oriundo dos defensores da singularidade (a superação do


humano pela inteligência maquínica), que acreditam que todos os problemas
existenciais humanos, inclusive a morte, serão resolvidos com a adoção de mais
tecnologia, como “nas iniciativas de bilionários do Vale do Silício em financiar
pesquisas sobre o prolongamento da vida ou mesmo atingir de alguma maneira a
imortalidade” (GUALTIERE, 2023). Entre essas posições extremadas, ficam em
falta ponderações críticas e, ao mesmo tempo, prudentes.

Notas conclusivas

As hipóteses do nosso experimento foram parcialmente validadas. Embora um


prompt (comando) mais elaborado faça toda a diferença, constatou-se que, ao inserir
os mesmos comandos, tanto na IA Generativa de texto, quanto na IA Generativa
de imagem, não necessariamente se alcançam os resultados esperados de maneira
confiável e satisfatória, segundo aquilo que pode ser extraído do ponto de vista do
usuário e suas sensações que vêm a seguir.
a) Sensação de pertencimento: maior na IA Generativa de texto do
que na de imagem; quase proposital, para que não haja reivindicação 91

de direitos autorais de imagem etc.) por parte daquele que é um


profissional especializado.
b) Sensação de autoria: maior no usuário profissional da IA generativa
de imagem do que no usuário leigo, pois o profissional já vem com
um conhecimento prévio, carrega em si uma bagagem cultural, sua
impressão pessoal, label ou marca própria.
c) Sensação de frustração: na IA Generativa de imagem é maior a
frustração do usuário leigo do que a do usuário profissional, devido
à falta de conhecimento prévio, na correspondência entre o comando
e o resultado esperado, necessitando outro comando diferente do
primeiro. Quanto à IA Generativa de texto, é possível aproveitar o
comando inicial, corrigindo e/ou refinando-o.
d) Sandbox algorítmico: há falta de transparência quanto às fontes
(databases) em ambas, embora, em um comparativo, em razão de seu
modelo de difusão e não de linguagem, a opacidade seja maior nas
IAS Generativas de imagem.

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IAS GENERATIVAS: A IMPORTÂNCIA DOS COMANDOS PARA TEXTO E IMAGEM ANDERSON RÖHE E LUCIA SANTAELLA

Por fim, o ChatGPT, por ser um sistema conversacional, usuário e máquina


tendem a se entender ao final, pois o objetivo daquela é encontrar alguma resposta,
ainda que muitas vezes imprecisa, incompleta ou mesmo equivocada, o que
implica que o usuário se coloque em estado de alerta contínuo. Já no MidJourney,
os comandos têm que ser precisos, cirúrgicos até se chegar ao mesmo resultado
esperado.
As IAs Generativas aprendem como as crianças, especialmente quando há
aprendizado por reforço, tentativa e erro. Assim como as crianças e assim como
no filme A.I. – Artificial Intelligence, as IAs não devem ser julgadas por aquilo
que ainda não sabem. Mas devem ser julgadas, sim, pelos vieses que importam e
ajudam a proliferar. Não obstante a importância de ambas as questões, que serão
deixadas para outra oportunidade, neste ponto final vale recordar que este artigo
e o experimento nele desenvolvido não tiveram em mira ensinar ou aprender a
fazer comandos, mas, sim, à luz de Flusser, abrir o capô, enxergar por baixo e
vislumbrar a filosofia crítica que deve estar por trás das IAs Generativas.

Referências
92
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Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 76-94, maio-agosto 2023
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2023v16i47p95-111

Da reprodução imagética às fissuras algorítmicas: vieses,


desvios e outros campos de possíveis
Maria Cortez Salviano1
ORCID: 0000-0003-4375-8981

Resumo: O uso de Inteligência Artificial tem crescido consideravelmente em


diversas áreas. Porém, este tipo de tecnologia não é neutro, podendo potencializar
vieses já presentes em bancos de dados ou apontar correlações onde há apenas
coincidências, uma vez que engendra um modo específico de conhecimento
baseado em identificação de padrões e em probabilidade estatística. Neste cenário,
abusos de diversas ordens têm sido recorrentes em sua utilização, assim como os
esforços para denunciá-los. Diante disso, seria possível buscar por outras formas 95
de relacionamento com a tecnologia a partir do estudo das práticas artísticas
contemporâneas? Uma relação que não tenha por objetivo fechar o mundo sobre
si mesmo, procurando encerrar suas multiplicidades em um jogo de correlações
e probabilidades, mas ampliá-lo? Este trabalho busca analisar algumas maneiras
como arte contemporânea tem feito uso de tecnologias de Inteligência Artificial,
observando como modos de funcionamento diversos relacionam-se para evidenciar,
questionar ou produzir realidades.

Palavras-chave: Inteligência Artificial. Cibernética. Exposições imersivas. Arte


contemporânea.

1
Doutoranda em Ciências Sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Estadual de Campinas (IFCH-UNICAMP). Tem mestrado em Divulgação Científica e Cultural
(UNICAMP), graduação em Jornalismo (Faculdade Cásper Líbero) e pós-graduação Lato Sensu
em Globalização e Cultura (FESP-SP). Lattes: http://lattes.cnpq.br/5036958400141659.

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DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

From image reproduction to algorithmic fissures: biases,


deviations and other fields of possible

Abstract: The use of Artificial Intelligence has considerably grown in many areas.
However, this type of technology is not neutral, and may enhance biases already
present in databases or point out correlations where there are only coincidences,
since it engenders a specific mode of knowledge based on pattern identification
and statistical probability. In this scenario, abuses of various orders have been
recurrent in its use, as well as efforts to denounce them. Given this, would it 96
be possible to look for other forms of relationship with technology based on the
study of contemporary artistic practices? A relationship that does not aim to
close the world in, seeking to enclose its multiplicities in a game of correlations
and probabilities, but to expand it? This work seeks to analyze some ways in
which contemporary art has used Artificial Intelligence technologies, observing
how different modes of operation are related to highlight, question or produce
realities.

Keywords: Artificial Intelligence. Cybernetics. Immersive exhibitions.


Contemporary art.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 95-111, maio-agosto 2023
DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

De la reproducción de imágenes a las fisuras algorítmicas:


Sesgos, desviaciones y otros campos de posibles

Resumen: El uso de Inteligencia Artificial ha crecido considerablemente en varias


áreas. Sin embargo, este tipo de tecnología no es neutro y puede potenciar las
inclinaciones ya presentes en las bases de datos o señalar correlaciones donde solo
hay coincidencias, ya que genera un modo específico de conocimiento basado en
la identificación de patrones y en la probabilidad estadística. En este escenario
han sido recurrentes los abusos de varios órdenes en su uso, así como los esfuerzos 97
por denunciarlos. Ante esto, ¿sería posible buscar otras formas de relación con la
tecnología a partir del estudio de las prácticas artísticas contemporáneas? ¿Una
relación que no pretende cerrar el mundo sobre si mismo, buscando encerrar sus
multiplicidades en un juego de correlaciones y probabilidades, sino expandirlo?
Este trabajo busca analizar algunas formas en que el arte contemporáneo ha hecho
uso de las tecnologías de Inteligencia Artificial, observando cómo se relacionan
diferentes modos de operación para resaltar, cuestionar o producir realidades.

Palabras clave: Inteligencia Artificial. Cibernética. Exposiciones inmersivas. Arte


contemporáneo.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 95-111, maio-agosto 2023
DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

O modo de conhecer de uma Inteligência Artificial

“A arte sempre existiu em uma relação complexa, simbiótica e continuamente


evolutiva com as capacidades tecnológicas de uma cultura” (AGÜERA Y ARCAS,
2020, p. 112, em tradução livre2). Afinal, ao longo da história humana, a prensa, o
cálculo matemático da perspectiva ou a fotografia, para se citar alguns exemplos,
marcaram fortemente a produção artística. E se, por um lado, as inovações
técnicas afetam profundamente as possibilidades de invenção e de expressão de
uma época e lugar, por outro o estudo de práticas e processos artísticos pode
colaborar no entendimento das maneiras como as sociedades têm se relacionado
com a tecnologia. É neste sentido que se propõe a discussão aqui apresentada.
Marketing, agricultura, saúde ou segurança: em áreas as mais diversas,
as tecnologias de informação e comunicação têm conquistado adeptos a passos
largos. E, neste cenário, a chamada Inteligência Artificial (IA) concentra uma
parte significativa dos olhares. Por sua grande capacidade de coleta, processamento
e análise de dados, este tipo de ferramenta frequentemente é percebido como
uma espécie de entidade capaz de acessar e revelar a realidade tal como ela é. No
98
entanto, esta pretensa neutralidade deve ser colocada em questão.
É preciso dizer que qualquer conhecimento implica em modos de
conhecer, ou seja, o acesso à dita realidade das coisas e do mundo é necessariamente
mediado, fragmentado, localizado. Parte de uma perspectiva e de condições de
possibilidade específicas (HARAWAY, 1995). As tecnologias de IA, portanto,
enquanto ferramentas de tradução e análise de processos que escapam à percepção
humana, não podem ser entendidas como completamente objetivas e imparciais
já neste primeiro sentido. Afinal, sua construção, feita em contextos específicos,
parte de pressupostos sobre o que pode ser conhecido e de que maneira, além de
ser pensada para atender a determinados objetivos.
E qual seria o modo de conhecer de uma Inteligência Artificial?
Ainda que esta categoria englobe mecanismos diversos, poderíamos dizer que
o rastreamento de semelhanças é um ponto central em seu funcionamento: de
forma geral, sistemas de IA “aprendem” a partir do que se repete no passado
para projetar, prever e construir o futuro. Como Pasquinelli e Joler definem, IA
é um “instrumento de ampliação do conhecimento que ajuda a perceber características,
padrões e correlações através de vastos espaços de dados que estão além do alcance

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 95-111, maio-agosto 2023
DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

humano” (PASQUINELLI, JOLER, 2020, grifo dos autores). Ou, ainda, uma
tecnologia cujo modo de funcionamento próprio delimita as suas possibilidades
de conhecer.
Muitas vezes tomada como um “regime de verdade” universal, as tecnologias
de IA estão relacionadas a certa episteme, que impacta em como e o que pode ser
conhecido. Sua principal vantagem é poder analisar bancos de dados de tamanho
inconcebível para a compreensão humana, mas isto é feito a partir de um modo
específico, como buscar por padrões e correlações. E, como colocam os autores,
Instrumentos de medição e percepção sempre vêm com distorções
embutidas. Do mesmo modo que as lentes de microscópios e
telescópios nunca são perfeitamente curvilíneas e lisas, as lentes lógicas
do aprendizado de máquina incorporam falhas e inclinações. Entender
o aprendizado de máquina e registrar seu impacto na sociedade é
estudar o grau em que os dados sociais são difratados e distorcidos
por essas lentes. Isso geralmente é conhecido como o debate sobre o
viés (inclinações/predisposições) na IA, mas as implicações políticas
da forma lógica do aprendizado de máquina são mais profundas. O
aprendizado de máquina não está trazendo uma nova era das trevas,
mas uma racionalidade difratada, na qual, como será mostrado,
99
uma episteme de causalidade é substituída por uma de correlações
automatizadas. Em geral, a IA é um novo regime de verdade, prova
científica, normatividade social e racionalidade, que muitas vezes
toma a forma de uma alucinação estatística. (PASQUINELLI, JOLER,
2020, grifo dos autores)
Ou seja, o conhecimento produzido por uma tecnologia de IA não será
absoluto ou universal, mas específico de uma maneira de entender e traduzir o
mundo. E, adicionando mais uma camada de complicadores, vale lembrar que,
quando falamos de aprendizado de máquinas, é preciso haver um banco de dados
amplo e relevante para que um sistema possa identificar padrões anteriores e
repeti-los. A construção deste material, porém, sofre influência das variações,
desigualdades e contingências da realidade que busca “representar”. Dessa forma,
se a base de dados que alimenta um sistema tem distorções próprias do contexto
ao qual se refere, uma IA, ao buscar por padrões anteriores, pode reproduzir
desigualdades raciais, de gênero, entre outras. E os possíveis vieses que podem
existir em um material e serem amplificados pelo uso deste tipo de tecnologia
são alvo de uma série de questionamentos, como demonstraram, por exemplo,
Crawford e Paglen (2021).

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 95-111, maio-agosto 2023
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Os campos de possíveis

O funcionamento de qualquer tecnologia não se dá por si só, isolado das questões


humanas e do contato com o meio. Assim, os esforços para explicitar as maneiras
como têm se dado as relações com as Tecnologias de Informação e Comunicação
(TICs) são diversos, seja para evidenciar as dinâmicas de poder que engendram ou
favorecem, para denunciar abusos ou mesmo para buscar por outras maneiras de
construir um caminho conjunto. Neste sentido, conceitos como virada cibernética
(SANTOS, 2003), capitalismo de vigilância (ZUBOFF, 2018) ou sociedades de
controle (DELEUZE, 1992) têm sido essenciais para a compreensão de diversas
dinâmicas da contemporaneidade. Iremos explorá-los a seguir.
Laymert Garcia dos Santos (2003), ao ser perguntado sobre as possibilidades
de caminho que se apresentam para a esquerda brasileira no atual momento
do capitalismo, destacou que, nas décadas recentes, a aliança entre capital e
tecnociência gerou uma transformação radical nas lógicas de compreensão e ação
no mundo. Segundo o autor, a proposta de informação surgida da cibernética, que
buscava traduzir qualquer existência em termos numéricos, digitais, permitiu
criar uma linguagem comum entre a matéria inerte, o ser vivo e o objeto técnico. E,
100
ao se derrubarem barreiras de comunicação antes intransponíveis entre diferentes
realidades, novas formas de gestão e controle tornaram-se possíveis. Pois, diante
do inesgotável banco de dados que se tornou o mundo, qualquer problema passa a
ser entendido a partir de possibilidades de codificação e decodificação. Com isso,
Em toda parte, e sempre que possível, o capitalismo de ponta passa
a interessar-se mais pelo controle dos processos do que dos produtos,
mais pelas potências, virtualidades e performances do que pelas coisas
mesmas. O capital, e antes de tudo o capital financeiro, começa a
deslocar-se para o campo do virtual, voltando-se para uma economia
futura cujo comportamento é analisado por meio de simulações cada
vez mais complexas (SANTOS, 2003, p. 17-18).
Ao se voltar para a gestão dos potenciais, o capitalismo passa a se interessar
mais pela apropriação do futuro que por um domínio sobre o presente. Em outras
palavras, nesse contexto importa menos o que as coisas são, mas o que podem vir
a ser. A dimensão virtual da realidade (SANTOS, 2003), o que está em potência,
torna-se muito mais valiosa que o seu aspecto atual, concreto: afinal, o controle do
que ainda não é pode levar a ser da forma que for mais conveniente.
Mais recentemente, Zuboff (2018) demonstrou, a partir de uma análise
sobre os modos de funcionamento do Google, como a gestão de informações pode

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contribuir para o manejo do futuro. A autora descreve como, em ambientes digitais,


qualquer ação deixa rastros, gera dados colaterais. E esse material, aparentemente
sem qualquer utilidade, foi sendo coletado pela empresa de tecnologia ao longo
do tempo. Com isso, um amplo conhecimento sobre hábitos online foi sendo
construído, como de que maneira as pessoas acessam determinados links, que
fatores podem favorecer uma escolha, entre outros. A partir da análise desses
dados, teria se tornado possível prever como se dariam os comportamentos em
ambientes digitais e, posteriormente, condicioná-los, criando as condições para
que uma decisão ocorra em um ou outro sentido.
Em chave similar, Deleuze (1992) analisou que o momento atual da
sociedade capitalista, que chamou de sociedades de controle, é marcado por um
novo modo de exercício de poder, o qual poderia ser entendido pela analogia
da modulação. O poder modulatório não é exercido a partir do confinamento,
da adequação a padrões específicos, mas está no espaço aberto, moldando-se às
necessidades e especificidades de cada momento. Os indivíduos tornam-se dados,
informações que alimentam sistemas de processamento e análise. Estes, por sua
vez, são constantemente reatualizados, readequando-se caso o contexto apresente 101
alguma alteração. Desvios, portanto, não se constituem um problema, pois são
rapidamente reintegrados na lógica modulatória.
Ainda que com diferenças importantes entre si, os três autores convergem
ao apontar que, atualmente, o que está no centro das atenções é o universo do
possível – gerir os fluxos, prever acontecimentos, poder determinar o que virá a
ser. Codificação, decodificação, digitalização, mapeamento, rastreamento, análise e
controle são alguns dos termos chave para isso, fortemente ligados a uma tradição
científica lógico-matemática e fundamentando um conhecimento que busca ser
total. Neste contexto, portanto, é o futuro que está em jogo, mas os meios que
podem permitir “conquistá-lo”, diminuindo ou aumentando as multiplicidades
de caminhos a seguir, não estão distribuídos de forma equilibrada: exigem
tecnologias, métodos e acessos bem pouco universais.
Assim, as possibilidades de resistência ou transformação ganharam alguns
complicadores – ou, talvez, novas formas. Afinal, diante de um cenário em que o
exercício do poder é baseado em um conhecimento que, além de restrito a alguns
grupos, se pretende total e tem por objetivo interferir no curso dos devires (como
também colocaram ROUVROY e BERNS, 2015), parece haver bem pouco espaço

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DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

para rotas de fuga, contramovimentos, escapes. A sensação é a de que o desvio não


seria mais um problema a ser enfrentado, mas aprendizagem: “sair” do campo
mapeado de possíveis é, de certa forma, contribuir para ampliar os seus limites.
Porém, de que maneira poderíamos tensionar a noção de possível? Pelbart
(2013, p. 45), ao discorrer sobre a relação entre esgotamento e criação, diferencia
duas modalidades de possível: o dado de antemão e o ainda não dado. E argumenta
que a passagem de um para o outro se daria especialmente em momentos de crise,
de insurreição ou revolução:
Como se o esgotamento do possível (dado de antemão) fosse a condição
para alcançar outra modalidade de possível (o ainda não dado) – em
outros termos, não a realização eventual de um possível previamente
dado, mas a criação necessária de um possível sob um fundo de
impossibilidade. O possível deixa de ficar confinado ao domínio da
imaginação, ou do sonho, ou da idealidade, tornando-se coextensivo à
realidade na sua produtividade própria. O possível se alarga em direção
a um campo – o campo de possíveis. Como abrir um campo de possíveis?
Não serão os momentos de insurreição ou de revolução precisamente
aqueles que deixam entrever a fulguração de um campo de possíveis?
Inverte-se assim a relação entre o acontecimento e o possível. Não é
mais o possível que dá lugar ao acontecimento, mas o acontecimento 102
que cria um possível – assim como a crise não era o resultado de um
processo, mas o acontecimento a partir do qual um processo podia
desencadear-se. (PELBART, 2013, p. 45, grifos do autor)
O pensamento de Pelbart poderia ajudar a abrir brechas em uma lógica
totalizante de buscar resumir todo o possível ao já dado de antemão, como muitas
vezes parece estar colocado o horizonte em um mundo digitalizado. Porém, fica
ainda a pergunta: como, então, abrir um campo de possíveis em um cenário de forte
mediação tecnológica, que busca entender qualquer processo a partir de relações
de correlação e probabilidade baseadas em dinâmicas anteriores? Nossa aposta,
aqui, será olhar para a arte contemporânea, para as relações que têm sido tecidas
neste universo com as TICs, em especial a Inteligência Artificial. Afinal, de certa
maneira, os possíveis, ou ainda a dimensão virtual da realidade (SANTOS, 2003),
também são constantemente alvo de interesse e experimentação nas práticas
artísticas. Como descreve Ingold (2013),
A relação do pintor com o mundo, escreve Merleau-Ponty, não é
simplesmente “físico-ótica”. Ou seja, ele não contempla um mundo
que é finito e completo, e se propõe a criar uma representação dele.
Ao invés disso, a relação é de um “nascimento contínuo” – essas são as
palavras de Merleau-Ponty ― como se a cada momento o pintor abrisse

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DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

os olhos para o mundo pela primeira vez. Sua visão não é das coisas
no mundo, mas as coisas se tornando coisas, e do mundo se tornando
um mundo (MERLEAU-PONTY, 1964, p. 167–168, 181). O pintor
Paul Klee expressou essa mesma ideia em seu Creative Credo de 1920.
A arte, ele declarou em uma famosa frase, “não reproduz o visível, mas
torna visível” (KLEE, 1961, p. 76). (INGOLD, 2013, p. 14)

Ver as coisas se tornando coisas e o mundo se tornando um mundo, como


formulado por Merleau-Ponty e citado por Ingold, seria também um modo de
descrever não aquilo que já é, mas o que pode vir a ser. Nesse sentido, poderíamos
dizer que não é raro que a tecnociência atual e arte tenham um aspecto em comum
como centro de seu trabalho. Mas, enquanto uma parece explorá-lo interessada pelo
controle da matéria e da vida, a outra tende a buscar ampliar as suas possibilidades.
Porém, vale reforçar que não buscamos, aqui, endossar um dualismo
rígido em que, de um lado, estaria sempre a associação entre a tecnociência e o
dado de antemão e, de outro, a arte e o ainda não dado. Se, de maneira frequente,
as cartas assim parecem estar colocadas, sempre é possível embaralhá-las. Por isso,
é importante analisar caso a caso, buscando observar que dinâmicas têm se dado
quando arte e tecnologia convergem. Portanto, a partir do estudo das práticas 103
artísticas contemporâneas, pretendemos evidenciar as maneiras de se construir
uma relação com a tecnologia que não tenha por objetivo fechar o mundo sobre
si mesmo, procurando encerrar suas multiplicidades em um jogo de correlações e
probabilidades, mas ampliá-lo.
A seguir, iremos analisar duas exposições artísticas que fizeram uso de
tecnologias de IA e que, a nosso ver, tinham propostas, objetivos e possibilidades
bastante diversos entre si.

Os girassóis de Van Gogh

Uma das novas apostas da união entre arte e tecnologia atualmente está nas
chamadas “exposições imersivas”, que usam projeções em alta definição e sistemas
de Inteligência Artificial para criar cenários fantásticos a partir de trabalhos de
artistas consagrados. Neste tipo de mostra, a proposta não é apresentar uma
série de obras selecionadas de acordo com uma linha curatorial específica, como
costuma ser feito tradicionalmente, mas proporcionar uma “experiência” para
o público. Utilizando estímulos sensoriais intensos, especialmente visuais e
auditivos, busca-se transportar o visitante para “dentro” de quadros famosos, cujos

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DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

elementos movem-se de forma a parecer ter “ganhado vida”. Entre as exposições


deste gênero que têm estado em cartaz em várias cidades brasileiras nos últimos
meses, olharemos com mais atenção para a Beyond Van Gogh, que esteve em São
Paulo entre os dias 17 de março e 3 de julho de 2022 no estacionamento do
Morumbi Shopping.
Os valores dos ingressos variavam. A partir de R$ 70 (a inteira), era possível
comprar um passe simples, apenas para acessar a exposição, mas havia também
a opção de realizar de visitas mais incrementadas – chamadas de “vip experience”.
Entre estas, que seguem listadas no site oficial da mostra3, eram oferecidas práticas
de yoga e meditação na sala de projeções, atividades para crianças ou combos para
casais com direito a drinks e toalha de piquenique. Mas, se o acesso à Beyond Van
Gogh poderia ser financeiramente restrito, seu público foi expressivo. De acordo
com a organização, mais de 300 mil pessoas foram à mostra em São Paulo. Depois,
a exposição seguiu para temporada em Brasília.
Com a entrada simples comprada (e agendada), passamos pela checagem
do ingresso e iniciamos o percurso. Antes de chegar ao salão principal, em que uma
projeção de cerca de 30 minutos transformava paredes e chão em telas moventes do
104
artista, algumas salas menores preparavam o público para o momento de clímax.
Telas digitais, muito vívidas, mostravam as obras mais famosas de Van Gogh
e traziam informações sobre sua biografia, como as dificuldades financeiras e,
principalmente, a relação com o irmão, Theo. Nesses espaços, já ficava fortemente
enunciada a inspiração instagramável da mostra, aspecto que também foi apontado
por alguns veículos de comunicação4. Em uma sala, por exemplo, molduras
vazias enormes, cheias de detalhes em suas bordas e penduradas do teto como
se flutuassem em meio aos corredores, convidavam a selfies e outras fotografias
“divertidas”. Em outra, girassóis de plástico e luzes quentes provocavam filas
para se obter o melhor ângulo. Vale dizer que a Beyond Van Gogh não contava com
os quadros “físicos”, originais, do artista: seu objetivo era justamente provocar
outras relações com imagens já bastante conhecidas entre o público em geral, seja
a partir de projeções em alta definição, seja com a criação de cenários inspirados
nas pinturas.

3
Disponível em: <https://www.vangoghbrasil.com.br/>. Acesso em 15 jun. 2023.
4
Por exemplo, no Guia da Folha, disponível em https://guia.folha.uol.com.br/passeios/2022/06/
exposicoes-de-portinari-e-van-gogh-chegam-ao-fim-em-sp-veja-como-ainda-comprar-ingressos.
shtml. Acesso em 15 jun. 2023.

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Figura 1 – Fotografia da exposição Beyond Van Gogh

Fonte: Site oficial da exposição Beyond Van Gogh no Brasil5.

Ao chegarmos no salão que era ponto alto da mostra, amplo e bastante alto,
um som ambiente forte, ora com música instrumental, ora com vozes, contribuía 105

para a criação de um clima de sonho. Ali, a multidão se dividia entre observar


o movimento das imagens e tentar tirar uma foto entre as formas, cores, flores,
campos, céus e outros motivos tirados das pinturas de Van Gogh. Era possível
se deixar levar pelo turbilhão onírico, sentir como se estivesse em meio a uma
das famosas paisagens do pintor holandês, experimentar uma relação com a sua
pintura a partir de campos sensoriais diferentes do que estávamos acostumados.
Ou, então, para aqueles que ainda não conheciam o artista, esta poderia ser uma
porta de entrada interessante para começar a se relacionar com a sua obra. No
entanto, a experiência em geral parecia tender para outro caminho, estando mais
voltada para o registro e reprodução de imagens em redes sociais.
Por toda a parte, poses, cliques e gravações diversas marcavam o percurso
da exposição. Toda a estrutura parecia ter sido construída de maneira a favorecer o
registro em imagem, com cores fortes, vibrantes e boa iluminação. Alguns locais,
como a sala com os girassóis de plástico, pareciam não ser mais que cenários
fotográficos, pois ficavam muito mais interessantes em fotos que ao vivo. Se

5
Disponível em: <https://www.vangoghbrasil.com.br/>. Acesso em 15 jun. 2023.

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a cada meia hora as pinturas dançantes se repetiam nas paredes, a reprodução


imagética da exposição em redes sociais ocorria na escala dos minutos e segundos.
E em uma estrutura que se retroalimentava: quanto mais fotografias e vídeos
relacionados à mostra circulavam online, mais pessoas buscavam ir à Beyond Van
Gogh para fazer os próprios registros e postá-los. Uma exposição que era também,
ou principalmente, a sua própria divulgação.
Portanto, a mostra, apesar de se apresentar como uma nova maneira de se
relacionar com a obra de um artista consagrado, repetia um modo de funcionamento
já bastante explorado (BAUDRILLARD, 1991): a espetacularização imagética
e a valorização da experiência enquanto consumo. Sistemas de IA estariam
sendo utilizados principalmente como uma ferramenta para favorecer o que se
entende por “imersão”; ou, como Laymert dos Santos coloca ao criticar parte
dos trabalhos que se inscrevem no binômio arte-tecnologia, como “um meio de
expressão à disposição do humano, não um parceiro de uma criação que vai afetar,
e transformar, tanto o humano quanto a máquina” (SANTOS, 2016). Assim,
poderíamos dizer que, neste cenário, a tecnologia aparecia mais enquanto um
elemento de “fetiche”, ou um encantamento com uma espécie de brinquedo
novo. Os possíveis, aqui, já pareciam estar dados, e alimentavam principalmente 106

o círculo do lucro e da (auto)divulgação.

As ervas daninhas de Giselle Beiguelman

Giselle Beiguelman é artista, pesquisadora e professora da Faculdade de


Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, com diversos trabalhos
que versam sobre as relações entre tecnologias digitais, imagem, memória, cidades
e sociedade, entre outros temas. Sua exposição Botannica Tirannica6, que esteve em
cartaz no Museu Judaico de São Paulo de 28 de maio a 18 de setembro de 2022,
buscou mapear e remixar diversas espécies de plantas que foram submetidas
a nomeações preconceituosas, misóginas, racistas e antissemitas, de maneira a
construir uma crítica ao modo colonial de catalogar (e inferiorizar) corpos,
territórios, conhecimentos e imaginários.
O museu que recebeu a mostra está alocado em uma sinagoga reformada,
unindo elementos arquitetônicos tradicionais e estruturas mais contemporâneas –

6
Site oficial da exposição: <https://museujudaicosp.org.br/exposicoes/botannica-tirannica-gi-
selle-beiguelman/>. Acesso em 15 jun. 2023.

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como uma parede de vidro que dá para a movimentada Avenida Nove de Julho,
umas das principais vias a fazer a ligação entre o centro de São Paulo e outras regiões
da cidade. De acordo com o site oficial7 da instituição, seu programa cultural visa
entrelaçar “a experiência judaica à cultura brasileira e à arte contemporânea”;
portanto, mostras bastante diversas convivem no espaço. Os ingressos custam
R$ 20 (a inteira), mas, aos sábados, a entrada é gratuita.
Para chegar à Botannica Tirannica era preciso caminhar um pouco pelo
edifício, passando por exposições que tinham por tema aspectos como elementos
da cultura judaica ou história dos judeus no Brasil, além de um café com quitutes
típicos. A mostra de Beiguelman ocupava apenas uma sala, mas contava com
diferentes abordagens sobre o universo da nomeação, catalogação e uso de plantas,
explorando os modos (às vezes sutis) como violências, preconceitos e desigualdades
podem se manifestar na ciência e na tecnologia, por mais neutras e objetivas que
estas possam ser consideradas.

Figura 2 – Fotografia da exposição Botannica Tirannica


107

Fonte: Site oficial do Museu Judaico de São Paulo8.

Em um dos variados focos da exposição, foram reunidas espécies


vegetais cujos nomes populares contêm alusões xenófobas, racistas, machistas
ou antissemitas, como as chamadas de “judeu errante” ou “catinga de mulata”,
para compor um paisagismo às avessas. E, por fruto de relações coloniais de
inferiorização do outro e controle da diferença, como Beiguelman destacou, a

7
Disponível em: <https://museujudaicosp.org.br/o-museu/#quemsomos>. Acesso em 15 jun. 2023.
8
Disponível em: <https://museujudaicosp.org.br/exposicoes/botannica-tirannica-giselle-bei-
guelman/>. Acesso em 15 jun. 2023.

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maior parte das plantas nomeadas de maneira pejorativa é formada por ervas
daninhas, consideradas incômodas, invasoras, descontroladas. Em artigo em
que apresentou a pesquisa feita para o projeto (BEIGUELMAN, 2022), a artista
comenta essa associação comum:
Esse termo tão desqualificador (daninha, danada, amaldiçoada)
no pensamento hegemônico tornou-se, para mim, um símbolo de
resiliência. Como no samba de Zé Kéti, imortalizado na voz de Elza
Soares, elas pareciam dizer: “Podem me prender/ Podem me bater/
Podem até deixar-me sem comer… Se não tem água, eu furo o poço”.
As supostas daninhas são exatamente assim. Sobem nas pedras, se
enfiam entre as árvores. Ressurgem. Resistem. Como os escravizados,
que traficavam as Palmeiras-imperiais, símbolo do poder monárquico
e da riqueza latifundiária brasileira, engolindo suas sementes e as
armazenando em suas fezes para contrabandeá-las. Como os judeus,
que atravessaram todos os ciclos de perseguição, das Cruzadas
ao Nazismo, passando pela Inquisição, e seguem vivos. Como os
indígenas e seus saberes ancestrais, há 5 séculos vítimas de políticas
de apagamento e genocídio. Como os povos rom, sinti e caló, ditos
ciganos, a despeito de todos os dicionários que os associam à trapaça
e à pilhéria. Como as mulheres, apagadas de todas as histórias e
108
violentadas em todos os sentidos. Indesejáveis, indomáveis, malditas,
as ervas daninhas são a metáfora mais perfeita da luta pelo direito à
vida. Rebeldes, desafiam um mundo dominado por uma almejada
ordem natural inexistente, voltada à produção de bens, validada pelo
colonialismo e seus desdobramentos no presente. (BEIGUELMAN,
2022, p. 15)
Nesta espécie de jardim decolonial que reverberava as relações espinhosas
entre colonialismo e ciência, as protagonistas eram justamente as existências
indesejáveis, rebeldes, menosprezadas. Em outro momento do trabalho artístico,
na série intitulada Flora rebellis, deu-se um passo além. A artista utilizou algoritmos
generativos, um tipo de Inteligência Artificial, para criar imagens e vídeos a partir
de fotografias das plantas com os nomes pejorativos. Beiguelman agrupou as
espécies de acordo com os tipos de preconceito que deram origem às nomeações,
como racismo ou antissemitismo, e experimentou gerar imageticamente novas
espécies híbridas, compostas por características que estariam ligadas a um campo
semântico comum de inspiração.

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Figura 3 – Fotografia da exposição Botannica Tirannica

Fonte: Site oficial do Museu Judaico de São Paulo9.

Vale dizer, porém, que não necessariamente as plantas relacionadas a


109
um mesmo tipo de violência têm características físicas similares. Afinal, tais
designações teriam mais a ver com as relações sociais excludentes entre aqueles
que nomeiam do que com aspectos daquilo que é nomeado. E, ao comentar sobre
o processo de criação imagética com os algoritmos generativos, a artista assim
descreveu os objetivos do trabalho:
[E] se chegarmos a um momento em que a visão computacional se
torne tão hegemônica a ponto de não conseguirmos mais enxergar o
que fica fora do padrão, da mesma forma que temos dificuldade para
compreender o que ultrapassa o cânone retangular ou quadrado da
tela e da página? Estaríamos prestes a entrar em uma era da eugenia
maquínica?
Foi aí que resolvi me dedicar a uma espécie de “engenharia de uma
filosofia reversa”: Combinar entre si imagens que propositalmente
rompem a cadeia produtiva das imagens mais reais que o real,
alimentando o sistema com dados incongruentes, como plantas de
diferentes espécies, mas sempre com nomes derrogatórios a judeus,
a negros, a mulheres, a indígenas e a povos ditos “ciganos”, forçando
o sistema a operar sua síntese e, assim, gerar uma imagem que não

9
Disponível em: <https://museujudaicosp.org.br/exposicoes/botannica-tirannica-giselle-bei-
guelman/>. Acesso em 15 jun. 2023.

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pretende decalcar o real, mas operar em uma extra-natureza, multi-


espécies e para além das hierarquias canônicas da ciência clássica
(Haraway, 2016; Tsing, 2004). (BEIGUELMAN, 2022, p. 16)

Beiguelman, portanto, apropriou-se de algoritmos cujos modos de


funcionamento partem de princípios de padronização e homogeneização, mas
inverteu a sua lógica: ao aplicar a metodologia unificadora naquilo que é diverso,
criaram-se ruídos, fissuras, diferenciação. Dessa forma, ainda que trabalhando
com ferramentas que se norteiam pela busca da semelhança e a eliminação de
dissonâncias, a artista reuniu imagens dessemelhantes, espécies sem aparência
evidente, cuja única tônica é a denominação preconceituosa.
Utilizou-se um tipo de tecnologia baseada em correlações e probabilidade,
mas o que se observou no trabalho de Beiguelman não é a repetição do mesmo
ou a harmonização de padrões universais, mas uma espécie de curto-circuito. As
novas imagens, fruto de combinações de plantas em sua maioria consideradas
daninhas, não correspondem a nenhuma espécie existente. Fica, assim, um híbrido
fantasmagórico, um ruído na lógica da Inteligência Artificial.

Referências 110

AGÜERA Y ARCAS, Blaise. Art in the age of machine intelligence. In.:


VICKERS, Ben; ALLADO-MCDOWELL, K. (Orgs.). Atlas of Anomalous AI.
Ignota, 2020, p. 112-120.

BAUDRILLARD, Jean. O efeito Beaubourg. In: Simulacros e simulação.


Tradução de Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d’Água, 1991.

BEIGUELMAN, Giselle. Botannica Tirannica: da genealogia do preconceito às


possibilidades de um ecossistema errante. Revista ClimaCom – Políticas vegetais
[Online], Campinas, ano 9, n. 23, dez. 2022. Disponível em: <http://climacom.
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DELEUZE, Gilles. Post-Scriptum sobre as sociedades de controle. In.


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HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo


e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7-41,
1995. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/
cadpagu/article/view/1773>. Acesso em: 18 dez. 2022.

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DA REPRODUÇÃO IMAGÉTICA ÀS FISSURAS ALGORÍTMICAS VIESES, DESVIOS E OUTROS CAMPOS DE POSSÍVEIS MARIA CORTEZ SALVIANO

INGOLD, Tim. Repensando o animado, reanimando o pensamento. Espaço


Ameríndio, Porto Alegre, v. 7, n. 2, p. 10-25, jul./dez. 2013.

PASQUINELLI, Matteo; JOLER, Vladan. O Manifesto Nooscópio: Inteligência


Artificial como Instrumento de Extrativismo do Conhecimento. Trad.
Leandro Módolo e Thais Pimentel. KIM research group (Karlsruhe University
of Arts and Design) e Share Lab (Novi Sad), 1 de Maio de 2020. Disponível
em: <https://lavits.org/o-manifesto-nooscopio-inteligencia-artificial-como-
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PELBART, Peter Pál. O Avesso do Niilismo: Cartografias do esgotamento.


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ROUVROY, Antoinette; BERNS, Thomas. Governamentalidade algorítmica


e perspectivas de emancipação: o díspar como condição de individuação pela
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ZUBOFF, Shoshana. Big Other: Capitalismo de vigilância e perspectivas para uma


civilização de informação. Tradução de Antonio Holzmeister Oswaldo Cruz e
Bruno Cardoso. In.: BRUNO, Fernanda; CARDOSO, Bruno; KANASHIRO,
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Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 95-111, maio-agosto 2023
https://doi.org/10.23925/1982-6672.2022v15i47p112-133

Por uma etnografia do poder na inteligência artificial, no


capitalismo de vigilância e no colonialismo digital
Rafael Evangelista1
ORCID: 0000-0001-5446-5792

Resumo: O objetivo deste artigo é empregar conceitos derivados de diversas


tradições teóricas para enfatizar a inextricável interrelação entre as ideias que
circundam a inteligência artificial e seus efeitos tangíveis na construção material
e na organização social do mundo contemporâneo. A partir da etnografia da
cultura e do poder de Eric Wolf damos relevo ao que seria o poder estrutural e
o poder organizacional no contexto do capitalismo de vigilância. Aprofundamos
as discussões sobre poder nas relações Norte-Sul a partir de referências do que
alguns autores chamam de virada decolonial nos estudos sobre a digitalização 112

contemporânea do mundo. Propomos uma etnografia que observe as assimetrias


de poder entre Norte e Sul, manifestadas tanto no domínio tecnológico quanto
em contextos históricos de dominação. A etnografia proposta deve considerar essas
desigualdades, observando como tecnologias e práticas do Norte influenciam e
são adotadas no Sul, e como elites do Sul, alinhadas ao Norte, medeiam e se
beneficiam dessas relações.

Palavras-chave: Cultura e poder. Inteligência artificial. Capitalismo de vigilância.


Colonialidade. Poder instrumentário

1
Rafael Evangelista é doutor em antropologia social, pesquisador do Laboratório de Estudos
Avançados em Jornalismo (Labjor/Nudecri/Unicamp) e professor na pós graduação em Divulga-
ção Científica e Cultural (IEL-UNICAMP). Lattes: http://lattes.cnpq.br/4239876530989980.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 112-133, maio-agosto 2023
POR UMA ETNOGRAFIA DO PODER NA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, NO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA E NO COLONIALISMO DIGITAL RAFAEL EVANGELISTA

For an ethnography of power in artificial intelligence,


surveillance capitalism and digital colonialism

Abstract: The aim of this article is to employ concepts derived from various
theoretical traditions to emphasize the inextricable interrelation between the
ideas surrounding artificial intelligence and its tangible effects on the material
construction and social organization of the contemporary world. Drawing
from Eric Wolf’s ethnography of culture and power, we highlight what would
be structural power and organizational power in the context of surveillance
capitalism. We delve deeper into discussions about power in North-South relations 113
based on references to what some authors call the decolonial turn in studies on
the contemporary digitalization of the world. We propose an ethnography that
observes the power asymmetries between North and South, manifested both in
technological dominance and in historical contexts of domination. The proposed
ethnography should consider these inequalities, observing how technologies and
practices from the North influence and are adopted in the South, and how elites
from the South, aligned with the North, mediate and benefit from these relations.

Keywords: Culture and power. Artificial intelligence. Surveillance capitalism.


Coloniality. Instrumentarian power

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POR UMA ETNOGRAFIA DO PODER NA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, NO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA E NO COLONIALISMO DIGITAL RAFAEL EVANGELISTA

Por una etnografía del poder en la inteligencia artificial, el


capitalismo de vigilancia y el colonialismo digital

Resumen: El objetivo de este artículo es emplear conceptos derivados de diversas


tradiciones teóricas para enfatizar la inextricable interrelación entre las ideas
que rodean la inteligencia artificial y sus efectos tangibles en la construcción
material y la organización social del mundo contemporáneo. A partir de la
etnografía de la cultura y el poder de Eric Wolf, destacamos lo que sería el poder
estructural y el poder organizacional en el contexto del capitalismo de vigilancia.
Profundizamos en las discusiones sobre el poder en las relaciones Norte-Sur a 114
partir de referencias a lo que algunos autores llaman el giro decolonial en los
estudios sobre la digitalización contemporánea del mundo. Proponemos una
etnografía que observe las asimetrías de poder entre Norte y Sur, manifestadas
tanto en el dominio tecnológico como en contextos históricos de dominación. La
etnografía propuesta debe considerar estas desigualdades, observando cómo las
tecnologías y prácticas del Norte influyen y son adoptadas en el Sur, y cómo las
élites del Sur, alineadas con el Norte, median y se benefician de estas relaciones.

Palabras clave: Cultura y poder. Inteligencia artificial. Capitalismo de vigilancia.


Colonialidad. Poder instrumentario.

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POR UMA ETNOGRAFIA DO PODER NA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, NO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA E NO COLONIALISMO DIGITAL RAFAEL EVANGELISTA

Introdução

Embora as discussões sobre inteligência artificial -- sua possibilidade de existência,


suas eventuais utilidades, os dilemas éticos envolvidos em seu uso, seus impactos
na sociedade e na economia etc – já viessem se intensificando há alguns anos,
foi a partir da liberação do acesso público ao ChatGPT que o assunto saiu das
matérias jornalísticas especulativas para ganhar os bate-papos cotidianos do
cidadão comum. Uma chave para entender isso possivelmente passa pelo fato
de o ChatGPT ser uma inteligência artificial generativa, ou seja, ela se utiliza
de padrões identificados de textos antigos para gerar textos novos, simulando a
capacidade de criação textual humana. Além disso, o ChatGPT sempre oferece
respostas, mesmo que falsas. Ainda que o usuário seja avisado que não deve confiar
naquelas informações, pois a ferramenta se atém à produção de formas de expressão
– trata-se de um modelo de linguagem -- e não de informações de confiança, o
fato de as respostas serem tão eloquentes, pois são expressas de modo formalmente
muito correto, acaba produzindo no usuário uma sensação de confiança.
Ao colocar nas mãos do público geral, pela primeira vez, uma ferramenta
115
capaz de emular diferentes padrões de conversação e produção textual humanos,
além de oferecer respostas a questões complexas com a confiança de alguém que
tem boas respostas, ainda que falsas, a openAI, responsável pelo ChatGPT, tocou
a opinião pública ao se aproximar do imaginário social sobre uma inteligência
artificial forte. Nas discussões mais técnicas sobre o assunto, feitas no campo da
computação, tem sido estabelecida uma divisão entre inteligência artificial (IA)
forte e IA fraca (Searle, 1987). A primeira, a IA forte, se aproximaria daquilo
que vemos na ficção científica, a máquina que ganha autonomia e é capaz de
tomar decisões por si só, para as mais variadas situações. É a imagem que povoa
as imaginações quando se fala em IA, que fascina e desperta temores. É o HAL
9000, personagem de 2001, ou a Skynet de O exterminador do futuro. Espelha
também as ambições de download da mente dos Singularistas (EVANGELISTA,
2011)2. “O computador apropriadamente programado com as corretas entradas

2
Para os Singularistas, uma IA forte, quando chegar, seria utilizada para melhorias no corpo humano
e significaria até mesmo um salto evolutivo da própria espécie humana. A nossa espécie, na mistura
com as máquinas, teria acelerado um processo que até então tem sido apenas biológico e que se
arrasta por milênios. É uma visão que fascina ao mesmo tempo que amedronta. Tem um apelo de
fruto proibido, só conquistado pelos mais audazes e, por isso, trazendo maiores recompensas. Não
surpreendentemente, a IA arrecada volumosos investimentos dos fundos de alto risco.

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e saídas literalmente tem uma mente como eu e você temos”3, escreve Searle
(1987, p.210), em artigo em que justamente refuta a ideia de IA forte, no qual
mostra como a simulação de entendimento de uma situação simbólica específica
pelas máquinas não deve ser confundida com a compreensão humana dessa mesma
situação, que passa pela semântica.
Já a IA fraca é aquela que realiza funções mais limitadas. O sistema
toma decisões, mas estas têm parâmetros já definidos, pré determinados. É
uma visão muito menos glamourosa e mais tangível da mesma tecnologia, mas
também menos ameaçadora, que aceitamos mais facilmente como auxiliar em
nosso cotidiano. Não deixa de ter o charme sedutor da IA mas executa funções
aparentemente mais inofensivas, como as recomendações de compra da Amazon
ou a escolha de postagem que o algoritmo do Facebook faz determinando o que
vai aparecer na linha do tempo dos usuários.
Já o ChatGPT e outros grandes modelos de linguagem, fazem uma
simulação de uso consciente da linguagem pela replicação de padrões de
comunicação incorporados. Ainda que tecnicamente não sejam uma IA forte, os
LLMs terminam por causar essa impressão, um efeito que, por um lado, amedronta 116
em suas possíveis consequências, mas, ao mesmo tempo, fascina a imaginação e
desperta investimentos. A IA fraca, que parece forte, imita tão bem os resultados
produzidos pelo cérebro consciente humano que com ele se confunde e desperta
cobiça esperançosa. O lançamento ao público do ChatGPT pode significar para a
Microsoft, empresa a qual o serviço é ligado, uma subida de 300 milhões de dólares
no valor de mercado da empresa, com as ações saltando 40% (BOVE, 2023)
Para além do cálculo dito racional dos mercados, pode-se afirmar que os
investimentos são, também, interconectados e povoados de imaginações sobre
o futuro (e lucratividade) das novas tecnologias. Nesse sentido, os escritos do
antropólogo Eric Wolf (1999), em especial sobre o conceito de ideologia, podem
nos ser particularmente úteis para entender como cultura e poder se relacionam
no sentido de desempenharem um papel relevante nos caminhos trilhados pelo
desenvolvimento tecnológico. Não se trata aqui de assumir uma posição idealista,
que ignora a luta de classes ou os limites estabelecidos pela materialidade no
desenvolvimento tecnológico. Pelo contrário, é a partir de uma posição marxista

3
Tradução nossa de: “The appropriately programmed computer with the right inputs and outpu-
ts literally has a mind in exactly the same sense that vou and I do”

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que Wolf busca entender como as ideias e as disputas em torno da ideologia


funcionam no sentido de organizar o trabalho social. O arranjo produtivo das
sociedades, a disputa em torno de como elas definem o emprego de recursos
naturais, a formação dos trabalhadores, o local de desenvolvimento de quais
tecnologias etc, são questões social e culturalmente determinadas, assim como
quais linhas de desenvolvimento tecnológico merecerão maior atenção.
O desenvolvimento das tecnologias de inteligência artificial, desde as
disputas em torno da própria definição e utilidade do termo, configura uma
complexa intersecção de dimensões materiais e simbólicas. A dimensão material
é composta pelos hardwares, redes e softwares que, no contexto do que tem sido
chamado de capitalismo de vigilância (ZUBOFF, 2021) e/ou colonialismo digital
(KWET, 2019), preveem e modulam comportamentos, enquanto que a dimensão
simbólica está intrinsecamente ligada a disputas ideológicas. Esta última não
apenas orienta as fantasias, esperanças e ficções que circundam a IA, mas também
desempenha um papel crucial na direção dos investimentos. Estes investimentos,
em sua dimensão concreta, se traduzem em horas de trabalho humano dedicadas
ao desenvolvimento de softwares, equipamentos e redes. 117
O objetivo deste artigo é empregar conceitos derivados de diversas
tradições teóricas para enfatizar a inextricável interrelação entre as ideias que
circundam a IA e seus efeitos tangíveis na construção material e na organização
social do mundo contemporâneo. A IA não é apenas uma discussão simbólica que
povoa a imaginação coletiva dos povos sob a influência do Ocidente – embora,
como dito, essas elaborações sejam importantes para seu desenvolvimento -- mas
é também uma força ativa que produz efeitos no real, na ecologia e na organização
das sociedades.
Para isso, partimos da contribuição teórica e etnográfica de Eric Wolf,
em especial sua discussão sobre ideias, ideologia e poder, para delimitar duas, das
quatro modalidades de poder que Wolf discute, e que podem ser interessantes
para circunscrever mais precisamente como a inteligência artificial exerce poder de
maneira complexa. Nessa tarefa, mobilizamos também conceitos como dadaísmo,
trabalhado por van Djick (2014); poder instrumentário, como trabalhado por
Zuboff (2019); sociedade disciplinar e sociedade de controle, como trabalhados por
Foucault (2014) e Deleuze (1992), estes interpretados particularmente por Hui
(2015) em sua discussão sobre molde e modulação. Como dito acima, entendemos

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o contexto econômico e político a partir da discussão de capitalismo de vigilância,


por Zuboff; e colonialismo digital, por Kwet. Ou seja, um momento específico
na história do capitalismo no qual os modelos de negócio baseados na coleta e
extração de dados ganham protagonismo, sem que relações políticas de dominação
entre países e regiões deixem de desempenhar papel relevante, dominação essa
exercida agora também por meio do controle das redes, de hardwares e softwares.
Metodologicamente, procuramos trabalhar com os conceitos da mesma maneira
a qual Ribeiro e Feldman-Bianco (2003) interpretam que Wolf o faz: como se
fossem kits de ferramentas, por meio dos quais revisamos periodicamente nosso
estoque de ideias, funcionando “como procedimentos de descoberta que expõem e,
ao mesmo tempo, colocam em questão os modos pelos quais conceituamos nossas
unidades de investigação” (p.271). Isso significa também validar a etnografia
como método de pesquisa aplicável à inteligência artificial, vista também como
um conjunto de práticas simbólicas e materiais em diálogo com as culturas.

Quatro dimensões de poder para Eric Wolf

Eric Wolf é um autor que nunca se debruçou propriamente sobre desenvolvimento 118

tecnológico ou Inteligência Artificial. O antropólogo é mais conhecido por seus


estudos sobre políticas do campesinato, com foco na sociedade agrária, tendo
suas pesquisas reorientado a análise antropológica do conceito de sociedade folk
(RIBEIRO; FELDMAN-BIANCO, 2003). Mas, em especial nos últimos anos de
sua carreira, ele desenvolveu uma abordagem crítica da antropologia, destacando
a necessidade de entender a relação entre cultura, poder, ideias e ideologia. Esta
última é vista como “um elemento que se entrelaça com o poder em torno das
relações sociais fundamentais para a administração do controle social do trabalho”
(RIBEIRO; FELDMAN-BIANCO, 2003, p.274). Ideias e ideologias são
separadas, sendo as ideologias um esquema unificado de ideias que referendam
ou manifestam poder, enquanto as ideias, como conceito, serviriam para cobrir
uma faixa inteira de constructos mentais, os quais são tornados manifestos nas
representações públicas (ou seja, possuem materialidade, dado que são expressas)
(WOLF, 1999; EVANGELISTA, 2010). Nesse sentido, a “cultura funcionaria
como matéria-prima a partir da qual as ideologias são construídas e ganham
influência”, com a ideologia selecionando do plano mais geral da cultura aquilo

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que é mais apropriado ao que se busca afirmar ou negar (RIBEIRO; FELDMAN-


BIANCO, 2003). Por isso é importante, para nossos objetivos aqui, apontar a
Inteligência Artificial não apenas como uma tecnologia, em seus efeitos práticos,
mas como parte da cultura e entremeada a uma disputa ideológica que procuraremos
elucidar. Algoritmos e as tecnologias informacionais são legitimados socialmente,
o que tem efeitos na planificação e financiamento. As utopias e distopias em torno
da Inteligência Artificial são parte de seu poder concreto.
O poder, para Eric Wolf, aparece não como concentrado em um pacote,
não como “uma força unitária e independente, encarnada em imagens como a de
um monstro gigante como Leviatã ou Behemoth, ou uma máquina que cresce
em capacidade e ferocidade pelo acúmulo e geração de mais poder” (WOLF,
1999, p.4), mas como um aspecto de todas as relações sociais. E aqui, podemos
acrescentar, relações entre humanos, entre humanos e coisas e entre humanos
intermediadas por coisas.
Wolf fala em quatro modalidades de poder, alertando que o poder
funciona de maneira diferente em relações interpessoais, em arenas institucionais
e no nível de sociedades inteiras. E essas quatro modalidades que define vão se 119
sobrepondo, em níveis que vão do individual ao coletivo. A primeira modalidade,
a qual classifica como Nietzschiana, seria o poder da potência, uma capacidade
que habita o indivíduo. Essa análise repousaria atenção em porque alguém entra
num jogo de poder, mas sem se qualificar esse jogo. A segunda modalidade, que
ele chama de a Weberiana, seria manifestada em interações e transações entre
pessoas e referindo-se à habilidade de um eu em impor sua vontade na ação social
sobre um outro, sem especificar a natureza da arena em que essas ações se dão. Na
terceira, que ele chama de a tática ou organizacional, observa-se o contexto em
que as pessoas exibem suas capacidades e interagem com as outras, chamando a
nossa atenção para as instrumentalidades – essa palavra vai ser importante aqui –
pelas quais indivíduos ou grupos direcionam ou circunscrevem as ações de outros
em certas configurações. E a quarta modalidade, para a qual ele dedica mais
atenção, é o poder estrutural, em profunda relação com seu conceito de ideologia
e fundamental na mobilização de trabalho social.
O poder estrutural se manifestaria não apenas nas relações que operam
dentro de configurações e domínios, mas também produziria e orquestraria as
configurações por si mesmo, especificando a direção e a “distribuição do fluxo

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de energia”. É central nas preocupações de Wolf os modos como as sociedades


se organizam economicamente, quer dizer, como elas desenvolvem formas para
usar seus recursos naturais e estabelecer trocas entre si. Mas também, filiado a
preocupações típicas do pensamento marxista, Wolf dedica muita atenção a como
as sociedades organizam o seu trabalho, ou seja, como socialmente estabelecem
algumas atividades às quais vão se dedicar cotidiana e repetidamente. Essa é a
chave da expressão “ distribuição de fluxo de energia” em sua conceituação de
poder estrutural.
A distinção entre poder estrutural e organizacional (a terceira modalidade)
na concepção de Wolf é chave para os objetivos deste texto. É a partir dela que
poderemos falar sobre um poder que incide sobre o mundo como produto direto de
disputas ideológicas com efeitos sobre a organização da produção humana (tanto
aquela que é reputada como intelectual como aquela que se dá pela produção de
bens e máquinas), e um poder em diâmetro imediatamente menor, no qual alguns
controlam as relações sociais estabelecidas entre outros em campos determinados.
A palavra controle precisa ser entendida aqui em seu sentido derivado do campo
da cibernética, ou seja, não necessariamente uma ação de imposição direta da 120
vontade, mas um acompanhamento informacional constante sobre um alvo,
acompanhamento que é essencial para ações de influência, frequentemente
também informacionais.
Nesse sentido, enquanto as disputas em torno do poder estrutural
conversam bem com as perspectivas ficcionais ou científicas em torno de uma IA
forte, as IAs fracas, em sueus efeitos concretos e já reais, são fundamentais para o
poder organizacional no contexto do capitalismo de vigilância.

Poder estrutural e o dadoísmo

Em texto em que explora a intersecção de três fenômenos, dadificação (MAYER-


SCHOENBERGER; CUKIER, 2013), dadoísmo4 e vigilância de dados, Jose
van Djick (2014), nos dá pistas que podem informar uma discussão mais ampla
sobre as disputas ideológicas que atravessam o capitalismo de base informacional
do século XXI. Enquanto o termo dadificação serve para qualificar um “novo

4
Do original em inglês dataism. Em outros textos o termo foi traduzido para o português como
dataísmo.

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paradigma na ciência e na sociedade”, que opera pela “transformação da ação


social em dados quantificados online, que por sua vez permitem o rastreamento
em tempo real e as análises preditivas”5 (p. 198), podemos ler o dadoísmo como
sua contrapartida ideológica. A autora fala em uma crença generalizada na
quantificação, incluindo a percepção de sua objetividade, somada a uma confiança
no potencial do rastreamento de todos os tipos de comportamento humano e
social através de tecnologias informacionais online. Ela destaca também a
confiança nos agentes institucionais em torno dessas operações, tanto nos que
coletam, interpretam e compartilham dados como aqueles que deveriam zelar
para que essas atividades tivessem uso socialmente justo. Destaco aqui que se
trata de um processo interrelacionado, em que as ações na produção, extração e
análise dos dados não podem acontecer desconectadas de uma ideologia que a
suporta, permite e incentiva.
Há um conjunto bastante diverso de autores que vem discutindo mais
amplamente os fenômenos da dadificação e do dadoísmo, em especial em aspectos
relacionados à falta de confiabilidade das ferramentas e dos vieses relacionados à
programação e aos dados utilizados nas aplicações (O’NEIL, 2016; BENJAMIN, 121
2019). Esses autores rebatem concepções correntes de que softwares são meras
ferramentas, argumentando que os mesmos são criações humanas, carregando
intrinsecamente os vieses de seus criadores. Os algoritmos são moldados por decisões
humanas e refletem os valores, crenças e preconceitos de seus desenvolvedores.
Além disso, sistemas para decisão automatizada frequentemente se utilizam de
bases de dados contendo decisões historicamente dadas, ou seja, tendem a repetir
padrões de preconceito e injustiça anteriormente praticados.
Dois outros autores, porém, ajudam a qualificar o quanto o que van
Djick entende por dadoísmo é um fenômeno complexo, que interrelaciona
transformações científicas e culturais, e não um modismo comportamental de
curta duração. Kitchin (2014) discute as implicações epistemológicas do Big
Data e das análises de dados, em especial para o campo das ciências sociais. Não
se trata simplesmente de uma virada quantitativa, o que não seria nada novo, mas
de um novo tipo de abordagem científica que praticamente se exime de formular
perguntas de pesquisa, ficando refém de correlações muitas vezes espúrias feitas

5
No original: “transformation of social action into online quantified data, thus allowing for real-
-time tracking and predictive analysis” (p. 198)

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por algoritmos encarregados de lidar com grandes massas de dados de todos os


tipos. Nesse sentido, as abordagens Big Data não trabalham com amostragens,
como a pesquisa quantitativa tradicional, mas buscam capturar populações inteiras
(n = todos), com escopo bastante detalhado (n= tudo que puder ser dadificado),
na prática se isentando mesmo de fazer seleções amostrais que em si conteriam
questões de pesquisa. O efeito que se produz é de uma pesquisa que parece ser
espelho fidedigno do real, tornando opaco o fato de que os dados não são naturais
ou absolutos, mas construídos no contexto de sistemas criados para capturar certos
tipos de dados. Além disso, fazer sentido dos dados é sempre algo derivado de
um enquadramento - os dados são examinados através de uma lente particular que
influencia como eles são interpretados. Mesmo que o processo seja automatizado,
os algoritmos usados para processar os dados são imbuidos de valores particulares
e contextualizados dentro de uma abordagem científica específica.
Ao discutir o conceito, o qual elabora, de cultura da vigilância, David
Lyon (2018; 2019) opera com um sentido um pouco mais especificado de cultura
do que o de Wolf (1999), embora não contraditório a ele. Enquanto a cultura, em
Wolf, se coloca mais como uma espécie de repositório a partir do qual a ideação e 122
as disputas ideológicas operam, Lyon se concentra em distinguir analiticamente
-- embora afirmando o cruzamento -- imaginários e práticas envolvidas na cultura
da vigilância6. Lyon argumenta que conceitos como o de Estado de Vigilância e de
Sociedade da Vigilância, muito usados nos últimos anos, não são mais suficientes,
tanto para dar conta tanto de um aparato que que vai muito além do Estado,
como para dar conta de um arranjo que funciona não apenas tendo cidadãos,
consumidores, trabalhadores etc como alvos, mas como partícipes da vigilância.
Ao discutir a cultura da vigilância, Lyon busca demonstrar que nesse arranjo
complexo, a complacência, adequação, negociação, participação (responsiva ou
iniciatória) e a resistência precisam ser levadas em conta. Aspecto chave da cultura
da vigilância seria o imperativo de compartilhar, este diretamente ligado a práticas
de exposição de si e de afirmação da identidade dos sujeitos nas redes sociais. Para
ele, esse imperativo, que se materializa como uma prática, se combina ao dadoísmo
como discutido por van Djick (2014), o qual está relacionado a imaginários nos

6
Lyon não pretende descrever uma situação unificada ou completamente abrangente relacionada
à expressão cultura da vigilância. Ele postula o termo como expressão guarda-chuva, ciente de
variações inclusive, mas não somente, referentes a contextos locais distintos.

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quais é possível confiar nas instituições públicas e privadas responsáveis pelo zelo
à privacidade dos usuários online. De fato, o escândalo derivado das revelações
de Edward Snowden, em 2013, mudou o comportamento de agentes públicos e
usuários de internet. Ainda que a quantificação e a crença nas verdades do Big
Data permaneçam, ainda que a exibição de si continue a ser um meio para ser
valorizado socialmente, alguns setores tem conseguido colocar em discussão
tópicos como soberania digital e proteção de dados.

Ainda que analiticamente ela possa ser feita, a distinção entre imaginários
e práticas, como feita por Lyon, não nos parece tão útil aqui. O que nos parece
relevante é frisar que dadoísmo, cultura da vigilância e a virada epistemológica do
Big Data, assim como as discussões em torno da viabilidade, perigos e utilidade de
uma IA forte, são elementos de uma disputa ideológica em torno de um modelo
de sociedade informacional (ou civilização informacional, nos termos de Zuboff,
2021). Desse modelo de sociedade, por sua vez, deriva uma divisão social do
trabalho e uma previsão e planejamento de uso dos recursos naturais de modo a
viabilizar essa sociedade. E, como discutiremos a seguir, uma configuração típica 123
de poder organizacional.

Poder instrumentário e poder organizacional

Até aqui, procuramos discutir a mais ampla das modalidades de poder segundo
Wolf, o poder estrutural, e as disputas em torno dele, que se dão pela construção
de ideologias. Quero me concentrar agora no poder organizacional, aquele em
que alguns controlam as relações sociais estabelecidas com outros em contextos
determinados.
Há algo de recursivo na relação entre poder estrutural e organizacional.
Pois, enquanto o primeiro projeta, referenda e sustenta as estruturas do segundo,
é no segundo que o poder é diretamente exercido, constrangendo ou facilitando
as relações sociais em contexto que o primeiro cria e cujo domínio é pelo poder
estrutural sustentado. É onde a prática, de que fala Lyon, acontece, nos limites e
com os constrangimentos e nudges (GANDY; NEMORIN, 2018) dos domínios
validados e sustentados pelo poder estrutural. Alguns exemplos podem ajudar
a tornar menos abstrata a relação que queremos apontar. Há uma considerável

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controvérsia, que data da popularização das redes sociais online, sobre o


quanto as plataformas de conversação pública produziriam os chamados filtro-
bolha (PARISER, 2011). Ou seja, ao conectar sujeitos com ideias e interesses
semelhantes, seria produzido uma espécie de filtro do real, em que as concordâncias
reverberam como numa câmera de eco. Por outro lado, pesquisas mais recentes
(TÖRNBERG, 2022) tem apontado o contrário, que é justamente a fricção de
opiniões que causa a chamada polarização política, dado que os sujeitos acabam
se isolando em suas posições contrastantes como afirmação de suas identidades
online. Na controvérsia, que trazemos como exemplo, se destaca o papel das
plataformas, como moduladora das relações entre os indivíduos em rede. O que
produz um melhor engajamento, aquele que mais interessa aos mecanismos de
coleta e extração de dados e atenção, a bolha, cujas opiniões se auto-validam, ou
o atrito que desperta paixões? Qualquer que seja a resposta quem controla essa
relação são as plataformas.
Ao discutir o poder estrutural, uma das relações que Wolf faz é com o
conceito de “governance” (Wolf, 1999, p.5) para Foucault, a ação sobre a ação.
No caso, a preocupação de Wolf é entender “os caminhos em que relações que 124
comandam a economia e a política, e aquelas que dão forma à ideação, interagem
para tornar o mundo compreensível e gerenciável” (WOLF, 1999, p.5). A
referência a Foucault nos ajuda porque a discussão sobre sociedade disciplinar
e sociedade de controle pode servir de caminho para entendermos como o poder
estrutural produz contextos em que o poder organizacional será exercido.
Quando Deleuze (1992) afirma um momento de passagem da sociedade
disciplinar como discutida por Foucault -- com suas contíguas instituições
fechadas de introjeção de códigos sociais e modos determinados de subjetivação,
para a sociedade de controle com, não apenas com uma transição dos espaços
confinados, mas também com maior espaço para os indivíduos, como se eles
tivessem espaço para criar -- a passagem é de um modelo de moldagem para
um de modulação (HUI, 2015). Na moldagem, as instituições trabalham sobre
indivíduos, de modo a darem uma determinada forma a eles, que permitirá um
encaixe que se busca perfeito entre a escola, o quartel, o trabalho e assim por
diante. Na modulação, a liberdade no espaço “aberto” parecerá total, com o
exercício da atividade criativa imperceptivelmente modulada de modo a que essa
criação, ação ou comportamento produza o que dela se busca extrair. Para que

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exista a transição entre a sociedade disciplinar para a sociedade de controle, todo


um conjunto de saberes, técnicas e tecnologias terão que ser desenvolvidos e/ou
obsolescidos com legitimidade social.
Assim, ao discutir a genealogia do poder instrumentário, o qual
entendemos aqui como um modo específico de exercício do poder organizacional
no capitalismo de vigilância, Zuboff (2021) vai discorrer sobre o behaviorismo
radical, cujo expoente maior e pioneiro é B. F. Skinner. O argumento de Zuboff
é que o behaviorismo radical, em seus conceitos mas também em suas utopias,
como as expressas no livro Walden 2, de Skinner, forneceu as bases teóricas que
fundamentam a ideia de que, para que um determinado alvo apresente um
comportamento desejado, o importante não é operar sobre seu “interior” mas
sobre o contexto em que a ação será desenvolvida. Trata-se de uma mudança de
método que, podemos adicionar, está em sintonia também com outro campo
científico importantíssimo para o Vale do Silício, para o capitalismo de vigilância
e para as bases técnicas da sociedade de controle: a cibernética.
A cibernética é um ramo interdisciplinar amplo, que congrega influências
da matemática, física, biologia, engenharia, medicina, psicologia e antropologia. 125
Suas ideias canônicas foram discutidas entre as décadas de 1940 e 1950, sendo
o matemático Norbert Wiener uma das grandes referências. Em 1948, Wiener
publicou num livro seminal que leva praticamente o mesmo nome que a definição
do termo: Cibernética ou controle e comunicação no animal e na máquina (1970).
Igualmente importante para a cibernética, enquanto movimento científico-
cultural, são as Conferências Macy, das quais Wiener participou e no contexto
das quais aconteceram as Conferências em Cibernética (1946-1953), que
reuniram intelectuais e cientistas influentes, cuja contribuição foi decisiva para o
espalhamento dos conceitos ali discutidos em direção às disciplinas tradicionais.
A cibernética, como delineada por Norbert Wiener, propõe uma visão dos
humanos como seres informacionais, definidos não por um interior intrínseco,
mas por sua performance comunicativa e interações com o mundo exterior
(BRETON, 1994). Esta perspectiva desloca a noção tradicional de humanidade,
que se baseia em uma essência interna ou inconsciente, para uma compreensão de
humanos como processadores de informação, semelhantes em função às máquinas.
A cibernética não apenas coloca humanos e máquinas em um mesmo plano
funcional, mas também propõe uma igualdade fundamental entre todos os seres
humanos, independentemente de suas diferenças físicas (EVANGELISTA, 2018)

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Zuboff não cita a cibernética, detém-se apenas no exame do behaviorismo


radical. Porém, a influência mútua entre os campos é patente. Ressalte-se ainda
que não só os conceitos científicos, mas também as utopias cibernéticas -- como
a possibilidade de upload da mente, que é sugerida em Cibernética e sociedade: o
uso humano de seres humanos (WIENER, 1988) – se mostram presentes até hoje
nos futuristas influentes no Vale do Silício (CHIODI, 2017). Essa transformação
na compreensão sobre o humano, em que a cibernética se insere, e a qual o
behaviorismo radical trata como “tecnologia do comportamento”, Zuboff trata
também como uma passagem, mas entre o que chama de poder totalitário, como
teorizado principalmente por Hannah Arendt, para o poder instrumentário.
“...precisamos compreender a lógica interna específica de uma
invocação de poder típica do século XXI para a qual o passado não
oferece qualquer referência adequada. O totalitarismo voltava-se
para a reconstrução da espécie humana através dos mecanismos duais
de genocídio e de “engenharia da alma”. O poder instrumentário,
como veremos, nos leva a uma direção muitíssimo diferente. Os
capitalistas de vigilância não têm interesse no assassinato ou na
reforma das nossas almas. Embora seus objetivos sejam de muitas
maneiras tão ambiciosos quanto os dos líderes totalitários, são 126
absolutamente distintos. (Zuboff, 2021, p. 393)”
O poder instrumentário é tipicamente exercido no contexto do capitalismo
de vigilância e fundamentado na ciência behaviorista. Como ela afirma, o
totalitarismo buscava alcançar seus objetivos fazendo modificações no interior dos
sujeitos, seja por processos às vezes até violentos de mudança de mentalidade
(manipulação), seja pela importância, num contexto democrático, de uma
educação que forme cidadãos, uma educação que vá além dos conteúdos, dando
suporte a sujeitos críticos e solidários que vão ser fundamentais na sustentação da
democracia. Um dos exemplos que Zuboff cita, para apontar a diferença entre as
tentativas de influência exercidas no totalitarismo, é o melancólico final do livro
1984 (ORWELL, 2021) quando Winston Smith finalmente passa a amar o Grande
Irmão. O sujeito “reformado” é a imagem do poder totalitário, por isso 1984 não
seria uma boa representação da vigilância contemporânea e do poder no século
XXI, em que a sujeição não passa pela moldagem, mas pelo controle do ambiente
e da amplificação ou abafamento das expressões. Para o poder instrumentário, o
interior ou consciência dos indivíduos, ainda que exista, é irrelevante. É um poder
que opera com base na produção de estímulos, que vão desencadear determinadas

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respostas esperadas, assim como um cachorro treinado vai correr até o pote de
comida depois de ouvir um sino. O poder instrumentário opera nessa estratégia
de controle e condução, de sujeitos e grupos populacionais, que não passa pela
formação de um sujeito para agir de maneira A ou B. Ou seja, se trata de um
poder que se operacionaliza organizando contextos, conduzindo comportamentos
e limitando possibilidades.

E o Sul Global?

O que delineamos aqui, até o momento, foram dois campos distintos, ainda que
inter-relacionados, de exercício do poder. O poder estrutural, como apontado por
Wolf, se refere a uma esfera ampliada, em que ideias são amarradas em esquemas
unificados de modo a viabilizar poder. Ou seja, está ligado a uma capacidade
simbólica, de comunicação e convencimento de certos grupos, em formular,
se apropriar ou transformar ideias de modo a favorecerem sua capacidade de
executarem projetos de transformação material do mundo. O domínio desse
poder estrutural significa, por consequência, a capacidade de construir ou
controlar espaços de interação onde a segunda modalidade de poder, o poder 127
organizacional, será exercido. Estamos entendendo o poder organizacional, no
contexto do capitalismo de vigilância, tipicamente como o que Zuboff chama
de poder instrumentário, e em uma relação muito próxima ao que autores como
Deleuze (1992) e Hui (2015) descrevem como modulação.
Assim sendo, resta-nos porém um problema a discutir: como entender as
relações de poder que se estabelecem, assimetricamente, entre o que vem sendo
chamado de Norte Global e Sul Global. Esta, inclusive, é uma lacuna patente no
trabalho de Zuboff, o qual ignora completamente o que não é Ocidente, com exceção
de uma breve menção à China. Nesse sentido, em outra oportunidade pudemos
apontar que “o livro seria mais poderoso se pudesse ser descentralizado; o que
abriria a possibilidade de construção de outros entendimentos, complementares
a esses localizados nas democracias liberais e os quais poderiam também ser
críticos re assimetrias de poder assim como das divisões globais do trabalho e do
conhecimento” (EVANGELISTA, 2019, p. 250).
Para nos colocarmos esta tarefa, no entanto, antes é preciso delimitar
o que entendemos por Sul e Norte Global. A expressão “Sul Global” tem
sido tradicionalmente usada dentro de organizações intergovernamentais

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POR UMA ETNOGRAFIA DO PODER NA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, NO CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA E NO COLONIALISMO DIGITAL RAFAEL EVANGELISTA

de desenvolvimento (...) para se referir a Estados-nação economicamente


desfavorecidos e como uma alternativa pós-guerra fria para [a expressão]
‘Terceiro Mundo’. No entanto, em anos recentes e em uma variedade de campos,
o Sul Global é empregado em um sentido pós-nacional para abordar espaços e
pessoas negativamente impactadas pela globalização capitalista contemporânea
(MAHLER, 2017). Podemos acrescentar que essas pessoas “negativamente
impactadas” geralmente vêm do sul geográfico, são imigrantes ou refugiados,
possuem uma classe social, cor e gêneros específicos. Além disso, é importante
levar em consideração não apenas os territórios mais pobres ou mais desiguais do
planeta, mas também as populações em países mais prósperos, mas que vivem
em condições frágeis e historicamente precárias naquelas sociedades. Entender
o componente geográfico como apenas de vários elementos a ser levado em
consideração nos permite, simetricamente, também perceber as populações
privilegiadas que vivem nos países tipicamente identificados com o Sul Global.
Essas populações, em geral com corpos que materializam privilégios históricos que
datam do tempo da colonização, constroem e mantém espaços mais semelhantes
com aqueles encontrados no Norte do que no Sul. Também em seus imaginários,
práticas e relações sociais, estão mais próximas das populações do Norte do que 128

do Sul, embora não devam ser confundidas com as primeiras.


Sabemos o quão problemático é equiparar todas as regiões e realidades
que são abrangidas pelo termo Sul Global. De fato, esse é um dos desafios,
porque Sul Global é um bom termo para abordar uma condição economicamente
marginalizada, assim como Norte Global se refere a populações privilegiadas,
de alguma forma herdeiras dos frutos dos processos dominação, mas são termos
que carecem de complexidade para descrever diferentes culturas e diferentes
histórias de colonização ou imperialismo. O uso dos termos Sul/Norte Global é
uma escolha sociológica e política. Sociológica interessa dar relevo a um processo
de domínio sócio-econômico conectados com materialidades ecológicas. Política
porque busca falar a partir de uma posição periférica comum de entender o mundo
e construir o futuro.
Ressaltar as relações globais assimétricas no contexto de uma economia
baseada em dados e na vigilância é algo que tem sido buscado por alguns autores
contemporâneos. Nick Couldry e Ulisses Mejias (2019) exploram o conceito de
colonialismo de dados. Partem da colonização histórica, que visava a extração
de recursos naturais e humanos das colônias e criou as bases para o capitalismo

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industrial, e buscam entender a formação contemporânea de estruturas sociais e


relações de dados onde estes são combinados e o valor é extraído. Se o colonialismo
histórico envolveu a apropriação de terras, recursos e corpos, o colonialismo de
dados seria a apropriação da vida humana através da extração de valor dos dados.
Nesse sentido, embora citem a continuidade de práticas exploratórias na relação
Norte-Sul, abarcam na expressão colonialismo de dados processos extrativos que
impactam também as populações do Norte Global.
Por outro lado, Michael Kwet (2019) emprega um termo semelhante,
colonialismo digital, mas com um foco diferente, também voltado para um
questionamento sobre aqueles que controlam as infraestruturas (e não apenas
os que criam as “relações de dados”, como Couldry e Mejias), e enfatiza que
as dominações e controles políticos entre regiões e grupos de países estão
em jogo, em continuidade com o sistema colonial. Segundo a visão de Kwet
(2019), o capitalismo de vigilância não seria uma novidade: ele recorda que a
vigilância foi usada, por exemplo, para controlar corpos de escravizados negros.
Nos tempos atuais, o termo teria ganhado novos significados, que incluem a
vigilância corporativa-estatal, a exploração comercial, a governança da internet, 129
a monetização de dados e a discriminação algorítmica. A supremacia tecnológica
do Norte Global, com seu controle sobre os hardwares, softwares e da rede,
implementaria um jugo imperial.
Esses alertas, entre outros, configuram o que Couldry e Mejias vão
denominar “decolonial turn” (2023). Em artigo mais recente, os autores fazem
um levantamento extensivo sobre uma literatura decolonial crítica à dominação
tecnológica digital, a qual os autores utilizam para propor lutas e a necessidade
de construção de “um novo espaço conceitual [o qual] busque definir e demandar
espaços tecno-sociais para além do modelo motivado pelos lucros, do Vale do
Silício, e os motivados pelo controle do Partido Comunista Chinês, os dois centros
de poder da nova ordem extrativista” (p. 798)7.
Para os objetivos deste artigo, o colonialismo e/ou o imperialismo se
apresentam como problemas de pesquisa interseccionados aos do poder estrutural
e do poder organizacional. Podemos dizer que as ideologias que mobilizam o

7
No original: “...a new conceptual space must be built that seeks to define and claim techno-so-
cial spaces beyond the profit-motivated model of Silicon Valley and the control-motivated model
of the Chinese Communist Party, the two centers of power of the new colonial extractivist order”

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poder estrutural no que se refere às relações Norte-Sul, estão atravessadas pelo que
Aníbal Quijano se refere como “colonialidade”. Ricaurte (2019) vai nessa mesma
linha apontando que “a racionalidade dadocêntrica deve ser entendida como uma
expressão da colonialidade do poder, manifesta como a imposição violenta de
maneiras de ser, pensar e sentir que levam à expulsão dos seres humanos da ordem
social, negam a existência de mundos e epistemologias alternativos e ameaçam a
vida na Terra”8 (p. 351).

Conclusão

Neste texto, procuramos apontar como a inteligência artificial pode se referir a


duas modalidades distintas de poder. Por um lado, ela ocupa o imaginário social e
centraliza expectativas, esperanças e investimentos, de modo que, ao se apresentar
com habilidades quase humanas ou mais que humanas, signifique uma melhoria
na qualidade de vida. Para isso, a IA mobiliza o que Ricaurte (2019) chama de uma
“epistemologia dadocêntrica” e que van Djick (2014) trata como uma ideologia,
ao posicionar os dados digitalizados e o rastreamento do comportamento e das
interações sociais como base de um modo mais objetivo e superior de produção de 130

conhecimento. Ao mesmo tempo, ao ser aplicada em contextos delimitados, como


as interações entre indivíduos em redes sociais, algo que já não está mais na esfera
das expectativas ou planos futuros, a inteligência artificial de capacidade restrita
se apresenta como ferramenta para a modulação de comportamentos. A partir da
construção de ambientes de interação digitais e da coleta de dados em massa – que
não se restringe aos dados coletados na rede, dado que o espaço das cidades já é hoje
repleto de sensores – a inteligência artificial já atua não somente na modulação de
interações, mas na seleção e bonificação de professores, no policiamento preditivo
(O’NEIL, 2016), na discriminação perpetrada por sistemas de reconhecimento
facial, entre outros.
O que se coloca para nós, então, são dois campos, distintos porém
relacionados, de investigação etnográfica. Em um deles, o do poder estrutural, se
destacam as produções simbólicas em torno da inteligência artificial, do Big Data

8
No original: “...data-centric rationality should be understood as an expression of the coloniality
of power, manifested as the violent imposition of ways of being, thinking, and feeling that leads
to the expulsion of human beings from the social order, denies the existence of alternative worlds
and epistemologies, and threatens life on Earth”

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e das práticas de quantificação como justificativas para a digitalização dos mais


diferentes campos da atividade humana, da educação à saúde, do urbanismo à
comunicação social e além. Nelas, se produzem novas ideias, ou se refazem antigas
que são apresentadas como novas, que por sua vez são amarradas em esquemas
que consolidam, produzem e manifestam relações de poder materializadas em
políticas de digitalização de tudo o que for possível (o que ainda não é de alguma
maneira só será tomado como real se em alguma dimensão puder ser capturado
em termos informacionais).
Em outro campo, o do poder organizacional, cabe investigar como, quando
essas relações sociais são produzidas mediante a informatização, se configuram as
relações de poder, não somente entre aqueles que interagem, por exemplo, em
uma plataforma, mas nas relações que se dão por ação da própria plataforma.
Que relações são essas que são criadas? O que pode cada um ver/perceber? Qual
as ações estão no escopo daqueles que atuam na plataforma? Que incentivos ou
estímulos esses agente recebem?
É importante sublinhar que ambos os campo são atravessados por relações
históricas de poder que se referem a assimetrias Norte-Sul. Essas se dão tanto em 131
termos de domínio, controle e conhecimento das estruturas (hardware, software
e redes), como se realizam em um contexto histórico de dominação e privilégio,
simbólico e material, de certos grupos sobre outros. A ordem dessa dominação
é bastante contextual, o que significa que grupos dominantes em determinados
contextos não o são igualmente em outros, e que os grupos constróem relações
de proximidade entre si, utilizadas tanto para reproduzir e perpetuar dominações
como para resistir. Um projeto etnográfico que considere essas assimetrias
Norte-Sul precisa entendê-las tanto para o poder estrutural como para o poder
organizacional. Ou seja, estão referidas tanto em grandes esquemas de aceitação
e incorporação de tecnologias e modos de conhecer dadificados vindos do Norte
como, ao se realizarem organizadas por meio de plataformas e tecnologias do
Norte, incorporam espectros de ação relacionados a imaginários e práticas da
colonialidade. Elites do Sul, por exemplo, representadas e identificadas com o
Norte, não apenas funcionam como intermediários e facilitadores da adoção dessas
tecnologias, como são beneficiadas, nas relações que estabelecem nos contextos do
poder organizacional, por terem corpos, práticas e estabelecerem relações sociais
de maior proximidade com o Norte.

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https://doi.org/10.23925/1982-6672.2022v15i47p134-151

ARTIGOS

Novos desafios regulatórios: a recém-criada Autoridade


Nacional de Proteção de Dados (ANPD) em face da investigação
do compartilhamento de dados entre Whatsapp e Facebook
Carolina Guerra1
ORCID: 0000-0002-6477-8159

João Bertholini2
ORCID: 0009-0002-8927-1079

Resumo: O presente artigo trata das questões referentes à investigação da


Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) sobre a adequação do
compartilhamento de dados entre WhatsApp e as empresas do grupo Meta (que
inclui Facebook e Instagram) à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Sendo a 134

primeira grande investigação da ANPD, criada no final da gestão Michel Temer,


em 2018, o procedimento em curso pode ser determinante para indicar o poder
de fogo da autoridade reguladora em relação às Big Techs.

Palavras-chave: ANPD. LGPD. Proteção de dados. Whatsapp. Facebook.

1
Possui graduação em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação e Artes Mackenzie (2006),
pós-graduação em Jornalismo Internacional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP) e mestrado em Ciências Sociais pela mesma instituição. Atualmente é doutoranda em
Ciências Sociais também na PUC-SP. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7373856903969737.
2
Artista, fotógrafo, formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e mestrando em Ciên-
cias Sociais pela PUC-SP, com bolsa CNPq. Colaborou com títulos como Vogue Brasil, Marie
Claire, Claudia e VejaSP. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1201367289688478.

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NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

New regulatory challenges: the recently created National


Data Protection Authority (NDPA) in light of the investigation
into data sharing between Whatsapp and Facebook

Abstract: This article addresses the issues related to the investigation conducted by
the Brazilian National Data Protection Authority (NDPA) regarding the adequacy
of data sharing between WhatsApp and the Meta group companies (which 135

include Facebook and Instagram) under the domestic General Data Protection
Law (GDPL). As the first major investigation by the NDPA, established during
Michel Temer’s administration in 2018, the ongoing procedure could be crucial
in determining the regulatory agency’s firepower against Big Tech companies.

Keywords: ANPD. LGPD. Data Protection. WhatsApp. Facebook.

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NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

Nuevos desafíos regulatorios: la recién creada Autoridad


Nacional de Protección de Datos (ANPD) a la luz de la
investigación sobre el intercambio de datos entre Whatsapp
y Facebook

Resumen: Este artículo aborda las cuestiones relacionadas con la investigación


realizada por la Autoridad Nacional de Protección de Datos (ANPD) de Brasil
sobre la adecuación del intercambio de datos entre WhatsApp y las empresas del
grupo Meta (que incluye a Facebook e Instagram) a la Ley General de Protección
de Datos (LGPD). Siendo la primera gran investigación de la ANPD, establecida 136
durante la administración de Michel Temer en 2018, el procedimiento en curso
podría ser crucial para determinar el poder de la agencia reguladora frente a las
grandes empresas tecnológicas (Big Tech).

Palabras clave: ANPD. LGPD. Protección de datos. WhatsApp. Facebook.

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NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

Introdução

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou uma investigação


para avaliar o compartilhamento de dados pessoais entre WhatsApp e as empresas
do grupo Meta (detentor das redes sociais Facebook e Instagram), com o intuito
de apurar a adequação aos termos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). A
recomendação foi publicada em maio de 2022 na nota técnica3 n°49/2022/CGF/
ANPD, que conclui a fase de avaliação das alterações realizadas na política de
privacidade do WhatsApp.
A ANPD analisou as versões da política de privacidade de todas as
ferramentas do WhatsApp (WhatsApp Messenger, WhatsApp for Business e
WhatsApp for Business - API) e sua adequação à LGPD. A nota técnica também
foi examinada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), pelo
Ministério Público Federal (MPF) e pela Secretaria Nacional do Consumidor
(Senacon). Importante notar que a Meta finalizou a aquisição do WhatsApp no
ano de 2014, após receber aprovação regulatória na Europa, pagando um valor de
$22 bilhões4 a época.
137
A principal mudança prevista na nova política do WhatsApp, datada de
4 de janeiro de 20215, em relação à sua versão posterior, de 20 de julho de 2020,
é de que dados gerados em interações comerciais poderão ser utilizados pelas
empresas para direcionar anúncios no Facebook e no Instagram6, posto que todas
as plataformas pertencem ao grupo Meta.
A análise da ANPD resultou na recomendação de procedimento específico
para avaliar o compartilhamento de dados pessoais entre WhatsApp e as empresas
do grupo Facebook, visando apurar sua adequação à LGPD. A autoridade notou
que o compartilhamento ocorre desde 2016 e não foi objeto da última atualização

3
Disponível em: https://www.gov.br/anpd/pt-br/documentos-e-publicacoes/nt_49_2022_cfg_
anpd_versao_publica.pdf. Acesso em 27 de abril de 2023.
4
Reportagem do G1 publicada em 6 de outubro de 2014, disponível em https://g1.globo.com/
economia/negocios/noticia/2014/10/preco-de-compra-do-whatsapp-pelo-facebook-sobe-us-
-22-bilhoes.html . Acesso em 1° de maio de 2023.
5
Importante notar que o WhatsApp possui termos diferentes para a União Europeia e para o
Reino Unido. A política de dados de 4 de janeiro entrou em vigor em 15 de maio de 2021.
6
Informações de matéria do G1 de 15 de maio de 2021, disponível em https://g1.globo.com/
economia/tecnologia/noticia/2021/05/15/whatsapp-inicia-nova-politica-de-privacidade-neste-sa-
bado-veja-o-que-muda.ghtml . Acesso em 3 de maio de 2023.

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NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

da política de privacidade. O documento de maio de 2022 é a terceira nota


técnica da ANPD sobre o tema desde janeiro de 2021, quando o WhatsApp
anunciou mudanças em sua política de privacidade com o compartilhamento
de informações com o Facebook. Em março do mesmo ano, a ANPD publicou
a primeira nota técnica referente ao assunto, com uma lista de recomendações
e possíveis consequências das alterações promovidas na política de privacidade
e termos de serviço da empresa. Em vista disso, a ANPD, o CADE e o MPF
emitiram recomendação conjunta ao WhatsApp para que adiasse a entrada
em vigência da nova política até a análise dos reguladores. Por outro lado, foi
recomendado ao Facebook que não tratasse de dados pessoais compartilhados pelo
WhatsApp, com base nas alterações da política de privacidade, até que houvesse
um posicionamento das autoridades.
A segunda nota técnica foi publicada em junho de 2021, com análise dos
termos de uso e políticas do WhatsApp Business, categorias de dados e bases legais
para esses tratamentos. O documento abordou também informações relativas aos
direitos dos titulares, dados sensíveis e dados de crianças e adolescentes, e medidas
de prevenção de segurança e privacidade. A terceira e última nota, de maio de 138
2022, concluiu a análise da alteração da política de privacidade, e estabeleceu a
abertura da investigação adicional.
Na página de perguntas frequentes7 do WhatsApp, a empresa exalta sua
tecnologia de criptografia com o lema “Privacidade e segurança estão em nosso
DNA”. A empresa explica que protege as conversas dos usuários no WhatsApp
Messenger, apontando que “ninguém pode ler ou ouvir suas conversas, nem mesmo
o WhatsApp”, através de um processo que ocorre automaticamente, sem que seja
necessário ativar configurações especiais para garantir a segurança das mensagens.
Em relação a conversas com empresas, o WhatsApp alega que todas as mensagens
contam com a segurança de ponta-a-ponta e do protocolo de criptografia Signal,
que protege as mensagens antes que elas saiam do aparelho. Outro ponto alegado
é que “a Meta (controladora do WhatsApp) não usará automaticamente suas
mensagens para exibir anúncios direcionados, mas as empresas poderão usar as
conversas com você para fins de marketing, incluindo anúncios na Meta”.

7
Disponível em https://faq.whatsapp.com/820124435853543/?locale=pt_BR . Acesso em 27 de
abril de 2023.

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NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

Enquanto o Brasil ainda está em fase de recomendações, a União Europeia


está mais avançada no quesito de regulação das plataformas. No dia 25 de abril,
o bloco estabeleceu que a Meta, junto à outras empresas de grande porte do setor
como Apple, Amazon, Google, Twitter e TikTok, terão quatro meses para entrar
em conformidade com a Lei de Serviços Digitais (DSA na sigla em inglês)8. Os
infratores poderão ser multados em até 6% da receita global anual. Anteriormente,
em setembro de 2021, a Comissão de Proteção de Dados da Irlanda aplicou uma
multa de 225 milhões de euros ao WhatsApp por não informar aos usuários de
que as informações pessoais seriam compartilhadas com o Facebook9. A própria
atualização da política de privacidade do WhatsApp “recebeu uma atualização
com conteúdos substancialmente distintos de outras regiões do globo”, segundo
relatório da ANPD,10 pontuando que esta distinção pode ser por conta da vigência
e do elevado grau de detalhamento do Regulamento Europeu de Proteção de
Dados - RGPD.
Já na China, os reguladores locais flexibilizaram o prazo para que as
empresas multinacionais cumpram com as novas regras sobre dados de usuários,
inicialmente estabelecido para 1 de março de 202311. As empresas de tecnologia,
no entanto, alegaram que a data era inatingível, devido à extensa documentação a 139
ser entregue.
Nos Estados Unidos, o Congresso discute a aprovação da American
Innovation and Choice Online Act, introduzida pelo deputado democrata David
Cicilline em junho de 202112. O projeto visa proibir que as plataformas de Big Tech
favoreçam seus próprios produtos e serviços, e inibir que estas plataformas usem
dados não públicos coletados de seus usuários de negócios para adquirir vantagens
indevidas para seus próprios serviços. As proibições tem o intuito de adquirir
ramificações que resultariam em um novo formato para a indústria digital. As

8
Notícia da CNN publicada em 25 de abril de 2023 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/
tiktok-twitter-meta-google-e-amazon-tem-4-meses-para-cumprir-nova-legislacao-da-ue/ . Aces-
so em 27 de abril de 2023.
9
Notícia da CNN publicada em 2 de setembro de 2021, disponível em https://www.cnnbrasil.
com.br/economia/regulador-da-irlanda-multa-whatsapp-por-compartilhar-dados-com-facebook/
. Acesso em 27 de abril de 2023.
10
Informações do relatório da ANPD de 22 de março de 2021.
11
Notícia da CNN publicada em 1º de março de 2023 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/
china-alivia-prazo-para-multinacionais-cumprirem-regras-de-dados-de-usuarios/ Acesso em 27
de abril de 2023.
12
Um estudo do departamento de pesquisa Congresso Americano sobre o projeto de lei está dis-
ponível em https://sgp.fas.org/crs/misc/R47228.pdf Acesso em 27 de abril de 2023.

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NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

sanções previstas poderiam chegar a multas de até 10% do faturamento das Big
Techs nos Estados Unidos durante o período de violação ocorrida.
Entre os possíveis tipos de condutas a serem enquadradas na lei estão:
• A exibição de conteúdo do Google Maps pela busca do Google e
posicionamento favorável de outras verticais da empresa;
• O favorecimento da Amazon para seus próprios produtos nos resultados
de pesquisa do seu marketplace, em detrimento de comerciantes
terceirizados;
• A pré-instalação de certos aplicativos nos celulares da Apple;
• A priorização da Microsoft de seus próprios videogames na Microsoft
Store para o Xbox.

A fundação da ANPD no Brasil em meio ao contexto de liberdade das Big Techs

A ANPD foi criada pela Medida Provisória n. 869 de 27 de dezembro de 2018,


durante o final da gestão Michel Temer, e posteriormente convertida na lei n.
13.853 de 8 de julho de 2019, sancionada pelo então presidente Jair Bolsonaro. A
criação da ANPD estava prevista na Lei Geral de Proteção de Dados, sancionada
140
pelo presidente Michel Temer em 14 de agosto de 2018 e entrando em vigor dois
anos depois, em setembro de 202013. A função do órgão, que estava vinculado à
Presidência da República e passou a ser vinculado ao Ministério da Justiça em
janeiro de 202314, é fiscalizar a aplicação da LGPD. O presidente da autoridade,
o coronel Waldemar Ortunho, foi nomeado pelo presidente Bolsonaro, e tem
mandato até novembro de 2026. A diretora da ANPD Miriam Wimmer também
foi reconduzida ao cargo após sabatina no Senado e aprovação do presidente
Bolsonaro em um de seus últimos atos de governo.
A principal característica da lei brasileira de proteção de dados é a
definição de categorias, hipóteses de coleta e tratamento de informações, além de
instituir um regime diferenciado para o poder público, e estabelecer sanções em
casos de violação. A definição adotada pelo regulamento para dados pessoais são

13
Informações de reportagens da Agência Brasil publicada em 18 de setembro de 2020: https://
agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-09/lei-geral-de-protecao-de-dados-entra-em-vigor
e https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-09/entenda-o-que-muda-com-a-lei-geral-
-de-protecao-de-dados . Acesso em 28 de abril de 2023.
14
Informações de reportagem do portal Convergência Digital de 2 de janeiro de 2023. https://
www.convergenciadigital.com.br/Governo/ANPD-deixa-presidencia-da-Republica-e-passa-para-o-
-Ministerio-da-Justica-62229.html?UserActiveTemplate=mobile Acesso em 28 de abril de 2023.

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‘informações que podem identificar alguém’. Dentro deste conceito, a categoria de


dado sensível corresponde a informações sobre origem racial ou étnica, convicções
religiosas, opiniões políticas, saúde ou vida sexual. A lei pretende impor maior
nível de proteção a esses registros e, assim, evitar formas de discriminação. A lei
vale também para coletas operadas em outros países, desde que relacionadas a
bens ou serviços ofertados a brasileiros, ou que tenham sido realizadas no Brasil.
A exceção se aplica para obtenção de informações pelo Estado para segurança
pública, defesa nacional e investigação e repressão de infrações penais - temática
que deverá ser objeto de legislação específica. A outra exceção da lei está em
coletas para fins exclusivamente particulares, e não econômicos, jornalísticos,
artísticos e acadêmicos.
Em suma, a coleta e armazenamento de dados deverá ocorrer por meio da
obtenção do consentimento do titular, em primeiro lugar, ou autorizações para
cumprimento de obrigações legais, estudos, proteção da vida do titular ou de
terceiros, tutela da saúde por profissionais ou autoridades da área. A administração
pública também pode coletar dados para a consecução de políticas públicas
previstas em leis e regulamentos respaldadas em convênios. Os órgãos públicos, 141
no entanto, devem informar as hipóteses de tratamento de dados dentro da base
legal. Já a obtenção do consentimento deve estar relacionada a uma finalidade
determinada, não podendo estar relacionada para a posse simplesmente de uma
informação, sendo que é possível a qualquer momento revogar o consentimento
fornecido. A pessoa pode requisitar das empresas a confirmação da existência
de tratamento e acesso aos dados, bem como a portabilidade de dados a outro
fornecedor, e informações sobre quais entidades públicas determinada empresa
compartilhou informações (exemplo: polícia, Ministério Público, etc). Também
cria normas próprias para o tratamento de dados de crianças, em que é preciso
obter o consentimento dos pais. A LGPD lista um conjunto de sanções para o caso
das violações das regras com possibilidades de medidas corretivas, multas de até
2% do faturamento, com limite de R$ 50 milhões por infração, e até suspensão ou
proibição total ou parcial do funcionamento do banco de dados, ou da atividade
de tratamento. O regulamento de aplicação de sanções administrativas foi
publicado em fevereiro de 2023 para a aplicação de processos sancionadores15.

15
Informações da ANPD disponíveis em https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/noticias/anpd-
-publica-regulamento-de-dosimetria . Acesso em 28 de abril de 2023.

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Esta regulação era o passo que faltava para que a autoridade pudesse começar a
aplicar multas. No dia 23 de março deste ano, a ANPD divulgou uma lista dos
processos sancionatórios de empresas e órgãos públicos que aguardam conclusão.
De um total de oito investigações, sete correspondem a órgãos do setor público,
e apenas uma empresa privada, a Telekall, suspeita de não atender aos requisitos
de comprovação legal para tratamento de dados. A lista de processos instaurados,
conforme divulgado pela ANPD, segue abaixo16:

142

Por ora, nenhuma das Big Techs consta como investigada em fase de processo
administrativo sancionador. No caso do WhatsApp, a ANPD optou por uma
recomendação, e abriu procedimento para apurar eventuais infrações. Importante
notar que, neste sentido, o Brasil está atrás de seus pares internacionais, que já
multaram a empresa pelas mesmas práticas.
Sérgio Amadeu em seu livro Tudo sobre Tod@s, apontou que as tecnologias
digitais produzem um conjunto de informações todas as vezes que são utilizadas,
e “isto altera profundamente a capacidade dos agentes econômicos de avaliar

16
Disponível em https://www.gov.br/anpd/pt-br/assuntos/noticias/anpd-divulga-lista-de-proces-
sos-sancionatorios . Acesso em 28 de abril de 2023.

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suas práticas e seus negócios17”. O autor comenta dois grandes movimentos de


aquisições recentes de gigantes da era informacional: a compra do YouTube pelo
Google (em 2006), e a aquisição do Instagram e do WhatsApp pelo Facebook,
apontando que ambos os conglomerados têm sua principal fonte de renda
advinda da compra e venda de dados pessoais às empresas e demais clientes que
buscam perfis de consumidores. O autor também pontua que “esses conjuntos
empresariais gigantescos são os proprietários da infraestrutura necessária à
comunicação digital18”, apontando ainda para os riscos e perigos que o mercado
de dados pessoais podem nos propiciar. O autor comenta a parceria entre as
empresas DoubleClick e QuantCast, em 2011, que prometia encontrar perfis
de pessoas que seriam potenciais clientes de determinada empresa, mapeando
consumidores para receberem anúncios e propostas online, sendo que os clientes,
à época, obtiveram resultados próximos de 100% de clicks. As técnicas de
rastreamento passam pela coleta de endereços de IP e outras técnicas para rastrear
quem está lendo determinada página web ou e-mail e qual dispositivo foi usado,
entre computador, tablet ou celular. Soma-se ainda o uso de cookies para capturar
os dados e registrar em servidores da web. 143
Em obra posterior, Democracia e Códigos Invisíveis (2019), o autor discorre
sobre este modelo de negócios das Big Techs, que alimentam seus bancos de dados
para, com algoritmos de aprendizagem de máquina, obter amostras e perfis de
usuários capazes de suprir a demanda de seus clientes.
Rosemary Segurado, em seu livro Desinformação e Democracia (2021)
aponta que o mercado de compra e venda de databases tem também fins políticos.
A professora nos remete ao papel da consultoria Cambridge Analytica, ressaltando
a atuação na campanha vencedora de Donald Trump para presidente dos Estados
Unidos em 2016, e da campanha pela saída da Inglaterra da União Europeia,
como no trecho abaixo19:
Alexander Nix, CEO da Cambridge Analytica, desempenhou um
papel fundamental nas eleições norte-americanas de 2016 e pode ser
considerado um dos grandes mentores do sofisticado uso de dados em
processos eleitorais. Ganhou destaque nas prévias republicanas e já

17
AMADEU, 2017,. p. 17.
18
AMADEU, 2017, p.36.
19
SEGURADO, 2021, p. 56.

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possui toda a estrutura de dados sobre os eleitores norte-americanos,


obtidos por meio de enquete e conseguiu prever a personalidade
de cada eleitor, portanto, poderia influenciar o comportamento nas
eleições. Foi contratado a trabalhar para a candidatura de Donald
Trump e adotou a estratégia de utilizar o estudo do comportamento
eleitoral para disseminar vídeos que atingissem a reputação da
adversária de Trump nas eleições, a democrata Hillary Clinton. Os
vídeos associavam a imagem de Clinton à corrupção, escândalos
sexuais envolvendo crianças e outras mentiras.

A arrependida ex-diretora de desenvolvimento da Cambridge Analytica,


Brittany Kaiser, descreveu as práticas de manipulação de dados de sua antiga
empresa no livro Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook invadiram a
privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque, publicado em 2019. Chama
a atenção na obra o serviço de consultoria vendido para campanhas eleitorais,
que consistia em mapear os tipos potenciais eleitores de determinado candidato
baseado em uma construção da base de dados de preferências individuais e, assim,
bombardeá-los com mensagens. Os truques utilizados, no caso da votação do
Brexit, por exemplo, incluíram convencer pessoas a comparecer às urnas e votar
pela saída do Reino Unido, e para eleitores indecisos que tenderiam a votar pela 144

permanência na União Europeia, convencê-los a simplesmente não irem votar,


resultando em um case vitorioso no portfólio da autoridade.
Sendo a renda do Facebook composta primordialmente de publicidade
personalizada, quais os limites a serem definidos quando os alvos para os anúncios
de produtos podem contar com dados de usuários do WhatsApp? Os reguladores
europeus e americanos, como vimos, ainda não encontraram a fórmula que poderá
servir como direcionamento para responder estas questões.
No Brasil, empresas de economia digital, como Google, Facebook, TikTok
e Amazon se reuniram em uma associação de lobby chamada Câmara Brasileira
de Economia Digital20, ou Camara-E.NET. O estatuto da entidade aponta, entre
seus objetivos, o de “promover o comércio eletrônico em todas as suas formas” e
“estimular a iniciativa privada, a livre concorrência e a auto-regulamentação”21.
No dia 28 de abril de 2023, a entidade publicou uma carta dizendo que a nova

20
Os associados da Camara-E.NET estão listados em: https://camara-e.net/site/conteudo/associa-
dos?menu_id=5 . Acesso em 1° de maio de 2023.
21
Estatuto da Camara-E.NET disponível em https://camara-e.net/site/conteudo/1491-estatuto-
-camara-enet.html?menu_id=49 . Acesso em 1° de maio de 2023.

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versão do PL 2630, também conhecido como PL das Fake News, agrava os riscos
de controle estatal, e prejudica o ambiente de negócios. Eles não se dizem contra
a regulação em si, mas fica claro, como no estatuto, que o interesse representado é
a auto-regulação. Para estas empresas, “o projeto cria um incentivo à remoção de
conteúdos, mesmo que legítimos, ao responsabilizar as plataformas pelo conteúdo
postado por usuários e anunciantes22”. Esta mesma associação, de acordo com
informações da coluna do jornalista Guilherme Amado, do jornal Metrópoles,
espalhou entre os deputados evangélicos que o PL das Fake News poderia resultar
na censura de postagens de cunho religioso23. O relator do projeto, o deputado
Orlando Silva (PCdoB-SP) gravou um vídeo ao lado do deputado Cezinha da
Madureira (PSD-SP), ex-coordenador da Frente Parlamentar Evangélica, para
deixar claro que as medidas não atingirão a liberdade religiosa. Importante notar
que, na ausência de um órgão que lidará com questões de notícias falsas, a ANPD
e a Anatel disputam quem atuará como fiscal da lei24.
Voltando à política de privacidade do WhatsApp, que é alvo de investigação,
a empresa assegura, entre outros pontos, que: 1- eles não podem ler as mensagens
de usuários nem ouvir chamadas do WhatsApp; 2- eles não mantém registros das 145
pessoas que os usuários ligaram ou enviaram mensagens, 3- que WhatsApp e Meta
não podem ver a localização quando compartilhada, e 4- que o WhatsApp não
compartilha dados com a Meta. A empresa afirma que as mensagens pessoais são
protegidas com criptografia de ponta a ponta, e que eles ‘jamais’ enfraquecerão
essa tecnologia de segurança. Em relação às conversas com empresas, o WhatsApp
enfatiza que são diferentes de conversas com amigos e familiares.
Comparando as versões da Política de Privacidade do WhatsApp de 28
de janeiro de 2020 para a mais atual, de 4 de janeiro de 2021, observamos as
principais mudanças no documento. A primeira diferença notada entre uma versão
e outra é a definição do aplicativo de mensagens que conta na versão de 2020 e

22
A carta está disponível em https://camara-e.net/2023/04/28/nova-versao-do-pl-2630-agrava-
-riscos-de-controle-estatal-e-prejudica-ambiente-de-negocios . Acesso em 1° de maio de 2023.
23
Nota do Metrópoles disponível em https://www.metropoles.com/colunas/guilherme-amado/
associacao-de-lobby-que-reune-facebook-google-e-tiktok-espalhou-que-pl-das-fake-news-censu-
ra-religiao . Acesso em 1° de maio de 2023.
24
Reportagem do portal Convergência Digital de 28 de abril de 2023, disponível em https://
www.convergenciadigital.com.br/Governo/Legislacao/ANPD-entra-na-briga-com-Anatel-para-
-fiscalizar-Lei-das-Fake-News-63089.html . Acesso em 4 de maio de 2023.

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não consta na versão atualizada. “O WhatsApp presta serviços de mensagens,


ligações via internet e outros para usuários em todo o mundo”, sendo que a versão
atualizada explica que o WhatsApp passou a ser parte das empresas Meta.
Ao explicar sobre a política, outro detalhe. A versão de 2020 é mais
completa no sentido de apontar que:
Esta Política de Privacidade (“Política de Privacidade”) se aplicará a todos os nossos
aplicativos, serviços, recursos, software e site (em conjunto, “Serviços”) se não houver
disposição em contrário.

A versão atual é mais sucinta:


Esta Política de Privacidade se aplica a todos os nossos Serviços, exceto se especificado
de outra forma.
O WhatsApp explica que a versão atual contém informações adicionais sobre os
recursos e funcionalidades mais recentes dos produtos da empresa e links diretos
para as configurações do usuário, entre outras informações, apontando maior
facilidade de conexão.
A explicação sobre a coleta de dados mudou da seguinte maneira:
O WhatsApp recebe ou coleta dados sempre que operamos e prestamos nossos Serviços,
inclusive quando são instalados, acessados ou utilizados por você.
146
Para:
O WhatsApp precisa receber ou coletar algumas informações para operar, fornecer,
melhorar, entender, personalizar e comercializar nossos Serviços e oferecer suporte para
eles, incluindo quando você os instala, acessa ou usa.

A redação no quesito “Dados da sua conta” também mudou da seguinte forma, da


versão 2020 para a versão 2021:
Recebemos seu número de celular quando uma conta do WhatsApp é criada por você.
Recebemos os números de telefone de sua agenda de contatos regularmente, tanto de
usuários de nossos Serviços quanto de outros contatos. Você confirma ter autorização
para fornecer tais números. Outros dados podem ser fornecidos para sua conta, como
nome do perfil, foto do perfil e mensagem de status.
Em 2021:
Você deve enviar seu número de telefone celular e seus dados básicos (como um nome
de perfil escolhido por você) para criar uma conta do WhatsApp. Caso você não forneça
esses dados, você não conseguirá criar uma conta para utilizar nossos Serviços. Outras
informações podem ser adicionadas à sua conta, como uma foto de perfil e um recado.

A versão mais recente adiciona informações sobre operações globais, apontando que:
O WhatsApp compartilha informações pelo mundo inteiro, tanto internamente, com
Empresas da Meta, quanto externamente, com os nossos parceiros e provedores de
serviço, e também com quem você se comunica em todo o mundo, em conformidade

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com esta Política de Privacidade. Por exemplo, suas informações podem ser não só
armazenadas e tratadas nos Estados Unidos, em países ou territórios onde as afiliadas e os
parceiros das Empresas da Meta ou nossos provedores de serviços estão localizados ou em
qualquer outro país ou território no mundo em que nossos Serviços sejam fornecidos fora
da região em que você reside para as finalidades descritas nesta Política de Privacidade,
mas também transferidas ou transmitidas para esses lugares.

Nota-se ainda que o WhatsApp não informa as bases legais que justificam o
tratamento de dados dividido por finalidade, e tampouco informa quais categorias
de dados pessoais são usadas para cada finalidade - ambos pontos que justificaram
a instalação de investigação da ANPD25.

Capitalismo de Vigilância ou o capitalismo de sempre?

A primeira premissa em se tratando de compartilhamento de dados e regulação


de Big Techs é que governos não têm a mesma eficiência em termos de inovação
quando comparados o setor público com o privado. Observamos empiricamente
que o poder público contrata serviços terceirizados de tecnologia, apesar de muitas
vezes ser o financiador das mesmas, para a manutenção de seus serviços ou criação
147
de novos. Enquanto as empresas de tecnologia se recusam a compartilhar seus
códigos-fontes, que justificam suas receitas bilionárias, reguladores engatinham
para criar regras que possam ao menos taxar essas empresas de maneira eficiente.
Ainda no começo do milênio, Castells (2010) já apontava para o fenômeno
da informação e sua capacidade de superar, em faturamento, as empresas de
petróleo. Ainda assim, demoramos a constatar que o principal produto a ser
vendido eram as nossas preferências e dados que trocamos nas novas tecnologias e
ferramentas disponíveis.
E assim algo deu errado desde que as Big Techs começaram a apresentar
faturamentos astronômicos. A popularização da internet e dos sistemas de
informação, que se aceleram muito na primeira década dos anos 2000, resultou
em riscos já observados no começo da segunda década do milênio. Os algoritmos
foram programados a partir de percepções humanas e, com isso, reproduziram os
mesmos preconceitos expostos na vida em sociedade. Extremismos que, apesar de
nunca terem sido totalmente extirpados da vida em sociedade, mas se encontravam
apenas em pequenos núcleos, ganharam maiores proporções. Exemplos claros

25
Informações do relatório da ANPD de 22 de março de 2021.

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deste fenômeno são os núcleos neonazistas, racistas e homofóbicos, e outros


potenciais criminosos que foram possibilitados de se juntar via internet sem que
nenhuma Big Tech agisse efetivamente para conter o perigo desses grupos. Mais
além, há dúvidas se as plataformas corroboram para reunir indivíduos que estavam
prontos a um empoderamento via violência para combater frustrações cotidianas,
resultando em ataques armados e mortes de inocentes.
Se a questão já era inconclusiva e grave quando a dúvida sobre o
acúmulo de dados de qualquer pessoa se concentrava no intuito comercial desse
armazenamento, no ouvir conversas privadas e trocas pessoais para serem utilizadas
em publicidades direcionadas, agora nos questionamos porque a mesma prática
dissemina ódio e fomenta extremismos. Utilizando do conceito dos filtros bolha,
o professor Frank Pasquale busca entender como o direcionamento de informações
promovido pelas Big Techs colabora para que isso aconteça:
“Por exemplo, considere o problema clássico do filtro bolha26. A
customização permite aos usuários de internet ignorar opiniões com as quais
não concordam, de tal maneira que o modelo de filtro bolha firma e, portanto,
aumenta a polarização. Vamos assumir, por enquanto, que existe algum caminho
intermediário de consenso que vale a pena salvar. As soluções existentes para a 148
dinâmica do filtro bolha envolvem, em primeiro lugar, que ‘todos os lados’ ou
‘ambos os lados’ podem ser expostos à crítica de opositores através, por exemplo,
de regras mais minuciosas de filtragem ou de versões de teste secretamente
implementadas27. Para tornar essa proposta mais atrativa, vamos assumir por
agora uma sociedade dividida entre esquerda e direita. O grande problema
para os defensores das reformas do ‘filtro bolha’ é que eles não podem antever
adequadamente se a exposição dos adeptos aos posicionamentos, prioridades,
ideologia ou valores de seus opositores levará à compreensão ou repulsa,
reconsideração ou desconfiança.28”
Evgeny Morozov (2018) aponta que “antes de tudo, precisamos destruir
aos poucos a hegemonia intelectual da Big Tech no que se refere às ideias de políticas
futuras e do papel que a tecnologia vai desempenhar nelas29”. O autor aponta que
temos de retomar o conceito de cidadania que seja capaz de superar a imagem de

26
PARISIER, 2011; SUSTEIN, 2007.
27
PASQUALE, 2016a, pp. 499-500.
28
PASQUALE, Frank. A esfera pública automatizada. Revista Líbeo. São Paulo: 2017. p.28-29
29
MOROZOV, 2018: P.174.

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que somos apenas consumidores de aplicativos passivos, sujeitos receptivos ao


império de uma publicidade global ansiosa para acelerar o extrativismo de dados.
Conclusão

Pudemos observar que as Big Techs pressionam por uma auto-regulação, em


detrimento da recém-criada ANPD, ou mesmo de outros órgãos que poderiam,
em conjunto ou não, demonstrar algum poder de fogo, como CADE e Ministério
Público. Enquanto isso, falta clareza na política de privacidade do WhatsApp
sobre como estes dados são compartilhados com outras empresas da Meta.
Um fenômeno importante a ser discutido é porque a ANPD está sendo
pouco lembrada nas investigações relacionadas ao PL das Fake News. Considerou-
se a criação de uma nova autoridade reguladora para tratar de fake news, sem
aproveitar ou dialogar com a ANPD, como se a explosão da retenção de dados e a
rápida disseminação de notícias falsas fossem fenômenos aleatórios, sendo que os
dois envolvem as Big Techs.
Ou seja, caminhamos possivelmente para uma nova burocracia, criada
a partir de novas regras, ainda sem contato efetivo com o framework já existente
149
internacionalmente. Quem está com a caneta nas mãos precisa negociar para além
de lobbies e superar a grande polarização das casas legislativas brasileiras. No caso
específico da ANPD, a autoridade tem que se colocar pari passu com as legislações
mais modernas, percebendo as dificuldades dos reguladores da UE e dos EUA.
Como diz o ditado popular, quem não é visto, não é lembrado, correndo o risco da
ANPD, apesar de corresponder ao Brasil enquanto terceira posição do ranking dos
países que mais consome rede social em do mundo30, virar meramente protocolar
em um mar de abusos em que os reguladores internacionais já estão cuidando com
suas próprias regras.

30
Dados do Comscore, disponível em https://propmark.com.br/brasil-e-o-terceiro-pais-que-
-mais-usa-redes-sociais-no-mundo/#:~:text=Levantamento%20realizado%20pela%20Comsco-
re%20mostrou,Estados%20Unidos%2C%20M%C3%A9xico%20e%20Argentina. Acesso em 4
de maio de 2023.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 134-151, maio-agosto 2023
NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

Referências

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Editora Unesp, 2019.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

EMPOLI, Giuliano da. Os engenheiros do caos: Como as fake news, às teorias da


conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e
influenciar eleições. São Paulo: Vestígio, 2020.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: Nascimento da prisão. Rio de Janeiro:


Vozes, 2014

GALLEGO, Esther Solano (ORG.). O ódio como política: A reinvenção das


direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

KAISER, Brittany. Manipulados: como a Cambridge Analytica e o Facebook


invadiram a privacidade de milhões e botaram a democracia em xeque.

MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. São
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Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 134-151, maio-agosto 2023
NOVOS DESAFIOS REGULATÓRIOS (...) CAROLINA GUERRA E JOÃO BERTHOLINI

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151

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Sobre Superman em Super Pride: conservadorismo e


estética kitsch como elementos da representação LGBTI+
em quadrinhos americanos contemporâneos

Mário Jorge de Paiva1


ORCID: 0000-0001-7158-4371

Resumo: O presente artigo possui como tema de análise a personagem Superman na


edição comemorativa DC Pride 2022, um lançamento anual que visa comemorar o
Mês do Orgulho LGBTI+. A análise aqui existente é qualitativa, tendo por base o
roteiro e ilustrações da história Super Pride; em um diálogo com um variado aporte
teórico sobre o tema dos quadrinhos norte-americanos de super-heróis e o queer, 152

vide Dandara Cruz, Darieck Scott, Ramzi Fawaz, Rob Lendrum, Neil Shyminsky,
Dalbeto etc. Nossa conclusão apontará como, enquanto uma marca, tal editora
optou por criar um produto mediano, com elementos de conservadorismo e uma
estética kitsch.

Palavras-chave: LGBTI+. Superman. Comics. DC Pride. Queer.

1
Doutor, mestre, licenciado e bacharel em Ciências Sociais pela PUC-Rio. Possui mais de 10 anos
de experiência com pesquisa quantitativa, tendo participado das seguintes atividades: coleta de
dados, transcrições de áudio, desenvolvimento de banco de dados (SPSS) e relatório tabular. Lattes:
http://lattes.cnpq.br/4112973866360651.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 152-170, maio-agosto 2023
SOBRE SUPERMAN EM SUPER PRIDE (...) MÁRIO JORGE DE PAIVA

About the Superman in Super Pride: conservatism and


kitsch aesthetics as elements of LGBTI+ representation in
contemporary American comics

Abstract: This article has as its theme of analysis a representation of the character
Superman in the commemorative edition DC Pride 2022, an annual release that
aims to commemorate the Pride Month. The analysis of the article is qualitative,
based on the script and the art of the story Super Pride; in a dialogue with a
varied theoretical contribution on the theme of American superhero comics and
153
the queer, like Dandara Cruz, Darieck Scott, Ramzi Fawaz, Rob Lendrum, Neil
Shyminsky, Dalbeto etc. Our conclusion will point out how, as a brand, this
publisher chose to create an average product, with elements of conservatism and
a kitsch aesthetic.

Keywords: LGBTI+. Superman. Comics. DC Pride. Queer.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 152-170, maio-agosto 2023
SOBRE SUPERMAN EM SUPER PRIDE (...) MÁRIO JORGE DE PAIVA

Acerca de Superman en Super Pride: Conservadurismo y


estética kitsch como elementos de representación LGBTI+
en el cómic estadounidense contemporáneo

Resumen: El tema de análisis de este artículo es el personaje Superman en la edición


conmemorativa del DC Pride 2022, lanzamiento anual que tiene como objetivo
celebrar el Mes del Orgullo LGBTI+. El análisis del artículo es cualitativo,
basado en el guión e ilustraciones del cuento Súper Orgullo; en un diálogo con
un variado aporte teórico sobre el tema del cómic de superhéroes norteamericano 154
y lo queer, ver Dandara Cruz, Darieck Scott, Ramzi Fawaz, Rob Lendrum, Neil
Shyminsky, Dalbeto, etc. Nuestra conclusión señalará cómo, como marca, esta
editorial optó por crear un producto mediocre, con elementos de conservadurismo
y estética kitsch.

Palabras clave: LGBTI. Superman. Comics. DC Pride. Queer.

Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.16, n.47, p. 152-170, maio-agosto 2023
SOBRE SUPERMAN EM SUPER PRIDE (...) MÁRIO JORGE DE PAIVA

Introdução

Como é explorado por uma série de autores, representações não heterossexuais


existem desde tempos muito anteriores aos nossos, como é ilustrador por Sarene
Alexandrian (1993), Michel Foucault (2010, 2011, 2019) ou João Silvério
Trevisan (2018). Casos relatados não faltam, passam pelo teatro grego;2 pelos
fragmentos da obra de Safo, da ilha de Lesbos;3 pela filosofia de Platão, que retrata
o complexo relacionamento entre Sócrates e Alcibíades;4 igualmente estando
presentes em Petrônio e no mundo romano;5 também envolvendo toda uma
condenação católica do pecado nefando;6 até chegarmos aos nomes mais famosos
relacionados ao pensamento libertino francês, como o Marquês de Sade.7
Diante desse cenário de grande quantidade de casos e de uma variância
existente de acordo com tais sociedades, épocas, poderes, subjetividades etc.,
o presente artigo almeja realizar um estudo sobre um elemento da cultura pop
contemporânea. Referimos-nos aos quadrinhos e como eles representam o
universo LGBTI+, tendo por base um aporte teórico sobre o tema no mercado
anglófilo, norte-americano. E vamos abordar no artigo, mormente, uma história
155
específica recente, que foi lançada dentro da edição especial DC Pride 2022, no caso
Super pride, uma história escrita por Devin Grayson8 e tendo como ilustrador
Nick Robles.
E por que estudar o pop? Por que estudar quadrinhos? Pois, como fala
Slavoj Žižek (2017, 2018), estamos mediados por filtros, sendo que esses filtros
de nossas representações culturais podem nos dizer coisas sobre como pensamos
ou sobre nossa época. Logo não é sem razão que o próprio Žižek vai discutir
desde fenômenos culturais mais voltados ao Cult, vide os filmes de David Lynch
ou o rock alemão de Rammstein, até fenômenos mais abertamente de massas, como

2
Cf. Carpeaux (2012).
3
Cf. Alexandrian (1993).
4
Cf. Platão (1979).
5
Cf. Alexandrian (1993).
6
Cf. Trevisan (2018).
7
Cf. Sade (2005).
8
Escritora que já trabalhou em títulos como Asa Noturna, Gotham Knights e Batman. Também
vale lembrar como ganhou um prêmio em 2001 da GLAAD Media Award.

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algum novo filme de Star Wars. Nosso direcionamento para quadrinhos envolve
ver como eles são uma mídia ainda pouco estudada, tendo um elemento marginal;
Pierre Bourdieu (2011) comenta isto ao dizer que é uma arte média em vias de
legitimação, por isso ainda relegada, em algum nível, pelos detentores de maior
capital dentro do social.
Nosso trabalho se dividiu em três fases. Primeira, um estudo do estado
da arte sobre tal relação entre quadrinhos e representações LGBTI+. Segunda,
uma demarcação, dentro do campo, de aspectos ainda pouco estudados, no caso
essa história recente de tal edição especial. Terceira fase, uma análise aprofundada
do material e o desenvolvimento do presente artigo, que, inevitavelmente, está
em relação com produções acadêmicas nossas anteriores, as quais exploraram o
mundo dos quadrinhos e o conservadorismo social; vale conferir Paiva (2019,
2021a, 2021b, 2022).
Nosso presente trabalho se relaciona com a história das ideias9 – história das
ideias como um campo de estudos para a anatomia do pensamento, que tenta seguir
uma história de conceitos, teorias e mesmo da doxologia de um momento –, e mesmo
com uma sociologia weberiana, no sentido de estipular tipos ideais10 de análise 156
do material. O trabalho, grosso modo, se volta para tal questão: a representação
LGBTI+ de Superman foi efetiva ou encara certos problemas recentes típicos
desse universo, como queerbaiting?11
Gostaríamos ainda de demarcar, na presente seção, o que estamos
chamando de queer, para que não exista confusão sobre como abordamos tal termo.
Quando trabalhamos o queer temos por aporte, maior, Irene Caravaca (2017). O
queer é tratado como aquilo que não é heterossexual, logo é uma palavra que
carrega um senso de alteridade, alianças entre diferenças, que almeja ir também
contra esse binarismo do heterossexual vs o homossexual. Queer como algo que é
estranho, que é contra o padrão, o dominante, o legítimo.
O artigo se divide em quatro partes. Começou pela presente introdução.
Passa para um segundo seguimento, chamado Categorias ideais de representações
LGBTI+ nos quadrinhos de super-heróis norte-americanos, em que falaremos um

9
Cf. Francisco Romero (1953), Isaiah Berlin (2009), Onfray (2008).
10
Cf. Barbosa & Quintaneiro (2009).
11
Cf. Paiva (2021b).

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pouco da história dos quadrinhos e como eles representaram o queer. A terceira


seção, Conservadorismo e estética kitsch em Super Pride, mostra como achamos tal
representação de Superman problemática, em alguns sentidos. O trabalho fecha
com uma seção dedicada aos elementos de considerações finais e maior coesão das
partes do texto.

Categorias ideais de representações LGBTI+ nos quadrinhos de super-heróis


norte-americanos

Ao percorremos toda uma bibliografia que trata da história LGBTI+, como é


sabido, vemos que tal grupo foi perseguido e acossado por diversos tipos de poderes
e saberes dentro do tecido social, ao longo do tempo; desde uma condenação
religiosa e moral, passando igualmente por uma condenação médica, que poderia
se interligar mesmo com problemas jurídicos.12 Nesses termos nem sempre é fácil
falar e traçar uma história de um grupo social, em medida considerável, relevado
ao silêncio.13
Muito de nosso trabalho envolve assim, inevitavelmente, uma primeira e
157
ampla categoria, o queer coding, como representações implícitas e possivelmente
negativas sobre os LGBTI+; tendo em vista também como dentro de tal universo,
sigla, se somam muitos grupos, alguns mais fáceis de pesquisar do que outros.
Assim os quadrinhos, durante muito tempo, foram uma amostra das representações
negativas ou dúbias sobre o universo social em questão. Algo análogo com outros
campos sociais, em que o homossexual, por exemplo, iria aparecer como uma
figura cômica ou trágica.14
Não é nosso intuito realizar toda uma genealogia de tais representações,
ou recontar toda uma história dos quadrinhos americanos, mas apenas dizer que
quadrinhos americanos dos anos 30, 40 e 50, do século XX, já possuem personagens
e elementos que apontavam para o queer de modo implícito. Como Papa Pyzon,
personagem das tiras Terry and the pirates, que usava brincos e parecia estar usando
maquiagens, além de não ter grande confiança em mulheres e demonstrar algum

12
Cf. Adriana Nunan (2003), James Green & Renan Quinalha (2018), João Trevisan (2018),
James Green (2019), Bruno Bimbi (2017), Murilo Mota (2019), Luiz Mott etc.
13
Como uma série de outras pesquisas também mostra, como o próprio caso da contra-história da
filosofia empreendida por Michael Onfray (2008).
14
Cf. Nunan (2003).

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interesse em homens; o mesmo vale para Krazy kat, porque há uma incerteza se o
gato é macho ou fêmea (Cruz, 2017).
Cruz (2017, p. 50-51) assim fala de uma série de gírias e elementos
implícitos que dialogavam com elementos da própria cultura queer dos anos 30,
envolvendo, por exemplo, bailes de máscara decalcados dos tradicionais bailes de
debutantes, em que o ente era introduzido à comunidade gay.
Os quadrinhos mesmo muito voltados para o cômico, e uma diversão
para toda família, foram ganhando história de aventuras, com personagens como
Tarzan, Buck Rogers, Flash Gordon e Príncipe Valente. Mas Superman, de 1938,
marca todo um modelo para os super-heróis.
Cruz (2017, p. 56) aborda que tal personagem, desde sua primeira edição,
já reforçava estereótipos de papéis de gênero ao abordar sua relação com seu
interesse amoroso, que mesmo sendo uma mulher moderna, trabalhando fora como
repórter e não estando na costumeira posição feminina de secretária, encarna uma
típica mocinha em perigo; além de rejeitar os tímidos avanços de Clark Kent,
enquanto se assombra com a força e coragem de Superman.
Conservadores e reacionários, todavia, se preocuparam com tal mídia, 158
acreditando que fazia mal para os jovens. Sendo o ponto alto desse quadro o
livro Sedução dos inocentes de Frederic Wertham, de 1954. Para o psiquiatra os
quadrinhos podiam ser relacionados não só com uma delinquência juvenil,
porém também estariam envolvidos com os ditos distúrbios sexuais, com uma
degeneração da homossexualidade (Cruz, 2017, p. 56). Suas evidências eram, mais
concretamente, os quadrinhos de Batman e Robin, além da Mulher-Maravilha.
Falava ele de um sutil homoerotismo, em uma sensação de que os homens, um
maduro e outro jovem no caso, devem ficar juntos diante de tantas ameaças. Em
que ambos moravam em suntuosos aposentos, com um mordomo, e viviam um
sonho idílico para homossexuais, que poderia levar ao estímulo de fantasias nas
crianças, de natureza mesmo inconsciente.15
Há realmente leituras que caminham nesse sentido, de uma relação entre
quadrinhos e queer, mesmo que sem o pânico moral do pós-guerra americano,
podemos apontar. Darieck Scott & Ramzi Fawaz (2018) é um exemplo de
material. Já Mark Best (2005) trata os quadrinhos como um mundo masculino,

15
Cf. Cruz (2017).

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em que a mulher pode surgir como uma intrusa, mas igualmente aponta para essa
forte relação entre o herói e seu ajudante.
Nessa crítica moralista, dos anos 50, Robin aparecia próximo da figura
de uma mocinha constantemente em perigo, além de ter em questão suas
vestimentas, envolvendo uma sunga verde e suas pernas nuas; nem o nome da
personagem, Dick,16 passou em branco. E realmente pode ser visto alguma coisa
queer nesse papel de ajudante, Neil Shyminsky (2011) aborda isso. Tal pesquisador
coloca como esses quadrinhos são centrados em uma masculinidade do herói,
o ajudante teria assim uma sexualidade ambígua, expressaria outras formas da
sexualidade. Então essa sexualidade poderia encobrir uma ansiedade diante da
própria identidade do herói.
Shyminsky (2011, p. 288) coloca que tais histórias populares eram
surpreendentemente conservadoras, visando uma legitimação das ideologias
vigentes; algo igualmente apontado por outros pesquisadores, como Dalbeto
(2015). Shyminsky chama o modelo do herói de uma figura reacionária, com
desejo de uma manutenção do status quo. A sexualidade do parceiro, então, envolve
o elemento de um controle heteronormativo, diante do elemento de transição do 159
jovem, há o elemento da queer child, do not-yet-straight.
Esse elemento do segredo, da diferença, do mundo predominantemente
masculino, das roupas excêntricas, nada disso fica fora de um possível paralelo,
visto por nosso aporte teórico, entre o herói e a figura de um homem homossexual
americano, que não poderia sair facilmente do armário. Porque envolvia todo
o tipo de perseguição e medo diante dos eventos da época, como conhecidas
movimentações políticas do senador Joseph McCarthy contra os funcionários
públicos presumidamente gays.17
Diante desse medo com os quadrinhos, e de um próprio medo dos
produtores de quadrinhos com uma possível intervenção do governo, foi criado o
Comics Code Authority, CCA, colocado em prática pela Comics Magazine Association
of America, em 1954. Era um selo, basicamente, para histórias que seguissem suas
regras, esse selo tranquilizaria os adultos diante do material da revista; assim se
garantia, institucionalmente, como não existiriam desviantes nas revistas.

16
Uma gíria para pênis.
17
Cf. Cruz (2017).

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Mas Lendrum (2004, p. 70) aponta que certos produtores de mídias


poderiam usar o elemento implícito ao seu favor. Em formas de pequenas
resistências, imaginamos. O autor, nestes termos, fala de uma ambiguidade gay
usada até na série dos anos 60 do Batman, porque é toda uma estética camp e
muito colorida.
O primeiro tipo ideal que vimos é o de queer coding, um elemento implícito,
não necessariamente positivo e possivelmente cômico. O segundo tipo ideal que
podemos elencar são histórias mais adultas com representações abertas. Pois existiram
novidades sociais nos anos 60, 70 e 80, mas graças ao CCA os quadrinhos, mais
centrais, continuam um trabalho com tal lógica do implícito. Foram publicações
mais adultas, ou de selos marginais, que obtiveram maior liberdade inicial,
acreditamos. Nesses termos Frank Miller, Neil Gaiman, Alan Moore e Grant
Morrison podem ter tido uma liberdade maior do que John Byrne. Byrne, em
1983, queria trabalhar a personagem Estrela Polar como abertamente gay, mas
não conseguiu, sendo que sobraram apenas indícios. Essas histórias, idealmente
underground, certas vezes podem ser mesmo das grandes personagens das editoras,
mas em aventuras solo, que não se conectam diretamente ao quadrinho periódico; 160
sempre se tendo em vista que essas definições são tipos ideais, logo são discussões
sujeitas aos elementos de porosidade, heterotopias, do real.
Foi com os anos 90 que os quadrinhos conseguiram maiores liberdades,
houve um esgotamento maior da relevância do selo da CCA. Porém, nesse
momento, o material ainda era mais problemático, como mostra Cruz (2017) ou
Dalbeto (2015).
Dos anos 2000 em diante podemos idealmente traçar representações
melhores, com um aumento quantitativo e qualitativo deste material. Em que
hoje temos um número de personagens gays, lésbicos, bissexuais, trans etc. Tais
personagens desafiam certas convenções de gênero etc.
Em termos lentos o que vimos foi essa alteração das formas que os
quadrinhos representavam tais grupos. A abertura sociológica para isso não se deu
em todo o campo social ao mesmo tempo, logo selos não tão fortes, e em material
menos central, se pode arriscar mais, acreditamos, enquanto os movimentos
superficiais pareciam mais lentos.
Com uma comunidade LGBTI+ cada vez mais forte, e organizada, acreditamos
chegar aos próximos quatro conceitos. O de representações moderadas, representações

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centrais, representações conservadoras e queerbaiting. Essas categorias se voltam mais para


um momento em que há demanda e possui aberta representação LGBTI+.
Queerbaiting, basicamente, se refere aos formatos de marketing e conteúdo
que certas mídias usam para tentar capturar e atiçar o imaginário LGBTI+, com
uma possível representatividade, a qual termina por frustrar o espectador. Tal
categoria se refere ao elemento duvidoso, assim como o queer coding, mas em um
momento em que já existe internet e uma busca mais consciente e positiva de
alcançar o público queer, enquanto um mercado consumidor de relevância. Logo
se refere, muitas vezes, aos protagonistas de séries que podem estar tendo um
flerte queer; contudo talvez isso não passe de uma forte amizade heterossexual.
Lembremos que, como aponta Caravaca (2017), o material midiático possui até o
último momento para reverter o quadro negativo. E mesmo o elemento implícito
pode funcionar em certos casos, a autora aponta o seriado Hannibal como uma
produção com um subtexto homoerótico perfeitamente executado.
Já representações conservadoras se referem ao material midiático que não
é implícito, mas é uma representatividade tão discreta que, igualmente, pode
irritar o consumidor. É o caso, já abordado,18 da personagem Alvo Dumbledore. 161
Representações moderadas e centrais são histórias bastante abertas sobre o
elemento queer. Quando pensamos em uma representação central, por exemplo,
estamos abordando certos mangás, ou quadrinhos de outros países, que tratam
relacionamentos LGBTI+ como o core de suas tramas, vide Junjou romantica;19 são
rótulos como BL, Yaoi etc.20 Já representações moderadas são histórias em que o
elemento queer existe, ele é parte da trama, contudo a história não é centralmente
sobre esse tópico; é alguma série de revistas em quadrinhos que possuem um
personagem LGBTI+, mas a história, grosso modo, ainda envolve mais combater
ameaças alienígenas, derrotar vilões com planos mirabolantes etc.
Com uma tipologia, e uma ideia da história dos quadrinhos, como a
mencionada história de Superman se enquadra nos tópicos apresentados? Isso nos
leva ao próximo seguimento do texto.

18
Cf. Paiva (2021b).
19
Cf. Nakamura (2006).
20
Cf. Zsila et al. (2018), Tanko (2009, 2018).

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Conservadorismo e estética kitsch em Super pride

O que podemos notar ao analisar o roteiro e as ilustrações da história em quadrinhos


em questão? A história se inicia com Robin, no caso Damian Wayne, combatendo
alguns vilões. Enquanto há uma narrativa de Jon Kent, o novo Superman, falando
sobre o poder dos símbolos. Os vilões ao verem Superman tentam fugir, enquanto
Robin reclama que ele não precisava de ajuda. Superman finaliza o combate,
entregando os inimigos vencidos para alguns policiais. A narração sobre símbolos
continua, explicando que eles variam de acordo com quem o vê ou quem o está
usando. Robin e Superman continuam o diálogo, em que é relevado que eles vão
para uma Parada do Orgulho LGBTI+ celebrar e se encontrar com Jay, o jovem
com quem Superman está saindo.
Eles possuem uma breve conversa sobre Stonewall, enquanto Superman
voa segurando Robin até um terraço, assim se encontrando com Jay. O jovem
de cabelo rosa então dá um embrulho de presente para Jon, que o abre e é uma
capa, do lado de dentro da capa ele vê que ela possui uma série de listras coloridas
indicando uma homenagem à comunidade LGBTI+. Jon fica reticente se deve
162
usar o novo item, porque não sabe qual seria a reação de seu pai, o Superman
original, ao vê-lo usando o item. Robin diz que ele iria adorar.
Há um corte temporal e agora vemos Robin, com roupas civis, e Jay vendo
do alto o evento, enquanto conversam e tiram fotos. Superman desce do céu com
sua nova capa, toda colorida, sobre a multidão. Faz um movimento rasante que
libera um rastro de cores, em mais uma homenagem à comunidade, pega Jay nos
braços e a história se encerra com eles se beijando, no meio no céu, enquanto a
capa nova aparece esvoaçante. A narração encerra dizendo que não há jeito errado
de ser você mesmo.
Como vemos é uma história breve, sem grandes conflitos com vilões e
com poucos personagens. Conta, em termos simples, a ida de Superman, Robin e
Jay até uma Parada do Orgulho LGBTI+. Em termos de história, a maior questão
aqui é Superman refletindo sobre o poder dos símbolos, enquanto pensa se deve
ou não associar o símbolo que seu pai trouxe para o planeta, e desenvolveu, com
sua sexualidade. Mas essa também é uma questão rapidamente resolvida, que
leva ao final feliz, com um beijo entre as personagens, no meio de todas as cores
existentes etc.

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A experiência estética – por estética estamos tratando de uma experiência


dos sentidos, a qual pode ter finalidade, e, nesse contexto, envolve o divertimento
de ler um gibi – apresenta certos elementos marcantes, como tal história ser
muito colorida, ter muitos tons claros, com a bandeira da comunidade LGBTI+
aparecendo mais de uma vez. Também se voltando muito aos corpos jovens e
à felicidade jovial. Em que, por tudo que foi narrado e lido, acreditamos que
o material foi feito para ser propositalmente simples, seu resultado final é
propositalmente medíocre. Arte mediana, história mediana.
A estética não é desinteressada assim, em seus acertos e falhas. Os corpos
bonitos, jovens, que se adéquam aos seus sexos biológicos remetem, inevitavelmente,
para um padrão estético bastante clássico, de algo voltado, genericamente, para
o belo, harmônico e saudável, se pensarmos em certos termos, abertamente
conservadores, de Scruton (2015).
Os corpos jovens chocam menos do que se víssemos, por exemplo, dois
homens barbados e descomunalmente musculosos, como em certas artes de Frank
Miller (2011), se beijando. Do mesmo jeito, como o próprio Sade (2005) ilustra,
aquilo que é a sexualidade do corpo idoso pode causar maior choque. Incomodaria 163
bem mais tais parcelas conservadoras e reacionárias, por exemplo, se houvesse
uma história de um beijo entre o Batman idoso e seu sucessor Terry McGinnis.
Outros dois elementos. Primeiro: Superman voando segurando Robin
pela mão é uma opção irrealista, pois tal personagem no mínimo ficaria com o
braço doendo; no pior dos casos isso arrancaria, ou deslocaria, o braço do mais
jovem. Por que então Robin não estava no colo do Superman? Por que isso abriria
margem para mais especulações sobre a sexualidade de Robin? Segundo: a capa
do Superman listrada, cheia de cores, é de gosto bastante duvidoso. Não achamos
bonita ou elegante, então a maior novidade estética, que esse gibi nos trouxe, não
agradou. Vale lembrar que a comunidade LGBTI+ possui uma série de outros
símbolos para além de tais bandeiras coloridas; aqui podemos pensar na letra
grega lambda, dos guerreiros espartanos, ou no triangulo rosa, uma reapropriação
do símbolo nazista, para nunca nos esquecermos da homofobia. Por qual motivo,
então, não passou da opção mais óbvia?
Sobre tal adequação cultural, aos sexos biológicos, uma coisa que vemos é
como a história dos quadrinhos conseguiu abarcar mais facilmente personagens
gays, lésbicas, bissexuais. Menos, então, personagens que colocam em questão, de

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modo mais claro, certos outros papéis de gênero; mesmo com honrosos casos de
exceção. Nesses termos os maiores personagens, que lembramos, com liberdade
para quebrar certas regras são exatamente aqueles que ainda possuem algum
elemento cômico, vide Coringa ou Deadpool. Então talvez seja aceitável, para
certos consumidores, que Superman beije outro homem; porém haveria aceitação
se ele voasse com uma saia e maquiagem? Ou isso colocaria, esses elementos vistos
socialmente como femininos, em questão sua seriedade? A estética dos quadrinhos
e a moda caminham juntas, em algum nível; com o fortalecimento de uma moda
genderless – que em mais de um momento remete ao fetiche, ao sadomasoquismo,
se pensarmos em certas peças da marca Balenciaga –, será que não é uma questão de
tempo até certos padrões dos super-heróis se alterarem, em termos de vestimentas?
Além disso, o que sentimos na narrativa é que falta algum conflito
interessante. O mais óbvio seria entre heróis mais antigos, como Batman e
Superman, que não aceitariam os sinais dos tempos. Mas isso não há. Um arco
de Superman aceitando aos poucos Jon seria mais corajoso. Em que a DC Comics
está trabalhando muito com essa questão do orgulho, felicidade, aceitação; coloca
assim pouco o outro lado da moeda. A história mais interessante dessa edição 164
especial, possivelmente, é Finding Batman de Kevin Conroy, que ousa, através de
uma história bastante biográfica, falar de temas como preconceito e HIV. Mesmo
que outras também valham menção, como Up at bat, escrito por Jadzia Axelrod,
que acompanha Alysia, mulher trans, presente em histórias da Batgirl.
A história de Superman é tão mediana, em nossa leitura, que ficou bastante
parecida inclusive com a história dedicada à personagem Robin, Tim Drake.
Eis o que estamos apontando aqui: em vez de ficarmos contentes apenas com o
elemento novo da representatividade, pois é indiscutível um ganho ter edições
especiais para comemorar o orgulho LGBTI+, não deixemos que isso torne menos
visível o elemento crítico que podemos ter, diante do conteúdo que, como vemos,
nos soa pouco corajoso e propositalmente mediano.
Claro, tudo isso passa pelo prisma de uma perspectiva subjetiva, mas aqui
estamos falando de uma leitura com todo um aporte sobre quadrinhos. É disso
que terminamos por elencar, como conceitos válidos para tal análise, os termos
conservadorismo e kitsch.
Queer é sobre estar fora dos padrões, fora das normas, envolve assim uma
rebeldia; em outros termos, faltou tal história ser mais queer. Queer nos remete, por

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exemplo, ao Marquês de Sade ou ao Glauco Mattoso (2006), e aqui quadrinhos


de super-heróis podem remeter exatamente ao recatado, ao padronizado, ao
conservador. Mas, para avançarmos, precisamos explicar o que estamos definindo
como conservadorismo e kitsch. Antes então de explicarmos o conceito, que
estamos propondo, de kitschbaiting.
Como é sabido o conservadorismo, enquanto um conceito, pode ser lido
como uma corrente política ou uma disposição. A corrente política conservadora
se volta para autores como Edmund Burke e o debate político do século XVIII
inglês, mas este não é o único sentido do termo. Autores como Michael Oakeshott
trabalham mais com o conservadorismo enquanto uma disposição, assim o
conservadorismo seria uma tendência para manutenção de certas formas, preferir
o familiar ao novo, não sendo uma tendência tão exclusivamente política, por isso
é possível falar de conservadorismo estético. Sendo que o conservador não é um
imobilista ou um reacionário, ele acredita que mudanças são inevitáveis, então as
questões envolvem quais são as mudanças necessárias e a própria velocidade de
tais mudanças (Paiva, 2019, 2021a).
O conservadorismo estético, se adotarmos parcialmente uma perspectiva 165
de Scruton (2015), busca o belo, mesmo que não haja uma noção final do que seja
o belo. Assim artes que buscam elementos outros, vide Marcel Duchamp com
seu A fonte, causam uma irritação aos defensores da estética conservadora. Em
que, nessa perspectiva, nem tudo pode ser arte, pois isso tiraria o próprio valor
da arte. A arte até pode ser encontrada em objetos rudes, decadentes, dolorosos,
mas a arte apontaria exatamente para outra forma do ser, como os poemas de T.
S. Eliot, obras que abordam o rude e o sórdido, mas com palavras que ressoam
seu contrário. Todavia hoje o mundo teria perdido essa perspectiva redentora, de
se voltar ao belo. Assim um conservadorismo estético está criticando o artístico
como o valor do choque ou estranhamento, por exemplo. E nisso está uma, óbvia,
falta de queer nessa perspectiva conservadora.
Uma arte que pode oferecer o belo, harmônico, saudável. Contudo não
provoca, não questiona muito certas formas, eis que o conservadorismo estético
pode ser muito associado ao que for clássico em estética, sendo no máximo um
reformista, pois não é imobilista. E é exatamente assim que podemos ler Super pride,
tirando o elemento LGBTI+, é uma história profundamente defensora da forma
ilustrativa e narrativa. Não provoca, não questiona. Mas ela não é só conservadora;

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ela, em seu exagero – de felicidade, de cores, de beleza, de juventude –, nos leva


ao outro elemento, ao kitsch.
Kitsch é um termo alemão, como Scruton (2015) mostra, que não se
originou para se falar de estética, mas de fé, sendo uma doença da fé. Em termos
de estética, Merquior (2015, p. 44-45) aponta como o kitsch se relaciona com
espetáculos, obras ou objetos de mau gosto, franca ou tacitamente comerciais,
contudo com uma pretensão de valores vistos como sublimes, logo um cafona
inconsciente. Algo comparável ao termo cursi, espanhol.
Eis o risco de tal história do Superman: por ela ter uma boa pretensão,
que se soma ao fácil estético do belo, harmônico, jovem, de rápido consumo etc.,
ela pode simplesmente nublar o fato de que é cafona, ruim. Não é novidade, há
toda uma corrente nas discussões estéticas falando como a arte deve provocar um
estranhamento, criando formas difíceis, quebrando o estrato do costume, como é
o caso de Chklovski (Merquior, 1991, p. 37).
Nisso propomos o conceito de kitschbaiting, uma soma entre os termos
kitsch e queerbaiting, para se falar de tal tipo de manifestação, existente na história
de Superman. Como definiríamos o kitschbaiting? Se o queerbaiting deseja atiçar o
público LGBTI+ com uma promessa que não se cumpre, o kitschbaiting seria seu 166

oposto, um desejo de fisgar o público queer com uma isca excessiva. Sem nenhum
conflito, sem nenhuma torção, sem risco, é algo protocolar, mas exagerado, para
ter representatividade e agradar parcelas de consumidores LGBTI+, porém falta,
reafirmemos, exatamente o queer. Não atiça o interesse estético como uma obra de
Dave McKean ou Frank Miller.

Considerações finais

O presente artigo teve como objetivo investigar, por certo prisma baseado em
uma história das ideias, a relação entre a comunidade LGBTI+ e o mundo dos
quadrinhos, para empreendermos uma análise sobre uma história selecionada da
editora DC Comics.
Em termos de representação da comunidade LGBTI+, ao longo do tempo,
houve categorias que poderíamos idealmente marcar os quadrinhos. Indo de certa
representação velada, o queer coding, passando por uma representação aberta em
histórias mais adultas, até surgirem, atualmente, categorias que abordavam tais
questões LGBTI+ de modos abertos em selos grandes.

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Sobre a história de Superman, selecionada, terminamos por constatar um


resultado mediano. Não acrescentava nada muito interessante, para além da questão
LGBTI+, o que nos leva para uma associação de tal história com uma representação
central da questão, todavia ainda permeada de elementos conservadores em estética,
que em seu excesso de busca por representatividade, fácil, envolve um elemento
kitsch. Assim terminou esse gibi por nos ajudar na criação de um conceito oposto
ao do queerbaiting, o kitschbaiting. Uma representação excessiva, sem coragem e
fácil da comunidade LGBTI+. Uma representação que perde exatamente um dos
elementos mais importantes do queer, a estranheza, o deslocamento.
O único elemento realmente novo da história comentada é uma capa
comemorativa da personagem Superman, que não funcionou para nós. Superman
enquanto um produto, e um dos maiores produtos da editora, pareceu arriscar
pouco aqui. Continua, em certos aspectos, uma engrenagem do status quo e sem
ameaçar certos padrões de gênero. Nisso a leitura que Frank Miller (2011) deu
ao personagem, ao problematizar seu apoio ao governo americano, nos soa bem
mais queer do que esse Superman jovem, esguio, definido, que beija outro menino.
Sendo esse apenas um dos muitos exemplos possíveis de mudanças e respiros no 167
mundo de quadrinhos de super-heróis, no que tange ao que foi produzido na
língua inglesa, e feito ou vendido para o público americano. Jon Kent parece
certas peças de casas de moda de luxo, as quais ficam apenas repetindo o estilo da
marca com pequenas variações.
Aguardemos, por exemplo, os artistas que vão colocar Batman e Robin
como um casal canônico dentro do universo DC, finalmente consolidando o que
foi pânico moral em outra época. Aguardemos um Superman que use maquiagem
e peças de roupa, vistas como, femininas. E isso sem um efeito cômico.
Nosso presente estudo não é uma análise final sobre o assunto, muito mais
poderia ser dito, e o exercício interpretativo presente não inviabiliza, em nada,
outras análises sobre o material comentado.

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aos produtos das gigantes de tec
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Assim, o presente dossiê “Inte
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A discussão sobre as práticas
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