RESUMO DE DIREITO CONSTITUCIONAL
Sentidos de Constituição
● Na concepção de Canotilho, a Constituição ideal tem viés liberal,
possuindo as seguintes características:
○ Deve ser escrita;
○ Deve conter um sistema de direitos fundamentais individuais
(liberdades negativas);
○ Deve consagrar o princípio da separação de poderes;
○ Deve adotar um sistema democrático.
● Sentidos de Constituição:
○ Sentido sociológico (Ferdinand Lassalle): A Constituição é a soma
dos fatores reais de poder que vigoram na sociedade. A Constituição
escrita é mera “folha de papel”, e somente será eficaz e duradoura
caso reflita os fatores reais de poder da sociedade;
○ Sentido político (Carl Schmitt): A Constituição é a decisão política
fundamental que visa estruturar e organizar os elementos essenciais
do Estado. Não se pode confundir “Constituição” com as “leis
constitucionais”.
○ Sentido jurídico (Hans Kelsen): A Constituição é norma jurídica pura.
No sentido lógico-jurídico, a Constituição é a “norma hipotética fundamental”.
No sentido jurídico-positivo, a Constituição é a norma positiva (escrita) suprema.
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A norma hipotética fundamental serve como fundamento de validade da
Constituição positiva.
○ Sentido cultural (Meirelles Teixeira): O Direito só pode ser entendido
como objeto cultural, sendo produto da atividade humana. No
sentido cultural, chega-se ao conceito de “Constituição total”.
Conceito de Constituição
A concepção de constituição ideal foi preconizada por J. J. Canotilho. Trata-se de
constituição de caráter liberal, que apresenta os seguintes elementos:
a) Deve ser escrita;
b) Deve conter um sistema de direitos fundamentais individuais
(liberdades negativas);
c) Deve conter a definição e o reconhecimento do princípio da separação
dos poderes;
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d) Deve adotar um sistema democrático formal.
Note que todos esses elementos estão intrinsecamente relacionados à limitação
do poder coercitivo do Estado.
Estrutura das Constituições
As Constituições, de forma geral, dividem-se em três partes: preâmbulo, parte
dogmática e disposições transitórias.
O preâmbulo é a parte que antecede o texto constitucional propriamente dito.
Tem como função definir as intenções do legislador constituinte, proclamando os
princípios da nova constituição e rompendo com a ordem jurídica anterior.
Segundo o Supremo Tribunal Federal, o preâmbulo não é norma constitucional.
Portanto, não serve de parâmetro para a declaração de inconstitucionalidade e
não estabelece limites para o Poder Constituinte Derivado, seja ele Reformador
ou Decorrente. Por isso, o STF entende que suas disposições não são de
reprodução obrigatória pelas Constituições Estaduais. Segundo o STF, o
Preâmbulo não dispõe de força normativa, não tendo caráter vinculante2 .
Apesar disso, a doutrina não o considera juridicamente irrelevante, uma vez que
deve ser uma das linhas mestras interpretativas do texto constitucional.
A parte dogmática da Constituição é o texto constitucional propriamente dito,
que prevê os direitos e deveres criados pelo poder constituinte.
Por fim, a parte transitória da Constituição visa integrar a ordem jurídica antiga
à nova, quando do advento de uma nova Constituição, garantindo a segurança
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jurídica e evitando o colapso entre um ordenamento jurídico e outro.
Elementos das Constituições
a) Elementos orgânicos: compreendem as normas que regulam a
estrutura do Estado e do Poder. Exemplos: Título III (Da Organização do Estado) e
IV (Da Organização dos Poderes e do Sistema de Governo).
b) Elementos limitativos: compreendem as normas que compõem os
direitos e garantias fundamentais, limitando a atuação do poder estatal. Os
direitos sociais, que são aqueles que exigem prestações positivas do Estado em
favor dos indivíduos, não se enquadram como elementos limitativos. Exemplo:
Título II (Dos Direitos e Garantias Fundamentais), exceto Capítulo II (Dos Direitos
Sociais).
c) Elementos socioideológicos: são as normas que traduzem o
compromisso das Constituições modernas com o bem-estar social. Tais normas
refletem a existência do Estado social, intervencionista, prestacionista. Exemplos:
Capítulo II do Título II (Dos Direitos Sociais), Títulos VII (Da Ordem Econômica e
Financeira) e VIII (Da Ordem Social).
d) Elementos de estabilização constitucional: compreendem as normas
destinadas a prover solução de conflitos constitucionais, bem como a defesa da
Constituição, do Estado e das instituições democráticas. São instrumentos de
defesa do Estado, com vistas a promover a paz social. Exemplos: art. 102, I, “a”
(ação de inconstitucionalidade) e arts. 34 a 36 (intervenção).
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e) Elementos formais de aplicabilidade: compreendem as normas que
estabelecem regras de aplicação da constituição. Exemplos: preâmbulo,
disposições constitucionais transitórias e art. 5º, § 1º, que estabelece que as
normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação
imediata.
Classificações das Constituições
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Aplicabilidade das Normas Constitucionais
● Doutrina norte-americana: As normas constitucionais podem ser
consideradas normas autoexecutáveis (podem ser aplicadas sem a
necessidade de complementação) ou normas não-autoexecutáveis
(dependem de complementação legislativa).
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● Doutrina do Prof. José Afonso da Silva:
○ Normas de eficácia plena: São autoaplicáveis, mas não restringíveis.
Possuem aplicabilidade direta, imediata e integral.
○ Normas de eficácia contida: São autoaplicáveis e restringíveis.
Possuem aplicabilidade direta, imediata e possivelmente
não-integral.
(*) Como exemplo de norma de eficácia contida, citamos o art.
5o, XIII, CF/88 (“é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou
profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei
estabelecer”)
○ Normas de eficácia limitada: São não-autoplicáveis, isto é,
dependem de regulamentação para produzir todos os seus efeitos.
Possuem aplicabilidade indireta, mediata e reduzida.
(*) As normas de eficácia limitada podem ser de dois tipos: i)
normas declaratórias de princípios institutivos ou organizativos
ou; ii) normas declaratórias de princípios programáticos.
(*) As normas de eficácia limitada produzem efeitos jurídicos.
São dois os tipos de efeitos: i) efeito negativo e; ii) efeito
vinculativo.
(*) Quando uma norma de eficácia limitada não é
regulamentada, surge uma “omissão inconstitucional”, que
pode ser combatida por meio de mandado de injunção ou de
ADO (Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão).
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(*) O direito de greve dos servidores públicos é norma de
eficácia limitada. O direito de greve dos celetistas é norma de
eficácia contida.
Hierarquia das Normas
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Poder Constituinte
Poder constituinte originário (poder constituinte de primeiro grau ou genuíno) é
o poder de criar uma nova Constituição. Apresenta 6 (seis) características que o
distinguem do derivado: é político, inicial, incondicionado, permanente, ilimitado
juridicamente e autônomo.
a) Político: O Poder Constituinte Originário é um poder de fato (e não um poder
de direito). Ele é extrajurídico, anterior ao direito. É ele que cria o ordenamento
jurídico de um Estado. Pode-se afirmar, portanto, que o Poder Constituinte
Originário é uma categoria pré-constitucional, que dá fundamento de validade a
uma nova ordem constitucional.
(*) Cabe destacar que os jusnaturalistas defendem que o Poder
Constituinte seria, na verdade, um poder de direito. A visão de que
ele seria um poder de fato é a forma como os positivistas enxergam
o Poder Constituinte Originário. Cabe destacar que a doutrina
dominante segue a corrente positivista.
b) Inicial: O Poder Constituinte Originário dá início a uma nova ordem jurídica,
rompendo com a anterior. A manifestação do Poder Constituinte tem o efeito de
criar um novo Estado.
c) Incondicionado: O Poder Constituinte Originário não se sujeita a qualquer
forma ou procedimento predeterminado em sua manifestação.
d) Permanente: O Poder Constituinte Originário pode se manifestar a qualquer
tempo. Ele não se esgota com a elaboração de uma nova Constituição, mas
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permanece em “estado de latência”, aguardando um novo chamado para
manifestar-se, um novo “momento constituinte”.
e) Ilimitado juridicamente: O Poder Constituinte Originário não se submete a
limites determinados pelo direito anterior. Pode mudar completamente a
estrutura do Estado ou os direitos dos cidadãos, por exemplo, sem ter sua
validade contestada com base no ordenamento jurídico anterior. Por esse
motivo, o STF entende que não há possibilidade de se invocar direito adquirido
contra normas constitucionais originárias.
O Poder Constituinte Derivado (poder constituinte de segundo grau) é o poder
de modificar a Constituição Federal bem como de elaborar as Constituições
Estaduais. É fruto do poder constituinte originário, estando previsto na própria
Constituição. Tem como características ser jurídico, derivado, limitado (ou
subordinado) e condicionado.
a) Jurídico: é regulado pela Constituição, estando, portanto, previsto no
ordenamento jurídico vigente.
b) Derivado: é fruto do poder constituinte originário
c) Limitado ou subordinado: é limitado pela Constituição, não podendo
desrespeitá-la, sob pena de inconstitucionalidade.
d) Condicionado: a forma de seu exercício é determinada pela
Constituição. Assim, a aprovação de emendas constitucionais, por exemplo, deve
obedecer ao procedimento estabelecido no artigo 60 da Constituição Federal
(CF/88).
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O Poder Constituinte Derivado subdivide-se em três:
i) Poder Constituinte Reformador;
ii) Poder Constituinte Decorrente; e
iii) Poder Constituinte Revisor.
O primeiro consiste no poder de modificar a Constituição. Já o segundo é aquele
que a CF/88 confere aos Estados de se auto-organizarem, por meio da
elaboração de suas próprias Constituições.
Em nosso mundo globalizado, fala-se hoje em um poder constituinte
supranacional. Atualmente, tal modalidade de poder constituinte existe na União
Europeia, onde vários Estados abriram mão de parte de sua soberania em prol de
um poder central. É a manifestação máxima daquilo que se chama direito
comunitário, reconhecido como hierarquicamente superior aos direitos internos
de cada Estado.
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