0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 99 visualizações44 páginasBYCK, R. Freud e A Cocaina-2
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FREUD
E A COCAINA
NOTAS DESTA EDIGAO
ANNA FREUD
ORGANIZAGAO EK INTRODEGAO
DR. ROBERT BYCK
TRADUCAD PARA O PORTUGUES
CLAUDIA MARTINELLI
EE MAURO GAMAm 1884, algum tempo apés a introdugao da cocaina nos Estados Uni-
E dos e na Europa, Sigmund Freud se interessou por seus efeitos & pro-
priedades. Examinou a literatura publicada a respeito para descobrir 0
que se conhecia acerca da drogaeem seguida empreendeu uma série de inves-
tigagdes experimentais sobre seus efeitos no homem. Tornou-se um entusiasta
usuario, e tentou empregar a cocaina para fazer cessar o vicio da morfina em
Emst von Fleischl-Marxow, seu amigo. As conseqiiéncias desastrosas dessa
experiéncia € as comtrovérsias subseqiientes — tanto sobre a utilizagao da
cocaina nesse tratamento quanto a paternidade da descoberta da cocaina como
anestésico local — levaram-no a interromper maiores investigagdes sobre
seus efeitos principais, embora tenhamos conhecimento, através de A inter-
pretacdo dos sonhos, de que Freud ainda utilizava a droga em 1895.
E bem conhecida a existéncia de trabalhos de Freud sobre a cocaina. No
entanto, poucos leitores contemporaneos tiveram oportunidade de examinar
qualquer desses ensaios, a despeito das muitas descrigées entusidsticas em
seus comentarios iniciais. Excetuando-se uma traducao isolada de Uber Coca
(Sobre a coca), publicada com @ titulo de Coca no The Saint Louis Medical
and Surgical Journal, em dezembro de 1884, os trabalhos nao estavam dispo-
niveis em inglés e se encontravam dispersos na prolixa literatura alema da
década de 1880. Em 1963 eles foram traduzidos para 0 inglés, lidos minucio-
samente pelo tradutor de Freud, James Strachey, e publicados em Viena pela
editora Dunquin.! Até onde pude verificar, foi essa a primeira vez que os
ensaios apareceram sob tal forma. No entanto, devido a pouca divulgagao da
edigao, eles estavam novamente fadados a desaparecer — nem mesmo a hist6-
Tica biblioteca da Faculdade de Medicina de Yale inclui em seu catdlogo a edi-
¢ao da Dunquin, The Cocaine Papers.
Quando i Os ensaios pela primeira vez, percebi de imediato que eles con-
firmavam Sigmund Freud como um dos fundadores da psicofarmacologia.
Entreguei uma c6pia de Sobre a coca ao Dr. J.M. Ritchie, ex-presidente do
Departamento de Farmacologia de Yale e autor da seg’o sobre cocaina do
classico The Pharmacological Basis of Therapeutics, de Louis Goodman e
Alfred Gilman.? Sua rea(ao imediata foi de que se tratava de [Link]
brilhante, tio atual hoj é fp 3 Caer
ay loje quanto na época em que foi publicada pela primeira
a" FREUD E A COCAINA
No passado, 0 interesse centrava-se em dois aspectos do envolvimento de
Freud com a cocaina: primeiro, a questo do pioneirismo na descoberta da
anestesia local; segundo, a ‘equivocada’ defesa que ele fez da droga como um
remédio universal ou panacéia. Ambos foram exaustivamente abordados na
biografia de Emest Jones — Vida e obra de Sigmund Freud —, na andlise
critica de Siegfried Bernfield ¢ na sintese de Hortense Koller Becker, esta
envolvida pessoalmente na hist6ria, pois diz respeito a seu pai, Karl Koller, €
& descoberta que ele fez do uso da cocaina como anestésico local. Esses trés
manuscritos s4o publicados neste livro, junto com cartas particulares de Freud
€ outros textos sobre cocaina, (extraidos do Estudo autobiogrdfico e de A
interpretagao dos sonhos), a fim de proporcionar um completo pano de furdo
hist6rico e humano para os trabalhos cientificos, todos eles inclufdos na fnte-
gra. A relagdo entre o uso da cocaina por Freud eo desenvolvimento da
psicandlise foi discutida por Von Schdeit numa abordagem recente.”
Ensaios sobre a cocaina &, portanto, um relato completo do envolvimento
de Freud com a cocaina e um comentario sobre um segmento da histéria mé-
dica bastante conhecido mas pouco compreendido. E também, necessaria-
mente, a hist6ria do alcaldide cocaina, desde a primeira vez que foi isolado da
folha da coca, em 1855, até o final do século XIX. A partir dai, a histéria da
cocaina como droga centralmente ativa se transfere para o Ambito da lei, da
sociologia e do abuso das drogas. Hoje em dia, a cocaina foi amplamente
suplantada pelos anestésicos sintéticos de uso local e o interesse cientifico
focaliza basicamente sua acdo bioquimica e seus efeitos excitantes sobre o
sistema nervoso central. Assim sendo, eu gostaria de concentrar aqui a aten-
¢4o na contribui¢éo de Freud a psicofarmacologia, largamente desconside-
rada, € no prolongado ocultamento dos efeitos centrais da cocaina.
O uso de drogas para obtengao de efeitos euforizantes e psicodélicos tem
sido registrado desde os primérdios da hist6ria. A Biblia e os mitos heréicos
contém numerosas referéncias a substancias Psicotrépicas. Duas fontes fasci-
nantes para leitura ulterior sobre esse aspecto s4o a notavel Phantastica,' de
Louis Lewin, contempordneo ¢ adversdrio de Freud, ¢ a publicagao do Insti-
tuto Nacional de Satide Mental dos EUA, The Ethnopharmacological Search
for Psychoactive Drugs (1967).5
A hist6ria da psicofarmacologia (termo cunhado em 1920 pelo farmacolo-
gista norte-americano David Macht) se expandiu por dois caminhos de pes-
quisa: sobre drogas que poderiam modificar o raciocinio e © comportamento
normais, € sobre a minoracao de doengas mentais por meio de drogas, Sao
Pesquisas necessariamente inter-relacionadas, pois ambas tém como axioma
bdsico a natureza fisica ou bioquimica das enfermidades do pensamento. Até
que houvesse sido sintetizada uma teoria abrangente da psicologia evolutiva,
a idéia de causas “orginicas” para a doenga mental era a tinica concep¢aioINTRODUGAO 5
possivel. Freud, naturalmente, é mais lembrado por suas monumentais contri-
buigdes & teoria psicoldégica, mas, j4 que agora parece provavel que as teorias
psicolégicas e biolégicas da doenga mental venham a coexistir, € particular
mente oportuno apreciar sua contribuigao bioldgica.
A idéia de que uma droga sedativa pudesse ser util no tratamento da
doenga mental é bastante antiga, e Freud observa, em Sobre a coca: “E fato
bem notério que os psiquiatras t¢m a sua disposigao um amplo suprimento de
drogas para recluzir a excitagdo dos centros nervosos, mas nenhuma que
pudesse servir para aumentar o funcionamento reduzido dos nervos centrais”.
Ele descreve as experiéncias de Morselli e Buccola com cocaina no tratamen-
to da melancolia, cxperiéncias essas que tiveram pouco sucesso, e em seguida
afirma que “a cficdcia da coca em casos de debilidade nervosa e psiquica
Tequer investigacao mais ampla”. Noventa anos depois, essa afirmagao ainda
é valida.
Em 1845, J.J. Moreau de Tours apresentou uma teoria abrangente da psi-
cose com base num padrao de intoxicagao por haxixe. Esse trabalho, tra-
duzido apenas recentemente (1973), foi o precursor das psicoses ‘tipicas’da
mescalina e LSD, também apresentadas como protétipos para uma teoria
toxica ou organica da psicose. Embora em niveis mais elevados de dosagem a
cocaina possa produzir uma psicose parandica; Freuc — pelo menos a época
de seus estudos — nio percebeu a importancia desse efeito. Em carta a Sandor
Ferenczi, datada de 1916, ele de fato observou (ue a cocaina, “se tomada em
excesso”, podia produzir sintomas parandicos, e que a suspensdo da droga
podia ter o mesmo efeito. (Em seguida, acrescentou que, de modo geral, os vi-
ciados nao se adequavam muito bem a psicandlise, porque qualquer retroces-
so ou dificuldade na terapia levava a nova recorréncia A droga. Freud estava,
naturalmente, interessado em encontrar um tratamento para a psicose e a
depressdo, sendo este um dos motivos para o seu interesse pela cocaina; mas
ficou a cargo dos autores modernos, ao descreverem a psicose por anfetami-
nas, propor 0 efeito psicotogénico da cocaina como um modelo para psicoses
de ocorréncia espontanea. A cocaina é de essencial interesse porque seus efei-
tos podem servir como um modelo de doenca e também porque ela poderia
servir como um modelo para tratamento.
Mas a importancia de Freud na hist6ria da, psicofarmacologia nao reside
apenas em sua elegante andlise da literatura disponivel e em suas sugestdes de
terapia, conforme apresentadas em Sobre a coca. Mais Significativo ainda 6 0
breve ensaio Uma contribuicdo ao conhecimento do efeito da cocaina, publi-
cado em janeiro de 1885, que confirma o seu papel como um dos fundadores
da modema psicofarmacologia.
O primeiro ponto importante & que, apés tomar conhecimento de uma
droga com propriedades farmacoldgicas singulares, Freud nao se limitou
simplesmente a analisar as experimentacdes com homens e animais até entiioone e oma at A we ow a a DO ht fie
ca amr
6 FREUD E A COCAINA
conduzidas, Em vez disso, empreendeu imediatamente a ie
propriedades farmacolégicas da substancia. Na realidade, a e eata da 00:
da varios anos antes. Em 1880, Von Anrep investigara a hati es is
caina em experiéncias com animais, Freud, porém, wal ies ne am si
tAncia purificada ¢ fez registros meticulosos de suas Se et iaeates
mesmo. Utilizou os mais sofisticados instrumentos de medica ced
para obter as medidas psicofisidlogicas da forma mais om possi ei a
seguida correlacionou-as em sincronia com alteragdes, cuit ce het
critas, de humor e percepgao ocorridas durante a a¢ao da droga. ae
riéncias determinaram a dosagem correspondente a evolugao da ag: . eae ea
no tempo — uma relagdo crucial para a experimentagao em ed fag pa
A comparagdo com os relatos de quaisquer experiéncias m Seceas
drogas psicoativas, incluindo as realizadas com LSD, mescalina ¢ ou! ea
postos psicodélicos, indica que 0 ensaio de Freud estabeleceu uma a 0
para a descrigao de substancias com propriedades psicoativas. O mais Col
cido dos experimentadores modernos talvez seja Albert Hoffman, que desco-
briu em 1943 os efeitos centrais da dietilamida do Acido lisérgico (LSD). Apés
ingerir acidentalmente uma pequena quantidade de LSD, Hoffman tomou-o
deliberadamente e descreveu os efeitos assim:
Resolvi conduzir algumas experiéncias em mim mesmo com @ substancia em
questo. Comecei com a menor dose de que se poderia esperar algum efeito, isto 6,
0,25mg de LSD. As anotacdes em meu didrio de laboratério so as seguintes:
19 de abril de 1943: preparo uma solugo aquosa a 0,5% de tartarato de dietilamida
de Acido lisérgico.
16h20m: ingestao de 0,5cc (0,25mg de LSD). A solugio é insfpida,
16h50m: nenhum sinal de efeito.
17h: leve tontura, inquietagao, dificuldade de concentragio, perturbagGes visuais,
acentuado desejo de rir...
Nesse ponto, as anotagGes de laboratério se interrompem. As tiltimas palavras fo-
ram escritas com grande dificuldade. Pedi a meu assistente de laborat6rio que me
acompanhasse até chegar em casa, pois acreditava que teria uma repeti¢ao dos dis-
hirbios da sexta-feira anterior. Enquanto pedalévamos de volta para casa, no entanto,
ficou claro que os sintomas eram muito mais fortes do que da primeira vez. Sentia
grande dificuldade para falar coerentemente, meu campo de visio oscilava a minha
frente, e os objetos pareciam distorcidos como imagens em espelhos curvos. Tinha a
impressio de ser incapaz de sair do lugar,
se que haviamos pedalado a boa velocida
médico.
embora mais tarde meu assistente me disses-
de (...) Assim que cheguei em casa, chamei 0
__ Quando ele chegou, o pice da crise jé havia passado. Pelo que consigo lembrar, os
sintomas mais evidentes foram os seguintes: vertigem, distirbios visuais; os rostos das
Pessoas 4 minha frente pareciam méscaras Brotescas e coloridas; inquietag3o motora
acentuada alternado-se com paralisia; uma sensagio intermitente de Peso na cabeca,
nos membros e em todo a corpo, como se estivi:ssem cheios de chumbo; sensagio de.INTRODUGAO .
securae constricgdo na garganta; impressdo de sufocamento;
tninha condigdo, cujo estado eu as vezes observava como se fosse um observador nev-
tro e independente, vendo-me gritar meio loucamente ou balbuciar palavras incoeren-
tes. De vez em quando, tinha a impressio de estar fora do meu corpo.
O médico achow o pulso bastante frico, porém a circulagio, de resto, normal. (..)
Seis horas apds a ingestio de LSD, meu estado jé melhorara consideravelmente. Ape-
nas os distirbios visuais ainda eram pronunciados. Tudo parecia balangar, € as propor-
ges estavam distorcidas como reflexos na superficie da égua em movimento. Além
disso, todos os objetos apresentavam cores desagradéveis e constantemente mutiveis,
sendo o verde e 0 azul pilido predominantes. Quando fechavaos olhos, uma infindével
série de imagens coloridas, muito realistas e fantésticas, surgia para mim. Um aspecto
notivel era o modo como todas as percepgées actsticas (por exemplo, o rufdo de um
carro passando) se transformavam em efeitos épticos, cada som suscitando uma alu-
cinagio colorida correspondente, que mudava sempre de forma e cor, como imagens
em um caleidoscépio. Por volta de uma hora adormeci, e acordei na manha seguinte
sentindo-me perfeitamente bem.”
A anilise desta passagem mostra muitas semelhangas de estilo com as
descrigdes de Freud sobre os efeitos da cocaina. Hoffman, como Freud, con-
serva uma percepedo atenta do que Ihe estava acontecendo, pormenorizando
08 efeitos psicolégicos ao longo de um periodo de tempo definido. Natural- :
mente, Hoffman estava também seguindo o exemplo de J.J. Moreau de Tours
no relato de intoxicagdes experimentais. Em 1967, Holmstedt assim descre-
veu as experiéncias de Moreau em 1845:
Nio se pode fazer nenhuma critica aos seus métodos de investigagao. O proprio
Moreau tomou haxixe. Sracas & propriedade peculiar da substincia, de manter intactos
“a consciéncia e o sentimento mais intimo” do usuério, ele pode analisar todas as suas
impressdes e, de certa forma, perceber a desorganizacio de todas as suas faculdades
mentais. Com o fim de completar essa observagio interior de si mesmo, também in-
cumbiu as pessoas & sua volta de anotar cuidadosamente suas palavras, agGes, gestos €
a expresso do rosto. Os resultados foram muito caracteristicos. Justificaram plena-
mente o nome de “fantasia”, que a imaginacio oriental dé & intoxicagao com kif, uma a
das muitas denominagées do haxixe. Além disso, Moreau desejava “controles com
outras pessoas". Recorreu aos seus alunos e eles, com animada curiosidade, se presta-
t Tam a experiéncias com haxixe nas mais variadas doses, fornecendo descrigdes
precisas do que sentiam. Moreau observava com escrupuloso cuidado cada sintoma
(extemo) durante o decorrer da intoxicagao. As duas séries foram comparadas, ¢ |
evidenciou-se inteira conformidade® |
A descoberta da anfetamina — droga muito semelhante A cocaina em seus
efeitos centrais — admite comparag’o com a experiéncia de Freud. Em 1935
Gordon Alles estava interessado em desenvolver um composto oralmente efi.
caz, semelhante & efedrina, droga utilizada no tratamento das alergias. Mais
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8 FREUD E A COCAINA
uma vez, como parte da longa tradi¢Zo, ingeriu cada um dos compostos que
elaborava, a fim de estudar seus efeitos centrais. E declarou:
Para avaliar a atividade do sistema nervoso central, confiava basicamente em
observagSes subjetivas dos efeitos de vigilia e auséncia de sono percebidos em mim
mesmo.(...) A efedrina erao principal padrao de referéncia para atividades simpatomi-
méticas orais. Passei portanto a tomar dosagens relacionadas aos efeitos da efedrina
que en jf conhecia em mim mesmo, principalmente porque, naquela época, estava in-
teiramente bem ajustado a doses de 50mg de efedrina e a doses semelhantes de anfe-
tamina?
Alles ingeriu muitos compostos relacionados com a anfetamina. Eis sua
descrig’io de uma dessas experiéncias:
Para avaliar os efeitos de 3,4-metilenedisxido-anfetamina, tomei 0,4mg/kg de cl
tidrato por via oral. Era uma dosagem total de 36mg. Nas duas horas subsequlentes, no
observei qualquer alterago digna de nota na pressio arterial ou no ritmo cardiaco ¢,
subjetivamente, no senti nada compardvel aos efeitos da anfetamina no mesmo
perfodo de tempo. Em conseqténcia, aumentei a dosagem e passei a tomar, apés duas
horas, uma dose de Img/kg, ou um total de 90mg adicionalmente. Em poucos minutos,
percebi que isso resultaria numa reag%o subjetiva importante: logo comecei'a me sentir
diferente, Em vinte minutos, 0s niveis sist6lico e diast6lico da pressio arterial haviam
atmentado cerca de 25mm, ocorreu ressecamento do nariz ¢ da gargants, ¢ fiquei
subjetivamente atento. Desenvolveu-se uma sensagio de agitag0, com certo tremor
muscular, semelhante a0 que se segue a uma dosagem adequada de epinefrina (cerca
de Img), injetada por via intramuscular. =
Quarenta minutos apés a segunda dosagem de sal de metilenediéxido-anfetamina,
estando eu sentado sozinho, sem fumar, em uma sala onde nao havia qualquer fonte
possivel de anéis de fumaca, observei grande quantidade de anéis cinzentos ¢ espirala-
dos no ambiente, sempre que adotava uma atitude relaxada para a observagao sub;
va. Para a vista eles eram totalmente reais, e parecia de todo desnecessério testar suas
propriedades, porque sabia com certeza que a fonte desses fenémenos visuais nio
podia ser exterior a0 corpo.
Quando concentrava a atengio nos detalhes dessas formas cinzentas ¢ espiraladas,
tentando observar como seriam afetadas pela passagem de um dedo através de seu
campo aparente, elas se dissipavam. Entio eu relaxava novamente, ¢ os anéis de
fumaca reapareciam. Tinha tanta certeza de que eles estavam realmente ali como tenho
certeza agora de que minha cabega est sobre meu corpo.
‘Oato de andar exigia concentrago incomum c era companhado de uma percepgao
subjetiva da particularidade do movimento muscular, bem como de uma sensagao de
instabilidade. De vez em quando, os misculos do meu pescogo ficavam acentuada-
mente retesados, e eu tendia a cerrar os maxilares ¢ ranger os dentes posteriores. Em
momento algum houve dor de cabeca. Minhas gengivas estavam brancas e contrafdas.
‘As pupilas se mostravam acentuadamente dilatadas, ¢ eu podia perceber, em grat
extraordinério, detalhes de objetos situados a distancia. A acomodagio visual, no en-INTRODUGAO 9
tanto, tornou-se mais l:nta. As artérias co fundo do olho estavam extremamente con-
trafdas. Cores alucinatérias nao foram observadas sob forma alguma, nem ocorreu
qualquer alteragio relativa notdvel na observacio das cores do ambiente. Havia uma
sensago subjetiva de pressio nos ouvidos. As percepgies sonoras ficaram excepcio-
nalmente claras ¢ evidentes. Sons menores, tais como o arrastar de sapatos quando as
pessoas andavam, eram claramente distingufveis, mesmo a grande distancia e na
presenga de um segundo plano mais barulhento, como os rufdos de bondes e outros
sons do tréfego.
Por essas descrigdes, podemos ver que, embora Freud possa ter sido um
dos primeiros investigadores a avaliar cientificamente os efeitos de uma droga
sobre si mesmo ¢ a descrever os seus sintomas centrais, ele ndo foi de modo
algum o tiltimo. Esse método é tradicional em todo 0 estudo cientifico de dro-
gas psicoativas. Mas, ao mesmo tempo, Freud estava perfeitamente ciente da
fragilidade de algumas de suas experiéncias. Ele assinalou:
Percebo que, para a pessoa empenhada em conduzi-las, essas auto-observages
tém a deficiéncia de requerer dois tipos de objetividade para a mesma coisa. Tive de
agir dessa maneira por motivos alheios & minha vontade e porque nenhuma das pessoas
& minha disposigdo tinha tais reagdes regulares & cocaina.
Aqui, a perspicacia cientifica de Freud é evidente por sua selecdo de um
Sujeito treinado para fazer as observacdes, mesmo que.o sujeito fosse ele
proprio. Primeiro, o observador deve ser um relator objetivo dos sintomas e,
segundo, um intérprete objetivo do relato. O principio do uso de observadores
treinados nos efeitos das drogas talvez seja melhor exemplificado por uma
série de estudos sobre drogas centralmente ativas realizada no Centro de Pes-
quisas sobre Vicio em Narcéticos, em Lexington, Kentucky (EUA). A fami-
liaridade e a sensibilidade para com as alteragdes produzidas por determinada
droga irdo proporcionar, a longo prazo, uma descrig&o mais acurada da
sindrome psicolégica completa que lhe é caracteristica.
Freud demonstra ter sido um observador bem mais sagaz do que muitos
outros médicos de sua época. Estava certo em sua imediata classificago da
cocaina tanto como um estimulante do sistema nervoso central quanto como
um euforizante. Ao contrério, Schroff, na década de 1880, e Louis Lewin, em
1924, em Phantastica, classificaram-a cocaina exclusivamente entre os
euphorica, “sedativos da atividade mental (...) substancias que reduzem ou
mesmo interrompem as fungdes da emogao e da percepg4o em seu sentido
mais amplo; as vezes reduzindo ou suprimindo, as vezes conservando a
consciéncia, induzindo um estado de conforto fisico e mental”. Lewin incluiu
nesse grupo a morfina, a codefna e a cocaina, promovendo assim uma classi-
ficagdo das drogas psicoativas que foi utilizada na formulagao
norte-americanas sobre narcéticos. Embora, em doses baixas, a cocaina seja10 FREUD E A COCAINA
um euforizante, ela deve ser classificada também, como sabemos agora por
todos os testes farmacolégicos comuns, como um estimulante do sistema ner-
voso central. Lewin catalogou esse grupo como exitaritia, ou estimulantes
mentais, incluindo nele a cafeina, o bétele ¢ outras substancias. A cocaina se
encaixa apropriadamente nesse grupo e, numa classificagao modema das dro-
as psicoativas, é agrupada com a anfetamina e a cafeina.
O tinico estudo experimental de Freud € cuidadoso em sua apresentagao ¢
contém varias observa¢des importantes. Ele afirma corretamente,ao discutir 0
aumento da capacidade motora que observou com a cocaina:
Nao considero que, em si mesma, a ago da cocafna seja direta — possivelmente
sobre o tecido dos nervos motores ou sobre os misculos —, mas indireta, efetuada por
um aumento do estado de bem-estar geral. Dois fatos apdiam este ponto de vista: a
energia muscular aumenta mais obviamente, apés tomar-se cocaina, quando a euforia
da cocaina jé se desenvolveu mas antes que a quantidade total seja absorvida pela
circulagao; a capacidade motora aumenta consideravelmente com a cocaina quando
o estado geral é deficiente e a prépria capacidade motora se acha reduzida. Nesse caso,
08 resultados alcangados sob influéncia da cocaina superam: até mesmo o méximo ve-
Tificado sob condigdes normais.
A observagdo especifica de que a cocaina parecia ter maximo efeito em
uma pessoa cansada corresponde a observac4o moderna dz que a anfetamina
aumenta o desempenho principalmente [Link] cansadas atuando em um
reduzido nivel de desempenho.
Em resumo, 0 ensaio de Freud é lucidamente escrito e pioneiro na aborda-
gem da relac4o critica entre efeito fisiolégico e efeito mental, referente ao pro-
gresso, no tempo, da aco de um estimulante do sistema nervoso central. Esta
contribuic¢ao ao conhecimento do efeito da cocaina € um dos primeiros exem-
plos de ensaio cientifico sobre uma droga psicoativa a estabelecer claramente
esses fatos. Considerada sob esse ponto de vista, a afirmacao de Emest Jones
de que 0 ensaio “tem interesse por ser 0 unico estudo experimental que Freud
chegou a publicar”, ¢ seu comentario posterior de que “a sua apresentagdo
muito diletante mostra que esse nao era o seu verdadeiro campo. As idéias so
muito boas, mas os fatos sdo registrados de modo um tanto irregular e descon-
tolado, que os tomnaria dificeis de corrélacionar as observagées de outra pes-
soa” revelam obviamente estreiteza de visio. O ensaio tem muito mais inte-
Tesse € importancia do que ele percebeu.
Mas a contribui¢aio de Freud a farmacologia nao cessou'com suas obser-
vag6es experimentais. Em um relato transcrito, datado de 9 de agosto de 1885,
Freud, ao opinar sobre a cocaina da Parke, examina a equivaléncia farma-
coldgica de dois diferentes tipos da droga. Interessar-se pela equivaléncia
genérica no ano de 1885 era fato inteiramente excepcional. Os motivos de seu
interesse eram os mesmos que levam a semelhante Preocupagao hoje em dia
aa” at ok ded des ekINTRODUCAO u
—o prego. Ele estava aflito com o custo exorbitante do preparado da Merck
que fora distribuido na Europa. Ao estabelecer a equivaléncia entre a cocaina
da Parke Davis ¢ a da Merck, avaliou sua equivaléncia psicoativa ¢ fez uma
‘ série de experiéncias com animais para demonstrar que, com doses iguais, os
mesmos efeitos eram produzidos. Ao comentar as caracteristicas quimicas das
drogas, ele assinala uma ligeira diferenga de sabor entre os dois preparados. E
significativo que esse relato seja o precursor dos muitos artigos compardveis,
acerca da equivaléncia genérica, na moderna literatura farmacoldgica.
Assim, pode-se dizer que todos os ensaios de Freud sobre cocaina sdo
exaustivos na andlise critica, precisos na experimentagao fisiolégica e psico-
légica, e quase prescientes na consideragao de questdes que se toraram temas
importantes na psicofarmacologia moderna. Talvez este ultimo ponto seja
melhor exemplificado por um exame das teorias atuais sobre a depressdo.
Acredita-se que certas depresses so determinadas biologicamente c re-
sultam de uma anormalidade bioquimica caracterizada por deficiéncia do
neurotransmissor hormonal, norepinefrina, nas extremidades nervosas. Ex-
Posta pela primeira vez por Jacobson, em 1964, essa “teoria catecolaminica da
depressdo” € um dos princfpios centrais da psiquiatria biolégica moderna.
Sabemos agora que uma das formas pelas quais a cocaina exerce sua acdo &
pode causar “‘estimulagao” € impedindo a inibigdo da norepinefrina que é libe-
i rada nas extremidades nervosas, embora isso no explique integralmente a
a¢ao da droga. Um teste importante da teoria catecolaminica da depressio
seria, portanto, experimentar a cocafna no tratamento de pacientes deprimi-
dos, para determinar se ela tem ou nao um efeito antidepressivo.
Do mesmo modo que a anfetamina, a cocaina pode provocar euforia e,
como Freud relatou, pode ter um efeito antidepressivo por meio dessa ago na
depressdo branda ou neurasténica. Ainda nao ficou esclarecido se a cocaina
tem ou n4o um efeito antidepressivo na depressdes bioldgicas. Na literatura
psicofarmacolégica moderna, apenas um ensaio examinou essa possibilidade,
d relatando que nao foram registrados efeitos antidepressivos na cocaina. Se
7 essa conclusao for confirmada por estudo posterior, talvez seja necess4rio
Tever a teotia catecolaminica. A esse respeito, deve-se considerar que, ao por
Tere Se ™
ic A prova os efeitos antidepressivos biolégicos de um agente estimulante e eufo-
. , rizante, Freud estava noventa anos a frente do seu tempo.
i “Teria Freud sido pioneiro quando, apés descobrir os efeitos psicoldgicos
agradaveis de uma droga, defendeu sua utilizaco geral, ao mesmo tempo em
1 que tendia a ignorar os perigos que Ihe so inerentes? Numa Tetrospectiva,
; \ Freud Pode ser visto como o precursor de uma longa linhagem de psicofarma-
7 cologistas. Fazer experiéncias em si proprio com agentes potencialmente psi-
a Coativos e, em seguida, passar a apregod-los aos amigos é uma tradigao bem
Z firmada, que permanece até hoje, Nao é, de modo algum, privativa da cultura
ia Jovem, mas, ao contrdrio, quase uma regra de conduta entre cientistas que
SN SUASFREUD E A COCAINA
atuam na 4rea das drogas psicoativas. E fazer afirmagdes que proclamam a
inocuidade e os prazeres de drogas centralmente ativas nunca foi pratica res-
trita a cientistas. Aldous Huxley escreveu em As portas da percep¢do:
(...) para a maioria das pessoas, a mescalina € quase totalmente inécua. Ao
contrério do Alcool, ela no leva o tomador ao tipo de ago descontrolada que redunda
em brigas, crimes violentos ¢ acidentes de winsito. Um homem sob influéncia da
mescalina cuida sossegadamente da sua vida. Além disso, a vida de que ele cuida é
uma experiéncia altamente esclarecedora, que néo tem de ser paga (¢ isso com certeza
6 importante) com uma ressaca compensatéria. Sabemos muito pouco sobre as
conseqtiéncias a longo prazo da ingestio constante de mescalina. Os indios que
consomem botdes de peiote* nio parecem fisica ou moralmente aviltados por esse
habito. As provas disponiveis, porém, ainda so escassas e incompletas."°
Isso foi escrito em 1954, setenta anos apés Sobre a coca. Mas as opinides
do autor acerca das virtudes de uma droga centralmente ativa, € sobre seu uso
seguro por uma populacao nativa, fazem eco muito claramente ao ponto de
vista de Freud sobre a cocaina. Inicialmente, Freud talvez tenha ficado
sozinho na Europa, ao fazer a defesa das virtudes da cocafna, mas tinha nos
Estaéos Unidos muitos outros colegas com convicg4o semelhante. Um exame
dos amincios de coca nas revistas médicas norte-americanas da uma boa
[Link] acolhida da droga naquela €poca.
David Musto assim descreveu 0 uso da cocaina nos Estados Unidos da
década de 1880:
‘A cocaina obteve popularidade nos Estados Unidos como um ténico geral, para
sinusite e febre do feno, ¢ como tratamento para os hdbitos de consumo do épio, da
morfina e do lcool. Revistas eruditas publicaram descrigSes que sé evitam aconselhar
a ingestfo ilimitada da cocaina. Um médico arrojado como o neurologista William
Hammond, ex-cirurgiao geral do Exército, tinha toda confianga nela ¢ tomava um copo
em cada refeigao. Ele se orgulhava também de proclamar a cocaina como medi-
camento oficial da Associagio da Febre do Feno, um sélido endosso para qualquer
pessoa, Sigmund Freud talvez seja o mais lembrado proponente da cocafna como um
tnico geral e uma cura para o vicio. Ele escreveu vérios artigos na imprensa médica
européia sobre amaravilhosa substancia para a qual as revistas médicas norte-america-
nas haviam despertado a sua atengdo.
Nos Estados Unidos, as proptiedades reanimadoras da cocafna a transformaram
em ingrediente favorito para remédios, bebidas gasosas, vinhos e outros produtos. A
companhia Parke Davis, uma produtora de cocaina excepcionalmente entusiasta, ven-
dew até cigarros e charutos de folha de coca para acompanhar outras novidades que
colocara no mercado e que proporcionavam cocaina sob varias formas ¢ para diversas
* A mescalina 6 o principio farmacologicamente ativo do cacto peiote.INTRODUGAO 7
vias de administragio, tais como uma mistura alcoélica semelhante a um licor, chama-
da Coca Cordial, pastilhas, injegoes subcutaneas, ungilentos ¢ vaporizadores.
‘Se a cocaina foi um incentivo & violéncia contra os brancos no Sul, como eles em
geral acreditavam, entio fazia sentido a reagio contra seus usuérios. O temor em
elagio ao negro sob efeito da cocaina coincidiu com o auge dos linchamentos, da
segregaco legal e das leis eleitorais, do visando a retirar-lhe 0 poder politico &
social, O temor & cocaina talvez tenha contribuido para o medo de que 0 negro se
recusasse a ficar “no seu lugar”, assim como refletia em que medida a cocafna poderia
ter liberado a rebeldia e a retaliagdo. Até aqui, os indicios nao sugerem que ela tenha
provocado uma onda de crimes, mas sim que a previsto de uma revolta dos negros
inspirou panico nos brancos. Eram freqilentes os comentarios sobre a forga sobre-
humana, a asnicia c a eficiéncia resultantes da cocaina. Uma das crengas mais ater-
radoras a esse respeito era que ela realmente melhorava a pontaria com uma pistola.
Outro mito — o de que a cocaina tornava os negros quase imunes a simples balas
calibre 32 — parece que levou os departamentos de policia sulistas a adotar revélveres
calibre 38. Essas fantasias caracterizavam temor dos brancos, no a realidade dos
efeitos da cocaina, e fomeciam mais um motivo para a repressio aos negros.!?
A utilizagao da cocaina associada 4 morfina, ou como alternativa a esta,
no se limitava exclusivamente 4 América. Sir Arthur Conan Doyle era um re-
conhecido usudrio de cocaina, como seu famoso detetive, que utilizava tanto a
cocaina quanto a morfina. Uma ampla comparacdo entre o interesse de Hol-
mes € 0 de Freud pela cocaina é apresentada em “Sherlock Holmes e Sigmund
Freud”, de David Musto. A obsessdo de Holmes pela droga é vivamente des-
crita por Watson nos pargrafos iniciais de O signo dos quatro (1888):
Sherlock Holmes pegou o frasco sobre a lareira e a seringa hipodérmica no elegan-
te estojo de pelica. Com seus longos, brancos enervosos dedos, ajustou a delicada agu-
Ihac enrolou o punho esquerdo da camisa. Por um breve tempo, seus olhos se fixaram
pensativos no antebrago e no pulso vigorosos, inteiramente marcados por intimeras pi-
cadas. Por fim, introduziu até o fundo a ponta fina, pressionou o pequeno émbolo e,
com um longo suspiro de satisfagio, deixou-se cair de novo na poltrona forrada de
veludo.
Havia muitos meses que eu testemunhava essa cena tés vezes ao dia, mas 0 h4bito
nao me resignara a ela, Pelo contrério, sua visio me irritava cada dia mais, e todas as
noites aconscineia me pesava, ao pensar que havia perdido a coragem para protestar,
Repetidas vezes gravara na meméria a promessa solene de abrir minha alma a respeito
do assunto, mas no ar frio e displicente de meu companheiro havia algo que o tormava
© tiltimo homem com quem se teria vontade de tomar qualquer atitude que se asse-
melhasse [Link] liberdade, Sua grande capacidade, sua conduta irrepreensivel e a pro-
va que eu tivera de suas muitas qualidades extraordinérias tomavam-me timido e re-
lutante em contrarié-lo.
Naquela tarde, contudo, fosse pelo Beaune que eu tomara no almoso ou pela
exasperagio adicional produzida pela extrema determinagio de seu procedimento,
senti de repente que no mais poderia calar.FREUD F A COCAINA
— O que é hoje, morfina ou cocaina? — perguntei.
i“ ergueu languidamente os olhos do velho volume de couro negro que havia
to.
—E cocafna, — disse — uma solugio de scte por cento. Gostaria de experimentar?
— Nio, de modo algum, — respondi bruscamente — Minha constituigdo ainda
nio se refez da campanha afega. Nao posso me permitir submeté-la a um esforco
adicional.
Ele sorriu da minha veeméncia. —Talvez vocé tenha razfo, Watson, — disse. —
Creio que ela tem uma influéncia fisicamente negativa. No entanto, acho-a tao trans-
cendentalmente estimulante e clarificadora para a mente, que o seu efeito secundério €
uma questo de pequena importincia.
— Mas considere! — eu disse gravemente. — Pense no custo! Talvez, como vocé
diz, seu cérebro esteja desperto'e excitado, mas.é um processo patolégico e mérbido,
que envolve crescente alteragio dos tecidos e pode acabar levando a uma debilidade
permanente, Pense na reagdo sinistra que toma conta de vocé. Seguramente nfo vale @
pena. Por que deveria, por um simples prazer passageiro, por em risco toda essa capa-
cidade de que foi dotado? Lembre-se de que falo nao apenas como um camarada a0
outro, mas como um médico a alguém por cuja constituigdo ele é até certo ponto
responsével.
Ele nfo pareceu ofendido. Ao contrério, juntou as pontas dos dedos e apoiou o
cotovelo nos bragos da poltrona,.como quem aprecia a conversa.
— Minha mente — disse — se rebela contra a estagnagao. Dé-me problemas, dé-
me trabalho, dé-me o mais enigmitico criptograma ou a mais intrincada andlise, e eu
estou no meu proprio ambiente. Posso entdo dispensar estimulantes artificiais. Mas
detesto a rotina monétona da existéncia. Anseio pela exeltagdo mental. £ por isso que
escolhi a minha profissdo especffica, ou melhor, crici-a, pois sou o nico no mundo.
— ... Permite-me perguntar se tem agora alguma investigagéo profissional em an-
damento?
—Nenhuma. Daf a cocafna. Nao consigo viver sem trabalho intelectual. Para que
mais vale & pena viver? Olhe pela janela. Jé houve um mundo téo enfadonho, horrfvel
¢ intitil? Veja como o nevoeiro amarelo rodopia rua abaixo entre as casas encardidas.
O que poderia ser mais irremediavelmente prosaico € material? Qual é a vantagem de
ter capacidades, doutor, quando nfo se tem campo para aplicé-las? O crime é lugar-co-
mum, a existéncia é lugar-comum, somente as qualidades que séio lugares-comuns
tém alguma fungao sobre a terra.'?
Em resposta as perguntas de Watson sobre como o detetive poderia ter
sido beneficiado pela conclusdo bem-sucedida da saga O signo dos quatro,
descobrimos que, nas tiltimas linhas do livro, Holmes est de volta ao ponto
* em qué a aventura teve inicio: .
— Essa divisio ndo me parece justa — observei. — Vocé fez todo o trabalho no
caso, Eu ganhei uma esposa, Jones ganhou o mérito; diga-me, o que resta para vocé?
—+Para mim— disse Sherlock Holmes, — ainda resta o frasco de cocaina. —Ees-
, ticou a longa mao branca para apanhé-lo.
ve
sit
vi
gaCcCeEBEe
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i ee SeeINTRODUGAO 1s
Sto freqiientes os paralelos tragados entre os efeitos psicotogénicos das
anfetaminas e da cocaina. Diante disso, os pardgrafos de Doyle s4o muitas
vezes utilizados por modemos autores em psiquiatria para demonstrar os
sintomas compulsivos, de intensa curiosidade e preocupacdo, comuns aos
viciados em anfetaminas.
Para ampliar a companhia em que Freud se encontra, deve-se considerar 0
caso do Dr. William Halsted, conceituado cirurgido da Faculdade de Medici-
na da Universidade John Hopkins ¢ descobridor da anestesia bloqueadora de
nervos com uso da cocaina. Halsted inverteu o padrdo seguido por Fleisch,
sob orientag’o de Freud, de tentar curar com cocaina o vicio da morfina.
Usudrio da cocaina, evidentemente em doses excessivas, ele recorreu &
morfina como tratamento. Edward Brecher descreve seu envolvimento com a
cocaina:
O caso mais notavel talvez tenha sido o do Dr William Stewart Halsted (1852-
1922), um dos maiores cirurgiées norte-americanos. Descendente de uma ilustre
famflia nova-iorquina e capitio da equipe de futebol americano em Yale, Halsted
iniciou o exercicio da medicina em Nova York, na década de 1870, ¢ logo se tomouum
dos mais promissores entre os jovens cirurgides da cidade. Interessado em pesquisa
bem como em cirurgia, foi um dos primeiros a fazer experiéncias com cocaina— uma
droga estimulante, semelhante as nossas modemas anfetaminas. Com um pequeno
grupo de colegas, Halsted descobriu que a cocaina injetada na proximidace de um
nervo provoca anestesia local, ¢ sua descoberta foi uma importante contribuigo &
cirurgia. *
Infelizmente, por intimeras vezes Halsted também havia injetado cocaina em si
proprio. “A ansia pela cocaina apertou seu tremendo cerco sobre ele”, observou mais
tarde Sir Wilder Penfield, outro célebre cirurgiao. “Halsted tentou prosseuir. Mas
seguiu-se um confuso e infeliz. perfodo de prética médica. Por fim ele desapareceu do -
mundo que tinha conhecido. Meses depois voltou a Nova York, mas de algum modo o
médico brilhante, alegre ¢ extrovertido nao parecia mais nem brilhante, nem alegre”.
O que acontecera a Halsted durante o periodo de seu desaparecimento? Uma parte
do segredo foi revelada em 1930, oito anos apés a sua morte. O amigo mais intimo de
Halsted, o Dr William Henry Welch, um dos quatro ilustres fundadores da Faculdade
de Medicina John Hopkins, declarou que alugara uma escuna e, com trés marinheiros
de confianga, viajara lentamente com Halsted até as ilhas de Barlavento e de volta, a
fim de'manté-lo afastado da cocaina.
Em 1969, no entanto, por ocasiao do octogésimo aniversério da inauguragao do
Hospital John Hopkins, foi aberto pela primeira vez um “pequeno livro preto, fechado
com cadeado e chave de prata”. Esse livro continha a histéria secreta do hospital, es-
ctita por Sir William Osler, outro dos seus quatro eminentes fundadores.:Sir William
tevelava que Halsted havia se curado do vicio da cocafna recorrendo &'morfina.'
Inclui também um artigo escrito em 1887 por outro ilustre proponente da
cocaina, o Dr. William A. Hammond, cirurgiao-chefe reformado do Exército,
-]16 FREUD E A COCAINA
que fora anteriormente submetido por Lincoln a uma corte marcial. Como
Freud, ele descreve os efeitos de doses varidveis de cocaina, aplicadas em si
proprio. Era também claramente resistente a qualquer idéia dos perigos da
droga.
O préprio Freud jamais se envolveu em tantas dificuldades como alguns
dos que primeiro experimentaram a droga. No entanto, ele foi largamente
acusado de tentar popularizar o que, em um dado momento, A. Erlenmeyer
chamou de “terceiro flagelo da humanidade”. O que podemos dizer ent&o das
Tecomendagées de Freud a favor da cocaina no tratamento de muitas doengas,
em particular no tratamento do vicio da morfina? Sabemos agora, como Louis
Lewin sabia em 1885, que a cocaina nao é a cura para o habito da morfina (ou
da heroina). Em uma investida contra Freud, Lewin escreveu na €poca:
Quero declarar explicitamente que, segundo todos os dados disponiveis, a coca
no é um substituto para a morfina, e que o vicio da morfina nfo pode ser curado pelo
uso da cocajna.
Estou convencido de que a coca nao pode ser um substituto para a morfina durante
qualquer perfodo de tempo, uma vez que o verdadeiro viciade em morfina deseja 0
efeito especifico da morfina, e que ele consegue distinguir muito bem a euforia tipica
de outras substincias. Tal roca nao atende a suas necessidades especiais. O morfi-
némano quer mais do que a euforia, que pode ser provocada no homem normal, e que
0 préprio Freud conheceu, ao tomar 0,05-0,1g de cloridrato de cocafna.
No entanto, mesmo se fosse possivel tratar por certo tempo um viciado em morfina
exclusivamente com cocaina, e mesmo que lhe fossem ministradas doses muito eleva-
das, provocando alucinagdes ¢ uma sonoléncia agrad&vel, muito provavelmente ocor-
reria um exemplo do que eu gostaria de chamar de duplo vicio. © homem em questo
utilizaria a cocaina além da morfina, da mesma forma que muitos viciados em morfina
utilizam cloroférmio, hidrato de cloral, éter etc.*
No ultimo desses ensaios, Ansia e temor pela cocaina (1887), Freud tenta
esclarecer sua posicdo. Afinal, havia baseado suas opinides iniciais acerca da
eficdcia da cocaina como tratamento Para a morfinomania em dados da litera-
tura médica norte-americana. Nesse ensaio, ele d4 grande énfase aos perigos
da injecdo da droga, apesar de haver defendido antes esse método de admi-
nistracao. Cometera af obviamente um erro de julgamento, nao reconhecendo
© potencial de abuso inerente & cocafna. Ele Poderia tratar a morfinomania
com cocaina, mas somente sob risco de criar 0 que Lewin chamara de “duplo
vicio”. Posteriormente, Freud insistiu que 0 vicio ou uso excessivo da cocaina
nunca fora considerado um fenémeno em si mesmo, mas, ao contrério, s6
ocorria entre pessoas que antes tinham sido viciadas em morfina. Essa defesa,
inexata como €, faz recordar bastante uma afirmagao feita anos depois por
Frank [Link], 0 descobridor do meprobamato (Miltown), ao negar a
Possibilidade de que essa substincia pudesse induzir ao vicio:t
INTRODUCAC 7
(...) Muitas pessoas vém tomando drogas como o meprobamato por longos perio-
dos de tempo. Contudo, sé poucas entre elas tém utilizado mal essas drogas. Invaria-
velmente, as pessoas que tém feito uso excessive do meprobamato ou clorodiaze-
péxido tém uma longa hist6ria de dependéncia de lcool, barbituratos ou opiatos. Isso
indica que, quando ocorre o abuso de agentes antiansioliticos, é mais provavel que ele
se deva a alguma caracteristica da pessoa que faz uso abusivo, e nao a certos atributos
dessas drogas.!5
Como podemos ver, a esperanga persistente de que uma droga central-
mente ativa'possa ser usada sem risco de abuso nao findou com Freud. De
fato, 6 muito comum que 0 uso inicial de uma droga euforizante leve seus
proponentes a afirmagGes entusidsticas de que ela nao vicia, nem seré tomada
em excesso. Talvez a heroina e a meperidina (Demerol) sejam os exemplos
mais assustadores de drogas cujo potencial de abuso foi considerado inexis-
tente por seus descobridores. Sobre a heroina, pouco se precisa dizer. Atual-
mente ela substitui a morfina como principal droga viciadora. A meperidina,
semelhante & morfina em quase todas as suas caracteristicas, foi por muito
tempo considerada isenta das indesejaveis propriedades viciadoras da mor-
fina, Em virtude dessa interpretagdio err6nea, muitos médicos e enfermeiras se
viciaram nela. $6 recentercente admitiu-se que a morfina tem um perigoso
potencial de uso excessivo.
Em resumo, pode-se ento dizer que 0 trabalho de Freud sobre a cocaina
foi pioneiro em muitos aspectos; que os erros por ele cometidos no julgamento
ena recomendago da droga foram equivocos também comuns a muitas ou-
tras pessoas que, desde entdo, trabalharam com drogas centralmente ativas; €
que as dificuldades que ele criou para si préprio com tal recomendacao foram
relativamente secundérias, se comparadas a importincia da intodug3o de
uma metodologia cientifica sistematica para 0 estudo das drogas centralmente.
ativas. Como observou Daniel Freedman em 1969, “nao tenho certeza sobre 0
que se quer dizer com Freud estar certo ou errado, uma vez que ele esté sempre
as duas coisas. 2
Quais sao, entéo, os efeitos farmacoldgicos da cocaina? Estranhamente,
quase no se tem pesquisado a respeito dos seus efeitos sobre o homem. Até
mesmo a literatura mais recente sobre os efeitos da cocaina como anestésico
local é fragmentdria. Quando se faz um levantamento dos artigos sobre seus
efeitos psicofarmacolégicos, nao se encontra ensaio algum. A Ultima edi¢ao
de The Pharmacological Basis of Therapeutics (1970) nao oferece uma tnica
refer€ncia na literatura para documentar os efeitos centrais da cocaina sobre o
homem. E a descri¢ao dos seus efeitos condiz com a de Freud. Em 1970, um
simpésio sobre agentes psicotomiméticos teve o seguinte desfecho:
Dr Larry Stein: — (A cocaina 6) praticamente 0 antidepressivo tricfclico perfeito,
uma vez que possui um poderoso efeito inibidor sobre a reabsorgao da norepinefrina,FREUD E A COCAINA
18
Sem qualquer ago de bloqueio dos receptores (...) eoricamente, a cocaina deveria ser
um bom antidepressivo, mas hé oitenia anos atrés ouvimos isso de Freud.
Dr Efron: — Isso encerra a discussio geral. (...)!6
A conclusdo com essa nota abrupta talvez tenha significado uma atitude
emocional para com a cocaina que vale a pena examinar.
Os motivos para a auséncia de pesquisa podem estar engastados em um
ponto de vista moralista sobre as drogas cuforizantes que permeia até mesmo
os mais liberais comentaristas do cendrio da droga. Parece haver um receio de
que, se admitirmos que uma droga gera prazer, haja uma epidemia de uso
dessa droga e, por causa disso, tenhamos de assumir a responsabilidade por
quaisquer efeitos nocivos causados por ela. Tal situagdo faz recordar os acon-
tecimentos ocorridos na época de Freud. Até mesmo o seu compreensivo
bidgrafo Emest Jones deplora “‘o episédio da cocafna”, considerando-o uma
aventura imprudente, inteiramente destituida de valor cientifico. O préprio
Freud deu crédito a tais criticas com sua confusdo e evasdo ao assunto.
Ao discutir a cocaina e seu controle, Brecher diz a respeito dela e das anfe-
laminas que “essas drogas gémeas devem ser consideradas em conjunto. Em
geral, quanto menos for dito sobre elas, melhor”. Em sua adverténcia aos
usudrios, ele afirma que, “se chegarem a ser tomadas, devem sé-lo por via
oral. A injegdo de anfetaminas ou de cocaina em altas doses constitui uma das
mais danosas formas de uso de droga conhecidas pelo homem’. H4 uma
ressonancia muito familiar nessas palavras, escritas em 1972: elas sio quase
um eco das que foram ouvidas em 1884.
Qual é a base para tais declaragdes de adverténcia? Doses elevadas ou re-
petidas de cocaina provocam quase certamente uma psicose semelhante
Aquela que ocorre com as anfetaminas. Experiéncias controladas, como as
tealizadas com estas, ainda nao foram feitas com a cocaina, S40 comuns os
relatos de pacientes nao controlados.
Existem, no entanto, outras drogas que, em doses elevadas, Provocam psi
coses. Algumas, como as drogas que induzem ao delirio (um exemplo é a
atropina), ocasionam uma psicose que. envolve desorientagdo, deterioragao da
Teméria e grave dano ao raciocfnio. E 6bvio que essas psicoses podem ser
Perigosas para 0 individuo, Porém, hé algo singular na psicose de anfetamina
ou cocaina que a toma particularmente assustadora, Pois 0 individuo sob a
influéncia de doses elevadas pode acreditar que as pessoas esto “decididas a
pega-lo”, e assim vive em medo permanente, Pronto a atacar Os outros ou a
defender-se. Entre as pessoas que trabalham no setor de abuso de drogas
existe a impressio de que os viciados em anfetaminas e os usuarios regulares
de doses elevadas de cocaina representam um perigo nao s6 para si préprios
como para Os outros. A reduzida literatura sobre drogas ¢ violéncia nao for-
nece, até agora, respaldo para essa nogio, de resto Idgica. Temos bons mo-for-
INTRODUCAO. Ee
tivos para supor que, em doses elevadas, a cocafna seja uma droga perigosa.
Ela compartilha essa propriedade com as anfetaminas e, em menor grau, com
todas as drogas que podem produzir uma psicose. Mas 0 uso da cocaina sera
um perigo tao extraordindrio para que um autor relativamente liberal, ao es-
crever sobre abuso de drogas, afirme que “quanto menos for dito, melhor”?
Em The Pharmacological Basis of Therapeutics, Jaffe declara que, “embora
geralmente se suponha que os efeitos subjetivos da cocaina s4o mais intensos
€0 seu potencial de uso excessivo mais significativo que o das anfetaminas, é
dificil obter dados confidveis que justifiquem essa suposi¢a0”."” Jé que ne-
nhum estudo recente foi empreendido, s6 se pode ter como base os relatos dos
usuarios, de médicos destes, e alguma literatura antiga. Cocainism, de Louis
Lewin, texto publicado originalmente em alemio (1924), forhece uma boa no-
G40 dos resultados do uso excessivo da cocaina. Aparentemente, quando to-
mada em pequenas doses, ela produz uma euforia singularmente agradavel.
Freud afirma isso claramente em suas cartas nas descrigdes dos efeitos que
ele prdprio experimentou. Essa cuforia é que tem levado ao amplo uso da
droga.
Ha uma importante diferenga de dosagem entre a folha mascada de coca e
a cocaina consumida pura. Embora o ingrediente ativo seja 0 mesmo, a dose
mais elevada pode produzir uma gama de efeitos mais variada. Pode-se tracar
um paralelo entre a coca e a cocaina comparando-as com 0 vinho e€ 0
conhaque. Os efeitos de uma garrafa de conhaque podem ser muito mais
impressionantes e bem diferentes dos efeitos de uma garrafa de vinho, apesar
de, nos dois casos, a droga ativa — 0 alcool — ser a mesma. O consumo de
vinho com uma infusio de folhas de coca, habito popular no final da década de
1880, era uma forma de consumir pequenas doses de cocaina. Até 1903, a
Coca-Cola continha cocaina. A Coca-Cola antiga era uma mistura semelhante
ao vinho Mariani, que continha vinho e coca. Em Peru: History of Coca
(1901), W. Golden Mortimer relatou que o Papa Ledo XIII “durante anos (..
havia sido sustentado em seu retiro ascético por um preparado da coca
Mariani”.!* Um antigo antincio (de 1890) do vinho Mariani ¢ uma citagéo de
seu inventor so aqui reproduzidos. Com a entrada em vigor, em 1906, das leis
sobre drogas, a coca, como ingrediente ativo, foi retirada da bebida.
Se, em pequenas doses, a cocaina € tio util e agradavel quanto reivindicam
s seus usudrios, por que entéo tem essa md reputac4o? Alguns dos motivos
foram aventados acima. Em virtude das propriedades euforizantes das doses
pequenas, é extraordindrio 0 risco de seu uso continuo e abuso eventual. Os
usydrios divulgam-na com fervor religioso. Como declarou um deles, citado
por Lewin: “Deus é uma substancia!”
Acocaina pode ser usada sem que haja excesso? E, nesse caso, podemos
admitir que existam usos pessoais adequados para drogas euforizantes? Aqui
nos déparamos com um enigma antiqiifssimo. Nao existe droga “ruim”: asPessoas podem abusar de quase todas as substancias quimicas j4 inventadas.
Algumas, no entanto, tendem mais a ser usadas abusivamente do que outras.
Por exemplo, as fenotiazinas, drogas depressoras do sistema nervoso central,
Taramente — ou mesmo nunca — sao usadas em excesso: elas no provocam
euforia. J4 os estimulantes do sistema nervoso central, como a cafeina, a
cocaina, as anfetaminas, e depressores como os barbituratos e 0 lcool siio fre-
qiientemente usados em excesso: eles provocam euforia. Nossa sociedade
escolheu 0 alcool, a cafefna ea nicotina como cuforizantes — embora as psi-
Coses alcodlicas nao sejam certamentente inofensivas. Escolhcmos os nossos
venenos com base na tradi¢do, nao na farmacologia. As atitudes sociais deter-
minam quais so as drogas aceitas e até que ponto sao atribuidas qualidades
morais a substancias quimicas.
Seria razodvel, embora nfo convencional, questionar as severas regula-
mentac6es sobre a venda € 0 uso da cocaina: serao elas baseadas no fato de que
essa droga tem o potencial de causar psicoses perigosas, ou em uma opiniao
moralista acerca da fruig4o de substincias quimicas? Uma vez que existem
compostos psicotogénicos, como a mescalina, também declarados ilegais mas
nao inteiramente condenados, parece razodvel su pr que O proposito tanto dos
médicos como dos legisladores seja reforgar a interdigo somente das drogas
que produzem especificamente a euforia. Isso pode decorrer tanto do desejo
de impedir 0 uso excessivo e os perigos resultantes das drogas como da deter-
minagdo em firmar uma posi¢ao contra o uso de qualquer euforizante quimico
que nao aqueles especificamente sancionados pela nossa sociedade.
Freud viveu em uma época em que nao se impunham tais restrigdes a
cocaina. Os abusos ocorridos apés seus estudos foram resultantes de deficién-
cias nas pessoas e das propriedades da droga, e nao de uma divulgagao da co-
caina por parte dele. Incluf alguns excertos de um livro recente, Dealer:
Portrait of a cocaiie merchant (1972), de Richard Woodley, que proporciona
uma compreensio do mundo contemporaneo da cocaina ilicita. Essa droga
tem efeitos comuns a varios psicodélicos que muitas pessoas consideram
agradaveis. No entanto, nao s6 0 scu uso € proibido, como também Parece ter
havido uma paralisacao total das investigagdes sobre os seus efeitos centrais,
Tal falta de experimentagao fidedigna é um exemplo marcante dos sentimen-
tos de afronta moral gerados em relag3o a essa substancia. .
Esse € outro motivo pelo qual os ensaios de Freud sobre a cocaina so hoje
validos. Em muitos aspectos, eles so to atuais em sua andlise quanto qual-
quer estudo moderno. A contribuigao de Freud a psicofarmacologia perma-
nece assim ndo sé pioneira, como também constitui um dos mais recentes es-
tudos sobre as agdes centrais de uma droga extremamente importante,
No momento em que acrescento as tiltimas Palavras a esta introdugiio,
tenho diante de mim um sinal promissor — afinal talvay em mncon annane1nTSACru, 6s
We are justified in
saying:
Never has anything
been so
highly recommended
and
every trial
proves
its excellence.
“* Mariani Bottle" showing Shape and Label,
vwoddes 4 opising Surmoye ,,21010G JUMUPW »
Size of Regular Bottle, half litre Never sold in bulk—to guard against
(about 17 ounces), substitution.
Nourishes ~ Fortifies
Refreshes :
Aids Digestion - Strengthens the System.
Unequaled as a tonic-stimulant for fatigued or
overworked Body and Brain.
Prevents Malaria, Influenza and Wasting Diseases.
We cannot aim to gain suppo
uniform, effective and honest art
Mariaut strictly on its own meri
for our preparation through cheapness; we give a
le, and respectfully ask personal testing of Vire
‘Thus the medical profession can jud,
Vin Marlant js deserving Wf the i as ed throughout
nequaled reputation it has earned throu,
the world during more than jo years. ' =
Inferior, so-called Goca preparations (variable solutions of Cocaine and cheap
wines which have ben proven worthless, even harmful in effect, bring Into discreate
and destroy confidence ina valuable drux.
We therefore particularly caution to specify always “ VIN MARIANI,’?
thus we can guarantee Invarlable satisfaction to physician and natlantCAPITULO 1
oO EPISODIO
DA COCAINA
Primeira Parte
Extraido de Vida e obra de Sigmund Freud, de Ernest Jones.
Emest Jones foi o biégrafo escolhido pessoalmente por Freud. Seu Vida e
obra de Sigmund Freud, em és volumes, é um trabalho de vulto, ampla-
mente considerado como a biografia definitiva de Freud. Até a publicagao do
Presente livro, “O episédio da cocaina", de Jones, era a tinica fonte de facil
acesso sobre o interesse de Freud pela cocaina. A narrativa de Jones sobre
esse periodo da vida de Freud recorre muito intensamente & obra de Siegfried
Bemfeld e, infelizmente, repete muitos equivocos deste. As tradugées feitas
Por Jones dos excertos da obra de Freud so retiradas de Bemfeld, assim
como algumas das idéias. (N. do org.)© EPISODIO DA COCAINA — PRIMEIRA PARTE 29
urante os seus trés anos de trabalho em hospital, Freud empenhou-se
continuamente em tornar-se conhecido pela descoberta de algo im-
portante para a medicina clinica ou patolégica. O motivo nao era,
como se poderia supor, apenas uma ambi¢ao profissional, porém muito mais a
esperanga de que um sucesso lhe proporcionasse suficiente perspectiva de
atividade clinica particular para permitir que se casasse um ou dois anos antes
do que poderia esperar de uma atividade rotineira. Nesta busca, ele certamente
foi muito fértil em idéias, e em suas cartas alude repetidamente a novas des-
cobertas que poderiam conduzir ao objetivo almejado, das quais nenhuma se
concretizou. Infelizmente, na maioria dos casos, ele dé somente vislumbres do
contetido desses projetos, mas os dois tinicns que desenvolveu foram os que
mais 0 aproximaram do sucesso: 0 método do cloreto de ouro para colorir 0
tecido nervoso € 0 uso clinico da cocaina.
Como veremos, o segundo caso loi mais do que um esforgo rotineiro e,
pelos problemas que suscitou, merece ser descrito como um episédio...
A primeira mengao sobre o tenta da cocaina est4 em uma carta de 21 de
abril de 1884, em que Freud comenta “um projeto terapéutico e uma espe-
Tanga”.
Tenho lido a respeito da cocaina, componente essencial das folhas de coca que
algumas tribos indias mascam para resistir a privagées e fadigas. Um alemao* a tem
empregado com soldados e de fato relatou que ela aumenta a energia e a capacidade de
resisténcia. Estou arranjando um pouco e-vou experimenté-la em casos de doenga
card{aca e também de esgotamento nervoso, sobretudo na condi¢ao deploravel apés a
retirada da morfina (Dr. Fleischl). Talvez outros estejam se ocupando disso; talveznao
dé em nada. Mas certamente vou éxperiment4-la, e vocé sabe que, quando se persiste,
mais cedo ou mais tarde se obtém éxito. Nao precisamos mais do que um golpe feliz
como esse para podermos pensar em montar casa. Mas nao fique demasiadamente
certa de que dessa vez deva dar resultado. Como vocé sabe, o temperamento de um
pesquisador requer duas qualidades fundamentais: que ele seja ardente na tentativa,
mas critico no trabalho."——
30 :
FREUD E A COCAINA
A principio, Freud nao esperava muito do assunto: “Atrevo-me a dizer que
tera 0 mesmo resultado do método*: menos do que eu imaginava, mas ainda
assim algo bastante respeitavel”. O primeiro obstaculo veio a ser 0 prego da
cocaina que encomendara A Merck, em Darmstadt: ao invés de um grama
custar, como calculara, 33 kreuzer (13 centavos de délar), ficou desanimado
ao verificar que custava 3 gulden ¢ 33 kreuzer (US$ 1,27). A principio, achou
; que isso significava o fim da sua pesquisa, mas, apés se refazer do choque,
| encomendou corajosamenite um grama, com a esperanga de algum dia conse-
guir pag4-lo. Imediatamente experimentou 0 efeito de um vigésimo de grama.
| Percebeu que o mau humor que sentia se transformava em alegria € que ex-,
perimentava a sensacdo de ter jantado bem, sem perda da energia para o
| exercicio ou para o trabalho, “de modo que nao ha absolutamente nada com
que se preocupar”. Imaginou, uma vez que a droga agia evidentemente como
{ um anestésico gastric, afastando toda sensa¢4o de fome, que talvez ela pu-
desse ser util para conter vomitos de qualquer natureza.**
Ao mesmo tempo, decidiu oferecer a droga a seu amigo Fleischl, que vivia
os paroxismos da aflico, empenhado em libertar-se do vicio da morfina,
adquirido ao usd-la em excesso para curar uma dor nevralgica insuportavel.
Foi uma decisao da qual se arrependeu amargamente nos anos que se segui-
ram. Motivou-a um relato que lera na Detroit (Therapeutic) Gazette sobre 0
uso da cocaina com esse propésito. Fleischl se agarrou a nova droga “como
um homem que se afoga”***, ¢ em poucos dias a estava tomando continua-
mente. O resto da hist6ria de Fleisch! sera contado adiante.
Freud se entusiasmava cada vez mais. A cocaina era uma “droga magica”.
Ele obteve brilhante sucesso com um caso de catarro gastrico, em que a
substancia fez a dor cessar imediatamente.****
Se tudo correr bem, escreverei um ensaio sobre ela, e espero que conquiste seu
lugar na terapéutica, ao lado da morfina, mas superior a esta. Tenho outras esperangas
e intengdes a seu respeito. Tomo-a regularmente, em doses muito pequenas, contra a
depressio ¢ a indigestio, com o mais admirdvel sucesso. Espero que ela seja capaz de
extinguir o vémito mais intratével, mesmo quando decorrente de dor aguda. Em resu-
mo, s6 agora é que sinto que sou um médico, j4 que ajudei a um paciente e espero
ajudar a outros mais. Se as coisas prosseguirem assim, nao precisaremos ter qualquer
pteocupaco quanto a podermos nos unir e permanecer em Viena.
Ele enviou um pouco de cocaina a Martha “para fortalecé-la e dar uma cor
rosadas as suas faces”, impingiu-a aos amigos e colegas, para uso deles e de
* O método do cloreto de ouro que inventara.
** Carta no publicada de Freud a Martha Bemays, 3 de maio de 1884.
** Carta nao publicada de Freud a Martha Bemays, 7 de maio de 1884.
*** Carta no publicada de Freud a Martha Bemays, 25 de maio de 1884.
an eel© EPISODIO DA COCAINA -~ PRIMEIRA PARTE a4
seus pacientes, deu-a as irmas, Em suma, sob 0 ponto de vista, privilegiado dos
nossos conhecimentos atuais, cle estava se transformando rapidamente em
uma ameaga publica. Naturalmente, nao tinha motivo algum para pensar que
essa conduta fosse perigosa, c ao dizer que nao conseguia perceber em si
mesmo sinais de necessidade de cocaina, a despeito da frequéncia com que a
tomava, estava dizendo a pura verdade: como sabemos agora, € preciso uma
disposig’o especial para desenvolver 0 vicio em drogas ¢, felizmente, Freud
nao possuia essa disposi¢ao.*
Alguns dos seus colegas informaram-Ihe ter tido éxito com o uso da droga,
outros foram mais reticentes. Breuer, com sua cautela caracteristica, foi um
dos que nao se impressionaram.
Freud teve dificuldade para obter a bibliografia sobre esse assunto
incomum, mas Fleisch! deu-Ihe uma apresentagdo para a biblioteca da
Gesellschaft der Arzte (Sociedade dos Médicos), onde ele se deparou com 0
volume, recentemente publicado, do catdlogo do cirurgiao geral, que exami-
nava a questo minuciosamente. Freud contava entdo (5 de junho) terminar 0
ensaio em duas semanas ¢, a partir daf, rabalhar em suas pesquisas elétricas
durante as quatro ou cinco que faltavam para ficar livre e viajar para
Wandsbek. No dia 18 finalizou o ensaio e no dia seguinte metade do texto ja
estava no prelo. A publicacdo ocorreu na edig’o de julho do Centralblatt fiir
die gesammte Therapie, de Heitler.
Embora fosse uma andlise abrangente do assunto — de longe a methor
surgida até entio —, 0 ensaio bem poderia ser classificado antes como obra
Jiteréria do que como uma original contribuigao cientifica, Era redigido no
melhor estilo de Freud, com a vivacidade, a simplicidade e a distingao que 0
. caracterizavam, tragos para 0s quais encontrara pouco campo ao descrever Os :
nervos do lagostim ou as fibras da medula. Muitos anos se passaram antes que
tivesse novarnente a oportunidade de exercer os seus dotes literdrios. Além
disso, hé nesse ensaio um tom que nunca s¢ repetiu na produgao escrita de
Freud, uma combinagao excepcional de objetividade ¢ calor pessoal, como se
estivesse apaixonado pelo assunto. Ele emmprega expresses incomuns em um
ensaio cientifico — como “a mais deslumbrante excitagao"** que os animais
exibem, apds uma injec4o de cocaina ou a administrag4o de uma “oferta”***
da droga, em vez de uma “dose” — repele vigorosamente a “caluinia” que
fora publicada sobre essa droga preciosa. A apresentacao artistica deve ter
* Aqui Jones se equivoca, visto jé ter sido demonstrado que os macacos movem, alavancas €
executam trabalho pesado para conseguir cocaina. £ improvavel que os macacos tenham
essa “disposigio especial” a que se refere o Dr. Jones. (N. do org.)
#* Jones traduz equivocadamente essa expressio. O original diz: freudigsten ‘Aufregung.
#6¢ Esta € uma tradugdo incorreta do alemao Gabe, que no texto de Freud significa uma dose; a
prdtica clinica da 6poca nfo permitiria sua interpretagao como “oferta”.a
= FREUD E A COCAINA
contribuido em muito para o interesse que © ensaio despertou nos circulos
médicos de Viena e de outras cidades.
Freud comega 0 trabalho contando detalhadamente a primitiva historia da
planta coca e de seu uso pelos indios sul-americanos, depois a descreve sob 0
ponto de vista botanico e enumera os varios métodos de preparo das folhas.
Faz até mesmo 0 relato dos ritos religiosos associados ao seu uso € menciona
a saga mitica de Manco Capac, 0 filho real do Deus-Sol, que a enviara como
“um presente dos deuses para saciar os famintos, dar forga aos cansados, ¢
fazer os infelizes esquecerem as suas tristezas”. Somos informados de que a
noticia da planta maravilhosa chegara 4 Europa em 1569 e a Inglaterra em
1596; de que, em 1859, o Dr. Scherzer, explorador austriaco, levou folhas de
coca do Peru para o seu pais e as enviou a Niemann, assistente de Wéhler, 0
quimico infamado por ter ousado sintetizar a uréia. Foi Niemann quem isolou
da planta 0 alcaldide cocaina.
Descreve em seguida algumas auto-observacoes, em que estudara os
efeitos da cocaina sobre a fome, 0 sono, a fadiga, e relataa
(...) animagio e a euforia duradoura, que de forma alguma difere da euforia normal da
pessoa saudavel. (...) Vocé percebe um aumento do autocontrole e sente mais vita-
lidade e capacidade para o trabalho. ¢..) Em‘outras palavras, vocé est simplesmente
normal e logo se torna dificil acreditar que est sob a influéncia de qualquer droga. (...)
O trabalho mental ou fisico, longo ¢ intensivo, € logo desempenhado sem qualquer
fadiga. (..) Desfruta-se desse resultado sem quaisquer dos efeitos posteriores desagra-
déveis que acompanham a animagio suscitada pelo Alcool. (...) Apés a primeira
experiéncia com a droga, ou até meseno com sua Tepeti¢ao, nao surge absolutamente
qualquer nsia por nova utilizagao. Pelo contrério, sente-se até uma curiosa aversao
por ela.
Freud confirmava as conclusdes de Mantegazza acerca do valor tera-
péutico da cocaina, sua agao estimulante e, apesar disso, entorpecedora sobre
oestémago, sua utilidade contra a melancoliae assim por diante. Descreve um
caso seu (0 de Fleisch!), em que a havia empregado no processo de cura do vi-
cio da morfina. A droga era valorizada por sua indicagao no tratamento “dos
estados funcionais aburcados pelo nome de neurastenia”, da indigestdo e du-
rante a retirada da morfina. : .
Quanto a teoria sobre sua agao, faz'a sugestio, posteriormente confirmada,
de que a cocaina atua nao pela estimulagao direta do cérebro, mas sim pela eli-
minago dos efeitos de agentes que deprimem as sensacdes fisicas do indi-
viduo.* No pardgrafo final, escrito as pressas, ele diz:© EPISODIO DA COCAINA — PRIMEIRA PARTE
‘A capacidade da cocaina e seus sais de anestesiar membranas cuténeas € mUcosas,
quando aplicados em solugdes concentradas, sugere uma possivel utilizagdo futura,
sobretudo em casos de infecgées locais. (...) E provavel que dentro em breve sejam
desenvolvidas algumas utilizages adicionais da cocaina, com base nessa propriedade
anestésica.
Freud posteriormente se recriminou por nao ter prosseguido a investiga-
go desse aspecto, mas a opinido adotada aqui ¢ de que essa auto-recriminagao
estava um tanto deslocada. Nao é de todo provavel que, mesmo se dispusesse
de tempo, ele tivesse cogitado da aplicagao cinirgica, estranha aos seus inte-
resses. Os usos locais que tinha em mente diziam respeito apenas ao amorteci-
mento da dor causada por infecgdes cutaneas, e quando sugeriu a Koenigstein,
seu amigo oftalmologista, que a cocaina poderia ser usada no olho, ambos
pensavam nisso em termos de aliviar a dor do tracoma ¢ de circunstincias
semelhantes. Para Freud, a cocaina era um analgésico, no um anestésico, ¢ de
qualquer modo ele estava muito mais interessado em seu uso interno do que
em qualquer aplicagdo externa.
Evidentemente, o que fascinava Freud na planta coca era a sua extraor-
dindria fama como capaz de aumentar o vigor mental e fisico sem ter aparen-
temente qualquer efeito nocivo subseqiiente. Afinal, era esta a principal tese
do artigo de Aschenbrandt que havia inflamado a sua imagina¢ao. Mas a co-
caina sé aumenta o vigor quando este foi anteriormente diminuido; uma pes-
soa realmente normal nao precisa do estimulo. Freud nao se encontrava nessa
iiltima situagao favoravel. Por muitos anos sofreu de depresses periddicas e
de fadiga ou apatia, sintomas neurdticos que mais tarde adquiriram a forma de
crises de ansiedade, antes de serem dissipados pela sua prépria andlise. Essas
reagdes neurdticas eram exacerbadas pela confusao de seu relacionamento
amoroso, submetido a um prolongado afastamento ¢ outras provagoes. No ve-
rio de 1884, em particular, ele se encontrava em um estado de grande agi-
taco, diante da préxima visita 4 noiva, que certamente ndo se devia apenas &
incerteza sobre a possibilidade de realizd-la. A cocaina acalmou-lhe a agi-
taco e dissipou a depressiio. Além disso, deu-lhe uma sensagao incomum de
energia e vigor.
Como qualquer outra manifestacdo neurética, a depressao diminui a sen-
sagdo de energia ¢ virilidade; a cocaina a restabelece. Qualquer diivida acerca
de ser este o cerne da questao € dissipada pelo seguinte trecho de uma carta de
2 de junho de 1884, escrita apés tomar conhecimento de que Martha nao
parecia estar bem e no tinha apetite:
Aide vocé, minha princesa, quando eu chegar. Vou beijé-la até ficar bm vermelha
e alimenté-la até ficar rechonchuda. E se for bastante teimosa, verd quem é 0 mais
forte, se uma garotinha delicada que nio come o suficiente ou um homenzarrio queFREUD E A COCAINA
fem cocaina no corpo.* Em minha tltima depressio aguda, tomei coca de novo, ¢ uma
Pequena dose ergueu-me até as alturas de uma forma maravilhosa. Agora estou
ocupado em reunir a bibliografia para um canto de louvor a essa substincia magica.
Para obter a virilidade e desfrutar da bem-aventuranga da unido com a
amada, Freud abandonara o caminho reto e estreito do trabalho “cientifico”
sobre a anatomia do cérebro e tomara um atalho sub-repticio, que lhe traria
sofrimento em lugar de sucesso. Dentro de poucos meses, outro alcangaria
fama mundial com a cocaina. Mas isso foi devido a uma utilizagdo benéfica
para a humanidade; ao passo que, dois anos mais tarde, Freud iria ser menos-
Prezado por ter, com a sua defesa da droga como “inofensiva e maravilhosa”,
divulgado o que seus detratores consideravam como “‘o terceiro flagelo da hu-
manidade”.** Por fim, ele se recriminaria por ter apressado a morte de um
querido amigo e benfeitor, ao incutir-Ihe 0 vicio da cocaina.
Seria dificil sofrer todos esses golpes ¢ ndo senti-los como punigoes justas.
Qual o motivo? Deixemos aos psicanalistas a resposta a esta pergunta. Mas
podemos ao menos compreender por que Freud iria mais tarde associar a sua
auto-recriminagao 4 lembranga de sua fuiura esposa, ¢ que a desculpa que iria
dar mais tarde, de “nao estar suficientemente em forma”, era apenas um leve
indicio do que havia por trds.
Tudo isso, no entanto, encontrava-se no futuro, e Freud, sem qualquer
Pressentimento, partiu no inicio de setembro para desfrutar férias felizes em
Wandsbek. Ao voltar, quatro semanas depois, soube que alge importante
havia ocorrido.***
* Grifado, no original.
** Os outros dois seriam o Alcool e a morfina.
*** Este sumério biogréfico continua no capitulo 3,CAPITULO 2
AS FONTES DE FREUD
Primavera de 1884
Embora a cocaina ainde nao tivesse sido popularizada na Europa, ja existia
uma bibliografia considerével sobre ela em publicagSes européias ¢ norte-
americanas, Este capitulo apresenta as referéncias criticas que Freud estava
lendo ao preparar o seu novo ensaio Uber Coca. A sua lista de referéncias era
0 Index Catalog of the Surgeon General's Office (Catélogo do Gabinete do
Director de Satide Pablica nos EUA), e a sua inspiragio provinha, em grande
parte, do entusiasmo de Aschenbrandt e de Bentley. (N. do org.)7
AS FONTES DE FREUD
ERYTHOXYLON* COCA NOS VICIOS DO OPIO E DO ALCOOL,
por W.H. Bentley, médico e advogedo, Valley Oak, Kentucky’
m maio de 1878, escrevi para New Preparations um artigo sobre a
EK erythoxylon coca, que foi publicado no seu mimero de julho. Este é
seu o primeiro pardgrafo:
HG alguns anos, obtive de 2,5 a 3,5 da tintura saturada de erythoxylon coca, com
© intuito de testarterapeuticamente a efieécia da planta. Utilizei tudo, menos uma gar-
rafa, num periodo de cerca de quinze meses. Todos Ss casos em que a prescrevi, com
uma excegao, eram de carter crdnico, que afetavam os pulmées e tinham aparéncia de
tuberculose pulmonar. A excesio era um caso de dispepsia nervosa, complicado por
problemas uterinos e histeria. A paciente era casada, mae de dois filhos, o mais novo
com seis meses, € estava com vinte ¢ és anos. Estava bastante macilenta, muito aba-
tida e, além disso, habituada ao “vicio do épio". FSi como um substituto para a sua
costumeira morfina — cujo uso proibi peremptoriamente — que indiquei coca, em
doses infimas, wés vezes ao dia. A coca correspondeu admiravelmente & finalidade.
O pardgrafo final dizia: “No futuro, experimentarei meticulosamente. ery-
thoxylon coca em ‘doengas debilitantes’ , convalescenga prolongada de en-
fermidades graves, em determinadas formas de dispepsia; ¢ a testarei cuida-
dosamente no ‘vicio do épio’.” -
Tenho mantido assiduamente esse compromisso, pretendendo, se obtiver
dados suficientes, relatar os resultados da minha observacao para o bem da
Profiss4o. Considero um dever fazé-loe, desde ja, tentarei cumprir esse. dever,
explicando de antemio que tenho utilizado o extrato fluido de erythoxylon
coca da conhecida firma Parke, Davis & Co., tendo-o prescrito cerca de vinte
€ cinco vezes no espaco de dois anos,
Do ponto de vista fisiol6gico e patolégico, considero o “vicio do épio” eo
“vicio do Alcool”, ou a incapacidade de se abster da embriaguez (pois nao me
Iembro de jd ter visto a expressio “vicio do Alcool” empregada) como muito
Pr6ximos ou praticamente idénticos,
* Ent grafia de Erythronylon foi usada em todo o anigo original, a mantemos aqui.
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