Não aceite o meu Horror
Ensimesmado
Não consigo olhar para o lado
tem muita gente aqui
mas ninguém
ninguém está comigo
querem estar
tentam estar
eu quero que estejam.
Quero?
Porque repelir?
Querem?
Porque eu duvido desse querer?
Ninguém sente nada
Ninguém sabe que eu estou aqui
ninguém.
Sabem.
Sentem.
Mas do que vale o sentir alheio,
se não me alcança?
Se não me toca?
Do que vale o saber alheio?
Do que valem palavras não ditas?
palavras engasgadas.
estou engasgado
não sei dizer
não há palavras
há.
Elas me consomem
elas não se deixam dizer
não se deixam, não me deixam
elas se dizem no corpo, se dizem nessa angústia
nesses hormônios que se acumulam na minha corrente sanguínea
estou com fome
não consigo comer
a comida está ali
a comida está sempre na minha poesia
estou faminto
só penso em comer
mas não consigo preparar nada
não consigo erguer a colher
coloco na boca e não sinto gosto de nada
sinto o gosto do nada
o nada que me envole
querem me tirar do nada?
De nada adianta
não os deixarei me tirar daqui.
me deixem, é um útero.
Morto.
sou um bebê que não quer nascer
não quero ver a luz do dia
o cordão umbilical não me alimenta mais
foi cortado
mas eu me agarro a ele
podre
apodrecendo
meu corpo apodrece por dentro
vejam, estou fazendo piadas.
vejam como consigo sorrir
e fazer o que quero...
quero dizer,
fazer o que preciso
vejam como sou querido
mas não sou.
mentira.
Sou sim.
mas do que adianta a realidade
se ela não me alcança?
Espelho, espelho, espelho
côncavo ou convexo
não sei diferenciar
vejo apenas essa imagem turva
que não sou mais eu
não sou.
se eu me afastar
vou me enxergar
mas não quero
lá fora é frio e perigoso
e eu perdi meu guarda-chuva de novo
eu sempre perco meu guarda-chuva
eu saio de casa
e sei que irei perdê-lo.
Porque? Porque insisto em perder?
Se eu sei da derrota?
Escolho a derrota
colho
o que plantei, o que planto de novo
espigas mortas de milho transgênico que vertem sangue e lágrimas,
cujas sementes queimam as mãos
não nos plante,
elas gritam
não, não nos plante, não queremos
não queremos sangrar e chorar
de novo
e de novo
e de novo e de novo e de novo
mas eu quero.
não consigo chorar.
Não consigo.
Quero?
Minhas lágrimas estão presas dentro de mim
circulando.
Portadoras da angústia
que não saem, não podem sair, não quero que saiam
do que me servem essas lágrimas prisioneiras?
Esperar que alguém rompa essa casca
que alguém rasgue meus olhos e arranque-as à força
e me faça sentir algo novamente
me faça entender que a angústia
é apenas parte
e não o todo
É engraçado.
Por fora parece tudo tão bem.
Tão calmo.
Essa rua de areia batida lá fora.
O sol.
Existe tristeza em dias de sol.
Mas isso não é tudo.
Eu sou riso. Eu sou calor.
Eu sou abraço. Eu sou fogo.
Eu sou luta. Eu sou esses versos.
Eu sou música. Eu sou esse canto ruim que machuca os ouvidos.
Eu sou essa dança feia da qual vocês dão risada.
Mas eu não acho graça.
Não, quero dançar sem ninguém rir.
Não, não vou aprender a dançar do jeito que vocês querem
do jeito que vocês acham certo
Essa dança, torta, desritmada, sem sentido, sem música
essa dança sou eu.
Saiam daqui, por favor.
Saiam, saiam.
Eu não quero ver ninguém.
Eu sei que vocês me amam, eu sei, eu juro que sei
mesmo que eu não acredite
eu não preciso acreditar para ser verdade.
eu quero todo esse amor
mas não posso recebê-lo
não há espaço
enquanto essas lágrimas não saírem
não há espaço para mais nada
As palavras circulam em meu peito como se minha boca não pudesse se abrir
como se meus pulmões não pudessem expelir
esse ar poluído de sentimentos que eu estou respirando
essa imundice que não suporto mais.
não sei lidar
não aceito que vocês sintam também
então saiam
porque vocês sentem
e não quero que ninguém sinta nada
não quero lidar contigo.
não quero lidar comigo
não quero lidar com nada
não quero lhe dar esse horror que me habita nesse instante
pois é tudo que tenho para lhe dar
e não,
você não quer esse horror.