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rio que surja uma “moral
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de ponte de ligacke entre
producdo familiar a me-
canizada industrial. Preci-
sa enfrentar 0 problema
do chamado “impropria-
mente” artesanato, com
‘uma certa frieza econémi-
cae social, deixando de
lado 0 sentimentalismo
pseudo-artistico, que, no
campo artesanal, conduz
ao “abérto” (folclore tipo
Espanha, ¢ Itélia, 1938).
Manter de pé uma épocal
historlcamente superada @)
canservi-la sdmente nag
suas aparéncias, é initil e
@anoso. Precisa-se libertay
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RESPOSTA
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Quando no final de 1946 0 Almirante Jaceguay aportou no
Rio de Janeiro, um casal de ita
anos desembarcou com algo além
de quadros (0 que, vindo de um eritice de ai nao
era pouco) em suas bagagens. Para 0 homem, a ideia de oferecer
cultivo aos imigrantes italianos da América do Sul nio era
nova, mas aralentada desde a década de 1930. Sua mulher trazia
certamente o desejo de fazer arquitetura moderna num pais
novo, sem vicios ¢ sem ruinas. Na chegada A capital do Brasil, 0
edificio do Ministério da Educagio [Msp], visto do mar, parecia
dar-lhes as boas-vindas, como ela declarou posteriormente em
diversas ocasides,
A mengo ao primeiro edificio modernista em altur
fortuita, Assim como 0 Centrosoyous de Le Corbusier $6 pide ser
realizado na Unido Soviética, o moderno edificio corbusiano da
equipe de Lucio Costa s6 teria acolhida possivel no Rio de Janeiro.
Quando Lina Bo e Pietro Maria Bardi aqui chegaram, o Brasil
parecia acenar, por meio dos brises e colunas desse edificio, com
uma possibilidade de novo mundo, certamente nao as mesmas
promessas que antes atrairam levas de migrantes europeus, mas
aquelas de um outro campo intelectual ¢ institucional, no qual
a arquitetura moderna parecia possivel, inevitivel até mesmo
uma condenagio, como queria Mario Pedrosa,
ee eee eee eed
Na bagagem, como ja dissemos, quadros, que foram expostos
exatamente nesse edificio do Ministério, o que permite suspeitar
que além de obras houvesse contatos e acordos prévios, um
certo capital social na valise do casal Bardi. Redes de relagdes
tragadas a partir da Itélia, tecidas no navio onde se realizou
‘o emblematico c1am! de 1955, nos grupos politicos italianos,
cultivadas por Pietro Maria Bardi como jornalista e colaborador
de diversos periédicos importantes, como 0 Architecture
d’Aujourd hui. Da parte dele, vieram também conhecimentosde histéria da arte, arregimentados no dia a dia de um critico
e comerciante de arte, um cabal self'made man do mundo
artistic, que chegow a ocupar 0 posto de conselheiro do Duce na
Italia fascista, encenando com outros artistas ¢ arquitetos uma
verdadeira disputa simbélica a respeito daquele que poderia ser 0
estilo oficial do regime.
E Lina Bo Bardi trazia o sobrenome re
nome de nascimento e batismo, Achillina di Enrico Bo, filha
primogénita de um engenheiro profissional e pintor de domingo.
Bardi era um renome que, somado a sua formagio, lhe permitia,
mn-anexado ao seu
tornar-se arquiteta, Trazia um conhecimento s6lido de restauro
filolégico obtido nos bancos da Scuola Superiore di Architettura
idos como parte das
i Roma,! aliado a outros saberes adqui
marcas de sua geragio, nos circules em que conviveu em Roma
e Mildo, nas revistas italianas que leu e tas quais escreveu,
ilustrou e desenhou. Ao aqui desembarcar, tornou-se arquiteta
de prancheta e continuo a escrever, ilustrar e editar. Chamou
‘o musp de “bela crianga” e entrou com todos os seus recursos
no debate da mesma arquitetura que havia pouco tinha sido
celebrada no MoMA com a exposigao Brazil Builds: Old and New,
de 1943, € na L'Architecture d'aujourd hui? Entrou no debate com
alguns projetos e muitas palavras.
‘Autora de projetos marcantes ¢ emblematicos, Lina Bo
Bardi logrou construir pouco. Seus edificios sio definidores de
paisagens paulistanas e soteropolitanas, mas, se comparamos corm
outros arquitetos, podemos conté-los nos dedos, Nao exatamente
como compensagio e sim como parte de sua atuagio, ela escreven
com intensidade. Pois arquitetos escrevem: registram memoriais
para apresentar e elucidar a propria obra, manifestos para
tomar posigio ante outros arquitetos, para exaltar ou depreciar
arquiteturas de outros tempos. Se Wolfilin escreveu que quadros
devem mais a outros quadros do que a realidade;* os projetos
dialogam entre si, mesmo quando justificam sua existéncia por
condicionantes externos a eles — e as duas possibilidades nada
tém de incompativel. Aquele que é talvez 0 mais importante
arquiteto do século xx, Le Corbusier, escreveu cerca de cinquenta
livros, argumentando que quando cireunstancias o impediam
de projetar ele desenhava, escrevia, falava.. de modo que suas
proposigdes arquitetonicas nao deixassem de ser veiculadas.
‘Ao contrério do que isso possa sugerir, a escrita de um
profissional que se apresenta ao mundo por meio de imagens,
croquis, volumes, inhas e cortes nao é algo menor, secundirio,
{que s6 se realiza quando a tarefa central, a espinha dorsal
do oficio — 0 projeto — é interditada, Basta lembrarmos
que boa parte dos debates acerca da arquitetura do século xx
travou-se por escrito, Pensemos em dois momentos cruciais, a
emergéncia do chamado movimento moderno mos anos 1910-20
© do pos-modernismo em meados dos anos 1960, ¢ no hé como
negligenciarmos a importancia dos textos, artigos ¢ manifesto.
‘Textos que debatiam com textos e com projetos, concursos
concluidos com resultados diversos. Revistas que representavam
polos distintos de disputas por classificagaes e eleigées. Modernos
versus tradicionalistas, nacionalistas versus cosmopolitas,
racionalistas versus organicistas: foi por escrito que parte dessa
Tota simbslica, que forjou a trama da arquitetura dos tltimos
‘cem anos, foi tecida, reforgada ou esgargada
Nao podemos imaginar a construgio do modernismo
arquiteténico sem edificios como a Villa Savoye on a Rahrica
Fagus, assim como nao conseguimos demarcar um movimento
sem todo o trabalho dos CIAMs, 0s position papers ali discutidos
as cartas finais, documentos imperfeitos escritos a virias maos,
sujeitos a diversas versdes. I possivel pensar na constituigzo do
‘modernismo arquiteténieo sem as palavras de Adolf Loos em
Ornamento ¢ crime? Sem a definigio crucial do papel do arquiteto
que Gropius logrouem Nova arquitetura e a Bauhaus? Sem as
blagues¢ os aforismos de Le Corbusier nos textos reunidos em
Por wna arguitewura® Se projetos aumentaram nosso leque de
refer’
se o estranhamento que muitos deles causaram fez
aparte do debate arquiteténico, se edificios mudaram olhares, foi
por escrito que os arquitetos modernos se municiaram de um,
novo vocabuldrio e mudaram o modo de falar sobre arquitetura.
final, em momentos cruciais,o principal objetivo era langar
tum manifesto, e ao lado de casas-manifesto, projetas mostrados
em exposigdes, havin textos e revistas ilustradas que ajudaram a
construir um olhar moderno.
‘No mundo da arquitetura do século XxX, em diversas ocasises
houve win porta-vor privilegiado, um intérprete, um guia para o
uuniverso da cultura escrita. Tal foto papel de Siegfried Gideon,
secretério dos 1AM e autor do fundamental Fspaco, tempo e
arquitetura, ou de Gilberto Freyre que, em terras brasileira,
traduzia nos termos de sua sociologia as admiradas proposigdes
de Lucio Costa. Sto escritos que constroem pontes entre
arquitetos e outros profissionais, ¢ entre os préprios arquitetos,
e que delimitam o que é e deve ser a arquitetura. Publicagdes
fazem parte da formagao de escolas, nto as formalizadas como
a Bauhaus e a Vhutemas, quanto as assim denominadas, como
zo caso brasileiro a escola paulista ou carioca. A forga dos textos
—e isso inclui suas forografias e desenhios — tem um motivo
dbvio: a natureza do objeto arquiteténico é a imobilidade. Assim,
a arquitetura no papel, por escrito, dos atuais coffe-table books
‘aos panfletos ¢ tratados, tudo isso desempenha esse papel crucial
formar um musen imaginario da arquitetura ¢ fazé-lo circular
‘mundo afora.® Sio os textos que organizam discursivamente 0
universo da arquitetura, separando o que & exemplar do que &
prosaico, o que é relevante daquilo que passa despercebido, 0
‘que pertence ao mundo da arquitetura e o que nela nao cabe,
construindo um debate dotado de um notavel grau de autonomia,
Isso se mostrou evidente nos anos 1960, quando teve inicio
uma querela que fer de tudo para minar wn modernismo — ou
alguinas vertentes deste — abalado pelo seu préprio sucesso do
ps-guerra e pela crise dos Claas que deu origem ao Team x! A
partir de 1961, quando da publicagio de Morte e vida das grandes
cidades pela jornalista Jane Jacobs, até 1g72 com Aprendendo
com Las Vegas, de Robert Venturi, varios aspectos da arquitetura
‘moderna foram cuidadosamente desafiados: as relagies entre
forma e fungao; 0 papel da histéria e da memiéria das cidades,
0s desejos do usuario comum em contraposig ao designio do
arquiteto; a arquitetura do povo, de pés desealgos, do canteiro
no lugar do saber téenico e erudito, Este debate fecundo ¢
atrevido, no qual devemos incluir nomes tao diversos como Aldo
Rossi e Hassam Fathy, foi, sobretudo, uma batalha, um duelo
{que se travou por escrito. O que ndo diminuiu sua efiedcia, sua
capacidade de olhar para 0 movimento moderno, classificando-o
tre 0 que passava a ser visto como um clissico e o que era,
dessa perspectiva, desclassificado, Ao colocar (em alguns casos,
recolocar) novos contetidos na panta da arquitetura, realizava a
segunda revolugao simbélica desse campo no breve século Xx —
«a primeira, sem diivida foi a da década dos manifestos modernos.
Nao seria
muito diferente com Lina Bo Bardi, arquiteta cuja
obra e escritos situam-se exatamente nesse espectro temporal,
de uma segunda geragao de arquitetos modernos, avangando
modernamente até © momento de sua revisio ¢ atravessando a
turbuléncia pés-moderna
Lina Bo Bardi foi uma arquiteta considerada por muitos
como original ao extremo. A presente selegio de textos pode
realirmar isso, mas mostra também que ela tipicamente buseot,
realizar tudo 0 que cabia na ambiciosa agenda do arquiteto
‘moderno, aquele que desenhava da colher & cidade, Uma
singularidade, contudo, é que Lina ocupou espagos importantes
no mundo editorial italiano ¢ brasileiro e que, dada a exiguidade
de sua obra constr
— inversamente proporcional a sua
importancia —, a leitura de seus artigos pode constituir uma via
interessante de aproximagio a sua arquitetura,
Entretanto,
io & essa a tinica possibilidade de leitura desta
coletinea, Por conta de sua imersfo no debate arquiteténico
brasileiro ¢ italiano, de sua posigio privilegiada no universo‘editorial dos dois paises, de sua rede de relagoes, os eseritos de
Lina nos guiam pelos meandros dos diseursos sobre a arquitetura
do século xx. Tsso inelui o recorte que os arquitetos modernos
fizeram do legado edilicio, urbano e doméstico do passado.
O conjunto de textos aqui apresentado pode constituir wm
privilegiado patamar de acompanhamento de debates travados
no campo da arquitetura a partir dos anos 1940 e também
dle questdes e dilemas que atravessaram a produgio cultural
brasileira entre essa década e 1992, ano em que a arquiteta mezzo
romana, mezzo baiana faleceu em Sio Paulo, em meio ao projeto
para a prefeitura de Luiza Erundina,
‘A formacao Achillina di Enrico Bo nasceu em Roma em 1914,
enquanto os futuristas se manifestavam. Foi criada perto do
Castello Sant’Angelo e do Vaticano, onde foi batizada. Aprendew
‘a desenhar com seu pai e em algum momento comegou a se
afastar do que parecia um destino natural de moga burguesa
talentosa — em ver de cursar Belas-Artes, ingressou no
masculino curso de arquitetura da Universidade de Roma,
projetada e dirigida por Marcello Piacentini.
Se para arquitetos nascidos na virada do século, como Lucio
Costa, a ruptura com 0 academicismo e a adesio ao modernismo
podia ser relatada como uma conversio — caso também de
Charles Fdonard Ieanneret, que ao se estabelecer em Paris
adotou pseuddnimo de Le Corbusier — para os nascidos pouco
depois a situagio era outra: quando Lina iniciou seu aprendizado
ce ensaiou seu ingresso, formada, no mundo dos arquitetos, jt
hhavia na Itilia diversas correntes modernas estabelecidas, ainda
que em meio a tensdes e disputas, que no deixavam de expor
seus matizes ideolégicos
inicio da arquitetura moderna na Italia se confunde com
a instauragio do fascismo, ¢ foram diversos os arquitetos que,
‘mesmo mais vinculados As realizagdes arquitetdnicas e sociais
do jovem socialismo soviético do que as do regime de Mussolini,
™
aderiram a promessa de modernizagio que este parecia
representar. Em Roma, Marcello Piacentini compartilhava
algumas de suas grandes obras com o milanés Gié Ponti, a quem
hoje talvez. chamassemos de protomodemo, ¢ também com os
modernistas, entre eles Guiseppe Pagano. F, Pietro Maria Bardi
langava com Massimo Bontempelli sua Quadrante, periédico
no qual preconizava o racionalismo arquiteténico como estilo
oficial do fascismo, Enquanto Roma deveria se tornar um
cenirio milenar para as celebragées do regime e para tradigdes
inventadas — como um Anno Garibaldino, em 1932 —,
modernistas e tradicionalistas reivindicavam seu papel de melhor
tradutor, em espago e imagens, do fascismo. Enquanto isso,
arquitetos como Carlo Enrico Rava trabalhavam em outra frente
urbanistica e politica ao construir cidades fora da peninsula
durante a expansio do colonialismo italiano, A culminagéo viria
‘em 1935, com a Esposizione Universale di Roma (UR), uma
cidade colonial construida perto de Roma, no caminho do mar,
com plano geral de Piacentini para as comemoragies de 1942,
que terminaram por n&o acontecer.
Nesse pantano ideolégico, emblematizado pelo moderno
Giuseppe Terragni, autor da Casa del Fascio, em Como, ¢ morto
pbs combater na Riissia e na lugoslévia pela Itélia, nesses
anos anteriores & sinonimia fascismo-nacional-socialismo,
‘um aspirante a arquiteto tinha dois caminhos principais para
cumprir sua formagio: a Universidade de Roma ou 0 Politéenico
de Miao, Na primeira, um curso dirigido por Marcello
Piacentini* e Gustavo Giovanonni’ na segunda, uma cidade
‘menor e mais moderna, um ambiente de jovens influenciados
pelos movimentos de renovagiio arquiteténica,
Nossa jovem aspirante a architetto percorreu os dois,
caminhos: formada em Roma, iniciou sua atuagio em Milio,
Deixou a capital do pais de unificagio recente e foi para a capital
lombarda, mais disponivel politica e culturalmente, escapando
do ambiente professoral romano e buscando abragar os rumosLo) su)
nas capes sons
ts Eco Bo e Carlo
wares Preto Maria
Iota Lo Ste, Mio, m4
1941; 9.10, ou. 194
da vida moderna. Nessa cidade reformista ¢ industrial, foi no
mundo editorial, trabalhando con
3id Ponti que Lina comegon
sua trajetoria profissional. Ponti editava a Stile —que também.
contava com a colaboragio de Pietro Maria Bardi —e Lina
ilustrou capas e paginas internas sozinha ou a vérias mios, como
aquelas assinadas por Gienlica: Gid Ponti, Enrico Bo, Lina Bo
© Carlo Pagani. Foi editora da Domus e Quaderni di Domus
decidiu vir ao Brasil em companhia do maride Pietro Maria
Bardi, jornalista, critico de arte autodidata, dono de galeria,
colecionador e editor da influente e comprometida Quadrant
Quando chegou ao Rio de Janeiro, Lina jé trazia experiencia
em fazer arquitetura por escrito. O fato de ter conseguide
comegar a projetar e construir no Brasil nao a afastou dessa
forma de expresso, ao contrario: em um campo onde havia
cruzamentos entre eleigies arquiteténicas e matizes ideolégicas,
onde grupos pleiteavam ser o representante oficial do regime
Vargas (
errado pouco antes da chegada do casal), onde Le
Corbusier e Marcello Piacentini disputaram projetos oficias,
esse territério ao mesmo tempo familiar e estranho que o casal
Bardi escolheu para viver, Lina ndo deixou de escrever e editar.
Ao chegar, esse campo j caminhava muito bem, ao mesmo
mnpo que comegara a mostrar suas fissuras, Em 1948, um
artigo de Geraldo Ferraz na Anteprojeto colocava em divida a
primazia da escola carioca no cenario da arquitetura moderna
brasileira, assim como a versio canénica de Lucio Costa, que
seria reiterada por grande parte da nossa bibliogratia, No nos
cabe aqui remontar esse debate" e sim chamar a atenglo para a
de que qualquer escrito nesse mor
campo minado. Kassim foi com a inauguragio da revista Habitat,
em 1950, com a qual Lina se langou nesse universo de textos que
poderiam soar como adesdes, afagos ou contendas,
periente
no mercado editorial — Bardi por ter editado a Quadrante, Lina
por todo o trabalho com as revistas ligadas & Domus —, 0 easal
conduziu o periédico do MASP em seus primeires quinze néimeros.Copas de revistas
Veuna # naga in. 9-10,
Sset-out. 1942) Bolezze
(0.13, jan. 1942), nas quis
Line Bo Bac colaborou na
cad do 1940,
BELLEZZA
Lina no escreveu apenas em revistas especializadas para so da ois Domus
198 un. 198
ei Doms
1948), ara as quis
Ioiedtor, escreveu
arquitetos, Se a Habitar era a revista do museu, ainda que com
‘um espago consideravel dedicado a temas afins, sabemos que seus
trabalhos iniciais foram com titulos que visavam um piblico
ais amplo e diverso, como Lo Stile, Vetrina ¢ negozio e Bellezza, 0» 1986 (Doma
além das profssionais Domus e Quaderni di Domus. Pouco oe 194501948
(adr Boma.
antes de mudar para o Brasil, langou-se, ao lado de Bruno Zevi e
Carlo Pagani, na aventura editorial da revista 4, posteriormente
batizada como Cultura della Vita. Na carta que escreveu a Zevi
propondo o novo periésico, ela via espago para uma revista que
“estivesse ao aleance de todos e que pautasse sobre os errostipicos
dos italianos”." Infelizmente, por dificuldade de atribuigSo de
autoria em um veiculo que comportava a esrita a “varias mos”,
‘lo pudemos incluir nesta coletinea nenhum artigo dessa
revista impar, que contou também com a ajuda de Pietro Maria
Bardi.” A 4 extrapolava os limites, entrava em temas como
planejamento familiar, mecanizaglo do lar e buscava, seguindo
’, ser umn periddico politizado naqueles anos
do imediato pés-guerra, O primeiro titulo, al como um Aleph
permite enxergar 0 mundo, era uma letra de recomego: (h)
abitagio, ansiedade, amor, (h)abilidade, acordo, audacia, aviso,
aspereza, absurdo, associagio: “Comegar desde o inicio, da letra A,
e planejar uma vida mais feliz para todos nés", escreveu Zevi no
Primeiro editorial da nova revista, « recomegar remetia a terra
arrasada pela bomba atémica. 4 era também a acusagio, tema ao
qual Lina retornaria na Bahia.
2.4 ~ Cultura della Vita weve vida breve — cinco meses
—a Habitat foi de inicio parte do tripé que dava vida ao MasP: 0
acervo invejivel (construido por métodos heterodoxos conhecides
© romanceados), o Instituto de Arte Contempordinea (1AC).
Sobre 0s textos Lina Bo Bardi — por caracteristica geracional
€ de seu oficio — nao citava autores segundo os costumeiros
padries ac
rnicos. Isso torna sua leitura sinuosa, podendo levar18, jun 1948, Ectade
ring, uno Zev a
avo Pagani am ome de
lovoreio a junto de 1846
‘a enganos como a atribuir A arquiteta achados tebricos e politicos.
Por outro lado, uma leitura atenta ¢ investigativa revela, entre
Tinhas,hiatos, palavras, autores importantes, ilbofos, anquitet
E expe seus movimentos de incorporagio, recusa e transmis,
Alia sob a guerra podem
Os primeiros artigos ainda na It
hoje soar quase pueris, mas ja aprese
erescenta transformagia, iria acompanhé-la sempre: a casa, 0
morar, 0 como morar bem ¢ © morar moderno. Em parceria
‘com seu colega de faculdade e de editorias Carlo Pagani, Lina
ensinava o leitor comum como arrumar, mobiliar, em suma
decorar — palavra que os arquitetos modernos depreciam — st
casa, Morar era um tema que voltaria com tudo apos o fim da
Stile trata-se de dar
guerra, mas nos singelos artigos de Gi
conselhos praticos para as dificuldades cotidianas: uma pintura,
colorida no teto, um forro de fustdo em um estofado, uma certa
simplicidade no lidar com a easa pequena, com a casa no campo
‘ou como usar objetos antigos na casa contemporiinea. Mas a casa
como habitagio coletiva foi tratada no elogio a um conjunto
habitacional em Roma [pp. 42-6],
Essa casa moderna também deveria ser o Ingar da eficiéneia,
da mecanizagio, do taylorismo aplicado a vida doméstica, ou
se)a; 80 eotidiano da mulher. Nao estava sé: divulgagio das
\deias tayloristas aplicadas ao espago doméstico, vindas dos
Estados Unidos e incorporadas pelo modernismo arquiteténico
alemio, especialmente 0 vinculado a conjuntos habitacionais,
era corrente. Ao final dos anos 1920, a propaganda de ideias do
novo modo de ge
iciar uma casa, aliada & atuagio de arquitetos
como Bruno Taut, gerou como solucio a proposta da casa para
‘uma subsisténcia, ou existéncia minima (Die ohnuna. fr
das Existezminimum). A culminagio disso tudo foi o projeto
da conhecida Cozinha de Frankfurt, pela arquiteta austriaca
Grette Schiitte-Lihotsky, exibida na Die neue Wohnung und ihr
Innenausbau em 19325 € logo incorporada em diversos projetos
residenciais construidos nessa cidade por Ernst May. Trata-se de
uma Kochkuche, cozinha para se cozinhar, pequena e com uma
‘aura de modernidade que vinha do uso da eletricidade
Ainda na Itélia, seus escritos mencionam diversas vezes
exemplos norte-americanos de arquitetura doméstica,
especialmente, Ha varias explicagies posstveis para tal afinidade,
Além do fecundo didlogo com Bruno Zé
dos Estados Unidos, puiten
que em 1945 retornou
1s Sugerir 0 aparente esgotamento das
possibilidades de criagio na Europa do pés-guerra em contraste
com talvez a percepgao da América, mundo novo, Nao foi a
primeira arquiteta a migrar para o sul ou norte do novo mundo,
© a0 fazé-lo Lina alinhou-se ao grupo da Bauhaus nos F
Unidos, assim como a Hannes Meyer
tados
que deixou a Alemanha
pela Unido Soviética e esta pelo México; e no Brasil esteve em
‘companhia de F
Rernardo Rudofsky
radieada em Sio Paulo, A cidade, diferente da entao capital Rio
inz, Heep, Lucien Kornjold, Giancarlo Palanti,
Jacques Pillon ¢ muitos outros, a maioria
de Janeiro,
uma arquitetura de estrangeiros, distanteaps da Hai, rst
Jo MASP quo ne Bo Bar
tnd. 19502
tx 1951 5, ut-do,
1961; 6.10 jan-mas. 1953.
de definigGes de carater nacional e busca de brasilidade — em
suma, era puro negécio, mercado. Uma ocupagio silenciosa do
espago urbano, da avenida Paulista, dos bairros burgueses que
se verticalizavam, uma presenga que se dava mais nas ruas da
nicas. Nesse espago foi
cidade do que em manifestos, artigos, pol
crindo o museu de arte, mas certamente faltava para Lina o lugar
dos anseios de todo o léxico iniciado com a letra “A”. Nao por
acaso, diversos desses temas retornaram na Habitat, ainda que
viessem a ganhar expressio mais plena posteriormente, nos cinco
anos que Lina passou em Salvador
Sea mudanga de pais foi uma contundente circunstancia
espacial, do ponto de vista geracional Lina poderia ser uma
arquiteta do Team x. Seu brutalismo a aproxima de Allison
‘Smithson, Sua incorporagio da chamada cultura popular
trouxe Aldo van Eick como seu aliado no final de carreira, Essa
afinidade geracional a situa como uma aprendiz indireta dos
chamado movimento moderno, uma
pais fundadores do assim cham
10 HABITAT
arquiteta moderna do pés-guerra que niio sucumbiu a rotinizagao
‘Wo assinalada por Fredric Jameson."* E que permaneceu se
proclamando moderna mesmo quando a geragio seguinte, ¢
muitos compatriotas seus aderiram ao post-modern, te
Pritica que ela condenava sem ao menos se dar ao trabalho de
traduzir— era a morte da arquitetura,
Varios dos textos desta coletinea fornecem indicios da
admiragio de Lina pela arquitetura moderna brasileira fundada
« partir da ruptura de Lucio Costa com a Escola Nacional de
Belas-Artes. Contudo, ao se mudar para Sao Paulo e assumir
@ editoria da Habitat, ela se colocou na posigio de farol, de
intérprete privilegiado, de guia critico da arquitetura que via
florescer em nossas cidades. Seu olhar e sua pena feriam o
orgulho paulistano e imigrante ao atacar a Catedral da Sé.¢ 0
Bdificio Martinelli, enquan
0 sua pena produzia um contra
discurso em relagio & hegemonia da chamada escola carioca. Sua
Posigio era por vezes ambigua, falando como uma estrangeira‘0s brasileiros e como uma nativa quando respondia aos seus,
‘amigos, como Bruno Zevi ou Max Bill, nesse momento alinhados
8 critica que via na hegemonia da escola carioca um formalismo
que poderia conduai-la ao academicismo tao combatido pelos
primeiros arquitetos modernos.
Mas é com o pai-fundador da arquitetura moderna
brasileira que ela vai travar um diélogo surdo, incidindo
rium ponto de honra: a relagdo com o pasado. Para Lucio
Costa, é na arquitetura colonial brasileira que podemos
encontrar algumas chaves da arquitetura moderna. Para
Lina é na casa de pau a pique, do seringueiro, na arquitetura
vernacular. Ainda que Lucio Costa jé tivesse ponderado
‘em “Documentagio necessiria”"* que a “boa tradigio” que
vinha da Colénia havia sido transmitida ¢ guardada néo
pelo arquiteto, mas pelo homem simples, temos ai uma
‘mudanga radical de perspectiva. Esse passado colonial era
construido e guardado pelo 1PHAN, instituigdo na qual Costa
desempenhou papel crucial. Mas, ainda que o érgio do
patrim6nio preservasse alguma arquitetura moderna —
aquela que confirmava a hipétese de Costa —, era um passado
nacional que se reconstruia com seus tombamentos, restauros
e esquecimentos. 0 homem simples da casinha de pau a pique
era um sujeito social contempordneo, um presente popular
que era também uma construgao intelectual e politica de
Lina, do casal Bardi, da Habitat, Se o povo era arquiteto, capaz
de construir obras corretas com poucos recursos, era um povo
do presente, vivo nesse Brasil dos anos de redemocratizagio.
Dai a diferenga, inclusive politica, que podemos estabelecer
‘entre Lucio Lina, especialmente porque em seu discurso esse
povo ganhava contornos romAnticos ¢ revolucionérios.” Se wm,
“outro” no passado poderia conduzir a uma forte politica de
preservagiio, esse “outro” presente levou politizagio de seu
discurso em pleno periodo de aposta na modernizagao do pais.
A nogiio de autenticidade era deslocada: auténtico era o povo.
Definitivamente, Lina nao era bossa nova, sua dissondncia
cera outra,
Enquanto Le Corbusier um dia escreveu “arquitetura ou
revoluglo”, a Bauhaus deixou a Alemanha do nacional-socialismo ¢
-mitos arquitetositalianos aderiram ao fascismo de primeira hora,
4 politica também fazia parte da atuagio e do discurso de Lina. Em
primeiro lugar, por sua posigdo proxima a Assis Chateaubriand e a
circulos do poder. Mas também e, sobretudo, pela propria relagéo
que se trava, na érea da arquitetura, entre cliente arquiteto, ¢ essa
tensio constitutiva desdobrava-se em seu percurso: ora tragando
estratagemas com Adhemar de Barros para a construgdo do MASP,
ora cultivando sua admiragao e posterior rechago pelo governador
da Bahia Juracy Magalhies; posteriormente aproximando-se de
Sergio Ferro e seu grupo, e ao final de sua trajetéria transformando
uum (para la) detestavel edificio de Ramos de Azevedo em uma
prefeitura no Parque Dom Pedro, esse centro feio e nio-gentrfcado
— 0 opostosimétrico da avenida Paulista — para a prefeita petita
‘Luiza Erundina, A atuagio de Lina, ainda que longe da capital, foi
pautada por um universo de escolhas possiveis, que atravessavam a
Vida politica e foram por elas politizadas.
Os artigos da Habitat eram também um lugar de
abrasileiramento do casal Bardi. J no primeiro niumero ela
assinou “Bela erianga” [pp. 70-3], uma resposta aos criticos
‘europeus no momento em que comegava a arrefecer 6 encanto
suscitado por Brazil Builds, pela obra de Lucio Costa ¢ Oscar
Niemeyer na exposigdo de Nova York, pela apresentagio da
original arquitetura moderna brasileira, cedendo lugar para a
expressiods um temor,o do formalismo. & nessa atmosfera que
la intitul esse artigo, no qual relata uma arquitetura jovem
‘que nasceu bela sem sabermos exatamente a razo, que ainda
no tinhatido tempo para parar e refletire euja maior qualidade
cera a rudeaa ea falta de polide2. Seus amigos europeus estavam
para ela eyivocados,e Lina escrevia como alguém pertencente
A arquitetna m
lerna brasileira, E no mimero seguinte elogiava‘a atuago de Lucio Costa no 1PHAN, por seu estudo acurado que
conduzia a arquitetura para 0 caminho certo.
Ainda na Habitat, 0 projeto, a construgio € a inauguragio
da residéncia do casal, a conhecida Casa de Video, deram lugar
a reflexdes que iam do pedido de um cuidado especial com um
bairro novo, o Jardim Morumbi, até a afirmagio da qualidade de
‘uma casa polémica, sem compromissos com o comitente e sim
com a autonomia do fazer arquiteténico — afinal, o comitente
cera o proprio arquiteto, escreveu Lina na Habitat n° 10 [pp. 79-81]
Como explicar as mudangas em seus projetos, que podem
ser agrupados em casas do ar eda terra," classificados como um
caracol e um lagarto?” Como ler projetos que vo da precisio
mniesiana ao elogio e didlogo com o vernacular? Alguns textos
aqui apresentados podem fornecer pistas, desde que retiremos
Lina do casulo de sua singularidade, devolvendo sua reflexto
aos dilemas da arquitetura do pés-guerra, O elogio ao vidro ¢ As
casas de Vilanova Artigas [pp. 67-70] sfo anteriores ao clam de
Dubrovnick, o da ruptura. Posteriormente, seus projetos passam
a ter mais latitude, a se ocultar do sol, a constituir algo que talvez
Kenneth Frampton inclufsse no seu rétulo “regionalism eritico”.
A fenétre @ longueur dos cinco pontos corbusianos torna-se vo,
caverna, forma inusitada em relagio a0 “do piso ao teto” de sua
Casa de Vidro. Ainda assim, seus projetos vao até o final oscilar
centre uma caixa suspensa e a caverna, esta iltima um claro gesto
de conferir significado a uma arquitetura acusada de earecer dest,
[A recente valorizagao do trabalho de Lina — basta ver 0
rniamero de artigos, teses ¢ livros sobre seu trabalho — de algum
‘modo obseurecet 0 papel de Pietro Maria Bardi, conhecido
plas novas geragies como marido da arquiteta, Se deixamos de
publicar nesta coletinea alguns artigos comumente creditados
a Lina, é porque havia dificuldade de atribuigio de autoria,
tamanha a imbricagio de suas ideias com as de Bardi, fi do casal
‘a provocativa coluna “Alencastro”, que encerrava a Habitat em
tom de ironia e sareasmo, B compartilhada a preocupagi com a
_ pelo presente, por un
arte popular — Bardi se correspondia com foleloristas brasileiros,
como Renato Almeida e Falson Carneiro —e com o papel social
da arquitetura e do urbanismo, Ha mais didlogo entre Lina ¢
Bardi do que pode parceer & primeira vista
Quando a Habitat publicou um edificio residencial de
Oscar Niemeyer em Campinas sem deixar de expressar um
leve comentirio irénico a respeito da curva, quando em outro
‘momento foi jocosa com o mar de cohunas que 0 arquiteto
havia feito no edificio da Bienal, havia uma confluéncia dos
principios do que Lina acreditava ser a arquitetura correta, que
ela praticava e viria a praticar, mas havia também as tomadas de
posigio de Bardi em relagio, por exemplo, a Cicillo Matarazzo, 0
promotor da Bienal de Sao Paulo.
IE sabido que Lina viveu na Bahia entre 1958 e 1964 — perlodo
«que posteriormente denominou seus anos entre os “brarcos” [pp.
130-6], Mareando o inicio desse periodo, sua aula inaugural [pp.
81-6], ainda com sotaque italiano em seus termos grafia, apresenta
‘uma arquiteta leitora de Antonio Gramsci. Esse conhecimento da
‘obra de Gramsei mais tarde se desdobraria em seus escritos sobre
arte popular, sua distinglo entre nacional e nacionalista, e nesse
‘momento remetia& faculdade que todo homem tem de pensar, ¢
também 4 nogiio de que a filosofia de uma época niio é outra coisa
que nao a histéria dessa mesma época. 0 leitor pode reconhecer
‘mesons palavras que, em sua aula, segundo suas anvlaydes, faziam-
se acompanhar de diapositives exibindo casas populares italianas
anteriores & Segumda Guerra, as paginas iniciais da obra Id
‘materialism storico¢ la filsofia di Benedetto Croce, traduzide no
Brasil como Concepedo dialética da histbria."* Segundo o tradutor
desse livro, Carlos Nelson Coutinho, que contieceu Lina nesses anos,
la foi a primeira pessoa a falar de Gramsci em nosso pais. Por
joutr lado, sua nog de “presente histarico” tem outra origem: &
de Benedetto Croce a visio de que 0 juizo histérico é determinado
jeito que para agir observa a situagio
para a partir desta avaliar © passado,Dificilmente Gramsci e Groce, que compartilhavam iniimeras
diferengas enquanto — cada um a seu modo — enfrentavamn 0
fascismo, imaginariam que seu legado viria a ser traduzido em
cores, formas e volume. Lina levou Gramsci ao museu e Croce 20s
‘centros historicos. No primeiro caso, para propor um centro de
arte popular em Salvador, no Solar do Unhio, que ela restaurou
de modo heterodoxo para os padrdes do momento. No segundo,
‘quando o proprio restauro e as intervengées em centros — como
0 de Salvador — e edificios — como o Palacio das Indiistrias —
exam assumidamente pensados a partir do presente. Nao apenas
tum presente pragmitico ou programético, mas um presente
critico, que tornava possivel a ela questionar a énfase conferida ao
turismo no tratamento dos centros histéricos das cidades italianas,
Lina Bo Bardi faleceu em margo de 1gg2. Poucos meses
antes proferiu uma palestra [pp. 180-4] em wm importante
encontro de arquitetos que homenageava Lucio Costa. No Apice
de sua consagragio e maturidade, reiterou seu aprego pelo
pais que elegeu — livre, sem formagio intelectual e um poueo
Iouco — e, mais uma ver, enfatizando o sentido de plenitude do
‘modernismo. Elogiou Brasilia cidade sem a qual o Brasil seria
ainda uma republiqueta sul-americana, e convidou o piblico,
formado em sua maioria por jovens estudantes de arquitetura, a
debater, “porque eu nao sou conferencista, sou arquiteta”.
“Arquiteta: em portugués e no feminino, diferente do modo
‘como sempre se apresentou, sem flexionar ou tradutir, architetto.
Ser arquiteta era, finalmente, tudo isso: o que ela falou, escreveu,
desenhou, projetou, imaginou, realizou. Em todas as escalas, de
‘uma cadeira para a Casa de Vidro a um toboga para Sao Paulo. A
realizagao plena dos preceitos das vanguardas europeias, sb que
nos trépicos e no feminino,
1 Gangressos Internacionas de Arqutetura Moderna, 1928-56
dada em 491
Beatriz Camargo Cappello, no fora
‘mengées 4 arquitevara moderna brasileira no cendri europe. Em 1950,
1 pedo do secrtirio Siegfried Gideon, Gregori Warchavchik enviou a0
can de Bruxelas um relatirio sobre a stuagéo brasileira e sul- americana,
parcialmente publicado na Cahiers dart. Arguitetura em revista
aquitetura moderna brasileira nas revisit francesa eialianas. Tose de
Aoutorado, PALUSP, 2006,
Heinrich Wallin, Priniple of Art History: Apud Ernst H. Gombri
‘Meditagdes sobre wm cavalinho de pau. Sio Paulo: EUSP, 1999, 9.9
“The principal aim is manifesto” fia resporta de Le Corbusier diante
da acuragfo de destruigio que seu Plan Voisin exigiria. Apud Sennet, The
Conscience of the Eye. The Design and Socal Life of Cities. Londres e Nova
York: W. W. Norton & Company, 1990, p72
“Magali Sarfati-Larson, Behind the Postmodern Facade, Architectural Change
in Late Twentieth Century America Berkeley ¢ Los Angeles University of
California Press, 1995, p-¥
A respeito do Team X, ver Ana Claudia C, Barone, Team 10— Arquitetura
como critica, Sdo Paulo: Annablume, 2002; Kenneth Frampton, Histria
‘rtiza da arquietura moderna, So Paulo: Martins Pontes, 337-550
Sobre Piacentini, wer Mareos Tognon. Arputetra italiana no Brasil a obra
de Marcello Piacentini. Campinas: Eaitra da Unicamp, 1999,
Sobre Giovanonni, ver Beatriz M. Kubl, Arguitetura de ferro e arquitetara
_ferrosidria no Brasil Sao Paulo: Atelié Editorial, 199
Ver Carlos A. Ferreira Martins “Gregori Warchavehik:eombates pelo
futuro”. In: Gregori Warchavehik, Anpuitetura do século XX outros etritas
‘Sto Paul: Cosae Nay, 2006; ¢ Arguitetura Estado no Brasil Blementor
para wma anise da consttucdo do discurse moderne no Brasil. obra de
Lio Costa 1924-52 Dssertacto de mestrado, FLCH USP, 1988.
“Lina Bo Bardi: um arehiteto in tragitto ansioso", Caramel, 4, LUND, 992
‘euler Lima, Ferso unarchitetura semplice. Roma: Fondazione Bruno Zevi,
aes
Jameson, Fredric, Pés-modernismo. A liga cultural do capi
Sto Paulo, Baiora Atvs, 1995, p30.
{ns Lucio Costa, Registro de wna vinta. Sto Palo: Empresa das Artes,
1995, pp. 481-62,
7. Lina, op. cit, p27
Maria de Fatima Campell, Lina Bo Bardi: as moradat da alma. DissertagS0
‘do mesteado, EESC-USP, 1997.
‘Ana Carolina Bierrembach, H2caracolyellagart:absraccién y mimesis
‘en la arquitectura de Lina Bo Bardi Tese de Doutorado em Arquitewura,
versan-Ure Barcelona, Espana, 2006.
Gramsci, Concepedodialticn da histiia, Trad, Carlos Nelson
1. Rio de Janeiro: Civilizagto Brasileira gs [ed 1986)
tardio,A intengio desta coletanea no
{6 ser exaustiva. Como vimos, Lina Bo Bardi escreveu muito,
em diversos formatos ¢ veiculos e por isso tivemos, desde 0
primeiro momento, uma margem de diivida a da pertinéncia
de publicarmos todos os seus escritos. Contudo, muitos deles
tinham vindo a pitblico em outros vefculos. Optamos por trazer
uma selegio autoral, com os escritos tal como publicados pela
primeira ver, na tentativa de reproduzir os debates nos quais
cestavam inseridos. Textos escritos em parceria, como os que
Lina escreveu na Italia com Carlo Pagani, foram excluidos
por questdes relativas a direito autoral. Ehavia diversos textos
publicados na Habitat eujo tema ¢ escrita remetiam a Lina,
‘mas que poderiam ser resultado de uma redagfo coletiva dos
colaboradores da revista, Reproduzi-los como sendo de Lina Bo
Bardi, sem um minucioso trabalho de pesquisa, poderia eriar ou
cristalizar equivocos. O que niio era o objetivo de uma coletinea,
que, como tal, é uma selegio criteriosa,
Sempre que possivel reproduzimos, com os textos, as imagens
que os acompanharam em suas publicagdes nas revistas ¢ jornals.
‘Nesses casos, mantivemos também as legendas originais, escritas
por Lana, identificadas aqui como [1.0,}. Mantivemos tamnbéma
as iniciais B. B,, conforme Lina Bo Bardi assinava seus desenhos
neste periodo.in Roma”
le, Milo, 9.3, tinindo ¢ moderna.
0, pp 15-20.
desordem, do pé e da confusio; resumindo, uma “via Margutta”*
Para a realizagio pratica do edificio, que Piccinato queria
‘A moradia nos bairros habitacionais em Roma
‘num bloco tinico, foi preciso lutar contra as normas da
trugio civil e o plano diretor, 08 quais, prevendo para essa
regio s6 “pequenas casas” (villini), obrigaram a divisto em dois
ccorpos, servidos apenas por uma escada (e aqui houve discusses
com a Secretaria de Obras, porque duas “casinhas” nfo podem
Esta construgio erguida bem no meio do bairro Mazzini,
mosaico de palacetes, residéncias, casinhas ¢
pscudoestilo
floreal’ e Coppedé denuncia, com a sua arquitetura aberta,
flexivel, aérea, a arquitetura a seu redor, cristalizada em formas
ser servidas, segundo 0 regulamento, por uma ‘nica escada)
Os recuos obrigatérios criaram, em volta do prédio, um amplo
cespago live
e dogmas, enrijecida na imobilidade das fachadas, na nogéo de
fechado, apertado; uma arquitetura em franco contraste com as
a proximidade de um jardim com gigantescos
necessidades humanas, bases e justificativas da mais essencial
eucaliptos impés a necessidade de uma construgio aérea, com
arquitetura de hoje: a arquitetura da casa.
ai x formas bem definidas e individualizadas, isoladas perfeitamente
Esta residéncia, realizada por Luigi Piccinato, é do tipo pelo ar. Por isso surg «da compl be
sso surgiram a escada completamente aberta e 08
para uma pessoa s6 (artistas, intelectuas ete), com micleos patamares-passarela
habitacionais separados e dreas de servigo centralizadas:
‘3 s Outro obstaculo A realizagio da concepeko do arquiteto
restaurante, salas de estar, biblioteca. J4 em 191, na ocasiao da
foi dado pelos materiais, que exigiram normas edilicias de
famosa Exposigio,o arquiteto Milani projetou, para o Istituto
Romano dei Beni $
‘um conjunto baseado em principios andlogos, mas a construgao,
guerra: limitagio do concreto armado para os pavimentos
€ as escadas, impossibilidade de construir colunas e vigas,
tabili [Instituto Romano de Bens Iméveis]
inspirada em uma ideia muito nova para a Epoca, nfo teve sorte Rico ramen
¢ oedificio foi transformado depois em umn imovel comum, cd de 1940,
para locagio.
Hoje, em dias mais maduros, bascada em uma concepeo
ais livre, mais aberta da vida, a ideia foi retomada, ¢ 0
conjunto que surgiu dela responde exatamente a necessidades
reais e praticas da vida contemporinea ¢ néo a um modernism
propagandista de ideias excéntricas que adentram o campo da
pritica escolar
Piccinato quis criar um conjunte organico de “estadios”
arejados, abertos para terragos floridos, conforvaveis, que nada
tivessem de romantica, de “bizarro”, mas que oferecessem
odernamente‘uit Lug Plc,
Inttoconais de Roma
11-0, — legends axignl
wo 80 ee cao; a
op das aca so om
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ales om verdes
uecu. Os rodapes ©
nas esto revestidas
evesies os dears
cad nce desta &
eneoto aad,
enhum metal para aqueles
para grandes vios e, sobretudo,
{grandes jancldes que parecem indispensiveis a todo e
qualquer estiidio, Construiu-se com estruturas de paredes
comuns, aberturas e pavimentos limitados e esquadrias
penta ongtdnalments
de madeira, Essas necessidades determinaram a forma ae apna
planimétrica, constituida essencialmente por trés paredes cv on esa
paralelas em cada bloco, duas externas e uma central, eee ET
voltadas do leste para 0 oeste — obstruindo, portanto, a0
norte € ao sul, o frie eo calor —, e deixando a leste e oeste
as fachudas abertas em diregio ao jardim com,
duas sacadas envidragadas ¢ arquitravadas pelos proprios
pavimentos encaixados transversalmente.
Pequenos trios abertos dio acesso aos estitdios, servidos
quatro a quatro pelas passarclas.
Cada célula é composta por uma antessala, um amplo
ambiente aberto junto a uma sacada, um quarto e um banheiro;
uma parede de armérios divide o quarto da antessala.
Esta é a constituigio das oélulas individuais, os servigos gerais
wrante, bar, cozinha; de w
1 pequeno a
ficam no térreo: rest
perto da eseada 0 “zeladlor” pode supervisio
funcionamento dos esttdios particulares ligados por um sistema de
telefonia interno, O servigo de manutengio dos estidios é comum a
ido no prego do aluguel
Foi grande o éxito dessa construgio, a experiéneia foi
todos os inquilinos e esta incl
plenamente concluida, e espera-se poder repeti-la com maior
liberdade de meios,
0 fracasso da experiéneia de 1911 € 0 sucesso da de hoje nos
demonstram que se caminhou muito desde entlo, na arquitetura e
nna aderéncia desta a vida humana, e mais ainda, na concepgiio de
Vida de todas as classes sociais. O fato de esses “niteleos” 1
hhabitados apenas por “artistas”, mas também por pequenas familias
ou por trabalhadores, nos diz. que essa “arquitetura moder
tedrica, tao dificil de adaptar-se a vida “pr
ica” de “todos os dias”,
‘comega a transitar para a realidade comum. Esse experimento de
Pi
inato nos mostra que até mesmo os ex-moradores das casas
‘art nouveau, Coppedé ¢ Novecentos? comegaram a formar una
nova mentalidade: sé um passo a frente, porém, porque se foram
atraidos pela pura beleza, pela clara limpeza da arquitetura, nao
se inspiraram nela na excolha da mobilia da decoragio, nas quais
itago do estilo Luis xv1 ou um belo “estilo antigo”
adamascado, ou pior, um Novecentos com poltronas de veludo,
rodapés de madeira, ¢ veadinhos, além de bibelés de vidro e de
rata vazada e ceramicazinhas.
A arquitetura deu um passo a frente também em relagao &
mente do homem da rua, mas 0 mobilirio e a decoragao, assim
‘como as roupas, nao caminham pari passu; quanta dificuldade
existe em erradicar a imitago, a empolagio, as “saletas”, 0
inatil. A roupa de um homem que transita por uma arquitetura
moderna nos diz que ela esta destinada a mudar, ¢ a mobil
a decoragio vo no mesmo passo, mas hi aqui uma melanedlica
inclinagao, um romantismo dificil de ser erradicado, um apego
doentio a “bela easa tradicional”
Visitamos muitos “apartamentos” da bela construgio de
Piceinato, umn estidlio de artista com a beleza das coisas “que stocomo sio", simples: um cavalete, um quadro, um esbogo, uma,
cescultura; ¢ um estidio de escritor ou de um apaixonado pela
arte: belos miveis escolhides com cuidado, quadros valiosos, e
‘em volta, aquele ar de familiaridade com o belo, o seleto; mas,
estes slo interiores de excegio, porque os demais se satisfazem
com seus saldezinhos arrumados em cfrculo,e vasos com
amendociras artificias “no centro”.
Mas esta é uma primeira experiéncia de Piccinato, e esta fase
pode ser incluida entre as que desgostaram o arquiteto. “Quantas
veres se consegue conduzir a fundo um trabalho conforme o
primeiro programa? Toda arquitetura pensada sofre em sua
‘radugio em matéria”, ¢ Piccinato Iutou contra graves dificuldades
técnicas, esolveu problemas, empregou materia desprezados no
pasado, fer, segundo suas proprias palavras,“acrobacias", chegando
8 conviogio de que “o principio bésico para fazer arquitetura &
procurar redescobrir e valorizar 0s materiais que nos sio oferecidos,
aceiti-lo, esses materiais, em carmuflé-los ¢ sem envergonhar-se
eles, mas, a0 contrio, exalté-los; eda sua construgio no se pode
senio escreveralvenaria ordinéria, reboco comum, estuque romano,
travertino, quartzitos, madeira de castanheiro-da-europa e fia.
Isso demonstra que esta arquitetura nao surgin dos
pressupostos ou da modernidade dos materia, mas das
verdadeiras e indiscutiveis necessidades praticas ¢ estéticas e que
por isso é natural, & espontanea, 6 itl, ¢ bela também.
1 Outro nome dado ao art noua [8]
2 Gino Coppedé (1866-1927), arquitetoflorentino. Entre seus projetos mais
conbecidosestho 0 edificis residencais,constraldos entre 1907 € 1925, do
bairro romano que levaria seu nome, Morren em Roma, em 1927. (ST)
35 Howe dus expoigiesinternacionais coordenadas entre sina Tilia em 1911,
em comemoragéo aos cinquenta anos da wnifiagio do pals a Espositione
Internazionale D’Arte,em Roma, ea Esposzione Internazionale delle
Industrie e det Lavoro, er Turi. (S#]
4 Rus de Roma, mito apociada — e habitad
estrangeros [Nt]
Domus, Miao, 0.193
ow. 1983, pp 7
5 Segundo Argan: “O Novecento nfo é um movimento ou tendéneia
‘uma congregagio profissional de pimtoreseeecultores de diversosniveis€
orientages, todos convencionalisag, que se dizem modernos ressalvando
‘respeto pela ‘siudveltadigdo italiana’. Sastentado pela critica de
M,Sarfatte U Ojeti, 6 Novecento a pritneira venta
do Futurism,
de ein, fora
arte do rogime (lascsta)", (Giulio Carlo Argan, Arte
‘moderna. Sio Paulo: Companhia das Letras, 999 (4988), p.377]- [x]
Jura € natureza: a casa na paisagem
Oestudo exclusive da arquitetura estilizada, que se resume a
formas tendentes essencialmente A superestrutura decorativa, € 0
formalismo académico do século xrx cristalizaram a arquitetura
em formas fixas sintetizadas em um esteticismo superficial, nfo
funcional, independente das condigBes essenciais da construgao,
das necessidades da vida e do ambiente. A pesquisa realista do
mundo moderno, destruidora de toda superlicialidade, de todo
Preconceito, de todo decorativismo, trouxe para a arquitetura
a relagdo SOLO, CLIMA, AMBIENTE, VIDA, relago que, com
‘maravilhoso primitivistno, vemos brotar da mais espontinea das
formas da arquitetura: a arquitetura rural. Da correspondéncia
perfeita desta arquitetura com o ambiente no qual a vida do
‘homem se desenvolve ha exemplos no mundo todo, e o primeiro
entre todos € o da casa mediterranea, pura, perfeitamente
aderente ao solo e & paisagem, coerente com a vida que se
aesenrola ali.
A arquitetura moderna trouxe & precisa relagio de TicNICA,
usnirica e FUNGKO aquele complexo organisme que & a casa, €
estabeleceu uma estreita ligagio entre esta e a terra, a vida, 0
trabalho do homem, Montanhas, bosques, mar, ries, rochas,
aprados e campos sio os fatores determinantes da forma da casa;
(0 sol, o clima, os ventos determinam sua posigio, a terra ao redor
oferece o material para a sua construgo; assim, a casa surge
ligada profundamente a terra, as suas proporgdes sio ditadas por
‘uma constante: a medida do homem; ¢ ininterruptamente, com
profunda harmonia, ali flui sua vida.
0 instinto primordial de protegio que inspirou as eabanas
de palha e galhos, 9s abrigos em forma de cones, de cubos de
blocos de pedra macigos, se encontra de nove hoje, através de
‘uma evolugio profunda, nas arquiteturas de casas que, embora
adaptadas as severas leis de funcionalidade e essencialidade da
arquitetura moderna, conservam sempre a “pureza” das formas
espontaieas e primordiais das quais derivam: conservam ainda
na pedra regular, na madeira trabalhada, aquele sentimento
“puro”, “natural” na qual elas esto inseridas, radicadas 8 terra
onde nasceram, fundidas & natureza, imersas naquela paisagem.
[Nao falamos aqui de aparéncias exteriores, de folclores regionais,
mas daqueles valores que, fruto da séria pesquisa promovida
pela arquitetura moderna contra 0 “falso”, 0 “estilistico”, 0
Jeconduziram a casa ao valor de construgdo pura,
“cristalizado”,
no estilizada, funcional; evalugio profunda a partir do conceito
primordial das arquiteturas primitivas e rurais.
tem, cada
Apresentamos aqui um grupo de casas q
‘uma, em sen organismo nio estilizado, uma ligacio profunda
com a paisagem, com a vida do ambiente; algumas so
“antiarquiteténicas”, nfo correspondendo nem mesmo em linhas
gorais aos cénones da casa tradicional, mas muito mais & propria
paisagem, acompanhando as linhas do solo, seguinido com as
paredes 0 movimento das rochas ¢ as manchas verdes, numa
fusio harménica, sem aquela total “separagdo” entre casa e
latureza levada a cabo pela arquitetura tradicional
Casa perto de Abiquiu, Novo México Seguindo o projeto
dos arquitetos, esta casa colonial foi construida por um
mestre de obras local que
npregou trabalhadores locais
© Indios. Tanto 0 projeto quanto o material usado para a
construcao constituem um especial objeto de interesse. Sobre
as fundagdes de pedra bruta e cimento, construiram-se as
paredes com blocos quadrados de adobe, feitos com terra
extraida de uma escavagio préxima; os tijolos depois foram
revestidos, por fora ¢ por dentro, com um reboco também
cozido e depois entio pintados com cores brancas ou muito
ténues, preparadas com uma terra local chamada tierra blanca.
O exterior tem uma delicada cor rosa, muito semelhante
& cor dos morros ao redor a ponto de quase confundir-se
com eles. Troncos de pinus, provenientes de um local mais
alto, foram usados como pilastras do alpendre em torno do
patio e como vigas para o telhado; 0 teto é feito de tabuas
de pinheiro-do-oregon. ‘Toda estrutura é muito robusta. As
lareiras providenciam 0 calor necessério A casa toda, Apesar
da extrema simplicidade da construgio, a easa possui todo
conforto oferecido pela tecnologia mod
Cabana no parque Cabana construida em uma area de parque.
A cabana deve controlar ambos os acessos do parque e permitir
ra vista ao sul ¢ ao leste. Bla deve ser orientada demodo a beneficiar-se, no verdo, do ar fresco do sul e ao mesmo
tempo deve estar protegida do trafego da rua e dos v
gelados do inverno.
O arquiteto escolhe um motivo nistico e o adapta muito bem
‘a0 cendrio natural, As paredes da cabana foram construidas
com blocos de pedras nisticos ¢ o telhiado é de telhas comuns. A
cham
1 baixa saindo do telhado é de pedra. A construgio foi
planejada 0 menos possivel: as vigas aparentes dao ao interior
uma sensagio de forga rude. Duas rampas — da mesma pedra
rristica das paredes — foram construidas junto a cabana para
marear a entrada do parque. Com o objetivo de atenuar os ventos
invernais foi plantada uma fileira de érvores na face norte da casa,
Casa nas colinas de Catalina Esta casa solithria inspirada
na easa colonial mexicana — um tipo indigena local — em
sticas da desolada regio, repleta de
harmonia com as caracter
cactus. Tijolos cozidos néo revestidos constituem 0 material de
construgao. O telhado do alpendre é coberto por telhas espanholas,
Apesar da ristica aparéncia exterior, o interior esté planejado
© construido considerando 0 maximo possivel as exigéncias
lizadas da vida moderna. Construida junto a um patio de
formato irregular esté a sala, com acesso aos quartos, de um lado,
4 sala de jantar e as éreas de servigo, do outro, O acesso principal
A casa é pelo pati
numa das extremidades da sala.
Casa em Santa Fé O arquiteto conservou a tradigao local
concebendo um semipitio. A casa construida em adobe (tijolo
cozido ao sol) é severamente simples do lado de fora; o interior,
com teto de vigas de pinus aparentes, é ricamente decorado,
forma muito apreciada nas velhas casas espanholas. Projet
livre das complicagées das passagens através de escadas, a tinica
escadinha prevista é a situada entre a cozinha e a garagem.
aj
aaa
Siaseund
Casa na montanha Situada em um magnifien local mantanhase
com a vista para o sul, esta casa, térrea e simples, esth planejada
de modo a obter a maxima visio, comodidade e flexibilidade.
‘Todos os cémodos, exceto a cozinha e o banheiro, esto
posicionados do lado panorimico, com acesso direto ao terrago,
que se estende ao longo de toda frente. A passagem entre os
diversos cémodos é feita através de um corredor retilineo, dividido
‘em duas partes, entre a area diuna e noturna, A parte da area
diurna pode ser estendida a vontade, deixando aberta a porta
em dois batentes colocados no eseritério, 0 qual pode ser
uusado também como quarto de dormir. A garagem, que pode serpercorrida pelo automével, evita a nevessidade de uma manobra
nno sopé da colina. As janelas justapostas iuminam do norte até o
corredor dos quartos, o banheiro, 0 vestibulo/hail ¢ a sala de estar
Casa na colina Esta solugio enxuta & concebida para um espago
restrto; a entrada e as salas encontram-se no segundo andar,
‘0s quartos no primeiro, Pensada a partir do ingreme declive
inf
jor, cla tem a vantagem de oferecer do terrago da sala a
vista de um raro panorama, sem sacrificar a comunicagio direta
ccom 0 térreo; esta é feita através do terrago da sala de jantar em.
dirogio a parte de tras. O exterior apresenta o bem-sucedido
emprego de madeira e a liberdade de solugio de um dificil
problema de fundagio.
Casa em La Cahada, California Esta casa desenvolve uma
interessante complexidade, As salas foram abertas de modo a
permitir desfrutar a vista em trés perspeetivas e formam um
Angulo em relagio ao corpo principal do edificio ao passa que as
fireas de servigo ocupam uma ala sep
da. A posigio do angulo
da parede que divide a sala e a biblioteca sugerin a disposigio de
Casa em Pasadena Esta casa adapta-se convenie
lugar escolhido para sua construgao, muito comum em varias
casas térreas na California 0 acesso aos cémodos ser feito pelo
exterior e dispor a sala de estar tanto do lado de dentro quanto
do de fora. Neste tipo de casa, 0 problema do aquec
nento
tem pouca importancia. O desenho do exterior harmoniza-se
perfeitamente com a totalidade do projeto. Tamb
ma escolha
dos materiais foi cuidadosamente estudada, O exterior &
revestido de tabuinhas de madeira nas quais foi aplicada somentedemo de éleo de semente de linho, A parte inferior das
ccalhas tem acabamento na cor verde-oliva
ris um exemplo de livre composigao da casa
Casa no jardim
moderna: observe a combinagio entre janelas de canto €
vathades intinados, de superficieslixadas e de outras moitissime
cto para ser usada
trabathadas, A casa foi projetada pelo arquiteto f
m interrompida
Jéncia e escritorio, A parede comum interrompi
undo
teressante do projeto, Nos cantos do seg
a parte mais interessante do p
suclar esto simetricamente dispostos quatro quartos. O werreng
o das areas de servigo e da sala de
‘em declive permite a instalagio d ic
A cio subsolo.
recreagio em meio sub
Casa na colina [Il] © projeto é excepeionalme
cnte, adaptade, com grande efzito, ao lugar eseollide, ©
“que parece menor por causa das drvores que a circundaay
‘eno entanto ampla, com um andar térreo muito extenso $
superiores. A casa é
tem parte coberto pelos quatro quartes Sup
cressante pel
especialmente interessante pe
esp
rva do jardim contribui para
mito a parede curva do j
e estende sobre
la forma como se este
aeeecel Jo e a terra, O projeto,
‘ria uma estreita ligaglo entre a edific
construgio demasiado extensa, oferece muitas
que prevé uma c
vantagens, enti
muitos cémodos trés diferentes relagdes com 0 exterior ¢ a quase
todos os outros uma perfeita ventilago, Além disso, as alas esto
dispostas de modo a assegurar 0 isolamento do escritério e do
quarto de héspedes
Casa no campo Nesta casa, as salas de estar e as areas de
servigo estio reunidas no mes
no andar superior da entrada,
com depésito ¢ espago para os jogos e, embaixo, apenas um
quarto; ha alp
ndres nos dois andares. A arquitetura dae
segue a heranga local, onde antes construiu Wright.! Muito
caracteristica ¢ a combinagio d
radeira e pedra tanto dentro
quanto fora, e a tela de madeira que serve como armagio para
as cobertnras do
Oanqitewo norte americano Frank Loy! Wright (1867-4950)“Sistemetione dog
{ntorn- Domus,
Miso, 9. 198, jun. 1944,
pp. 190-208.
Disposicao dos ambientes internos
‘As afinidades das formas velhas como vetho modo de vida estdo
perdidas. Como devem ser os interiores ¢ a mobilia da casa
para que a adesio entre forma nova e nova vida se manifeste ¢
seja covrente?
espirito do mundo antigo foi a ACADEMIA; a academia
{que excluiu os artistas da indiistria e da manufatura, isolando-os
da comunidade ou criando em volta deles uma vida ficticia
(aarte pela arte), distante do mundo real. A falta de conexio
vital com a comunidade conduziu inevitavelmente a arte
4 especulagio estética estéril, enquanto a forma expressa
pelo desenho restringia-se ao plano pictorico, sem relagio
alguma com a realidade ¢ a técnica dos materiais e com a
economia, Jé a segunda metade do século XIX viu o principio
de um protesto contra a influéncia desvitalizante da academia
e descobriu a base da unido entre os artistas inventivos ©
‘omundo industrial. Mais tarde surgiram as demandas de
produutos esteticamente atraentes e vidveis econdmica ¢
tecnicamente. Somente 0s téenicos niio podiam satisfazer
tnis exigéncias, ¢ os desenhos “artisticos” demonstraram.se
absolutamente insuficientes porque eram produzidos por
artistas muito distantes do mundo real e despreparados em
relagdo a técnica, impossibilitados de adequar a forma aos
processos praticos da produgio.
(0 método do desenho tradicional se perdeu; a evolugio
continua da técnica traz hoje uma rpida transformagéo do velho
modo de vida, afastando completamente a expressio das formas
tradicionais.
Perdidas as afi
formas e 0 modo de vida tradicional, surge a necessidade de
idades entre o desenho tradicional das
‘uma nova aderéncia das formas ao novo modo de vida. Essa
correspondéncia teri de se manifestar, em primeiro lugar, no
ambiente da vida humana: a casa. Como deverio ser 0s interiores
dos apartamentos para que esta aderéncia entre forma e vida se
manifeste e seja coerente?
O crescimento continuo das exigéncias ligadas & nova
vida tem mudado gradualmente o caréter e as finalidades
dos cémodos, dando uma aparéncia completamente nova ao
mobilirio e & decoragio; fatores importantissimes contribuem
com sua influéncia para isso: ventilagio cruzada, insolagio,
orientaglo, disposigio das janelas em relagto a paisagem.
A construgio de estrutura independente, com a aboligio das
paredes portantes, tornou possivel uma grande flexibilidade na
atividade da decoragio, e a logica construtiva passa a ser aquela
da maior liberdade na disposigao dos ambientes; abertos,
separados por divisérias de material isolante, facilmente
adaptaveis. O mobilidrio é flexivel, enquanto um aspecto
de maior solidez caracteriza as instalagdes permanentes:
banheiros, toaletes, cozinhas, lavanderias e servigos em geral.
Nem sempre paredes de tijolos e divisérias permanentes
formam separagdes entre os ambientes; muitas vezes a
separagio é obtida por meio de méveis de maior profundidade,
formando paredes. A aboligio das divisorias nao estritamente
necessérias é fitil para o miximo rendimento do espago em
relagdo ao alto custo da construgio,
A cfici@ncia no rendimento do espago é desejavel para cada
tipo de apartamento, do apartamento de luxo ao popular; com
base nessas consideragdes ¢ bbvio que para obter uma eficiéncia
maxima de rendimento dos espagot sera bom evitar pequenos
rrecintos e muitas portas, bem come conservar 0 maximo possivel
4s subdivisdes por meio de paredes méveis e cortinas. Além disso,
pode-se conseguir economia de espago com um projeto euidadoso
dos guarda-roupas ¢ armarios embutidos ¢ com os utensilios
icos destinados aos servigos,lows 2 novos as de
o aspects de pt,
iquza ou simple
‘8 dosejvel, que pode
er amb a 8
moves, da cose. tees
‘sperticies. Quo
sproptiado dl ei
intensifier ereovivar
far 0s emi. (1
gut 08 modetsfora de
‘onerianas oy dates
adelsbroscamelas
wos de madera, ras
Projto de Mien dr
Moto, Aleman I-01
As paredes externas independentes da estrutura de
sustentagio podem se abrir em amplos conjuntos de janelas
horizontais ou ser completamente envidragadas, permitindo,
mediante a grande iluminagao diurna, maior liberdade das
subdivisdes internas e a eliminagio dos cantos esenros. A
iernos, com a eliminagao dos
disposigio dos ambientes i
acessbrios desnecessirios ¢ acomodando harmonicamente
‘os méveis em um arranjo no formal, garantira, com meios
jimos, 0 maximo conforto.
A finalidade da casa & a de proporcionar uma vida
conveniente e confortavel, ¢ seria um erro valorizar demais um
resultado exclusivamente decorative.
Aanele elemento
Droponderste 1.0.)
voete de Koch, Estados
‘Unidos. 10,
asa de Catal, Nove York,
Lor
tide de eis,
pos de
Clareza no desenho das varias partes é 0 mais importante,
seguida por un
Figorosa atengo no uso € na selegio dos
materiais. Sao trés os tipos de mobiliario que podem ser
considerados: 1. com méveis ja existentes no camércio; 2, com
moveis padronizados ou produzidos em série; 5. com méveis
desenhados especialmente,
Embora a padronizagaio dos moveis ¢ das faibricas seja
desejavel, 0 objetivo ¢ obter uma razoivel variedade, Podemos
aprender uma ligéo dos japoneses, que chegaram a variedade
com o uso de esteiras de tamanho igual como base para
determinar a forma dos cémodos e para dispor os moveis,io harmnia ent
Le
Franga. ILO}
|
O belo artesanato que florescou em outras épocas foi
substituido pela maqui
Ficou provado pela experiéneia que
© desenho imitativo artistico aumentava 0 custo da produgo.
A maquina podia revestir 0s produtos de novas qualidades
estéticas. Arquitetos e desenbiistas de todos os paises
desenharam exclusivamente tendo em vista a potencialidade
da maquina em relagio a estética e & economia. Ambos
objetivos, economia e aparéncia, requerem simplicidade deforma e bom acabamento, Consequentemente esté surgindo
nas indiistrias uma expressio artistica da qual o arquiteto
pode tirar proveito.
Isso quer dizer nova riqueza de materiais; plisticos, metais
cromados, ligas inalteraveis, vidro, tecidos. A disposigio dos
cae dos
ambientes internos pode se beneficiar da nova téen
novos materiais partindo de um prineipio de escolha rigorosa,
uso apropriado dos materiais e o efeito de suas cores
podem ser de grande ajuda na subdivisio de espagos vinculados,
Assim, a escolha do piso é de suma importéncia na criagio de
determinada atmosfera e de um efeito estética. O piso amorfo,
feito para ser coberto parcialmente com tapetes tradicionais,
hoje pode ser substituido por um piso de borracha, cortiga,
linéleo, laminado, pequenas placas de pedra, po xadrez ete,
novos tipos disponiveis no mercado nos iitimos anos; a escolha
dependeré da destinagio dos ambientes, da sistematizagio geral
dos espagos, dos méveis, da intensidade de cor, simplicidade ou
requinte desejados,
As paredes, e também os tetos, compreendendo areas
continuas de um ou mais cdmodos, podem ser submetidos ao
tratamento aciistico mediante o uso de gesso absorvente de sons
‘ou de pedras ou outros materiais igolantes. O acabamento dos
tetos e das paredes, além do gesso e das habituais tapegarias
© mais os novos materiais recentemente desenvolvidos pela
indiistria, deve ser acompanhado por um estudo minucioso da
iluminagio artificial, obtida por meios diretos e indiretos. As
1 geral nao sZo mais acess6rios para
portas ¢ as esquadrias
se decorar com estuque ou outros ornamentos, mas podem
ficar interessantes com aplicagio de cor, de acordo com a gama
fundamental do ambiente.
As janelas so muito importantes, elas contribuem para a
criagio de uma atmosfera, permitindo, com sua amplidao, a
participagio do mundo exterior e da natureza no ambiente,
As janelas horizontais so as mais adequadas para uma visio.
woe semereo de
os ples wattnaram
aso; guns
ides de mines
"hoentados por axes
‘hf intact, Oa
Frork esr, Aer
ito, Le Corbuse,
Ho Loverbch tint
ot Sehnack, Mare
ri, Back «Fi
i Le Corbusier,
Alsnbesert, Lume
1, Maco Breuer ti
of Sehnack.rek
clan, Aba Aa,
Dieckmann tinh 3
Fowtnand Kame, Maret
1, ted Roth, Marca
over tina 8.04)
Panorimica mais ampla, Portas com batentes ou corredigas
separam, onde existem terragos, o interior do exterior. A luz do
dia pode ser controlada usando cortinas ou persianas.
Estes séo os pontos de partida para um critério moderno de
disposi
10 dos ambientes interiores e mobilidrio, A escolha das
ilustragdes que acompanham este texto foi ditada pelo desejo
de exibir os resultados obtidos nos iltimos anos por arquitetos de
varios paises. Nao se obedeceu a uma sequéncia estritamente
\ologica. Os exemplos apresentados eompreendem,
Aaproximadamente os diltimos quinze anos,fio, Rio Sanco,
9.92, fe. 1987, pp. 53.55
Na Europa a casa do homem ruiu
Acasa do Homer ruin; na Italia, ao longo da Aurélia eda
Emilia, na Sieflia e na Lombardia, na Provenga, na Bretanha; a
‘asa do Homem ruiu na Europa. Nao pensivamos que ela fosse
desaparecer assim; era muito “segura”, era um “baluarte”, havia
alguma coisa mais “firme” do que a casa? HA ans estava ali,
cada ano sofria uma mudanga, eraa filha que se casava, wma
nova geragio que vinha, desaparecia a poltrona de veludo com
franjas do tltimo Oitocentos ¢ vinha o mével “inglés” em mogno
¢ cetim celeste, as Hampadas de “opalina” eram substituldas por
‘grandes lampadarios de metal dourado; depois, os netos quiseram
fazer mudangas, quiseram renovar, segundo aquela nova moda do
antigo misturado com 0 moderno, ¢ 0 diva Luis Filipe ia muito
‘bem com as lampadas modernas de ferro batido laqueadas de
branco; também [com] as paredes em cimentite e os dois quadros
surrealistas. Certa vez, toda a casa foi transferida para um bairro
clegante, para um edificio mais moderno, e foi naquela ocasio
«que Francisco mandou fazer as grandes cortinas de seda verde
améndoa drapeadas segundo a moda francesa, e os estuques
brancos inspirados no barroco; assim, a casa era ligeiramente
“decadente”. como disse um arquiteto dla page, mas ia bem, tinha
estilo, era muito admirada pelos amigos e uma revista mundana
publicou-a. Certo, tinha mudado muito desde os tempos dos avis,
‘ada um Ihe havia querido dar 0 “seu” toque, mas era sempre
1 “nossa casa” endo ousariamos admitir que pudesse desaparecer
assim. Agora, quando relembro nossos zelos em nio desmanchar
‘uma prega do drapeado, em nao alterar a simetria dos adornos,
a nossa preocupagio de conservar “aquele ar” da nossa casa,
aquele ar tao “representativo”, parece-me impossivel nio a rever
‘ais, No Angulodo saldo, & esquerda, havia 0 retrato da vovb;
cembaixo dele tinhamos mandado fazer um delicado motivo em
A quote desta 0 ito
bbs "Monumentas":
lots na cara os
nto eles ena
wy casas cas gvras
vor os homens
a aprendigo
vida, ou 0 eribia
‘ncompreensio. fL0.
Dosen do Lina Bo Bark
estuque, quase um brasio, tirado de uma revista; um esculpido
ue escondia uma delicada luz résea; era o nosso angulo preferido,
tinha uma vitrola de pele de serpente e um “bar” arrumado num
velho mével “Império”. Palavra, nunca imaginei que acabasse
assim e, naquela manha, quando a nossa casa jd no exi
ais, achei um pedago de gesco branco raiado, e vi que era uma
Jasquinha de lémpada rosea, Mas que estranho, que estranho que
nada se visse da nossa casa tdo bela, que nada tivesse ficado capa
de distingui-la das outras! Fra tudo einzento, tudo pb, tudo igual
405 outros montes cinzentos que também haviam sido casas, mas
‘certamente muito menos bonitas do que a nossa.
Sim, no pensivamos que as casas fossem assim frageis,
assim sutis, assim “humanas”, ¢ que pudessem morrer assim,
Foi entao, quando esperévamos naqueles momentos de pesadelo,
‘que as casas comegassem a ruir que nos apereebemos que
nas”, que eram o “espellio” do homem, queNa Europa so reconsua
‘case com simples,
com meds, También
‘owspago & preciosa €
‘onde antes vivir dis
{olgadamente, hoje dever
wer quar. © desperdco
‘ma, também da
espapo. Es uma cose
comet, ferada com
ois amass: sd ante,
quart, esto cana,
Este projet faz pate de
ume mesta pera orang
1 asa de apts quer,
‘exgazoda por um grupo
6 arquitets medenos
‘talanes om Mio. A gues
1 tamontaensiada ©
homer {LO}
eram “o homem”. E, sentimos também que era culpa nossa se
a, ns a tans engi para que fos oespelho
: jo da vida e
Hobitarn.1, S80 Pauto,
fone ‘ute, 1980, po. 2.16.
‘do nosso orgulho mais falso, da nossa incompreensii
ddos homens, ¢ por eulpa nossa ralam também as pequenas casas
‘as pequenas casas sem luzes roscas e sem drapeados
sem culpa,
: jombas demoliam sem piedade
de seda, Foi entdo, enquanto as b
a obra e a obrado hiomem, que compreendemos que a casa deve
ser para a “vida” do homem, deve servis, deve consolar; eno
‘mostrar, numa exibigio teatral, as vaidades iméiteis do espirito
umano; entdo, compreendemos porque as casas rulam, ¢ruiam
a mise-en-scéne, 0s cetins, 0s veludos, as franjas,
fs estuques,
de manha, tudo era montinhos cinzentos
(0s brasdes; porque,
desoladoramente idénticos, Na Italia, as casas ruiram, a0 longo
ia Vranga,
das estradas da Italia, nas eidades, as casas ruran
as casas rufram, na Inglaterra e na Rissia; na Ruropa, as casas
ruiram, E, pela primeira vez, 0s homens devem reconstruir
as casas, tantas casas no centro das grandes cidades, ao longo
das estradas de campo, nos vilarejos; ¢, pela primeira ver, “o
homem pensa no Homem”, reconstréi para o Homem. A guerra
destruiu os mitos dos “monumentas”, também na casa, 0s
‘méveis-monumentos no devem existir mais, também eles, em
parte, entram na causa das guerras; os moveis devem “servir”, as
‘cadeiras para sentar, as mesas para comer, as poltronas para ler
‘e repousar, as camas para dormir, ¢a casa assim nao sera um lar
eterno e terrivel, mas uma aliada do homem, gil e servigal, e
que pode, como o homem, morrer.
Na Buropa se reeonstréi, e as casas sio simples, claras,
‘modestas, pela primeira ver no mundo, talvez.o homem haja
aprendido, ¢ na manha seguinte aquelas noites chamejantes,
sentido, sobre os escombros da sua casa, que a casa é quem a
habita, é “ele mesmo”, e tiveram vergonha da sua velha casa
como se tivessem mostrado em pablico as proprias fraquezas e
0s proprios vicios.
Casas de Vilanova Artigas
Artigas é um temperamento retraido, Trabalha na sombra, 0 seu
nome nao aparece nas revistas e ele nfo gosta de publicar projetos,
ideias, desenhos; para cle Arquitetura é trabalho realizado,
acabado, resolvido em cada pormenor. A sua é uma arquitetura
‘fumana, ou melhor doméstica, no sentido mais claro da palavra.
Uma casa construida por Artigas ndo segue as leis ditadas pela
vida de rotina do homem, mas lhe impie uma lei vital, uma
moral que é sempre severa, quase puritana, Nao é “vistosa”, nem
se impde por uma aparéncia de modernidade, que jé hoje se pode‘pitto Jodo Wenove
1 Btancour am
srnura indapencente,
‘realeada de mania
sn conreto emda, A
tra formed por
‘ol Est asa, ume des
0 berhora
3 localando sum boco
venta ¢ aeado pelo
sala de estr ests
ety, ume cad ova
definir num estilismo. As casas de Artigas niio se exaurem na,
\inica impressio de prazer comunicada por uma boa arquitetura
de exteriores; climinacla a sensagio de aprazivel novidade que
sempre suscita uma obra moderna. Depois da primeira volta em
tomo! das paredes de fora, 0 observador nao sofre uma brusea
interrupeao por ter entrado na cas ele ter
a percepgio
exata de que a continuidade de espaco se produs solidéria com
6 rigor constante que as formas externas denunciavam, Esta
harménica continuidade de espago ¢ obtida por meios limpidos,
clarissimos, sem a recorréncia dos efeitos forgados, da forma livre,
no se pode observ’
muita expresso arquiteténica
pordnea, especialmente na norte-am
para 0 decor
vo. Citamos uma moral de vida sugerida pelas
«casas de Artigas, uma moral que definimos como severa, ¢ esta
6a base de sua arquitetura, Cada casa de Artigas quebra todos
8 espellios do salao burgués. Nas casas de Artigas, que se veern
or dentro, tudo é aberto, por toda a parte o vido ¢ 0s tetos
b
baixos, muitas veres a cozinh
0 € separada, ¢ 0 burgués que
se deixasse levar pela novidade e pedisse uma ca
a Artigas,
chocado com “tio pouca intimidade”, cego porHabitat 9.2, S80 Pa
mat. 1951, p. 3
se apressaria em fechar com pesadas cortinas as vidragas, a fazer
crescer sebes, a reforgar as portas, para continuar, bem defendido,
a sna vida despreocupada entre os méveis “Chippendale”
‘os “abat-jours” pintados a mfo... As casas de Artigas so espagos
abrigados contra as intempéries, o vento ea chuva,
sio contra o homem, tornando-se o mais distante possivel da
‘casa-fortaleza, a casa fechada, a casa com interior e exterior,
denincia de uma época de ddios mortais, A casa de Artigas,
que um observador superficial pode definir como absurda, é a
‘mensagem paciente e corajasa de quem vé os primeiros clardes
de
nova época: a época da solidariedade humana,
Bela crianga
Quantos sa0 0s que sabem distinguir o moderno “auténtico” das
remastigacbes?
0 “concurso das fachadlas” que premia 0 normando.e 0
arrequinko & menos perigoso que a moderno dos construtorese
arquitetos transformistas.
Publicamos uma vista do Ministério de Educagio do Rio de
Janeiro, como incentivo para continuar combatendo contra a rotina,
o lugar comum, Entendamos' bem, o lugar-comum nao é somente
aquele “estilistico”; 6, também (e mais perigoso ainda) 0 ass
chamado “moderno”. O incitan
1 para combater 0 nase
“vex” modernistico — “o antigo néo serve mais, entie mogos, para
a frente com 0 moderno se ndo queremos perder a partida”
lta deve ser dirigida contra esta generalizaga
perigosa, cont
cesta desmoralizagiio do espirito de arg)
es
aid
oe
Ministre de Eeucacto,
hor
d
espirito de intransigéncia e do amor para o homem, que nada tem
{que ver com as formas exteriores ¢ as acrobacias formalisticas.
A nova arquitetura brasileira tem muitos defeitos: ¢
jovem, no teve muito tempo para se deter e pensar, nascet
subitamente como uma bela erianga; concordamas que os
brise-soleil e os anulejos sio “fatores intencionais”, que certasformas livres de Oscar" sio complacéncias plisticas, que
‘a realizagio nao é sempre satisfatoria, que certas solugies
de detalhes nao seguem a linha do conjunto (concordando
niisso com os meus amigos europeus), mas niio concordamos,
entretanto, sobre o fato de que a arguitetura brasileira ja
marca estrada para uma academia, como ja as vezes aparece
em algumas revistas estrangeiras, como, por exemplo, no
livro importante de Bruno Zevi;' e nfo a marcara até quando
seu espirito for 0 espirito do homem, sua pesquisa, a busca
dos valores de sua vida em evolugio, até quando collier sua
inspiragdo da poesia intima da terra brasileira; estes valores na
arquitetura contemporinea brasileira existem. A arquitetura
contempordnea brasileira ndo provém da arquitetura dos
Jesuitas, mas do “pau a pique” do homem solitério, que
trabalhosamente cortara os galhos na floresta, provém da
casa do “seringueiro”, com seu soalho de troneos ¢ 0 telhado
de capim, é aludida, também ressonante, mas possui, exn sua
resolu
jo furiosa de fazer, uma soberbia ¢ uma poesia, que so
' Habitat $80 Paulo,
a soberbia ¢ a poesia do homem do sertio, que ndo conhece as ere
grandes cidades da civilizaglo ¢ os museus, que nio possui a pp.
heranga de milénios, mas suas realizagbes — cuja concretizagio
foi somente possivel por esta sua soberbia esquiva — fazem
deter o homem que ver de paises de cultura antiga.
Para se concretizar,escolheu a arquitetura brasileira 0s meios
de Le Corbusier, que esteve no Brasil (Wright também visitou
‘© Brasil), que mais respondiam is aspiragBes de uma gente de
‘origem latina; meios poéticos, nao contidos por pressuposigdes
ppuritanas e por preconceitos.
Esta falta de polidez, esta rudeza, este tomar e transformar
sem preocupagies, éa forga da arquitetura contempordnea
brasileira, é um continuo possuir em si, entre a conseiéneia da
Léenica, a espontaneidade e 0 ardor da arte primitiva; por isso
‘oncordamos com nossos amigos da Europa sobre 0 fato
de a arquitetura brasil ho da aead
estar mo ca
n
Esta 6 uma tentativa para responder a uma sentenca de
Abelardo* “nfo sabemos, ainda, precisar o porqué desse progresso
da nossa arquitetora”. 4 arquitetura brasileira nasceu como
uma bela erianga, que nao sabems por que nasceu bonita, mas
que devemos em seguida educi-la, euri-la, encaminhé-la, seguir
sua evolugio; houve o milagre do naseimento, a diretriz, a
continuagio da vida, 6 conseguimento de um intento coerente
dependendo da consciéncia humana, de suas possibilidades para a
uta, conviegio e intransigéncia. Isto é 0 que se deve afirmar,
Nooriginal, “entendemoa” [2]
2 Oarguitetacarioes Oscar Niemeyer [1907-] (¥]
13 Zesi, Bruno Soria dellarchitetura moderna, Turan: Hina, 1950. [.)
4 Oarquitero carioea Abelardo de Souza [1908-81] escreveu na mesma revista
wexto “Noss argutetura” [Ne]
Duas construgées de Oscar Niemeyer
A técnica do conereto armado foi aplicada, desde 0 seu
aparecimento, as estruturas tradicionais: elementos verticais
€ ligamentos horizontais, isto 6, & formagao de “gaiolas”
portantes, que possibilitaram as fachadas independentes e
as expressdes tipicas da arquitetura racionalista, aquele jogo
de volumes prisinaticos chamados com desprezo por Wright
de “arquitetura de caixas”. A expressio € polemicamente
‘exagerada, mas quer sublinhar a falta de compreensio, por
parte dos primeiros arquitetos racionalistas, das possibilidades
plisticas do conereto armado, aplicado no inicio as formas
tradicionais de estruturas, usufruindo da tragko-compressao do
bindmio ferro
\ereto,sca Niemeyer, Abia
‘da Duchen, 1950,
Vista da moquete
compa desta prev
‘ua seo daca,
or ma ma assoc
porosbem ee oe ros
‘amps ds amis, do
Ioboatno, 9 reeturante, 2
Piscna ea cis de agua
fone compri. LO
As posibilidades da nova arquitetura deste segundo periodo,
que podemos denominar pés-racionalista, esto justamente
na possbilidade plistca do concreto armado. Na série de
conferénciasfetas por Frank Lloyd Wright em 1939, em
Londres, fora prognosticada para o futuro como “a forma
dlesabrochada”, isto é a forma plistca, produto tipico da
réquina, é humanizada e tornada expressio da civilizagio
trabalho e as fraturas do alvorecer da civilizagio mectnica
A Sforma desabrochada” e as grandes posibilidades
contemporanea, em harmonia enfim com 0 homer
plasticas do concreto armado, referia-se também Pier Luigi
Nervi, o grande engenheiro caleulista' e depositirio de patentes
italiano (patentes especialmente de “pré-fabricagio"), na série
de conferéncias no Museu de Arte; Nervi prevé a época das
formas plasticas de concreto armado e das superfcies resistentes
“enrogadas”. As primeiras manifestagiesdesss formas j podem atin
ser auinaladas na prdugt industial nas earrogaras ds earon, poss
em certos aparellios de uso doméstico, como ferros para passar,
batedeiras ¢ ventiladores. Eric Mendelssohn previu o surgir dessas
formas no ainda roméntico observatorio Einstein,
A exigéncia plastica dessas formas novas é sentida
instintivamente por Oscar Niemeyer, que se afasta
da estrutura da “gaiol
"em sua busca de uma plistica que nfo &
barroca, porque o barroco em arquitetura é ainda uma expresso
completamente estética do artesanato, enquanto na procura
de formas livres, a arquitetura moderna se preocupa com 0
homem, e na expressio plistica dessas formas livres ha procura
da perfeigio das formas que chamamos “desabrochadas”, formas
perfeitas da perfeigio da maquina
Permanece o problema da arbitrariedade: uma forma livre
6 arbitréria quando julgada no ambito das formas geométricas
definidas, mas nao é mais arbitraria se projetada na possibilidade
infinita das formas livres; resta julgar se aquela forma representa
a liberdade infinita do ato da criagio do artista; resta julgar se
aquela forma atinge ou nao a arte.
A tendéncia a esta liberdade, preanunciada pela igreja da
Pampulha e pelo projeto do teatro para ser construido junto ao
Ministério de Educagao no Rio de Janeiro, 6 agora corroborada
por esta diltima realizagio de Niemeyer: uma construgio
industrial; o ardor inventivo com que foi realizado esse complexo
justifica alguns desleixos, a indiferenga por todo freio tradicional
assevera uma grande co
a liberdade eriativa do artista,
ista da arquitetura contemporanea:
+ Galeulador
14 Reflre-ne aw stage — Mune se Arte ie Sto Paul Ana Cate
ginal. [oe]
Vitrinas
As vitrinas so o espellio imediato, a dent
personalidade duma cidade, e néo somente da personalidade,
como do cariter mais profundo, A vitrina é 0 “meio” para
ia répida daesto. A quartic oo
tracro ual oadqurone
no stbe como @ onde
ont NAD ada
or para o adquirert do
a8 para esoaner Como
reagiuse expondo
1 ace, Enecesso
cassia 6 o bom gosto
rosea ds oles. ILO
vender 0 produto, é algo muito apegado ao dinheiro, é wma luva
de veludo que sob a aparéneia decorativa e indiferente esconde
as garras complicadas de ealculos de “custos”,
“luctos”, cohunas de cifras frias. Uma verdadeira teoria
(chamada “ciénei
pelos interessados), uma psicologia especial,
uum céleulo de possiveis probabilidades ocultado pela aparente
indiferenga, pela aparente “homenagem ao transeunte” de
uma vitrina, uma pequena ratoeira com mereadoria-queijo
para o transeunte-rato, Nascem dessa forma os “saldos-queijo
do edificio”, as “faléncias-queijo”, e isto tudo acompanhado
or cartazes, escritas, flechas. Fas vitrinas gritam “queremos
vender, vender, vender, vender por forga x e ¥, comprai, comprai,
queremos dinheiro, DINHEIRO”. Dinheiro, As eoroas de flores,
10s vasos de giz, 0s sorrisos dos manequins, os panejamentos de
veludo gritam esta palavra, deixam transparecer a “psicologia”
do vitrinista que na “decoragao” se preocupou somente com o
vaso-queijo, 0 veludo-queijo, para 0 comprador-rato, No ni
a cidade é uma sala piblica, uma grande sala de exposig6es, um
‘museu, um livro aberto a todo no qual podem-se ler as mais
nnces, ¢ quem tiver uma loja, uma vitrina, um bur
qualquer fechado por um vidro ¢ queira expor naquela vitrina,
A pseudomodern. ILO}
quem quiser ter um papel “piblieo” na cidade, toma a
responsabilidade moral, uma responsabilidade na qual nao
pensa porque o faz rir, a ele homem de negécios, “pratico”, a
ideia de que a “sua” vitrina possa contribuir para a formagio
do gosto dos moradores, possa contribuir para dar fisionomia a
cidade, denunciar a esséncia,
Fotografamos ao acaso algumas vitrinas, de modas, de objetos
para esporte ¢ até objetos religiosos, nos quais os elementos
{que nos séculos passados foram obra de arte aparecem agora
debilitados e trigicos, depauperados das formas puras e coerentes
da época; fotografamos batedeiras ¢ maquininhas elétricas para
café, apresentadas no meio de estuques barrocos ¢ flores de papel
‘querendo quase corrigir com isto e fazer esquecer suas formas tio
estritamente atilitérias.
As multidées de manequins, a elegincia reduzida a capitoné
e brasdes de papel, denunciam desta forma o gosto mesquinho,
, burgués ¢ nouveau riche, alimentando
de pequeno-burgué
vicios antigos e velhos habitos, com uma forga quase invencivel
pela violenta capacidade de contato imediato e difusio publica
da vitrina, no comparavel ao trabalho persuasive dos artigos,
das salas de exposigdes, dos livros, que devem ser procurados.(5 manequins 0.0
nce raonio da eee do
estos [LO
omideas ILO}
Hobitat S80 Paulo, 2.10,
jan-mat. 1952, pp. 31-40,
As vitrinas da cidade podem destruir anos de trabalho feito
no sentido de corrigir € dirigir 6 gosto, Dissemos de propésito
pequeno-burgués, burgu
© nouveau riche (poderemos
acrescentar quase sempre também a pequena elite), porque as
vitrinas populares sio exclyjdas,ponque, como na are, 0 gosto
20 contaminado pelos fags intelectualismos, do povo, néo
cerra, As vitrinas dos bairroy realmente populares, os mercados, as
alheios a qualquer rotina esnobjstica da “arte” (na acepgio mais
corrente, atribuida a esta palavra desde o fim do século x0
‘ow salas de exposigh
que, sobretudo, nfo se importa
com o “queijo-ratoeira”, mas procura pir em evidéncia 0
produto seguindo s6 0s ditaames de sua mo
responsabilidade coletiva, Pergecivn externa,
diretor da firma, por nés interpelado, confirmou os
excelentes resultados deste género de publicidade, selecionada
© rigorosa; 0 piblico nao se assustou, para, olha, entra, compra,
reconhecendo na honestidade daquela apresentagdo uma
“limpeza” comercial, um nio saldo, nio incéndio, nao liquidagio
de faléncia, uma nio ratoeira
Residéncia no Morumbi
Nesta casa nao foram procurados efeitos decora
vos on de
composigio, pois 0 objetivo é a sua extrema aproximagio com
‘a natureza por todos os meios, os mais
ingelos, que me
interferéncia possam ter junto a natureza, O problema era
criar um ambiente “fi
mente” abrigado, isto &, onde
viver defendido da chuva e do vento, participando, ao mesmoUna Bo Baa.
(Ce de Vio, 195051
co degra da anita
itor
tempo, daquilo que hé de poétice e ético, mesmo numa
tempestade,
Foi procurado, portanto, situar a easa na natureza,
participando dos “perigos” sem se preocupar com as “protegies”
usuais; a casa, de fato, no tem parapeitos, A estrutura de
‘tubos Mannesmann sustenta uma plataforma levissima de
concreto armado do tipo “formas perdidas”, cujos elementos
de madeira esto aderidos ao concreto; uma parede totalmente
cenvidragada delimita a casa de trés lads; a cobertura, uma laje
fi
vidro, apresenta, na parte interna, a inelinagdo necessaria para
ssima de concreto, recoberta de Eternit e isolada com Ii de
© escoamento das éguas pluviais sobre os proprios elementos
Mannesmann. A gua do telhado é levada as duas saidas laterais
escorrendo diretamente do alto, A continuagio da parede
envidragada, nas fachadas laterais, é de chapa de ferro duplo,
com isolamento de la de vidro. A chapa e as goteiras so pintadas
de vermetho. O acesso a casa é feito mediante uma escada euja
estrutura é de ferro e granito natural. Un
espécie de patio suspenso, permite a ventilaglo eruzada no
tempo de calor. A parte posterior da casa, que é apoiada sobre o
terreno, é de construgdo comum em peda ¢ cimento; um jardim
crit edtad
Ineeia ule no
wide arquitetura
Siuldade de Bolas
‘odo Universidade
lua da Baha em 1058
Diva Obee construisa
na Olives ore)
none: Gustavo Git,
14, 2002, pp. 210-14,
comprido e fechado de um lado separa a parte de servigo da
parte da frente; as duas comunicam-se através da cozinha, Sobre
‘cozinha, impermeabilizada por chapas de aluminio, hi um
jardim com plantas tropicais, que crescem espont
yeamente,
hilo precisando de excessivos cuidados. A exposigao a sul-sudeste
1 a eliminagio de venezianas e quebra-sol: estes iltimos
no so aconselhiaveis no periodo de chuvas, pois somente o sol
evita 0 mofo. A defesa dos raios solares, de manha, é
feita por
meio de cortinas de vinilite branca, plavinil.
Esta residéncia representa uma tentativa de comunhao
entre a natureza e a ordem natural das coisas, opondo aos
elementos naturais © menor niimero de meios de defesa; procura
rrespeitar essa ordem natural, com clareza, en
fechada que foge da tempestade e da chuva, amedrontada dos
demais homens, ¢ que, quando se aproxima da natureza, 0 faz,
1a maioria dos casos, dentro de um sentide decorativo ou de
coniposigdoe, portanto, um sentido “externo”
sofia da arquitetura
‘Teoria e filosofia da arquitetura é o nome desta cadeira, €
‘8 senhores (0 vejo nos olhos da maioria) tém uma certa
desconfianga a respeito dessas palavras,
Naturalmente esta cadeira poderia chamar: Pritica
profissional, Questies de método ou, ainda, O Sentido histéricoda profissdo de arquiteto, quer dizer, poderia ser denominada
em termos mais modernos, mais atualizados, queriamos dizer,
‘mais bonites. Mas como as palavras teoria e filosofia ainda
apontam (¢ uma erenga do século passade) certos prineipios
certas bases, na verdade préticas da profissio, vamos aceitar
as duas palavras e vamos procurar esclarecer 0 sentido intimo
dessas duas palavras, para poder construir sobre elas a base
firme sobre a qual trabalhar. Trés meses é a duragio de
nosso curso, é tempo breve para a importagio séria de um
problema eujo fim é a profissio do arquiteto, quer dizer, a
sua formagio ética, moral, mas estamos convencidos que trés
meses de trabalho claro, planificado, podem dar um resultado
mais importante do que meses e meses sem trabalho ¢ sem
programa, abandonados ao acaso e A “nfo planificagao”. 2. com.
esse espirito que pego a colaboragio dos senhores, porque se
tum professor pe a propria experineia A disposigao dos alunos,
0s alunos —com o interesse constante nessa experiéneia —
provém o professor duma necessidade continua de autocritica
€ € nesse sentido, somente nesse sentido que tem que se
desenvolver 0 ensino universitario,
O que 6 teoria? Deixemos de lado (¢ preciso limitar os
problemas) a definigao idealista de teoria, que estabelece um
circulo vicioso procurando definir “teoreticamente” a palavra
“teoria” que seria uma forma teérica distinta da prética. Para nds,
2 teoria se identifica com a pratica, sendo a pratica demonstrada
racional e necesséria através da teoria e, por sua ver, a teoria
realistica e racional [demonstrada] através da sua pratica,
‘Vamos esclarecer com um exemplo: caracteres distributivos
dos edificios € teoria, um estudo, vamos dizer, da visibilidade de
‘uma sala de espetaculos, um teatro, por exemplo, implica uma
teoria baseada no comprimento da sala, altura do paleo, espagos
centre as filas das cadeiras, relagio entre o olho do espectador ¢ a
or da frente, em relagic
cabega do espec contro de
@
situado no paleo, ¢ ainda a altura e profundidade do paleo e sua
Jargura; na base dessa teoria serdo individuados os raios visuais
€ consequentemente a curva a reta inclinada da plateia; mas
se a teoria, quer dizer, se 0 processo teérico estiver errado, &
inclinagao da plateia saira errada, a visibilidade do teatro seré
péssima e cada espectador, ao invés de olhar para o paleo, olhard
para a cabega dos espectadores em sua frente (espero que entre
0s semhores nao esteja nenhrum idealista que queira demonstrar
que, embora a teoria esteja certa, a inclinagio da plateia pode
sair errada; mas este é um problema de senso comum, ¢ 0 senso
‘comum responde que é culpa do arquiteto). Despimos assim a
teoria de todo 0 aparato que o século x1x tinha colocado em cima
dela, ¢ assim, simples e despida, a teoria vem em nossa ajuda para
‘a impostagio dos problemas arquiteténicos, come sinénimo e
identificagao de prética planificada.
E.a filosofia? Filésofo é um especialista, um técnico, como
‘um engenheiro ou um médico, mas mais préximo a cada
homem, porque sua especialidade é pensar, ¢ cada homem,
pensa e somente alguns entre os homens so engenheiros ou
‘médicos. Gada homem é nesse sentido filésofo, ao menos que
do seja patologicamente idiota. Filosofia é ento concepeao
de mundo passada a ser norma pritica da vida, ¢ o valor de
‘uma filosofia pode ser deduzido na base da “eficiéncia” pratica
por essa conquistada, pela importncia historiea, sainda das
‘elucubragies individuais para entrar na vida. A filosofia duma
época enquanto norma de vida da massa, concepgo de mundo
daquela época, se identifica com sua histéria; a filosofia duma
época é entdo a historia daquela época.
E a filosofia da arquitetura? (Fstou apenas querendo
interpretar 0 nome desta cadeira). Filosofia da arquitetura é
evidentemente a historia da arquitetura, quer dizer as diferentes
concepgSes da arquitetura no tempo. Despimos também a
filosofia da arquitetura do seu preambulo académico e na nossa
© ficou simples, acolhedora e amiga a “histiria”,
0Armados de teoria (pritica) ¢ filosofia (histéria), vamos
cenfrentar nossos trés meses de trabalho comum. Por historia,
esteja bem claro, nfo entendemos a “cristalizagio” da historia, a
historia dos manuais ¢ dos professores, mas a historia em ato —
a historia do trabalho e da fadiga do home. Olharemos para
os diferentes periodos da historia da arquitetura formulando
as “perguntas” das quais as realizagBes dos diversos periodos
arquitetdnicos sdo as respostas.
[esse ponto temos que definir a personalidade do arquiteto: 0
arquiteto é um operdrio qualificado que conhece 0 seu oficio nio
6 pratica como tedrica e historicamente, e tem precisa consci@neia
que a sua humanidade nao é fim em si mesma, mas se compe,
além da propria individualidade, dos outros homens e da natures
Nese ponto, quero esclarecer que nao somos contra a
cultura, ao contrézio, estamos ao maximo do lado da cultura,
‘mas queremos esclarecer o significado dessa palavra; para
nds a cultura no sentido cristalizado e amorfo da palavra nao
tem sentido; nés somos por uma intensificagio ¢ extensio da
cultura, mais precisa, e & condigo absolutamente necesséria
limitar os problemas. Um conhecimento enciclopédico é hoje
impossivel — o que precisa fazer ¢ iluminar, ter a percepgio
cexata da existéncia dos problemas, e na limitagio e no Ambito
uma profissdo, deixar abertas as possibilidades de aprofundar
‘0s mesmos quando nevessario,
[Na mesa-redonda de abril,’ que seguiu minhas conferénci
‘entramos na dicussso no Ambito do espago kantiano. Eu
precise’ logo que o espago do qual estava falando era o espago
de cada dia, 0 espago espago; com isso no queria dizer que ©
‘espago filos6fico nao tem que ser considerado, mas queria ape
delimitar 0 problema para nao cair na abstragio metafisica.
Bruno Zevi me escrevew a respeito de minhas conferéncias
sobre o espago na arquitetura, frisando que aconselhar os al unos
consideragio e a reflexio pessoal, segundo os problemas,
do proprio pais, é uma tomada de posigiio contra a cultura,
Nés sabemos e respondemos que ndo, que a capacidade de
circunscrever, de conter os problemas 6 uma necessidade para
niio cair no verbalismo inteligente duma cultura que caminha
para, ou jé alcangou, o bizantinismo,
Um arquiteto ndo precisa ter nascido em determinado pais
ou pertencer a determinada raga para satisfazer as necessidades
especificas duma regio, ‘Todos sabem que o Imperial Hotel
construido em 1916 em Téquio por Frank Lloyd Wright resistin
ao tremor de terra melhor que as construgdes japonesas. Isto
‘quer dizer que n3o queremos aconselhar aos novos arquitetos
© regionalismo, no velho sentido nacional, politico e retorico.
Depois do racionalismo, a arquitetura moderna retoma contato
com 0 que de vital, primério, antcritalizado existe no homem,
© estes fatores sio ligados aos diferentes paises, e 0 verdadeiro
arquiteto moderno pode resolver, quando chamado, as realidades
de qualquer pais, [..] chegar Aquela compreensio e formulagao