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Lina Por Escrito .

lINA bo baRdi
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A) iP COSACNAIP es 7 Me en eo L i aS Dee ted , OPED rc . 1943-1991 i Orr af eS UE) \¥ Dec pe e ng Lt Linc of escrito \ ; —_— —_ + Poa inhas, ra de cen sanal, tesa perl dorismo, a todo preco. Fa que se possa resolver 0 assunto 6 talver necessi- rio que surja uma “moral proviséria”, uma. espécle de ponte de ligacke entre producdo familiar a me- canizada industrial. Preci- sa enfrentar 0 problema do chamado “impropria- mente” artesanato, com ‘uma certa frieza econémi- cae social, deixando de lado 0 sentimentalismo pseudo-artistico, que, no campo artesanal, conduz ao “abérto” (folclore tipo Espanha, ¢ Itélia, 1938). Manter de pé uma épocal historlcamente superada @) canservi-la sdmente nag suas aparéncias, é initil e @anoso. Precisa-se libertay 0s homens endo trazé-log! prisioneiros, numa escra vidio anti-histérica, em} RESPOSTA fovens de aM. ram. ‘maguados falamoe da mnilado, dirtamos peqveno bin (ues de sum certo tipo de cil Fira. A euttsra do intorect ierato, sem finalidade «4 realizado nas ruas da Bahia por TRIGUEIRINHO NETO Lit DX pone nuc La bomba atomnica, sec shina, are veslsa ‘ne, raso al suolo I 6S # sollevato una colonna tex 7.000 met hanno affermato che | ‘usato un millonesimo d mica totale, Arremo co potra distruggere 3.0 i persone: non aster FOSSIM( fm 99881 (198) (1988) 11961 TE 9601 tis671 en orn Loeranics) Tom 113 116 : 107 110 freer 11960) 9761 fscobientat] 19979) (19081 ne Eee re SI | Ty projeko ® PY ina Robin, Quando no final de 1946 0 Almirante Jaceguay aportou no Rio de Janeiro, um casal de ita anos desembarcou com algo além de quadros (0 que, vindo de um eritice de ai nao era pouco) em suas bagagens. Para 0 homem, a ideia de oferecer cultivo aos imigrantes italianos da América do Sul nio era nova, mas aralentada desde a década de 1930. Sua mulher trazia certamente o desejo de fazer arquitetura moderna num pais novo, sem vicios ¢ sem ruinas. Na chegada A capital do Brasil, 0 edificio do Ministério da Educagio [Msp], visto do mar, parecia dar-lhes as boas-vindas, como ela declarou posteriormente em diversas ocasides, A mengo ao primeiro edificio modernista em altur fortuita, Assim como 0 Centrosoyous de Le Corbusier $6 pide ser realizado na Unido Soviética, o moderno edificio corbusiano da equipe de Lucio Costa s6 teria acolhida possivel no Rio de Janeiro. Quando Lina Bo e Pietro Maria Bardi aqui chegaram, o Brasil parecia acenar, por meio dos brises e colunas desse edificio, com uma possibilidade de novo mundo, certamente nao as mesmas promessas que antes atrairam levas de migrantes europeus, mas aquelas de um outro campo intelectual ¢ institucional, no qual a arquitetura moderna parecia possivel, inevitivel até mesmo uma condenagio, como queria Mario Pedrosa, ee eee eee eed Na bagagem, como ja dissemos, quadros, que foram expostos exatamente nesse edificio do Ministério, o que permite suspeitar que além de obras houvesse contatos e acordos prévios, um certo capital social na valise do casal Bardi. Redes de relagdes tragadas a partir da Itélia, tecidas no navio onde se realizou ‘o emblematico c1am! de 1955, nos grupos politicos italianos, cultivadas por Pietro Maria Bardi como jornalista e colaborador de diversos periédicos importantes, como 0 Architecture d’Aujourd hui. Da parte dele, vieram também conhecimentos de histéria da arte, arregimentados no dia a dia de um critico e comerciante de arte, um cabal self'made man do mundo artistic, que chegow a ocupar 0 posto de conselheiro do Duce na Italia fascista, encenando com outros artistas ¢ arquitetos uma verdadeira disputa simbélica a respeito daquele que poderia ser 0 estilo oficial do regime. E Lina Bo Bardi trazia o sobrenome re nome de nascimento e batismo, Achillina di Enrico Bo, filha primogénita de um engenheiro profissional e pintor de domingo. Bardi era um renome que, somado a sua formagio, lhe permitia, mn-anexado ao seu tornar-se arquiteta, Trazia um conhecimento s6lido de restauro filolégico obtido nos bancos da Scuola Superiore di Architettura idos como parte das i Roma,! aliado a outros saberes adqui marcas de sua geragio, nos circules em que conviveu em Roma e Mildo, nas revistas italianas que leu e tas quais escreveu, ilustrou e desenhou. Ao aqui desembarcar, tornou-se arquiteta de prancheta e continuo a escrever, ilustrar e editar. Chamou ‘o musp de “bela crianga” e entrou com todos os seus recursos no debate da mesma arquitetura que havia pouco tinha sido celebrada no MoMA com a exposigao Brazil Builds: Old and New, de 1943, € na L'Architecture d'aujourd hui? Entrou no debate com alguns projetos e muitas palavras. ‘Autora de projetos marcantes ¢ emblematicos, Lina Bo Bardi logrou construir pouco. Seus edificios sio definidores de paisagens paulistanas e soteropolitanas, mas, se comparamos corm outros arquitetos, podemos conté-los nos dedos, Nao exatamente como compensagio e sim como parte de sua atuagio, ela escreven com intensidade. Pois arquitetos escrevem: registram memoriais para apresentar e elucidar a propria obra, manifestos para tomar posigio ante outros arquitetos, para exaltar ou depreciar arquiteturas de outros tempos. Se Wolfilin escreveu que quadros devem mais a outros quadros do que a realidade;* os projetos dialogam entre si, mesmo quando justificam sua existéncia por condicionantes externos a eles — e as duas possibilidades nada tém de incompativel. Aquele que é talvez 0 mais importante arquiteto do século xx, Le Corbusier, escreveu cerca de cinquenta livros, argumentando que quando cireunstancias o impediam de projetar ele desenhava, escrevia, falava.. de modo que suas proposigdes arquitetonicas nao deixassem de ser veiculadas. ‘Ao contrério do que isso possa sugerir, a escrita de um profissional que se apresenta ao mundo por meio de imagens, croquis, volumes, inhas e cortes nao é algo menor, secundirio, {que s6 se realiza quando a tarefa central, a espinha dorsal do oficio — 0 projeto — é interditada, Basta lembrarmos que boa parte dos debates acerca da arquitetura do século xx travou-se por escrito, Pensemos em dois momentos cruciais, a emergéncia do chamado movimento moderno mos anos 1910-20 © do pos-modernismo em meados dos anos 1960, ¢ no hé como negligenciarmos a importancia dos textos, artigos ¢ manifesto. ‘Textos que debatiam com textos e com projetos, concursos concluidos com resultados diversos. Revistas que representavam polos distintos de disputas por classificagaes e eleigées. Modernos versus tradicionalistas, nacionalistas versus cosmopolitas, racionalistas versus organicistas: foi por escrito que parte dessa Tota simbslica, que forjou a trama da arquitetura dos tltimos ‘cem anos, foi tecida, reforgada ou esgargada Nao podemos imaginar a construgio do modernismo arquiteténico sem edificios como a Villa Savoye on a Rahrica Fagus, assim como nao conseguimos demarcar um movimento sem todo o trabalho dos CIAMs, 0s position papers ali discutidos as cartas finais, documentos imperfeitos escritos a virias maos, sujeitos a diversas versdes. I possivel pensar na constituigzo do ‘modernismo arquiteténieo sem as palavras de Adolf Loos em Ornamento ¢ crime? Sem a definigio crucial do papel do arquiteto que Gropius logrouem Nova arquitetura e a Bauhaus? Sem as blagues¢ os aforismos de Le Corbusier nos textos reunidos em Por wna arguitewura® Se projetos aumentaram nosso leque de refer’ se o estranhamento que muitos deles causaram fez a parte do debate arquiteténico, se edificios mudaram olhares, foi por escrito que os arquitetos modernos se municiaram de um, novo vocabuldrio e mudaram o modo de falar sobre arquitetura. final, em momentos cruciais,o principal objetivo era langar tum manifesto, e ao lado de casas-manifesto, projetas mostrados em exposigdes, havin textos e revistas ilustradas que ajudaram a construir um olhar moderno. ‘No mundo da arquitetura do século XxX, em diversas ocasises houve win porta-vor privilegiado, um intérprete, um guia para o uuniverso da cultura escrita. Tal foto papel de Siegfried Gideon, secretério dos 1AM e autor do fundamental Fspaco, tempo e arquitetura, ou de Gilberto Freyre que, em terras brasileira, traduzia nos termos de sua sociologia as admiradas proposigdes de Lucio Costa. Sto escritos que constroem pontes entre arquitetos e outros profissionais, ¢ entre os préprios arquitetos, e que delimitam o que é e deve ser a arquitetura. Publicagdes fazem parte da formagao de escolas, nto as formalizadas como a Bauhaus e a Vhutemas, quanto as assim denominadas, como zo caso brasileiro a escola paulista ou carioca. A forga dos textos —e isso inclui suas forografias e desenhios — tem um motivo dbvio: a natureza do objeto arquiteténico é a imobilidade. Assim, a arquitetura no papel, por escrito, dos atuais coffe-table books ‘aos panfletos ¢ tratados, tudo isso desempenha esse papel crucial formar um musen imaginario da arquitetura ¢ fazé-lo circular ‘mundo afora.® Sio os textos que organizam discursivamente 0 universo da arquitetura, separando o que & exemplar do que & prosaico, o que é relevante daquilo que passa despercebido, 0 ‘que pertence ao mundo da arquitetura e o que nela nao cabe, construindo um debate dotado de um notavel grau de autonomia, Isso se mostrou evidente nos anos 1960, quando teve inicio uma querela que fer de tudo para minar wn modernismo — ou alguinas vertentes deste — abalado pelo seu préprio sucesso do ps-guerra e pela crise dos Claas que deu origem ao Team x! A partir de 1961, quando da publicagio de Morte e vida das grandes cidades pela jornalista Jane Jacobs, até 1g72 com Aprendendo com Las Vegas, de Robert Venturi, varios aspectos da arquitetura ‘moderna foram cuidadosamente desafiados: as relagies entre forma e fungao; 0 papel da histéria e da memiéria das cidades, 0s desejos do usuario comum em contraposig ao designio do arquiteto; a arquitetura do povo, de pés desealgos, do canteiro no lugar do saber téenico e erudito, Este debate fecundo ¢ atrevido, no qual devemos incluir nomes tao diversos como Aldo Rossi e Hassam Fathy, foi, sobretudo, uma batalha, um duelo {que se travou por escrito. O que ndo diminuiu sua efiedcia, sua capacidade de olhar para 0 movimento moderno, classificando-o tre 0 que passava a ser visto como um clissico e o que era, dessa perspectiva, desclassificado, Ao colocar (em alguns casos, recolocar) novos contetidos na panta da arquitetura, realizava a segunda revolugao simbélica desse campo no breve século Xx — «a primeira, sem diivida foi a da década dos manifestos modernos. Nao seria muito diferente com Lina Bo Bardi, arquiteta cuja obra e escritos situam-se exatamente nesse espectro temporal, de uma segunda geragao de arquitetos modernos, avangando modernamente até © momento de sua revisio ¢ atravessando a turbuléncia pés-moderna Lina Bo Bardi foi uma arquiteta considerada por muitos como original ao extremo. A presente selegio de textos pode realirmar isso, mas mostra também que ela tipicamente buseot, realizar tudo 0 que cabia na ambiciosa agenda do arquiteto ‘moderno, aquele que desenhava da colher & cidade, Uma singularidade, contudo, é que Lina ocupou espagos importantes no mundo editorial italiano ¢ brasileiro e que, dada a exiguidade de sua obra constr — inversamente proporcional a sua importancia —, a leitura de seus artigos pode constituir uma via interessante de aproximagio a sua arquitetura, Entretanto, io & essa a tinica possibilidade de leitura desta coletinea, Por conta de sua imersfo no debate arquiteténico brasileiro ¢ italiano, de sua posigio privilegiada no universo ‘editorial dos dois paises, de sua rede de relagoes, os eseritos de Lina nos guiam pelos meandros dos diseursos sobre a arquitetura do século xx. Tsso inelui o recorte que os arquitetos modernos fizeram do legado edilicio, urbano e doméstico do passado. O conjunto de textos aqui apresentado pode constituir wm privilegiado patamar de acompanhamento de debates travados no campo da arquitetura a partir dos anos 1940 e também dle questdes e dilemas que atravessaram a produgio cultural brasileira entre essa década e 1992, ano em que a arquiteta mezzo romana, mezzo baiana faleceu em Sio Paulo, em meio ao projeto para a prefeitura de Luiza Erundina, ‘A formacao Achillina di Enrico Bo nasceu em Roma em 1914, enquanto os futuristas se manifestavam. Foi criada perto do Castello Sant’Angelo e do Vaticano, onde foi batizada. Aprendew ‘a desenhar com seu pai e em algum momento comegou a se afastar do que parecia um destino natural de moga burguesa talentosa — em ver de cursar Belas-Artes, ingressou no masculino curso de arquitetura da Universidade de Roma, projetada e dirigida por Marcello Piacentini. Se para arquitetos nascidos na virada do século, como Lucio Costa, a ruptura com 0 academicismo e a adesio ao modernismo podia ser relatada como uma conversio — caso também de Charles Fdonard Ieanneret, que ao se estabelecer em Paris adotou pseuddnimo de Le Corbusier — para os nascidos pouco depois a situagio era outra: quando Lina iniciou seu aprendizado ce ensaiou seu ingresso, formada, no mundo dos arquitetos, jt hhavia na Itilia diversas correntes modernas estabelecidas, ainda que em meio a tensdes e disputas, que no deixavam de expor seus matizes ideolégicos inicio da arquitetura moderna na Italia se confunde com a instauragio do fascismo, ¢ foram diversos os arquitetos que, ‘mesmo mais vinculados As realizagdes arquitetdnicas e sociais do jovem socialismo soviético do que as do regime de Mussolini, ™ aderiram a promessa de modernizagio que este parecia representar. Em Roma, Marcello Piacentini compartilhava algumas de suas grandes obras com o milanés Gié Ponti, a quem hoje talvez. chamassemos de protomodemo, ¢ também com os modernistas, entre eles Guiseppe Pagano. F, Pietro Maria Bardi langava com Massimo Bontempelli sua Quadrante, periédico no qual preconizava o racionalismo arquiteténico como estilo oficial do fascismo, Enquanto Roma deveria se tornar um cenirio milenar para as celebragées do regime e para tradigdes inventadas — como um Anno Garibaldino, em 1932 —, modernistas e tradicionalistas reivindicavam seu papel de melhor tradutor, em espago e imagens, do fascismo. Enquanto isso, arquitetos como Carlo Enrico Rava trabalhavam em outra frente urbanistica e politica ao construir cidades fora da peninsula durante a expansio do colonialismo italiano, A culminagéo viria ‘em 1935, com a Esposizione Universale di Roma (UR), uma cidade colonial construida perto de Roma, no caminho do mar, com plano geral de Piacentini para as comemoragies de 1942, que terminaram por n&o acontecer. Nesse pantano ideolégico, emblematizado pelo moderno Giuseppe Terragni, autor da Casa del Fascio, em Como, ¢ morto pbs combater na Riissia e na lugoslévia pela Itélia, nesses anos anteriores & sinonimia fascismo-nacional-socialismo, ‘um aspirante a arquiteto tinha dois caminhos principais para cumprir sua formagio: a Universidade de Roma ou 0 Politéenico de Miao, Na primeira, um curso dirigido por Marcello Piacentini* e Gustavo Giovanonni’ na segunda, uma cidade ‘menor e mais moderna, um ambiente de jovens influenciados pelos movimentos de renovagiio arquiteténica, Nossa jovem aspirante a architetto percorreu os dois, caminhos: formada em Roma, iniciou sua atuagio em Milio, Deixou a capital do pais de unificagio recente e foi para a capital lombarda, mais disponivel politica e culturalmente, escapando do ambiente professoral romano e buscando abragar os rumos Lo) su) nas capes sons ts Eco Bo e Carlo wares Preto Maria Iota Lo Ste, Mio, m4 1941; 9.10, ou. 194 da vida moderna. Nessa cidade reformista ¢ industrial, foi no mundo editorial, trabalhando con 3id Ponti que Lina comegon sua trajetoria profissional. Ponti editava a Stile —que também. contava com a colaboragio de Pietro Maria Bardi —e Lina ilustrou capas e paginas internas sozinha ou a vérias mios, como aquelas assinadas por Gienlica: Gid Ponti, Enrico Bo, Lina Bo © Carlo Pagani. Foi editora da Domus e Quaderni di Domus decidiu vir ao Brasil em companhia do maride Pietro Maria Bardi, jornalista, critico de arte autodidata, dono de galeria, colecionador e editor da influente e comprometida Quadrant Quando chegou ao Rio de Janeiro, Lina jé trazia experiencia em fazer arquitetura por escrito. O fato de ter conseguide comegar a projetar e construir no Brasil nao a afastou dessa forma de expresso, ao contrario: em um campo onde havia cruzamentos entre eleigies arquiteténicas e matizes ideolégicas, onde grupos pleiteavam ser o representante oficial do regime Vargas ( errado pouco antes da chegada do casal), onde Le Corbusier e Marcello Piacentini disputaram projetos oficias, esse territério ao mesmo tempo familiar e estranho que o casal Bardi escolheu para viver, Lina ndo deixou de escrever e editar. Ao chegar, esse campo j caminhava muito bem, ao mesmo mnpo que comegara a mostrar suas fissuras, Em 1948, um artigo de Geraldo Ferraz na Anteprojeto colocava em divida a primazia da escola carioca no cenario da arquitetura moderna brasileira, assim como a versio canénica de Lucio Costa, que seria reiterada por grande parte da nossa bibliogratia, No nos cabe aqui remontar esse debate" e sim chamar a atenglo para a de que qualquer escrito nesse mor campo minado. Kassim foi com a inauguragio da revista Habitat, em 1950, com a qual Lina se langou nesse universo de textos que poderiam soar como adesdes, afagos ou contendas, periente no mercado editorial — Bardi por ter editado a Quadrante, Lina por todo o trabalho com as revistas ligadas & Domus —, 0 easal conduziu o periédico do MASP em seus primeires quinze néimeros. Copas de revistas Veuna # naga in. 9-10, Sset-out. 1942) Bolezze (0.13, jan. 1942), nas quis Line Bo Bac colaborou na cad do 1940, BELLEZZA Lina no escreveu apenas em revistas especializadas para so da ois Domus 198 un. 198 ei Doms 1948), ara as quis Ioiedtor, escreveu arquitetos, Se a Habitar era a revista do museu, ainda que com ‘um espago consideravel dedicado a temas afins, sabemos que seus trabalhos iniciais foram com titulos que visavam um piblico ais amplo e diverso, como Lo Stile, Vetrina ¢ negozio e Bellezza, 0» 1986 (Doma além das profssionais Domus e Quaderni di Domus. Pouco oe 194501948 (adr Boma. antes de mudar para o Brasil, langou-se, ao lado de Bruno Zevi e Carlo Pagani, na aventura editorial da revista 4, posteriormente batizada como Cultura della Vita. Na carta que escreveu a Zevi propondo o novo periésico, ela via espago para uma revista que “estivesse ao aleance de todos e que pautasse sobre os errostipicos dos italianos”." Infelizmente, por dificuldade de atribuigSo de autoria em um veiculo que comportava a esrita a “varias mos”, ‘lo pudemos incluir nesta coletinea nenhum artigo dessa revista impar, que contou também com a ajuda de Pietro Maria Bardi.” A 4 extrapolava os limites, entrava em temas como planejamento familiar, mecanizaglo do lar e buscava, seguindo ’, ser umn periddico politizado naqueles anos do imediato pés-guerra, O primeiro titulo, al como um Aleph permite enxergar 0 mundo, era uma letra de recomego: (h) abitagio, ansiedade, amor, (h)abilidade, acordo, audacia, aviso, aspereza, absurdo, associagio: “Comegar desde o inicio, da letra A, e planejar uma vida mais feliz para todos nés", escreveu Zevi no Primeiro editorial da nova revista, « recomegar remetia a terra arrasada pela bomba atémica. 4 era também a acusagio, tema ao qual Lina retornaria na Bahia. 2.4 ~ Cultura della Vita weve vida breve — cinco meses —a Habitat foi de inicio parte do tripé que dava vida ao MasP: 0 acervo invejivel (construido por métodos heterodoxos conhecides © romanceados), o Instituto de Arte Contempordinea (1AC). Sobre 0s textos Lina Bo Bardi — por caracteristica geracional € de seu oficio — nao citava autores segundo os costumeiros padries ac rnicos. Isso torna sua leitura sinuosa, podendo levar 18, jun 1948, Ectade ring, uno Zev a avo Pagani am ome de lovoreio a junto de 1846 ‘a enganos como a atribuir A arquiteta achados tebricos e politicos. Por outro lado, uma leitura atenta ¢ investigativa revela, entre Tinhas,hiatos, palavras, autores importantes, ilbofos, anquitet E expe seus movimentos de incorporagio, recusa e transmis, Alia sob a guerra podem Os primeiros artigos ainda na It hoje soar quase pueris, mas ja aprese erescenta transformagia, iria acompanhé-la sempre: a casa, 0 morar, 0 como morar bem ¢ © morar moderno. Em parceria ‘com seu colega de faculdade e de editorias Carlo Pagani, Lina ensinava o leitor comum como arrumar, mobiliar, em suma decorar — palavra que os arquitetos modernos depreciam — st casa, Morar era um tema que voltaria com tudo apos o fim da Stile trata-se de dar guerra, mas nos singelos artigos de Gi conselhos praticos para as dificuldades cotidianas: uma pintura, colorida no teto, um forro de fustdo em um estofado, uma certa simplicidade no lidar com a easa pequena, com a casa no campo ‘ou como usar objetos antigos na casa contemporiinea. Mas a casa como habitagio coletiva foi tratada no elogio a um conjunto habitacional em Roma [pp. 42-6], Essa casa moderna também deveria ser o Ingar da eficiéneia, da mecanizagio, do taylorismo aplicado a vida doméstica, ou se)a; 80 eotidiano da mulher. Nao estava sé: divulgagio das \deias tayloristas aplicadas ao espago doméstico, vindas dos Estados Unidos e incorporadas pelo modernismo arquiteténico alemio, especialmente 0 vinculado a conjuntos habitacionais, era corrente. Ao final dos anos 1920, a propaganda de ideias do novo modo de ge iciar uma casa, aliada & atuagio de arquitetos como Bruno Taut, gerou como solucio a proposta da casa para ‘uma subsisténcia, ou existéncia minima (Die ohnuna. fr das Existezminimum). A culminagio disso tudo foi o projeto da conhecida Cozinha de Frankfurt, pela arquiteta austriaca Grette Schiitte-Lihotsky, exibida na Die neue Wohnung und ihr Innenausbau em 19325 € logo incorporada em diversos projetos residenciais construidos nessa cidade por Ernst May. Trata-se de uma Kochkuche, cozinha para se cozinhar, pequena e com uma ‘aura de modernidade que vinha do uso da eletricidade Ainda na Itélia, seus escritos mencionam diversas vezes exemplos norte-americanos de arquitetura doméstica, especialmente, Ha varias explicagies posstveis para tal afinidade, Além do fecundo didlogo com Bruno Zé dos Estados Unidos, puiten que em 1945 retornou 1s Sugerir 0 aparente esgotamento das possibilidades de criagio na Europa do pés-guerra em contraste com talvez a percepgao da América, mundo novo, Nao foi a primeira arquiteta a migrar para o sul ou norte do novo mundo, © a0 fazé-lo Lina alinhou-se ao grupo da Bauhaus nos F Unidos, assim como a Hannes Meyer tados que deixou a Alemanha pela Unido Soviética e esta pelo México; e no Brasil esteve em ‘companhia de F Rernardo Rudofsky radieada em Sio Paulo, A cidade, diferente da entao capital Rio inz, Heep, Lucien Kornjold, Giancarlo Palanti, Jacques Pillon ¢ muitos outros, a maioria de Janeiro, uma arquitetura de estrangeiros, distante aps da Hai, rst Jo MASP quo ne Bo Bar tnd. 19502 tx 1951 5, ut-do, 1961; 6.10 jan-mas. 1953. de definigGes de carater nacional e busca de brasilidade — em suma, era puro negécio, mercado. Uma ocupagio silenciosa do espago urbano, da avenida Paulista, dos bairros burgueses que se verticalizavam, uma presenga que se dava mais nas ruas da nicas. Nesse espago foi cidade do que em manifestos, artigos, pol crindo o museu de arte, mas certamente faltava para Lina o lugar dos anseios de todo o léxico iniciado com a letra “A”. Nao por acaso, diversos desses temas retornaram na Habitat, ainda que viessem a ganhar expressio mais plena posteriormente, nos cinco anos que Lina passou em Salvador Sea mudanga de pais foi uma contundente circunstancia espacial, do ponto de vista geracional Lina poderia ser uma arquiteta do Team x. Seu brutalismo a aproxima de Allison ‘Smithson, Sua incorporagio da chamada cultura popular trouxe Aldo van Eick como seu aliado no final de carreira, Essa afinidade geracional a situa como uma aprendiz indireta dos chamado movimento moderno, uma pais fundadores do assim cham 10 HABITAT arquiteta moderna do pés-guerra que niio sucumbiu a rotinizagao ‘Wo assinalada por Fredric Jameson."* E que permaneceu se proclamando moderna mesmo quando a geragio seguinte, ¢ muitos compatriotas seus aderiram ao post-modern, te Pritica que ela condenava sem ao menos se dar ao trabalho de traduzir— era a morte da arquitetura, Varios dos textos desta coletinea fornecem indicios da admiragio de Lina pela arquitetura moderna brasileira fundada « partir da ruptura de Lucio Costa com a Escola Nacional de Belas-Artes. Contudo, ao se mudar para Sao Paulo e assumir @ editoria da Habitat, ela se colocou na posigio de farol, de intérprete privilegiado, de guia critico da arquitetura que via florescer em nossas cidades. Seu olhar e sua pena feriam o orgulho paulistano e imigrante ao atacar a Catedral da Sé.¢ 0 Bdificio Martinelli, enquan 0 sua pena produzia um contra discurso em relagio & hegemonia da chamada escola carioca. Sua Posigio era por vezes ambigua, falando como uma estrangeira ‘0s brasileiros e como uma nativa quando respondia aos seus, ‘amigos, como Bruno Zevi ou Max Bill, nesse momento alinhados 8 critica que via na hegemonia da escola carioca um formalismo que poderia conduai-la ao academicismo tao combatido pelos primeiros arquitetos modernos. Mas é com o pai-fundador da arquitetura moderna brasileira que ela vai travar um diélogo surdo, incidindo rium ponto de honra: a relagdo com o pasado. Para Lucio Costa, é na arquitetura colonial brasileira que podemos encontrar algumas chaves da arquitetura moderna. Para Lina é na casa de pau a pique, do seringueiro, na arquitetura vernacular. Ainda que Lucio Costa jé tivesse ponderado ‘em “Documentagio necessiria”"* que a “boa tradigio” que vinha da Colénia havia sido transmitida ¢ guardada néo pelo arquiteto, mas pelo homem simples, temos ai uma ‘mudanga radical de perspectiva. Esse passado colonial era construido e guardado pelo 1PHAN, instituigdo na qual Costa desempenhou papel crucial. Mas, ainda que o érgio do patrim6nio preservasse alguma arquitetura moderna — aquela que confirmava a hipétese de Costa —, era um passado nacional que se reconstruia com seus tombamentos, restauros e esquecimentos. 0 homem simples da casinha de pau a pique era um sujeito social contempordneo, um presente popular que era também uma construgao intelectual e politica de Lina, do casal Bardi, da Habitat, Se o povo era arquiteto, capaz de construir obras corretas com poucos recursos, era um povo do presente, vivo nesse Brasil dos anos de redemocratizagio. Dai a diferenga, inclusive politica, que podemos estabelecer ‘entre Lucio Lina, especialmente porque em seu discurso esse povo ganhava contornos romAnticos ¢ revolucionérios.” Se wm, “outro” no passado poderia conduzir a uma forte politica de preservagiio, esse “outro” presente levou politizagio de seu discurso em pleno periodo de aposta na modernizagao do pais. A nogiio de autenticidade era deslocada: auténtico era o povo. Definitivamente, Lina nao era bossa nova, sua dissondncia cera outra, Enquanto Le Corbusier um dia escreveu “arquitetura ou revoluglo”, a Bauhaus deixou a Alemanha do nacional-socialismo ¢ -mitos arquitetositalianos aderiram ao fascismo de primeira hora, 4 politica também fazia parte da atuagio e do discurso de Lina. Em primeiro lugar, por sua posigdo proxima a Assis Chateaubriand e a circulos do poder. Mas também e, sobretudo, pela propria relagéo que se trava, na érea da arquitetura, entre cliente arquiteto, ¢ essa tensio constitutiva desdobrava-se em seu percurso: ora tragando estratagemas com Adhemar de Barros para a construgdo do MASP, ora cultivando sua admiragao e posterior rechago pelo governador da Bahia Juracy Magalhies; posteriormente aproximando-se de Sergio Ferro e seu grupo, e ao final de sua trajetéria transformando uum (para la) detestavel edificio de Ramos de Azevedo em uma prefeitura no Parque Dom Pedro, esse centro feio e nio-gentrfcado — 0 opostosimétrico da avenida Paulista — para a prefeita petita ‘Luiza Erundina, A atuagio de Lina, ainda que longe da capital, foi pautada por um universo de escolhas possiveis, que atravessavam a Vida politica e foram por elas politizadas. Os artigos da Habitat eram também um lugar de abrasileiramento do casal Bardi. J no primeiro niumero ela assinou “Bela erianga” [pp. 70-3], uma resposta aos criticos ‘europeus no momento em que comegava a arrefecer 6 encanto suscitado por Brazil Builds, pela obra de Lucio Costa ¢ Oscar Niemeyer na exposigdo de Nova York, pela apresentagio da original arquitetura moderna brasileira, cedendo lugar para a expressiods um temor,o do formalismo. & nessa atmosfera que la intitul esse artigo, no qual relata uma arquitetura jovem ‘que nasceu bela sem sabermos exatamente a razo, que ainda no tinhatido tempo para parar e refletire euja maior qualidade cera a rudeaa ea falta de polide2. Seus amigos europeus estavam para ela eyivocados,e Lina escrevia como alguém pertencente A arquitetna m lerna brasileira, E no mimero seguinte elogiava ‘a atuago de Lucio Costa no 1PHAN, por seu estudo acurado que conduzia a arquitetura para 0 caminho certo. Ainda na Habitat, 0 projeto, a construgio € a inauguragio da residéncia do casal, a conhecida Casa de Video, deram lugar a reflexdes que iam do pedido de um cuidado especial com um bairro novo, o Jardim Morumbi, até a afirmagio da qualidade de ‘uma casa polémica, sem compromissos com o comitente e sim com a autonomia do fazer arquiteténico — afinal, o comitente cera o proprio arquiteto, escreveu Lina na Habitat n° 10 [pp. 79-81] Como explicar as mudangas em seus projetos, que podem ser agrupados em casas do ar eda terra," classificados como um caracol e um lagarto?” Como ler projetos que vo da precisio mniesiana ao elogio e didlogo com o vernacular? Alguns textos aqui apresentados podem fornecer pistas, desde que retiremos Lina do casulo de sua singularidade, devolvendo sua reflexto aos dilemas da arquitetura do pés-guerra, O elogio ao vidro ¢ As casas de Vilanova Artigas [pp. 67-70] sfo anteriores ao clam de Dubrovnick, o da ruptura. Posteriormente, seus projetos passam a ter mais latitude, a se ocultar do sol, a constituir algo que talvez Kenneth Frampton inclufsse no seu rétulo “regionalism eritico”. A fenétre @ longueur dos cinco pontos corbusianos torna-se vo, caverna, forma inusitada em relagio a0 “do piso ao teto” de sua Casa de Vidro. Ainda assim, seus projetos vao até o final oscilar centre uma caixa suspensa e a caverna, esta iltima um claro gesto de conferir significado a uma arquitetura acusada de earecer dest, [A recente valorizagao do trabalho de Lina — basta ver 0 rniamero de artigos, teses ¢ livros sobre seu trabalho — de algum ‘modo obseurecet 0 papel de Pietro Maria Bardi, conhecido plas novas geragies como marido da arquiteta, Se deixamos de publicar nesta coletinea alguns artigos comumente creditados a Lina, é porque havia dificuldade de atribuigio de autoria, tamanha a imbricagio de suas ideias com as de Bardi, fi do casal ‘a provocativa coluna “Alencastro”, que encerrava a Habitat em tom de ironia e sareasmo, B compartilhada a preocupagi com a _ pelo presente, por un arte popular — Bardi se correspondia com foleloristas brasileiros, como Renato Almeida e Falson Carneiro —e com o papel social da arquitetura e do urbanismo, Ha mais didlogo entre Lina ¢ Bardi do que pode parceer & primeira vista Quando a Habitat publicou um edificio residencial de Oscar Niemeyer em Campinas sem deixar de expressar um leve comentirio irénico a respeito da curva, quando em outro ‘momento foi jocosa com o mar de cohunas que 0 arquiteto havia feito no edificio da Bienal, havia uma confluéncia dos principios do que Lina acreditava ser a arquitetura correta, que ela praticava e viria a praticar, mas havia também as tomadas de posigio de Bardi em relagio, por exemplo, a Cicillo Matarazzo, 0 promotor da Bienal de Sao Paulo. IE sabido que Lina viveu na Bahia entre 1958 e 1964 — perlodo «que posteriormente denominou seus anos entre os “brarcos” [pp. 130-6], Mareando o inicio desse periodo, sua aula inaugural [pp. 81-6], ainda com sotaque italiano em seus termos grafia, apresenta ‘uma arquiteta leitora de Antonio Gramsci. Esse conhecimento da ‘obra de Gramsei mais tarde se desdobraria em seus escritos sobre arte popular, sua distinglo entre nacional e nacionalista, e nesse ‘momento remetia& faculdade que todo homem tem de pensar, ¢ também 4 nogiio de que a filosofia de uma época niio é outra coisa que nao a histéria dessa mesma época. 0 leitor pode reconhecer ‘mesons palavras que, em sua aula, segundo suas anvlaydes, faziam- se acompanhar de diapositives exibindo casas populares italianas anteriores & Segumda Guerra, as paginas iniciais da obra Id ‘materialism storico¢ la filsofia di Benedetto Croce, traduzide no Brasil como Concepedo dialética da histbria."* Segundo o tradutor desse livro, Carlos Nelson Coutinho, que contieceu Lina nesses anos, la foi a primeira pessoa a falar de Gramsci em nosso pais. Por joutr lado, sua nog de “presente histarico” tem outra origem: & de Benedetto Croce a visio de que 0 juizo histérico é determinado jeito que para agir observa a situagio para a partir desta avaliar © passado, Dificilmente Gramsci e Groce, que compartilhavam iniimeras diferengas enquanto — cada um a seu modo — enfrentavamn 0 fascismo, imaginariam que seu legado viria a ser traduzido em cores, formas e volume. Lina levou Gramsci ao museu e Croce 20s ‘centros historicos. No primeiro caso, para propor um centro de arte popular em Salvador, no Solar do Unhio, que ela restaurou de modo heterodoxo para os padrdes do momento. No segundo, ‘quando o proprio restauro e as intervengées em centros — como 0 de Salvador — e edificios — como o Palacio das Indiistrias — exam assumidamente pensados a partir do presente. Nao apenas tum presente pragmitico ou programético, mas um presente critico, que tornava possivel a ela questionar a énfase conferida ao turismo no tratamento dos centros histéricos das cidades italianas, Lina Bo Bardi faleceu em margo de 1gg2. Poucos meses antes proferiu uma palestra [pp. 180-4] em wm importante encontro de arquitetos que homenageava Lucio Costa. No Apice de sua consagragio e maturidade, reiterou seu aprego pelo pais que elegeu — livre, sem formagio intelectual e um poueo Iouco — e, mais uma ver, enfatizando o sentido de plenitude do ‘modernismo. Elogiou Brasilia cidade sem a qual o Brasil seria ainda uma republiqueta sul-americana, e convidou o piblico, formado em sua maioria por jovens estudantes de arquitetura, a debater, “porque eu nao sou conferencista, sou arquiteta”. “Arquiteta: em portugués e no feminino, diferente do modo ‘como sempre se apresentou, sem flexionar ou tradutir, architetto. Ser arquiteta era, finalmente, tudo isso: o que ela falou, escreveu, desenhou, projetou, imaginou, realizou. Em todas as escalas, de ‘uma cadeira para a Casa de Vidro a um toboga para Sao Paulo. A realizagao plena dos preceitos das vanguardas europeias, sb que nos trépicos e no feminino, 1 Gangressos Internacionas de Arqutetura Moderna, 1928-56 dada em 491 Beatriz Camargo Cappello, no fora ‘mengées 4 arquitevara moderna brasileira no cendri europe. Em 1950, 1 pedo do secrtirio Siegfried Gideon, Gregori Warchavchik enviou a0 can de Bruxelas um relatirio sobre a stuagéo brasileira e sul- americana, parcialmente publicado na Cahiers dart. Arguitetura em revista aquitetura moderna brasileira nas revisit francesa eialianas. Tose de Aoutorado, PALUSP, 2006, Heinrich Wallin, Priniple of Art History: Apud Ernst H. Gombri ‘Meditagdes sobre wm cavalinho de pau. Sio Paulo: EUSP, 1999, 9.9 “The principal aim is manifesto” fia resporta de Le Corbusier diante da acuragfo de destruigio que seu Plan Voisin exigiria. Apud Sennet, The Conscience of the Eye. The Design and Socal Life of Cities. Londres e Nova York: W. W. Norton & Company, 1990, p72 “Magali Sarfati-Larson, Behind the Postmodern Facade, Architectural Change in Late Twentieth Century America Berkeley ¢ Los Angeles University of California Press, 1995, p-¥ A respeito do Team X, ver Ana Claudia C, Barone, Team 10— Arquitetura como critica, Sdo Paulo: Annablume, 2002; Kenneth Frampton, Histria ‘rtiza da arquietura moderna, So Paulo: Martins Pontes, 337-550 Sobre Piacentini, wer Mareos Tognon. Arputetra italiana no Brasil a obra de Marcello Piacentini. Campinas: Eaitra da Unicamp, 1999, Sobre Giovanonni, ver Beatriz M. Kubl, Arguitetura de ferro e arquitetara _ferrosidria no Brasil Sao Paulo: Atelié Editorial, 199 Ver Carlos A. Ferreira Martins “Gregori Warchavehik:eombates pelo futuro”. In: Gregori Warchavehik, Anpuitetura do século XX outros etritas ‘Sto Paul: Cosae Nay, 2006; ¢ Arguitetura Estado no Brasil Blementor para wma anise da consttucdo do discurse moderne no Brasil. obra de Lio Costa 1924-52 Dssertacto de mestrado, FLCH USP, 1988. “Lina Bo Bardi: um arehiteto in tragitto ansioso", Caramel, 4, LUND, 992 ‘euler Lima, Ferso unarchitetura semplice. Roma: Fondazione Bruno Zevi, aes Jameson, Fredric, Pés-modernismo. A liga cultural do capi Sto Paulo, Baiora Atvs, 1995, p30. {ns Lucio Costa, Registro de wna vinta. Sto Palo: Empresa das Artes, 1995, pp. 481-62, 7. Lina, op. cit, p27 Maria de Fatima Campell, Lina Bo Bardi: as moradat da alma. DissertagS0 ‘do mesteado, EESC-USP, 1997. ‘Ana Carolina Bierrembach, H2caracolyellagart:absraccién y mimesis ‘en la arquitectura de Lina Bo Bardi Tese de Doutorado em Arquitewura, versan-Ure Barcelona, Espana, 2006. Gramsci, Concepedodialticn da histiia, Trad, Carlos Nelson 1. Rio de Janeiro: Civilizagto Brasileira gs [ed 1986) tardio, A intengio desta coletanea no {6 ser exaustiva. Como vimos, Lina Bo Bardi escreveu muito, em diversos formatos ¢ veiculos e por isso tivemos, desde 0 primeiro momento, uma margem de diivida a da pertinéncia de publicarmos todos os seus escritos. Contudo, muitos deles tinham vindo a pitblico em outros vefculos. Optamos por trazer uma selegio autoral, com os escritos tal como publicados pela primeira ver, na tentativa de reproduzir os debates nos quais cestavam inseridos. Textos escritos em parceria, como os que Lina escreveu na Italia com Carlo Pagani, foram excluidos por questdes relativas a direito autoral. Ehavia diversos textos publicados na Habitat eujo tema ¢ escrita remetiam a Lina, ‘mas que poderiam ser resultado de uma redagfo coletiva dos colaboradores da revista, Reproduzi-los como sendo de Lina Bo Bardi, sem um minucioso trabalho de pesquisa, poderia eriar ou cristalizar equivocos. O que niio era o objetivo de uma coletinea, que, como tal, é uma selegio criteriosa, Sempre que possivel reproduzimos, com os textos, as imagens que os acompanharam em suas publicagdes nas revistas ¢ jornals. ‘Nesses casos, mantivemos também as legendas originais, escritas por Lana, identificadas aqui como [1.0,}. Mantivemos tamnbéma as iniciais B. B,, conforme Lina Bo Bardi assinava seus desenhos neste periodo. in Roma” le, Milo, 9.3, tinindo ¢ moderna. 0, pp 15-20. desordem, do pé e da confusio; resumindo, uma “via Margutta”* Para a realizagio pratica do edificio, que Piccinato queria ‘A moradia nos bairros habitacionais em Roma ‘num bloco tinico, foi preciso lutar contra as normas da trugio civil e o plano diretor, 08 quais, prevendo para essa regio s6 “pequenas casas” (villini), obrigaram a divisto em dois ccorpos, servidos apenas por uma escada (e aqui houve discusses com a Secretaria de Obras, porque duas “casinhas” nfo podem Esta construgio erguida bem no meio do bairro Mazzini, mosaico de palacetes, residéncias, casinhas ¢ pscudoestilo floreal’ e Coppedé denuncia, com a sua arquitetura aberta, flexivel, aérea, a arquitetura a seu redor, cristalizada em formas ser servidas, segundo 0 regulamento, por uma ‘nica escada) Os recuos obrigatérios criaram, em volta do prédio, um amplo cespago live e dogmas, enrijecida na imobilidade das fachadas, na nogéo de fechado, apertado; uma arquitetura em franco contraste com as a proximidade de um jardim com gigantescos necessidades humanas, bases e justificativas da mais essencial eucaliptos impés a necessidade de uma construgio aérea, com arquitetura de hoje: a arquitetura da casa. ai x formas bem definidas e individualizadas, isoladas perfeitamente Esta residéncia, realizada por Luigi Piccinato, é do tipo pelo ar. Por isso surg «da compl be sso surgiram a escada completamente aberta e 08 para uma pessoa s6 (artistas, intelectuas ete), com micleos patamares-passarela habitacionais separados e dreas de servigo centralizadas: ‘3 s Outro obstaculo A realizagio da concepeko do arquiteto restaurante, salas de estar, biblioteca. J4 em 191, na ocasiao da foi dado pelos materiais, que exigiram normas edilicias de famosa Exposigio,o arquiteto Milani projetou, para o Istituto Romano dei Beni $ ‘um conjunto baseado em principios andlogos, mas a construgao, guerra: limitagio do concreto armado para os pavimentos € as escadas, impossibilidade de construir colunas e vigas, tabili [Instituto Romano de Bens Iméveis] inspirada em uma ideia muito nova para a Epoca, nfo teve sorte Rico ramen ¢ oedificio foi transformado depois em umn imovel comum, cd de 1940, para locagio. Hoje, em dias mais maduros, bascada em uma concepeo ais livre, mais aberta da vida, a ideia foi retomada, ¢ 0 conjunto que surgiu dela responde exatamente a necessidades reais e praticas da vida contemporinea ¢ néo a um modernism propagandista de ideias excéntricas que adentram o campo da pritica escolar Piccinato quis criar um conjunte organico de “estadios” arejados, abertos para terragos floridos, conforvaveis, que nada tivessem de romantica, de “bizarro”, mas que oferecessem odernamente ‘uit Lug Plc, Inttoconais de Roma 11-0, — legends axignl wo 80 ee cao; a op das aca so om vasa wane ovis des jel nore anc como os de tla ales om verdes uecu. Os rodapes © nas esto revestidas evesies os dears cad nce desta & eneoto aad, enhum metal para aqueles para grandes vios e, sobretudo, {grandes jancldes que parecem indispensiveis a todo e qualquer estiidio, Construiu-se com estruturas de paredes comuns, aberturas e pavimentos limitados e esquadrias penta ongtdnalments de madeira, Essas necessidades determinaram a forma ae apna planimétrica, constituida essencialmente por trés paredes cv on esa paralelas em cada bloco, duas externas e uma central, eee ET voltadas do leste para 0 oeste — obstruindo, portanto, a0 norte € ao sul, o frie eo calor —, e deixando a leste e oeste as fachudas abertas em diregio ao jardim com, duas sacadas envidragadas ¢ arquitravadas pelos proprios pavimentos encaixados transversalmente. Pequenos trios abertos dio acesso aos estitdios, servidos quatro a quatro pelas passarclas. Cada célula é composta por uma antessala, um amplo ambiente aberto junto a uma sacada, um quarto e um banheiro; uma parede de armérios divide o quarto da antessala. Esta é a constituigio das oélulas individuais, os servigos gerais wrante, bar, cozinha; de w 1 pequeno a ficam no térreo: rest perto da eseada 0 “zeladlor” pode supervisio funcionamento dos esttdios particulares ligados por um sistema de telefonia interno, O servigo de manutengio dos estidios é comum a ido no prego do aluguel Foi grande o éxito dessa construgio, a experiéneia foi todos os inquilinos e esta incl plenamente concluida, e espera-se poder repeti-la com maior liberdade de meios, 0 fracasso da experiéneia de 1911 € 0 sucesso da de hoje nos demonstram que se caminhou muito desde entlo, na arquitetura e nna aderéncia desta a vida humana, e mais ainda, na concepgiio de Vida de todas as classes sociais. O fato de esses “niteleos” 1 hhabitados apenas por “artistas”, mas também por pequenas familias ou por trabalhadores, nos diz. que essa “arquitetura moder tedrica, tao dificil de adaptar-se a vida “pr ica” de “todos os dias”, ‘comega a transitar para a realidade comum. Esse experimento de Pi inato nos mostra que até mesmo os ex-moradores das casas ‘art nouveau, Coppedé ¢ Novecentos? comegaram a formar una nova mentalidade: sé um passo a frente, porém, porque se foram atraidos pela pura beleza, pela clara limpeza da arquitetura, nao se inspiraram nela na excolha da mobilia da decoragio, nas quais itago do estilo Luis xv1 ou um belo “estilo antigo” adamascado, ou pior, um Novecentos com poltronas de veludo, rodapés de madeira, ¢ veadinhos, além de bibelés de vidro e de rata vazada e ceramicazinhas. A arquitetura deu um passo a frente também em relagao & mente do homem da rua, mas 0 mobilirio e a decoragao, assim ‘como as roupas, nao caminham pari passu; quanta dificuldade existe em erradicar a imitago, a empolagio, as “saletas”, 0 inatil. A roupa de um homem que transita por uma arquitetura moderna nos diz que ela esta destinada a mudar, ¢ a mobil a decoragio vo no mesmo passo, mas hi aqui uma melanedlica inclinagao, um romantismo dificil de ser erradicado, um apego doentio a “bela easa tradicional” Visitamos muitos “apartamentos” da bela construgio de Piceinato, umn estidlio de artista com a beleza das coisas “que sto como sio", simples: um cavalete, um quadro, um esbogo, uma, cescultura; ¢ um estidio de escritor ou de um apaixonado pela arte: belos miveis escolhides com cuidado, quadros valiosos, e ‘em volta, aquele ar de familiaridade com o belo, o seleto; mas, estes slo interiores de excegio, porque os demais se satisfazem com seus saldezinhos arrumados em cfrculo,e vasos com amendociras artificias “no centro”. Mas esta é uma primeira experiéncia de Piccinato, e esta fase pode ser incluida entre as que desgostaram o arquiteto. “Quantas veres se consegue conduzir a fundo um trabalho conforme o primeiro programa? Toda arquitetura pensada sofre em sua ‘radugio em matéria”, ¢ Piccinato Iutou contra graves dificuldades técnicas, esolveu problemas, empregou materia desprezados no pasado, fer, segundo suas proprias palavras,“acrobacias", chegando 8 conviogio de que “o principio bésico para fazer arquitetura & procurar redescobrir e valorizar 0s materiais que nos sio oferecidos, aceiti-lo, esses materiais, em carmuflé-los ¢ sem envergonhar-se eles, mas, a0 contrio, exalté-los; eda sua construgio no se pode senio escreveralvenaria ordinéria, reboco comum, estuque romano, travertino, quartzitos, madeira de castanheiro-da-europa e fia. Isso demonstra que esta arquitetura nao surgin dos pressupostos ou da modernidade dos materia, mas das verdadeiras e indiscutiveis necessidades praticas ¢ estéticas e que por isso é natural, & espontanea, 6 itl, ¢ bela também. 1 Outro nome dado ao art noua [8] 2 Gino Coppedé (1866-1927), arquitetoflorentino. Entre seus projetos mais conbecidosestho 0 edificis residencais,constraldos entre 1907 € 1925, do bairro romano que levaria seu nome, Morren em Roma, em 1927. (ST) 35 Howe dus expoigiesinternacionais coordenadas entre sina Tilia em 1911, em comemoragéo aos cinquenta anos da wnifiagio do pals a Espositione Internazionale D’Arte,em Roma, ea Esposzione Internazionale delle Industrie e det Lavoro, er Turi. (S#] 4 Rus de Roma, mito apociada — e habitad estrangeros [Nt] Domus, Miao, 0.193 ow. 1983, pp 7 5 Segundo Argan: “O Novecento nfo é um movimento ou tendéneia ‘uma congregagio profissional de pimtoreseeecultores de diversosniveis€ orientages, todos convencionalisag, que se dizem modernos ressalvando ‘respeto pela ‘siudveltadigdo italiana’. Sastentado pela critica de M,Sarfatte U Ojeti, 6 Novecento a pritneira venta do Futurism, de ein, fora arte do rogime (lascsta)", (Giulio Carlo Argan, Arte ‘moderna. Sio Paulo: Companhia das Letras, 999 (4988), p.377]- [x] Jura € natureza: a casa na paisagem Oestudo exclusive da arquitetura estilizada, que se resume a formas tendentes essencialmente A superestrutura decorativa, € 0 formalismo académico do século xrx cristalizaram a arquitetura em formas fixas sintetizadas em um esteticismo superficial, nfo funcional, independente das condigBes essenciais da construgao, das necessidades da vida e do ambiente. A pesquisa realista do mundo moderno, destruidora de toda superlicialidade, de todo Preconceito, de todo decorativismo, trouxe para a arquitetura a relagdo SOLO, CLIMA, AMBIENTE, VIDA, relago que, com ‘maravilhoso primitivistno, vemos brotar da mais espontinea das formas da arquitetura: a arquitetura rural. Da correspondéncia perfeita desta arquitetura com o ambiente no qual a vida do ‘homem se desenvolve ha exemplos no mundo todo, e o primeiro entre todos € o da casa mediterranea, pura, perfeitamente aderente ao solo e & paisagem, coerente com a vida que se aesenrola ali. A arquitetura moderna trouxe & precisa relagio de TicNICA, usnirica e FUNGKO aquele complexo organisme que & a casa, € estabeleceu uma estreita ligagio entre esta e a terra, a vida, 0 trabalho do homem, Montanhas, bosques, mar, ries, rochas, a prados e campos sio os fatores determinantes da forma da casa; (0 sol, o clima, os ventos determinam sua posigio, a terra ao redor oferece o material para a sua construgo; assim, a casa surge ligada profundamente a terra, as suas proporgdes sio ditadas por ‘uma constante: a medida do homem; ¢ ininterruptamente, com profunda harmonia, ali flui sua vida. 0 instinto primordial de protegio que inspirou as eabanas de palha e galhos, 9s abrigos em forma de cones, de cubos de blocos de pedra macigos, se encontra de nove hoje, através de ‘uma evolugio profunda, nas arquiteturas de casas que, embora adaptadas as severas leis de funcionalidade e essencialidade da arquitetura moderna, conservam sempre a “pureza” das formas espontaieas e primordiais das quais derivam: conservam ainda na pedra regular, na madeira trabalhada, aquele sentimento “puro”, “natural” na qual elas esto inseridas, radicadas 8 terra onde nasceram, fundidas & natureza, imersas naquela paisagem. [Nao falamos aqui de aparéncias exteriores, de folclores regionais, mas daqueles valores que, fruto da séria pesquisa promovida pela arquitetura moderna contra 0 “falso”, 0 “estilistico”, 0 Jeconduziram a casa ao valor de construgdo pura, “cristalizado”, no estilizada, funcional; evalugio profunda a partir do conceito primordial das arquiteturas primitivas e rurais. tem, cada Apresentamos aqui um grupo de casas q ‘uma, em sen organismo nio estilizado, uma ligacio profunda com a paisagem, com a vida do ambiente; algumas so “antiarquiteténicas”, nfo correspondendo nem mesmo em linhas gorais aos cénones da casa tradicional, mas muito mais & propria paisagem, acompanhando as linhas do solo, seguinido com as paredes 0 movimento das rochas ¢ as manchas verdes, numa fusio harménica, sem aquela total “separagdo” entre casa e latureza levada a cabo pela arquitetura tradicional Casa perto de Abiquiu, Novo México Seguindo o projeto dos arquitetos, esta casa colonial foi construida por um mestre de obras local que npregou trabalhadores locais © Indios. Tanto 0 projeto quanto o material usado para a construcao constituem um especial objeto de interesse. Sobre as fundagdes de pedra bruta e cimento, construiram-se as paredes com blocos quadrados de adobe, feitos com terra extraida de uma escavagio préxima; os tijolos depois foram revestidos, por fora ¢ por dentro, com um reboco também cozido e depois entio pintados com cores brancas ou muito ténues, preparadas com uma terra local chamada tierra blanca. O exterior tem uma delicada cor rosa, muito semelhante & cor dos morros ao redor a ponto de quase confundir-se com eles. Troncos de pinus, provenientes de um local mais alto, foram usados como pilastras do alpendre em torno do patio e como vigas para o telhado; 0 teto é feito de tabuas de pinheiro-do-oregon. ‘Toda estrutura é muito robusta. As lareiras providenciam 0 calor necessério A casa toda, Apesar da extrema simplicidade da construgio, a easa possui todo conforto oferecido pela tecnologia mod Cabana no parque Cabana construida em uma area de parque. A cabana deve controlar ambos os acessos do parque e permitir ra vista ao sul ¢ ao leste. Bla deve ser orientada de modo a beneficiar-se, no verdo, do ar fresco do sul e ao mesmo tempo deve estar protegida do trafego da rua e dos v gelados do inverno. O arquiteto escolhe um motivo nistico e o adapta muito bem ‘a0 cendrio natural, As paredes da cabana foram construidas com blocos de pedras nisticos ¢ o telhiado é de telhas comuns. A cham 1 baixa saindo do telhado é de pedra. A construgio foi planejada 0 menos possivel: as vigas aparentes dao ao interior uma sensagio de forga rude. Duas rampas — da mesma pedra rristica das paredes — foram construidas junto a cabana para marear a entrada do parque. Com o objetivo de atenuar os ventos invernais foi plantada uma fileira de érvores na face norte da casa, Casa nas colinas de Catalina Esta casa solithria inspirada na easa colonial mexicana — um tipo indigena local — em sticas da desolada regio, repleta de harmonia com as caracter cactus. Tijolos cozidos néo revestidos constituem 0 material de construgao. O telhado do alpendre é coberto por telhas espanholas, Apesar da ristica aparéncia exterior, o interior esté planejado © construido considerando 0 maximo possivel as exigéncias lizadas da vida moderna. Construida junto a um patio de formato irregular esté a sala, com acesso aos quartos, de um lado, 4 sala de jantar e as éreas de servigo, do outro, O acesso principal A casa é pelo pati numa das extremidades da sala. Casa em Santa Fé O arquiteto conservou a tradigao local concebendo um semipitio. A casa construida em adobe (tijolo cozido ao sol) é severamente simples do lado de fora; o interior, com teto de vigas de pinus aparentes, é ricamente decorado, forma muito apreciada nas velhas casas espanholas. Projet livre das complicagées das passagens através de escadas, a tinica escadinha prevista é a situada entre a cozinha e a garagem. aj aaa Siaseund Casa na montanha Situada em um magnifien local mantanhase com a vista para o sul, esta casa, térrea e simples, esth planejada de modo a obter a maxima visio, comodidade e flexibilidade. ‘Todos os cémodos, exceto a cozinha e o banheiro, esto posicionados do lado panorimico, com acesso direto ao terrago, que se estende ao longo de toda frente. A passagem entre os diversos cémodos é feita através de um corredor retilineo, dividido ‘em duas partes, entre a area diuna e noturna, A parte da area diurna pode ser estendida a vontade, deixando aberta a porta em dois batentes colocados no eseritério, 0 qual pode ser uusado também como quarto de dormir. A garagem, que pode ser percorrida pelo automével, evita a nevessidade de uma manobra nno sopé da colina. As janelas justapostas iuminam do norte até o corredor dos quartos, o banheiro, 0 vestibulo/hail ¢ a sala de estar Casa na colina Esta solugio enxuta & concebida para um espago restrto; a entrada e as salas encontram-se no segundo andar, ‘0s quartos no primeiro, Pensada a partir do ingreme declive inf jor, cla tem a vantagem de oferecer do terrago da sala a vista de um raro panorama, sem sacrificar a comunicagio direta ccom 0 térreo; esta é feita através do terrago da sala de jantar em. dirogio a parte de tras. O exterior apresenta o bem-sucedido emprego de madeira e a liberdade de solugio de um dificil problema de fundagio. Casa em La Cahada, California Esta casa desenvolve uma interessante complexidade, As salas foram abertas de modo a permitir desfrutar a vista em trés perspeetivas e formam um Angulo em relagio ao corpo principal do edificio ao passa que as fireas de servigo ocupam uma ala sep da. A posigio do angulo da parede que divide a sala e a biblioteca sugerin a disposigio de Casa em Pasadena Esta casa adapta-se convenie lugar escolhido para sua construgao, muito comum em varias casas térreas na California 0 acesso aos cémodos ser feito pelo exterior e dispor a sala de estar tanto do lado de dentro quanto do de fora. Neste tipo de casa, 0 problema do aquec nento tem pouca importancia. O desenho do exterior harmoniza-se perfeitamente com a totalidade do projeto. Tamb ma escolha dos materiais foi cuidadosamente estudada, O exterior & revestido de tabuinhas de madeira nas quais foi aplicada somente demo de éleo de semente de linho, A parte inferior das ccalhas tem acabamento na cor verde-oliva ris um exemplo de livre composigao da casa Casa no jardim moderna: observe a combinagio entre janelas de canto € vathades intinados, de superficieslixadas e de outras moitissime cto para ser usada trabathadas, A casa foi projetada pelo arquiteto f m interrompida Jéncia e escritorio, A parede comum interrompi undo teressante do projeto, Nos cantos do seg a parte mais interessante do p suclar esto simetricamente dispostos quatro quartos. O werreng o das areas de servigo e da sala de ‘em declive permite a instalagio d ic A cio subsolo. recreagio em meio sub Casa na colina [Il] © projeto é excepeionalme cnte, adaptade, com grande efzito, ao lugar eseollide, © “que parece menor por causa das drvores que a circundaay ‘eno entanto ampla, com um andar térreo muito extenso $ superiores. A casa é tem parte coberto pelos quatro quartes Sup cressante pel especialmente interessante pe esp rva do jardim contribui para mito a parede curva do j e estende sobre la forma como se este aeeecel Jo e a terra, O projeto, ‘ria uma estreita ligaglo entre a edific construgio demasiado extensa, oferece muitas que prevé uma c vantagens, enti muitos cémodos trés diferentes relagdes com 0 exterior ¢ a quase todos os outros uma perfeita ventilago, Além disso, as alas esto dispostas de modo a assegurar 0 isolamento do escritério e do quarto de héspedes Casa no campo Nesta casa, as salas de estar e as areas de servigo estio reunidas no mes no andar superior da entrada, com depésito ¢ espago para os jogos e, embaixo, apenas um quarto; ha alp ndres nos dois andares. A arquitetura dae segue a heranga local, onde antes construiu Wright.! Muito caracteristica ¢ a combinagio d radeira e pedra tanto dentro quanto fora, e a tela de madeira que serve como armagio para as cobertnras do Oanqitewo norte americano Frank Loy! Wright (1867-4950) “Sistemetione dog {ntorn- Domus, Miso, 9. 198, jun. 1944, pp. 190-208. Disposicao dos ambientes internos ‘As afinidades das formas velhas como vetho modo de vida estdo perdidas. Como devem ser os interiores ¢ a mobilia da casa para que a adesio entre forma nova e nova vida se manifeste ¢ seja covrente? espirito do mundo antigo foi a ACADEMIA; a academia {que excluiu os artistas da indiistria e da manufatura, isolando-os da comunidade ou criando em volta deles uma vida ficticia (aarte pela arte), distante do mundo real. A falta de conexio vital com a comunidade conduziu inevitavelmente a arte 4 especulagio estética estéril, enquanto a forma expressa pelo desenho restringia-se ao plano pictorico, sem relagio alguma com a realidade ¢ a técnica dos materiais e com a economia, Jé a segunda metade do século XIX viu o principio de um protesto contra a influéncia desvitalizante da academia e descobriu a base da unido entre os artistas inventivos © ‘omundo industrial. Mais tarde surgiram as demandas de produutos esteticamente atraentes e vidveis econdmica ¢ tecnicamente. Somente 0s téenicos niio podiam satisfazer tnis exigéncias, ¢ os desenhos “artisticos” demonstraram.se absolutamente insuficientes porque eram produzidos por artistas muito distantes do mundo real e despreparados em relagdo a técnica, impossibilitados de adequar a forma aos processos praticos da produgio. (0 método do desenho tradicional se perdeu; a evolugio continua da técnica traz hoje uma rpida transformagéo do velho modo de vida, afastando completamente a expressio das formas tradicionais. Perdidas as afi formas e 0 modo de vida tradicional, surge a necessidade de idades entre o desenho tradicional das ‘uma nova aderéncia das formas ao novo modo de vida. Essa correspondéncia teri de se manifestar, em primeiro lugar, no ambiente da vida humana: a casa. Como deverio ser 0s interiores dos apartamentos para que esta aderéncia entre forma e vida se manifeste e seja coerente? O crescimento continuo das exigéncias ligadas & nova vida tem mudado gradualmente o caréter e as finalidades dos cémodos, dando uma aparéncia completamente nova ao mobilirio e & decoragio; fatores importantissimes contribuem com sua influéncia para isso: ventilagio cruzada, insolagio, orientaglo, disposigio das janelas em relagto a paisagem. A construgio de estrutura independente, com a aboligio das paredes portantes, tornou possivel uma grande flexibilidade na atividade da decoragio, e a logica construtiva passa a ser aquela da maior liberdade na disposigao dos ambientes; abertos, separados por divisérias de material isolante, facilmente adaptaveis. O mobilidrio é flexivel, enquanto um aspecto de maior solidez caracteriza as instalagdes permanentes: banheiros, toaletes, cozinhas, lavanderias e servigos em geral. Nem sempre paredes de tijolos e divisérias permanentes formam separagdes entre os ambientes; muitas vezes a separagio é obtida por meio de méveis de maior profundidade, formando paredes. A aboligio das divisorias nao estritamente necessérias é fitil para o miximo rendimento do espago em relagdo ao alto custo da construgio, A cfici@ncia no rendimento do espago é desejavel para cada tipo de apartamento, do apartamento de luxo ao popular; com base nessas consideragdes ¢ bbvio que para obter uma eficiéncia maxima de rendimento dos espagot sera bom evitar pequenos rrecintos e muitas portas, bem come conservar 0 maximo possivel 4s subdivisdes por meio de paredes méveis e cortinas. Além disso, pode-se conseguir economia de espago com um projeto euidadoso dos guarda-roupas ¢ armarios embutidos ¢ com os utensilios icos destinados aos servigos, lows 2 novos as de o aspects de pt, iquza ou simple ‘8 dosejvel, que pode er amb a 8 moves, da cose. tees ‘sperticies. Quo sproptiado dl ei intensifier ereovivar far 0s emi. (1 gut 08 modetsfora de ‘onerianas oy dates adelsbroscamelas wos de madera, ras Projto de Mien dr Moto, Aleman I-01 As paredes externas independentes da estrutura de sustentagio podem se abrir em amplos conjuntos de janelas horizontais ou ser completamente envidragadas, permitindo, mediante a grande iluminagao diurna, maior liberdade das subdivisdes internas e a eliminagio dos cantos esenros. A iernos, com a eliminagao dos disposigio dos ambientes i acessbrios desnecessirios ¢ acomodando harmonicamente ‘os méveis em um arranjo no formal, garantira, com meios jimos, 0 maximo conforto. A finalidade da casa & a de proporcionar uma vida conveniente e confortavel, ¢ seria um erro valorizar demais um resultado exclusivamente decorative. Aanele elemento Droponderste 1.0.) voete de Koch, Estados ‘Unidos. 10, asa de Catal, Nove York, Lor tide de eis, pos de Clareza no desenho das varias partes é 0 mais importante, seguida por un Figorosa atengo no uso € na selegio dos materiais. Sao trés os tipos de mobiliario que podem ser considerados: 1. com méveis ja existentes no camércio; 2, com moveis padronizados ou produzidos em série; 5. com méveis desenhados especialmente, Embora a padronizagaio dos moveis ¢ das faibricas seja desejavel, 0 objetivo ¢ obter uma razoivel variedade, Podemos aprender uma ligéo dos japoneses, que chegaram a variedade com o uso de esteiras de tamanho igual como base para determinar a forma dos cémodos e para dispor os moveis, io harmnia ent Le Franga. ILO} | O belo artesanato que florescou em outras épocas foi substituido pela maqui Ficou provado pela experiéneia que © desenho imitativo artistico aumentava 0 custo da produgo. A maquina podia revestir 0s produtos de novas qualidades estéticas. Arquitetos e desenbiistas de todos os paises desenharam exclusivamente tendo em vista a potencialidade da maquina em relagio a estética e & economia. Ambos objetivos, economia e aparéncia, requerem simplicidade de forma e bom acabamento, Consequentemente esté surgindo nas indiistrias uma expressio artistica da qual o arquiteto pode tirar proveito. Isso quer dizer nova riqueza de materiais; plisticos, metais cromados, ligas inalteraveis, vidro, tecidos. A disposigio dos cae dos ambientes internos pode se beneficiar da nova téen novos materiais partindo de um prineipio de escolha rigorosa, uso apropriado dos materiais e o efeito de suas cores podem ser de grande ajuda na subdivisio de espagos vinculados, Assim, a escolha do piso é de suma importéncia na criagio de determinada atmosfera e de um efeito estética. O piso amorfo, feito para ser coberto parcialmente com tapetes tradicionais, hoje pode ser substituido por um piso de borracha, cortiga, linéleo, laminado, pequenas placas de pedra, po xadrez ete, novos tipos disponiveis no mercado nos iitimos anos; a escolha dependeré da destinagio dos ambientes, da sistematizagio geral dos espagos, dos méveis, da intensidade de cor, simplicidade ou requinte desejados, As paredes, e também os tetos, compreendendo areas continuas de um ou mais cdmodos, podem ser submetidos ao tratamento aciistico mediante o uso de gesso absorvente de sons ‘ou de pedras ou outros materiais igolantes. O acabamento dos tetos e das paredes, além do gesso e das habituais tapegarias © mais os novos materiais recentemente desenvolvidos pela indiistria, deve ser acompanhado por um estudo minucioso da iluminagio artificial, obtida por meios diretos e indiretos. As 1 geral nao sZo mais acess6rios para portas ¢ as esquadrias se decorar com estuque ou outros ornamentos, mas podem ficar interessantes com aplicagio de cor, de acordo com a gama fundamental do ambiente. As janelas so muito importantes, elas contribuem para a criagio de uma atmosfera, permitindo, com sua amplidao, a participagio do mundo exterior e da natureza no ambiente, As janelas horizontais so as mais adequadas para uma visio. woe semereo de os ples wattnaram aso; guns ides de mines "hoentados por axes ‘hf intact, Oa Frork esr, Aer ito, Le Corbuse, Ho Loverbch tint ot Sehnack, Mare ri, Back «Fi i Le Corbusier, Alsnbesert, Lume 1, Maco Breuer ti of Sehnack.rek clan, Aba Aa, Dieckmann tinh 3 Fowtnand Kame, Maret 1, ted Roth, Marca over tina 8.04) Panorimica mais ampla, Portas com batentes ou corredigas separam, onde existem terragos, o interior do exterior. A luz do dia pode ser controlada usando cortinas ou persianas. Estes séo os pontos de partida para um critério moderno de disposi 10 dos ambientes interiores e mobilidrio, A escolha das ilustragdes que acompanham este texto foi ditada pelo desejo de exibir os resultados obtidos nos iltimos anos por arquitetos de varios paises. Nao se obedeceu a uma sequéncia estritamente \ologica. Os exemplos apresentados eompreendem, Aaproximadamente os diltimos quinze anos, fio, Rio Sanco, 9.92, fe. 1987, pp. 53.55 Na Europa a casa do homem ruiu Acasa do Homer ruin; na Italia, ao longo da Aurélia eda Emilia, na Sieflia e na Lombardia, na Provenga, na Bretanha; a ‘asa do Homem ruiu na Europa. Nao pensivamos que ela fosse desaparecer assim; era muito “segura”, era um “baluarte”, havia alguma coisa mais “firme” do que a casa? HA ans estava ali, cada ano sofria uma mudanga, eraa filha que se casava, wma nova geragio que vinha, desaparecia a poltrona de veludo com franjas do tltimo Oitocentos ¢ vinha o mével “inglés” em mogno ¢ cetim celeste, as Hampadas de “opalina” eram substituldas por ‘grandes lampadarios de metal dourado; depois, os netos quiseram fazer mudangas, quiseram renovar, segundo aquela nova moda do antigo misturado com 0 moderno, ¢ 0 diva Luis Filipe ia muito ‘bem com as lampadas modernas de ferro batido laqueadas de branco; também [com] as paredes em cimentite e os dois quadros surrealistas. Certa vez, toda a casa foi transferida para um bairro clegante, para um edificio mais moderno, e foi naquela ocasio «que Francisco mandou fazer as grandes cortinas de seda verde améndoa drapeadas segundo a moda francesa, e os estuques brancos inspirados no barroco; assim, a casa era ligeiramente “decadente”. como disse um arquiteto dla page, mas ia bem, tinha estilo, era muito admirada pelos amigos e uma revista mundana publicou-a. Certo, tinha mudado muito desde os tempos dos avis, ‘ada um Ihe havia querido dar 0 “seu” toque, mas era sempre 1 “nossa casa” endo ousariamos admitir que pudesse desaparecer assim. Agora, quando relembro nossos zelos em nio desmanchar ‘uma prega do drapeado, em nao alterar a simetria dos adornos, a nossa preocupagio de conservar “aquele ar” da nossa casa, aquele ar tao “representativo”, parece-me impossivel nio a rever ‘ais, No Angulodo saldo, & esquerda, havia 0 retrato da vovb; cembaixo dele tinhamos mandado fazer um delicado motivo em A quote desta 0 ito bbs "Monumentas": lots na cara os nto eles ena wy casas cas gvras vor os homens a aprendigo vida, ou 0 eribia ‘ncompreensio. fL0. Dosen do Lina Bo Bark estuque, quase um brasio, tirado de uma revista; um esculpido ue escondia uma delicada luz résea; era o nosso angulo preferido, tinha uma vitrola de pele de serpente e um “bar” arrumado num velho mével “Império”. Palavra, nunca imaginei que acabasse assim e, naquela manha, quando a nossa casa jd no exi ais, achei um pedago de gesco branco raiado, e vi que era uma Jasquinha de lémpada rosea, Mas que estranho, que estranho que nada se visse da nossa casa tdo bela, que nada tivesse ficado capa de distingui-la das outras! Fra tudo einzento, tudo pb, tudo igual 405 outros montes cinzentos que também haviam sido casas, mas ‘certamente muito menos bonitas do que a nossa. Sim, no pensivamos que as casas fossem assim frageis, assim sutis, assim “humanas”, ¢ que pudessem morrer assim, Foi entao, quando esperévamos naqueles momentos de pesadelo, ‘que as casas comegassem a ruir que nos apereebemos que nas”, que eram o “espellio” do homem, que Na Europa so reconsua ‘case com simples, com meds, También ‘owspago & preciosa € ‘onde antes vivir dis {olgadamente, hoje dever wer quar. © desperdco ‘ma, também da espapo. Es uma cose comet, ferada com ois amass: sd ante, quart, esto cana, Este projet faz pate de ume mesta pera orang 1 asa de apts quer, ‘exgazoda por um grupo 6 arquitets medenos ‘talanes om Mio. A gues 1 tamontaensiada © homer {LO} eram “o homem”. E, sentimos também que era culpa nossa se a, ns a tans engi para que fos oespelho : jo da vida e Hobitarn.1, S80 Pauto, fone ‘ute, 1980, po. 2.16. ‘do nosso orgulho mais falso, da nossa incompreensii ddos homens, ¢ por eulpa nossa ralam também as pequenas casas ‘as pequenas casas sem luzes roscas e sem drapeados sem culpa, : jombas demoliam sem piedade de seda, Foi entdo, enquanto as b a obra e a obrado hiomem, que compreendemos que a casa deve ser para a “vida” do homem, deve servis, deve consolar; eno ‘mostrar, numa exibigio teatral, as vaidades iméiteis do espirito umano; entdo, compreendemos porque as casas rulam, ¢ruiam a mise-en-scéne, 0s cetins, 0s veludos, as franjas, fs estuques, de manha, tudo era montinhos cinzentos (0s brasdes; porque, desoladoramente idénticos, Na Italia, as casas ruiram, a0 longo ia Vranga, das estradas da Italia, nas eidades, as casas ruran as casas rufram, na Inglaterra e na Rissia; na Ruropa, as casas ruiram, E, pela primeira vez, 0s homens devem reconstruir as casas, tantas casas no centro das grandes cidades, ao longo das estradas de campo, nos vilarejos; ¢, pela primeira ver, “o homem pensa no Homem”, reconstréi para o Homem. A guerra destruiu os mitos dos “monumentas”, também na casa, 0s ‘méveis-monumentos no devem existir mais, também eles, em parte, entram na causa das guerras; os moveis devem “servir”, as ‘cadeiras para sentar, as mesas para comer, as poltronas para ler ‘e repousar, as camas para dormir, ¢a casa assim nao sera um lar eterno e terrivel, mas uma aliada do homem, gil e servigal, e que pode, como o homem, morrer. Na Buropa se reeonstréi, e as casas sio simples, claras, ‘modestas, pela primeira ver no mundo, talvez.o homem haja aprendido, ¢ na manha seguinte aquelas noites chamejantes, sentido, sobre os escombros da sua casa, que a casa é quem a habita, é “ele mesmo”, e tiveram vergonha da sua velha casa como se tivessem mostrado em pablico as proprias fraquezas e 0s proprios vicios. Casas de Vilanova Artigas Artigas é um temperamento retraido, Trabalha na sombra, 0 seu nome nao aparece nas revistas e ele nfo gosta de publicar projetos, ideias, desenhos; para cle Arquitetura é trabalho realizado, acabado, resolvido em cada pormenor. A sua é uma arquitetura ‘fumana, ou melhor doméstica, no sentido mais claro da palavra. Uma casa construida por Artigas ndo segue as leis ditadas pela vida de rotina do homem, mas lhe impie uma lei vital, uma moral que é sempre severa, quase puritana, Nao é “vistosa”, nem se impde por uma aparéncia de modernidade, que jé hoje se pode ‘pitto Jodo Wenove 1 Btancour am srnura indapencente, ‘realeada de mania sn conreto emda, A tra formed por ‘ol Est asa, ume des 0 berhora 3 localando sum boco venta ¢ aeado pelo sala de estr ests ety, ume cad ova definir num estilismo. As casas de Artigas niio se exaurem na, \inica impressio de prazer comunicada por uma boa arquitetura de exteriores; climinacla a sensagio de aprazivel novidade que sempre suscita uma obra moderna. Depois da primeira volta em tomo! das paredes de fora, 0 observador nao sofre uma brusea interrupeao por ter entrado na cas ele ter a percepgio exata de que a continuidade de espaco se produs solidéria com 6 rigor constante que as formas externas denunciavam, Esta harménica continuidade de espago ¢ obtida por meios limpidos, clarissimos, sem a recorréncia dos efeitos forgados, da forma livre, no se pode observ’ muita expresso arquiteténica pordnea, especialmente na norte-am para 0 decor vo. Citamos uma moral de vida sugerida pelas «casas de Artigas, uma moral que definimos como severa, ¢ esta 6a base de sua arquitetura, Cada casa de Artigas quebra todos 8 espellios do salao burgués. Nas casas de Artigas, que se veern or dentro, tudo é aberto, por toda a parte o vido ¢ 0s tetos b baixos, muitas veres a cozinh 0 € separada, ¢ 0 burgués que se deixasse levar pela novidade e pedisse uma ca a Artigas, chocado com “tio pouca intimidade”, cego por Habitat 9.2, S80 Pa mat. 1951, p. 3 se apressaria em fechar com pesadas cortinas as vidragas, a fazer crescer sebes, a reforgar as portas, para continuar, bem defendido, a sna vida despreocupada entre os méveis “Chippendale” ‘os “abat-jours” pintados a mfo... As casas de Artigas so espagos abrigados contra as intempéries, o vento ea chuva, sio contra o homem, tornando-se o mais distante possivel da ‘casa-fortaleza, a casa fechada, a casa com interior e exterior, denincia de uma época de ddios mortais, A casa de Artigas, que um observador superficial pode definir como absurda, é a ‘mensagem paciente e corajasa de quem vé os primeiros clardes de nova época: a época da solidariedade humana, Bela crianga Quantos sa0 0s que sabem distinguir o moderno “auténtico” das remastigacbes? 0 “concurso das fachadlas” que premia 0 normando.e 0 arrequinko & menos perigoso que a moderno dos construtorese arquitetos transformistas. Publicamos uma vista do Ministério de Educagio do Rio de Janeiro, como incentivo para continuar combatendo contra a rotina, o lugar comum, Entendamos' bem, o lugar-comum nao é somente aquele “estilistico”; 6, também (e mais perigoso ainda) 0 ass chamado “moderno”. O incitan 1 para combater 0 nase “vex” modernistico — “o antigo néo serve mais, entie mogos, para a frente com 0 moderno se ndo queremos perder a partida” lta deve ser dirigida contra esta generalizaga perigosa, cont cesta desmoralizagiio do espirito de arg) es aid oe Ministre de Eeucacto, hor d espirito de intransigéncia e do amor para o homem, que nada tem {que ver com as formas exteriores ¢ as acrobacias formalisticas. A nova arquitetura brasileira tem muitos defeitos: ¢ jovem, no teve muito tempo para se deter e pensar, nascet subitamente como uma bela erianga; concordamas que os brise-soleil e os anulejos sio “fatores intencionais”, que certas formas livres de Oscar" sio complacéncias plisticas, que ‘a realizagio nao é sempre satisfatoria, que certas solugies de detalhes nao seguem a linha do conjunto (concordando niisso com os meus amigos europeus), mas niio concordamos, entretanto, sobre o fato de que a arguitetura brasileira ja marca estrada para uma academia, como ja as vezes aparece em algumas revistas estrangeiras, como, por exemplo, no livro importante de Bruno Zevi;' e nfo a marcara até quando seu espirito for 0 espirito do homem, sua pesquisa, a busca dos valores de sua vida em evolugio, até quando collier sua inspiragdo da poesia intima da terra brasileira; estes valores na arquitetura contemporinea brasileira existem. A arquitetura contempordnea brasileira ndo provém da arquitetura dos Jesuitas, mas do “pau a pique” do homem solitério, que trabalhosamente cortara os galhos na floresta, provém da casa do “seringueiro”, com seu soalho de troneos ¢ 0 telhado de capim, é aludida, também ressonante, mas possui, exn sua resolu jo furiosa de fazer, uma soberbia ¢ uma poesia, que so ' Habitat $80 Paulo, a soberbia ¢ a poesia do homem do sertio, que ndo conhece as ere grandes cidades da civilizaglo ¢ os museus, que nio possui a pp. heranga de milénios, mas suas realizagbes — cuja concretizagio foi somente possivel por esta sua soberbia esquiva — fazem deter o homem que ver de paises de cultura antiga. Para se concretizar,escolheu a arquitetura brasileira 0s meios de Le Corbusier, que esteve no Brasil (Wright também visitou ‘© Brasil), que mais respondiam is aspiragBes de uma gente de ‘origem latina; meios poéticos, nao contidos por pressuposigdes ppuritanas e por preconceitos. Esta falta de polidez, esta rudeza, este tomar e transformar sem preocupagies, éa forga da arquitetura contempordnea brasileira, é um continuo possuir em si, entre a conseiéneia da Léenica, a espontaneidade e 0 ardor da arte primitiva; por isso ‘oncordamos com nossos amigos da Europa sobre 0 fato de a arquitetura brasil ho da aead estar mo ca n Esta 6 uma tentativa para responder a uma sentenca de Abelardo* “nfo sabemos, ainda, precisar o porqué desse progresso da nossa arquitetora”. 4 arquitetura brasileira nasceu como uma bela erianga, que nao sabems por que nasceu bonita, mas que devemos em seguida educi-la, euri-la, encaminhé-la, seguir sua evolugio; houve o milagre do naseimento, a diretriz, a continuagio da vida, 6 conseguimento de um intento coerente dependendo da consciéncia humana, de suas possibilidades para a uta, conviegio e intransigéncia. Isto é 0 que se deve afirmar, Nooriginal, “entendemoa” [2] 2 Oarguitetacarioes Oscar Niemeyer [1907-] (¥] 13 Zesi, Bruno Soria dellarchitetura moderna, Turan: Hina, 1950. [.) 4 Oarquitero carioea Abelardo de Souza [1908-81] escreveu na mesma revista wexto “Noss argutetura” [Ne] Duas construgées de Oscar Niemeyer A técnica do conereto armado foi aplicada, desde 0 seu aparecimento, as estruturas tradicionais: elementos verticais € ligamentos horizontais, isto 6, & formagao de “gaiolas” portantes, que possibilitaram as fachadas independentes e as expressdes tipicas da arquitetura racionalista, aquele jogo de volumes prisinaticos chamados com desprezo por Wright de “arquitetura de caixas”. A expressio € polemicamente ‘exagerada, mas quer sublinhar a falta de compreensio, por parte dos primeiros arquitetos racionalistas, das possibilidades plisticas do conereto armado, aplicado no inicio as formas tradicionais de estruturas, usufruindo da tragko-compressao do bindmio ferro \ereto, sca Niemeyer, Abia ‘da Duchen, 1950, Vista da moquete compa desta prev ‘ua seo daca, or ma ma assoc porosbem ee oe ros ‘amps ds amis, do Ioboatno, 9 reeturante, 2 Piscna ea cis de agua fone compri. LO As posibilidades da nova arquitetura deste segundo periodo, que podemos denominar pés-racionalista, esto justamente na possbilidade plistca do concreto armado. Na série de conferénciasfetas por Frank Lloyd Wright em 1939, em Londres, fora prognosticada para o futuro como “a forma dlesabrochada”, isto é a forma plistca, produto tipico da réquina, é humanizada e tornada expressio da civilizagio trabalho e as fraturas do alvorecer da civilizagio mectnica A Sforma desabrochada” e as grandes posibilidades contemporanea, em harmonia enfim com 0 homer plasticas do concreto armado, referia-se também Pier Luigi Nervi, o grande engenheiro caleulista' e depositirio de patentes italiano (patentes especialmente de “pré-fabricagio"), na série de conferéncias no Museu de Arte; Nervi prevé a época das formas plasticas de concreto armado e das superfcies resistentes “enrogadas”. As primeiras manifestagiesdesss formas j podem atin ser auinaladas na prdugt industial nas earrogaras ds earon, poss em certos aparellios de uso doméstico, como ferros para passar, batedeiras ¢ ventiladores. Eric Mendelssohn previu o surgir dessas formas no ainda roméntico observatorio Einstein, A exigéncia plastica dessas formas novas é sentida instintivamente por Oscar Niemeyer, que se afasta da estrutura da “gaiol "em sua busca de uma plistica que nfo & barroca, porque o barroco em arquitetura é ainda uma expresso completamente estética do artesanato, enquanto na procura de formas livres, a arquitetura moderna se preocupa com 0 homem, e na expressio plistica dessas formas livres ha procura da perfeigio das formas que chamamos “desabrochadas”, formas perfeitas da perfeigio da maquina Permanece o problema da arbitrariedade: uma forma livre 6 arbitréria quando julgada no ambito das formas geométricas definidas, mas nao é mais arbitraria se projetada na possibilidade infinita das formas livres; resta julgar se aquela forma representa a liberdade infinita do ato da criagio do artista; resta julgar se aquela forma atinge ou nao a arte. A tendéncia a esta liberdade, preanunciada pela igreja da Pampulha e pelo projeto do teatro para ser construido junto ao Ministério de Educagao no Rio de Janeiro, 6 agora corroborada por esta diltima realizagio de Niemeyer: uma construgio industrial; o ardor inventivo com que foi realizado esse complexo justifica alguns desleixos, a indiferenga por todo freio tradicional assevera uma grande co a liberdade eriativa do artista, ista da arquitetura contemporanea: + Galeulador 14 Reflre-ne aw stage — Mune se Arte ie Sto Paul Ana Cate ginal. [oe] Vitrinas As vitrinas so o espellio imediato, a dent personalidade duma cidade, e néo somente da personalidade, como do cariter mais profundo, A vitrina é 0 “meio” para ia répida da esto. A quartic oo tracro ual oadqurone no stbe como @ onde ont NAD ada or para o adquirert do a8 para esoaner Como reagiuse expondo 1 ace, Enecesso cassia 6 o bom gosto rosea ds oles. ILO vender 0 produto, é algo muito apegado ao dinheiro, é wma luva de veludo que sob a aparéneia decorativa e indiferente esconde as garras complicadas de ealculos de “custos”, “luctos”, cohunas de cifras frias. Uma verdadeira teoria (chamada “ciénei pelos interessados), uma psicologia especial, uum céleulo de possiveis probabilidades ocultado pela aparente indiferenga, pela aparente “homenagem ao transeunte” de uma vitrina, uma pequena ratoeira com mereadoria-queijo para o transeunte-rato, Nascem dessa forma os “saldos-queijo do edificio”, as “faléncias-queijo”, e isto tudo acompanhado or cartazes, escritas, flechas. Fas vitrinas gritam “queremos vender, vender, vender, vender por forga x e ¥, comprai, comprai, queremos dinheiro, DINHEIRO”. Dinheiro, As eoroas de flores, 10s vasos de giz, 0s sorrisos dos manequins, os panejamentos de veludo gritam esta palavra, deixam transparecer a “psicologia” do vitrinista que na “decoragao” se preocupou somente com o vaso-queijo, 0 veludo-queijo, para 0 comprador-rato, No ni a cidade é uma sala piblica, uma grande sala de exposig6es, um ‘museu, um livro aberto a todo no qual podem-se ler as mais nnces, ¢ quem tiver uma loja, uma vitrina, um bur qualquer fechado por um vidro ¢ queira expor naquela vitrina, A pseudomodern. ILO} quem quiser ter um papel “piblieo” na cidade, toma a responsabilidade moral, uma responsabilidade na qual nao pensa porque o faz rir, a ele homem de negécios, “pratico”, a ideia de que a “sua” vitrina possa contribuir para a formagio do gosto dos moradores, possa contribuir para dar fisionomia a cidade, denunciar a esséncia, Fotografamos ao acaso algumas vitrinas, de modas, de objetos para esporte ¢ até objetos religiosos, nos quais os elementos {que nos séculos passados foram obra de arte aparecem agora debilitados e trigicos, depauperados das formas puras e coerentes da época; fotografamos batedeiras ¢ maquininhas elétricas para café, apresentadas no meio de estuques barrocos ¢ flores de papel ‘querendo quase corrigir com isto e fazer esquecer suas formas tio estritamente atilitérias. As multidées de manequins, a elegincia reduzida a capitoné e brasdes de papel, denunciam desta forma o gosto mesquinho, , burgués ¢ nouveau riche, alimentando de pequeno-burgué vicios antigos e velhos habitos, com uma forga quase invencivel pela violenta capacidade de contato imediato e difusio publica da vitrina, no comparavel ao trabalho persuasive dos artigos, das salas de exposigdes, dos livros, que devem ser procurados. (5 manequins 0.0 nce raonio da eee do estos [LO omideas ILO} Hobitat S80 Paulo, 2.10, jan-mat. 1952, pp. 31-40, As vitrinas da cidade podem destruir anos de trabalho feito no sentido de corrigir € dirigir 6 gosto, Dissemos de propésito pequeno-burgués, burgu © nouveau riche (poderemos acrescentar quase sempre também a pequena elite), porque as vitrinas populares sio exclyjdas,ponque, como na are, 0 gosto 20 contaminado pelos fags intelectualismos, do povo, néo cerra, As vitrinas dos bairroy realmente populares, os mercados, as alheios a qualquer rotina esnobjstica da “arte” (na acepgio mais corrente, atribuida a esta palavra desde o fim do século x0 ‘ow salas de exposigh que, sobretudo, nfo se importa com o “queijo-ratoeira”, mas procura pir em evidéncia 0 produto seguindo s6 0s ditaames de sua mo responsabilidade coletiva, Pergecivn externa, diretor da firma, por nés interpelado, confirmou os excelentes resultados deste género de publicidade, selecionada © rigorosa; 0 piblico nao se assustou, para, olha, entra, compra, reconhecendo na honestidade daquela apresentagdo uma “limpeza” comercial, um nio saldo, nio incéndio, nao liquidagio de faléncia, uma nio ratoeira Residéncia no Morumbi Nesta casa nao foram procurados efeitos decora vos on de composigio, pois 0 objetivo é a sua extrema aproximagio com ‘a natureza por todos os meios, os mais ingelos, que me interferéncia possam ter junto a natureza, O problema era criar um ambiente “fi mente” abrigado, isto &, onde viver defendido da chuva e do vento, participando, ao mesmo Una Bo Baa. (Ce de Vio, 195051 co degra da anita itor tempo, daquilo que hé de poétice e ético, mesmo numa tempestade, Foi procurado, portanto, situar a easa na natureza, participando dos “perigos” sem se preocupar com as “protegies” usuais; a casa, de fato, no tem parapeitos, A estrutura de ‘tubos Mannesmann sustenta uma plataforma levissima de concreto armado do tipo “formas perdidas”, cujos elementos de madeira esto aderidos ao concreto; uma parede totalmente cenvidragada delimita a casa de trés lads; a cobertura, uma laje fi vidro, apresenta, na parte interna, a inelinagdo necessaria para ssima de concreto, recoberta de Eternit e isolada com Ii de © escoamento das éguas pluviais sobre os proprios elementos Mannesmann. A gua do telhado é levada as duas saidas laterais escorrendo diretamente do alto, A continuagio da parede envidragada, nas fachadas laterais, é de chapa de ferro duplo, com isolamento de la de vidro. A chapa e as goteiras so pintadas de vermetho. O acesso a casa é feito mediante uma escada euja estrutura é de ferro e granito natural. Un espécie de patio suspenso, permite a ventilaglo eruzada no tempo de calor. A parte posterior da casa, que é apoiada sobre o terreno, é de construgdo comum em peda ¢ cimento; um jardim crit edtad Ineeia ule no wide arquitetura Siuldade de Bolas ‘odo Universidade lua da Baha em 1058 Diva Obee construisa na Olives ore) none: Gustavo Git, 14, 2002, pp. 210-14, comprido e fechado de um lado separa a parte de servigo da parte da frente; as duas comunicam-se através da cozinha, Sobre ‘cozinha, impermeabilizada por chapas de aluminio, hi um jardim com plantas tropicais, que crescem espont yeamente, hilo precisando de excessivos cuidados. A exposigao a sul-sudeste 1 a eliminagio de venezianas e quebra-sol: estes iltimos no so aconselhiaveis no periodo de chuvas, pois somente o sol evita 0 mofo. A defesa dos raios solares, de manha, é feita por meio de cortinas de vinilite branca, plavinil. Esta residéncia representa uma tentativa de comunhao entre a natureza e a ordem natural das coisas, opondo aos elementos naturais © menor niimero de meios de defesa; procura rrespeitar essa ordem natural, com clareza, en fechada que foge da tempestade e da chuva, amedrontada dos demais homens, ¢ que, quando se aproxima da natureza, 0 faz, 1a maioria dos casos, dentro de um sentide decorativo ou de coniposigdoe, portanto, um sentido “externo” sofia da arquitetura ‘Teoria e filosofia da arquitetura é o nome desta cadeira, € ‘8 senhores (0 vejo nos olhos da maioria) tém uma certa desconfianga a respeito dessas palavras, Naturalmente esta cadeira poderia chamar: Pritica profissional, Questies de método ou, ainda, O Sentido histérico da profissdo de arquiteto, quer dizer, poderia ser denominada em termos mais modernos, mais atualizados, queriamos dizer, ‘mais bonites. Mas como as palavras teoria e filosofia ainda apontam (¢ uma erenga do século passade) certos prineipios certas bases, na verdade préticas da profissio, vamos aceitar as duas palavras e vamos procurar esclarecer 0 sentido intimo dessas duas palavras, para poder construir sobre elas a base firme sobre a qual trabalhar. Trés meses é a duragio de nosso curso, é tempo breve para a importagio séria de um problema eujo fim é a profissio do arquiteto, quer dizer, a sua formagio ética, moral, mas estamos convencidos que trés meses de trabalho claro, planificado, podem dar um resultado mais importante do que meses e meses sem trabalho ¢ sem programa, abandonados ao acaso e A “nfo planificagao”. 2. com. esse espirito que pego a colaboragio dos senhores, porque se tum professor pe a propria experineia A disposigao dos alunos, 0s alunos —com o interesse constante nessa experiéneia — provém o professor duma necessidade continua de autocritica € € nesse sentido, somente nesse sentido que tem que se desenvolver 0 ensino universitario, O que 6 teoria? Deixemos de lado (¢ preciso limitar os problemas) a definigao idealista de teoria, que estabelece um circulo vicioso procurando definir “teoreticamente” a palavra “teoria” que seria uma forma teérica distinta da prética. Para nds, 2 teoria se identifica com a pratica, sendo a pratica demonstrada racional e necesséria através da teoria e, por sua ver, a teoria realistica e racional [demonstrada] através da sua pratica, ‘Vamos esclarecer com um exemplo: caracteres distributivos dos edificios € teoria, um estudo, vamos dizer, da visibilidade de ‘uma sala de espetaculos, um teatro, por exemplo, implica uma teoria baseada no comprimento da sala, altura do paleo, espagos centre as filas das cadeiras, relagio entre o olho do espectador ¢ a or da frente, em relagic cabega do espec contro de @ situado no paleo, ¢ ainda a altura e profundidade do paleo e sua Jargura; na base dessa teoria serdo individuados os raios visuais € consequentemente a curva a reta inclinada da plateia; mas se a teoria, quer dizer, se 0 processo teérico estiver errado, & inclinagao da plateia saira errada, a visibilidade do teatro seré péssima e cada espectador, ao invés de olhar para o paleo, olhard para a cabega dos espectadores em sua frente (espero que entre 0s semhores nao esteja nenhrum idealista que queira demonstrar que, embora a teoria esteja certa, a inclinagio da plateia pode sair errada; mas este é um problema de senso comum, ¢ 0 senso ‘comum responde que é culpa do arquiteto). Despimos assim a teoria de todo 0 aparato que o século x1x tinha colocado em cima dela, ¢ assim, simples e despida, a teoria vem em nossa ajuda para ‘a impostagio dos problemas arquiteténicos, come sinénimo e identificagao de prética planificada. E.a filosofia? Filésofo é um especialista, um técnico, como ‘um engenheiro ou um médico, mas mais préximo a cada homem, porque sua especialidade é pensar, ¢ cada homem, pensa e somente alguns entre os homens so engenheiros ou ‘médicos. Gada homem é nesse sentido filésofo, ao menos que do seja patologicamente idiota. Filosofia é ento concepeao de mundo passada a ser norma pritica da vida, ¢ o valor de ‘uma filosofia pode ser deduzido na base da “eficiéncia” pratica por essa conquistada, pela importncia historiea, sainda das ‘elucubragies individuais para entrar na vida. A filosofia duma época enquanto norma de vida da massa, concepgo de mundo daquela época, se identifica com sua histéria; a filosofia duma época é entdo a historia daquela época. E a filosofia da arquitetura? (Fstou apenas querendo interpretar 0 nome desta cadeira). Filosofia da arquitetura é evidentemente a historia da arquitetura, quer dizer as diferentes concepgSes da arquitetura no tempo. Despimos também a filosofia da arquitetura do seu preambulo académico e na nossa © ficou simples, acolhedora e amiga a “histiria”, 0 Armados de teoria (pritica) ¢ filosofia (histéria), vamos cenfrentar nossos trés meses de trabalho comum. Por historia, esteja bem claro, nfo entendemos a “cristalizagio” da historia, a historia dos manuais ¢ dos professores, mas a historia em ato — a historia do trabalho e da fadiga do home. Olharemos para os diferentes periodos da historia da arquitetura formulando as “perguntas” das quais as realizagBes dos diversos periodos arquitetdnicos sdo as respostas. [esse ponto temos que definir a personalidade do arquiteto: 0 arquiteto é um operdrio qualificado que conhece 0 seu oficio nio 6 pratica como tedrica e historicamente, e tem precisa consci@neia que a sua humanidade nao é fim em si mesma, mas se compe, além da propria individualidade, dos outros homens e da natures Nese ponto, quero esclarecer que nao somos contra a cultura, ao contrézio, estamos ao maximo do lado da cultura, ‘mas queremos esclarecer o significado dessa palavra; para nds a cultura no sentido cristalizado e amorfo da palavra nao tem sentido; nés somos por uma intensificagio ¢ extensio da cultura, mais precisa, e & condigo absolutamente necesséria limitar os problemas. Um conhecimento enciclopédico é hoje impossivel — o que precisa fazer ¢ iluminar, ter a percepgio cexata da existéncia dos problemas, e na limitagio e no Ambito uma profissdo, deixar abertas as possibilidades de aprofundar ‘0s mesmos quando nevessario, [Na mesa-redonda de abril,’ que seguiu minhas conferénci ‘entramos na dicussso no Ambito do espago kantiano. Eu precise’ logo que o espago do qual estava falando era o espago de cada dia, 0 espago espago; com isso no queria dizer que © ‘espago filos6fico nao tem que ser considerado, mas queria ape delimitar 0 problema para nao cair na abstragio metafisica. Bruno Zevi me escrevew a respeito de minhas conferéncias sobre o espago na arquitetura, frisando que aconselhar os al unos consideragio e a reflexio pessoal, segundo os problemas, do proprio pais, é uma tomada de posigiio contra a cultura, Nés sabemos e respondemos que ndo, que a capacidade de circunscrever, de conter os problemas 6 uma necessidade para niio cair no verbalismo inteligente duma cultura que caminha para, ou jé alcangou, o bizantinismo, Um arquiteto ndo precisa ter nascido em determinado pais ou pertencer a determinada raga para satisfazer as necessidades especificas duma regio, ‘Todos sabem que o Imperial Hotel construido em 1916 em Téquio por Frank Lloyd Wright resistin ao tremor de terra melhor que as construgdes japonesas. Isto ‘quer dizer que n3o queremos aconselhar aos novos arquitetos © regionalismo, no velho sentido nacional, politico e retorico. Depois do racionalismo, a arquitetura moderna retoma contato com 0 que de vital, primério, antcritalizado existe no homem, © estes fatores sio ligados aos diferentes paises, e 0 verdadeiro arquiteto moderno pode resolver, quando chamado, as realidades de qualquer pais, [..] chegar Aquela compreensio e formulagao

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