INICIAÇÃO
ESPORTIVA:
ESPORTES
INDIVIDUAIS E
COLETIVOS
Ericson Pereira
Corridas com barreiras e
corridas de revezamento
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Diferenciar as provas de atletismo com barreiras das provas com
obstáculos.
Descrever as particularidades das provas coletivas de revezamento
no atletismo.
Elaborar intervenções para o desenvolvimento das técnicas específicas
das corridas de revezamento e barreiras.
Introdução
As provas de revezamentos se caracterizam por serem provas coletivas,
em que cada integrante da equipe corre uma parte do percurso. Existem
vários tipos de provas de revezamentos; por exemplo: provas realizadas
por influência cultural, como as provas indígenas; provas de pedestria-
nismo, como maratonas de revezamento; ou, ainda, desafios maiores,
como ultramaratonas de revezamento, que envolvem maiores distâncias.
Porém, em pista, as provas mais conhecidas são as de 4 × 100 metros e
de 4 × 400 metros, tanto masculinas quanto femininas, que envolvem
distâncias mais curtas e são caracterizadas como provas de velocidade.
Já as provas de barreiras são provas que envolvem tanto distâncias
curtas quanto distâncias longas, como é o caso das provas de obstácu-
los. Essas provas combinam a corrida com a passagem por obstáculos
específicos, que acabam exigindo do atleta não apenas velocidade ou
resistência, mas também outras habilidades físicas, como força e uma
boa percepção espaço-tempo.
Conhecer essas modalidades é importante para o futuro profissional
de educação física. Isso porque a combinação dos estímulos associados
a essas provas acaba contribuindo de forma importante não apenas
para a formação motora das crianças, mas também para a formação
2 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
como pessoa. Afinal, essas provas dependem do trabalho em equipe,
desenvolvendo, assim, a cooperação, a responsabilidade, a comunicação,
a liderança, entre outras habilidades sociais.
Assim, neste capítulo, você vai estudar sobre as provas de atletismo
com barreiras e com obstáculos, bem como as particularidades das provas
de revezamentos. Você também vai verificar formas de desenvolver as
técnicas específicas das corridas de revezamentos e de barreiras.
As provas de atletismo com barreiras
e com obstáculos
A prova de 110 metros com barreiras surgiu na Inglaterra, em 1830, derivada
das corridas de 100 jardas, em que eram posicionadas barreiras de madeira
fincadas no chão. Atualmente, nas provas de corridas com barreiras, os
atletas utilizam a saída baixa e percorrem o percurso específico da prova
passando por 10 barreiras posicionadas em suas respectivas raias. As altu-
ras das barreiras são diferentes entre homens e mulheres, além de serem
diferentes também de acordo com a prova. O Quadro 1 apresenta a altura das
barreiras de acordo com as provas e o sexo, assim como as características do
posicionamento durante o percurso.
Quadro 1. Características para o posicionamento das barreiras de acordo com a prova
Barreiras
Distância da Distância Distância da
Prova Sexo Altura saída até a entre última barreira
primeira barreira barreiras até a chegada
110 m Masculino 1,07 m 13,72 m 9,14 m 14,02 m
100 m Feminino 0,84 m 13,00 m 8,50 m 10,50 m
400 m Masculino 0,91 m 45,00 m 35,00 m 40,00 m
Feminino 0,76 m 45,00 m 35,00 m 40,00 m
Fonte: Adaptado de CBAt; IAAF (2017).
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 3
O atleta deve permanecer em sua respectiva raia do início ao fim; caso saia
de sua raia, derrube alguma barreira voluntariamente ou não passe por alguma
barreira, será desclassificado, conforme aponta a Confederação Brasileira de
Atletismo (CBAT; IAAF, 2017). As barreiras derrubadas involuntariamente
não implicam em nenhuma penalização para o atleta.
Esse é um aspecto interessante dessas provas, pois, até 1935, os atletas
eram desclassificados por derrubarem três barreiras ou mais. Atualmente, o
critério para desqualificação do atleta é subjetivo e definido pelo árbitro, que
considera como ato voluntário se o atleta quis derrubar a barreira, porque a
atingiu no meio, atropelando-a, ou como ato involuntário, quando ele esbarra
sem querer e a barreira cai, conforme leciona a Associação Internacional de
Federações de Atletismo (IAAF, [2019]). O Quadro 2 apresenta os recordes
mundiais das provas de barreiras masculinas e femininas.
Quadro 2. Recordes mundiais nas provas de barreiras
Barreiras
Prova Sexo Atleta Tempo Ano
110 m Masculino Aries Merritt 12"80 2012
100 m Feminino Kendra Harrison 12"20 2016
400 m Masculino Kevin Young 46"78 1992
Feminino Yuliya Pechenkina 52"34 2003
Fonte: Adaptado de IAFF ([2019]).
100 metros com barreiras
Essa é uma prova exclusivamente feminina, que teve a sua estreia olímpica
em 1932 em Los Angeles, com a distância de 80 metros, conforme leciona
Matthiesen (2017). Segundo Barros e Dezem (1990), a prova de 80 metros já
não atendia mais as exigências devido à evolução técnica; ou seja, as meninas
mais altas e velozes já não conseguiam executar uma corrida fluente, tendo
que encurtar as passadas. Assim, houve a substituição da distância para os
4 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
atuais 100 metros, assim como o aumento do número de barreiras para 10.
Em 1972, em Munique, a prova já ocorreu com a distância atual.
Entre os destaques dessa prova está Yordanka Donkova, atleta búlgara
que conquistou a medalha de ouro nas Olímpiadas de Seul, em 1988, e esta-
beleceu quatro recordes mundiais, o último com a marca de 12"21, em 1988.
Esse recorde foi superado pela americana Kendra Harrison apenas em 2016.
Entre os países mais fortes nessa categoria estão Estados Unidos, Alemanha,
Bulgária, Rússia, Suécia e Canadá, conforme a IAAF ([2019]).
110 metros com barreiras
Essa é uma prova exclusivamente masculina e teve sua origem na Ingla-
terra em corridas de 100 jardas, provavelmente derivando de competições
hípicas, em que eram posicionadas barreiras de madeira fi xas no chão, com
1,07 metros de altura (CBAT; IAAF, 2017). As universidades de Oxford e
Cambridge aumentaram a distância para 120 jardas (109,7 metros); pos-
teriormente, em 1888, essa distância foi arredondada para os 110 metros
pelos franceses, devido ao sistema métrico. Essa prova teve sua estreia
olímpica na primeira edição dos jogos modernos, em 1896, conforme aponta
a IAAF ([2019]).
Os Estados Unidos se destacam nessa prova; além do atual recordista
mundial, o país já ganhou 19 vezes o título olímpico. Entre os destaques está
Allen Johnson, que correu em sua carreira 11 vezes abaixo dos 13 segundos,
além de ter conquistado o ouro nas Olimpíadas de 1996. Cuba, Grã-Bretanha
e China também são países com excelentes atletas nessa prova, conforme a
IAAF ([2019]).
400 metros com barreiras
Nessa prova, os atletas correm uma volta completa em uma pista de 400
metros, onde são posicionadas 10 barreiras em suas respectivas raias. Essa
prova teve sua origem na universidade de Oxford, na Inglaterra, por volta de
1860, onde os atletas corriam uma prova de 440 jardas (402,33 metros), em
que eram fixadas no chão 12 barreiras de madeira com 1 metro de altura,
segundo a IAAF ([2019]).
A estreia olímpica dessa prova foi em 1900, em Paris. Já as mulheres estre-
aram apenas em 1984 em Los Angeles, conforme leciona Matthiesen (2017),
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 5
com a vitória de Nawal El Moutawakel, do Marrocos, que se tornou a primeira
campeã olímpica africana e de uma nação islâmica, segundo a IAAF ([2019]).
Os Estados Unidos são uma grande potência na modalidade, com 18 títulos
olímpicos, assim como Rússia e Jamaica. Um dos grandes destaques foi o
atleta Edwin Moses, que ficou invicto por 122 provas consecutivas entre 1977
e 1987, além de ter conquistado dois títulos olímpicos, tornando-se, assim, o
maior atleta de todos os tempos nessa prova. Entre as mulheres, a britânica
Sally Gunnell se destacou nessa prova entre os anos de 1992 e 1994, conforme
aponta a IAAF ([2019]).
3.000 metros com obstáculos
Nessa prova, os atletas usam a largada do tipo alta e não precisam se manter
nas raias. Eles devem completar o percurso de 3.000 metros, em que, em
cada volta, passam por quatro obstáculos e um fosso com água, totalizando
28 saltos sobre os obstáculos e sete sobre o fosso. A distância entre cada
obstáculo é de aproximadamente 80 metros. Os obstáculos para os homens
possuem 0,91 metros de altura e, para as mulheres, 0,76 metros (CBAT;
IAAF, 2017). Um dos grandes charmes dessa prova e que chama a atenção
é o salto do obstáculo sobre o fosso de água: após um dos obstáculos, há
um fosso de água que possui 3,66 metros de comprimento e 0,70 metros na
região mais funda (Figura 1).
Figura 1. Obstáculo do fosso na prova de 3.000 metros com obstáculos. Esse fosso é mais
fundo na região próxima ao obstáculo, depois vai ficando raso com a maior distância do
obstáculo.
Fonte: charnw/Shutterstock.com; 3000m… (2018, documento on-line).
6 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
A corrida de obstáculos (steeplechase, em inglês) teve sua origem na
Grã-Bretanha, onde corredores corriam de uma cidade para outra, passando
obstáculos como riachos e paredes baixas. Um evento em pista foi realizado
em 1879, na universidade de Oxford. Essa prova tem estado presente nos jogos
olímpicos desde 1900, em Paris, mas com distâncias diferentes. A distância
atual de 3.000 metros foi padronizada em 1920, na Antuérpia. As mulheres
estrearam nessa prova apenas em 2008 (CBAT; IAAF, 2017).
Entre os homens, o Quênia é o país com mais títulos olímpicos; já entre
as mulheres, Rússia e Quênia são os países que dominam. Entre os homens,
podemos destacar Moses Kiptanui, que foi o principal competidor entre 1991
e 1995. Entre as mulheres, destaca-se a russa Gulnara Galkina, que foi re-
cordista mundial em 2003 e campeã olímpica em 2008, sendo a primeira
mulher a correr abaixo dos 9 minutos a distância, conforme aponta a IAAF
([2019]). O Quadro 3 apresenta os recordes mundiais das provas de obstáculos
masculinas e femininas.
Quadro 3. Comparação entre os recordes mundiais nas provas de obstáculos
Obstáculos
3.000 m Masculino Shaheen Saif Saaeed 7'53"63 2004
Feminino Beatrice Chepkoech 8'44"32 2018
Fonte: Adaptado de CBAt; IAAF (2017).
Após estudar o funcionamento das provas com barreiras e obstáculos,
nos próximos parágrafos você vai identificar as principais características das
provas de revezamentos.
Particularidades das provas coletivas
de revezamentos no atletismo
As corridas de revezamentos já eram conhecidas dos gregos na Antiguidade;
as panateneias, realizadas em homenagem à deusa Atena, incluíam uma
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 7
prova de revezamento chamada lampadodromia (“corrida das tochas”).
Era uma disputa entre cinco equipes compostas por 40 atletas cada; nela,
a chama era conduzida sem poder ser apagada, e vencia a equipe que
acendesse a fogueira no altar de Prometeu, localizado na chegada (CBAT;
IAAF, 2017). O conceito de revezamento também remete à Antiguidade,
advindo da prática em que um mensageiro transmitia a mensagem para
outro mensageiro, e este para outro, até ela chegar ao seu destino, segundo
a IAAF ([2019]).
As provas de revezamento atualmente são provas em equipe realizadas
em pista de atletismo e compostas por quatro atletas, sendo normalmente
realizadas nas distâncias de 4 × 100 metros e 4 × 400 metros. No Quadro 4
são apresentados os recordes mundiais masculino e feminino.
Quadro 4. Recordes mundiais nas provas de revezamentos
Prova Sexo Equipe Tempo Ano
4 × 100 m Masculino Jamaica 36"84 2012
Feminino Estados Unidos 40"82 2012
4 × 400 m Masculino Estados Unidos 2'54"29 1993
Feminino União Soviética 3'15"17 1988
Fonte: Adaptado de CBAt; IAAF (2017).
Revezamento 4 × 100 metros
Nessa prova, os quatro corredores correm na mesma raia, dando uma volta
completa na pista de atletismo. Cada atleta, durante o seu percurso, deve
conduzir um bastão, que deve ser passado para o próximo corredor em
uma área de 20 metros de comprimento, denominada zona de passagem
(Figura 2), estando ela dividida em 10 metros antes e 10 metros depois de
completar o percurso. Portanto, cada atleta pode receber o bastão e correr
entre 90 e 110 metros.
8 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
Figura 2. A zona de passagem possui 20 metros de comprimento, iniciando no ponto A
e encerrando no ponto C. O ponto B indica o final do percurso de 100 metros; assim, o
ponto A está 10 metros atrás, na marca dos 90 metros, e o ponto C está 10 metros à frente,
na marca dos 110 metros. Essa é a área onde o atleta pode receber o bastão. Na prova de
4 x 100 metros, existem três zonas de passagem.
Fonte: (a) Adaptada de Bullstar/Shutterstock.com; (b) Adaptada de Remo_Designer/Shutterstock.com.
O primeiro revezamento olímpico ocorreu em 1908, em uma corrida de
1.600 metros; porém, o primeiro revezamento em jogos olímpicos de 4 ×
100 metros para homens foi realizado em 1912, em Estocolmo, enquanto
as mulheres estrearam em 1928, em Amsterdã, sendo a equipe canadense a
vencedora (CBAT; IAAF, 2017).
Entre os países de destaque estão os Estados Unidos, que dominaram por
muitos anos essa prova, sendo que, entre 1920 e 1976, os homens venceram todos
os eventos, exceto um título olímpico. O lendário velocista Carl Lewis correu como
último homem em cinco equipes diferentes que quebraram o recorde mundial entre
1983 e 1992. Já entre as mulheres, Evelyn Ashford obteve três títulos olímpicos
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 9
consecutivos nessa prova entre 1984 e 1992. Porém, os jamaicanos liderados por
Usain Bolt reescreveram os recordes, sendo a primeira equipe a correr abaixo dos
37 segundos. Em 2012, Bolt obteve a incrível marca de 8,70 segundos nos 100
metros finais. Nessa prova, o atleta já estava em uma corrida lançada para pegar
o bastão; assim, não perdeu tempo com a aceleração, mostrando que é possível
a busca por novas marcas, conforme aponta a IAAF ([2019]).
O Brasil obteve bons resultados, como a medalha de bronze nos Jogos
Olímpicos de Atlanta, em 1996, e a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de
Sydney, em 2000. Nessa oportunidade, foi conquistada a melhor marca do
Brasil; a equipe era composta por Vicente Lenílson, Edson Ribeiro, André
Domingos e Claudinei Quirino (CBAT; IAAF, 2017).
Revezamento 4 × 400 metros
Nessa prova, cada atleta completa uma volta de 400 metros na pista, sendo
que o primeiro atleta realiza sua volta completa na raia designada. O segundo
atleta corre apenas os primeiros 100 metros na raia designada e depois já pode
se direcionar para a raia interna. O terceiro e o quarto atletas correm na raia
interna. Os corredores conduzem o bastão em seu percurso e, após fechar cada
volta, passam para o próximo corredor dentro da zona de passagem, que fica
10 metros antes e 10 metros depois de fechar a volta. Assim, a passagem pode
ocorrer entre 390 e 410 metros.
O primeiro revezamento olímpico ocorreu em 1908, com distâncias diferen-
tes, sendo dois percursos de 200 m, seguido por um de 400 m e outro de 800
m. Assim como o revezamento 4 × 100 metros, o primeiro revezamento em
jogos olímpicos de 4 × 400 m para homens foi em 1912, nos Jogos Olímpicos
de Estocolmo, enquanto as mulheres estrearam apenas em 1972, nos Jogos
de Munique (CBAT; IAAF, 2017).
Os homens americanos dominam essa modalidade com 17 títulos olímpicos,
com astros como Michael Johnson, que, no mundial de 1993, fechou a prova
correndo os 400 metros em incríveis 42,91 segundos. Jeremy Wariner é outro
atleta de destaque, com dois títulos mundiais, e foi um dos principais membros
da equipe americana nos anos 2000; possui a segunda marca mais rápida
em revezamentos, com 42,93 segundos, obtida no campeonato mundial em
2007. Jamaica, Bahamas e Grã-Bretanha também aparecem como destaques
entre os homens. Entre as mulheres, as americanas também são destaque com
quatro títulos olímpicos; outros países de destaque são Rússia e Jamaica. A
jamaicana Sandie Richards participou de cinco finais olímpicas consecutivas,
segundo a IAAF ([2019]).
10 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
No link a seguir você encontra um guia de mídia produzido pela Confederação Brasileira
de Atletismo (CBAt), que apresenta os atletas do revezamento brasileiro no campeonato
mundial de 2019, além de mostrar as principais marcas desses atletas.
https://qrgo.page.link/pQZLh
Passagem do bastão
A técnica de corrida empregada nas provas de revezamento, segundo Matthiesen
(2017), é muito semelhante às utilizadas em corridas de velocidade, até porque
os atletas que compõem os revezamentos competem individualmente em suas
respectivas provas. Uma das características que diferenciam os revezamentos
é a passagem do bastão, que, no revezamento 4 × 100 metros, é uma etapa
fundamental, por ser uma prova mais curta. Nos 4 × 400 metros, por ser uma
prova mais longa, a passagem do bastão precisa apenas ser bem executada.
Assim, podemos dizer que, na prova de 4 × 100 metros, a passagem é não
visual, pois os atletas não olham para o companheiro para receber o bastão.
Essa passagem precisa ser bem treinada, e os atletas precisam estar em sintonia.
A prova é executada em altíssima velocidade, e, no momento da passagem, os
atletas ficam quase lado a lado na mesma raia. Caso o atleta olhe para trás,
a chance de sair da raia é muito grande, o que faria com que a equipe fosse
desqualificada. Portanto, durante a passagem do bastão, o atleta olha para a
frente e mantém sua corrida em aceleração; quando se aproximar do recebedor,
deve emitir um sinal sonoro como “já” ou “vai”, para que o recebedor estenda
o braço para trás e receba o bastão.
Além disso, no momento da passagem, os atletas precisam estar em uma
velocidade similar. Por isso, quem vai receber precisa começar a correr antes
de entrar na zona de passagem, para quando entrar nessa área estar em uma
velocidade compatível. Assim, os atletas precisam estar bem entrosados,
para evitar que um dos atletas acelere antes e acabe não sendo alcançado
pelo companheiro na zona de passagem, tendo que desacelerar, ou que seja
atropelado pelo companheiro por não ter acelerado a tempo de receber o bastão
na mesma velocidade, exigindo a desaceleração e acarretando perda de tempo.
O bastão deve ficar posicionado na mão esquerda ou direita, dependendo
do percurso, isto é, se o atleta corre na reta ou na curva. Quem corre na curva
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 11
corre com o bastão na mão direita, para poder ficar na parte interna da raia;
já quem corre na reta segura o bastão na mão esquerda.
Os atletas também são posicionados de acordo com o percurso, possuindo
características diferentes. Veja-as a seguir.
Primeiro corredor: deve ter uma excelente largada, com boa aceleração,
além de ser um excelente corredor de curva.
Segundo corredor: deve ter uma boa habilidade para a passagem do
bastão e conseguir realizar uma boa corrida lançada.
Terceiro corredor: deve ter uma boa habilidade para a passagem do
bastão, realizar uma boa corrida lançada e ser um excelente corredor
de curva.
Quarto corredor: deve ter uma boa habilidade para a passagem do bastão
e, normalmente, é o melhor corredor da equipe.
Já a passagem visual é aquela em que o atleta olha para o companheiro para
receber o bastão. Nessa passagem, o atleta fica olhando para o companheiro e,
quando este se aproxima, o primeiro começa a correr para ganhar velocidade e
receber o bastão sem ser atropelado pelo companheiro. Assim, essa passagem
é usada na prova de 4 × 400 metros desde a primeira passagem, mas sendo
mais útil na segunda e na terceira trocas. Isso porque a segunda e a terceira
trocas não ocorrem na raia designada, mas livremente na pista; assim, quem
vai receber precisa ficar olhando, atento à trajetória do seu companheiro e das
outras equipes, para evitar algum choque entre os corredores.
Quem fica mais próximo à raia interna da pista acaba tendo vantagem, e
os atletas acabam se espremendo em direção à raia interna. O que determina
a ordem de quem fica na raia interna é a passagem dos 200 metros; assim, a
equipe que passa na frente tem a preferência de ficar na raia interna. Normal-
mente, a passagem ocorre da mão direita para a mão esquerda, e, ao longo
do percurso, os atletas passam o bastão da mão esquerda para a direita, para
poderem entregar na mão esquerda do próximo corredor.
A passagem pode ocorrer em um movimento ascendente, ou seja, ser
realizada de baixo para cima — quem recebe posiciona a palma da mão para
baixo —, ou pode ser em um movimento descendente, ou seja, realizada
de cima para baixo — quem recebe posiciona a palma da mão para cima
(Figura 3). Caso o corredor derrube o bastão, aquele que derrubou deve
juntar e continuar a corrida do ponto onde o bastão caiu.
12 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
Figura 3. a) Passagem do bastão de forma ascendente, em que o movimento de quem
passa o bastão é de baixo para cima, e quem recebe posiciona a mão com a palma da
mão para baixo. b) Passagem do bastão de forma descendente, em que o movimento de
quem passa o bastão é de cima para baixo, e quem recebe posiciona a mão com a palma
da mão para cima.
Fonte: Alex Kravtsov/Shutterstock.com; wavebreakmedia/Shutterstock.com.
As provas de revezamentos podem ser praticadas em distâncias não convencionais,
sendo que as seguintes distâncias possuem recordes mundiais: 4 × 200 metros, 4 × 800
metros e 4 × 1.500 metros. Existe ainda o recorde para o revezamento de maratona,
com equipes formadas por seis atletas. Em algumas competições, ocorre também o
revezamento medley, composto por equipes mistas.
Desenvolvimento das técnicas específicas
das corridas de revezamento e barreiras
A corrida de revezamento permite uma atividade em grupo em uma moda-
lidade que é majoritariamente individual. Atividades em grupo contribuem
para a formação ampla da criança, uma vez que ela precisa interagir com os
outros, o que permite a socialização. Como a equipe depende do desempenho
dela, a criança assume uma responsabilidade com sua equipe; ou seja, ela
deve fazer o seu melhor pela equipe. Assim, quando a criança desiste, ela
não afeta somente ela mesma, mas toda a equipe. Além disso, a motivação
gerada pelo grupo pode criar um ambiente de aceitação e superação; os
companheiros podem criar um ambiente acolhedor e motivador, dando,
assim, segurança para a equipe.
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 13
Dentro da iniciação, as atividades de revezamento podem ser iniciadas
com corridas de estafetas, em que as crianças percorrem distâncias curtas se
revezando com outros colegas. O professor pode oferecer objetos como bolas,
arcos e cordas para a troca entre os companheiros antes da corrida, o que
estimula a capacidade de manipulação dos objetos. Além disso, pode-se inserir
variações no percurso, como obstáculos para serem saltados ou contornados,
desenvolvendo, assim, de forma ampla, as capacidades motoras.
Como exemplo de progressão didática para a passagem do bastão, segundo
Barros e Dezem (1990), primeiro inicia-se com os alunos posicionados
em fila e o bastão sendo passado de trás para a frente com a mesma mão,
preferencialmente usando a passagem ascendente. Depois, busca-se realizar
esse movimento andando e, depois, correndo. Após os alunos entenderem
essa passagem mais simples, podem ser executados pequenos percursos
realizando a passagem. Como variação, pode-se manter as filas e realizar a
passagem de trás para a frente: quando o bastão chegar no primeiro aluno
da fila, este deve correr um determinado percurso, ir para o fim da fila e
iniciar a passagem novamente, para que o próximo aluno corra; isso vai
acontecendo até todos correrem, e ganha a equipe que fizer a passagem com
todos os alunos mais rápido.
Entre as evoluções, pode ser trabalhada a passagem realizando a troca
de mãos, ou seja, o aluno passa o bastão com a mão direita e recebe com a
esquerda; então, ele precisa transferir o bastão para a mão direita antes de
passar. A passagem não visual pode ser trabalhada com as marcações das zonas
de passagem; nesse caso, o aluno exercitará a percepção espacial ao ter que
entrar na zona de passagem para poder receber o bastão. Feedbacks visuais
como cones ou arcos podem ser utilizados para identificar essa área. Como
pode-se perceber, o trabalho de revezamento apresenta diversas possibilidades
de desenvolvimento.
Técnica de passagem da barreira
Ainda que as corridas de barreiras sejam consideradas provas de velocidade,
algumas particularidades devem ser levadas em conta. A distância entre
barreiras e a altura são fatores que podem influenciar a técnica. Basica-
mente, o objetivo é passar pela barreira o mais próximo possível e com a
máxima velocidade. Dessa forma, podemos separar o movimento entre a
perna de ataque, que deve estar estendida no momento da passagem, e a
perna de passagem, que deve estar flexionada e com a abdução do quadril
no momento da passagem.
14 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
Podemos separar a prova em três etapas:
1. saída até a primeira barreira;
2. entre barreiras;
3. da última barreira até a chegada.
Na prova de 100 ou 110 metros, após realizar a saída, o atleta deve buscar
posicionar a perna de ataque, com a qual executa o movimento com maior
facilidade, para iniciar as passagens. Além disso, devido à proximidade da
barreira, diferentemente da prova de 100 metros rasos, em que o atleta vai
assumindo a posição de corrida próximo aos 20 metros, na prova de barreiras,
ele deve assumir rapidamente a posição ereta, para se preparar para a passagem
da barreira. Normalmente, executa-se esse percurso com sete a oito passos.
Já na prova de 400 metros, há uma distância maior até a primeira barreira, e
o atleta executa em torno de 21 a 24 passos.
Após a passagem, o atleta mantém o número de passadas entre as barreiras,
para evitar a troca da perna de ataque. Portanto, a barreira deve ser atacada
estendendo-se a perna; para que isso ocorra, a impulsão deve ser feita a uma
distância suficiente para que o atleta consiga estender a perna de ataque mantendo
a velocidade e o ritmo. É muito comum que iniciantes façam a passagem muito
próximos à barreira, segundo Barros e Dezem (1990), e, com isso, acabam fazendo
um movimento de salto sobre a barreira, e não de passagem; assim, seu centro de
gravidade oscila muito, além de aumentar seu tempo de voo. Por isso, o ideal é
executar a impulsão para a passagem aproximadamente 6 a 8 pés antes da barreira,
possibilitando projetar a perna de ataque estendida para realizar a passagem.
Normalmente, nas provas de 100 e 110 metros, os atletas realizam três
passos completos — o quarto passo seria a passagem da barreira — ou quatro
tempos — quatro toques no chão entre cada barreira, o que permite manter
o ataque sempre com a mesma perna. Para isso, alguns pontos podem ser
observados, como os a seguir.
Velocidade anterior à passagem da barreira: se o atleta não mantém a
velocidade, precisa fazer mais força para passar a barreira, o que pode
fazer também com que não execute o número de passos corretos e tenha
que inverter a perna de ataque.
Eficácia da técnica da passagem: pode fazer com que tenha um de-
sequilíbrio e perca velocidade, prejudicando as próximas passagens.
Recuperação após a passagem: deve ser o mais breve possível, para
voltar a acelerar por meio das passadas.
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 15
Já na prova de 400 metros, a distância entre as barreiras é maior; normal-
mente, os atletas executam 13 passadas ou 14 tempos mantendo a perna de
ataque. Porém, devido à fadiga no final da prova, os atletas podem diminuir o
número de passadas, mudando, assim, a perna de ataque; por isso, é importante
treinar a passagem com as duas pernas. Além disso, segundo Matthiesen (2017),
é muito comum esses atletas realizarem o ataque com a perna esquerda, pois
favorece a corrida em curva.
Segundo Lope e Benejam (1998), são erros comuns executados durante
a passagem das barreiras:
desequilíbrio muito acentuado nas passadas iniciais da corrida — pode
causar perda de ritmo e velocidade;
primeiro passo muito curto após a passagem sobre a barreira — pode
fazer com que tenha que executar um passo a mais, invertendo, assim,
a perna de ataque;
fazer o ataque à barreira muito longe — pode ser que caia sobre a
barreira ou tenha que prolongar a fase aérea;
fazer o ataque à barreira muito perto — não vai conseguir estender a
perna de ataque;
utilização incorreta dos braços — pode descoordenar a corrida;
flexão prematura do tronco ao nível dos quadris — pode não atingir a
altura suficiente para passar a barreira;
desequilíbrio lateral do corpo após a passagem, no momento de tocar
o solo — pode causar desequilíbrio e sair da raia, além de perder ve-
locidade e ritmo.
Após a última barreira, em ambas as provas, o atleta deve se posicionar
como em uma prova de velocidade, tentando acelerar ao máximo no final da
prova e projetando o tronco à frente na linha de chegada.
Técnica de passagem do obstáculo
A técnica de corrida usada na prova de 3.000 metros é semelhante à usada
por corredores de meio fundo, segundo Barros e Dezem (1990). Para a
passagem dos obstáculos, é importante que o atleta seja capaz de executar o
movimento tanto com a perna esquerda quanto com a direita. A passagem é
semelhante à dos 400 metros com barreiras — já que os obstáculos possuem
a mesma altura —, mas com um pouco mais de altura para ter segurança
de que não vai tocar no obstáculo e, consequentemente, desequilibrar-se ou
16 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
acabar caindo. Normalmente, o atleta acelera ao se aproximar do obstáculo,
para poder passá-lo sem perder velocidade e prejudicar o ritmo da corrida.
Como o obstáculo é mais pesado e permite o apoio sobre o mesmo, os
iniciantes acabam apoiando o pé sobre ele para executar a passagem, mas
isso faz com que percam ritmo na corrida.
Para a passagem sobre o fosso, normalmente o atleta acelera aproximada-
mente 15 metros antes e apoia a perna de ataque sobre o obstáculo, lançando
a perna de passagem para a frente e buscando cair o mais longe possível,
aterrissando na parte mais rasa do fosso.
Matthiesen (2017) sugere alguns erros comuns na passagem dos obstáculos:
perda da velocidade de corrida depois da passagem do obstáculo;
queda na parte mais funda do fosso;
dificuldades para atacar o obstáculo.
De modo geral, devem ser usados exercícios que trabalhem a força e a
técnica, bem como a percepção da distância de aproximação do obstáculo.
Iniciação às provas de barreiras e obstáculos
Para a iniciação à passagem das barreiras e obstáculos, podem ser usadas
cordas, bastões, arcos ou cones; esses objetos devem ser leves para não ma-
chucarem ou derrubarem as crianças. É importante desenvolver uma boa
técnica e, principalmente, o ritmo.
Para uma boa passagem, a velocidade é importante. Quando se atinge uma
velocidade e se realiza a impulsão, a inércia faz com que você se mantenha
em movimento no ar. Portanto, quanto maior é a velocidade, mais fácil é
ultrapassar alturas.
Gradativamente, pode-se aumentar a altura dos obstáculos, cuidando
para que sejam compatíveis com a capacidade da turma, evitando-se aci-
dentes. Pode-se usar obstáculos posicionados em distâncias diferentes, o
que vai estimular a capacidade de adaptação temporal dos alunos, pois
terão que ajustar a velocidade e a passada para realizar o salto sobre os
obstáculos, ora aumentando o número de passos, ora encurtando o número
de passos.
Corridas com barreiras e corridas de revezamento 17
A técnica pode ser trabalhada de forma parcial, trabalhando primeiro a perna
de passagem e depois a perna de ataque. Para isso, o aluno pode passar com
a pernas sobre cones posicionados em filas; para tanto, posicionam-se quatro
cones a uma distância de 8 metros, aproximadamente. O aluno pode caminhar e
executar o movimento de abdução do quadril e flexão do joelho ao passar sobre
o cone, posicionando a perna de ataque lateralmente ao cone; em seguida, pode
fazer isso com um pequeno trote e, depois, com uma corrida mais veloz, tentando
coordenar o movimento da perna de passagem. Depois, o aluno pode repetir os
movimentos para a perna de ataque: ele inicia caminhando e, quando se aproxima
do cone, estende a perna de ataque e passa sobre ele; em seguida, repetem-se os
movimentos trotando e, depois, correndo. Para finalizar, o aluno faz o movimento
completo da passagem.
A passagem sobre o fosso na corrida com obstáculos pode ser desenvolvida
pedagogicamente usando o banco sueco ou o plinto. Posiciona-se um colchão
após o plinto, utilizando uma altura mais baixa; o aluno pode vir correndo,
apoiar a perna de ataque sobre o plinto e lançar a perna de passagem sobre o
colchão, continuando com o movimento da corrida. Gradativamente, aumenta-
-se a altura do plinto, e o aluno executa o mesmo movimento.
Para desenvolver a percepção da fase de voo do salto, podem ser usados
arcos no chão. Pode-se formar três filas com cinco arcos, aproximadamente;
em cada fila, posicionam-se os arcos com distâncias diferentes. Na primeira
fila, pode-se deixar os arcos a cerca de 1 metro de distância um do outro; na
segunda, a cerca de 1,5 metros, e na terceira, a cerca de 2 metros de distância
(essas distâncias podem variar de acordo com os alunos). Os alunos devem
passar tocando com os pés dentro dos arcos. Pode-se iniciar pela primeira
fila, inicialmente sem corrida, depois com uma pequena corrida e, depois,
com uma corrida mais veloz; em seguida, passa-se para a próxima fila e se
repete a tentativa, e assim por diante. Os alunos devem perceber com isso
que, quando correm com mais velocidade, fica mais fácil saltar a distância
tocando dentro dos arcos. Assim, os iniciantes percebem a importância de
manter uma velocidade constante para passar as barreiras, sendo esse um dos
objetivos da corrida com barreiras.
Neste capítulo, você estudou sobre as principais características das cor-
ridas com barreiras e revezamentos, verificando as suas especificidades, as
possibilidades de iniciação e a sua contribuição na formação das crianças.
18 Corridas com barreiras e corridas de revezamento
3000M Steepleachase. Belarus, [s. l.], 25 jun. 2018. Disponível em: https://www.belarus.
by/en/press-center/photo/i_16586.html?page=6. Acesso em: 5 jun. 2019.
BARROS, N.; DEZEM, R. O atletismo. 2. ed. São Paulo: Apoio, 1990.
CBAT; IAAF. Atletismo: regras oficiais de competição 2016-2017. São Paulo: Phorte Edi-
tora, 2017.
IAAF. Disciplines. International Association of Athletics Federations, [s. l.], [2019]. Disponível
em: https://www.iaaf.org/disciplines. Acesso em: 5 jun. 2019.
LOPE, M. V.; BENEJAM, J. C. Tratado de atletismo. Madrid: Esteban Sanz Martínez, 1998.
MATTHIESEN, S. Q. Fundamentos de educação física no ensino superior atletismo: teoria
e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017.
Leitura recomendada
MATTHIESEN, S. Q. Atletismo se aprende na escola. 2. ed. Jundiaí: Fontoura, 2009.