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Hpe 23

Este documento apresenta a quarta edição do livro "História do Pensamento Econômico: de Lao Zi a Robert Lucas". O autor reescreveu o texto após receber feedback de alunos e professores, melhorando a precisão sem alterar o conteúdo. A obra cobre mais de dois mil anos de história das ideias econômicas, desde a Antiguidade até economistas modernos, fornecendo uma perspectiva equilibrada dos diferentes pensadores e escolas de pensamento.

Enviado por

Patrícia
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Este documento apresenta a quarta edição do livro "História do Pensamento Econômico: de Lao Zi a Robert Lucas". O autor reescreveu o texto após receber feedback de alunos e professores, melhorando a precisão sem alterar o conteúdo. A obra cobre mais de dois mil anos de história das ideias econômicas, desde a Antiguidade até economistas modernos, fornecendo uma perspectiva equilibrada dos diferentes pensadores e escolas de pensamento.

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Ricardo Luis Chaves Feijó

História
do Pensamento
Econômico
De Lao Zi a Robert Lucas

4ª Edição
Amazon.
Ricardo Luis Chaves Feijó

História
do Pensamento
Econômico
De Lao Zi a Robert Lucas

SÃO PAULO (BR) / ORLANDO (USA-FL)


Amazon – 2023
© 2021 by Amazon eBook Kindle.

ISBN 9798396169104

Capa: Editora Atlas S.A.


Composição: Ricardo Luis Chaves Feijó

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Feijó, Ricardo Luis Chaves


História do pensamento econômico : de Lao Zi a Robert Lucas / Ricardo
Luis Chaves Feijó. -- São Paulo/Orlando: Amazon, 2023.
ISBN 9798396169104
1. História econômica I. Título.

01-3179 CDD-330.09

Índices para catálogo sistemático:


1. Economia : História 330.09
2. Pensamento econômico : História 330.09
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – É proibida a reprodução total ou
parcial,de qualquer forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos de
autor (Lei no 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal.

Depósito legal na Biblioteca Nacional conforme Decreto n o 1.825,


de 20 de dezembro de 1907.

Cód.: 0407 55 122

Impresso no Brasil/Printed in Brazil


Aos meus alunos.
Grandes argumentos não requerem palavras.
Chuang Zi (século IV a.C.)
Apresentação

Esta quarta edição do História do pensamento econômico: de


Lao Zi a Robert Lucas não se trata apenas de uma reimpressão. É
fruto da aplicação do livro por nós mesmos em nossas aulas de
História do Pensamento Econômico (HPE) na Universidade de São
Paulo e da experiência de alguns professores de outras Universi-
dades que utilizaram o livro como material de referência em suas
aulas e se dirigiram gentilmente a nós com sugestões de melhoria
para uma próxima edição.
O livro foi cuidadosamente reescrito ao longo de um ano, em
um processo no qual o texto foi melhorado sem descuidar de uma
única vírgula. Em especial, estivemos atento às suas passagens mais
formais e matemáticas, a fim de não deixar passar nada sem a
devida correção. Pensamos que, agora, o público que prestigiou as
edições anteriores terá em mãos uma versão quase impecável, em
que pese erros remanescestes, pois nada nasce perfeito e a melho-
ria contínua faz parte da vida, até mesmo de um livro! Infelizmente
nem tudo pôde constar numa obra de menos de 600 páginas, em se
tratando de mais de dois mil anos de história das ideias econô-
micas. A escolha de o que priorizar na exposição se deu pela nossa
avaliação do que, no passado, foi realmente mais importante na
história dessa ciência. Por questão de economia, ainda ficamos
devendo um espaço para autores como Veblen, pouco comentado,
e os que não são nem citados, como Rosa Luxemburgo, Kalecki e
outros. Tudo é questão de priorizar um corte na HPE que não tem
como contemplar tantos nomes. Também falta um capítulo sobre a
história do pensamento econômico no Brasil, mas a omissão deve-
se à constatação da existência, no mercado editorial, de excelentes
trabalhos no tema.
Os vários cursos de HPE ministrados no campus da USP de
Ribeirão Preto, anos seguidos desde 2000, foram de suma impor-
tância na construção desta quarta edição. Agradeço as sugestões
também dos alunos que são os que mais dependem da precisão
deste livro. Ciente do impacto que a presente obra já teve e
continuará tendo nos cursos de HPE no Brasil, acreditamos que
nosso esforço contribuirá significativamente para um ensino nessa
disciplina que não se limite a priorizar certos autores de uma única
tendência, mas que forneça uma abordagem mais equilibrada,
inclusive com maior ênfase na história das teorias econômicas e em
filosofia econômica, sem descuidar, no entanto, de história social e
política.
Boa leitura!

O Autor
Sumário

1 PENSAMENTO ECONÔMICO NA ANTIGUIDADE, 1


O mundo econômico sem racionalidade própria, 1
O intervencionismo de hindus e hebreus e o laissez-faire dos
sábios chineses, 4
Platão e a sociedade ideal, 7
As noções econômicas de Aristóteles, 16
O pensamento econômico entre os romanos, 22

2 A EVOLUÇÃO DAS IDEIAS ECONÔMICAS NA IDADE MÉDIA, 31


O declínio do Império Romano e a formação de uma nova
sociedade, 31
O papel da ética cristã na organização da vida medieval, 34
O avanço tecnológico, o aparecimento das cidades e o
desenvolvimento do comércio e da atividade financeira, 37
O renascimento da filosofia e a análise econômica
escolástica, 40

3 MERCANTILISMO E CAMERALISMO: A EXPRESSÃO DA


ECONOMIA NOS SÉCULOS XVI E XVII, 51
Mudanças políticas e sociais e intervencionismo
nacionalista, 51
Etapas do pensamento mercantilista, 56
Salário, preço e juro na óptica mercantilista, 63
Cameralismo: a doutrina do mercantilismo alemão, 67

4 A ECONOMIA COMO ORDEM NATURAL, 79


O desenvolvimento das ciências naturais, 79
Novas ideias sobre política e sociedade, 95
Boisguillebert e Cantillon: precursores de Adam Smith, 101
Os fisiocratas, 107

5 ADAM SMITH, 123


Teoria moral e filosofia da ciência, 123
A vida de Adam Smith, 131
A Riqueza das Nações, 134
6 SÉCULO XIX: A ECONOMIA POLÍTICA CLÁSSICA, 169
O nascimento da escola clássica, 169
Thomas Malthus, 171
David Ricardo, 176
John Stuart Mill, 188

7 KARL MARX, 207


Vida e obra, 207
O Capital, 223
A visão da história, 239

8 SÉCULO XIX: A ESCOLA HISTÓRICA E A EVOLUÇÃO DO


MARGINALISMO E DO SUBJETIVISMO ECONÔMICO, 249
A escola histórica, 249
A crise da economia clássica, 267
Crise econômica e mudanças sociais na Inglaterra, 272
Precursores do marginalismo,275
A revolução marginalista, 294
O significado do conceito de utilidade, 305

9 O MARGINALISMO NA INGLATERRA: AS CONTRIBUIÇÕES DE


JEVONS E MARSHALL, 321
Introdução, 321
O desenvolvimento das ideias de Jevons, 322
Jevons e a crítica ao hedonismo, 336
Vida e obra de Marshall, 344
Os Princípios de Economia, 351

10 LÉON WALRAS E A TRADIÇÃO DO EQUILÍBRIO GERAL, 381


Origem das ideias de Walras, 381
O equilíbrio na troca simples, 387
Modelo de equilíbrio geral, 397
Existência de equilíbrio, 407
A convergência ao equilíbrio, 408
Teoria do equilíbrio geral aplicada ao planejamento
socialista, 411
A tradição de equilíbrio geral após Walras, 419
11 CARL MENGER, SCHUMPETER E A ESCOLA AUSTRÍACA, 433
Menger: vida, filosofia, conceitos básicos, visão da
economia, 433
Os escritos metodológicos de Menger, 446
O problema do valor econômico, 458
A escala de necessidades, 462
A teoria do preço em Menger, 468
Joseph Schumpeter, 473
A escola austríaca, 478

12 KEYNES E A EVOLUÇÃO DA MACROECONOMIA, 485


Vida e influências, 485
A Teoria Geral de Keynes, 512
Macroeconomia após Keynes, 520

ÍNDICE DE AUTORES E PERSONALIDADES, 547


1
Pensamento Econômico
na Antiguidade

O MUNDO ECONÔMICO SEM RACIONALIDADE PRÓPRIA


Fragmentos de ideias econômicas são encontrados nos mais
antigos textos ainda preservados. Escritos como o Tao-te King, de
Lao Zi, e os Analectos de Confúcio (ambos no século V a.C.) contêm
trechos em que aparecem proposições de natureza econômica. Do
Antigo Testamento da Bíblia cristã também se podem extrair
passagens de significado econômico. No desenvolvimento das
civilizações que seguiu essa era mais remota, nunca deixou de
existir, em cada época, um ou outro escritor que ao menos
tangenciasse questões dessa natureza. No apogeu das civilizações
grega e romana, e em certos períodos da Idade Média, noções e
conceitos econômicos foram propostos e discutidos. Então é difícil
precisar uma data que teria marcado o nascimento do pensamento
econômico. No entanto, a organização desse saber como corpo
teórico sistemático de ideias somente se tornou perceptível em
torno do ano de 1700 e no correspondente século que se iniciava.
William Petty, Richard Cantillon e os fisiocratas deram um trata-
mento analítico mais consistente e avançado a questões de política
econômica que, por vezes, apareciam nas reflexões de autores
escolásticos e alhures. Marco dos mais significativos nessa
evolução foi o aparecimento do monumental livro A riqueza das
nações, do escocês Adam Smith, em 1776.
Esses precursores do período clássico da economia científica
compartilham a visão do mundo econômico como um sistema
integrado de eventos que se reforçam e se sucedem mantendo certo
ordenamento. De fato, há algo de novo na noção de sistema
econômico, que não se verifica anteriormente. Que vem ao en-
contro da crença popular de que a economia como ciência teria
surgido nesse período e Smith seria, por assim dizer, o pai dela.
1
Começar o livro de história do pensamento econômico deste ponto
é tentador, entretanto não se pode passar ao largo da reflexão
econômica que lhe é anterior sem uma perda considerável do
itinerário passado das ideias nesse campo.
A época de Smith é marcada por grandes transformações na
vida econômica e social do continente europeu. Na economia,
destaca-se a revolução industrial; na esfera social, sublinham-se o
legado da Revolução Gloriosa de 1688, com a longa estabilidade da
monarquia constitucional, e a eclosão da Revolução Francesa, que
promoveu valores republicanos em substituição à antiga monar-
quia absoluta. O período assiste à consolidação das modernas insti-
tuições democráticas bem como à edificação do capitalismo
industrial nas nações mais desenvolvidas.
A ciência econômica surge com o advento do capitalismo. A
relação entre eles vai além de mera coincidência histórica. A
ciência, como sabemos, está dividida em ramos do conhecimento e
cada qual elege um objeto de estudo. No exame do objeto, suas
propriedades são observadas experimentalmente e suas regulari-
dades reconhecidas, o que possibilita explicar os acontecimentos
com base em leis científicas. A ciência busca a trama racional dos
fatos. A natureza física e biológica (e mesmo a sociedade e a
economia) só são passíveis de análise científica na hipótese da
existência de um padrão lógico de ordenamento. Um mundo
inteiramente caótico não poderia ser compreendido, pois a teoria
somente dá conta de uma realidade que se comporta de modo
regular.
Qual é o objeto de estudo da economia? Tal ciência examina os
fenômenos sociais que dizem respeito a produção, distribuição e
consumo de bens e serviços que satisfazem às necessidades
humanas. É difícil imaginar vida social sem que tais fenômenos
estejam presentes. Mesmo em sociedades mais antigas, nada
impede, a princípio, que os homens nelas inseridos possam pensar
os fatos econômicos cotidianos e elaborar assim teorias econô-
micas que os justifiquem, por mais primitivas que sejam. Vivendo
em comunidade, nossos ancestrais tinham de encontrar seu
sustento e, para tanto, trabalho e produção faziam parte do dia a
dia. O produto do trabalho coletivo era distribuído, inclusive para
os que não trabalhavam, e os bens eram, por fim, consumidos. Ora,
se os fenômenos que definem o objeto da economia já se faziam
presentes, por que a ciência econômica não se desenvolvera já por
essa época? A resposta é que para o tratamento científico não basta
existir um objeto, é preciso que ele tenha uma racionalidade

2
intrínseca, ou seja, que haja um ordenamento dos fatos segundo
uma lógica interna. Se pensarmos sobre o que regula a vida
econômica na era moderna, chegaremos a mercados e mecanismos
sociais que asseguram o funcionamento deles, como, por exemplo,
a existência de leis e de moeda intermediando as trocas. Mercados
já havia na Antiguidade, contudo, a generalização de uma sociedade
com grande número de indivíduos independentes, relacionando-se
uns com os outros basicamente pelas trocas de mercado, só aparece
com o advento do capitalismo. Nas sociedades pré-capitalistas, em
geral, há uma tradição cultural que permeia a vida econômica e que
condiciona fortemente a maneira como os homens relacionam-se
na produção e na distribuição de bens. Não predomina nelas uma
lógica de mercado a comandar os papéis individuais e nem há a
impessoalidade típica das economias capitalistas. Os indivíduos
não pautam suas ações pela busca pessoal de riqueza. O que move
as pessoas nas sociedades tradicionais pré-capitalistas é a repre-
sentação de um papel já estabelecido que lhes é fornecido ao nasce-
rem e que passa a ditar suas vidas. Elas não estão, portanto, livres
na vida econômica para alcançarem toda vantagem possível. A
participação de cada qual é ditada pela tradição que ensina as
pessoas como e para quem produzir.
A consequência maior do forte predomínio da tradição cultural
na vida econômica é a impossibilidade de se identificar uma
recorrência de fatos econômicos que possam ser racionalmente
interpretados. Os preceitos que ditam a atividade produtiva nessa
sociedade são de natureza cultural e podem não obedecer a
nenhum critério racional. Nela, a visão de um mundo transcen-
dental de mitos e deuses comanda ações econômicas ordinárias.
Com isso, as dimensões culturais permeiam o fenômeno puramente
econômico e não se pode separá-lo delas, mesmo para fins
analíticos. No período histórico em que surgem teorias econômicas
verdadeiramente abrangentes, versando sobre os principais temas
ligados à produção, à troca e às políticas públicas, os fatos econô-
micos já se encontravam ordenados na sociedade de modo bastante
independente da tradição. Isto possibilitou interpretar teorica-
mente o sistema econômico como uma esfera independente e
movida por uma racionalidade que lhe é própria.
No período anterior ao século XVIII, com raras exceções a vida
econômica esteve submetida a preceitos éticos e religiosos. A partir
de então, com o capitalismo, em maior grau os agentes são movidos
por estratégias individuais que se combinam de modo a resultar no
presumido funcionamento automático da economia a despeito das
imposições da tradição cultural. Assim, o que é oferecido pela
3
ciência econômica não se poderia esperar na concepção dos anti-
gos: um modelo teórico representativo dos fatos econômicos, no
qual se selecionam variáveis (como preços, salários, lucros e juros)
e se concebe uma estrutura de relações estáveis entre elas. A
identificação de fatos econômicos isolados e a procura por uma
lógica interna para eles, pautada em critérios como busca de
eficiência e maximização de resultados, não seria possível no
período pré-capitalista, o que não significa que nenhuma reflexão
de natureza econômica tenha sido feita até então. Na Antiguidade,
não se encontra uma teoria econômica, porém, lá existia um
pensamento econômico voltado a questões similares às que são
tratadas na ciência econômica atual, embora em um âmbito mais
restrito. Os antigos hindus, hebreus, gregos e romanos analisam
questões ligadas à propriedade dos bens, à produção e ao comércio
e procuram estabelecer a natureza deles e as normas que deveriam
regulamentar tais atividades. A interpretação dos fatos econômicos
era então de natureza moral e as indicações de preceitos tinham
por base uma visão religiosa.1
Entre os antigos, a exposição de temas econômicos aparece no
bojo das reflexões filosóficas. A preocupação era com a observância
de preceitos morais e religiosos nas tarefas práticas. Na busca de se
chegar às implicações da moral nos afazeres diários, são avaliados
certos elementos que dizem respeito à produção e à distribuição de
bens e que nos interessam de perto. Assim, eles investigam as
formas de apropriação dos bens, a riqueza, as necessidades huma-
nas, a organização da produção, a escravidão, as relações familia-
res, as vocações individuais para o trabalho, as relações de traba-
lho, a distribuição da riqueza, a natureza do comércio e dos juros, a
troca de mercadorias, o fundamento dos preços, o sistema fiscal e
tributário e outros temas pertinentes à economia.

O INTERVENCIONISMO DE HINDUS E HEBREUS E


O LAISSEZ-FAIRE DOS SÁBIOS CHINESES
Nota-se, nos povos antigos, certo preconceito contra a
atividade econômica. Para eles, a vida econômica não tinha
significado em si mesma, era tão somente um conjunto necessário

1É o que se verifica entre os povos antigos, embora em alguns momentos


a esfera econômica tenha até alcançado certa independência desses
valores, como no código comercial romano em que a lei procurava conferir
praticidade às atividades econômicas independentemente de valores e
crenças morais.
4
de procedimentos que, além de propiciarem a subsistência
humana, serviam para reforçar a divisão social, as crenças
religiosas e a retidão individual. Havia, de modo geral, uma aversão
ao trabalho artesanal, enquanto a atividade agrícola era exaltada.
Condenações morais à riqueza individual apareciam invariavel-
mente, e as atividades comercial e financeira eram vistas com
desconfiança. Em alguns povos, as crenças religiosas incentivavam
os governantes a estabelecer regulamentações, na forma de lei, que
diziam respeito a numerosos aspectos da vida diária, incluindo o
econômico. A lei não era aplicada indiscriminadamente a todos,
pois, dependia da condição social das pessoas envolvidas (nacio-
nalidade, casta etc.).
Entre os judeus, as leis mosaicas proibiam a usura, isto é, o
empréstimo a juros. Entretanto, a lei não se aplicava quando o
empréstimo era feito a estrangeiros. Outra exceção contemplava os
casos em que empréstimos eram concedidos aos pobres a fim de
ampará-los; neste caso, os juros eram controlados e os prazos de
pagamento não podiam exceder a certas datas religiosas. As leis
hindus condenavam os empréstimos se oferecidos pelas altas
castas de brâmanes e xátrias, contudo também havia exceções. Os
Vedas regulavam, para esses casos, as taxas de juros dependendo
do tipo de empréstimo, se em ouro, em grãos etc., e da casta
envolvida. Judeus e hindus também obedeciam a leis que procu-
ravam regulamentar a atividade comercial: leis que padronizam
pesos e medidas, leis contra a adulteração da mercadoria,
regulamentos condenatórios de práticas especulativas e monopó-
lios. Os rabinos proibiam a exportação de artigos considerados
essenciais e, em tempos de escassez de alimentos, não se podia
estocá-los.
Os hindus procuram controlar as estratégias individuais de
manipulação dos mercados proibindo preços acima ou mesmo
abaixo de certo padrão determinado pela noção que tinham de
preço justo.2 Existiam, entre eles, curiosas leis que controlavam as
relações de trabalho: multas severas eram aplicadas a quem não
cumprisse os contratos de trabalho, impunham-se penalidades
para o trabalhador negligente etc. Os hindus também observam leis
que estipulam uma rígida divisão de tarefas entre as castas.
Segundo essas leis, as castas elevadas, os brâmanes, deveriam
dedicar-se integralmente ao estudo e ao ensino dos livros dos
Vedas, fazer sacrifícios e receber almas. Os xátrias eram encarre-
gados da guerra e podiam coletar impostos. Os vaisias podiam

2 O conceito de preço justo seria retomado na Idade Média.


5
envolver-se com atividades comerciais, os sudras eram artistas e
artesãos e, como tais, deveriam servir às castas superiores. Em
tempos de catástrofes, uma casta poderia vir a desempenhar a
função de outra, no entanto na maioria das vezes as divisões
mantinham-se rígidas.
Leis reguladoras da atividade econômica adicionais podem ser
encontradas em outras antigas civilizações, como as de chineses,
árabes, japoneses, persas e egípcios, e detalhes pitorescos seriam
então identificados. Todavia, nem sempre prevaleceu, entre os
pensadores antigos, o espírito intervencionista. O pensamento dos
filósofos chineses não justificava a intervenção governamental. Ao
contrário, vivendo em tempos de guerra e forte presença do Estado
na economia, entre os séculos VI e IV a.C., os sábios taoístas reagiam
contra o controle estatal da vida econômica. É o caso dos preceitos
de filosofia política em alguns dos poemas do lendário Lao Zi (604-
517 a.C.), que se acredita tenha vivido na China à época de Confúcio
(551-479 a.C.).
Enquanto o confucionismo firmou-se como uma literatura
ética preocupada em educar a burocracia do estado, Lao Zi despre-
za a necessidade de organização social pelo poder e prega a harmo-
nia individual como a chave para a união espontânea da sociedade.
As instituições sociais não podem interferir no caminho das
pessoas e o bom governante serve a seu povo com delicadeza, diz
ele:
“Um grande país deve ser governado como quem frita
pequenos peixes.” (Lao Tse, Tao Te King)
A ação do governo deve observar, em qualquer momento, seus
limites, de modo que passe despercebida pelos cidadãos.
“Quando um Grande Soberano governa, o povo mal sabe
que ele existe” (ibidem).
O controle do Estado dificulta o desenvolvimento individual e,
no plano econômico, leva ao empobrecimento das massas e à
proliferação de comportamentos nocivos. Em seu laissez-faire
primitivo, o sábio chinês acredita que a prosperidade do povo viria
com a ausência de proibições:
“Quanto mais proibições houver no mundo, mais o povo
empobrecerá. Quanto mais leis e decretos se publicarem, mais
ladrões e assaltantes haverá. Se não fizermos nada, o povo
evoluirá por si mesmo. Se não empreendermos nada, o povo
prosperará por si mesmo.” (ibidem)

6
A interpretação de Lao Zi da sociedade é a transposição de suas
crenças filosóficas do plano individual para o coletivo. A pessoa,
isoladamente considerada, busca o reconhecimento do Tao ao
deixar-se levar pelo caminho natural, livre de inquietações e de
desejos que poderiam forçar sua verdadeira unidade. Nesse cami-
nho, ela integra-se à sabedoria cósmica e sua vida torna-se, então,
guiada pelos mesmos princípios de coesão e de harmonia da ordem
universal. Também na vida social, quando a atividade econômica
não é penalizada por impostos excessivos, o povo prospera e deixa-
se governar facilmente:
“Quando o povo passa fome, isso acontece porque os fortes
e os poderosos cobram impostos em demasia. Quando o povo
é difícil de ser governado, isso ocorre porque os poderosos se
intrometem em demasia.” (ibidem)
Na China antiga, a crença de que existiria uma ordem gerada
espontaneamente na sociedade não parou em Lao Zi. Ela teve
prosseguimento nas reflexões de Chuang Zi (369-286 a.C.) que
transformou a noção de ordem espontânea em uma concepção
anarquista da sociedade. Chuang Zi recusou o convite do impe-
rador Wei para o cargo de ministro, dizendo que todas as restrições
individuais que partem do governo distorcem a natureza humana.
Todavia, nem todos os pensadores chineses do passado distante
são contrários à ação do governo e muitos exaltam o poder do
Estado, além de procurar ditar regras a fim de ampliar tal poder.

PLATÃO E A SOCIEDADE IDEAL


Pensar em economia pressupõe uma reflexão sobre a
sociedade. Foi na busca de uma interpretação sobre a origem e a
natureza da sociedade que os filósofos gregos tocaram em temas de
interesse dos economistas. Para aqueles, o aspecto econômico da
vida social é secundário. A razão de ser das cidades (sociedades) é
explicada com base em sua função para a realização de um ideal
ético de justiça que levaria ao aperfeiçoamento da alma, de modo
que fosse liberta da condição material.
O filósofo Platão (428-347 a.C.) entende a existência dos ho-
mens em sociedade como um instrumento de salvação das almas. A
economia é um aspecto da vida social que não se separa da esfera
política e moral. Os escritos de Platão investigam a origem e a razão
de ser da sociedade. Em suas reflexões, enfatizam-se tanto o lado
material da cooperação entre os homens no mundo do trabalho e
da produção nas cidades quanto o elemento espiritual da existência
7
em sociedade. Platão é discípulo de Sócrates. Este último, no
entanto, nada escreveu sobre filosofia. Limitava-se a andar pelas
praças da Acrópole de Atenas, apregoando a existência de valores
éticos verdadeiros, num sentido absoluto, a que os homens
deveriam obedecer. Estamos no século IV a.C., uma época em que a
política atravessa período conturbado na Grécia. A democracia
entre os que são considerados cidadãos, já que uma boa parte da
população em Atenas é de escravos, triunfa sobre o antigo modelo
aristocrático, em que os dirigentes eram recrutados apenas entre
os nobres. Historicamente, é resultado do desenvolvimento comer-
cial que abalou a tradicional estrutura do poder em Atenas, baseada
na propriedade do solo e nos direitos de nascimento. Como resul-
tado, o poder é transferido dos nobres para a assembleia do povo.
Os ares democráticos em Atenas terão também implicações na
maneira de pensar dos filósofos. A antiga crença de que as leis a
serem obedecidas pelos homens são desígnios da natureza e, como
tal, não podem ser contestadas é substituída então pelo argumento
dos filósofos sofistas de que tudo é relativo. Assim, não existiria
uma noção absoluta de justiça e os elementos que regem a conduta
social seriam frutos de mera convenção entre os homens. Certas
regras, e não outras, são estabelecidas porque os homens foram
convencidos pelos mais sábios a adotá-las. Na filosofia dos sofistas,
sabedoria implica empregar bem os recursos da retórica e da arte
da persuasão, não é, portanto, um simples conceito abstrato. É essa
perspectiva relativista que é condenada por Sócrates e Platão. Na
exposição dos verdadeiros princípios éticos que iluminam a vida
humana, eles tecem importantes considerações sobre a natureza da
sociedade e assertivas de natureza econômica.
Sobre a discussão da sociedade, duas obras de Platão
interessam-nos de perto: Protágoras e A república. Na primeira, o
filósofo sofista Protágoras, dialogando com Sócrates, a fim de
justificar seu argumento de que a virtude é ensinada, narra um mito
em que os homens recebem do deus Hermes, enviado de Zeus, o
dom da virtude (respeito ao próximo) e a sabedoria ou senso de
justiça (Boxe 1.1).
No entanto, tais qualidades não lhes são inatas. Os homens não
nascem com elas e devem adquiri-las ao longo da vida no esforço
do aprendizado. O domínio humano do fogo, transmitido inadverti-
damente pelo semideus Prometeu, simbolizando a habilidade
técnica, é inato; enquanto a virtude só pode ser ensinada. Protágo-
ras dá a entender que tal tarefa caberia aos sofistas (que deveriam
ser remunerados para tanto). O importante a considerar para efeito

8
de nossa análise é que, nesse mito, é condição sine qua non da vida
social certa ética entre os homens. A investigação da esfera social
fica vinculada inseparavelmente à consideração ética.

Boxe 1.1 Protágoras de Platão.

No livro, aparecem alguns personagens que dialogam entre si. No caso, o


tema inicial é o sentido da sabedoria. Tudo começa quando Sócrates é
convidado por um amigo a visitar a casa de uma personalidade conhecida. Ao
chegarem lá, encontram todos acomodados no jardim da casa ao redor de um
homem reverenciado por eles como um sábio. É o sofista Protágoras. Sócrates
aproxima-se dele e tenta convencer a todos de que o sofista nada tem a ensinar,
pois os homens sábios já nascem com sabedoria e virtude. Na primeira metade
do livro, Protágoras domina a conversa com longas preleções às breves
interpelações de Sócrates. Na outra metade da obra, ocorre uma inversão de
papéis, uma peripécia, e Sócrates toma a ofensiva, fazendo Protágoras ceder
lentamente às suas ideias. Ao argumentar porque a sabedoria deve ser
aprendida, o sofista narra um mito sobre o nascimento da cidade que é, sem
dúvida, uma das primeiras tentativas de explicação da origem da sociedade. É
a história dos irmãos semideuses Epimeteu e Prometeu. Zeus tinha-os
incumbido de distribuir qualidades entre todos os animais de modo que cada
espécie pudesse sobreviver. Epimeteu pede então ao irmão que o deixe
cumprir sozinho a tarefa. Quando depois Prometeu foi inspecionar o trabalho
feito, notou que o irmão havia cometido um engano. Gastou todo o estoque de
qualidades com os demais, nada restando a oferecer aos homens, naturalmente
fracos e desprotegidos. Para se redimir do erro e a fim de garantir a
sobrevivência da espécie humana, Prometeu revelou-lhes o segredo do fogo,
até então prerrogativa dos deuses. O fogo funciona aí como metáfora da
sagacidade técnica; do domínio da linguagem, da agricultura, de instrumentos
e armas de defesa.
Zeus, vendo o mal que Prometeu havia feito, condena-o a permanecer no
alto de um penhasco com seu fígado eternamente sendo devorado por abutres.
Era preciso, entretanto, completar o serviço de Prometeu e, assim, Zeus ordena
a Hermes que ensine os homens a viverem em sociedade, uma vez que as armas
de defesa nada valeriam se eles tivessem que lutar cada um por si contra
grupos grandes de animais. Mesmo armados, a cooperação entre os homens
seria necessária à sua sobrevivência. Surge então o desejo de viver em
sociedade, estabelecendo-se entre eles um contrato para a mútua proteção.
Zeus, conta-nos Protágoras, percebeu que a vida social só seria possível se
os homens fossem dotados de certas qualidades a fim de não se voltarem uns
contra os outros. Ele identifica duas qualidades essenciais: o respeito e a
justiça. Pede que Hermes lhas presenteie, no que este pergunta se deveria dar
a todos os homens o mesmo dom dessas qualidades ou distribuí-las de modo
desigual. “Dê-as a todos”, disse Zeus, “e deixe que todos as compartilhem; pois
as cidades não poderiam vir a existir se apenas uns poucos as compartilhas-
sem.”

9
A segunda obra, A república, aprofunda o conceito de justiça e
expõe, de modo completo, a doutrina ética e social de Platão. Antes
mesmo de apresentar tal conceito, é importante ter em mente
certos aspectos gerais da doutrina filosófica de Platão. Tal filosofia
procura refutar as crenças sofistas de que os valores são uma
convenção estabelecida na discussão e nas controvérsias públicas,
e que a verdade é relativa se cada um tem seu ponto de vista que
lhe é verdadeiro. Platão também se opõe ao materialismo dos
filósofos pré-socráticos.
O teor de suas críticas é possível ser resumido. Ele acredita no
princípio da contradição que nos diz que duas proposições opostas
não podem ambas ser simultaneamente verdadeiras. Nas discus-
sões, há de se chegar ao absoluto, isolando a proposição falsa e
apontando para a verdadeira. O materialismo era, à época de Pla-
tão, antiga herança do pensamento pré-socrático, originário da Ásia
Menor, que acreditava na existência de um substrato material
preenchendo a realidade. Todas as coisas são constituídas de um
elemento material básico. Tudo é matéria e esta é feita de um único
elemento identificado inicialmente como sendo a água, em Thales
de Mileto. Depois, outros filósofos apontam o ar, o vapor, átomos de
matéria e até fogo, como em Heráclito, como sendo o elemento
último. A escola materialista também concebia os corpos materiais
como estando em perpétuo movimento.
A oposição filosófica ao materialismo, de fato, aparecera antes
de Platão. Filósofos espiritualistas como Pitágoras e Parmênides
rejeitam a existência exclusiva do corpo material, acreditando que,
ao lado dele, reside um princípio imortal a que chamam de alma. A
alma é tida como algo absoluto, imóvel e eterno. Os eleatas, da
escola de Parmênides, acreditam que só ela pode ser pensada. O
pensamento não se fixa em corpos materiais e o movimento não
pode nunca ser entendido pelo pensamento. Dentre eles, Zenão de
Eleia construiu seus famosos paradoxos na tentativa de demons-
trar que pensar o movimento leva-nos a situações absurdas: Aqui-
les, correndo por trás, nunca alcançaria a lenta tartaruga, pois,
sempre que tivesse avançado a metade da distância que os separa,
uma nova metade ainda restaria a ser percorrida. É claro que o
aparente absurdo seria facilmente desvendado se os gregos
soubessem que séries infinitas de termos positivos podem ter soma
finita quando a razão entre termos sucessivos for menor que a
unidade, o que é o caso.
A filosofia de Platão rompe com o materialismo, ao mesmo
tempo em que resiste às correntes espiritualistas que só pensam no

10
mundo absoluto e estático. Platão remedeia a crise intelectual
trazida pela oposição de visões antagônicas. Enquanto os mate-
rialistas acreditam apenas na existência do que atinge os sentidos,
ele concebe a existência de coisas que não podem ser alcançadas
pelos sentidos. A noção de justiça, por exemplo, não remete a algo
que tenha existência corporal, mas ela compartilha do mesmo
conteúdo de realidade que os objetos materiais. Então Platão acre-
dita em um mundo fragmentado em duas esferas de realidade: o
mundo dos objetos visíveis e o mundo de ideias perfeitas (mundo
das ideias), que também pode ser pensado como o mundo do corpo
versus o mundo da alma, o mundo do movimento contra o mundo
estático, mundo de corpos imperfeitos e perecíveis, de um lado, e
mundo de entes perfeitos e imortais, de outro, e outras dicotomias
desse jaez.
Conhecida a natureza da filosofia de Platão, podemos retomar
a discussão do conceito de justiça na obra A república. Nela,
argumenta-se que a justiça é um conceito que só se realiza na vida
em sociedade e que consiste em atribuir a cada indivíduo o papel
que lhe compete por suas qualidades naturais (Boxe 1.2.). A cidade
surge porque os homens buscam satisfazer melhor suas próprias
necessidades, tirando proveito da especialização de tarefas. Viven-
do em sociedade, eles produzem para si e para os demais, e
procuram tirar o máximo proveito das trocas.
A cidade necessita de muitos especialistas em trabalhos dife-
rentes. O produto excedente do trabalho individual é trocado por
meio de atos de compra e venda. Aparecem então mercados e
moeda, “símbolo do valor das mercadorias permutadas”.
As trocas são intermediadas por mercadores, “pessoas mais
fracas de saúde, incapazes de qualquer outro trabalho[...] que se
dedicam à compra e venda, com estabelecimento aberto no merca-
do”, e negociantes “que viajam de cidade em cidade”.3

3 Até aqui as reflexões de Platão são próximas às de Adam Smith quando


ele apresenta, logo no início de A Riqueza das Nações, a descrição da
fábrica de alfinetes. Entretanto, as diferenças de enfoque são significativas
e teremos oportunidade de apontá-las mais adiante no Capítulo 5. Platão,
nas palavras do personagem Sócrates, não fornece uma explicação pura-
mente em termos de vantagens econômicas para a razão de ser das cida-
des. Embora as cidades surjam para melhor atender às necessidades
humanas, sua função essencial não é econômica, mas espiritual (ou ética).
11
Boxe 1.2 A república de Platão.

A obra organiza-se em diálogos entre personagens, tendo Sócrates ao centro. Em


visita a uma cidade por ocasião da festividade à deusa Bêndis, Sócrates resolve então, a
convite, permanecer na localidade à noite na casa de um velho e sábio homem,
enriquecido pelo comércio, de nome Céfalo. Aí também se encontra um sofista,
conhecido como Trasímaco, e os dois irmãos: Glauco, que acompanhara Sócrates na
viagem, e Adimanto, ambos argutos na arte do pensamento. A conversa flui entre eles
num tom agradável e começam por debater sobre o amor e a velhice. Céfalo diz que a
idade o faz pensar no além e leva-o, receoso de alguma punição nesse outro mundo, “a
fazer cálculos e a analisar se cometeu alguma injustiça com alguma pessoa”. A conversa
conduz inexoravelmente a discussões sobre o conceito de justiça e as opiniões sucedem-
se. Céfalo considera justo dizer a verdade, não enganar e cumprir os contratos, honrando
dívidas assumidas. A essa visão de justiça Sócrates interpõe o argumento: “se alguém,
em perfeito juízo, entregasse armas a um amigo, e depois, havendo-se tornado insano,
as exigisse de volta, todos julgariam que o amigo não lhas deveria restituir, nem mesmo
concordariam em dizer toda a verdade a um homem enlouquecido... como vês, justiça
não significa ser sincero e devolver o que se tomou”. A conversa torna-se mais acalorada
quando Trasímaco lança sua definição de justo como sendo o que é vantajoso para o
mais forte, já que “cada governo faz leis para seu próprio proveito”. Diz ele: “em todas as
cidades o justo é a mesma coisa, isto é, o que é vantajoso para o governo constituído; ora,
este é o mais forte, de onde se segue, para um homem de bom raciocínio, que em todos
os lugares o justo é a mesma coisa: o interesse do mais forte”. Sócrates, no entanto,
desarma facilmente o argumento do sofista: ora, diz ele, os governantes são passíveis de
erro e, se devemos seguir todas as ordens, em alguns casos torna-se justo fazer o que é
desvantajoso para os governantes, quando eles sem perceberem dão ordens que lhes
são danosas. O justo torna-se nesse caso fazer o injusto. Logo adiante, Adimanto lembra
que a justiça traz recompensas a quem pratica e os injustos são por vezes punidos, mas
é preciso sempre parecer justo, pois, “se eu for justo sem o parecer, não tirarei disso
nenhum proveito, mas sim aborrecimentos e prejuízos evidentes; se eu for injusto, mas
gozando de uma reputação de justiça, dirão que levo uma vida divina”. Sócrates até se
curva a esse argumento; no entanto, ele assevera que, enquanto um indivíduo pode
escamotear sua iniquidade e fazer-se passar por justo, na cidade a justiça é mais visível
e mais fácil de ser examinada. Ao examinar-se a grande justiça da cidade, em oposição à
pequena justiça dos indivíduos “encontraremos mais facilmente o que buscamos”, diz
Sócrates.
Após isso, a atenção volta-se para a causa do nascimento das cidades. Sócrates
argumenta que a causa desse nascimento é a necessidade que cada um tem de contar
com o trabalho do outro. Os homens necessitam de alimentação, moradia e vestuário e,
vivendo em sociedade, eles podem provê-las melhor se cada um se especializar em uma
função. Como a natureza não fez todos os homens iguais, mas diferentes em aptidões e
aptos para esta ou aquela função, eles trabalham melhor quando se exerce um só ofício.
O filósofo lança o argumento de que a divisão do trabalho leva ao aumento da eficiência
produtiva, pois é verdade que “se produzem todas as coisas em maior número, melhor e
mais facilmente, quando cada um, segundo suas aptidões e no tempo adequado, se
entrega a um único trabalho, sendo dispensado de todos os outros”. A justiça da cidade
consiste em distribuir os ofícios entre os homens de acordo com as qualidades inatas de
cada um. Os de propensão para a filosofia serão os dirigentes, os de força física e ardor
serão os guerreiros e os de força física e senso de obediência, os artesãos e agricultores.

12
A vida em sociedade possibilita a prática do bem. A vida no
bem é a vida conforme a justiça e somente a vida justa leva-nos à
libertação da alma. A organização da sociedade deve ser perfeita
para que, vivendo no bem, sejamos plenamente recompensados
após a morte. Platão apresenta então o que imagina ser a cidade
justa. É a cidade perfeita que pertence ao mundo das ideias. As
cidades que existem concretamente estão longe da perfeição.
No livro A república, Platão limita-se a mostrar a cidade ideal;
em duas obras que se seguiram, O político e Timeu, ele discorre
sobre os motivos que afastam as cidades concretas da perfeição, e
em outro livro, As leis, mostra como a legislação poderia aproximar
a realidade existencial das cidades do plano ideal. Portanto, a
sociedade descrita em A república é, antes de tudo, um modelo, e as
prescrições econômicas contidas nela devem ser pensadas como
elementos de um quadro ideal que podem ser provisoriamente
abandonados nas vicissitudes da cidade existente.
O que torna justa a cidade ideal não é a observância das noções
de justiça dos personagens Céfalo, Trasímaco e Adimanto, um tanto
quanto limitadas ao contexto do indivíduo. No pensamento platô-
nico, deve-se separar a virtude individual da virtude na cidade. No
primeiro caso, a virtude está no equilíbrio de forças entre impulsos
movidos pelo desejo material e sensual, pela fúria e pela inteligên-
cia, denominados respectivamente de concupiscência, cólera e
razão. O homem justo dá a cada parte o lugar que deve ocupar. A
proporção depende de nossa natureza: uns nascem mais fortes,
outros mais sábios, e assim por diante. A virtude individual faz
prevalecer em nós um balanço de sentimentos compatível com
nossa natureza. A cidade justa é composta por cidadãos virtuosos,
mas o que a faz justa é o modo como se distribui o conjunto de
funções que cada qual desempenha em seu interior. A virtude na
cidade consiste em distribuí-las de modo que cada qual cumpra um
papel de acordo com o que lhe é merecido em face de suas
qualidades físicas, intelectuais e morais.
Para Platão, as pessoas nascem diferentes umas das outras e
essas diferenças se mantêm. Assim, cabe à cidade atribuir direitos
e obrigações particulares a cada classe de homens, pois seria uma
injustiça tratar de modo igual os que são naturalmente diferentes,
como se pretende na democracia que sempre se degenera em
tirania. A sociedade ideal é sempre aristocrática, pois os melhores
devem governar e os inferiores submeterem-se com resignação às
suas ordens. Entre os cidadãos, há três tipos de pessoas: os que
vivem na sabedoria exercida pela contemplação e que sabem domi-

13
nar suas paixões são os governantes; os guerreiros, que ainda
mantêm grande sabedoria, mas que se destacam pela força física e
pelo ardor e doçura de sentimentos, já que devem ser intrépidos
contra os inimigos e cortês com os concidadãos. Finalmente, temos
os agricultores e artesãos em que predominam a força física e o
senso de obediência. Os ditames da organização social e econômica
da cidade estão todos voltados à obtenção da ordem hierárquica
entre os homens.
Algumas condições lógicas devem ser observadas a fim de que
todos ocupem bem seu respectivo papel social. Primeiramente, um
sistema educacional que não discrimine pelo nascimento, já que a
desigualdade de aptidões não é determinada pela hereditariedade.
As crianças são separadas dos pais e reunidas em escolas onde
educadores prestarão especial atenção nas desigualdades indivi-
duais, de modo a encaminhá-las o mais cedo possível para uma vida
de acordo com suas qualidades. A fim de que as crianças não fiquem
presas às influências paternas, é aconselhável o regime em que as
mulheres sejam compartilhadas e as crianças não reconheçam os
pais. Não há famílias nucleares e sim a plena comunidade de
mulheres e filhos. A segunda condição para a ordem justa é que
todos os cidadãos da cidade sejam amigos entre si. A amizade entre
todos é alcançada em uma organização econômica em que os bens
materiais sejam de todos, pois entre amigos tudo é comum.
O comunismo é o regime de propriedade compatível com a
cidade ideal. Além de favorecer a amizade, ele evita o enrique-
cimento excessivo de alguns. Embora seja lícito supor que os mais
sábios tenham uma vida mais confortável, o critério de mérito na
cidade ideal jamais será o da riqueza. Pelo contrário, a oligarquia,
ou governo dos ricos, é condenada e o homem rico visto com
desdém: “ser imundo que de tudo toma proveito, que cresce à
sombra e transborda em carnes supérfluas enquanto explora o
miserável chupado e assado pelo sol.” No comunismo de Platão, o
sábio terá uma vida apenas frugal, pois a riqueza poderia tirá-lo do
caminho do bem e envenenar sua alma de sensualidade e desejo de
consumo. Os guerreiros não passam por privações que poderiam
abalar saúde e vigor físico, essenciais na arte da guerra. Não
mergulham, porém, em riquezas que comprometeriam a disciplina
da vida marcial. O artesão e o agricultor mantêm sua disposição
para o trabalho se afastados de uma vida de riquezas. Assim, na

14
cidade ideal os indivíduos levam um gênero de vida conforme a
função que lhes cabe.4
Platão reconhece que a igualdade de riquezas entre os
cidadãos da cidade ideal não se verifica nas cidades concretas.
Constatada a distância entre o ideal e a realidade, ele lança-se, em
As leis, a buscar soluções que atenuem as desigualdades. A reforma
das cidades é conduzida pela imposição de leis que regulam a
atividade econômica: repartição da propriedade, sistema tributário
que busque a igualdade, confisco de fortunas, regulamentação de
heranças, controle populacional, proibição de se reter ouro e prata
e de empréstimos mediante juros elevados, controle das atividades
dos estrangeiros e das importações e exportações. Platão discorre
sobre a prioridade do Estado no controle da produção, mantendo
ou dirigindo-a diretamente e repartindo o produto; quando não for
o caso, impondo condições sobre a atividade privada, controlando
as condições em que se farão as colheitas etc. Por fim, a atividade
comercial é proibida entre os cidadãos, ficando o comércio a cargo
de estrangeiros.
No momento em que as cidades alcançarem os ideais da cidade
perfeita, elas serão plenas das quatro virtudes capitais - justiça,
sabedoria, coragem e temperança, respectivamente quando as
funções de cada cidadão correspondem às suas qualidades
pessoais, quando a cidade é dirigida pelos mais sábios, guardada
pelos mais corajosos e com os inferiores obedientes aos superiores.
Não se trata de uma democracia, mas de uma aristocracia em que a
seleção dos dirigentes é feita não pela escolha da maioria, mas
submetendo-os a provas morais e intelectuais. As prescrições de
natureza econômica são apenas meios, pensados para se alcançar
um ideal de justiça social. Não há argumentos de eficiência ou
racionalidade econômica. As pessoas na cidade perfeita não
procuram maximizar riquezas, mas realizar seu papel social com
perfeição de modo a se elevarem espiritualmente.

4 Will Durant condena os que rotulam Platão de “comunista”: “A todas


essas críticas, pode-se responder muito simplesmente dizendo que elas
destroem um homem de palha. Platão isenta, explicitamente, a maioria de
seu plano comunista; reconhece com nitidez que só uns poucos são
capazes da renúncia material que ele propõe para a sua classe dirigente;
só os guardiães irão chamar cada guardião de irmão ou irmã; só os
gradiães não terão ouro ou bens. A imensa maioria irá manter todas as
instituições respeitáveis - propriedade, dinheiro, luxo, concorrência e a
privacidade que possa desejar.” (Will Durant, A história da filosofia, p. 64).
15
AS NOÇÕES ECONÔMICAS DE ARISTÓTELES
Natural de Estagira na Grécia, Aristóteles (384-322 a.C.) foi
discípulo de Platão e em alguns aspectos sua visão filosófica
conserva a marca do mestre. Todavia, as diferenças entre ambos
são evidentes e, no que tange ao aspecto da organização econô-
mica da sociedade, eles estão em posições diametralmente opostas.
O substrato filosófico também difere e é sobre ele que
discorreremos inicialmente.
Aristóteles não acredita no “mundo das ideias” de Platão. A
realidade fica contida nos objetos sensíveis, mas nem tudo é
matéria. Há deuses e espíritos; no entanto, o mundo sobrenatural é
incomunicável e não exerce influência no mundo concreto. Além
disso, a própria matéria carrega um elemento que não nos é
percebido diretamente pelos sentidos. Trata-se de uma essência
não revelada no objeto particular, mas que é encontrada no
universal que se faz presente em todos os objetos de mesma
natureza. Os objetos saltam aos olhos em sua aparência; entretanto,
só podemos pensá-los em sua essência. A matéria pura, de que são
feitos, é incognoscível, enquanto formamos ideias com base no
conhecimento das formas dos objetos. Não podemos pensar em
madeira sem nos reportarmos à árvore, e esta é apreendida por sua
forma. Todas as coisas possuem uma natureza. Por trás da
aparência mutável e não repetitiva das coisas, há características
essenciais que particularizam sua existência. Tudo possui uma
essência que não é engendrada e não se transforma, tratando-se de
uma substância imutável e eterna.
Assim, a filosofia de Aristóteles deve ser pensada com base
nessas dicotomias entre essência e aparência ou forma e matéria. A
investigação da realidade consiste em procurar pela natureza das
coisas. Na obra Organon, a parte intitulada Analíticos Posteriores
descreve o caminho que devemos seguir a fim de alcançar o essen-
cial das coisas: começar com a observação atenta dos fatos até se
chegar à plena familiaridade com o objeto. O processo de indução
permite ao “olhar intelectual” (nous) do observador penetrar na
realidade última do objeto. A identificação da essência vem à tona
como a recordação de algo que já se sabia. A ideia de conhecimento
como lembrança tem um inequívoco componente platônico.5

5Muitos filósofos atuais discordam dessa aproximação entre Aristóteles e


Platão. A tese de um resquício platônico em Aristóleles aparece em
Randall e Woodbridge, Aristotle.
16
A explicação do mundo dá-se então ao se identificarem as
causas dos seres. Deve-se reconhecer a ação da causa com vistas a
um resultado final, o que se entende como ação teleológica (Boxe
1.3). A noção de causalidade em Aristóteles aplica-se ainda na
explicação da sociedade. Em sua obra Política, o homem é tido como
um animal social e político. Seu lugar natural é a sociedade em que
ele realiza o principal propósito da vida humana: a busca da
felicidade.

Boxe 1.3 Ação teleológica em Aristóteles.

Vejamos, a título de ilustração, a Física de Aristóteles. O espaço é


fragmentado em regiões e cada local possui uma natureza que lhe é própria.
Assim, o centro do universo, onde se encontra a Terra, é o local natural dos
elementos pesados e a esfera mais distante é a residência dos corpos leves. Há
quatro elementos, fogo, ar, água e terra, na ordem crescente de peso. Todo
movimento observado é o deslocamento de corpos em busca de seu lugar
natural; por isso, a água assenta-se sobre a terra; acima da água, está o ar e o
fogo sobe em direção ao ponto mais elevado. O movimento é compelido pela
força, mas a causa da força é o evento final em que o corpo estará repousado
em seu lugar natural.

A felicidade não é apenas o usufruto do prazer sensorial, e


nenhuma das vantagens econômicas da vida na cidade a justifica.
Tal prazer é comum também entre os animais. Duas outras
dimensões da felicidade são puramente humanas. A honra é impor-
tante por reforçar no homem sua autoestima. Todavia, somente o
prazer do pensamento racional, presente na atividade de teoria ou
contemplação, merece menção dentre os objetivos prioritários da
vida. A teoria ética identifica o bem e o justo, distinguindo-os do mal
e do injusto. Só os humanos são dotados desses sentimentos morais
porque só eles possuem o dom da palavra.
Então a cidade é pensada como um meio de tornar feliz a vida
presente do indivíduo, enquanto em Platão a cidade viabiliza a
consecução de objetivos espirituais para além da vida terrena. Em
nenhum momento Aristóteles enfatiza as cidades como um instru-
mento para satisfazer a necessidades materiais, como chega a
estabelecer Platão ao discorrer sobre a causa ou origem das cida-
des. A felicidade contemplativa, associada ao uso da razão, é a
ênfase; no entanto, a possibilidade concreta de se exercer a contem-
plação requer o consumo de bens materiais, pois é condição neces-

17
sária, mas não suficiente, para a felicidade “cuidar do corpo, ter
bons amigos e descendência feliz”.
São necessários recursos econômicos para a felicidade e, ao
reconhecer tal fato, Aristóteles lança-se a tecer considerações de
natureza econômica. A economia é uma parte mais restrita da
ciência do homem que estuda a administração do lar (oïko = casa,
nomik = leis ou princípios de administração). O ramo mais
abrangente e mais importante dessa ciência é a política e o estudo
mais específico do indivíduo pertence à ética. A cidade nunca pode
ser perfeita, pois tudo o que pertence ao mundo sublunar está
sujeito ao acaso e a mudanças imprevisíveis; o mundo perfeito e
imutável é o das esferas celestes tal como se observa na harmonia
do movimento dos astros.
Na política, Aristóteles não se posiciona a favor de um único
regime. Três deles são possíveis: a realeza, a aristocracia e a
república. O Filósofo apenas condena as formas degeneradas
desses governos, respectivamente a tirania, a oligarquia e a
democracia: a ditadura de um só, do dinheiro ou da maioria, nessa
ordem. A política fornece os princípios que norteiam o legislador,
mostrando-lhe como alcançar, em sociedade, a virtude. A economia
ensina a organizar a vida econômica de modo que se torne
compatível com a obtenção das metas supremas da humanidade.
O comunismo de Platão é criticado. Os argumentos que, para
tanto, Aristóteles lança-se a fazer merecem uma exposição, pois até
hoje são utilizados pelos liberais críticos do coletivismo. Enquanto
Platão pensava que a propriedade comunal facilitaria o entendi-
mento entre os homens, Aristóteles acredita que possuir bens
comuns é fonte de conflito. O amor e a amizade requerem a
propriedade privada. O sentimento de propriedade estimula o
amor e a afeição pelos objetos e também pelas pessoas. Para ajudar
e receber os amigos, é preciso possuir bens. A educação das
crianças no sistema comunal de Platão é combatida. Os filhos
devem estar próximos aos pais, já que nos interessamos menos
pelo que pertence a todos. Só a afeição exclusiva dos pais engendra
o amor. Aristóteles defende a família patriarcal com a mulher
submissa ao homem.
A luta interna na cidade não é resolvida pela igualdade de
riquezas. O comunismo leva à irresponsabilidade. Todo o ônus da
manutenção das novas gerações é repassado para a sociedade e,
assim, os indivíduos não refreiam o ímpeto da procriação, o que
leva à divisão infinita das fortunas pelo crescimento do número de
cidadãos. Regular a população era também uma preocupação de
18
Platão; ele pensava que as cidades deveriam ter apenas 5.040
cidadãos, número divisível por todos os inteiros de 1 a 12, exceto o
11, facilitando-se o trabalho administrativo de organizar grupos.
Aristóteles, como Platão, também propõe a eugenia com a
eliminação de crianças disformes. O que os difere é que Aristóteles
acredita que no comunismo seria impossível regular a população.
A desigualdade e, por extensão, a existência de homens ricos é
tolerável e até útil para a cidade. Os ricos pagam impostos e o
Estado necessita deles para bancar as despesas das atividades em
comum: cultos aos deuses, defesa da cidade etc. Aristóteles não
defende a supressão do Estado; pelo contrário, há amplo espaço
para o domínio público, inclusive a propriedade pública de terras.
Vê-se então que a defesa da propriedade privada em Aristóteles
não é radical. Uma última ideia vale a pena comentar: o estagirita
antecipa o argumento moderno contra a pretensão de eficácia do
comunismo ao enfatizar o comportamento oportunista dos que não
se empenham em contribuir para a sociedade, uma vez que o
regime de propriedade comum garante de antemão o usufruto da
produção social. No contexto da época, tal argumento não era tão
forte, já que de qualquer maneira os cidadãos não tinham que
trabalhar. O trabalho penoso é incompatível com os objetivos da
vida em contemplação. Não tanto o trabalho agrícola do lavrador,
que não chega a ser um impedimento para a virtude. Ele é até bom,
pois confere força ao corpo e o torna apto para a guerra, embora
prive os homens do lazer necessário à reflexão. O trabalho arte-
sanal é o mais penoso e degenerativo por estragar o corpo. O traba-
lho pode e para os cidadãos deve ser evitado sem prejuízo para a
existência, já que, de qualquer modo, os meios materiais para a
sobrevivência deles estão garantidos pela instituição da escravi-
dão.
Escravos são subumanos que não podem ser senhores de sua
própria vida e que necessitam de comando. No entanto, é preciso,
em cada caso, averiguar se o escravo em questão é de fato um ser
menos dotado. Não se pode aceitar que alguém que não mereça ser
escravo o seja. Platão desenvolveu argumentos semelhantes a favor
da escravidão, Aristóteles, porém, é mais enfático em afirmar que
em certos casos o senhor deve libertar seu escravo.
Certo conforto material é condição para a vida reflexiva do
cidadão, no entanto a procura ilimitada da riqueza é um vício que
impede o alcance da verdadeira felicidade. Aliás, indivíduos bons
são os que menos necessitam de riquezas. Somente as atividades
voltadas ao atendimento de necessidades naturais de consumo são

19
dignas de serem examinadas pela economia. Há uma distinção
importante entre economia (oikonomik) e crematística (chrema-
tistik). A ciência da administração doméstica preocupa-se com o
consumo e o aprovisionamento de riquezas na satisfação de
necessidades humanas, a crematística estuda tudo o que diz respei-
to à aquisição de riquezas, incluindo o ganho e o acúmulo de
dinheiro por empréstimo e comércio. A economia estuda a maneira
natural de aquisição de bens que consiste na apropriação pelo
homem de outros seres vivos por meio de agricultura, pecuária,
pesca e caça. A crematística estuda modos não naturais e, portanto,
condenáveis de adquirir bens via comércio e atividades financeiras.
Entretanto, nem sempre o comércio é condenável, aceitamo-lo
moralmente quando se trata de melhor atender às necessidades
humanas pela especialização do produtor e troca do excedente.
Nesse caso, a troca é um modo de atender a necessidades
diversificadas e não um meio de acumulação de dinheiro. Então
uma parte da crematística tem um caráter natural, uma vez que visa
ao atendimento de necessidades.
A intersecção dos dois conjuntos mostra que há uma área da
economia que é crematística e uma parte desta última que é objeto
da economia. Excetuando-se as condições em que comércio e
atividade financeira façam parte da economia, eles devem ser
proscritos da cidade. O uso do dinheiro para fazer trocas e retirar
disso o máximo lucro corrompe a alma humana e como tal é
condenável. Trata-se da crematística pura, o setor não econômico
da crematística. Na Política, Aristóteles explica que fazem parte
dela o comércio exterior (e, portanto, as atividades de exportação e
importação devem ficar a cargo de estrangeiros), o trabalho assala-
riado (“o fato de se vender o próprio trabalho por dinheiro”), a
formação de monopólio (“o açambarcamento de toda a quantidade
disponível de uma mercadoria a fim de a revender muito cara”) e o
empréstimo a juros, a atividade mais condenável de todas. A Figura
1.1 abaixo resume essas ideias esclarecendo as diferenças entre
economia e crematística.
Nas condições em que a troca seja necessária como parte da
economia, há de se observar a justiça no estabelecimento dos con-
tratos. Neste ponto o conceito ético de justiça, exposto em Política
e na obra Ética a Nicômaco, é aplicado nas trocas; é quando apare-
cem as reflexões aristotélicas sobre o valor dos bens que lançam as
bases do pensamento econômico que se farão presentes no
nascimento dessa ciência no século XVIII. Aristóteles concebe a
justiça em sociedade com base na noção de igualdade proporcional:

20
dar mais àqueles que merecem mais. As trocas devem obedecer a
um critério de reciprocidade.

Figura 1.1 Diagrama identificando os conceitos de economia e


crematística em Aristóteles.

ECONOMIA CREMATÍSTICA
(Natural) (Artificial)

Necessidades atendidas Trocas para o Obtenção de riquezas pelo


pela apropriação de acolhimento de comércio ou pela atividade
necessidades financeira
seres vivos

O que é considerado mérito depende da sociedade em questão,


muito embora o filósofo apregoe que a virtude deva ser o critério
maior. No caso dos contratos, a discussão da reciprocidade nas
trocas lança sementes de um aspecto fundamental do pensamento
econômico: qual o critério que regula as proporções trocadas dos
bens? Aristóteles, nesse aspecto, oscila de posição, primeiro ele
pensa que as partes devam receber de acordo com o trabalho
despendido na obtenção do bem. Tal tese antecipa o que será aceito
entre os economistas clássicos como a teoria do valor-trabalho. O
Filósofo, porém, está ciente das dificuldades dessa medida de
mérito, primeiramente pelas diferenças qualitativas entre traba-
lhos de naturezas distintas e depois pelo preconceito grego, muito
arraigado, contra o trabalho, o que torna difícil elegê-lo como
elemento de mérito regulador das trocas justas. Assim, o estagirita
parte para outro princípio que deveria regular as trocas: a impor-
tância da necessidade atendida pelo bem. Ciente de que isto envol-
ve o conhecimento de avaliações subjetivas, ele mostra-se céptico
quanto à possibilidade do uso deste critério na avaliação moral de
situações econômicas concretas. Assevera que, na prática, os bens
são avaliados pela moeda e que os valores monetários devem então

21
refletir os diferentes graus de necessidade. Não há, de fato, muito
aprofundamento na questão. Importa assinalar que Aristóteles
lança e discute superficialmente as duas principais vertentes do
pensamento econômico na explicação do valor: a teoria do valor-
trabalho e a teoria do valor-subjetivo.
Em sua obra Política, Aristóteles discorre sobre a natureza da
moeda. Descreve como ela surgiu historicamente e diz que a moeda
veio a ser adotada por sua função de meio intermediário entre os
bens: instrumento de comparação de valores e facilitador das tro-
cas. O Filósofo aponta também para a função da moeda como
reserva de valor, antecipando uma noção importante na moderna
teoria monetária.
Outra questão monetária investigada por Aristóteles per-
gunta se o valor da moeda depende do valor do metal precioso
contido nela (metalismo) ou se aquele valor provém da autoridade
de um governo que a põe em circulação (nominalismo). Entre os
defensores da interpretação nominalista da moeda aparece Platão
nas Leis. Aristóteles, sem aderir a ela, também não se sente
inteiramente convencido da posição metalista que atribui valor
intrínseco à moeda. Para ele, tanto as propriedades físicas quanto
o costume do povo e a força da lei explicam a natureza da moeda.
Outro pensador com ideias econômicas destacadas na Anti-
guidade grega foi Xenofonte (430-354 a.C). Originário de uma
família rica e influente em Atenas, foi soldado, mercenário e
discípulo de Sócrates. Autor de inúmeros tratados práticos sobre
assuntos que vão desde equitação a tributação.

O PENSAMENTO ECONÔMICO ENTRE OS ROMANOS


Anteriormente ao século V a.C., Roma à época de Aristóteles
ainda não era uma cidade importante. Sua sociedade aristocrática
separava os homens entre nobres e plebeus, havendo em cada um
dos estamentos ampla subdivisão de grupos ordenados pela
riqueza. A partir de então, essa cidade começa a desenvolver um
crescente poderio até se constituir no maior império da Antigui-
dade em extensão e riqueza, que durou cerca de mil anos até sua
completa desintegração entre 535 e 540 de nossa era. O desen-
volvimento do império romano acompanha a decadência da civili-
zação helênica pela dispersão de seus povos, instabilidade política
e guerras internas. Após ter sido subjugada pelos reis da Mace-
dônia, a Grécia é por fim anexada ao império de Roma em 146 a.C.
Toda a orla do mar Mediterrâneo teve esse mesmo destino. A

22
conquista dos povos mediterrânicos fez parte da estratégia da
aristocracia romana que, por meio de pilhagem, comércio e
deportações em massa, logrou grande êxito em seu enrique-
cimento. O poder está nas mãos dos grandes proprietários que, já
em 312 a.C., dominam a Assembleia Centurial em detrimento de
outras classes sociais. O regime republicano mantém-se coeso
graças a concessões calculadas que vão sendo paulatinamente
feitas à plebe e ao combate encarniçado contra os escravos rebe-
lados sob a liderança de Sálvio, Atenião e Espártaco, em diferentes
momentos, até a derrota definitiva desses movimentos em 71 a.C.
O período áureo de Roma ocorre na fase imperial que se estabelece
em 27 a.C. com a tomada do poder por Augusto. As liberdades
políticas são abolidas e um Senado, sem poder, fornece os quadros
dirigentes de governadores de províncias e generais.
Nessa fase, uma intensa atividade econômica verifica-se
espalhada pelo império. A elite de Roma desenvolve hábitos sofisti-
cados e de toda parte afluem bens de consumo na satisfação de seus
desejos. Desenvolve-se o comércio entre regiões, também facilitado
pela adoção de moedas para intermediar as trocas. Instituições de
crédito similares ao cheque e notas promissórias eram conhecidas
e usadas. Há banqueiros profissionais e até um banco público para
supervisionar suas atividades. O governo tem de enfrentar proble-
mas econômicos típicos da era moderna como crises monetárias e
fiscais, falta de ouro, balança comercial deficitária e inflação. Os
imperadores intervêm de muitas formas na vida econômica:
fixando preços, tabelando os juros, protegendo devedores, inspe-
cionando a qualidade dos bens nos mercados, confiscando merca-
dorias defeituosas ou estragadas. Também atuam com medidas
contra a competição estrangeira, outras que regulam o uso das vias
públicas, que proíbem a exportação de metais preciosos e até
organizando as profissões em corporações obrigatórias.
Com tudo isto, era de se esperar que o pensamento econômico
tivesse grande desenvolvimento no período, mas tal fato não
ocorreu. Pelo contrário, há uma relativa estagnação entre os
romanos em relação às reflexões políticas e econômicas dos povos
gregos. Isso se explica pelo fato de a cultura romana ter desenvol-
vido um viés bastante pragmático: os romanos são homens de ação
e estão mais preocupados com ideias concretas sobre relações
econômicas, de aplicação imediata nos negócios do dia a dia, e
menos voltados à análise puramente teórica. A principal fonte de
ideias econômicas na Roma Antiga localiza-se no sistema de leis. Há
um pensamento econômico original e fértil entre os juristas
romanos. Na elaboração das leis com impacto na economia, tais
23
juristas tendiam a dar menos importância a considerações éticas e
religiosas. A inclinação predominante era ver a esfera econômica
como dominada pela ação de forças impessoais. Tal fato representa
um afastamento em relação aos povos antigos que não separavam
a esfera econômica da dimensão ética e política; contudo, não se
pode exagerar a interpretação a ponto de se falar em teorias de
sistema econômico imbuído de racionalidade própria. A partir dos
romanos, porém, inicia-se um caminho em direção a essa perspec-
tiva, que somente se desenvolve no nascimento da economia como
ciência no século XVIII.
Contudo, não se pode negar que as concepções filosóficas e
teológicas também tiveram alguma influência no pensamento
econômico do período, mesmo levando-se em conta que pouca
filosofia original sobre política, Estado e vida social aparece entre
os romanos. Roma esteve sob a influência de duas doutrinas filosó-
ficas principais: o epicurismo e a filosofia estoica. Epicuro viveu em
fase decadente da civilização grega, entre 341 e 270 a.C., e suas
ideias refletem a percepção de um período em que os valores dessa
civilização estão sendo questionados. Assim, suas crenças desde-
nham do legado aristotélico; a filosofia política peripatética é posta
de lado e com ela a tese de que a sabedoria somente seria alcançada
com a ajuda da cidade. A ênfase recai agora no indivíduo isolada-
mente considerado em uma concepção materialista. Nela, a reali-
dade é composta de átomos materiais que se combinam mecani-
camente para formar os corpos sensíveis, como nos filósofos pré-
socráticos. Os deuses que existem são também corpos materiais, só
que inteiramente estranhos ao resto do mundo. O homem deve
abandonar o mundo da cidade e voltar-se para si mesmo, adotando
o comportamento hedonista de maximizar sua própria felicidade
ao longo da vida, pelo cultivo moderado do prazer carnal e da
amizade.6
O estoicismo foi a principal influência filosófica sobre as con-
cepções legais e o pensamento econômico de Roma. Ele conjuga
tendências idealistas e materialistas e representa, em relação ao
epicurismo, um afastamento menor de Aristóteles. A concepção
moral dos estoicos retém de Aristóteles a explicação teleológica do
mundo pelos fins que se persegue, em detrimento do modelo
mecânico de Epicuro. Aliado a isso, há uma dose de fatalismo que
apregoa a resignação diante do mundo, o que leva a uma indife-

6Esta idéia antecipa as concepções utilitaristas que serão desenvolvidas


entre os séculos XVIII e XIX e que terão certa influência no pensamento
econômico moderno.
24
rença em relação à sociedade e seus problemas. A felicidade consis-
te no domínio de desejos e paixões. O sábio deve seguir a ordem
intangível e divina da natureza, submetendo-se, por sua própria
vontade, às leis naturais. A felicidade está na adesão da razão
particular à razão presente na ordem universal. A razão soberana
da natureza revela-se diretamente à consciência individual dizendo
ao homem o que deve e o que é proibido fazer, conferindo às leis
um valor absoluto. Com o tempo, as leis romanas vão tornando-se
cada vez mais divorciadas da religião e menos guiadas pelos
costumes locais, já que são fundadas em princípios gerais de
racionalidade, ligados à noção grega de natural (jus naturale). O
conceito de lei natural terá uma grande influência na doutrina
jurídica de Roma e também entre os filósofos morais da época,
principalmente Cícero e Sêneca. No século XVIII, a ideia de lei
natural será retomada pelo pensamento dos fisiocratas e de Adam
Smith.
A ênfase da lei em elementos impessoais leva ao desenvolvi-
mento de um sistema legal científico que prioriza os direitos do
indivíduo mais do que os de comunidades como famílias e clãs.
Desenvolve-se então a liberdade de contrato e o direito individual
de dispor da propriedade. O reconhecimento legal das instituições
da propriedade privada e do contrato favoreceu os processos
econômicos e também foi importante para a evolução do pensa-
mento econômico.
O sistema de direitos privados individuais foi, de fato, a grande
contribuição intelectual dos romanos. Ideias e preceitos econômi-
cos são discutidos pelos juristas de Roma. Eles conheciam a insti-
tuição da moeda e sabiam de sua vantagem para as trocas. Eram
metalistas, pois achavam que a moeda tinha um valor intrínseco
que não poderia ser estabelecido por lei. No período romano, os
juros sempre estiveram fixados ou controlados por decretos. Já em
450 a.C., a Lei das Doze Tábuas fixa os juros, condena a usura e
busca diferenciar juros de usura. Em 357 a.C. os juros estão fixos
por lei em 10% ao ano e, dez anos depois, em 5%. Na sequência, as
leis genucianas proíbem completamente os juros. As leis
justinianas fixam os juros entre 4 e 8% de acordo com as caracte-
rísticas do empréstimo. Na prática, entretanto, a lei era letra morta,
pois as taxas de juros variavam com as condições de mercado. De
fato, as leis foram tornando-se mais flexíveis com os juros à medida
que o império enriquecia e os empréstimos generalizavam-se. Em
geral, as taxas praticadas eram muito maiores nas províncias mais
distantes, chegando a quase 50% ao ano em alguns casos.

25
O Direito Romano também tecia ideias sobre preço e valor
econômico dos bens. Havia um senso prático nessa questão. A
referida Lei das Doze Tábuas deixava os preços ao sabor do merca-
do. O preço era visto como resultante dos processos de regateio no
mercado, nos quais cada parte tendia a fazer seu ponto de vista
prevalecer. Os juristas romanos não analisam as forças que
determinam o preço final da transação, mas com o tempo surgem
discussões sobre o preço justo (verum pretium). A noção de preço
justo será depois retomada pelos padres da Idade Média e ela está
na base da ideia moderna de preço de equilíbrio. Um aprofunda-
mento na questão do valor aparece nos filósofos morais Cícero e
Sêneca. Eles reconhecem a importância do desejo humano e da
utilidade do bem na determinação do valor. Com o crescimento do
comércio e do crédito, os romanos passam cada vez mais a ver a
“utilidade” como o fundamento para o valor de troca dos bens.
Nos últimos dois séculos antes da queda do império romano, a
percepção da decadência estimula o desenvolvimento de ideias
econômicas e das iniciativas de intervenção do Estado nas ativi-
dades econômicas enquanto um paliativo para evitar o desastre
anunciado. Em 301 de nossa era, Diocleciano fixa nos contratos um
preço justo com base no custo tradicional de produção. Cresce, a
partir de então, as tentativas de limitar os contratos introduzindo
considerações éticas.
Embora encontremos no Direito Romano uma visão renovada
dos processos econômicos, menos embebida de considerações
éticas e religiosas, não se pode dizer que se tenha abandonado por
essa época o antigo preconceito e desdém contra o trabalho e a
atividade econômica. O filósofo Cícero, no século I, afirma que os
homens ocupados em trabalhos manuais são de fato inferiores e
possuem uma natureza servil. Ele também condena a atividade
crematística que visa tão somente ao lucro e ao empréstimo a juros.
Diz que “quem empresta dinheiro assassina um homem”. Cícero
posiciona-se contra o comércio e a contratação de mão de obra
assalariada. Em geral, os filósofos morais de Roma condenam os
luxos e os vícios da época, a sede de dinheiro e de riqueza, e pedem
moderação e comedimento na vida econômica. Fazem a apologia da
vida simples dedicada à agricultura, como nos tempos remotos, e
apregoam uma volta à natureza.
Entre os romanos, entretanto, constata-se algum progresso na
mentalidade antieconômica. Há a defesa da propriedade que é tida
como legítima se adquirida conforme ao direito. Mesmo a riqueza
não é tão execrada como antes. Sêneca diz que a riqueza fornece ao

26
homem sábio uma matéria para ele desenvolver suas qualidades,
desde que ganha de modo honesto. Os mercados e o processo de
formação de preços são mais bem compreendidos. Os devedores
são protegidos por lei e estão salvos contra a escravidão. Na
ausência de fraude, o comprador não pode processar o vendedor.
Há em Cícero argumentos sobre o papel da divisão do trabalho. A
escravidão, embora generalizada no império romano e embora se
encontrem filosóficos que a justifique, é condenada com base em
argumentos econômicos nos escritos que tratam dos princípios
práticos das propriedades agrícolas, dos autores romanos Varrão,
Catão e Columella.
Os romanos não acrescentaram muito ao pensamento
econômico, não desenvolveram teoria nessa disciplina. No entanto,
o estudo de suas doutrinas jurídicas e filosóficas é importante para
uma compreensão da evolução do pensamento econômico. Não se
pode negar que houve um avanço na interpretação econômica
entre os romanos e talvez falte na literatura especializada em
história das ideias um maior aprofundamento no período em
questão.

27
Questões

1. Até que ponto é possível identificar uma doutrina econômica


separada das questões políticas, éticas e religiosas entre os
pensadores da Antiguidade?
2. Por que se diz que o advento do capitalismo favoreceu a
definição de um objeto racional de estudo para a ciência
econômica?
3. Sabe-se que entre os judeus e os hindus antigos as leis que
afetavam a vida econômica não eram aplicadas igualmente a
todos os cidadãos. Comente algumas discriminações feitas por
elas.
4. O que levou judeus e hindus antigos a uma postura interven-
cionista na sociedade?
5. Qual a relação entre a defesa do laissez-faire na sociedade e a
concepção mística do Tao em Lao Zi?
6. Explique a noção platônica de sociedade como instrumento para
a salvação das almas.
7. Na lenda de Protágoras que narra a origem da vida em
sociedade, por que é preciso que Hermes presenteie os homens
com as qualidades morais de justiça e respeito?
8. Em sua obra A república, Platão narra o diálogo entre Sócrates,
Céfalo e os irmãos Glauco e Adimanto. Numa passagem inicial,
os interlocutores estão a discutir o conceito ético de justiça.
Exponha os argumentos de cada um deles e a estratégia de
refutação adotada por Sócrates. O que é a cidade justa para
Platão (Sócrates)?
9. Os gregos posicionam-se diante da questão sobre a natureza das
leis humanas formulando ao longo do tempo diferentes concep-
ções. Comente a evolução dessas ideias e o significado das leis
para Platão e Aristóteles.
10. Qual a causa apontada por Platão para o nascimento das cida-
des?
11. Como está organizada a sociedade ideal de Platão?
12. Quais os argumentos utilizados por Platão e Aristóteles na
defesa de suas concepções sobre a propriedade dos bens?

28
13. Quais as principais diferenças entre a concepção filosófica de
Platão e de Aristóteles?
14. Qual a diferença entre crematística e economia?
15. No que consiste a noção de causalidade final em Aristóteles?
16. O que Platão e Aristóteles escreveram a respeito dos escra-
vos? Havia uma condenação moral à escravidão?
17. O que deveria regular as trocas de bens para Aristóteles?
18. No Império Romano, até que ponto as concepções éticas sobre
a riqueza e a propriedade afetaram a legislação que regulava a
vida comercial do Império?
19. Como era vista a escravidão pelos autores romanos que
escreviam sobre princípios para a agricultura? Você concorda
que a escravidão coloca um limite à expansão econômica e à
inovação tecnológica?
20. Comente os principais pontos da filosofia de Epicuro.
21. Como a ideia estoicista de lei natural afetou o direito romano?
22. É correto afirmar que os romanos mantêm o antigo preconcei-
to contra a atividade econômica? O que há de novo entre eles
nesse aspecto?

29
Leitura Adicional

Literatura Primária

ARISTÓTELES. Organon, livro IV: analíticos posteriores. Lisboa:


Guimarães Editores, 1987. (Coleção Filosofia e Ensaios.)

LAO TSE. Tao Te King. São Paulo: Pensamento, 1978.

PLATÃO. A república. São Paulo: Nova Cultural, 1997. (Col. Os


Pensadores.)

_____. Protágoras. São Paulo: Matese, 1965.

Literatura Secundária

DENIS, Henri. História do pensamento econômico. Lisboa: Livros


Horizonte, 1993.

DURANT, Will. A história da filosofia. Rio de Janeiro: Nova Cultural,


1996.

EKELUND JR., Robert; HÉBERT, Robert F. A history of economic theory


and method. New York: McGraw-Hill, 1990.

GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. Lisboa:


Difusão Cultural, 1994.

HANEY, Lewis H. History of economic thought: a critical account of


the origin and development of the economic theories of the
leading thinkers in the leading nations. New York: Macmillan,
1949. cap. 3 a 5.

RANDALL, John Herman; WOODBRIDGE, Frederick J. E. Aristotle. New


York: Columbia University Press, 1960.

30
2
A Evolução das Ideias
Econômicas
na Idade Média

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO ROMANO E


A FORMAÇÃO DE UMA NOVA SOCIEDADE
Nos dois últimos séculos da dominação romana, o Império não
consegue mais manter a mesma força militar e o elevado grau de
coesão política e ordenamento jurídico que no passado fizeram sua
glória. Há uma estagnação econômica. As antigas instituições
entram em decadência e novo conjunto de crenças religiosas
emerge, então sob influência do cristianismo. Depois de séculos de
perseguição implacável, em 313 o imperador Constantino legaliza
o culto cristão. Ele próprio veio a aderir à nova religião. O
cristianismo convertera os europeus começando pela periferia do
Império e nas áreas rebeladas dos povos bárbaros. À medida que
legiões de bárbaros germanos e eslavos invadiam o império, suas
crenças cristãs iam alastrando-se em direção a Roma. Constantino
chegou ao poder com o apoio dos germanos e, em contrapartida,
autoriza suas práticas religiosas cristãs. A nova sociedade, que
começa a se formar a partir de então, é um amálgama de tradições
que reúne as antigas instituições romanas, os costumes dos bárba-
ros, o credo da Bíblia e aspectos de filosofia grega.
A sociedade germânica organiza-se em vilas rurais constituí-
das por grupos autossuficientes de famílias, nos quais se pratica
entre eles certa democracia e observa-se também igualdade de
riquezas. Predomina um sentimento de solidariedade, ao mesmo
tempo em que a vida econômica é controlada. Não havia moeda e o
comércio apenas era tolerado. As leis romanas, com base nos
direitos individuais de propriedade, dão lugar aos costumes

31
teutônicos que, embora também reconheçam a individualidade do
cidadão, conferem precedência aos hábitos da comunidade. A
nítida divisão entre direito público e privado, como nos romanos,
não se observa e os direitos absolutos de propriedade são substi-
tuídos por uma noção de propriedade relativa e mutável de acordo
com interesses comunitários. Observa-se uma gradação de diferen-
tes tipos de propriedade. Na atividade agrícola, o arado e outros
instrumentos pertenciam aos indivíduos, mas a posse da terra era
limitada pelo tipo e pelo uso que se fazia dela; iam de terras
comunais, sem proprietários, a glebas particulares. Não somente a
posse da terra, mas também a época do plantio e a técnica do
trabalho agrícola eram ditadas pelos costumes da vila. Em qualquer
setor da vida econômica os planos da comunidade vinham em
primeiro.
A ênfase das leis romanas nos direitos individuais aparece,
entre os germânicos, com nova roupagem, na qual mais impor-
tante que garantir o acesso à propriedade é a defesa de direitos e
obrigações pessoais estabelecidos pela natureza da vinculação à
terra. O sentimento de fraternidade germânico responde por um
tipo de sociedade rural com elevado nível de coesão garantido pelo
paternalismo e pelo sentido de obrigação para com o superior, que
vincula fortemente, de cima a baixo, os estamentos sociais. As
tradições germânicas mostram-se compatíveis com os preceitos do
cristianismo e a proximidade entre eles facilitara a difusão da
religião cristã e a construção de instituições que iriam perdurar por
mais de um milênio.
No período final do Império Romano floresce a doutrina do
cristianismo em sua fase primitiva. Os evangelhos do Novo
Testamento difundem uma ética herdada da tradição judaica.
Cristo perpetuou e difundiu tal tradição ao pregar certa indife-
rença em relação à sociedade e defender o caminho da salvação da
alma pela caridade e combate ao egoísmo dos homens ricos. A
ganância e o individualismo de uma sociedade atomizada são
substituídos pela visão idílica de unidade social por meio da
correção ética de seus membros. Cristo realça a dignidade funda-
mental do homem ao pregar a igualdade de todos perante Deus.
Isso certamente trouxe implicações em termos de uma nova visão
dos processos econômicos em que a escravidão é condenada e o
trabalho passa a ser visto como uma atividade digna. O apóstolo
Paulo fazia a exaltação ao trabalho, estabelecendo entre seu grupo
diminuto de cristãos o princípio da obrigação de trabalhar e da
repartição dos bens pela contribuição dada. O acúmulo de riquezas
é reprovado e o cristão ideal, reforçado em muitas passagens do
32
evangelho, principalmente em Lucas, deve procurar repartir seus
bens.
Seguindo os preceitos do Evangelho, os primeiros padres da
Igreja Católica defendem o regime comunista de sociedade. No
século III, Cipriano, bispo de Cartago, diz que é dever dos cristãos
partilhar os bens. No século seguinte, Basílio estende o comunismo
interpretando-o não apenas como partilha, mas sendo também a
existência de uma vida em comum ou união completa entre todos
pela fraternidade cristã, o que significa comunhão de sentimentos
e de interesses, dentro de uma comunidade inteiramente coesa
voltada ao desenvolvimento espiritual de seus membros. Há
também os que encontram um argumento econômico a favor do
comunismo cristão. O arcebispo de Constantinopla, João Crisósto-
mo, no fim do século IV, acredita que a riqueza social se desenvolve
no regime comunista impulsionada pela concórdia e união das
vontades. Destaca-se então o aparecimento, por essa época, de
argumentos favoráveis à riqueza, embora Crisóstomo fale em
enriquecimento com comedimento e frugalidade (mais a riqueza
da sociedade que a individual). A ânsia de acumular riquezas
permanece condenável, assim como a ganância, a avareza, o
egoísmo, o amor às coisas materiais e outros “pecados” econômi-
cos. Entretanto, a atitude dos padres da igreja primitiva com
relação à riqueza começa a mudar. Na Bíblia, os outros evangelhos
não condenam a riqueza enquanto tal e, de fato, Lucas é dentre os
evangelistas o que mais enfaticamente prega a igualdade entre os
homens. Valendo-se disso, e preocupados com os mais ricos e
poderosos entre os adeptos da igreja, que depositavam fartamente
o dízimo, os padres da época buscam argumentos para mostrar que
os ricos não estavam automaticamente condenados e os pobres não
haveriam de conseguir a salvação apenas pela miséria material.
Clemente de Alexandria escreve, em A salvação do homem
rico, como este pode adentrar o reino do céu, se for honrado e tiver
consciência de que sua fortuna é uma dádiva de Deus. Como tal, ela
deve ser usada na caridade, para promover o bem-estar dos
semelhantes. A riqueza não é condenável em si mesma, o impor-
tante é o uso que se faz dela. Ambrósio (339-397) também diz que
a riqueza deve ser corretamente usada. Os ricos têm um conjunto
de obrigações e devem agir de modo paternalista em relação aos
pobres.
Os cristãos acreditavam que, à medida que os convertidos à
nova religião praticassem a caridade e observassem a responsabi-
lidade de uns para com os outros, surgiria uma nova sociedade, na

33
qual se viveria em paz e felicidade com a plena comunidade dos
bens. O sonho utópico dos cristãos era reforçado pelas teses
milenaristas da Bíblia que falavam em um mundo melhor, como no
Apocalipse de João no qual se previa, em mil anos, a queda do
Império Romano e o nascimento da sociedade ideal. Nem todos os
padres, contudo, renderam-se ao milenarismo. Agostinho (354-
430), em A cidade de Deus enfatiza a regeneração das almas no
lugar das cidades. A indiferença de Cristo para com a sociedade
terrena é reforçada e transformada em uma doutrina que prega
abertamente o desinteresse a respeito da vida econômica e política.
Toda a organização social deve estar voltada ao plano espiritual. Ao
Estado cumpre a função principal de ajudar a Igreja na salvação das
almas e a própria autoridade do rei é tão somente um instrumento
a serviço da religião. A ênfase na existência do outro mundo,
entretanto, não impediu Agostinho de tecer comentários sobre a
organização da sociedade. Ele critica as instituições sociais, ao
mesmo tempo em que defende o respeito a elas. Destoando da
condenação cristã à escravidão e fazendo concessões aos romanos,
ele encontra argumentos que a justifique. A escravidão não é uma
instituição natural, pois Deus criou os homens para dominarem os
animais e não os outros homens. Entretanto, os escravos merecem
essa condição porque Deus desejou que fossem vencidos na guerra:
“Toda vitória, mesmo a que obtêm os maus, é um efeito dos
justos juízos de Deus, que humilha com ela os vencidos, quer
os queira emendar, quer os queira punir.” (Apud H. Denis,
História do pensamento econômico)
Essa era a situação do pensamento social quando na Europa
inicia-se a Idade Média.

O PAPEL DA ÉTICA CRISTÃ NA ORGANIZAÇÃO


DA VIDA MEDIEVAL
O largo período que vai da queda do Império Romano, entre os
séculos V e VI (o último imperador romano morreu em 476), ao
final do século XV, época do início das grandes navegações, delimita
o que se conhece como Idade Média. É vantajoso estudar o período
dividindo-o em duas épocas. A primeira preside às mudanças radi-
cais no estilo de vida europeu com o desaparecimento de cidades e
a acentuada ruralização. Muitas das práticas romanas são esqueci-
das e a Europa entra em período de menor fervor cultural. O poder
político pulveriza-se ao mesmo tempo em que, lentamente, vão-se
consolidando as instituições medievais. Essa etapa vai até o ano de

34
1200 e corresponde também ao apogeu da civilização islâmica.
Enquanto a Europa mergulha na Idade das Trevas, os povos árabes
conquistam grande império, que em 730 incorpora desde a Espa-
nha e o sudoeste da França, passando pelo norte da África e o
Oriente Médio, até as longínquas fronteiras da Índia e da China.
O Império Islâmico destaca-se por seu refinado padrão de vida
e por sua cultura na qual se valorizam a literatura, a ciência, a
medicina e a filosofia. Sabemos que os árabes travaram contato
com diversos povos, conheceram a sabedoria hindu, preservaram e
desenvolveram o conhecimento grego em matemática, física,
química e astronomia. É possível que eles tenham tido um papel no
desenvolvimento do pensamento econômico, porém pouco se sabe
a esse respeito. Há, de fato, carência de estudo nesse assunto. A
relevância dos árabes no pensamento econômico começa com a
grande contribuição que foi o sistema de números inventado por
eles. Os números arábicos (indo-arábicos) facilitaram as tarefas
aritméticas e certamente impulsionaram os processos de
contabilização econômica e o desenvolvimento de uma primitiva
econometria. No entanto, não se conhece uma teoria econômica
árabe, embora eles soubessem das reflexões de Aristóteles sobre o
valor dos bens. O mais importante para nossos propósitos é que os
árabes preservaram e traduziram os clássicos remanescentes da
filosofia grega. Quando em 1085 os europeus retomam Toledo, na
Espanha, e para lá afluem acadêmicos em busca dos clássicos
antigos, a Europa desperta de seu sono e recupera novamente o
gosto pela filosofia; o que viria a ter uma importância muito grande
no desenvolvimento do pensamento econômico pelos padres
escolásticos nos próximos quatro séculos que se seguiram.
A segunda etapa da Idade Média, tal como estamos caracte-
rizando, vai de 1200 a 1500. O grande divisor de águas foi o
renascimento filosófico impulsionado pelo resgate da filosofia
grega. Tomás de Aquino (1225-1274) destaca-se então como o
pensador mais influente do período. É nesse segundo período
medieval que a análise econômica terá um significativo avanço.
Antes de discuti-lo, vejamos algo mais da etapa anterior. No feuda-
lismo constata-se a divisão do poder político. Não há um Estado
centralizador forte e sim um imenso conjunto de pequenos feudos
cuja base do poder está na propriedade da terra. Os proprietários
são os senhores que estão inseridos numa malha de relações
políticas com outros senhores. No topo dela está o rei, descendente
de antigo chefe da tribo primitiva que invadiu a Europa, e o poder
da Igreja. Os senhores possuem direitos e obrigações entre eles e
cada qual cuida de seus camponeses, homens ligados à terra e
35
inteiramente submetidos aos desígnios daqueles. Não podem ser
escravizados ou expulsos da terra. Os camponeses cumprem uma
série de obrigações, como transferir uma parte da produção
agrícola, pagar impostos e trabalhar alguns dias da semana nas
terras de uso de seu senhor. Em troca, os senhores dão-lhes prote-
ção, resolvem as disputas jurídicas entre eles, oficializam casa-
mentos e garantem alguns benefícios paternalistas. Há, portanto,
um sistema de obrigações e serviços mútuos regulado pelos costu-
mes do feudo, já que não existem, como na época do Império
Romano, leis escritas.
A produção artesanal regrediu por essa época. Predomina
então a atividade agrícola em pequena escala, usando-se técnicas
agrícolas primitivas. A atividade comercial é, de início, bastante
limitada, embora ela venha a crescer a partir do século XI. A base
da organização não está no contrato, mas nas relações de status. A
palavra empenhada, a promessa verbal e a defesa da honra valem
mais do que a lei escrita.
A sociedade medieval espelhou a hierarquia social de Platão
em A república. Na base, uma classe de trabalhadores camponeses,
acima dela os senhores seculares, com sua rede de lealdades
transferíveis de um senhor a outro, e no topo os senhores ecle-
siásticos: padres e bispos que deviam lealdade permanente à Igreja
de Roma. Como no modelo social platônico, a classe superior era a
repositória e guardiã do conhecimento. Seus representantes con-
templavam o mundo natural de olho no plano espiritual e desen-
volviam ideias teológicas imbricadas em alguma filosofia. A organi-
zação da vida social refletia as crenças religiosas e, como o ensino
religioso era monopólio da Igreja, existia de fato certa centralização
de poder em Roma, entretanto não nos moldes de um império.
Além de canalizar para si o poder e a riqueza, a principal
preocupação da Igreja era fazer prevalecer os preceitos éticos
cristãos. A ética cristã ditava a organização da vida medieval e ela
servira como cimento ideológico capaz de manter coesa a Europa
Medieval e proteger seus governantes contra a insurreição da
maioria de camponeses pobres. A ética paternalista, já que difundia
o comportamento altruístico entre os ricos, contribuía para
acalmar as tensões sociais.

36
O AVANÇO TECNOLÓGICO, O APARECIMENTO DAS CIDADES E O
DESENVOLVIMENTO DO COMÉRCIO E DA ATIVIDADE FINANCEIRA
A vida econômica na sociedade medieval era sustentada pela
atividade agrícola. Os feudos eram autossuficientes e quase nunca
produziam um excedente exportável. A partir do século XI, mudan-
ças tecnológicas aumentaram significativamente a produtividade
na agricultura e, com isso, pôde-se gerar crescentemente um
excesso de produção destinado ao comércio. A atividade comercial
dá origem a uma nova classe de homens enriquecidos sem vínculos
fortes com a antiga ordem social. São os portadores do elemento
que iria dissolver lentamente as relações feudais: a substituição dos
vínculos medievais que existiam entre as pessoas, legitimados pela
fé, por relações de mercado. Contudo, não foi uma transição linear;
muitas guerras, revoltas e retrocessos ocorreriam até que o capita-
lismo comercial substituísse o feudalismo nos países mais adianta-
dos da Europa.
O início das transformações sociais ocorre com as inovações
tecnológicas que ocorreram no século XI. Verifica-se primeira-
mente uma mudança no sistema de rodízio das culturas (Boxe 2.1).
A repercussão dessa prática na produtividade agrícola representou
um aumento de 50% no rendimento das lavouras. O aumento na
produção de aveias e outras forragens permitiu a expansão da
pecuária, pois mais animais podiam ser alimentados. Soma-se a
isso a utilização do cavalo em substituição ao boi, que se generaliza
tanto na aragem da terra como no transporte. A maior agilidade do
cavalo impulsiona a produtividade agrícola. Outras tecnologias
também se desenvolvem. Os arados de osso são substituídos por
equipamentos de madeira e depois se passa a reforçá-los com
pontas metálicas pelo desenvolvimento da metalurgia. Novos tipos
de adubos são inventados aproveitando-se os excrementos e os
restos orgânicos dos animais. A construção de carroças fora melho-
rando gradualmente até se chegar, no século XIII, aos modelos de
quatro rodas com pivô no eixo dianteiro. A primeira revolução
agrícola corresponde ao período de intensas inovações tecnológi-
cas na agricultura europeia nos séculos XI a XIII.
As consequências da revolução agrícola foram dramáticas. O
excedente de produção permite a expansão demográfica na Europa
cuja população cresce cerca de três vezes no período, gerando-se
assim um excedente de mão de obra. O enriquecimento de parte da
população possibilita mercado consumidor para as manufaturas,
cuja produção estabelece-se em núcleos urbanos em torno dos
feudos ou que se formaram nas feiras ao longo de rotas comerciais
37
pelo interior do continente. Tais aglomerações eram os burgos que
viviam à mercê dos senhores feudais. Em breve, alguns desses
centros transformam-se em cidades que pouco a pouco foram se
livrando da tutela dos senhores. O fluxo de manufaturas deu um
impulso adicional ao comércio que vinha desenvolvendo-se para os
produtos agropecuários. O aperfeiçoamento das carroças, a melho-
ria das estradas e a navegação costeira e dos rios permitiram o
comércio de longa distância. No século XI, também contribuiu para
impulsionar o comércio o fato político das Cruzadas: leva de euro-
peus que se deslocavam a pé até a Terra Santa com o fito de
expulsar dela os mulçumanos.

Boxe 2.1 Evolução do sistema de rodízio na agricultura.

Antes, a gleba era dividida em duas áreas. Ao longo do ano, cultivava-se


apenas a metade da terra enquanto a outra permanecia em repouso para a
recuperação de sua fertilidade. No ano seguinte, a terra em pousio era
explorada deixando-se a outra, que tinha sido cultivada anteriormente, em
descanso. Começa então, por essa época, a plena difusão entre os agricultores
da nova técnica de duas culturas por ano. A terra é dividida agora em três
campos. No primeiro há uma cultura de outono, com colheita na primavera,
em geral plantando-se centeio ou trigo. O segundo campo é cultivado na
primavera com sementes de aveia, feijão e ervilha, para coleta no próximo
outono. O terceiro campo permanece em pousio ao longo do ano. No ano
seguinte utiliza-se a terra que estava parada, uma das terras anteriormente
cultivadas fica em repouso e assim por diante, alternando-se os campos. Com
isso, apenas um terço do terreno permanece não cultivado, sem perda da
qualidade do solo.

A ampliação do comércio foi um fator de desintegração da


sociedade medieval. Muitas das obrigações mútuas entre o campo-
nês e o senhor ou mesmo entre os senhores, ditadas pela tradição
medieval, foram sendo substituídas pelo pagamento em dinheiro
de aluguéis e taxas. Com o aumento da renda dos camponeses,
algumas das obrigações em trabalho são substituídas por paga-
mentos em dinheiro. Outros deveres, como destinar parte da
produção ao senhor, também são transformados em pagamentos.
Com isso, camponeses viram simples arrendatários, e senhores
feudais tornam-se meros proprietários de terra. Tal processo, no
entanto, só se completa ao final da Idade Média, e nos países
europeus mais atrasados ele prossegue até o século XIX.
A transição de um modelo social a outro conheceu inúmeros
sobressaltos. No fim da Idade Média, a ocorrência de catástrofes era
38
acompanhada por tentativas de reintroduzir as antigas obrigações
feudais. A reação dos camponeses, por vezes, resultava em rebe-
liões que proliferaram pela Europa. A Guerra dos Cem Anos (1337-
1453) e a Peste Negra dizimaram a população, aumentando com
isso os salários e reduzindo a renda. Isso forçava os senhores a
buscarem recuperar direitos antigos como forma de compensar o
prejuízo. O que tendia a agravar o quadro de conflitos sociais.
As grandes feiras comerciais até o século XIV permaneceram sob
a tutela do senhor feudal. No último século do período medieval,
muitas delas tinham-se transformado em verdadeiras cidades comer-
ciais que conseguiram libertar-se do senhor feudal. Na ausência do
poder externo, as cidades buscaram criar suas próprias instituições. A
mais importante eram as Guildas, corporações que regulamentavam a
produção de manufaturas e as atividades financeiras e comerciais. Tal
instituição também intervia em questões sociais e religiosas.
A atividade financeira também se desenvolve no fim da Idade
Média. A doutrina cristã era contrária a empréstimo a juros, mas a
posição oficial da Igreja foi tornando-se mais flexível. Há passagens
bíblicas, como em Deuteronômio, em que se condena o juro. Com
base na Bíblia, no século IV o Concílio de Niceia bane a prática dos
juros entre os clérigos. No reino de Carlos Magno, a proibição é
estendida a todos os cristãos. A alegação é a de que é injusta a prática
da usura, na qual se recebe mais do que é dado.7 As leis contra a usura
permaneceram por séculos. Nos séculos XII e XIII, o desenvolvimen-
to econômico estimula a atividade financeira; aparecem os primeiros
banqueiros que recebem depósitos pagando juros por eles. A
doutrina econômica de cunho moral ia cedendo à prática econômica
e a Igreja passa a influenciar os reis para que permitam os juros, mas
regulem o valor cobrado. Os limites legais variavam de 10% ao ano
na Itália a 300% anuais em Provença. Os reis também passaram a
receber fundos mediante pagamento de juros. Frederico II pagava
aos credores juros de 30 a 40% ao ano, mais do que comerciantes
pagavam pelos empréstimos recebidos dos banqueiros, algo entre
10 e 25%, dependendo do tipo de crédito.
À medida que as cidades comerciais foram adquirindo autono-
mia, seus dirigentes procuravam estabelecer um código legal
preciso em substituição ao direito consuetudinário e paternalista
do feudalismo. As transações comerciais e financeiras foram então
regulamentadas por uma legislação comercial específica. Tal legis-

7Está implícito no raciocínio o conceito ético aristotélico de reciproci-


dade nas trocas.
39
lação permite incrementar o comércio por leis de contrato, pela
legalização das representações comerciais e das vendas em leilão,
e criar novos instrumentos e operações financeiras, tais como
letras de câmbio e outros papéis negociáveis, câmaras de liquida-
ção de dívidas etc.
É de se esperar que todo esse desenvolvimento da vida econô-
mica tenha de alguma forma contribuído para uma melhor
compreensão do processo econômico e do funcionamento dos
mercados. De fato, na etapa final da Idade Média (de 1200 a 1500)
um avanço não desprezível da análise econômica aparecerá nas
reflexões dos padres escolásticos do período.

O RENASCIMENTO DA FILOSOFIA E
A ANÁLISE ECONÔMICA ESCOLÁSTICA
O pensamento econômico na Idade Média, em seu período
avançado a partir do século XIII, será desenvolvido no interior dos
mosteiros onde padres cultos irão explorar e estender as reflexões
econômicas preexistentes inspirando-se nas traduções das obras de
Aristóteles. A mescla da filosofia peripatética com o pensamento
bíblico deu origem à escola escolástica que contribuiu significa-
tivamente para o avanço da reflexão econômica à época. Embora
ainda envoltos com falácias e preconceitos antieconômicos, os
escolásticos alcançam melhor entendimento dos mercados e dos
fenômenos relacionados de preço, valor e juro. Nas questões
econômicas, como de fato em todos os aspectos da cultura e da
teologia, sobressai-se o nome de Tomás de Aquino, o mais impor-
tante pensador escolástico do século XIII, que marcaria com suas
ideias todo o período restante da Idade Média. Aquino pode ser visto
como um divisor de águas entre os dois períodos medievais que
estamos considerando. A sombra de sua autoridade em filosofia e
religião ainda hoje se faz presente. Interessa-nos diretamente a
geração de grandes mestres escolásticos entre os séculos XIII e XIV
que no bojo de seus pensamentos disseram algo sobre a economia.
Entre eles destacamos Alberto Magno, Henry de Friemar, John Duns
Scotus, Jean Buridan e Geraldo Odonis.
A estratégia de exposição de ideias dos escolásticos resulta em
construção teórica edificada por um método peculiar. Dela faziam
parte argumentos estruturados em cadeia dedutiva de raciocínios que
procuram refutar uma posição contrária, inicialmente estabelecida,
mais pela lógica, pela fé e com base na autoridade, do que buscando
sustentação na experiência. Os escolásticos preocupam-se com a
40
questão moral e ao tratarem de economia irão interessar-se pelo
aspecto da justiça, mais especificamente com a justiça das trocas ou
justiça comutativa. Como vimos, essa era também a preocupação de
Aristóteles. De fato, os padres tomam dele o conceito de reciprocidade
nas trocas como ponto de partida para se aprofundar, esclarecendo
certos pontos e corrigindo ambiguidades.
O primeiro aspecto a ser ressaltado da reflexão econômica dos
padres medievais é a distinção entre “ordem natural” e “ordem
econômica”. Isso já se fazia presente séculos antes em Agostinho. Foi
dito, no capítulo anterior, que Aristóteles não separa a economia da
ordem natural. Em analogia, Agostinho acredita que moralmente a
economia não se distingue da ordem natural. Aceita, entretanto, que
por vezes os homens são levados a valorizar as coisas e ordená-las em
importância não pelo uso do critério legítimo das necessidades
naturais, mas pela consideração do prazer gerado pela posse e
usufruto delas. Na esfera natural, os bens são ordenados pela
importância que eles possuem no atendimento de necessidades
fisiológicas naturais, enquanto no âmbito das trocas econômicas
prevalece o critério da busca do prazer sensual que não tem direta-
mente uma base natural. Há assim a distinção entre necessidade e
prazer em Agostinho, que terá uma importância no desenvolvimento
do pensamento econômico no século XIII. Agostinho fornece uma
interpretação subjetivista do valor econômico, avaliado com base nas
necessidades humanas.
A separação entre ordem natural e econômica é base de toda
reflexão medieval sobre o valor, e a maneira como determinado
pensador concebe tal distinção matiza as posições particulares de
cada qual.8 Agostinho separa as duas ordens associando-as respec-
tivamente ao atendimento de necessidades naturais ou, como algo
distinto, de prazer sensual. O grande latinista Alberto Magno
(1206-1280), professor de Tomás de Aquino, considera que as
necessidades humanas diante da escassez dos bens, a que chama de
indigentia, sejam a medida do valor na ordem natural. Entretanto,
reconhecendo a separação do econômico em relação ao natural, ele
considera que na ordem econômica as coisas são avaliadas de outra
maneira. Os bens são vendidos em relação ao trabalho (em latim
opus) desprendido em sua obtenção e, sendo assim, o valor de troca
deve corresponder ao custo de produção (em trabalho e em outras
despesas). Se o preço de mercado de um bem não cobre seus custos

8 NaÉtica a Nicômaco de Aristóteles não há tal separação e o funda-mento


do valor parte do critério de reciprocidade nas trocas, sem chegar-se a um
porto seguro nas necessidades ou no trabalho requerido para a produção.
41
de produção ele cessa de ser produzido e enquanto permanecer
abaixo deles não haverá mercadoria disponível para atender a
todos que a desejam. Com isso, Alberto Magno acrescenta uma ideia
de equilíbrio de mercado à noção primitiva de valor em Aristóteles,
enfatizando o lado do custo em detrimento do papel da demanda.
A partir do século XIII, os preços começam a ser tratados como
valores de equilíbrio. Os pensadores identificam uma variável
econômica, no caso de Magno os custos, como fonte reguladora do
valor. No entanto, muito tempo restaria até uma clara compreensão
do processo de determinação dos preços com base em um modelo
sistemático que integre as considerações de oferta e demanda.
Tomás de Aquino rompe com seu mentor ao enfatizar as
necessidades ou desejos humanos em face da escassez dos bens, ou
seja, o conceito de indigentia em Magno, como sendo o ponto de
partida do valor econômico. Aquino desconsidera as diferenças
entre necessidade e prazer, enfatizada para separar a ordem
natural da econômica e, ao negligenciar tais diferenças, ofusca a
análise anterior do fenômeno das trocas. A noção tomista de
indigentia como fundamento do valor significa indiscriminadamen-
te necessidade humana ou prazer. Alguma noção do papel da
escassez dos bens também é importante na determinação do valor.
Pode-se dizer que, em Aquino, o valor depende da necessidade ou
prazer diante da escassez. A ordem natural dos bens corresponde
ao plano do criador e discutir a importância relativa que eles
adquirem nessa ordem é prerrogativa da teologia. A economia
discute o modo como os homens avaliam a importância dos bens e
Aquino afirma que o fazem comparando as utilidades atendidas por
cada bem nos respectivos montantes em que estão disponíveis. Na
esfera econômica, e não na natural como em Magno, os preços são
determinados pela indigentia.
Magno e Aquino posicionam-se, portanto, em diferentes linhas
interpretativas do legado de Aristóteles. Contudo, as diferenças
entre eles devem ser consideradas apenas uma questão de ênfase.
Ambos interpretam os preços como um processo de ajuste ao
equilíbrio e encontram uma variável básica reguladora do valor,
custos em Magno e indigentia em Aquino, mas também consideram
o papel, embora secundário, da outra variável em foco. Mesmo
aceitando as similaridades entre eles, é importante reconhecer que
suas nuanças interpretativas da Ética a Nicômaco, ponto de partida

42
de toda análise do valor no Ocidente, deram origem a diferentes
tradições.9
A introdução por Aquino do elemento “necessidade” na
fórmula dos preços foi um primeiro passo para o desenvolvimento
de uma análise da demanda. Entretanto, ele ainda estava longe de
compreender o mecanismo de mercado. Aquino vê a economia
como submetida a fatos morais, porém já percebia que as forças de
mercado não poderiam ser analisadas exclusivamente pela
consideração da noção de justiça. Começa a aparecer por essa épo-
ca consciência crescente da autonomia da esfera econômica. Os
padres escolásticos, que sucederam e deram sequência ao tomis-
mo, irão trabalhar as considerações de Aquino até alcançarem um
melhor entendimento da demanda efetiva e do papel dos desejos
humanos.
Aquino oscila entre a compreensão da vida econômica como
sistema e uma posição moralista, conservadora e preconceituosa
da economia. Embora tenda a acreditar que o preço de mercado
seja resultado objetivo de forças impessoais, ele despreza o espírito
comercial e acredita que o Estado deva controlar a atividade do
comércio pela imposição de sanções. A base normativa para o
estabelecimento delas era o conceito de preço justo (Boxe 2.2).
Escolásticos subsequentes irão interpretar o preço de equilíbrio no
modelo tomista como resultante de um designo divino e
equivalente ao preço justo.
As considerações econômicas tomistas não se limitam à ques-
tão teórica do valor. Aquino teceu inúmeros comentários éticos
sobre a vida em sociedade. Todas as relações econômicas e sociais,
para ele, emanam da providência divina. A divisão social de traba-
lho e de papéis individuais são necessárias e, para tanto, tornam-se
indispensáveis as distinções socioeconômicas, que todos os ho-
mens devem aceitar. Os que são agraciados pela riqueza devem
usá-la a fim de prestar serviços à sociedade. A riqueza e a insti-
tuição da propriedade privada são justificadas como uma condição
para a assistência aos pobres. O homem rico que não presta
serviços à sociedade deve ser nivelado ao ladrão comum. Para
inibir a acumulação desenfreada de riquezas, a usura deve ser
proibida, pois o juro é o ganho à custa dos semelhantes. Assim,
Aquino mistura uma ética conservadora e antieconômica com uma

9A ênfase nos custos como determinante do valor encontrou a maioria de


seus continuadores na Inglaterra, e a consideração da demanda dissemi-
nou-se pelo restante do continente europeu.
43
percepção da impessoalidade da esfera econômica, o que gera
tensões em seu pensamento e elementos de difícil reconciliação

Boxe 2.2 A noção tomista de preço justo.

O preço justo deve remunerar apenas o suficiente para reproduzir a


condição tradicional e costumeira da vida do comerciante, pagando pelo custo
usual de produção, pela distância e tempo de deslocamento do bem, pelo risco
de transporte, bem como pelo tempo e esforço requeridos na busca do
comprador. Toda prática de preços acima ou abaixo do valor justo seria uma
iniquidade, uma prática ilícita que deveria ser combatida a qualquer custo. O
valor impessoal de mercado, determinado pelo balanço das indigentias,
deveria de alguma maneira corresponder ao preço justo. No entanto, a relação
entre um conceito e outro não é bem esclarecida por Tomás de Aquino.
Enquanto preço justo era definido com base nos custos, o preço teórico
fundamentava-se no lado da demanda. Mesmo priorizando a noção de custo,
nem por isso a análise do preço justo, em Aquino, esteve apoiada apenas no
lado real da produção (análise objetiva). Pois, a ênfase tomista nos custos
enfatiza os sacrifícios do vendedor pensados também em termos subjetivos,
significando sacrifícios que o produtor avalia incorrer.

Um passo importante no aprimoramento das ideias de Aquino


para uma melhor compreensão da demanda de mercado foi dado
por Henry de Friemar (1245-1274). Sabemos que a moderna noção
econômica de demanda é agregativa, no sentido de que considera o
desejo de todos os compradores que participam do mercado. No
entanto, o conceito tomista de indigentia refere-se ao indivíduo
isolado. Friemar estendeu tal conceito ao concebê-lo como uma me-
dida agregada que engloba a somatória das quantidades desejadas
por muitos indivíduos. Indo além na análise, ele diz que o valor
depende dessas quantidades em relação ao que está disponível no
mercado, ou seja, depende da demanda em face da escassez. Um
bem pode apresentar preço baixo mesmo diante de forte demanda
se houver em abundância. Friemar percebe, com clareza, que o
preço é um fenômeno que depende também da oferta e de certa
forma ele incorpora esse lado quando diz que o valor é deter-
minado pelas “necessidades comuns de algo escasso”. Entretanto,
ainda está longe de um modelo satisfatório dos mercados, por não
possuir as ferramentas desenvolvidas pelos marginalistas do sécu-
lo XIX.
A associação entre indigentia e preço justo ensejou numerosas
controvérsias na Idade Média, que procuraram reconciliar o mode-
lo teórico tomista de determinação do valor, pelo balanço das
44
indigentias, com a norma moral do preço justo. Tentativas de
revisão do conceito, no sentido de melhor adaptá-lo como preceito
moral, aparecem em Johannes Duns Scotus (1265?-1308). A crítica
de Scotus começa por questionar se o desejo deve sempre ser o
determinante fundamental do valor. Diz que algo não é precioso em
si mesmo só porque a preferência do comprador é forte. Haveria
nessa concepção um elemento de imoralidade, pois é errado querer
tirar vantagem dos desejos intensos do comprador, como quem
negocia drogas a preços elevados explorando o desejo intenso do
viciado.
O conceito de preço justo leva em conta os custos e os sacri-
fícios do vendedor e uma parte desses sacrifícios é avaliada subje-
tivamente por ele. Ora, é justo que quem incorra em maiores
sacrifícios, ou que assim pensa fazê-lo, possa receber mais pela
mercadoria. Se o preço justo levasse em conta apenas um nível
ordinário de sacrifício, de fato ele impediria que os que produzem
na condição média viessem a auferir lucros expressivos ao cobrar
preços elevados, o que é bom já que “quem lucra muito vende o que
não é seu”. Contudo, o que dizer de quem produz com sacrifícios
acima ou abaixo da média? A noção de preço justo seria deter-
minada caso a caso e uma lei que controle os preços com base nesse
critério deveria ser bastante flexível e observar cada contexto, o
que de fato não ocorria na época. Há ainda outra questão: se
concordamos com Scotus que o vendedor não pode repassar aos
preços o desejo ardente do consumidor por não ser justo, então por
que é justo que ele repasse aos preços seu próprio desejo de ser
remunerado pelo sacrifício? As questões levantadas por Scotus
levaram Jean Buridan, reitor da Universidade de Paris, a dar um
grande passo na evolução da teoria escolástica do valor.
Jean Buridan (1295?-1360?), pensador escolástico que teceu
um grande número de comentários à obra de Aristóteles, contri-
buiu para o avanço da reflexão econômica com algumas revisões de
conceitos. Ele percebe que a solução dos problemas levantados por
Scotus demandava nova interpretação da noção de desejo. Na linha
de Friemar, ele formula a noção de desejo agregado como sendo o
determinante da demanda efetiva e, em última instância, do valor
econômico, levando-se em conta também o poder de compra dos
consumidores. Diferentemente dele, entretanto, o conceito de
indigentia em Buridan também se aplica à luxúria e não apenas às
necessidades naturais. A somatória dos desejos, qualquer que seja
sua natureza, o poder de compra dos demandantes e a situação de
oferta determinam simultaneamente o estabelecimento de um
estado de negócios justo ou normal. “O mercado é o melhor juiz do
45
valor” e quando para lá acorremos consideramos a avaliação do
mercado sem intervir nele. Buridan aproxima sua análise do
modelo moderno do mercado de concorrência e sua visão viria a
afetar o pensamento econômico na Europa continental, mais que na
Inglaterra. A pobreza é a condição de quem não tem o que deseja,
mas uma vez provido de recursos financeiros o pobre consegue
sancionar sua demanda, que irá depender também da utilidade que
atribua ao bem. Buridan diz que a utilidade é uma experiência
psicológica, mas ele enfatiza também as propriedades que os bens
possuem e que nos levam a desejá-los. Sua análise conduziu, cinco
séculos depois, ao moderno conceito de utilidade marginal.
Há um entendimento crescente ao longo da Idade Média de
que o valor é um conceito que depende tanto dos custos de
produção, destacadamente do trabalho, quanto de fatores de
demanda, tais como necessidades, desejos, indigentia e renda dos
consumidores. Friemar e Buridan já caminharam em direção a uma
síntese entre os dois lados, a oferta e a demanda. No começo do
século XIV, passos importantes em direção à síntese, que só seria
completada muito depois, foram dados pelos escritos do monge
francês da ordem franciscana Geraldo Odonis (1290-1349). Ele
percebeu que o trabalho humano é um componente importante
para o valor, mas que essencialmente o valor dos bens é conferido
pela sua raridade (em latim raritas). A raritas mede o grau de
escassez do bem em face das necessidades. É o inverso do conceito
de indigentia que avalia as necessidades diante da escassez e essa
inversão tem como consequência deslocar a atenção teórica dos
desejos humanos para a disponibilidade do bem.
Para Odonis, a teoria de Alberto Magno, que via o valor na
quantidade de trabalho, é unilateral, pois não enfatiza a relação do
trabalho com a escassez, esse sim o verdadeiro fundamento do
valor. Primeiramente é preciso notar que os trabalhos diferem
entre si no que tange à sua qualidade. O que determina as nuanças
de qualidade no trabalho é o grau de eficiência a depender das
diferentes habilidades produtivas dos homens. Odonis cria uma
teoria também para explicar as diferenças de salários. Munidos de
diferentes habilidades, os homens situam-se dentro de um espectro
de eficácias relativas, adquiridas a um custo diferenciado. Como
todo tipo de trabalho é escasso, dada a escassez de habilidades, os
produtos obtidos por ele também o são. O trabalho escasso, ao
restringir a produção de bens, gera a escassez. É por isso que o
trabalho regula o valor. Assim, tanto a teoria dos custos quanto a da
demanda são componentes de um princípio único no modelo de
Odonis. Embora falte maior articulação analítica de conceitos, a
46
solução de Odonis destaca-se por procurar uma síntese de
conceitos que incorpora demanda e custos na questão do valor.
Modelos como esse, que integram os dois enfoques, cairão em certo
esquecimento no século XVIII pela ênfase unilateral dos econo-
mistas ingleses na teoria do valor-trabalho. A Figura 2.1 sintetiza a
interpretação de autores medievais feita nesta seção.

Figura 2.1 Interpretação do valor econômico nos autores


medievais.

Aristóteles
Reciprocidade

Tomás de Aquino
Alberto Magno Indigentia e preço justo
Trabalho e despesas

Henry de Friemar
John Duns Scotus Demanda agregada e
Crítica à teoria do escassez
preço justo

Jean Buridan
Demanda efetiva,
utilidade e mercado

Geraldo Odonis
Raritas e habilidades
do trabalho

47
Questões

1. Por que os costumes da antiga sociedade germânica facilitaram


a incorporação dos preceitos do cristianismo?
2. Qual o tipo de regime de propriedade defendido pelo cristianis-
mo primitivo? Cite alguns pronunciamentos bíblicos que o justi-
ficam?
3. Quais os argumentos de Clemente de Alexandria e Frei Ambró-
sio na defesa do homem rico?
4. Qual é a crença básica do milenarismo e por que se diz que Agos-
tinho não aderiu a ela?
5. Por que a representação árabe dos números foi importante para
o desenvolvimento do pensamento econômico?
6. Por que se diz que a sociedade medieval imitou o modelo de
Platão em A república?
7. Quais os avanços tecnológicos que possibilitaram o desenvol-
vimento da agricultura a partir do século XIII?
8. De que modo o avanço do comércio afetou as relações sociais na
Idade Média?
9. Quem controlava o poder nas cidades medievais? Cite algumas
medidas intervencionistas nas cidades, que prevaleceram nessa
época.
10. Como Agostinho distingue a ordem natural da ordem econômi-
ca?
11. Qual o fundamento do valor para Alberto Magno e até que pon-
to ele já compreende o mercado como um processo de equilí-
brio?
12. Explique o conceito de indigentia.
13. Como Tomás de Aquino separa ordem natural de ordem eco-
nômica?
14. Comente esta passagem do capítulo: “Aquino oscila entre uma
compreensão da vida econômica como um sistema e uma
posição moralista, conservadora e preconceituosa da econo-
mia.”
15. O que para Aquino determina o preço justo? É possível conci-
liar a teoria do preço justo com a explicação dos preços pela
indigentia?

48
16. Cite e comente as críticas de Scotus ao conceito de preço justo.
17. Qual a crítica de Scotus ao uso do desejo humano como fun-
damento do valor?
18. Comente as inovações ao conceito de indigentia feitas por
Henry de Friemar.
19. O que determina os preços para Buridan?
20. Descreva como Geraldo Odonis conjuga as influências do
trabalho, do desejo e da escassez na determinação do valor.
Por que ele é visto como um modelo de síntese entre uma
teoria do valor-trabalho e a teoria do valor com base na de-
manda?

49
Leitura Adicional

Literatura Primária

AQUINO, Tomás de. Suma teológica. Porto Alegre: Sulina, 1980.

BÍBLIA SAGRADA. Antigo testamento: os cinco livros do pentateuco,


deuteronômio. Parte III: O Código Deuteronômico. 21. ed. São
Paulo: Ave Maria, 1975.

Literatura Secundária

DENIS, Henri. História do pensamento econômico. Lisboa: Livros


Horizonte, 1993.

EKELUND JR., Robert; HÉBERT, Robert F. A history of economic:


theory and method. New York: McGraw-Hill, 1990.

HANEY, Lewis H. History of economic thought: a critical account of


the origin and development of the economic theories of the
leading thinkers in the leading nations. New York: Macmillan,
1949.

HUNT, E. K.; SHERMAN, Howard J. História do pensamento


econômico. Petrópolis: Vozes, 1985.

50
3
Mercantilismo e
Cameralismo:
a expressão da economia
nos séculos XVI e XVII

MUDANÇAS POLÍTICAS E SOCIAIS E


INTERVENCIONISMO NACIONALISTA
Em 1763, Victor de Riqueti, o Marquês de Mirabeau (1715-
1789), cunhou a expressão mercantilismo para caracterizar o
conjunto de doutrinas econômicas dominadas pelo nacionalismo e
pelo intervencionismo que, presente no final da Idade Média, ganha
impulso nos séculos XVI e XVII. O mercantilismo é a contrapartida,
no plano das ideias econômicas, do ambiente intelectual e político
que acompanha o aparecimento de Estados nacionais centralizados
e fortes. Da perspectiva histórica, ele é considerado um período de
transição entre as práticas regulamentadoras da economia no
feudalismo, marcadas por fervor ético e religioso, e o nascimento
das concepções liberais no século XVIII. Também é o momento de
germinação da economia como ciência, que se consolida neste
último século. O mercantilismo abriga um grupo bastante hetero-
gêneo de autores, espalhados em várias nações europeias, princi-
palmente Inglaterra, França, Holanda, Alemanha e Espanha. Dentre
esses escritores, suas ideias não são as mesmas; pelo contrário,
apresentam tendências individuais específicas. Há, no entanto,
pontos comuns que procuraremos identificar.
Outro aspecto a levar-se em conta é que, se situarmos a origem
das concepções mercantilistas no século XVI, constata-se, a partir
de então, uma mudança de pensamento. De início, as opiniões sobre
economia ainda apelam aos sentimentos da religião, e o efeito das
51
práticas regulamentadoras defendidas por elas não é sistema-
ticamente analisado pela teoria. Aos poucos, a ordem econômica
veio a ser percebida como um cosmo dotado de ordenamento
natural e guiado por uma racionalidade própria que independe da
moralidade. Na última metade do século XVII e no início do século
seguinte, as interpretações econômicas de William Petty (1623-
1687) e Richard Cantillon (1680-1734) expressam claramente a
busca de uma analogia com as ciências naturais, o que iria marcar
o surgimento da economia científica nos fisiocratas e em Adam
Smith.
O mercantilismo representa um momento de grande ferti-
lidade do pensamento econômico, e não é à toa que, no século XX, o
célebre economista John Maynard Keynes o tenha defendido no
capítulo 19 de sua mais importante obra, A teoria geral do emprego,
dos juros e da moeda, de 1936. Seus representantes eram pensa-
dores pragmáticos voltados ao dia a dia da atividade comercial e
financeira. Não havia muita comunicação entre eles e tal fato
explica, em parte, a ausência de ferramentas analíticas comuns ou
de grandes ideias unificadoras. Embora não tenham sido muito
importantes no desenvolvimento da análise econômica, eles contri-
buíram significativamente em identificação e coleta de dados, e no
tratamento estatístico.
A doutrina mercantilista teve origem nas práticas dos reis
medievais e gradualmente foi firmando-se como racionalização das
políticas intervencionistas que já vinham sendo adotadas. À medida
que a classe de comerciantes e financistas enriquecia, ela ganhava
importância na sociedade medieval e os nobres feudais, sentindo a
ameaça ao status quo, compeliam o rei a tomar medidas para
controlar a atividade mercantil de modo a limitar o enriquecimento
com o comércio. Na Inglaterra, já no fim do século XIII, os reis
Eduardo I e III estabelecem uma série de regulamentações econô-
micas, entre elas o controle de preços e salários e a garantia de
monopólios com o fito de limitar a concorrência. Os comerciantes
submetiam-se ao controle do rei com medo de maiores
hostilidades. No século seguinte, os reis Ricardo II e Henrique II,
enquanto mantinham leis que inibiam o comércio interno na
Inglaterra, procuram estimular a concorrência internacional dos
produtos ingleses, negociando externamente, para tanto, tratados
que garantiam a supremacia dos comerciantes ingleses. Em 1391,
o “Ato de Navegação” estabeleceu o monopólio das frotas nacionais
no comércio com a Inglaterra. A classe mercantil era favorecida a
despeito do controle a que estava submetida. Em nome do
nacionalismo, o rei foi acumulando poderes ao mesmo tempo em
52
que a nova classe ligada ao comércio ia conquistando seu espaço.
Isso levou, no fim do século XIV, à associação entre monarcas e
burgueses, o que garantiu a centralização do poder em detrimento
da antiga classe de senhores feudais. Surge o nacionalismo exacer-
bado nos recém-criados Estados-nações que conferiam poderes
absolutos e divinos ao rei.
O declínio do sistema feudal e o aparecimento do Estado
absoluto, desvinculado da Igreja, contribuíram para a emergência
de um ambiente intelectual favorável à nova visão econômica. Os
mercantilistas são considerados autores panfletários porque eles
estão mais preocupados em justificar diretrizes políticas do que em
fornecer explicações teóricas da economia. A política econômica de
então tinha duas preocupações: usar os recursos de que a nação
dispunha para tornar o Estado poderoso política e militarmente e
substituir a Igreja na assistência aos pobres de modo que se evite
uma convulsão social interna.
No bojo da reforma religiosa, com o aparecimento das figuras
de Lutero e João Calvino, o Estado absoluto assume a função social
da Igreja. Na Inglaterra, Henrique VIII rompe com o catolicismo
romano e a própria visão do papel do Estado é profundamente
alterada. O Estado agora não é visto como instrumento da religião
nem se pauta pelo ideal de justiça e salvação das almas. Ele não
deve subordinar-se à Igreja e não é sua tarefa converter os homens
e reprimir a maldade individual. Novos modelos de sociedade
aparecem na literatura da época. Nicolau Maquiavel (1469-1527)
reconhece, em seu livro O príncipe, que os homens são natural-
mente corruptos e, portanto, devem ser governados por um
soberano forte e, também ele, sem escrúpulos morais. Rejeitando
as sociedades existentes em sua época, Tomas Morus (1478-1535)
escreve a obra Utopia, em que imagina uma sociedade a exemplo
de A república de Platão. A sociedade fundada no homem ético,
apregoado pela religião cristã, dá lugar cada vez mais ao modelo do
homem dominado por motivações egoístas. Daí a necessidade do
Estado estabelecido por meio de um contrato social que intervenha
nos indivíduos de modo a assegurar simultaneamente o controle de
seus impulsos enquanto preserva certo grau de autonomia
individual. É a tese do Estado como contrato social de Thomas
Hobbes no Leviatã de 1651.
O poder real detinha, é verdade, uma aura de religiosidade,
contudo na prática a finalidade da ação do Estado eram coisas
materiais. Toda a política mercantilista estava voltada ao ganho
material deste. A questão econômica básica era a de como colocar

53
os recursos materiais da sociedade a favor do enriquecimento e
bem-estar do Estado-nação, ou seja, como torná-lo poderoso políti-
co e economicamente.
A riqueza do Estado não era vista como a somatória das
riquezas individuais de cada cidadão. Pelo contrário, para o homem
comum era importante tão somente que ele se mantenha emprega-
do e atuante. Deveria assim sobreviver, porém sem muito conforto,
pois isto destruiria seu ímpeto de trabalho. Quase todos os autores
mercantilistas defendem os baixos salários, apenas na margem de
subsistência. Dada a suposta baixa condição moral das classes
trabalhadoras, a pobreza é útil, pois torna os trabalhadores indus-
triosos. Assim, as privações da pobreza têm um caráter terapêutico.
Se o trabalhador tivesse a oportunidade de ganhar mais, ele
provavelmente ficaria na ociosidade e na preguiça. O aumento de
salários conduziria à prática de excessos, de vícios, de consumo de
drogas, enfim de tudo o que leva à ruína moral. Assim, a assimetria
na distribuição de renda é desejável para o fortalecimento do reino
e uma distinção deve ser feita entre o enriquecimento da nação e o
da maioria dos indivíduos que a compõe. Somente o rei e a minoria
de comerciantes e apadrinhados estariam moralmente prepara-
dos para uma vida de riquezas e, no fundo, as políticas mercan-
tilistas só favoreciam a esses estamentos sociais.
A principal preocupação econômica do mercantilismo era a
busca do pleno emprego.10 A nação poderosa deveria usar todo o
seu território para atividades produtivas em agricultura, minera-
ção e manufatura. Os trabalhadores devem ser encorajados a man-
terem-se empregados. O desemprego era visto como resultado da
indolência do trabalhador e era tratado como um problema social.
Assim, os pobres desempregados deveriam ser, em tese, ampara-
dos pela sociedade. O problema do desemprego, da mendicância e
da marginalidade tornou-se particularmente importante na época
do mercantilismo. As recentes transformações pela qual passaram
as economias da Europa Ocidental não favoreceram o emprego. Um
primeiro fato que mudou a estrutura produtiva da época foi o
nascimento, no século XVI, da indústria manufatureira com o
sistema putting-out em substituição ao antigo artesanato medieval.
As utilizações de novas tecnologias, muitas delas importadas
da China, como o astrolábio e a bússola, propiciaram as grandes
navegações a partir do final do século XV. Com ela e valendo-se da
descoberta da pólvora, nações distantes foram pilhadas, povos

10 Isso explica a simpatia que Maynard Keynes lhe tinha.


54
escravizados e os mares tomados pela pirataria. Novos fluxos de
mercadorias vindas de quase todas as regiões do mundo circulam
pela Europa. O comércio conhece então um novo impulso, princi-
palmente o comércio entre nações. Na Inglaterra, os ramos do
artesanato voltados às exportações são cada vez mais dominados
pelos grandes mercadores. Em pouco tempo, tais mercadores
passam a controlar o suprimento de matérias-primas, asseguran-
do assim posições monopolistas. Isso se dá pelo monopólio das
importações, por monopólios internos concedidos pelos reis ou
pela posse das propriedades do campo por meio do cercamento das
terras. Os camponeses arrendatários são expulsos para as cidades
e a produção de subsistência de alimentos substituída pela criação
de ovelhas que fornecem lã à indústria. O domínio da oferta de
matéria-prima confere aos grandes comerciantes o poder de
controlar toda a cadeia do processo produtivo. O antigo artesão,
que antes vendia o produto acabado e auferia seu lucro, passa a
trabalhar por encomenda, recebendo uma provisão de matérias-
primas e sendo pago pela entrega do produto semielaborado
dentro de uma rígida especificação contratual. Assim, o mercador
pôde concatenar várias manufaturas domésticas independentes,
como se fosse uma linha de produção, retirando encomendas de
uma e entregando-as a outras para uma nova fase da produção, ao
longo de pequenas manufaturas dispersas pelas áreas rurais.
Os artesãos mais pobres não conseguem sobreviver e viram
simples assalariados. As manufaturas sobreviventes procuram
assegurar posições monopolistas. Para tanto, amparam-se legal-
mente nas Guildas que estabelecem controles e barreiras prote-
cionistas, tais como a especificação dos regimes de aprendizado,
privilégio e isenções para os filhos de artesãos bem estabelecidos,
taxas para admissão no negócio etc. As funções regulamentárias
das Guildas acabam sendo transferidas para o Estado. Em 1563, a
Inglaterra decreta o Estatuto dos Artífices, que substitui e padro-
niza para todo o reino as normas da manufatura, dentre elas as que
limitam os aumentos de salários, bem no espírito do mercantilismo.
Na França, o ministro J. B. Colbert impõe leis que regulamentam os
métodos de produção e a qualidade das matérias-primas e dos
produtos. Em 1666, Colbert normatiza a fabricação de tecidos em
Dijon com penalidades severas para o transgressor.
Havia uma relação de ajuda mútua entre o Estado absoluto e
os produtores. Ao mesmo tempo em que aquele controlava os
processos de produção e impunha toda sorte de barreiras e impos-
tos, os grandes comerciantes lucravam com as proteções. A ênfase
recaía na conquista do comércio internacional como fonte de enri-
55
quecimento do Estado. Enquanto isso, a maioria do povo ficava à
margem do processo. De 1500 a 1600, há expressivo crescimento
numérico da população europeia. As tensões no campo dão ensejo
a conflitos sociais violentos, e revoltas camponesas generalizam-se
pela Europa. Quase 90% da população rural é expulsa para as
cidades. Parte dela é arregimentada como força militar ou como
colonos das novas terras além-mar. Boa parte, entretanto, perma-
nece ociosa. Em 1531 e 1536, o Estado inglês promulga leis para
acabar com a mendicância que havia adquirido proporções alar-
mantes. As leis discriminam os pobres com direito a mendigar:
deficientes físicos e inválidos em geral; e autorizam as paróquias a
angariar donativos espontâneos a fim de amparar os pobres de sua
jurisdição. Tendo fracassado em diminuir o número de mendigos,
o Estado inglês decreta a Lei dos Pobres, em 1601, que prevê a
arrecadação de um imposto específico para acabar com a
indigência e determina quem deve receber assistência e de que
forma. Ela promete ainda prisão para os vagabundos incorrigíveis.
O paternalismo exercido pela igreja medieval é substituído
pela ação do Estado. Não há uma busca deliberada de melhorar a
condição social dos pobres, trata-se apenas de amparar os margina-
lizados visando coibir os focos de rebelião popular e mesmo de
criminalidade. Até certo ponto tais políticas foram bem-sucedidas,
à custa de rigorosa repressão. Ao longo do período, os mercantilis-
tas, em vez de considerarem o crescimento populacional um
problema, estavam a defender e encorajar uma grande população
como forma de fortalecimento do reino.

ETAPAS DO PENSAMENTO MERCANTILISTA


No início do século XVI, verifica-se na Europa um renas-
cimento intelectual que consistiu na incorporação dos antigos
valores estéticos e culturais dos gregos. Isso certamente impul-
siona o pensamento em várias áreas. Em economia, não houve no
período muita continuidade com as reflexões escolásticas, pois a
própria maneira de interpretar a vida econômica passou a ser
outra. As reflexões teóricas sobre o valor dos bens dão lugar às
considerações pragmáticas sobre o comércio. O principal problema
econômico que vinha assolando a Europa nos últimos dois séculos
era a insuficiência de dinheiro em circulação para sancionar o
aumento das trocas. A oportunidade propiciada pelas colônias para
o afluxo de metais preciosos parecia não só resolver o problema,
mas garantir às potências colonizadoras possibilidade ímpar de
estimular a produção interna e, com isso, enriquecer o reino. A
56
maior oferta monetária deveria estimular as economias, o que é
basicamente correto se imaginarmos que elas estavam trabalhando
abaixo do pleno emprego e que as pressões inflacionárias não
ocorreriam tão cedo.
Isso levou os primeiros autores mercantilistas do século XVI a
uma associação simplista entre moeda e riqueza, acreditando-se
que a primeira levaria automaticamente a um aumento da oferta de
bens reais na economia. A concepção denominada de bulionismo
ou metalismo confundia moeda com riqueza, embora seus autores
não fossem tão ingênuos como dá a entender Adam Smith, no livro
IV de A riqueza das nações. A consequência da interpretação
bulionista era a defesa de toda medida que contribuísse para o
acúmulo de ouro e prata dentro das fronteiras do país. O comércio
internacional era visto como meio para aquisição de metais
preciosos e todas as medidas restritivas que resultassem em
aumento das entradas de metais seriam desejáveis. Os bulionistas
não perceberam as oportunidades, oferecidas pelo comércio entre
nações, de se aumentar a produção total de todos os países envol-
vidos com a especialização de cada um, fato plenamente identi-
ficado no século XVIII. Eles viam o comércio internacional como um
“jogo de soma zero”, isto é, o que um ganha o outro perde, e não
como um processo criador de riquezas para ambas as partes.
A fórmula do bulionismo era de uma simplicidade comovente:
proibir toda exportação de ouro e prata e manter o estoque interno
total de metais preciosos em circulação, impedindo que as pessoas
os retivessem para a confecção de adornos ou como forma de
poupança.11 Dos economistas espanhóis que escreveram a favor
dessa fórmula, destacam-se Luís Ortiz, que publica em 1588 uma
Memória ao rei para impedir a saída do ouro e, muito depois,
Antonio Serra, médico que escreve em 1641 seu Breve tratado das
causas que fazem abundar o ouro e a prata num país onde não há
minas. Na França, temos Barthélemy de Laffemas, burocrata do rei
Henrique IV, que publica em 1602 um tratado intitulado Como se
deve permitir a liberdade do transporte do ouro e da prata fora do
reino e conservar por tal meio o nosso e atrair o dos estrangeiros.12
Ainda nesse país, Gerard de Malynes (1586-1641) aparece como
um defensor da visão bulionista radical.
No século XVII, no entanto, poucos são os que ainda aceitam o
bulionismo extremo. A interpretação mais em voga defende a

11 Esta última medida era coerente, pois evitaria problemas de insufi-


ciência de demanda, conforme notaria Maynard Keynes no século XX.
12 Note que os títulos das obras já indicam seu conteúdo bulionista.

57
balança comercial favorável como meio de manter a economia a
pleno emprego. Para tanto, uma série de medidas são necessárias.
Todas as importações devem ser desencorajadas, principalmente a
de bens que já são oferecidos pela produção doméstica. Uma
exceção contempla as importações de matérias-primas indispen-
sáveis não encontradas no reino; contudo, nesse caso deve-se
preferir a troca por mercadorias. Por outro lado, é importante
estimular as exportações por todos os meios. Incluindo-se aí
subsídios, restituição de impostos, monopólios comerciais nas
colônias etc. A exportação de matérias-primas é desestimulada,
porque todas devem ser usadas na manufatura doméstica, já que os
bens finais valem mais do que os bens intermediários. A balança
comercial favorável asseguraria o fluxo positivo de ouro e prata
sem a necessidade de restringir diretamente a saída de metais. Os
mercantilistas sabiam que o importante era o fluxo resultante no
longo prazo e que uma eventual saída de ouro hoje poderia, na
verdade, estar assegurando uma entrada líquida, se levado em
conta o tipo de compra feita, por exemplo, a aquisição de matéria-
prima para a manufatura de um bem exportável.
A política da balança comercial favorável também levaria a
maximizar as reservas metálicas, mas havia outros interesses em
jogo. Muitos dos que defendiam uma ou outra política interven-
cionista estavam voltados a favorecer os lucros de grupos de
comerciantes, entretanto, difundiam mensagens mercantilistas
falando em nome do bem da nação. Não sem motivos, os escritores
mercantilistas seriam depois estigmatizados como cínicos defen-
sores de escusos interesses particulares. É verdade que as políticas
mercantilistas tendiam a favorecer um ou outro grupo econômico
em particular, porém, em uma época de muita hostilidade entre as
nações e de luta contra a volta do antigo sistema feudal, seus
preceitos econômicos mostravam-se adequados para o fortaleci-
mento do poderio do reino. Havia, de fato, elementos racionais na
análise mercantilista, que foram adequados à época para os pro-
pósitos visados. Além disso, há de se considerar também que
autores mercantilistas do século XVII em muito contribuíram para
o estabelecimento de certas técnicas de interpretação econômica.
A preocupação com o saldo externo positivo entre exportações e
importações levou à formulação, pela primeira vez, de noções
contábeis sobre o que chamamos modernamente de “balança de
pagamentos”. É o que encontramos no trabalho de Edward Missel-
den (1608-1654), em que se identifica a mecânica do balanço
global de transações do país com o exterior. Misselden assinala
como as transações do comércio internacional afetam a política
58
monetária. Para tanto, ele concebe um balanço de transações
multilaterais com cinco contas, tal como no Boxe 3.1:

Boxe 3.1 Balança de transações de um país com o exterior,


segundo Misselden.

1. Balança Comercial
a. Mercadorias visíveis
b. Itens invisíveis
2. Conta de Capital
a. Capital de curto prazo*
b. Capital de longo prazo
3. Transferências unilaterais
4. Ouro e prata*
5. Erros e omissões

No livro O círculo do comércio, de 1623, Misselden calcula,


pela primeira vez, o Balanço de Pagamentos da Inglaterra. Ele não
apenas identifica os números de cada uma das contas, mas também
calcula as relações entre elas. Dessa forma, o processo econômico
entre os países poderia ser mais bem compreendido e os fins da
política mercantilista seriam perseguidos com maior clareza
analítica. Misselden aplica a noção de débito e crédito em cada uma
das contas, usa o método contábil de dupla entrada e avalia o
superávit ou déficit das contas. Ele assinala corretamente que o
Balanço de Pagamentos está sempre em equilíbrio, de modo que as
contas assinaladas com asterisco (fluxos de metais preciosos e
capitais de curto prazo) representam movimentos compensatórios.
Enquanto as outras contas são determinadas de modo autônomo,
pois dependem das forças de mercado, as contas compensatórias
devem ser manipuladas pelos instrumentos de política econômica
de modo a se estabelecer o equilíbrio do balanço global.
Misselden compreendia certos mecanismos da política
monetária, e apontava corretamente que taxa de juros interna
acima das taxas internacionais atrairia capital de curto prazo. Se a
balança comercial (1) apresentasse um déficit não compensado
pelo superávit nas contas de capital de longo prazo e transferências
unilaterais (2.b+3), tal déficit seria financiado pelos movimentos
de capital de curto prazo ou por movimentos adversos de metais
preciosos. A balança comercial (ou “conta corrente”, termos
empregados erroneamente como sinônimos) incluía também itens

59
invisíveis (1.b) como pagamento de transporte e fretes, o que
reforçava a crença na importância do Ato de Navegação que havia
criado o monopólio nacional desses serviços e, dessa forma, pro-
piciado ganhos na conta de invisíveis. Embora a exposição de
Misselden tenha problemas do ponto de vista da moderna
explicação do Balanço de Pagamentos, seu mérito maior foi o de
identificar que os fluxos de entrada e saída de metais preciosos são
movimentos que compensam as outras contas e refletem resul-
tados de transações comerciais autônomas e dos fluxos financeiros.
A boa compreensão do Balanço de Pagamentos dera susten-
tação às propostas mercantilistas de uma longa série de restrições
que afetavam o montante e a composição do comércio inter-
nacional, de modo a assegurar um superávit constante na conta dos
registros de metais preciosos. A importância do acúmulo de ouro e
prata, como vimos, era estimular a oferta doméstica de bens e
serviços e, com isso, o enriquecimento do reino.
As teses monetárias do mercantilismo foram-se desen-
volvendo à medida que surgiam problemas inflacionários trazidos
pelo grande fluxo de ouro e prata que inundou a Europa vindo das
colônias americanas. De início, os mercantilistas achavam que a
causa da inflação era a adulteração das moedas pelo poder público
que sistematicamente reduzia a quantidade de metal contida nelas.
Com isso, as moedas de maior teor de metais preciosos seriam
expulsas do mercado e substituídas pela moeda má, de acordo com
a lei formulada pelo inglês Thomas Gresham (1519-1579), e os
preços dos bens, inflacionados. Em 1568, Jean Bodin combate tal
ideia, reconhecendo que é, de fato, o afluxo de metais preciosos que
explica a alta dos preços. Bodin formula a lei de que o poder de
compra das moedas de ouro e prata é inversamente proporcional à
quantidade de ouro e prata existente no país, mas não identifica
claramente um mecanismo de conexão entre moeda e preços.
Embora a tese de Bodin tenha sido admitida por muitos no século
XVII, isso não impedirá que se mantenha a noção mercantilista
segundo a qual a riqueza de uma nação está ligada à abundância
interna de moedas.
A interpretação de como o lado monetário da economia
poderia afetar a produção real era um tanto tosca entre os mer-
cantilistas, e isso favorecia a ilusão monetária de se associar rique-
za ao dinheiro em circulação. A despeito dos avanços fornecidos
pelos estudos de Bodin, ainda faltava, entre eles, uma teoria mone-
tária, tema de que alguns pensadores ocupar-se-iam no século
XVIII. Somente nessa época surge uma compreensão teórica clara

60
de que não seria possível atrair indefinidamente meios monetários
para o reino, uma vez que o influxo constante de moeda iria
inflacionar os preços domésticos e com isso reduzir a competi-
tividade internacional do país. A identificação de um mecanismo
interligando moeda e preços deve-se a David Hume (1711-1776) e,
antes dele, a John Locke (1632-1704) em pleno século XVII. Tais
autores podem ser pensados como os primeiros precursores do
que hoje se conhece como teoria quantitativa da moeda. Segundo
essa teoria, a moeda afeta diretamente os preços, porém tal efeito
é atenuado se houver variações na demanda monetária, de modo
que as pessoas retenham moeda por mais tempo, ou em outras
palavras, diminuam a velocidade de giro da moeda. Outro
mecanismo a refrear a relação direta entre oferta monetária e
inflação é o crescimento econômico. Ele permite acomodar expan-
sões monetárias sem pressão nos preços. Ora, as políticas mercan-
tilistas perseguiam simultaneamente os dois objetivos. O aumento
de circulação de moeda era estimulado ao se proibir retenções do
metal e o crescimento econômico era seu alvo maior. Nesse tocante,
a política metalista não era irracional, entretanto inexistia uma
base teórica na interpretação do crescimento econômico. A moeda,
por si só, não ocasiona o crescimento econômico. Nas condições da
época, ela seria no máximo uma condição necessária, mas não
suficiente. De fato, o crescimento econômico no período é explicado
pelas transformações tecnológicas e na organização da produção,
bem como pelo impulso ao comércio mundial. Somente no século
XVIII, os fisiocratas, e depois Adam Smith, viriam a formular teorias
mais arrojadas na explicação do crescimento econômico.
Para os mercantilistas, a moeda estimula o crescimento eco-
nômico por dois motivos:
1. Fornece o serviço de facilitar as trocas, permitindo ampliar
o comércio e, com ele, o escoamento da produção;
2. A abundância monetária reduz as taxas de juros propor-
cionando a expansão dos empréstimos bancários e esti-
mulando a produção e o comércio.
Os dois argumentos da explicação são falaciosos. No primeiro
caso, basta observar que os benefícios da moeda para as trocas
dependem da estabilidade dos preços que pode ser ameaçada com
excesso de oferta monetária. O segundo argumento omite o fato de
as taxas de juros dependerem também do comportamento da
demanda monetária que, por sua vez, reflete as expectativas de
rentabilidade interna dos investimentos. É verdade que essa
consideração é encontrada na obra de William Petty, o autor mer-

61
cantilista que mais contribui para uma melhor compreensão das
taxas de juros. No entanto, a análise mais arguta do pensamento de
Petty não se faz presente na maioria dos escritores da época. De
qualquer modo, reconhecemos que os mercantilistas avançam em
relação ao pensamento medieval na compreensão do juro. Eles não
tecem as antigas considerações morais contra os juros e lançam
mão de argumentos mais sofisticados condenando a usura. Nesse
tocante, destaca-se a análise de Thomas Culpeper (1635-1689), no-
meado governador colonial da Virgínia, Estados Unidos, que no
Manifesto contra a usura explica que os negócios economicamente
viáveis devem possuir uma rentabilidade interna acima dos juros
cobrados pelos bancos. Sendo assim, juros elevados inviabilizam
muitos negócios, prejudicando a produção doméstica. Ele também
estabelece a relação entre juros e preços dos ativos físicos,
mostrando que a baixa dos juros aumenta o valor das terras ao
estimular a produção agrícola, bem como dos demais ativos da
economia. Josiah Child (1630-1699), mercantilista inglês, em 1668
atribui a causa da prosperidade da Inglaterra, no período, ao
tabelamento legal dos juros que desceu a apenas 6% ao ano, e diz
que isso só foi possível graças ao afluxo de metais. Há algo de
verdadeiro nessa interpretação, contudo, sabemos que a relação
entre juro e crescimento econômico é bem mais complexa.
A obsessão mercantilista em ver no comércio internacional
superavitário a fonte do crescimento econômico sustentava todo
tipo de medidas intervencionistas na produção doméstica. A defesa
do controle interno da economia visava, sobretudo, à competi-
tividade com outros países. Em nome dela, setores da produção
eram regulamentados, certas indústrias, sobretaxadas enquanto
outras recebiam subsídios, e monopólios eram criados com a
restrição à entrada em alguns mercados. Franquias e patentes
também concediam direitos exclusivos a certos comerciantes. Tudo
isso não significa que o mercantilismo era contrário à atividade
econômica e nem que ainda retinha o mesmo preconceito
antieconômico da Idade Média. O que ele desenvolve e propõe são
preceitos a serem aplicados em uma economia mista, com os
capitalistas a comandar a produção e o Estado intervindo nela a fim
de angariar maior poderio econômico à nação. O pensamento
mercantilista carrega consigo certa ambiguidade de propósitos, um
dualismo entre o intervencionismo e a defesa da liberdade dos
mercados. Em se tratando de um período de transição do feuda-
lismo para o liberalismo é de se esperar essas tensões entre
posições políticas opostas. Alguns autores enfatizam controles e

62
regulamentações, enquanto outros defendem a liberdade do co-
mércio.
John Hales, nobre inglês e membro do Parlamento, desen-
volve suas teses mercantilistas em 1549 no livro Um discurso sobre
a prosperidade pública no Reino da Inglaterra. Hales afirma que o
interesse do Estado deve ser posto em primeiro lugar, contudo não
defende os controles legislativos na promoção do bem-estar social.
Ele acredita na ordem espontânea dos mercados que tem por base
homens movidos pelo autointeresse. Buscando maximizar lucros,
suas escolhas resultam na alocação ótima dos recursos, melhor do
que o governo poderia fazer. As leis serão inoperantes e impotentes
se pretenderem compelir os homens a tomarem medidas que lhes
são desvantajosas. Nenhuma determinação legal pode prevalecer
sobre o autointeresse. A imposição governamental de preços tabe-
lados, por exemplo, daria origem ao mercado negro. Hales defende
também a liberdade de comércio internacional. Pode parecer
surpreendente ver a defesa da liberdade de comércio nas palavras
de um autor do século XVI, mas Hales não está sozinho. Também
defendem teses liberais autores do século XVII como Locke, Petty e
nomes menos conhecidos como Dudley North e Charles D’Avenant.
O que mostra que o mercantilismo não era um rígido sistema de
controle, conforme Adam Smith viria a caracterizá-lo.

SALÁRIO, PREÇO E JURO NA ÓPTICA MERCANTILISTA


Como vimos, os mercantilistas argumentam que os salários
deveriam ser controlados de modo a evitar-se que eles se elevem
acima de um nível ótimo. Leis que regulamentam os salários já
existiam na Idade Média; agora os mercantilistas buscam fornecer-
lhes um fundamento teórico. É preciso, para o enriquecimento do
Estado, manter os trabalhadores empregados e produtivos. Para
tanto, há um requisito moral: eles devem ser industriosos. Podem
até acalentar sonhos de luxúria sem nunca os alcançar, como na
imagem da cenoura colocada diante do burro. Os trabalhadores são
submetidos a um nível ótimo de frustração quando os salários
permitem que sobrevivam sem irem muito adiante no consumo de
riquezas. É a tese da “utilidade da pobreza”, que preserva a
condição moral da classe trabalhadora, porque de outra forma eles
se consumiriam no vício. O argumento parece e é, de fato, cruel,
porém surge recorrentemente em autores do século XVII e se
mantém depois. Arthur Yong diz que os trabalhadores vivem
melhor na pobreza. Bernard de Mandeville, em sua famosa obra
Fábula das abelhas, considera que mesmo a educação é perniciosa
63
às crianças se forem pobres ou órfãs e que, em vez de serem
educadas, elas deveriam trabalhar desde cedo. Em 1701, John Law
sugere a taxação ao consumo como uma forma de encorajar a
industriosidade do pobre e a frugalidade do rico. Hume tece consi-
derações semelhantes.
Entretanto, tal insensibilidade social possibilitou ao pensa-
mento econômico chegar a um resultado correto em termos da
interpretação da curva de oferta de trabalho. A moderna teoria
microeconômica argumenta que a curva de oferta de trabalho, no
plano que relaciona salários com número de horas de trabalho
ofertadas, é positivamente inclinada, mas se o salário for sufi-
cientemente elevado ela torna-se negativamente inclinada a partir
de certo ponto, pois o “efeito renda” predomina sobre o “efeito
substituição” (Boxe 3.2). O argumento mercantilista é outro, mas
leva ao mesmo resultado, representado na Figura 3.1.

Figura 3.1 Relação entre oferta de trabalho e salário.

Salário

B
W’
W A

N N Oferta de trabalho

O ponto A é crítico, de modo que para salários acima de W há
uma queda na oferta do insumo trabalho (N’ < N), pois os
trabalhadores preferirão não trabalhar, já que são naturalmente
avessos ao trabalho, e o salário mais elevado W’ torna-os propen-
sos a desfrutarem lazer em troca de trabalho. A consequência para
a economia nacional é a perda da produção e com ela a menor
competitividade no comércio internacional, com a saída de ouro e
prata e todas as consequências indesejáveis que dela advém. Assim,
cumpre ao governo estabelecer um teto salarial.

64
Boxe 3.2 Explicação da moderna teoria econômica quanto ao
formato da curva de oferta de trabalho.

Para a teoria microeconômica, a curva de oferta de trabalho é positiva-


mente inclinada, porém sofre inflexão para a esquerda a partir de um nível
crítico de salário. A teoria utiliza-se de um argumento em termos da escolha
individual entre renda e lazer. Quando os salários se elevam, o aumento de
renda induz os trabalhadores a optarem por um número maior de horas
trabalhadas reduzindo assim o tempo de lazer. A partir de certo patamar, o
aumento de renda não mais compensa a perda do lazer (tecnicamente diz-se
que o “efeito renda”, que desloca as preferências em direção ao lazer, torna-se
maior que o “efeito substituição” de lazer por renda) e assim os trabalhadores
optam por trabalhar um número menor de horas.

É claro que à medida que a produção decrescer, diminuirá a


demanda de trabalho e isso pressionará os salários novamente
para baixo. Se o mercado for flexível, ele, por si só, determinará o
valor de equilíbrio que maximiza a produção. O mercado de
trabalho, na prática, apresenta uma rigidez que poderia justificar
algum tipo de controle legal, mas dificilmente a ponto de se
requerer a imposição de um teto salarial. A análise mercantilista,
entretanto, não entra nesses detalhes. Ela, de fato, não vai além de
uma racionalização superficial da expropriação dos trabalhadores.
Não há muita teoria de preço entre os mercantilistas, exce-
tuando-se as interpretações de William Petty. Natural da Irlanda,
Petty, entretanto, é mais um autor de transição entre o mercan-
tilismo e o liberalismo do século XVIII do que um representante
típico dessa escola. Ele veio a rejeitar muitas das teses mercan-
tilistas. Petty iniciou-se na carreira médica e quando se propôs a
escrever sobre economia trouxe muito dos métodos de pesquisa
das ciências naturais. No século XVIII, o pensamento econômico irá
se desenvolver procurando imitar o método dessas ciências. O
irlandês propõe uma análise mais rigorosa das ciências sociais pela
observação de fatos no que ele denominou de “aritmética política”.
O empirismo de Petty é influência do filósofo inglês Francis Bacon
e ao mesmo tempo uma reação à economia escolástica com sua
ascendência aristotélica.
Ele separa a ciência da moral. A ciência não resolve problemas
morais, somente se reporta aos meios. É a primeira reação radical
contra o legado do pensamento econômico que por séculos priori-
zou a questão ética. Embora seus escritos econômicos tendam para
o liberalismo, ele propôs um grande número de intervenções
65
estatais na economia. Sem chegar a desenvolver um sistema geral
de conhecimento, limitou-se a ditar soluções para um conjunto de
problemas práticos. Sua “aritmética política” tornou-se um guia
geral para políticas públicas, no entanto ele não apresentou
nenhuma contribuição para a análise econômica. Na teoria dos
preços, embora também não haja aí nenhum grande mérito
analítico, popularizou a noção de que o fundamento do valor está
nos custos de produção. Procurou reduzir todos os tipos de custos
em dois fatores de última instância: a terra e o trabalho. Tentou,
adicionalmente, chegar a um denominador comum entre eles,
identificando uma unidade homogênea de poder produtivo que
seria o determinante do valor. Não obteve sucesso nessa tarefa.
Petty antecipou elementos da análise econométrica. Ele era
muito esforçado na coleta de dados, no entanto, nenhuma teoria
satisfatória na explicação dos preços foi por ele oferecida. Petty, ao
separar a ciência econômica da análise moral, enterrou de uma vez
por todas as teorias de preço justo. O valor do bem é um dado de
mercado, equivale ao preço pelo qual a mercadoria é, de fato,
vendida. Ele tinha plena consciência da noção de preço impessoal
em mercados competitivos e concebeu elementos de uma teoria de
oferta e de demanda. No entanto, não se preocupou em explicar
preços relativos. Petty é o mais teórico dentre os mercantilistas, no
entanto, como de regra nessa escola, pouco de análise de valor e
preço pôde por ele ser apresentada. Definitivamente esse não era o
foco da investigação mercantilista. Os escritos do irlandês influen-
ciaram a escola clássica de economistas que localizarão no trabalho
humano a causa do valor. A unilateralidade da análise de Petty do
valor herdou uma assimetria teórica que se tornará típica na
análise econômica clássica, em que se deixa de dar a importância
devida a elementos do lado da demanda na determinação do valor.
Um retrocesso em relação às ideias escolásticas, que felizmente
mais afetou o ambiente intelectual inglês do que o restante da
Europa.
Finalmente outra contribuição teórica de Petty foi sua análise
sobre moeda e juros, mais rica do que a encontrada em outros
autores mercantilistas. Ele analisou o processo de formação de
poupanças e interligou-o à oferta de fundos para empréstimos. As
taxas de juros são um fenômeno de mercado determinado pela
confluência da oferta de fundos com a demanda de recursos, esta
última dimensionada pela rentabilidade do investimento em esto-
que de capital. Petty identificou as três funções da moeda, como
meio de troca, medida de valor e como ativo financeiro. A primeira
função é a principal delas. Como medida de valor, a moeda funciona
66
para propósitos limitados, já que ela mesma tem seu valor variável
dependendo da relação entre oferta e demanda. Petty, como os
mercantilistas em geral, acreditou na existência de uma relação
entre a moeda e o volume da produção, mas pouco conhecia da
ligação entre moeda e nível de preços. Embora desconhecendo a
teoria quantitativa da moeda, ele desenvolveu o conceito de velo-
cidade de circulação da moeda, mostrando que ela dependeria de
fatores institucionais, como o período de pagamento dos salários.
Ele não aderiu às falácias bulionistas e nem considerou o saldo
positivo da balança comercial absolutamente prioritário, contudo,
defendia certas medidas mercantilistas, como a proibição de
exportar moeda.
Petty identificou uma ordem natural subjacente aos fatos
econômicos e viu a economia como uma esfera de fenômenos
dotados de racionalidade própria. Faltou-lhe, no entanto, para uma
economia verdadeiramente científica, a construção de um sistema
unificado de explicação dos fatos econômicos. Não muito tempo
depois, apareceriam então as obras dos fisiocratas e de Smith, os
primeiros tratados da economia como ciência. Antes de concluir
este capítulo, vejamos as características do pensamento
econômico, no mesmo período, entre os povos germânicos.

CAMERALISMO: A DOUTRINA DO MERCANTILISMO ALEMÃO


Com o fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), para fazer
frente às grandes potências europeias, os principados alemães
viram-se diante da necessidade de suprimir os resquícios do
feudalismo, começando por reforçar a aplicação de princípios
racionais como probidade, diligência, obediência hierárquica etc.
Isso refletia a percepção de que o ato de governar não se limitava
ao exercício e à conservação do poder, mas também ao desenvol-
vimento de atitudes que promovam centralização política, supres-
são de práticas antiquadas, enriquecimento do Estado e bem-estar
dos súditos. Ante a crescente ameaça das potências europeias,
manifestou-se entre os príncipes alemães o desejo de fundar um
Estado moderno. A fim de desenvolver as potencialidades de seus
domínios, assegurando um fluxo constante de receitas fiscais, era
necessário que o soberano tivesse em mãos conhecimento
fidedigno acerca das condições materiais e geográficas do territó-
rio, bem como da situação demográfica, social e política. O
cameralismo expressa a intenção concreta de tornar eficiente o
controle fiscal, num período em que o desenvolvimento de uma

67
economia financeira estatal e a obtenção de fundos públicos eram
tarefas de suma relevância.
Outra questão central por trás da política cameralista relacio-
na-se ao entendimento de que a riqueza nacional se localiza na
capacidade produtiva dos indivíduos, resultando disso a exigência
de investimentos em educação, infraestrutura e avanço tecno-
lógico. Em outros termos, a prosperidade de um Estado depende da
adoção de medidas que promovam a melhoria material e espiritual
dos cidadãos.
Por mais de três séculos, o cameralismo influenciou o pensa-
mento econômico nas nações de língua alemã. Ao contrário do que
comumente se afirma acerca dele, considerando-o uma mera ver-
são alemã do mercantilismo, ele se caracteriza como um tipo de
reflexão econômica e, ao mesmo tempo, um programa de ação
prática que refletia o crescente intercâmbio de ideias que veio se
intensificando na Europa desde a invenção da imprensa. O foco da
análise cameralista incidia na investigação de como o estado mo-
derno deveria promover a indústria por meio de expansão da
demanda, gastos públicos, liberalização interna, estabelecimento
de planos e metas, proteção externa etc.
Trata-se, portanto, de um enfoque ligado aos problemas
particulares da economia de um conjunto de países de língua
alemã. A Europa Central era uma região mais atrasada em relação
à França e à Inglaterra. Ela estava mergulhada em graves proble-
mas econômicos e o cameralismo surge como um conjunto de
ideias voltado à solução das calamidades econômicas, por meio de
uma melhor administração pública. Diferentemente do mercanti-
lismo ocidental, a ênfase não recaia na competitividade comercial
com outros países, mas em fornecer aos reis conhecimentos para
uma boa gestão econômica.
Na ausência de um Estado alemão unificado, os príncipes
viram-se obrigados a reorganizar as atividades econômicas de sua
gleba tendo em vista um mundo dominado cada vez mais pela
competição violenta entre impérios globais. Tal circunstância criou
as condições propícias para um arranjo institucional baseado em
relação de dependência mútua entre o príncipe e os súditos. Para
desempenhar cabalmente suas funções, o príncipe restabeleceu
uma antiga instituição medieval, a Câmara, empregada inicial-
mente para designar o recinto privado do príncipe, e, em seguida,
por extensão, o locus de sua administração. O termo “cameralismo”
vem da palavra alemã Kammer, que designa o lugar onde se
guardava o tesouro real. Depois passou a aplicar-se a tudo o que
68
dizia respeito à propriedade real. Virou a economia do rei ou a arte
que bem administra a renda real procurando mantê-la e, se
possível, aumentá-la. De início, era uma combinação de ideias
envolvendo aspectos políticos, jurídicos e técnicos, além do econô-
mico. Com o tempo, seus autores foram especializando-se em
economia política e afastando-se de preocupações jurídicas. O
ensino de cunho cameralista dos direitos e deveres envolvidos na
administração pública aparece nas universidades alemãs no século
XVII e a partir de então se desenvolve uma importante tradição do
pensamento econômico.
Há elementos comuns com o mercantilismo ocidental, como a
ênfase nas regulamentações governamentais, dada a confiança na
eficácia das leis, e o receituário análogo de política tributária, de
como organizar o sistema de tarifas e taxas públicas. Como no
mercantilismo, o metal precioso é tido como a forma mais dese-
jável de riqueza e eles também se assemelham na pregação, comum
a ambos, do aumento populacional, da frugalidade e do interesse
do rei. No entanto, o cameralismo é menos interessado em relações
internacionais, em comércio entre países e no desempenho da
balança comercial. A rivalidade internacional não é tão importante
para ele. A ênfase recai em finanças públicas e em como remediar o
atraso na economia alemã pelo desenvolvimento da indústria
doméstica, da tecnologia agrícola, e da exploração de minas e flo-
restas.
Os mercantilistas franceses e ingleses eram panfletários e só
ofereciam pequenos tratados não muito abrangentes. Enquanto
isso, o cameralismo desenvolve sua doutrina em grandes volumes
que apresentam um corpo de pensamento bem conectado, versan-
do sobre a lógica da organização do Estado e da economia nacional,
em seus aspectos financeiros e técnicos. O desejo da administração
eficiente da coisa pública é o eixo principal a guiar a análise came-
ralista.
Já início do século XVI, certos autores buscavam oferecer aos
burocratas dos principados da Europa Central meios para remediar
os males econômicos que afetavam os povos de língua alemã.
Martin Luther, o pai do protestantismo, e Melchior von Ossa pro-
põem uma reforma tributária a fim de aperfeiçoar o atrasado
sistema de taxação. O descontrole monetário também foi tema de
debate. O influente pensador Nicolau Copérnico, expoente de uma
revolução científica na astronomia, havia proposto uma moeda
uniforme por todo o reino, sem a necessidade de nenhum lastro ou
aval. Em 1530, o desequilíbrio monetário desencadeia uma contro-

69
vérsia sobre a cunhagem de moeda. Por essa época, melhora a per-
cepção da importância da moeda para a atividade econômica e
chega-se à conclusão de que algum controle sobre ela deveria ser
exercido. Tratados mais específicos sobre pesca, agricultura e
indústria aparecem nos escritos de Bornitz e Klock. Também se
destaca Georg Obrecht, que se tornou professor de direito em
Estrasburgo em 1575 e foi o primeiro consultor financeiro oficial
do rei.
No entanto, tais concepções somente se constituem numa
escola de pensamento no século XVII. Os principais representantes
dessa escola são Veit Ludwig von Seckendorff (1626–1692),
Johann Heinrich Gottlob von Justi (1717-1771) e Joseph von
Sonnenfels (1733-1817). Tais pensadores buscaram oferecer uma
teoria da gestão pública que iria orientar os governantes alemães.
Seckendorff é tido como o pai do cameralismo. Ele separou a
economia de outros ramos do conhecimento social, como a política
e a administração pública. Aconselhou a restrição das importações
e o aumento populacional. Contudo, não tinha total confiança na
eficácia do controle governamental. Era adepto da concorrência
entre os produtores e combateu o monopólio das guildas. Nesse
século, também aparecem no pensamento econômico alemão os
nomes de P. W. von Hörnigk e Wilhelm von Schröder.
Von Seckendorff fundou os alicerces das ciências camerais em
sua obra, de 1665, Adendo ou informações e notas ao Tratado do
Estado Principesco Alemão. Tal estudo resulta de um processo de
amadurecimento e crítica empírica extraídos da observação da
florescente economia holandesa. Ele trata essencialmente de reve-
lar os efeitos perniciosos da dependência econômica estrangeira.
Em sua visão, na falta de um setor manufatureiro livre e pujante o
país não seria capaz de sustentar de forma duradoura uma popu-
lação crescente e, portanto, seus cidadãos inevitavelmente corre-
riam para países estrangeiros, onde vigoram melhores condições
de vida. Os principados alemães se manteriam em um estado de
dependência das importações estrangeiras. Na Holanda, Secken-
dorff compreendera a importância crucial das manufaturas em
reverter a situação de pobreza e declínio demográfico que debilita-
vam diversos principados alemães. Caberia, assim, desenvolver a
capacidade produtiva alemã e articular todas as atividades econô-
micas, criando-se riqueza e empregos no processo.
Seckendorff preconiza medidas nesse sentido. Sua principal
recomendação é justamente a substituição de importações como
forma de suprir as necessidades econômicas domésticas. Um país
70
caracterizado apenas por agricultura de subsistência jamais pode-
ria prosperar. Para desenvolver as manufaturas era preciso libertar
os artesãos dos grilhões das guildas e corporações de ofício. Isso
atrairia mais trabalhadores, criaria demanda por novos negócios
para suprir suas necessidades e geraria um círculo produtivo de
oferta e de demanda crescentes. Libertar as manufaturas de
restrições, bem como liberar os preços dos bens domésticos, revi-
gorariam toda a economia, trazendo os preços aos seus níveis
adequados. Seu objetivo era, portanto, criar condições favoráveis à
superação do retardo técnico dos principados alemães, tendo-se
em vista a competição desigual com as principais potências euro-
peias a época.
O cameralismo adentrou o século XVIII. No decorrer dele
cátedras começaram a ser ofertadas para o ensino daquilo que foi
descrito como ciência cameral, que pode ser caracterizada como o
estudo dos princípios de administração pública e de política
econômica. Em sua forma original, a cameralística consistia na
formulação de propostas práticas, visando tornar eficientes a
administração, a arrecadação e a utilização das receitas públicas
pelos príncipes, não se constituindo, portanto, uma disciplina
segundo os padrões científicos. Nesse século, no entanto, sucedeu-
se notável esforço para oficializar o ensino universitário das ciên-
cias camerais, embora a princípio algumas inconsistências dificul-
tassem sobremodo sua institucionalização.
Tendo surgido em meados do século XVII, na primeira metade
do século seguinte o cameralismo se consolida como ciência
econômica alemã por meio das contribuições de Justi e Sonnenfels.
De fato, o cameralismo somente atingiu robustez teórica nas obras
de Von Justi, que lhe conferiu entendimento cada vez maior dos
fundamentos econômicos da vida política e social. Justi é reconhe-
cido, por isso, como um dos precursores da economia política na
Alemanha. Embora tenha sido autor de um total de 77 livros,
compreendendo filosofia, literatura, ciência da natureza, geologia
etc., seu grande mérito foi ter logrado dividir habilmente as ciências
camerais em ciências econômicas, ciência política e ciência das
finanças, questão que nenhum dos pensadores anteriores havia
resolvido plenamente.
Justi, atuando como professor na Áustria, ocupa-se de estudos
em finanças, comércio, tributação, agricultura e indústria. Elabora,
então, um esquema de seu sistema teórico de economia política,
posteriormente desenvolvido em seu livro mais importante, a
Economia política ou tratado sistemático de todas as ciências

71
econômico-cameralistas necessárias ao governo de um País, de
1755.
Apesar de perseguir a opulência do Estado, Von Justi não
reconhece a primazia deste sobre os indivíduos. O Estado configura
um complexo de instituições que se caracterizam pela existência e
pela aplicação efetiva de normas geralmente vinculativas e
permanentes, as quais indivíduos independentes estabelecem e
mantêm para otimizar sua cooperação a fim de obter disso a maior
renda real possível e poder satisfazer suas necessidades. Justi
também considera a liberdade e a segurança individuais. Nesse
sentido, a função precípua do Estado consiste em garantir o bem-
estar de seus cidadãos e consequentemente propiciar condições
favoráveis à produção dos bens que os fazem felizes. As instituições
sociais devem ser estabelecidas de modo a gerar a maior renda per
capita possível. Para Justi, legítimo é o Estado cujas instituições
servem para criar liberdade, segurança e bem-estar. Ao delimitar a
ação política, Justi intenciona mostrar que uma economia de
mercado desregulamentada é superior a uma economia controlada,
não porque origina um produto interno maior, mas porque impõe
menos restrições aos indivíduos, o que a torna capaz de fornecer a
cada cidadão uma maior quantidade de bens necessários a uma
vida feliz.
Em sua ótica, questões sociais são em grande medida
problemas de administração pública. Justi defende um governo que
assuma responsabilidades inerentes ao melhoramento das condi-
ções de vida e aperfeiçoamento moral dos súditos, obrigando-se
não apenas a criar empregos e prover meios de subsistência para
todos, mas também a aprimorar os métodos e a organização da
produção. Nota-se aqui que o cameralismo não se prestava somen-
te ao fortalecimento do Estado como finalidade única. O propósito
das ciências camerais era favorecer a felicidade comum resultante
da conciliação do contentamento dos súditos com o triunfo do
Estado.
Von Sonnenfels é considerado o último grande pensador
cameralista. Contemporâneo de Justi, sobreviveu a ele tempo
suficiente para estender solidamente as ciências camerais até
meados do século XIX. Sua obra mais importante, Princípios de
polícia, comércio e finanças, de 1765, figura entre os livros mais
vendidos da literatura econômica, usado nas universidades austría-
cas até 1848. Embora a sorte de ambos os autores tenha sido bas-
tante diferente, eles convergem quanto ao propósito de formular
estratégias de desenvolvimento com vistas, de um lado, a aumentar

72
o bem-estar da população, e de outro a fortalecer o Estado. A obra
de Sonnenfels, exprime um esforço a fim de reconciliar as exigên-
cias de um Estado forte com as novas instituições criadas a partir
da conjugação de diversos fatores cultural, político e econômico,
resultantes de eventos como a Revolução Francesa, a ocupação
napoleônica e a Revolução Industrial.
Sonnenfels aplicou-se ao estudo da jurisprudência, tornando-
se um dos mais esclarecidos intelectuais do círculo iluminista
vienense. Atuou na vida pública tanto no ofício de professor, quanto
de administrador. Sua influência em vários assuntos, incluindo-se
questões jurídica e econômica, baseava-se não apenas em seu
status de conselheiro real e sua posição como docente, mas
principalmente em numerosas publicações.
Em 1766, Sonnenfels oferece volumoso livro dividido em três
tomos. Nele, sustenta a tese de que os objetivos primordiais do
Estado podem ser divididos em quatro temas correlacionados, a
saber, (i) a proteção externa, (ii) a segurança interna, (iii) a diver-
sificação de ocupações produtivas e (iv) o incremento da renda.
Essas quatro áreas compõem, em sua visão, o conteúdo da ciência
do Estado e, ao mesmo tempo, as linhas de especialização que
formam a ciência política, compreendendo as ciências de polícia,
comércio e finanças. Enquanto a primeira apregoa princípios para
o estabelecimento e a manutenção da segurança interna e externa
do Estado, a segunda se ocupa da ampliação benéfica do que a terra
e a indústria produzem. Por fim, a última indica o modo como as
receitas públicas devem ser aumentadas e administradas da
maneira mais vantajosa.
A premissa do Estado está presente em todo o edifício teórico
de Sonnenfels. Ao conceber sociologicamente a natureza humana,
ele caracteriza o Estado como a culminação do projeto de realiza-
ção da objetividade da vida social. Por isso, a vontade coletiva é
muito mais forte do que a do indivíduo. Na verdade, o pensamento
de Sonnenfels pode ser compreendido como um modo de
expressão da filosofia política alemã em sua forma orgânico-
corporativista. Nesse ponto de vista, o Estado é definido como
expressão suprema de organização social, uma vez que nele todas
as formas de alienação doméstica, conjugal e patriarcal são supera-
das como etapas em direção ao espírito objetivo.
O Estado funda as bases últimas da grande sociedade em que
os cidadãos unem suas forças para alcançar o bem comum. O efeito
imediato disso é que os indivíduos assim reunidos são considera-
dos pessoa moral e consequentemente, tendo acima de si apenas a
73
vontade comum de exigir o melhor para todos, suportam um único
poder supremo, o qual consiste das forças próprias de todos os
membros. A teoria do Estado implícita na obra cameralista de
Sonnenfels incumbe-se de conciliar as prerrogativas do governo
centralizado às novas exigências do Século das Luzes.
Sonnenfels compôs a maior parte da produção cameralista
usada no final do século XVIII. Sua influência manteve-se oficial não
apenas dentro da monarquia austro-húngara, tendo se estendido
para além das fronteiras austríacas, encontrando audiência inclusi-
ve nos Estados alemães do sul.
No século XIX, amplia-se o escopo da ciência cameralista. Em
1819, Schmalz afirma que tal ciência deve incluir não somente a
administração pública, mas também o estudo de tudo o que perten-
ce à propriedade e à renda das pessoas. Na mesma linha, Rau, em
1825, separa o domínio da economia privada e técnica, que estuda
tudo o que diz respeito à riqueza pessoal, da economia pública que
avalia os aspectos financeiros das políticas públicas. Nessa época, a
economia firma-se como um ramo do estudo universitário não
confinado apenas à administração da coisa pública. Entre os profes-
sores de prestígio, aparecem Gasser, Daries, Dithmar e Zincke.
Devido a seu vasto período de efetividade, o cameralismo
produziu efeitos de longo prazo, principalmente no que diz respeito
à condução das políticas públicas e econômicas dos Estados ale-
mães. Com isso, ele funda as bases últimas da Nationalökonomie,
que viria a ser examinada a fundo e discutida de forma abrangente
por Friedrich List.
Durante sua docência em Tübingen, List escreveu seu Parecer
sobre o estabelecimento de uma faculdade de ciência política, de
1817, em que deixa evidente a influência da tradição cameralista na
sua formação. Neste ensaio, porém, List sugere ser imperativo
fundar as bases de uma nova ciência do Estado. Ele oferece um
primeiro esboço de sistematização das ciências econômicas, em
que a Nationalökonomie (economia nacional) e a Privatökonomie
(economia privada ou individual) são apresentadas como disci-
plinas auxiliares, demonstrando que o bem-estar do todo resulta do
bem-estar do indivíduo.
Na obra Enciclopédia das ciências políticas, de 1823, List con-
cebe a economia nacional como teoria das leis naturais de produ-
ção, distribuição e consumo de bens oriundos de comércio, indús-
tria e agricultura. Trata-se, pois, da doutrina que ensina em que
medida a influência do poder estatal pode ser benéfica ou preju-
dicial ao bem-estar econômico dos indivíduos, dos Estados e da
74
humanidade, argumento que será retomado em outros escritos
sobre a constituição das disciplinas econômicas.
O cameralismo, portanto, é a versão alemã da disciplina
econômica, que apresenta certas peculiaridades. Mais voltado a
aspectos técnicos da produção e ao lado financeiro, não acredita
que o Estado e os capitalistas tenham sempre interesses harmô-
nicos e posiciona-se ao lado dos interesses do primeiro. Ele enfatiza
os dispositivos de política fiscal procurando combater a falência do
tesouro público.
Dentre outros pensadores que deram importante contribui-
ção às ideias econômicas mercantilistas, destacam-se ainda: Claude
de Seyssel, M. de Malestroit, Tomás Mercado, Simon Newcomb,
Antoine de Montchrétien, Marques de La Gomberdière, Thomas
Mun, Nicholas Barbon, J. Massie e James Stewart.

75
Questões

1. Até que ponto o mercantilismo pode ser pensado como um siste-


ma coeso de ideias que se manteve inalterado entre os séculos
XVI e XVII?
2. Especule por que John Maynard Keynes mantinha certa admi-
ração pela escola mercantilista.
3. Comente algumas medidas que, tomadas ainda no período
medieval, já antecipavam as práticas mercantilistas.
4. Descreva a nova visão de sociedade que surge no século XVI.
5. É certo dizer que o objeto da política mercantilista era a maxi-
mização da riqueza de todos os cidadãos?
6. Compare o sistema manufatureiro putting-out com o artesa-
nato medieval.
7. Por que as monarquias absolutas se preocupavam em acabar
com a mendicância e que medidas foram tomadas nesse senti-
do?
8. O que é o bulionismo e como seus adeptos viam o comércio
internacional?
9. Que políticas eram defendidas pelos mercantilistas no sentido
de garantir uma balança comercial favorável?
10. Descreva o Balanço de Pagamentos de Misselden. Para ele, é
possível compensar um déficit na balança comercial sem a fuga
de metais preciosos?
11. No que consiste a lei econômica de T. Gresham?
12. Como Jean Bodin relaciona o acúmulo de metais preciosos com
a inflação? Você considera a explicação dele completa?
13. Como a oferta de moeda poderia estimular o crescimento da
riqueza na interpretação mercantilista?
14. Você concorda com a crença de que todos os mercantilistas
eram fortemente intervencionistas?
15. Comente a tese da “utilidade da pobreza”.
16. Por que, para os mercantilistas e na teoria atual, a curva de
oferta de trabalho torna-se negativamente inclinada a partir de
certo ponto?
17. O que William Petty tem a oferecer em teoria de preços?

76
18. Qual a essência da teoria dos juros de Petty?
19. Quais as diferenças principais entre o cameralismo e o mercan-
tilismo ocidental?
20. Aponte uma diferença entre o cameralismo no século XVIII e
no período anterior.

77
Leitura Adicional

Literatura Primária

KEYNES, John M. A teoria geral do emprego, dos juros e da moeda.


São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Os Economistas.) cap. 19.

SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
(Os Economistas.) livro IV.

Literatura Secundária

DEANE, Phyllis. A evolução das ideias econômicas. Rio de Janeiro:


Zahar, 1980.

DENIS, Henri. História do pensamento econômico. Lisboa: Livros


Horizonte, 1993.

EKELUND JR., Robert; HÉBERT, Robert F. A history of economic theory


and method. New York: McGraw-Hill, 1990.

HANEY, Lewis H. History of economic thought: a critical account of


the origin and development of the economic theories of the
leading thinkers in the leading nations. New York: Macmillan,
1949.

HUNT, E. K.; SHERMAN, Howard J. História do pensamento econômi-


co. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1982.

78
4
A Economia como Ordem
Natural

O DESENVOLVIMENTO DAS CIÊNCIAS NATURAIS


A partir de fins do século XV, o avanço do comércio ultra-
marino forneceu um fluxo de matérias-primas que possibilitou, ao
lado de fatores internos, a forte expansão da economia europeia.
Manter frotas navais espalhadas pelos mares da Terra e submeter
povos distantes ao domínio dos interesses coloniais não se
constituía, entretanto, tarefa fácil. A tecnologia necessária para a
navegação e para a arte da guerra tornou-se um desafio cujo
enfrentamento somente logrou êxito pelo concurso das mentes
mais privilegiadas da época. As exigências tecnológicas de então,
impostas pela emergência do grande capital mercantil, resultaram
nos brilhantes sucessos das ciências naturais durante o período. No
comércio, o transporte marítimo e fluvial de mercadorias tinha
enorme importância uma vez que o deslocamento por terra era
muito mais lento, oneroso e arriscado; enquanto um navio poderia
transportar, com maior velocidade, grande capacidade de carga. No
entanto, somente com o avanço da ciência e da tecnologia as
viagens marítimas ficaram mais eficientes. A bússola tornou-se de
uso universal apenas na segunda metade do século XVI e bons
mapas geográficos marítimos só apareceram também por essa
época. Tais instrumentos de nada valeriam para a navegação em
mar aberto se não houvesse métodos disponíveis que permitissem
a localização do navio por meio das coordenadas de latitude e
longitude. O transporte por rios servia como meio de ligação
interna entre diferentes regiões da Europa. No passado, o cresci-
mento natural das cidades estava associado ao sistema de comuni-
cação por rios. Agora, desenvolve-se a construção de canais e
eclusas visando o aperfeiçoamento das vias fluviais; com eles,

79
complementa-se o transporte interno conectando-o ao transporte
marítimo.
No mesmo período, a indústria da mineração conhece
expressivo crescimento. De início, pela exploração das minas de
ouro e prata na América, depois pelo desenvolvimento intenso da
indústria de guerra. A invenção de armas de fogo e a introdução da
artilharia pesada estimularam a exploração das minas de ferro e
cobre. Nos dois séculos seguintes, a indústria metalúrgica é
impulsionada pelas encomendas de canhões, balas e outros
armamentos pesados. A extração de minérios e a construção de
artefatos de guerra desafiaram a tecnologia da época, que se
desenvolveu a largos passos (Boxe 4.1).

Boxe 4.1 Avanços tecnológicos impulsionados pela colonização


ultramarina.

As grandes navegações elevaram a demanda por minérios. Minas mais


profundas de ferro e cobre passaram a ser exploradas. Surge então o proble-
ma de trazer o metal à superfície. A fim de elevar o minério foram construí-
dos os mais diversos equipamentos na elevação de cargas e um sistema
complexo de bombeamento começou a se desenvolver para a difícil tarefa de
remoção das águas em minas profundas. Outras inovações são utilizadas. O
método rudimentar de produção de ligas baseado em fornos a vapor é
substituído pela forma mais perfeita de produção por altos-fornos, na qual
surge o problema da ventilação, apenas parcialmente equacionado.
A evolução da arte da guerra também estimulou o desenvolvimento da
artilharia pesada que fora incluída como parte integrante dos exércitos.
Surgem os problemas teóricos de balística e construção de canhões, que
levaram à investigação da trajetória da bala, da relação ótima entre calibre e
carga, bem como a relação do calibre com o peso e o comprimento do canhão.
Definidas certas proporções no desenho do canhão, outros problemas são
investigados, como o recuo do canhão com o tiro. Em reação ao desenvol-
vimento da artilharia, ocorre verdadeira revolução na construção de fortifica-
ções e fortalezas, com novos problemas para a engenharia da época.

Outros problemas práticos exigiam pronta solução ao conhe-


cimento da época. Era cobrada da ciência oficial o enfrentamento
de diversos problemas que surgiram com a expansão econômica
das potências europeias. No século XVI, as universidades preser-
vam o conhecimento medieval dominado por um sistema esco-
lástico fechado no qual não havia lugar para as ciências naturais
fora da tradição aristotélica. Tudo o que não fosse encontrado em
Aristóteles simplesmente não existia. A ciência era uma humilde

80
serva da Igreja que não lhe permitia ultrapassar os limites por ela
estabelecidos. Por outro lado, as necessidades tecnológicas de-
mandavam o avanço da ciência, principalmente a física nos ramos
de astronomia, hidrostática, hidrodinâmica, mecânica, aerodinâ-
mica e resistência dos materiais (Boxe 4.2).

Boxe 4.2 Desenvolvimento da física em resposta aos problemas


práticos.

A localização dos navios no meio do oceano dependia da observação dos


corpos celestes. Uma vez conhecido o mapa das estrelas e seu movimento, a
latitude poderia ser determinada por astrolábio e instrumentos ópticos. Já a
longitude dependia do auxílio de cronômetros marítimos que somente foram
inventados no início do século XVIII. Antes da popularização dos cronômetros,
o cálculo das longitudes utilizava a medida da distância entre a lua e as estrelas
fixas, o que exigia um conhecimento exato das anomalias do movimento da lua
e constituía-se numa das mais complicadas tarefas da mecânica celeste. Para
aumentar a capacidade de tonelagem dos navios era necessário o conheci-
mento das leis que governam a flutuação de corpos em líquidos, tema da
hidrostática. A fim de melhorar a qualidade de flutuação dos navios é
necessário conhecer as leis que comandam o movimento de corpos em
líquidos, uma das tarefas básicas da hidrodinâmica. O problema da
estabilidade dos navios é estudado pela mecânica dos pontos materiais. A
construção de canais e eclusas exigia o conhecimento teórico dos fluxos de
líquidos para se entender as leis que governam o movimento das águas em
canais de diferentes seções. A elevação do minério à superfície envolvia o
desenvolvimento de máquinas que dependiam, para sua construção, de um
complicado planejamento de rodas dentadas e mecanismos de transmissão,
que é tarefa da mecânica. O equipamento de ventilação dos altos-fornos exigia
o estudo da aerostática, parte da estática. O bombeamento de água das minas
requeria o estudo de problemas da elevação de líquidos em tubos e o
conhecimento dos efeitos da pressão atmosférica. A tecnologia de guerra
envolvia o estudo das trajetórias de corpos em meio resistente para se
entender a trajetória da bala através do ar. Os processos que ocorrem no
interior do canhão exigem o estudo da compressão e da dilatação dos gases,
tarefa da mecânica dos gases. O estudo do fenômeno de recuo do canhão é
objeto da mecânica. A estabilidade da arma propõe o estudo da resistência dos
materiais.

Sabemos hoje que a física de Aristóteles é falsa em grande


parte, o que não nega ser ela uma ciência altamente elaborada que
procura submeter a um tratamento bastante coerente e siste-
mático os dados do senso comum. Esse tipo de dado diz respeito à
experiência cotidiana, não preparada no sentido moderno do
experimento de laboratório montado para responder a perguntas
específicas. As coisas tratadas por Aristóteles eram, por assim
dizer, fatos triviais que saltam aos olhos.

81
A ciência moderna que surge nessa época parte da ideia
aristotélica de ciência (Boxe 4.3), não obstante, há dois elementos
principais na visão de ciência de Aristóteles que seriam questio-
nados: a crença dogmática na veracidade das premissas científicas
e o pouco cuidado com a observação sistemática dos fatos. Em
consequência, a física de Aristóteles enfrentava um paradoxo:
embora fosse mais próxima do senso comum que a nova física de
Galileu, Torricelli e Newton, dentre outros, não vinha dando conta
de fenômenos físicos e astronômicos mais complexos, como
aqueles trazidos pelo avanço da tecnologia.
Na astronomia, as crenças aristotélicas tinham sido integra-
das desde o século II no sistema geocêntrico de Ptolomeu. Nele,
seguindo os preceitos aristotélicos, o céu é pensado como um corpo
divino e, por essa razão, é-lhe dado o movimento circular. Todos os
astros deveriam percorrer o círculo em torno da Terra, que estaria
parada e imóvel no centro do universo. Sol, Lua e os cinco planetas
observáveis estariam incrustados cada qual em uma esfera de
cristal concêntrica à Terra. A esfera exterior do universo contém,
incrustadas nela, as estrelas fixas mantendo posição relativa
constante entre si, isto é, as constelações com forma permanente.
Os acentuados desvios do círculo, observados no movimento de
laçada dos planetas em torno do fundo das estrelas fixas (o
ziguezague dos planetas), são explicados pela curiosa associação
entre uma esfera principal em torno da terra (deferente) e a esfera
acoplada (epiciclo), presa em um ponto fixo do deferente e
sustentando o planeta. O efeito da composição no movimento das
duas esferas explica as laçadas dos planetas. O desenvolvimento do
sistema astronômico ptolomaico levou a um avançado método de
cálculo da posição das estrelas e dos planetas no céu e à previsão
de fenômenos tais como início das estações e ocorrência de
eclipses.
Com o tempo, o aprimoramento dos instrumentos óticos e a
necessidade de precisão nas previsões levaram a numerosas
correções e acréscimos ao sistema ptolomaico, que para salvar as
aparências não fazia cerimônia em, por exemplo, acoplar não as
duas esferas de que falamos, mas dezenas delas, cada qual cen-
trada em um ponto na superfície de outra, dando conta assim dos
movimentos observados da Lua, do Sol e dos planetas. Questões de
simetria e simplicidade, além de inconfessáveis crenças místicas,
conduziram Copérnico a propor o sistema heliocêntrico no início
do século XVI.

82
Boxe 4.3 Método da ciência em Aristóteles.

No volume Analíticos Posteriores do Organon de Aristóteles, o filósofo


escreve que toda ciência compartilha o mesmo método comum. Ele consiste
em revelar a estrutura teórica por trás dos fatos por meio de um encadea-
mento de sentenças provadas e demonstradas. As sentenças verdadeiras
dependem de outras sentenças, mais fundamentais, também verdadeiras. A
sentença fundamental constitui o princípio (arché) da explicação. São as
causas primeiras das coisas. A demonstração consiste no exercício de se obter
qualquer uma das sentenças encadeadas na teoria por meio da lógica dedutiva
(ou raciocínio silogístico), partindo-se dos princípios até se chegar às
conclusões estabelecidas por ela. Tais conclusões são fatos observados pre-
viamente conhecidos, antes mesmo da teoria, no entanto a ciência trata de
demonstrar como eles decorrem logicamente de premissas. As premissas ou
princípios da demonstração funcionam como hipóteses de um modelo
explicativo que busca ajustar fatos já observados a um sistema de
conhecimento, enquadrando-os e nos lançando à observação de fatos adicio-
nais.
O método científico de Aristóteles começa na observação casual dos fatos.
Depois procura torná-los inteligíveis, formalizando e sistematizando as obser-
vações dentro de um sistema dedutivo a partir de premissas. Procura-se
extrair do evento particular, que se observa, suas características universais a
delimitar o tipo em questão. Destarte, isola-se o que é essencial no evento de
seus aspectos acidentais. Embora tal modelo de ciência não tenha sido muito
diferente das concepções metodológicas da moderna ciência natural, há um
traço característico na visão aristotélica jamais aceito pelos mentores da
ciência moderna. Trata-se de um resquício platônico que permeia as
concepções de Aristóteles. A questão está centrada no problema fundamental
de como se chega aos princípios teóricos universais partindo-se da
observação de casos particulares. Do ponto de vista estritamente lógico tal
problema (denominado problema da indução) seria analisado no século XVIII
por David Hume que conclui pela impossibilidade de sua solução. Aristóteles,
no entanto, vale-se das influências platônicas que lhe permitem assegurar a
veracidade dos princípios. Para ele é perfeitamente possível firmar a verdade
das premissas por meio de um processo de reconhecimento descrito desta
forma: cada fato que se manifesta aos nossos sentidos fica preservado em
nossa memória. Com a repetição do fato, o acúmulo de percepções na
memória possibilita, a partir de certo ponto, o reconhecimento do elemento
universal. Uma vez reconhecidos, os princípios são ainda examinados
dialeticamente como um processo sistemático de crítica até que nos certifi-
quemos plenamente de sua veracidade. Como no modelo de Platão, somos
lembrados da verdade pela experiência; apenas lembrados, pois, já nascemos
com ela, embora a tenhamos esquecido. A lembrança da verdade ocorre a
partir da familiaridade com os fatos, o que desperta um tipo de olhar intelec-
tual que a reconhece, validando o princípio da demonstração científica.

83
Mais do que uma simples mudança de referencial, deslocando
o centro do universo da Terra para o Sol, o modelo copernicano
abalou por completo a física de Aristóteles. Esta última apoiava-se
na crença de que há uma ordenação hierárquica estática à qual
obedece a natureza. Esta se exprime por princípios como o que
estabelece haver um “lugar natural” para cada coisa, o que define o
movimento natural, e por oposição, o movimento compulsório ou
violento. Tirar um corpo de seu lugar natural seria uma espécie de
violência e, uma vez tirado, o corpo precisaria voltar a ele. A
matéria é sempre uma combinação de quatro elementos, ou corpos
simples: terra, água, fogo e ar. Cada um deles possui um princípio
de movimento em sua própria natureza. O movimento natural do
fogo e do ar é para cima e os de água e terra são para baixo. No
centro do universo há algo em repouso. A Terra tem de existir, pois,
é a terra (elemento simples) que está em repouso no centro, para
onde, se deslocado, volta por seu movimento natural para baixo.
Ora, se a Terra não estivesse no centro do universo, a noção de
espaço ou lugar de Aristóteles, que exerce influência no movimento
dos corpos, teria de ser substancialmente revista. Aristóteles pensa
que dois lugares diferentes, um em cima e outro embaixo, possuem
cada qual naturezas diferentes e por isso os corpos deslocam-se no
movimento de queda livre de um a outro. A hipótese copernicana
de deslocar a Terra de seu local no centro de tudo implica também
que a teoria do movimento natural precisa ser esquematizada de
outra maneira. Portanto, Copérnico não apenas lança as bases de
outra astronomia, mas suscita também outra física.
A explicação dos problemas de balística nos projéteis lança-
dos por canhões foi tentada pela física aristotélica. A dinâmica de
Aristóteles é muito curiosa (Boxe 4.4). Embora a teoria de
Aristóteles seja bastante engenhosa, ela não oferece uma solução
prática, por exemplo, ao problema do ângulo do eixo do canhão com
a horizontal que permita a máxima distância de alcance na
trajetória da bala. A crença aristotélica de que “a natureza tem
horror ao vácuo” não explicava por que as melhores bombas d’água
não conseguiam extrair o líquido do fundo de um poço de
profundidade superior a dez metros. Foi por meio dos estudos da
pressão atmosférica e com a hipótese da existência do vácuo que
Torricelli solucionou o problema, no início do século XVII. Conclui-
se que a urgência na solução dos problemas práticos foi minando a
confiança na ciência aristotélica.
A crítica à física de Aristóteles é anterior ao período. Em plena
Idade Média, pensadores escolásticos, como Jean Buridan e Nicolau
Oresme, propunham interpretações diferentes para o movimento.
84
Este último particularmente acreditou que a Terra estivesse em
movimento. No entanto, podemos situar o marco maior no
nascimento do método da ciência moderna na obra do filósofo
inglês Francis Bacon (1561-1626). Bacon via muita especulação
nas ideias de lier e acreditava que o desenvolvimento da ciência
requeria um melhor intercâmbio do homem com a nature-za. O
conhecimento empírico deveria ser valorizado e as noções a priori
abandonadas.
“Resta-nos um único e simples método para alcançar os
nossos intentos: levar os homens aos próprios fatos parti-
culares e às suas séries e ordens, a fim de que eles, por si
mesmos, se sintam obrigados a renunciar às suas noções e
comecem a habituar-se ao trato direto das coisas.” (F. Bacon.
Novum Organum)

Boxe 4.4 Dinâmica do movimento dos corpos em Aristóteles.

Filósofos pré-socráticos acreditavam que todos os corpos estariam


internamente divididos em intervalos de modo a quebrar sua continuidade. O
todo não é contínuo, mas existe na forma de partes separadas pelo vazio. As
partes, que são os átomos, estão em movimento ao redor do vazio. A crença na
existência do vácuo foi duramente criticada por Aristóteles, pois no espaço
vazio não existe nada e, portanto, também não haveria a diferença entre o em
cima e o embaixo e, sendo assim, não poderia haver movimento natural no
vácuo. Além disso, não é necessário o vácuo para haver o movimento, como
pensavam os pré-socráticos. Em sua obra Física, Aristóteles afirma que o
movimento natural é a realização do que existe potencialmente, a realização
do móvel como móvel. Há assim uma ideia de causalidade final na origem do
movimento. Quanto ao movimento compulsório ou violento, quando o corpo
se afasta de seu lugar natural, no De Caelo Aristóteles afirma que, nesse caso,
ele é movido por alguma coisa que exerce sua ação de quatro maneiras:
puxando, empurrando, carregando e girando. A velocidade de deslocamento é
sempre proporcional à intensidade da “causa do movimento” (o que Newton
chamou de força). Como explicar então a trajetória da bala de canhão? Os
aristotélicos, para explicar a trajetória dos projéteis, um movimento não
natural em sua definição, afirmavam que o projétil é impelido pelo ar que o
rodeia, por um mecanismo segundo o qual o ar se abre pela passagem do
projeto, à frente, e se fecha, atrás, de modo a impeli-lo.

Sabemos que Aristóteles realça o papel da observação


empírica em sua descrição do método científico. Ele, porém, como
dissemos, entendia a experiência no âmbito restrito do senso
comum. O problema apontado por Bacon é que observações casuais
do dia a dia que fazemos são carregadas de preconceitos ou “anteci-
85
pações”. A observação deve estar submetida a controle sistemático
se ela quer ir além do indutivismo ingênuo. Além do mais, o legado
aristotélico fora distorcido pela ortodoxia teológica, tornando-se
ainda mais especulativo e descolado da realidade empírica. A ver-
dadeira ciência deveria servir às necessidades tecnológicas.
Somente assim, pode-se, com ela, dominar e conquistar a natureza.
No entanto, os homens somente o fazem submetendo-se a ela, “pois
a natureza não se vence, se não quando se lhe obedece”. O intelecto
deve buscar extrair a verdade das observações, eliminando falsas
noções que bloqueiam e distorcem o processo perceptivo. Tais
noções apreentam-se a nós como ídolos geradores de ilusão, que
devem a todo custo ser combatidos pela ciência. Não podemos
confiar exageradamente em nossos sentidos (ídolo da tribo) e
devemos estar atentos a possíveis estados de perturbação mental,
que crescem na “caverna” particular de cada um de nós (ídolo da
caverna). Hábitos semânticos errôneos bloqueiam o conheci-
mento (ídolo do fórum) e a autoridade do pensamento filosófico
dominante pode ser obstáculo adicional à verdade científica (ídolo
do teatro). Em seguida, Bacon desenvolve um método cuidadoso de
coleta de dados e o aplica ao estudo do fenômeno do calor.
O método difundido por Bacon tornou-se conhecido como
empirismo e sem dúvida ele é um dos pilares da ciência moderna,
que dominou vários ramos da ciência. Em sua principal obra,
Novum organon, ele desenvolve a ideia de experimentação siste-
mática em laboratório, opondo-se ao indutivismo com base no
senso comum de Aristóteles. Um grande avanço, por certo. Bacon
sabia perfeitamente que se oferecia à obtenção da realidade das
coisas por meio dos sentidos um grande número de obstáculos, e
ele não foi nada ingênuo nesse tocante. No entanto, o problema
lógico da indução empírica, isto é, o problema da indução de Hume,
só no século XX seria satisfatoriamente examinado pelo filósofo
Karl Popper e, portanto, muito tempo decorreria até a consideração
completa de todas as dificuldades trazidas por uma ênfase forte-
mente empírica na ciência. De qualquer modo, não foi o empirismo
baconiano o único sistema filosófico subjacente às grandes tradi-
ções científicas modernas.13 Já no século XVIII, outros dois impor-
tantes sistemas metodológicos somam-se ao de Bacon dando
sustentação aos avanços no pensamento filosófico da ciência:

13Dissemos de passagem, no capítulo anterior, que o empirismo de Bacon


influenciou a “aritmética política” de William Petty. A partir de Petty a
pesquisa empírica estará presente de modo mais contundente na investi-
gação social, mais em certos autores do que em outros.
86
Descartes e Newton. Tais sistemas exercerão influência notável na
evolução das ideias econômicas. Antes de adentrar no estudo de
suas características básicas, o presente quadro descritivo do
desenvolvimento das ciências naturais relaciona o empirismo de
Bacon com os físicos Kepler e Galileu, para depois finalmente
concluirmos a seção com a descrição daqueles sistemas.
No início do século XVII, Johannes Kepler e Galileu Galilei
revolucionaram as ciências físicas e prepararam o caminho para a
construção do imponente sistema da física clássica. Kepler simples-
mente utilizou os dados do grande astrônomo Tycho Brahe para
ajustar o cálculo da órbita dos planetas. Particularmente se interes-
sou pela órbita de Marte e, após exaustivas tentativas de ajustar os
dados nos círculos perfeitos de Aristóteles, chegou à conclusão das
órbitas elípticas e propôs, assim, suas famosas três leis do
movimento dos planetas. Entretanto, não foi um empirista no
sentido de Bacon.14 Galileu estudou a queda dos corpos usando
alguns experimentos de laboratório, muito embora ele também se
valesse das famosas experiências de pensamento (Boxe 4.5).
No lugar da teoria dos movimentos naturais de Aristóteles,
Galileu fornece uma explicação puramente mecânica. O movi-
mento não é mais explicado pela qualidade do corpo e a natureza
do espaço, mas como efeito de forças comunicadas do exterior,
como de fato Aristóteles já havia pensado para movimentos
forçados. Aceitando a existência do vácuo, Galileu compreende o
papel da inércia do movimento. Curiosamente Aristóteles havia
pensado na inércia dos corpos enunciando-a para rejeitar a
existência do vácuo. Aristóteles argumentou que...
“Como o ar resiste ao movimento, se o ar fosse evacuado,
um corpo poderia ou permanecer em repouso, porque não
haveria causa para movê-lo, ou em movimento iria à mesma
velocidade para sempre. Como isto é um absurdo não pode
haver o vácuo.” (Apud L. P. Rosa, A dinâmica de Aristóteles e a
estática de Arquimedes)

14 Um grande pensador do século XX, Arthur Koestler, conta-nos que a


ideia da elipse em Kepler surgiu de um sonho por ocasião da gravidez de
sua esposa. Sonhou com um ovo, símbolo da fertilidade, e após tentar o
ajuste dos dados por uma forma ovoide (quem sabe também uma forma
perfeita) acabou chegando à elipse.
87
Boxe 4.5 Experimentos de pensamento de Galileu.

É bem conhecida uma estória em que Galileu refuta a teoria de Aristóteles,


que propugnava pela queda mais rápida de corpos mais pesados, lançando da
torre de Pisa duas bolas de igual dimensão, sendo uma mais leve que a outra.
Parece, entretanto, que ele apenas imaginou tal experimento. O melhor argu-
mento utilizado por ele para invalidar a lei aristotélica da queda dos corpos foi
outro. Imaginou um corpo pesado atado a um corpo mais leve. O corpo pesado
tende a cair com uma velocidade maior, mas por estar preso a um corpo mais
leve, que, pela física aristotélica, cai mais devagar, ele é freado na queda e o
conjunto desce com uma velocidade menor que a do bloco mais pesado. Ora, o
conjunto em si mesmo pode ser pensado como um único bloco, mais pesado
que as partes isoladas. E, portanto, deveria cair mais rápido. Uma contradição
da teoria de Aristóteles apontada por um experimento puramente mental.

Brilhante intuição do princípio da inércia, mesmo que apenas


para negar a existência do vácuo! Galileu aceita tal princípio
também de maneira curiosa: ele imaginou que a inércia fosse
circular e, com isso, pensava estar explicando o deslocamento dos
astros. Um erro fatal da física de Aristóteles foi relacionar o
movimento forçado com a “força externa” aplicada ao corpo,
quando sabemos, graças a Newton, que a força resultante aplicada
a um sólido só comunica aceleração, não sendo diretamente pro-
porcional às velocidades. Isso se deve ao fato de Aristóteles não
compreender movimentos no vácuo ou o papel do atrito e da
resistência do ar nas situações cotidianas.
Na primeira metade do século XVII, a filosofia de René
Descartes (1596-1650) constitui outro pilar da ciência moderna
com aspectos bem distintos do empirismo inglês. O sistema de
Descartes apresenta duas características distintivas: o mecani-
cismo e o racionalismo. Na primeira delas, o mundo é formado por
corpos que interagem na colisão. O movimento de partículas e o
impacto entre elas definem qualquer sistema físico. Mesmo siste-
mas mais complexos, como os seres vivos, funcionam da mesma
maneira que os processos exibidos na natureza inorgânica. Os
indivíduos, portanto, são semelhantes a máquinas e o mesmo
método científico da física pode ser aplicado à biologia. Além disso,
também as ciências humanas, como a ciência moral e a política,
fazem parte da árvore comum do conhecimento, em que as raízes
são a metafísica, o tronco a física e galhos e ramos constituem as
demais ciências.

88
Do ponto de vista do método, em seu racionalismo Descartes
acredita que o exercício da razão humana assegura a certeza do
conhecimento científico. Qualquer indivíduo tem o poder de julgar e
distinguir o falso do verdadeiro pelo uso do bom-senso ou razão.
Enquanto o caminho da verdade em Bacon radica na observação
criteriosa, Descartes procura assegurar-se dela no uso da razão.
Como consequência, sempre que os homens conduzem seu pensa-
mento pelas mesmas vias e consideram as mesmas coisas chegam a
resultado igual. Há uma única verdade e, sendo assim, boa parte das
disputas filosóficas de sua época deve-se a uma má escolha do
método de investigação. O bom caminho consiste em refutar tudo o
que seja apenas provável. Trata-se do método da “dúvida metódica”,
que certamente não pode negar tudo, já que o próprio eu não é
negado, pois o ato de pensar garante nossa existência (“penso logo
existo”). Percorrer tal caminho leva Descartes à rejeição de quase
todo o conhecimento acadêmico a sua época, considerado por ele
mera especulação. Então o filósofo vai à procura do raciocínio
simples dos homens no mundo prático e nos negócios cotidianos.
Tendo estudado autores consagrados de sua época, ele agora se
aventura no “livro do mundo”, a fim de viajar, ver cortes e exércitos,
frequentar todo tipo de gente e recolher diversas experiências.
Depois de refletir sobre todas as suas experiências, percebe que o
pensamento das pessoas é extravagante e muito condicionado pelos
costumes de cada um. Descartes resolve olhar a si próprio e recorrer
apenas à força de seu espírito. Somente a evidência conquistada por
nós mesmos é válida, e contra ela opõem-se os preconceitos da
tradição acadêmica. A razão, portanto, aparece no esforço da mente
isolada e todos os processos técnicos e sociais devem ser pensados,
planejados e controlados por ela.15
O método cartesiano prende-se a quatro preceitos básicos:
1. Acolher apenas coisas verdadeiras e indubitáveis, que não
possam ser postas em dúvida.
2. Todos os problemas são reduzidos a partes elementares, de
modo a se decompor analiticamente a realidade.
3. O conhecimento parte de objetos simples, e só após o pleno
conhecimento deles pode-se investigar objetos compostos
complexos.
4. Todas as soluções possíveis para um problema devem ser
enumeradas e analisadas uma a uma.

15É o que o economista do século XX, Friedrich von Hayek, chamará de


“razão construtivista”.
89
Tal método expressa-se, portanto, com base em axiomas, tidos
como autoevidentes, para a construção de raciocínio analítico e
dedutivo, criteriosamente embasado numa rigorosa lógica mate-
mática. A mente humana busca conhecer a verdade decompondo
analiticamente o problema. Descartes não concede posição desta-
cada à observação empírica na compreensão dos fenômenos
naturais, o que o afasta do empirismo de Bacon e o aproxima de
concepções apriorísticas da ciência. Isso não quer dizer que
nenhum papel possa ser atribuído ao experimento empírico em seu
sistema. Em alguns casos, a experiência conta na seleção de solu-
ções particulares do problema, contudo, é tão somente um instru-
mento adicional de análise ao lado dos recursos fornecidos pela
própria razão.
O sistema de Descartes mantém pontos de contato com a
tradição escolástica, inclusive na ênfase a questões religiosas. No
entanto, ele fornece elementos para a gestação da ciência moder-
na ao praticar metodicamente a dúvida no desenvolvimento do
pensamento científico. Suas ideias marcaram o pensamento
filosófico ocidental, em especial destacamos a influência em pensa-
dores como Spinoza e Locke. No âmbito da ciência natural deu
contribuições expressivas ao desenvolvimento de ramos da física,
como a óptica geométrica, e da matemática, tendo criado a
geometria analítica, uma das bases matemáticas da física clássica.
A crença cartesiana de que a linguagem matemática é a forma
universal do raciocínio empregado em qualquer investigação
científica haveria, por certo, de permear toda a ciência natural a
partir do século XVII e especialmente no século seguinte, quando a
matemática conhece grande impulso em seu desenvolvimento. O
pensamento de Descartes influenciou o Iluminismo francês do
século XVIII, contudo, na época dele as maiores referências para a
ciência inglesa eram, de fato, o empirismo de Bacon e agora o novo
sistema de Newton. O racionalismo, com sua crença na apreensão
direta da verdade, é contraposto, em território britânico, princi-
palmente ao método newtoniano de se fazer ciência. Veremos
adiante que tal método influenciou profundamente o nascimento
da economia como ciência afetando particularmente o pensamento
de Richard Cantillon e Adam Smith.
Isaac Newton (1642-1727) inaugurou um estilo intermediário
entre a tradição aristotélica e o empirismo baconiano. Tal estilo foi
firmando-se a partir do imenso sucesso alcançado por sua física em
explicar e prever fatos empíricos já conhecidos e propor soluções
bastante satisfatórias aos problemas colocados pela tecnologia da

90
época. O método de Newton não ficou confinado apenas nas
ciências naturais e também serviu como modelo para a investi-
gação social. Logo adiante veremos a descrição pormenorizada
desse método, por enquanto se explica como ele surge na prática
de Newton. Kepler havia descoberto as três leis que comandam o
movimento dos planetas pela mera análise dos dados de Tycho
Brahe. Tais leis tinham, portanto, um caráter puramente empírico,
não se revestindo de algum princípio teórico que descreva os
movimentos dos corpos ou explique a natureza das órbitas plane-
tárias. Muito jovem, Newton tinha desenvolvido, a título de exer-
cício matemático, uma explicação física do movimento dos planetas
na hipótese da existência de um sistema de forças centrais unindo
os planetas ao Sol, que decaem com o quadrado da distância que os
separam da estrela. Quando se lança essa hipótese, pode-se
deduzir, com alguma competência matemática, as três leis de
Kepler. De início, Newton não deu muita importância a tal achado,
mas depois, em fase madura da vida, iria perceber, com os colegas
cientistas, as implicações de sua descoberta. Os fatos descritivos da
dinâmica dos planetas, que haviam sido estudados empiricamente
por Kepler, são por Newton enquadrados em um sistema teórico
fundamental construído com base em poucas premissas. A lei da
atração gravitacional e a lei da ação e reação são princípios que dão
conta de toda a multiplicidade de fenômenos astronômicos já
conhecidos. E mais: os movimentos dos corpos na superfície da
Terra também são explicados pelos mesmos princípios da
dinâmica, rompendo-se a separação aristotélica, mantida por
Galileu, entre o mundo translunar das estrelas e o mundo sublunar
em que vivemos.
Não cabe aqui discorrer sobre as realizações da ciência newto-
niana, mas vale dizer que seu sucesso também esteve associado à
solução de importantes problemas práticos da época. Basta
examinar a ordem em que as questões teóricas são tratadas na obra
máxima de Newton, os Princípios matemáticos da filosofia natural,
de 1687, para se perceber sua relação com questões práticas (Boxe
4.6). Newton procurou não apenas resolver problemas empíricos
isolados, mas também construir uma sólida base teórica para a
solução, por meio de métodos gerais, do conjunto de problemas
físicos suscitados pelo desenvolvimento da tecnologia.
O sucesso do empreendimento de Newton conferiu a seu
método um valor de paradigma para todas as ciências e isso se
impregnou fortemente no ambiente acadêmico inglês. No que com-
siste o método newtoniano? No plano meramente formal, é muito
assemelhado à descrição aristotélica de ciência.
91
Boxe 4.6 Problemas técnicos tratados nos Princípios de Newton.

No prefácio dos Princípios, Newton chama atenção para o fato de que a


mecânica aplicada e a descrição de máquinas simples já tinham sido tratadas
por outros e que seu objetivo não era “discutir os vários ofícios e resolver
problemas particulares, mas discorrer sobre a natureza e sobre os funda-
mentos matemáticos da física”. Como a obra é apresentada na linguagem
matemática abstrata da geometria, seria difícil encontrar nela referências
diretas às exigências técnicas das quais acreditamos os problemas por ele
resolvidos derivam-se.
No entanto, a simples inspeção dos temas abordados em cada capítulo
demonstra que o núcleo central dos Princípios consiste exatamente nos
problemas técnicos de sua época. Assim é que, no primeiro livro da obra, é feita
uma exposição detalhada das leis gerais do movimento de corpos sujeitos à
ação de forças centrais fornecendo um método geral para a solução dos
problemas mecânicos. O segundo livro é dedicado ao movimento dos corpos
num meio resistente, resolvendo problemas fundamentais de balística, im-
portante para a artilharia pesada. A quinta seção do segundo livro é dedicada
ao fundamento da hidrostática, ao problema dos corpos flutuantes e ao
problema da compressão de gases e líquidos submetidos a pressões, todos com
aplicação na construção de navios, canais, bombas d’água e sistemas de
ventilação. A sexta seção do mesmo livro trata do problema do movimento do
pêndulo num meio resistente, que facilitaria depois a construção de relógios.
A hidrodinâmica dos fluxos de líquidos por meio de tubos é tratada na seção
seguinte, com importante aplicação para a construção de canais, eclusas e
bombas d’água. O terceiro livro dos Princípios lida especificamente com
questões referentes ao movimento dos planetas e às anomalias do movimento
da Lua, com aplicações em astronomia e para entender-se o movimento das
marés, ambas de importância vital para a navegação. Esse breve perfil dos
Princípios mostra a coincidência entre os temas teóricos e as exigências
tecnológicas da época.

Lembremos que a ciência em Aristóteles se caracteriza pela


busca e pela identificação de princípios (arcai) com base nos quais
se pode demonstrar conclusões que dizem respeito a fatos empí-
ricos previamente conhecidos. Começa-se das conclusões deseja-
das e pesquisam-se as possíveis premissas da demonstração lógica.
Dessa forma, as observações são formalizadas e ajustadas a um
sistema teórico. Eventualmente a identificação dos princípios
levará à observação e à descoberta de novos fatos. Ora, é exata-
mente isso o que Newton fez com os resultados empíricos de
Kepler. Identificou os princípios da mecânica e da atração universal
dos corpos e provou matematicamente como a órbita elíptica e
outras conclusões keplerianas decorrem deles. Então, o método
newtoniano consiste em identificar-se uma ordem natural subja-
92
cente a fenômenos aparentemente caóticos construída a partir de
um pequeno número de princípios básicos muito bem fundamen-
tados. Destarte, mostra-se que o complexo mundo dos fenômenos
observados pode ser ordenado pelo encadeamento de raciocínios
lógicos e se desdobra das premissas iniciais como implicação.
A questão que separa Newton de Aristóteles diz respeito a
como se chega aos princípios e ao status ontológico quanto ao
conteúdo de sua verdade. Vimos que Aristóteles apoia-se numa
visão platônica a firmar a verdade dos princípios no mecanismo de
revelação (nous ou “olhar intelectual”) que vê a verdade dos
princípios na memória retida dos objetos. Definitivamente essa não
é a interpretação de Newton. O grande físico obteve os princípios
de seu sistema apoiado no debate com seus contemporâneos, no
legado da investigação de autores que o antecederam e, sobretudo,
graças a sua imensa genialidade. Participa também os aspectos
místicos em sua formação intelectual (Boxe 4.7). De fato, há muitos
elementos imponderáveis na descoberta newtoniana dos princí-
pios científicos, que não podem ser logicamente reconstruídos.16

Boxe 4.7 Misticismo de Isaac Newton.

John M. Keynes arrematou, em leilão, uma caixa contendo papéis com


anotações de Newton à época em que escrevera os Princípios. Keynes conta-nos
que o conteúdo desses papéis revela uma mente envolta em questões de alquimia
e esoterismo, muito em voga na época. O eminente físico brasileiro Mário Schen-
berg afirma, entre outras coisas, que Newton considerava o espaço o “sensório de
Deus” e que a ideia de atração gravitacional pode ter sido inspirada nas antigas
crenças esotéricas dos poderes de amor e ódio, que corresponderiam a forças
atrativas e repulsivas, respectivamente.

É certo que Newton foi observador meticuloso de fenômenos


particulares. Ele fazia experiências de laboratórios, por exemplo,
incidindo feixe de luz num prisma, e observava o movimento dos
astros. Entretanto, não foram tais observações que nele despertaram
diretamente a descoberta dos princípios. Além do mais, muito do que
se diz sobre Newton hoje se sabe que se trata de lenda. Não está

16 Ciente destas dificuldades, Karl Popper propõe a separação metodo-


lógica entre o contexto da descoberta e o contexto da justificação na
prática científica. A partir daí, a metodologia científica só diria respeito ao
método da justificação, deixando para o contexto da descoberta a ação de
fatores de outra ordem.
93
provada a veracidade da narrativa sobre a queda da maçã de uma
árvore, que lhe teria revelado a existência da gravidade. Enquanto no
método de Bacon a observação empírica meticulosa está na base da
ciência, em Newton os fatos empíricos aparecem como ilustração ou
como comprovação a posteriori da teoria.
Muito embora carregue consigo um enorme poder preditivo dos
fenômenos físicos, a ciência de Newton não se propõe a alcançar a
verdade última das coisas; como na lei da atração gravitacional, que é
apenas postulada. Newton sabia tratar-se de uma hipótese forte que
poderia, com o progresso da ciência, vir a ser mais bem explicada,
como de fato o seria com o desenvolvimento da física moderna. O que
importava era o fato de que eventos observados pudessem ser obtidos
retrospectivamente com base na ação dos princípios teóricos; e que a
construção teórica conferisse uma ordem harmônica aos fatos físicos
observados. Além do mais, a teoria teria diversas importantes
aplicações tecnológicas.
O sistema de Descartes difere bastante da visão de Newton. Este
último não acredita que as forças da razão possam assegurar a
verdade do conhecimento. Adicionalmente, há outros aspectos que os
separam. Newton não compartilha a visão mecanicista do universo tal
como aparece em Descartes. Embora também ele aceite o papel das
colisões, concebia que muitos processos físicos dependeriam de
outros fatores além de movimento e colisão de partículas. Newton
acreditava em uma explicação do movimento com base na hipótese da
“ação à distância” entre os corpos, enquanto o sistema teórico do
francês só permitia a ação por contato. Os corpos interagem apenas
empurrando ou puxando uns aos outros. Newton não considerava
plausível que um sistema complexo como um organismo animal
pudesse funcionar em analogia às engrenagens de uma máquina. Ele
refutava o modelo do universo enquanto um relógio, embora seu
sistema também estivesse fortemente carregado de relações deter-
ministas. O sistema cartesiano identificava espaço com matéria e não
permitia a existência de espaços vazios, mantendo, portanto, a velha
crença aristotélica na ausência de vácuo. Newton aceitava o vácuo. A
lista de diferenças entre eles poderia ampliar-se muito mais.
Esta seção estendeu-se para fora do âmbito mais restrito da
evolução do pensamento econômico porque se necessita de uma
sólida compreensão do desenvolvimento das ciências naturais até
o século XVIII, e de suas diferentes bases filosóficas e metodoló-
gicas, a fim de situar-se o nascimento da economia científica. A
próxima parte descreve como a revolução nas ideias da época

94
repercutiu na visão de sociedade e suas implicações para o
nascimento da economia como um sistema teórico mais integrado.

NOVAS IDEIAS SOBRE POLÍTICA E SOCIEDADE


Localizamos três importantes tradições científicas consoli-
dadas no início do século XVIII, associadas aos nomes de Bacon,
Descartes e Newton. Embora os problemas que deram origem a
elas digam respeito à explicação de fenômenos naturais, os méto-
dos científicos e a visão filosófica geral que emergem, de modo
diferenciado, em cada uma das tradições funcionaram também
como paradigmas da ciência social e da economia em particular.
Isto só foi possível porque, paralelamente ao avanço da ciência
natural, uma nova visão da sociedade foi sendo elaborada desde o
início do período histórico do Renascimento. A decadência da
estrutura feudal e a negação do poder da Igreja abalaram a imagem
da sociedade como uma comunidade de fiéis, na qual caberia a cada
um desempenhar funções específicas predeterminadas. O entusias-
mo geral provocado pelo avanço do conhecimento tecnológico
favorecia um novo tipo de visão enaltecedora do poder do intelecto
humano em conhecer a realidade e dominar a natureza. Ao mesmo
tempo, o homem como cordeiro submisso à Igreja é substituído
pelo homem dotado de vontade própria, repleto de paixões e
muitas vezes movido por impulsos não muito éticos. É quando
surgem os modelos teóricos descritivos da sociedade que procu-
ram dar conta de sua origem e coesão sem pressupor a componente
moral e religiosa.
Embora sem a mesma presença anterior de elementos de
sociabilidade trazidos pela autoridade da tradição religiosa, a vida
social não se degenera em caos. Há de se identificar então os
mecanismos que garantem a coesão social no contexto moderno de
homens livres e pensantes. Surgem as primeiras interpretações da
política, no contexto do novo Estado que substitui o poder ecle-
siástico. Nicolau Maquiavel (1469-1527) propôs uma ciência polí-
tica de caráter positivo, que examina sistematicamente os mecanis-
mos pelos quais um ditador impõe a ordem entre homens egoístas
e pérfidos (Boxe 4.8).

95
Boxe 4.8 Teoria política de Maquiavel.

Para Maquiavel, a eficácia do comandante em atender ao objetivo visado


passa por um cálculo racional. O domínio da situação depende das estratégias
do poder em seguir recomendações práticas, como as que constam em sua
obra O príncipe. Os caprichos pessoais, que poderiam levar à destruição mútua
de todos, são neutralizados pelo poder do Estado.
O quadro traçado por Maquiavel procura ser realista ao conceber uma
natureza humana egoísta e falar em ações necessariamente cruéis que deve-
riam ser praticadas pelo soberano. Isso, no entanto, não se constitui em um
juízo de valor da parte dele. Não se pode concluir que seu intento seja o de
afrontar a moralidade, pois ele não se prende a uma ética deontológica
construída em consideração a princípios de bem e mal. Maquiavel segue a ética
teleológica, em que o julgamento da conduta é feito em termos de suas conse-
quências práticas em alcançar o fim a que se destina. Com ele, as ações
humanas em sociedade passam a ser julgadas como procedimentos técnicos
análogos às medidas requeridas para o domínio da natureza. O Estado é visto
pela óptica de um naturalismo que o assimila a um organismo vivo cuja saúde
depende da eficácia dos remédios aplicados.

A tendência de interpretar o conjunto da vida social como


estando submetido a certos mecanismos racionais, semelhantes às
regularidades dos fenômenos físicos, é mantida e até reforçada no
século XVII. Thomas Hobbes (1588-1679) tenta compreender a
sociedade comparando-a a uma máquina. Seu pensamento político
mantém pontos de contato com o modelo de Maquiavel, como a
imagem realista da natureza humana e a necessidade de um
governo forte para a acomodação de interesses particulares (Boxe
4.9). Sua obra máxima, Leviatã, de 1651, foi dedicada a Galileu.
Conceitos físicos são utilizados para descrever a natureza humana,
quando Hobbes distingue movimentos vitais de movimentos volun-
tários do homem. Os primeiros são os processos automáticos de
operações vitais como digestão e respiração. Estes últimos dizem
respeito à ação voltada ao atendimento de desejos e aversões. Tudo
o que contribui para a satisfação de desejos é um bem, ao passo que
coisas que produzem aversão denominamos de mal. Assim, os
conceitos éticos de bem e mal são redefinidos em termos de coisas
que são e não são agradáveis aos homens.
Hobbes concebe a sociedade como um organismo artificial,
modelo que é reforçado pelo mecanicismo de Descartes, que viveu à
mesma época. Enquanto mecanismo automático, a sociedade sujeita-
se a leis de funcionamento. Leis que também condicionam a esfera
econômica, e justificam políticas pouco intervencionistas.
96
Boxe 4.9 Hobbes e o Leviatã.

A sociedade de Hobbes é organismo artificial inteiramente análogo ao


organismo biológico. É uma criação artificial que se contrapõe ao “estado natural”.
Este último descreve a situação de guerra de todos contra todos, alimentada pela
competição, pela desconfiança e pelo desejo de glória individual. A partir dela, os
homens, movidos pelo medo e ansiando por uma vida mais confortável, são
levados, em vontade própria, a firmar um pacto social. Assim, o Estado emerge de
uma convenção, quando um conjunto de indivíduos concorda em estabelecer o
contrato social.

A influência do espírito cartesiano, portanto, também alcança o


pensamento econômico. Com base na ideia de lei social, Hobbes
defende a liberdade de comércio. Outro autor, Dudley North, que es-
creveu em 1651 os Discursos sobre o comércio, assevera que quando
o método cartesiano é aplicado às questões comerciais, chega-se a um
conhecimento da economia como um sistema mecânico fundado em
verdades claras e evidentes, em que os preços se fixam, por si só, em
cada mercado e a riqueza advém espontaneamente sem a intervenção
do Estado.
A visão da sociedade que iria prevalecer no século XVIII, época
do nascimento da economia como ciência, afasta-se, no entanto, do
racionalismo e do mecanicismo cartesianos sob as influências
marcantes da obra de John Locke (1632-1733), da qual destacamos
o Ensaio sobre o entendimento humano e os Dois tratados sobre o
governo (Boxe 4.10). As ideias de Locke repercutiam as aspirações
da classe burguesa; ele é considerado o filósofo da Revolução
Gloriosa, que em 1688 estabeleceu a monarquia constitucional na
Inglaterra, bem como um dos precursores do Iluminismo, movi-
mento intelectual que influenciou a Revolução Francesa. Locke
também é considerado o pai do liberalismo que se impôs completa-
mente na cena inglesa do século XVIII.
Locke segue a trilha de seus antecessores Bacon e Hobbes,
mas critica Descartes em aspectos essenciais. Como Bacon, ele
exalta o poder dos sentidos como fonte do conhecimento e
repudia os vestígios platônicos da visão de ciência em Aristó-
teles com suas crenças em verdades inatas. De Hobbes, Locke
retém o modelo individualista que explica o poder instituído a
partir de um acordo livremente estabelecido entre os indiví-
duos e selado por um contrato social. No entanto, Locke demons-
tra maior preocupação em resguardar a liberdade individual
97
contra a tirania do poder. Lança então a tese de que a natureza
reserva aos homens certos direitos como os de integridade física
e de propriedade. Seguindo Descartes, Locke também confia no
poder da razão de transformar o mundo, porém ele fornece outra
interpretação dela. A razão não consiste na busca de princípios
internos ao pensamento individual obtidos pela decomposição
analítica dos fenômenos em seus elementos básicos. Trata-se,
mais propriamente, em um dom potencializado pela observação
empírica. Locke critica o racionalismo de Descartes, que inter-
preta ainda reter resquícios escolásticos da crença de ideias
inatas e verdades autoevidentes, ao mesmo tempo em que se
aproxima da tradição empirista de Bacon.

Boxe 4.10 Sociedade e Estado em John Locke.

O modelo de sociedade política de Locke assemelha-se ao de Hobbes,


mantendo dele afastamento em pontos específicos. Em Dois tratados sobre o
governo, ainda aplica os conceitos de “estado natural” de homens livres e
iguais, precedendo o aparecimento do poder, e a ideia de que o poder se legiti-
ma pelo consentimento. Contudo, o pacto social não é pensado como um
antídoto para acabar com a situação de guerra de todos contra todos, já que,
em Locke, no estado de natureza o homem não é o lobo do homem, embora
não se encontre aí a visão idílica do bom selvagem popularizada por Rousseau.
Sem aderir a concepções extremas do caráter do homem no estágio pré-social,
Locke argumenta que o pacto social é fruto da conveniência de os homens
submeterem-se a um poder central a fim de preservarem a vida e a proprie-
dade.
Se o Estado aparece para preservá-las, é importante encontrar uma justificativa
para o direito de propriedade. Nesse tocante, Locke envereda suas reflexões
passando às considerações econômicas. O Estado não interfere na distribuição de
riquezas, pois é o trabalho individual que confere a cada qual seus direitos de
propriedade, que englobam também os direitos de herança. O fim da vida social é
produzir a maior quantidade possível de coisas úteis, mas a produção deve-se deixar
a cargo de interesses particulares.

No entanto, isso não significa que ele tenha, de fato, aderido a


um empirismo radical, embora Locke em muito tenha contribuído
para a difusão do empirismo fora da Inglaterra. O empirismo havia-
se consolidado no século XVIII graças ao extraordinário avanço das
ciências, mas foi o método da física newtoniana e não o de Bacon
que se tornou o paradigma do pensamento filosófico em ciência.
Locke desfrutou da amizade de Newton e com ele apercebeu-se que
grande parte de nossas ideias não se poderia comprovar, pois elas
provêm de um conhecimento intuitivo. Podemos demonstrar as
98
consequências matemáticas dos princípios da física e chegar a
certas conclusões de aplicação empírica, mas o princípio em si
mesmo, uma vez bem estabelecido, não se pode contestá-lo. Outras
ideias colocam-se acima da razão humana e só podem ser assenti-
das pela fé, como as crenças religiosas.
Dando continuidade à ética teleológica de Maquiavel e Hobbes,
Locke busca ainda um fundamento hedonista para a justificativa
moral da conduta. Bem e mal são definidos pelo prazer e pelo mal
que a conduta propicia ao indivíduo. Tal modelo ético iria depois
resultar no utilitarismo de J. Bentham, seguido pela maioria dos
filósofos éticos ingleses entre o fim dos setecentos e o século se-
guinte.
Em teoria econômica, Locke tece consideração sobre o valor
dos bens. Seu fundamento está no trabalho humano. Contraria-
mente à versão menos enfática de William Petty, o trabalho é mais
importante que o próprio preço das terras na determinação do
valor dos bens. No ensaio de 1691, intitulado Considerações sobre
a queda do juro e a elevação do valor da moeda, Locke indica
claramente sua compreensão dos mercados como um mecanismo
impessoal, em que operam a oferta e a demanda e no qual os preços
estabelecidos não poderiam ser consistentemente alterados por
medidas legais. O próprio juro do dinheiro seria determinado por
uma taxa natural de mercado.
Há então, no início do século XVIII, um consenso em torno da
interpretação da política, da sociedade e mesmo da economia como
esferas naturais. Uma importante questão da época interrogava em
como conciliar a visão da sociedade composta por indivíduos
autointeressados com o comportamento ético presumidamente atri-
buído ao homem pelos filósofos morais. Aceitando todos os preceitos
da análise de Locke, um grupo de filósofos ingleses ataca a visão
pessimista de Hobbes e tenta mostrar que o autointeresse não é, a
princípio, incompatível com a benevolência. Entre eles podemos citar
Shaftesbury, Tucker e Hartley. Passando ao largo das particularidades
individuais, todos defendem a possibilidade de reconciliação entre a
conduta altruística e a busca da satisfação individual. Porque, sendo o
homem um animal social, as preocupações com o interesse próprio e
com o interesse comum se confundem, de modo que ao se trabalhar
pelo incremento da felicidade pública aumenta também o quinhão da
felicidade individual. O argumento filosófico principal deles consiste
em mostrar que o comportamento humano tem sempre um
componente de benevolência, não sendo, portanto, um comporta-
mento genuinamente egoísta. Os filósofos éticos procuram enfraque-

99
cer a tese do homem autointeressado e egoísta, reconciliando-o com a
moral.
O escritor holandês Bernard de Mandeville (1670-1733) pu-
blica um poema, em 1705, em que busca demonstrar, por meio de
uma fábula, que não é necessário descartar o comportamento
puramente egoísta para se derivar, a partir dele, resultados
benéficos para a sociedade. A obra Fábula das abelhas traz em seu
subtítulo um resumo da fórmula encontrada por Mandeville: vícios
privados, benefícios públicos (Boxe 4.11).

Boxe 4.11 A Fábula das abelhas.

Nesta obra, Mandeville supõe a existência de um mecanismo na sociedade


pelo qual os vícios privados, ao se somarem, convertem-se em benefícios
públicos. O argumento é o de que a luxúria humana, ao lado da vaidade e da
inveja, é socialmente útil já que gera demanda efetiva, encorajando a produção
de bens e com isso empregando toda sorte de trabalhadores. A fim de ilustrá-
lo, conta a estória de “uma grande colmeia, repleta de abelhas, que viviam com
luxo e comodidade” e que a partir de certo momento resolve se moralizar.
Consequentemente “à medida que minguaram o orgulho e o luxo... fecharam
fábricas inteiras” e... “Todas as artes e ofícios foram abandonados”. A colmeia,
ao se moralizar, entra em franca decadência econômica. Como lição da estória,
Mandeville escreve que “ser famoso na guerra e, ainda, viver comodamente,
sem grandes vícios, é uma vã utopia radicada no cérebro. A fraude, o luxo e o
orgulho devem existir, enquanto recebemos seus benefícios”.

Mandeville reforça o modelo individualista de sociedade,


mostrando a precariedade dos argumentos morais na explicação da
sociabilidade dos homens nas economias de mercado. Suas ideias,
no entanto, escandalizaram a opinião da época e não foram segui-
das pelos mais importantes filósofos morais do século XVIII.
Mandeville não nega que os homens sejam naturalmente dotados
de algum senso moral, mas ele não considera que a plena morali-
dade seja pré-condição para a vida social.
O ensaio de Mandeville teve papel decisivo a fim de emancipar
o pensamento econômico da época da moralidade e permitir,
assim, a consideração de um subsistema social autônomo que
constitui uma ordem econômica formada por uma coleção de
indivíduos buscando seu autointeresse e governados pela lei da
oferta e demanda. A ordem social ora era pensada como uma
criação artificial dos homens, como na tradição hobbesiana, ora

100
como uma entidade natural ou até divina.17 Newton também via o
desígnio de Deus na ordem natural. Os economistas do século XVIII
acreditavam todos na ordem natural dos fenômenos econômicos.
Mercier de la Rivière, membro da escola de economistas
franceses conhecida como Fisiocracia, afirma textualmente que a
“ordem natural e essencial da sociedade” não é fruto do trabalho do
homem, mas é instituída por Deus. Smith talvez tenha enxergado o
desígnio do criador na ordem econômica, enquanto Hume era
céptico da presença divina nessa ordem. Não importa se a
interpretação de cada qual é ou não carregada de conotação
religiosa; todos aceitam a existência de uma ordem natural
subjacente à sociedade e à economia. Se ela existe, os homens em
sociedade estão sujeitos a leis naturais do mesmo modo em que na
natureza física os fenômenos submetem-se a leis físicas. Os
fisiocratas acreditam que a produção e a distribuição dos bens são
efetuadas de acordo com leis fixas da natureza e que os problemas
de distribuição devem ser lidados como se enfrentam os problemas
da física.
Esta seção examinou sistematicamente a visão de sociedade que
emerge no século XVIII e o sistema de crenças filosóficas subjacente
ao aparecimento da economia como ordem natural. Veremos, ainda
no presente capítulo, aspectos mais específicos de teorias que
influenciaram diretamente o tratado econômico de Adam Smith. Por
certo, boa parte do material e do esquema de ideias de Smith pertence
ao legado de um conjunto de autores antecedentes.

BOISGUILLEBERT E CANTILLON: PRECURSORES DE ADAM SMITH


Nesta seção, faremos uma exposição detalhada da contribuição
destes dois autores que, ao lado dos fisiocratas, foram importantes
precursores das ideias de Smith. Começa-se com Boisguillebert
(1646-1714), autor francês cujos trabalhos mais importantes con-
centram-se por volta de 1700. Pierre le Pesant, seu nome de batismo,
foi um importante crítico das políticas mercantilistas na França no
reinado de Luis XIV. É bem verdade que ele ainda não fornece um
tratamento sistemático da economia com base em princípios e só
analisa problemas econômicos específicos, mas sua obra tem
elementos de originalidade que merecem ser considerados. Bois-

17 Descartes via asociedade como uma ordem divina, embora seu raciona-
lismo estivesse associado à crença no poder da razão humana em edificar
a sociedade. Hayek o associa à “razão construtivista”.
101
guillebert vê a economia como um mecanismo natural governado
pelas forças de mercado e, contrário às práticas mercantilistas,
enfatiza a liberdade das trocas.
À época de Boisguillebert, a França vinha atravessando grave
crise econômica alimentada pelas despesas de guerra e pelas
extravagâncias de consumo na corte. Os males econômicos são
atribuídos por ele à adoção de preceitos mercantilistas. Bois-
guillebert publica um conjunto de obras, entre 1665 e 1712,
tratando principalmente de reforma tributária e que chegaram a
escandalizar o rei, a ponto de ser penalizado tendo de se exilar pelo
lançamento de O memorial da França em 1707. De original, ele
propõe a noção de que os bens e os serviços à disposição de cada
cidadão e não a moeda ou a fortuna do rei constituem a verdadeira
riqueza da sociedade. A fonte do crescimento da riqueza é o
consumo individual, de modo que o bem-estar nacional depende da
pujança da demanda efetiva. Boisguillebert acredita que a renda
nacional seria determinada pelo fluxo de dinheiro gasto,
antecipando, pelo menos em espírito, ideias de Keynes.
A solução para o problema do declínio econômico da França
requer uma reforma tributária que possa reduzir os impostos, de
modo a suprimir um fator limitante da demanda. Boisguillebert
havia calculado que os impostos em excesso e a concentração em
sua base de incidência teriam acarretado uma queda na renda da
França em pelo menos 50%, entre os anos de 1665 e 1695, pela
decorrente insuficiência de demanda agregada. Os efeitos nocivos
provocados pelo receituário mercantilista também foram respon-
sabilizados pela queda na renda. Especialmente desastrosa tinha
sido a decisão do ministro Colbert de proibir as exportações de
grãos, o que veio a prejudicar a agricultura do país. Como
consequência dela, os preços dos grãos tendiam a cair principal-
mente em tempos de crise quando se acentuava a escassez de
demanda.
A visão de Boisguillebert enaltecia dois elementos: a primazia
da agricultura e os benefícios do livre-comércio, também bandeiras
dos fisiocratas como veremos mais adiante. As medidas que
procuravam favorecer as manufaturas em prejuízo da agricultura
deveriam ser revertidas. O mercado funcionando por conta própria
traria a expansão da agricultura, com estabilidade de preços e
melhor distribuição de renda. Uma distribuição mais equitativa
seria importante por garantir a sustentação da demanda agregada.
A reforma tributária proposta por ele priorizava o combate a
três tipos de impostos então cobrados na França: as talhas, as sisas
102
(“aides” em francês) e os impostos aduaneiros. Os primeiros
incidiam sobre as propriedades e eram sujeitos a muita arbi-
trariedade e capricho pessoal em sua aplicação. Os nobres e os
membros do clero ficavam isentos de pagá-los. A carga incidia
fortemente sobre os proprietários mais pobres, principalmente o
pequeno camponês. As sisas são um imposto indireto sobre as
vendas. Boisguillebert preocupava-se com a possibilidade de o
povo francês ter que cortar seu hábito mais típico pelas pesadas
sisas sobre a venda do vinho. Os direitos aduaneiros eram cobrados
pela circulação de mercadorias, não só entre as fronteiras da
França, mas também entre regiões internas; o que restringia sobre-
maneira o fluxo de mercadorias e a concorrência nos mercados,
implicando assim em aumento de preços.
Boisguillebert defendia a liberdade dos mercados, argumen-
tando que, deixando a natureza agir, os preços, espontaneamente
determinados, garantiriam em todos os setores da economia um
ganho normal ou justo. O mecanismo de formação de preços já
asseguraria o máximo de riqueza. O mercado leva à realização de
todos os planos dos produtores individuais e não haveria nunca o
problema crucial de falta de consumo. Pode-se considerar, neste
aspecto, que Boisguillebert tenha antecipado a chamada Lei de Say,
apontada pelo famoso economista clássico.
O autor que estamos considerando propõe assim um conjun-
to de medidas que comporiam uma reforma tributária. Anos
depois, ele será criticado pelos fisiocratas por não oferecer um
“sistema natural de finanças públicas”, mas um conjunto de
medidas arbitrárias visando ao aumento do consumo agregado. Os
críticos fisiocratas consideravam mais importante para a expansão
econômica do país a forma como os impostos afetam não o consu-
mo, mas o processo de acumulação de capital. Boisguillebert, por
seu turno, raciocina pensando em tornar os impostos mais
progressivos e melhorar a distribuição de sua base de incidência de
modo a liberar renda disponibilizando-a para o consumo. Esse é
seu receituário básico de política econômica. Ele também deu
importante contribuição em questões monetárias analisando a
natureza da moeda. Percebeu então que há outros meios de
pagamento na forma de papéis (letras de câmbio, títulos do
governo etc.) que podem funcionar como substituto da moeda nas
transações. Também se notabiliza por considerar que o efeito de
certa quantidade de moeda sobre a economia dependeria também
da velocidade de circulação da moeda, conceito ainda mal com-
preendido à época.

103
Em 1755, é publicada em Paris a obra de um autor não muito
conhecido, que já havia falecido duas décadas antes, assassinado em
condições obscuras nas ruas de Londres; são os Ensaios sobre a
natureza do comércio em geral de Richard Cantillon (1680-1734).
Banqueiro e comerciante, de origem irlandesa, pouco se conhece de
sua vida. Seus Ensaios constituem um tratado brilhante que, sob
influência do método newtoniano, busca a descoberta de princípios
básicos da vida econômica. Em analogia com o princípio universal da
gravitação, Cantillon localiza o motor do processo de ajuste dos
mercados na busca autointeressada do lucro. Todo o sistema
econômico é visto como um processo de ajuste entre partes
conectadas, de modo que mudanças básicas na população, nos gostos
e na produção afetam umas às outras. É possível que seu legado
tenha sido ainda mais importante que o dos fisiocratas na formação
das ideias de Adam Smith. No entanto, a importância de Cantillon só
foi reconhecida no final do século XIX, quando foi, por assim dizer,
redescoberto por Willian Jevons. Com justiça, podemos considerá-lo
o autor do primeiro tratado sistemático de economia.
Em Cantillon, pela primeira vez, ao que consta, a variável
demográfica é incorporada como parte de um modelo econômico.
Também de modo pioneiro ele oferece uma explicação racional
para a localização espacial das cidades e da atividade econômica.
Entretanto, queremos destacar três aspectos da contribuição de
Cantillon:
1. A estrutura das classes sociais.
2. A teoria dos preços e a descrição do sistema de mercado.
3. A teoria monetária e os fluxos de renda.
Cantillon parte da existência da propriedade privada como um
requisito para o funcionamento dos mercados. A sociedade é
composta por quatro classes: nobres, proprietários de terra, em-
presários e assalariados. As duas primeiras são os segmentos das
pessoas financeiramente independentes, que não precisam tra-
balhar, e tão somente fornecem suas propriedades para que os
produtores possam extrair delas os recursos naturais. As proprie-
dades incluem terra e capital físico em geral. Os empresários
ocupam uma posição intermediária, seu papel consiste em operar
nos mercados de produtos e fatores de produção procurando tirar
vantagem do sistema de preços de modo que da ação deles dependa
o mecanismo de ajuste entre oferta e demanda em cada mercado.
Eles também são os que contratam trabalhadores e organizam a
produção. Os assalariados trabalham por remuneração fixa, en-
quanto o empresário tem uma renda incerta, pois é ele quem corre

104
o risco: quando produz não sabe o preço a que poderá vender o
produto.
Tal divisão social em classes era um procedimento analítico
ainda pouco usual nos escritos econômicos. Frequentemente atri-
bui-se aos fisiocratas a introdução de classes sociais na análise
econômica, mas, sem dúvida, antes deles Cantillon já raciocinava
em termos delas. O representante típico da classe empresarial é o
fazendeiro, pois os modernos métodos capitalistas de produção
estavam mais disseminados na área rural da França. Toda troca e
circulação de bens que aciona o sistema econômico parte da classe
dos empresários e, sendo assim, estes ocupam nele uma posição
vital.
Cantillon descreve a economia como um sistema organizado
de mercados interconectados que afetam uns aos outros, no
interior do qual atuam indivíduos em relação de dependência
mútua. O sistema ajusta-se pela ação de empresários autointeres-
sados que operam nos mercados comprando, vendendo e organi-
zando a produção em condições de incerteza. Com o tempo, os
mercados tendem a se estabelecer na situação de equilíbrio. No
equilíbrio de longo prazo, os preços estabilizam-se em torno do
custo real de produção. Nessa condição, Cantillon define o conceito
de valor intrínseco, que pode ser reduzido a quantidades e quali-
dades de terra e trabalho humano que entraram na produção. A
tentativa de fundamentar os preços em alguma medida de custo
real não é bem-sucedida e falta-lhe maior clareza, por exemplo, em
como se definem as diferentes qualidades de terra e trabalho e
como unidades de terra e trabalho podem ser comparadas entre si,
questões também enfrentadas e igualmente não resolvidas por
Petty.
A contribuição analítica mais importante de Cantillon diz
respeito à sua descrição do processo de convergência para os valores
de equilíbrio. No curto prazo, ele enfatiza a noção de preço de
mercado dando-lhe uma interpretação subjetivista que realça, em
sua determinação, os humores e caprichos dos agentes envolvidos,
bem como o desejo de consumo deles. No longo prazo, os preços
estabilizam-se nos valores intrínsecos (Boxe 4.12).
Há outra ordem de ideias em Cantillon que seria depois aperfei-
çoada pelos fisiocratas. Ele desenvolve um modelo de fluxo de rendas
em circulação entre as classes sociais. Há três canais de transmissão
de renda: o que vai dos fazendeiros para os proprietários, na forma de
pagamento de aluguéis; o fluxo entre os primeiros e trabalhadores,
proprietários de matérias-primas e vendedores de bens manufatura-
105
dos, que corresponde aos pagamentos dos fazendeiros na aquisição de
bens e serviços. Por fim, resta o fluxo interno entre os próprios
fazendeiros, obtido como resíduo ou renda líquida dessa classe. A
noção de fluxos de pagamento entre classes sociais, embora ainda
embrionária em Cantillon, conhecerá em François Quesnay grande
aprimoramento, em que um esquema bastante complexo dos fluxos
de recebimentos e gastos em cada setor será proporcionado pelo
Quadro econômico, sua principal obra.

Boxe 4.12 Cantillon e o mecanismo de mercado.

Nos Ensaios sobre a natureza do comércio em geral, Richard Cantillon,


considera que os preços de mercado se afastam dos valores intrínsecos na
medida em que os planos de produtores e de seus clientes não estejam
perfeitamente coordenados. Planos inconsistentes distanciam temporaria-
mente os preços de seus custos. Os preços funcionam como uma rede de sinais
que serve para conectar mercados diferentes. Os homens, movidos pelo
autointeresse, reagem aos sinais dos preços e entram em diferentes mercados
vendendo e comprando de modo a explorar as diferenças observadas entre
preços praticados e valores intrínsecos. A própria ação dos agentes, à medida
que desloca a oferta e a demanda, leva a uma mudança nos preços relativos,
sinalizando novas estratégias até que os planos de compradores e vendedores
se tornem compatíveis. O mesmo processo também se verifica no mercado de
fatores e conduz à realocação constante de trabalho e de outros insumos
produtivos até que a demanda se iguale à oferta. Tal mecanismo explica, por
exemplo, como as forças naturais alocam o trabalho em seus diferentes
empregos. É verdadeiramente surpreendente a fecundidade das ideias
econômicas contidas nos Ensaios. Smith interpreta a economia de mercado
tomando na íntegra o esquema de Cantillon do funcionamento dos mercados.

A análise dos fluxos de renda está integrada a uma teoria


monetária bastante desenvolvida. A relação entre moeda e preços já
era bem conhecida entre os economistas. Faltava, no entanto, melhor
entendimento da cadeia causal em que as moedas afetariam os preços.
Locke havia lançado uma explicação em termos do que hoje é
conhecido como teoria quantitativa da moeda, mas a grande difi-
culdade, ainda não resolvida, consistia em mostrar de que maneira e
em que proporção variações monetárias impactariam os preços. A
ideia popularizada até então era a de que acréscimos de moeda nas
mãos do público afetariam o nível agregado das despesas, que por sua
vez levaria a um aumento da produção. A pressão da demanda dos
produtores elevaria os custos e finalmente os preços dos bens finais.
Cantillon tratou dessa questão embasado em sólida pesquisa empí-
106
rica; assim como Petty ele também tinha grande habilidade na coleta
e na análise de dados. Estimou então o estoque de moeda necessário
para o bom funcionamento da economia com base em um estudo
minucioso da velocidade de circulação da moeda. Sua pesquisa empí-
rica acabou revelando-lhe o princípio analítico de se separar o nível
geral de preços dos preços relativos.
Cantillon ficou convencido de que a ênfase no nível geral de
preços encobre o aspecto mais fundamental de como as emissões
monetárias afetam os preços relativos entre diferentes setores da
economia. Dependendo de como a moeda entra no sistema econô-
mico, ou seja, das mãos em que ela passa primeiro, poderia afetar
prioritariamente o consumo ou a poupança. Quando se destina aos
que consomem proporcionalmente mais, o aumento da demanda de
bens finais estimula o aumento da produção e a decisão de investir.
Como não haveria acréscimos significativos nos fundos para
investimentos, a concorrência no mercado de fundos conduziria a
uma elevação nas taxas de juros. Por outro lado, se a moeda adicional
é transferida inicialmente aos que poupam mais, a menor pressão da
demanda de bens finais e a disponibilidade maior de fundos redu-
ziriam as taxas de juros. No primeiro caso, temos aumento dos juros
e pressões inflacionárias, na segunda hipótese ocorre redução dos
juros e menor influência sobre os preços. Assim, o mecanismo
automático de ligação entre moeda e preços é questionado na análise
setorial de Cantillon. Apenas no fim do século XIX esse tipo de análise
dos elos microeconômicos da teoria monetária é retomado.
Para completar o quadro dos antecessores de Adam Smith,
apresentaremos, na última seção do capítulo, a escola fisiocrata.

OS FISIOCRATAS
Em meados do século XVIII aparece na França o primeiro
grupo de pensadores de questões econômicas organizado formal-
mente em escola. Eles intitulavam a si mesmos de “economistas”,
expressão não muito usual à época, mas vieram a se tornar
conhecidos como fisiocratas, adeptos da escola da fisiocracia. A raiz
da palavra fisiocracia significa “governo (ou regra) da natureza”, e
revela um aspecto fundamental da crença que os une, quer seja, a
ideia de que a sociedade e a economia funcionam de acordo com
uma ordem natural. Todos os fatos sociais e econômicos estão
intimamente ligados e sujeitos a leis inevitáveis. Sendo assim, tanto
o governo quanto o setor privado devem, em suas ações, entender
e observar tais leis se desejam alcançar resultados ótimos. A ordem

107
natural da sociedade apresenta, portanto, o caráter de um modelo
ideal, que não é estabelecido na prática quando os homens criam
obstáculos a seu bom funcionamento.
A natureza social é fruto do desígnio de Deus que a constrói
estabelecendo entre seus elementos relações matemáticas. Embora
a fé religiosa possa revelar o conteúdo da doutrina moral e política
que rege a sociedade, o entendimento da esfera econômica cons-
trói-se com base na observação dos fatos e da articulação dos dados
quantitativos fornecidos pelos preços em um sistema de cálculo
matemático. O trabalho do economista consiste na observação
metódica, bem como no arranjo e na organização dos fatos de
acordo com suas causas e na proposição de um sistema analítico
em modelo teórico. Assim, a ciência econômica copia o mesmo
método das ciências físicas. Seu objetivo precípuo é o de analisar a
mecânica da interdependência das partes que compõem uma
totalidade. A vida econômica configura uma máquina semelhante a
organismo vivo, e a análise mecânica e matemática dela permite à
teoria acompanhar seu modo de funcionamento.
A preocupação dos fisiocratas consiste em identificar os
princípios racionais que regem a produção e a acumulação de
riquezas, bem como a distribuição de renda e os fluxos de gastos.
No primeiro caso, enfatizam o processo de investimento produ-
tivo, pensado como adiantamento de capital de giro e emprego de
capital fixo. No que tange à geração de renda e de gastos, os
fisiocratas descrevem um processo anual de interação mútua entre
classes sociais como um fluxo circular de renda e despesa. A
compreensão do fluxo é importante, pois identifica o âmago do
funcionamento do sistema econômico em analogia aos fluxos
sanguíneos do organismo biológico. Os efeitos das políticas
intervencionistas podem ser antecipados pelo entendimento do
organismo econômico. A boa política deve procurar ampliar o fluxo
circular, o que impulsiona o crescimento econômico.
A produção e a distribuição de riquezas ocorrem ao longo de
um circuito composto por diversos elos. A política econômica, ao
afetar determinado elo, comunica um efeito à economia como um
todo. O fator-chave da atividade econômica é a agricultura. De fato,
na França do século XVIII a atividade agrícola era o setor mais
importante. O método capitalista de direção empresarial havia-se
difundido mais na agricultura, que se constitui assim no carro-chefe
da economia francesa. Refletindo a organização do trabalho vigente
na França do período, os fisiocratas vão identificar na agricultura o
setor natural para a implementação dos métodos capitalistas,

108
enquanto nas atividades urbanas veem a estrutura tipicamente
artesanal como a forma natural de gestão. O capitalismo é um
sistema de produção com base nas trocas de mercado que tem
como princípio de funcionamento a geração de excedente, sua
aplicação produtiva e sua ampliação.
O capitalismo pressupõe o direito de propriedade e, em sua forma
pura, não admite restrições a esse direito. No entanto, no plano da
ordem natural os fisiocratas argumentam que tal direito se deveria
fundamentar no trabalho humano despendido. Nesse ponto, os
fisiocratas seguem John Locke na defesa dos direitos individuais e no
uso deles para justificar a propriedade privada. Também defendem a
liberdade de mercado e acreditam que o autointeresse individual
esteja na base do funcionamento harmônico da economia. Os fisio-
cratas combatem as medidas intervencionistas do governo e têm
como máxima o conhecido bordão laissez-faire, laissez-passer, que
apela para a liberdade de produção (permitam que façam!) e de
comércio (deixai que passem!). A crítica ao controle da autoridade não
significa que os homens não tenham de se submeter a algum poder.
No entanto, tal poder, no caso, é a própria lei natural que se deve
observar para a consecução plena dos objetivos colimados.
O excedente é um conceito importante dos fisiocratas e signi-
fica a riqueza produzida que não é consumida. Os fisiocratas acredi-
tam que o excedente só ocorre na agricultura. Sendo o capitalismo
um sistema de geração de excedentes, somente na agricultura ocorre
a produção nos moldes capitalistas. Como este é o único setor que
gera mais do que é consumido no processo, ele é tido como o único
segmento produtivo. A atividade manufatureira apenas muda a for-
ma dos bens. É claro que por seu concurso os bens tornam-se mais
úteis, entretanto, só a agricultura é capaz de criar riqueza adicional.
O que confere um status privilegiado à agricultura é a ação,
exclusivamente nela, de forças naturais que ocorrem no campo e que
propiciam o crescimento do ser vivo: a planta que se desenvolve, a
árvore que floresce etc. O mesmo processo não é identificado na
indústria. O excedente é a apropriação dessas benesses da natureza.
Toda a fonte da riqueza advém do excedente, só ele contribui para a
formação do produto líquido (a produção que ultrapassa o consumo
no período).
A escola fisiocrata era formada por um grupo heterogêneo de
autores, dentre eles destacam-se:
1. Jacques Turgot: secretário de finanças de Luís XVI, autor de
reformas de inspiração liberal e propagandista da teoria do
direito natural. Muitos não o consideram fisiocrata, mas
109
somente um simpatizante do movimento. Turgot destaca-
se na análise do valor.
2. Marquês de Mirabeau: que cunhou, como vimos, a
expressão mercantilismo.
3. Mercier de la Rivière: uma das principais figuras, com farta
reflexão em filosofia política.
4. Du Pont de Nemours: migrou para os Estados Unidos e
ajudou a difundir as ideias fisiocratas por lá.
5. François Le Trosne: jurista e economista, o mais jovem do
grupo. Desenvolve em seus escritos uma análise do valor
em que considera fatores como utilidade, despesas na
produção, raridade do bem e concorrência.
6. Nicolas Baudeau: editor-chefe do jornal dos fisiocratas.
7. François Quesnay: o líder do movimento. Médico da corte
de Madame de Pompadour e Luís XV. Conheceu Smith
pessoalmente e influenciou-o com sua visão do processo
econômico. A sua obra Quadro econômico é a mais co-
nhecida da escola fisiocrata.
A contribuição dos fisiocratas insere-se nas críticas, muito em
voga na época, contra a política econômica de Luís XV. Impostos
opressivos eram cobrados da população para financiar os gastos
extravagantes da corte e o envolvimento em guerras que trouxe-
ram consequências desastrosas para o tesouro francês. No entanto,
os nobres e os membros do clero beneficiavam-se de isenções
fiscais, embora fossem donos de dois terços das terras. Os fisio-
cratas reagiam a esse estado de coisas. Acreditavam que o recei-
tuário de medidas mercantilistas levaria à ruína do reino. As
políticas para estimular as exportações resultaram no encolhi-
mento do mercado interno, dos salários e da renda gerada na
economia. A produção agrícola sofria com os impostos abusivos e,
mais grave, os impostos afetavam o crescimento econômico por
impedir a acumulação de capital.
A obra que melhor sistematizou a nova visão da economia e
que serviria como guia científico para a reforma econômica foi o
Quadro econômico (“Tableau Économique”) de Quesnay. Ele
percebeu que uma compreensão do processo de interação entre as
classes sociais por meio de fluxos de renda e despesas seria
fundamental para se restaurar a política econômica. Ele concebe a
sociedade por meio de três classes socioeconômicas:

110
1. Classe produtiva, formada basicamente por agricultores,
mas que poderia incluir também pescadores e minera-
dores.
2. Classe estéril, em que participam manufatureiros, merca-
dores, servos e profissionais liberais.
3. Proprietários de terra e de outros bens.
Alguns comentadores atribuem a Quesnay a primeira proposta
de se pensar a economia em termos de classes sociais e fluxos de renda
entre elas, mas já vimos que antes dele tal enfoque aparece em
Cantillon, embora no Quadro econômico ele esteja mais bem
desenvolvido.
Quesnay oferece uma complicada tabela numérica na qual
traça em zigue-zague os fluxos de renda e despesa agregadas entre
as classes. O fluxo circular da economia, representado por ela,
mostra como as despesas de um setor geram as receitas de outros,
dentro de um modelo fechado e estático. A origem das despesas é a
renda recebida pelos senhores de terra. Tal renda é o produto
líquido do período anterior pago no início do novo período pelos
fazendeiros. A renda total que emana dos fazendeiros movimenta a
atividade econômica das três classes ao longo do período, e no final
retorna a eles. A cada período, o processo se repete. Exempli-
ficando, suponhamos que o produto total da economia no fim do
período produtivo anual seja de cinco unidades monetárias que se
encontram inicialmente nas mãos da classe produtiva. O excedente
sobre os custos necessários para essa produção é o produto líquido
que é transferido para o pagamento de aluguel. Assim, duas
unidades monetárias são canalizadas integralmente aos proprie-
tários. O período seguinte começa com os proprietários gastando o
que têm, comprando $ 1 de manufaturas da classe estéril e $ 1 dos
mesmos fazendeiros na aquisição de alimentos. Os fazendeiros
adquirem $ 1 de manufaturas da classe estéril e $ 2 de alimentos
deles mesmos. Os artesãos e outros membros da classe estéril
gastam o rendimento adquirido no período comprando $ 1 de
alimentos e $ 1 de matérias-primas dos fazendeiros. Destarte, as
cinco unidades monetárias iniciais retornam à classe produtiva no
fim do período, como demonstra a Figura 4.1, na qual estão
representados os vários fluxos de rendas e despesas anuais.

111
Figura 4.1 Diagrama dos fluxos de rendas e despesas
identificadas por Quesnay.

No diagrama, as setas contínuas representam as despesas da


classe produtiva e as setas pontilhadas indicam as receitas.
Percebe-se facilmente que os cinco de despesas transformam-se
integralmente em receitas, restabelecendo-se a mesma condição do
início do período. O esquema traçado no quadro de Quesnay não
apenas mostra como as condições iniciais são reproduzidas, pois,
além disso, indica também as condições requeridas para o
crescimento econômico. A fim de manter a economia no mesmo
nível de produção, são necessários gastos de capital chamados de
adiantamentos. Quesnay fala em quatro tipos de adiantamentos:
1. Adiantamentos anuais (avances annuelles): o capital de
giro da produção agrícola.
2. Adiantamentos primitivos (avances primitives): para a
reposição das ferramentas agrícolas.
3. Adiantamentos em melhorias permanentes (avances
fonciéres).
4. Adiantamentos para o capital fixo social aplicado pelo
governo em estradas, canais, portos etc. (avances souve-
raines).
Para o fazendeiro, importa principalmente os adiantamentos
anuais e primitivos. Se houver uma queda deles, a produção não
poderá sustentar-se no nível anterior. Portanto, a descrição dos
fluxos econômicos no quadro também considera os adiantamentos.
112
Quesnay parte da hipótese de que o adiantamento anual é feito pela
classe produtiva e o adiantamento primitivo pela classe estéril.
Podemos transmitir uma noção do quadro econômico dos
fluxos entre as classes sociais sem apresentá-lo como em Quesnay,
evitando-se assim uma construção demasiado complexa, mas re-
tendo aspectos essenciais de sua representação. Para tanto,
construiremos a seguir dois quadros bastante simples, um para o
fluxo monetário e outro para o fluxo real das mercadorias.
No lado real, trabalha-se com alguns números meramente
hipotéticos: três unidades físicas de mercadorias na classe produ-
tiva e três unidades retidas pela classe estéril. As três unidades da
classe produtiva correspondem ao adiantamento anual, composto
de uma unidade de alimento e uma de manufatura, destinadas ao
sustento dos trabalhadores, e uma de matéria-prima para a
produção. Das três unidades da classe estéril, uma delas será cedida
à classe produtiva como adiantamento primitivo, trata-se de
matéria-prima. O adiantamento primitivo é feito no começo do
período pela classe estéril e serve para repor o capital fixo que se
depreciará no período. As duas unidades de mercadorias que
permanecem na classe estéril são constituídas por alimento, para
os trabalhadores do setor, e matéria-prima, para a produção de
mercadoria (os trabalhadores da classe estéril não demandam
manufatura, apenas como hipótese simplificadora).
No final do período de produção, a agricultura gera três
unidades de alimentos e três de matérias-primas. Como para a
produção final dessas seis unidades foram requeridas três de
adiantamento anual e uma unidade de adiantamento primitivo,
estamos considerando o produto líquido do setor igual a dois. A
classe agrícola retém, ao final, o produto líquido de uma unidade de
alimento e uma de matéria-prima.
Os fluxos das transações com mercadorias ao longo do período
produtivo reproduzem as condições iniciais. As duas unidades que
correspondem ao produto líquido são transferidas para os
proprietários. Estes retêm uma unidade de alimento para consumo
e trocam a outra por uma unidade de manufatura. Depois, a classe
produtiva troca uma unidade de alimento por uma de manufatura
com a classe estéril. Como a classe agrícola cedeu duas de alimentos
e uma unidade de matéria-prima, ainda lhe restam da produção
uma unidade de alimento e duas de matérias-primas, já que tinha
produzido três unidades de alimentos e três de matérias-primas.
Falta ainda considerar que uma unidade de matéria-prima perten-
ce, na verdade, à classe estéril que foi responsável pelo adian-
113
tamento primitivo. Assim, em última instância as condições iniciais
do problema estão reproduzidas ao fim destes movimentos. O
Quadro 4.1, diferente do quadro de Quesnay, facilita bastante
acompanhar o raciocínio anterior, mas não se assemelha aos qua-
dros em ziguezague do francês.

Quadro 4.1 Fluxos reais.


Quadro dos Fluxos Reais

Classe produtiva Proprietários Classe estéril


Dotação inicial 3 (1a,1mp,1m) 0 3 (1a,2mp)
Adiantamentos 4 (1a,2mp,1m) 0 - 1 (mp)
Produção 6 (3a,3mp) 0 2 (m)
Transferências 2 (1a,1mp)
1 (mp)
1 (m)
1 (m)
1 (a)
1(mp)
Dotação Final 3 (1a,1mp,1m) 0 3 (1a,2mp)
a : alimento
mp : matéria prima
m : manufatura

Essa descrição simplificada dos fluxos reais no quadro de


Quesnay pode ser complementada com os fluxos monetários.
Trabalha-se com a hipótese de que as transações possam ser
sancionadas por duas unidades monetárias em mãos inicialmente
da classe agrícola. A seguir representamos os fluxos monetários em
um novo quadro. A classe produtiva paga $ 2 de aluguéis aos
proprietários que compram $ 1 de manufaturas e $ 1 de alimentos.
A classe estéril, por sua vez, compra $ 1 de alimentos. A classe
agrícola usa este montante para comprar $ 1 de manufaturas e
finalmente a classe estéril compra $ 1 de matérias-primas junto à
classe agrícola. A última linha do Quadro 4.2 mostra que a classe
produtiva termina com os mesmos $ 2 que possuía no início.

114
Quadro 4.2 Representação dos fluxos monetários.
Quadro dos Fluxos Monetários

Classe produtiva Proprietários Classe estéril


Dotação inicial $2 0 0
Transferências $2
m $1
$1 a
$1 a
m $1
$1 mp
Dotação Final $2 0 0
a : alimento
mp : matéria prima
m : manufatura

A classe estéril recebe uma unidade de matéria-prima em troca


de uma unidade dela em adiantamento. Assim, ela não recebe juros
pelo adiantamento. O quadro de Quesnay, portanto, não contempla
o pagamento de juros. Juros em sua terminologia é tão somente a
restituição do principal do montante emprestado.
No processo de acumulação, o nível de renda da economia
eleva-se desde que sejam propiciados maiores adiantamentos à
produção. Assim, o fenômeno do crescimento econômico é oca-
sionado por investimentos crescentes. Crescimento implica acu-
mulação de capital produtivo. Tal interpretação leva Quesnay a
advogar a favor de todo tipo de política que estimule a acumulação.
A ênfase recai na aplicação do capital na agricultura. É necessário
ainda não prejudicar a agricultura com taxas que incidam sobre o
produtor. Deve-se taxar, preferencialmente, os proprietários de
terra, pois eles destinam o produto líquido basicamente ao consu-
mo. Contudo, Quesnay não é inimigo do proprietário de terra. Pelo
contrário, ele mostra-se um grande defensor da propriedade priva-
da. Na verdade, o proprietário não é apenas a figura do consumidor,
já que são eles os responsáveis pelos avances fonciéres que produ-
zem melhorias permanentes nas terras. Quesnay acreditava que os
proprietários de terra seriam depois recompensados pelo aumento
de impostos, pois a adoção das políticas que recomenda levaria, no
futuro, a um aumento na renda da terra que mais do que compen-
saria a carga tributária adicional.

115
A elevação da renda da terra viria com a liberdade de comércio
e com as políticas de estímulo ao investimento agrícola. O efeito da
acumulação de capital seria a intensificação do fluxo circular, o
aumento da demanda por bens agrícolas e o consequente aumento
da renda agrária.
As medidas econômicas apregoadas pelos fisiocratas tiveram
algum prestígio na França, mas com o tempo sua importância
declinou rapidamente. O sistema teórico dos fisiocratas tinha
grande mérito, mas também apresentava falha gritante. Na
avaliação deste, aparece como importante contribuição os concei-
tos de excedente e de adiantamento, e ainda a noção correta de que
o crescimento econômico dependeria do volume de investimentos
em cada período. Outrossim, a ideia de que a carga fiscal deveria
penalizar menos a produção e mais o consumo dos proprietários
mostrou-se adequada para a época. Outras medidas que visavam
estimular a produção também se mostraram corretas, como o teto
legal dos juros, o fim das restrições à circulação de mercadorias e
outras. Por outro lado, pode-se destacar algumas falhas na análise
fisiocrata que seriam sanadas com a evolução da economia
científica.
Embora a questão do valor fosse objeto de análise de fisio-
cratas como Turgot e Le Trosne, o próprio Quesnay não propôs
nenhuma teoria do valor. Em consequência, seu sistema teórico não
atacou satisfatoriamente o problema da avaliação do excedente. O
resultado da produção era comparado aos insumos apenas em
termos físicos. Por vezes, o valor monetário do produto líquido era
calculado simplesmente com base nos preços de mercado. Na
ausência de uma teoria do valor consistente em Quesnay, o exce-
dente não era de fato explicado. Isso foi claramente percebido por
Adam Smith que tratou de desenvolver uma teoria do valor antes
de esquematizar uma teoria do crescimento apoiada na acumula-
ção de capital à la Quesnay.
Quesnay não incorporou, em seu sistema, a existência de juros
e nem um papel para o lucro dos capitais. Se o excedente gerado
com base nas inversões de capitais pertence ao proprietário de
terra, não se identifica a razão para o fazendeiro investir. Além das
deficiências conceituais, a teoria dos fisiocratas era repleta de
considerações normativas. Eles achavam que só a agricultura era
produtiva, pois, nessa visão, somente a produtividade da terra
explica a formação do excedente. Ora, sabemos que na indústria
também participam processos naturais, por exemplo, o ar permite
que a pintura de uma peça seque, a ação da eletricidade possibilita

116
a reação química etc. De fato, nos processos industriais também
ocorrem mudanças qualitativas e quantitativas dos insumos. Isto
não é prerrogativa apenas da agricultura. Os fisiocratas consideram
que a atividade industrial cria utilidades, mas, mesmo assim, não
seriam produtivas. No entanto, se as novas utilidades acrescentam
valor à mercadoria, também aí se pode falar em geração de
excedente e a atividade industrial seria produtiva. Outro argumen-
to criticável leva em conta a formação de preços nos mercados. Se
há algum grau de monopólio, mesmo a longo prazo, os preços ficam
acima do custo marginal, como nos ensina a teoria microeconômica
atual. Haveria um excedente de produção sempre que se verifique
um grau de monopólio, não importando tratar-se de atividade
agrícola ou manufatureira.
A concepção do sistema econômico como uma ordem com-
plexa, em que se verifica um amplo processo de interação entre as
partes constituintes em analogia a um corpo humano, é um
importante preceito da análise fisiocrata. No mais, ele confirma a
tendência do século XVIII de reconhecer uma ordem natural
subjacente aos fenômenos econômicos. A par de suas limitações
analíticas, a influência fisiocrata foi decisiva em Adam Smith, de
modo que podemos localizar também nessa escola o berço da
economia científica.

117
Questões

1. Comente alguns dos problemas práticos trazidos pela expansão


do comércio no século XVI. Por que a física de Aristóteles se
mostrou inapropriada na solução deles e qual a relação entre as
inovações tecnológicas e o desenvolvimento dessa ciência?
2. Até que ponto é correto afirmar que a ciência de Aristóteles não
dava a devida atenção à experiência prática?
3. Por que, no desenvolvimento da ciência, as ideias sobre a
existência ou não do vácuo tiveram um papel importante?
4. O que há de importante na teoria política de Maquiavel?
5. Compare entre si os métodos científicos de Bacon, Descartes e
Newton.
6. O empirismo de Bacon pode ser considerado ingênuo?
7. Qual o significado da expressão “penso, logo existo” de Descar-
tes?
8. Comente a seguinte passagem deste capítulo: “Isaac Newton
inaugurou um estilo intermediário entre a tradição aristotélica
e o empirismo baconiano.”
9. Em que diferem as ideias de Hobbes e Locke quanto à origem da
sociedade?
10. A explicação do valor em Locke é a mesma de William Petty?
Justifique.
11. Qual o significado do advento do individualismo a partir do
século XVII? É possível relacioná-lo com as novas concepções
religiosas da época?
12. Que ideia do processo social Mandeville expressa em sua
Fábula das abelhas?
13. Resuma a reforma monetária proposta por Boisguillebert.
14. Explique como, na interpretação de Cantillon, os preços de
mercado aproximam-se dos valores intrínsecos pela ação do
mecanismo de mercado.
15. Assinale os elementos mais inovadores da teoria monetária de
Cantillon.
16. De que modo Quesnay descreve a mecânica de interdepen-
dência dos setores da sociedade no Quadro econômico? Mostre
como as despesas de um setor geram as receitas em outros
118
setores ao longo de um período, e como o processo reproduz-
se no período seguinte. Por que para Quesnay o setor agrícola
é a única classe produtiva?
17. Como é possível a medida do excedente, no modelo de
Quesnay, sem uma teoria do valor. Quais as hipóteses adotadas
por esse autor que permitem a ele efetuar tal medida?
18. O que leva, para Quesnay, ao aumento do excedente agrícola?
E por que se diz que ele foi o primeiro a conceber uma teoria
do crescimento nos moldes da economia clássica?
19. Quesnay era contra os interesses dos proprietários de terra?
Justifique.
20. Quais as maiores deficiências na teoria de Quesnay que seriam
depois sanadas com o desenvolvimento da economia clássica?

119
Leitura Adicional

Literatura Primária

ARISTÓTELES. Organon, livro IV: analíticos posteriores. Lisboa:


Guimarães Editores, 1987. Itens 1 a 10, p. 9-42. (Filosofia e
Ensaios.)

BACON, Francis. Novum Organum: ou verdadeiras indicações acerca


da interpretação da natureza. São Paulo: Abril Cultu-ral, 1993.
(Os Pensadores.) v. 13.

CANTILLON, Richard. Essay on the nature of commerce. The history


of economic thought. <[Link] edu>

DESCARTES, René. Discurso sobre o método. Bauru: Edipro, 1996.

HOBBES, Thomas. Leviatã: ou matéria e poder de um estado


eclesiástico e civil. Lisboa: Imprensa Nacional: Casa da Moeda,
1999.

MAQUIAVEL, Nicolau. Príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

NEWTON, Isaac. Princípios matemáticos da filosofia natural. São


Paulo: Nova Cultural, 1996.

QUESNAY, François. Quadro econômico. Lisboa: Fundação Ca-louste


Gulbenkian [s.d.].

Literatura Secundária

BIANCHI, Ana Maria. A pré-história da economia: de Maquiavel a


Adam Smith. São Paulo: Hucitec, 1988.

DEANE, Phillis. A evolução das ideias econômicas. Rio de Janei-ro:


Zahar, 1980.

DENIS, Henri. História do pensamento econômico. Lisboa: Li-vros


Horizonte, 1993.

EKELUND JR., Robert; HÉBERT, Robert F. A history of economic theory


and method. New York: McGraw-Hill, 1990.

120
HANEY, Lewis H. History of economic thought: a critical account of
the origin and development of the economic theories of the
leading thinkers in the leading nations. New York: Macmillan,
1949.

HEILBRONER, Robert. A história do pensamento econômico. São


Paulo: Nova Cultural, 1996.

NAPOLEONI, Claudio. Smith, Ricardo, Marx. Rio de Janeiro: Graal,


1988.

HESSEN, Boris. As ideias sociais e econômicas dos “principia” de


Newton. Revista Brasileira de Física, v. 6, 1, 1984.

RANDALL, J. H. Aristotle. New York: Columbia University Press, 1960.

ROSA, Luis Pinguelli. A dinâmica de Aristóteles e a estática de


Arquimedes: versão preliminar. São Paulo: Instituto de Física da
Universidade de São Paulo [s.d.]. Mimeo.

SCHENBERG, Mário. Pensando a física. São Paulo: Brasiliense, 1983.

121
122
5
Adam Smith

TEORIA MORAL E FILOSOFIA DA CIÊNCIA


É pelo fato de a visão preponderante da economia no século
XVIII ter caminhado firmemente em direção à ideia de ordem
natural que os avanços na física e nas demais ciências naturais são
bastante relevantes na emergência da economia como ciência. Os
economistas buscam deliberadamente imitar o método da física, já
que acreditam também tratar a ciência econômica de fenômenos
naturais. Não é mera coincidência que o campo social tenha atraído
médicos como François Quesnay e homens com sólida formação em
ciência natural como Adam Smith.
No fim dos setecentos, Boisguillebert crê que a vida econô-
mica é governada por mecanismos naturais. No começo do século
em questão, a influência newtoniana faz-se presente na obra de
Richard Cantillon, que pensa a economia como Newton pensou o
cosmos: uma totalidade composta por elementos interconectados
com funcionamento racional. O método newtoniano também teve
grande influência na obra de Smith.
Embora Adam Smith (1723-1790) seja considerado o pai da
economia política, sabemos hoje que boa parte de suas ideias já
estava presente em autores antecedentes como Quesnay e Can-
tillon. O esforço analítico de Smith deve-se muito a estes e outros
autores do século XVIII, por fornecerem elementos que irão
compor sua visão. Ele destacou-se pelo tratamento sistemático das
principais questões econômicas da época em um único tratado. A
qualidade literária e a pretensão didática de seu trabalho é
evidente. Há em sua principal obra em economia, A riqueza das
nações, inúmeras considerações históricas inéditas e até alguns
procedimentos originais no tratamento teórico. O mérito de Smith
recai, no entanto, mais em seu poder de síntese do que na
originalidade de seu sistema teórico.

123
Antes de expor, em outra parte, as ideias-mestras de seu
pensamento econômico, esta seção trata de suas concepções no
campo da ética e da filosofia da ciência. O estudo da filosofia de
Smith dificilmente seria apoiado apenas na leitura de A riqueza das
nações. É que ele não explicita nela seus pressupostos filosóficos e
metodológicos. Mais revelador nesse sentido é o ensaio smithiano
cujo título já revela seu conteúdo: Os princípios que guiam e
conduzem a investigação científica ilustrados pela história da
astronomia. Smith escreveu tal ensaio ainda muito jovem, entre
1746 e 1748, com pouco mais de 20 anos de idade, embora ele só
tenha aparecido ao público 19 anos depois da publicação de A
riqueza das nações, obra da sua fase madura. O estudo do método
de Smith com base em ensaio de início de carreira pressupõe, é
claro, a tese de que ele tenha mantido uma continuidade de visão
ao longo da vida. Hipótese aceita pela maioria dos estudiosos.
Sabemos que ele era muito culto, que lera e escrevera em
diversas áreas. Quando ainda jovem, foi enviado a Oxford para
estudar; ao chegar lá não teve orientação precisa nos estudos e, em
consequência, acabou dispersando o foco de interesse em diversas
áreas do conhecimento. Com poucos compromissos formais,
passava o dia na biblioteca da faculdade de Balliol, ligada à
Universidade de Oxford, em contato com os principais clássicos
gregos e latinos e com a literatura científica da época, incluindo-se
as obras de Newton, Bacon e Descartes. Depois, Smith viria a
escrever textos em diversas áreas incluindo filosofia moral e
estudos de linguística, bem como tratados de estética, arte, litera-
tura e metodologia da ciência. O ensaio História da astronomia
mostra claramente a influência do método newtoniano. Como
Newton, Smith não acredita que o conhecimento científico possua
um substrato ontológico verdadeiro. A teoria científica não
representa a apreensão da verdade última das coisas como em
Aristóteles. Destarte, a atividade científica justifica-se como uma
necessidade psicológica para o cientista (ou filósofo, como Smith
referia-se a ele).
O fim último da filosofia (ou ciência) é o repouso e a tranqui-
lidade da imaginação do filósofo. Entretanto, nem todos os homens
são filósofos. Estes surgem apenas em sociedades evoluídas, está-
veis e seguras, nas quais já se nota certa divisão de trabalhos de
modo a liberar determinados indivíduos da preocupação com o
sustento material. Tais pessoas são treinadas a pensarem sobre a
natureza e têm suas mentes especialmente condicionadas para o
desenvolvimento de certos sentimentos que conduzem a uma
reflexão filosófica das coisas. Os filósofos possuem mentes sensí-
124
veis e irrequietas, movidas por uma mecânica que os compele à
busca de prazer associado ao apaziguamento da imaginação.
Enquanto a imaginação do homem comum é indolente e preguiço-
sa, a do homem educado é curiosa. Ela só encontra tranquilidade
quando descobre os elos invisíveis entre dois fenômenos aparen-
tes. Assim, os filósofos são mentes curiosas que procuram as
cadeias ocultas dos fenômenos. O homem comum, como um arte-
são, contenta-se com as aparências e nunca percebe a existência
dos elos ocultos entre os fenômenos. A causa da investigação
científica é a busca de uma ponte entre as aparências, mas tal ponte
não precisa ser verdadeira ou mesmo provável; basta que ela
funcione para apaziguar os sentimentos.
Smith analisa o funcionamento da mente do filósofo pelo
exame de três sentimentos que ocorrem sempre na mesma sequên-
cia: a surpresa, o espanto e a admiração. Essa descrição da mente
humana com base na mecânica de sentimentos psicológicos lembra
René Descartes, que em seu Tratado das paixões da alma aplicou os
métodos da física a fatos humanos. Nele, Descartes discorre sobre
o processo de descoberta científica como sendo movido pela ação
de uma paixão fundamental a que denomina admiratio. Smith
também descreve um mecanismo psicológico para a descoberta
científica. Ambos não pretendem adotar um modelo mecânico que
aproxime a mente da máquina. Mesmo Descartes não segue modelo
rigorosamente mecânico da mente, premido pelas tensões de certo
“dualismo metafísico” que consiste em separar a mente das várias
diferentes substâncias que preenchem todos os corpos, de modo
que ela jamais possa ser explicada como um sistema físico. Fora a
semelhança na descrição do funcionamento da mente, a teoria de
Smith, de fato, não se confunde com a de Descartes, distinguindo-
se principalmente na questão do método. Não aderindo ao raciona-
lismo cartesiano, Smith dava muita importância aos dados dos
sentidos e às observações dos fenômenos; mais próximo, portanto,
da tradição de Bacon e Locke.
Embora a observação empírica tenha um grande valor em
Smith, o critério decisivo para a emergência de novas teorias é a
ação dos três sentimentos já citados. Primeiramente a ocorrência
de um fato inesperado, que já sabíamos existir, mas que não
esperávamos encontrá-lo no momento em que ocorreu, desperta
no filósofo o sentimento de surpresa:
“Ficamos surpresos com aquelas coisas que temos visto
com frequência, mas que de modo algum esperamos encon-

125
trar no lugar onde efetivamente as encontramos [...]” (Adam
Smith, A história da astronomia)
Tomado pela surpresa, o filósofo passa a preocupar-se com o
fenômeno e descobre nele aspectos novos e singulares. A novidade
desperta o sentimento de espanto, um estado extremo em que a
mente é tomada por fortes inquietações.
“Espantamo-nos com todos os objetos extraordinários e
incomuns; com todos os fenômenos raros na natureza, com
meteoros, cometas, eclipses; com plantas e animais singulares
e com todas as coisas, em suma, sobre as quais tenhamos tido
pouca ou nenhuma informação anterior [...]” (ibidem)
A busca do restabelecimento da tranquilidade mental leva à
proposição de um novo sistema explicativo que dê conta do fenô-
meno inusitado. As aparências, até então estranhas e desconexas,
são integradas como consequência lógica de uma nova construção
explicativa. Destarte, a mente volta a repousar em sua tranquili-
dade e o novo sistema desperta o sentimento de admiração. A
admiração é estimulada por grandeza e beleza do quadro contem-
plado pela nova teoria. Quanto maior esse sentimento, mais se
podem julgar a teoria alternativa e os resultados da investigação
como melhores que na explicação anterior.
Os sentimentos não apenas se sucedem na ordem em que os
colocamos, eles ainda influenciam uns aos outros:
“Surpresa de prazer quando a mente está afundada em
mágoa ou surpresa de mágoa quando ela está exaltada de
alegria são desta forma as mais insuportáveis [...] Não somente
a aflição e a alegria, mas todas as outras paixões são mais
violentas quando os extremos opostos se sucedem uns aos
outros [...] Até mesmo os objetos externos para os sentidos
afetam-nos de uma maneira mais vívida quando os máximos
de opostos se sucedem ou são postos lado a lado. Um frescor
moderado pareceria um calor insuportável se sentido após um
frio extremo.” (ibidem)
Smith explica que o sentimento de espanto se torna menos
intenso conforme o evento original, que o originou, repete-se e o
observador a ele vai habituando-se, diminuindo assim a novidade:
“Um pai que perdeu muitos filhos imediatamente um após
o outro será menos afetado com a morte do último do que com
a do primeiro, embora a perda em si seja neste caso
indubitavelmente maior [...]” (ibidem)

126
O ensaio smithiano A história da astronomia consiste em
aplicar a dinâmica dos sentimentos assim identificados na expli-
cação de como os sistemas astronômicos foram, desde a Antigui-
dade, sucedendo-se uns aos outros. Temos o antigo sistema grego,
substituído por Ptolomeu, Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e
Newton. Cada sistema, uma vez proposto, vai tornando-se mais
complexo para salvar as aparências. Até que já não consegue mais
tranquilizar a imaginação como antes. O sentimento de espanto
leva os astrônomos a propor novo modelo. As teorias astronômicas
são ficções para tranquilizar a imaginação.
A principal influência exercida sobre Smith em sua aborda-
gem da história da astronomia advém de David Hume. A teoria do
conhecimento de Hume, apresentada no Tratado da natureza
humana de 1739, também analisa o funcionamento da mente no
processo de aquisição de conhecimento. Hume discorre sobre as
paixões e caracteriza a mente humana como uma máquina
psicológica complexa. Ao contrário de Descartes, Hume acredita
que as ideias não são inatas e que o trabalho do intelecto consiste
em relacionar fatos assimilados pelos sentidos e pela experiência.
As assertivas sobre as propriedades reais dos objetos externos não
podem ser demonstradas verdadeiras. Hume é céptico com relação
às pretensões do empirismo baconiano em obter a verdade das
coisas da observação de fatos. Lança então o famoso “problema de
Hume” que contesta a possibilidade de firmar a certeza de uma lei
universal. É suficiente para a ciência propor enunciados respal-
dados no que a observação veio a transformar em hábito. Admite-
se, portanto, a inevitabilidade da ignorância humana em conhecer
o âmago das coisas. Isso é próximo ao método newtoniano.
Smith nutria grande admiração por Hume e é certo que é do
programa deste que ele segue a estratégia de entender a empresa
científica com base em considerações sobre a natureza humana,
sob a hipótese de que tal natureza seja única, mesmo entre homens
separados no tempo e no espaço. Hume, antes de Smith, destaca o
papel da imaginação na teoria do conhecimento.
O método newtoniano, que influenciou Hume e Smith, consiste
na busca de princípios que possibilitam identificar uma ordem
subjacente a fenômenos aparentemente caóticos. Os princípios em
si mesmos não precisam ser verdadeiros, mas funcionam como
uma convenção psicológica que permite salvar as aparências e, com
isso, tranquilizar a imaginação.
Curiosamente o próprio Newton preocupou-se, em certo mo-
mento de sua vida, com questões econômicas. Ele foi diretor da
127
Casa da Moeda da Inglaterra em 1717 e deve-se a ele a primeira
tentativa de estabelecer um preço oficial para o ouro em 85 xelins
por onça. Smith leu muito do que escrevera Newton e na História
da astronomia conclui o ensaio com uma descrição entusiasmada
das descobertas da física newtoniana. Smith gostava de matemática
e de “filosofia natural”. Newton e Smith compartilham o mesmo
método de raciocinar em ciência, que toma os princípios elabora-
dos pela intuição e apoiados na indução de fenômenos e depois,
com base neles, deduz novos fenômenos. Ambos mantêm o
ceticismo quanto ao realismo das premissas. Newton sempre
trabalha da mesma maneira: antes da apresentação da teoria lista
fenômenos já conhecidos, conforme se constata diversas vezes nas
partes iniciais em cada um dos livros que compõem os Princípios.
Os fenômenos justificam a proposição de princípios teóricos dos
quais são deduzidos novos fenômenos. A natureza última dos
princípios não importa, nem seu conteúdo de verdade. Sobre a
força da gravidade, Newton afirma que:
“Para nós é suficiente que a gravidade atue de acordo com
as leis que nós temos explicado e sirva, com sucesso, para dar
conta de todos os movimentos dos corpos celestes e do mar.”
(Isaac Newton, Princípios matemáticos da filosofia natural)
Em analogia às leis gerais dos movimentos dos corpos na física,
Smith concebe leis gerais na economia. Na Riqueza das nações,
começa dizendo que a divisão do trabalho é o resultado necessário
da propensão humana a trocar uma coisa por outra. A propensão
humana à troca é pensada como um princípio que, ao ser desdo-
brado em suas consequências pela teoria, irá explicar a causa da
riqueza das nações. Tal princípio econômico deve ser pensado
como uma lei natural. No entanto, Smith não se propõe a deter-
minar se a propensão à troca é, ela mesma, um princípio original da
natureza humana ou se é uma consequência das faculdades da
razão e da fala. Conclui Smith dizendo que essa questão “não
pertence ao presente objeto de estudo”. Nenhuma tentativa de
provar a veracidade do princípio em questão é feita por Smith, pois,
no espírito do método newtoniano, é necessário tão somente postu-
lar sua existência e demonstrar como sua articulação no modelo
teórico conduz a conclusões que dão conta de explicar a realidade
aparente.
Em suma, o método comum em Newton e Smith pode ser
sintetizado da seguinte forma: começa-se com um princípio, ou
poucos princípios básicos, que são inferidos no processo de expli-
cação de casos mais ou menos triviais. Em seguida, tenta-se explicar

128
o mundo dos fatos observáveis, buscando-se mostrar como tais
fatos são derivados desses princípios. Os eventos são classificados
(na Riqueza das nações as várias formas de remuneração dos
agentes são classificadas em salários, lucro e renda) e as classes de
eventos são vistas como resultado do jogo de princípios. A teoria
procura elaborar um sistema no interior do qual operam os
princípios elementares, de tal forma que fenômenos que pareciam
os mais inexplicáveis são todos deduzidos com base nos princípios
e atados a uma única cadeia. A teoria é julgada pelo poder preditivo,
em adição conta também elementos estéticos tais como simplici-
dade, coerência e beleza. Em todo caso, ela é sempre uma invenção
de uma imaginação particular que poderá eventualmente também
cativar a imaginação dos demais.
Em seu nascimento como ciência, o fenômeno econômico é
pensado como uma ordem natural tratada pelos mesmos métodos
da física. Isso, como vimos, já está bem sedimentado mesmo entre
os precursores de Smith. A construção teórica do sistema, no
entanto, requer a especificação de hipóteses comportamentais dos
agentes. O modelo parte da ideia de indivíduos autointeressados.
Ora, vimos no capítulo anterior que os filósofos éticos ingleses
procuram conciliar essa premissa com as qualidades morais que
acreditam existir na espécie humana. A solução proposta por eles
enfraquece a hipótese exclusiva do egoísmo, pois veem a conduta
humana como resultante de um jogo de paixões egoístas e altruís-
tas.
Vejamos a questão ética em Smith. Primeiramente há de se
notar certa continuidade entre a filosofia moral de Smith e a de seu
antigo professor em Glasgow, Francis Hutcheson (1694-1746),
também entre Smith e David Hume, de quem desfruta de íntima
amizade. Hutcheson segue a filosofia do direito natural, na linha de
Locke, e acredita que o homem é naturalmente dotado de um senso
moral. Os homens possuem paixões altruístas, mas também egoís-
tas e elas são reconciliadas, na determinação da conduta humana,
pela intervenção de um senso de autoestima que atenua a
propensão individual para ações egoístas. Hume fala que a correção
moral da conduta humana depende de julgamentos que nós e os
outros fazem de nossas ações. A moral humeana aproxima-se das
outras concepções da época por ser, também ela, teleológica. No
caso, porém, os efeitos repercutidos da ação ou os fins decorrentes
dependem, se ela for um bem moral, da aprovação dela não só da
parte de quem a pratica, mas por todos os demais. A importância
do julgamento de terceiros é expressa em um sentimento a que
denomina de “simpatia”.
129
Smith, em seu sistema ético, confere papel primordial ao
sentimento de simpatia. Em seu famoso livro de 1749, a Teoria dos
sentimentos morais, começa descrevendo o homem como uma
criatura dotada de um conjunto de propensões básicas a que
denomina de paixões. Há as paixões do amor sensual e paterno e
outras não tão agradáveis como o ódio e o ressentimento. Há ainda
uma lista de boas paixões a que denomina de paixões sociais, tais
como a generosidade, a compaixão e a amizade. Há também espaço
para as paixões egoístas. As paixões tendem a contrapor-se e a
equilibrar-se em um balanço estável feito em cada um de nós. O
equilíbrio das paixões internamente se reproduz no plano social,
suposto um sistema em harmonia. O controle particular das
paixões é compelido em cada homem pelo princípio da simpatia, já
presente na teoria moral de Hume. Quando percebemos a desa-
provação de nossas condutas, isso desencadeia sentimentos desa-
gradáveis que procuramos eliminar corrigindo a conduta de modo
a atrair para nós sentimentos de aprovação. O homem virtuoso
observa o juízo que os outros fazem dele e está a ajustar constan-
temente seu comportamento de modo a vir a “ocupar um lugar de
honra na mente do semelhante”.
Quando Smith descreve a mecânica dos mercados que move o
sistema econômico na Riqueza das nações, apresenta os homens
como sendo impulsionados a todo momento por um cálculo egoísta
de maximização de riqueza. Esse aparente paradoxo entre o agente
egoísta da Riqueza das nações e o homem ético da Teoria dos
sentimentos morais aparece na literatura como o “problema de
Adam Smith”. Não cabe aqui uma discussão prolongada da questão.
Parece que há, hoje em dia, uma opinião amplamente aceita de que
não se trata de uma contradição de uma obra com outra. A maneira
de reconciliar os dois enfoques é notar a distinção estabelecida por
Smith entre as motivações e os efeitos concretos das condutas
humanas. No plano abstrato da teoria moral, o mérito da ação é
julgado pela intenção do agente, no entanto, nas circunstâncias
concretas da sociedade, as consequências efetivas da ação exercem
uma poderosa influência no julgamento da ação. A condutas que
produzem prazer são avaliadas independentemente das intenções
originais. A busca exclusiva da riqueza, por exemplo, embora não
tenha mérito intrínseco, produz o feito de angariar aprovação dos
demais pelos efeitos benéficos que a riqueza pessoal produz na
sociedade. Os homens buscam a riqueza a fim de ostentarem
símbolos de status social e obter a admiração e o respeito dos
demais. Os homens, porém, ao procurarem seguir tal estratégia,
não se destacam realmente da multidão e a posição de honra que
130
vierem a ocupar terá sempre um caráter efêmero. Contudo, na
prática, o limite da razão humana compele os homens a cometerem
o mesmo erro sistematicamente. E assim temos um sistema
econômico movido pelo autointeresse.

A VIDA DE ADAM SMITH


Ao discorrer sobre a filosofia de Adam Smith, antecipamos
aspectos de sua vida, as influências que se exerceram nele e a
trajetória intelectual. Pretende-se agora discorrer detalhes de sua
vida, antes de, na próxima seção, adentrarmos em sua principal
obra. Tendo nascido em Kirkcaldy, Escócia, no ano de 1723, Smith
completa nessa cidade sua educação secundária, após o que se
transfere para a universidade de Glasgow a fim de estudar humani-
dades. Na juventude, as influências principais se dão em torno do
nome de Francis Hutcheson, que desperta a atenção de Smith para
com a filosofia do direito natural e os princípios do sistema de
economia política. Por essa época, ele já iniciara o estudo dos
problemas econômicos, mas demorará a que se volte decisiva-
mente para a economia.
Antes de se graduar em Glasgow, em 1740 Smith ganha uma
bolsa para estudar em Oxford, no Balliol College. Sua experiência
no novo ambiente acadêmico proporcionou-lhe aprofundamento
nos estudos de filosofia clássica e de literatura; no entanto, logo
cedo Smith indispôs-se com os professores de Oxford, tidos como
obscuros e excessivamente escolásticos. Smith foi repreendido por
eles por estar lendo o Tratado sobre a natureza humana, obra de
David Hume, de 1738, proscrita dos meios acadêmicos da Univer-
sidade. Tão logo termina o bacharelado, Smith retorna à Escócia em
1746. Sem emprego regular em sua terra natal, ele permanece na
casa da mãe ambicionando para o futuro uma posição estável como
tutor acompanhante de algum nobre. Enquanto isso, inicia a
carreira de professor, de início ministrando cursos avulsos de
literatura inglesa em Edimburgo. Depois, em 1750 e 1751, volta-se
para o tratamento de problemas econômicos, em que defende
princípios liberais e ganha reputação acadêmica. No fim desses
anos, é eleito para a cadeira de Lógica de Glasgow. Começa por
ensinar retórica e literatura e, com o adoecimento do professor
Craigie, assume interinamente o cargo deste em filosofia moral. Em
1752, morre seu grande mentor Hutcheson e Smith é agraciado
com a cadeira do mestre. A partir de então, até 1764, Smith
consolida sua reputação intelectual e o interesse acadêmico pela
economia.
131
Sabemos das primeiras reflexões econômicas de Smith, nos
cursos de Glasgow, pelas anotações preservadas de um estudante
que frequentara as suas aulas, depois reunidas no ensaio Aulas
(Lectures). Lá ele antecipa ideias que seriam desenvolvidas anos
depois na obra máxima A riqueza das nações. Smith considera
então a riqueza como fruto do trabalho humano e assimila os fatos
econômicos observados a certos mecanismos automáticos na
sociedade. Antecipa a noção de que a opulência nasce da divisão do
trabalho e de que essa divisão leva ao aumento da produtividade
pela maior habilidade conferida ao trabalhador especializado, e por
proporcionar economia de tempo e estímulo à invenção de máqui-
nas. Diz também que o capital associado ao trabalho na produção
aumenta a produtividade do trabalho. Criticando os fisiocratas,
afirma que o trabalho industrial não é estéril e que ele também
contribui para o processo de acumulação. Entrando na questão dos
preços, considera que os preços naturais remuneram o tempo de
trabalho para a produção do objeto. Na questão da distribuição da
renda, pensa que os rendimentos aferidos pelo indivíduo devem
guardar certa proporcionalidade ao trabalho de cada um.
Finalmente, critica a doutrina mercantilista.
Por essa época, Smith participa ativamente dos debates
acadêmicos e políticos em voga e é convidado a integrar os princi-
pais grupos de eruditos da Escócia, o Edinburgh Society e o Select
Society, do qual é um dos fundadores ao lado de Hume, Lauderdale
e Townshend. Smith publica artigos no Edinburgh Review e em
outros periódicos conceituados. É também o início da grande
amizade com Hume que perdura até a morte deste em 1776. No
interregno em questão, Smith escreve e publica sua primeira
grande obra, A teoria dos sentimentos morais, de 1759, que lhe
confere projeção internacional. No entanto, Smith não escrevera
até então apenas sobre questões de ética; pelo contrário, seu
interesse claramente interdisciplinar tinha-se evidenciado, e, na
ocasião, ele dispunha de um considerável acervo de escritos de sua
autoria em campos variados, em que se destacam particularmente
os tratados em estética, e história das ideias; neste último, temos a
sua História da astronomia. Havia, no entanto, o projeto intelectual,
até então ainda não realizado, de escrever um amplo tratado sobre
os princípios da economia.
A teoria dos sentimentos morais teve cinco edições e foi tradu-
zida para outras línguas. É a obra que projeta definitivamente o
nome de Smith. Já famoso, Smith contou com a amizade de Town-
shend para finalmente realizar seu antigo sonho de se tornar tutor.
Em 1763, Townshend decide confiar a Smith a tutela de seu entea-
132
do, o Duque de Buccleugh. Smith renuncia à cadeira em Glasgow e
parte com Buccleugh para uma viagem de dois anos à França. Em
troca haveria de receber generosa pensão vitalícia.
Dois fatos destacam-se nessa viagem: ela proporciona-lhe
contato direto com as principais expressões intelectuais da época e
também foi nesse período que ele começou a escrever suas
primeiras notas para a obra econômica principal. Visita o sul da
França e vai a Genebra onde conhece pessoalmente Voltaire, do
qual se torna grande admirador. Em 1765, mora em Paris, que lhe
recebe com as portas abertas de salões e da corte. Para tanto, conta
com a amizade da prestigiada figura de Hume e a fama de sua A
teoria dos sentimentos morais, já traduzida para o francês. Foi
importante para a formação das crenças econômicas smithianas o
acesso a Quesnay, Turgot e ideias fisiocráticas, que não aceitou por
inteiro, mas que viriam exercer influência em seu pensamento.
A estadia na França termina abruptamente em 1766 com o
assassinato do irmão mais novo do Duque, também sob a custódia
de Smith. Retorna então a Londres onde permanece trabalhando
com Townshend, que se tornara ministro da Fazenda. Além de
assessorar o anfitrião, Smith dedica-se, em Londres, à edição
ampliada de A teoria dos sentimentos morais. Em pouco tempo ele
rompe com Townshend, principalmente por discordar da política
inglesa com suas colônias na América. Não concorda com a
excessiva tributação sobre o chá americano, que de fato seria um
dos estopins da revolução pela independência. Desiludido, Smith
decide retornar a Kirkcaldy, onde, em casa de sua mãe, permane-
ceria os próximos dez anos dedicados a escrever o livro A riqueza
das nações. Embora afastado da vida pública, o prestígio de Smith
cresce ainda mais no período. Recebe o título de fellow da Royal
Society, mas, avesso à exposição pública e entretido com seu livro,
permanece relativamente confinado, enquanto se preocupa com o
acabamento da obra, lapidando a base teórica, retocando as obser-
vações históricas e os exemplos práticos, muitos deles observados
in loco em suas andanças pelo interior da Escócia. Finalmente em
1776 publica sua obra econômica máxima.
Durante quase todo o século XIX, a Riqueza das nações tornou-
se, em diversos países, o ponto de partida ao estudo de economia.
A primeira edição esgota-se em menos de seis meses e em 1800 a
obra já estava disponível em francês, alemão, italiano, dinamarquês
e espanhol, muito embora ela tenha sido proibida na Espanha “por
sua baixeza de estilo e pela indefinição de seus princípios morais”,

133
como diziam os críticos espanhóis (na verdade uma reação deses-
perada contra ideias liberais contidas na obra).
Em 1777, Smith é nomeado para um alto cargo na adminis-
tração aduaneira escocesa e 10 anos depois se torna reitor na
Universidade de Glasgow. Coberto de glórias, morre em 1790, aos
67 anos.

A RIQUEZA DAS NAÇÕES


A obra Uma investigação sobre a natureza e as causas da
riqueza das nações, de 1776, representa um marco importante na
evolução do pensamento econômico. As ideias aí expressas não são
inteiramente originais, mas isso não enfraquece sua qualidade. Há
um núcleo teórico em torno da questão do crescimento econômico
das nações, no entanto, ao redor dele, organizam-se uma miríade
de considerações históricas e farto material empírico que fornecem
embasamento à visão geral e enriquecem sobremaneira o tratado.
A obra serviu como paradigma teórico no desenvolvimento
científico da economia no século XIX. Pode-se extrair dela um
modelo explicativo básico e facilmente resumível para o crescimen-
to econômico.
A riqueza é definida como o produto anual per capita da nação
e a ampliação desse produto depende do número de pessoas
empregadas produtivamente. Nem todo trabalho humano é produ-
tivo, só os que resultam na transformação de objetos, tornando-os
próprios para consumo. O número de trabalhadores que podem ser
empregados produtivamente é função do estoque de capital
disponível na sociedade. O montante de capital aumenta a produti-
vidade do trabalho, ao se combinar com ele na produção, e o núme-
ro de trabalhadores produtivos. Portanto, o processo de formação
de capital é chave no entendimento do crescimento econômico.
A vida econômica nas sociedades evoluídas é posta em movi-
mento pelo emprego do capital. O processo produtivo deve restituir
esse capital em escala crescentemente ampliada de modo a
propiciar crescimento econômico. Tal esquema é semelhante ao de
Quesnay, contudo as diferenças entre ele e Smith são significativas.
Smith não acredita que a atividade industrial seja estéril, pois ela
também gera novos valores. Ele percebeu ainda que a medida do
crescimento econômico e a compreensão analítica dele depende-
riam de uma teoria do valor. Smith conhecia as noções sobre valor
em Petty e Locke, mas as considerava ambíguas. A ausência de uma
teoria do valor nos fisiocratas, que se limitavam a comparações
134
entre montantes físicos da mercadoria básica, era tida como grave
lacuna.
O trabalho produtivo sempre produz um excedente de valor
sobre o custo de reprodução do trabalhador. Quanto maior o
número de trabalhadores produtivos em relação à população total
do país, maior o excedente anual gerado na economia. Parte desse
excedente é consumida pela classe dos patrões, porém parte
importante é reinvestida por eles, ou seja, canalizada para a
contratação de mais trabalhadores. A capacidade de ampliação de
trabalho produtivo, e portanto de geração adicional de excedente
para novas inversões futuras, depende do número potencial de
trabalhadores a serem contratados pelo capital. Uma medida do
valor que estabeleça relação entre um montante de mercadorias
heterogêneas e o correspondente número de trabalhadores por ele
empregados, enquanto capital, possibilitaria identificar e mensurar
facilmente o processo de reprodução ampliada das condições de
produção. A teoria do valor deveria servir a fim de se compararem
diferentes mercadorias antes que seus preços fossem determi-
nados pelas vicissitudes de mercado. Ao mesmo tempo, tal teoria
deveria estabelecer a referida correspondência entre o valor e o
montante de trabalho útil empregado pelo capital. Estas duas
questões seriam atendidas pela teoria smithiana do valor
fundamentado no trabalho comandado ou encomendado pela mer-
cadoria, ou seja, o poder de ela ser trocada por outras mercadorias
que também exigem trabalho em sua obtenção.
A riqueza das nações trata dessas questões no livro I. A obra
está dividida em mais quatro livros. Smith descreve uma espiral de
crescimento e o desenvolvimento da teoria do valor confere
embasamento analítico a essa espiral. Começa com a discussão da
divisão do trabalho, mostrando que ela aumenta a sua produti-
vidade. No terceiro elo, temos a geração ampliada do excedente
associado a cada trabalhador. Empregado, ao menos em parte,
produtivamente, tal excedente possibilita o crescimento no esto-
que de capital e o aumento subsequente do emprego produtivo.
Mais adiante na obra, percebem-se os outros elos da espiral. O
aumento de demanda por trabalho produtivo, acima da elevação do
número de trabalhadores no período, conduz ao crescimento dos
salários, que por sua vez cria condições para o aumento futuro da
população economicamente ocupada. A consequência de tudo isso
é a ampliação dos mercados. A extensão dos mercados possibilita
que se intensifique o processo de divisão de trabalho, voltando-se
à posição semelhante a inicial na espiral do crescimento (Figura
5.1).
135
Figura 5.1 Espiral do crescimento no enriquecimento das nações.

A explicação anterior não significa que Smith forneça um


tratamento meramente mecânico à questão do crescimento econô-
mico. Ele também incorpora aspectos institucionais. Enfatiza o
papel da lei, da propriedade privada e a necessidade de ausência de
barreiras no mercado a fim de que os processos identificados
ocorram na prática. O mecanismo depende das possibilidades de
investimento rentável dos excedentes gerados a cada período. Do
ponto de vista do capitalista, o incentivo básico à acumulação é a
taxa de lucro. Mesmo em condições institucionais ideais, o processo
de crescimento pode não ser indefinidamente sustentável se
houver redução das taxas de lucro abaixo de um nível crítico. O
crescimento no estoque de capital muito acima do crescimento
demográfico pode levar a uma queda das taxas de lucro pela
elevação de salários. Eventualmente a sociedade pode alcançar um
estado estacionário em que o crescimento apenas acompanha a
expansão da população.
O economista do século XX J. Hicks sintetizou a teoria do
crescimento de Smith em poucas equações. Há uma quantidade
inicial de capital utilizado como recurso para sustentar os traba-
lhadores por ele empregados. Isso leva à geração do produto Xt que
depende do produto do período anterior Xt-1 e da relação produto
por unidade consumida (p/c). De modo que se pode escrever Xt =
136
(p/c). Xt-1. Se p/c > 1, Xt > Xt-1. A taxa de crescimento da produção é
(Xt – Xt-1 )/Xt-1 = p/c – 1. Considerando-se os vazamentos não
produtivos, isto é, a quantidade de produto entregue a setores não
produtivos, na expressão anterior, Xt-1 seria substituído por kt, na
qual kt = k. Xt-1 e k é a fração restante após esses vazamentos.
Temos então que Xt = (p/c). kt = (k. p/c). Xt-1. E a nova taxa de
crescimento seria (k. p/c) – 1. A condição matemática para uma
economia progressiva seria a de que k. p > c, o que se verifica
quando há poucos desvios não produtivos do excedente, k é gran-
de, e quando é elevada a produtividade p/c. Hicks desenvolve o
modelo matemático de Smith pensando numa única mercadoria,
trigo por exemplo, no entanto uma teoria do valor consistente pode
prescindir dessa hipótese e, de fato, Smith pensava numa economia
com múltiplas mercadorias.
Os livros I e II da Riqueza das nações contêm esse esquema
explicativo básico do crescimento econômico. Smith sintetiza o
livro I, dizendo que ele investiga...
“As causas do aprimoramento nas forças produtivas do
trabalho e a ordem segundo a qual sua produção é natural-
mente distribuída entre as diferentes classes e condições de
membros da sociedade.” (Adam Smith, A riqueza das nações)
O livro II investiga a natureza do capital e como ele pode ser
acumulado, explica formas de seu emprego e de que modo utiliza
quantidades de trabalho.
Sobre o livro I vale notar, da definição anterior de seu con-
teúdo, que ele também se preocupa com a questão da distribuição
dos rendimentos. É que a teoria do valor de Smith, a qual aparece
no bojo da discussão do crescimento como medida deste, remete a
uma discussão em termos de componentes desse valor em salário,
lucro e renda da terra, tema que veremos mais adiante. Na
discussão do valor surge a questão da distribuição. Em Smith e
entre seus seguidores clássicos, valor e distribuição aparecem
sempre como temas correlacionados.
Os livros I e II são as partes teóricas principais de A riqueza das
nações, embora mesmo aí não apareça apenas teoria e se constate
neles muito material histórico. Há alguma análise teórica também
nos demais livros, como a teoria das vantagens absolutas no
comércio internacional, contudo, do livro III ao V interessam ques-
tões de história e aplicação. O livro terceiro trata da evolução
histórica das políticas econômicas. É o teste empírico e histórico da

137
teoria do crescimento focalizando a evolução econômica da huma-
nidade. Os livros IV e V contêm proposições normativas em termos
de legislação e política econômica. Lá estão a crítica aos funda-
mentos da política comercial e colonial mercantilista e o elogio à
escola da fisiocracia (livro IV), bem como questões de tributação,
política fiscal, dívida pública (livro V), em que se discutem os prós
e contras da intervenção do Estado na economia em diferentes
áreas.
Vejamos, em detalhe, o conteúdo do livro I. Ele está dividido
em 11 capítulos. O capítulo 1 discorre sobre a divisão do trabalho.
Começa dizendo que a divisão do trabalho aumenta suas forças
produtivas. Ora Smith refere-se à divisão dele na economia geral da
sociedade, ora trata da maneira como a divisão do trabalho opera
em certas manufaturas. Smith fala tanto em divisão social do
trabalho quanto em sua divisão no interior de uma unidade produ-
tiva. Ilustra seu ponto de vista com a observação de uma pequena
manufatura de alfinetes (Boxe 5.1).

Boxe 5.1 Os efeitos da divisão do trabalho na fábrica de alfinetes.

Smith escreve: “Um operário desenrola o arame, um outro o endireita, um


terceiro o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a
colocação da cabeça do alfinete; para fazer uma cabeça de alfinete requerem-
se 3 ou 4 operações diferentes; montar a cabeça já é uma atividade diferente, e
alvejar os alfinetes é outra; a própria embalagem dos alfinetes também
constitui uma atividade independente. Assim, a importante atividade de fabri-
car um alfinete está dividida em aproximadamente 18 operações distintas, as
quais, em algumas manufaturas são executadas por pessoas diferentes, ao
passo que, em outras, o mesmo operário às vezes executa 2 ou 3 delas. Vi uma
pequena manufatura desse tipo, com apenas 10 empregados, e na qual alguns
desses executavam 2 ou 3 operações diferentes. Mas, embora não fossem
muito hábeis, e portanto não estivessem particularmente treinados para o uso
das máquinas, conseguiam, quando se esforçavam, fabricar em torno de 12
libras de alfinetes por dia. Ora, 1 libra contém mais do que 4 mil alfinetes de
tamanho médio. Por conseguinte, essas 10 pessoas conseguiam produzir entre
elas mais do que 48 mil alfinetes por dia. Assim, já que cada pessoa conseguia
fazer 1/10 de 48 mil alfinetes por dia, pode-se considerar que cada uma
produzia 4800 alfinetes diariamente. Se, porém, tivessem trabalhado indepen-
dentemente um do outro, e sem que nenhum deles tivesse sido treinado para
esse ramo de atividade, certamente cada um deles não teria conseguido
fabricar 20 alfinetes por dia, e talvez nem mesmo 1, ou seja: com certeza não
conseguiria produzir a 240a parte, e talvez nem mesmo a 4800a parte daquilo
que hoje são capazes de produzir, em virtude de uma adequada divisão do
trabalho e combinação de suas diferentes operações.” (Adam Smith, A riqueza
das nações)

138
A divisão da fabricação de alfinetes em setores com trabalha-
dores especializados provoca grande aumento na produtividade.
Argumenta que a diferenciação das ocupações e dos empregos,
principalmente em sociedades mais evoluídas, produz aumento
nas forças produtivas do trabalho. A divisão do trabalho é menor
na agricultura, pois aqui os diferentes tipos de trabalho estão
associados às estações do ano, de modo que é impossível empregar
um único homem em cada uma das oportunidades de trabalho nela.
É por isso que, argumenta Smith, as diferenças de produtividade
entre nações ricas e pobres são menores na agricultura e maiores
na manufatura, em que são muitas as possibilidades na
especialização de tarefas.
Smith explica por que a pessoa é capaz de realizar mais traba-
lho com a divisão do trabalho. Enumera três fatores: a maior
destreza alcançada pelo trabalhador especializado, a economia de
tempo ao se passar de um trabalho a outro e a invenção de
máquinas (Boxe 5.2). Nem sempre é o trabalhador especializado
que propõe inovações nas máquinas que emprega. Também contri-
buem para as novas invenções o engenho dos fabricantes de máqui-
nas que utilizam o trabalho de “filósofos ou pesquisadores, cujo
ofício não é fazer as coisas, mas observar cada coisa.” (Adam Smith,
A riqueza das nações)

Boxe 5.2 A invenção de máquinas pelo próprio operário.

Smith escreve: “Quem quer que esteja habituado a visitar tais


manufaturas deve ter visto muitas vezes máquinas excelentes que eram
invenção desses operários, a fim de facilitar e apressar a sua própria tarefa no
trabalho. Nas primeiras bombas de incêndio um rapaz estava constantemente
entretido em abrir e fechar alternadamente a comunicação existente entre a
caldeira e o cilindro, conforme o pistão subia ou descia. Um desses rapazes, que
gostava de brincar com seus companheiros, observou que, puxando com um
barbante a partir da alavanca da válvula que abria essa comunicação com um
outro componente da máquina, a válvula poderia abrir e fechar sem ajuda dele,
deixando-o livre para divertir-se com seus colegas. Assim, um dos maiores
aperfeiçoamentos introduzidos nessa máquina, desde que ela foi inventada, foi
descoberto por um rapaz que queria poupar-se no próprio trabalho.” (Adam
Smith, A riqueza das nações)

A divisão do trabalho e o mecanismo de troca nos mercados


propiciam, numa sociedade avançada, a abundância geral dos bens.
Todos lucram com ela, até mesmo um simples operário que tem
139
mais necessidades atendidas do que “muitos reis da África, que são
senhores absolutos das vidas e das liberdades de 10 mil selvagens
nus” (Ibidem). Com a divisão do trabalho, surge a necessidade de
cooperação e ajuda de milhares de pessoas. Nem sempre nos
damos conta de todos os que contribuíram para que diferentes
tipos de bens cheguem em nossas mãos, no entanto os benefícios
são evidentes, argumenta Smith.
A ideia de que a divisão do trabalho é a chave para o progres-
so material não era novidade à época de Smith. A obra A república,
de Platão, discute extensivamente seus benefícios na formação da
cidade. No entanto, a explicação de Smith é original em alguns
pontos. No capítulo 2, Smith apresenta os princípios que dão
origem à divisão do trabalho. Enquanto para Platão tal divisão é
fruto da sabedoria da cidade, ou seja, é um tipo de ideal ético, em
Smith ela é um produto não intencional. Não é algo que tenha sido
visado por alguém que imaginou previamente certa consequência.
Smith discute a origem da divisão do trabalho e a associa à
propensão humana para as trocas. Logo no início do capítulo, ele
escreve:
“Essa divisão do trabalho, da qual derivam tantas vanta-
gens, não é, em sua origem, o efeito de uma sabedoria huma-
na qualquer, que preveria e visaria esta riqueza geral à qual dá
origem. Ela é a consequência necessária, embora muito lenta e
gradual, de uma certa tendência ou propensão existente na
natureza humana que não tem em vista essa utilidade extensa,
ou seja: a propensão a intercambiar, permutar ou trocar uma
coisa pela outra.” (Adam Smith, A riqueza das nações)
Smith não aprofunda a regressão analítica a fim de chegar à
origem da propensão para as trocas; contudo, considera provável
que ela seja uma consequência das faculdades de raciocinar e falar.
Platão e Smith concordam no ponto em que, com a divisão do
trabalho, cada indivíduo passa a necessitar do trabalho do outro.
Smith argumenta que a necessidade de ajuda dos semelhantes não
vem da benevolência alheia...
“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do
padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que
eles têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos não à sua
humanidade, mas à sua autoestima, e nunca lhes falamos das
nossas próprias necessidades, mas das vantagens que advirão
para eles.” (ibidem)

140
A passagem é bastante explícita em apontar que, nas trocas de
mercado, os homens visam a seu autointeresse. A existência de um
mercado para as trocas é um requisito para a divisão do trabalho,
pois os homens só se especializam naquilo que fazem melhor
sabendo que poderão trocar o excedente da produção.
Platão acredita que os indivíduos possuem, desde o nasci-
mento, diferentes aptidões e que cada um se entrega ao trabalho
que atende melhor a essas aptidões. Então, a diferença entre as
pessoas está na base da divisão do trabalho. Smith discorda
radicalmente dessa visão. Para ele, as pessoas não são natural-
mente diferentes, é a propensão para a troca que, ao longo do
tempo, acentua as diferenças. Já os animais são bastante diferen-
ciados entre si e, no entanto, não podem usufruir dessas diferen-
ças.
Smith identifica no capítulo 3 fatores limitativos para a divisão
do trabalho. Como esta depende da possibilidade de se trocar o
excedente da produção, o tamanho do mercado aparece como um
impedimento para a extensão da divisão do trabalho. É por isso que
no campo, exemplifica Smith, o carpinteiro é também marceneiro,
o ferreiro ainda faz pregos etc. Meios de transporte adequados e
baratos facilitam a divisão do trabalho. Onde os transportes foram
facilitados por condições geográficas, tais como rios navegáveis e
acesso ao mar, surgiram as grandes civilizações. De fato, os povos
do mediterrâneo beneficiaram-se de facilidades de navegação. O
progresso e o aprimoramento do Egito muito se devem à navegação
interna do Nilo. Bengala, na Índia, conta com o rio Ganges. Pontos
remotos do interior e regiões que não oferecem facilidades de
transporte, como no interior da África e norte da Ásia, não
possibilitam comércio internacional e seus povos permanecem em
estado de barbárie.
O capítulo 4 apresenta uma breve história sobre “a origem e o
uso do dinheiro”. A parte principal do capítulo reconstitui, por meio
de uma história analítica, como o dinheiro veio a se tornar o
instrumento universal do comércio. Na parte final do capítulo,
discute-se o “paradoxo do valor”. Vejamos o primeiro aspecto.
Smith começa apontando que, com a divisão do trabalho, a maioria
das pessoas conta com as trocas de mercado para satisfazer a
muitas de suas necessidades. Assim é como se todos fossem
comerciantes, caracterizando a moderna sociedade comercial
(Smith não emprega o termo “capitalismo”). De início, antes da
disseminação do dinheiro, havia grandes problemas para efetivar-
se as trocas, pois, só há troca caso haja coincidência de neces-

141
sidades e de interesses. Buscou-se então possuir uma mercadoria
amplamente aceita, além da mercadoria produzida pelo próprio
indivíduo em questão. Historicamente temos gado, sal, açúcar,
peles, couros e até pregos (como de uma observação sua no interior
da Escócia) como sendo a mercadoria dinheiro. Aos poucos, a
função de instrumento de troca acabou fixando-se nos metais, que
são imperecíveis e subdivisíveis. Ferro, cobre, ouro e prata, descre-
ve Smith, serviram cronologicamente como dinheiro. De início o
metal era ofertado em barras brutas. Dado o inconveniente da
pesagem e da verificação da autenticidade, optou-se por dinheiro
cunhado ou moeda com gravação cobrindo os dois lados da peça e
as laterais, de modo a garantir o peso e o teor metálico da moeda.
O próprio nome da moeda, de início, expressava peso ou quan-
tidade de metal, como a libra inglesa: libra é medida de peso
também. Smith conta que alguns reis diminuíam propositalmente a
quantidade de metal na moeda, em prejuízo dos credores e ganho
dos devedores. Em suma, é esta pequena história do dinheiro que
nos conta Smith.
No final do capítulo, Smith apresenta a questão fundamental:
quais as normas que as pessoas observam ao trocarem suas
mercadorias por dinheiro ou por outras mercadorias? Smith está a
discutir as regras que determinam o valor relativo ou o valor de
troca dos bens. Nota ele que a palavra “valor” possui dois signi-
ficados: a utilidade de determinado objeto, ou seja, o valor de uso,
e o poder de compra que o referido objeto possui, o valor de troca.
Observa Smith que, em geral, objetos com elevado valor de uso
possuem baixo valor de troca e vice-versa; cita o caso da água e do
diamante. Após contrapor os conceitos dessa maneira, Smith diz
que a preocupação da economia política deve recair no valor de
troca, e anuncia o enfoque dos capítulos subsequentes, que será o
de investigar os princípios que regulam o valor de troca. Antecipa
duas questões básicas:
1. Qual a medida real do valor de troca, ou seja, no que consiste
o preço real de uma mercadoria?
2. Quais as partes ou componentes que constituem o preço real
das coisas?
O preço que realmente o objeto vale é seu preço natural. Os
preços que se verificam nas situações dos mercados são os preços
de mercado, que no longo prazo se aproximam do preço natural.
Diversas observações podem ser feitas dessa passagem de
Smith, voltaremos a comentá-la em outras partes de nosso livro.
Não é muito compreensível qual a utilidade de se contrapor os
142
conceitos de valor de uso e valor de troca. São coisas diferentes, por
certo, mas não decorre que estejam em posição paradoxal. A
relação entre esses dois conceitos requer a análise marginalista que
não estava ao alcance da época. O fato de o bem possuir alto valor
de uso e baixo valor de troca não deve ser moralmente condenado.
O tom de Smith, porém, passa essa impressão. Smith deixa claro que
o que ele procura não é exatamente o fundamento analítico do
valor, mas apenas uma forma de medi-lo. O uso da palavra “natural”
para os preços é um modismo da época em que a expressão
“natural” vinha carregada de conteúdos normativos.
A riqueza das nações procurou seguir os passos metodológi-
cos dos Princípios de Newton. A ideia de identificar princípios
fundamentais subjacentes ao fenômeno e de tentar reconstituir
uma ordem por trás da aparência caótica, de modo a mostrar como
os elementos são coordenados por esses princípios, é típica no
método de Newton. A riqueza das nações identifica certos princí-
pios básicos, tais como a propensão para as trocas, a divisão do
trabalho e o autointeresse (observada a moral e os costumes), e
com base neles articula um esquema explicativo que mostra o jogo
aparente dos fatos como decorrência lógica da aplicação desses
princípios.
Os capítulos de 5 a 7 mostram a essência da teoria smithiana
do processo de mercado e o esquema básico para sua interpre-
tação dos preços. Nesses capítulos, Smith desenvolve sua teoria
rudimentar do equilíbrio, uma de suas melhores contribuições em
teoria econômica. A teoria dos preços é o ponto de partida da
análise econômica feita por Smith. Trata-se de uma teoria de
equilíbrio estático que já estava presente em autores anteriores
que disseram algo a respeito do mercado. Nesse sentido, não houve
muito avanço em relação a seus contemporâneos.
No capítulo 5, apresentam-se os conceitos de preço real e
preço nominal. Smith associa o preço real da mercadoria à ideia de
valor. Se o homem é rico ou pobre conforme a quantidade de
serviço alheio que está em condições de encomendar ou comprar,
o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho que ela
permite comprar ou comandar. Assim, o trabalho é a medida real
do valor de troca de todas as mercadorias. Smith não está dizendo
que valor de troca é trabalho, mas que este pode ser usado como
medida daquele. Ter uma medida do valor é tudo que Smith
necessitava para sua análise posterior do crescimento econômico.
Smith representa uma volta a Alberto Magno, séculos atrás, ao
afirmar que o preço real de um bem é o incômodo que custa a
143
aquisição dele. Fundamentar o valor exclusivamente no lado dos
custos é uma visão unilateral que não corresponde à moderna
compreensão dos preços. No entanto, essa unilateralidade já havia
ganhado certa reputação entre autores de língua inglesa, especial-
mente sob influências de W. Petty e R. Cantillon, que popularizaram
a ideia no ambiente britânico. Smith apenas segue a corrente. A
escola clássica irá refinar essa interpretação do valor.
Avaliar o valor das mercadorias pela medida do trabalho
apresenta algumas dificuldades práticas. Primeiramente a medida
do trabalho deve levar em conta não apenas o tempo gasto, mas as
diferentes qualidades de trabalho, o grau de dificuldade e de
engenho em cada caso. Em segundo lugar, não se troca, na prática,
mercadoria por trabalho (M-T), mas as mercadorias são trocadas
umas pelas outras (M-M’) ou se mede o valor de troca de M pela
quantidade de dinheiro D (M-D-M’). No entanto, o dinheiro possui
certas inconveniências. Se for o caso de se usarem ouro e prata
como tal, as variações no valor do ouro e da prata implicam que a
mesma quantidade deles pode ora comandar mais trabalho, ora
uma quantidade menor dele. O valor dos metais depende da oferta
e do trabalho para trazê-los ao mercado, e, assim, o valor de uma
unidade deles é, em si mesmo, variável. Somente o trabalho
humano, assevera Smith, não varia seu valor. O dinheiro mede
apenas o preço nominal das coisas, o preço real é medido
precisamente em quantidades de trabalho e o valor do trabalho não
varia (Boxe 5.3).
Para o trabalhador, o preço do trabalho é o dispêndio de
energia de uma dada tarefa e, fixada esta, ele é sempre o mesmo. O
preço do trabalho varia para o empregador, mas na verdade são os
bens que se tornam mais ou menos caros. Isso porque o trabalho é
pago em bens. Na prática, utiliza-se alguma mercadoria eleita para
medir os valores. No longo prazo, os valores estimados em trigo são
mais estáveis que aqueles avaliados em ouro ou prata. A relação
entre quantidade de trabalho e quantidade de trigo é mais estável,
até porque as quantidades de trigo funcionam como bom indicador
do preço real em trabalho que deve remunerar a subsistência do
trabalhador. Como o trigo é o principal bem para essa subsistência,
ele guarda certa proximidade com quantidades de trabalho. Já os
metais são instáveis em seu valor, pois mudanças nas condições de
sua oferta induzem variações do valor, e, mantendo-as fixas, redu-
ções da quantidade de ouro e prata contida nas moedas resultam
em alterações nos valores delas. No entanto, o valor real de uma
renda em trigo varia muito no curto prazo; sendo assim, a moeda
metálica funciona melhor para transações de curto prazo. Smith
144
conclui dizendo que no mesmo tempo e lugar o dinheiro é medida
exata do valor real de troca de um bem. Fica claro ser essa medida
apenas aproximação no curto prazo e em pequenas distâncias.

Boxe 5.3 O valor do trabalho que compra os bens não varia.

Smith escreve: “Pode-se dizer que quantidades iguais de trabalho têm valor
igual para o trabalhador, sempre e em toda parte. Estando o trabalhador em
seu estado normal de saúde, vigor e disposição, e no grau normal de sua
habilidade e destreza, ele deverá aplicar sempre o mesmo contingente de seu
desembaraço, de sua liberdade e de sua felicidade. O preço que ele paga deve
ser sempre o mesmo, qualquer que seja a quantidade de bens que receba em
troca de seu trabalho. Quanto a esses bens, a quantidade que terá condições de
comprar será ora maior, ora menor; mas é o valor desses bens que varia, e não
o valor do trabalho que os compra. Sempre e em toda parte valeu este princípio:
é caro o que é difícil de se conseguir, ou aquilo que custa muito trabalho para
adquirir, e é barato aquilo que pode ser conseguido facilmente ou com muito
pouco trabalho. Por conseguinte, somente o trabalho, pelo fato de nunca variar
o seu valor, constitui o padrão último e real com base no qual se pode sempre
e em toda parte estimar e comparar o valor de todas as mercadorias. O trabalho
é o preço real das mercadorias; o dinheiro é apenas o preço nominal delas.”
(Adam Smith, A riqueza das nações)

No capítulo 6, Smith tem a ideia de decompor o preço das


mercadorias em partes elementares independentes; por certo
também recebe influência do método analítico de Newton que
separou a substância material em partículas para o estudo dos
problemas de mecânica. Smith divide historicamente a sociedade
em dois estágios: primitivo e evoluído. Diz que, no primeiro caso,
as trocas são reguladas por quantidade de trabalho.
“Se em uma nação de caçadores abater um castor custa duas
vezes mais trabalho do que abater um cervo, um castor deve
ser trocado por – ou então vale – dois cervos. É natural que
aquilo que normalmente é o produto do trabalho de dois dias
ou de duas horas valha o dobro daquilo que é o produto do
trabalho de um dia ou uma hora.” (ibidem)
A medida da quantidade de trabalho leva em conta o tempo, a
dificuldade do trabalho, a destreza e o engenho. Na sociedade pri-
mitiva, todo produto do trabalho pertence ao trabalhador que o
executa.
No estágio evoluído, pessoas contratam pessoas; surge o lu-
cro. O lucro não é simplesmente o salário pago por inspecionar e
145
dirigir a empresa, ele é regulado pelo valor do capital entregue à
produção. O produto total já não pertence inteiramente ao traba-
lhador, parte é entregue ao patrão na forma de lucro. Nesse caso, o
valor da mercadoria não é apenas regulado pela quantidade de
trabalho incorporado em sua produção. Ela vale mais do que o que
remunera o trabalho, e a parte em excesso é paga na forma de lucro
e, quando for o caso, na forma de renda pelo aluguel da terra, pois...
“No momento em que toda a terra de um país se tornou
propriedade privada, os donos das terras, como quaisquer
outras pessoas, gostam de colher onde nunca semearam,
exigindo uma renda, mesmo pelos produtos naturais da ter-
ra.” (ibidem)
Assim, o valor v de uma mercadoria é regulado pelos três
componentes salário w, lucro l e renda da terra r.
v=w+l+r
Não pode haver outros componentes, além desses três, na
determinação dos preços. Qualquer outro tipo de dispêndio na
produção poderá, em última instância, ser enquadrado em uma dessas
três categorias. Os juros, por exemplo, que são a renda auferida por
uma pessoa que não emprega ela mesma seu capital, mas o empresta
a outras, é um componente do lucro e, como tal, ele é sempre menos
que o montante de lucro total. Os juros não são uma parte explícita do
preço, mas uma renda derivada do lucro. Salários, lucros e rendas da
terra não se confundem entre si. Com o avanço da sociedade, há uma
tendência crescente da maior participação de salários e lucros nos
preços à medida que os produtos se tornam mais elaborados.
O capítulo 7, intitulado “O preço natural e o preço de mercado
das mercadorias”, começa definindo os conceitos de preço natural
e preço de mercado; em seguida ele descreve uma teoria de
funcionamento dos mercados que mostra como a força do
autointeresse individual impele o mecanismo de ajuste dos merca-
dos. Preço natural é o conceito teórico mais fundamental, é nele que
reside o valor real das coisas. Logo no início do capítulo, escreve:
“Em cada sociedade ou nas suas proximidades, existe uma
taxa comum ou média para salários e para o lucro, em cada
emprego diferente de trabalho ou capital. Essa taxa é regulada
naturalmente – conforme exporei adiante – em parte pelas cir-
cunstâncias gerais da sociedade – sua riqueza ou pobreza, sua
condição de progresso, estagnação ou declínio – e em parte
pela natureza específica de cada emprego ou setor de ocupa-
ção.

146
Existe, outrossim, em cada sociedade ou nas suas proxi-
midades uma taxa média de renda da terra, também ela
regulada – como demonstrarei adiante – em parte pelas cir-
cunstâncias gerais da sociedade ou redondeza na qual a terra
está localizada, e em parte pela fertilidade natural da terra ou
pela fertilidade conseguida artificialmente.
Essas taxas comuns ou médias podem ser denominadas
taxas naturais dos salários, do lucro e da renda da terra, no
tempo e lugar em que comumente vigoram.” (Adam Smith, A
riqueza das nações)
Cada componente do preço tem sua taxa natural e a somatória das
taxas naturais de salário, lucro e renda da terra determinam o preço
natural. Tal preço funciona como um ponto de equilíbrio ou uma
condição de longo prazo. No curto prazo os preços efetivamente
observados no mercado, os preços de mercado, oscilam em torno do
preço natural. Note que a explicação de Smith dos preços não é apenas
microeconômica. Como se depreende da citação anterior, as taxas
naturais dependem não apenas “da natureza específica de cada
emprego ou setor de ocupação”, de seus aspectos técnicos, mas também
da situação macroeconômica.
Smith apresenta um excelente tratamento de como os preços
fora do equilíbrio alcançam os valores naturais. Para tanto, define
o conceito de demanda eficaz, que leva em conta o papel dos
indivíduos que desejam pagar o preço natural do bem. A oferta é
inelástica e corresponde a uma quantidade fixa colocada no
mercado. Graficamente, no plano que relaciona preços p com
quantidades x da mercadoria, a demanda eficaz é um ponto que
corresponde à quantidade total demandada ao preço natural
(Figura 5.2).

Figura 5.2 Equilíbrio de mercado de longo prazo em Adam Smith.

147
Se ao preço natural a quantidade ofertada estiver abaixo da
demanda eficaz, o preço de mercado sobe acima do preço natural,
tanto mais quanto menor a oferta em questão (Figura 5.3).
Como efeito do aumento de preços, alguns demandantes
deixam o mercado, só restando os que aceitam pagar o preço de
mercado acima do valor natural. Ao mesmo tempo, preços elevados
atraem novos ofertantes, de modo que à medida que ocorre o
processo de arbitragem entre mercados, os negócios deslocam-se
em direção ao mercado em questão, contribuindo para o aumento
da oferta, em adição, tem-se a ampliação da oferta, pelo estímulo
dos preços, por parte dos que já se encontravam neste mercado. A
resultante desses movimentos é o deslocamento para a direita da
oferta, até que o equilíbrio de longo prazo seja novamente
restabelecido ao preço natural.

Figura 5.3 Equilíbrio de mercado de curto prazo em Adam Smith:


excesso de demanda.

Ocorreria o inverso se houvesse um excesso de oferta ao preço


natural. Os preços de mercado ficariam abaixo dos preços naturais,
sinalizando novos compradores e retirando do mercado parte dos
ofertantes até que o equilíbrio de longo prazo fosse restabelecido
no preço natural (Figura 5.4).
Na prática, os mercados estão sempre se ajustando, mas as
flutuações nos preços são inevitáveis; principalmente porque as
condições de oferta são instáveis. Reveses naturais, variações na
produtividade do trabalho ao longo do tempo e outros fatores
levam a grandes flutuações de preços de mercado. No longo prazo,
entretanto, os preços não podem descolar-se dos valores naturais,

148
já que o fluxo de capitais entre mercados trata de explorar
eventuais discrepâncias na busca de lucro maior.

Figura 5.4 Equilíbrio de mercado de longo prazo em Adam Smith:


excesso de oferta.

A análise de Smith do processo de convergência ao equilíbrio


partindo-se de posições fora do equilíbrio é excelente e antecipa o
moderno tratamento da questão. Smith, porém, não se preocupou
com a descrição do processo de mercado, só se dedicando minima-
mente ao tema no capítulo 7. Mais prioritário na teoria dos preços
de Smith era obter uma explicação para as taxas naturais que
determinam o equilíbrio de longo prazo. Ele trata do tema nos
capítulos subsequentes do livro I, contudo não é totalmente bem-
sucedido nesta empreitada.
Smith começa o capítulo 8, que trata dos salários, dizendo ser
ele a recompensa natural do trabalho. Na sociedade primitiva, o
produto integral do trabalho pertence ao trabalhador, não há
propriedade da terra e nem patrão para repartir o fruto do traba-
lho. Assim, qualquer aumento de produtividade reverte em eleva-
ção de salário. Entretanto, isso não ocorre necessariamente com o
aparecimento de patrões e proprietários. O patrão adianta um
capital e recebe lucro, o proprietário empresta a terra e recebe uma
renda.
Na sociedade evoluída, Smith investiga quais os salários
comuns ou normais do trabalho. Reconhece, de início, que trabalha-
dores e patrões têm interesses contrários:
“Os trabalhadores desejam ganhar o máximo possível, os
patrões pagar o mínimo possível. Os primeiros procuram
149
associar-se entre si para levantar os salários do trabalho, os
patrões fazem o mesmo para baixá-los.” (Adam Smith, A
riqueza das nações)
O salário depende das negociações entre as partes. A natureza
do contrato de trabalho é resultante do jogo de pressões. O patrão
sempre está numa posição vantajosa de negociar com os traba-
lhadores. Primeiramente porque ele pode resistir por mais tempo
à paralisação, já que não depende da renda corrente para sobre-
viver, tendo já acumulado uma fonte de recursos que lhe permite
uma vida confortável mesmo diante de uma longa paralisação nos
negócios. Além disso, sempre fazem conchavos secretos destinados
a baixar os salários. Por outro lado, mesmo fazendo mais barulho,
os trabalhadores não conseguem impor seus interesses:
“Os trabalhadores raramente auferem alguma vantagem da
violência dessas associações tumultuosas, que, em parte devi-
do à interferência da autoridade, em parte à firmeza dos
patrões, e em parte por causa da necessidade à qual a maioria
dos trabalhadores está sujeita por força da subsistência atual
– geralmente não resulta senão na punição ou ruína dos
líderes.” (ibidem)
Há, porém, um piso para os salários, abaixo do qual não se
consegue manter os trabalhadores por muito tempo. Os salários
devem ser suficientes, no mínimo, para a manutenção dos traba-
lhadores e de seus filhos. Há situações em que o trabalhador
consegue ganhar mais do que o mínimo humanitário. A escassez de
mão de obra sempre força os salários para cima.
Tem-se descrito a teoria dos salários naturais de Smith como
aquele correspondente a certo nível de subsistência, mas de fato
não é bem isso o que ele tem em mente. O salário natural depende
da demanda por mão de obra e da disponibilidade local de traba-
lhadores. Aquela demanda depende dos fundos destinados ao
pagamento de salários, que são de dois tipos: o excedente do
empresário que é empregado novamente para manter o negócio e
o excedente do proprietário de terra, e das demais classes abasta-
das, que é emprestado ou empregado diretamente para contratar
mais trabalhadores. Em todo caso, os fundos destinados ao paga-
mento de salários guardam estreita relação com o estoque de
capital da economia. Sempre que esse estoque crescer mais rapida-
mente que a população trabalhadora os salários serão elevados; é
o caso dos EUA, onde os salários eram maiores que os da Inglaterra,
dado o crescimento acelerado daquele país.

150
“Não é a extensão efetiva da riqueza nacional, mas seu
incremento contínuo, que provoca uma elevação dos salários
do trabalho. Não é, portanto, nos países mais ricos, mas nos
países mais progressistas, ou seja, naqueles que estão se
tornando ricos com maior rapidez, que os salários do trabalho
são os mais altos. A Inglaterra é certamente, no momento, um
país muito mais rico do que qualquer outra região da América
do Norte. No entanto os salários do trabalho são mais altos na
América do Norte do que em qualquer parte da Inglaterra.”
(Adam Smith, A riqueza das nações)
Smith diz que quando os salários estão elevados as famílias
procriam mais e que “o indício mais claro da prosperidade de um
país é o aumento do número de seus habitantes.” (ibidem)
Mesmo que o país seja rico, se os fundos destinados aos
trabalhadores forem constantes ao longo do tempo, em breve não
existirá escassez de mão de obra e os salários cairão até a subsis-
tência. A sociedade regride a uma condição de pobreza mesmo que
um dia tenha alcançado considerável riqueza. Smith ilustra essa
ideia com a descrição do caso da China. Essa passagem também
revela, mais uma vez, o talento literário de Smith e como em certas
partes da obra há um tom dramático a ilustrar suas ideias (Boxe
5.4).
Smith também cita o caso da Índia, pior que o da China, pois lá
os fundos destinados aos trabalhadores não apenas deixaram de
crescer como também regrediram.
Na Inglaterra, os salários permanecem bem acima do nível de
subsistência, e como prova disso Smith argumenta que, nesse país,
variações nos preços dos mantimentos não afetam o valor dos
salários e que muitas vezes preços e salários caminham em
direções opostas. Há de se considerar também que, na ilha, há
grande diferença de salários, explicada, em parte, pela dificuldade
de se transportarem pessoas de um lugar a outro.
Smith oferece uma interpretação bastante plausível da relação
entre pobreza e crescimento da população. Argumenta que nos pobres
a fecundidade é maior, mas a proporção dos que chegam à maturidade
é menor que nos ricos. Assim, os salários não representam um freio
nas taxas de nascimento, mas, no longo prazo, estão sempre a limitar
a população trabalhadora pelas altas taxas de mortalidade que
ocorrem quando as rendas são baixas.

151
Boxe 5.4 A miséria da China.

Smith escreve: “A China foi por muito tempo um dos países mais ricos, isto
é, um dos mais férteis, mais bem cultivados, mais industriosos e mais populosos
do mundo. Ao que parece, porém, há muito tempo sua economia estacionou.
Marco Polo, que a visitou há mais de quinhentos anos, descreve sua agricultura,
sua indústria e densidade demográfica mais ou menos nos mesmos termos em
que são descritos por viajantes de hoje. Talvez tivesse conseguido aquele
complemento pleno de riqueza que a natureza e as leis e instituições permitem
adquirir. Os relatos de muitos viajantes, contraditórios sob muitos outros
aspectos, concordam em atestar a baixa taxa de salários e as dificuldades que
um trabalhador tem para manter sua família na China. Ele se satisfaz se, após
cavar o solo um dia inteiro, puder conseguir o suficiente para comprar uma
pequena porção de arroz à noite. A situação dos artesãos é ainda pior, se é que
é possível. Em vez de esperar indolentemente pelos chamados dos clientes nas
oficinas, como acontece na Europa, circulam continuamente pelas ruas
empunhando os instrumentos de seu ofício, oferecendo seu serviço, e quase
mendigando emprego. A pobreza das camadas mais baixas do povo chinês
supera de muito a das nações mais pobres da Europa. Nas adjacências de Cantão
afirma-se que muitas centenas e até milhares de famílias não têm moradia,
vivendo constantemente em pequenos barcos de pesca nas margens dos rios e
dos canais. A subsistência que ali encontram é tão escassa, que ficam ansiosos
por apanhar o pior lixo lançado ao mar por qualquer navio europeu. Qualquer
carniça, por exemplo, a carcaça de um cachorro ou gato morto, embora já em
estado de putrefação e fedendo, é para eles tão bem-vinda quanto o alimento
mais sadio para as pessoas de outros países. O casamento é estimulado na China,
não porque ter filhos represente algum proveito, mas pela liberdade que se tem
de eliminá-los. Em todas as grandes cidades, várias crianças são abandonadas
toda noite na rua, ou afogadas na água como filhotes de animais. Afirma-se até
que eliminar crianças é uma profissão reconhecida, cujo desempenho assegura
a subsistência de certos cidadãos.” (Adam Smith, A riqueza das nações)

A teoria dos salários de Smith não é simples de ser sintetizada.


Smith joga com vários aspectos do tema e nem sempre é
suficientemente claro. A melhor interpretação é a de que, nessa
teoria, os salários são determinados pela relação entre o
crescimento do estoque de capital que irá compor o fundo para o
pagamento de salários e as taxas de crescimento vegetativo da
população. Da relação entre essas duas taxas de crescimento chega-
se a certo nível de salário, mas não se determina claramente, em
cada caso, qual o nível teórico de salário de equilíbrio. Há muitas
digressões. Ora ele chega a uma fronteira inferior para o salário real
que é a condição para a reprodução da oferta de trabalho. Se o
salário não permite a reprodução, a oferta de trabalho cairá no

152
futuro e os salários aumentarão, se o salário está acima do
necessário para a reprodução, a oferta de trabalho se ampliará e os
salários cairão no futuro. A demanda por trabalhador, como por
todas as outras mercadorias, regula a produção de homens. No
entanto, Smith não é explícito em como as taxas de salário se
formam entre uma geração e outra. Os salários podem ficar
indefinidamente acima do nível de subsistência se o estoque de
capital crescer sempre a taxas superiores à evolução demográfica.
Em suma, Smith não chega a uma teoria de salários de equilíbrio.
Não se pode dizer que o nível de subsistência seja o valor de
equilíbrio pensado por ele.
Chamam a atenção nesse capítulo outras considerações de
Smith sobre os salários. Ele já introduz o que modernamente se
conhece por “teoria do salário eficiência”: como o desempenho do
trabalho é afetado pelo salário percebido (Boxe 5.5).

Boxe 5.5 A teoria do salário eficiência de Smith.

Smith escreve: “Assim como a remuneração generosa do trabalho esti-


mula a propagação da espécie, da mesma forma aumenta a laboriosidade. Os
salários representam o estímulo da operosidade, a qual, como qualquer outra
qualidade humana, melhora em proporção ao estímulo que recebe. Meios de
subsistência abundantes aumentam a força física do trabalhador, é a esperança
confortante de melhorar sua condição e talvez terminar seus dias em tran-
quilidade e abundância que o anima a empenhar suas forças ao máximo.
Portanto, onde os salários são altos, sempre veremos os empregados traba-
lhando mais ativamente, com maior diligência e com maior rapidez do que
onde são baixos; é o que se verifica, por exemplo, na Inglaterra, em comparação
com a Escócia, o mesmo acontecendo nas proximidades das cidades grandes,
em comparação com as localidades mais recuadas do interior.” (Adam Smith,
A riqueza das nações)

No Capítulo 9, Smith parte para a determinação teórica da taxa


natural de lucro. Assim como os salários, os lucros do capital
dependem do estado de progresso da riqueza na sociedade. Con-
tudo, o processo afeta os lucros de maneira diferente do que afeta
os salários. O aumento do capital faz decair as taxas de lucro ao
mesmo tempo em que eleva os salários, quer se trate do capital na
sociedade como um todo ou do capital de determinado negócio.
Assim, a concentração dos grandes negócios na cidade reduz as
taxas de lucros nesta localidade, ao passo que a escassez de capital
no campo as eleva. Por outro lado, os salários são maiores nas
cidades e menores no campo.
153
Então, o efeito da prosperidade nos lucros é a redução deles. O
raciocínio de Smith considera que a expansão do capital torna
menores as possibilidades de emprego lucrativo; a concorrência entre
capitais reduz as taxas de lucro. Embora os lucros devam diminuir
com o desenvolvimento da economia, há exceções, como ocorre nas
colônias inglesas onde salários e lucros andam juntos. Nesse caso,
altos lucros e salários estão associados à ocupação de novas áreas com
elevado grau de fertilidade e boa localização. Entretanto, mesmo aqui,
os lucros devem diminuir com o tempo, argumenta Smith. Há também
situações em que salários e lucros são conjuntamente baixos, quando,
após um grande progresso, a sociedade entra em estagnação. Portan-
to, não há necessariamente correlação inversa entre salários e lucros
em toda parte, mas a tendência das variáveis é a de caminharem em
direções opostas. Esse efeito não é de todo indesejável. A baixa taxa de
lucro nos países mais avançados compensa os elevados salários, de
modo que os países ricos conseguem manter preços competitivos no
comércio mundial. Isso vale para a relação entre a cidade e o campo.
Os lucros flutuam muito. Tudo o que afeta preços, concorrência,
clientela, risco de transporte, custo de armazenagem etc. faz o lucro
variar no dia a dia. Smith dá especial ênfase aos juros que são pagos
pelos lucros e dedica boa parte do capítulo a discuti-los. Nesse
sentido, há muito material histórico apresentado. Juros do dinheiro
e lucros variam no mesmo sentido e, assim, acompanhar a evolução
dos primeiros fornece-nos uma ideia dos lucros. Na Inglaterra,
Henrique VIII decretou um teto de 10% nos juros, Eduardo VI proíbe
completamente a prática dos juros, medida inócua. O decreto 13o de
Isabel mantém o teto anterior, mas Jaime I, no Decreto 21o, reduz o
teto para 8%. Após a Restauração inglesa, ele cai a 6% e finalmente
a rainha Ana limita-o em 5%. Depois de discorrer sobre esses casos
históricos, Smith assevera que tais medidas controladoras apenas
conseguiram seguir as taxas de mercado, mas que em geral poder-
se-ia tomar emprestado a um juro menor do que este. A partir de
Henrique VIII o progresso da Inglaterra fez aumentar os salários e
reduzir os lucros. Smith conta-nos que também se procurou reduzir
os juros na França do século XVIII, mas no caso o objetivo principal
era reduzir a dívida pública. As taxas de mercado seguiam um
caminho próprio, não totalmente dependentes das taxas oficiais.
Juros são sempre proporcionais ao lucro líquido. As taxas
mínimas de juros devem remunerar o risco do emprestador e,
portanto, os lucros sempre estarão acima deste mínimo. Nos países
ricos, os juros são baixos e ninguém vive dele. Como no caso da
Holanda, país tido como mais avançado que a própria Inglaterra,
todos são homens de negócios. Em países pobres, muitos vivem de
154
emprestar dinheiro, a taxa de lucro é mais alta e a proporção dele
destinada ao pagamento de juros é maior que nas nações ricas.
Em suma, como regra, a taxa natural de lucro declina conforme o
país se torna mais rico. Acréscimo nos estoques, no número de
empresários ou na competição entre comerciantes e produtores reduz
os lucros. Destarte, Smith indica a trajetória dos lucros, porém não
determina o nível da taxa natural de lucro. A estrutura analítica da
teoria dos lucros de equilíbrio, como anteriormente na teoria de
salários naturais, fica sem um firme embasamento teórico. No capítulo
10, Smith discute as causas das desigualdades entre salários e lucros
em diferentes ocupações. Mais considerações factuais são introduzi-
das, contudo, não se resolve a questão teórica do nível em que essas
variáveis são estabelecidas no equilíbrio.
Finalmente o último componente dos preços, a renda, é apre-
sentado no capítulo 11. Aqui se diz que a renda da terra é o preço
pago ao proprietário pelo seu uso, “é o máximo que o arrendatário
pode permitir-se pagar, nas circunstâncias efetivas da terra” (Adam
Smith, A riqueza das nações). Depois de pagos os salários e os
preços dos demais fatores de produção, e embolsado um lucro
normal, o que sobra do valor da produção é pago em renda da terra.
A renda, diz Smith, não é um pagamento pelo capital emprestado
pelo dono da terra para melhorá-la, não se confunde com lucros e
juros. Mesmo terras que não podem receber melhorias pagam
renda, como na exploração de algas marinhas. A renda é um preço
de monopólio; não é proporcional ao que o empresário investiu ou
ao que se pode extrair da terra.
Sempre que a relação entre oferta e demanda eficaz possibi-
lite à mercadoria ser vendida por seu preço natural, a renda é o que
sobra após subtraídos dele os salários, o pagamento unitário de
lucros normais e a reposição do valor do capital. A renda é a parcela
excedente e como tal ela depende da demanda. Se o preço praticado
está acima dos preços normais, uma parte da parcela excedente vai
para a renda da terra (outra parte estaria remunerando salários ou
lucros acima dos seus valores normais). Assim, a teoria da renda de
Smith apresenta certa inconsistência: ao mesmo tempo em que a
renda é uma parcela dos preços, e como tal deveria determiná-lo,
ela mesma é função dos preços, pois é obtida como resíduo do valor
das vendas e dos salários e juros praticados. Smith não se incomo-
dou com essa circularidade lógica; no entanto, ciente dela, David
Ricardo tratou de reformular a teoria 50 anos depois.
O capítulo 11 discute ainda os casos de produtos da terra que
sempre proporcionam alguma renda, os que às vezes a proporcionam
155
e quais fatores provocam variação na renda. Neste último aspecto, diz
que a renda é maior perto das cidades e que, além da localização, a
fertilidade é um item importante na sua determinação. A melhoria de
transportes tem efeito sobre as rendas. A renda obtida nos trigais
regula a renda das terras dedicadas à pecuária e outras atividades.
Produtos que proporcionam um excedente de valor maior, como as
batatas, aumentam as rendas. Estas são, portanto, as principais
considerações de Smith a respeito dos fatores que condicionam a
renda. Voltando à questão dos produtos que sempre pagam renda da
terra, Smith cita o caso dos alimentos. Eles sempre proporcionam
renda porque são desejados por atenderem a necessidades básicas do
homem. Outros produtos da terra, usados no vestuário e em moradia,
às vezes pagam renda, às vezes não. Quando a terra é tratada de modo
a oferecer alimentos suficientes para manter as pessoas, há uma
demanda adicional por produtos ligados à fabricação de roupas e
moradia. Enquanto houver, para esses casos, um excesso de demanda,
o preço elevado desses materiais proporciona o pagamento de renda
da terra. Quando a terra produz materiais para vestuário e moradia
mais do que requerem as pessoas a serem sustentadas, mesmo
estando a terra em estado natural e não tratado, tais produtos não
acarretarão renda. Então a renda depende da dinâmica da demanda
em relação à oferta. Há digressões interessantes sobre a relação entre
o preço do carvão em comparação ao preço da madeira e o pagamento
de renda nas minas de carvão. A mina mais fértil regula o preço do
carvão e a renda é proporcional à superioridade das minas. Também
é importante a discussão sobre o valor da prata feita, nesse mesmo
capítulo, em conexão com a teoria da renda.
Então a renda da terra é efeito de variações nos preços e não uma
causa delas. A renda das minas de carvão parece ser regulada por um
princípio diferente do caso geral. Smith diz que o custo de produção
da mina que não paga renda é um bom indicador do menor preço a
que a mercadoria é vendida. Nota-se, portanto, que, nesse caso, as
rendas determinam os preços.
O livro I contém a principal contribuição analítica de Smith.
Embora importante no contexto histórico, ela é de pouco uso atual.
A distinção entre preço natural e de mercado não é muito impor-
tante, já que os preços de mercado podem exceder ou estar abaixo
dos preços naturais por séculos. A decomposição dos preços em
salário, lucro e renda da terra também é um tanto inócua. Ela
embaralha determinantes micro e macroeconômicos de uma
maneira difícil de separar. Mais importante foram as ilustrações de
Smith que educaram gerações posteriores. Conceitos como custo
de oportunidade, equalização de retornos em diferentes usos,
156
relação entre lucro e risco, entre salário e produtividade são pontos
teóricos importantes. Smith tem a virtude de um pedagogo e o
mérito maior do livro é a apresentação cuidadosa e enfática de
ideias já conhecidas a sua época. Além do talento literário inques-
tionável e dos exemplos históricos.
O livro II também é basicamente de teoria. Ele discute as
condicionantes e as características da acumulação de capital, em
que analisa o que determina a oferta de emprego produtivo e su