Hpe 23
Hpe 23
História
do Pensamento
Econômico
De Lao Zi a Robert Lucas
4ª Edição
Amazon.
Ricardo Luis Chaves Feijó
História
do Pensamento
Econômico
De Lao Zi a Robert Lucas
ISBN 9798396169104
01-3179 CDD-330.09
O Autor
Sumário
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intrínseca, ou seja, que haja um ordenamento dos fatos segundo
uma lógica interna. Se pensarmos sobre o que regula a vida
econômica na era moderna, chegaremos a mercados e mecanismos
sociais que asseguram o funcionamento deles, como, por exemplo,
a existência de leis e de moeda intermediando as trocas. Mercados
já havia na Antiguidade, contudo, a generalização de uma sociedade
com grande número de indivíduos independentes, relacionando-se
uns com os outros basicamente pelas trocas de mercado, só aparece
com o advento do capitalismo. Nas sociedades pré-capitalistas, em
geral, há uma tradição cultural que permeia a vida econômica e que
condiciona fortemente a maneira como os homens relacionam-se
na produção e na distribuição de bens. Não predomina nelas uma
lógica de mercado a comandar os papéis individuais e nem há a
impessoalidade típica das economias capitalistas. Os indivíduos
não pautam suas ações pela busca pessoal de riqueza. O que move
as pessoas nas sociedades tradicionais pré-capitalistas é a repre-
sentação de um papel já estabelecido que lhes é fornecido ao nasce-
rem e que passa a ditar suas vidas. Elas não estão, portanto, livres
na vida econômica para alcançarem toda vantagem possível. A
participação de cada qual é ditada pela tradição que ensina as
pessoas como e para quem produzir.
A consequência maior do forte predomínio da tradição cultural
na vida econômica é a impossibilidade de se identificar uma
recorrência de fatos econômicos que possam ser racionalmente
interpretados. Os preceitos que ditam a atividade produtiva nessa
sociedade são de natureza cultural e podem não obedecer a
nenhum critério racional. Nela, a visão de um mundo transcen-
dental de mitos e deuses comanda ações econômicas ordinárias.
Com isso, as dimensões culturais permeiam o fenômeno puramente
econômico e não se pode separá-lo delas, mesmo para fins
analíticos. No período histórico em que surgem teorias econômicas
verdadeiramente abrangentes, versando sobre os principais temas
ligados à produção, à troca e às políticas públicas, os fatos econô-
micos já se encontravam ordenados na sociedade de modo bastante
independente da tradição. Isto possibilitou interpretar teorica-
mente o sistema econômico como uma esfera independente e
movida por uma racionalidade que lhe é própria.
No período anterior ao século XVIII, com raras exceções a vida
econômica esteve submetida a preceitos éticos e religiosos. A partir
de então, com o capitalismo, em maior grau os agentes são movidos
por estratégias individuais que se combinam de modo a resultar no
presumido funcionamento automático da economia a despeito das
imposições da tradição cultural. Assim, o que é oferecido pela
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ciência econômica não se poderia esperar na concepção dos anti-
gos: um modelo teórico representativo dos fatos econômicos, no
qual se selecionam variáveis (como preços, salários, lucros e juros)
e se concebe uma estrutura de relações estáveis entre elas. A
identificação de fatos econômicos isolados e a procura por uma
lógica interna para eles, pautada em critérios como busca de
eficiência e maximização de resultados, não seria possível no
período pré-capitalista, o que não significa que nenhuma reflexão
de natureza econômica tenha sido feita até então. Na Antiguidade,
não se encontra uma teoria econômica, porém, lá existia um
pensamento econômico voltado a questões similares às que são
tratadas na ciência econômica atual, embora em um âmbito mais
restrito. Os antigos hindus, hebreus, gregos e romanos analisam
questões ligadas à propriedade dos bens, à produção e ao comércio
e procuram estabelecer a natureza deles e as normas que deveriam
regulamentar tais atividades. A interpretação dos fatos econômicos
era então de natureza moral e as indicações de preceitos tinham
por base uma visão religiosa.1
Entre os antigos, a exposição de temas econômicos aparece no
bojo das reflexões filosóficas. A preocupação era com a observância
de preceitos morais e religiosos nas tarefas práticas. Na busca de se
chegar às implicações da moral nos afazeres diários, são avaliados
certos elementos que dizem respeito à produção e à distribuição de
bens e que nos interessam de perto. Assim, eles investigam as
formas de apropriação dos bens, a riqueza, as necessidades huma-
nas, a organização da produção, a escravidão, as relações familia-
res, as vocações individuais para o trabalho, as relações de traba-
lho, a distribuição da riqueza, a natureza do comércio e dos juros, a
troca de mercadorias, o fundamento dos preços, o sistema fiscal e
tributário e outros temas pertinentes à economia.
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A interpretação de Lao Zi da sociedade é a transposição de suas
crenças filosóficas do plano individual para o coletivo. A pessoa,
isoladamente considerada, busca o reconhecimento do Tao ao
deixar-se levar pelo caminho natural, livre de inquietações e de
desejos que poderiam forçar sua verdadeira unidade. Nesse cami-
nho, ela integra-se à sabedoria cósmica e sua vida torna-se, então,
guiada pelos mesmos princípios de coesão e de harmonia da ordem
universal. Também na vida social, quando a atividade econômica
não é penalizada por impostos excessivos, o povo prospera e deixa-
se governar facilmente:
“Quando o povo passa fome, isso acontece porque os fortes
e os poderosos cobram impostos em demasia. Quando o povo
é difícil de ser governado, isso ocorre porque os poderosos se
intrometem em demasia.” (ibidem)
Na China antiga, a crença de que existiria uma ordem gerada
espontaneamente na sociedade não parou em Lao Zi. Ela teve
prosseguimento nas reflexões de Chuang Zi (369-286 a.C.) que
transformou a noção de ordem espontânea em uma concepção
anarquista da sociedade. Chuang Zi recusou o convite do impe-
rador Wei para o cargo de ministro, dizendo que todas as restrições
individuais que partem do governo distorcem a natureza humana.
Todavia, nem todos os pensadores chineses do passado distante
são contrários à ação do governo e muitos exaltam o poder do
Estado, além de procurar ditar regras a fim de ampliar tal poder.
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de nossa análise é que, nesse mito, é condição sine qua non da vida
social certa ética entre os homens. A investigação da esfera social
fica vinculada inseparavelmente à consideração ética.
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A segunda obra, A república, aprofunda o conceito de justiça e
expõe, de modo completo, a doutrina ética e social de Platão. Antes
mesmo de apresentar tal conceito, é importante ter em mente
certos aspectos gerais da doutrina filosófica de Platão. Tal filosofia
procura refutar as crenças sofistas de que os valores são uma
convenção estabelecida na discussão e nas controvérsias públicas,
e que a verdade é relativa se cada um tem seu ponto de vista que
lhe é verdadeiro. Platão também se opõe ao materialismo dos
filósofos pré-socráticos.
O teor de suas críticas é possível ser resumido. Ele acredita no
princípio da contradição que nos diz que duas proposições opostas
não podem ambas ser simultaneamente verdadeiras. Nas discus-
sões, há de se chegar ao absoluto, isolando a proposição falsa e
apontando para a verdadeira. O materialismo era, à época de Pla-
tão, antiga herança do pensamento pré-socrático, originário da Ásia
Menor, que acreditava na existência de um substrato material
preenchendo a realidade. Todas as coisas são constituídas de um
elemento material básico. Tudo é matéria e esta é feita de um único
elemento identificado inicialmente como sendo a água, em Thales
de Mileto. Depois, outros filósofos apontam o ar, o vapor, átomos de
matéria e até fogo, como em Heráclito, como sendo o elemento
último. A escola materialista também concebia os corpos materiais
como estando em perpétuo movimento.
A oposição filosófica ao materialismo, de fato, aparecera antes
de Platão. Filósofos espiritualistas como Pitágoras e Parmênides
rejeitam a existência exclusiva do corpo material, acreditando que,
ao lado dele, reside um princípio imortal a que chamam de alma. A
alma é tida como algo absoluto, imóvel e eterno. Os eleatas, da
escola de Parmênides, acreditam que só ela pode ser pensada. O
pensamento não se fixa em corpos materiais e o movimento não
pode nunca ser entendido pelo pensamento. Dentre eles, Zenão de
Eleia construiu seus famosos paradoxos na tentativa de demons-
trar que pensar o movimento leva-nos a situações absurdas: Aqui-
les, correndo por trás, nunca alcançaria a lenta tartaruga, pois,
sempre que tivesse avançado a metade da distância que os separa,
uma nova metade ainda restaria a ser percorrida. É claro que o
aparente absurdo seria facilmente desvendado se os gregos
soubessem que séries infinitas de termos positivos podem ter soma
finita quando a razão entre termos sucessivos for menor que a
unidade, o que é o caso.
A filosofia de Platão rompe com o materialismo, ao mesmo
tempo em que resiste às correntes espiritualistas que só pensam no
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mundo absoluto e estático. Platão remedeia a crise intelectual
trazida pela oposição de visões antagônicas. Enquanto os mate-
rialistas acreditam apenas na existência do que atinge os sentidos,
ele concebe a existência de coisas que não podem ser alcançadas
pelos sentidos. A noção de justiça, por exemplo, não remete a algo
que tenha existência corporal, mas ela compartilha do mesmo
conteúdo de realidade que os objetos materiais. Então Platão acre-
dita em um mundo fragmentado em duas esferas de realidade: o
mundo dos objetos visíveis e o mundo de ideias perfeitas (mundo
das ideias), que também pode ser pensado como o mundo do corpo
versus o mundo da alma, o mundo do movimento contra o mundo
estático, mundo de corpos imperfeitos e perecíveis, de um lado, e
mundo de entes perfeitos e imortais, de outro, e outras dicotomias
desse jaez.
Conhecida a natureza da filosofia de Platão, podemos retomar
a discussão do conceito de justiça na obra A república. Nela,
argumenta-se que a justiça é um conceito que só se realiza na vida
em sociedade e que consiste em atribuir a cada indivíduo o papel
que lhe compete por suas qualidades naturais (Boxe 1.2.). A cidade
surge porque os homens buscam satisfazer melhor suas próprias
necessidades, tirando proveito da especialização de tarefas. Viven-
do em sociedade, eles produzem para si e para os demais, e
procuram tirar o máximo proveito das trocas.
A cidade necessita de muitos especialistas em trabalhos dife-
rentes. O produto excedente do trabalho individual é trocado por
meio de atos de compra e venda. Aparecem então mercados e
moeda, “símbolo do valor das mercadorias permutadas”.
As trocas são intermediadas por mercadores, “pessoas mais
fracas de saúde, incapazes de qualquer outro trabalho[...] que se
dedicam à compra e venda, com estabelecimento aberto no merca-
do”, e negociantes “que viajam de cidade em cidade”.3
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A vida em sociedade possibilita a prática do bem. A vida no
bem é a vida conforme a justiça e somente a vida justa leva-nos à
libertação da alma. A organização da sociedade deve ser perfeita
para que, vivendo no bem, sejamos plenamente recompensados
após a morte. Platão apresenta então o que imagina ser a cidade
justa. É a cidade perfeita que pertence ao mundo das ideias. As
cidades que existem concretamente estão longe da perfeição.
No livro A república, Platão limita-se a mostrar a cidade ideal;
em duas obras que se seguiram, O político e Timeu, ele discorre
sobre os motivos que afastam as cidades concretas da perfeição, e
em outro livro, As leis, mostra como a legislação poderia aproximar
a realidade existencial das cidades do plano ideal. Portanto, a
sociedade descrita em A república é, antes de tudo, um modelo, e as
prescrições econômicas contidas nela devem ser pensadas como
elementos de um quadro ideal que podem ser provisoriamente
abandonados nas vicissitudes da cidade existente.
O que torna justa a cidade ideal não é a observância das noções
de justiça dos personagens Céfalo, Trasímaco e Adimanto, um tanto
quanto limitadas ao contexto do indivíduo. No pensamento platô-
nico, deve-se separar a virtude individual da virtude na cidade. No
primeiro caso, a virtude está no equilíbrio de forças entre impulsos
movidos pelo desejo material e sensual, pela fúria e pela inteligên-
cia, denominados respectivamente de concupiscência, cólera e
razão. O homem justo dá a cada parte o lugar que deve ocupar. A
proporção depende de nossa natureza: uns nascem mais fortes,
outros mais sábios, e assim por diante. A virtude individual faz
prevalecer em nós um balanço de sentimentos compatível com
nossa natureza. A cidade justa é composta por cidadãos virtuosos,
mas o que a faz justa é o modo como se distribui o conjunto de
funções que cada qual desempenha em seu interior. A virtude na
cidade consiste em distribuí-las de modo que cada qual cumpra um
papel de acordo com o que lhe é merecido em face de suas
qualidades físicas, intelectuais e morais.
Para Platão, as pessoas nascem diferentes umas das outras e
essas diferenças se mantêm. Assim, cabe à cidade atribuir direitos
e obrigações particulares a cada classe de homens, pois seria uma
injustiça tratar de modo igual os que são naturalmente diferentes,
como se pretende na democracia que sempre se degenera em
tirania. A sociedade ideal é sempre aristocrática, pois os melhores
devem governar e os inferiores submeterem-se com resignação às
suas ordens. Entre os cidadãos, há três tipos de pessoas: os que
vivem na sabedoria exercida pela contemplação e que sabem domi-
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nar suas paixões são os governantes; os guerreiros, que ainda
mantêm grande sabedoria, mas que se destacam pela força física e
pelo ardor e doçura de sentimentos, já que devem ser intrépidos
contra os inimigos e cortês com os concidadãos. Finalmente, temos
os agricultores e artesãos em que predominam a força física e o
senso de obediência. Os ditames da organização social e econômica
da cidade estão todos voltados à obtenção da ordem hierárquica
entre os homens.
Algumas condições lógicas devem ser observadas a fim de que
todos ocupem bem seu respectivo papel social. Primeiramente, um
sistema educacional que não discrimine pelo nascimento, já que a
desigualdade de aptidões não é determinada pela hereditariedade.
As crianças são separadas dos pais e reunidas em escolas onde
educadores prestarão especial atenção nas desigualdades indivi-
duais, de modo a encaminhá-las o mais cedo possível para uma vida
de acordo com suas qualidades. A fim de que as crianças não fiquem
presas às influências paternas, é aconselhável o regime em que as
mulheres sejam compartilhadas e as crianças não reconheçam os
pais. Não há famílias nucleares e sim a plena comunidade de
mulheres e filhos. A segunda condição para a ordem justa é que
todos os cidadãos da cidade sejam amigos entre si. A amizade entre
todos é alcançada em uma organização econômica em que os bens
materiais sejam de todos, pois entre amigos tudo é comum.
O comunismo é o regime de propriedade compatível com a
cidade ideal. Além de favorecer a amizade, ele evita o enrique-
cimento excessivo de alguns. Embora seja lícito supor que os mais
sábios tenham uma vida mais confortável, o critério de mérito na
cidade ideal jamais será o da riqueza. Pelo contrário, a oligarquia,
ou governo dos ricos, é condenada e o homem rico visto com
desdém: “ser imundo que de tudo toma proveito, que cresce à
sombra e transborda em carnes supérfluas enquanto explora o
miserável chupado e assado pelo sol.” No comunismo de Platão, o
sábio terá uma vida apenas frugal, pois a riqueza poderia tirá-lo do
caminho do bem e envenenar sua alma de sensualidade e desejo de
consumo. Os guerreiros não passam por privações que poderiam
abalar saúde e vigor físico, essenciais na arte da guerra. Não
mergulham, porém, em riquezas que comprometeriam a disciplina
da vida marcial. O artesão e o agricultor mantêm sua disposição
para o trabalho se afastados de uma vida de riquezas. Assim, na
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cidade ideal os indivíduos levam um gênero de vida conforme a
função que lhes cabe.4
Platão reconhece que a igualdade de riquezas entre os
cidadãos da cidade ideal não se verifica nas cidades concretas.
Constatada a distância entre o ideal e a realidade, ele lança-se, em
As leis, a buscar soluções que atenuem as desigualdades. A reforma
das cidades é conduzida pela imposição de leis que regulam a
atividade econômica: repartição da propriedade, sistema tributário
que busque a igualdade, confisco de fortunas, regulamentação de
heranças, controle populacional, proibição de se reter ouro e prata
e de empréstimos mediante juros elevados, controle das atividades
dos estrangeiros e das importações e exportações. Platão discorre
sobre a prioridade do Estado no controle da produção, mantendo
ou dirigindo-a diretamente e repartindo o produto; quando não for
o caso, impondo condições sobre a atividade privada, controlando
as condições em que se farão as colheitas etc. Por fim, a atividade
comercial é proibida entre os cidadãos, ficando o comércio a cargo
de estrangeiros.
No momento em que as cidades alcançarem os ideais da cidade
perfeita, elas serão plenas das quatro virtudes capitais - justiça,
sabedoria, coragem e temperança, respectivamente quando as
funções de cada cidadão correspondem às suas qualidades
pessoais, quando a cidade é dirigida pelos mais sábios, guardada
pelos mais corajosos e com os inferiores obedientes aos superiores.
Não se trata de uma democracia, mas de uma aristocracia em que a
seleção dos dirigentes é feita não pela escolha da maioria, mas
submetendo-os a provas morais e intelectuais. As prescrições de
natureza econômica são apenas meios, pensados para se alcançar
um ideal de justiça social. Não há argumentos de eficiência ou
racionalidade econômica. As pessoas na cidade perfeita não
procuram maximizar riquezas, mas realizar seu papel social com
perfeição de modo a se elevarem espiritualmente.
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sária, mas não suficiente, para a felicidade “cuidar do corpo, ter
bons amigos e descendência feliz”.
São necessários recursos econômicos para a felicidade e, ao
reconhecer tal fato, Aristóteles lança-se a tecer considerações de
natureza econômica. A economia é uma parte mais restrita da
ciência do homem que estuda a administração do lar (oïko = casa,
nomik = leis ou princípios de administração). O ramo mais
abrangente e mais importante dessa ciência é a política e o estudo
mais específico do indivíduo pertence à ética. A cidade nunca pode
ser perfeita, pois tudo o que pertence ao mundo sublunar está
sujeito ao acaso e a mudanças imprevisíveis; o mundo perfeito e
imutável é o das esferas celestes tal como se observa na harmonia
do movimento dos astros.
Na política, Aristóteles não se posiciona a favor de um único
regime. Três deles são possíveis: a realeza, a aristocracia e a
república. O Filósofo apenas condena as formas degeneradas
desses governos, respectivamente a tirania, a oligarquia e a
democracia: a ditadura de um só, do dinheiro ou da maioria, nessa
ordem. A política fornece os princípios que norteiam o legislador,
mostrando-lhe como alcançar, em sociedade, a virtude. A economia
ensina a organizar a vida econômica de modo que se torne
compatível com a obtenção das metas supremas da humanidade.
O comunismo de Platão é criticado. Os argumentos que, para
tanto, Aristóteles lança-se a fazer merecem uma exposição, pois até
hoje são utilizados pelos liberais críticos do coletivismo. Enquanto
Platão pensava que a propriedade comunal facilitaria o entendi-
mento entre os homens, Aristóteles acredita que possuir bens
comuns é fonte de conflito. O amor e a amizade requerem a
propriedade privada. O sentimento de propriedade estimula o
amor e a afeição pelos objetos e também pelas pessoas. Para ajudar
e receber os amigos, é preciso possuir bens. A educação das
crianças no sistema comunal de Platão é combatida. Os filhos
devem estar próximos aos pais, já que nos interessamos menos
pelo que pertence a todos. Só a afeição exclusiva dos pais engendra
o amor. Aristóteles defende a família patriarcal com a mulher
submissa ao homem.
A luta interna na cidade não é resolvida pela igualdade de
riquezas. O comunismo leva à irresponsabilidade. Todo o ônus da
manutenção das novas gerações é repassado para a sociedade e,
assim, os indivíduos não refreiam o ímpeto da procriação, o que
leva à divisão infinita das fortunas pelo crescimento do número de
cidadãos. Regular a população era também uma preocupação de
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Platão; ele pensava que as cidades deveriam ter apenas 5.040
cidadãos, número divisível por todos os inteiros de 1 a 12, exceto o
11, facilitando-se o trabalho administrativo de organizar grupos.
Aristóteles, como Platão, também propõe a eugenia com a
eliminação de crianças disformes. O que os difere é que Aristóteles
acredita que no comunismo seria impossível regular a população.
A desigualdade e, por extensão, a existência de homens ricos é
tolerável e até útil para a cidade. Os ricos pagam impostos e o
Estado necessita deles para bancar as despesas das atividades em
comum: cultos aos deuses, defesa da cidade etc. Aristóteles não
defende a supressão do Estado; pelo contrário, há amplo espaço
para o domínio público, inclusive a propriedade pública de terras.
Vê-se então que a defesa da propriedade privada em Aristóteles
não é radical. Uma última ideia vale a pena comentar: o estagirita
antecipa o argumento moderno contra a pretensão de eficácia do
comunismo ao enfatizar o comportamento oportunista dos que não
se empenham em contribuir para a sociedade, uma vez que o
regime de propriedade comum garante de antemão o usufruto da
produção social. No contexto da época, tal argumento não era tão
forte, já que de qualquer maneira os cidadãos não tinham que
trabalhar. O trabalho penoso é incompatível com os objetivos da
vida em contemplação. Não tanto o trabalho agrícola do lavrador,
que não chega a ser um impedimento para a virtude. Ele é até bom,
pois confere força ao corpo e o torna apto para a guerra, embora
prive os homens do lazer necessário à reflexão. O trabalho arte-
sanal é o mais penoso e degenerativo por estragar o corpo. O traba-
lho pode e para os cidadãos deve ser evitado sem prejuízo para a
existência, já que, de qualquer modo, os meios materiais para a
sobrevivência deles estão garantidos pela instituição da escravi-
dão.
Escravos são subumanos que não podem ser senhores de sua
própria vida e que necessitam de comando. No entanto, é preciso,
em cada caso, averiguar se o escravo em questão é de fato um ser
menos dotado. Não se pode aceitar que alguém que não mereça ser
escravo o seja. Platão desenvolveu argumentos semelhantes a favor
da escravidão, Aristóteles, porém, é mais enfático em afirmar que
em certos casos o senhor deve libertar seu escravo.
Certo conforto material é condição para a vida reflexiva do
cidadão, no entanto a procura ilimitada da riqueza é um vício que
impede o alcance da verdadeira felicidade. Aliás, indivíduos bons
são os que menos necessitam de riquezas. Somente as atividades
voltadas ao atendimento de necessidades naturais de consumo são
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dignas de serem examinadas pela economia. Há uma distinção
importante entre economia (oikonomik) e crematística (chrema-
tistik). A ciência da administração doméstica preocupa-se com o
consumo e o aprovisionamento de riquezas na satisfação de
necessidades humanas, a crematística estuda tudo o que diz respei-
to à aquisição de riquezas, incluindo o ganho e o acúmulo de
dinheiro por empréstimo e comércio. A economia estuda a maneira
natural de aquisição de bens que consiste na apropriação pelo
homem de outros seres vivos por meio de agricultura, pecuária,
pesca e caça. A crematística estuda modos não naturais e, portanto,
condenáveis de adquirir bens via comércio e atividades financeiras.
Entretanto, nem sempre o comércio é condenável, aceitamo-lo
moralmente quando se trata de melhor atender às necessidades
humanas pela especialização do produtor e troca do excedente.
Nesse caso, a troca é um modo de atender a necessidades
diversificadas e não um meio de acumulação de dinheiro. Então
uma parte da crematística tem um caráter natural, uma vez que visa
ao atendimento de necessidades.
A intersecção dos dois conjuntos mostra que há uma área da
economia que é crematística e uma parte desta última que é objeto
da economia. Excetuando-se as condições em que comércio e
atividade financeira façam parte da economia, eles devem ser
proscritos da cidade. O uso do dinheiro para fazer trocas e retirar
disso o máximo lucro corrompe a alma humana e como tal é
condenável. Trata-se da crematística pura, o setor não econômico
da crematística. Na Política, Aristóteles explica que fazem parte
dela o comércio exterior (e, portanto, as atividades de exportação e
importação devem ficar a cargo de estrangeiros), o trabalho assala-
riado (“o fato de se vender o próprio trabalho por dinheiro”), a
formação de monopólio (“o açambarcamento de toda a quantidade
disponível de uma mercadoria a fim de a revender muito cara”) e o
empréstimo a juros, a atividade mais condenável de todas. A Figura
1.1 abaixo resume essas ideias esclarecendo as diferenças entre
economia e crematística.
Nas condições em que a troca seja necessária como parte da
economia, há de se observar a justiça no estabelecimento dos con-
tratos. Neste ponto o conceito ético de justiça, exposto em Política
e na obra Ética a Nicômaco, é aplicado nas trocas; é quando apare-
cem as reflexões aristotélicas sobre o valor dos bens que lançam as
bases do pensamento econômico que se farão presentes no
nascimento dessa ciência no século XVIII. Aristóteles concebe a
justiça em sociedade com base na noção de igualdade proporcional:
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dar mais àqueles que merecem mais. As trocas devem obedecer a
um critério de reciprocidade.
ECONOMIA CREMATÍSTICA
(Natural) (Artificial)
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refletir os diferentes graus de necessidade. Não há, de fato, muito
aprofundamento na questão. Importa assinalar que Aristóteles
lança e discute superficialmente as duas principais vertentes do
pensamento econômico na explicação do valor: a teoria do valor-
trabalho e a teoria do valor-subjetivo.
Em sua obra Política, Aristóteles discorre sobre a natureza da
moeda. Descreve como ela surgiu historicamente e diz que a moeda
veio a ser adotada por sua função de meio intermediário entre os
bens: instrumento de comparação de valores e facilitador das tro-
cas. O Filósofo aponta também para a função da moeda como
reserva de valor, antecipando uma noção importante na moderna
teoria monetária.
Outra questão monetária investigada por Aristóteles per-
gunta se o valor da moeda depende do valor do metal precioso
contido nela (metalismo) ou se aquele valor provém da autoridade
de um governo que a põe em circulação (nominalismo). Entre os
defensores da interpretação nominalista da moeda aparece Platão
nas Leis. Aristóteles, sem aderir a ela, também não se sente
inteiramente convencido da posição metalista que atribui valor
intrínseco à moeda. Para ele, tanto as propriedades físicas quanto
o costume do povo e a força da lei explicam a natureza da moeda.
Outro pensador com ideias econômicas destacadas na Anti-
guidade grega foi Xenofonte (430-354 a.C). Originário de uma
família rica e influente em Atenas, foi soldado, mercenário e
discípulo de Sócrates. Autor de inúmeros tratados práticos sobre
assuntos que vão desde equitação a tributação.
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conquista dos povos mediterrânicos fez parte da estratégia da
aristocracia romana que, por meio de pilhagem, comércio e
deportações em massa, logrou grande êxito em seu enrique-
cimento. O poder está nas mãos dos grandes proprietários que, já
em 312 a.C., dominam a Assembleia Centurial em detrimento de
outras classes sociais. O regime republicano mantém-se coeso
graças a concessões calculadas que vão sendo paulatinamente
feitas à plebe e ao combate encarniçado contra os escravos rebe-
lados sob a liderança de Sálvio, Atenião e Espártaco, em diferentes
momentos, até a derrota definitiva desses movimentos em 71 a.C.
O período áureo de Roma ocorre na fase imperial que se estabelece
em 27 a.C. com a tomada do poder por Augusto. As liberdades
políticas são abolidas e um Senado, sem poder, fornece os quadros
dirigentes de governadores de províncias e generais.
Nessa fase, uma intensa atividade econômica verifica-se
espalhada pelo império. A elite de Roma desenvolve hábitos sofisti-
cados e de toda parte afluem bens de consumo na satisfação de seus
desejos. Desenvolve-se o comércio entre regiões, também facilitado
pela adoção de moedas para intermediar as trocas. Instituições de
crédito similares ao cheque e notas promissórias eram conhecidas
e usadas. Há banqueiros profissionais e até um banco público para
supervisionar suas atividades. O governo tem de enfrentar proble-
mas econômicos típicos da era moderna como crises monetárias e
fiscais, falta de ouro, balança comercial deficitária e inflação. Os
imperadores intervêm de muitas formas na vida econômica:
fixando preços, tabelando os juros, protegendo devedores, inspe-
cionando a qualidade dos bens nos mercados, confiscando merca-
dorias defeituosas ou estragadas. Também atuam com medidas
contra a competição estrangeira, outras que regulam o uso das vias
públicas, que proíbem a exportação de metais preciosos e até
organizando as profissões em corporações obrigatórias.
Com tudo isto, era de se esperar que o pensamento econômico
tivesse grande desenvolvimento no período, mas tal fato não
ocorreu. Pelo contrário, há uma relativa estagnação entre os
romanos em relação às reflexões políticas e econômicas dos povos
gregos. Isso se explica pelo fato de a cultura romana ter desenvol-
vido um viés bastante pragmático: os romanos são homens de ação
e estão mais preocupados com ideias concretas sobre relações
econômicas, de aplicação imediata nos negócios do dia a dia, e
menos voltados à análise puramente teórica. A principal fonte de
ideias econômicas na Roma Antiga localiza-se no sistema de leis. Há
um pensamento econômico original e fértil entre os juristas
romanos. Na elaboração das leis com impacto na economia, tais
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juristas tendiam a dar menos importância a considerações éticas e
religiosas. A inclinação predominante era ver a esfera econômica
como dominada pela ação de forças impessoais. Tal fato representa
um afastamento em relação aos povos antigos que não separavam
a esfera econômica da dimensão ética e política; contudo, não se
pode exagerar a interpretação a ponto de se falar em teorias de
sistema econômico imbuído de racionalidade própria. A partir dos
romanos, porém, inicia-se um caminho em direção a essa perspec-
tiva, que somente se desenvolve no nascimento da economia como
ciência no século XVIII.
Contudo, não se pode negar que as concepções filosóficas e
teológicas também tiveram alguma influência no pensamento
econômico do período, mesmo levando-se em conta que pouca
filosofia original sobre política, Estado e vida social aparece entre
os romanos. Roma esteve sob a influência de duas doutrinas filosó-
ficas principais: o epicurismo e a filosofia estoica. Epicuro viveu em
fase decadente da civilização grega, entre 341 e 270 a.C., e suas
ideias refletem a percepção de um período em que os valores dessa
civilização estão sendo questionados. Assim, suas crenças desde-
nham do legado aristotélico; a filosofia política peripatética é posta
de lado e com ela a tese de que a sabedoria somente seria alcançada
com a ajuda da cidade. A ênfase recai agora no indivíduo isolada-
mente considerado em uma concepção materialista. Nela, a reali-
dade é composta de átomos materiais que se combinam mecani-
camente para formar os corpos sensíveis, como nos filósofos pré-
socráticos. Os deuses que existem são também corpos materiais, só
que inteiramente estranhos ao resto do mundo. O homem deve
abandonar o mundo da cidade e voltar-se para si mesmo, adotando
o comportamento hedonista de maximizar sua própria felicidade
ao longo da vida, pelo cultivo moderado do prazer carnal e da
amizade.6
O estoicismo foi a principal influência filosófica sobre as con-
cepções legais e o pensamento econômico de Roma. Ele conjuga
tendências idealistas e materialistas e representa, em relação ao
epicurismo, um afastamento menor de Aristóteles. A concepção
moral dos estoicos retém de Aristóteles a explicação teleológica do
mundo pelos fins que se persegue, em detrimento do modelo
mecânico de Epicuro. Aliado a isso, há uma dose de fatalismo que
apregoa a resignação diante do mundo, o que leva a uma indife-
25
O Direito Romano também tecia ideias sobre preço e valor
econômico dos bens. Havia um senso prático nessa questão. A
referida Lei das Doze Tábuas deixava os preços ao sabor do merca-
do. O preço era visto como resultante dos processos de regateio no
mercado, nos quais cada parte tendia a fazer seu ponto de vista
prevalecer. Os juristas romanos não analisam as forças que
determinam o preço final da transação, mas com o tempo surgem
discussões sobre o preço justo (verum pretium). A noção de preço
justo será depois retomada pelos padres da Idade Média e ela está
na base da ideia moderna de preço de equilíbrio. Um aprofunda-
mento na questão do valor aparece nos filósofos morais Cícero e
Sêneca. Eles reconhecem a importância do desejo humano e da
utilidade do bem na determinação do valor. Com o crescimento do
comércio e do crédito, os romanos passam cada vez mais a ver a
“utilidade” como o fundamento para o valor de troca dos bens.
Nos últimos dois séculos antes da queda do império romano, a
percepção da decadência estimula o desenvolvimento de ideias
econômicas e das iniciativas de intervenção do Estado nas ativi-
dades econômicas enquanto um paliativo para evitar o desastre
anunciado. Em 301 de nossa era, Diocleciano fixa nos contratos um
preço justo com base no custo tradicional de produção. Cresce, a
partir de então, as tentativas de limitar os contratos introduzindo
considerações éticas.
Embora encontremos no Direito Romano uma visão renovada
dos processos econômicos, menos embebida de considerações
éticas e religiosas, não se pode dizer que se tenha abandonado por
essa época o antigo preconceito e desdém contra o trabalho e a
atividade econômica. O filósofo Cícero, no século I, afirma que os
homens ocupados em trabalhos manuais são de fato inferiores e
possuem uma natureza servil. Ele também condena a atividade
crematística que visa tão somente ao lucro e ao empréstimo a juros.
Diz que “quem empresta dinheiro assassina um homem”. Cícero
posiciona-se contra o comércio e a contratação de mão de obra
assalariada. Em geral, os filósofos morais de Roma condenam os
luxos e os vícios da época, a sede de dinheiro e de riqueza, e pedem
moderação e comedimento na vida econômica. Fazem a apologia da
vida simples dedicada à agricultura, como nos tempos remotos, e
apregoam uma volta à natureza.
Entre os romanos, entretanto, constata-se algum progresso na
mentalidade antieconômica. Há a defesa da propriedade que é tida
como legítima se adquirida conforme ao direito. Mesmo a riqueza
não é tão execrada como antes. Sêneca diz que a riqueza fornece ao
26
homem sábio uma matéria para ele desenvolver suas qualidades,
desde que ganha de modo honesto. Os mercados e o processo de
formação de preços são mais bem compreendidos. Os devedores
são protegidos por lei e estão salvos contra a escravidão. Na
ausência de fraude, o comprador não pode processar o vendedor.
Há em Cícero argumentos sobre o papel da divisão do trabalho. A
escravidão, embora generalizada no império romano e embora se
encontrem filosóficos que a justifique, é condenada com base em
argumentos econômicos nos escritos que tratam dos princípios
práticos das propriedades agrícolas, dos autores romanos Varrão,
Catão e Columella.
Os romanos não acrescentaram muito ao pensamento
econômico, não desenvolveram teoria nessa disciplina. No entanto,
o estudo de suas doutrinas jurídicas e filosóficas é importante para
uma compreensão da evolução do pensamento econômico. Não se
pode negar que houve um avanço na interpretação econômica
entre os romanos e talvez falte na literatura especializada em
história das ideias um maior aprofundamento no período em
questão.
27
Questões
28
13. Quais as principais diferenças entre a concepção filosófica de
Platão e de Aristóteles?
14. Qual a diferença entre crematística e economia?
15. No que consiste a noção de causalidade final em Aristóteles?
16. O que Platão e Aristóteles escreveram a respeito dos escra-
vos? Havia uma condenação moral à escravidão?
17. O que deveria regular as trocas de bens para Aristóteles?
18. No Império Romano, até que ponto as concepções éticas sobre
a riqueza e a propriedade afetaram a legislação que regulava a
vida comercial do Império?
19. Como era vista a escravidão pelos autores romanos que
escreviam sobre princípios para a agricultura? Você concorda
que a escravidão coloca um limite à expansão econômica e à
inovação tecnológica?
20. Comente os principais pontos da filosofia de Epicuro.
21. Como a ideia estoicista de lei natural afetou o direito romano?
22. É correto afirmar que os romanos mantêm o antigo preconcei-
to contra a atividade econômica? O que há de novo entre eles
nesse aspecto?
29
Leitura Adicional
Literatura Primária
Literatura Secundária
30
2
A Evolução das Ideias
Econômicas
na Idade Média
31
teutônicos que, embora também reconheçam a individualidade do
cidadão, conferem precedência aos hábitos da comunidade. A
nítida divisão entre direito público e privado, como nos romanos,
não se observa e os direitos absolutos de propriedade são substi-
tuídos por uma noção de propriedade relativa e mutável de acordo
com interesses comunitários. Observa-se uma gradação de diferen-
tes tipos de propriedade. Na atividade agrícola, o arado e outros
instrumentos pertenciam aos indivíduos, mas a posse da terra era
limitada pelo tipo e pelo uso que se fazia dela; iam de terras
comunais, sem proprietários, a glebas particulares. Não somente a
posse da terra, mas também a época do plantio e a técnica do
trabalho agrícola eram ditadas pelos costumes da vila. Em qualquer
setor da vida econômica os planos da comunidade vinham em
primeiro.
A ênfase das leis romanas nos direitos individuais aparece,
entre os germânicos, com nova roupagem, na qual mais impor-
tante que garantir o acesso à propriedade é a defesa de direitos e
obrigações pessoais estabelecidos pela natureza da vinculação à
terra. O sentimento de fraternidade germânico responde por um
tipo de sociedade rural com elevado nível de coesão garantido pelo
paternalismo e pelo sentido de obrigação para com o superior, que
vincula fortemente, de cima a baixo, os estamentos sociais. As
tradições germânicas mostram-se compatíveis com os preceitos do
cristianismo e a proximidade entre eles facilitara a difusão da
religião cristã e a construção de instituições que iriam perdurar por
mais de um milênio.
No período final do Império Romano floresce a doutrina do
cristianismo em sua fase primitiva. Os evangelhos do Novo
Testamento difundem uma ética herdada da tradição judaica.
Cristo perpetuou e difundiu tal tradição ao pregar certa indife-
rença em relação à sociedade e defender o caminho da salvação da
alma pela caridade e combate ao egoísmo dos homens ricos. A
ganância e o individualismo de uma sociedade atomizada são
substituídos pela visão idílica de unidade social por meio da
correção ética de seus membros. Cristo realça a dignidade funda-
mental do homem ao pregar a igualdade de todos perante Deus.
Isso certamente trouxe implicações em termos de uma nova visão
dos processos econômicos em que a escravidão é condenada e o
trabalho passa a ser visto como uma atividade digna. O apóstolo
Paulo fazia a exaltação ao trabalho, estabelecendo entre seu grupo
diminuto de cristãos o princípio da obrigação de trabalhar e da
repartição dos bens pela contribuição dada. O acúmulo de riquezas
é reprovado e o cristão ideal, reforçado em muitas passagens do
32
evangelho, principalmente em Lucas, deve procurar repartir seus
bens.
Seguindo os preceitos do Evangelho, os primeiros padres da
Igreja Católica defendem o regime comunista de sociedade. No
século III, Cipriano, bispo de Cartago, diz que é dever dos cristãos
partilhar os bens. No século seguinte, Basílio estende o comunismo
interpretando-o não apenas como partilha, mas sendo também a
existência de uma vida em comum ou união completa entre todos
pela fraternidade cristã, o que significa comunhão de sentimentos
e de interesses, dentro de uma comunidade inteiramente coesa
voltada ao desenvolvimento espiritual de seus membros. Há
também os que encontram um argumento econômico a favor do
comunismo cristão. O arcebispo de Constantinopla, João Crisósto-
mo, no fim do século IV, acredita que a riqueza social se desenvolve
no regime comunista impulsionada pela concórdia e união das
vontades. Destaca-se então o aparecimento, por essa época, de
argumentos favoráveis à riqueza, embora Crisóstomo fale em
enriquecimento com comedimento e frugalidade (mais a riqueza
da sociedade que a individual). A ânsia de acumular riquezas
permanece condenável, assim como a ganância, a avareza, o
egoísmo, o amor às coisas materiais e outros “pecados” econômi-
cos. Entretanto, a atitude dos padres da igreja primitiva com
relação à riqueza começa a mudar. Na Bíblia, os outros evangelhos
não condenam a riqueza enquanto tal e, de fato, Lucas é dentre os
evangelistas o que mais enfaticamente prega a igualdade entre os
homens. Valendo-se disso, e preocupados com os mais ricos e
poderosos entre os adeptos da igreja, que depositavam fartamente
o dízimo, os padres da época buscam argumentos para mostrar que
os ricos não estavam automaticamente condenados e os pobres não
haveriam de conseguir a salvação apenas pela miséria material.
Clemente de Alexandria escreve, em A salvação do homem
rico, como este pode adentrar o reino do céu, se for honrado e tiver
consciência de que sua fortuna é uma dádiva de Deus. Como tal, ela
deve ser usada na caridade, para promover o bem-estar dos
semelhantes. A riqueza não é condenável em si mesma, o impor-
tante é o uso que se faz dela. Ambrósio (339-397) também diz que
a riqueza deve ser corretamente usada. Os ricos têm um conjunto
de obrigações e devem agir de modo paternalista em relação aos
pobres.
Os cristãos acreditavam que, à medida que os convertidos à
nova religião praticassem a caridade e observassem a responsabi-
lidade de uns para com os outros, surgiria uma nova sociedade, na
33
qual se viveria em paz e felicidade com a plena comunidade dos
bens. O sonho utópico dos cristãos era reforçado pelas teses
milenaristas da Bíblia que falavam em um mundo melhor, como no
Apocalipse de João no qual se previa, em mil anos, a queda do
Império Romano e o nascimento da sociedade ideal. Nem todos os
padres, contudo, renderam-se ao milenarismo. Agostinho (354-
430), em A cidade de Deus enfatiza a regeneração das almas no
lugar das cidades. A indiferença de Cristo para com a sociedade
terrena é reforçada e transformada em uma doutrina que prega
abertamente o desinteresse a respeito da vida econômica e política.
Toda a organização social deve estar voltada ao plano espiritual. Ao
Estado cumpre a função principal de ajudar a Igreja na salvação das
almas e a própria autoridade do rei é tão somente um instrumento
a serviço da religião. A ênfase na existência do outro mundo,
entretanto, não impediu Agostinho de tecer comentários sobre a
organização da sociedade. Ele critica as instituições sociais, ao
mesmo tempo em que defende o respeito a elas. Destoando da
condenação cristã à escravidão e fazendo concessões aos romanos,
ele encontra argumentos que a justifique. A escravidão não é uma
instituição natural, pois Deus criou os homens para dominarem os
animais e não os outros homens. Entretanto, os escravos merecem
essa condição porque Deus desejou que fossem vencidos na guerra:
“Toda vitória, mesmo a que obtêm os maus, é um efeito dos
justos juízos de Deus, que humilha com ela os vencidos, quer
os queira emendar, quer os queira punir.” (Apud H. Denis,
História do pensamento econômico)
Essa era a situação do pensamento social quando na Europa
inicia-se a Idade Média.
34
1200 e corresponde também ao apogeu da civilização islâmica.
Enquanto a Europa mergulha na Idade das Trevas, os povos árabes
conquistam grande império, que em 730 incorpora desde a Espa-
nha e o sudoeste da França, passando pelo norte da África e o
Oriente Médio, até as longínquas fronteiras da Índia e da China.
O Império Islâmico destaca-se por seu refinado padrão de vida
e por sua cultura na qual se valorizam a literatura, a ciência, a
medicina e a filosofia. Sabemos que os árabes travaram contato
com diversos povos, conheceram a sabedoria hindu, preservaram e
desenvolveram o conhecimento grego em matemática, física,
química e astronomia. É possível que eles tenham tido um papel no
desenvolvimento do pensamento econômico, porém pouco se sabe
a esse respeito. Há, de fato, carência de estudo nesse assunto. A
relevância dos árabes no pensamento econômico começa com a
grande contribuição que foi o sistema de números inventado por
eles. Os números arábicos (indo-arábicos) facilitaram as tarefas
aritméticas e certamente impulsionaram os processos de
contabilização econômica e o desenvolvimento de uma primitiva
econometria. No entanto, não se conhece uma teoria econômica
árabe, embora eles soubessem das reflexões de Aristóteles sobre o
valor dos bens. O mais importante para nossos propósitos é que os
árabes preservaram e traduziram os clássicos remanescentes da
filosofia grega. Quando em 1085 os europeus retomam Toledo, na
Espanha, e para lá afluem acadêmicos em busca dos clássicos
antigos, a Europa desperta de seu sono e recupera novamente o
gosto pela filosofia; o que viria a ter uma importância muito grande
no desenvolvimento do pensamento econômico pelos padres
escolásticos nos próximos quatro séculos que se seguiram.
A segunda etapa da Idade Média, tal como estamos caracte-
rizando, vai de 1200 a 1500. O grande divisor de águas foi o
renascimento filosófico impulsionado pelo resgate da filosofia
grega. Tomás de Aquino (1225-1274) destaca-se então como o
pensador mais influente do período. É nesse segundo período
medieval que a análise econômica terá um significativo avanço.
Antes de discuti-lo, vejamos algo mais da etapa anterior. No feuda-
lismo constata-se a divisão do poder político. Não há um Estado
centralizador forte e sim um imenso conjunto de pequenos feudos
cuja base do poder está na propriedade da terra. Os proprietários
são os senhores que estão inseridos numa malha de relações
políticas com outros senhores. No topo dela está o rei, descendente
de antigo chefe da tribo primitiva que invadiu a Europa, e o poder
da Igreja. Os senhores possuem direitos e obrigações entre eles e
cada qual cuida de seus camponeses, homens ligados à terra e
35
inteiramente submetidos aos desígnios daqueles. Não podem ser
escravizados ou expulsos da terra. Os camponeses cumprem uma
série de obrigações, como transferir uma parte da produção
agrícola, pagar impostos e trabalhar alguns dias da semana nas
terras de uso de seu senhor. Em troca, os senhores dão-lhes prote-
ção, resolvem as disputas jurídicas entre eles, oficializam casa-
mentos e garantem alguns benefícios paternalistas. Há, portanto,
um sistema de obrigações e serviços mútuos regulado pelos costu-
mes do feudo, já que não existem, como na época do Império
Romano, leis escritas.
A produção artesanal regrediu por essa época. Predomina
então a atividade agrícola em pequena escala, usando-se técnicas
agrícolas primitivas. A atividade comercial é, de início, bastante
limitada, embora ela venha a crescer a partir do século XI. A base
da organização não está no contrato, mas nas relações de status. A
palavra empenhada, a promessa verbal e a defesa da honra valem
mais do que a lei escrita.
A sociedade medieval espelhou a hierarquia social de Platão
em A república. Na base, uma classe de trabalhadores camponeses,
acima dela os senhores seculares, com sua rede de lealdades
transferíveis de um senhor a outro, e no topo os senhores ecle-
siásticos: padres e bispos que deviam lealdade permanente à Igreja
de Roma. Como no modelo social platônico, a classe superior era a
repositória e guardiã do conhecimento. Seus representantes con-
templavam o mundo natural de olho no plano espiritual e desen-
volviam ideias teológicas imbricadas em alguma filosofia. A organi-
zação da vida social refletia as crenças religiosas e, como o ensino
religioso era monopólio da Igreja, existia de fato certa centralização
de poder em Roma, entretanto não nos moldes de um império.
Além de canalizar para si o poder e a riqueza, a principal
preocupação da Igreja era fazer prevalecer os preceitos éticos
cristãos. A ética cristã ditava a organização da vida medieval e ela
servira como cimento ideológico capaz de manter coesa a Europa
Medieval e proteger seus governantes contra a insurreição da
maioria de camponeses pobres. A ética paternalista, já que difundia
o comportamento altruístico entre os ricos, contribuía para
acalmar as tensões sociais.
36
O AVANÇO TECNOLÓGICO, O APARECIMENTO DAS CIDADES E O
DESENVOLVIMENTO DO COMÉRCIO E DA ATIVIDADE FINANCEIRA
A vida econômica na sociedade medieval era sustentada pela
atividade agrícola. Os feudos eram autossuficientes e quase nunca
produziam um excedente exportável. A partir do século XI, mudan-
ças tecnológicas aumentaram significativamente a produtividade
na agricultura e, com isso, pôde-se gerar crescentemente um
excesso de produção destinado ao comércio. A atividade comercial
dá origem a uma nova classe de homens enriquecidos sem vínculos
fortes com a antiga ordem social. São os portadores do elemento
que iria dissolver lentamente as relações feudais: a substituição dos
vínculos medievais que existiam entre as pessoas, legitimados pela
fé, por relações de mercado. Contudo, não foi uma transição linear;
muitas guerras, revoltas e retrocessos ocorreriam até que o capita-
lismo comercial substituísse o feudalismo nos países mais adianta-
dos da Europa.
O início das transformações sociais ocorre com as inovações
tecnológicas que ocorreram no século XI. Verifica-se primeira-
mente uma mudança no sistema de rodízio das culturas (Boxe 2.1).
A repercussão dessa prática na produtividade agrícola representou
um aumento de 50% no rendimento das lavouras. O aumento na
produção de aveias e outras forragens permitiu a expansão da
pecuária, pois mais animais podiam ser alimentados. Soma-se a
isso a utilização do cavalo em substituição ao boi, que se generaliza
tanto na aragem da terra como no transporte. A maior agilidade do
cavalo impulsiona a produtividade agrícola. Outras tecnologias
também se desenvolvem. Os arados de osso são substituídos por
equipamentos de madeira e depois se passa a reforçá-los com
pontas metálicas pelo desenvolvimento da metalurgia. Novos tipos
de adubos são inventados aproveitando-se os excrementos e os
restos orgânicos dos animais. A construção de carroças fora melho-
rando gradualmente até se chegar, no século XIII, aos modelos de
quatro rodas com pivô no eixo dianteiro. A primeira revolução
agrícola corresponde ao período de intensas inovações tecnológi-
cas na agricultura europeia nos séculos XI a XIII.
As consequências da revolução agrícola foram dramáticas. O
excedente de produção permite a expansão demográfica na Europa
cuja população cresce cerca de três vezes no período, gerando-se
assim um excedente de mão de obra. O enriquecimento de parte da
população possibilita mercado consumidor para as manufaturas,
cuja produção estabelece-se em núcleos urbanos em torno dos
feudos ou que se formaram nas feiras ao longo de rotas comerciais
37
pelo interior do continente. Tais aglomerações eram os burgos que
viviam à mercê dos senhores feudais. Em breve, alguns desses
centros transformam-se em cidades que pouco a pouco foram se
livrando da tutela dos senhores. O fluxo de manufaturas deu um
impulso adicional ao comércio que vinha desenvolvendo-se para os
produtos agropecuários. O aperfeiçoamento das carroças, a melho-
ria das estradas e a navegação costeira e dos rios permitiram o
comércio de longa distância. No século XI, também contribuiu para
impulsionar o comércio o fato político das Cruzadas: leva de euro-
peus que se deslocavam a pé até a Terra Santa com o fito de
expulsar dela os mulçumanos.
O RENASCIMENTO DA FILOSOFIA E
A ANÁLISE ECONÔMICA ESCOLÁSTICA
O pensamento econômico na Idade Média, em seu período
avançado a partir do século XIII, será desenvolvido no interior dos
mosteiros onde padres cultos irão explorar e estender as reflexões
econômicas preexistentes inspirando-se nas traduções das obras de
Aristóteles. A mescla da filosofia peripatética com o pensamento
bíblico deu origem à escola escolástica que contribuiu significa-
tivamente para o avanço da reflexão econômica à época. Embora
ainda envoltos com falácias e preconceitos antieconômicos, os
escolásticos alcançam melhor entendimento dos mercados e dos
fenômenos relacionados de preço, valor e juro. Nas questões
econômicas, como de fato em todos os aspectos da cultura e da
teologia, sobressai-se o nome de Tomás de Aquino, o mais impor-
tante pensador escolástico do século XIII, que marcaria com suas
ideias todo o período restante da Idade Média. Aquino pode ser visto
como um divisor de águas entre os dois períodos medievais que
estamos considerando. A sombra de sua autoridade em filosofia e
religião ainda hoje se faz presente. Interessa-nos diretamente a
geração de grandes mestres escolásticos entre os séculos XIII e XIV
que no bojo de seus pensamentos disseram algo sobre a economia.
Entre eles destacamos Alberto Magno, Henry de Friemar, John Duns
Scotus, Jean Buridan e Geraldo Odonis.
A estratégia de exposição de ideias dos escolásticos resulta em
construção teórica edificada por um método peculiar. Dela faziam
parte argumentos estruturados em cadeia dedutiva de raciocínios que
procuram refutar uma posição contrária, inicialmente estabelecida,
mais pela lógica, pela fé e com base na autoridade, do que buscando
sustentação na experiência. Os escolásticos preocupam-se com a
40
questão moral e ao tratarem de economia irão interessar-se pelo
aspecto da justiça, mais especificamente com a justiça das trocas ou
justiça comutativa. Como vimos, essa era também a preocupação de
Aristóteles. De fato, os padres tomam dele o conceito de reciprocidade
nas trocas como ponto de partida para se aprofundar, esclarecendo
certos pontos e corrigindo ambiguidades.
O primeiro aspecto a ser ressaltado da reflexão econômica dos
padres medievais é a distinção entre “ordem natural” e “ordem
econômica”. Isso já se fazia presente séculos antes em Agostinho. Foi
dito, no capítulo anterior, que Aristóteles não separa a economia da
ordem natural. Em analogia, Agostinho acredita que moralmente a
economia não se distingue da ordem natural. Aceita, entretanto, que
por vezes os homens são levados a valorizar as coisas e ordená-las em
importância não pelo uso do critério legítimo das necessidades
naturais, mas pela consideração do prazer gerado pela posse e
usufruto delas. Na esfera natural, os bens são ordenados pela
importância que eles possuem no atendimento de necessidades
fisiológicas naturais, enquanto no âmbito das trocas econômicas
prevalece o critério da busca do prazer sensual que não tem direta-
mente uma base natural. Há assim a distinção entre necessidade e
prazer em Agostinho, que terá uma importância no desenvolvimento
do pensamento econômico no século XIII. Agostinho fornece uma
interpretação subjetivista do valor econômico, avaliado com base nas
necessidades humanas.
A separação entre ordem natural e econômica é base de toda
reflexão medieval sobre o valor, e a maneira como determinado
pensador concebe tal distinção matiza as posições particulares de
cada qual.8 Agostinho separa as duas ordens associando-as respec-
tivamente ao atendimento de necessidades naturais ou, como algo
distinto, de prazer sensual. O grande latinista Alberto Magno
(1206-1280), professor de Tomás de Aquino, considera que as
necessidades humanas diante da escassez dos bens, a que chama de
indigentia, sejam a medida do valor na ordem natural. Entretanto,
reconhecendo a separação do econômico em relação ao natural, ele
considera que na ordem econômica as coisas são avaliadas de outra
maneira. Os bens são vendidos em relação ao trabalho (em latim
opus) desprendido em sua obtenção e, sendo assim, o valor de troca
deve corresponder ao custo de produção (em trabalho e em outras
despesas). Se o preço de mercado de um bem não cobre seus custos
42
de toda análise do valor no Ocidente, deram origem a diferentes
tradições.9
A introdução por Aquino do elemento “necessidade” na
fórmula dos preços foi um primeiro passo para o desenvolvimento
de uma análise da demanda. Entretanto, ele ainda estava longe de
compreender o mecanismo de mercado. Aquino vê a economia
como submetida a fatos morais, porém já percebia que as forças de
mercado não poderiam ser analisadas exclusivamente pela
consideração da noção de justiça. Começa a aparecer por essa épo-
ca consciência crescente da autonomia da esfera econômica. Os
padres escolásticos, que sucederam e deram sequência ao tomis-
mo, irão trabalhar as considerações de Aquino até alcançarem um
melhor entendimento da demanda efetiva e do papel dos desejos
humanos.
Aquino oscila entre a compreensão da vida econômica como
sistema e uma posição moralista, conservadora e preconceituosa
da economia. Embora tenda a acreditar que o preço de mercado
seja resultado objetivo de forças impessoais, ele despreza o espírito
comercial e acredita que o Estado deva controlar a atividade do
comércio pela imposição de sanções. A base normativa para o
estabelecimento delas era o conceito de preço justo (Boxe 2.2).
Escolásticos subsequentes irão interpretar o preço de equilíbrio no
modelo tomista como resultante de um designo divino e
equivalente ao preço justo.
As considerações econômicas tomistas não se limitam à ques-
tão teórica do valor. Aquino teceu inúmeros comentários éticos
sobre a vida em sociedade. Todas as relações econômicas e sociais,
para ele, emanam da providência divina. A divisão social de traba-
lho e de papéis individuais são necessárias e, para tanto, tornam-se
indispensáveis as distinções socioeconômicas, que todos os ho-
mens devem aceitar. Os que são agraciados pela riqueza devem
usá-la a fim de prestar serviços à sociedade. A riqueza e a insti-
tuição da propriedade privada são justificadas como uma condição
para a assistência aos pobres. O homem rico que não presta
serviços à sociedade deve ser nivelado ao ladrão comum. Para
inibir a acumulação desenfreada de riquezas, a usura deve ser
proibida, pois o juro é o ganho à custa dos semelhantes. Assim,
Aquino mistura uma ética conservadora e antieconômica com uma
Aristóteles
Reciprocidade
Tomás de Aquino
Alberto Magno Indigentia e preço justo
Trabalho e despesas
Henry de Friemar
John Duns Scotus Demanda agregada e
Crítica à teoria do escassez
preço justo
Jean Buridan
Demanda efetiva,
utilidade e mercado
Geraldo Odonis
Raritas e habilidades
do trabalho
47
Questões
48
16. Cite e comente as críticas de Scotus ao conceito de preço justo.
17. Qual a crítica de Scotus ao uso do desejo humano como fun-
damento do valor?
18. Comente as inovações ao conceito de indigentia feitas por
Henry de Friemar.
19. O que determina os preços para Buridan?
20. Descreva como Geraldo Odonis conjuga as influências do
trabalho, do desejo e da escassez na determinação do valor.
Por que ele é visto como um modelo de síntese entre uma
teoria do valor-trabalho e a teoria do valor com base na de-
manda?
49
Leitura Adicional
Literatura Primária
Literatura Secundária
50
3
Mercantilismo e
Cameralismo:
a expressão da economia
nos séculos XVI e XVII
53
os recursos materiais da sociedade a favor do enriquecimento e
bem-estar do Estado-nação, ou seja, como torná-lo poderoso políti-
co e economicamente.
A riqueza do Estado não era vista como a somatória das
riquezas individuais de cada cidadão. Pelo contrário, para o homem
comum era importante tão somente que ele se mantenha emprega-
do e atuante. Deveria assim sobreviver, porém sem muito conforto,
pois isto destruiria seu ímpeto de trabalho. Quase todos os autores
mercantilistas defendem os baixos salários, apenas na margem de
subsistência. Dada a suposta baixa condição moral das classes
trabalhadoras, a pobreza é útil, pois torna os trabalhadores indus-
triosos. Assim, as privações da pobreza têm um caráter terapêutico.
Se o trabalhador tivesse a oportunidade de ganhar mais, ele
provavelmente ficaria na ociosidade e na preguiça. O aumento de
salários conduziria à prática de excessos, de vícios, de consumo de
drogas, enfim de tudo o que leva à ruína moral. Assim, a assimetria
na distribuição de renda é desejável para o fortalecimento do reino
e uma distinção deve ser feita entre o enriquecimento da nação e o
da maioria dos indivíduos que a compõe. Somente o rei e a minoria
de comerciantes e apadrinhados estariam moralmente prepara-
dos para uma vida de riquezas e, no fundo, as políticas mercan-
tilistas só favoreciam a esses estamentos sociais.
A principal preocupação econômica do mercantilismo era a
busca do pleno emprego.10 A nação poderosa deveria usar todo o
seu território para atividades produtivas em agricultura, minera-
ção e manufatura. Os trabalhadores devem ser encorajados a man-
terem-se empregados. O desemprego era visto como resultado da
indolência do trabalhador e era tratado como um problema social.
Assim, os pobres desempregados deveriam ser, em tese, ampara-
dos pela sociedade. O problema do desemprego, da mendicância e
da marginalidade tornou-se particularmente importante na época
do mercantilismo. As recentes transformações pela qual passaram
as economias da Europa Ocidental não favoreceram o emprego. Um
primeiro fato que mudou a estrutura produtiva da época foi o
nascimento, no século XVI, da indústria manufatureira com o
sistema putting-out em substituição ao antigo artesanato medieval.
As utilizações de novas tecnologias, muitas delas importadas
da China, como o astrolábio e a bússola, propiciaram as grandes
navegações a partir do final do século XV. Com ela e valendo-se da
descoberta da pólvora, nações distantes foram pilhadas, povos
57
balança comercial favorável como meio de manter a economia a
pleno emprego. Para tanto, uma série de medidas são necessárias.
Todas as importações devem ser desencorajadas, principalmente a
de bens que já são oferecidos pela produção doméstica. Uma
exceção contempla as importações de matérias-primas indispen-
sáveis não encontradas no reino; contudo, nesse caso deve-se
preferir a troca por mercadorias. Por outro lado, é importante
estimular as exportações por todos os meios. Incluindo-se aí
subsídios, restituição de impostos, monopólios comerciais nas
colônias etc. A exportação de matérias-primas é desestimulada,
porque todas devem ser usadas na manufatura doméstica, já que os
bens finais valem mais do que os bens intermediários. A balança
comercial favorável asseguraria o fluxo positivo de ouro e prata
sem a necessidade de restringir diretamente a saída de metais. Os
mercantilistas sabiam que o importante era o fluxo resultante no
longo prazo e que uma eventual saída de ouro hoje poderia, na
verdade, estar assegurando uma entrada líquida, se levado em
conta o tipo de compra feita, por exemplo, a aquisição de matéria-
prima para a manufatura de um bem exportável.
A política da balança comercial favorável também levaria a
maximizar as reservas metálicas, mas havia outros interesses em
jogo. Muitos dos que defendiam uma ou outra política interven-
cionista estavam voltados a favorecer os lucros de grupos de
comerciantes, entretanto, difundiam mensagens mercantilistas
falando em nome do bem da nação. Não sem motivos, os escritores
mercantilistas seriam depois estigmatizados como cínicos defen-
sores de escusos interesses particulares. É verdade que as políticas
mercantilistas tendiam a favorecer um ou outro grupo econômico
em particular, porém, em uma época de muita hostilidade entre as
nações e de luta contra a volta do antigo sistema feudal, seus
preceitos econômicos mostravam-se adequados para o fortaleci-
mento do poderio do reino. Havia, de fato, elementos racionais na
análise mercantilista, que foram adequados à época para os pro-
pósitos visados. Além disso, há de se considerar também que
autores mercantilistas do século XVII em muito contribuíram para
o estabelecimento de certas técnicas de interpretação econômica.
A preocupação com o saldo externo positivo entre exportações e
importações levou à formulação, pela primeira vez, de noções
contábeis sobre o que chamamos modernamente de “balança de
pagamentos”. É o que encontramos no trabalho de Edward Missel-
den (1608-1654), em que se identifica a mecânica do balanço
global de transações do país com o exterior. Misselden assinala
como as transações do comércio internacional afetam a política
58
monetária. Para tanto, ele concebe um balanço de transações
multilaterais com cinco contas, tal como no Boxe 3.1:
1. Balança Comercial
a. Mercadorias visíveis
b. Itens invisíveis
2. Conta de Capital
a. Capital de curto prazo*
b. Capital de longo prazo
3. Transferências unilaterais
4. Ouro e prata*
5. Erros e omissões
59
invisíveis (1.b) como pagamento de transporte e fretes, o que
reforçava a crença na importância do Ato de Navegação que havia
criado o monopólio nacional desses serviços e, dessa forma, pro-
piciado ganhos na conta de invisíveis. Embora a exposição de
Misselden tenha problemas do ponto de vista da moderna
explicação do Balanço de Pagamentos, seu mérito maior foi o de
identificar que os fluxos de entrada e saída de metais preciosos são
movimentos que compensam as outras contas e refletem resul-
tados de transações comerciais autônomas e dos fluxos financeiros.
A boa compreensão do Balanço de Pagamentos dera susten-
tação às propostas mercantilistas de uma longa série de restrições
que afetavam o montante e a composição do comércio inter-
nacional, de modo a assegurar um superávit constante na conta dos
registros de metais preciosos. A importância do acúmulo de ouro e
prata, como vimos, era estimular a oferta doméstica de bens e
serviços e, com isso, o enriquecimento do reino.
As teses monetárias do mercantilismo foram-se desen-
volvendo à medida que surgiam problemas inflacionários trazidos
pelo grande fluxo de ouro e prata que inundou a Europa vindo das
colônias americanas. De início, os mercantilistas achavam que a
causa da inflação era a adulteração das moedas pelo poder público
que sistematicamente reduzia a quantidade de metal contida nelas.
Com isso, as moedas de maior teor de metais preciosos seriam
expulsas do mercado e substituídas pela moeda má, de acordo com
a lei formulada pelo inglês Thomas Gresham (1519-1579), e os
preços dos bens, inflacionados. Em 1568, Jean Bodin combate tal
ideia, reconhecendo que é, de fato, o afluxo de metais preciosos que
explica a alta dos preços. Bodin formula a lei de que o poder de
compra das moedas de ouro e prata é inversamente proporcional à
quantidade de ouro e prata existente no país, mas não identifica
claramente um mecanismo de conexão entre moeda e preços.
Embora a tese de Bodin tenha sido admitida por muitos no século
XVII, isso não impedirá que se mantenha a noção mercantilista
segundo a qual a riqueza de uma nação está ligada à abundância
interna de moedas.
A interpretação de como o lado monetário da economia
poderia afetar a produção real era um tanto tosca entre os mer-
cantilistas, e isso favorecia a ilusão monetária de se associar rique-
za ao dinheiro em circulação. A despeito dos avanços fornecidos
pelos estudos de Bodin, ainda faltava, entre eles, uma teoria mone-
tária, tema de que alguns pensadores ocupar-se-iam no século
XVIII. Somente nessa época surge uma compreensão teórica clara
60
de que não seria possível atrair indefinidamente meios monetários
para o reino, uma vez que o influxo constante de moeda iria
inflacionar os preços domésticos e com isso reduzir a competi-
tividade internacional do país. A identificação de um mecanismo
interligando moeda e preços deve-se a David Hume (1711-1776) e,
antes dele, a John Locke (1632-1704) em pleno século XVII. Tais
autores podem ser pensados como os primeiros precursores do
que hoje se conhece como teoria quantitativa da moeda. Segundo
essa teoria, a moeda afeta diretamente os preços, porém tal efeito
é atenuado se houver variações na demanda monetária, de modo
que as pessoas retenham moeda por mais tempo, ou em outras
palavras, diminuam a velocidade de giro da moeda. Outro
mecanismo a refrear a relação direta entre oferta monetária e
inflação é o crescimento econômico. Ele permite acomodar expan-
sões monetárias sem pressão nos preços. Ora, as políticas mercan-
tilistas perseguiam simultaneamente os dois objetivos. O aumento
de circulação de moeda era estimulado ao se proibir retenções do
metal e o crescimento econômico era seu alvo maior. Nesse tocante,
a política metalista não era irracional, entretanto inexistia uma
base teórica na interpretação do crescimento econômico. A moeda,
por si só, não ocasiona o crescimento econômico. Nas condições da
época, ela seria no máximo uma condição necessária, mas não
suficiente. De fato, o crescimento econômico no período é explicado
pelas transformações tecnológicas e na organização da produção,
bem como pelo impulso ao comércio mundial. Somente no século
XVIII, os fisiocratas, e depois Adam Smith, viriam a formular teorias
mais arrojadas na explicação do crescimento econômico.
Para os mercantilistas, a moeda estimula o crescimento eco-
nômico por dois motivos:
1. Fornece o serviço de facilitar as trocas, permitindo ampliar
o comércio e, com ele, o escoamento da produção;
2. A abundância monetária reduz as taxas de juros propor-
cionando a expansão dos empréstimos bancários e esti-
mulando a produção e o comércio.
Os dois argumentos da explicação são falaciosos. No primeiro
caso, basta observar que os benefícios da moeda para as trocas
dependem da estabilidade dos preços que pode ser ameaçada com
excesso de oferta monetária. O segundo argumento omite o fato de
as taxas de juros dependerem também do comportamento da
demanda monetária que, por sua vez, reflete as expectativas de
rentabilidade interna dos investimentos. É verdade que essa
consideração é encontrada na obra de William Petty, o autor mer-
61
cantilista que mais contribui para uma melhor compreensão das
taxas de juros. No entanto, a análise mais arguta do pensamento de
Petty não se faz presente na maioria dos escritores da época. De
qualquer modo, reconhecemos que os mercantilistas avançam em
relação ao pensamento medieval na compreensão do juro. Eles não
tecem as antigas considerações morais contra os juros e lançam
mão de argumentos mais sofisticados condenando a usura. Nesse
tocante, destaca-se a análise de Thomas Culpeper (1635-1689), no-
meado governador colonial da Virgínia, Estados Unidos, que no
Manifesto contra a usura explica que os negócios economicamente
viáveis devem possuir uma rentabilidade interna acima dos juros
cobrados pelos bancos. Sendo assim, juros elevados inviabilizam
muitos negócios, prejudicando a produção doméstica. Ele também
estabelece a relação entre juros e preços dos ativos físicos,
mostrando que a baixa dos juros aumenta o valor das terras ao
estimular a produção agrícola, bem como dos demais ativos da
economia. Josiah Child (1630-1699), mercantilista inglês, em 1668
atribui a causa da prosperidade da Inglaterra, no período, ao
tabelamento legal dos juros que desceu a apenas 6% ao ano, e diz
que isso só foi possível graças ao afluxo de metais. Há algo de
verdadeiro nessa interpretação, contudo, sabemos que a relação
entre juro e crescimento econômico é bem mais complexa.
A obsessão mercantilista em ver no comércio internacional
superavitário a fonte do crescimento econômico sustentava todo
tipo de medidas intervencionistas na produção doméstica. A defesa
do controle interno da economia visava, sobretudo, à competi-
tividade com outros países. Em nome dela, setores da produção
eram regulamentados, certas indústrias, sobretaxadas enquanto
outras recebiam subsídios, e monopólios eram criados com a
restrição à entrada em alguns mercados. Franquias e patentes
também concediam direitos exclusivos a certos comerciantes. Tudo
isso não significa que o mercantilismo era contrário à atividade
econômica e nem que ainda retinha o mesmo preconceito
antieconômico da Idade Média. O que ele desenvolve e propõe são
preceitos a serem aplicados em uma economia mista, com os
capitalistas a comandar a produção e o Estado intervindo nela a fim
de angariar maior poderio econômico à nação. O pensamento
mercantilista carrega consigo certa ambiguidade de propósitos, um
dualismo entre o intervencionismo e a defesa da liberdade dos
mercados. Em se tratando de um período de transição do feuda-
lismo para o liberalismo é de se esperar essas tensões entre
posições políticas opostas. Alguns autores enfatizam controles e
62
regulamentações, enquanto outros defendem a liberdade do co-
mércio.
John Hales, nobre inglês e membro do Parlamento, desen-
volve suas teses mercantilistas em 1549 no livro Um discurso sobre
a prosperidade pública no Reino da Inglaterra. Hales afirma que o
interesse do Estado deve ser posto em primeiro lugar, contudo não
defende os controles legislativos na promoção do bem-estar social.
Ele acredita na ordem espontânea dos mercados que tem por base
homens movidos pelo autointeresse. Buscando maximizar lucros,
suas escolhas resultam na alocação ótima dos recursos, melhor do
que o governo poderia fazer. As leis serão inoperantes e impotentes
se pretenderem compelir os homens a tomarem medidas que lhes
são desvantajosas. Nenhuma determinação legal pode prevalecer
sobre o autointeresse. A imposição governamental de preços tabe-
lados, por exemplo, daria origem ao mercado negro. Hales defende
também a liberdade de comércio internacional. Pode parecer
surpreendente ver a defesa da liberdade de comércio nas palavras
de um autor do século XVI, mas Hales não está sozinho. Também
defendem teses liberais autores do século XVII como Locke, Petty e
nomes menos conhecidos como Dudley North e Charles D’Avenant.
O que mostra que o mercantilismo não era um rígido sistema de
controle, conforme Adam Smith viria a caracterizá-lo.
Salário
B
W’
W A
N N Oferta de trabalho
’
O ponto A é crítico, de modo que para salários acima de W há
uma queda na oferta do insumo trabalho (N’ < N), pois os
trabalhadores preferirão não trabalhar, já que são naturalmente
avessos ao trabalho, e o salário mais elevado W’ torna-os propen-
sos a desfrutarem lazer em troca de trabalho. A consequência para
a economia nacional é a perda da produção e com ela a menor
competitividade no comércio internacional, com a saída de ouro e
prata e todas as consequências indesejáveis que dela advém. Assim,
cumpre ao governo estabelecer um teto salarial.
64
Boxe 3.2 Explicação da moderna teoria econômica quanto ao
formato da curva de oferta de trabalho.
67
economia financeira estatal e a obtenção de fundos públicos eram
tarefas de suma relevância.
Outra questão central por trás da política cameralista relacio-
na-se ao entendimento de que a riqueza nacional se localiza na
capacidade produtiva dos indivíduos, resultando disso a exigência
de investimentos em educação, infraestrutura e avanço tecno-
lógico. Em outros termos, a prosperidade de um Estado depende da
adoção de medidas que promovam a melhoria material e espiritual
dos cidadãos.
Por mais de três séculos, o cameralismo influenciou o pensa-
mento econômico nas nações de língua alemã. Ao contrário do que
comumente se afirma acerca dele, considerando-o uma mera ver-
são alemã do mercantilismo, ele se caracteriza como um tipo de
reflexão econômica e, ao mesmo tempo, um programa de ação
prática que refletia o crescente intercâmbio de ideias que veio se
intensificando na Europa desde a invenção da imprensa. O foco da
análise cameralista incidia na investigação de como o estado mo-
derno deveria promover a indústria por meio de expansão da
demanda, gastos públicos, liberalização interna, estabelecimento
de planos e metas, proteção externa etc.
Trata-se, portanto, de um enfoque ligado aos problemas
particulares da economia de um conjunto de países de língua
alemã. A Europa Central era uma região mais atrasada em relação
à França e à Inglaterra. Ela estava mergulhada em graves proble-
mas econômicos e o cameralismo surge como um conjunto de
ideias voltado à solução das calamidades econômicas, por meio de
uma melhor administração pública. Diferentemente do mercanti-
lismo ocidental, a ênfase não recaia na competitividade comercial
com outros países, mas em fornecer aos reis conhecimentos para
uma boa gestão econômica.
Na ausência de um Estado alemão unificado, os príncipes
viram-se obrigados a reorganizar as atividades econômicas de sua
gleba tendo em vista um mundo dominado cada vez mais pela
competição violenta entre impérios globais. Tal circunstância criou
as condições propícias para um arranjo institucional baseado em
relação de dependência mútua entre o príncipe e os súditos. Para
desempenhar cabalmente suas funções, o príncipe restabeleceu
uma antiga instituição medieval, a Câmara, empregada inicial-
mente para designar o recinto privado do príncipe, e, em seguida,
por extensão, o locus de sua administração. O termo “cameralismo”
vem da palavra alemã Kammer, que designa o lugar onde se
guardava o tesouro real. Depois passou a aplicar-se a tudo o que
68
dizia respeito à propriedade real. Virou a economia do rei ou a arte
que bem administra a renda real procurando mantê-la e, se
possível, aumentá-la. De início, era uma combinação de ideias
envolvendo aspectos políticos, jurídicos e técnicos, além do econô-
mico. Com o tempo, seus autores foram especializando-se em
economia política e afastando-se de preocupações jurídicas. O
ensino de cunho cameralista dos direitos e deveres envolvidos na
administração pública aparece nas universidades alemãs no século
XVII e a partir de então se desenvolve uma importante tradição do
pensamento econômico.
Há elementos comuns com o mercantilismo ocidental, como a
ênfase nas regulamentações governamentais, dada a confiança na
eficácia das leis, e o receituário análogo de política tributária, de
como organizar o sistema de tarifas e taxas públicas. Como no
mercantilismo, o metal precioso é tido como a forma mais dese-
jável de riqueza e eles também se assemelham na pregação, comum
a ambos, do aumento populacional, da frugalidade e do interesse
do rei. No entanto, o cameralismo é menos interessado em relações
internacionais, em comércio entre países e no desempenho da
balança comercial. A rivalidade internacional não é tão importante
para ele. A ênfase recai em finanças públicas e em como remediar o
atraso na economia alemã pelo desenvolvimento da indústria
doméstica, da tecnologia agrícola, e da exploração de minas e flo-
restas.
Os mercantilistas franceses e ingleses eram panfletários e só
ofereciam pequenos tratados não muito abrangentes. Enquanto
isso, o cameralismo desenvolve sua doutrina em grandes volumes
que apresentam um corpo de pensamento bem conectado, versan-
do sobre a lógica da organização do Estado e da economia nacional,
em seus aspectos financeiros e técnicos. O desejo da administração
eficiente da coisa pública é o eixo principal a guiar a análise came-
ralista.
Já início do século XVI, certos autores buscavam oferecer aos
burocratas dos principados da Europa Central meios para remediar
os males econômicos que afetavam os povos de língua alemã.
Martin Luther, o pai do protestantismo, e Melchior von Ossa pro-
põem uma reforma tributária a fim de aperfeiçoar o atrasado
sistema de taxação. O descontrole monetário também foi tema de
debate. O influente pensador Nicolau Copérnico, expoente de uma
revolução científica na astronomia, havia proposto uma moeda
uniforme por todo o reino, sem a necessidade de nenhum lastro ou
aval. Em 1530, o desequilíbrio monetário desencadeia uma contro-
69
vérsia sobre a cunhagem de moeda. Por essa época, melhora a per-
cepção da importância da moeda para a atividade econômica e
chega-se à conclusão de que algum controle sobre ela deveria ser
exercido. Tratados mais específicos sobre pesca, agricultura e
indústria aparecem nos escritos de Bornitz e Klock. Também se
destaca Georg Obrecht, que se tornou professor de direito em
Estrasburgo em 1575 e foi o primeiro consultor financeiro oficial
do rei.
No entanto, tais concepções somente se constituem numa
escola de pensamento no século XVII. Os principais representantes
dessa escola são Veit Ludwig von Seckendorff (1626–1692),
Johann Heinrich Gottlob von Justi (1717-1771) e Joseph von
Sonnenfels (1733-1817). Tais pensadores buscaram oferecer uma
teoria da gestão pública que iria orientar os governantes alemães.
Seckendorff é tido como o pai do cameralismo. Ele separou a
economia de outros ramos do conhecimento social, como a política
e a administração pública. Aconselhou a restrição das importações
e o aumento populacional. Contudo, não tinha total confiança na
eficácia do controle governamental. Era adepto da concorrência
entre os produtores e combateu o monopólio das guildas. Nesse
século, também aparecem no pensamento econômico alemão os
nomes de P. W. von Hörnigk e Wilhelm von Schröder.
Von Seckendorff fundou os alicerces das ciências camerais em
sua obra, de 1665, Adendo ou informações e notas ao Tratado do
Estado Principesco Alemão. Tal estudo resulta de um processo de
amadurecimento e crítica empírica extraídos da observação da
florescente economia holandesa. Ele trata essencialmente de reve-
lar os efeitos perniciosos da dependência econômica estrangeira.
Em sua visão, na falta de um setor manufatureiro livre e pujante o
país não seria capaz de sustentar de forma duradoura uma popu-
lação crescente e, portanto, seus cidadãos inevitavelmente corre-
riam para países estrangeiros, onde vigoram melhores condições
de vida. Os principados alemães se manteriam em um estado de
dependência das importações estrangeiras. Na Holanda, Secken-
dorff compreendera a importância crucial das manufaturas em
reverter a situação de pobreza e declínio demográfico que debilita-
vam diversos principados alemães. Caberia, assim, desenvolver a
capacidade produtiva alemã e articular todas as atividades econô-
micas, criando-se riqueza e empregos no processo.
Seckendorff preconiza medidas nesse sentido. Sua principal
recomendação é justamente a substituição de importações como
forma de suprir as necessidades econômicas domésticas. Um país
70
caracterizado apenas por agricultura de subsistência jamais pode-
ria prosperar. Para desenvolver as manufaturas era preciso libertar
os artesãos dos grilhões das guildas e corporações de ofício. Isso
atrairia mais trabalhadores, criaria demanda por novos negócios
para suprir suas necessidades e geraria um círculo produtivo de
oferta e de demanda crescentes. Libertar as manufaturas de
restrições, bem como liberar os preços dos bens domésticos, revi-
gorariam toda a economia, trazendo os preços aos seus níveis
adequados. Seu objetivo era, portanto, criar condições favoráveis à
superação do retardo técnico dos principados alemães, tendo-se
em vista a competição desigual com as principais potências euro-
peias a época.
O cameralismo adentrou o século XVIII. No decorrer dele
cátedras começaram a ser ofertadas para o ensino daquilo que foi
descrito como ciência cameral, que pode ser caracterizada como o
estudo dos princípios de administração pública e de política
econômica. Em sua forma original, a cameralística consistia na
formulação de propostas práticas, visando tornar eficientes a
administração, a arrecadação e a utilização das receitas públicas
pelos príncipes, não se constituindo, portanto, uma disciplina
segundo os padrões científicos. Nesse século, no entanto, sucedeu-
se notável esforço para oficializar o ensino universitário das ciên-
cias camerais, embora a princípio algumas inconsistências dificul-
tassem sobremodo sua institucionalização.
Tendo surgido em meados do século XVII, na primeira metade
do século seguinte o cameralismo se consolida como ciência
econômica alemã por meio das contribuições de Justi e Sonnenfels.
De fato, o cameralismo somente atingiu robustez teórica nas obras
de Von Justi, que lhe conferiu entendimento cada vez maior dos
fundamentos econômicos da vida política e social. Justi é reconhe-
cido, por isso, como um dos precursores da economia política na
Alemanha. Embora tenha sido autor de um total de 77 livros,
compreendendo filosofia, literatura, ciência da natureza, geologia
etc., seu grande mérito foi ter logrado dividir habilmente as ciências
camerais em ciências econômicas, ciência política e ciência das
finanças, questão que nenhum dos pensadores anteriores havia
resolvido plenamente.
Justi, atuando como professor na Áustria, ocupa-se de estudos
em finanças, comércio, tributação, agricultura e indústria. Elabora,
então, um esquema de seu sistema teórico de economia política,
posteriormente desenvolvido em seu livro mais importante, a
Economia política ou tratado sistemático de todas as ciências
71
econômico-cameralistas necessárias ao governo de um País, de
1755.
Apesar de perseguir a opulência do Estado, Von Justi não
reconhece a primazia deste sobre os indivíduos. O Estado configura
um complexo de instituições que se caracterizam pela existência e
pela aplicação efetiva de normas geralmente vinculativas e
permanentes, as quais indivíduos independentes estabelecem e
mantêm para otimizar sua cooperação a fim de obter disso a maior
renda real possível e poder satisfazer suas necessidades. Justi
também considera a liberdade e a segurança individuais. Nesse
sentido, a função precípua do Estado consiste em garantir o bem-
estar de seus cidadãos e consequentemente propiciar condições
favoráveis à produção dos bens que os fazem felizes. As instituições
sociais devem ser estabelecidas de modo a gerar a maior renda per
capita possível. Para Justi, legítimo é o Estado cujas instituições
servem para criar liberdade, segurança e bem-estar. Ao delimitar a
ação política, Justi intenciona mostrar que uma economia de
mercado desregulamentada é superior a uma economia controlada,
não porque origina um produto interno maior, mas porque impõe
menos restrições aos indivíduos, o que a torna capaz de fornecer a
cada cidadão uma maior quantidade de bens necessários a uma
vida feliz.
Em sua ótica, questões sociais são em grande medida
problemas de administração pública. Justi defende um governo que
assuma responsabilidades inerentes ao melhoramento das condi-
ções de vida e aperfeiçoamento moral dos súditos, obrigando-se
não apenas a criar empregos e prover meios de subsistência para
todos, mas também a aprimorar os métodos e a organização da
produção. Nota-se aqui que o cameralismo não se prestava somen-
te ao fortalecimento do Estado como finalidade única. O propósito
das ciências camerais era favorecer a felicidade comum resultante
da conciliação do contentamento dos súditos com o triunfo do
Estado.
Von Sonnenfels é considerado o último grande pensador
cameralista. Contemporâneo de Justi, sobreviveu a ele tempo
suficiente para estender solidamente as ciências camerais até
meados do século XIX. Sua obra mais importante, Princípios de
polícia, comércio e finanças, de 1765, figura entre os livros mais
vendidos da literatura econômica, usado nas universidades austría-
cas até 1848. Embora a sorte de ambos os autores tenha sido bas-
tante diferente, eles convergem quanto ao propósito de formular
estratégias de desenvolvimento com vistas, de um lado, a aumentar
72
o bem-estar da população, e de outro a fortalecer o Estado. A obra
de Sonnenfels, exprime um esforço a fim de reconciliar as exigên-
cias de um Estado forte com as novas instituições criadas a partir
da conjugação de diversos fatores cultural, político e econômico,
resultantes de eventos como a Revolução Francesa, a ocupação
napoleônica e a Revolução Industrial.
Sonnenfels aplicou-se ao estudo da jurisprudência, tornando-
se um dos mais esclarecidos intelectuais do círculo iluminista
vienense. Atuou na vida pública tanto no ofício de professor, quanto
de administrador. Sua influência em vários assuntos, incluindo-se
questões jurídica e econômica, baseava-se não apenas em seu
status de conselheiro real e sua posição como docente, mas
principalmente em numerosas publicações.
Em 1766, Sonnenfels oferece volumoso livro dividido em três
tomos. Nele, sustenta a tese de que os objetivos primordiais do
Estado podem ser divididos em quatro temas correlacionados, a
saber, (i) a proteção externa, (ii) a segurança interna, (iii) a diver-
sificação de ocupações produtivas e (iv) o incremento da renda.
Essas quatro áreas compõem, em sua visão, o conteúdo da ciência
do Estado e, ao mesmo tempo, as linhas de especialização que
formam a ciência política, compreendendo as ciências de polícia,
comércio e finanças. Enquanto a primeira apregoa princípios para
o estabelecimento e a manutenção da segurança interna e externa
do Estado, a segunda se ocupa da ampliação benéfica do que a terra
e a indústria produzem. Por fim, a última indica o modo como as
receitas públicas devem ser aumentadas e administradas da
maneira mais vantajosa.
A premissa do Estado está presente em todo o edifício teórico
de Sonnenfels. Ao conceber sociologicamente a natureza humana,
ele caracteriza o Estado como a culminação do projeto de realiza-
ção da objetividade da vida social. Por isso, a vontade coletiva é
muito mais forte do que a do indivíduo. Na verdade, o pensamento
de Sonnenfels pode ser compreendido como um modo de
expressão da filosofia política alemã em sua forma orgânico-
corporativista. Nesse ponto de vista, o Estado é definido como
expressão suprema de organização social, uma vez que nele todas
as formas de alienação doméstica, conjugal e patriarcal são supera-
das como etapas em direção ao espírito objetivo.
O Estado funda as bases últimas da grande sociedade em que
os cidadãos unem suas forças para alcançar o bem comum. O efeito
imediato disso é que os indivíduos assim reunidos são considera-
dos pessoa moral e consequentemente, tendo acima de si apenas a
73
vontade comum de exigir o melhor para todos, suportam um único
poder supremo, o qual consiste das forças próprias de todos os
membros. A teoria do Estado implícita na obra cameralista de
Sonnenfels incumbe-se de conciliar as prerrogativas do governo
centralizado às novas exigências do Século das Luzes.
Sonnenfels compôs a maior parte da produção cameralista
usada no final do século XVIII. Sua influência manteve-se oficial não
apenas dentro da monarquia austro-húngara, tendo se estendido
para além das fronteiras austríacas, encontrando audiência inclusi-
ve nos Estados alemães do sul.
No século XIX, amplia-se o escopo da ciência cameralista. Em
1819, Schmalz afirma que tal ciência deve incluir não somente a
administração pública, mas também o estudo de tudo o que perten-
ce à propriedade e à renda das pessoas. Na mesma linha, Rau, em
1825, separa o domínio da economia privada e técnica, que estuda
tudo o que diz respeito à riqueza pessoal, da economia pública que
avalia os aspectos financeiros das políticas públicas. Nessa época, a
economia firma-se como um ramo do estudo universitário não
confinado apenas à administração da coisa pública. Entre os profes-
sores de prestígio, aparecem Gasser, Daries, Dithmar e Zincke.
Devido a seu vasto período de efetividade, o cameralismo
produziu efeitos de longo prazo, principalmente no que diz respeito
à condução das políticas públicas e econômicas dos Estados ale-
mães. Com isso, ele funda as bases últimas da Nationalökonomie,
que viria a ser examinada a fundo e discutida de forma abrangente
por Friedrich List.
Durante sua docência em Tübingen, List escreveu seu Parecer
sobre o estabelecimento de uma faculdade de ciência política, de
1817, em que deixa evidente a influência da tradição cameralista na
sua formação. Neste ensaio, porém, List sugere ser imperativo
fundar as bases de uma nova ciência do Estado. Ele oferece um
primeiro esboço de sistematização das ciências econômicas, em
que a Nationalökonomie (economia nacional) e a Privatökonomie
(economia privada ou individual) são apresentadas como disci-
plinas auxiliares, demonstrando que o bem-estar do todo resulta do
bem-estar do indivíduo.
Na obra Enciclopédia das ciências políticas, de 1823, List con-
cebe a economia nacional como teoria das leis naturais de produ-
ção, distribuição e consumo de bens oriundos de comércio, indús-
tria e agricultura. Trata-se, pois, da doutrina que ensina em que
medida a influência do poder estatal pode ser benéfica ou preju-
dicial ao bem-estar econômico dos indivíduos, dos Estados e da
74
humanidade, argumento que será retomado em outros escritos
sobre a constituição das disciplinas econômicas.
O cameralismo, portanto, é a versão alemã da disciplina
econômica, que apresenta certas peculiaridades. Mais voltado a
aspectos técnicos da produção e ao lado financeiro, não acredita
que o Estado e os capitalistas tenham sempre interesses harmô-
nicos e posiciona-se ao lado dos interesses do primeiro. Ele enfatiza
os dispositivos de política fiscal procurando combater a falência do
tesouro público.
Dentre outros pensadores que deram importante contribui-
ção às ideias econômicas mercantilistas, destacam-se ainda: Claude
de Seyssel, M. de Malestroit, Tomás Mercado, Simon Newcomb,
Antoine de Montchrétien, Marques de La Gomberdière, Thomas
Mun, Nicholas Barbon, J. Massie e James Stewart.
75
Questões
76
18. Qual a essência da teoria dos juros de Petty?
19. Quais as diferenças principais entre o cameralismo e o mercan-
tilismo ocidental?
20. Aponte uma diferença entre o cameralismo no século XVIII e
no período anterior.
77
Leitura Adicional
Literatura Primária
SMITH, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
(Os Economistas.) livro IV.
Literatura Secundária
78
4
A Economia como Ordem
Natural
79
complementa-se o transporte interno conectando-o ao transporte
marítimo.
No mesmo período, a indústria da mineração conhece
expressivo crescimento. De início, pela exploração das minas de
ouro e prata na América, depois pelo desenvolvimento intenso da
indústria de guerra. A invenção de armas de fogo e a introdução da
artilharia pesada estimularam a exploração das minas de ferro e
cobre. Nos dois séculos seguintes, a indústria metalúrgica é
impulsionada pelas encomendas de canhões, balas e outros
armamentos pesados. A extração de minérios e a construção de
artefatos de guerra desafiaram a tecnologia da época, que se
desenvolveu a largos passos (Boxe 4.1).
80
serva da Igreja que não lhe permitia ultrapassar os limites por ela
estabelecidos. Por outro lado, as necessidades tecnológicas de-
mandavam o avanço da ciência, principalmente a física nos ramos
de astronomia, hidrostática, hidrodinâmica, mecânica, aerodinâ-
mica e resistência dos materiais (Boxe 4.2).
81
A ciência moderna que surge nessa época parte da ideia
aristotélica de ciência (Boxe 4.3), não obstante, há dois elementos
principais na visão de ciência de Aristóteles que seriam questio-
nados: a crença dogmática na veracidade das premissas científicas
e o pouco cuidado com a observação sistemática dos fatos. Em
consequência, a física de Aristóteles enfrentava um paradoxo:
embora fosse mais próxima do senso comum que a nova física de
Galileu, Torricelli e Newton, dentre outros, não vinha dando conta
de fenômenos físicos e astronômicos mais complexos, como
aqueles trazidos pelo avanço da tecnologia.
Na astronomia, as crenças aristotélicas tinham sido integra-
das desde o século II no sistema geocêntrico de Ptolomeu. Nele,
seguindo os preceitos aristotélicos, o céu é pensado como um corpo
divino e, por essa razão, é-lhe dado o movimento circular. Todos os
astros deveriam percorrer o círculo em torno da Terra, que estaria
parada e imóvel no centro do universo. Sol, Lua e os cinco planetas
observáveis estariam incrustados cada qual em uma esfera de
cristal concêntrica à Terra. A esfera exterior do universo contém,
incrustadas nela, as estrelas fixas mantendo posição relativa
constante entre si, isto é, as constelações com forma permanente.
Os acentuados desvios do círculo, observados no movimento de
laçada dos planetas em torno do fundo das estrelas fixas (o
ziguezague dos planetas), são explicados pela curiosa associação
entre uma esfera principal em torno da terra (deferente) e a esfera
acoplada (epiciclo), presa em um ponto fixo do deferente e
sustentando o planeta. O efeito da composição no movimento das
duas esferas explica as laçadas dos planetas. O desenvolvimento do
sistema astronômico ptolomaico levou a um avançado método de
cálculo da posição das estrelas e dos planetas no céu e à previsão
de fenômenos tais como início das estações e ocorrência de
eclipses.
Com o tempo, o aprimoramento dos instrumentos óticos e a
necessidade de precisão nas previsões levaram a numerosas
correções e acréscimos ao sistema ptolomaico, que para salvar as
aparências não fazia cerimônia em, por exemplo, acoplar não as
duas esferas de que falamos, mas dezenas delas, cada qual cen-
trada em um ponto na superfície de outra, dando conta assim dos
movimentos observados da Lua, do Sol e dos planetas. Questões de
simetria e simplicidade, além de inconfessáveis crenças místicas,
conduziram Copérnico a propor o sistema heliocêntrico no início
do século XVI.
82
Boxe 4.3 Método da ciência em Aristóteles.
83
Mais do que uma simples mudança de referencial, deslocando
o centro do universo da Terra para o Sol, o modelo copernicano
abalou por completo a física de Aristóteles. Esta última apoiava-se
na crença de que há uma ordenação hierárquica estática à qual
obedece a natureza. Esta se exprime por princípios como o que
estabelece haver um “lugar natural” para cada coisa, o que define o
movimento natural, e por oposição, o movimento compulsório ou
violento. Tirar um corpo de seu lugar natural seria uma espécie de
violência e, uma vez tirado, o corpo precisaria voltar a ele. A
matéria é sempre uma combinação de quatro elementos, ou corpos
simples: terra, água, fogo e ar. Cada um deles possui um princípio
de movimento em sua própria natureza. O movimento natural do
fogo e do ar é para cima e os de água e terra são para baixo. No
centro do universo há algo em repouso. A Terra tem de existir, pois,
é a terra (elemento simples) que está em repouso no centro, para
onde, se deslocado, volta por seu movimento natural para baixo.
Ora, se a Terra não estivesse no centro do universo, a noção de
espaço ou lugar de Aristóteles, que exerce influência no movimento
dos corpos, teria de ser substancialmente revista. Aristóteles pensa
que dois lugares diferentes, um em cima e outro embaixo, possuem
cada qual naturezas diferentes e por isso os corpos deslocam-se no
movimento de queda livre de um a outro. A hipótese copernicana
de deslocar a Terra de seu local no centro de tudo implica também
que a teoria do movimento natural precisa ser esquematizada de
outra maneira. Portanto, Copérnico não apenas lança as bases de
outra astronomia, mas suscita também outra física.
A explicação dos problemas de balística nos projéteis lança-
dos por canhões foi tentada pela física aristotélica. A dinâmica de
Aristóteles é muito curiosa (Boxe 4.4). Embora a teoria de
Aristóteles seja bastante engenhosa, ela não oferece uma solução
prática, por exemplo, ao problema do ângulo do eixo do canhão com
a horizontal que permita a máxima distância de alcance na
trajetória da bala. A crença aristotélica de que “a natureza tem
horror ao vácuo” não explicava por que as melhores bombas d’água
não conseguiam extrair o líquido do fundo de um poço de
profundidade superior a dez metros. Foi por meio dos estudos da
pressão atmosférica e com a hipótese da existência do vácuo que
Torricelli solucionou o problema, no início do século XVII. Conclui-
se que a urgência na solução dos problemas práticos foi minando a
confiança na ciência aristotélica.
A crítica à física de Aristóteles é anterior ao período. Em plena
Idade Média, pensadores escolásticos, como Jean Buridan e Nicolau
Oresme, propunham interpretações diferentes para o movimento.
84
Este último particularmente acreditou que a Terra estivesse em
movimento. No entanto, podemos situar o marco maior no
nascimento do método da ciência moderna na obra do filósofo
inglês Francis Bacon (1561-1626). Bacon via muita especulação
nas ideias de lier e acreditava que o desenvolvimento da ciência
requeria um melhor intercâmbio do homem com a nature-za. O
conhecimento empírico deveria ser valorizado e as noções a priori
abandonadas.
“Resta-nos um único e simples método para alcançar os
nossos intentos: levar os homens aos próprios fatos parti-
culares e às suas séries e ordens, a fim de que eles, por si
mesmos, se sintam obrigados a renunciar às suas noções e
comecem a habituar-se ao trato direto das coisas.” (F. Bacon.
Novum Organum)
88
Do ponto de vista do método, em seu racionalismo Descartes
acredita que o exercício da razão humana assegura a certeza do
conhecimento científico. Qualquer indivíduo tem o poder de julgar e
distinguir o falso do verdadeiro pelo uso do bom-senso ou razão.
Enquanto o caminho da verdade em Bacon radica na observação
criteriosa, Descartes procura assegurar-se dela no uso da razão.
Como consequência, sempre que os homens conduzem seu pensa-
mento pelas mesmas vias e consideram as mesmas coisas chegam a
resultado igual. Há uma única verdade e, sendo assim, boa parte das
disputas filosóficas de sua época deve-se a uma má escolha do
método de investigação. O bom caminho consiste em refutar tudo o
que seja apenas provável. Trata-se do método da “dúvida metódica”,
que certamente não pode negar tudo, já que o próprio eu não é
negado, pois o ato de pensar garante nossa existência (“penso logo
existo”). Percorrer tal caminho leva Descartes à rejeição de quase
todo o conhecimento acadêmico a sua época, considerado por ele
mera especulação. Então o filósofo vai à procura do raciocínio
simples dos homens no mundo prático e nos negócios cotidianos.
Tendo estudado autores consagrados de sua época, ele agora se
aventura no “livro do mundo”, a fim de viajar, ver cortes e exércitos,
frequentar todo tipo de gente e recolher diversas experiências.
Depois de refletir sobre todas as suas experiências, percebe que o
pensamento das pessoas é extravagante e muito condicionado pelos
costumes de cada um. Descartes resolve olhar a si próprio e recorrer
apenas à força de seu espírito. Somente a evidência conquistada por
nós mesmos é válida, e contra ela opõem-se os preconceitos da
tradição acadêmica. A razão, portanto, aparece no esforço da mente
isolada e todos os processos técnicos e sociais devem ser pensados,
planejados e controlados por ela.15
O método cartesiano prende-se a quatro preceitos básicos:
1. Acolher apenas coisas verdadeiras e indubitáveis, que não
possam ser postas em dúvida.
2. Todos os problemas são reduzidos a partes elementares, de
modo a se decompor analiticamente a realidade.
3. O conhecimento parte de objetos simples, e só após o pleno
conhecimento deles pode-se investigar objetos compostos
complexos.
4. Todas as soluções possíveis para um problema devem ser
enumeradas e analisadas uma a uma.
90
época. O método de Newton não ficou confinado apenas nas
ciências naturais e também serviu como modelo para a investi-
gação social. Logo adiante veremos a descrição pormenorizada
desse método, por enquanto se explica como ele surge na prática
de Newton. Kepler havia descoberto as três leis que comandam o
movimento dos planetas pela mera análise dos dados de Tycho
Brahe. Tais leis tinham, portanto, um caráter puramente empírico,
não se revestindo de algum princípio teórico que descreva os
movimentos dos corpos ou explique a natureza das órbitas plane-
tárias. Muito jovem, Newton tinha desenvolvido, a título de exer-
cício matemático, uma explicação física do movimento dos planetas
na hipótese da existência de um sistema de forças centrais unindo
os planetas ao Sol, que decaem com o quadrado da distância que os
separam da estrela. Quando se lança essa hipótese, pode-se
deduzir, com alguma competência matemática, as três leis de
Kepler. De início, Newton não deu muita importância a tal achado,
mas depois, em fase madura da vida, iria perceber, com os colegas
cientistas, as implicações de sua descoberta. Os fatos descritivos da
dinâmica dos planetas, que haviam sido estudados empiricamente
por Kepler, são por Newton enquadrados em um sistema teórico
fundamental construído com base em poucas premissas. A lei da
atração gravitacional e a lei da ação e reação são princípios que dão
conta de toda a multiplicidade de fenômenos astronômicos já
conhecidos. E mais: os movimentos dos corpos na superfície da
Terra também são explicados pelos mesmos princípios da
dinâmica, rompendo-se a separação aristotélica, mantida por
Galileu, entre o mundo translunar das estrelas e o mundo sublunar
em que vivemos.
Não cabe aqui discorrer sobre as realizações da ciência newto-
niana, mas vale dizer que seu sucesso também esteve associado à
solução de importantes problemas práticos da época. Basta
examinar a ordem em que as questões teóricas são tratadas na obra
máxima de Newton, os Princípios matemáticos da filosofia natural,
de 1687, para se perceber sua relação com questões práticas (Boxe
4.6). Newton procurou não apenas resolver problemas empíricos
isolados, mas também construir uma sólida base teórica para a
solução, por meio de métodos gerais, do conjunto de problemas
físicos suscitados pelo desenvolvimento da tecnologia.
O sucesso do empreendimento de Newton conferiu a seu
método um valor de paradigma para todas as ciências e isso se
impregnou fortemente no ambiente acadêmico inglês. No que com-
siste o método newtoniano? No plano meramente formal, é muito
assemelhado à descrição aristotélica de ciência.
91
Boxe 4.6 Problemas técnicos tratados nos Princípios de Newton.
94
repercutiu na visão de sociedade e suas implicações para o
nascimento da economia como um sistema teórico mais integrado.
95
Boxe 4.8 Teoria política de Maquiavel.
99
cer a tese do homem autointeressado e egoísta, reconciliando-o com a
moral.
O escritor holandês Bernard de Mandeville (1670-1733) pu-
blica um poema, em 1705, em que busca demonstrar, por meio de
uma fábula, que não é necessário descartar o comportamento
puramente egoísta para se derivar, a partir dele, resultados
benéficos para a sociedade. A obra Fábula das abelhas traz em seu
subtítulo um resumo da fórmula encontrada por Mandeville: vícios
privados, benefícios públicos (Boxe 4.11).
100
como uma entidade natural ou até divina.17 Newton também via o
desígnio de Deus na ordem natural. Os economistas do século XVIII
acreditavam todos na ordem natural dos fenômenos econômicos.
Mercier de la Rivière, membro da escola de economistas
franceses conhecida como Fisiocracia, afirma textualmente que a
“ordem natural e essencial da sociedade” não é fruto do trabalho do
homem, mas é instituída por Deus. Smith talvez tenha enxergado o
desígnio do criador na ordem econômica, enquanto Hume era
céptico da presença divina nessa ordem. Não importa se a
interpretação de cada qual é ou não carregada de conotação
religiosa; todos aceitam a existência de uma ordem natural
subjacente à sociedade e à economia. Se ela existe, os homens em
sociedade estão sujeitos a leis naturais do mesmo modo em que na
natureza física os fenômenos submetem-se a leis físicas. Os
fisiocratas acreditam que a produção e a distribuição dos bens são
efetuadas de acordo com leis fixas da natureza e que os problemas
de distribuição devem ser lidados como se enfrentam os problemas
da física.
Esta seção examinou sistematicamente a visão de sociedade que
emerge no século XVIII e o sistema de crenças filosóficas subjacente
ao aparecimento da economia como ordem natural. Veremos, ainda
no presente capítulo, aspectos mais específicos de teorias que
influenciaram diretamente o tratado econômico de Adam Smith. Por
certo, boa parte do material e do esquema de ideias de Smith pertence
ao legado de um conjunto de autores antecedentes.
17 Descartes via asociedade como uma ordem divina, embora seu raciona-
lismo estivesse associado à crença no poder da razão humana em edificar
a sociedade. Hayek o associa à “razão construtivista”.
101
guillebert vê a economia como um mecanismo natural governado
pelas forças de mercado e, contrário às práticas mercantilistas,
enfatiza a liberdade das trocas.
À época de Boisguillebert, a França vinha atravessando grave
crise econômica alimentada pelas despesas de guerra e pelas
extravagâncias de consumo na corte. Os males econômicos são
atribuídos por ele à adoção de preceitos mercantilistas. Bois-
guillebert publica um conjunto de obras, entre 1665 e 1712,
tratando principalmente de reforma tributária e que chegaram a
escandalizar o rei, a ponto de ser penalizado tendo de se exilar pelo
lançamento de O memorial da França em 1707. De original, ele
propõe a noção de que os bens e os serviços à disposição de cada
cidadão e não a moeda ou a fortuna do rei constituem a verdadeira
riqueza da sociedade. A fonte do crescimento da riqueza é o
consumo individual, de modo que o bem-estar nacional depende da
pujança da demanda efetiva. Boisguillebert acredita que a renda
nacional seria determinada pelo fluxo de dinheiro gasto,
antecipando, pelo menos em espírito, ideias de Keynes.
A solução para o problema do declínio econômico da França
requer uma reforma tributária que possa reduzir os impostos, de
modo a suprimir um fator limitante da demanda. Boisguillebert
havia calculado que os impostos em excesso e a concentração em
sua base de incidência teriam acarretado uma queda na renda da
França em pelo menos 50%, entre os anos de 1665 e 1695, pela
decorrente insuficiência de demanda agregada. Os efeitos nocivos
provocados pelo receituário mercantilista também foram respon-
sabilizados pela queda na renda. Especialmente desastrosa tinha
sido a decisão do ministro Colbert de proibir as exportações de
grãos, o que veio a prejudicar a agricultura do país. Como
consequência dela, os preços dos grãos tendiam a cair principal-
mente em tempos de crise quando se acentuava a escassez de
demanda.
A visão de Boisguillebert enaltecia dois elementos: a primazia
da agricultura e os benefícios do livre-comércio, também bandeiras
dos fisiocratas como veremos mais adiante. As medidas que
procuravam favorecer as manufaturas em prejuízo da agricultura
deveriam ser revertidas. O mercado funcionando por conta própria
traria a expansão da agricultura, com estabilidade de preços e
melhor distribuição de renda. Uma distribuição mais equitativa
seria importante por garantir a sustentação da demanda agregada.
A reforma tributária proposta por ele priorizava o combate a
três tipos de impostos então cobrados na França: as talhas, as sisas
102
(“aides” em francês) e os impostos aduaneiros. Os primeiros
incidiam sobre as propriedades e eram sujeitos a muita arbi-
trariedade e capricho pessoal em sua aplicação. Os nobres e os
membros do clero ficavam isentos de pagá-los. A carga incidia
fortemente sobre os proprietários mais pobres, principalmente o
pequeno camponês. As sisas são um imposto indireto sobre as
vendas. Boisguillebert preocupava-se com a possibilidade de o
povo francês ter que cortar seu hábito mais típico pelas pesadas
sisas sobre a venda do vinho. Os direitos aduaneiros eram cobrados
pela circulação de mercadorias, não só entre as fronteiras da
França, mas também entre regiões internas; o que restringia sobre-
maneira o fluxo de mercadorias e a concorrência nos mercados,
implicando assim em aumento de preços.
Boisguillebert defendia a liberdade dos mercados, argumen-
tando que, deixando a natureza agir, os preços, espontaneamente
determinados, garantiriam em todos os setores da economia um
ganho normal ou justo. O mecanismo de formação de preços já
asseguraria o máximo de riqueza. O mercado leva à realização de
todos os planos dos produtores individuais e não haveria nunca o
problema crucial de falta de consumo. Pode-se considerar, neste
aspecto, que Boisguillebert tenha antecipado a chamada Lei de Say,
apontada pelo famoso economista clássico.
O autor que estamos considerando propõe assim um conjun-
to de medidas que comporiam uma reforma tributária. Anos
depois, ele será criticado pelos fisiocratas por não oferecer um
“sistema natural de finanças públicas”, mas um conjunto de
medidas arbitrárias visando ao aumento do consumo agregado. Os
críticos fisiocratas consideravam mais importante para a expansão
econômica do país a forma como os impostos afetam não o consu-
mo, mas o processo de acumulação de capital. Boisguillebert, por
seu turno, raciocina pensando em tornar os impostos mais
progressivos e melhorar a distribuição de sua base de incidência de
modo a liberar renda disponibilizando-a para o consumo. Esse é
seu receituário básico de política econômica. Ele também deu
importante contribuição em questões monetárias analisando a
natureza da moeda. Percebeu então que há outros meios de
pagamento na forma de papéis (letras de câmbio, títulos do
governo etc.) que podem funcionar como substituto da moeda nas
transações. Também se notabiliza por considerar que o efeito de
certa quantidade de moeda sobre a economia dependeria também
da velocidade de circulação da moeda, conceito ainda mal com-
preendido à época.
103
Em 1755, é publicada em Paris a obra de um autor não muito
conhecido, que já havia falecido duas décadas antes, assassinado em
condições obscuras nas ruas de Londres; são os Ensaios sobre a
natureza do comércio em geral de Richard Cantillon (1680-1734).
Banqueiro e comerciante, de origem irlandesa, pouco se conhece de
sua vida. Seus Ensaios constituem um tratado brilhante que, sob
influência do método newtoniano, busca a descoberta de princípios
básicos da vida econômica. Em analogia com o princípio universal da
gravitação, Cantillon localiza o motor do processo de ajuste dos
mercados na busca autointeressada do lucro. Todo o sistema
econômico é visto como um processo de ajuste entre partes
conectadas, de modo que mudanças básicas na população, nos gostos
e na produção afetam umas às outras. É possível que seu legado
tenha sido ainda mais importante que o dos fisiocratas na formação
das ideias de Adam Smith. No entanto, a importância de Cantillon só
foi reconhecida no final do século XIX, quando foi, por assim dizer,
redescoberto por Willian Jevons. Com justiça, podemos considerá-lo
o autor do primeiro tratado sistemático de economia.
Em Cantillon, pela primeira vez, ao que consta, a variável
demográfica é incorporada como parte de um modelo econômico.
Também de modo pioneiro ele oferece uma explicação racional
para a localização espacial das cidades e da atividade econômica.
Entretanto, queremos destacar três aspectos da contribuição de
Cantillon:
1. A estrutura das classes sociais.
2. A teoria dos preços e a descrição do sistema de mercado.
3. A teoria monetária e os fluxos de renda.
Cantillon parte da existência da propriedade privada como um
requisito para o funcionamento dos mercados. A sociedade é
composta por quatro classes: nobres, proprietários de terra, em-
presários e assalariados. As duas primeiras são os segmentos das
pessoas financeiramente independentes, que não precisam tra-
balhar, e tão somente fornecem suas propriedades para que os
produtores possam extrair delas os recursos naturais. As proprie-
dades incluem terra e capital físico em geral. Os empresários
ocupam uma posição intermediária, seu papel consiste em operar
nos mercados de produtos e fatores de produção procurando tirar
vantagem do sistema de preços de modo que da ação deles dependa
o mecanismo de ajuste entre oferta e demanda em cada mercado.
Eles também são os que contratam trabalhadores e organizam a
produção. Os assalariados trabalham por remuneração fixa, en-
quanto o empresário tem uma renda incerta, pois é ele quem corre
104
o risco: quando produz não sabe o preço a que poderá vender o
produto.
Tal divisão social em classes era um procedimento analítico
ainda pouco usual nos escritos econômicos. Frequentemente atri-
bui-se aos fisiocratas a introdução de classes sociais na análise
econômica, mas, sem dúvida, antes deles Cantillon já raciocinava
em termos delas. O representante típico da classe empresarial é o
fazendeiro, pois os modernos métodos capitalistas de produção
estavam mais disseminados na área rural da França. Toda troca e
circulação de bens que aciona o sistema econômico parte da classe
dos empresários e, sendo assim, estes ocupam nele uma posição
vital.
Cantillon descreve a economia como um sistema organizado
de mercados interconectados que afetam uns aos outros, no
interior do qual atuam indivíduos em relação de dependência
mútua. O sistema ajusta-se pela ação de empresários autointeres-
sados que operam nos mercados comprando, vendendo e organi-
zando a produção em condições de incerteza. Com o tempo, os
mercados tendem a se estabelecer na situação de equilíbrio. No
equilíbrio de longo prazo, os preços estabilizam-se em torno do
custo real de produção. Nessa condição, Cantillon define o conceito
de valor intrínseco, que pode ser reduzido a quantidades e quali-
dades de terra e trabalho humano que entraram na produção. A
tentativa de fundamentar os preços em alguma medida de custo
real não é bem-sucedida e falta-lhe maior clareza, por exemplo, em
como se definem as diferentes qualidades de terra e trabalho e
como unidades de terra e trabalho podem ser comparadas entre si,
questões também enfrentadas e igualmente não resolvidas por
Petty.
A contribuição analítica mais importante de Cantillon diz
respeito à sua descrição do processo de convergência para os valores
de equilíbrio. No curto prazo, ele enfatiza a noção de preço de
mercado dando-lhe uma interpretação subjetivista que realça, em
sua determinação, os humores e caprichos dos agentes envolvidos,
bem como o desejo de consumo deles. No longo prazo, os preços
estabilizam-se nos valores intrínsecos (Boxe 4.12).
Há outra ordem de ideias em Cantillon que seria depois aperfei-
çoada pelos fisiocratas. Ele desenvolve um modelo de fluxo de rendas
em circulação entre as classes sociais. Há três canais de transmissão
de renda: o que vai dos fazendeiros para os proprietários, na forma de
pagamento de aluguéis; o fluxo entre os primeiros e trabalhadores,
proprietários de matérias-primas e vendedores de bens manufatura-
105
dos, que corresponde aos pagamentos dos fazendeiros na aquisição de
bens e serviços. Por fim, resta o fluxo interno entre os próprios
fazendeiros, obtido como resíduo ou renda líquida dessa classe. A
noção de fluxos de pagamento entre classes sociais, embora ainda
embrionária em Cantillon, conhecerá em François Quesnay grande
aprimoramento, em que um esquema bastante complexo dos fluxos
de recebimentos e gastos em cada setor será proporcionado pelo
Quadro econômico, sua principal obra.
OS FISIOCRATAS
Em meados do século XVIII aparece na França o primeiro
grupo de pensadores de questões econômicas organizado formal-
mente em escola. Eles intitulavam a si mesmos de “economistas”,
expressão não muito usual à época, mas vieram a se tornar
conhecidos como fisiocratas, adeptos da escola da fisiocracia. A raiz
da palavra fisiocracia significa “governo (ou regra) da natureza”, e
revela um aspecto fundamental da crença que os une, quer seja, a
ideia de que a sociedade e a economia funcionam de acordo com
uma ordem natural. Todos os fatos sociais e econômicos estão
intimamente ligados e sujeitos a leis inevitáveis. Sendo assim, tanto
o governo quanto o setor privado devem, em suas ações, entender
e observar tais leis se desejam alcançar resultados ótimos. A ordem
107
natural da sociedade apresenta, portanto, o caráter de um modelo
ideal, que não é estabelecido na prática quando os homens criam
obstáculos a seu bom funcionamento.
A natureza social é fruto do desígnio de Deus que a constrói
estabelecendo entre seus elementos relações matemáticas. Embora
a fé religiosa possa revelar o conteúdo da doutrina moral e política
que rege a sociedade, o entendimento da esfera econômica cons-
trói-se com base na observação dos fatos e da articulação dos dados
quantitativos fornecidos pelos preços em um sistema de cálculo
matemático. O trabalho do economista consiste na observação
metódica, bem como no arranjo e na organização dos fatos de
acordo com suas causas e na proposição de um sistema analítico
em modelo teórico. Assim, a ciência econômica copia o mesmo
método das ciências físicas. Seu objetivo precípuo é o de analisar a
mecânica da interdependência das partes que compõem uma
totalidade. A vida econômica configura uma máquina semelhante a
organismo vivo, e a análise mecânica e matemática dela permite à
teoria acompanhar seu modo de funcionamento.
A preocupação dos fisiocratas consiste em identificar os
princípios racionais que regem a produção e a acumulação de
riquezas, bem como a distribuição de renda e os fluxos de gastos.
No primeiro caso, enfatizam o processo de investimento produ-
tivo, pensado como adiantamento de capital de giro e emprego de
capital fixo. No que tange à geração de renda e de gastos, os
fisiocratas descrevem um processo anual de interação mútua entre
classes sociais como um fluxo circular de renda e despesa. A
compreensão do fluxo é importante, pois identifica o âmago do
funcionamento do sistema econômico em analogia aos fluxos
sanguíneos do organismo biológico. Os efeitos das políticas
intervencionistas podem ser antecipados pelo entendimento do
organismo econômico. A boa política deve procurar ampliar o fluxo
circular, o que impulsiona o crescimento econômico.
A produção e a distribuição de riquezas ocorrem ao longo de
um circuito composto por diversos elos. A política econômica, ao
afetar determinado elo, comunica um efeito à economia como um
todo. O fator-chave da atividade econômica é a agricultura. De fato,
na França do século XVIII a atividade agrícola era o setor mais
importante. O método capitalista de direção empresarial havia-se
difundido mais na agricultura, que se constitui assim no carro-chefe
da economia francesa. Refletindo a organização do trabalho vigente
na França do período, os fisiocratas vão identificar na agricultura o
setor natural para a implementação dos métodos capitalistas,
108
enquanto nas atividades urbanas veem a estrutura tipicamente
artesanal como a forma natural de gestão. O capitalismo é um
sistema de produção com base nas trocas de mercado que tem
como princípio de funcionamento a geração de excedente, sua
aplicação produtiva e sua ampliação.
O capitalismo pressupõe o direito de propriedade e, em sua forma
pura, não admite restrições a esse direito. No entanto, no plano da
ordem natural os fisiocratas argumentam que tal direito se deveria
fundamentar no trabalho humano despendido. Nesse ponto, os
fisiocratas seguem John Locke na defesa dos direitos individuais e no
uso deles para justificar a propriedade privada. Também defendem a
liberdade de mercado e acreditam que o autointeresse individual
esteja na base do funcionamento harmônico da economia. Os fisio-
cratas combatem as medidas intervencionistas do governo e têm
como máxima o conhecido bordão laissez-faire, laissez-passer, que
apela para a liberdade de produção (permitam que façam!) e de
comércio (deixai que passem!). A crítica ao controle da autoridade não
significa que os homens não tenham de se submeter a algum poder.
No entanto, tal poder, no caso, é a própria lei natural que se deve
observar para a consecução plena dos objetivos colimados.
O excedente é um conceito importante dos fisiocratas e signi-
fica a riqueza produzida que não é consumida. Os fisiocratas acredi-
tam que o excedente só ocorre na agricultura. Sendo o capitalismo
um sistema de geração de excedentes, somente na agricultura ocorre
a produção nos moldes capitalistas. Como este é o único setor que
gera mais do que é consumido no processo, ele é tido como o único
segmento produtivo. A atividade manufatureira apenas muda a for-
ma dos bens. É claro que por seu concurso os bens tornam-se mais
úteis, entretanto, só a agricultura é capaz de criar riqueza adicional.
O que confere um status privilegiado à agricultura é a ação,
exclusivamente nela, de forças naturais que ocorrem no campo e que
propiciam o crescimento do ser vivo: a planta que se desenvolve, a
árvore que floresce etc. O mesmo processo não é identificado na
indústria. O excedente é a apropriação dessas benesses da natureza.
Toda a fonte da riqueza advém do excedente, só ele contribui para a
formação do produto líquido (a produção que ultrapassa o consumo
no período).
A escola fisiocrata era formada por um grupo heterogêneo de
autores, dentre eles destacam-se:
1. Jacques Turgot: secretário de finanças de Luís XVI, autor de
reformas de inspiração liberal e propagandista da teoria do
direito natural. Muitos não o consideram fisiocrata, mas
109
somente um simpatizante do movimento. Turgot destaca-
se na análise do valor.
2. Marquês de Mirabeau: que cunhou, como vimos, a
expressão mercantilismo.
3. Mercier de la Rivière: uma das principais figuras, com farta
reflexão em filosofia política.
4. Du Pont de Nemours: migrou para os Estados Unidos e
ajudou a difundir as ideias fisiocratas por lá.
5. François Le Trosne: jurista e economista, o mais jovem do
grupo. Desenvolve em seus escritos uma análise do valor
em que considera fatores como utilidade, despesas na
produção, raridade do bem e concorrência.
6. Nicolas Baudeau: editor-chefe do jornal dos fisiocratas.
7. François Quesnay: o líder do movimento. Médico da corte
de Madame de Pompadour e Luís XV. Conheceu Smith
pessoalmente e influenciou-o com sua visão do processo
econômico. A sua obra Quadro econômico é a mais co-
nhecida da escola fisiocrata.
A contribuição dos fisiocratas insere-se nas críticas, muito em
voga na época, contra a política econômica de Luís XV. Impostos
opressivos eram cobrados da população para financiar os gastos
extravagantes da corte e o envolvimento em guerras que trouxe-
ram consequências desastrosas para o tesouro francês. No entanto,
os nobres e os membros do clero beneficiavam-se de isenções
fiscais, embora fossem donos de dois terços das terras. Os fisio-
cratas reagiam a esse estado de coisas. Acreditavam que o recei-
tuário de medidas mercantilistas levaria à ruína do reino. As
políticas para estimular as exportações resultaram no encolhi-
mento do mercado interno, dos salários e da renda gerada na
economia. A produção agrícola sofria com os impostos abusivos e,
mais grave, os impostos afetavam o crescimento econômico por
impedir a acumulação de capital.
A obra que melhor sistematizou a nova visão da economia e
que serviria como guia científico para a reforma econômica foi o
Quadro econômico (“Tableau Économique”) de Quesnay. Ele
percebeu que uma compreensão do processo de interação entre as
classes sociais por meio de fluxos de renda e despesas seria
fundamental para se restaurar a política econômica. Ele concebe a
sociedade por meio de três classes socioeconômicas:
110
1. Classe produtiva, formada basicamente por agricultores,
mas que poderia incluir também pescadores e minera-
dores.
2. Classe estéril, em que participam manufatureiros, merca-
dores, servos e profissionais liberais.
3. Proprietários de terra e de outros bens.
Alguns comentadores atribuem a Quesnay a primeira proposta
de se pensar a economia em termos de classes sociais e fluxos de renda
entre elas, mas já vimos que antes dele tal enfoque aparece em
Cantillon, embora no Quadro econômico ele esteja mais bem
desenvolvido.
Quesnay oferece uma complicada tabela numérica na qual
traça em zigue-zague os fluxos de renda e despesa agregadas entre
as classes. O fluxo circular da economia, representado por ela,
mostra como as despesas de um setor geram as receitas de outros,
dentro de um modelo fechado e estático. A origem das despesas é a
renda recebida pelos senhores de terra. Tal renda é o produto
líquido do período anterior pago no início do novo período pelos
fazendeiros. A renda total que emana dos fazendeiros movimenta a
atividade econômica das três classes ao longo do período, e no final
retorna a eles. A cada período, o processo se repete. Exempli-
ficando, suponhamos que o produto total da economia no fim do
período produtivo anual seja de cinco unidades monetárias que se
encontram inicialmente nas mãos da classe produtiva. O excedente
sobre os custos necessários para essa produção é o produto líquido
que é transferido para o pagamento de aluguel. Assim, duas
unidades monetárias são canalizadas integralmente aos proprie-
tários. O período seguinte começa com os proprietários gastando o
que têm, comprando $ 1 de manufaturas da classe estéril e $ 1 dos
mesmos fazendeiros na aquisição de alimentos. Os fazendeiros
adquirem $ 1 de manufaturas da classe estéril e $ 2 de alimentos
deles mesmos. Os artesãos e outros membros da classe estéril
gastam o rendimento adquirido no período comprando $ 1 de
alimentos e $ 1 de matérias-primas dos fazendeiros. Destarte, as
cinco unidades monetárias iniciais retornam à classe produtiva no
fim do período, como demonstra a Figura 4.1, na qual estão
representados os vários fluxos de rendas e despesas anuais.
111
Figura 4.1 Diagrama dos fluxos de rendas e despesas
identificadas por Quesnay.
114
Quadro 4.2 Representação dos fluxos monetários.
Quadro dos Fluxos Monetários
115
A elevação da renda da terra viria com a liberdade de comércio
e com as políticas de estímulo ao investimento agrícola. O efeito da
acumulação de capital seria a intensificação do fluxo circular, o
aumento da demanda por bens agrícolas e o consequente aumento
da renda agrária.
As medidas econômicas apregoadas pelos fisiocratas tiveram
algum prestígio na França, mas com o tempo sua importância
declinou rapidamente. O sistema teórico dos fisiocratas tinha
grande mérito, mas também apresentava falha gritante. Na
avaliação deste, aparece como importante contribuição os concei-
tos de excedente e de adiantamento, e ainda a noção correta de que
o crescimento econômico dependeria do volume de investimentos
em cada período. Outrossim, a ideia de que a carga fiscal deveria
penalizar menos a produção e mais o consumo dos proprietários
mostrou-se adequada para a época. Outras medidas que visavam
estimular a produção também se mostraram corretas, como o teto
legal dos juros, o fim das restrições à circulação de mercadorias e
outras. Por outro lado, pode-se destacar algumas falhas na análise
fisiocrata que seriam sanadas com a evolução da economia
científica.
Embora a questão do valor fosse objeto de análise de fisio-
cratas como Turgot e Le Trosne, o próprio Quesnay não propôs
nenhuma teoria do valor. Em consequência, seu sistema teórico não
atacou satisfatoriamente o problema da avaliação do excedente. O
resultado da produção era comparado aos insumos apenas em
termos físicos. Por vezes, o valor monetário do produto líquido era
calculado simplesmente com base nos preços de mercado. Na
ausência de uma teoria do valor consistente em Quesnay, o exce-
dente não era de fato explicado. Isso foi claramente percebido por
Adam Smith que tratou de desenvolver uma teoria do valor antes
de esquematizar uma teoria do crescimento apoiada na acumula-
ção de capital à la Quesnay.
Quesnay não incorporou, em seu sistema, a existência de juros
e nem um papel para o lucro dos capitais. Se o excedente gerado
com base nas inversões de capitais pertence ao proprietário de
terra, não se identifica a razão para o fazendeiro investir. Além das
deficiências conceituais, a teoria dos fisiocratas era repleta de
considerações normativas. Eles achavam que só a agricultura era
produtiva, pois, nessa visão, somente a produtividade da terra
explica a formação do excedente. Ora, sabemos que na indústria
também participam processos naturais, por exemplo, o ar permite
que a pintura de uma peça seque, a ação da eletricidade possibilita
116
a reação química etc. De fato, nos processos industriais também
ocorrem mudanças qualitativas e quantitativas dos insumos. Isto
não é prerrogativa apenas da agricultura. Os fisiocratas consideram
que a atividade industrial cria utilidades, mas, mesmo assim, não
seriam produtivas. No entanto, se as novas utilidades acrescentam
valor à mercadoria, também aí se pode falar em geração de
excedente e a atividade industrial seria produtiva. Outro argumen-
to criticável leva em conta a formação de preços nos mercados. Se
há algum grau de monopólio, mesmo a longo prazo, os preços ficam
acima do custo marginal, como nos ensina a teoria microeconômica
atual. Haveria um excedente de produção sempre que se verifique
um grau de monopólio, não importando tratar-se de atividade
agrícola ou manufatureira.
A concepção do sistema econômico como uma ordem com-
plexa, em que se verifica um amplo processo de interação entre as
partes constituintes em analogia a um corpo humano, é um
importante preceito da análise fisiocrata. No mais, ele confirma a
tendência do século XVIII de reconhecer uma ordem natural
subjacente aos fenômenos econômicos. A par de suas limitações
analíticas, a influência fisiocrata foi decisiva em Adam Smith, de
modo que podemos localizar também nessa escola o berço da
economia científica.
117
Questões
119
Leitura Adicional
Literatura Primária
Literatura Secundária
120
HANEY, Lewis H. History of economic thought: a critical account of
the origin and development of the economic theories of the
leading thinkers in the leading nations. New York: Macmillan,
1949.
121
122
5
Adam Smith
123
Antes de expor, em outra parte, as ideias-mestras de seu
pensamento econômico, esta seção trata de suas concepções no
campo da ética e da filosofia da ciência. O estudo da filosofia de
Smith dificilmente seria apoiado apenas na leitura de A riqueza das
nações. É que ele não explicita nela seus pressupostos filosóficos e
metodológicos. Mais revelador nesse sentido é o ensaio smithiano
cujo título já revela seu conteúdo: Os princípios que guiam e
conduzem a investigação científica ilustrados pela história da
astronomia. Smith escreveu tal ensaio ainda muito jovem, entre
1746 e 1748, com pouco mais de 20 anos de idade, embora ele só
tenha aparecido ao público 19 anos depois da publicação de A
riqueza das nações, obra da sua fase madura. O estudo do método
de Smith com base em ensaio de início de carreira pressupõe, é
claro, a tese de que ele tenha mantido uma continuidade de visão
ao longo da vida. Hipótese aceita pela maioria dos estudiosos.
Sabemos que ele era muito culto, que lera e escrevera em
diversas áreas. Quando ainda jovem, foi enviado a Oxford para
estudar; ao chegar lá não teve orientação precisa nos estudos e, em
consequência, acabou dispersando o foco de interesse em diversas
áreas do conhecimento. Com poucos compromissos formais,
passava o dia na biblioteca da faculdade de Balliol, ligada à
Universidade de Oxford, em contato com os principais clássicos
gregos e latinos e com a literatura científica da época, incluindo-se
as obras de Newton, Bacon e Descartes. Depois, Smith viria a
escrever textos em diversas áreas incluindo filosofia moral e
estudos de linguística, bem como tratados de estética, arte, litera-
tura e metodologia da ciência. O ensaio História da astronomia
mostra claramente a influência do método newtoniano. Como
Newton, Smith não acredita que o conhecimento científico possua
um substrato ontológico verdadeiro. A teoria científica não
representa a apreensão da verdade última das coisas como em
Aristóteles. Destarte, a atividade científica justifica-se como uma
necessidade psicológica para o cientista (ou filósofo, como Smith
referia-se a ele).
O fim último da filosofia (ou ciência) é o repouso e a tranqui-
lidade da imaginação do filósofo. Entretanto, nem todos os homens
são filósofos. Estes surgem apenas em sociedades evoluídas, está-
veis e seguras, nas quais já se nota certa divisão de trabalhos de
modo a liberar determinados indivíduos da preocupação com o
sustento material. Tais pessoas são treinadas a pensarem sobre a
natureza e têm suas mentes especialmente condicionadas para o
desenvolvimento de certos sentimentos que conduzem a uma
reflexão filosófica das coisas. Os filósofos possuem mentes sensí-
124
veis e irrequietas, movidas por uma mecânica que os compele à
busca de prazer associado ao apaziguamento da imaginação.
Enquanto a imaginação do homem comum é indolente e preguiço-
sa, a do homem educado é curiosa. Ela só encontra tranquilidade
quando descobre os elos invisíveis entre dois fenômenos aparen-
tes. Assim, os filósofos são mentes curiosas que procuram as
cadeias ocultas dos fenômenos. O homem comum, como um arte-
são, contenta-se com as aparências e nunca percebe a existência
dos elos ocultos entre os fenômenos. A causa da investigação
científica é a busca de uma ponte entre as aparências, mas tal ponte
não precisa ser verdadeira ou mesmo provável; basta que ela
funcione para apaziguar os sentimentos.
Smith analisa o funcionamento da mente do filósofo pelo
exame de três sentimentos que ocorrem sempre na mesma sequên-
cia: a surpresa, o espanto e a admiração. Essa descrição da mente
humana com base na mecânica de sentimentos psicológicos lembra
René Descartes, que em seu Tratado das paixões da alma aplicou os
métodos da física a fatos humanos. Nele, Descartes discorre sobre
o processo de descoberta científica como sendo movido pela ação
de uma paixão fundamental a que denomina admiratio. Smith
também descreve um mecanismo psicológico para a descoberta
científica. Ambos não pretendem adotar um modelo mecânico que
aproxime a mente da máquina. Mesmo Descartes não segue modelo
rigorosamente mecânico da mente, premido pelas tensões de certo
“dualismo metafísico” que consiste em separar a mente das várias
diferentes substâncias que preenchem todos os corpos, de modo
que ela jamais possa ser explicada como um sistema físico. Fora a
semelhança na descrição do funcionamento da mente, a teoria de
Smith, de fato, não se confunde com a de Descartes, distinguindo-
se principalmente na questão do método. Não aderindo ao raciona-
lismo cartesiano, Smith dava muita importância aos dados dos
sentidos e às observações dos fenômenos; mais próximo, portanto,
da tradição de Bacon e Locke.
Embora a observação empírica tenha um grande valor em
Smith, o critério decisivo para a emergência de novas teorias é a
ação dos três sentimentos já citados. Primeiramente a ocorrência
de um fato inesperado, que já sabíamos existir, mas que não
esperávamos encontrá-lo no momento em que ocorreu, desperta
no filósofo o sentimento de surpresa:
“Ficamos surpresos com aquelas coisas que temos visto
com frequência, mas que de modo algum esperamos encon-
125
trar no lugar onde efetivamente as encontramos [...]” (Adam
Smith, A história da astronomia)
Tomado pela surpresa, o filósofo passa a preocupar-se com o
fenômeno e descobre nele aspectos novos e singulares. A novidade
desperta o sentimento de espanto, um estado extremo em que a
mente é tomada por fortes inquietações.
“Espantamo-nos com todos os objetos extraordinários e
incomuns; com todos os fenômenos raros na natureza, com
meteoros, cometas, eclipses; com plantas e animais singulares
e com todas as coisas, em suma, sobre as quais tenhamos tido
pouca ou nenhuma informação anterior [...]” (ibidem)
A busca do restabelecimento da tranquilidade mental leva à
proposição de um novo sistema explicativo que dê conta do fenô-
meno inusitado. As aparências, até então estranhas e desconexas,
são integradas como consequência lógica de uma nova construção
explicativa. Destarte, a mente volta a repousar em sua tranquili-
dade e o novo sistema desperta o sentimento de admiração. A
admiração é estimulada por grandeza e beleza do quadro contem-
plado pela nova teoria. Quanto maior esse sentimento, mais se
podem julgar a teoria alternativa e os resultados da investigação
como melhores que na explicação anterior.
Os sentimentos não apenas se sucedem na ordem em que os
colocamos, eles ainda influenciam uns aos outros:
“Surpresa de prazer quando a mente está afundada em
mágoa ou surpresa de mágoa quando ela está exaltada de
alegria são desta forma as mais insuportáveis [...] Não somente
a aflição e a alegria, mas todas as outras paixões são mais
violentas quando os extremos opostos se sucedem uns aos
outros [...] Até mesmo os objetos externos para os sentidos
afetam-nos de uma maneira mais vívida quando os máximos
de opostos se sucedem ou são postos lado a lado. Um frescor
moderado pareceria um calor insuportável se sentido após um
frio extremo.” (ibidem)
Smith explica que o sentimento de espanto se torna menos
intenso conforme o evento original, que o originou, repete-se e o
observador a ele vai habituando-se, diminuindo assim a novidade:
“Um pai que perdeu muitos filhos imediatamente um após
o outro será menos afetado com a morte do último do que com
a do primeiro, embora a perda em si seja neste caso
indubitavelmente maior [...]” (ibidem)
126
O ensaio smithiano A história da astronomia consiste em
aplicar a dinâmica dos sentimentos assim identificados na expli-
cação de como os sistemas astronômicos foram, desde a Antigui-
dade, sucedendo-se uns aos outros. Temos o antigo sistema grego,
substituído por Ptolomeu, Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e
Newton. Cada sistema, uma vez proposto, vai tornando-se mais
complexo para salvar as aparências. Até que já não consegue mais
tranquilizar a imaginação como antes. O sentimento de espanto
leva os astrônomos a propor novo modelo. As teorias astronômicas
são ficções para tranquilizar a imaginação.
A principal influência exercida sobre Smith em sua aborda-
gem da história da astronomia advém de David Hume. A teoria do
conhecimento de Hume, apresentada no Tratado da natureza
humana de 1739, também analisa o funcionamento da mente no
processo de aquisição de conhecimento. Hume discorre sobre as
paixões e caracteriza a mente humana como uma máquina
psicológica complexa. Ao contrário de Descartes, Hume acredita
que as ideias não são inatas e que o trabalho do intelecto consiste
em relacionar fatos assimilados pelos sentidos e pela experiência.
As assertivas sobre as propriedades reais dos objetos externos não
podem ser demonstradas verdadeiras. Hume é céptico com relação
às pretensões do empirismo baconiano em obter a verdade das
coisas da observação de fatos. Lança então o famoso “problema de
Hume” que contesta a possibilidade de firmar a certeza de uma lei
universal. É suficiente para a ciência propor enunciados respal-
dados no que a observação veio a transformar em hábito. Admite-
se, portanto, a inevitabilidade da ignorância humana em conhecer
o âmago das coisas. Isso é próximo ao método newtoniano.
Smith nutria grande admiração por Hume e é certo que é do
programa deste que ele segue a estratégia de entender a empresa
científica com base em considerações sobre a natureza humana,
sob a hipótese de que tal natureza seja única, mesmo entre homens
separados no tempo e no espaço. Hume, antes de Smith, destaca o
papel da imaginação na teoria do conhecimento.
O método newtoniano, que influenciou Hume e Smith, consiste
na busca de princípios que possibilitam identificar uma ordem
subjacente a fenômenos aparentemente caóticos. Os princípios em
si mesmos não precisam ser verdadeiros, mas funcionam como
uma convenção psicológica que permite salvar as aparências e, com
isso, tranquilizar a imaginação.
Curiosamente o próprio Newton preocupou-se, em certo mo-
mento de sua vida, com questões econômicas. Ele foi diretor da
127
Casa da Moeda da Inglaterra em 1717 e deve-se a ele a primeira
tentativa de estabelecer um preço oficial para o ouro em 85 xelins
por onça. Smith leu muito do que escrevera Newton e na História
da astronomia conclui o ensaio com uma descrição entusiasmada
das descobertas da física newtoniana. Smith gostava de matemática
e de “filosofia natural”. Newton e Smith compartilham o mesmo
método de raciocinar em ciência, que toma os princípios elabora-
dos pela intuição e apoiados na indução de fenômenos e depois,
com base neles, deduz novos fenômenos. Ambos mantêm o
ceticismo quanto ao realismo das premissas. Newton sempre
trabalha da mesma maneira: antes da apresentação da teoria lista
fenômenos já conhecidos, conforme se constata diversas vezes nas
partes iniciais em cada um dos livros que compõem os Princípios.
Os fenômenos justificam a proposição de princípios teóricos dos
quais são deduzidos novos fenômenos. A natureza última dos
princípios não importa, nem seu conteúdo de verdade. Sobre a
força da gravidade, Newton afirma que:
“Para nós é suficiente que a gravidade atue de acordo com
as leis que nós temos explicado e sirva, com sucesso, para dar
conta de todos os movimentos dos corpos celestes e do mar.”
(Isaac Newton, Princípios matemáticos da filosofia natural)
Em analogia às leis gerais dos movimentos dos corpos na física,
Smith concebe leis gerais na economia. Na Riqueza das nações,
começa dizendo que a divisão do trabalho é o resultado necessário
da propensão humana a trocar uma coisa por outra. A propensão
humana à troca é pensada como um princípio que, ao ser desdo-
brado em suas consequências pela teoria, irá explicar a causa da
riqueza das nações. Tal princípio econômico deve ser pensado
como uma lei natural. No entanto, Smith não se propõe a deter-
minar se a propensão à troca é, ela mesma, um princípio original da
natureza humana ou se é uma consequência das faculdades da
razão e da fala. Conclui Smith dizendo que essa questão “não
pertence ao presente objeto de estudo”. Nenhuma tentativa de
provar a veracidade do princípio em questão é feita por Smith, pois,
no espírito do método newtoniano, é necessário tão somente postu-
lar sua existência e demonstrar como sua articulação no modelo
teórico conduz a conclusões que dão conta de explicar a realidade
aparente.
Em suma, o método comum em Newton e Smith pode ser
sintetizado da seguinte forma: começa-se com um princípio, ou
poucos princípios básicos, que são inferidos no processo de expli-
cação de casos mais ou menos triviais. Em seguida, tenta-se explicar
128
o mundo dos fatos observáveis, buscando-se mostrar como tais
fatos são derivados desses princípios. Os eventos são classificados
(na Riqueza das nações as várias formas de remuneração dos
agentes são classificadas em salários, lucro e renda) e as classes de
eventos são vistas como resultado do jogo de princípios. A teoria
procura elaborar um sistema no interior do qual operam os
princípios elementares, de tal forma que fenômenos que pareciam
os mais inexplicáveis são todos deduzidos com base nos princípios
e atados a uma única cadeia. A teoria é julgada pelo poder preditivo,
em adição conta também elementos estéticos tais como simplici-
dade, coerência e beleza. Em todo caso, ela é sempre uma invenção
de uma imaginação particular que poderá eventualmente também
cativar a imaginação dos demais.
Em seu nascimento como ciência, o fenômeno econômico é
pensado como uma ordem natural tratada pelos mesmos métodos
da física. Isso, como vimos, já está bem sedimentado mesmo entre
os precursores de Smith. A construção teórica do sistema, no
entanto, requer a especificação de hipóteses comportamentais dos
agentes. O modelo parte da ideia de indivíduos autointeressados.
Ora, vimos no capítulo anterior que os filósofos éticos ingleses
procuram conciliar essa premissa com as qualidades morais que
acreditam existir na espécie humana. A solução proposta por eles
enfraquece a hipótese exclusiva do egoísmo, pois veem a conduta
humana como resultante de um jogo de paixões egoístas e altruís-
tas.
Vejamos a questão ética em Smith. Primeiramente há de se
notar certa continuidade entre a filosofia moral de Smith e a de seu
antigo professor em Glasgow, Francis Hutcheson (1694-1746),
também entre Smith e David Hume, de quem desfruta de íntima
amizade. Hutcheson segue a filosofia do direito natural, na linha de
Locke, e acredita que o homem é naturalmente dotado de um senso
moral. Os homens possuem paixões altruístas, mas também egoís-
tas e elas são reconciliadas, na determinação da conduta humana,
pela intervenção de um senso de autoestima que atenua a
propensão individual para ações egoístas. Hume fala que a correção
moral da conduta humana depende de julgamentos que nós e os
outros fazem de nossas ações. A moral humeana aproxima-se das
outras concepções da época por ser, também ela, teleológica. No
caso, porém, os efeitos repercutidos da ação ou os fins decorrentes
dependem, se ela for um bem moral, da aprovação dela não só da
parte de quem a pratica, mas por todos os demais. A importância
do julgamento de terceiros é expressa em um sentimento a que
denomina de “simpatia”.
129
Smith, em seu sistema ético, confere papel primordial ao
sentimento de simpatia. Em seu famoso livro de 1749, a Teoria dos
sentimentos morais, começa descrevendo o homem como uma
criatura dotada de um conjunto de propensões básicas a que
denomina de paixões. Há as paixões do amor sensual e paterno e
outras não tão agradáveis como o ódio e o ressentimento. Há ainda
uma lista de boas paixões a que denomina de paixões sociais, tais
como a generosidade, a compaixão e a amizade. Há também espaço
para as paixões egoístas. As paixões tendem a contrapor-se e a
equilibrar-se em um balanço estável feito em cada um de nós. O
equilíbrio das paixões internamente se reproduz no plano social,
suposto um sistema em harmonia. O controle particular das
paixões é compelido em cada homem pelo princípio da simpatia, já
presente na teoria moral de Hume. Quando percebemos a desa-
provação de nossas condutas, isso desencadeia sentimentos desa-
gradáveis que procuramos eliminar corrigindo a conduta de modo
a atrair para nós sentimentos de aprovação. O homem virtuoso
observa o juízo que os outros fazem dele e está a ajustar constan-
temente seu comportamento de modo a vir a “ocupar um lugar de
honra na mente do semelhante”.
Quando Smith descreve a mecânica dos mercados que move o
sistema econômico na Riqueza das nações, apresenta os homens
como sendo impulsionados a todo momento por um cálculo egoísta
de maximização de riqueza. Esse aparente paradoxo entre o agente
egoísta da Riqueza das nações e o homem ético da Teoria dos
sentimentos morais aparece na literatura como o “problema de
Adam Smith”. Não cabe aqui uma discussão prolongada da questão.
Parece que há, hoje em dia, uma opinião amplamente aceita de que
não se trata de uma contradição de uma obra com outra. A maneira
de reconciliar os dois enfoques é notar a distinção estabelecida por
Smith entre as motivações e os efeitos concretos das condutas
humanas. No plano abstrato da teoria moral, o mérito da ação é
julgado pela intenção do agente, no entanto, nas circunstâncias
concretas da sociedade, as consequências efetivas da ação exercem
uma poderosa influência no julgamento da ação. A condutas que
produzem prazer são avaliadas independentemente das intenções
originais. A busca exclusiva da riqueza, por exemplo, embora não
tenha mérito intrínseco, produz o feito de angariar aprovação dos
demais pelos efeitos benéficos que a riqueza pessoal produz na
sociedade. Os homens buscam a riqueza a fim de ostentarem
símbolos de status social e obter a admiração e o respeito dos
demais. Os homens, porém, ao procurarem seguir tal estratégia,
não se destacam realmente da multidão e a posição de honra que
130
vierem a ocupar terá sempre um caráter efêmero. Contudo, na
prática, o limite da razão humana compele os homens a cometerem
o mesmo erro sistematicamente. E assim temos um sistema
econômico movido pelo autointeresse.
133
como diziam os críticos espanhóis (na verdade uma reação deses-
perada contra ideias liberais contidas na obra).
Em 1777, Smith é nomeado para um alto cargo na adminis-
tração aduaneira escocesa e 10 anos depois se torna reitor na
Universidade de Glasgow. Coberto de glórias, morre em 1790, aos
67 anos.
137
teoria do crescimento focalizando a evolução econômica da huma-
nidade. Os livros IV e V contêm proposições normativas em termos
de legislação e política econômica. Lá estão a crítica aos funda-
mentos da política comercial e colonial mercantilista e o elogio à
escola da fisiocracia (livro IV), bem como questões de tributação,
política fiscal, dívida pública (livro V), em que se discutem os prós
e contras da intervenção do Estado na economia em diferentes
áreas.
Vejamos, em detalhe, o conteúdo do livro I. Ele está dividido
em 11 capítulos. O capítulo 1 discorre sobre a divisão do trabalho.
Começa dizendo que a divisão do trabalho aumenta suas forças
produtivas. Ora Smith refere-se à divisão dele na economia geral da
sociedade, ora trata da maneira como a divisão do trabalho opera
em certas manufaturas. Smith fala tanto em divisão social do
trabalho quanto em sua divisão no interior de uma unidade produ-
tiva. Ilustra seu ponto de vista com a observação de uma pequena
manufatura de alfinetes (Boxe 5.1).
138
A divisão da fabricação de alfinetes em setores com trabalha-
dores especializados provoca grande aumento na produtividade.
Argumenta que a diferenciação das ocupações e dos empregos,
principalmente em sociedades mais evoluídas, produz aumento
nas forças produtivas do trabalho. A divisão do trabalho é menor
na agricultura, pois aqui os diferentes tipos de trabalho estão
associados às estações do ano, de modo que é impossível empregar
um único homem em cada uma das oportunidades de trabalho nela.
É por isso que, argumenta Smith, as diferenças de produtividade
entre nações ricas e pobres são menores na agricultura e maiores
na manufatura, em que são muitas as possibilidades na
especialização de tarefas.
Smith explica por que a pessoa é capaz de realizar mais traba-
lho com a divisão do trabalho. Enumera três fatores: a maior
destreza alcançada pelo trabalhador especializado, a economia de
tempo ao se passar de um trabalho a outro e a invenção de
máquinas (Boxe 5.2). Nem sempre é o trabalhador especializado
que propõe inovações nas máquinas que emprega. Também contri-
buem para as novas invenções o engenho dos fabricantes de máqui-
nas que utilizam o trabalho de “filósofos ou pesquisadores, cujo
ofício não é fazer as coisas, mas observar cada coisa.” (Adam Smith,
A riqueza das nações)
140
A passagem é bastante explícita em apontar que, nas trocas de
mercado, os homens visam a seu autointeresse. A existência de um
mercado para as trocas é um requisito para a divisão do trabalho,
pois os homens só se especializam naquilo que fazem melhor
sabendo que poderão trocar o excedente da produção.
Platão acredita que os indivíduos possuem, desde o nasci-
mento, diferentes aptidões e que cada um se entrega ao trabalho
que atende melhor a essas aptidões. Então, a diferença entre as
pessoas está na base da divisão do trabalho. Smith discorda
radicalmente dessa visão. Para ele, as pessoas não são natural-
mente diferentes, é a propensão para a troca que, ao longo do
tempo, acentua as diferenças. Já os animais são bastante diferen-
ciados entre si e, no entanto, não podem usufruir dessas diferen-
ças.
Smith identifica no capítulo 3 fatores limitativos para a divisão
do trabalho. Como esta depende da possibilidade de se trocar o
excedente da produção, o tamanho do mercado aparece como um
impedimento para a extensão da divisão do trabalho. É por isso que
no campo, exemplifica Smith, o carpinteiro é também marceneiro,
o ferreiro ainda faz pregos etc. Meios de transporte adequados e
baratos facilitam a divisão do trabalho. Onde os transportes foram
facilitados por condições geográficas, tais como rios navegáveis e
acesso ao mar, surgiram as grandes civilizações. De fato, os povos
do mediterrâneo beneficiaram-se de facilidades de navegação. O
progresso e o aprimoramento do Egito muito se devem à navegação
interna do Nilo. Bengala, na Índia, conta com o rio Ganges. Pontos
remotos do interior e regiões que não oferecem facilidades de
transporte, como no interior da África e norte da Ásia, não
possibilitam comércio internacional e seus povos permanecem em
estado de barbárie.
O capítulo 4 apresenta uma breve história sobre “a origem e o
uso do dinheiro”. A parte principal do capítulo reconstitui, por meio
de uma história analítica, como o dinheiro veio a se tornar o
instrumento universal do comércio. Na parte final do capítulo,
discute-se o “paradoxo do valor”. Vejamos o primeiro aspecto.
Smith começa apontando que, com a divisão do trabalho, a maioria
das pessoas conta com as trocas de mercado para satisfazer a
muitas de suas necessidades. Assim é como se todos fossem
comerciantes, caracterizando a moderna sociedade comercial
(Smith não emprega o termo “capitalismo”). De início, antes da
disseminação do dinheiro, havia grandes problemas para efetivar-
se as trocas, pois, só há troca caso haja coincidência de neces-
141
sidades e de interesses. Buscou-se então possuir uma mercadoria
amplamente aceita, além da mercadoria produzida pelo próprio
indivíduo em questão. Historicamente temos gado, sal, açúcar,
peles, couros e até pregos (como de uma observação sua no interior
da Escócia) como sendo a mercadoria dinheiro. Aos poucos, a
função de instrumento de troca acabou fixando-se nos metais, que
são imperecíveis e subdivisíveis. Ferro, cobre, ouro e prata, descre-
ve Smith, serviram cronologicamente como dinheiro. De início o
metal era ofertado em barras brutas. Dado o inconveniente da
pesagem e da verificação da autenticidade, optou-se por dinheiro
cunhado ou moeda com gravação cobrindo os dois lados da peça e
as laterais, de modo a garantir o peso e o teor metálico da moeda.
O próprio nome da moeda, de início, expressava peso ou quan-
tidade de metal, como a libra inglesa: libra é medida de peso
também. Smith conta que alguns reis diminuíam propositalmente a
quantidade de metal na moeda, em prejuízo dos credores e ganho
dos devedores. Em suma, é esta pequena história do dinheiro que
nos conta Smith.
No final do capítulo, Smith apresenta a questão fundamental:
quais as normas que as pessoas observam ao trocarem suas
mercadorias por dinheiro ou por outras mercadorias? Smith está a
discutir as regras que determinam o valor relativo ou o valor de
troca dos bens. Nota ele que a palavra “valor” possui dois signi-
ficados: a utilidade de determinado objeto, ou seja, o valor de uso,
e o poder de compra que o referido objeto possui, o valor de troca.
Observa Smith que, em geral, objetos com elevado valor de uso
possuem baixo valor de troca e vice-versa; cita o caso da água e do
diamante. Após contrapor os conceitos dessa maneira, Smith diz
que a preocupação da economia política deve recair no valor de
troca, e anuncia o enfoque dos capítulos subsequentes, que será o
de investigar os princípios que regulam o valor de troca. Antecipa
duas questões básicas:
1. Qual a medida real do valor de troca, ou seja, no que consiste
o preço real de uma mercadoria?
2. Quais as partes ou componentes que constituem o preço real
das coisas?
O preço que realmente o objeto vale é seu preço natural. Os
preços que se verificam nas situações dos mercados são os preços
de mercado, que no longo prazo se aproximam do preço natural.
Diversas observações podem ser feitas dessa passagem de
Smith, voltaremos a comentá-la em outras partes de nosso livro.
Não é muito compreensível qual a utilidade de se contrapor os
142
conceitos de valor de uso e valor de troca. São coisas diferentes, por
certo, mas não decorre que estejam em posição paradoxal. A
relação entre esses dois conceitos requer a análise marginalista que
não estava ao alcance da época. O fato de o bem possuir alto valor
de uso e baixo valor de troca não deve ser moralmente condenado.
O tom de Smith, porém, passa essa impressão. Smith deixa claro que
o que ele procura não é exatamente o fundamento analítico do
valor, mas apenas uma forma de medi-lo. O uso da palavra “natural”
para os preços é um modismo da época em que a expressão
“natural” vinha carregada de conteúdos normativos.
A riqueza das nações procurou seguir os passos metodológi-
cos dos Princípios de Newton. A ideia de identificar princípios
fundamentais subjacentes ao fenômeno e de tentar reconstituir
uma ordem por trás da aparência caótica, de modo a mostrar como
os elementos são coordenados por esses princípios, é típica no
método de Newton. A riqueza das nações identifica certos princí-
pios básicos, tais como a propensão para as trocas, a divisão do
trabalho e o autointeresse (observada a moral e os costumes), e
com base neles articula um esquema explicativo que mostra o jogo
aparente dos fatos como decorrência lógica da aplicação desses
princípios.
Os capítulos de 5 a 7 mostram a essência da teoria smithiana
do processo de mercado e o esquema básico para sua interpre-
tação dos preços. Nesses capítulos, Smith desenvolve sua teoria
rudimentar do equilíbrio, uma de suas melhores contribuições em
teoria econômica. A teoria dos preços é o ponto de partida da
análise econômica feita por Smith. Trata-se de uma teoria de
equilíbrio estático que já estava presente em autores anteriores
que disseram algo a respeito do mercado. Nesse sentido, não houve
muito avanço em relação a seus contemporâneos.
No capítulo 5, apresentam-se os conceitos de preço real e
preço nominal. Smith associa o preço real da mercadoria à ideia de
valor. Se o homem é rico ou pobre conforme a quantidade de
serviço alheio que está em condições de encomendar ou comprar,
o valor de uma mercadoria é a quantidade de trabalho que ela
permite comprar ou comandar. Assim, o trabalho é a medida real
do valor de troca de todas as mercadorias. Smith não está dizendo
que valor de troca é trabalho, mas que este pode ser usado como
medida daquele. Ter uma medida do valor é tudo que Smith
necessitava para sua análise posterior do crescimento econômico.
Smith representa uma volta a Alberto Magno, séculos atrás, ao
afirmar que o preço real de um bem é o incômodo que custa a
143
aquisição dele. Fundamentar o valor exclusivamente no lado dos
custos é uma visão unilateral que não corresponde à moderna
compreensão dos preços. No entanto, essa unilateralidade já havia
ganhado certa reputação entre autores de língua inglesa, especial-
mente sob influências de W. Petty e R. Cantillon, que popularizaram
a ideia no ambiente britânico. Smith apenas segue a corrente. A
escola clássica irá refinar essa interpretação do valor.
Avaliar o valor das mercadorias pela medida do trabalho
apresenta algumas dificuldades práticas. Primeiramente a medida
do trabalho deve levar em conta não apenas o tempo gasto, mas as
diferentes qualidades de trabalho, o grau de dificuldade e de
engenho em cada caso. Em segundo lugar, não se troca, na prática,
mercadoria por trabalho (M-T), mas as mercadorias são trocadas
umas pelas outras (M-M’) ou se mede o valor de troca de M pela
quantidade de dinheiro D (M-D-M’). No entanto, o dinheiro possui
certas inconveniências. Se for o caso de se usarem ouro e prata
como tal, as variações no valor do ouro e da prata implicam que a
mesma quantidade deles pode ora comandar mais trabalho, ora
uma quantidade menor dele. O valor dos metais depende da oferta
e do trabalho para trazê-los ao mercado, e, assim, o valor de uma
unidade deles é, em si mesmo, variável. Somente o trabalho
humano, assevera Smith, não varia seu valor. O dinheiro mede
apenas o preço nominal das coisas, o preço real é medido
precisamente em quantidades de trabalho e o valor do trabalho não
varia (Boxe 5.3).
Para o trabalhador, o preço do trabalho é o dispêndio de
energia de uma dada tarefa e, fixada esta, ele é sempre o mesmo. O
preço do trabalho varia para o empregador, mas na verdade são os
bens que se tornam mais ou menos caros. Isso porque o trabalho é
pago em bens. Na prática, utiliza-se alguma mercadoria eleita para
medir os valores. No longo prazo, os valores estimados em trigo são
mais estáveis que aqueles avaliados em ouro ou prata. A relação
entre quantidade de trabalho e quantidade de trigo é mais estável,
até porque as quantidades de trigo funcionam como bom indicador
do preço real em trabalho que deve remunerar a subsistência do
trabalhador. Como o trigo é o principal bem para essa subsistência,
ele guarda certa proximidade com quantidades de trabalho. Já os
metais são instáveis em seu valor, pois mudanças nas condições de
sua oferta induzem variações do valor, e, mantendo-as fixas, redu-
ções da quantidade de ouro e prata contida nas moedas resultam
em alterações nos valores delas. No entanto, o valor real de uma
renda em trigo varia muito no curto prazo; sendo assim, a moeda
metálica funciona melhor para transações de curto prazo. Smith
144
conclui dizendo que no mesmo tempo e lugar o dinheiro é medida
exata do valor real de troca de um bem. Fica claro ser essa medida
apenas aproximação no curto prazo e em pequenas distâncias.
Smith escreve: “Pode-se dizer que quantidades iguais de trabalho têm valor
igual para o trabalhador, sempre e em toda parte. Estando o trabalhador em
seu estado normal de saúde, vigor e disposição, e no grau normal de sua
habilidade e destreza, ele deverá aplicar sempre o mesmo contingente de seu
desembaraço, de sua liberdade e de sua felicidade. O preço que ele paga deve
ser sempre o mesmo, qualquer que seja a quantidade de bens que receba em
troca de seu trabalho. Quanto a esses bens, a quantidade que terá condições de
comprar será ora maior, ora menor; mas é o valor desses bens que varia, e não
o valor do trabalho que os compra. Sempre e em toda parte valeu este princípio:
é caro o que é difícil de se conseguir, ou aquilo que custa muito trabalho para
adquirir, e é barato aquilo que pode ser conseguido facilmente ou com muito
pouco trabalho. Por conseguinte, somente o trabalho, pelo fato de nunca variar
o seu valor, constitui o padrão último e real com base no qual se pode sempre
e em toda parte estimar e comparar o valor de todas as mercadorias. O trabalho
é o preço real das mercadorias; o dinheiro é apenas o preço nominal delas.”
(Adam Smith, A riqueza das nações)
146
Existe, outrossim, em cada sociedade ou nas suas proxi-
midades uma taxa média de renda da terra, também ela
regulada – como demonstrarei adiante – em parte pelas cir-
cunstâncias gerais da sociedade ou redondeza na qual a terra
está localizada, e em parte pela fertilidade natural da terra ou
pela fertilidade conseguida artificialmente.
Essas taxas comuns ou médias podem ser denominadas
taxas naturais dos salários, do lucro e da renda da terra, no
tempo e lugar em que comumente vigoram.” (Adam Smith, A
riqueza das nações)
Cada componente do preço tem sua taxa natural e a somatória das
taxas naturais de salário, lucro e renda da terra determinam o preço
natural. Tal preço funciona como um ponto de equilíbrio ou uma
condição de longo prazo. No curto prazo os preços efetivamente
observados no mercado, os preços de mercado, oscilam em torno do
preço natural. Note que a explicação de Smith dos preços não é apenas
microeconômica. Como se depreende da citação anterior, as taxas
naturais dependem não apenas “da natureza específica de cada
emprego ou setor de ocupação”, de seus aspectos técnicos, mas também
da situação macroeconômica.
Smith apresenta um excelente tratamento de como os preços
fora do equilíbrio alcançam os valores naturais. Para tanto, define
o conceito de demanda eficaz, que leva em conta o papel dos
indivíduos que desejam pagar o preço natural do bem. A oferta é
inelástica e corresponde a uma quantidade fixa colocada no
mercado. Graficamente, no plano que relaciona preços p com
quantidades x da mercadoria, a demanda eficaz é um ponto que
corresponde à quantidade total demandada ao preço natural
(Figura 5.2).
147
Se ao preço natural a quantidade ofertada estiver abaixo da
demanda eficaz, o preço de mercado sobe acima do preço natural,
tanto mais quanto menor a oferta em questão (Figura 5.3).
Como efeito do aumento de preços, alguns demandantes
deixam o mercado, só restando os que aceitam pagar o preço de
mercado acima do valor natural. Ao mesmo tempo, preços elevados
atraem novos ofertantes, de modo que à medida que ocorre o
processo de arbitragem entre mercados, os negócios deslocam-se
em direção ao mercado em questão, contribuindo para o aumento
da oferta, em adição, tem-se a ampliação da oferta, pelo estímulo
dos preços, por parte dos que já se encontravam neste mercado. A
resultante desses movimentos é o deslocamento para a direita da
oferta, até que o equilíbrio de longo prazo seja novamente
restabelecido ao preço natural.
148
já que o fluxo de capitais entre mercados trata de explorar
eventuais discrepâncias na busca de lucro maior.
150
“Não é a extensão efetiva da riqueza nacional, mas seu
incremento contínuo, que provoca uma elevação dos salários
do trabalho. Não é, portanto, nos países mais ricos, mas nos
países mais progressistas, ou seja, naqueles que estão se
tornando ricos com maior rapidez, que os salários do trabalho
são os mais altos. A Inglaterra é certamente, no momento, um
país muito mais rico do que qualquer outra região da América
do Norte. No entanto os salários do trabalho são mais altos na
América do Norte do que em qualquer parte da Inglaterra.”
(Adam Smith, A riqueza das nações)
Smith diz que quando os salários estão elevados as famílias
procriam mais e que “o indício mais claro da prosperidade de um
país é o aumento do número de seus habitantes.” (ibidem)
Mesmo que o país seja rico, se os fundos destinados aos
trabalhadores forem constantes ao longo do tempo, em breve não
existirá escassez de mão de obra e os salários cairão até a subsis-
tência. A sociedade regride a uma condição de pobreza mesmo que
um dia tenha alcançado considerável riqueza. Smith ilustra essa
ideia com a descrição do caso da China. Essa passagem também
revela, mais uma vez, o talento literário de Smith e como em certas
partes da obra há um tom dramático a ilustrar suas ideias (Boxe
5.4).
Smith também cita o caso da Índia, pior que o da China, pois lá
os fundos destinados aos trabalhadores não apenas deixaram de
crescer como também regrediram.
Na Inglaterra, os salários permanecem bem acima do nível de
subsistência, e como prova disso Smith argumenta que, nesse país,
variações nos preços dos mantimentos não afetam o valor dos
salários e que muitas vezes preços e salários caminham em
direções opostas. Há de se considerar também que, na ilha, há
grande diferença de salários, explicada, em parte, pela dificuldade
de se transportarem pessoas de um lugar a outro.
Smith oferece uma interpretação bastante plausível da relação
entre pobreza e crescimento da população. Argumenta que nos pobres
a fecundidade é maior, mas a proporção dos que chegam à maturidade
é menor que nos ricos. Assim, os salários não representam um freio
nas taxas de nascimento, mas, no longo prazo, estão sempre a limitar
a população trabalhadora pelas altas taxas de mortalidade que
ocorrem quando as rendas são baixas.
151
Boxe 5.4 A miséria da China.
Smith escreve: “A China foi por muito tempo um dos países mais ricos, isto
é, um dos mais férteis, mais bem cultivados, mais industriosos e mais populosos
do mundo. Ao que parece, porém, há muito tempo sua economia estacionou.
Marco Polo, que a visitou há mais de quinhentos anos, descreve sua agricultura,
sua indústria e densidade demográfica mais ou menos nos mesmos termos em
que são descritos por viajantes de hoje. Talvez tivesse conseguido aquele
complemento pleno de riqueza que a natureza e as leis e instituições permitem
adquirir. Os relatos de muitos viajantes, contraditórios sob muitos outros
aspectos, concordam em atestar a baixa taxa de salários e as dificuldades que
um trabalhador tem para manter sua família na China. Ele se satisfaz se, após
cavar o solo um dia inteiro, puder conseguir o suficiente para comprar uma
pequena porção de arroz à noite. A situação dos artesãos é ainda pior, se é que
é possível. Em vez de esperar indolentemente pelos chamados dos clientes nas
oficinas, como acontece na Europa, circulam continuamente pelas ruas
empunhando os instrumentos de seu ofício, oferecendo seu serviço, e quase
mendigando emprego. A pobreza das camadas mais baixas do povo chinês
supera de muito a das nações mais pobres da Europa. Nas adjacências de Cantão
afirma-se que muitas centenas e até milhares de famílias não têm moradia,
vivendo constantemente em pequenos barcos de pesca nas margens dos rios e
dos canais. A subsistência que ali encontram é tão escassa, que ficam ansiosos
por apanhar o pior lixo lançado ao mar por qualquer navio europeu. Qualquer
carniça, por exemplo, a carcaça de um cachorro ou gato morto, embora já em
estado de putrefação e fedendo, é para eles tão bem-vinda quanto o alimento
mais sadio para as pessoas de outros países. O casamento é estimulado na China,
não porque ter filhos represente algum proveito, mas pela liberdade que se tem
de eliminá-los. Em todas as grandes cidades, várias crianças são abandonadas
toda noite na rua, ou afogadas na água como filhotes de animais. Afirma-se até
que eliminar crianças é uma profissão reconhecida, cujo desempenho assegura
a subsistência de certos cidadãos.” (Adam Smith, A riqueza das nações)
152
futuro e os salários aumentarão, se o salário está acima do
necessário para a reprodução, a oferta de trabalho se ampliará e os
salários cairão no futuro. A demanda por trabalhador, como por
todas as outras mercadorias, regula a produção de homens. No
entanto, Smith não é explícito em como as taxas de salário se
formam entre uma geração e outra. Os salários podem ficar
indefinidamente acima do nível de subsistência se o estoque de
capital crescer sempre a taxas superiores à evolução demográfica.
Em suma, Smith não chega a uma teoria de salários de equilíbrio.
Não se pode dizer que o nível de subsistência seja o valor de
equilíbrio pensado por ele.
Chamam a atenção nesse capítulo outras considerações de
Smith sobre os salários. Ele já introduz o que modernamente se
conhece por “teoria do salário eficiência”: como o desempenho do
trabalho é afetado pelo salário percebido (Boxe 5.5).