Departamento de Patologia e Medicina Legal
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo
PATOLOGIA DO
ESÔFAGO
Mariângela Ottoboni Brunaldi
Ribeirão Preto
2020
Esôfago Normal
Anatomia: 3 pontos de estreitamento da luz: cartilagem
cricóide; adjacente ao arco Aórtico e inferiormente onde
atravessa o diafragma.
Duas áreas de alta pressão: Esfincter Esofágico Superior
(EES) e Esfíncter Esofágico Inferior (EEI)– esfíncteres
fisiológicos superior e inferior.
Categoria das Doenças Gastrointestinais
Relacionadas ao:
Desenvolvimento
Motor e Mecânica
Vascular
Infecções
Químicas e drogas
Idiopáticas
Imunológicas
Depósitos
Tumorais
Reações teciduais: resposta epitelial a injúria: efeitos
agudos da degeneração e regeneração; metaplasias,
displasia e neoplasia.
Classificadas:
Aguda com ou sem reparação
Crônica
Quiescentes
Obstrução esofágica
Estruturais/ Mecânicas
Estenose
benigna
Estenose por refluxo
Anéis esofágicos Câncer
Refluxo
Gastroesofágico
Irradiação
Lesão cáustica
Anéis esofágicos
ANÉIS ESOFÁGICOS ou anéis de Schatzki
- Circunferenciais - Placas concêntricas de tecido que se projetam para dentro da luz do
esôfago.
-Consistem de mucosa, submucosa e, ás vezes, muscular hipertrófica.
-Anéis A- acima da junção gastro-esofágica , recoberto por mucosa escamosa.
-Anéis B- na junção escamocolunar, do esôfago inferior, podem ser recobertos por
epitélio colunar gástrico na sua superfície inferior.
-Disfagia.
-Etiologia desconhecida.
Acalasia
Fisiologia normal
A liberação de óxido nítrico e polipeptídios vasoativos intestinais dos neurônios
inibitórios, juntamente com a interrupção da sinalização colinérgica normal, permite que
o EEI relaxe durante a deglutição
Acalasia primária:
degeneração dos neurônios inibidores esofágicos distais (célula ganglionar)
↑ aumento do tônus, falta de capacidade de relaxamento do esfíncter
esofágico inferior e aperistalse esofágica.
Alterações degenerativas no nervo vago extraesofágico ou núcleo motor
dorsal do vago.
Acalasia secundária:
Doença de Chagas, Doenças que acometem os núcleos motores dorsais –
poliomielite; neuropatia diabética
Acalasia
- A acalásia é caracterizada pela tríade de relaxamento incompleto do
EEI, tônus aumentado do EEI e aperistalse do esôfago.
- Morfologia: dilatação progressiva do esôfago acima do EEI.
- Parede normal ou hipertrofiada.
- Mucosa normal, inflamada ou ulcerada
-Megaesofago: piora da estase com adelgaçamento e perda da tonicidade
muscular.
Sintomas: Disfagia para sólidos e líquidos, dificuldade para eructar e dor
torácica.
Tratamento:
- Miotomia laparoscópica e dilatação
- Neurotoxina botulínica
Esofagites
Inflamação do esôfago produzida por
diferentes causas
• AGUDA • CRÔNICA
• Hérnia de hiato
• Infecção viral • Aumento da pressão
• Ingestão de intra-abdominal
substâncias irritantes • Vômitos recorrentes
(medicamentosa e cáustica) • ↓ da pressão no EEI
• Sonda nasogástrica • Esvaziamento
• Radiação e trauma gástrico demorado
• Condições alérgicas
e auto-imunes
ULCERAÇÕES, CICATRIZAÇÕES, ESTENOSE, DISFAGIA
Características gerais das
Esofagites
Degeneração celular
-erosão e ulceração
-tecido granulação
Infiltrado Inflamatório
-Neutrófilos
-aumento de eosinófilos e linfócitos
Hiperplasia da camada basal (>15%-20%), mitoses em células
da camada basal, espongiose da camada basal, alongamento
de papilas (>75%), dilatação e ruptura de vênulas
Características crônicas
-fibrose levando a estenose
- metaplasia glandular (Barrett)
Características especiais
-granulomas, inclusões e microorganismos
ESOFAGITES CRÔNICAS
Esofagite de refluxo (Doença do Refluxo
Gastroesofágico)
Principal causa de esofagite
Mecanismos que impedem o refluxo gastroesofágico:
Pressão do esfíncter esofágico inferior (EEI)
Compressão extrínseca do EEI pelo hiato
diafragmático
Posição oblíqua da junção gastroesofágica
Gravidade
Esvaziamento rápido do estômago
Salivação
Fatores etiológicos
Redução da eficácia dos mecanismos anti-refluxo ( tônus EEI). Outras
causas: agentes depressores do SNC, hipotireoidismo, doenças esclerosantes
sistêmicas, alcoolismo, tabagismo e uso de sonda nasogástrica.
Presença hérnia hiatal;
Eliminação lenta ou inadequada do material refluído;
Esvaziamento gástrico lento e aumento do volume gástrico;
Redução da capacidade de reparação da mucosa gástrica devido exposição
prolongada aos sucos gástricos
Esofagite de refluxo (Doença do
Refluxo Gastroesofágico)
Morfologia:
Presença de células inflamatórias
(eosinófilos, neutrófilos) e um
número excessivo de linfócitos na
camada epitelial;
Hiperplasia de células da camada
basal + 20% espessura total;
Hiperplasia de células da
camada basal
Alongamento das papilas da lâmina
própria e congestão, estendendo-se
até o terço superior do epitélio.
Infiltrado inflamatório
na lâmina própria
Diagnóstico diferencial
Esofagite Eosinofílica
Adultos – pirose, dor torácica, disfagia, impactação de
alimentos
Crianças – pirose, dor abdominal, vômitos e disfagia
Tratamentos incluem restrições na dieta para evitar a
exposição a alérgenos dos alimentos, tais como produtos do
leite de vaca e da soja, e corticosteroides tópicos ou
sistêmicos.
Diagnóstico Diferencial Esofagite de Refluxo e Eosinofílica
Esofagite. A, Esofagite de refluxo com eosinófilos intraepiteliais dispersos e leve
expansão da zona basal. B, A esofagite eosinofílica é caracterizada por diversos
eosinófilos intraepiteliais. -Robbins & Cotran Patologia — Bases Patológicas das Doenças,
Capítulo 17: O Trato Gastrointestinal| Vinay Kumar, MBBS, MD, FRCPath, Abul K. Abbas,
MBBS and Jon C. Aster, MD,
Caraterísticas típicas Esofagite eosinofílica Doença Refluxo Gastroesofágico
Clínica
Presença de atopia Muito comum Normal
Sexo Masculino Leve predomínio masculino
Dor abdominal, vômitos Comum Comum
Impactação alimentar Comum Incomum
Achados Endoscópicos
Sulcos na mucosa Muito comum Ocasional
pHmetria esofágica Usualmente normal Anormal
Aspectos histológicos
Envolvimento proximal Sim Não
Envolvimento distal Sim Sim
Hiperplasia epitelial Importante Aumentada
Número de eosinófilos >15/HPF, eosinófilos em 0-7/ HPF, esparsos, ausência
agrupamentos agrupamentos
Manifestações clínicas - RGE
A DRGE é mais comum em indivíduos acima dos 40 anos
de idade, mas também ocorre em bebês e crianças.
Os sintomas clínicos mais frequentes são azia, disfagia e
regurgitação de conteúdos gástricos com sabor ácido.
Repercussões clínicas da esofagite de refluxo
• Depende
• Intensidade do refluxo
• Duração:
•Consequências :
Sangramento;
Ulceração
Estenose,
Desenvolvimento do esôfago de Barrett
Esôfago de Barrett
• Condição patológica adquirida, caracterizada pela substituição do epitélio
estratificado esofágico por um epitélio colunar especializado intestinal
• Complicação de refluxo gastroesofágico de longa duração (10% DRGE)
• Resposta adaptativa da mucosa à agressão pelo ácido
**Fator de risco para desenvolvimento de adenocarcinoma esofágico
Pacientes – 40-60 anos - Homens brancos
Esôfago de Barrett
Fatores de risco para o desenvolvimento do EB
• Refluxo do conteúdo gastroesofágico
• Hérnia de hiato
• Incompetência do esfíncter inferior do esôfago
Esôfago de Barrett
Critérios para diagnóstico
Evidência endoscópica de epitélio
colunar acima da junção
gastroesofágica
Evidência histológica de
metaplasia intestinal na biópsia do
epitélio colunar
Patogenia obscura
Mudança na diferenciação das
células tronco da mucosa esofágica
Diagnóstico
Exame endoscópico
Biópsia de esôfago Mitros FA, 1998
Esôfago de Barrett
Presença de displasia está associada principalmente a sintomas
prolongados, comprimento do segmento esofágico acometido, idade
avançada do paciente e indivíduos caucasianos.
"Displasia em esôfago de Barrett. A, Displasia leve . B, Irregularidades arquiteturais, incluindo
glândula-dentro de glândula ou cribriforme, observadas em displasia de alto grau.“
-Robbins & Cotran Patologia — Bases Patológicas das Doenças, Capítulo 17: O Trato
Gastrointestinal| Vinay Kumar, MBBS, MD, FRCPath, Abul K. Abbas, MBBS and Jon C. Aster,
MD, PhD,[Link]
CÂNCER DO ESÔFAGO
-Dois principais subtipos histológicos:
• Carcinomas epidermóide (de células escamosas).
• Adenocarcinomas.
Carcinoma de células escamosas- mais comum, cerca de 90% dos
casos.
mais freqüente em homens a partir dos 50 anos.
acometendo mais o terço médio e inferior do esôfago.
O adenocarcinoma surge na parte distal do esôfago, na presença de
refluxo gástrico e metaplasia intestinal do epitélio (esôfago de Barrett).
CARCINOGÊNESE DO ESÔFAGO
ÁLCOOL E FUMO
FATORES DE
RISCO
Ambiental e genéticos
Agentes infecciosos História familial
(HPV)
Megaesôfago chagásico
Aneuploidias
Esôfago de Barrett
Mutação genes
Lesões cáusticas
supressores: TP53,
Esofagite crônica- displasia
P16, P17, FHIT
Ativação de
oncogenes: CCND1,
HER-2/neu
Adenocarcinoma de esôfago
-Tumor epitelial maligno com diferenciação glandular
-Aumento da incidência – relacionado parcialmente ao aumento da
incidência do refluxo gastroesofágico relacionado à obesidade e o
esôfago de Barrett.
-Mais frequente em caucasianos e mostra uma tendência de gênero,
sendo sete vezes mais comum em homens.
-Disfagia, perda de peso, hemorragia, dor torácica e vômitos.
- Prognóstico sombrio. Diagnóstico em estádios avançados - sobrevida
acima de 5 anos é inferior a 25%. Em contraste, a sobrevida em 5 anos
se aproxima dos 80% nos poucos pacientes com adenocarcinoma
limitado à mucosa ou submucosa.
Adenocarcinoma de esôfago
Etiologia e Patogenia:
-Exposição ao tabaco
-Obesidade - ↑refluxo gastroesofágico e mecanismo
hormonal-dependente (mediadores inflamatórios-
secretados por adipócitos)
-Tabagismo / Exposição à radiação
Adenocarcinoma de esôfago
Etiologia e Patogenia:
- Adenocarcinoma ← EB → processo demorado com aquisição
gradual de alterações genéticas e epigenéticas- período de latência e
muitas alterações genéticas.
- Displasia - crítica nesse processo. Atividade proliferativa epitelial maior
- Anormalidades cromossômicas: Mutação TP53, regulação negativa
CDKN2A (silenciamento epigenético/hipermetilação) - estágios iniciais.
- Amplificação dos genes EGFR, ERBB2, MET, ciclina D1 e ciclina E –
estágios tardios
Adenocarcinoma de esôfago
Localização
• ** Esôfago distal e podem invadir o cárdia adjacente.
• Planos ou elevados - massas nodulares - infiltrantes –
ulcerados
-Tipo intestinal – mais comum.
-Menos comum- tipo gástrico em anel de sinete,
difusamente infiltrativo
-Raramente - tumores de pequenas células pouco
diferenciado.
Adjacência ao tumor- múltiplos focos de mucosa displásica.
Adenocarcinoma de esôfago
Adenocarcinoma esofágico constituído por glândulas encostadas umas às outras
-Robbins & Cotran Patologia — Bases Patológicas das Doenças, Capítulo 17: O
Trato Gastrointestinal| Vinay Kumar, MBBS, MD, FRCPath, Abul K. Abbas, MBBS
and Jon C. Aster, MD,
PhD,[Link]
Carcinoma de células escamosas
Europa e EUA- álcool e tabagismo
-Deficiências nutricionais↔Alcoolismo→ processo de
carcinogênese
♂ 4x > ♀ ↑ 45 anos
Maior incidência : Irã, China central,Hong Kong, África do
Sul
Influência de fatores ambientais e alimentares -↑ risco
Deficiências nutricionais→promotoras ou
potencializadoras dos carcinógenos ambientais
-Alimentos contaminados por fungos→
nitrosamina.
-Infecção pelo HPV
- Bebidas quentes
Carcinoma
Carcinoma
de células
epidermóide
escamosas
Fatores associados ao desenvolvimento do Carcinoma de células
escamosas do Esôfago
Dieta
•Deficiência de vitaminas(A,C,riboflavina, tiamina, piridoxina) e
oligoelementos (zinco, molibdênio)
•Contaminação alimentos por fungos
•Alto teor de nitritos e nitrosaminas
•Hábito de mascar bétel (areca)
Estilo de vida
•Ingestão de bebidas ou alimentos muito quentes
•Consumo de álcool
•Fumo
•Ambiente urbano
Distúrbios Esofágicos
•Esofagite crônica
•Acalásia
•Síndrome de Plummer-Vinson
Predisposição genética
•Doença celíaca crônica
•Displasia ectodérmica
•Epidermólise bolhosa
•Predisposição racial
Carcinoma de células escamosas
A patogenia molecular do carcinoma de células escamosas esofágicas
continua incompletamente definida.
- Anormalidades recorrentes incluem:
• Amplificação do gene do fator de transcrição;
• Superexpressão da ciclina D1 reguladora do ciclo celular;
• Mutações de perda de função nos genes supressores de tumor TP53,
caderina-E e NOTCH1.
Carcinoma de células escamosas
Morfologia:
- 50% terço médio.
-Lesões in situ – displasia escamosa, conhecida como neoplasia intra-
epitelial ou carcinoma in situ.
Padrões morfológicos:
-Protruso (60%)- lesão exofítica polipóide, que se projeta para o interior
da luz;
-Plano (15%)- forma infiltrativa e difusa, causando espessamento ,
rigidez e estenose luminal;
-Escavado (25%)- ulceração neoplásica necrótica, pode invadir
mediastino e o pericárdio
Carcinoma de células escamosas
Carcinoma de células escamosas composto por ninhos de células malignas que
imitam, parcialmente, a organização do epitélio escamoso.
-Robbins & Cotran Patologia — Bases Patológicas das Doenças, Capítulo 17: O
Trato Gastrointestinal| Vinay Kumar, MBBS, MD, FRCPath, Abul K. Abbas, MBBS
and Jon C. Aster, MD,
PhD,[Link]
Carcinoma de células escamosas
Propagação:
-Estruturas mediastinais
-Metástases:
-Tumores no terço superior- linfonodos cervicais;
-Tumores no terço médio - linfonodos mediastínicos, para-traqueais e
traqueobrônquicos;
-Tumores no terço inferior – linfonodos gástricos e celíacos.
Carcinoma de células escamosas
Sintomatologia:
-Disfagia
-Obstrução crônica e tardia
-Emagrecimento e debilidade física.
Complicações:
Hemorragia e septicemia - ulceração
Broncoaspiração - fístula traqueoesofágica
Carcinoma de células escamosas
•Taxa de sobrevida/5anos- carcinoma superficial= 75%
•Taxa de sobrevida/5anos- muito baixa nos tumores avançados
• Doença avançada com extensão mediastinal, estruturas intra-
torácicas, metástases linfonodais e à distância.
•Radioterapia e quimioterapia
•Esofagectomia
Diagnóstico do Câncer de Esôfago
**Endoscopia digestiva alta
***Biópsia de lesão
Prognóstico do Câncer de Esôfago
Prognóstico depende da:
•Profundidade e penetração da parede
•Metástases linfonodais
•Extensão extranodal da doença
•Comorbidades