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Balane

Este estudo explora a identidade e experiências das namoradas de homens casados em Maputo, Moçambique. A pesquisa usa entrevistas para compreender como essas mulheres constroem sua identidade em relação ao estigma social e como gerenciam suas relações secretas. Os resultados mostram que essas mulheres se veem como "Outras" e tentam omitir suas relações dos outros para lidar com a identidade estigmatizada.
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Balane

Este estudo explora a identidade e experiências das namoradas de homens casados em Maputo, Moçambique. A pesquisa usa entrevistas para compreender como essas mulheres constroem sua identidade em relação ao estigma social e como gerenciam suas relações secretas. Os resultados mostram que essas mulheres se veem como "Outras" e tentam omitir suas relações dos outros para lidar com a identidade estigmatizada.
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FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

CURSO DE LICENCIATURA EM SOCIOLOGIA

Trabalho de Fim do Curso

“Marandza”: um estudo sobre a construção e gestão da identidade das namoradas de


homens casados na cidade de Maputo.

Autora: Neuza Gildo Balane

Supervisor: Dr. Baltazar Muianga

Maputo, Julho de 2020

1
FACULDADE DE LETRAS E CIÊNCIAS SOCIAIS
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA
Curso de Licenciatura em Sociologia
“Marandza”: um estudo sobre a construção e gestão da identidade das namoradas de homens
casados na cidade de Maputo.

Monografia apresentada em cumprimento parcial dos requisitos para a obtenção do grau de


Licenciatura em Sociologia na Universidade Eduardo Mondlane.

Candidato:

Neuza GildoBalane

O Júri

O Supervisor O Presidente O Oponente

………….………..... ..…………….……. …….…………………

Maputo, aos…… de …………… de 2020

2
Declaração de Honra

Eu, Neuza Gildo Balane, declaro por minha honra que esta monografia não foi apresentada,
parcial ou integralmente, em nenhuma instituição para obtenção de qualquer grau académico e
que constitui resultado da minha investigação pessoal, estando indicadas no texto e nas
referencias bibliográficas as fontes usadas para o efeito da pesquisa.

Maputo, Julho de 2020

………………………………………………………….

( Neuza Gildo Balane )

3
Dedicatória
Às mulheres da minha vida: a amável Vó Crizalda (em sua memória) e Vó Helena, adorada xará
(em sua memória) e, em especial, à minha provedora e eterna mamã, tudo o que eu sou devo a si,
a minha vida toda devo a si.

Haja luz de Deus sobre todas, minhas eternas


mulheres!

4
Agradecimentos
A Deus por me iluminar e me orientar em toda a minha vida, sem me esquecer das tantas vezes
em que me serviu de alicerce e refúgio quando a vida académica desfalecia o meu espírito. Ao
corpo docente que me acolheu desde o meu primeiro dia de academia.

A todos os que comigo colaboraram em toda a minha vida estudantil, pelo apoio inquestionável
por todos os que colaboraram para a efectivação deste trabalho de investigação e em especial aos
que com quem partilhei a academia: obrigada!

Aos Doutores Orlando Nipassa, Ivo Cumbane, Danúbio e, em especial, ao Dr. Baltazar Muianga,
por saber lidar com os seus estudantes, com extrema atenção, servindo-se mais que professor.
Agradeço também a rigorosidade e disponibilidade que teve em me acompanhar na realização
deste trabalho.

Agradeço, na mesma sintonia, a toda a minha família, sem excepções, em especial ao Gildo
Balane (pai) pela vida e por ser o provedor da família, à Emília Chiluvane (mãe) pela dedicação,
à Tatiana (fada madrinha), aos meus irmãos, Joaquim, Jennifer, Crizalda e Mauro, agradeço o
aconchego e o vosso carinho e atenção.

A todos os meus colegas, em especial aos meus também amigos, Júlio Savanguane, Édio
Mondlane e Agnaldo Nyangumele, Arsénio Massinguile e ao meu grupo de estudo, o esquadrão
8 (Ângela, Bárbara, Marcela, Ivete, Rosa, Célia, Marta), meninas, vocês foram o meu ponto de
equilíbrio durante estes anos todos, pela convivência, lealdade, respeito e amor ao nosso
“esquadrão”, vocês são as melhores!

Às mulheres que participaram na pesquisa, tornando este trabalho uma realidade, agradeço o
tempo e atenção disponibilizados, a paciência e a exaustão dos seus pareceres durante as
conversas.

Finalmente, aos meus saudosos amigos, em especial aos que me apoiaram desde sempre, Dércia
(minha protectora), Apolinária (best sister), Da Graça (este sonho tem você como precursor),
Marília, Lúcia, Deurica, Anilza e Miguel de Sousa, obrigada por todo o apoio. Ao Dércio
Chume, pelo apoio incondicional e por estar sempre pronto, muito agradecida.

5
RESUMO
Na presente monografia intitulada “Marandza”: um estudo sobre a construção e gestão da
identidade das namoradas dos homens casados na cidade de Maputo, desenvolvemos um estudo
sociológico sobre os processos de construção e gestãoidentitária das namoradas dos homens
casados na cidade de Maputo. A pesquisa teve como objectivo geral compreender a construção
da identidade da “Outra” a partir da manutenção da relação mantida com o homem casado. Para
análise da realidade social que nos propusemos a estudar, usámos a proposta teórica de Erving
Goffman (1980), a teoria do estigma e três conceitos fundamentais, nomeadamente:relações
amorosas, identidade social, estigma e “Outra”. No que diz respeito aos aspectos metodológicos,
pautámos pela abordagem qualitativa e pelo procedimento monográfico, fizemos o uso também
da revisão literária e das entrevistas semi-estruturadas para a recolha dos nossos dados no campo.
Os resultados vislumbram que as mulheres na condição de outra, assumem-se como namoradas
dos homens casados e a gestão da relação mantida entre eles que inclui a omissão da mesma
revela-se em si uma estratégia para gerir essa identidade que, por sua vez,se encontram no seio
familiar elementos que viabilizam a construção da identidade da “Outra”.

Palavras-chave:“Outra”, Identidade social, Estigma, Relações amorosas e Homem casado.

6
ABSTRACT
In the present monograph entitled "Marandza”: a study on the construction and management of
themarried men's girlfriends identity in Maputo city, we developed a sociological study on the
construction processes and identity management of the girlfriends of the married men inMaputo
city. The main goal of the research was to understand the construction of the identity of the
“Other” from the maintenance of the relationship maintained with the married man. In order
toanalyse the social reality we set out to study, we used Erving Goffman's (1980) theoretical
proposal, the Stigma theory, and three fundamental concepts, namely, love relationships, social
identity, Stigma and “Other”. Regarding the methodological aspects, we are guided by the
qualitative approach and the monographic procedure, we also used the literary review and semi-
structured interviews to collect our data in the field. The results show that women as Other,
assume themselves as girlfriends of married Men and the management of the relationship
maintained between them, which includes the omission of the same, reveals itself as a strategy to
manage this identity, which in turn within the family, elements that enable the construction of the
identity of the “Other”.

Keywords: “Other”, social identity, stigma, love relationships and married man.

7
Índice

Dedicatória ………….
…………………………………………………………………………..i
Agradecimentos …….…………………………………………………………………………..ii
Resumo ...……………….…………………………………………………..………………… iii
Abstract…………………………………………………………………………………………iv
Introdução....................................................................................................................................3
CAPÍTULO I................................................................................................................................6
1. Da revisão bibliográfica à problemática..................................................................................6
CAPÍTULO II............................................................................................................................15
2. Enquadramento teórico e conceptual.....................................................................................15
2.1. Conceptualização................................................................................................................18
2.1.1. Relações amorosas...........................................................................................................18
2.1.2. Estigma social..................................................................................................................20
2.1.3. Identidade social..............................................................................................................20
2.1.3. A "Outra"..........................................................................................................................22
CAPÍTULO III...........................................................................................................................23
3. Aspectos metodológicos.........................................................................................................23
3.1. Método de abordagem.........................................................................................................23
3.1.1. Método de procedimento.................................................................................................23
3.2. População e amostra............................................................................................................24
3.2.1. Quanto ao grupo-alvo......................................................................................................24
3.2.2. Quanto ao tipo de amostragem.........................................................................................24
3.2.3. Quanto à amostra(gem)....................................................................................................24
3.3. Técnicas de recolha de dados..............................................................................................25
3.4. Questões éticas....................................................................................................................25
3.5. Constrangimentos e limitações da pesquisa........................................................................26
CAPÍTULO IV...........................................................................................................................27
4. Apresentação e análise dos dados..........................................................................................27
4.1. Perfil sócio-demográfico.....................................................................................................27

8
4.2. Percepções sobre o namoro na perspectiva da “Outra”......................................................28
4.3. A manipulação da etiqueta social no processo de gestão da relação mantida com o homem
casado.........................................................................................................................................30
4.3.1. A inconsciência da condição de “Outra”..........................................................................32
4.4.1. A nova identidade: a omissão como estratégia de gestão da identidade da namorada do
homem casado............................................................................................................................34
4.4.1. O meio social como espaço de gestão do estigma...........................................................37
4.4.2. O grupo de pares..............................................................................................................39
Considerações finais..................................................................................................................42
Referências bibliográficas..........................................................................................................45
ANEXOS...................................................................................................................................47

9
Introdução
O presente trabalho resulta do estudo realizado em torno das relações amorosas e apresenta como
proposta temática “Marandza: um estudo sobre a construção e gestão da identidade das
namoradas de homens casados na cidade de Maputo”, onde buscamos compreender o processo
pelo qual a mulher que se relaciona com homem casado (ou que esteja comprometido e que viva
maritalmente) constrói a sua identidade, tomando em conta a forma como esta faz a gestão da
relação existente entre ambos. O interesse por este assunto emergiu do facto de notarmos que, no
quotidiano dos indivíduos, principalmente das jovens mulheres, a necessidade de alcançar uma
estabilidade financeira e posterior independência tem-se manifestado de forma muito fluída e
dinâmica, porém, com os recursos e estratégias socialmente aceites e privilegiadas, têm-se
mostrado muito demorados, como o ingresso ao mercado de trabalho.

Por isso se vêem pressionadas pelos pares, ou pelas carências e necessidades individuais a
aderirem a meios mais flexíveis e ousados para satisfazerem essas necessidades, e um desses
meios é o de se envolverem com homens que lhes transmitam uma segurança financeira e
garantia de suprimento de todos os seus desejos e necessidades, sem colocar os sentimentos
como premissa para alavancar a relação. Desta feita, não seria qualquer homem a proporcionar
tais privilégios senão homens financeiramente estabilizados e organizados, contudo, os mesmos,
na sua maioria, são casados, comprometidos e/ou vivem maritalmente.

Deste modo, acreditamos que, com este estudo, se pode compreender de forma mais aprofundada
esses processos, principalmente os que dizem respeito à questão da construção das identidades,
dentro das relações amorosas e com isto contribuir para o enriquecimento do acervo literário no
campo das ciências sociais, com maior destaque para questões identitárias olhadas sob o ponto
de vista dos indivíduos que carregam consigo características depreciadas socialmente. O estudo
vai contribuir também na compreensão das dinâmicas que ocorrem dentro da nossa sociedade e
que podem grandemente influenciar na maneira como estes indivíduos encaram a realidade
social. Aquando da realização das nossas leituras, constatámos a existência de um conjunto de
estudos que debatem a questão da “Outra”, dentro das relações amorosas, tomando em conta as
várias perspectivas, foi possível destacar estudos que abordam a “Outra” no âmbito das relações
monogâmicas (fechadas) e as que abordam a “Outra” no âmbito das relações não-monogâmicas
(abertas/livres).

10
Na perspectiva das relações monogâmicas, os autores, de uma forma generalizada, nos seus
estudos, enfatizam a ideia destas serem moldes padronizados dentro duma sociedade, fazendo
apologia a um amor romântico e, acima de tudo, sustentados pelo poder de escolha e, por isso,
não se estabelece um espaço dentro das relações para a existência de parceiros paralelos. E, no
que diz respeito à perspectiva que aborda a “Outra” na dimensão das relações não monogâmicas,
os autores destacam a ideia de relacionamentos abertos e livres, onde a existência da “Outra” não
condiciona a saúde da relação oficial, muito pelo contrário, ajuda o homem a se redescobrir e,
acima de tudo, a manter o seu casamento vivo.

Por conseguinte, mediante estas duas perspectivas, posicionamo-nos com a primeira perspectiva
que debate a questão da “Outra” na dimensão das relações monogâmicas ou fechadas, as quais, a
prior, não abrem espaço para um possível envolvimento do homem casado com uma mulher fora
do casamento ou do compromisso, daí que buscamos compreender como a “Outra”, nesta
situação, constrói a sua identidade, a partir da gestão da relação mantida com este homem
casado, de forma a manter a sua boa imagem e a proteger a dignidade do homem dentro do seu
casamento, condizendo com os padrões socialmente impostos nas relações que sigam princípios
monogâmicos.

Este posicionamento resulta do facto de os estudos apresentados não explicarem como o


processo de amantização ocorre nestes moldes de relacionamento e o processo pelo qual a
mulher, na condição de “Outra”, constrói a sua identidade dentro de uma sociedade em que as
suas escolhas afectivas a tornam transgressora dos padrões comportamentais socialmente aceites,
limitando-se apenas a aferir que a existência da “Outra” nas relações monogâmicas é
insignificante, pois, segundo estes estudos, nestes moldes de relacionamento à referenciada
escolha pela pessoa amada é a base, tornando-se nula a incidência de uma relação paralela à
relação oficial, por isso acreditamos ser interessante perceber a gestão da relação mantida com
homem casado como uma ferramenta para a compreensão do processo de construção da
identidade desta mulher.

Temos como objectivo geral: Compreender as estratégias de construção e gestão da identidade


da “Outra” a partir da manutenção da relação mantida com o homem casado. E para o
alcançar, guiámo-nos pelos seguintes objectivos específicos: Identificar o perfil sócio-
demográfico da “Outra”; captar as percepções que a “Outra” tem sobre o namoro; identificar

11
as motivações para o início da relação; descrever como essa relação é constituída e gerida
sendo que não se adequa aos padrões socialmente estabelecidos; identificar as estratégias de
gestão da identidade da “Outra” tendo em conta a rotulagem da família e da sociedade no
geral.

No que concerne à base teórica que sustentou o nosso trabalho, orientámo-nos em Erving
Goffman (1980), “Estigma: notas sobre manipulação da identidade deteriorada”, que discute a
construção e gestão das identidades sociais de indivíduos e grupos estigmatizados e minoritários.
Apoiámo-nos também em Dubar (2006), que discute o processo de construção da identidade.
Este afirma que o se identificar e ser identificado (identidade) dos indivíduos é produto do
processo de socialização que os indivíduos passam. Essa socialização dá-se em grupos principais
de pertença (mais fechados) ou com a iniciação da carreira profissional.

No que diz respeito aos aspectos metodológicos, o estudo serviu-se do método de abordagem
qualitativo, onde tivemos como método de procedimento o monográfico, no qual, a partir da
perspectiva das mulheres, procuramos compreender de que forma essa realidade social se
manifesta e se processa. Foram entrevistadas oito (8) mulheres que já estiveram ou que estejam
na condição de “Outra” (esse foi o critério usado para a constituição da nossa amostra),
orientadas por uma entrevista semi-estruturada que nos serviu como instrumento de recolha de
dados. A escolha das participantes para o nosso estudo foi orientada por uma amostragem não
probabilística de carácter intencional.

O trabalho está dividido em quatro capítulos principais, o primeiro vai da revisão bibliográfica à
formulação do problema de pesquisa. Nesta secção, colocam-se em debate as abordagens já
formuladas em torno do tema em análise, a qual culmina com a problematização das limitações
observadas nesses mesmos estudos e posterior pergunta de partida que orientou as etapas
subsequentes. No segundo capítulo, encontramos o enquadramento teórico e conceptual, isto é,
apresentamos as teorias e os conceitos que nos auxiliaram na interpretação da realidade social em
estudo. O terceiro capítulo reservámo-lo aos aspectos metodológicos, os quais, por sua vez, se
subdividem em cinco (5) subcapítulos, com os quais detalhamos os caminhos percorridos para a
materialização do trabalho de campo. E, por fim, o quarto e último capítulo que é referente à
apresentação e discussão de dados.

12
CAPÍTULO I
1. Da revisão bibliográfica à problemática
Neste capítulo, inteiramo-nos de forma mais profunda sobre a realidade social em torno da
“Outra” na dimensão das relações amorosas, trazendo as várias contribuições de diferentes
estudos realizados. Colocamos igualmente em discussão as perspectivas dos autores sobre a
“Outra”, correlacionando-as com a construção da identidade, o que não só vai viabilizar a
contextualização do objecto em estudo, mas também vai permitir uma formulação concisa e
original do problema de pesquisa a ser levantado.

As perspectivas sistematizam e se sintetizam em duas principais abordagens, nomeadamente: a


abordagem que discute a “Outra” no contexto das relações monogâmicas e a que discute a
“Outra” no contexto das relações não-monogâmicas.

A primeira abordagem enfatiza a questão da “Outra” como uma desviante, pelo facto de não
abrirem espaço para relações fora do casamento ou do compromisso, dando ênfase à ideia de um
amor romântico motivado pelo poder de escolha do sujeito amado ou que se pretenda amar,
fazendo assim com que a mulher na condição de “Outra” sofra coerção social ou estigmatização,
por se entender que esta adopta comportamentos diferentes dos padronizados e aceites
socialmente. São colocados nessa perspectiva estudos realizados por autores como: Goldenberg
(2011), Ameno (1999), Tessari (2008) e Aissa (2013).

Goldenberg (2011), na sua obra intitulada "A Outra: um estudo antropológico sobre a identidade
da amante do homem casado" discute a ideia segundo a qual, a “Outra”, também tomada como
amante, não tem uma identidade própria, é estereotipizada pela sociedade, na medida em que é
pejorada como a promíscua, a destruidora de lares, a vilã do rompimento dos relacionamentos
sólidos e formais. A maioria vive na clandestinidade, pois não pode aparecer publicamente nem
participar de uma vida social junto do seu parceiro.

Na perspectiva de Goldenberg (2011), a “Outra” é, maioritariamente, bem colocada no mercado


de trabalho, independente financeiramente, decidida e está envolvida com homem casado apenas
pelo sentimento que nutre nele e não pela segurança material, uma vez que esses envolvimentos
não lhe conferem nenhuma recompensa; portanto, ressalta que, nesses casos, ser a “Outra”

13
funciona para preencher as lacunas sentimentais, como forma de suprir a carência, já que se
apoia no quesito “sexo”, para justificar a sua condição.

Ressalta ainda Goldenberg (2011) que, dentro da categoria amante, existe a “Outra” que só se
relaciona com homens casados por alguns interesses financeiros, são as referidas marandzas1, as
namoradas que, neste caso, não se vêem obrigadas ao cumprimento das obrigações rotineiras,
que envolvem desde a resolução de problemas até às tarefas domésticas, apenas administram e
absorvem o lado bom da intimidade, que se resume numa convivência curta, poucas horas e
apenas alguns dias da semana, mas com qualidade garantida de ter um homem que chega com
excelente humor, presenteia e oferece sexo de qualidade.

Ameno (1999), na sua obra intitulada "A função das amantes no casamento monogâmico",
apresenta resultados do seu estudo, onde menos que a metade dos seus entrevistados admitiu ter
relações extraconjugais. Para a autora, as amantes são uma espécie de remédio que combate o
efeito corrosivo da união monogâmica sobre a individualidade dos parceiros, onde os homens
recuperam o espaço perdido no casamento com o auxílio das amantes. Para eles, segundo Ameno
(1999), o casamento é um lugar sem privacidade para os desejos íntimos, levando assim à
infidelidade e traição, que representa o espaço em que este homem reconquista a sua
masculinidade.

O casamento transforma-se então numa obrigação social em que os indivíduos na sociedade se


casam com medo de ficarem sozinhos. Os homens começam a mudar após o nascimento dos
filhos, descobrindo que se casaram com a mulher-mãe, procuram então a mulher erotizada como
forma de reactivar a sua masculinidade. Por isso, para Ameno (1999), a amante torna o mundo
do homem cor-de-rosa, embora ela exista num espaço reservado pelo facto de suscitar uma
individualidade repudiada pela sociedade.

Tessari (2008), no seu estudo "o preconceito e a alegria de ser amante", apresenta não só
diversas razões que levam as mulheres a se relacionarem com homens casados, mas também as
consequências destes relacionamentos. Das várias razões apresentadas pela autora, vale discutir
as que parecem ser mais relevantes, a primeira destas é o facto das mulheres serem amantes por
irresponsabilidade, diz autora, elas aceitam ser a “Outra”, pois encontram nos homens nessa
1Marandza é um cognome atribuído às mulheres que se submetem à condição de “Outras” como forma de ganhar
dinheiro e bens materiais em troca de sexo, é também atribuída a mulheres e homens que tenham uma pré-
disposição para gostar de coisas fáceis.

14
condição o que nunca tiveram na vida: amor, carinho e afecto, porém, depois de um determinado
tempo, esta relação deixa feridas para a própria amante. A outra razão levantada por Tessari
(2008) é o facto da “Outra” não querer uma relação séria, pois isso implicaria uma rotina cheia
de cobranças e obrigações acarretadas pelo comprometimento. A autora ressalta ainda que uma
relação com homem casado é sempre uma relação cheia de limites, uma relação que tem de levar
em conta a existência da esposa oficial que a qualquer momento pode requerer a presença do seu
marido, sendo este prontamente obrigado a corresponder.

Aissa (2013), no seu estudo "A Outra: percepção social sobre a sua condição de amante",
procura mostrar como as amantes se auto-avaliam e se entendem mediante a relação e os valores
simbólicos que ela partilha socialmente. Tendo trabalhado com um universo de 25 entrevistadas,
pôde entender, por um lado, que a “Outra” se percebe na sua condição de amante não como uma
simples companheira do homem ou parceira complementar do casamento deste, mas ocupante de
um lugar de destaque, chegando mesmo a se considerar esposa, considerando as dinâmicas
socais que esta “Outra” partilha no seu dia-a-dia e principalmente pela forma como ela tem
conduzido a relação com um homem casado.

Por outro lado, Aissa (2013) enfatiza que os resultados do seu estudo ao mostrarem que, nalguns
casos, a “Outra” percebe a sua condição não só como uma forma de buscar maior autonomia e
independência ou liberdade difíceis de alcançar no casamento, mas que também significa uma
solução para os seus problemas materiais e financeiros através da sua condição de amante.
Subentende-se que o conjunto de valores simbólicos partilhados na vida destas mulheres no
quotidiano são vários e cada uma dessas dimensões de se perceber como “Outra” advém de
como estas mulheres perspectivam o seu mundo e a forma como estas racionalizam esses valores
simbólicos, de forma a manipular as suas faltas e carências.

Nos dois últimos estudos explanados, verificámos as motivações que tal como os homens, as
mulheres agregam para iniciarem e manterem um relacionamento extraconjugal. À luz da nossa
leitura, subentendemos que essas motivações se encontram enraizadas num complexo
socialmente construído de hábitos e costumes. Há que se ressaltar, nessas motivações, o ideal da
completude tanto para o homem casado, quanto para a “Outra”, este comportamento que,
segundo Ameno (1999), é mais frequente nos homens casados do que nas mulheres, pelo facto
destes encontrarem mais liberdade e a sociedade condená-los menos em relação às mulheres na

15
condição de “Outra”. Constatámos ainda, que Tessari (2008) tem uma conclusão distinta da
formulada por Goldenberg (2011) e Aissa (2013), uma vez que afirma que as amantes estão
sempre inseguras e sem muito espaço na relação, pois a presença da esposa legítima é constante
e o homem ora casado deve cumprir com o seu dever de esposo provedor, sempre que for
solícito. Distintamente das autoras supracitadas que afirmam que a esposa legítima é que vê o
seu espaço perdido para a amante, a “Outra”, mas dividem a mesma opinião que os dois
primeiros estudos no que concerne às egurança que é conferida à esposa, quanto à prontidão que
o seu esposo demonstra sempre que ela precisar dele.

De acordo com as perspectivas e o debate acima levantados, podemos perceber que a


monogamia, com a introdução do amor romântico, produz um sistema que impõe um modelo de
relações através de um cerne de práticas (in)formais, produzindo por exemplo um determinado
conjunto de sentimentos como o ciúme, a possessividade, a desconfiança e várias formas de
angústias. Enfatiza Almeida (2006), que a monogamia não é meramente um relacionamento entre
pessoas, ou mesmo duas pessoas juntas que não se relacionam com outras pessoas, mas, sim, um
sistema que torna este modelo único e cuja forma de exercer tal normalização produz,
inevitavelmente, sentimentos e reacções negativas. Tais sentimentos, não são mero produto da
prática monogâmica, mas também dos seus produtores, pois é através deles que ela também se
mantém e se reforça enquanto instituição social, como algo imbuído cultural e socialmente como
padrão de normatividade.

Não obstante, na segunda perspectiva não há espaço para a discussão da existência da “Outra”
por se tratar de relações abertas, tanto que a possibilidade de existência de uma terceira pessoa
fora do casamento pressupõe uma negociação entre os cônjuges, e nesse caso tanto a mulher,
quanto o homem casados têm a liberdade de ter um parceiro fora do casamento.

Debate-se com a ideia de que os indivíduos são livres de exercerem seus intentos e seus desejos.
O casamento, neste molde de relação, não impede que tanto o homem como a mulher casados
tenham outros parceiros, daí que a “Outra” é tida e mantida a partir de um consenso do casal e,
muitas vezes, a ideia de se relacionar fora do casamento é tida como uma estratégia de o manter
vivo. Este debate é levantado à luz das perspectivas dos seguintes autores: Goldenberg (2000b),
Lessa (2010), Kessler (2015) e Shorter (1975).

16
Dentre os diferentes grupos não-monogâmicos a serem discutidos nesta segunda abordagem,
estão presentes casais abertos que mantêm relações livres, a partir das quais podemos
caracterizar a representatividade da “Outra”. Nas relações não monogâmicas, não se pode
afirmar claramente a relação entre individualismo e colectividade, pois esses indivíduos
compreendem suas escolhas por causa da ampliação de permissões sociais no espectro de
possibilidades e opções disponíveis.

Conforme Kessler (2015), no seu artigo intitulado "Novas formas de relacionamento: fim de um
amor romântico ou um novo consumo?",não só nas relações monogâmicas como também nas
não-monogâmicas, a relação de ofertar não é apenas passiva, ela conta também com as
exigências e necessidades do indivíduo que empreende a acção. Com o passar do tempo, a
aquisição de uma maior confiança permite que essas relações adquiram outros níveis, que haja
um aprofundamento dos laços e, consequentemente, um aumento dos riscos nas acções. Esses
riscos envolvem interesses e sentimentos de ambas as partes, mas também riscos socialmente
conhecidos, os quais são mediados em negociações previamente estabelecidas. O autor procura
ainda desenvolver o conceito de casais abertos que, na sua óptica, são aqueles nos quais há uma
espécie de contracto entre os parceiros, um consenso sobre uma liberdade restrita, a qual permite
o estabelecimento de outras relações, porém, sendo estas entendidas e tratadas como secundárias
e invisíveis.

Segundo Lessa (2010), no seu artigo intitulado "Abaixo a família monogâmica", os praticantes
das relações livres ou os casais abertos partem do pressuposto de que a sociedade actual não
permite o diálogo e a indagação da monogamia, sob os argumentos que sustentam a
heteronormalidade como prática socialmente aceite. Dessa forma, a não monogamia pressupõe
contrapor a estrutura social actual, renunciando a monogamia e a situação de infidelidade, às
quais se submetem os casais que moram juntos por causa das coerções sociais [a existência da
“Outra” pode ser justificada pela infidelidade que, por sua vez, é percebida como derivada do
tédio (quesito rotineiro), da mentira (de que nãohá desejo ou atracão por outras) e da
dissimulação (de que o ideal romântico e de ilusão e algo verdadeiro e eterno)], daí que essa
situação se torna um acto legítimo e não pode ser tratado de forma pejorativa, uma vez que,
segundo o autor supracitado, o homem só se envolve com a “Outra”, apenas para manter o seu
casamento vivo.

17
A rede de relações não monogâmicas parte do pressuposto de que os casais, quando formados,
não possuem como indagação inicial se o relacionamento será monogâmico ou não, pois, de uma
maneira implícita, todos os relacionamentos partem de um marco inicial monogâmico. Essa rede,
segundo Lessa (2010), entende que o casamento é uma instituição que perpetua o costume e a
tradição de algo que foi determinado socialmente há vários anos, mas que tem sofrido alterações
em termos de prática discursiva. A visão não-monogâmica não apenas se apresenta como outra
forma de expressão dos afectos, mas também se contrapõem discursivamente ao modelo
económico e social vigente. A socialização dos afectos mostra-se como contraposição à
privatização, de tal forma que a liberdade do consumidor-produtor é apropriada pelos indivíduos
que partilham as relações não monogâmicas, como forma geral de liberdade de escolha nas
relações afectivas e/ou sexuais.

Essa ideia é reforçada por Shorter (1975), quando afirma que dois fenómenos recentes
enfraqueceram a força da união permanente na chamada família pós-moderna. O primeiro foi a
intensificação da vida erótica do casal, uma vez que, o apego sexual é notoriamente instável e os
casais que se apoiam em tal base sujeitam-se a ser facilmente fragmentados porque a satisfação
erótica se torna um elemento essencial na existência do casal. Nesse caso, o risco de dissolução
matrimonial aumenta, uma vez que as mulheres se tornam independentes economicamente e
podem romper com as uniões insatisfatórias, tornando o casal vulnerável a relações sexuais e
afectivas fora do casamento, porém, nesse âmbito, não como uma fuga à instabilidade do
casamento, mas um acto consensual de liberdade e aquisição de experiências diferentes que
precisam ser vividos para tornar o casamento mais tolerável.

No artigo intitulado "Sobre a invenção do casal", Goldenberg (2000b) procura, a partir de uma
discussão das representações existentes sobre os papéis femininos e masculinos em relação à
conjugalidade e sexualidade, analisar as facilidades e dificuldades nos relacionamentos
afectivos-sexuais dos tempos recentes. A autora indaga-se da dificuldade que os casais dos
tempos recentes têm de levar uma vida conjugal por muito tempo, sem envolver terceiros.
Goldenberg (2000b) destaca que, nas ultimas décadas, devido ao impacto dos movimentos
femininos, que contribuíram enormemente para que as mulheres assumissem novos espaços
públicos, profissional e politicamente. Essas transformações de papéis fazem com que homens e
mulheres sejam parecidos em comportamentos, visões de mundo e desejos. Sendo assim, para a

18
sua questão, a autora encontra duas respostas: há maior autonomia e independência feminina,
devido à sua entrada massiva no mercado do trabalho, tornando-se mais exigente e com mais
capacidade de escolha dos seus relacionamentos, de acordo com os seus desejos. Ocorre ainda a
excessiva valorização da sexualidade, que faz com que muitos casais busquem acima de tudo a
satisfação sexual no casamento, mesmo depois de muitos anos de casados.

No que concerne às mudanças que ocorrem na sociedade actual, Kessler (2015) concorda com
Goldenberg (2000b) e Shorter (1975), pois os três afirmam que essas mudanças que
acompanham o capitalismo e os movimentos feministas dão mais autonomia à mulher em
relação ao homem, abrindo mais a possibilidade de traição por parte delas em relação àquela
verificada em tempos anteriores. O envolvimento de mulheres casadas com outros homens nestes
moldes de relacionamento é de certa forma justificada pela abertura que a relação tem para
aquisição de novos parceiros, que acontece maioritariamente por parte dos homens, isto é, surge
como resposta à liberdade que a sociedade concede aos homens de terem relações extraconjugais
como se constituísse um efeito dominó ou de causa-efeito.

É possível constatar que os autores comungam a ideia segundo a qual as relações conjugais
assim como as extraconjugais vão ganhando com o tempo novas configurações como resultado
de um conjunto de mudanças que acompanham as sociedades modernas. Neste sentido, as
relações amorosas relacionadas à infidelidade tanto do homem assim como da mulher, devem ser
tratadas de forma contextualizada.

Contudo, efectivado o debate que se assenta nas duas principais abordagens apresentadas
anteriormente, observámos uma unanimidade nos autores das duas abordagens, no que concerne
à representatividade da “Outra” na sociedade em geral e na vida dos homens casados em
particular, apesar dos variados ângulos de análise que os autores apresentam, porém, notámos
uma insuficiência, principalmente na primeira abordagem, da qual nos socorremos para explicar,
efectivamente, como a “Outra” constrói a sua identidade a partir da forma como ela gerencia a
relação mantida com o homem casado, isto é, partindo do pressuposto de que os padrões sociais
cosntruídos em torno dos relacionamentos amorosos não permitem, no modelo monogâmico, a
existência de relações paralelas à relação oficial, nesse caso, a mulher na condição de “Outra” é
estereotipizada e a relação mantida entre ambos é sensurada e não se abre espaço para que esta

19
seja partilhada socialmente, razão pela qual ela é obrigada a criar uma série de estratégias para a
manter.

Uma das tentativas explicativas desse processo aqui apresentada limita-se a aferir que a “Outra”,
sendo uma actriz social, é capaz de construir a sua própria percepção social sobre a sua condição
sem que tenha que tomar em consideração a sua funcionalidade relativamente à manutenção ou
não do casamento do seu parceiro. Não é explicado de forma exaustiva, tal como foi referido
acima, de que forma essa percepção de ser amante é construída ou explicar os processos pelos
quais se efectiva essa percepção, os estudos analisam esta realidade social de forma generalizada,
a partir da evolução das sociedades e ajustada em aspectos conjunturais, não se ocupando
especificamente de compreender o sujeito em si.

Portanto, a nosso entender, mais do que compreender o processo de construção da identidade,


seria interessante também compreender em que circunstâncias a “Outra” pode gerir a sua
identidade, porque estes dois processos se efectivam em simultâneo.

Em paralelo aos debates levantados, realizámos um estudo exploratório com os sujeitos


envolvidos nessas formas de relação e, em função do mesmo, orientámo-nos pela primeira
abordagem, que refere que manter uma relação fora do casamento ou do compromisso significa
infidelidade e violação das regras construídas pela sociedade, pudemos constatar que essa
realidade social se mostra como uma nova forma de envolvimento, fomentado pelo consumismo
e pelo imediatismo.

Neste sentido, assumimos de forma provisória que a “Outra” aqui tratada, na sua gerência da
relação com o homem casado, não perspectiva solidificar a mesma, na finalidade de aprofundar
os laços afectivos e posterior formulação de uma família paralela, mas, sim, procura a satisfação
das suas necessidades ou carências financeiras e materiais em troca de prazeres sexuais, tanto
que são negociadas as normas de relação ainda na sua constituição, para que, caso incorra a uma
situação não projectada inicialmente, haja sempre uma ponte que salvaguarde o trato inicial, para
não comprometer a solidez do casamento e da família, e é importante tomar em conta que as
relações com a “Outra” nesse âmbito são de curto prazo.

Partindo do pressuposto de que a condição da “Outra” é uma construção social e que pode ser
determinada de forma subjectiva e relativa em detrimento do espaço em que ela se insere,

20
assumimos que tanto a “Outra” quanto o homem casado têm consciência da “proibição” da
relação que mantêm, o que os leva a adoptar um conjunto de estratégias para gerir a relação e, a
mulher em particular, a manipular a sua condição de “Outra”. Assim, nesta pesquisa, procuramos
captar essas estratégias e perceber as lógicas que orientam as interacções entre a “Outra” e o seu
meio social, interacções estas que concorrem para a produção da sua identidade social. E, é com
base neste pressuposto, que construímos a seguinte pergunta de partida: De que maneira a
“Outra” constrói e gere a sua identidade social, tomando em conta a ideia de que a relação
mantida com o homem casado não é socialmente aceite?

21
CAPÍTULO II
2. Enquadramento teórico e conceptual
Nesta secção, procedemos à apresentação da teoria que nos possibilite interpretar a realidade
social a que nos propomos analisar e nos orientamos em duas perspectivas teóricas,
nomeadamente, a teoria do estigma sobre a manipulação da identidade deteriorada, de Erving
Goffman (1980), como teoria principal, e a teoria da construção da identidade, de Claude Dubar
(2006), como auxiliar.

Goffman (1980) aborda, na sua obra, a questão da construção e gestão das identidades sociais e
entende que as mesmas não são estáticas, pois variam de acordo com a situação de interacção
social em que o indivíduo se encontra. Ou seja, o autor compreende que os indivíduos estão
permanentemente a representar papéis sociais que variam de acordo com a situação de interacção
na qual se encontra.

O autor entende que a sociedade cria um conjunto de categorias e atributos que definem a
normalidade, sob as quais os indivíduos se devem comportar e agir. São estas categorias e
atributos que definem a identidade social do indivíduo e vão determinar a forma como este se
relaciona com os demais membros da sua colectividade. As rotinas de relação em ambientes
estabelecidos permitem-nos um relacionamento com os outros previstos, sem atenção ou reflexão
particular. Então, quando um determinado indivíduo nos é apresentado, os primeiros aspectos
permitem-nos prever a sua categoria, os seus atributos e a sua identidade social; pelo que,
baseando-se nessas premissas, transformamo-las em expectativas normativas e exigências
apresentadas de forma rigosa. Estas exigências deveriam ser denominadas por demandas feitas
de forma afectiva e o carácter que imputamos ao indivíduo deveria ser encarado como uma
atribuição potencialmente projectada por uma retrospectiva seria a identidade social virtual, e as
características que o indivíduo provar possuir, tomadas como a sua identidade social real.

Os meios que a sociedade usa para definir a normalidade moldam-se também em expectativas
sobre como os indivíduos devem agir. Diante disso, o autor distingue a identidade virtual (que se
constitui naquilo que a sociedade espera que o indivíduo seja), da identidade real (que se
constitui na forma como o indivíduo é). Com relação às acções e comportamentos dos
indivíduos, a sociedade constrói expectativas e para que sejam correspondidas, estes mesmos

22
indivíduos são sujeitos a um processo de socialização onde aprendem as normas e regras do meio
social em que estão integrados.

Para Goffman (1980), estamos diante do estigma, quando um indivíduo determinado apresenta
uma característica ou atributo que se diferencia dos demais membros da sociedade, algo que faz
com que o mesmo seja considerado anormal e que sobre ele se constroem vários estereótipos. O
estigma, na perspectiva do autor, tem duas dimensões: a primeira lida com a condição de
desacreditado, onde o estigmatizado assume que a sua característica distintiva já é conhecida ou
é imediatamente evidente; a segunda liga-se à condição do desacreditável, já que esta não é
conhecida pelos presentes e nem é imediatamente por eles perceptível.

O estigmatizado descobre que é diferente, pois que enfrenta dificuldades para se integrar
socialmente, devido a uma característica física ou social de que é portador. Goffman (1980),
considera que várias podem ser as respostas que o portador de um estigma pode apresentar:
isolar-se dos demais membros da colectividade, dedicar-se e se empenhar nas actividades
consideradas para indivíduos normais, agrupar-se aos seus semelhantes ou ainda querer tirar
vantagem da sua condição ou situação, entre outras estratégias de gestão identitária. Tais
estratégias são adoptadas nas situações em que os portadores de estigma se encontram em
interacção com os outros indivíduos, principalmente aqueles que são considerados normais.

Basendo-se na teoria do estigma, partimos do pressuposto fundamental de que a sociedade é que


define a normalidade das acções e comportamentos para os seus integrantes e, por essa razão,
prevê um conjunto de situações indesejáveis que podem ser consideradas anormais. Mais
especificamente, a sociedade define como normais às relações amorosas que pressupõem a
conjugalidade de duas pessoas (ou noutros contextos que assumam a poligamia com
legitimidade), prevendo assim como anormais as relações amorosas que envolvam a terceira ou
quarta pessoa sem legitimidade na conjugalidade já definida. Portanto, aquelas mulheres que se
submetam à condição de “Outra” e, sobretudo, de forma ilegítima, são portadoras de um atributo
social que as rotula diante dos demais indivíduos e, portanto, tornando-se portadoras do estigma
pessoal2.

2 Estigma pessoal: relacionada a culpas de carácter individual, percebidas como vontade fraca, paixões incomuns,
crenças falsas, rígidas e desonestas, para Goffman (1980), estas culpas podem ser inferidas a partir de relatos
conhecidos como, por exemplo, os distúrbios mentais, desemprego, amantização, alcoolismo, entre outros.

23
Propomo-nos aplicar esta teoria como nossa ferramenta interpretativa, tendo em conta o
objectivo da pesquisa: compreender a construção e gestão da identidade da mulher na condição
de “Outra”, por acreditarmos que pode possibilitar uma compreensão profunda da realidade
social em análise, pois enfatiza a relação existente entre os indivíduos portadores de estigma e os
não portadores de estigma e das estratégias de gestão identitária dos indivíduos estigmatizados.
Neste prisma, a “Outra” representa uma minoria social, num contexto em que as regras e normas
sociais são predominantemente marido e mulher, por isso, são portadoras de um atributo
depreciativo.

A perspectiva teórica auxiliar é apresentada por Dubar (2006), segundo o qual existe dois
elementos característicos da identidade, designadamente, a diferenciação e a generalização.
Sobre diferenciação, o autor mostra que a identidade é aquilo que faz a singularidade de alguém
ou alguma coisa em relação a outra coisa ou outro alguém, ou seja, a identidade, para ele, é a
diferença. E, a partir da generalização, mostra que a identidade é o ponto comum a uma classe de
elementos diferentes de um todo, isto é, a identidade é a pertença comum.

Para compreender o processo de construção da identidade do indivíduo, há que se ter em conta o


conceito de configuração identitária, que é, segundo Dubar (2006), as diversas modalidades de
actualização das formas identitárias. Com este conceito, o autor mostra que cada indivíduo está
propenso a ser identificado ou identificar-se de formas múltiplas, seja a partir da sua linguagem,
sua aparência física, sua maneira de vestir, de ser e estar e até das actividades que exerce, entre
outros.

Baseado no conceito acima citado, Dubar (2006) advoga que é possível identificarmos duas
formas identitárias básicas, nomeadamente: as formas comunitárias, também denominadas por
formas culturais, e as formas societárias, designadas também de narrativas.

As formas comunitárias compreendem os grupos sociais principais, comunidades, por exemplo, a


que cada indivíduo pertence ou da qual faz parte e que são vitais para a sua existência. Esses
grupos podem ser etnias, culturas, nações e corporações. Enquanto as formas societárias
constituem colectivos múltiplos, variáveis, efémeros, aos quais os indivíduos aderem durante
períodos limitados e que lhe conferem as formas de identificação que lhes gerem de maneira
provisória e diversa (Dubar, 2006).

24
O autor prossegue afirmando que entre as formas comunitárias e societárias de identificação, é
possível ainda encontrarmos duas intermediárias, as formas reflexivas e as estatuárias. Com este
ponto, visa mostrar que não existe uma forma identitária que prevalece sobre as outras,
dependendo de cada contexto em que o indivíduo está inserido, é possível encontrar uma forma
de identificação em detrimento de outra, complementando-se umas às outras.

Defende ainda que a identidade é produto da socialização pela qual o indivíduo passa. E, desse
modo, a socialização constitui uma base para compreender a construção da identidade dos
indivíduos. Nesse sentido, Dubar (2006) concebe a socialização como um processo de (des)
construção e (re)construção de identidades ligadas a diversas esferas de actividade,
principalmente profissional, que cada um encontra durante a sua vida e das quais deve aprender a
se tornar actor. Importa referir que a socialização se encontra subjacente às formas identitárias
acima referidas, ou seja, o indivíduo se identifica pelo grupo social do qual faz parte, no caso, a
comunidade, ou se define pela posição social que ocupa numa organização profissional.

Esta proposta teórica possibilitou-nos compreender como a identidade da “Outra” é ou pode ser
construída através dos processos de socialização correlacionados com a forma como esta encara
e gerencia a relação que mantém com homem casado. Isto é, a socialização poder-nos-á mostrar
as diversas influências exteriores que as mulheres sofrem e que contribuem para a adopção da
acepção “Outra” como a sua identidade.

2.1. Conceptualização
Os conceitos podem ser entendidos como elementos que permitem a aproximação da realidade
empírica, através do estabelecimento de dimensões e indicadores. Os conceitos básicos que
norteiam o nosso estudo são: Relações amorosas, Identidade social, Estigma e“Outra”.

2.1.1. Relações amorosas


Dentro da nossa sociedade ocidentalizada, as relações amorosas ocupam um papel central na
vida social. O conceito vem sendo (re) definido em função das novas formas, a partir das quais
este fenómeno se vai manifestando na vida social concreta. As definições actuais procuram
destacar e diferenciar as relações amorosas.

Para alguns autores, a exemplo de Neves (2007), o amor tem sido entendido não só como a base
para as interacções sociais, mas, também, a chave para todas as escolhas humanas. Contudo, é

25
praticamente irrefutável a pertinência e a frequência com que o amor se tem manifestado nas
nossas vidas e, principalmente, dentro da nossa cultura. O conceito de relações amorosas, para
este autor, remete-nos ao fruto de uma determinação social e histórica.

O modo como nos iremos relacionar afectiva e sexualmente com o outro, o que procuramos no
parceiro, os valores esperados numa relação e o modo como esta se irá configurar é condicionado
pelo tempo histórico em que o sujeito está inserido. Para entender a dinâmica das relações
amorosas, torna-se necessário investigar como se configura no nosso momento histórico-cultural
e por quais mudanças ele tem passado e de que forma as velhas concepções se relacionam com
as novas, produzindo subjectividade.

As relações amorosas são estudadas, segundo Cruz e Maciel (2012), como uma experiência
científica que exige compreensão multidimensional das características dos vínculos conjugais e
das redes das relações sociais em que estão envolvidos. Esses vínculos são complexos, pelo facto
de cada relacionamento ter uma configuração própria que varia de acordo com as necessidades e
expectativas individuais dos envolvidos afectivamente, e com a dinâmica e cultura em que estão
inseridos.

Os autores supracitados assumem ainda que as relações amorosas possuem objectos de estudos
característicos da Psicologia, como a natureza dos vínculos, os processos motivacionais e a busca
por satisfação, aspectos próprios de uma relação amorosa. Cabe salientar que, com o passar dos
anos, a configuração dessas relações tomou várias formas e nomenclaturas como: casais,
namorados, companheiros, parceiros, ficantes, namorados, entre outros.

Todas as definições acima trazidas são actualizadas e reflectem a realidade. Entretanto, sem optar
por uma ou por outra, neste trabalho, concebemos as relações amorosas na dimensão de namoro.
Neste sentido, relação amorosa deve ser entendida como a relação afectiva mantida entre duas
pessoas que se unem pelo desejo de estarem juntas e partilharem novas experiências.

Numa relação tradicional, o namoro é a fase do relacionamento que antecede o noivado e o


casamento, o casal partilha conhecimentos, fortalece a confiança e cumplicidade e experimenta
relações mais íntimas, de natureza emocional e/ou sexual, que servem de base para decidirem se
firmam um compromisso mais sério, é uma relação mais leve e menos exigente que um
matrimónio, mas, também, envolve fidelidade entre os namorados. Hoje em dia, em muitos

26
casos, o namoro não tem como objectivo o casamento. São namoros liberais e as relações tendem
a ser cada vez mais fluidas.

2.1.2. Estigma social


O conceito de estigma social é discutido por Goffman (1980) enquanto marca ou atributo que
designa o seu portador como desqualificado ou menos valorizado, ou seja, qualquer
característica, não necessariamente física ou visível, que não coaduna com o quadro das
expectativas sociais sobre um determinado comportamento individual.

Todas as sociedades definem categorias acerca dos atributos considerados naturais, normais e
comuns do ser humano, o que o autor supracitado designa por identidade social virtual. Nessse
sentido, o indivíduo estigmatizado é aquele cuja identidade social real inclui um qualquer
atributo que frustra as expectativas de normalidade.

No nosso trabalho, entendemos como estigma social a condição de “Outra” a que as mulheres
que se relacionam com homens casados estão sujeitas, o que faz com que elas sejam
estereotipizadas e rotuladas por não se enquadrarem nos padrões socialmente construídos de uma
mulher ideal. Nessa senda, criam uma identidade social virtual, como forma de gerir as
expectativas sociais criadas sobre ela, ocultando a sua identidade social real, a condição de
“Outra”.

2.1.3. Identidade social


O conceito de identidade social é, aqui, reflectido para perceber como é construída e gerida a
identidade das namoradas dos homens casados, particularmente as que lidam com esta realidade
na cidade de Maputo.

Dubar (2006) define o conceito de identidade social, abarcando duas facetas, ou seja, esta
constrói-se a partir da interacção entre a identidade para si (o que o indivíduo acha de si mesmo),
que compreende as biografias produzidas pela trajectória e experiência que os indivíduos
adquirem no percurso da sua vida. Por outro lado, temos a faceta da identidade para o outro
(aquilo que os outros indivíduos acham sobre o indivíduo dentro de um contexto social e
temporal especifíco). Esta identidade é adquirida pela pertença dos indivíduos a grupos étnicos,
tribos, nação ou classe social.

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Ciampa apud Faria &Sousa (2011), concebe a identidade como uma metamorfose, ou seja, uma
constante transformação, “ sendo o resultado provisório da intersecção entre a história da pessoa,
seu contexto histórico e social ”.

Na concepção de Giddens (2005), o conceito relaciona-se ao conjunto de compreensões que as


pessoas mantêm sobre quem elas são e o que é significativo para elas. De acordo com o autor, a
identidade perpassa duas dimensões que se encontram intimamente ligadas. Isto é, podemos
encontrar no indivíduo, analiticamente, uma identidade social e uma identidade pessoal ou auto-
identidade. Por identidade social compreende-se em Giddens (idem), como um conjunto de
características que são atribuídas ao indivíduo pelos outros, permitindo definir que é o mesmo.
Por outro lado, a identidade pessoal consiste na percepção que o indivíduo tem de si mesmo e do
mundo à sua volta.

Na perspectiva de Berger & Luckmhann (2002), o conceito de identidade é formada pelos


processos que são determinados pela estrutura social. E, para a sua manutenção e modificação, é
condicionada pelas relações sociais. A formação da identidade, para estes autores, parte da
interacção do organismo, da consciência individual e da estrutura social. De forma sintética, os
autores concebem a identidade como um fenómeno que deriva da dialéctica entre o indivíduo e a
sociedade.

Observámos algumas convergências nas definições, onde todas colocam em evidência a ideia da
identidade se assentar em duas dimensões: uma individual e outra social, e nessa perspectiva,
Giddens (2005) e Dubar (2006) afirmam que estas duas dimensões se encontram intimamente
ligadas no quotidiano dos indivíduos durante o processo de interacao social. Por outro lado,
Berger & Luckmhann (2002) mostram que a identidade do indivíduo é produto da relação que o
mesmo mantém com a sociedade. Ou seja, a análise da identidade só é possível de ser feita,
tendo-se em conta essa dialéctica. Ciampa (2011) refere-se à intersecção da história do indivíduo,
ao contexto sócio-histórico e aos projectos dos indivíduos.

Contudo, no presente estudo, entendemos como identidade social a concepção que o indivíduo
constrói de si próprio, resultante da interpretação que tem de si mesmo e da interpretação que os
outros têm dele, influenciado pelos vários grupos aos quais pertence, enquanto membro da
sociedade.

28
2.1.3. A "Outra"
O conceito de “Outra” perpassa entrelinhas conflituosas, sendo ainda relacionado ao termo
amante, que é, portanto, carregado de muitos estereótipos, que designa, até então, uma mulher
promíscua, sem princípios e repudiada pela sociedade, uma mulher cujos valores morais
divergem com os impostos socialmente, uma mulher que não se dá ao respeito e, sempre, reflecte
num modelo aversado de mulher provedora, dona do lar e merecedora de respeito e
reconhecimento das pessoas. Porém, Goldemberg (2011) sugere transitar o termo de amante para
o de “Outra”, pois, para ela, tomado como conceito, mostra-se mais estável ou fixo, capaz de ser
sintetizado e analisado em função da dimensão pela qual é tomada, ou seja, é mais dinâmico e
permite discussões sólidas e válidas.

Segundo Goldemberg (2000b), debruçar-se sobre a “Outra” não é uma tarefa simples, pelo facto
de se tratar de um assunto extremamente particular, sendo assim, não existe um conceito
específico sobre a “Outra” e este varia de contexto para contexto. Ademais, esta autora define a
“Outra” como sendo aquela mulher que mantém relações sexuais e afectivas com homem casado,
tendo conhecimento da existência da legítima esposa.

Temo-nos deparado com uma fraca sistematização no que diz respeito à construção de uma
definição elaborada da “Outra”, sendo assim, recorremo-nos à concepção que Goldemberg
(2000b) apresenta, porém, tomando em conta a discussão que o presente trabalho tenta levantar,
consideramos a “Outra” como sendo a mulher que mantém relações sexuais-afectivas com
homem casado, tendo conhecimento da existência da legítima esposa e, entretanto, não tendo
tendências em perspectivar uma solidificação da relação para posterior construir uma possível
família paralela à oficial, interessando-se apenas em satisfazer o homem casado sexualmente, em
troca de favores materiais e satisfação financeira, o que faz dela uma mera namorada (ficante ou
casual).

29
CAPÍTULO III
3. Aspectos metodológicos

3.1. Método de abordagem


O presente trabalho de pesquisa privilegiou uma metodologia de abordagem qualitativa, na
medida em que possibilita um exercício com profundidade na recolha e análise dos dados,
permitindo-nos não só elaborar categorias analíticas da “Outra”, concebidas pelas entrevistadas,
como também analisar a forma como estas práticas se reflectem na gerência da relação. O
método qualitativo foi-nos bastante útil e apropriado, pois, através dele, procuramos identificar
elementos práticos que se apresentam no quotidiano da “Outra” de forma bastante subjectiva, o
que faz com que não seja de fácil identificação.

A pertinência do método qualitativo no presente estudo é justificada por Richardson (2008), que
afirma que este método “permite ao pesquisador aprofundar o universo simbólico do objecto
estudado e permite captar sentidos e valores que cercam o objecto de estudo". De igual modo,
para a autora supracitada, a pesquisa qualitativa possibilita vislumbrar com substância a parte do
social não captável e perceptível por meio de inferências estatísticas.

3.1.1. Método de procedimento


Como método de procedimento, privilegiamos o monográfico. Este método possibilitou-nos
partir de informação imediatamente identificável, ligada à constituição de relações paralelas ao
casamento por parte dos homens, a informação só poderia ser acessível depois de se atingir um
nível profundo de exploração. Foi neste sentido que pudemos atingir e recolher informação na
qual conseguimos identificar formas específicas de constituição e gerência de relações amorosas
levadas a cabo pela “Outra”. Segundo Gil (2007), o método monográfico, também assumido
como estudo de caso, consiste em seleccionar poucos casos e realizar uma exploração profunda
da informação disponível sobre os mesmos, de modo a esgotar todos os elementos relevantes.

30
3.2. População e amostra

3.2.1. Quanto ao grupo-alvo


O estudo foi composto por mulheres que estejam na situação de “Outra” ou que tenham mantido
uma relação afectiva com um homem casado (ainda que não seja formalmente, desde que esteja
comprometido e que viva maritalmente), privilegiando aquelas que mantêm ou mantiveram a
relação de forma casual/esporádica, sem interesse por uma solidificação para um relacionamento
sério ou que seja objectivamente significativo em relação à vida conjugal do homem. As
mulheres que mantiveram ou que mantêm a relação nesses moldes foram identificadas a partir
dos homens casados com os quais se envolveram e de alguns pares que, consequentemente,
fazem parte da nossa rede de contacto, o que nos possibilitou identificar e solicitar as entrevistas
ao longo dos primeiros contactos que tivemos com as mesmas.

3.2.2. Quanto ao tipo de amostragem


Sendo um estudo de carácter qualitativo, preconizamos a amostragem não probabilística, visto
que se adequa a esse tipo de abordagem, pois que não é um estudo com finalidades de
estabelecer inferências estatísticas para representatividade total, mas, sim, analisar uma realidade
que seja significativa a um certo grupo social, por isso, não houve necessidade de se conhecer o
universo amostral das mulheres que se relacionam com homens casados, pois, nem todas tiveram
a mesma probabilidade de fazer parte da nossa amostra.

As entrevistadas foram seleccionadas por intencionalidade, isto é, dos homens casados da nossa
rede de contacto, identificámos aqueles que estabeleciam relações amorosas de forma frequente
fora do casamento e que a posterior intermediaram o contacto com as mulheres com as quais se
relacionaram ou se relacionam na cidade de Maputo, que foi, neste caso, o nosso espaço
amostral.

3.2.3. Quanto à amostra(gem)


Lakatos e Marconi (2001) afirmam que a amostra intencional/convencional consiste em usar um
determinado critério e escolher intencionalmente um grupo de elementos que irão compor a
amostra. O investigador selecciona os grupos da população dos quais deseja saber as suas
características típicas e deles pretende obter a informação desejada. Assim, o nosso critério de

31
selecção foi o estabelecimento de relações afectivas que pressupõem, a prior, a troca de bens
materiais e satisfação financeira por prazeres sexuais.

Foram entrevistadas oito (8) mulheres seleccionadas, com idades compreendidas dos dezoito
(18) aos trinta e dois (32) anos, das quais quatro (4) são exclusivamente estudantes, duas (2)
trabalhadoras e estudantes e duas (2) são exclusivamente trabalhadoras. Procurámos
compreender a construção da identidade da “Outra” e a gerência da relação levada a cabo por ela
no seu todo, sem limitar a sua condição social.

3.3. Técnicas de recolha de dados


Para a colecta dos dados, recorremo-nos ao uso de entrevistas que, segundo Silva & Menezes
(2001), consistem na recolha de informações ou obtenção de esclarecimentos sobre determinado
assunto, através dos principais intervenientes. E, para esta pesquisa, foram usadas as entrevistas
semi-estruturadas, compostas por um guião pré-definido de questões e que permite a colocação
de outras questões que não estão necessariamente nele previstas. Estas entrevistas foram
administradas de forma individualizada, o que nos permitiu dispor de condições confortáveis e
tempo suficiente, para que pudéssemos ter uma interacção satisfatória com os interlocutores. As
entrevistas duraram em média 45 minutos, o que foi suficiente para que pudéssemos recolher os
dados necessários. Com esta forma de estruturação de entrevista, pudemos, nalguns casos,
produzir novas perguntas e transformar algumas respostas em perguntas, pois verificamos que,
nalgum momento, as interlocutoras procuravam assumir uma posição moral diante da realidade
em causa. Contudo, a introdução de novas perguntas permitiu-nos identificar a postura realmente
assumida diante deste facto.

Os dados foram recolhidos com recurso a um celular que nos permitiu gravar as entrevistas com
a permissão das interlocutoras. Numa fase posterior, nós mesmos, inicialmente, transcrevemos as
gravações para folhas de papel e, na sequência, para o computador, sendo um procedimento
adoptado para garantir não só a transparência dos dados, mas, também, a preservação da
identidade das entrevistadas.

3.4. Questões éticas


Como forma de proteger a identidade das entrevistadas, preocupámo-nos em estabelecer um
consentimento informado, onde nos responsabilizámos em privatizar não só a imagem, bem

32
como a integridade das participantes. Pelo que, os nomes usados são fictícios (personagens da
série La Casa de Papel).

Aplicámos, nesta pesquisa, a imparcialidade e neutralidade científicas, como forma de nos


capacitarmos para que não ocorressem situações de duplo constrangimento, ou emissão de juízos
de valor por nossa parte, comprometendo assim a validade dos resultados. Preocupámo-nos,
também, em conceder as entrevistas em espaços acolhedores e que não transmitissem
insegurança ou que expusessem as participantes da pesquisa.

3.5. Constrangimentos e limitações da pesquisa


Durante o processo de pesquisa, enfrentámos algumas dificuldades referentes às diferentes etapas
por que passámos desde a concepção à execução da mesma. A principal dificuldade que
enfrentamos prendeu-se na interacção com as mulheres na situação de "Outra", provavelmente
pelo facto destas terem consciência da sensibilidade, do preconceito e do estigma em relação à
sua condição.

Durante as entrevistas, foi possível perceber que o nosso contacto com homem casado gerou, de
alguma forma, desconfiança e reservas por parte da “Outra” com relação às intenções dos
mesmos. Pensaram algumas, que pretendíamos fazer julgamento da sua situação ou fazer uma
denúncia às legítimas esposas. Superou-se esta dificuldade inicial à medida que expúnhamos os
propósitos da pesquisa.

Outro aspecto relevante a mencionar tem a ver com o facto desta pesquisa ser uma das poucas no
contexto das discussões sobre a “Outra” em Moçambique. Foi difícil encontrar literatura que
apresentasse um elevado grau de exploração do assunto analisado, sendo que as constatações que
são aqui apresentadas não têm um suporte comparativo em relação a prováveis estudos anteriores
que podem ter sido realizados no país.

Assim, a limitação observada neste estudo é de não poder ser generalizado ou usado para
interpretar a situação geral da “Outra” em Moçambique, mesmo que apresente importantes
contributos nesse sentido. Isto se deve ao facto deste estudo ter sido realizado com uma fracção
ínfima de mulheres na situação de “Outra”, além de não ter sido possível analisar os discursos e
comportamentos de todos os potenciais intervenientes do processo de construção da identidade
de mulheres nessa condição.

33
CAPÍTULO IV
4. Apresentação e análise dosdados
Neste capítulo, procedemos à apresentação dos dados que foram recolhidos no campo e, na
mesma senda, fazemos a análise dos mesmos, tendo em conta a base teórica e os conceitos que
orientam o nosso estudo. Este capítulo está organizado e subdividido em três secções
fundamentais, nomeadamente: na primeira, fazemos menção ao perfil sócio-demográfico das
entrevistadas, na sequência, apresentamos as percepções que a “Outra” tem sobre o namoro e, na
terceira e última, discutimos as estratégias de construção e gestão da identidade da “Outra”.

4.1. Perfil sócio-demográfico


O perfil sócio-demográfico permite identificar e descrever as pessoas com as quais trabalhámos
no estudo. Neste sentido, foram entrevistadas oito (8) mulheres. No que diz respeito às idades
das mesmas, estão compreendidas entre dezoito (18) e trinta e dois (32) anos de idade. Todas são
dos bairros periféricos da cidade de Maputo, das quais três (3) são residentes do Zimpeto, duas
(2) do Magoanine e uma (1) do Malhazine e duas (2) do Choupal.

No que tange ao nível de escolaridade, duas das participantes têm o nível superior não concluído,
ou seja, estão ainda frequentando o nível superior, cinco têm apenas o nível médio concluído (10ª
e 12ª classes), e a restante com formação técnica profissional.

No que diz respeito à questão profissional, quatro (4) das participantes não são trabalhadoras,
encontrando-se exclusivamente a estudar. Das três restantes participantes, duas são trabalhadoras
e estudantes e uma exclusivamente trabalhadora, estas encontram-se distribuídas nas seguintes
profissões: técnica de enfermagem geral, gestora administrativa de empresas e empreendedora.

Importa salientar que as participantes, nos seus tempos livres, têm tido como ocupação (também
designado por hobby) leituras, filmes, redes sociais, beleza e culinária. A maior parte afirma ter
começado a se interessar principalmente com a estética e com as noções culinárias na fase em
que começaram a namorar e essa preocupação só se intensificou, para algumas, quando tiveram o
primeiro contacto com o homem casado, afirmam que era para impressionar e se sentirem mais
seguras delas mesmo.

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De forma resumida, o estudo considerou mulheres, residentes nos bairros suburbanos da cidade
de Maputo. Quanto à ocupação, estas são trabalhadoras e/ou estudantes e todas são ou já
estiveram na condição de “Outra”, ou seja, são ou foram namoradas de homens casados.

4.2. Percepções sobre o namoro na perspectiva da “Outra”


O namoro é uma fase muito importante e de extremo autoconhecimento e conhecimento do outro
para o indivíduo que decide iniciar uma vida compartilhada que pode (assim como não) culminar
com a formação duma família, esta fase é marcada ou manifesta através da conjugação de
sentimentos e objectivos projectados pelas partes envolvidas, porém, acreditamos ser importante
perceber o que a “Outra” entende por namoro, para melhor compreender a influência do mesmo
na construção da sua identidade. Nesta secção, apresentamos a concepção que a “Outra” tem do
namoro. Pudemos identificar três (3) tipos de percepções: namoro como troca de sentimentos
afectivos, namoro como troca de favores e namoro como um caminho para o casamento.

Os dados analisados possibilitaram-nos observar uma unanimidade nas entrevistadas sobre o que
elas percebem como namoro, nas suas perspectivas têm o namoro como interligação de duas
pessoas que se apoiam, mantêm conversas agradáveis, mantêm a amizade, companheirismo e
respeito mútuo, nalgumas situações pode significar sentimentos de amor, às vezes é mesmo pelas
trocas materiais. Como podemos observar nos depoimentos abaixo:

“ […] é o momento que as pessoas se unem para se conhecerem, eles têm uma relação aberta,
conversam, trocam intimidades!” (Nairobi, 24 anos).

“[…]para mim, namoro é troca de conversas, é uma amizade íntima entre um homem e uma
mulher […] visam totalmente tentar agradar outra pessoa, buscando conhecer mais para criar
um laço um pouco mais forte, assim posso dizer, porque quando namoram[…]as conversas são
mais íntimas e construtivas, o namoro serve para aprender alguma coisa, por isso acaba sendo
mais íntimo!”(Tóquio, 19 anos)

Como podemos observar neste último depoimento, a entrevistada evidencia o carácter didáctico
do namoro, na medida em que tira certas lições através das experiências que vivenciou ao longo
das relações que manteve.

“ […]namoro é interligação nem, de duas pessoas que se gostam ou que tenham um sentimento,
por mais que não seja um sentimento de amor, porque hoje em dia muita gente namora por N

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coisas, […] haaaaa, muita gente namora por interesse, outros namoram porque lhes convém
namorar, mas a maioria, eu creio que namora por amor mesmo[…] para mim devia, deve ser
por amor, mas eu acho que hoje em dia nós não levamos as coisas por aí, yaaa!” (Moscow, 24
anos).

“[…] namoro é quando duas pessoas se desejam e tem algo a ganhar com isso, quando eu me
envolvo com alguém é porque espero que a pessoa cuide de mim e eu também cuide da pessoa,
claro que nunca é igual a forma de cuidar, cada um deve usar as armas que possui, deste que os
dois sejam realizados e felizes, o amor vem com o tempo, até porque a forma como
demontramos o interesse vai ditar sem há chances de haver amor ou não!” (Lisboa, 24 anos).

Nestes depoimentos, observamos que a entrevistadas destacam a ideia de o namoro pressupor


algum tipo de sentimento afectivo, porém, têm a noção de que na actualidade, alguns dos
elementos do namoro transcendem a questão sentimental, enfatizam a ideia das pessoas estarem
a se relacionar apenas pela satisfação materia, deixam patente outro aspecto que nos remete à
superficialidade das relações de namoro, uma vez que de acordo com elas, as pessoas se
relacionam sem nenhum objectivo expresso, as pessoas relacionam-se como se fosse um hobby,
ou seja, forma de passar o tempo.

“ Namoro? Namorar, para mim, é a pessoa te conquistar e tu gostares da pessoa, ter um


namorado sério, que tenha planos contigo e que goste de ti, […]planos de viverem juntos e
constituir família, planos de se comprometer comigo e com a minha família, toda mulher que
sabe o que quer sonha com isso!” (Rio, 21 anos).

“ […] entendo que namoro é a união de duas pessoas, a junção de dois sentimentos, tipo de
ambas partes que se comprometem e se ajudam a crescer, que partilham sonhos e que desejam
formar um lar, é basicamente a socialização dessas coisas” (Denver, 21 anos).

Por último, estes excertos fazem menção ao elemento comprometimento que o namoro possui,
mostram a preocupação que se tem com a questão evolutiva do namoro, uma preparação para um
relacionamento mais sólido, mostra a intenção de perspectivar o namoro para uma união mais
concisa e que transmita segurança.

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4.3. A manipulação da etiqueta social no processo de gestão da relação mantida com o
homem casado
Tendo como suporte os dados por nós recolhidos, pudemos perceber que, dentro das relações
amorosas, há elementos e processos que podem constituir os universos identitários dos
indivíduos. Preocupámo-nos em conhecer o universo identitário da mulher que se relaciona com
homem casado, procurando perceber de que forma ela manipula a sua identidade como “Outra”,
considerando a gestão que faz da relação por conta do estigma que eminentemente corre o risco
de sofrer ou sofre. Daí que procurámos explorar os elementos inerentes à construção das
experiências dos relacionamentos mantidos com os homens casados, suas trajectórias sociais até
se assumirem como “Outra”.

A afirmação da identidade “Outra” pressupõe dois processos antagónicos: por um lado temos
mulheres na condição de “Outra” tentando firmar suas relações amorosas como normais e, por
outro, temos as estruturas sociais e valores dominantes que, socorrendo-se das responsabilidades
femininas e dos ideiais de uma relação amorosa socialmente construídos, considerando a mulher
na condição de “Outra” uma desviante, condenam estas relacões tomando-as como práticas que
atentam segundo a discussão apresentada por Goldenberg (2011) aos princípios da moral e dos
bons costumes.

É precisamente a partir desse pressuposto que podemos falar do estigma, pois existe consciência
por parte das mulheres na condição de “Outra” da proibição da relação amorosa na qual estão
inseridas. Isto é, a mulher, na condição de “Outra”, tem consciência do estigma de que é
portadora. Dado aos atributos depreciativos ligados à sua relação amorosa, e a consciência
colectiva na sociedade, procura condenar e evitar qualquer situação do género. A identidade da
“Outra” pressupõe que haja um conjunto de estereótipos e de atributos à ela emitidos, em função
das práticas e de valores dominantes.

O primeiro contacto e a posterior convivência com homem casado não acontece


maioritariamente de forma objectiva, pelo facto de a realidade ou a consciência que a mulher tem
do facto de ser a “Outra” pressuponha múltiplos pólos que são paradoxais à luz dos ideais
apreendidos no processo de socialização, o que faz com que tanto a constituição, assim como a
gestão da relação mantida com homem casado sejam realizadas de forma mais subtil possível, a

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constituição dessa relação pode derivar de uma decisão consciente, individual, sendo motivada
por problemas e carências pessoais, como mostram os seguintes depoimentos:

“Comecei a me relacionar com homens casados há quatro (4) anos atrás, […], haaaa foi uma
escolha própria, depressão também, eu era muito depressiva, não queria mais me envolver com
homens solteiros, sofri muito, então pensei que se ficasse com alguém que não me fizesse
ãcobranças eu poderia ser feliz, porque eu também passei a não me importar com os
sentimentos, desde que eu tivesse alguém para me satisfazer e me respeitar acima de tudo, foi
por isso que comecei a andar com homens desse tipo, […] nós sempre nos encontramos na
pensão da tia dele, e quase tudo sigiloso, acabei confiando na tia dele, porque já nos viu muitas
vezes, é mais fácil agir normalmente e sempre procurámos estar em lugares neutros, porque é
mais seguro para nós!”(Berlim, 32 anos).

“Comecei a ficar com homens casados aos meus 17 anos, porque eu era pobre, eu não tinha
nada, então eu imaginava sempre um homem rico, que tivesse um bom emprego e que me
entendesse acima de tudo, eu precisava de uma estabilidade e não conseguiria assim do nada,
pior com o corpo grande que tenho, era uma relação clandestina, sim, mas, quando
estivéssemos fora dos olhos dos que nos conhecem, agíamos como namorados normais!”
(Estocolmo, 19 anos).

“Com 17 anos, eu tinha um parceiro, mas, naquela coisa da juventude e querer dinheiro fácil,
fiquei com a pessoa sem o conhecer, mas eu sabia que ele era casado, porque tinha aliança e
quando questionei depois de alguns dias, ele me confirmou o que eu já imaginava e sabia. […]
Quando saíamos, sempre tínhamos de nos encontrar nas pensões e nos hotéis, era uma boa vida,
mas sempre que fosse me deixar, tinha de parar o carro álguns quarteirões da minha casa. Era
uma relação muito fechada, eu não tinha nenhum tipo de liberdade com ele diante das pessoas,
só quando estivéssemos a sós e isso só acontecia entre quatro paredes!” (Lisboa, 24 anos).

Como podemos observar nos depoimentos apresentados, as entrevistadas assumem terem


iniciado as suas relações amorosas com homens casados por questões pessoais, tal como enfatiza
Goldenberg (2011) no seu estudo, as mulheres ao se submeterem a condição de “Outra”
procuram contornar as suas faltas e suas carências sentimentais e materiais, servindo-se a relação
mantida, desse modo, não só como um espaço de refúgio aos problemas individuais, mas
também se vislumbra como uma pratica de satisfação pessoal em termos materiais e emocionais.

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4.3.1. A inconsciência da condição de “Outra”
Existem, também, aquelas que entram numa relação com homem casado inconscientes dessa
condição, que, de acordo com algumas entrevistadas, depois de um tempo tendo tomado
conhecimento, não houve espaço para romper com a relação, alegando existir atracção, paixão,
intimidade e, nalgum momento, até amor, restando apenas gerir a relação de uma forma que não
fique exposta aos demais e que principalmente não interfira na vida conjugal deste homem, para
que não haja choques ou conflitos com o meio social em que se encontra, como mostram os
extractos abaixo:

“Quando comecei a ficar com ele, eu não sabia que ele era casado, fui descobrindo ao andar do
tempo, mas quando descobri, não vi a necessidade de deixar porque já gostava dele, eu percebi
que era a mesma coisa e não há diferença. […], como eu não sabia que ele era casado, ao
andar do tempo fui percebendo que o comportamento que ele tinha não era de quem estava só
comigo, tinha mais alguém, mas já era costume receber aquele tratamento, eu deixei estar. […]
no início, encontrávamo-nos normalmente como namorados, saíamos, ele ia me buscar na
escola, mas tínhamos hora específica para nos falar, mas depois de um tempo tínhamos que ir
numa casa onde também tinha a loja dele, mas tudo tinha de ser escondido, passei a não ter
liberdade com ele [...], mudou muita coisa!” (Tóquio, 19 anos).

“ […]não foi assim tipo aconteceu alguma coisa comigo para me organizar, para namorar com
homem casado, eu conheci a pessoa, gostei da pessoa, namorei e me apaixonei pela pessoa sem
saber que ele era casado, [… ] quando descobri, interrompemos, mas, como já havia amor,
assim posso dizer, voltámos. Ninguém me influenciou a ficar com ele, também porque eu não
sabia que ele era casado, nos conhecemos e fomos nos envolvendo e assim ficámos, nos
tínhamos, sim, hora para nos encontrar, mas conversávamos ao telefone normalmente, desde
que ele não estivesse em casa, às vezes, vinha me buscar na escola e íamos num ponto, isso
antes de eu saber que ele era casado, depois que soube, eu no início não aceitava mais ir
àqueles pontos, era arriscado demais, nos encontrávamos em casa do tio dele!” ( Denver, 21
anos).

Estes excertos elucidam a ideia supracitada, visto que as entrevistadas afirmam ter mantido a
relação com homem casado, sem a consciência da sua condição de casado e, quando tiveram
conhecimento, optaram por continuar com a relação pelos sentimentos que já haviam sido

39
construídos entre o tempo que constituíram a relação e a descoberta de se tratar de uma relação
paralela que as condicionava a uma situação de ”Outra”. Ademais, tiveram de conceber
estratégias para gerirem a relação, de forma a garantir que a sua integridade não fosse manchada
pela sociedade, porque, ainda que os demais não soubessem, havia, sempre, um cuidado a tomar,
influenciado pela consciência que elas tinham: a pressão que sofreriam por se estarem a
relacionar naqueles moldes.

Com estes depoimentos, fica evidenciado que tanto as que se envolvem com homem casado de
forma consciente, quanto as que se envolvem inconscientes dessa condição, gerem as relações de
forma sigilosa. Relatos como falta de liberdade e pouca intimidade em público, a pertinência em
ocultar a relação para outras pessoas, são elementos que mostram a enraização dos ideiais sobre a
manutenção das relações monogâmicas e, com isso, a eminente marginalização das mulheres que
se assumem nessa condição por parte da sociedade que, segundo Goffman (1980) em
concordância com Goldemberg (2011), elas são tomadas como desviantes, onde afirma que a
“Outra” é estereotipizada pela sociedade, na medida em que é tomada como a destruidora de
lares, prostituta e, na maior parte das situações, referenciada como vilã do rompimento dos
casamentos sólidos e formais. Por isso, a “Outra” vive na clandestinidade, pois não pode
aparecer publicamente e nem participar na vida social do seu parceiro, por ele ser casado.

Entretanto, incorrendo aos argumentos apresentados pelos autores supracitados, constatamos


uma controvérsia segundo os depoimentos das entrevistadas, e se alucida uma libertinagem
conferida no âmbito das relações não-monogâmicas, na medida em que ferem com as premissas
que gerem os relacionamentos monogâmicos, ora vejamos: sendo que as mulheres na condição
de Outra têm a plena consciênca da inibição de relacionamentos com homens casados,
depreendem esforços para adopção de estratégias para contornar os rótulos que eminentemente
podem sofrer, sendo este, um comportamento inverso ao que se espera, tomando em conta o
processo de socialização pela qual passaram, que seria de se despreenderem desses
relacionamentos e manterem relações amorosas com homens que sejam desepedidos e que por
essa via tivessem liberdade que referem não ter e a aceitação social, para se desenvolverem e
alcançarem a desejada satisfação pessoal.

A fluidez dessas relações e a ousadia dos envolvidos, levam-nos a questionar se não estariamos
diante uma prostituição sofisticada, movida pelo consumismo e pelo imediatismo que são

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elementos estritamente defendidos e discutidos na perspectiva das relações não-monogâmicas?
Porem, não se enquadrando na nossa abordagem, deixamos essa indagação para pesquisas
posteriores e futuras.

4.4.1. A nova identidade: a omissão como estratégia de gestão da identidade da namorada


do homem casado
De acordo com os dados discutidos no ponto anterior, podemos observar que a manutenção da
relação mantida com o homem casado pode ser, em si, uma estratégia que a “Outra” adopta para
gerir a sua própria identidade. Porém há um aspecto essencial desta discussão que incide na
construção desta mesma identidade e que pode ser anterior à constituição da relação amorosa
com o homem casado e tem a ver com o facto da “Outra”, além de tomar postura diferente da
apreendida durante o seu processo de socialização, age também de acordo com as expectativas
da colectividade. Para essa situação, Goffman (1980) distingue dois conceitos fundamentais: a
identidade social que é constituída com base nas categorias sociais da colectividade a que o
indivíduo pertence e, por outro lado, a identidade pessoal que se relaciona com as características
pessoais dos indivíduos que são mais ou menos constantes.

Sob condições nas quais a mulher é socializada, transgredir uma norma leva a que a mesma
incorra ao risco de ser considerada desviante. O que constatámos na nossa pesquisa, através dos
depoimentos da “Outra”, é que há, na família e nas redes de contacto da “Outra”, alguma
expectativa em relação ao facto delas serem mulheres que não se envolvam com homens nessa
condição, porque, por concepção, isso pode afectar até o espiritual desta mulher e pode ser até
repudiada pelo homem que pretenda se engajar a posterior numa relação séria com ela, de forma
geral, ela não teria nenhum valor como mulher aos olhos dos outros e isso lhe conferiria muitos
conflitos socias, sem contar com a marginalização que sofreria.

Por essa razão, ela se vê na contingência de adoptar um conjunto de estratégias que a permitam
manter certa identidade social virtual diante da família e de alguns pares que sejam importantes
para ela. No leque de estratégias, a omissão da relação é a a principal delas, como podemos
observar nos excertos abaixo:

“Ele era conhecido pela família, a família dele era amiga da minha família, mas ninguém sabia
que nós tínhamos um caso, […] de certeza que se eles soubessem eu receberia críticas, primeiro,
procurariam saber porque eu estava com uma pessoa casada, independemente de quem fosse,

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digo isso porque minha tia mais nova já esteve nessa situação, quando descobriram, eles não
aceitaram e notou-se uma desaprovação, sentiram-se ofendidos, eles se preocupavam com o que
as pessoas diriam sobre a família, então, eu não comentei nem com a minha melhor amiga, até
porque os meus pais ainda não aceitam que eu namore, seria muita decepção para eles, por isso
nunca disse nada e terminámos sem eles saberem” (Tóquio, 21 anos).

“Minha mãe sempre teve conhecimento das pessoas com quem me relaciono, mas, neste caso, eu
não falei nada, e se olhar por parte das pessoas, acho que seria um choque e não seria uma boa
coisa, principalmente para ela, sendo que ela sempre me viu como uma pessoa reservada e
certinha e conhece as consequências de meninas que entram nessa vida, ela é preconceituosa
mesmo e se soubesse que a filha dela estava nessa situação, certamente que seria um escândalo,
[…] mas nem por isso eu me considero uma pessoa não reservada, mas sei que ela não
entenderia, porque não está preparada para encarar essa situação, aprendeu e me ensinou que
uma mulher deve ficar com um homem que seja desimpedido, porque assim teria foco para
respeitar a mim e a minha família, e, perder a honra que ela tanto protege seria demais, mesmo
que eu não me sentisse efectivamente amante dele, porque só tivemos alguns encontros, nem
namorados fomos!”( Nairobi, 24 anos).

“[…]nem minha família sabe, e se por acaso eles soubessem, ficariam muito decepcionados
comigo, principalmente os meus pais, sabe, quando um filho nasce numa casa, sei lá, os nossos
pais têm aquela mania de olhar as coisas por nós, querem que nós sejamos o que eles querem e
certamente que eles ficariam decepcionados por eu ser aquela mulher que eles não sonharam
que eu fosse, então, eu finjo que se trata de alguém normal e evito ao máximo deixar à vista
tudo o que me liga a ele, há alguns dias até me perguntaram porque não lhes apresento, eu
sempre invento uma desculpa, só para eles ficarem tranquilos e não desconfiarem do meu
namorado, até porque não pretendo ficar muito tempo com ele, por isso eu nem me importo em
lhes dizer qualquer que seja a coisa relacionada a isso, eu sou apenas namorada dele, não só
pelo que penso sobre ele ser casado, mas porque minha família nunca lhe aceitaria!” ( Moscow,
24 anos).

Segundo as ideias defendidas por Goffman (1980), sobre a identidade real e identidade virtual,
observámos que, no dia-a-dia, a “Outra” mantém interacção com outros indivíduos e, nessas
interacções sociais, a manipulação da identidade acontece à medida que esta mulher continua

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agindo ao nível do aparente, de acordo com as expectativas que são criadas ao facto de serem
mulheres que não se submeteriam à condição de “Outra”.

A “Outra”, segundo estes excertos, mantém uma identidade secreta que pode ser considerada a
identidade real, contudo, por causa do estigma e do receio, as reacções dos outros
(principalmente da família), a mulher, na condição de “Outra”, age ao nível do aparente, ou seja,
aparentam ser mulheres que se relacionam com homens solteiros e fazem de tudo para que a
relação que mantêm aparente ser normal, a grosso modo, omitem que têm relações, reservam-se
ao oculto, e procuram transmitir o ideal de conservadores e respeitadoras das condições pré-
estabelecidas socialmente.

A família, sendo a primeira instituição socializadora 3 dos indivíduos, é basilar, ou seja, é


geralmente no seio familiar que o indivíduo apreende os seus primeiros conhecimentos sobre as
coisas e sobre o mundo. Nesse sentido, quando a mulher se relaciona afectivamente com um
homem que não lhe vá proporcionar a realidade a que ela foi socializada, as expectativas sobre a
mulher provedora criadas no quadro socializador anteriormente descrito são defraudadas e a
descoberta da relação mantida fora dos padrões estabelecidos socialmente dentro da família pode
desencadear etiquetamentos.

Durante as análises, constatámos que quando a mulher assume a sua condição de “Outra”, ou
pensa na hipótese de assumir, pressupõe como a primeira reacção da família a inaceitação.
Assim, renfere-se que o preconceito em relação à condição de “Outra” pode começar dentro das
relações familiares, contudo, tais etiquetamentos não devem ser analisados distantes dos valores
predominantes na sociedade, pois reflectem a forma como as relações amorosas dos indivíduos
são construídas.

Na maior parte dos casos, frequentemente, é no meio de uma crise interna (caracterizada pelo
facto de estarem a ser pressionadas para apresentarem os seus parceiros, pressão esta justificada
pela mudança de comportamento e postura, aquisição de bens materiais em que a família

3A família como uma instituição social: no contexto da socialização que são feitos os primeiros processos de
construção das diferenças sociais de raparigas e rapazes, onde a rapariga é ensinada a brincar de bonecas,
panelinhas, entre outras, é capacitada também a ter a figura de rapaz como provedor dela e da família, uma
simulação autêntica do que pode vir a ser a sua vida amorosa ou até conjugal na qual deve se dedicar a maternidade,
a domesticidade, ao respeito pelo homem ou marido, na preocupação de enraizar a ideia de que a mulher só deve se
dedicar a apenas um homem na sua vida, como sinal de respeito e honra dela e da família de que ela provém.
(OSÓRIO, 2004).

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desconfia da sua proveniência) que conseguem revelar que estão numa relação com um homem
casado, não que seja algo que elas decidam espontaneamente contar, pois há muito receio por
parte delas, por isso mesmo que contam a alguém muito confiado dentro da família, porque
encarar directamente os pais ainda é muito difícil e constrangedor. E, por essa via, nutrem
expectativas à volta das mesmas, na ideia de que numa determinada fase da vida, tomem a
decisão de escolher uma relação afectiva passível de ser aceite socialmente.

Pelo que consta, as mulheres na condição de “Outra” sentem alguma desaprovação em relação à
sua escolha afectiva por parte dos indivíduos com quem interagem nos diversos espaços que
frequentam, e, por conta disso, elas adoptam um conjunto de estratégias de manipulação e gestão
da identidade “ Outra”, entre elas, a omissão, o silêncio, o fingimento ou demonstração de uma
identidade virtual. Segundo Goffman (1980), a “Outra” é portadora do estigma social, aquele que
resulta do facto do indivíduo ser portador de um atributo ou característica social que o deprecia
diante dos demais elementos da colectividade. Nesta senda, em concordância com Goffman
(1980), essa discrepância pode fortalecer a identidade social virtual e tem como objectivo
aproximar a mulher na condição de “Outra” da sociedade e de si próprio, o que faz com que ela
se torne numa pessoa desacreditável, frente a uma realidade social inacessível.

4.4.1. O meio social como espaço de gestão do estigma


As mulheres na condição de “Outra” relacionam-se socialmente com outros indivíduos fora a
família e procuram, nessas relações, firmar uma certa normalidade, transmitindo a ideia de uma
mulher normal como qualquer outra. No espaço das relações extra-familiares, a “Outra” adquire
algumas experiências, umas esperadas e outras não, de relacionamento com os outros, referimo-
nos aos espaços de rua, vizinhança e outros espaços sociais frequentados pela “Outra”.

No caso das mulheres na condição de “Outra”, a atribuição de denominações pejorativas como


vagabunda, marandza e lanchinho do Sugar Dad, são exemplos do estigma que as levam a
omitir suas relações amorosas.

A necessidade de manipulação passa, muitas vezes, pela ideia das mulheres na condição de
“Outra” serem segundo Goffman (1980) desacreditáveis, dessa forma, terem que se passar por
conservadoras, obedientes e de conduta inquestionável, para que consigam ser aceites nos
círculos de amizade, ainda que, segundo as entrevistadas, não seja tão importante serem aceites,

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elas só querem ser respeitadas e que não sofram nenhum tipo de rejeição ou exclusão social
como resultado da marginalização que elas podem sofrer ou sofrem por estarem nessa condição,
mesmo que essa condição não seja imediatamente detectável, ou detectada, como mostram os
excertos seguintes:

“[…] a sociedade deve mudar, eu sinto a pressão das pessoas quando se trata desse assunto,
tem pessoas que quando sabem que fulana está numa relação com o homem casado, procuram
te insultar e te maldizer e nunca param para pensar nos danos que isso pode causar em ti, por
isso em nenhum momento eu abriria o jogo para pessoas desse tipo, tanto que para justiçar as
coisas que eu tenho através dele, eu procurei fazer um negócio, para pessoas não questionarem
tanto, porque sei que se questionam, eu procuro fazer perceber que as coisas que eu tenho são
legitimas, e se formos a fundo são, mas as pessoas falam demais!”(Denver, 21 anos).

“[…] tinha relações com ele, praticamente era namorada dele, eu compreendo que era
necessário esconder a relação, principalmente para as pessoas que não são da família, mas
conhecidas porque elas, de certeza, me julgariam, ainda que isso não constituísse muita
importância para mim, por isso até agora é difícil saberem quando é que estou a namorar e
quando é estou sozinha, prefiro fingir que não se passa nada!” (Tóquio, 19 anos).

“Eu escondia, sim, porque eu tinha namorado, ele era o meu escudo, pior porque era conhecido
na zona!, por isso, sempre que voltássemos dos nossos encontros proibidos, era necessário que
me deixasse a alguns quarteirões da minha casa. Para nós, não era um grande problema,
porque sabíamos o que estávamos a fazer, mas é meio desgastante porque eu estava, de certa
forma, a trair o meu verdadeiro amor, mas ele não conseguia me dar tudo que eu precisava, mas
para coisas que beneficiaram no final das contas aos dois, embora os outros nunca entendem
isso[…], as pessoas até que podiam desconfiar ou até saberem e alguns chegaram a me chamar
nomes por causa disso, mas eu nunca lhes confirmei nada e nem dei ouvidos, eu sabia o que
estava a fazer” ( Lisboa, 24 anos).

Este tipo de comportamento é motivado pelo medo da possível reacção dos outros, porque nunca
se tem certeza do real tratamento que passaria a receber, ainda que já tivessem de suportar alguns
tratamentos pejorativos apenas por conta da desconfiança, sem necessariamente haver uma
confirmação, por isso a contingência de uma iminente revolta ou afastamento social era
fundamental.

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Estes dados dão conta que as mulheres na condição de “Outra” são tratadas como desviantes em
decorrência de estarem a agir fora de um quadro socializador, no qual foram criadas. Sobre este
aspecto, Goffman (1980) fala da insegurança que o portador do estigma tem mediante a sua
apresentação diante dos outros, na medida em que a “Outra”, a estigmatizada, pode descobrir que
se sente insegura em relação à maneira como os outros a identificam e a recebem, procurando,
assim, um conjunto de actos e comportamentos que evitarão que sejam rotuladas ou que sofram
qualquer tipo de discriminação.

Nota-se que as mulheres na condição de “Outra” tentam firmar ou defender uma certa
normalidade, ou seja, procuram ser igualadas a outras mulheres e que a sua relação amorosa não
seja nunca usada para mantê-las em desvantagem comparativamente às demais mulheres da
sociedade. Tal como afirmam, gostariam de ser respeitadas, não importa se não aceites ou não,
desde que sejam respeitadas. E isso se enquadra no contexto das expectativas de vida dos
estigmatizados referenciados por Goffman (1980), afirmando que o indivíduo estigmatizado
tende a ter as mesmas crenças sobre a identidade que os demais têm, contudo, os seus
sentimentos mais profundos sobre o que ele é pode confundir a sua sensação de ser uma pessoa
normal, uma mulher como outra qualquer, portanto, que merece um destino agradável e uma
oportunidade legítima.

4.4.2. O grupo de pares


Os espaços de sociabilidade são aqueles nos quais os indivíduos estabelecem um conjunto de
interacções sociais, trocam informações e partilham expectativas. Os grupos de amigas e primas
são aqui percebidos como espaços de sociabilidade, na medida em que neles, a “Outra” interage
com outras mulheres nessa condição, partilham vivências do seu quotidiano, suas expectativas e
experiências ligadas à sua identidade de namoradas dos homens casados, como podemos
observar nos depoimentos subsequentes:

“[…], minhas amigas é que me incentivaram porque elas tinham conhecimento da minha
situação e eu só vivia com os meus avôs, eu precisava ficar bonita como as minhas amigas
ficavam, elas também estavam nessa vida, eu só queria alguém para me sustentar, mas eu tinha
medo, as minhas amigas é que me encoranjaram, nunca lhes escondi nasa”(Estocolmo, 18
anos).

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“Bom, as minhas primas, praticamente todas, tínhamo essas brincadeiras e sempre defendíam a
ideia de que homem casado é que solta mais, então, me preparam para isso, eu não ficava com
homens casados por um objectivo de vida, era mesmo por troca de favores, eu só queria
dinheiro, mas eu acho que se as minhas primas não tivessem me influenciado, eu não teria
ficado com ele, também porque era desgastante e cansativo!” (Lisboa, 24 anos ).

Mediante estas situações explanadas dos depoimentos supracitados, podemos entender a entrada
das mulheres no mundo das relações amorosas com homens casados, como estratégia que estas
adoptam de forma a serem aceites como membros do grupo de outras mulheres que também
praticam esta modalidade de relações, e que também possam ser identificadas como namoradas
de homens casados. O processo dos indivíduos se identificarem e serem identificados dá-se com
a inserção dos mesmos em grupos sociais específicos, em que se tem a condição de “Outra”
como um dos elementos identitários.

Entretanto, a facto da “Outra” se agregar a um “grupo de iguais” significa em si uma estratégia


de gestão da identidade. Segundo Goffman (1980), muitas vezes, os indivíduos portadores de
estigma tendem a se congregar em grupos de iguais, onde procuram reivindicar determinadas
posições ou privilégios na sociedade em função do estigma que transportam entre os “seus
iguais”, o indivíduo estigmatizado pode utilizar a sua desvantagem como base para organizar a
sua vida, mas, para o conseguir, deve-se resignar a viver num mundo incompleto. Para o caso, a
“Outra” está consciente do estigma existente e, a partir da forma como ela gerencia a relação
mantida com o homem casado, procura transmitir uma ideia de normalidade e de respeito às
diferenças existentes entre as mulheres.

Essa inserção em grupos de incentivo para a condição de “Outra” pode ser entendida também em
Goffman (1980), quando trata da manipulação do estigma perante os seus pares, na medida em
que, ao aderir a estas práticas e descobrir que há pessoas dispostas a adoptarem o seu ponto de
vista no mundo e a compartilhar o sentimento de que ela é mulher como qualquer outra e
essencialmente normal, mesmo que se tenha desviado dos padrões sociais. Daí que o autor
afirma que, inserida nestes grupos, a mulher na condição de “Outra” interage com outras
mulheres na mesma condição que lhe são benevolentes, compartilham o mesmo estigma e a
podem instruir quanto aos artifícios de relação e a fornecer um círculo de lamentações no qual
possa se refugiar, na busca de apoio moral e de conforto de se sentir no seu ambiente, aceita

47
como uma mulher que realmente é igual a qualquer outra tida como normal. É nesses grupos que
a mulher na condição de “Outra” não precisa manipular a sua identidade real, pois está perante
os seus iguas. Fazendo isso, assume-se como um indivíduo desacreditado, uma vez que as
característas e os atributos sociais são imediatamente perceptíveis.

Desde a literatura consultada até à análise dos depoimentos que colhemos, pudemos observar e
perceber que as relações amorosas são uma construção social, elas não são enraizadas
naturalmente aos indivíduos, as relações amorosas são aprendidas e apreendidas pelos indivíduos
através da socialização e da interiorização de papéis sociais atribuídos ao longo das interacções
estabelecidas, o que faz com que as identidades sociais sejam processuais e não dadas, elas
também são construídas ao mesmo tempo que os indivíduos gerem os seus comportamentos e as
suas escolhas em função dos padrões normativos que orientam as sociedades.

Os dados levantados durante a pesquisa vislumbram que ainda existe uma persistência do
preconceito contra as mulheres em função da escolha das relações amorosas que decidem manter,
neste caso concreto, mulheres que mantêm relações amorosas que lhes conferem a condição de
“Outra”, uma vez que este preconceito é produto dos quadros normativos dominantes nas
estruturas sociais que preconizam as relações amorosas monogâmicas como relações-padrão,
porém, sendo um estigma passível de ser dissolvido, constatamos uma resistência por parte dos
envolvidos nessa relação proibida, pela insistência em sofrer esses estigmas em nome da
satisfação pessoal, mesmo tendo a possibilidade de agir de acordo com os padrões sociais
estabelecidos e poder desfrutar da liberdade que tanto reivendicam estando imersos nessa
condição que lhes confere por parte da sociedade apenas etiquetas. Assim, cremos ter atingido o
nosso objectivo principal, o de compreender as estratégias de construção e gestão da identidade
da “Outra”, essencialmente referidas no presente estudo como as namoradas dos homens
casados.

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Considerações finais

Na presente monografia, abordámos aspectos sobre as relações amorosas, mais concretamente


sobre a construção e gestão da identidade “Outra” (namoradas de homens casados), na cidade de
Maputo. O nosso objectivo foi de tentar compreender como as mulheres na condição de “Outra”
constroem e gerem a sua identidade. Para atingirmos o nosso objectivo, usamos instrumentos
metodológicos que nos permitissem colher os dados e obtermos resultados válidos
cientificamente, como a revisão da literatura, as técnicas de recolha de dados que foram neste
trabalho apresentadas, discutidas e aplicadas.

Com a problemática levantada, pudemos construir o argumento que dá conta de que as mulheres
nessa condição assumem a identidade “Outra”, como namoradas de homens casados, primeiro,
porque, na nossa sociedade, só são aceites relações amorosas que pressuponham uma
conjugalidade monogâmica e todo aquele que desrespeitar as regras geralmente sofre coerção
social, igualmente, porque, pelo motivo anterior, tanto a mulher na condição de “Outra” quanto o
homem casado, não perspectivam nenhuma solidificação da relação, para uma posterior
formação de família e lar paralelamente à família oficial, preocupando-se apenas com a
satisfação financeira e material em troca de prazeres sexuais. E, por essa razão, adoptam um
conjunto de estratégias de gestão de imagem, que inclui principalmente a omissão da relação
amorosa mantida, em detrimento dos espaços de sociabilidade os quais ambos frequentam ou
estão inseridos (família, circuito de pares, etc).

Os resultados mostraram-nos que as mulheres na condição de “Outra” é que decidem a quem


devem contar ou revelar a relação amorosa que mantêm e que também a omissão da relação
mantida com o homem casado é a principal estratégia de gestão da sua identidade. Pelo facto dos
valores da monogamia serem dominantes, algumas mulheres na condição de “Outra” afirmam
que omitem as suas relações e, por vezes, mostram-se neutras e distantes de qualquer tipo de
envolvimento afectivo e criam algum tipo de negócio sustentável para justificar os ganhos
financeiros que adquirem com essas relações, e outras mantêm relacionamentos de fachada, que
geralmente com o homem que todos conhecem e todos sabem que estão juntos, precisamente
para satisfazer as expectativas que são socialmente construídas em torno das relações amorosas.

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A ideia de fachada está relacionada com o facto de as mulheres nessa condição procurarem, na
maioria dos casos, agir de acordo com as normas das relações amorosas que são vigentes. Desta
feita, satisfazer as expectativas da sociedade em relação a escolhas afectivas significa, nesses
casos, ter uma dupla identidade: comprometidas com alguém ou sozinhas aos olhos da sociedade
e namoradas (por que não esposas?) dos homens casados. Algumas que assumem as duas
relações, afirmam que se submeteram à condição de “Outra” para manterem a subsistência das
suas relações oficiais, que as mantêm também por amor e pelo compromisso relacionado com as
cobranças que lhes são feitas nos seus círculos de relações sociais.

A nível teórico, foi possível articular a ideia de estigma e a ideia de construção e manipulação da
identidade deteriorada. Foi possível observar, à luz dos pressupostos teóricos de Goffman (1980),
que as mulheres na condição de “Outra” são portadoras de uma identidade estigmatizada na
medida em que se comportam afectivamente fora dos quadros socializadores a que foram
submetidas, fazendo com que as mesmas sejam alvos de discriminação por parte dos indivíduos
que agem de acordo com os valores predominantes na sociedade.

É pertinente destacar que de forma implícita ou explícita a própria sociedade é que disponibiliza
os principais recursos ou bases para a construção da identidade da “Outra” e, posteriormente, a
necessidade de a gerir. São as expectativas que a sociedade cria em torno das relações amorosas
que fazem com que as mulheres na condição de “Outra” adoptem estratégias de gestão da sua
identidade perante outros, fazendo estas optarem pela omissão, silêncio, fingimento e
demonstração de uma constante identidade virtual.

Contudo, pudemos concluir de forma geral que o preconceito em torno das relações amorosas
envolvendo homens casados ainda é muito presente, pelo facto de envolver muitas tensões,
conflitos e dividir opiniões, e a necessidade de contornar o preconceito é determinante para as
mulheres na condição de “Outra”, fazendo com que não tornem público as suas relações
amorosas. Pudemos compreender, também, que a gestão da relação mantida entre ambos é em si
o principal recurso para a gestão da identidade da “Outra”, e a família, nesse contexto, é o
recurso primordial que firma as bases para que esta identidade seja construída. O meio social é o
espaço no qual a gestão dessa identidade acontece e os grupos de pares são espaços em que a
“Outra” não precisa manipular a sua condição, por estar perante aos seus semelhantes, podendo

50
agir de forma a firmar o seu poder e assumir a sua identidade real, sem expções, porque o
estigma é partilhado e normalizado nesses espaços.

Foi possível também confirmar que as namoradas dos homens casados, na condição em que se
encontram, não perspectivam solidificar os laços afectivos para posterior formação de uma
família paralela, mas, sim, se envolvem para ganhar bens materiais e recursos financeiros em
troca de prazeres sexuais, tanto que elas, nesse âmbito, não se identificam como amantes, mas,
sim, namoradas dos homens casados. Na perspectiva de duas entrevistadas, a nossa hipótese foi
infirmada, na medida em que assumem que as mulheres que se submetem à condição de “Outra”
nem sempre são motivadas pelo dinheiro ou matéria, pode-se dar o caso de terem sofrido
decepções amorosas e frustrações no passado e, para contornar essas instabilidades, recorre(ra)m
à constituição e manutenção de uma relação com um homem casado. Segundo as nossas
participantes, mantendo uma relação com alguém que não seja muito exigente e que seja
atencioso permite que sejam firmados sentimentos profundos que, com a dinâmica da relação,
podem consequentemente viabilizar uma posterior formação de uma família paralela, fazendo
desta, amante propriamente dita ou a segunda esposa, deixando então a categoria de namorada do
homem casado.

Finalmente, engajados na efectivação desta pesquisa, assumimos que não foi esgotado todo
universo de possibilidades de análise deste tema, porém, foram vislumbradas e disponibilizadas
importantes premissas para a compreensão dos aspectos sociais ligados à identidade da “Outra”,
para que os próximos estudos, explorando as construções sociais em torno desta realidade, nos
permitam compreender as subjectividades e interpretações construídas e assentes no meio social
sobre a “Outra” em Moçambique.

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ANEXOS

Guião de entrevista

O presente guião surge no âmbito da elaboração do Trabalho de Fim do Curso, subordinado ao


tema: Marandza – um estudo sobre a construção e gestão da identidade das namoradas de
homens casados, na cidade de Maputo.

I. Perfil sócio-demográfico

1. Idade
2. Nível de escolaridade
3. Onde e com quem vive
4. Área de formação profissional
5. Cargo ocupado
6. Tempo de trabalho e/ou ano de faculdade.
II. Percepções e Motivações para o começo do namoro sob o ponto de vista da “Outra”
7. O que entende por namoro?

 O que caracteriza o namoro?

8. Em que momento da sua vida começou a namorar com um homem casado?

9. Qual é o perfil social do homem com o qual se envolveu?


10. Quanto tempo durou a relação?
11. Começou a se envolver/ gostar de homens casados por influência de alguém?
 Se sim, quem?

 Por quê?

12. De forma ele manteve o primeiro contacto consigo?


13. Como têm sido os vossos encontros?
 Onde se têm encontrado? (têm uma hora específica para tal?) Explique.

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III. Gestão da Relação Mantida com o Homem Casado
14. De que maneira temencarado o seu dia-a-dia?

15. Tem sido necessário esconder esta relação? Por quê?

16. A sua forma de ser, estar, pensar e agir é de alguma forma relacionada à relação que
mantém? Se sim, especifique.

17. Tem alguma outra relação para além da que mantém com o homem casado?

 Acha que diferem? Se sim, explique.

 Em que medida essas outras formas de relação interferem na sua vida e por que
interferem?

[Link]ção de Gestão da Identidade da Outra

18. De forma se define como mulher?

 Essa conceptualização tem que ver com o facto de estar a se relacionar com um
homem casado?

19. Como tem sido o seu relacionamento com os membros da sua família, sendo que eles
têm conhecimento da sua condição?

20. Que experiências tem sobre ser a “Outra”?

21. Envolveu-se com um homem casado por dinheiro? Se sim, como tem feito a gerência
do mesmo?

22. Como tem sido a sua relação com as demais pessoas? Sente alguma pressão por parte
delas?

23. Como tem contornado essa pressão?

 Gostaria de tecer alguns acréscimos e comentários acerca das questões


discutidas? Se sim, disponha.

“Obrigada pela atenção dispensada!”


Fim da entrevista

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Termo do Consentimento Informado

EU…………………………………………………………………………………………………,
aceito participar voluntariamente da presente pesquisa com o tema, “Marandza: um estudo sobre
a construção e gestão da identidade das namoradas de homens casados, na cidade de Maputo”,
cujo objectivo é perceber como a gestão da relação mantida influencia a forma como a “Outra”
constrói a sua identidade.

Foi-me explanado que esta entrevista fará parte do trabalho de final de curso, do curso de
Sociologia da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane. Estou
ciente de que as respostas dadas à entrevista serão usadas somente para a pesquisa e que não
serei identificada e nada que eu responderei será divulgado fora do estudo, por isso autorizo a
gravação da entrevista solicitada, com a garantia de que a minha privacidade em relação aos
dados fornecidos será salvaguardada. Estou ciente, também, de que a minha participação não é
obrigatória e tenho a total liberdade para interromper a minha participação na entrevista a
qualquer momento, sem punição ou qualquer outro tipo de prejuízo para mim.

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De acordo com os esclarecimentos prestados, minha participação na pesquisa se dará através de
uma entrevista, onde responderei livremente às perguntas sobre o tema em questão. Minha
participação na entrevista será aproximadamente de uma hora (1h).

……………………………………………………

(Assinatura da entrevistada)

……………………………………………………

(Assinatura da entrevistadora)

Maputo, aos…….de…………………….de 2020.

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