Anatomia Patológica 1
Julia Ulrick – 2025.1
PATOLOGIAS LINFÓIDES
Todas as neoplasias linfóides vão se basear nas células do sistema imune, principalmente nos
linfócitos B e T. Mas também devemos lembrar das outras células que fazem parte desse sistema,
como os plasmócitos, células NK... E todas estão relacionadas às patologias. Todas as células do
sistema imune tem origem de uma célula tronco, o hemocitoblasto, a partir desta, podem se
diferenciar em células mieloides precursoras ou em células linfóides.
Arquitetura básica do linfonodo: é importante saber, pois alguns linfomas tendem a desorganizar ou
simular toda essa estrutura. Num linfonodo saudável temos a região central ou hilo, onde a linfa
periférica após chegar pela região cortical e ser drenada desemboca. Na periferia (região cortical)
temos folículos linfóides, onde estão os linfócitos B (usinas de anticorpos). Antes do hilo temos
também macrófagos que destroem linfócitos não saudáveis e fagocitam agentes estranhos (devido a
esses macrófagos os linfonodos peribrônquicos são enegrecidos -> fagocitam partículas de carbono ->
ainda mais enegrecidos em fumantes).
Relembrando: linfócitos T amadurecem no timo e se transformam em plasmócitos. Linfócitos B
amadurecem na medula óssea. O linfócito mais importante para regulação da inflamação é o
TCD4.
Linfomas e leucemias possuem semelhanças: ambas se originam de células linfóides, ainda que em
diferentes estágios de maturação. A grande diferença entre as duas é que o linfoma está restrito a um
órgão/linfonodo e as leucemias estão a nível sistêmico, pois se localizam no sangue e a
mutação/proliferação delas tende a se originar já na medula óssea. Por isso, na maioria dos casos os
linfomas são mais indolentes do que as leucemias. Leucemias podem ser diagnosticadas pelo exame
de sangue, os linfomas apenas por biópsia. Entretanto, um linfoma pode se transformar em leucemia
quando acomete a medula óssea → processo de leucemização.
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OBS.: quanto mais agressivo o linfoma, melhor responde à quimioterapia. Mas se a quimioterapia não
for realizada corretamente tende a progredir rápido para óbito.
● Linfomas
Os linfomas são divididos basicamente em Hodgkin e Não-Hodgkin. Atualmente usamos a
classificação de 2016 da OMS -> importância da IHQ e do estudo das mutações para o tratamento.
Padrão comum dos linfomas: se comportam como formações tumorais de massas sólidas
brancacentas e homogêneas (aspecto em carne de peixe). Se disseminam acometendo a cadeia
linfonodal ou cadeias paralelas. Associado a manifestações clinicas 🡪 os sintomas B 🡪 queda do estado
geral, febre noturna e de origem indeterminada e emagrecimento, além de aumento do volume da
cadeia linfonodal acometida. Quando esses sintomas estão presentes indicam quadro mais agressivo.
Podem ser nodais (restrito ao linfonodo e cadeias linfonodais) ou extranodais (acomete órgãos
diversos, MALT, baço, timo, medula óssea). Vale ressaltar que apesar do nome o linfoma pode surgir
em outros locais além do linfonodo.
Podem estar relacionados a quimioterapia prévia, radioterapia ou contato prolongado com radiação,
fatores genéticos, doenças imunomediadas, infecções por EBV (muito relacionado ao
desenvolvimento de linfomas, principalmente células B), HTLV-1 e H. Pylori.
Sinal clínico clássico: aumento indolor dos linfonodos, principalmente nas cadeias cervicais, axilares e
inguinais (ainda mais clássico nessas cadeias se for linfoma de células B). Em comparação, sinais
clínicos incomuns.
✔ Linfoma de Hodgkin: tem origem de células B, costuma surgir a partir de um linfonodo e se
espalhar pela mesma cadeia de origem. Ótimo prognostico, índice de cura em 97%. “Linfoma
que tem toc” possui um acometimento já esperado, obedece normalmente a mesma sequencia
de acometimento.
Aumento indolor dos linfonodos com progressão em sequência. Até 50% dos casos têm relação com
infecção pelo EBV. Ele pode se transformar em outros tipos de linfoma, apesar de raro.
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Podem também acometer órgãos, como baço, fígado...
Variantes do Linfoma de Hodgkin: são 5 subtipos principais: Esclerose nodular (o mais comum, gera
fibrose e nódulos, as células RS sofrem modificação apresentando-se em lacunas), celularidade mista
(apresentação de várias células inflamatórias aleatórias, tem um dos melhores prognósticos), rico em
linfócitos (rico em linfócitos não neoplásicos), depleção linfocitária (poucos linfócitos não
neoplásicos), nodular de predomínio linfocitário (células em pipoca).
Esclerose nodular
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Celularidade mista Predominio linfocitário com popcorn cell
Estadiamento:
Comparação entre Linfomas de Hodgkin e Não-Hodgkin:
✔ Linfomas Não-Hodgkin: englobam todos os outros linfomas: de células B, células T e células NK.
Não apresentam um padrão de acometimento previsível, por isso apresentam pior prognostico.
O aspecto macroscópico clássico em carne de peixe se mantém, macroscopicamente é
indistinguível.
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A apresentação clínica pode ser semelhante, mas tem mais chances de acometer outros órgãos, como
intestino, mama, globo ocular (evolui para cegueira)...
Podem ser classificados como:
🡺 Indolentes ou de baixo grau, respondem menos à quimio. Demoram anos para se instalar e se
desenvolver, mas não respondem bem ao tratamento. Mais comum em idosos. Exemplos:
linfoma/leucemia linfocítica crônica, linfoma folicular, linfoma MALT (é uma exceção, pois
responde bem ao tratamento) e linfoma esplênico. Ao longo do processo de evolução eles
podem evoluir para formas mais agressivas.
🡺 Agressivos ou de alto grau: Acometem mais adultos jovens, são agressivos, as células se
replicam muito rápido, por isso respondem melhor ao tratamento (tudo ou nada, se
responder vai responder muito bem; se não responder é trágico). Entretanto, podem evoluir
para leucemização. Sem tratamento levam a óbito em poucos meses. Exemplos: linfoma
difuso de grandes células B e linfoma anaplásico de grandes células T.
🡺 Altamente agressivos ou de alto grau: acomete mais crianças, leva ao óbito em semanas. A
leucemização ou comprometimento do SNC e órgãos nobres é frequente, transplante de
medula óssea é frequente. Respondem muito bem à quimio. Exemplos: linfoma linfoblástico B
ou T, linfoma de Burkitt, linfoma de células NK.
✔ Linfoma de células B: o maior grupo de linfomas, corresponde a 85% dos linfomas não hodgkins.
❖ Linfoma de células B foliculares: acomete mais adultos. Acomete linfonodos, baço, TGI e
raramente outros sítios. Evolução lenta, mas com tendência a progressão para o linfoma
difuso de grandes células B (agressivo).
Microscopia: em sua arquitetura tentam se organizar replicando os folículos linfoides saudáveis,
porém se apresenta sem centros germinativos e em tamanhos aberrantes. Se ele for de baixo grau
pode apresentar centrócitos (linfócitos com núcleos pequenos), se for de alto grau pode apresentar
centroblastos (linfócitos com núcleos grandes -> não se replicam -> acumulam mutações). Quanto
mais centroblastos maior a chance de progressão para linfoma difuso de grandes células.
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Relacionado a translocação 14;18 do BCL-2
❖ Linfoma de células B de zona marginal: são basicamente representados pelos linfomas MALT e
BALT. É o linfoma extranodal mais comum, simula a Placa de Payer. Relacionado a doenças
imunológicas e estados inflamatórios crônicos, como Tireoidite de Hashimoto, Sd. De Sjogren,
HCV... mas o mais comum é a infecção por H. Pylori, por isso o tratamento muitas vezes é
realizado apenas com antibioticoterapia. Podem raramente progredir para o linfoma difuso de
grandes células B. Consegue induzir a formação de folículos (similar ao linfoma folicular,
entretanto, as células neoplásicas se localizam ao redor dos folículos reacionais e não compõe
folículos neoplásicos).
Áreas brancas indicam alteração.
Lesão linfoepitelial: quando os linfócitos neoplásicos infiltram e destroem as células epiteliais.
Altamente sugestivo de linfoma MALT.
❖ Linfoma difuso de grandes células B: a localização do linfoma indica bastante o prognostico,
mas no geral é ruim. É o linfoma não Hodgkin B mais frequente, com pico de incidência
próximo aos 50 anos. Muitos linfomas evoluem se transformando nele.
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Tendem a se difundir (40%/50% é extranodal), correspondem a 90% dos linfomas primários do SNC e
a incidência aumenta notavelmente em pcts HIV+. É muito agressivo, mas se diagnosticado
precocemente pode responder bem à quimioterapia.
Microscopia: proliferação de células blásticas (centroblastos) com cromatina frouxa, núcleos
evidentes e citoplasma basofílico → elevado índice mitótico.
❖ Linfoma de células B de Burkitt: possui 3 formas principais:
🡺 Endêmica: comum na áfrica, acomete a mandíbula. Acomete mais crianças e adolescentes.
Relacionada a infecção pelo EBV e translocação 8;14 do gene MYC (importante saber).
Pacientes evoluem para óbito não só pelo linfoma, mas também devido a complicações dessas
deformidades causadas. A evolução acontece em semanas.
🡺 Não endêmica: mais comum no Brasil, acomete mais o TGI, mais especificamente a válvula
ileocecal. Acomete mais adultos jovens.
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🡺 Associada a infecção pelo HIV + SIDA
Microscopia: aspecto de céu estrelado. Os linfócitos que estão se proliferando induzem a migração de
histiócitos (células com esse espaço vazio) que ficam tentando fagocitar as células neoplásicas.
Esse sinal é quase patognomônico.
✔ Plasmocitoma/mieloma múltiplo: tem origem dos plasmócitos (células que produzem
imunoglobulinas) por isso, os pcts podem ter uma produção muito aumentada de anticorpos
que não tem função -> eles se depositam nos órgãos causando lesões (amiloidose, insuficiência
renal –> proteinúria de Bence Jones).
Citometria de fluxo: exame que auxilia no diagnóstico verificando se as células são mono ou
policlonais.
Induzem a destruição do tecido ósseo local (lesões líticas), isso leva a hipercalcemia e fraturas. A
hipercalcemia é uma grande complicação.
O plasmocitoma é o tumor individualizado, quando múltiplo (o que tende a acontecer) é o mieloma
múltiplo. Tende a ter um comportamento indolente, salvo em quadros de acometimento a medula
óssea.
Macroscopicamente eles não apresentam características muito peculiares, o diagnostico é muito
interligado com exames de imagem devido ao aspecto das lesões líticas. Já na microscopia podemos
ver plasmocitos em formato de bastão proliferados com ou sem atipia.
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✔ Linfoma de células T: são os mais raros, normalmente são indolentes. Os tipos mais comuns
costumam ocorrer sob a forma de leucemias, mas também podem acometer a pele -> é o caso
da micose fungoide, que não é uma micose, mas sim um linfoma de células T, e da Sd de Sézary.
❖ Micose fungoide: um dos principais sintomas são lesões avermelhadas, descamativas e
pruriginosas, fazendo ddx com psoríase (por isso tende a ser subdiagnosticado). Pode
progredir para lesões nodulares e eritrodermia.
Microscopia: infiltração de linfócitos T quase sem atipias constituindo microabcessos linfócitos (de
Pautrier) (grupinhos de células). Espongiose desproporcional -> edema entre as células.
❖ Síndrome de Sézary: quadro semelhante, porém podem não haver linfócitos na pele, tornando
o diagnóstico clínico!
Quanto mais agressivos, melhor resposta à quimio.
❖ Linfoma anaplásico de grandes células T: mutação dos genes ALK (que funciona, como alvo
terapêutico), recentemente também foi descoberta uma relação com próteses de silicone,
nesses casos, o tratamento é a remoção das próteses. Mais comum em crianças e
adolescentes.
Microscopia: células grandes, multinucleadas, com aspecto de ferradura (hallmark cells) que são
muito semelhantes às células RS → hoje o diagnóstico só pode ser fechado com a imunohistoquímica.