Idade Média
(Séculos V - XV)
Leitura Complementar Idade Média – 7º ano
Idade Média, uma Idade das Trevas?
Por muito tempo, a Idade Média foi caracterizada como um período de
obscurantismo, atraso, domínio da religião e violência devido às guerras constantes,
desorganização do comércio e enfraquecimento de instituições políticas e das cidades.
Segundo essa visão, criada na época do Renascimento (séculos XV e XVI), o período
medieval na Europa seria uma "Idade das Trevas", uma fase intermediária entre aqueles que
eram, então, considerados os principais períodos da História: a Antiguidade greco-romana e
a Idade Moderna.
No entanto, essa é uma caracterização preconceituosa do período e não representa
toda a sua história. Em realidade, durante a Idade Média, vários foram os avanços no campo
da técnica e da cultura que marcaram a vida dos homens, mulheres e sociedades que vieram
depois. É desse período, por exemplo, a criação do arado de ferro, dos moinhos e da
rotação de culturas (no campo), das universidades, mosteiros e catedrais (arquitetura), do
carnaval (cultura popular), dos óculos e de tantas outras inovações.
Periodização da Idade Média
De maneira geral, os historiadores definem a Idade Média como um período de quase
mil anos de História iniciado com a Queda do Império Romano do Ocidente e terminado
após a tomada da cidade de Constantinopla, capital do Império Bizantino (ou Império
Romano do Oriente). É comum, também, dividir o período em Alta e Baixa Idade Média de
acordo com mudanças ocorridas na Europa ao longo desses mil anos. Observe as linhas do
tempo:
Leitura Complementar Idade Média – 7º ano
A "Alta" Idade Média marca o fim do Império Romano e o surgimento do feudalismo,
um novo modo de organização da vida na Europa Ocidental caracterizado por uma economia
rural em torno de grandes propriedades de terra, os chamados feudos. Já a partir da
"Baixa" Idade Média, a Europa passou por grandes transformações como o
fortalecimento do comércio e das cidades e, também, a crise do feudalismo. Observe a
divisão desses principais pontos na linha do tempo abaixo:
Antecedentes:
A crise e queda do Império Romano do Ocidente.
No século V d.C., o Império Romano do Ocidente chegou ao fim após longa crise
interna e uma série de invasões e migrações de povos estrangeiros ("bárbaros", na visão dos
romanos, pois não falavam o latim). No lugar do Império, esses povos fundaram diversos
reinos germânicos. Vejamos a seguir a sequência de alguns fatores que, com o passar do
tempo, levaram à queda da Roma Antiga e à formação do mundo medieval.
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Fatores Internos:
➔ Fim do expansionismo romano: o fim das conquistas territoriais romanas levou à
redução da população escrava, principal mão-de-obra do Império, o que resultou na
queda da produção agrícola e aumento dos preços dos produtos. Começava, assim, uma
crise econômica nas cidades e uma fuga de sua população para o campo.
➔ Ruralização: a crise levou a um esvaziamento das cidades pelas pessoas que fugiam
para o campo em busca de refúgio, sustento e proteção dos proprietários de terras.
Como consequência, nesse período, o comércio e as cidades se enfraqueceram.
➔ Novas formas de trabalho: uma vez no campo, o escravo e o camponês livres e sem
posses passaram a trabalhar a terra de grandes proprietários para obter seu
sustento e, em troca, pagavam tributos ao dono da terra na forma de parte de sua
produção. Por sua vez, cabia ao dono da terra proteger os seus colonos. Surgia, então,
o colonato, regime de trabalho que, durante a Idade Média, substituiu a escravidão
pela servidão.
Caos
➔ militar: generais romanos disputavam entre si, utilizando seus exércitos para
marchar sobre Roma e tomar o poder à força. Nesses confrontos, diversos
imperadores foram assassinados desestabilizando ainda mais o Império.
Fatores Externos:
Além da crise interna, Roma sofria com
migrações e invasões das suas fronteiras
pelos povos "bárbaros" (observe o mapa à
direita). Enfraquecido e incapaz de se
defender, em 395 d.C., o imperador
romano Teodósio dividiu o Império em
dois: uma parte Ocidental com capital em
Roma e outra parte Oriental com capital
em Constantinopla (Bizâncio). No entanto,
em 476 d.C., a cidade de Roma foi tomada
pelos germânicos, colocando fim ao
Império no Ocidente.
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A Alta Idade Média (séc. V-X)
Reinos Germânicos e o Império Carolíngio (séc. V-IX):
Com a queda do Império após as invasões "bárbaras", a
unidade do antigo território romano se desfez, dando origem a
diversos reinos germânicos marcados por uma grande
instabilidade (veja o mapa abaixo). Dentre os reinos e povos
que ocuparam a Europa nesse período, destacaram-se os
francos, antigos aliados dos romanos que, entre os séculos
VIII e IX, construíram um poderoso império na região da atual
França sob o reinado de Carlos Magno (representado à direita).
Os francos foram o primeiro povo germânico a se
converter ao cristianismo, aproximando-se da Igreja Católica e fortalecendo-a com doações
de terras conquistadas na Península Itálica. Ao mesmo tempo, para administrar o Império,
Carlos Magno e seus sucessores também doaram territórios para nobres que lutaram a seu
lado em troca de apoio. Dessa forma, os francos não só contribuíram para fortalecer o
cristianismo na Europa como também difundiram as relações de fidelidade e dependência
pessoal que passaram a caracterizar a sociedade feudal durante a Idade Média.
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O Feudalismo
Com a morte de Carlos Magno (814 d.C), o Império Carolíngio entrou em declínio e se
dividiu, iniciando uma grande fragmentação territorial e política na Europa. A continuidade
dos conflitos e migrações de povos vindos de fora da Europa Central entre os séculos VIII
e X (como os vikings, por exemplo) agravaram o cenário de enfraquecimento do poder real,
esvaziamento das cidades e diminuição do comércio.
No lugar dos carolíngios, fortaleceu-se o poder local da nobreza dona de grandes
terras: os senhores feudais. Em suas propriedades rurais, chamadas de feudos, os senhores
exerciam o poder político, militar e econômico, sendo sustentados pelo trabalho de
camponeses e servos que lhes deviam obrigações e impostos. Essa forma de organizar a
sociedade, política e economia durante o período medieval ficou conhecida comofeudalismo e
pode ser definido como:
"Sistema de organização econômica, social e política baseado nos
vínculos de homem a homem, no qual uma classe de guerreiros
especializados - os senhores -, subordinados uns aos outros por uma
hierarquia de vínculos de dependência, domina uma massa campesina que
explora a terra e lhes fornece com que viver".
(LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval, II, p. 29).
Em resumo, o feudalismo tinha como principais características:
➔ Política: fortalecimento do poder local dos senhores feudais e enfraquecimento do
poder dos reis.
➔ Sociedade: acordos de dependência e fidelidade entre nobres (suserania e
vassalagem) e entre nobres e servos (servidão).
➔ Economia: agrária e voltada para a subsistência e autossuficiência do feudo.
➔ Cultura: grande poder espiritual e cultural detido pela Igreja Católica.
A Sociedade feudal
A sociedade feudal era dividida em ordens ou estamentos rígidos, camadas com
atribuições fixas, determinadas pelo nascimento e justificadas pela religião para manter a
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hierarquia social. Ou seja, baseando-se na fé católica, acreditava-se que "cada membro da
sociedade tinha que cumprir funções em sua passagem pela Terra". Além disso, ser ou não
dono de terras determinava a posição do indivíduo na sociedade feudal. De acordo com
esses aspectos, podemos dividir a sociedade feudal em três principais estamentos (observe
a pirâmide ao lado):
➔ CLERO: membros da Igreja Católica (papa,
bispos, abades, monges e párocos),
divididos entre alto e baixo clero, que
ministravam sacramentos como batismo e
casamento e cobravam por eles. Muitos
clérigos eram senhores feudais, possuíam
grandes extensões de terra e tiravam seu
sustento dos tributos pagos pelos
camponeses. Não por acaso, a Igreja
Católica era a maior proprietária de terras
na Europa Ocidental. Os clérigos eram
conhecidos como oratores ("os que oram").
➔ NOBREZA: nobres e senhores feudais (reis, duques, marqueses, condes, viscondes,
barões), ligados uns aos outros por relações de dependência e fidelidade. Eram
sustentados pelos camponeses aos quais ofereciam proteção e terras, pois detinham
o controle das armas, da guerra e a posse da propriedade rural. Detinham o poder
político e econômico nos feudos, exercendo a administração, cobrando tributos dos
camponeses, aplicando a justiça e garantindo a ordem. Dedicavam-se à guerra,
caçadas bellatore
s
e torneios de cavaleiros, sendo conhecidos como ("os que guerreiam").
➔ CAMPESINATO: os trabalhadores rurais realizavam o trabalho manual que
sustentava a sociedade medieval e que era considerado desonroso pelos outros
estamentos. Esses trabalhadores dividiam-se entre servos que estavam presos à
terra não podendo deixá- vilões
la; trabalhadores livres chamados que instalavam-se nas terras do seu senhor, as
vilas; e alguns poucos escravos remanescentes. Como um todo, esse grupo era chamado
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de ("os que trabalham").
laboratore
s
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Suseranos e vassalos
A sociedade feudal estabeleceu-se sobre uma extensa rede de obrigações, lealdades
e proteção mútua entre seus membros pelas quais os nobres acordavam direitos e deveres
entre si. Os nobres mais ricos que possuíam
exército e vastas propriedades rurais eram
chamados de suseranos ou senhores. Esses
senhores distribuíam os feudos (geralmente
lotes dentro da sua propriedade, mas
também podiam ser um benefício como o
direito de cobrança de impostos, por
exemplo) a outros nobres que se tornavam
seus vassalos e, por sua vez, senhores das terras recebidas. Em troca, os vassalos juravam
lealdade aos seus suseranos, oferecendo serviços
militares e apoio, entre outras tarefas, em uma
cerimônia denominada de homenagem (observe as
imagens). Esse acordo entre nobres, estabelecido
oralmente e pela tradição, era chamado de contrato
vassálico e organizava os laços sociais, militares e
econômicos do mundo feudal.
A Servidão
Nas terras senhoriais, estabeleciam-se,
também, relações entre senhores feudais e servos
muitos dos quais eram os antigos colonos do final do
Império Romano mencionados anteriormente. Essa
forma de trabalho, denominada de servidão, obrigava o
camponês
a cultivar a terra, prestar serviços e pagar taxas ao senhor em troca de proteção, além de
pagar o dízimo à Igreja. Dentre os tributos existentes destacavam-se:
➔ Corveia: 2 ou 3 dias de trabalho gratuito para o senhor feudal seja no cultivo ou em
outros serviços como a construção, manutenção da propriedade feudal e no transporte.
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➔ Banalidades: taxas pagas pelo camponês pelo uso da infraestrutura do feudo (moinhos,
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forno, pontes, celeiros, dentre outros) que eram de propriedade do senhor feudal.
➔ Talha: pagamento de parte da colheita do servo (30-40%) produzida no manso servil.
➔ Dízimo: pagamento de taxa de 10% da produção do servo à Igreja Católica.
➔ Mão-morta: taxa cobrada para permitir que o filho de um camponês falecido tivesse o
direito de permanecer trabalhando na terra cedida ao seu pai.
ATENÇÃO!
ESCRAVISMO é diferente de SERVIDÃO!
Como visto, durante o Período Medieval, o regime de trabalho transformou-se
significativamente em relação à Idade Antiga anterior. Se na Grécia e, principalmente, no
Império Romano, predominou o escravismo, a Idade Média foi caracterizado pela servidão.
Mas quais as diferenças entre elas? No escravismo greco-romano, o escravo não
possuía direitos e era considerado propriedade do seu senhor, podendo ser comprado, vendido
ou alugado como mercadoria para funções domésticas, rurais ou urbanas. Já o servo
medieval, mesmo não sendo um trabalhador livre (já que estava preso à terra e era obrigado
a trabalhar para o seu senhor), não era negociado como propriedade e possuía alguns
direitos como receber proteção, usar as terras comunais do feudo em benefício próprio,
dentre outros.
A Economia Feudal
Os constantes conflitos ocorridos desde o fim do Império Romano até o final da Alta
Idade Média (século X) levaram a um recuo das atividades comerciais e ao predomínio da
agricultura de subsistência. O comércio era reduzido e majoritariamente em espécie (troca
de produtos), pois havia escassez de moedas e, em muitos casos as transações eram
dificultadas, já que frequentemente cada feudo definia suas próprias moedas e medidas.
Os feudos (também chamados de senhorios) eram as unidades de produção básica do
período medieval, onde era confeccionado quase tudo de que os seus habitantes precisavam:
alimentos, roupas, ferramentas, tecidos, dentre outros. A economia, portanto, eravoltada à
subsistência e a produção baseava-se no cultivo de trigo, cevada, ervilha, uva e no pastoreio
bois, porcos, cavalos, carneiros e cabras para o consumo local. Tendo em vista essas
atividades, as terras do feudo se dividiam em quatro partes principais (observe a imagem a
seguir):
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➔ Terras comunais:
florestas e pastagens
utilizadas por todos os
habitantes do feudo.
Servos poderiam soltar
animais, coletar
madeira e alimentos. A
caça, no entanto, era
exclusividade do senhor.
➔ Manso servil: terras
arrendadas pelos servos
junto ao senhor para cumprir com suas obrigações ao senhor.
➔ Manso senhorial: terras exclusivas do senhor, onde tudo o que era produzido
destinava- se a ele.
➔ Castelo: símbolo do poder exercido localmente pelos senhores feudais, o castelo era
residência fortificada dos senhores e da sua família visando a proteção contra
ataques e invasões. De lá, os nobres recebiam convidados, estabeleciam alianças e
governavam seus dependentes.
A Igreja, religião e cultura:
A cultura letrada e popular na Idade Média
Durante a Idade Média, a fé cristã e a Igreja Católica passaram de um grupo e
instituição minoritários surgidos no Império Romano e consolidaram-se como uma força
poderosa que passou a exercer grande domínio sobre a vida espiritual, cultural, política e
econômica dos homens e mulheres medievais. Vejamos como essa transformação ocorreu.
Cristianismo: origens, perseguição e aceitação no Império Romano
Segundo os Evangelhos, o cristianismo surgiu a partir dos ensinamentos de Jesus
Cristo. Nascido no ano 1 na região da Palestina, à época uma província do Império Romano,
Cristo pregava uma mensagem de igualdade entre os homens, criticando a injustiça e a
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violência do Império Romano. Por isso, e pelo fato de ser uma religião monoteísta que
negava a divindade do imperador romano, os cristãos foram perseguidos por mais de três
séculos.
Contudo, apesar da perseguição, a nova religião conquistava cada vez mais adeptos
entre a população pobre do Império Romano que buscava na promessa cristã da existência
de um paraíso um apoio diante das duras condições de vida enfrentadas. Dado o seu
crescimento, o cristianismo acabou aceito pelos imperadores, tendo sua liberdade de culto
concedida por Constantino (313 d.C.) e, posteriormente, tornando-se religião oficial durante
o governo de Teodósio (391 d.C.). Após a queda de Roma, o cristianismo expandiu-se pela
Europa, sendo incorporado por reis, nobres medievais e povos germânicos convertidos à
nova fé.
O surgimento e organização da Igreja Católica
A expansão do cristianismo durante a Idade Média somente foi possível graças ao
fortalecimento da Igreja Católica. Segundo a tradição, a Igreja teria sido fundada pelo
próprio Cristo que teria encarregado o apóstolo Pedro de desenvolvê-la, tornando-se o
primeiro bispo de Roma. Tempos depois, no século V d.C., o bispo de Roma passou a ter
autoridade sobre os demais bispos, recebeu o título de papa e passou a ser escolhido por
cardeais.
Surgia, então, a hierarquia da que permanece com algumas mudanças até os
Igreja
atuais: de um lado, havia o clero secular dias (bispos, sacerdotes/padres) que realizava
missas, clero regular
batismos, casamentos, entre outros sacramentos; de outro, o (abades e
abadessas, monges ou
monjas que viviam isolados
do mundo em mosteiros)
dedicado a uma vida de
orações, seguindo votos de
castidade, pobreza e de
caridade. Observe a
imagem ao lado:
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Ordens religiosas e o domínio da cultura letrada
Com o passar do tempo, alguns cristãos passaram a recusar a vida de luxo e riquezas
do alto clero, criando ordens religiosas dedicadas a levar o Evangelho à prática através de
uma vida de orações e privações de acordo com uma rígida disciplina. Recolhendo-se em
mosteiros e abadias, monges e monjas atuavam na conversão dos diversos povos germânicos
ao cristianismo, mantinham obras de caridade (orfanatos, leprosários, escolas e asilos) e
empenhavam-se no trabalho intelectual. Assim, a partir de 529 d.C., a vida em mosteiros
espalhou-se pelo Europa Ocidental com a fundação da Ordem dos Beneditinos e o
surgimento de outras ordens religiosas como os dominicanos, agostinianos e franciscanos.
Em um período no qual a grande maioria da população
era analfabeta, os religiosos da Igreja Católicacontrolavam a
educação (exclusiva do clero) e a "cultura letrada" (a leitura
e escrita em latim e grego), desempenhando um importante
papel intelectual. Recolhidos nas bibliotecas dos mosteiros e
abadias, monges copistas transcreviam textos do Evangelho e
da Antiguidade greco-romana em manuscritos decorados
com iluminuras, ilustrações e pinturas decoradas a ouro e
pedras preciosas (observe as imagens). O trabalho dos
monges com os livros manuscritos permitiu preservar esse
conhecimento
da Antiguidade para os dias atuais, evitando com que desaparecesse.
O poder da Igreja Católica
Controlando a leitura e a escrita, a Igreja
detinha a autoridade de interpretação das
escrituras e da fé, impondo suas explicações,
tradições e visão de mundo teocêntrica1 à vida
medieval. Essas perspectivas não deveriam ser
1
Teocentrismo ("Deus" / "centro"): perspectiva defendida pela Igreja de que Deus e a fé estavam "no
centro do universo", determinando toda a vida. Segundo essa visão, a natureza e a sociedade funcionavam
de acordo com leis divinas imutáveis explicadas pelas doutrinas e tradições da Igreja que não deveriam
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ser contestadas.
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questionadas sob o risco de acusação de heresia (doutrina considerada falsa pela Igreja) e
até punição pelo Tribunal da Inquisição . Assim, a religião cristã influenciava diretamente a
2
visão de mundo das pessoas da Idade Média. Pobres ou ricos, clérigos ou não, acreditavam
em milagres e se preocupavam com a vida após a morte e a ida ao paraíso ou ao inferno.
Por outro lado, o poder da Igreja Católica não se limitou apenas a aspectos culturais
e religiosos. Ao longo da Alta Idade Média, ela acumulou uma enorme riqueza através da
doação de terras por nobres e reis (como fizeram os francos mencionados anteriormente) e
pela cobrança de tributos dos servos. Assim, os papas católicos, inicialmente lideranças
religiosas, tornaram-se, também, chefes econômicos, políticos e militares dos Estados, do
patrimônio e dos territórios da Igreja. Em resumo, o poder da Igreja durante a
Idade Média
espiritual, era
cultural terreno
e (econômico, político), atravessando os mais diversos aspectos da
vida medieval.
A cultura popular na Idade Média
Para além da cultura letrada, cristã e dominada pela Igreja, havia, também, umacultura
popular relacionada a ritos, crenças, festividades e elementos pagãos (não-cristãos) herdados
dos antigos germânicos ("bárbaros"). Ao longo do tempo, homens e mulheres medievais
passaram a combinar essas duas manifestações, formando umacultura intermediária, entre a
letrada e a popular. Um importante exemplo dessa mistura entre elementos da cultura de
elite e das camadas populares é o carnaval, manifestação de rua que tem sido alvo de
numerosos estudos pelos historiadores medievalistas.
Acredita-se que a festa tenha se originado ainda no Império Romano nas comemorações
ao Deus Dionísio (do vinho, colheita e das celebrações) e depois foi adaptada ao calendário
e às tradições cristãs. No Período Medieval, o Carnaval passou a anteceder a Quaresma,
período de privações durante o qual os Cristãos fazem penitências como jejum de carne
vermelha e bebidas alcóolicas, orações, dentre outros.
2
Tribunal da Inquisição (ou do "Santo Ofício"): instituição criada pela Igreja no século XIII para reprimir
seitas e movimentos religiosos que contestassem as ideias e práticas do clero católico como o enriquecimento,
ganância, a venda de indulgências (perdão dos pecados), etc. Utilizando de métodos de tortura, a Inquisição
julgava e punia os hereges, em alguns casos condenando-os à fogueira. Protestantes, judeus e mulheres
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acusadas de bruxaria foram alvo do Tribunal.
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Conhecido como "Festa dos
Loucos", o carnaval medieval era
um momento de liberdade de
comportamento no qual as pessoas
aproveitavam para se divertir,
cometer excessos, ridicularizar a
Igreja, os nobres e até inverter a
ordem existente na sociedade,
fantasiando-se de animais e
usavando máscaras. A nobreza,
inclusive, chegou a adotar o costume popular das máscaras, realizando "bailes de máscaras"
- alguns dos quais duram até hoje como o da cidade italiana de Veneza. Embora inicialmente
combatesse essas festividades, a Igreja passou a tolerá-las e incorporá-las ao calendário
cristão, utilizando-as como uma "válvula de escape", um "respiro" para a rigidez dos
costumes da época.
A cultura na Idade Média – Conclusão:
Em outras palavras, a cultura na Idade Média era rica, surgiu da combinação entre
letrado (erudito) e popular, romano e germânico, cristão e pagão. Isso se fazia presente em
diversas áreas da vida cultural medieval como, por exemplo:
➔ Música: introdução dos ritmos dos cantos e danças populares ao canto gregoriano
tradicional da Igreja Católica;
➔ Literatura: a combinação do latim (falado em toda a Europa) às línguas "bárbaras",
levando ao surgimento de idiomas modernos como o português, francês, inglês,
italiano, o que deu grande impulso à literatura;
➔ Arquitetura: os castelos, igrejas e mosteiros da Alta Idade Média foram influenciados
pelos arcos, horizontalidade e solidez das construções romanas, dando origem à
arquitetura de estilo românico. Por sua vez, a partir do século XII surgiu o
estilo gótico (marcado pela verticalidade, vitrais coloridos paredes finas, interiores
iluminados) que caracterizou as grandes catedrais da Baixa Idade Média. Veja os
estilos românico (à esquerda) e gótico (à direita) abaixo:
Leitura Complementar Idade Média – 1ª Etapa – 7º ano - 2021 16
Mosteiro de Paço de Sousa (Porto, Portugal) Catedral de Notre-Dame (Paris)
A Baixa Idade Média (séc. X - XV)
A partir do século XI (passagem da Alta para Baixa Idade Média), o feudalismo
passou por grandes transformações, como o desenvolvimento do comércio e o crescimento
das cidades. Isso não significou que os feudos, produções agrícolas, relações de servidão ou
manifestações culturais do período tenham desaparecido, mas sim que houveram
transformações e o surgimento de novas características e movimentos a partir do século
XI.
Essas transformações foram possível graças a uma série de fatores como:
à relativa estabilidade nos reinos cristãos pelo declínio das invasões bárbaras;
à crescimento da produção agrícola, acompanhado do desenvolvimento de técnicas de
plantio, como o arado de ferro e moinhos hidráulicos;
à aumento populacional e formação de um grande número de marginalizados, que não
tinham moradia nos domínios feudais.
Esses fatores, por sua vez, deram origem a movimentos como as Cruzadas e o
Renascimento urbano e comercial, detalhados a seguir.
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Cruzadas (Séc. XI ao XIII)
As Cruzadas foram expedições militares organizadas pela Igreja Católica e pela
nobreza que resultaram em grandes mudanças para a Europa medieval. Motivadas pela
expansão da fé católica e pelo combate aos
chamados "infiéis" (principalmente os
muçulmanos, mas também os "hereges",
isto é, seitas e grupos que se opunham às
doutrinas e às interpretações da Igreja),
as expedições tinham como principal
objetivo reconquistar Jerusalém, a Terra
3
Santa para as três religiões , que vinha
sendo ocupada por povos de religião
muçulmana desde o século VII.
A religião muçulmana ou islamismo teve origem na região da Península Arábica, com
Maomé que, segundo a tradição islâmica, teria recebido uma aparição do arcanjo Gabriel
trazendo ensinamentos de Deus (Allah, em árabe). Considerando-se profeta e mensageiro
de Deus, Maomé passou a pregar a nova religião, o islamismo, tendo os ensinamentos
reunidos no livro sagrado, o Alcorão. Nascido na cidade de Meca, mas expulso em 622 (ano
que marca o início do calendário islâmico) por líderes de tribo rival, Maomé e seus
seguidores fugiram em direção à cidade Medina, retornado à Meca em 630.
Após a morte de Maomé, em 632, a disputa pela sucessão dividiu os muçulmanos em duas
vertentes, xiitas e sunitas, que se alternavam no poder. Em pouco mais de um século (632-
750), os sucessores do profeta expandiram a nova fé ( jihad, a "Guerra Santa") e formaram
um poderoso Império ao conquistarem a Palestina (Jerusalém), Ásia, Norte da África e
Oeste da Europa (Península Ibérica). Com isso, os muçulmanos não só passaram a deter o
controle de Jerusalém, a "Terra Santa" das três religiões, como também do comércio
realizado pelo Mar Mediterrâneo (veja o mapa sobre a expansão do islamismo).
3
Tradição cristã: Jerusalém seria o local no qual Jesus foi crucificado, sepultado (hoje, o templo do Santo Sepulcro) e, no
terceiro dia, ressuscitado. Tradição islâmica: local em que Maomé teria ascendido aos céus. Tradição judaica: Jerusalém
seria parte da "Terra Prometida" por Deus ao patriarca Abraão e aos seus descendentes hebreus.
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Diante desse controle da “Terra Santa”, bem como do comércio na região do Mar
Mediterrâneo, o papa Urbano II, em 1095 convocou todos os cavaleiros, religiosos e fiéis
para participar das Cruzadas, por eles chamadas de “Guerras Santas”. Essas deveriam
expulsar os muçulmanos dos lugares sagrados e em troca os participantes ganhariam a
libertação dos pecados. Além dos motivos religiosos e da grnade influência da Igreja
Católica no período, outros fatores motivaram a participação nessas expedições como:
interesse dos nobres em ampliar seus domínios; mercadores que buscavam retormar o
comércio com o Oriente; servos e camponeses em busca de riquezas.
Entre 1096 e
1270, foram
realizadas oito
Cruzadas oficiais
em direção ao
Oriente (ver mapa
ao lado com as
principais rotas),
visando
conquistar a cidade
de Jerusalém dos
muçulmanos.
Leitura Complementar Idade Média – 1ª Etapa – 7º ano - 2021 19
Apesar de nenhuma ter conseguido atingir esse objetivo religioso, as Cruzadas tiveram
consequências econômicas, culturais e políticas. O contato gerado entre Oriente e Ocidente
através dessas expedições favoreceu o aumento do comércio entre essas regiões e o
enriquecimento das cidades portuárias e da burguesia italiana que passou o controlar as
rotas do Mediterrâneo. O contato com o saber Oriental e Antigo (grego) preservado e
traduzido pelos muçulmanos também contribuiu para o desenvolvimento da ciência, arte e
técnica na Europa Ocidental. Por fim, as Cruzadas contribuíram para o enfraquecimento e
endividamento da nobreza feudal e consequentemente aumento do poder e prestígio dos
reis, fundamental para a centralização do poder na figura dos reis na transição da Idade
Média para a Idade Moderna.
Renascimento Comercial e Urbano
Como mencionado anteriormente, a partir do século XI, a interrupção dos conflitos e
a introdução de inovações técnicas no campo resultaram em um aumento da produção
agrícola e, por sua vez, o surgimento de um excedente de produção que passou a ser
negociado entre os feudos e as cidades. Essas trocas impulsionaram o revigoramento da
economia comercial enfraquecida na Alta Idade Média, quando os feudos produziam o que
era necessário para subsistência e as poucas trocas eram feitas com os próprios produtos.
Com o aumento das trocas, além
da dinamização do comércio, o uso das
moedas também voltou a ser uma
prática utilizada exatamente para
facilitar os negócios agora muito mais
intensos. Junto com a monetarização
da economia surgiu, também, um novo
grupo, os banqueiros (imagem ao lado),
que trocavam as diferentes moedas
utilizadas nos comércios e faziam
empréstimos. Apesar do crescimento do
Leitura Complementar Idade Média – 1ª Etapa – 7º ano - 2021 110
comércio nesse período, é importante ressaltar que os feudos não desapareceram. Pelo
contrário, eram eles que abasteciam as cidades com os produtos agrícolas, de forma que
feudos, comércio e cidades coexistiam.
O aumento da produção de
alimentos e a relativa paz vivenciada no
período também contribuíram para o
aumento populacional e consequente
êxodo rural, ou seja, saída do campo
para a cidade (exemplo de cidade
medieval na imagem). Tendo em vista a
possibilidade de novas atividades
econômicas através do comércio, parte
dessa população crescente saiu dos
feudos e passou a viver nas cidades favorecendo o crescimento e urbanização das mesmas,
que tinham sido abandonadas desde a crise do Império Romano.
Combinados, o crescimento do comércio e da urbanização eram alimentados pelo
surgimento de rotas comerciais de longa distância (ver rotas abaixo) e de feiras medievais,
trazendo comerciantes dos mais distintos
pontos da Europa para vender seus
produtos, interligando o continente de
norte a sul, leste a oeste e conectando-o
à Ásia e ao norte da África. No
cruzamento dessas rotas e feiras,
margens de rios, abadias e castelos
surgiram novas cidades e núcleos urbanos
murados chamados de burgos, e uma nova
classe social, a burguesia (habitantes dos
burgos).
Nas cidades, vivendo do comércio ou da produção de manufatureira, surgiram
associações tanto de comerciantes e mercadores, como a Liga Hanseática, destinada a
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garantir vantages e lucros para os mercadores que dela faziam parte, quanto associações de
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artesãos, as Corporações de Ofício. Essas corporações eram divididas de acordo com a
categoria profissional (sapateiros, carpinteiros, padeiros, etc) e apresentavam uma rígida
hierarquia: no topo estava o mestre, dono da oficina, que, junto a outros mestres,
controlava a corporação. Abaixo destes encontravam-se os companheiros ou oficiais e por
fim os aprendizes.
Conclusão das mudanças na Baixa Idade Média:
Referências
BOULOS JÚNIOR, Alfredo. História Sociedade & Cidadania: 6 ano. 4 ed. São Paulo: FTD, 2018.
. História Sociedade & Cidadania: 7 ano. 4 ed. São Paulo: FTD, 2018.
PAIS, Marco Antônio de Oliveira. A Formação da Europa: a Alta Idade Média. 4 ed. São Paulo:
Atual, 1994.
. O Despertar da Europa: a Baixa Idade Média. 13 ed. São Paulo: Atual, 1992.
VICENTINO, Cláudio; VICENTINO, José Bruno. Teláris História - 6º ano. São Paulo: Ática, 2019.
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