A Morte Branca
Um dragão branco tomou o vale como seu território de caça,
transformando-o em uma geleira perigosa. A meio-orquisa Grisha
e a meio-elfa Talis, junto com seus companheiros dos Machados
Sangrentos, devem enfrentar o frio e as emboscadas que os
aguardam nessa geleira mortal.
Ossos despontavam do chão de gelo fosco — um grande auroque
com as costelas à mostra, parcialmente congelado dentro da água
que chegava a um terço da altura da ravina. As chuvas do verão
passado foram intensas, o clima carregado de tempestades que,
para alguém supersticioso, teriam sugerido um futuro obscuro. E
os presságios estariam certos. Antes do fim do verão a Morte
Branca desceu dos céus, trazendo consigo a nevasca. Agora, em
pleno outono, os Picos Nublados pareciam as cordilheiras do
Norte distante, as quais somente os mais preparados ou tolos
ousavam desbravar.
— Fiquem todos juntos. — Brunhild, a líder da expedição,
ordenou às duas dúzias de guerreiros à sua frente. Parada sobre
uma rocha despontando do gelo, a anã ficava mais alta que quase
todos os presentes, imponente em sua armadura de brilhantes
placas de aço. — Seria fácil perder-se nessa névoa e a ravina tem
tantos caminhos que passaríamos uma semana procurando por seu
corpo congelado.
— Como é? — perguntou Goddrum, estreitando os olhos
cinzentos como a própria pele e pondo as mãos em concha nas
orelhas de abano. Outros anões o imitaram, e os murmúrios de
incompreensão espalharam-se pela tropa até as últimas fileiras.
Brunhild bufou. O vento uivava pela ravina como uma matilha
atrás de uma presa, enfiando suas garras geladas por entre as peles
que por pouco os impediam de morrer congelados. Se a ventania
ao menos dissipasse a névoa ela a teria acolhido como um
presente dos deuses, mas não: quanto mais avançavam, mais
pareciam entrar no território das nuvens. Do jeito que estava a
comandante não conseguia enxergar seus soldados mais distantes
e a situação tendia a piorar conforme se aproximavam do lar do
dragão.
Ela fez um gesto para que se aproximassem. As fileiras de anãs e
anões guerreiros apertaram até ficarem de ombros colados. Os da
frente agacharam sobre o rio congelado, dando espaço para os de
trás, e os três não-anões permaneceram nos fundos para não
atrapalhar a vista de ninguém.
— Quer ajuda? — Talis perguntou, as mãos em volta da boca. Era
a segunda mais alta do grupo, abaixo somente de Grisha, mas
ninguém esperaria que uma meio-elfa competisse em tamanho
com uma meio-orc.
Talis estava entre eles exatamente por poder ajudar em diversas
situações: além de saber lutar, a meio-elfa tinha alguns truques
nas mangas que os feiticeiros dos Machados Sangrentos não
conseguiam imitar, um dos quais era o poder de ampliar as vozes
de modo que um sussurro virasse um berro e um grito, uma
trovoada. Contudo, Brunhild a dispensou com um gesto da mão.
— Não queremos acordar o dragão. Conseguem me escutar
agora? Muito bem. Essa brisa de primavera que encontramos até
agora não é nada comparado ao que vamos encarar daqui pra
frente. Veem aqueles ossos? — apontou para o auroque
parcialmente devorado. Tinha tamanho suficiente para puxar um
carro de bois sozinho e mesmo assim as marcas de dentes em sua
carne pareciam desproporcionais, imensas. — Não passa de um
lanchinho que o dragão guardou pra mais tarde. Meus caros,
entramos oficialmente no território da Morte Branca.
Ela deixou que o peso das palavras assentasse em suas mentes
como a neve que acumulava nos ombros.
— Estamos mortos. — Goddrum quebrou o silêncio, sentando-se
na cabeça do bovino. Era o terceiro em comando, mas apenas
porque seu pessimismo o tornava um péssimo líder. Quando ele
deixava isso transparecer aos guerreiros, era ela quem precisava
motivá-los:
— Mortos? — ela deu uma risada arrogante, uma que ecoou
várias vezes por toda a ravina. — Estamos ricos! O tesouro desse
monstrengo vai nos tornar os mercenários mais ricos de toda
Faerûn! Imaginem só quanto ouro e diamantes um bicho desses
deve ter. Cada um de vocês vai poder comprar sua própria terra e
aposentar, se quiserem, e os que ficarem vão ter tantas armas
mágicas que os almofadinhas do Grou Branco vão morrer de
inveja. Acham que os Punhos Flamejantes ganham dinheiro
fazendo patrulha em Portão Baldur? Acham que a Mão Negra
ganha dinheiro assassinando reis e rainhas? Isso porque vocês
nunca viram um matador de dragão. Isso sim é tesouro de
verdade, isso sim é glória de batalha! Por Moradin!
— Por Moradin! — ecoaram os anões, gritando e batendo nos
escudos. — Por Clangeddin!
— Por Gruumsh. — Talis inclinou-se para a meio-orc, mal sendo
ouvida na balbúrdia dos companheiros.
Sem olhar, Grisha devolveu uma cotovelada dolorida em suas
costelas.
— Não fala essas coisas, metade desses anões tem um gosto por
matar orcs.
— Você não é orc, é só metade. E eles estão mais preocupados
com o dragão.
Foi a vez de Grisha rir.
— É sempre assim, mas só até verem o tamanho dele. Quando a
fúria da batalha começar, o dragão não vai nem saber o que o
atingiu.
— E você não tem medo? Nem um pouquinho? — a meio-elfa
quis saber.
— Não. Sou adrenalina pura.
Talis não conseguiu evitar uma gargalhada, tão forte que fez sua
barriga doer.
— Ei, vocês duas! Andando! — Brunhild as chamou para que se
juntassem ao restante do grupo. Ainda parada sobre a rocha,
assistindo a movimentação da tropa, se dirigiu às duas quando
passaram diante dela: — Vou precisar de voluntários para escalar
a ravina e ver o que há acima. Topam?
Em resposta, Grisha estalou os dedos, expondo orgulhosamente
suas presas.
Mesmo com grossas luvas de couro e lã seus dedos quase
congelaram durante a subida. Talis, Grisha, Oskar e Tarak
escalaram a margem direita do rio congelado, um penhasco
rochoso de dez metros coberto por gelo afiado, tendo apenas um
par de cordas com ganchos para ajudar. Seus companheiros
mercenários continuaram sua marcha pelo fundo da ravina, duas
fileiras de dez guerreiros mais ou menos ordenadas lideradas por
Brunhild e Goddrum. A maioria carregava as armas típicas anãs:
martelos para esmagar cabeças, machados para romper tendões e
escudos para aguentar pancadas. Suas cotas de malha e placas de
aço tilintavam ao caminhar, tornando-os fáceis de localizar
mesmo quando a névoa espessa encobria suas cabeças. Um terço
deles, porém, assemelhava-se mais a porcos-espinho do que a
soldados. Aqueles anões em suas armaduras pretas, cobertas da
cabeça aos pés por pontas metálicas, eram os kuldjargh — os
"idiotas do machado". Cada um carregava um enorme ugrosh, um
machado de cabo longo cuja ponta debaixo era afiada como uma
lança. O conjunto da armadura de espinhos e arma exótica os
tornava guerreiros únicos, tão particulares à cultura anã quanto
crescer barba, e os fazia a linha de frente dos Machados
Sangrentos.
Oskar e Tarak eram kuldjargh, e ambos orgulhavam-se do estilo
de luta quase suicida. Oskar, a barriga proeminente coberta por
cravos da grossura de polegares, tinha o lado direito do rosto
marcado por cicatrizes de garras e falava com frequência sobre
acrescentar algumas marcas ao outro. Tarak, mais novo e mais
atlético, tinha adereços cortantes trançados no cabelo e barba.
Grisha, assim como eles, era uma bárbara dada à fúria de batalha,
porém não compartilhava o estilo de luta anão. Seu machado era
uma típica lâmina dupla orc, marcada por mossas de impacto e
com um cabo feito de osso, e sua armadura eram somente os pelos
grossos de um urso das cavernas que cobriam seus ombros e
costas. Talis a vira diversas vezes entrar, ou melhor, sucumbir à
fúria, e podia dizer com certeza que era algo que kuldjargh
nenhum poderia aprender. Ninguém mais tinha dentro de si um
frenesi esperando para tomar o controle.
Os quatro percorreram o topo da ravina por três horas,
acompanhando a tropa abaixo e buscando por sinais do dragão.
Com exceção das nuvens carregadas, o céu estava vazio. Parecia
que nenhuma ave de rapina arriscaria caçar no território daquela
fera, e nenhuma outra ave poria sua vida em risco. Nas rochas e
troncos dos pinheiros que os ladeavam, ocasionais marcas de
garra deixavam claro o tamanho de seu inimigo: fendas compridas
como espadas, profundas como golpes de picaretas e, por vezes,
acompanhadas de sangue escuro e congelado.
Foi Talis quem primeiro notou que não estavam sozinhos. Os
anões pararam para mijar no tronco de um velho abeto desfolhado
e ela e Grisha decidiram explorar a mata por alguns passos.
Enquanto a urina de cheiro pungente fazia vapor ao tocar a neve e
os dois idiotas de machado riam, a meio-elfa agachou-se diante de
um conjunto de pegadas.
— Pássaros? — Grisha perguntou ao vê-las. Eram marcas de
quatro dedos e uma garra no calcanhar, aprofundadas na neve.
Talis fez que não, suspirando e soltando pela boca uma pequena
nuvem.
— Algum tipo de dragão. Aves teriam três dedos, outros lagartos
não teriam essa garra atrás. De qualquer forma, é um réptil
adaptado a andar no gelo.
— O que que tem aí? — quis saber Oskar, erguendo as calças
enquanto se aproximava.
— Companhia. — respondeu Grisha, adiantando-se e olhando por
entre as árvores. — Um filhote de dragão, talvez?
— Talvez. — Talis concordou, porém estava incerta. — Vamos
avisar Brunhild?
Oskar passou por Talis arrastando o ugrosh atrás de si, por pouco
não esbarrando nela com seus cravos afiados.
— Bah! Vamo vê o que que é isso de uma vez por todas. Quero
derramá sangue ainda hoje.
Antes que Oskar pudesse dar dez passos a neve diante dele
irrompeu para cima, e uma criatura maior que o anão saltou sobre
ele.
— Oskar! — Grisha gritou e disparou à frente. O anão estava no
chão, encimado por uma criatura de aspecto dracônico, toda
coberta por escamas branco-acinzentadas que conferiam a
camuflagem perfeita no ambiente invernal. Ambos engalfinhados
em uma luta corpo-a-corpo intensa, logo as primeiras manchas
vermelhas começaram a surgir por entre as escamas alvas.
A criatura saiu de cima de Oskar e recuou, ferida embaixo do
pescoço e na boca ao tentar mordê-lo em sua armadura de
espinhos. Oskar esfregou a mão na cara, sujando-a com sangue
quente, e partiu para o ataque.
Apesar das pernas curtas o anão foi mais rápido que Grisha, Talis
ou Tarak, alcançando o inimigo em um piscar de olhos. Seu
machado desceu direto contra ele, a criatura esquivou-se e
desferiu uma chicotada com a cauda, abrindo um talho nas costas
de sua mão. Oskar reagiu virando a ponta de lança contra a
criatura, engajando em um combate cada vez mais intenso,
afastando-se de seus companheiros até cair na armadilha.
À esquerda e direita a neve explodiu com mais criaturas
dracônicas.
— Mais dragonetes! Grisha, cuidado! — Talis deu um grito de
alerta, sacando sua espada para juntar-se aos companheiros.
Ao mesmo tempo em que os três dragonetes saltaram sobre Oskar,
Grisha caiu sobre eles.
O urro da meio-orc chamou a atenção da fera à esquerda de
Oskar. Ela ergueu sua crista e sibilou, mostrando as presas, mas o
golpe do machado de cima para baixo o jogou contra a neve,
fazendo-o rolar duas vezes até atingir um tronco e parar. A meio-
orc urrou novamente, plantando os pés entre o dragonete ferido e
o mercenário anão. Os dois se encararam, fúria e selvageria. Tarak
finalmente alcançou o inimigo à direita de Oskar e deu um
encontrão com sua ombreira coberta por chifres afiados. O
dragonete cambaleou, meia dúzia de escamas esmagadas em seu
flanco esquerdo, mas devolveu um golpe com a cauda que pegou
Tarak por trás dos joelhos e o levou ao chão.
Talis correu até o anão derrubado enquanto o dragonete o atacou
com as garras, tomando cuidado para não ferir a si mesmo na
armadura de espinhos. A fera percebeu a aproximação da meio-
elfa e conseguiu se esquivar do primeiro golpe de espada. Era,
contudo, uma distração, e Oskar espetou seu lado direito com a
parte de trás do ugrosh. O dragonete à direita ganiu e recuou.
Grisha atacou mais duas vezes aquele que derrubara, não dando
chance para que se levantasse, e Oskar afastou o primeiro
dragonete até que toda sua frente ficasse coberta de sangue, seu
próprio e também do anão. Com um companheiro ferido e o outro
que se afastava, o que restava recolheu o corpo como uma
serpente, trocando a atenção entre todos seus inimigos. Enquanto
isso, Talis apenas o encarou.
Grisha, Oskar e Tarak mantiveram-no afastado enquanto Talis se
concentrava. Sabiam de seus poderes e esperaram os poucos
segundos que ela levava para conjurar o feitiço. O dragonete
parecia pesar os riscos de ficar ou fugir, porém, assim que tomou
a decisão e deu o primeiro passo, Talis estocou com a espada. O
dragonete desviou para a esquerda, erguendo-se nas patas traseiras
e afastando a cabeça, mas a arma de Talis seguiu seu pescoço,
exposto com o movimento, prevendo aonde estaria. A espada
longa entrou alguns centímetros, o suficiente para manchar toda a
neve à frente de sangue. Assim que aquele caiu, o terceiro
dragonete decidiu fugir de vez.
Grisha pegou uma machadinha pendurada em seu cinto e a
arremessou no ar. A lâmina rodou e descreveu um arco lateral,
acertando o dragonete em uma das patas traseiras. Ele escorregou
na neve e deslizou, mas levantou-se e, cambaleando, continuou a
trotar para longe.
— Deixe ele ir. — disse Talis antes que os outros embrenhassem-
se ainda mais na mata. — Podemos seguir o rastro de sangue, mas
vamos antes avisar Brunhild.
Oskar e Tarak bufaram em resposta, limpando o suor do rosto, a
fúria dissipando aos poucos. Grisha assentiu, mais controlada do
que os camaradas, ainda encarando a floresta.
Voltaram juntos até a ravina, armas em mãos e os sentidos
aguçados. A tropa havia parado de se mover e todos olhavam para
cima, alertados pelo som da luta. Talis ajoelhou-se na beirada e
gritou para baixo para ser ouvida acima do ruído do vento.
— Está tudo bem! Encontramos três dragonetes, mas demos uma
surra neles. Permissão para ir atrás do que escapou?
Brunhild não pensou duas vezes.
— Permissão negada. Fiquem por perto e alertas, logo vai
escurecer e temos que montar acampamento.
Talis assentiu e levantou, voltando para os companheiros.
— Queria mais sangue. — Reclamou Oskar, cuspindo no chão.
Estava ferido, mas os machucados não pareciam incomodá-lo.
Chegaram ao fim da ravina antes do cair da noite. O rio sinuoso
alargou e endireitou próximo do seu fim, uma cascata estática
com dezenas de metros de altura. A cortina de água congelada
espalhava-se em um lago de bordas irregulares, salpicadas de
pedras e margeado por grandes pinheiros de copas brancas.
Próximo à cachoeira a ravina diminuía de tamanho, formando
trilhas pelas quais puderam deixar a superfície do rio e buscar por
uma clareira onde montariam acampamento.
Os batedores que exploravam o caminho à frente retornaram com
a localização de um bom local para passarem a noite. Eles
também entraram em confronto com os dragonetes brancos e
encontraram pegadas menores, que assumiram serem de kobolds.
A palavra armadilhas espalhou-se ao longo das colunas da tropa e
todos avançaram com a atenção redobrada. Contudo, chegaram à
clareira sem nenhum percalço e puderam montar um
acampamento capaz de resistir ao frio da noite.
Armaram três círculos de barracas em torno de fogueiras altas, em
uma clareira junto a um paredão que os protegia de parte do
vento. Para aquecerem-se por dentro, prepararam caldos espessos
e compartilharam bebidas, todos sentados bastante próximos
dividindo os cobertores. Quando estavam todos servidos, Brunhild
ficou em pé e bateu em sua caneca de metal para chamar a
atenção.
— Amanhã devemos chegar no covil do dragão. Espero encontrá-
lo durante o dia, mas estejam preparados para lutar de noite ou na
escuridão de uma caverna. Talis e Cadan podem nos ajudar com
isso.
Todos ergueram os canecos de conhaque para a meio-elfa e o
humano que, depois de voltar da patrulha, juntara-se novamente à
companhia. Era um feiticeiro usando tantos casacos que
praticamente desaparecia sob eles, mesmo tendo uma grande
habilidade com magias de fogo.
A comandante continuou:
— Quero que saibam mais sobre a Morte Branca antes de a
enfrentarmos. — Seu olhar tornou-se sério e ela bebeu mais um
gole. — Enfrentar um dragão não é fácil. Suas garras rasgam
armaduras, seus dentes quebram escudos, suas caudas esmagam
ossos e até mesmo suas asas são armas. Muitos preferem lutar
enquanto voam, então é preciso derrubá-los ou atraí-los ao chão
para poder ficar cara-a-cara. Mas o pior de tudo é que eles são
mágicos. — Brunhild andou entre sua tropa, olhando nos olhos de
cada um enquanto falava. — O sopro de um dragão pode derrubar
um exército despreparado de uma vez só. Um dragão branco tem
gelo e ventos de inverno dentro das tripas, e isso sai como uma
nevasca que, se atingir vocês em cheio, os transforma em estátuas
de gelo. Por isso, protejam-se atrás dos escudos quando o virem
abrir a boca e, aos que não trazem escudos... — ela pousou os
olhos sobre Grisha e os outros bárbaros da companhia. — ... bem,
escondam-se atrás dos companheiros.
Uma onda de risos percorreu a companhia e Brunhild deixou que
acabasse antes de prosseguir.
— Mas eu ainda não falei o pior. Todo dragão sabe usar a magia
que tem pra apavorar seus inimigos. Não é simplesmente pelo
tamanho ou pela aparência, mas é uma magia que se enfia nas
nossas mentes e nos deixa paralisado, faz fugir sem pensar ou
coisas piores. Algumas pessoas nunca se recuperam do trauma.
Algumas nunca têm a chance, porque não escapam com vida do
covil. É mais difícil lutar contra o medo do que contra as garras.
Um silêncio profundo os fez companhia por um longo tempo. As
chamas continuaram a crepitar, mas o frio pareceu chegar mais
perto. Uma anã quebrou o silêncio com a pergunta que todos se
faziam:
— Então o que podemos fazer para vencermos?
— Ter fé em Moradin e seus companheiros, e certeza de que os
Machados Sangrentos podem derrubar gigantes e dragões, quebrar
exércitos e derrubar muralhas. Pensem nisso, rezem por força e
coragem e sonhem com as glórias de amanhã.
Brunhild ergueu o caneco antes de se sentar. O silêncio a
acompanhou a princípio, mas pouco a pouco as vozes se
ergueram.
— À glória. — disseram alguns, erguendo os punhos e tomando
um gole. — À glória! À glória!
Os gritos dos Machados Sangrentos, os maiores mercenários da
Costa da Espada, ecoaram através da noite, mostrando a quem
quer que pudesse ouvi-los que não temeriam monstros ou a morte.
Não demorou muito para que montassem os turnos de guarda e
cada um se recolhesse para a barraca designada. Dormiam em
colchonetes, três em cada barraca compartilhando as mesmas
peles e cobertores para suportarem o frio da madrugada. Talis,
Grisha e Brunhild ficavam na mesma tenda. A comandante não
mantinha para si luxos como uma barraca separada ou comida
melhor que de sua tropa e escolhera o primeiro turno de vigia.
Grisha e Talis estavam sozinhas no abrigo, com pouco da luz da
fogueira atravessando para dentro e menos ainda do seu calor.
Após minutos de silêncio, Grisha sussurrou uma pergunta:
— Já tá dormindo?
— Eu sou meio-elfa, eu não durmo. — respondeu Talis com os
olhos fechados.
— Mentirosa, você sempre dorme na vigília.
As duas riram baixo, e então Grisha suspirou.
— Acha que vamos ter que enfrentar só o dragão ou aqueles
filhotes também?
Talis deitou de lado para olhá-la. O cobertor puxado até o nariz e
a touca de lã deixavam somente seus olhos de fora. Pareciam
agitados, mudando o foco com rapidez.
— Não eram filhotes, eram outra coisa. — Grisha apertou as
sobrancelhas. — Filhotes de dragão tem asas. Aqueles pareciam
quase cães de caça, não acha?
— É, talvez. — a meio-orc respondeu, em dúvida. — Então quem
estava caçando a gente?
Talis deu de ombros, quase imperceptível sob as cobertas.
— Você ainda é adrenalina pura?
Grisha sorriu, a ponta de suas presas despontando do lábio
inferior.
— Meio a meio. O resto é preocupação.
— Você, preocupada? Era só o que me faltava! Então um dragão
consegue deixar com medo Grisha Baukavard, a berserker dos
Machados Sangrentos?
Os olhos púrpura de Grisha cintilaram na meia-luz.
— Não é medo por mim, besta, é medo por você. — Talis calou-
se, encarando-a, processando. Grisha revirou os olhos. — Por
vocês todos. Menos por Oskar, porque ele sobrevive a qualquer
coisa.
Talis fitou sua amiga por mais um segundo e deixou escapar uma
risada. Conteve-se, balançou a cabeça, e as duas explodiram em
gargalhadas.
— Vão dormir! — alguém gritou do lado de fora.
Talis lutou para conter o riso, mas Grisha tornava a tarefa difícil.
As duas deitaram de costas, a meio-elfa ainda balançando a
cabeça.
— Você é inacreditável.
— Quê? Porquê?
Talis não respondeu, mas ainda sorria quando fechou os olhos.
Embrenharam-se mais na mata pela manhã. O grupo de batedores
formado por Cadan e três anões encontrou velhas trilhas usadas
por caçadores antes da Morte Branca chegar. O inverno
sobrenatural não deixara que vegetação as encobrisse, mas a
grossa camada de neve tornava difícil prosseguir mesmo por essas
trilhas. Ascenderam colinas de altitudes cada vez maiores,
aproximando-se cada vez mais das montanhas dos Picos Nublados
que delimitavam o vale. Pontiagudos e malhados de branco e
cinza, erguiam-se tão alto em direção ao céu que o sol apareceu
somente ao se aproximar do meio-dia, quando pararam para uma
breve refeição.
— É lá que vivem os gigantes. — disse Goddrum, sentando-se
entre Talis e Grisha em um tronco caído. O anão tinha a barba e
bigode sujos de sopa escura e segurava uma tigela nas mãos,
emanando vapores de aroma avinhado.
As duas mercenárias abriram espaço e observaram a muralha de
montanhas pedregosas as quais ele se referia.
— E você por acaso já viu um gigante? — Talis deu a
oportunidade para ele continuar a falar, como sabia que o anão
queria.
Goddrum bufou.
— Se já vi um gigante, se vi! Já matei gigantes, Talis Meia-elfa,
de muitos tipos, por sinal. Um deles tinha pelo menos três Grishas
de altura, talvez três Grishas e mais meia Talis. — O anão fez um
gesto abrangente, com olhar distante e o rosto corado. — Eles
moravam no topo dessas montanhas e às vezes os clãs anões
queriam escavar o chão de suas casas, tem muitas jóias por lá. Os
gigantes não gostavam da gente, então a gente tinha que matar
eles. Às vezes eles desciam das montanhas pra matar a gente por
vingança, e assim era a vida.
Cadan, encurvado sob o peso do couro de um urso inteiro,
aproximou-se do grupo e acocorou-se com sua tigela em mãos.
Bebeu a sopa grossa e quente sem parecer ligar para a temperatura
fumegante e, limpando a boca, falou:
— Eu tenho um ancestral gigante sabiam? É daí que vem meus
poderes. "Alma de Gigantes", é como chamam.
— Bah! E de que isso serve? Ser baixo e parrudo é muito melhor,
tu corta os tendões dos teus inimigos e eles ficam da tua altura! —
esbravejou Goddrum, e os três não-anões caíram na risada. Por
fim, o imediato de Brunhild cedeu e riu junto com eles.
Grisha ergueu a caneca até a boca e a finalizou fazendo barulho,
estalando os lábios de satisfação.
— Então é pra isso que trouxemos tantas rodas de queijo!
O anão abriu um sorriso largo.
— Queijo de cabra do clã Ouromontês, nosso maior orgulho.
Toda a gordura que você precisa pra aguentar esse frio e amargo
igual a vida. — Ele cutucou Talis com o cotovelo. — Se eu fosse
tu eu comia mais, tá precisando botar um peso pra ficar grande
igual a tua amiga. A Grisha não deve sentir frio. Tu também, ô
Gigante. — apontou com a colher de pau para Cadan. — Começa
a comer igual um anão e quem sabe eu acredito na tua história.
— Eu vou presumir, Cadan — teorizou Talis —, que o seu
ancestral foi um gigante do fogo.
O ruivo sorriu e, de uma hora para a outra, seus olhos se
iluminaram com a chama de uma forja acesa.
— Todo mundo pronto? — gritou Brunhild. — Não comam
demais, temos muito chão pela frente!
Ainda era dia, mas não por muito mais tempo, por isso Brunhild
estava com pressa.
— Entrem logo, andem, andem! — Empurrava um por um para
dentro da caverna, fazendo questão de que todos ficassem a salvo
da nevasca.
— De onde veio isso? — lamentou Tarak. Cristais de gelo haviam
juntado em toda sua barba, somando-se ao espetos de metal
propositalmente enfiados ali. — Dez minutos atrás dava pra ver o
sol...
— É o dragão. — disse Talis, soturna. — Quanto mais nos
aproximamos de seu covil, mais sentimos os efeitos mágicos que
ele causa em volta do seu lar.
Tarak olhou por cima do ombro, para as paredes de rocha
acinzentada e para o teto cheio de estalactites estreitas pendendo
como facas. Grisha continuava na porta da caverna, uma mão
cobrindo o rosto para proteger-se do vento e os olhos fixos em
Brunhild, ainda em meio à nevasca.
— Não vai entrar, comandante?
Ela não a respondeu. Em vez disso, dirigiu-se ao seu segundo em
comando.
— Cuide deles até eu voltar, Goddrum.
E, com isso, desapareceu em meio à tempestade de neve.
— Onde ela vai? Ficou maluca?
— Os batedores ainda não voltaram, Grisha. Ela vai buscar eles.
Grisha bufou, indignada.
— Ela vai se perder nesse mau tempo! Não dá pra ver um palmo
da frente do nariz, impossível encontrar alguém perdido.
— Confia na comandante, ela vai encontrar o caminho de volta.
Por que não senta e...
— Talis! Preciso de uma luz!
Um trio de guerreiros estava nos limites da escuridão da caverna,
onde mesmo a visão aguçada dos anões, elfos ou orcs tinha
dificuldade de enxergar. Um deles acenava para que Talis se
aproximasse e, quando ela foi, a meio-orc a seguiu.
Talis tocou o machado de um dos anões e a lâmina brilhou,
desfazendo as sombras por vários metros ao redor. A luz refletiu
nas paredes cobertas de gelo, lançando de volta um arco-íris de
tons. Os anões tocaram as paredes admirados.
— Parecem gemas... — murmurou uma das guerreiras.
Grisha aproximou o rosto, a expressão fechada
— Tem alguma coisa aqui dentro. Tragam a luz mais perto.
O portador do machado o ergueu próximo à parede. A luz
penetrou o gelo translúcido e revelou com clareza uma forma
negra, solidificada. Era uma pessoa, uma humana vestida como
uma caçadora, coberta por peles cinzentas e com uma lança
partida em mãos. Seu rosto estava ferido, os olhos arregalados e a
boca aberta.
— Tem mais, vejam só. — Talis os chamou do outro lado do
túnel.
Aproximarem a luz mágica revelou mais criaturas presas no gelo:
lobos de pelagem escura, caribus com chifres quebrados,
carneiros das montanhas maiores que uma pessoa adulta. Todos
tinham marcas de perfurações nas quais o vermelho do sangue
ainda estava exposto e vívido.
A meio-orc tocou a parede.
— Lisa. Parece um vidro de exposição.
Tarak passou por ela e deu um chute no gelo, seguido de um riso
debochado.
— Uma exposição? Pra que um dragão mostraria seus troféus de
caça? Ah.
Talis assentiu.
— Essa deve ser uma entrada do covil da Morte Branca. Temos
que nos preparar para o pior.
— Isso inclui olhos no escuro? — Grisha perguntou, segurando
seu machado com as duas mãos, encarando de volta as dúzias de
órbitas azuis que vinham em sua direção.
Os kuldjargh entraram em fúria. Ao longo de toda a caverna, meia
dúzia de anões em armaduras de espinhos urraram e avançaram
com seus martelos e ugrosh. A onda de guerreiros foi recebida por
rosnados e sibilos, e todos os pares de olhos avançaram contra
eles, entrando na área iluminada da caverna e revelando uma
dezena de dragonetes.
Escamas e espinhos se chocaram, armas subiram e desceram,
garras e caudas golpearam os anões. Depois do choque inicial os
outros conseguiram reagir, e o grito de guerra dos Machados
sangrentos ecoou pela caverna.
— Por Moradin! Por Clangeddin!
Talis e Grisha entraram na segunda onda de ataques, juntando-se
aos bárbaros furiosos, tentando flanquear os dragonetes brancos.
Duas setas de bestas voaram por espaços vazios no campo de
batalha, vindas mais de trás de anões que favoreciam as armas à
distância. Uma desapareceu na escuridão do túnel cavernoso,
retinindo em uma rocha distante, e a outra perfurou com sucesso o
crânio de uma das bestas.
Os dragonetes recuaram ao mesmo tempo em que Grisha e Talis
os alcançaram. As duas conseguiram derrubar um deles, fazê-lo
rolar no chão e perfurá-lo até sangrar, moribundo, mas os outros
escaparam de seus alcance, chicoteando com as caudas enquanto
recuavam. Os kuldjargh avançaram. Oskar espumava pela boca, o
peito coberto de sangue. A ponta de seu ugrosh cravou na cauda
de um dragonete, prendendo-o no lugar. Outros anões acabaram
com aquela criatura, sem nem mesmo ouvir os tremores acima de
suas cabeças.
— Cuidado! — Grisha puxou Talis pelo ombro antes que a
companheira os seguisse na investida contra os dragonetes e, onde
a meio-elfa estivera um segundo antes, uma estalactite de gelo
despencou contra o chão, tão grossa quanto um braço,
estilhaçando no impacto.
Um ruflar de asas acima de suas cabeças revelou a presença de
mais inimigos. O teto da caverna era alto e repleto de fendas e
estalactites que formavam espaços escuros, e deles surgiu uma
revoada de criaturas com asas coriáceas. Cinzentos manchados de
branco, com pernas e braços compridos, caudas flexíveis e
cabeças de aspecto dracônico. Os kobolds alados trombavam e
empurravam as estalactites e as derrubavam uma a uma sobre os
mercenários.
— Flechas nos cão-dragão! — Goddrum alcançou as duas e
abaixou-se sobre um joelho, uma besta pesada nas mãos. Girou a
manivela e corda tensionou o arco de metal com um rangido.
Encaixou uma seta, fez a mira e disparou. A seta perdeu-se na
escuridão, mas um kobold despencou contra o chão. Outras duas
setas voaram em seguida, e mais um kobold caiu.
O restante dos guerreiros finalmente juntou-se aos bárbaros, que
agora cediam terreno para tentar evitar a armadilha dos kobolds.
Com a ajuda dos mercenários com escudo, conseguiram proteger-
se da onda de ataques surpresa e, com os números dos kobolds
reduzidos pelos anões besteiros, estes bateram em retirada atrás
dos seus dragonetes, embrenhando-se nas profundezas da
montanha.
— Ninguém avança mais. — Goddrum parou à frente dos
bárbaros, bloqueando seu caminho até que a fúria se extinguisse e
seus rosnados tornassem-se uma respiração profunda. — A gente
não vai cair em outra armadilha antes de Brunhild voltar.
— Mas chefe, e se eles voltarem? — Tarak parou em frente a
Goddrum, segurando seu machado ensanguentado em mãos. O
bárbaro era mais alto que o anão no comando porém os ombros e
tronco rotundo de Goddrum o faziam parecer maior.
— É por isso que a gente vai montar guarda. Se você quiser pode
inclusive ficar na frente.
— Mas e se eles alertarem a Morte Branca? — questionou Talis, e
Goddrum a princípio ficou sem palavras para responde-la.
— Bem, nesse caso... nesse caso... — ele bufou, apoiando a besta
no chão, coçando a cabeça. — Eu diria pra gente fugir daqui, mas
a tempestade lá fora tá feia. O que tu sugere, Talis Meio-elfa?
Grisha viu nela a conhecida expressão de elaborar um plano.
— Vamos separar um grupo mais mortal pra ir à frente e pegar os
kobolds. Eu, Grisha e outros bárbaros, talvez um arqueiro.
Goddrum andou até a entrada da caverna, murmurando consigo
mesmo. Brunhild não voltara e não havia sinal de que voltaria
logo.
Ele gesticulou para os anões que, depois do combate, moveram-se
até a entrada e assistiam a nevasca, cinco metros para dentro da
caverna para não serem pegos pelo pior do vento.
— Façam uma linha de defesa aqui. Escudos na frente, um
besteiro atrás. Fiquem atentos pra inimigos e pra Brunhild
voltando, ela e a patrulha podem tá feridos.
Depois, Goddrum foi até os fundos da caverna, no limite da
iluminação, e deu ordens semelhantes. Em seguida virou-se para
Talis.
— Vamos?
Talis assentiu, e ela e Grisha chamaram Oskar e Tarak para irem
com eles. Assim, adentraram o covil da Morte Branca.
O largo túnel logo afunilou e se dividiu em passagens menores,
com a passagem principal mergulhando vertiginosamente para as
profundezas escuras da montanha a pouco mais de cem passos da
entrada. Grisha se aproximou da beirada, adiantando-se de Talis,
que portava sua espada com uma luz mágica, e contando com sua
visão no escuro para não tropeçar. A beirada inclinava-se para
baixo perigosamente, o gelo liso ameaçando fazê-la escorregar.
— Só mesmo tendo asas pra descer p... AH!
O gelo abaixo de seu pé fragmentou e deslizou só um pouco, mas
o suficiente para que perdesse o equilíbrio. A sola da bota de
Grisha não conseguiu mais atrito para sustentá-la, ela caiu sentada
e se viu caindo na direção do fosso escuro, gritando até Talis
agarrá-la pelo colarinho.
— Puxem!
Os outros anões a ajudaram a iça-la até o terreno plano. Grisha
arfava, os dedos brancos apertando o cabo do machado na mão.
— Tu não tem asas, Baukavard. — Goddrum a repreendeu, então
virou-se, olhando as entradas dos túneis que haviam deixado para
trás avançando daquela forma. — Agora todos os cão-dragão
devem ter ouvido você.
— Desculpa, chefe. — ela disse, esfregando os glúteos doloridos
pela queda. — Aprendi a lição.
Talis riu, mas parecia nervosa.
— Vamos todos juntos.
Dessa vez Oskar e Goddrum foram na frente, seguidos de perto
por Grisha, Tarak e Talis. A lâmina da meio-elfa fazia as paredes
congeladas do túnel maior refletirem seu caleidoscópio colorido,
mas o túnel menor não tinha gelo, somente rocha cinza e fria. Nos
cantos, conforme o túnel serpenteava, havia por vezes ossos de
passarinhos e lascas de pedra com as pontas quebradas,
abandonadas como lixo. Aquelas se tornaram mais comum
conforme avançavam e as marcas de garra que seguiam no chão
separarem-se em uma bifurcação.
— A gente se divide ou... — Talis deu uma cotovelada nas
costelas de Grisha.
— Não seja besta. Temos que escolher um caminho e esperar pelo
melhor.
— Que nesse momento seria achar uns kobolds pra rachar a
cabeça! — rosnou Oskar, avançando à frente.
O ruído da tempestade de neve ficara para trás há tempos, e agora
eram os passos deles com suas botas pesadas que abafavam os
outros sons. Por isso, quando Grisha percebeu que havia algo
errado, os kobolds já estavam sobre eles.
— Krutanikah!
Grisha virou para trás a tempo de ver um kobold logo atrás deles,
em pé no meio do túnel, ladeado por meia dúzia de outras
criaturas, pelo menos metade com asas nas costas. Contudo, o
kobold à frente tinha a boca escancarada e um jorro de ar frio
partiu dela.
— Rah! — Grisha urrou enquanto se jogava de lado, ombro
esquerdo na parede, evitando que o sopro de magia gélida a
atingisse em cheio. Seu machado raspou no chão, ergueu e
acertou o queixo do kobold, fechando sua mandíbula com o
impacto e o jogando para cima. Sangue manchou seu rosto mas o
mundo já estava tingido de vermelho pela sua fúria.
Os outros mercenários não foram tão sortudos e uma camada de
gelo pontiagudo os cobriu por inteiro. Tarak gemeu de dor, as
pálpebras congeladas e mantendo os olhos abertos. Talis tinha
cristais de gelo pendurados no braço que usara para proteger o
rosto, as pontas perigosamente voltadas para ela como se sopradas
por um forte vento.
Goddrum disparou uma flecha contra um dos kobolds, mas esta
retiniu em seu escudo feito de grandes escamas acinzentadas.
Enquanto recarregava, Grisha entrava em meio a eles sem pensar
se Talis ou os outros a seguiriam. Desferia golpes à esquerda e à
direita, suportava pancadas e perfurações com a mera força de
seus músculos enrijecidos e resiliência à dor. Com um golpe de
cima para baixo jogou o escudo do kobold ao chão, não
quebrando a proteção mas sim o braço da criatura. Um seta
precisa o atravessou logo em seguida, Grisha avançou mais,
trocando golpes e levando mais dois ao chão então se virou,
procurando por mais inimigos.
Na outra extremidade do túnel seus companheiros estavam
agarrados em um combate intenso. Talis estocava por entre os
ombros dos dois kuldjargh, Tarak tentava atingir um par de
kobolds alados e Oskar dividia a atenção entre um escudeiro e um
dragonete. Grisha pulou e rasgou a asa de um kobold que tentou
voar acima de sua cabeça. Ele atingiu a parede e uma adaga rolou
de sua mão. Ela pisou em sua garganta e empurrou Goddrum de
lado para avançar. Com sua altura vantajosa, acabou com os
kobold que Tarak não alcançava, fazendo Talis e o anão vibrarem.
Dois kobolds fugiram, deixando o dragonete para os bárbaros
finalizarem, mas a fúria dentro de Grisha crescia, e ela queria
mais sangue.
O dragonete a atingiu com uma chicotada da cauda, rasgando a
manga de seu casaco de peles. Logo em seguida Oskar o prensou
contra a parede com sua armadura, fazendo-o agonizar até que
fosse finalizado pela ponta do ugrosh.
— Grisha, espera a gente! — Talis a chamou, mas a bárbara
continuou a avançar.
Um kobold alado gritava estridente, raspando a cabeça no teto,
dançando no ar de um lado a outro na tentativa de desviar dos
golpes de machado. Até o momento ele havia sido bem-sucedido,
arrastando Grisha atrás dele para os túneis mais profundo,
obrigando os outros a correrem para acompanhá-la. Por fim ela
agarrou seu rabo com a mão e o puxou para baixo. O kobold deu
um grito ee o machado enterrando-se em seu esterno o calou. Não
havia mais inimigos à vista, somente o rastro de sangue do seu
caminho, e o frenesi de Grisha chegou ao fim.
Os outros a alcançaram, arfando e soltando nuvens de vapor.
— O que é isso? — murmurou Oskar, e Grisha virou para a
direção que o anão apontava.
O túnel vinha se abrindo há um tempo mas agora alargava
abruptamente, criando uma caverna cujas entradas estavam
iluminadas por velas mas que o resto era tão distante que a luz não
chegava. A caverna parecia vazia, exceto por uma comprida
parede rochosa que a cortava no meio, toda entalhada.
Adentraram com armas em punho e passos cuidadosos. O vapor
que emergia de suas respirações mal se fazia presente na névoa
espessa da caverna, que limitava sua visão a pouco mais de alguns
metros. Acima, o teto estava tão distante que somente as pontas
aguçadas de estalactites pendentes podiam ser vistas, refletindo a
parca luz.
Talis parou, puxando Grisha para trás.
— Passos. — sussurrou em seu ouvido, gesticulando para trás,
para o túnel do qual vieram.
Grisha também ouviu, e alertou os outros em sussurros ríspidos.
— Parem, estamos sendo seguidos.
Pararam sua marcha adiante, voltando-se para a entrada do túnel,
vários metros distante. Os passos ficavam cada vez mais audíveis.
— Voltamos ou ficamos? — Tarak perguntou, recuando com o
ugrosh na frente do corpo. Estava ferido da batalha anterior,
sangrando por baixo do braço.
— Protejam as costas e preparem-se para lutar aqui. — disse
Goddrum, recarregando a besta com um clique.
Ele e Talis ficaram atrás de Grisha, no centro, e Tarak e Oskar de
cada lado. Uma luz cresceu na entrada do túnel, Goddrum fez a
mira. O rumor da aproximação fez a caverna tremer, mas parecia
errado. Talis recuou instintivamente, costas contra a parede atrás
de si, e a parede se mexeu.
A caverna inteira tremeu quando o que antes era uma parede
começou a arrastar pelo chão e se enroscar. A imensa cauda
escamosa coberta de gelo tinha a mesma aparência sólida do
entorno. Porém, quando começou a se mover, o gelo nela
incrustada estilhaçou como vidro quebrado, revelando as escamas
abaixo, tão grandes quanto escudos. Os olhares dos anões, de
Talis e de Grisha seguiram o movimento sinuoso, da ponta
afunilada até a base grossa, pelo corpanzil que erguia acima da
névoa, pelo pescoço comprido até a cabeça titânica e olhos
refulgentes. Duas luas azuis surgiram na escuridão acima, uma
opaca e nebulosa e a outra brilhante e rasgada por uma estreita
pupila vertical.
O movimento do dragão parou e o tremor cessou aos poucos pela
caverna, mas um ronco profundo emanou da garganta da Morte
Branca, soprando hálito gélido em seus rostos.
— Devoro-os ou os deixo viver? Depende do que trouxeram para
meu tesouro... — a voz feminina retumbou em seus ouvidos. A
dragão mal movia a boca para falar, sem lábios para articular e
mesmo assim articulando as palavras com perfeição.
A luz mágica de Talis refletia na fileira de presas brancas,
algumas com as pontas quebradas. As escamas eram de um cinza
duro que parecia esconder um brilho intenso por baixo, séculos de
existência cobertos pela armadura inata. As garras do tamanho
dos próprios anões arranharam o chão conforme as patas
dianteiras fechavam um círculo em volta dos mercenários.
A imensa cabeça da Morte Branca baixou até o solo, aparecendo
completamente na luz. Suas asas abriram, raspando o teto e
derrubando lascas de pedra e gelo que se espatifavam ao redor.
Suas presas de marfim eram maiores do que espadas. As patas
terminadas em garras alvas poderiam segurar uma pessoa inteira.
As escamas eriçaram e ondularam com os movimentos do corpo.
Ela era imensa e poderia destroçá-los. Ela era soberana em seu
covil, seu reino de gelo e morte. E, mesmo cara-a-cara com a titã
dracônica, alguém disparou uma flecha.
A seta assoviou pelo ar e atingiu o focinho da dragão, cravando
entre as pequenas escamas em torno da narina. A Morte Branca
rosnou, trovejando com o rumor de um temporal distante, e sua
cabeça levantou até a crista espinhosa tocar o teto da caverna.
Quando abriu a boca, soprou sobre os mercenários uma
verdadeira nevasca.
Grisha saltou contra Talis enquanto o ar se enchia de lâminas de
gelo, atingindo temperaturas que congelaram o sangue enquanto
era derramado.
— Mortos! — urrou a Morte Branca, enchendo a caverna com sua
voz, tremendo e rachando as paredes. — Minúsculos, atrevidos,
estão todos mortos!
Junto com a tempestade congelante, uma onda de terror quase
palpável emanou da dragão. Mal se ouviam os gritos e lamúrios
sob o estremecer do gelo e das rochas. Grisha levantou com as
costas queimando. Conseguira proteger Talis do sopro gélido, mas
recebera boa parte do poder dracônico sobre seu próprio corpo.
Ela ajudou a meio-elfa a ficar em pé e procurou pela única rota de
fuga que conhecia e, na entrada do túnel, todos os Machados
Sangrentos estavam em formação de batalha.
Talis cambaleou para longe da dragão e se escorou em uma
estátua de gelo. Um relance e ela se afastou horrorizada, pois o
rosto congelado de Tarak a encarou de volta. A Morte Branca
esmigalhou a estátua diante de seus olhos e a explosão de cacos
de gelo mandou ela e Grisha para trás.
Uma flecha atingiu o pescoço da dragão e deslizou para longe,
outra quebrou-se nas escamas duras do maxilar e uma bola de
fogo explodiu entre seus olhos, o impacto inclinando-a para trás.
Oskar avançou e Grisha o seguiu, liderando a carga dos
mercenários que se juntavam ao embate. As patas dianteiras do
monstro ergueram e pisotearam, mas os dois bárbaros
conseguiram se esquivar. Talis, no entanto, quase não escapou de
uma mordida e foi atingida como que por uma marretada e levada
novamente ao chão. A dragão rugiu, emanando outra onda de
terror, que Grisha afogou enterrando o machado sobre uma das
patas dianteiras e decepando toda uma garra.
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Sangrentos se elevou.
— Por Clangeddin! — gritaram os guerreiros ao alcançar a
dragão. — Por Moradin!
Uma pancada de uma pata jogou três deles para longe, a outra
rasgou as costas de Grisha onde o gelo já havia feito seu trabalho,
mas a investida dos mercenários abriu talhos e verteu sangue onde
atingiram sua oponente.
Mais flechas voaram, então um estrondo e um calor súbito. Talis
se levantara e arrastou Grisha para longe, uma mão na espada e a
outra puxando-a pelo braço. Uma enorme bota fumegante pisou
onde antes elas estiveram e Cadan enfim juntou-se à batalha.
O humano estava transformado: tinha a altura da dragão, estava
robusto, com ombros largos e uma aura chamejante dançava ao
seu redor. A Morte Branca ergueu nas patas traseiras, apoiando-se
na pesada cauda enquanto mordia e arranhava o feiticeiro. Cadan
se protegeu com os braços e as chamas em volta de seu corpo
cresceram. A dragão branca rugiu, afastando a cabeça
chamuscada, então soprou outro turbilhão de gelo. O sopro
empurrou o gigante para trás, seus pés deslizarem no chão
escorregadio até bater as costas no fundo da caverna. Os besteiros
que se protegiam sob o túnel recuaram quando o impacto o
estremeceu.
Grisha e os outros guerreiros contornaram a Morte Branca e
desceram suas armas contra sua cauda, esmagando e arrancando
escamas com cada golpe de seus martelos e machados. A dragão
chacoalhou a cauda, acertando todos que não perceberam o perigo
e não se afastaram. Escudos voaram para longe de seus
portadores, Grisha caiu de costas e Talis mais uma vez tentou
puxá-la para longe da batalha.
— É melhor ficar longe, Cadan pode...
Um urro aterrador calou a meio-elfa e a força da presença
dracônica a pôs de joelhos. Não era apenas medo, era algo além,
muito pior, algo para o qual Brunhild não poderia tê-la preparado.
Grisha, por outro lado, não estava amedrontada, mas furiosa, e
investiu contra a Morte Branca, o rosto sangrento e as presas à
mostra. A bárbara correu para o flanco de sua oponente, que
tentava sobrepujar com seu peso o feiticeiro tornado gigante.
Oskar de alguma forma se agarrara à cauda com as mãos e
espinhos, cravando o ugrosh e urrando. A dragão mordeu Cadan e
sua cabeça foi envolta em um turbilhão ardente. O frio e o calor
colidiram em um embate que encheu de névoa a caverna. Mas as
chamas apagaram, o gigante foi ao chão e a Morte Branca ergueu
vitoriosa sua boca ensanguentada.
Grisha hesitou por um átimo, apenas o suficiente para processar a
morte do amigo. Os mercenários gemeram, a esperança de vitória
se esvaindo com a queda de sua maior arma, mas a meio-orc não
pensou na derrota, pois havia muito sangue a ser derramado.
Grisha cravou o machado no tornozelo da dragão, desviou de uma
patada e golpeou de novo. A cauda veio em sua direção mas
Brunhild a tirou do caminho e as duas juntas cortaram o tendão da
pata traseira esquerda.
— Não é hora de morrer, Grisha. — A anã ergueu o escudo e elas
escaparam por baixo do corpo enquanto uma saraivada de flechas
acertava a Morte Branca
— Não, é hora de matar!
Talis se afastava com a cabeça baixa, sentindo o corpo rígido e
desconcertado pelas ondas de medo que a atravessavam. Seus
olhos pareciam turvos, a visão periférica desaparecera, os ouvidos
estavam preenchidos por gritos e rugidos. Ela acompanhou
Brunhild defendendo Grisha das garras, segurando seu impacto
com o escudo várias vezes enquanto a berserker dilacerava carne
e escamas. Viu Oskar escalando entre as asas, aproximando-se
cada vez mais da cabeça da dragão. Ela não mais os tratava como
formigas e se esforçava para livrar-se dos guerreiros que a
estavam ferindo. A Morte Branca tentou se erguer nas patas
traseiras, criando um vento intenso com o ruflar das asas, mas os
golpes de Grisha a haviam debilitado. As pernas de trás cederam e
a dragão caiu contra o chão. Oskar despencou do alto de suas
costas e por cima de seus ombros, caindo diante da cabeça da
Morte Branca. Ela prontamente o agarrou com uma das patas. A
dragão escancarou a boca, e Talis achou que ela sorrisse. Grisha
ou Brunhild gritou um sonoro não e as duas investiram contra o
monstro, dando tudo de si, abrindo caminho através de garras e de
medo. Foi por pouco, muito pouco. O ugrosh caiu diante delas e a
Morte Branca jogou o kuldjargh para dentro de sua bocarra.
O sangue escorreu por entre os dentes de marfim, trazendo
consigo o medo, o pânico, o fim dos Machados Sangrentos. A
clareza da insensatez da expedição dominava a mente de Talis.
Nunca tiveram chance. A dragão cuspiu a armadura estilhaçada de
Oskar e se voltou contra os outros guerreiros. Os mercenários
estavam mudos e seu medo ecoava entre as paredes. Ela girou o
corpo e os derrubou com um poderoso golpe de cauda. Grisha,
Brunhild, Goddrum e todos os outros mercenários com escudos,
machados e martelos foram arremessados e rolaram pelo chão.
Muitos não levantaram, e os que o fizeram foram cobertos por um
sopro de gelo.
Os mercenários debandaram, e Talis ficou para trás. Suas pernas
tremiam tanto que não conseguia ficar em pé. Os cadáveres dos
camaradas da companhia, congelados contra o chão, criavam um
terreno desnivelado, branco, vermelho e salpicado das cores de
seus emblemas. Goddrum estava caído em um ângulo estranho, os
dedos espasmando na tentativa de alcançar sua besta para um
último tiro. Brunhild ergueu teimosamente o escudo, o braço
direito apoiando o esquerdo na tarefa. Outros dois anões se
juntaram a ela, e por fim Grisha se levantou.
A meio-orquisa tinha duas vezes a altura dos anões e abriu
caminho para a vanguarda. A fúria tornava seu corpo tão quente
que formava vapor onde a pele estava exposta pelos rasgos nas
roupas. A Morte Branca baixou a cabeça até diante dela,
encarando-a com olhos azuis do tamanho de sua cabeça. Havia
um reconhecimento na troca de olhares, o início de um duelo cujo
resultado já estava certo.
— Curve-se ou morra. — a Morte Branca ordenou.
Talis se curvou. Estava aterrorizada pela visão de ser devorada,
mas também sentia a obrigação de se curvar perante a majestade
da Morte Branca. Mas Grisha nunca se curvaria, ela sabia. A
meio-orc ergueu o machado com as duas mãos e urrou, investindo
pela última vez contra a mandíbula cavernosa, sangrenta, mortal.
Um último esforço, um último segundo de rebelião contra a
dominação do medo. A meio-elfa levantou e correu para Grisha e
de sua mão partiram três disparos cintilantes, certeiros, que
explodiram na face da dragão. As mandíbulas estalaram a
centímetros de Grisha e ela cravou a lâmina dupla no meio de
uma presa, rachando-a por inteiro.
A Morte Branca se esquivou, recuando para além do alcance da
meio-orc. Seus olhos traíram dor, mas os mercenários que
presumiram uma vitória e avançaram cometeram um erro fatal.
Ela soprou um jato irregular para cima, cambaleou, urrou. Talis,
ainda com o braço esticado e o formigamento arcano na ponta dos
dedos, pôde apenas presenciar uma das patas cair sobre Grisha e
esmagá-la sob seu peso.
Talis desabou, o último resquício de luta dentro de si
desaparecendo junto com Grisha. Os horríveis sons de batalha
tornaram-se cada vez mais distantes, abafados pelo tremor do
monstro pisoteando ao seu redor. Brunhild deu a ordem de
retirada para os poucos sobreviventes e menos ainda conseguiram
alcançar os túneis antes que a Morte Branca os alcançasse. Talis
permaneceu imóvel enquanto a confusão da retirada
transformava-se em silêncio, até sentir um sopro invernal sobre si,
a respiração profunda do mais poderoso ser que Talis já
encontrara.
A meio-elfa sentiu a presença imponente e aterradora sobre si e
baixou a cabeça até tocar o chão.
— Aprecio vermes que conhecem o seu lugar. Vou devorá-la por
último.
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