A CIDADE ANTIGA - Livro Primeiro e Segundo
A CIDADE ANTIGA - Livro Primeiro e Segundo
apresentaram-se ao tribunal vestidos de luto, e pediram ano o banquete fúnebre. Em conseqüência, no aniversário da
vingança. batalha, dirigiam-se em grande procissão, conduzidos pelos
Nas cidades antigas a lei punia os grandes criminosos primeiros magistrados, à colina sob a qual repousavam os
com um castigo considerado terrível, a privação da sepultura. mortos. Ofereciam-lhes leite, óleo, perfumes e imolavam-lhes
Punia-se desse modo a própria alma, condenando-a a suplício uma vítima. Quando os alimentos estavam colocados sobre os
quase eterno. túmulos, os plateanos pronunciavam uma fórmula mediante a
É necessário observar que entre os antigos qual chamavam os mortos, convidando-os a que tomassem
estabeleceu-se ainda uma outra opinião a respeito da morada suas refeições. Esta cerimônia ainda era observada nos tempos
dos mortos. Imaginaram uma região, também subterrânea, mas de Plutarco que presenciou o sexto centenário dessa
infinitamente mais espaçosa que o túmulo, onde todas as comemoração. Luciano nos conta qual a opinião que deu
almas, longe dos corpos, viviam reunidas, penando ou origem a todos esses costumes: “Os mortos — escreve ele —
gozando, de acordo com a conduta do homem durante a vida. alimentam-se dos manjares que colocamos sobre seus túmulos,
Mas os ritos fúnebres, como os descrevemos acima, estão e bebem o vinho que neles derramamos; desse modo, o morto
manifestamente em desacordo com essas crenças, prova certa que nada recebe, é condenado à fome perpétua.”
de que na época em que foram estabelecidos, não se acreditava Eis aí crenças antigas, e que nos parecem realmente
ainda na existência do Tártaro ou dos Campos Elísios. A falsas e ridículas. Contudo, elas exerceram seu império sobre o
primeira opinião dessas gerações antigas foi que a criatura homem por muitas e muitas gerações. Elas governaram as
humana vivia na sepultura, que a alma não se separava do almas, e logo veremos que tais crenças é que dirigiram as
corpo, e que permanecia unida à parte do solo onde os ossos sociedades, e que a maior parte das instituições domésticas e
estavam enterrados. Por sua vez, o homem não tinha que sociais dos antigos nelas tiveram sua origem.
prestar nenhuma conta de sua vida anterior. Uma vez
sepultado, não esperava nem recompensas, nem suplícios. CAPÍTULO II - O CULTO DOS MORTOS
Opinião certamente primitiva, mas que é a infância da noção
sobre a vida futura. Essas crenças logo deram lugar a regras de conduta.
A criatura que vivia debaixo da terra não estava tão Desde que o morto tinha necessidade de alimento e de bebida,
livre de sua condição humana para não ter necessidade de pensou-se que era dever dos vivos satisfazer às suas
alimentos. Assim, em determinados dias do ano, levava-se necessidades. O cuidado de levar alimentos aos mortos não foi
uma refeição a cada túmulo. abandonado ao capricho, ou aos sentimentos mutáveis dos
Ovídio e Virgílio deixaram-nos a descrição dessa homens; era obrigatório. Estabeleceu-se desse modo uma
cerimônia, cujo uso conservara-se intacto até seu tempo, verdadeira religião da morte, cujos dogmas logo se reduziram
embora as crenças já se houvessem transformado. Segundo a nada, mas cujos ritos duraram até o triunfo do Cristianismo.
nos narram, afeitavam-se os túmulos com grandes grinaldas de Os mortos eram considerados criaturas sagradas. Os
folhas e flores, ofereciam-se doces, frutas, sal, fazendo sobre a antigos davam-lhes os epítetos mais respeitosos que podiam
terra libações de leite e vinho, ou mesmo regando-a com o encontrar; chamavam-nos de bons, de santos, de bem-
sangue de alguma vítima. aventurados. Tinham por eles toda a veneração que o homem
Enganar-se-ia muito quem pensasse que essa refeição pode ter para com a divindade, que ama e teme. Segundo seu
fúnebre não era senão uma espécie de comemoração. Os modo de pensar, cada morto era um deus.
alimentos que a família levava eram realmente para o morto, Essa espécie de apoteose não era privilégio dos
exclusivamente para ele. E isso concluímos pelo seguinte: o grandes homens; não se faziam distinções entre os mortos.
leite e o vinho eram derramados sobre a terra do túmulo; um Cícero afirma: “Nossos ancestrais quiseram que os homens
buraco era cavado, a fim de que os alimentos sólidos que deixaram de viver fossem contados entre os deuses.” —
chegassem até o defunto; se lhe imolavam uma vítima, todas Não era necessário ter sido um homem virtuoso; o mau
as carnes eram queimadas, para que nenhuma pessoa viva tornava-se deus tanto quanto o homem de bem; apenas
delas participasse; pronunciavam-se certas fórmulas continuava, nessa segunda existência, com todas as más
consagradas, para convidar o morto a comer e a beber; se a inclinações que tivera na primeira.
família inteira assistia à refeição, ninguém tocava nos Os gregos de boa mente davam aos mortos o nome de
alimentos; e, por fim, ao se retirarem, os familiares tinham deuses subterrâneos. Em Ésquilo um filho invoca deste modo
grande cuidado em deixar um pouco de leite e alguns doces o pai morto: “Ó tu, que és um deus sob a terra.” — Eurípides
em vasos; considerava-se grande impiedade o fato de alguém diz, falando de Alceste: “Junto a seu túmulo o viandante há de
tocar nessa pequena provisão, destinada às necessidades do parar, e dizer: Esta é agora uma divindade feliz.” — Os
morto. romanos davam aos mortos o nome de deuses manes: “Prestai
Essas velhas crenças persistiram por muito tempo, e aos deuses manes as honras que lhes são devidas — diz Cícero
sua expressão ainda se encontra entre os grandes escritores da — pois são homens que deixaram de viver; reverenciai-os
Grécia: “Derramo sobre a terra do túmulo — diz Ifigênia em como criaturas divinas.”
Eurípides — leite, mel e vinho, pois só assim podemos Os túmulos eram os templos dessas divindades. Assim
contentar os mortos.” — “Filho de Peleu — diz Neoptólemo exibiam eles, em latim e em grego, a inscrição sacramental:
— recebe esta bebida tão grata aos mortos; vem, e bebe este Dis Manibus, theõis ethoníois. — Era lá que o deus
sangue.” — Electra faz libações e diz: “A bebida penetrou na permanecia sepultado: Manesque sepulti — diz Virgílio.
terra; meu pai a recebeu.” — Eis a prece de Orestes a seu pai Diante do túmulo havia um altar para os sacrifícios, como
defunto: “Ó meu pai, se eu viver, receberás ricos banquetes; diante do túmulo dos deuses.
mas, se eu morrer, não terás parte nas mesas fumegantes onde Encontramos o culto dos mortos entre os helenos,
os mortos se alimentam.” — As sátiras de Luciano atestam entre os latinos, entre os sabinos e entre os etruscos;
que esses costumes subsistiam ainda em seu tempo: “Os encontramo-lo também entre os árias da Índia, como
homens imaginam que as almas vêm lá debaixo para saborear mencionam os hinos do Rig-Veda. Os livros das Leis de Manu
os manjares que lhes oferecem, que se regalam com o cheiro falam desse culto como do mais antigo entre os homens. Vê-se
das iguarias, e que bebem o vinho derramado sobre seus por esse livro que a idéia da metempsicose desconheceu essa
túmulos.” — Entre os gregos, diante de cada túmulo havia um velha crença; mesmo antes disso já existia a religião de Brama,
local destinado à imolação da vítima e ao cozimento das e, contudo, tanto sob o culto de Brama como sob a doutrina da
carnes. Os túmulos romanos tinham igualmente sua culina, metempsicose a religião das almas dos ancestrais subsiste
espécie de cozinha especial, unicamente para uso do morto. ainda, viva e indestrutível, e força o redator das Leis de Manu
Plutarco conta que depois da batalha de Platéia, como os a levá-la em conta, e a admitir ainda suas prescrições no livro
guerreiros mortos haviam sido enterrados no lugar do sagrado. Não é esta a menor singularidade desse livro
combate, os plateanos se comprometeram a oferecer-lhes cada estranho: conservar regras relativas a crenças antigas quando
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foi redigido, evidentemente, em época na qual outras crenças Essa religião dos mortos parecia ser a mais antiga
opostas prevaleciam. Isso prova que, se é necessário muito existente entre os homens. Antes de conceber ou adorar Indra
tempo para que as crenças humanas se transformem, é ou Zeus, o homem adorou os mortos; teve medo deles, dirigiu-
necessário mais tempo ainda para que as práticas exteriores e lhes preces. Parece que é essa a origem do sentimento
as leis se modifiquem. Hoje mesmo, depois de tantos séculos e religioso. Foi, talvez, à vista da morte que o homem teve pela
revoluções, os hindus continuam a oferecer dádivas aos primeira vez a idéia do sobrenatural, e quis confiar em coisas
antepassados. Essas idéias e ritos são o que há de mais antigo que ultrapassavam a visão dos olhos. A morte foi o primeiro
na raça indo-européia, assim como o que há de mais mistério; ela colocou o homem no caminho de outros
persistente. mistérios. Elevou seu pensamento do visível para o invisível,
Esse culto era idêntico tanto na Índia quanto na Grécia do passageiro para o eterno, do humano para o divino.
e na Itália. O hindu devia oferecer aos manes a refeição
chamada sraddha: “Que o chefe da casa faça o sraddha com CAPÍTULO III - O FOGO SAGRADO
arroz, leite, raízes, frutos, a fim de atrair sobre si a proteção
dos manes”. — O hindu acreditava que no momento em que A casa do grego ou do romano obrigava um altar;
oferecia esse banquete fúnebre, os manes dos antepassados sobre esse altar devia haver sempre um pouco de cinza e
vinham sentar-se a seu lado, e recebiam os alimentos que lhes carvões acesos. Era obrigação sagrada, para o chefe de cada
eram oferecidos. Acreditava também que esse banquete casa, manter aceso o fogo dia e noite. Infeliz da casa onde se
proporcionava grande alegria aos mortos: “Quando o sraddha é apagasse! Cada noite cobriam-se de cinza os carvões, para
oferecido de acordo com o ritual, os antepassados daquele que impedir que se consumissem por completo; pela manhã, o
oferece o banquete experimentam uma satisfação inalterável.” primeiro cuidado era reavivar o fogo, e alimentá-lo com
Assim os árias do Oriente, em sua origem, pensaram ramos. O fogo não cessava de brilhar diante do altar senão
como os do Ocidente com relação ao mistério do destino quando se extinguia toda uma família; a extinção do fogo e da
depois da morte. Antes de acreditar na metempsicose, que família eram expressões sinônimas entre os antigos.
supunha absoluta distinção entre a alma e o corpo, acreditaram É evidente que esse costume de continuamente manter
na existência vaga e indecisa da criatura humana, invisível, o fogo aceso diante do altar prendia-se a alguma antiga crença.
mas não imaterial, e exigindo dos mortais comida e bebida. As regras e ritos então observados mostram que não se tratava
O hindu, como o grego, olhava para os mortos como de um costume qualquer. Não era permitido alimentar esse
seres divinos, que gozavam de existência bem-aventurada. fogo com qualquer espécie de madeira; a religião distinguia,
Mas havia uma condição para sua felicidade: era necessário entre as árvores, as que podiam ser usadas para esse fim, e
que as ofertas fossem levadas regularmente. Se deixavam de aquelas cujo uso era taxado de impiedade. A religião ordenava
oferecer o sraddha por um morto, sua alma saía de sua morada também que o fogo se mantivesse sempre puro, o que
de paz, e tornava-se errante, atormentando os vivos; de sorte significava, no sentido literal, que nenhum objeto impuro
que os manes só eram considerados deuses em razão das podia ser lançado nele, e, no sentido figurado, que nenhuma
ofertas que lhes eram feitas pelo culto. ação pecaminosa devia ser cometida em sua presença. Havia
Os gregos e romanos tinham exatamente as mesmas um dia do ano, que entre os romanos era o 1.° de março, em
opiniões. Se deixassem de oferecer aos mortos o banquete que cada família devia extinguir o fogo sagrado, e acender
fúnebre, logo estes saíam de seus túmulos, e, como sombras imediatamente outro. Mas para acender esse fogo havia ritos
errantes, ouviam-nos gemer na noite silenciosa. Censuravam que deviam ser observados escrupulosamente. Sobretudo,
os vivos por sua impiedosa negligência; procuravam então devia-se evitar o uso de pedras e metais para consegui-lo. A
castigá-los, mandavam-lhes doenças, ou castigavam-lhes as única maneira permitida consistia em concentrar sobre um
terras com a esterilidade. Enfim, não davam descanso aos ponto qualquer os raios do sol, ou esfregar rapidamente dois
vivos até o dia em que voltassem a oferecer-lhes o banquete pedaços de madeira de determinada espécie para conseguir
fúnebre. O sacrifício, a oferta de alimentos e a libação uma fagulha. Essas diferentes regras provam satisfatoriamente
levavam-nos de volta ao túmulo, e proporcionavam-lhes o que, na opinião dos antigos, não se tratava apenas de produzir
repouso e atributos divinos. O homem assim estava em paz ou conservar um elemento útil e agradável; aqueles homens
com eles. viam algo mais, no fogo que ardia em seus altares.
Se o morto esquecido era criatura malfazeja, o honrado O fogo era algo divino, que era adorado e cultuado.
era um deus tutelar, que amava aqueles que lhe ofereciam Ofertavam-lhe tudo o que julgavam agradável a um deus:
alimentos. Para protegê-los, continuava a tomar parte nos flores, frutos, incenso, vinho. Pediam sua proteção, julgando-o
negócios humanos, desempenhando muitas vezes a sua parte. todo-poderoso. Dirigiam-lhe preces ardentes, para dele obter
Embora morto, sabia ser forte e ativo. Dirigiam-lhe orações, os eternos objetos dos desejos humanos: saúde, riqueza,
pedindo-lhe favores e auxílio. Quando encontravam um felicidade. Uma dessas preces, que nos foi conservada em uma
túmulo, detinham-se e diziam: “Tu, que és um deus sobre a antologia dos hinos órficos, é concebida nestes termos: “Ó
terra, sê-me propício.” fogo, torna-nos sempre prósperos, sempre felizes; ó tu, que és
Pode-se avaliar o poder que os antigos atribuíam aos eterno, belo, sempre jovem, tu que nutres, tu que és rico,
mortos por esta prece que Electra dirige aos manes de seu pai: recebe de boa vontade nossas ofertas, e dá-nos em troca a
“Tem piedade de mim, e de meu irmão Orestes; faze-o voltar; felicidade e a saúde, que é tão bela.” — Via-se assim no fogo
meu pai, ouve minha oração; atende meus desejos ao receber um deus benfazejo, que mantinha a vida do homem; um deus
minhas libações.” — Estes deuses poderosos não rico, que o alimentava com seus dons; um deus forte, que
proporcionam somente bens temporais, porque Electra protegia a casa e a família. Em presença de algum perigo,
acrescenta: “Dá-me um coração mais casto que o de minha procurava-se nele o refúgio. Quando o palácio de Príamo foi
mãe, e mãos mais puras.” — Também o hindu pede aos manes invadido, Hécuba leva o velho rei para perto do fogo: “Tuas
“que em sua família aumente o número dos homens de bem, e armas não poderão defender-te — lhe diz ela — mas este altar
que tenham muitas coisas para dar.” será a nossa proteção.”
Essas almas humanas, divinizadas pela morte, eram as Contemplai Alceste, que vai morrer, dando a vida para
que os gregos chamavam de demônios ou de heróis. Os latinos salvar o esposo. Aproxima-se do fogo, e o invoca com estas
chamavam-nas de lares, manes ou gênios, — “Nossos palavras: “Ó divindade, protetora desta casa, pela última vez
antepassados acreditaram — diz Apuléio — que os manes, inclino-me diante de ti e te dirijo minhas preces, porque vou
quando maus, deviam ser chamados de larvas, e de lares descer para a região dos mortos. Vela sobre meus filhos, que
quando eram benfazejos e propícios.” — Lemos em outro não terão mais mãe; dá a meu filho uma esposa amante, e à
lugar: “Gênio ou lar, trata-se do mesmo ser; assim o creram minha filha um esposo nobre. Faze que eles não morram como
nossos antepassados.” — E em Cícero: “Aqueles que os eu, antes da idade, mas que tenham existência longa, e cheia
gregos chamam demônios nós chamamos lares.” de felicidade.” — Era o fogo que enriquecia a família. Plauto,
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em uma de suas comédias, representa-o medindo seus favores riqueza... Agni, és defensor prudente e pai; a ti devemos a
na proporção do culto que lhe prestam. Os gregos chamavam vida, somos tua família.” — Assim o fogo sagrado, como na
ctésios ao deus da riqueza. O pai o invocava em favor dos Grécia, é um deus tutelar. O homem pede-lhe abundância:
filhos, e lhe pedia “saúde e abundância de bens.” — No “Faze que a terra nos seja sempre liberal.” — Pedem-lhe
infortúnio o homem queixava-se ao fogo, e o repreendia. Na saúde: “Que eu goze por muito tempo da luz, e chegue à
felicidade dava-lhe graças. O soldado que voltava da guerra velhice como o sol poente.” — Pedem-lhe até sabedoria: “Ó
agradecia-lhe por haver escapado dos perigos. Ésquilo nos Agni, tu colocas no bom caminho o homem que se iludia no
apresenta Agamenon voltando de Tróia, feliz, coberto de mau... Se cometemos alguma falta, se andamos longe de ti,
glória; ele não agradece a Júpiter, e não é ao templo que vai perdoa-nos.” — Esse fogo sagrado, como na Grécia, era
levar sua alegria e reconhecimento; o sacrifício de ação de essencialmente puro; era severamente proibido ao brâmane
graças ele o oferece no altar de sua casa. O homem não saía lançar nele algo impuro, ou mesmo aquecer os pés no seu
jamais de casa sem dirigir uma prece ao fogo sagrado; de calor. Como na Grécia, o homem culpado não podia
volta, antes de rever a mulher e abraçar os filhos, devia aproximar-se do fogo, senão depois de purificar-se.
inclinar-se diante do altar, e invocar os manes familiares. Uma grande prova da antiguidade dessas crenças e
Portanto, o deus do fogo era a providência da família. costumes é o fato de encontrá-las simultaneamente entre os
Seu culto era muito simples. A primeira regra era manter homens das margens do Mediterrâneo e entre os povos da
continuamente sobre o altar alguns carvões acesos, porque, se península indiana. É certo que os gregos não tiraram essas
o fogo se extinguia, um deus deixava de existir. Em certas práticas da religião hindu, nem os hindus da dos gregos. Mas
horas do dia alimentavam-no com ervas secas e lenha; então o gregos, itálicos e hindus pertenciam a uma só raça; seus
deus se manifestava em chamas brilhantes. Ofereciam-lhe antepassados, em época remotíssima, viveram juntos na Ásia
sacrifícios, mas a essência de qualquer sacrifício era manter e central, de onde se originaram essas crenças e ritos. A religião
aliviar o fogo sagrado, nutrir e fazer crescer o corpo do deus. É do fogo sagrado, portanto, data da época longínqua e obscura
por isso que, antes de mais nada, ofereciam-lhe ramos; é por em que não havia ainda nem gregos, nem itálicos, nem hindus,
isso que derramavam sobre o altar o vinho quente da Grécia, mas apenas os árias. Quando as diversas tribos se separaram,
óleo, incenso e gordura de animais. O deus recebia essas levaram com elas esse culto, umas para as margens do Ganges,
ofertas, e as devorava; satisfeito e radiante levantava-se sobre outras para as praias do Mediterrâneo. Mais tarde, entre essas
o altar, e iluminava com seus raios a seu adorador. Era esse o tribos separadas, e que não tinham mais relações entre si. umas
momento próprio para invocá-lo; o hino da oração saía do adoraram Brama, outras Zeus, outras Jano; cada grupo
coração do homem. escolheu seus deuses. Todos, porém, conservaram como antigo
O banquete era o ato religioso por excelência, legado a religião primitiva, que haviam concebido e praticado
presidido pelo deus, que havia cozido o pão e preparado os no berço comum de suas raças.
alimentos; dirigiam-lhe também uma prece no princípio e no Se a existência desse culto entre todos os povos indo-
fim da refeição. Antes de comer, depunham sobre o altar as europeus não demonstrasse suficientemente sua remota
primícias dos alimentos; antes de beber, fazia-se a libação do antiguidade, encontraríamos outras provas nos ritos religiosos
vinho. Era a parte do deus. Ninguém duvidava de sua dos gregos e dos romanos. Em todos os sacrifícios, mesmo nos
presença, ou que ele comesse e bebesse; e, de fato, não viam a que se realizavam em honra de Zeus ou de Atenas, a primeira
chama crescer, como se fosse alimentada pelas oferendas? O invocação era sempre dirigida ao fogo. Toda a prece dirigida a
banquete, assim, era dividido entre o homem e deus; era uma um deus, fosse qual fosse, devia começar e terminar por uma
cerimônia santa, pela qual entravam em comunhão com a prece aos manes. Em Olímpia, o primeiro sacrifício oferecido
divindade. Velhas crenças, que com o tempo desapareceram pelos povos reunidos da Grécia era para o fogo, e o segundo
dos espíritos, mas que deixaram por muito tempo ainda usos, para Zeus. Do mesmo modo em Roma, a primeira adoração
ritos, expressões, que mesmo o incrédulo não podia desprezar. era sempre para Vesta, que não era nada mais que a divindade
Horácio, Ovídio, Juvenal ainda tomavam suas refeições diante do fogo. Ovídio, falando dessa divindade, diz que ela ocupa o
do altar, e faziam a libação e a prece. primeiro lugar entre as práticas religiosas dos homens. É assim
O culto do fogo sagrado não pertencia apenas aos que lemos nos livros do Rig-Veda: “Antes de todos os outros
povos da Grécia e da Itália. Encontramo-lo também no deuses, é necessário invocar a Agni. Pronunciaremos seu nome
Oriente. As leis de Manu, na redação que chegou até nós, venerável antes de todos os outros imortais. Ó Agni, seja qual
mostram-nos a religião de Brama completamente estabelecida, for o deus que honramos com nosso sacrifício, nosso
e entrando já em declínio; mas elas guardaram vestígios e holocausto é sempre dirigido a ti.” — É, portanto, certo que,
restos de uma religião mais antiga, a do fogo, que o culto de em Roma, nos tempos de Ovídio, e na Índia, nos tempos dos
Brama havia relegado a segundo plano, sem conseguir destruí- brâmanes, o fogo sagrado tinha ainda a primazia entre os
lo. O brâmane tem o seu lar, que deve manter aceso dia e deuses, não porque Júpiter e Brama não houvessem
noite; cada dia e cada noite ele o alimenta com lenha; mas, conquistado maior importância na religião dos homens, mas
como entre os gregos, só o pode fazer com determinadas porque lembravam-se de que o fogo sagrado era muito anterior
madeiras, indicadas pela religião. Como os gregos e os itálicos a todos esses deuses. Depois de muitos séculos, tomara o
oferecem-lhe vinho, o hindu derrama sobre ele um licor primeiro lugar no culto, e os deuses mais novos e mais
fermentado, chamado soma. A refeição também é ato importantes não o puderam destronar.
religioso, cujos ritos são escrupulosamente descritos pelas leis Os símbolos desta religião modificaram-se de acordo
de Manu. Como na Grécia, dirigem-lhe preces, oferecem-lhe com os tempos. Quando as populações da Grécia e da Itália
banquetes, arroz, manteiga e mel. Manu declara: “O brâmane tomaram o hábito de representar os deuses como pessoas, dando
não deve comer arroz da nova colheita, senão depois de a cada um nomes próprios e forma humana, o antigo culto do
oferecer as primícias ao fogo. Porque o fogo sagrado é ávido fogo submeteu-se à lei comum que a inteligência humana, nesse
de cereais, e quando não é honrado devora a existência do período, impunha a toda a religião. O altar do fogo sagrado
brâmane negligente.” — Os hindus, como os gregos e os tomou forma; chamaram-no de estía, Vesta; o nome era idêntico
romanos, imaginavam os deuses ávidos, não só de honras e de em latim e em grego, e não era senão a palavra que na língua
respeito, como também de alimentos e bebidas. O homem comum designava o altar. Por um processo muito freqüente, do
julgava-se obrigado a saciar-lhes a fome e a sede, se desejava nome comum fez-se o nome próprio. Aos poucos surgiu uma
evitar-lhes a cólera. lenda. Representaram essa divindade sob a aparência de mulher,
Entre os hindus essa divindade do fogo comumente porque a palavra que designava o altar era do gênero feminino.
chama-se Agni. O Rig-Veda contém grande número de hinos Chegou-se mesmo a representar essa deusa por meio de estátuas.
que lhe são dirigidos. Em um deles se diz: “Ó Agni, tu és a Mas jamais conseguiram destruir as origens da crença primitiva,
vida, tu és o protetor do homem... Em recompensa de nossos segundo a qual essa divindade era simplesmente o fogo do altar;
louvores, dá ao pai de família, que te implora, glória e
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e o próprio Ovídio viu-se forçado a admitir que Vesta não era pelo nome de lar de Assaracus, como se visse nesse fogo a
nada mais que “uma chama viva.” alma de seu antepassado.
Se compararmos esse culto do fogo sagrado com o O gramático Sérvio, muito instruído a respeito das
culto dos mortos, do qual falamos há pouco, descobriremos antiguidades greco-romanas — em seu tempo estudavam-nas
estreita ligação entre ambos. muito mais que nos tempos de Cícero — diz que era costume
Notemos, antes de mais nada, que o fogo sagrado não muito antigo enterrar os mortos nas casas, e acrescenta: “De
é, no pensamento dos homens, o mesmo fogo da natureza acordo com este uso é que se honram nas casas os lares e os
material. O que se vê nele não é o elemento puramente físico, penates.” — Esta frase estabeleceu, nitidamente, antiga relação
que aquece e queima, que transforma os corpos, funde os entre o culto dos mortos e o culto do fogo. Pode-se, pois,
metais e se torna poderoso instrumento da indústria humana. O pensar que o fogo doméstico, na origem, nada mais foi que o
fogo sagrado é de natureza completamente diversa. É um fogo símbolo do culto dos mortos; que sob a pedra da lareira
puro, que não pode ser produzido senão com o auxílio de repousava um antepassado; que o fogo ali se acendia para
determinados ritos, e que não se mantém senão com honrá-lo; e que esse fogo parecia mantê-lo vivo, ou
determinadas qualidades de madeira. É um fogo casto; a união representava sua alma imortal.
dos sexos deve sei afastada para longe de sua presença. Não se Trata-se apenas de simples conjectura, pois faltam-nos
pede a ele apenas riqueza e saúde, mas também pureza de provas. Mas o certo é que as gerações mais antigas, de cuja
coração, temperança e sabedoria. — “Torna-nos ricos e raça se originaram gregos e romanos, renderam culto aos
prósperos — diz um hino órfico — torna-nos também sábios e mortos e ao fogo sagrado, religião antiga, que não tirava seus
castos.” — O fogo sagrado é, portanto, uma espécie de ser deuses da natureza física, mas do próprio homem, tendo por
moral. É verdade que brilha, aquece e coze os alimentos objeto a adoração do ser invisível que há em nós, a força moral
sagrados, mas ao mesmo tempo ele tem um pensamento, uma e pensadora que anima e governa nosso corpo.
consciência; tem consciência dos deveres, e vela para que Essa religião não foi sempre igualmente poderosa, nem
sejam cumpridos. Dir-se-ia um homem, pois possui a dupla sempre teve igual influência sobre a alma; aos poucos se foi
natureza humana: fisicamente, brilha, move-se, vive, produz a enfraquecendo, mas não desapareceu por completo.
abundância, prepara as refeições, alimenta o corpo; Contemporânea das primeiras idades da raça ariana, enraizou-
moralmente, tem sentimentos e afetos, dá ao homem pureza, se tão profundamente nas entranhas dessa raça, que a brilhante
ordena o bem e o mal, alimenta a alma. Pode-se dizer que o religião do Olimpo grego não foi bastante para arrancá-la,
fogo mantém a vida humana na dupla série de suas sendo para isso necessário o advento do Cristianismo.
manifestações. É ao mesmo tempo fonte das riquezas, da
saúde e da virtude. É, na verdade, o deus da natureza humana. CAPÍTULO IV - A RELIGIÃO DOMÉSTICA
Mais tarde, quando esse culto foi relegado a segundo plano,
por Brama ou por Zeus, o fogo sagrado manteve-se como o Não é necessário representar esta antiga religião como
atributo divino mais acessível ao homem; era o intermediário as que foram fundadas mais tarde, com a humanidade mais
da natureza física junto aos deuses; era encarregado de levar evoluída. Há muitos séculos que o gênero humano não admite
até os deuses a prece e oferenda do homem, e de trazer ao mais uma doutrina religiosa senão com duas condições: uma,
homem os favores divinos. Mais tarde ainda, quando desse que tenha um único deus; outra, que se dirija a todos os
mito do fogo sagrado se fez a grande Vesta. Vesta foi a deusa homens, e seja acessível a todos, sem afastar sistematicamente
virgem; não representava no mundo nem a fecundidade, nem o nenhuma classe ou raça. Mas a religião dos primeiros tempos
poder; era a ordem, mas não a ordem rigorosa, abstrata, não preenchia nenhuma dessas condições. Não somente não
matemática, a lei imperiosa e fatal, que logo se descobre entre oferecia à adoração dos homens um único deus, mas ainda
os fenômenos da natureza física. Vesta era a ordem moral. seus deuses não aceitavam a adoração de todos os homens.
Imaginaram-na como uma espécie de alma universal, que Não se apresentavam como sendo os deuses do gênero
regulava os diversos movimentos dos mundos, como a alma humano. Não se assemelhavam nem mesmo a Brama, que era,
humana rege nossos órgãos. pelo menos, o deus de uma grande casta, nem a Zeus Pan-
É assim que o pensamento das gerações primitivas se heleno, que era deus de toda uma nação. Nessa religião
deixa entrever. O princípio desse culto foge do círculo da primitiva cada deus só podia ser adorado por uma família. A
natureza física, e se encontra nesse pequeno mundo misterioso religião era puramente doméstica.
que é o homem. É necessário esclarecer este ponto importante, porque
Isso nos leva de volta ao culto dos mortos. Ambos têm sem isso não se poderia compreender a relação tão íntima
a mesma antiguidade. Estavam tão intimamente unidos, que a estabelecida entre essas velhas crenças e a constituição da
crença dos antigos fez disso uma religião. Fogo, demônios, família grega e romana.
heróis, deuses lares, tudo era uma só coisa. Por dois trechos de O culto dos mortos de nenhum modo se assemelha ao
Plauto e de Columela vê-se que na linguagem comum dizia-se que os cristãos dedicam aos santos. Uma das primeiras regras
indiferentemente fogo ou lar doméstico; e vemos ainda em desse culto era que não podia ser observado senão pelos
Cícero que não se distinguia o fogo dos penates, nem os familiares de cada modo. Os funerais não podiam ser
penates dos deuses lares. Lemos em Sérvio: “Por fogos os religiosamente observados senão pelo parente mais próximo.
antigos entendiam os deuses lares; assim Virgílio fala Quanto ao banquete fúnebre, que depois se celebrava em
indiferentemente em fogo e em penates, ou vice-versa.” — Em épocas determinadas, apenas a família tinha o direito de
uma passagem famosa da Eneida, Heitor diz a Enéias que vai assisti-lo, e os estranhos eram severamente excluídos.
mandar-lhe os penates de Tróia, e lhe manda o fogo sagrado. Acreditava-se que o morto não aceitava a oferta senão da mão
Em outra passagem, Enéias, invocando esses mesmos deuses, dos parentes, não queria o culto senão de seus descendentes. A
indiferentemente chama-os de penates, lares e Vesta. presença de um homem que não pertencesse à família
Vimos, aliás, que esses que os antigos chamavam de perturbava o repouso dos manes. A lei, portanto, proibia aos
lares, ou heróis, não eram outros senão as almas dos mortos, às estranhos aproximar-se de um túmulo. Tocar com o pé, mesmo
quais os homens atribuíam poder sobre-humano e divino. A por descuido, uma sepultura, era ato de impiedade, pelo qual
lembrança de um desses mortos sagrados estava sempre ligada se devia aplacar o morto e purificar-se. A palavra pela qual os
ao fogo. Adorando a um, não se podia esquecer a outro. antigos designavam o culto dos mortos é significativa: os
Estavam unidos no respeito dos homens e em suas preces. Os gregos diziam pratiázein, os latinos parentare, porque as preces
descendentes, quando falavam do fogo sagrado, lembravam e oferendas não eram endereçadas senão aos antepassados de
constantemente o nome do antepassado: “Deixa este lugar — cada um. O culto dos mortos era, verdadeiramente, o culto dos
diz Orestes a Helena — e dirige-te ao antigo fogo de Pélops, antepassados. Luciano, sempre zombando da opinião do vulgo,
para ouvir minhas palavras.” — Do mesmo modo Enéias, no-lo explica claramente quando diz: “O morto que não deixou
falando do fogo que transporta através dos mares, designa-o filhos não recebe sacrifícios, e fica condenado à fome eterna.
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Na Índia, como na Grécia, a oferta não podia ser feita fogo da família vizinha, que era outra providência. Cada lar
ao morto senão pelos seus descendentes. A lei dos hindus, protegia apenas os seus.
como a ateniense, proibia receber estranhos, embora amigos, Toda essa religião limitava-se ao círculo de uma casa.
no banquete fúnebre. Era de tal modo necessário que o O culto não era público. Pelo contrário, todas as cerimônias,
banquete fosse oferecido pelos descendentes do morto, e não eram celebradas apenas pelos familiares. O fogo sagrado
por outras pessoas, que se supunha até que os manes, em sua nunca era colocado fora da casa, nem mesmo perto da porta
morada, faziam freqüentemente este voto: “Que nasçam externa, onde um estranho poderia vê-lo. Os gregos
sucessivamente de nossa estirpe filhos que nos ofereçam, na colocavam-no sempre em um recinto fechado, para protegê-lo
continuidade dos tempos, arroz cozido em leite, mel e do contacto e olhar dos profanos. Os romanos escondiam-no
manteiga purificada!” no meio da casa. Todos esses deuses, fogo sagrado, lares,
Por essa razão na Grécia e em Roma, como na Índia, o manes, eram chamados de deuses escondidos, ou deuses do
filho tinha o dever de fazer libações e sacrifícios aos manes do interior. Para todos os atos dessa religião exigia-se segredo —
pai e de todos os ancestrais. Faltar a esse dever era a mais sacrifícia occulta — diz Cícero; se uma cerimônia fosse
grave impiedade que se podia cometer, pois a interrupção assistida por um estranho, era considerada perturbada,
desse culto provocava uma série de mortes, e destruía a manchada por um único olhar.
felicidade. Tal negligência era considerada verdadeiro Para essa religião doméstica não havia nem regras
parricídio, multiplicado tantas vezes quantos antepassados uniformes, nem ritual comum. Cada família tinha a mais
possuía o filho negligente. completa independência. Nenhum poder exterior tinha direito
Se, pelo contrário, os sacrifícios eram sempre de dar regras para esse culto ou crença. Não havia outro
observados de acordo com os ritos, se os alimentos eram sacerdote além do pai; como sacerdote, ele não conhecia
levados ao túmulo nos dias marcados, então o antepassado nenhuma hierarquia. O pontífice de Roma, ou o arconte de
tornava-se deus protetor. Hostil a todos os que não descendiam Atenas, podia certificar-se de que o pai de família cumprisse
dele, expulsava-os de seu túmulo, castigando com doenças os todos esses ritos religiosos, mas não tinha o direito de obrigá-
que dele se aproximavam; para os seus, porém, era bom e lo a nenhuma modificação. Suo quisque ritu sacrificium faciat
compassivo. — era a regra absoluta. Cada família tinha suas cerimônias,
Havia perpétua troca de favores entre os vivos e os que lhe eram próprias, suas festas particulares, suas fórmulas
mortos de cada família. O ancestral recebia dos descendentes a de oração e seus hinos. O pai, único intérprete e pontífice
série de banquetes fúnebres, isto é, a única alegria que podia dessa religião, era o único que tinha o poder de ensiná-la, e
experimentar em sua segunda vida. O descendente recebia do não o podia fazer senão a seu filho. Os ritos, as palavras da
antepassado a ajuda e a força de que necessitava neste mundo. oração, os cantos, que faziam parte essencial dessa religião
O vivo não podia abandonar o morto, nem o morto ao vivo. doméstica, eram patrimônio ou propriedade sagrada, que a
Por esse motivo estabelecia-se poderosa união entre todas as família não participava a ninguém, e que era até proibido
gerações de uma mesma família, constituindo assim um corpo revelar a estranhos. Assim era na Índia: “Sou forte contra
inseparável. meus inimigos — diz o brâmane — com os cantos que
Cada família tinha seu túmulo, onde seus mortos pertencem à minha família, e que meu pai me ensinou.”
vinham descansar um após outro, sempre juntos. Todos os que Assim, a religião não residia nos templos, mas nas
descendiam do mesmo sangue aí deviam ser enterrados, e casas; cada um tinha seus deuses; cada deus protegia apenas a
nenhum homem de outra família podia ser nele admitido. Nele uma família, e era deus apenas de uma casa. Não se pode
celebravam-se as cerimônias e aniversários. Cada família supor razoavelmente que uma religião com tais características
acreditava possuir antepassados sagrados. Nos tempos mais fosse revelada aos homens pela imaginação poderosa de
remotos, o túmulo ficava dentro da propriedade da família, no alguém, ou que fosse ensinada por uma casta de sacerdotes.
centro da casa, não longe da porta “a fim de que — diz um Ela nasceu espontaneamente no espírito humano; seu berço foi
antigo — o filho, entrando ou saindo de sua morada, encontrasse a família; cada família fez seus próprios deuses.
todas as vezes os pais, dirigindo-lhe vez por vez uma Esta religião não podia propagar-se senão pela
invocação.” Assim o antepassado mantinha-se no meio dos seus; geração. O pai, ao dar vida ao filho, dava-lhe ao mesmo tempo
invisível, mas sempre presente, continuava a fazer parte da sua fé, seu culto, o direito de manter o fogo sagrado, de
família, e a ser o pai. Imortal, feliz, divino, interessava-se por oferecer o banquete fúnebre, de pronunciar fórmulas de
aquilo que deixara de mortal sobre a terra; conhecia-lhes as orações. A geração estabelecia misterioso vínculo entre a
necessidades e amparava-os na fraqueza. E aquele que ainda criança que nascia para a vida e todos os deuses da família.
vivia, que trabalhava que, segundo expressão antiga, não se Tais deuses eram sua própria família, theòi enghenéis; seu
havia desempenhado da existência, esse tinha junto a si guias e próprio sangue theòi synaimoi. A criança, portanto, ao nascer,
apoio, que eram os pais. No meio das dificuldades, invocava sua recebia o direito de adorá-los, e de oferecer-lhes sacrifícios,
antiga sabedoria; no sofrimento pedia-lhes consolo; no perigo, assim como, mais tarde, quando a morte, por sua vez, o
apoio; depois de uma falta, perdão. divinizasse, ele devia ser contado entre os deuses da família.
Na verdade, hoje em dia muito dificilmente poderemos Mas é necessário notar esta particularidade: a religião
compreender que o homem possa adorar ao pai ou a um doméstica não se propagava senão de varão para varão. Isso,
antepassado. Fazer do homem um deus, parece-nos contrário à sem dúvida, prendia-se à idéia que os homens faziam da
religião. É-nos quase tão difícil compreender as antigas geração. A crença das idades primitivas, tal como a
crenças desses homens, como teria sido a eles imaginar as encontramos nos Vedas, e nos vestígios que ficaram em todo o
nossas. Mas reflitamos que os antigos não tinham idéia da direito romano e grego, era que o poder reprodutor residia
criação; para eles o mistério da geração era o que para nós unicamente no pai. Somente o pai possuía o princípio
pode ser o mistério da criação. O que gerava parecia-lhes uma misterioso do ser, e transmitia a centelha da vida. Dessa antiga
criatura divina, e por isso adoravam os antepassados. Era opinião resultou que o culto doméstico passou sempre de
necessário que esse sentimento fosse muito natural e poderoso, homem para homem; a mulher, dele não participava senão por
porque aparecia como princípio de uma religião na origem de intermédio do pai ou do marido; depois que estes morriam, a
quase todas as sociedades humanas; encontramo-lo entre os mulher não tomava a mesma parte que o homem no culto e
chineses, como entre os antigos getas e citas; entre os povos da cerimônias do banquete fúnebre. Disso resultaram ainda outras
África, como entre os do Novo Mundo. conseqüências muito graves no direito privado e na
O fogo sagrado, que tão intimamente estava ligado ao constituição da família; delas trataremos mais adiante.
culto dos mortos, tinha também, como caráter essencial,
pertencer apenas a uma família, representava os antepassados;
era a providência da família; não tinha nada em comum com o
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não era realizada em templo; era realizada em casa, presidida se às variações das crenças e do modo de falar, mas o
pelo deus doméstico. Na verdade, quando a religião dos deuses estribilho sacramental continuou sempre sem alteração
do céu se tornou preponderante, não foi mais possível deixar alguma: era a palavra Talássia, vocábulo que os romanos do
de invocá-los também nas preces do casamento; tomou-se tempo de Horácio compreendiam tanto quanto os gregos
então o costume de ir antes aos templos, para oferecer compreendiam a palavra hyménaie, que era, provavelmente, a
sacrifícios a tais deuses, sacrifícios esses que eram conhecidos relíquia sagrada e inviolável de antiga fórmula.
como prelúdios do casamento. Mas a parte principal e O cortejo pára diante da casa do esposo, onde
essencial da cerimônia sempre devia realizar-se diante do lar apresentam à jovem fogo e água. O fogo é o emblema da
doméstico. divindade doméstica; a água é a água lustral, que serve para a
Entre os gregos, a cerimônia do casamento compunha- família em todos os atos religiosos. Para que a jovem entre na
se, por assim dizer, de três atos. O primeiro realizava-se diante casa é necessário, como na Grécia, simular um rapto. O esposo
do lar paterno, enghyesis, o terceiro no lar do marido, télos, e o deve erguê-la nos braços, e carregá-la, tomando cuidado para
segundo era a passagem de um para outro, pompé. que não toque a soleira da porta com os pés.
1.° Na casa paterna, em presença do pretendente, o pai, 3.° A esposa é conduzida diante do fogo, onde estão os
de ordinário rodeado pela família, oferece um sacrifício. penates, onde todos os deuses domésticos e as imagens dos
Terminado este, declara, enquanto pronuncia uma fórmula antepassados agrupam-se ao redor do fogo sagrado. Os dois
sacramental, que dá a filha ao homem que a pediu. Essa esposos, como na Grécia, oferecem um sacrifício, fazem
declaração é absolutamente indispensável para o casamento, libações, pronunciam algumas preces, e comem juntos um
porque a jovem não poderia ir adorar o lar do esposo, se seu manjar de flor de farinha (panis farreus).
pai não a houvesse antes desligado do lar paterno. Para A consumpção desse manjar em meio à récita de
ingressar na nova religião, deve estar livre de todos os laços ou preces, na presença e sob os olhos das divindades da família, é
vínculos da religião primitiva. o que constitui a união santa do esposo e da esposa. Desde
2.° A jovem é levada para a casa do marido. Às vezes, esse instante ambos estão unidos no mesmo culto. A mulher
é o próprio marido que a conduz. Em algumas cidades o tem os mesmos deuses, os mesmos ritos, as mesmas orações,
encargo de levar a jovem cabia a um daqueles homens que as mesmas festas que o marido. Daí essa velha definição de
entre os gregos estavam revestidos de caráter sacerdotal, e que casamento, que os jurisconsultos nos conservaram: Nuptiae
chamavam de arautos. A jovem, comumente, é colocada sobre sunt divini juris et humani communicatio. — E esta outra:
um carro, o rosto coberto com um véu, e à cabeça leva uma Uxor socia humanae rei atque divinae. — É que a mulher
coroa. O uso da coroa, como veremos muitas vezes, era um começou a participar da religião do marido, mulher a quem os
costume observado em todas as cerimônias do culto. Os próprios deuses, como diz Platão, introduziram na nova casa.
vestidos são brancos. O branco era a cor dos vestidos em todos A mulher assim casada continua a cultuar os mortos;
os atos religiosos. Precedem-na carregando archotes: é o mas não é mais a seus antepassados que oferece o banquete
archote nupcial. Em todo o percurso cantam a seu redor um fúnebre; não tem mais esse direito. O casamento desligou-a por
hino religioso, cujo estribilho é o seguinte: õ hymén, õ completo da família do pai, quebrando todos os liames
hyménaie. Esse hino era conhecido por himeneu, e a religiosos que a ligavam a ela. É aos antepassados do marido
importância desse canto sagrado era tão grande, que dava que oferece sacrifícios; pertence agora à sua família, e eles se
nome a toda cerimônia. tornaram seus antepassados. O casamento proporcionou-lhe um
A jovem não entra por si mesma em sua nova morada. segundo nascimento. De ora em diante ela é a filha do marido,
É necessário que o marido a carregue, que simule um rapto, filiae loco, dizem os jurisconsultos. Não se pode pertencer nem a
que grite um pouco, e que as mulheres que a acompanham duas famílias, nem a duas religiões domésticas; a mulher passa,
finjam defendê-la. Por que esse rito? Seria um símbolo do única e exclusivamente, a fazer parte da família e religião do
pudor feminino? Isso é pouco provável; ainda não chegou o marido. Veremos as conseqüências dessa regra no direito de
momento do pudor, porque o que se vai realizar por primeiro sucessão.
nessa casa é uma cerimônia religiosa. Será que esse rapto A instituição do casamento sagrado também deve ser
simulado não quer antes significar que a mulher que vai tão antiga na raça indo-européia quanto a religião doméstica,
oferecer sacrifícios no novo lar não tem por si mesma nenhum porque uma não existe sem a outra. Essa religião ensina ao
direito, que ela não o adota por sua própria vontade, e que é homem que a união conjugal é algo mais que uma relação de
necessário que o dono da nova casa e seu respectivo deus a sexos e uma afeição passageira, unindo os cônjuges pelo laço
introduza à força? Seja o que for, depois de uma luta fictícia, o poderoso do mesmo culto e das mesmas crenças. Por sua vez,
esposo ergue-a nos braços e a introduz na casa, tendo grande a cerimônia das núpcias era tão solene, e produzia efeitos tão
cuidado para que seus pés não toquem na soleira da porta. graves, que não nos devemos surpreender se aqueles homens a
O que precede não é senão preparação e prelúdio da julgavam permitida e possível com uma só mulher em cada
cerimônia. O ato sagrado vai ter início no interior da casa. casa. Tal religião não podia admitir a poligamia.
3.° À frente do fogo sagrado, a esposa é colocada em Pensa-se também que essa união era indissolúvel, e
presença da divindade doméstica. É aspergida com água que o divórcio era quase impossível. O direito romano
lustral, e toca o fogo sagrado. Dizem-se orações. Depois os facilmente permitia dissolver o casamento por coemptio ou por
esposos compartilham um bolo, um pão e algumas frutas. usus; mas a dissolução do casamento religioso era muito
Essa espécie de refeição ligeira, que começa e termina difícil. Para que houvesse ruptura fazia-se necessária nova
com uma libação e uma prece, essa comunhão de alimentos cerimônia religiosa, porque somente a religião podia desunir o
diante do fogo sagrado, põe os dois esposos em comunhão que havia unido. O efeito da confarreatio não podia ser
religiosa, como também em comunhão com os deuses destruído senão pela difarreatio. Os dois esposos que
domésticos. desejavam o divórcio apresentavam-se pela última vez diante
O casamento romano assemelhava-se muito ao do fogo sagrado comum, na presença de um sacerdote e de
casamento grego, e como ele, constava de três atos: traditio, testemunhas. Como no dia do casamento, oferecia-se aos
deductio in domum, confarreatio. esposos um bolo de flor de farinha. Mas, provavelmente, em
1.° A jovem deixa o lar paterno. Como não está ligada lugar de comê-lo, eles o rejeitavam. Depois, em lugar de
a esse lar por direito próprio, mas apenas pela mediação do pai preces, pronunciavam fórmulas “de caráter estranho, severo,
de família, somente a autoridade do pai pode livrá-la desse vingativo, terrível,” uma espécie de maldição, pela qual a
laço. A tradição, é, portanto, formalidade indispensável. mulher renunciava ao culto e aos deuses do marido. Desde
2.° A jovem é conduzida à casa do esposo. Como na esse momento o laço religioso estava rompido. Com o término
Grécia, ela é velada, usa coroa, e um archote nupcial precede o da comunhão de culto, toda outra comunhão cessava por
cortejo. Canta-se a seu redor um hino religioso. As palavras direito, e o casamento ficava dissolvido.
desse hino, talvez com o tempo tenham mudado, acomodando-
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CAPÍTULO III - CONTINUIDADE DA FAMÍLIA. Dionísio de Halicarnasso, que consultou os velhos anais de
PROIBIÇÃO DO CELIBATO. DIVÓRCIO EM CASO Roma, disse existir uma lei antiga que obrigava os jovens a
DE ESTERILIDADE. DESIGUALDADE ENTRE FILHO casar. O tratado das leis de Cícero, que reproduz quase
E FILHA sempre, sob forma filosófica, as antigas leis de Roma, contém
uma que proíbe o celibato. Em Esparta, a legislação de
As crenças relativas aos mortos, e o culto que lhes era Licurgo castigava com pena severa o homem que não se
devido constituíram a família antiga, e lhe deram a maior parte casasse. Sabe-se, por muitas anedotas, que quando o celibato
de suas regras. deixou de ser proibido pelas leis, continuou a sê-lo pelos
Vimos acima que o homem, depois da morte, era costumes. Parece, enfim, por uma passagem de Pólux, que em
considerado pessoa feliz e divina, com a condição, porém, de muitas cidades gregas a lei punia o celibato como crime. Isso
que os vivos lhe oferecessem continuamente banquetes era conforme às crenças: o homem não pertencia a si próprio,
públicos. Se essas ofertas cessassem, o morto decairia para mas à família. Era o membro de uma série, que não devia
uma esfera inferior, tornando-se demônio desgraçado e interromper. Não nascera por acaso; deram-lhe a vida, para
malfazejo. Porque, quando as antigas gerações começaram a que continuasse a observar um culto; não devia deixar a vida
imaginar a vida futura, não pensaram em recompensas e sem estar seguro de que esse culto seria continuado depois de
castigos; acreditaram que a felicidade do morto não dependia sua morte.
da conduta que havia tido em vida, mas da que seus Mas não bastava gerar filhos. O filho que devia
descendentes tinham a seu respeito. Por isso cada pai esperava perpetuar a religião doméstica devia ser fruto de casamento
da sua posteridade a série de banquetes fúnebres que devia religioso. O bastardo, filho natural, que os gregos chamavam
assegurar a seus manes repouso e felicidade. nóthos, e os latinos spurius, não podia desempenhar o papel
Essa opinião era o princípio fundamental do direito que a religião confiava ao filho. Com efeito, os laços
doméstico entre os antigos, derivando daí, em primeiro lugar, a sangüíneos apenas não constituíam a família; eram necessários
regra de que cada família devia perpetuar-se para sempre. Os ainda os laços de culto. Ora, o filho nascido de mulher que não
mortos tinham necessidade de que sua descendência não se se havia unido ao esposo pela cerimônia do casamento, não
extinguisse. No túmulo, onde viviam, não tinham outra podia tomar parte no culto. Não tinha direito de oferecer o
preocupação. Seu único pensamento, como seu único banquete fúnebre, e a família não se perpetuava por ele.
interesse, era ter sempre um varão de seu sangue para levar-lhe Veremos mais adiante que, pela mesma razão, não tinha
ofertas ao túmulo. Também os hindus acreditavam que os direito à herança.
mortos repetiam continuamente: “Que nasçam sempre em O casamento, portanto, era obrigatório. Não tinha por
nossa estirpe filhos que nos tragam arroz, leite e mel.” — finalidade o prazer; seu objetivo principal não era a união de
Dizia ainda: “A extinção de uma família causa a ruína da duas criaturas que se convinham, e que desejavam unir-se para
religião da mesma; os antepassados, privados das ofertas, a felicidade ou sofrimentos da vida. O efeito do casamento,
precipitam-se na morada dos infelizes.” aos olhos da religião e das leis, era, unindo dois seres no
Os homens da Itália e da Grécia pensaram assim por mesmo culto doméstico, dar origem a um terceiro, apto a
muito tempo. Se não nos deixaram em seus escritos uma perpetuar esse culto. Isso pode ser claramente constatado pela
expressão de suas crenças tão nítida como a que encontramos fórmula sacramental pronunciada no ato do casamento: Ducere
nos velhos livros do Oriente, pelo menos suas leis estão ainda uxorem liberum quaerendorum causa — diziam os romanos;
lá, para atestar suas antigas opiniões. Em Atenas, a lei Páidon ep' arótoi gnesíon, diziam os gregos.
encarregava o primeiro magistrado da cidade de velar para que Como o casamento não era contratado senão para
nenhuma família viesse a se extinguir. Da mesma forma, a lei perpetuar a família, parece justo que podia ser anulado se a
romana cuidava da continuidade do culto doméstico. Lê-se em mulher fosse estéril. Nesses casos, o divórcio sempre
um discurso de orador ateniense: “Não há homem que, constituiu direito entre os antigos; é até possível que tenha sido
sabendo que deve morrer, cuide tão pouco de si mesmo, a uma obrigação. Na Índia, a religião prescrevia que “a mulher
ponto de deixar a família sem descendentes, porque então não estéril fosse substituída depois de oito anos.” — Nenhum texto
haveria ninguém para prestar-lhe o culto devido aos mortos.” formal prova que esse dever fosse idêntico tanto na Grécia
— Cada um, portanto, tinha grande interesse em deixar um quanto em Roma. Contudo, Heródoto cita dois reis de Esparta
filho, convencido de que disso dependia a felicidade de sua que foram constrangidos a repudiar as mulheres, porque eram
vida futura. Era até um dever para com os antepassados, estéreis. Quanto a Roma, é bastante conhecida a história de
porque sua felicidade durava somente enquanto existisse a Carvílio Ruga, cujo divórcio é o primeiro mencionado pelos
família. Também as leis de Manu assim denominavam o filho Anais de Roma. “Carvílio Ruga — diz Aulo Gélio — homem
mais velho: “aquele que é gerado para o cumprimento do de grande família, separou-se da mulher mediante divórcio,
dever.” Tocamos aqui em um dos caracteres mais notáveis da porque não podia ter filhos dela. Amava-a ternamente, e só
família antiga. A religião, que a formou, exige imperiosamente podia louvar-lhe a conduta. Mas sacrificou seu amor à religião
sua continuação. Uma família que se extingue é um culto que do juramento, porque havia jurado — na fórmula do
morre. É necessário imaginar essas famílias na época em que casamento — que a tomava por esposa a fim de ter filhos.”
as crenças ainda não haviam sido alteradas. Cada uma delas A religião dizia que a família não podia extinguir-se;
possui religião e deuses próprios, precioso depósito sobre o toda afeição e direito natural devia ceder diante dessa regra
qual deve velar. A maior desgraça que sua piedade tem a temer absoluta. Se o casamento era estéril por causa do marido, nem
é a extinção da estirpe, porque então sua religião desapareceria assim a família podia deixar de continuar. Nesse caso, um
da terra; seu lar seria extinto, toda a série dos mortos esquecida irmão ou parente do marido devia substituí-lo, e a mulher era
e abandonada à eterna miséria. O grande interesse da vida impedida de se divorciar. A criança nascida dessa união era
humana é continuar a descendência para continuar o culto. considerada filha do marido, e continuava seu culto. Tais eram
Em virtudes dessas opiniões, o celibato devia ser ao as regras entre os antigos hindus; tornamos a encontrá-las nas
mesmo tempo impiedade grave e desgraça: impiedade, porque leis de Atenas e de Esparta. Tal era a força imperiosa da
o celibatário punha em perigo a felicidade dos manes de sua religião! Tal a importância do dever religioso, que passava à
família; desgraça, porque ele próprio não devia receber frente de todos os outros! Com muito mais razão as legislações
nenhum culto após a morte, desconheceria assim “o que alegra antigas prescreviam o casamento da viúva, quando não tivesse
os manes”. Era, ao mesmo tempo, para ele e seus filhos com o parente mais próximo do marido. O filho desse
antepassados, uma espécie de condenação. matrimônio era considerado filho do marido defunto.
Pode-se pensar muito bem que, na falta de leis, essas O nascimento de uma menina não satisfazia o objetivo
crenças religiosas por muito tempo teriam bastado para do casamento. Com efeito, a filha não podia continuar o culto,
impedir o celibato. Mas parece que, desde que houve leis, elas porque, no dia em que se casasse renunciaria à família e ao
estabeleceram que o celibato era coisa má e digna de castigo. culto do pai, e passava a pertencer à família e religião do
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marido. A família, como o culto, não continuava senão pelos Parece, contudo, que esse ponto não era admitido em direito
varões, fato capital, cujas conseqüências veremos adiante. nos tempos de Cícero, porque em uma de suas arengas o
Portanto, o filho é que era esperado, é que era orador se exprime assim: “Qual é o direito que rege a adoção?
necessário; era ele que os antepassados, a família e o lar Não é necessário que o adotante esteja em idade de não ter
reclamavam. “Por ele — diziam as velhas leis dos hindus — o mais filhos, e que antes de adotar tenha procurado tê-los?
pai paga suas dívidas para com os manes dos antepassados, e Adotar é pedir à religião e à lei o que não se pôde conseguir
assegura a si próprio a imortalidade.” — Esse filho não era com a natureza.” — Cícero ataca a adoção de Clódio,
menos precioso aos olhos dos gregos, porque mais tarde devia baseando-se no argumento de que o homem que o adotara já
oferecer sacrifícios e banquetes fúnebres, e conservar por seu tinha um filho, e afirmando que aquela adoção era contrária ao
culto a religião doméstica. Assim, no velho Ésquilo, o filho é direito religioso.
chamado salvador do lar paterno. Quando se adotava um filho, era necessário antes de
A entrada desse filho na família era assinalada por um mais nada, iniciá-lo nos segredos do culto, “introduzi-lo na
ato religioso. Antes de mais nada, era necessário que fosse religião doméstica, aproximá-lo de seus penates.” Por isso a
aceito pelo pai. Este, como dono e mestre vitalício do fogo adoção era realizada por uma cerimônia sagrada, que parece
sagrado, e representante dos antepassados, devia decidir se o ter sido muito semelhante à que assinalava o nascimento de
recém-nascido era ou não da família. O nascimento constituía um filho, pela qual o adotado era admitido ao lar e se
apenas o laço físico; a declaração do pai constituía o laço associava à religião do pai adotivo. Deuses, objetos sagrados,
moral e religioso. Essa formalidade era igualmente obrigatória ritos, preces, tudo se tornava comum entre ambos. Diziam-lhe
em Roma, na Grécia e na Índia. então: In sacra transiit: Passou para o culto de sua nova
Além disso, como vimos para a mulher, o filho família.
necessitava de uma espécie de iniciação. Esta era feita pouco Por isso mesmo o filho adotivo renunciava ao culto da
tempo depois do nascimento; em Roma, no nono dia; na antiga. Vimos, com efeito, que, de acordo com essas velhas
Grécia, no décimo dia; na Índia, no décimo ou décimo crenças, o mesmo homem não podia sacrificar a dois lares,
segundo dia. Nesse dia, o pai reunia a família, chamava nem honrar duas séries de antepassados. Admitido em nova
testemunhas, oferecia sacrifício aos manes. A criança era família, a casa paterna tornava-se-lhe estranha. Não tinha nada
apresentada aos deuses domésticos; uma mulher carregava-o mais em comum com o lar que o vira nascer, e não podia mais
nos braços, e, correndo, dava com ele várias voltas ao redor do oferecer banquetes fúnebres a seus antepassados. Quebrara-se
fogo sagrado. Essa cerimônia tinha duplo objetivo: primeiro, o vínculo do nascimento; o vínculo do novo culto apoderava-
purificar a criança, isto é, tirar-lhe a impureza que os antigos se dele. O homem se tornava tão completamente estranho à
supunham havia contraído pelo único fato da gestação; e antiga família que, se morresse seu pai natural não tinha
depois iniciá-lo no culto sagrado doméstico. A partir desse direito de se encarregar dos funerais ou de conduzir o enterro.
momento a criança era admitida naquela espécie de sociedade O filho adotivo não podia mais voltar para a antiga família;
sagrada, ou pequena igreja, como era chamada a família. Tinha quando muito, a lei permitia-lhe que, tendo um filho, o
agora uma religião, praticava seus ritos, estava apta a recitar deixasse em seu lugar na família que o adotara. Considerava-
suas preces; honrava os antepassados e mais tarde, por sua vez, se que assim a continuidade dessa família estava assegurada,
viria a ser um antepassado honrado. ele podia sair. Mas, nesse caso, tinha de romper todos os laços
que o ligavam a seu filho.
CAPÍTULO IV - ADOÇÃO E EMANCIPAÇÃO À adoção, correspondia como correlativo, a
emancipação. Para que um filho pudesse entrar na nova
O dever de perpetuar o culto doméstico foi a fonte do família, era necessário que pudesse sair da antiga, isto é, que
direito de adoção entre os antigos. A mesma religião que sua religião o permitisse. O efeito principal da emancipação
obrigava o homem a se casar, que concedia o divórcio em caso era a renúncia ao culto da família onde nascera. Os romanos
de esterilidade, e que, em caso de impotência ou de morte designavam esse ato pelo nome bem significativo de sacrorum
prematura, substituía o marido por um parente, oferecia ainda detestatio. O filho emancipado não era mais membro da
à família um último recurso para escapar à tão temida desgraça família, nem pela religião, nem pelo direito.
da extinção: esse recurso consistia no direito de adotar.
“Aquele a quem a natureza não deu filhos, pode [...].
adotar um, para que as cerimônias fúnebres não se
extingam.” — Assim fala o velho legislador dos hindus. Disponível em:
Temos um curioso discurso de um orador ateniense, em
processo em que se contestava a um filho adotivo a <https://latim.paginas.ufsc.br/files/2012/06/
legitimidade de sua adoção. O defensor mostra-nos, a A-Cidade-Antiga-Fustel-de-Coulanges.pdf>.
princípio, por que motivo se adotava um filho: “Menéclio —
diz ele — não queria morrer sem filhos; queria deixar Acesso em: 22/07/2022.
alguém que o enterrasse, e que lhe oferecesse o culto
fúnebre.” — Em seguida demonstra o que poderá acontecer
se o tribunal anular sua adoção, e não só o que acontecerá a
ele, mas àquele que o adotou; Menéclio morreu, mas é ainda
o interesse de Menéclio que está em jogo: “Se anulardes a A Cidade Antiga
adoção, fareis de Menéclio um defunto sem filhos, e,
conseqüentemente, ninguém lhe oferecerá sacrifícios Numa-Denys Fustel de Coulanges (1830-1889)
fúnebres, e, finalmente, seu culto se extinguira.” Título original
Adotar um filho, portanto, era velar pela continuidade La Cité Antique - Étude sur Le Culte, Le Droit, Les
da religião doméstica, pela salvação do fogo sagrado, pela Institutions de la Grèce et de Rome
continuação das ofertas fúnebres, pelo repouso dos manes dos Tradução
antepassados. Como a adoção não tinha outra razão de ser © 2006 Frederico Ozanam Pessoa de Barros
além da necessidade de evitar a extinção do culto, seguia-se Versão para eBook
daí que não era permitida senão a quem não tinha filhos. As eBooksBrasil/Exilado (epub e kindle)
leis dos hindus é formal a esse respeito. A de Atenas não o é Fonte Digital
menos; todo o discurso de Demóstenes contra Leocares o Digitalização do livro em papel
prova. Nenhum texto preciso prova que o mesmo acontecesse Editora das Américas S.A. - EDAMERIS, São Paulo, 1961
com o direito romano antigo, e sabemos que no tempo de Gaio © 2006 — Numa-Denys Fustel de Coulanges
um mesmo homem podia ter filhos naturais e por adoção.