o evangelho, e quais estão em desacordo?
Uma das mais importantes funções
dos profetas cristãos de nossos dias é perceber as conseqüências de várias
invenções e de outras forças culturais e formular juízos de valor a respeito
delas.
O estudo produz alegria. Como todo novato, acharemos difícil
trabalhar no começo. Mas quanto maior nossa proficiência, tanto maior nossa
alegria.
Alexander Pope disse: “Não há estudo que não seja capaz de deleitar-
nos depois de uma pequena aplicação a ele.” O estudo é digno de nosso mais
sério esforço.
S e g u n d a Pa r t e : D i s c i p l i n a s E x t e r i o r e s
6. A DISCIPLINA DA SIMPLICIDADE
“Quando vivemos verdadeiramente na simplicidade
interior, toda a nossa aparência é mais franca, mais
natural. A verdadeira simplicidade... faz-nos cônscios
de certa abertura, moderação, inocência, alegria e
serenidade, o que é encantador quando o vemos de
perto e continuamente, com olhos puros. Oh, quão
amável é esta simplicidade! Quem ma dará? Por ela
deixo tudo. Ela é a pérola do Evangelho.” - François
Fénelon
Simplicidade é liberdade. Duplicidade é servidão. A simplicidade traz
alegria e equilíbrio. A duplicidade traz ansiedade e temor. O pregador de
Eclesiastes observou que “Deus faz o homem reto, e este procura
complicações sem conta” (Eclesiastes 7:29, Bíblia de Jerusalém). Visto como
muitos de nós experimentamos o livramento que Deus traz mediante a
simplicidade, cantamos uma vez mais um antigo hino dos shakers:
“É um dom ser simples,
É um dom ser livre,
É um dom descer aonde devemos estar,
E quando nos virmos num caminho certo,
Viveremos num vale de amor e deleite!
Ao adquirir a real simplicidade,
Não nos envergonhamos de viver e amar,
Voltar e voltar nosso deleite será,
Até que voltando, voltando,
Para o que é certo nos voltamos.”
A Disciplina cristã da simplicidade é uma realidade interior que resulta
num estilo de vida exterior. Tanto o aspecto interior como o exterior da
simplicidade são fundamentais. Enganamo-nos a nós mesmos se cremos que
podemos possuir a realidade interior sem que ela tenha um profundo efeito
sobre nosso modo de viver. A tentativa de demonstrar um estilo de vida
exterior de simplicidade sem a realidade interior conduz ao legalismo fatal.
A simplicidade começa no foco e na unidade interior. Significa viver a
partir do que Thomas Kelly chamou de “Centro Divino”. Kierkegaard captou
o núcleo da simplicidade cristã no intenso título de seu livro. Purify of Heart
Is Will One Thing (Pureza de Coração é Desejar Uma Só Coisa).
O experimentar a realidade interior liberta-nos exteriormente. O
linguajar torna-se veraz e honesto. A cobiça de “status” e posição passou,
porque não mais necessitamos deles. Paramos com a extravagância pomposa,
não porque não possamos dar-nos a esse luxo, mas por uma questão de
princípio. Nossos bens se tornam disponíveis aos outros. Juntamo-nos à
experiência que Richard E. Byrd registrou em seu diário, após meses de
solidão no estéril Ártico: “Estou aprendendo... que um homem pode viver
intensamente sem grande quantidade de coisas.”
Falta à cultura contemporânea tanto a realidade interior como o estilo
de vida de simplicidade exterior.
Internamente o homem moderno está fraturado e fragmentado.
Encontra-se perdido num labirinto de realizações competidoras. Num
momento ele toma decisões com base na razão sadia, e no momento seguinte
o faz por medo do que os outros venham a pensar dele. Ele não tem unidade
ou foco em torno do qual a vida se oriente.
Pelo fato de faltar-nos um Centro divino, nossa necessidade de
segurança tem-nos induzido a um apego insano às coisas. Devemos entender
com clareza que o ardente desejo de abundância na sociedade contemporânea
é de natureza psicótica. É psicótica porque perdeu por completo o contato
com a realidade.
Ansiamos possuir coisas de que não necessitamos nem desfrutamos.
“Compramos coisas que realmente não desejamos para impressionar pessoas
das quais não gostamos.” Onde a obsolescência planejada desiste, a
obsolescência psicológica assume o controle. Somos levados a sentir
vergonha de usar roupas ou dirigir carros até que se gastem. Os veículos de
propaganda têm-nos convencido de que andar fora de moda é não andar em
dia com a realidade. Já é tempo de despertar-nos para o fato de que a
conformidade com uma sociedade enferma significa que estamos enfermos.
Enquanto não virmos o quanto nossa cultura se desequilibrou neste ponto
não estaremos em condições de lidar com o espírito de riquezas materiais que
há dentro de nós, nem desejaremos a simplicidade cristã.
A psicose permeia até mesmo nossa mitologia. O herói moderno é o
jovem pobre que se torna rico em vez do ideal franciscano ou budista do
jovem rico que voluntariamente se torna pobre. (Ainda achamos difícil
imaginar que isso também pudesse acontecer a um jovem!). Cobiça a que
chamamos ambição. Tesouro oculto a que chamamos prudência. Ganância a
que denominamos diligência.
Além do mais, é importante entender que a moderna contracultura mal
chega a ser uma melhoria. É uma mudança superficial no estilo de vida que
não trata seriamente dos problemas básicos de uma sociedade de consumo.
Visto que sempre faltou à contracultura um centro positivo, inevitavelmente
ela se degenerou em trivialidade. Art Gish disse:
“Grande parte da contracultura é um reflexo dos piores aspectos da
velha sociedade enferma. A revolução não é narcótico livre, sexo livre,
abortos a pedido. Isso é ofegar moribundo de uma velha cultura e não
conduzirá a uma nova vida. O erotismo pseudolibertário, os elementos de
sadomasoquismo, e os anúncios que apelam para o sexo em grande parte da
imprensa clandestina é parte da perversão da antiga ordem e expressão de
morte. Muitos que se acham na clandestinidade estão vivendo os mesmos
valores do establishment, apenas em forma invertida.”
Corajosamente necessitamos de articular novos e mais humanos modos
de viver.
Deveríamos fazer objeção à moderna psicose que define as pessoas
pelo quanto podem produzir ou pelo que elas ganham. Deveríamos
experimentar novas e ousadas alternativas para o presente sistema mortífero.
A Disciplina Espiritual da simplicidade não é um sonho perdido mas uma
visão recorrente através da história. Ela pode ser recapturada hoje. Deve sê-lo.
A Bíblia e a Simplicidade
Antes de tentar forjar uma opinião cristã da simplicidade é necessário
destruir a noção prevalecente de que a Bíblia é ambígua com relação aos
problemas econômicos. Com muita freqüência se pensa que nossa reação à
riqueza é um problema individual. Diz-se que o ensino da Bíblia nesta área é
estritamente matéria de interpretação pessoal. Procuramos crer que Jesus não
se referiu a questões econômicas práticas.
Nenhuma leitura sé ria das Escrituras pode sustentar tal opinião. As
injunções bíblicas contra a exploração do pobre e o acúmulo de riqueza são
claras e diretas. A Bíblia desafia quase todos os valores econômicos da
sociedade contemporânea. Por exemplo, o Antigo Testamento contesta a
noção popular de um direito absoluto à propriedade privada. A terra pertencia
a Deus e portanto não podia ser possuída perpetuamente, e no ano do jubileu
toda a terra voltava ao seu possuidor original. Em realidade, o propósito do
ano do jubileu era prover uma redistribuição regular da riqueza, uma vez que
a própria riqueza era considerada como pertencente a Deus e não ao homem.
Tal ponto de vista radical da economia estampa-se na face de quase toda
crença e prática modernas. Se Israel tivesse observado fielmente o jubileu,
teria desferido um golpe mortal no perene problema de os ricos se tornarem
mais ricos e os pobres se tornarem mais pobres.
A todo instante a Bíblia trata decisivamente do espírito interior de
escravidão gerado por um apego idólatra à riqueza. “Se as vossas riquezas
prosperam, não ponhais nelas o coração” (Salmo 62:10). O décimo
mandamento é contra a cobiça, contra o desejo interior de “ter”, que conduz
ao roubo e à opressão. O sábio filósofo entendia que “Quem confia nas suas
riquezas cairá” (Provérbios 11:28).
Jesus declarou guerra ao materialismo do seu tempo. O tremo aramaico
para riqueza era “mamom”, e Jesus condenou-a como um deus rival:
“Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque, ou há de aborrecer um
ou amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis
servir a Deus e a Mamom” (Lucas 16:13, Ed. Rev. Corrigida). Ele falou com
freqüência e sem ambigüidade dos problemas econômicos. “Bem-aventurados
vós os pobres, porque vosso é o reino de Deus” e “Ai de vós, os ricos!
porque tendes a vossa consolação” (Lucas 6:20, 24). Retratou graficamente a
dificuldade do rico entrar no reino de Deus como a de um camelo passar pelo
fundo de uma agulha. Para Deus, naturalmente, todas as coisas são possíveis,
mas Jesus entendeu claramente e dificuldade. Viu as garras que a riqueza pode
colocar sobre uma pessoa. Ele sabia que “onde está o teu tesouro, ai estará
também teu coração”, que é precisamente a razão de ele ordenar a seus
seguidores. “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra” (Mateus
6:21, 19). Jesus não estava dizendo que o coração deveria ou não deveria estar
onde está o tesouro. Ele estava afirmando o simples fato de que onde quer
que você encontre o tesouro, aí encontrará o coração.
Jesus exortou o jovem rico a não ter apenas uma atitude interior de
desapego a suas posses, mas literalmente livrar-se delas, se desejasse o reino
de Deus (Mateus 19:16-22). Disse Jesus: “Tende cuidado e guardai-vos de
toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na
abundância dos bens que ele possui” (Lucas 12:15). Aconselhou às pessoas
que vinham buscar a Deus: “Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para
vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus...”
(Lucas 12:16-21). Jesus disse que se realmente desejamos o reino de Deus
devemos, como um negociante que procura boas pérolas, tendo achado uma
de grande valor, estar dispostos a vender tudo para consegui-la (Mateus 13:45,
46). Ele chamou todos os que quisessem segui-lo para uma vida alegre,
despreocupada e isenta de cuidados materiais: “Dá a todo o que te pede; e se
alguém levar o que é teu, não entres em demanda” (Lucas 6:30).
Jesus referiu-se à questão de economia mais do que a qualquer outro
problema social. Se numa sociedade comparativamente simples nosso Senhor
dá ênfase tão grande sobre os perigos espirituais da riqueza, quanto mais
deveríamos nós que vivemos numa cultura altamente rica levar a sério a
questão econômica.
As epístolas referem o mesmo interesse. Paulo disse: “Ora, os que
querem ficar ricos caem em tentação e cilada, e em muitas concupiscências
insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição” (1
Timóteo 6:9). O bispo não deve ser “avarento” (1 Timóteo 3:3). O diácono
não deve ser “cobiçoso de sórdida ganância” (1 Timóteo 3:8). O escritor de
Hebreus aconselhou: “Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as
coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca
jamais te abandonarei” (Hebreus 13:5). Tiago lançou a culpa por mortes e
guerras sobre a cobiça de bens materiais: “Cobiçais e nada tendes; matais e
invejais e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras” (Tiago 4:1-2).
Paulo chamou a avareza de idolatria e ordenou à igreja de Corinto que
exercesse severa disciplina contra qualquer pessoa culpada de ganância
(Efésios 5:5; 1 Coríntios 5:11). Ele colocou a ganância ao lado do adultério e
do roubo e declarou que os que vivem nessas coisas não herdarão o reino de
Deus. Paulo aconselhou os ricos a não confiarem em sua riqueza, mas em
Deus, e repartir generosamente com os outros (1 Timóteo 6:17-19).
Havendo dito isto, devo apressar-me em acrescentar que Deus deseja
que tenhamos suficiente provisão material. Há miséria hoje por uma simples
falta de provisão, assim como há miséria quando as pessoas tentam viver de
provisão. A pobreza deliberada é um mal e deve ser abandonada. Nem a
Bíblia perdoa ou escusa o ascetismo. A Escritura declara de forma consistente
e vigorosa que a criação é boa e deve ser desfrutada. O ascetismo estabelece
uma divisão antibíblica entre um mundo espiritual bom e um mundo material
mau e assim encontra salvação prestando tão pouca atenção quanto possível
ao reino físico da existência.
Ascetismo e simplicidade são mutuamente incompatíveis. As
similaridades superficiais e ocasionais na prática nunca devem obscurecer a
diferença radical entre os dois. O ascetismo renuncia às posses. A
simplicidade coloca as posses na devida perspectiva. O ascetismo não
encontra lugar para uma “terra que mana leite e mel”. A simplicidade pode
regozijar-se nesta graciosa provisão da mão de Deus. O ascetismo só encontra
contentamento quando humilhado. A simplicidade conhece o contentamento
tanto na humilhação como na abundância (Filipenses 4:12).
A simplicidade é a única coisa que pode adequadamente reorientar
nossas vidas de sorte que as posses sejam autenticamente desfrutadas sem
destruir-nos. Sem a simplicidade, ou capitularemos ao espírito de “Mamom”
da presente era má, ou cairemos num ascetismo legalista e anticristão. Ambas
as situações levam à idolatria. Ambas são espiritualmente fatais.
A Escritura é farta em descrições da abundante provisão material que
Deus dá ao seu povo. “Porque o Senhor teu Deus te faz entrar numa boa
terra... e nada te faltará nela” (Deuteronômio 8:7-9). Também é farta em
advertências sobre o perigo de provisões que não são mantidas na devida
perspectiva. “Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o poder do
meu braço me adquiriram estas riquezas” (Deuteronômio 8:17).
A Disciplina Espiritual da simplicidade provê a necessária perspectiva
que nos liberta para receber a provisão de Deus como um Dom que, por não
ser nosso, não devemos guardar, mas que pode ser gratuitamente partilhado
com outros. Uma vez que reconhecemos que a Bíblia denuncia os
materialistas e os ascetas com igual vigor, estamos preparados para voltar
nossa atenção à estrutura de um entendimento cristão da simplicidade.
Um Ponto de Apoio
Arquimedes declarou: “Dai-me um ponto de apoio e eu moverei a
terra.” Esse ponto focal é importante em qualquer Disciplina, mas é
tremendamente importante em se tratando da simplicidade. De todas as
Disciplinas, a simplicidade é a mais visível e, portanto, a mais aberta à
corrupção. A maioria dos cristãos nunca lutou de verdade com o problema da
simplicidade, convenientemente ignorando muitas palavras de Jesus sobre o
assunto. A razão é simples: esta Disciplina desafia diretamente nossos
interesses pessoais num abastado estilo de vida. Mas os que levam a sério o
ensino bíblico sobre a simplicidade defrontam-se com severas tentações em
direção ao legalismo. No ardente esforço de dar expressão concreta ao ensino
econômico de Jesus é fácil confundir nossa expressão do ensino com o
próprio ensino. Usamos este atavio ou compramos aquele tipo de casa e
sacramentamos nossas escolhas como simplicidade de vida.
Por causa deste perigo é muito importante achar e claramente articular
um ponto focal arquimediano para a simplicidade.
Temos esse ponto focal nas palavras de Jesus:
“Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa
vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem
pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não
é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do
que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam,
não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo vosso
pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós
muito mais do que as aves?
Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar
um côvado ao curso da sua vida? E por que andais
ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como
crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem
fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em
toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora,
se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe
e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós
outros, homens de pequena fé? Portanto não vos
inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos?
ou: Com que nos vestiremos? porque os gentios é que
procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste
sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em
primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas
estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:25-
33).
O ponto central da Disciplina da simplicidade é buscar primeiro o reino
de Deus e a sua justiça - e então, tudo o que for necessário virá em sua devida
ordem.
É impossível exagerar a importância do discernimento de Jesus neste
ponto.
Tudo depende de manter em primeiro lugar o que realmente é
“primeiro”. Nada deve vir antes do reino de Deus, nem mesmo o desejo de
um estilo de vida simples. A simplicidade torna-se idolatria quando precede a
busca do reino.
Soren Kierkegaard escreveu:
“'Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua
justiça.’ Que significa isto, que tenho eu de fazer, ou
que tipo de esforço é este que pode ser chamado de
buscar ou perseguir o reino de Deus? Deverei tentar
obter um emprego compatível com os meus talentos e
minhas forças para que assim exerça influência? Não,
deves buscar primeiro o reino de Deus. Devo, então,
sair a proclamar este ensino ao mundo? Não, deves
buscar primeiro o reino de Deus. Mas então, em certo
sentido, nada é o que devo fazer. Sim, certamente em
certo sentido, nada, torna-se nada diante de Deus,
aprender a manter-se silente; neste silêncio está o
começo, que é buscar primeiro o reino de Deus.”
Focalizar o reino produz realidade interior, e sem essa realidade
degenerar-nos-emos em trivialidades legalistas. Nada mais pode ser central. O
desejo de sair da corrida maluca não pode ser central; a preocupação com a
ecologia não pode ser central. A única coisa que pode ser central na Disciplina
Espiritual da simplicidade é buscar primeiro o reino de Deus e a justiça, tanto
pessoal como social, desse reino. Por mais dignos que sejam todos os demais
interesses, no momento em que eles se tornam o foco de nossos esforços,
tornam-se idolatria. O concentrar-nos neles inevitavelmente nos induzirá a
declarar que nossa atividade especial é a simplicidade cristã. E, de fato,
quando o reino de Deus é verdadeiramente colocado em primeiro lugar, as
preocupações ecológicas, os pobres, a distribuição eqüitativa da riqueza e
muitas outras coisas recebem a devida atenção. A pessoa que não busca o
reino de Deus em primeiro lugar, absolutamente não o busca, a despeito de
quão digna seja a idolatria que o substitui.
Como Jesus deixou muito claro em nosso texto central, estar livre de
ansiedade é uma das provas interiores de que estamos buscando o reino de
Deus em primeiro lugar. A realidade interior da simplicidade envolve uma
vida de alegre despreocupação com os bens materiais. Nem o ganancioso
nem o avarento conhecem essa liberdade. Ela não tem nada que ver com a
abundância ou com a falta de posses. É uma atitude interior de confiança. O
simples fato de uma pessoa viver sem a posse de bens materiais não é garantia
alguma de que esteja vivendo em simplicidade. Paulo ensinou que o amor do
dinheiro é a raiz de todos os males, e muitas vezes os que menos o têm
amam-no ao máximo. É possível a uma pessoa estar desenvolvendo um estilo
de vida exterior de simplicidade e viver cheia de ansiedade. Inversamente, a
riqueza não liberta da ansiedade.
Porque riqueza e abundância vêm hipocritamente vestidas com pele de
ovelha fingindo ser segurança contar ansiedades, e elas se tornam então o
objeto de ansiedade... elas protegem a pessoa contra as ansiedades exatamente
com o lobo que é posto a cuidar de ovelhas as protege... contra o lobo...
A liberdade de ansiedade caracteriza-se por três atitudes interiores. Se
recebemos o que temos como um Dom, se o que temos recebe o cuidado de
Deus e se o que temos está disponível aos outros, então seremos livres de
ansiedade. Esta é a realidade interior da simplicidade. Contudo, se aquilo que
temos nós cremos que o conseguimos, se aquilo que temos nós cremos que
devemos retê-lo e se o que temos não está disponível aos outros, então
vivermos em ansiedade. Tais pessoas jamais conheceram a simplicidade, a
despeito das contorções exteriores a que possam submeter-se a fim de viver
“a vida simples”.
Receber o que temos como um dom de Deus é a primeira atitude
interior da simplicidade. Trabalhamos, porém sabemos que não e nosso
trabalho que dá o que temos. Vivemos pela graça, mesmo quando se trata do
“pão nosso de cada dia”.
Dependemos de Deus para obter os mais simples elementos da vida: ar,
água, sol.
O que temos não é resultado de nosso labor, mas do gracioso cuidado
de Deus.
Quando somos tentados a pensar que aquilo que possuímos resulta de
nossos esforços pessoais, basta uma pequena seca ou um pequeno acidente
para mostrar-nos uma vez mais quão radicalmente dependemos em tudo.
Saber que é negócio de Deus, e não nosso, cuidar do que temos é a
segunda atitude interior da simplicidade. Deus pode proteger o que
possuímos. Podemos confiar nele. Significa isso que nunca deveríamos tirar a
chave do carro ou fechar a porta? Claro que não. Mas sabemos que a
fechadura da porta não é o que protege a casa. É apenas bom senso tomar
precauções normais, mas se cremos que é a precaução que nos protege e a
nossos bens, estaremos crivados de ansiedade.
Simplesmente não existe preocupação “à prova de roubo”. Obviamente,
estas considerações não se restringem a posses, mas incluem coisas tais como
nossa reputação ou nosso emprego. Simplicidade significa a liberdade de
confiar em Deus para obter estas (e todas as demais) coisas.
Ter nossos bens disponíveis aos outros indica a terceira atitude interior
da simplicidade. Martinho Lutero disse: “Se nossos bens não estão
disponíveis à comunidade, são bens roubados.” O motivo por que achamos
estas palavras tão difíceis é o nosso temor do futuro. Agarramo-nos às nossas
posses em vez de reparti-las, porque nos preocupamos com o dia de amanhã.
Se, porém, cremos que Deus é quem Jesus disse ser, então não precisamos
temer. Quando virmos a Deus como o Criador Todo-poderoso e nosso
amoroso Pai, podemos repartir, porque sabemos que ele cuidará de nós. Se
alguém estiver em necessidade, somos livres para socorrê-lo. Aqui, também, o
corriqueiro bom senso definirá a base da nossa participação e nos livrará da
loucura.
Quando buscamos em primeiro lugar o reino de Deus, estas três
atitudes caracterizam nossas vidas. Tomadas juntamente, elas definem o que
Jesus queria dizer por, “não andeis ansiosos”. Elas contêm a realidade interior
da simplicidade cristã. E podemos estar certos de que quando vivemos nesta
realidade central, “todas estas coisas” necessárias à vida abundante serão
igualmente nossas.
A Expressão Exterior da Simplicidade
Descrever a simplicidade apenas como uma realidade interior é dizer
algo falso.
A realidade interior não é realidade enquanto não houver expressão
exterior. A atitude libertadora da simplicidade afetará nosso modo de viver.
Conforme adverti anteriormente, dar aplicação específica à simplicidade é
correr o risco de deteriorar-se em regras legalistas. É, contudo, um risco que
devemos aceitar, pois a recusa em discutir pontos específicos baniria a
Disciplina para o campo teorético. Afinal de contas, os escritores da Bíblia
constantemente aceitaram esse risco.
Desejo arrolar dez princípios controladores para a expressão exterior da
simplicidade. Não devem ser considerados como leis mas como uma tentativa
de consubstanciar o significado da simplicidade na vida do século vinte.
Em primeiro lugar, compre as coisas por sua utilidade e não por seu
“status”.
Os automóveis devem ser comprados por sua utilidade, não por seu
prestígio.
Considere andar de bicicleta. Na construção ou compra de casas, pense
na habilidade em vez de pensar na impressão que ela causará aos outros. Não
tenha casa maior do que o razoável. Afinal de contas, quem necessita de sete
quartos para duas pessoas?
Considere suas roupas. Muitas pessoas não têm necessidade de mais
roupas.
Compram mais, não porque precisem, mas porque desejam andar na
moda. Enforque a moda. Compre somente aquilo de que você precisa. Use
suas roupas até que se gastem. Pare com o esforço de impressionar as pessoas
com suas roupas e impressione-as com sua vida. Se for prático no seu caso,
aprenda a alegria de fazer roupas. E, pelo amor de Deus (e digo isto muito
literalmente), use roupas práticas em vez de roupas ornamentais. João Wesley
declarou: “Quanto a aparelho, compro o mais duradouro e, em geral, o mais
simples que posso. Não compro móveis, senão o que for necessário e
barato.”
Segundo, rejeite qualquer coisa que o esteja viciando. Aprenda a
distinguir entre a verdadeira necessidade psicológica, como ambientes alegres
e o vício.
Elimine ou reduza o uso de bebidas que viciem e não são nutritivas:
álcool, café, chá, Coca-Cola, etc. Se você está viciado em televisão, venda o
aparelho ou se desfaça dele de qualquer jeito. Qualquer dos meios de
comunicação que você acha não poder viver sem eles: rádios, estéreos,
revistas, filmes, jornais, livros - trate de livrar-se deles. O chocolate tornou-se
um vício grave para muitas pessoas. Se o dinheiro lançou garra sobre seu
coração, dê uma parte e sinta a liberdade interior. Simplicidade é liberdade,
não escravidão.
Recuse ser escravo de qualquer coisa, exceto de Deus.
Terceiro, crie o hábito de dar coisas. Se você acha que se está apegando
a alguma posse, considere dá-la a alguém que necessite. Ainda me lembro do
Natal em que resolvi que melhor do que comprar ou mesmo fazer um objeto
para uma determinada pessoa, eu lhe daria algo que significava muito para
mim. Meu motivo era egoísta: desejava conhecer o livramento oriundo deste
simples ato de pobreza voluntária. Esse algo era uma bicicleta de dez marchas.
Enquanto eu me dirigia para a casa do amigo para entregar o presente,
lembro-me de cantar com novo significado o coro de um hino que diz: “De
graça, de graça recebestes; de graça, de graça dai.” Ontem meu filho de seis
anos ouviu falar de um coleguinha que precisava de uma lancheira, e
perguntou-me se ele podia dar-lhe a sua. Aleluia!
Desacumule. Quantidades de coisas que não são necessárias complicam
a vida.
Elas precisam ser classificadas e guardadas e espanadas e reclassificadas
e guardadas de novo ad nauseam. Muitos de nós poderíamos livrar-nos da
metade das coisas que possuímos sem nenhum sacrifício grave. Faríamos bem
em atender o conselho de Thoreau: “Simplifique, simplifique.”
Quarto, recuse ser dominado pela propaganda dos fabricantes de
bugigangas modernas. Esses inventos para poupar tempo quase nunca
poupam tempo. Cuidado com as palavras: “Paga por si mesmo em seis
meses.” A maioria desses inventos são feitos para desarranjar-se, desgastar-se
e assim complicar nossa vida em vez de ajudar. Este problema é uma praga da
indústria de brinquedos. Nossas crianças não precisam ser entretidas por
bonecas que choram, que comem, que urinam, suam e cospem. Uma velha
boneca de trapo pode dar mais alegria e durar muito mais. Muitas vezes as
crianças encontram maior alegria em brincar com panelas e bules velhos do
que com o último aparelho espacial. Procure brinquedos educativos e
duráveis. Faça você mesmo alguns.
Em geral essas engenhocas são um dreno desnecessário dos recursos
energéticos do mundo. Os Estados Unidos têm menos de 6% da população
mundial, mas consomem cerca de 33% da energia do mundo. Nos Estados
Unidos, só os condicionadores de ar usam a mesma soma de energia que usa
a China com seus 830 milhões de habitantes. A responsabilidade ambiental
seria suficiente para livrar-nos da maioria desses aparelhos produzidos hoje.
Os anunciantes tentam convencer-nos de que pelo fato de o mais novo
modelo disto ou daquilo ter um novo característico (ninharia?), devemos
vender o antigo e comprar o novo. As máquinas de costura têm novos pontos,
os gravadores de fita têm novos botões, as enciclopédias têm novos índices.
Tal dogma de comunicação precisa ser cuidadosamente examinado. Muitas
vezes os “novos” característicos são apenas um meio de induzir-nos a
comprar o de que não necessitamos. Provavelmente aquele refrigerador nos
servirá muito bem pelo resto de nossa vida mesmo sem o dispositivo
automático de fazer gelo e sem as cores do arco-íris.
Quinto, aprenda a desfrutar das coisas sem possuí-las. Possuir coisas é
uma obsessão de nossa cultura. Se as possuímos, achamos que podemos
controlá-las; e se podemos controlá-las, sentimos que nos darão maior prazer.
Essa idéia é uma ilusão. Muitas coisas na vida podem ser desfrutadas sem que
as possuamos ou controlemos. Partilhe das coisas. Aproveite a praia sem
achar que você tem que comprar um pedaço dela. Aproveite as bibliotecas e
os parques públicos.
Sexto, desenvolva um apreço mais profundo pela criação. Aproxime-se
da terra.
Ande sempre que puder. Ouça os pássaros - eles são mensageiros de
Deus. Goze da textura da grama e das folhas. Maravilhe-se com as ricas cores
que há por toda parte. Simplicidade significa descobrir uma vez mais que “Ao
Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém” (Salmo 24:1).
Sétimo, olhe com cepticismo saudável todos os planos de “compre
agora, pague depois”. Eles são uma armadilha e servem para aumentar sua
escravidão. Tanto o Antigo como o Novo Testamento condenam a usura e o
fazem por bons motivos. (Na Bíblia, o termo “usura” não é empregado no
sentido moderno de juro exorbitante; refere-se a qualquer tipo de juro.) A
cobrança de juro era considerada como exploração antifraternal do infortúnio
de outrem, daí uma negação da comunidade cristã. Jesus denunciou a usura
como sinal da velha vida e admoestou seus discípulos a emprestar “sem
esperar nenhuma paga” (Lucas 6:35).
Essas palavras da Escritura não deveriam ser interpretadas como um
tipo de lei universal imposta a todas as culturas em todos os tempos. Mas
também não devem ser consideradas como totalmente inaplicáveis à
sociedade moderna. Atrás dessas injunções bíblicas estão séculos de sabedoria
acumulada (e talvez algumas experiências amargas!). Certamente a prudência,
bem como a simplicidade, exigiriam que usemos de extrema cautela antes de
incorrermos em dívida.
Oitavo, obedeça às instruções de Jesus sobre a linguagem clara, honesta.
“Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim: não, não. O que disto passar, vem do
maligno” (Mateus 5:37). Se você consente em executar uma tarefa, execute-a.
Evite a bajulação e as meias verdades. Faça da honestidade e da integridade os
característicos distintivos de seu falar. Rejeite o jargão e a especulação abstrata
cujo propósito é obscurecer e impressionar, em vez de esclarecer e informar.
A linguagem clara é difícil porque raramente vivemos a partir do Centro
divino, raramente respondemos só aos impulsos celestiais. Muitas vezes o
medo do que os outros possam pensar ou uma centena de outros motivos
determinam nosso “sim” ou “não” em vez da obediência aos estímulos
divinos. Se surge uma oportunidade mais atraente, ou uma situação que nos
coloca numa luz melhor, logo invertemos nossa decisão. Se, porém, nosso
falar procede da obediência ao Centro divino, não veremos motivo para
tornar nosso “sim” em “não” e nosso “não” em “sim”.
Estaremos vivendo em simplicidade de linguagem pois nossas palavras
têm somente uma Fonte. Soren Kierkegaard escreveu: “Se és absolutamente
obediente a Deus, então não existe ambigüidade em ti e... tu és mera
simplicidade perante Deus.
.... Uma coisa há que a astúcia de Satanás e todos os laços da tentação
não podem apanhar de surpresa: a simplicidade.”
Nono, recuse tudo quanto gere a opressão de outros. Talvez ninguém
tenha corporificado mais plenamente este princípio do que John Woolman, o
alfaiate quacre do século dezoito. Seu famoso Diário está cheio de ternas
referências a seu desejo de viver sem oprimir a outros.
“Aqui fui levado a uma contínua e laboriosa
investigação para saber se eu, como indivíduo, evitava
todas as coisas que tendiam a fomentar guerras ou
eram com elas relacionadas, fosse neste país ou na
África; meu coração estava profundamente
interessado em que no futuro eu pudesse, em todas
as coisas, manter-me constante à pura verdade, e
viver e andar na lisura e simplicidade de um sincero
seguidor de Cristo. ... E aqui a luxúria e a cobiça, com
as numerosas opressões e outros males que as
acompanham, pareciam-me muito aflitivas e senti,
naquilo que é imutável, que as sementes de grande
calamidade e desolação são semeadas e crescem
depressa neste continente.”
Este é um dos mais difíceis e sensíveis problemas com que se
defrontam os cristãos do século vinte. Em um mundo de recursos limitados,
leva nossa cobiça de riqueza à pobreza de outros? Deveríamos comprar
produtos fabricados por pessoas que são forçadas a trabalhar em estúpidas
linhas de montagem?
Desfrutaremos de relações hierárquicas na companhia ou na fábrica que
mantêm outras pessoas sob nossas ordens? Oprimimos nossos filhos ou
cônjuge porque certas tarefas estão sob nosso comando?
Muitas vezes nossa opressão vem matizada com racismo e sexo. A cor
da pele ainda afeta a posição de uma pessoa na empresa. O sexo de um
candidato a emprego ainda afeta o salário. Possa Deus dar-nos profetas hoje
que, à semelhança de John Woolman, nos chamem “do desejo de riqueza” de
sorte que possamos “quebrar o jugo da opressão”.
Décimo, evite qualquer coisa que o distraia de sua meta principal.
George Fox advertiu:
“Mas há para vós o perigo e a tentação de atrair vossas mentes para o
vosso negócio, e este criar- lhes empecilho; de sorte que mal podeis fazer
qualquer coisa para o serviço de Deus, pois haverá o clamor, meu negócio,
meu negócio; e vossas mentes entrarão nas coisas, em vez de discuti-las. ... E
então, se o Senhor Deus cruzar convosco, e vos detiver no mar e na terra, e
tirar vossos bens e costumes, para que vossas mentes sobrecarregadas se
afligirão, pois estão fora do poder de Deus.”
Que Deus nos dê sempre coragem, sabedoria e força para manter como
prioridade, número um de nossas vidas o “buscar em primeiro lugar o seu
reino e a as justiça”, entendendo tudo o que isso implica. Fazer isto é viver
em simplicidade.
7. A DISCIPLINA DA SOLITUDE
“Aquieta-te em solitude e encontrarás o Senhor em ti
mesmo.” - Teresa de Ávila
Jesus chama-nos da solidão para a solitude. O medo de ficarem
sozinhas petrifica as pessoas. Uma criança que muda para uma nova
vizinhança diz, em soluços, à sua mãe: “Ninguém brinca comigo.” Uma
caloura na faculdade suspira pelos dias de ginásio quando era o centro de
atenção: “Agora, sou uma figura apagada.” Um executivo abatido em seu
escritório, poderoso, não obstante, sozinho. Uma senhora idosa reside em um
lar de velhos aguardando a hora de ir para o “Lar”.
Nosso medo de ficar sozinhos impulsiona-nos para o barulho e para as
multidões.
Conservamos uma constante torrente de palavras mesmo que sejam
ocas. Compramos rádios que prendemos ao nosso pulso ou ajustamos aos
nossos ouvidos de sorte que, se não houver ninguém por perto, pelo menos
não estamos condenados ao silêncio. T. S. Eliot analisou muito bem nossa
cultura quando disse: “Onde deve ser encontrado o mundo em que ressoará a
palavra? Aqui não, pois não há silêncio suficiente.”
Mas a solidão ou o barulho não são nossas únicas alternativas. Podemos
cultivar uma solitude em silêncio interiores que nos livram da solidão e do
medo. Solidão é vazio interior. Solitude é realização interior. Solitude não é,
antes de tudo, um lugar, mas um estado da mente e do coração.
Há uma solitude do coração que pode ser mantida em todas as ocasiões.
As multidões, ou a sua ausência, têm pouco que ver com este estado atentivo
interior. É perfeitamente possível ser um eremita e viver no deserto e nunca
experimentar a solitude. Mas se possuirmos solitude interior nunca teremos
medo de ficar sozinhos, pois sabemos que não estamos sós. Nem tememos
estar com outros, pois eles não nos controlam. Em meio ao ruído e confusão
encontramos calma num profundo silêncio interior.
A solitude interior há de manifestar-se exteriormente. Haverá a
liberdade de estar sozinhos, não para nos afastarmos das pessoas, mas para
poder ouvi-las melhor. Jesus viveu em “solitude do coração” interior.
Também freqüentemente experimentou solitude exterior.
Ele começou seu ministério passando quarenta dias sozinho no deserto
(Mateus 4:1-11).
Antes de escolher os doze, ele passou a noite inteira sozinho no monte
deserto (Lucas 6:12).
Quando recebeu a notícia da morte de João Batista, Jesus “retirou-se
dali num barco, para um lugar deserto, à parte” (Mateus 14:13).
Após a alimentação miraculosa dos cinco mil, Jesus mandou que os
discípulos partissem; então ele despediu as multidões e “subiu ao monte a fim
de orar sozinho...” (Mateus 14:23).
Após uma longa noite de trabalho, “Tendo-se levantado alta madrugada,
saiu, foi para um lugar deserto, e ali orava” (Marcos 1:35).
Quando os doze retornaram de uma missão de pregação e curas, Jesus
os instruiu: “Vinde repousar um pouco, à parte...” (Marcos 6:31).
Depois da cura de um leproso, Jesus “se retirava para lugares solitários,
e orava” (Lucas 5:16).
Com três discípulos ele buscou o silêncio de um monte solitário como
palco para a transfiguração (Mateus 17:1-9).
Enquanto se preparava para sua mais sublime e mais santa obra, Jesus
buscou a solitude do jardim do Getsêmani (Mateus 26:36-46).
Pode-se prosseguir, mas talvez isto seja suficiente para mostrar que a
busca de um lugar solitário era uma prática regular de Jesus. Igualmente deve
ser conosco.
Em Life Together (Vida Juntos), Dietrich Bonhoeffer deu a um de seus
capítulos o título de “O Dia Juntos”, e com percepção intitulou o capítulo
seguinte “O Dia Sozinho”. Ambos são fundamentais para o êxito espiritual.
Escreveu ele:
“Aquele que não pode estar sozinho, tome cuidado
com a comunidade. ... Aquele que não está em
comunidade, cuidado com o estar sozinho. ... Cada
uma dessas situações tem, de si mesma, profundas
ciladas e perigos. Quem desejar a comunhão sem
solitude mergulha no vazio de palavras e sentimentos,
e quem busca a solitude sem comunhão perece no
abismo da vaidade, da auto-enfatuação e do
desespero.”
Portanto, se desejarmos estar com os outros de modo significativo,
devemos buscar o silêncio recriador da solitude. Se desejamos estar sozinhos
em segurança, devemos buscar a companhia e a responsabilidade dos outros.
Se desejamos viver em obediência, devemos cultivar a ambos.
Solitude e Silêncio
Sem silêncio não há solitude. Muito embora o silêncio às vezes envolva
a ausência de linguagem, ele sempre envolve o ato de ouvir. O simples
refrear-se de conversar, sem um coração atento à voz de Deus, não é silêncio.
Devemos entender a ligação que há entre solitude interior e silêncio
interior.
Os dois são inseparáveis. Todos os mestres da vida interior falam dos
dois de um só fôlego. Por exemplo, a Imitação de Cristo, que tem sido a
obra-prima incontestável da literatura devocional durante cinco séculos, tem
uma seção intitulada “Do amor da solidão e do silêncio”. Dietrich Bonhoeffer
faz dos dois um todo inseparável em Vida Juntos, como o faz Thomas
Merton em Thoughts in Solitude (Pensamentos em Solitude). Com efeito,
lutamos por algum tempo tentando resolver se daríamos a este capítulo o
título de Disciplina da solitude ou Disciplina do silêncio, tão estreitamente
ligados são os dois em toda a importante literatura devocional. Devemos, pois,
necessariamente entender e experimentar o poder transformador do silêncio
se desejamos conhecer a solitude.
Diz um antigo provérbio: “O homem que abre a boca, fecha os olhos!”
A finalidade do silêncio e da solitude é poder ver e ouvir. O controle, e não a
ausência de ruído, é a chave do silêncio. Tiago compreendeu claramente que a
pessoa capaz de controlar a língua é perfeita (Tiago 3:1-12). Sob a Disciplina
do silêncio e da solitude aprendemos quando falar e quando refrear-nos de
falar. A pessoa que considera as Disciplinas como leis, sempre transformará o
silêncio em algo absurdo: “Não falarei durante os próximos quarenta dias!”
Esta é sempre uma grave tentação para o verdadeiro discípulo que deseja
viver em silêncio e solitude. Thomas de Kempis escreveu: “É mais fácil estar
totalmente em silêncio do que falar com moderação.” O sábio pregador de
Eclesiastes disse que há “tempo de estar calado, e tempo de falar” (Eclesiastes
3:7). O controle é a chave.
As analogias que Tiago faz do leme e dos freios, sugerem que a língua
tanto guia como controla. Ela guia nosso curso de muitas formas. Se
contamos uma mentira, somos levados a contar mais mentiras para encobrir a
primeira. Logo somos forçados a comportar-nos de modo a darmos crédito à
mentira. Não admira que Tiago tenha dito: “a língua é fogo” (Tiago 3:6).
A pessoa disciplinada é a que pode fazer o que precisa ser feito quando
precisa ser feito. O que caracteriza uma equipe de basquetebol num
campeonato é ser ela capaz de marcar pontos quando necessários. Muitos de
nós podemos encestar a bola, mas não o fazemos quando necessário. Do
mesmo modo, uma pessoa que está sob Disciplina do silêncio é a que pode
dizer o que necessita ser dito no momento em que precisa ser dito. “Como
maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo”
(Provérbios 25:11). Se ficamos calados quando deveríamos falar, não estamos
vivendo na Disciplina do silêncio. Se falamos quando deveríamos estar
calados, novamente erramos o alvo.
O Sacrifício de Tolos
Lemos em Eclesiastes: “Chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer
sacrifícios de tolos” (Eclesiastes 5:1). O sacrifício de tolos é conversa religiosa
de iniciativa humana. O pregador continua: “Não te precipites com a tua boca,
nem o teu coração apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus;
porque Deus está nos céus, e tu na terra; portanto sejam poucas as tuas
palavras” (Eclesiastes 5:2).
Quando Jesus tomou a Pedro, Tiago e João e os levou ao monte e foi
transfigurado diante deles, Moisés e Elias apareceram e entabularam conversa
com Jesus. O texto grego prossegue: “E respondendo, Pedro disse-lhes... se
queres farei aqui três tendas...” (Mateus 7:14). Isto é tão expressivo. Não havia
alguém falando com Pedro. Ele estava oferecendo o sacrifício de tolos.
O Diário de John Woolman contém um comovente e terno relato da
aprendizagem do controle da língua. Suas palavras são tão expressivas que é
melhor citá-las aqui:
“Eu ia a reuniões num terrível estado mental, e me esforçava por estar
interiormente familiarizado com a linguagem do verdadeiro Pastor. Um dia,
encontrando-me sob forte operação do espírito, levantei-me e disse algumas
palavras numa reunião; mas não me mantendo junto à abertura Divina, falei
mais do que era exigido de mim. Percebendo logo meu erro, fiquei com a
mente aflita algumas semanas, sem nenhuma luz ou consolo, ao ponto
mesmo de não encontrar satisfação em nada. Lembrava-me de Deus, e ficava
perturbado, e no auge de minha tristeza ele teve piedade de mim e enviou o
Consolador. Então senti o perdão de minha ofensa; minha mente ficou calma
e tranqüila, e senti-me verdadeiramente grato ao meu gracioso Redentor por
suas misericórdias. Cerca de seis meses após este incidente, sentindo aberta a
fonte de amor Divino, e interesse por falar, proferi umas poucas palavras em
uma reunião, nas quais encontrei paz. Sendo assim humilhado e disciplinado
sob a cruz, minha compreensão tornou-se mais fortalecida para distinguir o
espírito puro que interiormente se move sobre o coração, que me ensinou a
esperar em silêncio, às vezes durante muitas semanas, até que senti aquele
fluxo que prepara a criatura para posicionar-se como uma trombeta, através
da qual o Senhor fala ao seu rebanho.”
Que descrição do processo de aprendizado pelo qual se passa na
Disciplina do silêncio! De particular significado foi o aumento de sua
capacidade, proveniente desta experiência, de “distinguir o espírito puro que
interiormente se move sobre o coração”.
Um motivo de quase não agüentarmos permanecer em silêncio é que
ele nos faz sentir tão desamparados. Estamos demais acostumados a
depender das palavras para manobrar e controlar os outros. Se estivermos em
silêncio, quem assumirá o controle? Deus fará isto; mas nunca deixaremos
que ele assuma o controle enquanto não confiarmos nele. O silêncio está
intimamente relacionado com a confiança.
A língua é nossa mais poderosa arma de manipulação. Uma frenética
torrente de palavras flui de nós porque estamos num constante processo de
ajustar nossa imagem pública. Tememos muito o que pensamos que as outras
pessoas vêem em nós, de modo que falamos a fim de corrigir o entendimento
delas. Se fiz alguma coisa errada e descubro que você sabe disso, serei muito
tentado a ajudá-lo a entender minha ação! O silêncio é uma das mais
profundas Disciplinas do Espírito simplesmente porque ela põe um paradeiro
nisso.
Um dos frutos do silêncio é a liberdade de deixar que nossa justificação
fique inteiramente com Deus. Não temos necessidade de corrigir os outros.
Há uma história de um monge medieval que estava sendo injustamente
acusado de certos erros. Certo dia ele olhava pela janela e viu lá fora um
cachorro a morder e rasgar um tapete que havia sido pendurado para secar.
Enquanto ele observava, o Senhor falou-lhe, dizendo: “É isso que estou
fazendo com a sua reputação. Mas se você confiar em mim, não terá
necessidade de preocupar-se com as opiniões dos outros.” Talvez, mais do
que qualquer outra coisa, o silêncio leva-nos a crer que Deus pode justificar e
endireitar tudo.
George Fox falava com freqüência do “espírito de escravidão”
(Romanos 8:14), e de como o mundo jaz nesse espírito. Freqüentemente ele
identificava o espírito de escravidão com o espírito de subserviência a outros
seres humanos. Em seu Diário ele falava de “ajudar as pessoas a escapar dos
homens”, afastá-las do espírito de escravidão à lei mediante outros seres
humanos. O silêncio é o principal meio de conduzir-nos a esse livramento.
A língua é um termômetro: ela diz qual é nossa temperatura espiritual.
Ela é, também, um termostato; controla nossa temperatura espiritual. O
controle da língua pode significar tudo. Temos nós sido libertados de modo
que podemos controlar nossa língua? Bonhoeffer escreveu: “O silêncio
verdadeiro, a verdadeira tranqüilidade, o controle real da língua manifesta-se
somente como a sóbria conseqüência da chama espiritual.” Relata-se que
Dominic fez uma visita a Francisco de Assis e durante todo o encontro
nenhum deles proferiu uma única palavra. Somente quando tivermos
aprendido a estar verdadeiramente calados é que estaremos capacitados para
proferir a palavra necessária no momento oportuno.
Catherine de Haeck Doherty escreveu: “Tudo em mim é silente... estou
imersa no silêncio de Deus.” É na solitude que chegamos a experimentar o
“silêncio de Deus” e assim receber o silêncio interior que é o anseio de nosso
coração.
A Noite Escura da Alma
Levar a sério a Disciplina da solitude significará que em algum ponto ou
pontos no curso da peregrinação entraremos no que S. João da Cruz
vividamente descreveu como “a noite escura da alma”. A “noite escura” para
a qual ele nos chama não é algo mau ou destrutivo. Pelo contrário, é uma
experiência a ser recebida com agrado do mesmo modo que uma pessoa
enferma receberia com agrado uma cirurgia que promete saúde e bem-estar. A
finalidade da escuridão não é castigar-nos ou afligir-nos. É libertar-nos.
Que significa entrar na noite escura da alma? Pode ser um senso de
aridez, de depressão, até mesmo o de sentir-se perdido. Ela nos despoja da
dependência excessiva à vida emocional. A noção, tantas vezes ouvida hoje,
de que tais experiências podem ser evitadas e que devíamos viver em paz e
conforto, alegria e celebração só revela o fato de que muito da experiência
contemporânea não passa de sentimentalismo superficial. A noite escura é um
dos meios de Deus levar-nos à tranqüilidade, à calma, de modo que ele possa
operar a transformação interior da alma.
Como se expressa essa noite escura na vida diária? Quando se busca
seriamente a solitude, geralmente há um fluxo de êxito inicial e então um
desânimo inevitável - e com ele um desejo de abandonar por completo a
busca. Os sentimentos vão-se embora e fica o senso de que não alcançamos
Deus. S. João da Cruz descreveu-o deste modo:
“... a escuridão da alma mencionada aqui... põe os
apetites sensórios e espirituais a dormir, amortece-os
e os priva da capacidade de encontrar prazer em
qualquer coisa. Ata a imaginação e impede-a de fazer
qualquer bom trabalho discursivo. Ela faz cessar a
memória, faz o intelecto tornar-se obscuro e incapaz
de entender qualquer coisa, e daí leva a vontade
também a tornar-se árida e contrita, e todas as
faculdades vazias e inúteis. E acima de tudo isso,
paira uma densa e cansativa nuvem que aflige a alma
e a conserva afastada de Deus.”
Em seu poema “Canciones del Alma”, S. João da Cruz usou duas vezes
a frase:
“Estando minha casa agora totalmente calada.” Nessa expressiva linha
ele indicava a importância de silenciar todos os sentidos físicos, emocionais,
psicológicos, e mesmo espirituais. Toda distração do corpo, mente e espírito
deve ser posta numa espécie de animação suspensa antes que possa ocorrer
esta profunda obra de Deus na alma. O anestésico deve fazer efeito antes que
se realize a cirurgia. Virá o silêncio, a paz, a tranqüilidade interiores. Durante
esse tempo de escuridão, a leitura da Bíblia, os sermões, o debate intelectual -
tudo falhará em comover ou emocionar.
Quando o amoroso Deus nos atrai para uma escura noite da alma,
muitas vezes somos tentados a culpar todo o mundo e todas as coisas por
nosso entorpecimento interior e procuramos livrar-nos dela. O pregador é
maçante. O cântico de hinos é tão fraco. Talvez comecemos a andar por aí à
procura de outra igreja ou de uma experiência que nos dê “arrepios
espirituais”. Esse é um grave engano.
Reconheça a noite escura pelo que ela é. Seja agradecido porque Deus o
está amorosamente desviando de toda distração, de modo que você possa vê-
lo. Em vez de ridicularizar e brigar, acalme-se e espere.
Não estou aqui a falar de entorpecimento espiritual que vem como
resultado de pecado ou desobediência. Falo da pessoa que busca a Deus com
afã, e não abriga pecado conhecido em seu coração. “Quem há entre vós que
tema ao Senhor, e ouça a voz do seu Servo que andou em trevas sem
nenhuma luz, e ainda assim confiou em o nome do Senhor e se firmou sobre
o seu Deus?” (Isaías 50:10)
O ponto da passagem bíblica é que é perfeitamente possível temer,
obedecer, confiar e firmar-se no Senhor e ainda “andar em trevas sem
nenhuma luz”. A pessoa vive em obediência mas entrou numa noite escura da
alma.
S. João da Cruz disse que durante esta experiência há uma graciosa
proteção contra vícios e um maravilhoso progresso nas coisas do reino de
Deus.
Se uma pessoa na hora dessas trevas observar bem de perto, verá com
clareza quão pouco os apetites e as faculdades se distraem com coisas inúteis
e prejudiciais; e como ela está segura de evitar vanglória, orgulho e presunção,
alegria vazia e falsa, e muitos outros males. Pelo andar em escuridão a alma
não somente evita extraviar-se mas avança rapidamente, porque assim ela
adquire virtudes.
Que deveríamos fazer durante essa época de aflição interior? Primeiro,
não leve em consideração o conselho de amigos bem-intencionados de livrar-
se da situação. Eles não entendem o que está acontecendo. Nossa época é tão
ignorante destas coisas que não lhe recomendo conversar sobre esses
assuntos. Acima de tudo, não tente explicar nem justificar por que você
parece estar “aborrecido”.
Deus é seu justificador; entregue seu caso a ele. Se você pode,
realmente, retirar-se para um “lugar deserto” durante algum tempo, faça-o. Se
não, cumpra suas tarefas diárias. Mas, esteja no “deserto” ou em casa,
mantenha no coração um profundo, interior e atencioso silêncio - e haja
silêncio até que a obra da solitude se complete.
Talvez S. João da Cruz tenha estado a conduzir-nos a águas mais
profundas do que cuidássemos ir. Por certo ele não está falando de um reino
que muitos de nós vemos apenas “como em espelho, obscuramente”. Não
obstante, não temos necessidade de censurar-nos por nossa timidez de escalar
esses picos nevados da alma. Esses assuntos são mais bem tratados com
cautela. Mas talvez ele tenha provocado dentro de nós uma atração por
experiências mais elevadas, mais profundas, não importa quão leve o puxão.
É como abrir levemente a porta de nossa vida a este reino. Isto é tudo o que
Deus pede, e tudo de que ele necessita.
Para concluir nossa viagem na noite escura da alma, ponderemos estas
palavras poderosas de nosso mentor espiritual:
“Oh, então, alma espiritual, quando vires teus apetites
obscurecidos, tuas inclinações secas e contritas, tuas
faculdades incapacitadas para qualquer exercício
interior, não te aflijas; pensa nisto como uma graça,
visto que Deus te está liberando de ti mesma e tirando
de ti a tua própria atividade.
Conquanto tuas ações possam ter alcançado bom
êxito, não trabalhaste tão completa, perfeita, e
seguramente - devendo à impureza e inabilidade de
tais ações - como fazes agora que Deus te toma pela
mão e te guia na escuridão, como se fosses cega, ao
longo de um caminho e para um lugar que não
conheces. Nunca terias tido êxito em alcançar este
lugar, não importa quão bons sejam teus olhos e teus
pés.”
Passos para a Solitude
As Disciplinas Espirituais são coisas que fazemos. Nunca devemos
perder de vista esse fato. Podemos falar piedosamente acerca da “solitude do
coração”, mas se isto, de certo modo, não abrir caminho para nossa
experiência, então erramos o alvo das Disciplinas. Estamos lidando com
ações, e não apenas com estados mentais. Não é suficiente dizer: “Bem, muito
certamente estou na posse da solitude e silêncio interiores; não há nada que
eu necessite fazer.” Todos quantos chegaram aos silêncios vivos fizeram
determinadas coisas, ordenaram suas vidas de uma forma especial, de modo
que recebessem a “paz de Deus, que excede todo o entendimento”. Se
desejamos ter êxito, devemos ir além do teorético para as situações da vida.
Quais são alguns passos para a solitude? A primeira coisa que podemos
fazer é tirar vantagem das “pequenas solicitudes” que enchem nosso dia.
Consideremos a solitude daqueles primeiros momentos matutinos na cama,
antes que a família desperte. Pense na solitude de uma xícara de café pela
manhã, antes de começar o trabalho do dia. Existe a solitude de pára-choque
de um carro junto ao pára-choque de outro durante a correria do tráfego na
hora de mais movimento.
Pode haver poucos momentos de descanso e refrigério quando
dobramos uma esquina e vemos uma flor ou uma árvore. Em vez da oração
audível antes de uma refeição, considere convidar a todos para reunir-se em
uns poucos momentos de silêncio.
De quando em quando, dirigindo um carro lotado de crianças e adultos
conversadores, eu exclamava: “Vamos brincar de fazer silêncio e ver se
ficamos absolutamente calados até chegarmos ao aeroporto” (cerca de cinco
minutos adiante). Funcionava. Encontre nova alegria e significado no
pequeno trecho que vai do metrô ou do ponto de ônibus até à sua casa. Saia
um pouquinho antes de ir deitar-se, e prove da noite silenciosa.
Muitas vezes perdemos esses pequeninos lapsos de tempo. Que pena!
Eles podem e deveriam ser redimidos. São momentos para silêncio interior,
para reorientar nossas vidas como o ponteiro de uma bússola. São pequenos
momentos que nos ajudam a estar genuinamente presentes onde estamos.
Que mais podemos fazer? Podemos encontrar ou criar um “lugar
tranqüilo” para silêncio e solitude. Constantemente estão sendo construídas
novas casas. Por que não insistir em que um pequeno santuário interior seja
incluído nas plantas, um pequeno lugar onde um membro da família possa
estar a sós e em silêncio? Que é que nos impede? Construímos esmeradas
salas de estar, e achamos que vale a pena a despesa. Se você já possui uma
casa, considere murar uma pequena seção da garagem ou pátio. Se mora num
apartamento, seja criativo e ache outros meios de permitir-se a solitude. Sei de
uma família que tem uma cadeira especial; sempre que uma pessoa se assenta
nela, é como estar dizendo:
“Por favor, não me amole; quero estar a sós.”
Encontre lugares fora de sua casa: um local num parque, o santuário de
uma igreja (dessas que mantêm abertas suas portas), mesmo um depósito em
algum lugar. Um centro de retiro perto de nós construiu uma bonita cabana
para uma pessoa, especificamente para meditação particular e solitude.
Chama-se “Lugar Tranqüilo”. As igrejas investem somas enormes de dinheiro
em edifícios. Que tal construir um lugar onde alguém possa ir para estar a sós
durante alguns dias? Catherine de Haeck Doherty foi a pioneira no
desenvolvimento de Poustinias (palavra russa que significa “deserto”) na
América do Norte. São lugares destinados especificamente para solitude e
silêncio.
No capítulo sobre estudo, consideramos a importância de observar a
nós mesmos para ver com que freqüência nossa conversa é uma tentativa
frenética de explicar e justificar nossas ações. Tendo observado isto em você
mesmo, experimente praticar ações sem nenhuma palavra de explicação. Note
seu senso de temor de que as pessoas entendam mal você por que você fez o
que fez. Tente deixar que Deus seja seu justificador.
Discipline-se, de modo que as suas palavras sejam poucas mas digam
muito.
Torne-se conhecido como uma pessoa que, quando fala, sempre tem
algo a dizer.
Mantenha clara sua linguagem. Faça o que diz que fará. “Melhor é que
não votes do que votes e não cumpras” (Eclesiastes 5:5). Quando a língua se
encontra sob a nossa autoridade, as palavras de Bonhoeffer se tornam
verdadeiras com relação a nós: “Muita coisa desnecessária fica por dizer. Mas
a coisa essencial e útil pode ser dita em poucas palavras.”
Dê outro passo. Tente viver um dia inteiro sem proferir palavra alguma.
Faça-o, não como uma lei, mas como um experimento. Note seus
sentimentos de desamparo e excessiva dependência das palavras para
comunicar-se. Procure encontrar novos meios de relacionar-se com outros,
que não dependam de palavras. Aproveite, saboreie o dia. Aprenda com ele.
Quatro vezes por ano retire-se durante três a quatro horas com a
finalidade de reorientar os alvos de sua vida. Isto pode ser facilmente feito em
uma noite.
Fique até tarde no escritório, faça-o em casa, ou procure um canto
sossegado em uma biblioteca pública. Reavalie suas metas e objetivos. Que é
que você deseja ver realizado daqui a um ano? Daqui a dez anos? Nossa
tendência é superestimar em alto grau o que podemos realizar em dez.
Estabeleça metas realistas, mas esteja disposto a sonhar, esforçar-se. No
sossego dessas breves horas, ouça o trovão do silêncio de Deus. Mantenha
um registro diário do que lhe acontece.
A reorientação e fixação de metas não precisam ser frias e calculadas,
como alguns imaginam, feitas com uma mentalidade de análise de mercado.
Pode ser que, ao entrar num silêncio atento, você receba a deliciosa impressão
de que este ano deseja aprender a tecer ou trabalhar com cerâmica. Essa lhe
parece uma meta muito terrestre, antiespiritual? Deus está intencionalmente
interessado em tais questões. Está você? Talvez você deseje aprender
(experimentar) mais acerca dos dons espirituais de milagres, de cura e de
língua. Ou você pode fazer, como um amigo que sei que está gastando longos
períodos de tempo experimentando o Dom de socorros, aprendendo a ser
servo. Talvez no próximo ano você gostaria de ler todas as obras de C. S.
Lewis ou de D. Elton Trueblood. A escolha desses alvos soa-lhe como jogo
de manipulação de um vendedor? Claro que não. Não se trata de meramente
estabelecer uma direção para sua vida. Você está indo para algum lugar, por
isso é muito melhor ter uma direção fixada pela comunhão com o Centro
divino.
Na Disciplina do estudo examinamos a idéia de retiros de estudo de
dois ou três dias. Tais experiências quando combinadas com uma imersão
interior no silêncio de Deus, são enaltecidas. À semelhança de Jesus, devemos
afastar-nos das pessoas de modo que possamos estar verdadeiramente
presentes quando estivermos com elas. Faça um retiro uma vez por ano, sem
outro propósito em mente que não a solitude.
O fruto da solitude é aumento de sensibilidade e compaixão por outros.
Surge uma nova liberdade para estar com as pessoas. Há uma nova atenção
para com suas mágoas. Thomas Merton observou:
“É na profunda solitude que encontro afabilidade com a qual posso
verdadeiramente amar a meus irmãos. Quanto mais solitário estou, tanto mais
afeição sinto por eles. É pura afeição e cheia de reverência pela solitude dos
outros. Solitude e silêncio ensinam-me a amar meus irmãos pelo que eles são,
e não pelo que dizem.”
Não sente você um toque, um anseio de aprofundar-se no silêncio e
solitude de Deus? Não deseja uma exposição mais profunda, mais completa à
Presença de Deus?
A Disciplina da solitude é que abrirá a porta. Você está convidado a vir
e “ouvir a voz de Deus em seu silêncio todo-abrangente, maravilhoso, terrível,
suave e amoroso”.
8. A Disciplina da Submissão
“O cristão é o mais livre de todos os senhores, e não
está sujeito a ninguém; o cristão é o mais submisso
de todos os servos, e está sujeito a todo mundo.” -
Martinho Lutero
De todas as Disciplinas Espirituais, nenhuma tem sofrido mais do que a
Disciplina da submissão. De certo modo, a espécie humana tem uma
habilidade extraordinária para tomar o melhor ensino e transformá-lo nos
piores fins. Nada pode escravizar tanto as pessoas como na religião tem feito
mais para manipular e destruir as pessoas do que um ensino deficiente sobre a
submissão. Portanto, devemos entrar nesta Disciplina com grande cuidado e
discernimento a fim de garantir que somos ministros da vida e não da morte.